Universidade Federal do Rio de Janeiro

A idéia de Formação em Caio Prado
Júnior

Letícia Villela Dacol

2004

A IDÉIA DE FORMAÇÃO EM CAIO PRADO JÚNIOR

Letícia Villela Dacol

Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-graduação em Sociologia e
Antropologia – PPGSA, Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, como parte dos
requisitos necessários à obtenção do título de
Mestre em Sociologia (com concentração
em Antropologia).

Orientador: Gláucia Villas Boas
Co-orientador: André Pereira Botelho

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2004

A IDÉIA DE FORMAÇÃO EM CAIO PRADO JÚNIOR

Letícia Villela Dacol

Orientador: Gláucia Villas Boas
Co-orientador: André Pereira Botelho

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em
Sociologia e Antropologia, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração
em Antropologia).
Aprovada por:

_______________________________
Presidente, Profa. Dra. Gláucia Villas Bôas
____________________________
Prof. Dr. André Pereira Botelho
____________________________
Prof. Dr. Robert Wegner

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2004

A idéia de formação em Caio prado Júnior / Letícia Villela Dacol. Rio de Janeiro: UFRJ. PPGSA. 2004. I.Dacol.. Gláucia Villas Boas. 29. III. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais 2. Gláucia. Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia.7cm. Letícia Villela. Universidade Federa do Rio de Janeiro 1. Dissertação. vi. A idéia de Formação em Caio Prado Júnior. . Villas Bôas. IFCS. IFCS. 4 p. 105 f. Referências bibliográficas. II. UFRJ. 2004.

IFCS. Em ambos os casos. Caio Prado Júnior. analisa-se nesta dissertação a idéia de formação em Formação do Brasil contemporâneo (1942). . história. A hipótese é que esta categoria é central para a compreensão da obra do historiador paulista. o autor logrou realizar uma interpretação do Brasil tanto no plano da estrutura da sociedade. marxismo. procura-se mostrar que a partir da idéia de formação. como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia). Formação. quanto no plano da sociabilidade e das relações sociais cotidianas da Colônia e do período de transição desta para a nação. da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Assim. Partindo de pesquisa bibliográfica sobre os trabalhos recentes dedicados à obra de Caio Prado Júnior (1907-1990). particularmente no que tange à sua “organicidade” e/ou “inorganicidade” e ainda sua específica situação de ter sua força motriz se constituído externamente . Palavras-chave: pensamento social brasileiro. o sentido da idéia de formação permite a Caio Prado Júnior problematizar e fomentar o debate sobre os impasses e possibilidades da constituição da sociedade nacional no Brasil.uma vez que a Colônia obteve sentido e unicidade a partir de determinada relação com a Metrópole.A idéia de Formação em Caio Prado Júnior Letícia Villela Dacol Orientador: Gláucia Villas Boas Co-orientador: André Pereira Botelho Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia.

. Working on bibliografic research about recently works dedicate to Caio Prado Júnior’s production (1907-1990). The hypothese is that this categoria is fundamental to compreend the work of this historian. Therefore. we pursuit to show that with formation categoria the autor had pretend to realize an interpretation of Brazil in so far in the plain of the society strucure sociability and quotidian social relations during the period of transition from Colony to the Republic nation. como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia). the sens of formation idea allows Caio Prado Júnior to problematize and foment the discussion about impasses and possibilities of the constitution of the brazilian society as a nation. da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Caio Prado Júnior. we analize in this dissertation the idea of “formation” in Formação do Brasil Contemporâneo (1942). marxism. Formation. Both on either cases. history. IFCS. particularly in the case of its “organicity” or “inorganicity” had been especifically constituted externally – once the Colony had its sens and unicity been constituted on its relations with the Metropolis.A idéia de Formação em Caio Prado Júnior Letícia Villela Dacol Orientador: Gláucia Villas Boas Co-orientador: André Pereira Botelho Abstract da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia. Key-words: brazilian social thought.

Ao meu irmão Flávio pelos pitos nas minhas horas de fraqueza. À CNPQ pela bolsa de mestrado a mim concedida. Ao meu amigo Roberto pelas cobranças epistemológicas nas mesas de bar. meu primeiro interlocutor. e pela inspiração na escolha deste tema. ainda que de forma indireta. Marcelo Lion. sendo. Ao meu pai pelas críticas quanto à viabilidade destes caminhos. ao professor André Botelho e à professora Gláucia Villas Bôas. Nelsinho. aos meus amigos Vinícius. ao meu lado.Agradeço à minha mãe pelo exemplo de fibra e coragem para buscar novos caminhos. principalmente por ter sempre estado. . incentivando-me a continuar. à minha amiga Ana Lima. Charles Villela. Ao meu marido João pelo companheirismo. mesmo na contramão. Aos meus alunos de música. pela paciência.

À memória da professora Ana Maria Galano .

sobretudo monográficos. procurando repensar os “clássicos” do pensamento social brasileiro . 1999.INTRODUÇÃO Em Seqüências Brasileiras – ensaios (1999). a despeito da relativa demora da ocorrência do debate em torno da sua . ao mesmo tempo. discutindo o livro Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido. sem ter obtido. como foi o caso da Formação da literatura brasileira. Assim. a idéia central de Antônio Cândido mal começou a ser discutida” (Schwarz. 1999: 46). por exemplo -. justamente o surgimento de trabalhos. tornam propício o resgate também da obra de Caio Prado Júnior. Está em curso. ficando sem o debate que lhes devia corresponder. de 1942. no caso de Antonio Candido. se por um lado o livro do historiador paulista não teve a aceitação imediata que parece ter tido A Formação da Literatura Brasileira. na idéia de formação” (Idem. tomamos o potencial educativo dos seus argumentos para avaliarmos o caso específico de Caio Prado Júnior (1907-1990) e da leitura de seu “clássico” Formação do Brasil Contemporâneo. às vezes pagam por isso. o debate que merecia. Concordando com essa sugestão de Roberto Schwarz. Passados quarenta anos. podemos dizer que. que também afirma que. publicada em 1959. Assim. Roberto Schwarz sugere que os “livros que se tornam clássicos de imediato. que. neste momento. o caso se aplica também a Caio Prado Júnior no que se refere a seu livro ter se tornado um “clássico”. no que diz respeito a este último autor.como é o caso do debate em torno de autores como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. “a originalidade maior do trabalho está na concepção geral. 12).

como possibilitou. Pretende operar uma “desnaturalização” da leitura de Formação do Brasil Contemporâneo e elege como fio condutor para tanto destacar a idéia de formação. neste percurso. as bases não só institucionais e portanto. mesmo no âmbito daquele processo de reavaliação dos autores “clássicos” do pensamento social brasileiro.obra. tanto permitiu uma interpretação dentro de um contexto mais amplo. trazida também pelo tempo e adensamento do conhecimento acumulado nas ciências sociais brasileiras. como articulada no contexto da escrita de Formação do Brasil Contemporâneo.maior ou menor em cada caso – do envolvimento emotivo que tais obras eram capazes de suscitar em outros tempos. contribuir para um debate maduro capaz de repensar aquelas obras a partir da perspectiva dos problemas atuais do pensamento social e da sociedade brasileira. da estrutura da Colônia e do sentido da colonização. a sociedade brasileira. “oficiais” da nação que tomaria corpo (a partir do início do século dezenove) como moldou formas de sociabilidade e conformou práticas e condutas que a nível da vida cotidiana resultou na formação de uma “identidade” ou “cultura” que resultará em uma sociedade determinada. por assim dizer. macrosociológico. assim. O presente trabalho pretende se inserir dentro desta corrente de reavaliações do pensamento social brasileiro. A hipótese que quero explorar é a de que a idéia de formação. de uma leitura mais isenta . ao autor se debruçar sobre as relações sociais específicas que constituíram. Podendo. podemos destacar como positiva a possibilidade. . entendendo esta categoria como uma chave analítica central para o desenvolvimento da narrativa historiográfica de Caio Prado Júnior. por via inversa.

encontraremos algo análogo. Deve-se dizer. alinhou-se.haja visto a importância dada pelo autor ao trabalho de campo e à etnografia dos viajantes franceses em expedição no Brasil no século XIX. principalmente pelas ciências sociais. aliás. que um tal trabalho tem por motivação a idéia de que. poderíamos dizer. A idéia de formação. portanto. que buscaram acompanhar a formação do país em outros níveis. os congêneres mais importantes e conhecidos eram os livros de Caio Prado Jr. a filosofia e ainda. portanto. Para Caio Prado Jr. articular com segurança determinada metodologia.1 1 Como sugere Roberto Schwarz. Sérgio Buarque de Holanda e Celso furtado” (Idem. Este momento alto estaria. Como sugere Schwarz: “Quando o livro saiu. é central na experiência intelectual brasileira.. a geografia. ou esteve. um estudo analítico de Formação do Brasil Contemporâneo para nós é pertinente pela capacidade de Caio Prado Júnior. o autor filia o livro de Antonio Candido ao de Caio Prado Júnior. valendo lembrar que também a idéia de “momentos decisivos“ que figura no subtítulo de A Formação da Literatura Brasileira é devedora da obra do historiador paulista. nesta obra. Se passarmos a Sérgio Buarque de Holanda. a “comparação entre estas obras ainda está engatinhando.. como sugere Roberto Schwarz. 1999: 54). por sua capacidade de trazer para a historiografia brasileira elementos desenvolvidos pelas ciências humanas. mais que um interesse puramente histórico ou ainda de destacar a possível genialidade de um autor.objeto central do autor entendida nos termos da unidade nos termos de uma nação pensada e elucidada a vista de suas contradições e sentido. O país será moderno e . a formação brasileira se completaria no momento em que fosse superada a nossa herança de inorganicidade social – o oposto da interligação com objetivos internos – trazida da Colônia. e. no futuro. A esse respeito. à espera de trabalhos de síntese. No campo progressista. Muito sumariamente quero sugerir alguns contrastes. entre várias obras de perspectiva paralela e comparável. pela antropologia contemporânea .

resultou mais sóbria e realista que a dos outros autores de que falamos. Formação do Brasil contemporâneo (1942). quando então teríamos um país democrático. rural e autoritária. . Ou seja. na dependência das decisões do presente. Entendendo por formação a busca de “linhas evolutivas mais ou menos contínuas” para a vida social como tema central no pensamento social brasileiro. a literária – que se completaram de modo muitas vezes até admirável. Celso Furtado. entre as quais poderíamos destacar: Evolução do Povo Brasileiro (1923). 1997: 11).] Com a distância no tempo. de uma noção “a um tempo descritiva e normativa. pode-se também dizer quer essa visão do acontecido. em medidas e sentidos distintos. principalmente as do comando econômico.Formação do Brasil no Atlântico Sul. Raízes do Brasil (1936). além do mais que o horizonte descortinado pela idéia de formação corresse na direção do ideal europeu de civilização relativamente integrada – ponto de fuga de todo espírito brasileiro bem formado” (Idem. sugere Arantes (Ibidem). a nação continua incompleta [. para o autor. compreende-se. em obras capitais do pensamento social brasileiro. enquanto as decisões básicas que nos dizem respeito forem tomadas no estrangeiro.. Casa-grande & Senzala (1933). ela constitui “verdadeira obsessão nacional” no Brasil (Arantes. sem que por isso o conjunto esteja em visas de se integrar. por seu turno. 1999: 54-5). Os donos do poder. importante enfatizar. Evolução política do Brasil (1933). talvez porque a nação seja algo menos coeso do que a palavra faz imaginar” (Schwarz. É como se nos dissesse que de fato ocorreu um processo formativo no Brasil e que houve esferas – no caso. apresentada por Antonio Candido. Arantes observa que mais do que “uma experiência intelectual básica”. 1997: 11-2). mais recentemente. Formação da Literatura Brasileira (1959). muitas vezes figurando nos próprios títulos. O esforço de formação é menos salvador do que parecia. não passarem para dentro do país. Formação econômica do Brasil (1959) e. Como aliás.A idéia de formação foi discutida em registo semelhante também por Paulo Arantes. dirá que a nação não se completa enquanto as alavancas do comando. Também aqui o ponto de chegada está mais adiante. bem indica sua recorrência. estará formado quando superar a sua herança portuguesa. Trato dos Viventes . Formação do patronato político brasileiro (1958). de Luís Felipe de Alencastro entre outras. Como se trata..

15). A idéia de formação. refere-se. para Bastos aquela idéia estaria no centro das inovações que Caio Prado Júnior imprime na historiografia brasileira e constitui peça chave para a compreensão do seu trabalho. buscando-se superar a situação individual do ensaísta (Bastos. se apresenta sob o gênero ensaio e tem por objetivo claro fornecer.Embora sejam muitas as referências à idéia de formação de Caio Prado Júnior na literatura pertinente. ele define o significado e o tipo de obra que Caio Prado Júnior desenvolveu. nesses ensaios explicita-se um esforço para dotar de sentido o mundo estudado. ou melhor. constitui categoria central da obra de Caio Prado Júnior. 2000: p. elas em geral mantém um certo caráter genérico. às análises que visam elaborar uma síntese sobre as sociedades nacionais. Bastos sugere que esta. inserindo-se em certa tradição hispano-americana. Articulando a idéia de formação à forma ensaio. em amplo sentido. estando assim umbilicadamente ligadas à idéia de formação e propondo-se a indagar sobre o sentido dessas formações. a questão é posta em primeiro plano. . Em outros termos. Para a autora: A palavra ensaio. Discutindo a forma narrativa de Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior. no prefácio a um desses trabalhos. Num desses trabalhos mais recentes analisados nesta dissertação. Sentimento do Brasil: Caio Prado Júnior – continuidades e mudanças no desenvolvimento da sociedade brasileira. uma interpretação a nível nacional. longe de indicar estudos que fogem ao rigor científico e se desenvolvem apenas segundo impressões fugidias. a despeito do sentido pejorativo que o termo ensaio pode assumir em certos momentos e contextos. como sugere Elide Rugai Bastos no prefácio do livro de Rubem Murilo Leão Rego. Em suas palavras. mesmo naqueles trabalhos dedicados exclusivamente à análise da obra do historiador paulista. antes.

. Assim procuraremos caracterizar as principais questões tratadas nas reavaliações recentes da obra de Caio Prado Júnior e. na medida do possível. no primeiro capítulo apresenta-se os resultados da pesquisa bibliográfica sobre Caio Prado Júnior. povoamento. Assim. bem como nos debruçaremos sobre a estrutura do livro. bem como alguns dos diferentes significados e sentidos que ela pode assumir no pensamento social brasileiro. cumpre advertir que no âmbito desta dissertação circunscrevemos a análise ao texto de Caio Prado Júnior. No segundo capítulo pretendemos traçar os principais aspectos da trajetória de Caio Prado Júnior tendo em vista sua vida intelectual e política. no contexto de seu livro Formação do Brasil Contemporâneo. Este conta ainda com uma segunda parte na qual indicaremos elementos centrais do horizonte ou contexto intelectual de Formação do Brasil Contemporâneo. vida material. nosso objetivo é evidenciar algumas possibilidades abertas pela idéia de formação do historiador paulista.Reconhecendo a amplitude da problemática identificada em algumas das possibilidades interpretativas da idéia de formação. situando. dar ênfase à categoria formação. tratar do tema. na atualidade. em particular. vida social. nos moldes em que é dividido. Assim procedendo. Devemos dizer que ao operarmos uma seleção de textos relevantes não pretendemos dar conta da totalidade dos trabalhos que se debruçaram sobre o tema mais privilegiar a escolha de obras mais recentes que procuraram. estas reavaliações frente a análises contemporâneas sobre o pensamento social brasileiro.

Ou melhor. mas como um método vivo. Nessa aproximação. não são freqüentes em Caio Prado. pelo que consideramos. postura de quem é ainda prisioneiro de uma atitude mental que tem suas raízes nos tempos da escolástica” (Ricupero. prossegue Ricupero. como nota Novais. 2000: 230). adequadamente a nosso ver. Assim. mostrando que ele não sente necessidade de recorrer ao argumento da autoridade.No terceiro capítulo analisaremos a idéia de formação visando alcançar os objetivos já anteriormente explicitados. Pois. 2 2 Sobre a relativa ausência de “provas textuais” da influência do marxismo sobre Caio Prado Júnior. dada inclusive a pouca freqüência de citações na obra de Caio Prado Júnior como um todo de autores marxistas. todavia. constitui objeto de controvérsias na literatura pertinente. Assim. precisamente por ter sabido reter do marxismo o que nele é mais importante: a abordagem” (Idem. Questão que aliás. “Carlos Nelson Coutinho pode mesmo ter razão ao dizer que Caio não devia conhecer muito marxismo. grande importância. tão comuns entre nossos autores esquerdistas. com o marxismo possivelmente limitado que conhecia. Neste ponto faremos um adendo ao texto acerca da concepção de história em Karl Marx. que o historiador paulista não encarou “o materialismo histórico como uma coleção de verdades universais. não se reivindica exatamente um caso de influência direta. a obra de Caio Prado Júnior deve muito a este autor e à tradição intelectual e política por ele inaugurada quanto à compreensão do presente histórico como resultado de um processo – até mesmo de um processo de formação. . porém. importa como indicação de que Caio Prado. Bernardo Ricupero sugere. as citações dos clássicos marxistas. o que nos obrigaria a uma pesquisa mais sistemática que foge ao âmbito desta dissertação. 2000: 229-30). Isto não tem. manifesta na ausência de citações do pensador alemão ou de seus “discípulos” na sua obra. foi capaz de fazer uma obra monumental.

CAPÍTULO 1 ASPECTOS DO DEBATE CONTEMPORÂNEO SOBRE CAIO PRADO JÚNIOR Neste capítulo pretendemos dar conta. e Leite. em abril de 2000). ainda que de maneira sucinta. particularmente em relação a Formação do Brasil Contemporâneo e. avaliar o lugar da idéia de formação. deve-se destacar Cavalcanti. destacaremos também o artigo “Uma ciência política em Caio Prado Jr. 1966. também. de Raimundo Santos (deste mesmo autor. e a Nacionalização do Marxismo no Brasil (2000) de Bernardo Ricupero. livro em homenagem ao historiador paulista reunindo os trabalhos apresentados na II Jornada de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista (UNESP) realizada entre 26 e 28 de 1988. 1967. objeto deste trabalho.?” publicado na revista Estudos: Sociedade e Agricultura. dos aspectos mais relevantes do debate contemporâneo acerca da obra de Caio Prado Júnior. alguns dos artigos de História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior (1989). . Costa. – Continuidades e mudanças desenvolvimento da sociedade brasileira (2000) de Rubem Murilo Leão Rego. Assim procuraremos caracterizar as principais questões tratadas nas reavaliações recentes da obra do historiador paulista. e Caio Prado Júnior na cultura política brasileira (2001).3 Para tanto destacamos dois momentos recentes diferentes de retomada da obra de Caio Prado Júnior como objeto de análise privilegiando a discussão dos seguintes trabalhos: num primeiro momento. nessas análises contemporâneas. 3 Dentre as análises da obra de Caio Prado Júnior que podem ser consideradas “pioneiras”. Num segundo momento. mas que não serão contempladas neste trabalho. 1976. Caio Prado Jr. já que nosso objetivo é realizar um balanço representativo das análises mais contemporâneas. Sentimento do Brasil: Caio Prado Jr.

pode-se dizer. nesse sentido. Carlos Nelson Coutinho sugere que a metodologia implícita nos trabalhos historiográficos de Caio Prado Júnior não consiste na tentativa de “aplicar” ao Brasil alguns esquemas marxistas abstratos. da trajetória intelectual e biográfica do historiador paulista. os trabalhos destacados no que estamos chamando de segundo momento de retomada da sua obra procuram. dissertação de mestrado e tese de doutorado. que enquanto os artigos reunidos em História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior (1989) exploram aspectos diversos da obra. 1. sendo ao menos os trabalhos de Ricupero e Leão Rego originalmente formulados e apresentados como. mas na tentativa de “historicizar os conceitos” do marxismo transpondo este para a realidade brasileira: o marxismo do historiador paulista seria um método de análise. Coutinho afirma. respectivamente. Nesse sentido. cada um a seu modo. que essa “recepção do marxismo como método e não como dogma abstrato é uma das principais razões dos acertos de interpretação contidos na obra de Caio Prado Júnior” (Coutinho. um fio condutor que lhe permite descobrir as conexões e o sentido dos fatos que constituem a gênese e a estrutura do Brasil contemporâneo.Ressalte-se o caráter monográfico desses últimos trabalhos. . apresentar uma visão mais integrada e sistemática daqueles aspectos. da trajetória política. 1989: 115). Sobre História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior Em seu artigo “Uma via não clássica para o capitalismo”.

Caio Prado tem sempre em vista a investigação do presente como história. O autor argumenta que “embora exista em sua obra uma certa ambigüidade a respeito da caracterização do ponto de partida – ou seja. destacando que Caio Prado “insiste em que nosso país não é e jamais foi feudal ou semifeudal e. não careceu e nem carece de uma revolução .Considera que “embora tenha consagrado a maior parte de sua obra historiográfica à análise de nosso passado. é inegável que o objetivo central da reflexão de Caio Prado Júnior – o ponto focal a partir do qual se articula o conjunto de sua ampla investigação histórica – é a compreensão do Brasil moderno” (Ibidem). numa “análise dialética da gênese e das perspectivas deste presente” (Ibidem). em sua interpretação destacam-se “ainda que só implicitamente”. “é indubitável que o historiador paulista não hesita em identificar como plenamente capitalista o Brasil republicano” (Ibidem). do modo de produção e da formação econômico-social vigentes no Brasil antes da Abolição”. nesse sentido. o que implicaria para o autor enquanto marxista. através do Império e das várias Repúblicas. para a constelação histórico-social que apresenta hoje?” (Ibidem). que mesmo quando trata do passado. Coutinho afirma ainda que para Caio Prado pensar o presente como história (como anuncia em Formação do Brasil Contemporâneo) significava responder necessariamente a seguinte questão: “de que modo e porque vias o Brasil evolui da situação colonial originária. por isso. Coutinho discute também o tema das desavenças entre Caio Prado e alguns intelectuais da época em torno do modelo interpretativo dominante na Terceira Internacional e no Partido Comunista Brasileiro. conceitos como o de “transição” ou de “modernização”. Tendo como núcleo de sua reflexão historiográfica o materialismo dialético. Argumenta.

apontando-o como o esgotamento do sistema colonial. 1989: 228). corrente em sua época. que haviam se acelerado na última década. da política e da economia nacionais. Ainda. defender e valorizar as especificidades nacionais frente ao mundo (Ibidem). segundo a autora. de imagens capazes de confeccionar uma identidade nacional com o intuito de unir. estabelecendo um horizonte intelectual novo. nesse sentido. culminando com o arranjo político de 1930” (Ferlini. em seu artigo “Fidelidade à História”. que a originalidade do historiador paulista reside na sua . destaca a idéia de que a historiografia de Caio Prado Júnior foi animada por uma discussão. com Formação do Brasil Contemporâneo. Vera Lúcia Amaral Ferlini. era forte o desejo. em seu artigo “A dialética da história”. sem o qual não foi mais possível pensar a história e o pensamento no Brasil” (Ibidem). fato que resultou em uma busca. Destaca. premido por uma realidade já muito antiga: o passado colonial” (Ferlini. 1989: 1156). ou numa elaboração. bem como entre membros da elite nacional. que pretendia “dar conta das profundas modificações da sociedade. entre os intelectuais brasileiros da época.agrária e antiimperialista para se tornar moderno e capitalista” (Idem. Caio Prado pretendia “ressaltar o caráter decisivo do século XIX. 1989. E partia da profunda determinação do sistema colonial pela história do capitalismo para dissecar por que o Brasil ainda não tomara forma. em 1942. com Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior “inaugura uma interpretação marxista da formação social brasileira. de “inserir o Brasil numa economia capitalista mundial”. Segundo a autora. frente às solicitações ampliadas do capitalismo. 229). na História do Brasil. Para Octavio Ianni.

1989: 72). alguns referidos em seus trabalhos. em cada época. Ianni destaca o estabelecimento conceitual das idéias de sentido da história. na narrativa. ou melhor. A circulação simples. formas de vida e trabalho. “uma nova interpretação dos contornos e movimentos mais característicos da formação social brasileira” (Idem. a circulação mercantil e a capitalista articulam-se em um todo no qual comanda a reprodução ampliada do capital. “conforme ela se mostra no século XX”. modos de ser e pensar (Idem. Em seu artigo intitulado “A visão do amigo” Florestan Fernandes defende a idéia de que a interpretação histórica de Caio Prado Júnior se diferencia de outras anteriores e subseqüentes a ele por não buscar uma “reconstrução pura e simples . revela-se. para Octavio Ianni. 1989: 71).capacidade de produzir. em escala internacional. dentro da compreensão da relação entre passado. uma definição ou estigma: O presente capitalista. 1989: 63). no qual se combinam vários pretéritos” (Ibidem). Formas de vida e trabalho díspares aglutinamse em um todo insólito. dialogando com diversos autores contemporâneos e anteriores a ele. Portanto. presente e futuro da interpretação de Caio Prado. urbanizado convive. processos e estruturas que constituem “configurações sociais de vida” (Idem. O Brasil moderno parece um caleidoscópio de muitas épocas. Ianni aponta ainda a idéia de formação e a relação estabelecida. arqueológico. outros não. entre o passado e o presente como elementos fundamentais em Formação do Brasil Contemporâneo: “O presente. (tal como já anunciava o século XIX) com vários momentos pretéritos. industrializado. ainda em nossos dias. o que seria “uma peculiaridade básica da formação social brasileira”. Dentre os principais fatores que teriam conduzido Caio Prado Júnior a produzir uma interpretação dialética da história da sociedade brasileira. das relações sociais. parece um mapa histórico.

Insere sua historiografia num debate mais amplo. 1989: 32). Em seu artigo “Impasses do inorgânico” Maria Odila Leite da Silva Dias afirma que uma contribuição fundamental da obra de Caio Prado Júnior é sem dúvida “a elaboração do método. Para a autora Formação do Brasil Contemporâneo apresenta uma estrutura de construção complexa e “é muito sugestiva da postura independente do engajamento político do autor. Afirma que entre suas grandes contribuições. 1989: 378). Portanto para Dias está claro que seu envolvimento com o materialismo dialético longe de ser um ponto que diminua a importância da interpretação de Caio Prado Júnior é mesmo uma das maiores contribuições dadas pelo autor à historiografia brasileira. clareza” (Dias. entre a “história tradicional” e a “história interpretativa” e afirma que “Caio inaugurou o modo mais avançado de história interpretativa no Brasil. síntese. Ressalta que sua narrativa pode ser definida como “uma tentativa de interpretação histórica materialista fecunda” (Ibidem). o que propunha um desafio fundamental de método” (Ibidem). . como é o caso do ocorrido na França. Deste modo Caio Prado Júnior seria um dos principais expositores da explicação da sociedade escravista e das suas peculiaridades fundamentais (Fernandes. 1989: 32). sua concretude.do passado” (Fernandes. está a análise influenciada pelo materialismo dialético como fator de diferenciação que estabeleceu e introduziu na historiografia brasileira entre a análise das estruturas e a história episódica ou descritiva. o qual se fundava no materialismo histórico” (Ibidem). elaborado na sua especificidade. do seu pioneirismo ao decifrar as possibilidades de adequação da dialética materialista ao contexto das contradições brasileiras.

a despeito de não ter chegado a esmiuçar os anos de formação da república. Para Maria Odila da Silva Dias o tema da nacionalidade. aponta para a especificidade de um processo inacabado em nossa história e que corresponde a um dos traços característicos de nossa sociedade. e das relações sociais de dependência colonial. Caio Prado teria mostrado de forma objetiva a dificuldade estrutural da sociedade brasileira de se formar segundo seus próprios interesses e caracteres. Nesse sentido. Caio Prado teria desenvolvido sua obra com o intuito de mostrar que “a colonização não se orientara no sentido de construir uma base econômica sólida e orgânica” (Dias.A autora destaca como um dos eixos fundamentais da obra de Caio Prado Júnior o “tema das tensões entre sociedade e nação”. de contradição fundamental que definiria todo o vir a ser da nacionalidade. proposto como “totalidade orgânica” implicava em questionar e refletir sobre as possibilidades de integração da massa da população no sistema produtivo do país. Assim no livro Formação do Brasil Contemporâneo. tensão que. orgânico. que em seu tempo vivia uma atmosfera de expectativa de perspectivas diversas. a autora destaca a importância dada em Formação do Brasil Contemporâneo ao estudo das especificidades locais do processo colonizador – estudo que a despeito de todo desdobramento posterior da Antropologia e do . Assim Caio Prado Júnior teria justamente desvendado e destacado a existência deste impasse. segundo ela. fato que desembocaria em uma sociedade singular e contraditória. a partir da exploração racional e coerente dos recursos do território com fins a satisfação das necessidades materiais da população que nela habita. 1989: 377). Nesse sentido. analisando as especificidades de seu tempo.

1989: 382). justamente por conciliar a interpretação marxista com a diversidade nacional. conjunturas. contribuiriam justamente para a . conforme suas relações mais ou menos intensas. Eric Hobsbawn e outros (Idem. segundo ela. a sua foi em vários sentidos uma obra pioneira pelo grau de elaboração do processo dialético. regionais que revelaram potenciais de mudança. segundo a autora. um nível de concretude e de sofisticação de método que somente vinte anos depois começou a encontrar similares nas obras de Pierre Vilar. Por isso atingiu em 1942. Maria Odila da Silva Dias observa ainda o víeis prático desta obra. pois. as chamadas “forças desagregadoras” de decomposição do sistema. Caio Prado dedicou-se à elaboração de teoria abrangente que levou em conta o estudo de modos de produção. Albert Soboul. um dos objetivos fundamentais de Formação do Brasil Contemporâneo consistiria em mostrar. como marxista. Ainda. Caio Prado “procurou as diversidades específicas do processo brasileiro de colonização e formação da sociedade.desenvolvimento de técnicas precisas se mostrava bastante inovador para a época. essas forças dificultariam o processo e as potencialidades da transformação da colônia em nação e. Nesse sentido a autora sugere que: no plano mais amplo da historiografia marxista. em suas origens históricas. a partir de um movimento dialético. devidamente localizados no processo de povoamento. de outro. 1989: 378). de um lado. dado que. 1989: 379). abarcando mediações sociais específicas. Assim poder-se-ia notar que no emprego do método de interpretação das estruturas produtivas. mais ou menos diretas de dependência e subordinação com a grande lavoura do litoral (Idem. cuidadosamente trabalhado na perspectiva histórica da análise das conjunturas regionais do Brasil. para melhor indicar um programa de ação para o futuro” (Idem.

se torna um fator de desagregação do sistema colonial indicando uma possível função de unidade no futuro (Idem. Ao contrário de críticos. localizado entre o final do século XVIII e a época da Independência . portanto. Caio Prado Júnior teria reconstituído as tensões históricas. as especificidades do povoamento do interior. da organização precária de sobrevivência da população brasileira. uma visão estritamente economicista. dos condicionamentos geográficos. o principal tema do historiador consistiu justamente em descobrir e revelar (por oposição a narrativa costumeira) o inorgânico da vida . que enxergam em Caio Prado Júnior. que se projetavam para o futuro (Ibidem). sob o ponto de vista da formação das classes sociais. como um processo marginal. Maria Odila da Silva Dias sugere que o historiador paulista aborda o processo de formação da nacionalidade brasileira como sendo marginal ao processo produtivo (voltado para o provimento de necessidades exteriores) e que. assim sendo. as formas de vida sociais da colônia. enfim. Para a autora. assim como a relação de tempo estabelecida pelo autor (entre o nosso presente e o passado colonial). 1989: 284). que se apresentaram como possibilidades de transformação.constituição de uma sociedade livre – “acenariam para uma futura superação” do que se poderia chamar “impasse do inorgânico” presente ainda nos dias de hoje (Idem. que crescia a partir de uma contradição básica. até construir formas de vida social. Para a autora o enfoque estrutural escolhido pelo historiador paulista – delimitando precisamente seu objeto numa conjuntura de crise.deixa transparecer de imediato o tom engajado do trabalho. das vicissitudes. 1989: 381). de um núcleo de relações de dependência colonial.

segundo Maria Odila da Silva Dias.social. Caio Prado Júnior teria demonstrado que a formação do inorgânico conduziria a uma série de impasses estruturais visando. 1989: 397). para a mudança das bases fundamentais da sociedade brasileira a despeito da compreensão idealista de esclarecimento e progresso (Idem. defende a idéia de que Caio Prado. de suas preferências como pesquisador. Antonio Candido se propõe a dar um depoimento a respeito da figura humana de Caio Prado Júnior. idealistas. a seu ver. por exemplo. Nesse sentido. com tendências. 1989: 385). Por isso. Caio Prado cuidou de elaborar os conceitos marxistas da forma mais concreta possível. movimentos. tensões (Idem. 1989: 365). pois se compunha de aglomerados de forças. ou seja. Em seu artigo “A força do concreto”. Nas suas palavras em Caio Prado: “o conhecedor de história e de economia do . sob alguns aspectos. Muitas vezes o fato histórico custava a se tornar inteligível para o historiador. o que depois viria a constituir e formar originalmente as classes trabalhadoras e os fatores de futura nacionalidade (Idem. procura a partir de sua teoria demonstrar e chamar a atenção para a necessidade de transformação da estrutura da sociedade como um todo. serviria como amostra de que certas estruturas próprias do sistema colonial teriam continuidade. escrever e estudar o Brasil. profundo pesquisador dos impasses estruturais da sociedade brasileira. demonstrar que estes impasses estruturais viriam a causar outros impasses como o do processo de industrialização do país no século atual e que este. Assim. de seu gosto pela viagem como meio de conhecimento. de seu modo particular de pesquisar. de explicitá-los no seu próprio devir dialético sem falsear a interpretação deste processo com posturas ou deslizes teorizantes e. para a autora.

1989: 25). Para Antonio Candido. de registrar. Dessas “duas dimensões de gostos”. as técnicas de plantio. tomando este objeto a partir de uma compreensão não limitada. a presença do marginalizado. situando a família das classes dirigentes na devida escala e quebrando o perfil aristocrático traçado por uma ilusão complacente” (Ibidem). a natureza mercantil da empresa agrícola. sem esquemas nem a . ao leitor sistemático e microscópico dos jornais” (Candido. “é fácil inferir o tipo de historiador que é. derivando seu conhecimento do meio físico. o movimento dos negócios. “atenta ao real. como lembrança da figura de Caio Prado Júnior. do estudo das populações. os costumes. no sentido de ignorar uma quantidade de datas.Brasil se confunde na sua personalidade intelectual ao insaciável viajante e observador. nesse sentido. pois que “mais de uma vez ele me disse alegremente não saber história. Faz questão. o mecanismo de transmissão da propriedade. a produção. a partir de suas especificidades segundo sua distribuição no espaço. Caio Prado Júnior teria se formado como um estudioso ligado estritamente ao “concreto”. 1989: 24). esquecer datas e dar pouca importância a batalhas e detalhes. e coisas assim” (Ibidem). O que lhe interessa são a vida diária. contudo. se embrulhar nas dinastias. a história. suas realidades e por conseguinte suas formas de produção (Idem. grande historiador que retificou as perspectivas sobre a nossa formação e mostrou uma série de aspectos esquecidos ou ignorados – como a qualidade real da população da Colônia. sua irreverência frente à disciplina que o consagrou. ao espírito sempre aberto para o fato do dia. Sob estes suportes teria fundado uma historiografia marxista voltada para a análise de instituições diversas. adverte Antonio Candido.

nas palavras de Antonio Candido era ainda muito “idealista” (Idem. sempre se posicionou de maneira pouco ortodoxa tendo tido a felicidade de poder experimentar e desenvolver em sua ação uma apreensão bastante sofisticada e pessoal das especificidades da realidade brasileira. ligada em muitos sentidos. ao espírito sempre aberto para o fato do dia. dentro do cenário acadêmico de seu tempo. Caio Prado quando compulsa um documento. deixando de lado uma tradição do pensamento social brasileiro que. Assim. não procede como o estudioso que parte da abstração para em seguida procurar comprovantes. ao contato primário como meio de conhecimento.imposição de prejulgamentos”. Ressalta que neste esforço voltado para a “realidade concreta”. que foi. a presença do marginalizado. situando a . Caio Prado Júnior esteve sempre “interessado em pesquisar os aspectos fundamentais da sociedade. 1989: 26). ou seja. analisa uma estatística de produção ou estuda o povoamento. afastando os aspectos que afloram para ir até as forças que regem de fato” (Ibidem). também seu amigo pessoal: grande historiador que retificou as perspectivas sobre a nossa formação e mostrou uma série de aspectos esquecidos ou ignorados – como a qualidade real da população da Colônia. Assim Candido define o historiador paulista. diga-se de passagem. nas palavras de Antonio Candido. Da forma de desenvolvimento de suas características como historiador Antonio Candido indica que Caio Prado deu prioridade a via de conhecimento direta. a natureza mercantil da empresa agrícola. O conhecedor de história e de economia do Brasil se confunde na sua personalidade intelectual ao insaciável viajante e observador. ao leitor sistemático e microscópico dos jornais (Ibidem). Antonio Candido afirma ainda que Caio Prado Júnior. Ele já está previamente embebido por estas e efetua de maneira produtiva a abstração como fruto maduro.

livro que “abriu a fase dos estudos marxistas na visão panorâmica do país”. 1989: 25). no Brasil.família das classes dirigentes na devida escala e quebrando o perfil aristocrático traçado por uma ilusão complacente” (Candido. não chegaram a nada .. que estudou com . Afirmando que sua geração sofreu já com Evolução Política do Brasil influências fundamentais de Caio Prado Júnior.”. 1989: 24). Em seu artigo “Do palacete à enxada”. Afirma também que em relação a interpretações anteriores. Maria Cecília afirma que o historiador paulista tinha por opinião que.. em suma. Para Candido. 1989. sem esquemas nem a imposição de prejulgamentos” (Idem. aberta. Alberto Torres e Oliveira Vianna . Maria Cecília Naclério Homem afirma que a originalidade de Caio Prado Júnior não pode ser entendida sem levarmos em conta que: “sua dimensão de história será muito mais ampla porque pretende transformá-la tanto pela produção escrita quanto pela sua própria participação nos acontecimentos políticos e culturais” (Homem. em termos de produção historiográfica “estava tudo por fazer” (Idem. p. Silvio Romero. atenta ao real. Caio Prado estava ciente de que inaugurava uma nova dimensão da história.. 1989: 47).. Antonio Candido considera que as qualidades esboçadas no livro de 1933 seriam amadurecidas em 1942 em Formação do Brasil Contemporâneo (Idem. Caio Prado “deixa longe a tradição ainda meio idealizadora que preponderava em sua época” e “funda solidamente uma história marxista. 48). 1989: 26). no Brasil. o que demonstra suas próprias palavras: “No Brasil. Destaca para este entendimento de Caio Prado Júnior também a descoberta efetuada pelo autor de elementos da Geografia.

o que em “em muitas ocasiões lhe trouxe problemas” (Vicente. a autora assinala que as viagens de Caio Prado pelo Brasil e seu entendimento da contribuição da fotografia como instrumento de trabalho de grande importância para a análise historiográfica foram fatores que o permitiram romper com a historiografia puramente institucional da tradição estabelecida. que Caio Prado privilegiou o estudo de campo e a observação direta. Foram esses métodos. 1989: 87). levantando os problemas in loco” (Idem. argumenta Vicente: . na mesma direção de Antonio Candido. Em seu artigo “O sentido do colonialismo” Maximiliano Martin Vicente chama a atenção para o fato de que Caio Prado Júnior foi em seu tempo um escritor de fecunda originalidade assumindo “uma posição de vanguarda”. Homem. na recém-inaugurada Faculdade de Filosofia. um lugar de destaque: “a geografia tornou-se seu instrumento de trabalho para o conhecimento do país e para a elaboração da própria História” (Ibidem). métodos que defendeu outrora com as seguintes palavras: “chega uma hora”. “que é preciso fechar os livros e partir para o reconhecimento da realidade. que teriam permitido ao historiador paulista atingir seu objetivo de “levantar o sistema de vida e as condições de sobrevivência de cada lugar” (Ibidem). argumenta. Observa ainda. geógrafo francês.Pierre Deffontaines. Discutindo o papel de Caio Prado para a “compreensão da montagem do sistema colonial feito pelos portugueses no Brasil”. Assim entre os elementos que teriam possibilitado sua ruptura com a historiografia tradicional ocupa a Geografia. ensina ele. Ainda nesse sentido. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. 1989: 49). para Maria Cecília N.

o autor vê a colônia em perspectiva econômica. no quadro da historiografia de sua época. ou procuravam interpretá-la de acordo com sua conveniência em função de alguma idéia preestabelecida (Idem. Maximiliano Vicente mostra que na raiz das divergências que Caio Prado Júnior encarou em sua época está claramente a idéia de que a colônia teria sentido por ela mesma e assim poderia ser analisada (Idem. em seus escritos. Monteiro em artigo intitulado “A dimensão histórica do latifúndio” afirma que um dos fatores de inovação da teoria de Caio Prado Júnior é a descoberta de que “as estruturas agrárias brasileiras são produtos da lógica da expansão comercial européia. 1989: 89). que “ao retomar a visão colonial na obra de Caio Prado Júnior. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777/1808). é um dos melhores historiadores de que dispomos. deve-se notar a importância central de uma especifica concepção de colônia. a volta ao passado (colônia) tem características diferentes” (Ibidem)..se no momento atual. Adverte. pareciam não entender bem a questão. e Formação. as colocações de autores de ampla difusão. ou seja. Daí sugerir que para a compreensão do historiador paulista e de sua inversão metodológica. anteriores e mesmo posteriores a 30. 1989: 90). destaca o sentido da colonização e os principais componentes do sistema colonial” (Ibidem). o mesmo que pretendiam Fernando de Azevedo e Oliveira Vianna). principalmente em dois de seus livros. parece óbvia a afirmação segundo a qual pode-se dizer que Caio Prado Jr. principalmente depois do detalhado e completo estudo realizado na década de 70 por Fernando Novais. Esta diferença estaria no fato de que “ao procurar descobrir a persistência dos componentes coloniais na vida brasileira (diga-se de passagem. Já John M. contudo. dentro da qual ele busca um ‘sentido’ para a . Evolução. nota-se que.

para a historia” (Ibidem).marcha da história nacional” (Monteiro. 1989: 167). Assim. Nesse sentido. material e culturalmente. mero resultado de pactos de elites conservadoras’. Caio Prado pôde esmiuçar “as especificidades de um processo de industrialização sui generis na história do industrialismo capitalista ocidental”. necessário. a originalidade de Caio Prado Júnior em relação à historiografia anterior a ele estaria. graças a ênfase que dedicou ao estudo das estruturas e processos – o que o diferenciou ainda no meio da militância política” (Idem. no nível da simples subsistências física e do mínimo de desenvolvimento espiritual” e se encontraria relegada a um dos lados do abismo (Idem. o qual apontava para uma “inevitabilidade da desgraça que previa um movimento quase trágico. 1989: 154). em cuja constituição jogou papel fundamental a importação de relações sociais de produção já desenvolvidas e acabadas nas sociedades clássicas do . em sua “ênfase na estrutura” o que. Caio Prado pôde se separar da tradição determinista que tinha em seus princípios a “falsa noção de que a desigualdade social no Brasil se devia fundamental e primordialmente a um ‘desvio perversionista. segundo Monteiro: nesta formação social periférica subordinada. 1989: 168). Discursos que mais legitimavam do que explicavam o tipo de exploração existente no meio social brasileiro. Justamente sua “ênfase na estrutura” teria sido o fator que possibilitou a Caio Prado Júnior manter-se afastado das interpretações “naturalistas” que produziram discursos as vezes “racistas” e “exageradamente deterministas” pautados na crença da existência de uma “massa popular que vegeta. também quanto à industrialização. para John Monteiro “percorre como espinha dorsal todas as suas análises concretas” (Ibidem). entre outros aspectos. Nesse sentido.

modalidades determinadas unilateralmente (Ibidem). E intra muros para que se dêem as condições necessárias deste modo de realização.capitalismo. Bernardo Ricupero trabalha com a hipótese básica de que Formação do Brasil Contemporâneo representa um “caso bem sucedido de assimilação e recriação de um conjunto de idéias. ao conseguir isso. 2000: 17). Sobre alguns trabalhos monográficos recentes Em Caio Prado Jr. mas sim uma operação articulada. Para o autor a “nacionalização” do marxismo operada por Caio Prado não foi uma tentativa inusitada ou isolada. o autor defende que em Formação do Brasil Contemporâneo o que pode parecer uma obviedade ou um doutrinarismo – ainda mais para uma análise que não leve em conta o momento histórico de sua produção – deve ser precisamente desnaturalizado para que nós. ou estranheza. e a nacionalização do marxismo no Brasil. de se estudar Caio Prado Júnior – que percebeu ser . Portanto. Não se põe nela um ciclo do capital conforme o conceito que lhe é próprio. estudiosos de hoje. revela-se como universal” (Ricupero. possamos tirar de seus meandros “sua face heurística”. A mais-valia desta economia periférica e subordinada realiza-se no e pelo mercado mundial. de uma orientação teórica e metodológica que prova sua fecundidade heurística dando conta de situação distinta da qual nasceu para dar expressão e. 2000: 31). não se põe nela o ciclo do capital industrial (o movimento geral do capital) com a inteireza dos seus departamentos e de sua realização. 2. como “uma resposta positiva para o dilema proposto por Gramsci sobre a “tradutibilidade” das linguagens científicas” (Idem. é necessário que produção-distribuição-consumo se “enraízem” em formas naturais limitadas. Ricupero destaca que grande parte da recusa.

sem compreender que o Caio Prado como historiador é incompreensível sem levarmos em conta o Caio Prado militante político (Idem. 2000: 26). Ricupero rebate que boa parte do seu próprio interesse em Caio Prado viria justamente de sua associação com o marxismo. Para Ricupero os livros de Caio Prado manifestam a convicção intelectual de que “o estudo teórico deve ser orientado para a compreensão do presente” (Ibidem). deve ser transformada. Ricupero desenvolve em seu trabalho uma análise do que denomina de “razões internas” da escrita do autor que justificam um estudo . e que uma vez que se trata de um autor revolucionário. que apesar de toda crítica corresponde a um clássico de nossa literatura. Assinala que Caio Prado foi. Afirma que não podemos ler Caio Prado. ou seja. e de um certo senso comum – que o acusa de uma associação ao marxismo. Assim. um defensor da unidade de teoria e prática. ou melhor. ou seja. em todos os sentidos. Caio Prado entende que a elaboração teórica tem por objetivo a política.constante por parte de nossa academia – advém de críticas. o historiador paulista é particularmente contundente em insistir que ela deve ser orientada por uma teoria adequada” (Ibidem). em sua palavras “particularmente subestimado” pelo pensamento social posterior a ele. Portanto argumenta que pretende privilegiar em Caio Prado a parte que ficou. A isto. as implicações políticas de suas análises. Além de razões práticas para operar a desnaturalização do pensamento de Caio Prado Júnior. de sua indissociabilidade: naquilo que se refere à ação política. deve servir fundamentalmente para que se possa intervir na realidade do momento histórico que se vive – realidade esta que tem por princípio ser imperfeita. para o autor.

em sua raiz. no Brasil. baseado na produção de gêneros tropicais em grandes unidades agrícolas. sugerindo que somos. Este sentido é indicado (a despeito de toda provocação e de todo alarde que possa causar) como sendo o de um interesse por um estabelecimento de um “empreendimento comercial voltado para o mercado externo. Ainda para Ricupero. nosso passado é quase indissociável de nosso presente. portanto. que até hoje seriam de difícil refutação. interesses externos. Acredita que dentre os nossos historiadores. reflexão esta que constitui uma “contribuição particularmente importante para a compreensão da nossa realidade” (Idem. 2000: 27). portanto. realizando fecundo mergulho. Caio Prado Júnior foi um dos que mais e melhor investigaram as origens das estruturas e do desenvolvimento do país. ou alheios. a chamar a atenção para a idéia de “sentido da colonização” afirmando que não se pode falar de realidade brasileira sem levar em conta que temos em nossa constituição territorial a característica de sermos em nossa origem dotados de um “sentido”. tendo podido ir bastante fundo na investigação dos princípios de nossa formação. Caio Prado Júnior tem grande relevância por ter sido um dos pioneiros. em nosso passado colonial e levantando hipóteses. aos nossos próprios. trabalhadas pelo braço escravo” (Idem. que tem por motivo. de suas contradições. Caio Prado realizou uma “reflexão original sobre a história e a sociedade brasileira”. ainda hoje (e mais ainda em sua época quando a industrialização do país e a estrutura agrária ainda estavam mais ligadas ao . de um direcionamento causal. Assinala ainda que Caio Prado Júnior acreditaria que. em nossa historiografia.sistemático de sua obra. Para ele. 2000: 28).

“já que ainda não o superamos de todo” (Ibidem). 2000: 157). pensando esta sociedade em bloco e não a partir de acontecimentos isolados” (Idem. de um todo que deve ser sempre o objetivo último do historiador’” (Idem. categoria esta que deve muito a teoria marxista de interpretação da história como movimento materialista dialético. mas como o de “uma certa sociedade que. começa a se formar. que podem até mesmo nos confundir. o que reflete o fato de que ‘todos os momentos e aspectos não são senão partes. Em suma. Assim elegendo como fato principal de nossa história o “sentido da colonização” Caio Prado pôde. Caio Prado foi capaz de compreender o sentido da nossa formação e fez deste sentido. Bernardo Ricupero tem por finalidade central buscar “problematizar o sentido do Caio Prado Jr. da elaboração deste sentido como essência da experiência colonial brasileira. uma chave analítica para a interpretação da história brasileira e dos desdobramentos posteriores que esta teve. 2000. Somente a partir do desenvolvimento desta categoria de análise. apreender a “totalidade” da unidade social brasileira.155-156). compostos parte pelo passado. político e . segundo Ricupero. por si só incompletas.passado colonial). A habilidade do historiador paulista em observar a realidade adviria precisamente da consciência de que “apesar de a história ser feita de um ‘cipoal de incidentes secundários’. e como notou Gildo Marçal Brandão no prefácio de Caio Prado Jr. Portanto para Ricupero. p. há um certo ‘sentido’ que lhes confere inteligibilidade. Caio Prado pôde fornecer um retrato da Colônia “não como um mero amontoado de eventos e características combinados aleatoriamente”. mesmo problematicamente. e a nacionalização do marxismo no Brasil.

Para contrastar estas “formulações oficiais do PCB” com as de Caio Prado. Ainda segundo Brandão. ao lado da relevância que damos as contribuições deste autor a historiografia brasileira deve-se compreender o autor como um ativista do partido e da causa política (Santos. Assinala. Santos sugere que a bibliografia estudada pelos integrantes do partido em geral dependia de alterações e adaptações pragmáticas que poderiam ajustar a cartilha desta literatura a conjunturas específicas. 2000: 16). que ao longo de toda sua obra. Bernardo Ricupero persegue como objetivo central mostrar como. além do seu lugar na historiografia. exigindo . faz parte da cultura pecebista”. 2000. a obra de Caio Prado Jr. 15). no entanto. num caminho de duas vias. em Uma ciência política em Caio Prado Jr. muito distintas das de sua origem.. destaca os textos memorialísticos do historiador paulista (como a de seus diários políticos) como peças fundamentais para a compreensão do seu pensamento. 2001: 129). Caio Prado como um autor “comunista brasileiro”. e argumenta que esta “vêm realçar algumas conjecturas que insistem em que. Caio Prado desenvolve sua visão da política a partir dos desdobramentos práticos do seu trabalho de historiador e que. ou seja.teórico da política” (Brandão. Já Raimundo Santos. desenvolveu uma teorização que ia “muito além das ‘formulações’ oficiais do PCB” (Ibidem). buscando perseguir incansavelmente “uma problemática básica – as questões da construção nacional e das possibilidades de mudanças inscritas no processo histórico” – uma vez tendo atingido sustentação teórica busca conformar sua crítica (e sua pretensão de desenvolvimento de um projeto político) às determinações de processo histórico concreto (Idem.

um dos teóricos com maior . Raimundo Santos destaca ainda um artigo publicado na imprensa comunista da época intitulado “Os fundamentos econômicos da revolução brasileira” no qual Caio Prado trata o tema da origem da economia agrária do seguinte modo: a fazenda brasileira “como sendo estruturada para o sistema de produção de grande empresa mercantil”. particularmente a tese da existência de um feudalismo como modo de produção da colônia que Caio Prado refuta por achá-la absurda e ineficiente para explicar as origens da realidade do latifúndio brasileiro e das desigualdades no campo. ou Jacob Gorender. portanto de uma reelaboração teórica. comunistas e não comunistas. Entre os mais antigos destes autores destaca o próprio Luis Carlos Prestes que em 1954 escreveu uma crítica a Caio Prado para advertir a Revista Brasiliense pelo seu envolvimento naquilo que ele chamava de “nacional reformismo” (Idem. Para o entendimento da posição de Caio Prado Júnior nesta polêmica. Raimundo Santos destaca ainda algumas opiniões de intelectuais sobre Caio Prado Júnior. então militante-fundador do Ibesp. 2001: 132). como a de Hélio Jaguaribe.necessariamente ajustes para a práxis prescindindo. Raimundo Santos destaca ainda que em torno do autor se deu uma demorada polêmica em torno das teses comunistas da origem ou tipo de sociedade que existia durante a colonização no Brasil. mais se pareceria com a “fazenda de escravos romana do que com qualquer formação social representativa do feudalismo” (Ibidem) Para situar a discussão. que o considerava “o único teórico marxista do Partido Comunista Brasileiro”. provocando entre seu meio certo mal estar. Raimundo Santos destaca que mesmo em seu período Caio Prado Júnior era notado com estranheza por outros autores.

Raimundo Santos destaca que Jacob Gorender comentando A revolução Brasileira de Caio Prado ainda em 1989 apontava a filiação ao positivismo lógico como um segundo deslize do historiador paulista. além do objetivo de romper com a historiografia oficial. a “colônia de povoamento” americana. segundo ele. Para Caio Prado Júnior a necessidade de sua tarefa consistiria em fazer uma teoria para a conjuntura. pois. já em 1933. Raimundo Santos levanta a hipótese de que no livro A Evolução Política do Brasil. justamente para formar da diferença a idéia do “sentido” da “colônia de produção” brasileira (Ibidem). Afirma que seguramente “no primeiro volume de Formação do Brasil Contemporâneo o autor já buscava (para definir uma política para o seu partido?) – a especificidade da formação social. somente dela é que “poderíamos avançar numa progressão. Caio Prado Júnior na Cultura Política Brasileira. 15). 2000. Afirma precisamente que as dissertações de Caio Prado Júnior sobre Formação do Brasil . Raimundo Santos procura examinar particularmente a tradição intelectual representante da cultura pecebista visando situar Caio Prado dentro da “cultura política do pecebismo contemporâneo” (Idem. como Marx ao divisar na Europa a rota dos países atrasados. com sua análise histórica. pondo diante do destino brasileiro. Caio Prado Júnior já teria a pretensão de desenvolver. p. Em outro trabalho. 2001: 133).trânsito ao interior do PCB em seu tempo. uma teoria (uma ciência) política (Idem. para quem a rebeldia de Caio Prado em relação ao consenso da teoria do partido dever-se-ia a um “problema idealista” da sua formação (Ibidem). Critica precisamente as idéias de Caio Prado Júnior sobre a desnecessidade de se classificar a revolução que se faria no Brasil. que nos levará ao socialismo” (Ibidem).

Acredita que é possível que “o movimento de interpelação do pensamento social brasileiro dos últimos tempos. que também procura resolver no livro que analisamos anteriormente. Raimundo Santos considera que apesar de ser impensável fora de seu partido “o historiador vive a história de um intelectual outsider” (Ibidem). colorindo a obra com problematizações estratégicas no seu pensamento – mercantilismo e miserabilidade. no autor sempre pensada a partir da compreensão do conjunto da formação social em sua especificidade” (Idem. Assim. mas como que estariam trazendo teses para a reformulação da própria idéia de política socialista no Brasil. Caio Prado “sempre está buscando por à mão de seu partido elementos de teoria política para um socialismo definido de acordo com um programa de grandes reestruturações que as dissertações sobre a contemporaneidade brasileira lhe indicavam” (Ibidem). Nesse sentido. p. “não só mostraria como os textos políticos de Caio Prado Júnior não são meros opúsculos para consumo em pequenas querelas ad hoc. Raimundo Santos procura demonstrar que a reconstituição de uma unidade entre a obra básica de Caio Prado Júnior e a publicística do autor.Contemporâneo “desde cedo o põem em conflito com o seu partido. de que “a historiografia de Caio Prado Júnior se constrói para balizar a política comunista no Brasil a partir de alguns termos pares que afloram e sempre voltam em seus textos. justamente em torno da questão que ele chamava de falta de ‘fundamentos’ da política comunista no Brasil” (Idem. 2000: 17). ora em pleno . 2001. 292). campesinismo e generalidade (mercado interno nacional). 2000: 39). vida política (tradicionalmente à base de agitações e estéril) e estruturação partidária” (Idem. “entre circunstância de pensamento social e condição militante”. Partindo deste ponto levanta sua hipótese.

Ignácio Rangel e outros” (Idem. que. Caio Prado Júnior como um autor igualmente portador de aberturas analíticas. segundo ele assume uma perspectiva original. entre suas surpresas. de um lado buscando reconstruir o modo de desenvolvimento do capitalismo no país que não se explica dentro dos limites estritos da nação e de outro procurando compreender porque esse processo é excludente e não democrático – essas duas questões definem o caráter da ruptura e o caráter fundador de sua macrointerpretação” (Rego. Rubem Murilo Leão Rego indica como eixo articulador da imagem de Brasil proposta por Caio Prado Júnior a idéia de constante “modernização . O autor procura mostrar que existe uma “dupla via em que se desenvolve a análise caiopradiana. Afirma que “só muito recentemente chegam as primeiras manifestações sobre a atualidade de Caio Prado Jr. É este justamente o tema central de outro trabalho recente dedicado a Caio Prado Júnior: Sentimento do Brasil – Caio Prado Júnior – continuidades e mudanças no desenvolvimento da sociedade brasileira de Rubem Murilo Leão Rego. 2001: 293). traga.curso. e ainda nos casos de Furtado. Leão Rego pretende chegar ao pensamento do historiador buscando a compreensão da lógica interna de suas idéias. 2000: 16). ou tipo especifico de “sentimento dos problemas” brasileiros. De modo diferente a de outros autores. bem como tornando aparente as linhas de força de sua análise. como vem acontecendo em relação a Gilberto Freire em algumas dimensões interdisciplinares. os quais identifica no tipo de “definição dos sujeitos dos processos sociais” (Ibidem). Bonfim. a começar pelo tema posto na ordem do dia pelas questões novamente trazidas pelo drama do mundo rural” (Ibidem)..

suas reflexões têm a força da denúncia dos efeitos perversos do processo de transformação-persistência da grande propriedade funidária (Idem. Sugerindo a atualidade de Caio Prado. consolidou e até expandiu os processos de exclusão e de marginalização social que caracterizam toda a nossa história. embora diferentes intérpretes .conservadora”. seja quanto ao caráter normativo de “transformação social” envolvido na sua obra. de consumo e de trabalho. eliminam ou coexistem com os tradicionais traços arcaicos geradores da nossa miséria. Ou mesmo se esse mesmo processo de modernização não tem sido também um importante fator de expansão da miséria e da pobreza da população por ele excluída. sugere Leão Rego: Entre suas preocupações nucleares está a que procura constatar se as transformações ocorridas na estrutura da produção agropecuária resultaram ou não numa ampla incorporação populacional a uma estrutura de mercado. em sua opinião. tanto no primeiro quanto no segundo grupo de trabalhos destacados. *** Como se pode depreender da exposição realizada. de molde a produzir efeitos positivos sobre a melhoria de suas condições de vida. particularmente mas não exclusivamente em função da introdução do marxismo nas chamadas interpretações do Brasil. a crítica tem enfatizado a “originalidade” de Caio Prado Júnior seja quanto ao método. mostrando como as inovações as quais está exposta a estrutura brasileira se combina com a conservação e a reprodução. ampliada do antigo sistema colonial. Por isso. Para o autor a questão agrária ocupa lugar central na imagem caiopradiana do Brasil. 2000: 27). já que nela a permanência do latifúndio está na gênese do fato de que o Brasil moderno reproduziu. Assim. Como visto também. ganha sentido sua preocupação sobre em que medida os processos de modernização capitalista das relações sociais e da estrutura produtiva sujeitam. conceito desenvolvido por Lênin e Gramsci. especialmente no mundo agrário.

bem como da estrutura narrativa da obra selecionada para análise. Na segunda parte do capítulo. mas necessária. 2000: 19-21. Faleceu na mesma cidade em 23 de novembro de 1990. 1. Karepovs. uma rápida. faço. cuja história confunde-se com a do baronato cafeicultor paulista e do próprio estado de São Paulo (Levi. apresentamos brevemente as linhas fundamentais do contexto intelectual. Dentre . 2003. no próximo capítulo. como estamos nos propondo a fazer. Pertencia a uma das famílias mais abastadas e influentes do Brasil. 2004). CAPÍTULO 2 CAIO PRADO JÚNIOR E FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO Recuperamos neste capítulo aspectos centrais da trajetória de Caio Prado Júnior sugerindo como nela as dimensões intelectual e política estão profundamente articuladas conferindo-lhe sentido próprio. ela não têm se constituído exatamente em objeto específico das análises recentes. Antes de apresentar e discutir a idéia de formação em Formação do Brasil contemporâneo de Caio Prado Júnior. Aspectos de uma trajetória Caio Prado Júnior nasceu na cidade de São Paulo em 11 de fevereiro de 1907. 1977. Berriel. objeto central do trabalho. D’Avila. aos 83 anos. da concepção historiográfica e do plano narrativo de Formação do Brasil contemporâneo.se refiram e/ou destaquem em medidas diferentes a importância da idéia de formação na obra do historiador paulista. apresentação dos traços fundamentais da trajetória intelectual e política do autor.

que na incipiente cidade de São Paulo. Suas atividades nos ramos do empréstimo e do comércio lhe . Remonta já desta época a participação política da família. Com a morte de sua primeira esposa casa-se com Francisca de Siqueira Moraes e se coloca como membro da elite paulistana sendo inclusive um financiador de uma expedição de ouro em Goiás em 1730. sabe-se que sua fortuna quando a época de seu falecimento foi modesta contando entre os bens mais valiosos deixados por ele uma rede de amigos e associados sem a qual certamente seria difícil o sucesso de seus herdeiros (Karepovs. um patrimônio respeitável. mais que fortuna. foi um dos membros que mais se destacou na primeira geração. um de seus filhos. ruas São Bento e do Carmo. temos que recuar aos idos da colônia. Os resultados desta empreitada não são conhecidos. por meio da esposa. no entanto. Antônio da Silva Prado articula desde cedo uma rede de influência importante. que sua origem remonta à nobreza portuguesa do século XIII. em cuja família encontravam-se notórios bandeirantes. herda. empresários e políticos. vindo de Prado. Casa-se com Filippa do Prado. Ao chegar ao Brasil. Esse. Ilustrando o quadro do aparecimento da família Silva Prado. 2003). correspondia a casas. Sabe-se. terrenos e comércio na região central. como ainda dois importantes historiadores: Eduardo Prado e Paulo Prado. chega em São Paulo no decorrer da primeira década do século XVIII. destacam-se não apenas comerciantes.seus ancestrais. Seu primeiro membro a viver no Brasil foi Antônio da Silva Prado. fazendeiros. sua cidade natal. Antônio elege-se para a Câmara Municipal de São Paulo. Seu sucessor Antônio Prado. Martinho Prado (1722-1770). casado com Ana Vicência Rodrigues de Almeida.

cargo que ocupou até 1910. avô de Caio Prado Junior. na família a verve “revolucionária” (D’Avila. Veridiana da Silva Prado (1826-1910). provavelmente com fins pragmáticos de manter a fortuna em família (Ibidem). Martinico da Silva Prado Junior (1843-1906). bisavó de Caio Prado Júnior. segundo filho de Veridiana. recebendo personalidades. Ao morrer sua esposa casa-se com seu irmão. Sua filha D. Destacaram-se entre suas atividades o comércio de açúcar e ainda seus serviços prestados à Coroa como coletor de impostos. inaugura. 2004). provavelmente. Obteve sucesso na administração da cidade sendo seu trabalho marcado pelo embelezamento da cidade bem como de obras de elevada importância cultural como é o caso do Teatro Municipal de São Paulo e da Praça da República. Mulher emancipada separa-se do marido Martinho Prado e exerce grande influência tanto na família quanto na sociedade paulista do final do século XIX. foi o primeiro deputado republicano à Assembléia Constituinte de São Paulo e um dos abolicionistas e promotores da imigração européia subvencionada mais destacados. Antônio Prado (tio-avô de Caio Prado Junior). (Karepovs. 2003: 8). Seu currículo ilustra seu empenho em reformar os convencionalismos e os padrões tradicionais da política do Império. promovendo encontros e debates entre as mais diversas tendências e credos políticos (Karepovs. . O terceiro Antonio Prado (1788-1875) recebe através de D. 2003: 9). Compra em 1878 um terreno na então Rua Santa Cecília (hoje rua Dona Veridiana) e constrói um palacete onde mantém o salão literário mais importante da cidade de São Paulo. é escolhido prefeito da cidade em 1899.rendem fortuna. Pedro II o título de Barão de Iguape em 1848. Filho de Veridiana Prado.

teria manifestado certa raiva (Karepovs. esta história tinha uma diferença. Pedro parou colocou sua mão sobre a cabeça do menino e perguntou: “este quem é?” “Filho de Martinico”. quando cursava a Faculdade de Direito. Numerosa. alguns membros da família Silva Prado.. Segundo uma versão da historia. Pedro II não teria sorrido ao saber da identidade de seu pequeno agressor. Como deputado pelo Partido Republicano em 1878. sua mãe – Veridiana – promoveu uma recepção para D. países pioneiros na modernização do Estado. 2003: 9). Incentivou a educação não rígida dos filhos como parte de seu republicanismo e de seu repúdio aos costumes não tradicionais. sempre recorria ao exemplo da França e Estados Unidos. respondeu Veridiana. levando às últimas conseqüências a vida segundo ideais revolucionários. neto de Martinico. de seis anos de idade e filho de Martinico. Martinico Prado Neto. o imperador teria dito: “tão pequeno e já com instintos revolucionários como o pai”. salientando que os pequenos Prados tinham a fama de crianças mais “mal criadas” de toda São Paulo (von Binzer. D. tendo como membro o pai de Caio Prado Jr. Durante o encontro. tenderam para idéias de cunho liberal.Pedro II. sua família era reconhecida como um clã de rebeldes. fato que Ina von Binzer. para salientar a necessidade de reformas políticas no país (Karepovs. atingiu o imperador na face com uma bola de pétalas de rosa. governanta alemã que cuidou dos seus filhos. e ainda situar sua posição na vida social paulista é curioso conhecer um caso contado em família. Na versão de Caio Prado Júnior. 1956). e. 4 A despeito de sua condição de elite. sim. cuja educação diferiu em muito da recebida em famílias típicas da elite brasileira. como é o caso de Caio Prado Junior. ele afrontava a elite paulista com pensamentos libertários e democráticos europeus defendendo a aplicabilidade dos mesmos no Brasil. sofrendo por isso prisões e censura durante a sua vida. narra em seu livro de memórias Alegrias e tristezas de uma governanta alemã no Brasil.Já. Sorrindo. . Em 1887. 2003: 10). D. Sabe-se que seu espírito inovador repercutiu fortemente na formação de seus filhos. adotando caráter progressista e. 4 Para ilustrar o comportamento dos filhos de Martinico Prado. como Martinico Prado.

2003: 10-11). centralizando “tanto a produção intelectual nacional. na Faculdade de São Paulo” pouco tenha valido a Caio Prado Júnior.6 Em 1928 ingressou no Partido Democrático (PD). Teve. que neste mesmo ano se mudara da cidade de Itu para a Capital. 2001: 118). freqüentou por um ano o colégio Chelmsford Hall. De modo que. dos jesuítas. (Karepovs. como também uma “instância mediadora na importação e difusão da produção intelectual européia no país“. tornando-se Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais aos 21 anos. estudou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Entre 1924 e 1928. e por não tolerar o Partido Republicano Paulista (PRP). Por esta época. não apenas o reforço institucional da socialização da elite brasileira. um dos principais sustentáculos do pacto liberal-oligárquico conhecido como “política do café-com- 5 Sobre a formação escolar da elite brasileira do período. influenciado pelo pai. quanto parte significativa dos meios materiais de sua divulgação através de revistas e jornais jurídicos e literários” (Botelho. .Caio Prado Junior. ingressou no Colégio São Luis. à época. Fundado em 1926. “pois não se dedicou à advocacia” (Iglésias. talvez não se devesse minimizar a experiência de sociabilidade intelectual e política da instituição para a compreensão da formação do historiador paulista. uma vez que se indignara com fraude promovida por esse nas eleições municipais daquele ano. Para uma visão integrada do tema. em razão de doença de um de seus irmãos. Nele permaneceu até a conclusão de sua formação secundária.5 Em 1918. ver Needell. de ser convocados para os escalões superiores do serviço público. como observou Sérgio Miceli. no âmbito seja das administrações estaduais. 2002: 57). o PD reunia parte da elite paulistana descontente com a hegemonia do Partido Republicano Paulista. A Faculdade de Direito constituía. então. em Eastbourn. 2000: 200). 1993. 6 Embora como aponta Francisco Iglésias o “curso de direito. Inglaterra. rico contato com o universo da crítica e do ensaísmo político. ver Nagle. tendo esta apenas um ano de interrupção. seja do governo central” (Miceli. com a orientação. 2003: 11). “os estudantes dos cursos jurídicos tinham não apenas a pretensão mas também a possibilidade objetiva de ingressar nas carreiras ligadas ao trabalho político e intelectual ou. Exerceu a advocacia por alguns anos (Karepovs. instalando-se na Avenida Paulista. durante a Faculdade de Direito. em seu início. 1977. como era comum entre as elites da época. em casa. de professores particulares. ao longo da Primeira República. teve formação escolar privilegiada contando.

Tendo sido derrotada nas urnas. onde trabalhou cerca de três meses. deu um viva à Getúlio Vargas (Ibidem). 1975. Durante a campanha para as eleições presidenciais de 1930 o Partido Democrático apoiou Getúlio Vargas. Antônio Prado.leite” que predominou no Brasil nas primeiras décadas do século XX. a Aliança Liberal iniciou os preparativos para um golpe de estado que desembocaram no movimento armado de 3 de outubro de 1930. estando em uma recepção oferecida a Julio prestes por membros da elite paulista. Love. e ainda prestando serviços de rotina como a organização de comícios. em 31 de dezembro de 1929. e. em campanha eleitoral. Caio Prado Júnior foi designado para a Delegacia Revolucionária de Ribeirão Preto. contra o candidato oficial do regime representante do PRP. pois seus inquéritos eram imediatamente arquivados. organizando o Partido Democrático nos bairros e no interior do Estado. . Júlio Prestes. Uma de suas atribuições foi realizar um levantamento sobre os abusos do governo deposto. Dando-se conta da inutilidade de seus esforços.7 É interessante notar ainda que seu tio-avô. apurar casos de corrupção. Caio Prado Junior participa neste momento de operações de sabotagem nas instalações de comunicações da estrada para o Rio de Janeiro (Ibidem). Embora não ocupasse posição de destaque. e em especial. destacara-se entre os fundadores desse novo partido. 1977. Por esta ocasião teve sua primeira prisão quando. logo depois participando de episódios que antecederam a chamada Revolução de 1930 (Ibidem). candidato da Aliança Liberal. 7 Sobre o Partido Democrático ver Carone. 1975 e Schwartzman. Após a vitória das forças aliancistas. Caio Prado Júnior participava intensamente como militante.

avaliada como “pequeno-burguesa” (Karepovs. já que para se adequar às novas orientações políticas preconizadas no VI Congresso da Internacional Comunista. ver Brandão. como é o caso de Astrojildo Pereira e Otavio Brandão. 2000. . seguindo esta mesma orientação chamada “obreirista”. vários intelectuais. perseguindo em suas “fileiras” os que se identificavam com a linha política anterior. então. editado em quatro volumes pelas Edições Caramuru em 1933 e 1934 (Ibidem). No período. foram destituídos ou afastados da direção partidária ou convidados a realizar “autocríticas” quanto a sua militância política.logo se afastou do cargo e decepcionado com a inconsistência política e ideológica da chamada “República Nova”. em virtude de suas atividades profissionais. sua origem social e ainda sua conhecida independência frente aos cânones ideológicos. como ele mesmo assinalou anos mais 8 Sobre Caio Prado Júnior e o PCB. 2003: 12). o partido acusava a social-democracia como tributária do fascismo. 8 Neste momento. Aproxima-se. ou ainda origem social. No caso de Caio Prado Júnior sua condição de intelectual. dedica-se entre outras atividades à tradução do Tratado de Materialismo Histórico. de autoria de Nicolai Bukharin. 2003: 12). Ao entrar no PCB. com o PCB. nem sempre pacífica. diversos cargos da direção do partido foram ocupados por operários e militantes que pareciam se identificar com a nova orientação (Idem. 1997 e Ricupero. do marxismo. Ainda. filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1931. encontra um momento particularmente difícil para os intelectuais. marcaram quase que de modo permanente sua longa relação.

em meio às atividades políticas que Caio Prado inicia sua atividade propriamente intelectual. Sempre fui muito marginalizado no Partido. no país. abandona este subtítulo e o publica. Fato relevante é que este livro aparecia com o subtítulo de “Ensaio de interpretação materialista da história brasileira”. portanto. procurou traçar a síntese da nossa evolução política. publicada por sua conta. Caio Prado. em cujo benefício se faz a história oficial” (Apud Karepovs. nem tive nele grande prestigio ou influência. como Evolução Política do Brasil e outros estudos.tarde: “Nunca pertenci à direção do Partido. ao lado de outros ensaios anexados. inaugurando. no entanto. Em Evolução Política do Brasil já antecipa uma de suas teses fundamentais daquilo que viria a ser tanto a sua obra como todo quanto seu debate junto ao . 2003: 8). É. o uso de nova chave de interpretação da sociedade brasileira: o materialismo dialético. no que diziam respeito ao Brasil” (Apud Karepovs. que eu considerava falhos. em 1933. pela oposição a seus esquemas políticos e econômicos. Entre seus objetivos. Sempre fui um elemento secundário e mal considerado. com a publicação. que também na nossa história os heróis e os grande feitos não são heróis e grandes senão na medida em que acordam com os interesses das classes dirigentes. o que remetia à originalidade de seu pensamento pretendendo diferenciá-lo das interpretações da sociedade brasileira anteriores e mesmo então correntes. 2003: 12). estava o de “mostrar. mas por causa da minha maneira de interpretar o Brasil. Nessa obra. de A evolução política do Brasil. em 1946. não em termos pessoais. num livro ao alcance de todo mundo.

com A Ilusão Americana (1893). Há aí achados brilhantes e definitivos. Sintético. pela aplicação de categorias do mundo europeu. como era comum – fala um pouco. a dos balaios e a agitação praieira têm lúcidas análises. quando antes quase não eram objeto de atenção” (Idem. dois historiadores com certo alcance junto à intelectualidade da época. Para Francisco Iglesias autores anteriores a Caio Prado Júnior não apontavam o interesse que o período dispõe justamente pelos movimentos populares: “a revolta dos cabanos.9 Como sugeriu Francisco Iglésias sobre o livro: percebe-se no autor pleno domínio da trajetória nativa. como Celso Furtado também se debruçariam sobre o tema a fim de contestar a ocorrência de feudalismo no Brasil. . 2000: 202) Outro tema que o acompanha durante sua vida intelectual e política e que analisa já neste seu livro de estréia é o do latifúndio. notabilizou-se com Retrato do Brasil de 1928 (Berriel. a despeito de sua grande diferença e originalidade no campo da história. muito repetida em outros escritos e uma das origens de suas discordâncias com os rotulados marxistas locais (Iglésias. situando-o aos idos da colônia e ao modo de produção próprio da mesma. Caio Prado Júnior tinha em sua família. em visão original. 1999). 2000: 22). e posteriores. de modo atenuado e de todo revisto em texto posteriores -.Partido Comunista Brasileiro: a impossibilidade de entender o período colonial brasileiro como feudal. da transição e do Império. 2000). como já se assinalou. um dos principais financiadores da Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922 e elemento de coesão intelectual e social do modernismo paulista. primeiro livro apreendido pela polícia republicana em São Paulo (Ibidem. Oliveira. apreende o essencial do processo da Colônia. como Roberto Simonsen (1937). sócio fundador da Academia Brasileira de Letras. 9 Outros autores contemporâneos. Esta será uma das idéias básicas. e seu tio-avô Eduardo Prado. Ainda inovadora é sua detida narrativa sobre as revoltas do período da Regência. Paulo Prado. Não se fala em feudalismo.

um novo mundo. um novo mundo trata tanto dos resultados conquistados da revolução que admirara e observava. Neste desenvolve análise mais detalhada daquela experiência. Embora sem .S.R.R. Caio Prado relata sua viagem em concorridas conferências realizadas no Clube de Artistas Modernos em São Paulo (organização que ajudou a fundar. O próprio Caio Prado Júnior. de acordo com seu entendimento. participando inclusive da formulação de seus princípios junto com seu irmão pintor Carlos Prado em 1932). acabou sendo apreendida pela polícia.S. datada do ano seguinte.S. Teve uma reedição apenas. 2003: 13) Anos mais tarde retoma aquela temática em outro livro: O mundo do socialismo (1962). 2000) – tendo também o estudo problemas com a censura do Estado Novo (Karepovs. nesse caso a experiência do comunismo na União Soviética. Ao retornar ao Brasil. o considerava ultrapassado (Iglésias. após seis meses. Caio Prado Júnior se matricula na recém-criada Faculdade de Filosofia. Caio Prado já desenvolveria uma das chaves que o caracteriza como historiador. 2003: 12). U. Caio Prado Júnior realiza uma viagem de estudos à antiga União Soviética a fim de conhecer pessoalmente o que. sendo por ele abertamente defendida (Karepovs. U. publicado em 1934 e cuja segunda edição. Tamanho interesse despertado no público paulista motiva Caio Prado a escrever o seu segundo livro. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. segundo Francisco Iglésias. Em 1934. Neste. em 1935.No mesmo ano de 1933. já havia estudado por meio de depoimentos de terceiros.S. 2003: 12).. assim como da ideologia que a sustentava e ainda o marxismo – ideal que o demoveu por toda vida. seu interesse pela história viva.. tanto da China como da União Soviética. apenas iniciada até então (Karepovs.

2000). onde trava estreito contato com os professores da missão francesa que deram início aquela Universidade. Voltando à cena política. e ainda sua participação e vivência em um ambiente cultural em que tinha como interlocutores. em 1935 formaram-se por todo mundo as chamadas “frentes populares”. pois não tinha necessidade do diploma. intelectuais como Lucien Febvre. Caio Prado participa de turmas dos cursos de História e Geografia. Paul Langevin. que segundo a orientação do VII Congresso Internacional Comunista congraçavam todas forcas políticas que se opunham ao fascismo e ao nazismo. no campo de interesse da historiografia destacam-se a REVUE HISTORIQUE e os ANNALES DE HISTOIRE ECONOMIQUE E DE SYNTHÈSE SOCIALE. na época do Front Populaire. das quais Caio Prado era assinante e leitor atento (Ibidem). entre outros. 2003: 13). Marc Bloch. Dentre um amplo campo de interesse no qual Caio Prado Júnior se formou. Caio Prado participa da fundação da Associação dos Geógrafos do Brasil.interesse em concluir o curso. No mesmo ano. direta ou indiretamente. especialmente os geógrafos Pierre Moinbeing e Pierre Deffontaines. que agrupava um variado . Paulo Teixeira Iumatti destaca sua experiência a partir do debate com cientistas europeus. que viriam influenciar seus trabalhos posteriores (Karepovs. O destaque nesta fase quanto às suas leituras científicas é para as revistas que repercutiam questões epistemológicas postas pelas recentes descobertas ocorridas em vários campos das ciências e que. tornando-se em seguida um dos principais colaboradores da revista “Geografia”. Jean Perrin. No Brasil o resultado dessa nova orientação antifascista foi o surgimento da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Henri Berr. (Iumatti. mantida por esta associação.

em Natal. chamada “Lei Monstro”. (Ibidem). mas com suspensão do estado de sitio em 1937. e fechada em junho de 1935. Nos meses subseqüentes. Imediatamente saiu do Brasil. que teve como presidente o ex-comandante da Coluna Prestes. marcadamente anticomunista. realizou. do qual foi um dos diretores (Karepovs. além de redigir artigos publicados. 2003: 13). e trazido a São Paulo. Em decorrência de suas atividades frente à ANL em São Paulo. foi preso em dezembro de 1935.espectro de forças sociais que se opunham ao governo Vargas. sucessivamente prorrogado até junho de 1937 (Ibidem). comícios. inclusive o Partido Comunista. a ANL foi enquadrada na Lei de Segurança Nacional. Caio Prado Júnior foi submetido a uma severa vigilância por parte da policia política paulista e. no Rio Grande do Sul. Ali. sobretudo. Após um breve período de legalidade. em abril de 1937 acabou denunciado por crime contra a segurança nacional. após o desencadeamento da insurreição armada comunista. mas que atingiu uma ampla gama de opositores de Getúlio Vargas. organizou diretórios municipais pelo Estado. a idéia de uma insurreição armada ganhou corpo e foi levada a cabo em fins de novembro. palestras. pelo diário paulistano A Platéia. como militante do Partido Comunista Francês (PCF). Ficou preso durante dois anos. general Miguel Costa. . e que culminou com a aprovação do Estado de Sítio. requereu um habeas-corpus que lhe valeu a liberdade. indo exilar-se na França. O fracasso do movimento levou a uma imediata repressão política. Recife e Rio de Janeiro. viagens. Nessa função. Caio Prado Júnior assumiu a vice-presidência regional da ANL em São Paulo.

Astrojildo Pereira e Mario Schenberg. sediada no Rio de Janeiro e tendo à frente o chamado “grupo baiano”. pois ainda estava preso. Diógenes Arruda. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. 1997). sua militância políticopartidária foi muito restrita. Frente à iminência do desencadeamento da Segunda Guerra Mundial. em plena ditadura do Estado Novo. pois o Partido Comunista Brasileiro fora fortemente abalado pela repressão policia do regime ditatorial varguista (Brandão. Após seu retorno. portanto. formou-se a Comissão Nacional de Organização Partidária (CNOP).atuou em tarefas de apoio e solidariedade aos combatentes republicanos na Guerra Civil Espanhola (Ibidem). graças às relações deste junto ao Eixo durante a Guerra (Karepovs. Este acaba por apoiar Getúlio Vargas. Tito Batini. Os passos políticos previstos durante o chamado “Encontro da Mantiqueira”. representados principalmente por Mário Alves. Nesse encontro. em agosto de 1943. Victor Konder. da União Soviética. Heitor Ferreira Lima. realizada na Serra da Mantiqueira. o que ocorreu após a Segunda Conferência Nacional. foi possível ao PCB voltar a se organizar. na qual Luis Carlos Prestes fora eleito secretário-geral in absentia. Caio Prado retornou ao Brasil em 1939. ao lado dos paises aliados e. David Lerner. Maurício Grabois e Pedro Pomar tem como resposta a divergência de outro grupo que em São Paulo e Rio de Janeiro tinha como participantes Caio Prado Júnior. Estes reunindo-se nos “Comitês de Ação” contrapuseram-se àqueles e inspirados na ANL defenderam abertamente uma luta contra o “fascismo” do Estado Novo . João Amazonas. 2003: 14). Zacharias de Sá Carvalho. pois também fora absolvido em dezembro de 1938 das acusações que sobre ele pesavam no Tribunal de Segurança Nacional.

Neste momento Caio Prado participa da fundação da União Democrática Nacional (UDN). Hermes Lima. dentro de um certo recorte temático. em 1945. Martinho Prado Neto. prefácios e principalmente publicando Formação do Brasil Contemporâneo. Em 1945 retoma a análise do período colonial em História Econômica do Brasil dando ênfase à busca do sentido da colonização brasileira em que destaca por base econômica o latifúndio. Tem entre seus sócios seu pai. Arthur Neves. a monocultura e a escravidão tratando também dos aspectos econômicos do Império e da República. Caio Prado Júnior não segue os dissidentes e permanece no PCB. Entre as obras literárias. em 1942 – obra que o coloca em posição de destaque junto aos intérpretes do Brasil.(Ibidem). Ao sair da prisão Luis Carlos Prestes. consegue a união dentro do PCB em torno da CNOP minimizando os conflitos internos e provocando mais tarde a dissidência de membros dos “Comitês de Ação” que criariam em 1945 o Partido Socialista Brasileiro (Ibidem). Em 1943 funda a Gráfica Urupês e a Editora Brasiliense. Leandro Dupré. retoma sua produção intelectual em artigos. Dedica-se à atividade editorial. Na década de 1940. tendo como linha editorial a ênfase às Ciências Sociais e particularmente estudos e textos voltados à interpretação do Brasil como é o caso da coleção “Problemas Brasileiros”. a qual visava colocar e apontar os problemas nacionais e se possível caminhos para solucioná-los. vindo depois a contar com Monteiro Lobato entre outros. a editora é responsável pela . e chega a ser cotado para candidato à presidência da República com o apoio de liberais e comunistas aos quais servia como interlocutor intermediário (Ibidem). e já nos últimos anos do Estado Novo participa da revista Hoje – O Mundo em Letra e Forma.

texto que articula os principais pontos tratados no I Congresso Brasileiro de Escritores.publicação das obras completas de Lima Barreto. Documento no qual afirma-se ainda a posição dos escritores frente ao Estado Novo e seu compromisso com a defesa do voto direto. o Partido Comunista Brasileiro retoma suas atividades de forma aberta e passa a contar com novos colaboradores entre eles escritores como Jorge Amado. como colaborador e acionista cedendo inclusive uma parte do imóvel aonde se instalava sua editora. Dedica-se neste momento aos estudos de . Volta a ser preso. Participou ainda da criação do jornal Hoje. ainda em 1945. do Partido Comunista Brasileiro. o arquiteto Oscar Niemeyer e inclusive Caio Prado Júnior que iria se candidatar por sua legenda nas eleições de 1945 e 1947. Caio Prado foi o líder da bancada do PCB na Assembléia Legislativa de São Paulo até 1947. o jornalista Aparício Torelli. Em 1945. após dezoito anos na ilegalidade. quando mais uma vez o PCB volta a ilegalidade. com a volta do estado de direito. Monteiro Lobato e Maria José Dupré. Eleito deputado estadual em 1945. o pintor Candido Portinari. figurando como um elemento articulador dos vários segmentos da esquerda brasileira. o fim da ditadura e o exercício da democracia. quando teve seu mandato cassado durante o exercício do governo do presidente Eurico Gaspar Dutra. (Idem. Caio Prado participa da redação final de “Declaração de Princípios”. 2003: 8). Caio Prado Júnior participa no período de ações contrárias ao Estado Novo. após protesto público contra a cassação dos mandatos do PCB e uma vez liberto retoma as atividades junto a editora Brasiliense. Graciliano Ramos e Álvaro Moreira. o físico e professor Mario Schenberg. Com intensa atividade política.

Neste. Gianfrancesco Guarnieri. Gerard Lebrun. Escreve em 1954 Diretrizes para uma política econômica brasileira concorrendo a Cátedra de Economia Política da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo a despeito de reconhecer sua difícil aprovação devido ao conhecido conservadorismo daquela instituição. publicando também artigos na revista Fundamentos – sendo ainda membro da Comissão de Redação da mesma. Afrânio Coutinho. o que colocava a reforma agrária como principal item . Otávio Brandão. Reunindo alguns dos seus artigos. mais uma vez. Caio Prado Júnior lança a Revista Brasiliense. entre outros assuntos Caio Prado discute e. Francisco de Assis Barbosa. Catullo Branco. Édson Carneiro. Florestan Fernandes. Josué de Castro. Maria Isaura Pereira de Queiroz. Antonio Candido. Michel Lowy. em 1979. Pretende ampliar os debates entre os interlocutores interessados em discutir o tema da formação da sociedade e do estado nacional brasileiro através da resolução de suas contradições. A questão agrária no Brasil. Caio Prado Júnior publica. 2003: 22). Jean Claude Bernadet. Fernando Henrique Cardoso. coerente com as publicações da editora. dado a qualidade do material apresentado (Idem.filosofia e economia. Em 1955. se contrapõe à tese defendida pelo PCB sobre os “resíduos feudais” na sociedade brasileira – segundo a qual o principal entrave da economia brasileira era a permanência do latifúndio. Obteve assim o título de livre docente. Entre seus principais colaboradores estavam Manoel Correa de Andrade. Herbert de Souza. Régis Duprat. Elias Chaves Neto. entre outros. uma vez que não havia como sua tese ser reprovada. Edgard Carone. resenhas e editoriais publicados na Revista Brasiliense.

o país deveria ser pensado como economia integrada no sistema mundial do capitalismo. Segundo ele o partido ao pensar e propor caminhos para a sociedade brasileira se apropriava de “modelos estranhos e inaplicáveis” à realidade brasileira. ao homem de pensamento que não se encerra em torre de marfim. Publica em 1966 A revolução brasileira. Por isso criticava os que entendiam ser a reforma agrária o ponto chave para o desenvolvimento do socialismo mesmo porque já havia apontado a natureza capitalista da agricultura brasileira. obra em que analisa as perspectivas econômicas e políticas do período e critica escolhas e erros do PCB. O discurso que fez ao receber o prêmio Juca Pato (intelectual do ano) pode ilustrar seu ideal para uma prática intelectual: “refiro-me ao intelectual atuante. 2003: 23). E sim aquele que procura colocar o seu pensamento a serviço da coletividade em que vive e da qual efetivamente participa” (Apud Karepovs. prisões e submetido a depoimentos. mais uma vez. Por esta época o historiador paulista reafirma sua condição de intelectual cujo pensamento estava articulado à prática política. e daí contempla sobranceiro o mundo. 2003: 24). deste feita pelo DEOPS-SP. Durante todo este período a Editora Brasiliense e sua livraria estiveram sob o controle sistemático da censura tendo Caio Prado sofrido apreensões. Para Caio Prado que defendia a tese da inexistência de um feudalismo no Brasil. .de resolução dos problemas nacionais. Caio Prado Júnior atribuía ao desconhecimento das reais condições e necessidades do país o fracasso político do PCB em 1964 (Karepovs. detido. Em 1964 a Revista Brasiliense foi extinta por ordem do regime militar que se instaurara em Abril daquele ano e Caio Prado foi.

O que é liberdade? (1980). Em tese escrita e intitulada Historia e Desenvolvimento criticava a política econômica em curso na época que se mostrava equivocada por se basear em modelos criados para casos onde o capitalismo já havia amadurecido (Ibidem). Esboço dos fundamentos da teoria econômica (1957). Consta que o autor pretendia dar continuidade ao trabalho noutros volumes que seguiriam ao publicado em 1942 dedicado à colônia. Concorre.Em decreto de 1969 foi “aposentado” de sua condição de livre-docente na Faculdade de Direito da USP. no entanto. Não há consenso. Escreveu além das obras já citadas. Dialética do Conhecimento (1952). quanto número de volumes previstos no . Notas introdutórias à lógica dialética (1959). Formação do Brasil Contemporâneo e as questões do seu tempo Caio Prado Júnior escreve Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia interessado em dar conta do que chama de “sentido da formação” da realidade do Brasil até o presente em que vivia. O que é filosofia? (1981) e A cidade de São Paulo (1983). 2. Deste esforço publica O estruturalismo de Levi-Strauss e O marxismo de Louis Althusser. É prejudicado pelo AI-5 e impedido de atingir seu objetivo. instigado por amigos e inclusive pelo próprio Sérgio Buarque. à livre-docência em História com fins de ocupar a cadeira de Sérgio Buarque de Holanda. Foi indiciado e condenado a quatro anos de prisão ficando preso até 1971 na Casa de Detenção Tiradentes sendo depois transferido para o Quartel de Quintaúna. Durante este período se dedica à revisão e debate de idéias em voga entre a intelectualidade da época e que julgava mal pensadas.

animada pelas discussões contemporâneas ao centenário da Independência. segundo Francisco Iglesias. tendo uma extensa produção intelectual. por exemplo. deixando de lado a análise dos aspectos sociais e políticos que distinguem Formação do Brasil Contemporâneo. momento em que “o país crescera em população e vê o despertar de uma consciência crítica mais profunda e menos episódica” (Iglésias. Os motivos pelos quais desistiu de continuar sua empresa não nos é conhecido. de Oliveira Vianna. com os trabalhos. de fato. “se dá uma tentativa de redescoberta do Brasil”. pelo movimento modernista. Carlos Nelson Coutinho (1989: 115) e José Roberto do Amaral Lapa (1999: 261) falam em mais 3 volumes que chegariam a contemporaneidade. Tal renovação. e tampouco foi apontado pelos intérpretes anteriores. no entanto que Caio Prado Júnior. tendo o livro obtido vários anexos posteriores. e Retrato do Brasil (1928) de Paulo Prado. quando. atêm-se em História Econômica do Brasil na análise das conjunturas e processos econômicos. Embora retomando parte deste e seguindo sua análise até 1976.projeto original que. particularmente Populações Meridionais do Brasil (1920). pela repercussão da revolução russa no Brasil. já perceptível na década de 1920. partira para outros campos do saber como o da filosofia e que em História Econômica do Brasil. devemos situar este trabalho dentro do quadro de uma renovação intelectual. percorre todo o trajeto antes imaginado para Formação do Brasil Contemporâneo de 1942. entre outros fatores. de 1945. Já Francisco Iglésias (2000: 203). Sabemos. Quanto ao horizonte ou contexto intelectual de Formação do Brasil Contemporâneo. se enquadra em . 1982: 12). não chegou a se efetivar. fala em apenas mais dois volumes.

este “publicado quando estávamos na escola superior” (Candido. sugere o autor: . abafado pelo Estado Novo” (Ibidem). seis anos depois do segundo. também Octavio Ianni entende que com Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior respondia. Observa Candido que estes livros procuravam exprimir “a mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e análise sociais que eclodiu depois da Revolução de 1930 e não foi.discussões acerca do desejo de busca de uma identidade nacional que integrasse todo o território e que colocasse o país no curso da modernidade. Formação do Brasil Contemporâneo surgiu nove anos depois do primeiro. da distribuição e do consumo (Idem. Trazendo para a linha de frente os informantes coloniais de mentalidade econômica mais sólida e prática. em pleno Estado Novo repressivo e renovador. Sobre Caio Prado Júnior e Formação do Brasil Contemporâneo neste contexto sugere Antonio Candido: Diferente dos anteriores [ refere-se a Casa-grande & Senzala e Raízes do Brasil]. apesar de tudo. política e cultural da década de 1930 e se inspira nesta com o intuito de prover de teoria um determinado apetite político e intelectual característico de seu tempo. 1995: 11). Nesse sentido. Nele se manifestava um autor que não disfarçava o labor da composição nem se preocupava com a beleza ou expressividade do estilo. dava o primeiro grande exemplo de interpretação do passado em função das realidades básicas de produção. Na mesma direção de Antonio Candido. de um lado. Discutindo o “significado” de Raízes do Brasil (1936) em prefácio ao livro de Sérgio Buarque de Holanda. Antonio Candido sugere que a sua própria geração aprendeu “a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos de passado e em função de três livros”: o próprio Raízes do Brasil. à intensa agitação social. 1995: 9). Casa-grande & Senzala de Gilberto Freyre e Formação do Brasil Contemporâneo.

a de Caio Prado Jr. 63). pode ser tomada como uma interpretação diferente. Martins de Almeida. De todo modo. Gilberto Amado. e mais abertamente a partir dos anos 30. Caio Prado Júnior dialogava com vários autores contemporâneos e anteriores a ele. sugere Octavio Ianni. antes e depois do lançamento desse seu livro em 1942 [Formação do Brasil contemporâneo]. 1989. Oliveira Viana. Já José Roberto do Amaral Lapa observa que.pode-se dizer que há uma contemporaneidade entre a interpretação desenvolvida por Caio Prado e as controvérsias e os dilemas com os quais a sociedade brasileira passou a defrontar-se desde décadas anteriores. Manoel Bonfim. formular e aprimorar uma nova interpretação dos contornos e movimentos mais característicos da formação social brasileira” (Ibidem). 1989: 64). De outro lado. Afonso Arinos de Mello Franco. propostas e interpretações (Idem. Caio Prado mostra-se conhecedor de “estudos. contudo. suscitaram outras e novas idéias. aos quais. . Jackson de Figueiredo. repensa o presente e abre perspectivas sobre tendências futuras (Ibidem). Sérgio Buarque de Holanda e outros. José Maria Belo. p. Euclides da Cunha. Vicente Licínio Cardoso. desafiavam grupos e classes. Roberto Simonsen. Nesse sentido sugere o autor: diante das interpretações de Oliveira Lima. quanto à “produção acadêmica que lhe foi contemporânea. política e cultural. Pandiá Calógeras. As agitações e as crises provocavam todos. movimentos sociais. A agitação social. como observa Ianni. juntamente com os impasses e as crises da economia. de que em alguns casos diverge quando não altera algumas de suas teses. partidos políticos e intelectuais. pouco se refere no livro (Idem. 1999: 261). Azevedo Amaral. controvérsias e interpretações contemporâneas e anteriores” não desprezando o desafio de “equacionar. Gilberto Freyre. original e influente. pois redescobre o passado. à exceção de Casa-grande & Senzala (1933) de Gilberto Freyre. ignorou-os solenemente” (Lapa.

B. e Viagem pelo Brasil de J. não concedendo sequer uma citação dessa produção. von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius entre numerosos outros relatos. 1817. Caio Prado Júnior “revelou auto-suficiência. já que no período colonial havia apenas . registros informativos com dados demográficos. Já quanto às fontes primárias. 1999: 260). ao não incorporar a “literatura científica sobre os temas de que trata”. segundo o autor. 1816. par S. Francisco et dans la province de goyaz. ainda que Caio Prado Júnior fosse “mais freqüentador de bibliotecas do que de arquivos” (Idem. S. cartas descritivas da costa brasileira. com critério e segurança capazes de superar leituras outras. memórias e corografia histórica. feitas por diferentes autores com resultados menos expressivos” (Ibidem). Amaral Lapa sugere que. scientifiques et historiques en Amérique. vale destacar Voyage au Brésil dans les annés 1815. estudos de itinerários e notícias descritivas em geral. A utilização de tais fontes explica-se. A. “faz uma leitura atenta e inteligente. que percorreram caminhos semelhantes. Maximillien. Voyage aux sources du Rio de S. Sobre a literatura de viajantes. Dentre as fontes mais freqüentemente mobilizadas em Formação do Brasil Contemporâneo destacam-se a literatura de cronistas e tratadistas que escreveram sobre a colônia. Brésil de Henri Koster. Voyage dans les provinces de St Paul e Sainte Catherine e Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Gerais de Auguste Saint Hilaire. ignorando-a simplesmente” (Ibidem).Para José Roberto do Amaral Lapa. bem como os relatos de viajantes. na medida em que o livro foi sendo reeditado. do príncipe Maximillien de Wied-Neuwied. Voyagens pitoresques. pela inexistência de coleta sistemática de dados.

deixando transparecer suas . nenhuma disposição de aceitar categorias banhadas em certa aura qualitativa – como “feudalismo” ou “família patriarcal” -. devido ao desinteresse ou recusa da população em se alistar. 1995: 11). uma série de relações sociais estigmatizadas por outros autores. o materialismo histórico. com ferramentas bastante distintas da de outros ensaios do período. No plano metodológico. Antonio Candido: Nenhum romantismo. inteiramente afastada do ensaísmo (marcante nos dois anteriores) e visando a convencer pela massa do dado e do argumento. como sugere. mostravam-se falhos devido tanto à relutância dos mesmos diante dos párocos. e que. por exemplo. Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia (1942). Como os recenseamentos eclesiásticos visavam a oneração dos fiéis organizados em paróquias. opera. aparecia pela primeira vez como forma de captação e ordenação do real. desligado de compromisso partidário ou desígnio prático imediatista (Candido. nessa obra. uma exposição de tipo factual. trazendo para a sua interpretação uma visão objetiva da vida da colônia. Formação do Brasil Contemporâneo teria desmistificado. quanto à sonegação destes que dissimulavam o tamanho de suas paróquias às autoridades superiores da Igreja Católica. Caio Prado destaca que somente pelos últimos anos do século XVIII tem-se noticia de um recenseamento seguro da ocupação que prescrevia por volta de quatro milhões o contingente populacional da época entre brancos e índios (Prado Júnior. Nesse sentido. mas o desnudamento operoso dos substratos materiais. que vinha sendo em nosso meio uma extraordinária alavanca de renovação intelectual e política. no entanto. em conseqüência. 1945). a relutância em se declarar era ainda maior. No caso do recrutamento militar.recenseamento com fins específicos tais como os eclesiásticos e militares. Como linha interpretativa. como sugerem os diferentes intérpretes vistos no capítulo anterior.

tanto a maior parte da população da colônia. com o intuito por hora de indicar a estrutura do texto. 2000: 158.10 Caio Prado Júnior. Bernardo Ricupero sugere que num confronto entre as suas obras capitais. o do aventureiro”. 2000: 157-8. Formação do Brasil contemporâneo. os usos da terra. para Ricupero mostrou como a sociedade que começou a se formar no Brasil a partir da Colônia se organizou toda ela para produzir alguns gêneros tropicais demandados pelo mercado externo. pode-se notar que não é a família patriarcal ou o aventureiro que explicam a colônia. 2000.cruas relações. isto é. realçando o seu caráter econômico e fazendo saltar a vista as relações de exploração e opressão a que esteve sujeita (fazendo uso de terminologia nova). mas ao contrário. “respectivamente o desenvolvimento de toda uma civilização a partir da família patriarcal e ação de um ethos particular na colônia. gerando um determinado tipo de cultura e herança que. 1994. sobre Sérgio Buarque de Holanda. o sentido que assumiu a colonização no Brasil que faz com que aqui tenha se desenvolvido um certo tipo de família e de ethos (Idem. bem como os bens naturais de que dispunha. nota 55). não discutiram o seu sentido (Ricupero. . ver Wegner. ver Araújo. Casa-grande & Senzala e Raízes do Brasil. A partir daí. nota 55). ressalta que mesmo Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda tendo identificado questões centrais para nossa formação. etc. segundo o autor se manteve constante e quase inalterado em certos cenários a que teve a oportunidade de conhecer por meio de viagens. A 10 Sobre Gilberto Freyre. Comparando Caio Prado Júnior aos seus “companheiros de geração” Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Faremos a partir de agora uma breve apresentação de Formação do Brasil Contemporâneo.

bem como a análise de outras ferramentas e metodologia aplicadas por Caio Prado Júnior na confecção daquele texto serão objeto do terceiro capítulo desta dissertação. nele encontramos um estilo enxuto. os fluxos da população em correntes de povoamento e. no item denominado “Raças”. o autor trata dos aspectos humanos da formação da colônia dando especial atenção à distribuição da população ao longo do território. “Povoamento”. períodos curtos e os fatos que pretende esmiuçar e rever para a história da ocupação do território.11 Formação do Brasil Contemporâneo divide-se em três partes – “Povoamento”. já que esta é que propriamente colocou em movimento. a constituição da população. Caio Prado Júnior analisa o povoamento. constituiu o objeto da sua narrativa. Na primeira parte. a qual. para o autor. no qual Caio Prado Júnior “expõe a sede do seu pensamento em relação à história do Brasil” (Lapa. “Vida material” e “Vida social” antecedidas por uma introdução e o texto “Sentido da colonização”. Neste primeira parte. . portanto. documentados em registros estatísticos localizados e examinados a luz da particularidade de cada região. um determinado tipo de civilização. Caracterizando o povoamento da colônia como sujeito a uma “evolução” entrecortada por períodos de mudanças e revoluções estruturais significativas 11 A discussão sobre a idéia de “sentido da colonização” também será contemplada no próximo capítulo. Ao contrário de heróicos personagens descobridores com epítetos retóricos e comentários ornados de adjetivos tendenciosos. Nota-se já neste primeiro capítulo de Formação do Brasil Contemporâneo toda objetividade e rigor formal que Caio Prado Júnior pretende dispor ao longo de seu trabalho. do litoral e do interior. por sua vez. 1999: 260).problematização da categoria de formação.

O povoamento estava longe ainda da estabilização. a população refluía de um para o outro ponto. Sugere o autor a colonização não se aquietara: ocupavam-se novos territórios até então desertos. Mato Grosso e Goiás que provoca brusco deslocamento de contingentes populacionais criando uma nova estruturação das relações sociais e econômicas da colônia. adensando-se nalguns. reduzindo-se em outros. 1945: 65) Caio Prado distingue três grandes fases na evolução: a primeira começa com a colonização e se estende até o fim do século XVII. Caio Prado chama a atenção para o fato de que a ocupação do território colonial português na América respondeu à determinados fins alheios ou exteriores. sem os abruptos deslocamentos ocorridos anteriormente e para Caio Prado desemboca no momento de que pretende dar conta em seu recorte temporal. a segunda se inicia com uma revolução demográfica e dela decorre a descoberta do ouro. A terceira fase se dá de forma paulatina. senão trágico. reflete antes tendências que resultados adquiridos (Prado Júnior. e o quadro que a sua estrutura apresenta em qualquer momento é mais que provisório. Princípio que vai tornando aparente determinados caracteres gerais de nossa formação.devido ao caráter ou sentido da colonização. os quais nos delimitam como um determinado tipo de contorno e aspecto. aspecto de nossa formação social – fato que parece ainda não ter de todo deixado de nos caracterizar até hoje – é a capacidade de mobilidade da população brasileira atestada no texto através de testemunho do . Minas. o deslocamento da produção da pecuária para o Sul – em decorrência da seca nos sertões nordestinos favorecendo a agricultura e enfim remodelando a feição colonial. abandonavam-se outros já devassados. De relativa brevidade esta fase tem sua derrocada com a decadência da mineração. Curioso.

Nisto temos a constituição de uma constante no “espírito” de uma população. a extrema mobilidade da população brasileira”. um comércio instável e precário sempre [.] a colonização não se orienta no sentido de construir uma base econômica sólida e orgânica. bem como suas distintas contribuições na formação social brasileira. “emigrava-se às vezes por nada. para o historiador paulista cultivava-se a cana como se extrai o ouro. como mais tarde se plantará algodão ou café: simples oportunidade do momento. Estrangeiros foram proibidos quando da ocasião da descoberta do ouro tendo sua vinda para o Brasil sido possível durante curto período de tempo. com a acuidade de sua visão. Destaca na composição da colônia até o início do século XIX que o “branco” que para cá se deslocou era “quase que só de origem portuguesa”.. e com simples e vagas esperanças de outras perspectivas” (Idem. “compreendendo-o e dominando-o”. (XIX). Em um primeiro momento que vai até a segunda metade do século XVII a imigração é escassa exercendo a colônia pouco atrativo à . com vistas para um mercado exterior e longínquo. o mesmo lamenta que o estudo quanto às especificidades dos diferentes povos negros que aqui aportaram. isto é a exploração racional e coerente dos produtos do território para a satisfação das necessidades materiais da população que nela habita. No item que Caio Prado Júnior dedica à composição étnica da colônia. escolhido o católico. 1945: 67). Daí a sua instabilidade. Observa ainda que o critério utilizado na escolha dos colonos era religioso. fato que segundo Caio Prado é próprio de uma população que não se ajustou completamente a seu meio. com seus reflexos no povoamento determinando nele uma mobilidade superior ainda à normal dos países novos (Ibidem). ainda não havia sido estudada de forma sistemática – assim como acontecia com os povos indígenas.viajante: “Saint-Hilaire viajando pelo Brasil em princípios do século passado. notará..

e como trabalhador. Também os judeus têm importância nesta fase da colonização. muitas vezes tinham por objetivo fins contrários aos daqueles. Outra força interessada na domesticação indígena eram os jesuítas que.Metrópole. Neste ponto o autor discute um tema comum na época revelando. tendo o comércio com o Oriente desaparecido. A esse fato seguiu a perseguição e a legislação restritiva de sua prática cujo ponto mais alto é precisamente a perseguição adotada e representada pelo Marquês de Pombal. e pretendiam. o negro teve. Isso se deu já no século XVIII. Portugal empobrecido. Neste momento. 1945: 83). vindo desde fidalgos e letrados – com fim de ocupar cargos administrativos. maior importância na constituição da população brasileira. Atuavam em ‘reduções’. para Caio Prado Júnior. ainda como escravos. sem resquícios de “ressentimentos” . tem início um grande fluxo de emigração para a colônia. um terço da população e constituindo parte do percentual restante. do lado dos colonos. Em crise. defender os interesses da Igreja. tentou-se organizar a colônia por meio do trabalho de seus habitantes nativos. como se chamavam as aglomerações indígenas organizadas pela Companhia de Jesus. e seus métodos antes tornava em “autômatos” os “catequizados” que os preparava para a “utilidade” pretendida por colonizadores portugueses. à luz dos objetivos da metrópole que naquele momento só pensava em ocupar o território. segundo Caio Prado “contribuem em boa proporção para as correntes povoadoras os degredados” (Idem. Representando. No primeiro momento. Caio Prado destaca que o interesse advém de diversas categorias sociais. segundo Caio Prado. até indivíduos de classes menos abastadas. ao propagarem a fé católica. Pretendeu-se aproveitar o índio como povoador.

No Brasil “as uniões mistas se tornaram a regra”. 1945: 103-104). que mais tarde separada da mãe-pátria. signo sob o qual se formou a etnia brasileira. portanto “uma resultante do problema sexual do colono branco” (Idem. Graças a ela. juntas e mesclando-se sem limite. Guardando as proporções entre elas escreve: “são juntas que devem figurar. É uma tal aptidão que o Brasil deveu a sua unidade. a sua própria existência com os característicos que são os seus. A essa capacidade do português de se misturar no quadro da população nativa e escravizada em parte atribui-se a falta de mulheres brancas no primeiro momento devido ao caráter aventuroso do emigrante português que buscava na colônia uma forma de enriquecimento e que pelo risco parte só – fato que distingue o tipo de colonização que terá curso no Brasil. 1945: 102). sem as imagens românticas de outros escritores. Confrontando a colonização submetida ao Brasil e aos Estados Unidos. numa orgia de sexualismo desenfreado que faria da população brasileira um dos mais variegados conjuntos étnicos que a Humanidade jamais conheceu” (Ibidem).ou “problema”. segundo o autor. a constituição mestiça da população: “é este o caráter mais saliente da formação étnica do Brasil: a mestiçagem profunda das três raças” (Idem. Caio Prado Júnior sugere: “Nos atuais Estados Unidos a imigração por grupos familiares é numerosa” e havia o recrutamento de mulheres menos favorecidas que partiam para o Novo Mundo afim de povoar o território. o número relativamente pequeno de colonos brancos que veio povoar o território pôde absorver as massas consideráveis de negros e índios que para ele afluíram ou nele já se encontravam. sendo. pôde impor seus padrões e cultura à colônia. resulta de excepcional capacidade do português em se cruzar com outras raças. . conservará os caracteres de sua formação (Ibidem). No entanto o fator de branqueamento foi. Linguagem realista e clara. o texto de Caio Prado é objetivo: a mestiçagem.

pecuária.maior ou menor composição do sangue branco significou sempre maior ou menor fortuna. vias de comunicação e transporte. Este fato é primordial no entendimento dos problemas que seguirão o sentido visado pelo . com destaque para as atividades desenvolvidas e empreendidas ao longo do território. Assim a organização. A segunda parte do livro é dedicada à análise da vida material da Colônia. Todo mais que nela existe.sempre uma constante nas relações sociais que caracterizam o Brasil . 1945: 105). a fazenda em detrimento da pequena exploração do tipo camponês. o ouro.”. e que é aliás de pouca monta.. artes e indústrias. mineração. o engenho. Esta parte se subdividirá entre as seguintes atividades: grande lavoura. é marcada profundamente pelo que Caio Prado Júnior caracterizou ser o sentido da sua formação: “colônia destinada a fornecer ao comércio europeu alguns gêneros tropicais ou minerais de grande importância: o açúcar. ou ainda: “a nossa economia se subordina inteiramente a este fim. isto é. 1945: 117). Ilustrando a questão. se dá por meio da grande propriedade monocultora. será subsidiário e destinado unicamente a amparar e tornar possível a realização daquele fim essencial” (Ibidem). visando a agricultura como garantidora do fim exposto acima. A vida material da colônia.. (Idem. se organizará e funcionará para produzir e exportar aqueles gêneros. o algodão. comércio. agricultura de subsistência. bem como seu povoamento. Caio Prado destaca o depoimento do viajante Martius que se “refere que muitos aventureiros europeus passavam no Brasil uma vida descuidada de cidadãos abonados graças aos casamentos realizados em famílias que estavam procurando ‘apurar’ o sangue” (Idem. produções extrativas.

a produção e a extração interna de produtos comercializáveis era quase toda voltada para o mercado externo. Encontramos aí uma síntese que a resume e explica” (Idem. e já quase extinta de todo neste século XVI” (Idem. 1945). o baixo nível técnico (Idem. O ciclo extrativo do pau-brasil. o simples povoador. 1945: 235). etc. No item “Grande Lavoura” Caio Prado Júnior afirma ser a agricultura “o nervo econômico da civilização”. sua natureza e organização. melhor que a de qualquer um dos setores particulares da produção. Por ora nos limitamos a registrar que uma tal exploração é vista de forma crua por nosso autor que escreve: “é aliás esta exigência da colonização dos trópicos americanos que explica o renascimento da escravidão na civilização ocidental em declínio desde fins do Império Romano. como demonstra sua exposição. o empresário de um grande negócio. o cacau. é com ela que se inicia a ocupação do território brasileiro. 1945: 118). Caracterizou a prática agrária durante seus diferentes ciclos. só contando o comércio interno com restrita agricultura de subsistência e comércio local. mas o explorador. Vem para dirigir” (Idem. não é o trabalhador. . café. Caio Prado Júnior afirma que “o estudo do comércio colonial” coroa a tese principal de seu texto: “a análise da estrutura comercial de um país revela sempre. tabaco. antes do cultivo da cana-deaçúcar se mostrou menos importante. A interpretação deste sentido de colonização vamos discutir no próximo capítulo. 1945: 120). Quanto ao comércio. o caráter de uma economia. o anil.colonizador: “o tipo de colono europeu que procurou os trópicos e nele permaneceu. cana. ou seja. Em nosso caso.

no período em que se ocupa – princípios do século XIX. no mundo antigo. seguindo uma linha evolutiva do pensamento europeu. Destaca o fato de que a escravidão apresenta. que. “nasce de chofre. tendo status para o . que se fosse adotar por aqui preceitos morais já ultrapassados por uma ordem material que visou exclusivamente um enriquecimento comercial no vasto território encontrado. uma vez que o escravo é utilizado nos mais diferentes ramos e atividades. Herança que segundo Caio Prado Júnior vem a se incorporar ao “conceito do trabalho”. Restaura apenas uma instituição justamente quando ela já perdera inteiramente sua razão de ser. por exemplo. Tendo em seu caso moderno surgido junto com os grandes descobrimentos. no caso dos trópicos americanos. seja diretamente.A terceira parte por fim cuida da vida social tratando dos aspectos da organização social. assume caráter pejorativo. não se liga a passado ou tradição alguma. e fora substituída por outras formas de trabalho mais evoluídas” (Ibidem). deixe de atingir. O texto de Caio Prado Júnior assume aqui um tom de perplexidade um tanto irônica pois. e de um modo profundo. um fator de identificação da sociedade brasileira pois como afirma em nenhuma outra sociedade uma prática de tal natureza importou tanto para a constituição de “todos os setores da vida social”: “Organização econômica. 1945: 277). padrões materiais e morais nada há que a presença do trabalho servil quando alcança as proporções de que fomos testemunhas. iluminado por questões próprias as da lógica-filosófica não se poderia prever. feições jamais correlatas a outros casos em que ocorre. vida social e política. Caio Prado Júnior identifica na instituição da escravidão. administração. século XV. seja por suas repercussões remotas” (Idem. no Brasil.

uma prática mercantilista injustificada por qualquer estrutura de pensamento moderno. para o autor. que a dará identidade e da qual surgirá. Desta distorção histórica surge um tipo de sociedade que. ou diretamente. ou substituindo-a lá onde um sistema organizado de vida econômica não pôde constituir-se ou se manter (Idem. não ultrapassam contudo um plano muito inferior. De um corpo informe e inconsistente vai compor uma realidade social diversa e única. A inorganização é aí a regra. 1945: 356). no século XVI. à medida que se torna mais livre.homem livre apenas raras ocupações. O que faz prever: aquela parte da população que o constitui e que vegeta à margem da vida colonial. não é senão um derivado da a escravidão. Tal realidade prescreve problemas sérios para o país. Caio Prado Júnior identifica na reinvenção da escravidão. Como sugere o autor: A escravidão e as relações que dela derivam. o que se mantém à margem da escravidão. em certo sentido. a situação se apresenta. se bem que constituam a base do único setor organizado da sociedade colonial. menos apresenta organicidade social. e não frutificam numa super-estrutura ampla e complexa. pior. e tivesse permitido a esta manter-se e se desenvolver. Serviram apenas para momentaneamente conservar o nexo social da colônia. a sociedade brasileira contemporânea. . no outro setor dela.

Formação: sentido e processo É fato que em Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior toma o século XIX como “momento decisivo” a ser estudado para a compreensão da realidade social e política do Brasil. à observância de um longo período histórico. A razão desta escolha é dupla: de um lado. o autor pretende elaborar uma narrativa. Nestes termos a obra pretende dar conta de conhecidas questões sociológicas que.CAPÍTULO 3 A IDÉIA DE FORMAÇÃO Discute-se neste capítulo a idéia de formação em Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior procurando mostrar como tal idéia permitiu ao autor formular uma interpretação da estrutura social da Colônia e do sentido da colonização. o historiador de servir-se desse estudo como meio segundo o qual pode efetivamente entender a realidade social . é o momento onde estão depositadas as possibilidades para o futuro do País. Importa ressaltar que tomar o processo de formação do Brasil como objeto não impede. ou pelo menos não deve impedir. entender a que deve sua formação e constituição. é um momento de síntese de “três séculos de colonização”. das formas de sociabilidade que foram se forjando nesse processo de constituição da sociedade brasileira. como também. Em outras palavras. indagam sobre a unidade da sociedade e território brasileiros. em síntese. para explicitar o processo histórico cuja resultante é o Brasil contemporâneo. de outro. ou seja.

2000: 1). à época deste texto Caio Prado Júnior já havia começado a desenvolver método e estilo bastante diverso do corrente entre os intérpretes do país até aquele momento. João VI para o Brasil e a data da Independência como objeto historiográfico de primeira importância uma vez que: “o início do século XIX não se assinala para nós unicamente por estes acontecimentos relevantes que são a transferência da sede da monarquia portuguesa para o Brasil e os atos preparatórios da emancipação política do país” (Prado Júnior. no Brasil Contemporâneo? Todas estas questões iluminam a função central. Talvez aí possamos ler uma crítica velada à história “oficial” ou melhor. ao modo então mais corrente de se fazer história. Mas o que pode revelar este decidido afastamento de eventos políticos? O que muda quando começamos a falar em formação? Mais ainda. seguindo sua experiência precedente. bem como vislumbrar suas possibilidades futuras. a vinda de D. seria no mínimo estranho um texto sobre história o afastar-se dos acontecimentos políticos. fica clara a função central da noção de formação para os propósitos de Caio Prado Júnior. por que o acento tão forte.brasileira. indicado no título. segundo . O tom da primeira página do livro pode ser indicativo desta suspeita. João VI para o Brasil. Anuncia assim que pretende romper com determinada forma e conceito de historiografia. quase que sua gênese social. por exemplo. pois para o autor seria equivocado demorar-se em sobre-valorizar a vinda de D. no “fim da história”. como falamos no primeiro capítulo. Assim formulado o projeto do livro. Não fosse uma preocupação com a formação do País.

sua tese central. por um lado. os aspectos fundamentais da formação da realidade contemporânea: Caio Prado Júnior elege este período como divisor de águas no quadro amplo que pretende desenhar. para Caio Prado Júnior. segundo cremos. ele inaugura. Pois.pretendemos sustentar. social. e representa como imagem concreta. Trata-se de momento chave precisamente pois. o início do século XIX. pensando-os como totalidade (Ibidem). a despeito de outros intérpretes do pensamento social brasileiro. como uma síntese dos fatos e acontecimentos mais relevantes. uma nova fase” (Ibidem). corresponder o momento ao primeiro que “contém o passado que nos fez” (Ibidem). à luz de um corte temporal determinado. Por outro lado. como propício para um balanço final da obra da colonização. Retomemos. político e econômico. uma identidade formada no decorrer dos trezentos anos passados. prende-se ao fato de que Caio Prado Júnior entende. como chave. Tal momento histórico: “marca uma etapa decisiva em nossa evolução e inicia em todos os terrenos. momento em que já estão presentes suas características mais profundas. Mas a análise deste momento deve possuir um olhar atento para ser capaz de “eliminar” os eventos “acidentais” e “intercorrentes” e ousar avistar o período. desvela. abre. deve-se notar. como objeto de análise. então. um tempo em que primeiro esteve presente em conjunto os elementos que comporiam a nossa identidade e a nossa unidade como nação. Seu objetivo é o de rever. uma análise da mesma pode desbaratar semelhantes perguntas. Caio Prado Júnior pretende que este seja o momento chave “para se acompanhar e interpretar o processo histórico posterior” (Ibidem). da categoria de formação nesta obra. Nas palavras do . A relevância atribuída a este. Para o autor o momento se apresenta.

Percebe-se também a influência do pensamento de Karl Marx para quem. por sua vez. a idéia do momento histórico atual como síntese de um processo é fundamental. Afastar-se da política é estratégia metodológica para isolar o que é “exterior” e captar o que é efetivo. Afinal. Corresponde a estrutura em formação então à “base” sob a qual se constrói o quadro do Brasil contemporâneo. Mais ainda. Por outro lado. inspira-se nisso em Hegel ou. foi neste contexto que pela primeira vez se separou uma Historie – disciplina do entendimento – de uma Weltgeschichte – um discurso sobre o sentido necessário da história. o presente histórico só pode ser efetivamente compreendido mediante sua gênese. Não é á toa que era caro aos idealistas de uma maneira geral a importância da noção de organismo. seja na fase da Ideologia Alemã seja na fase madura do Capital. e para compreender esta gênese o estudioso deve deixar de lado o que é mero evento exterior. algo cuja compreensão depende de uma gênese (Lebrun. 1986: 75). mero reflexo de outra coisa. para isso constrói sua narrativa. é bom lembrar que o próprio Marx. Percebe-se que Caio Prado Júnior está pensando em termos de construção de teoria e que. podemos entender as questões acima levantadas a respeito de Caio Prado Júnior. segundo a crítica especializada. em termos caros aos . Nestes termos. e debruçar-se sobre o que foi efetivo nesta formação. então. desabrocham e se completam” (Ibidem). mais remotamente. e seu corte temporal pode ser entendido como uma ferramenta de análise da realidade social.autor: “Alcança-se aí o instante em que os elementos constitutivos da nossa nacionalidade – instituições fundamentais e energias – organizados e acumulados desde o início da colonização. no Idealismo alemão. econômica e política do País.

grande lavoura. Pensar Formação do Brasil Contemporâneo sem sublinhar seu método inspirador seria incorreto. colonizador. Se é assim. outros intelectuais tentaram. mas. econômica e política do País nos termos de uma luta de classes que teria se configurado sucessivamente nos modos de produção tribal. em segundo. é. Não é essa. passar da super-estrutura para a infra-estrutura. evadir-se de uma historiografia que tem a narrativa histórica como único fim e assumir a história como uma ferramenta de análise para os problemas sociológicos da atualidade. raças.marxistas. não fará mais que importar sua estrutura metodológica voltando-se para aquilo que há de concreto em nosso história: povoamento. buscavam entender os problemas da realidade social. O problema básico de tal esforço. Mas falar da influência do pensamento marxista em Caio Prado Júnior não esgota a riqueza de sua obra. A tarefa do intelectual seria compatibilizar a diacronia européia com o processo de constituição do Brasil. inspirados na Ideologia Alemã. todavia. interpretar a história do Brasil à luz de teses marxistas. seria o de construir uma esquematização por demais formal de interpretação ao fazer corresponder ponto a ponto o universo europeu. compreender o presente histórico como resultado de um longo processo. . o Brasil Contemporâneo. vias de comunicação. com o brasileiro. quase que pela mesma época. colonizado. a influência do pensamento marxista em Caio Prado Júnior. segundo cremos e por assim dizer. Ele não repetirá a equação da ideologia Alemã mudando seus termos. podemos ironicamente dizer que importa a Caio Prado Júnior a formação do Brasil e não sua história propriamente. Grosso modo. feudal e burguês. em primeiro lugar. mineração. Afinal. Destacar o “fim” da história no título. ao que parece.

Por isso Caio Prado Júnior. mas verdadeiramente um marxista brasileiro. Para quem pudesse considerar isto pouco marxista. “não é qualquer marxista do Brasil. descrita no capítulo anterior. isto é. afinal.administração etc. alguém que abre caminho para a aproximação da teoria marxista com a realidade brasileira” (Ricupero. que o próprio Marx fez em relação às suas fontes de inspiração intelectual. ele poderia responder perguntando se não foi isso. seja os economistas ingleses seja Hegel. Em Formação do Brasil contemporâneo o período colonial é pensado como sendo um período em que esteve a colônia subjugada à ação e obra da metrópole. – para citarmos alguns dos tópicos do próprio índice do livro. Caio Prado Júnior não entende ser a decadência do Reino o motivo principal de sua crise e derrocada: . 2000: 24). Haveria outra forma de ser mais marxista? E a história pessoal e política de Caio Prado Júnior. como um empreendimento. e compreender o sentido de nossa história cuja necessidade deveria assentar-se em base efetivamente materiais. período em que nossa formação se dá principalmente pelas mãos de agentes estrangeiros alienados da idéia de nação que para Caio Prado Júnior só começa a fazer sentido a partir da derrocada do sistema colonial. No espírito do que assinalamos acima. revela o quanto questões como essa esgarçaram suas relações com o Partido Comunista. coube a Caio Prado Júnior levar às últimas conseqüências algumas categorias do pensamento marxista. Entendido que fazer análise da formação do País não é reproduzir sua história oficial nem reproduzir formalmente o esquema geral da Ideologia Alemã. como argumenta a propósito Bernardo Ricupero. Assim caracteriza-se por ser um regime de subordinação. notadamente aquela de formação.

avanços e recuos. Ora. político. o sistema colonial na totalidade dos seus caracteres econômicos e sociais se apresenta prenhe de transformações profundas. (Idem. mutatis mutandis. não pode ser entendida de forma linear. mas “com vaivens. interpreta que seu fim se fez necessário pois o conjunto das instituições. por maior que ela fosse: isto não representa senão um fator complementar e acessório que quando muito reforçou uma tendência já fatal e necessária apesar dela (Prado Júnior. ‘localizado’ – para fins teóricos precisamente no ponto circundado como objeto visado pelo historiador. no entanto. substância e densidade própria indicando direções e transformações que lhe eram necessárias e que. tendo Portugal se desligado ou não da função de ‘gerenciar’ a seqüência dos acontecimentos da colônia. Antes.Tínhamos naquele momento chegado a um ponto morto. social. Sente-se que a obra da metrópole estava acabada. 2000: 1-2). se desenrola através de um século e meio de vicissitudes” (Idem. não é exatamente esta a lição a ser tomada da conhecida tese de Marx segundo a qual um modo de produção é superado quando explora todas as suas possibilidades internas e entra em crise? O sistema colonial tem seu termo. 2000: 3). o ponto de partida para sua compreensão do que seja o Brasil contemporâneo. Esta ‘evolução’. em todos os níveis de sua criação – econômico. pois este momento contêm.. no âmago de suas contradições e iminentes instituições. esta tomaria seu rumo seguindo seu quadro evolutivo. etc – “que se prolonga até nossos dias e que ainda não está terminado”. . Não apenas por efeito da decadência do Reino. 2000: 2).. O que se apresenta como futuro para a colônia é o desdobramento de um longo processo histórico. O regime colonial realizara o que tinha para realizar.

que inaugura um modo de vida distinto. até uma consciência. embora em menor escala. mais precisamente uma certa ‘atitude’ mental coletiva particular (Idem. mais as transformações que se sucederam no decorrer do centênio anterior a este e no atual. Percebe-se que Caio Prado Júnior está preocupado em determinar e analisar os elementos constituidores de nossa identidade. e por isso o termo formação lhe é tão caro. tanto do que já havia antes da chegada dos exploradores. resolvê-los. finalmente. organizou-se nele uma vida humana que diverge tanto daquela que havia aqui. é um truísmo que um problema só pode ser resolvido depois de devidamente compreendido. indiretamente. constituída na base de elementos próprios. 2000: 2) – à vista do quadro geral das civilizações. . 2000: 1-2). nossos problemas de país colonizado deveriam ser compreendidos à luz desta “colonização”. até etnicamente e habitando um determinado território. eis o objetivo último da análise. Como historiador pretende demonstrar a especificidade da civilização que se instalara neste território. Criouse no plano das realizações humanas algo de novo. como também. Afinal. quanto da que se desenvolvia à séculos no velho continente. Nossa efetiva formação pode. Este “algo de novo” não é uma expressão abstrata. uma estrutura material particular. Caio Prado Júnior define então o Brasil contemporâneo da seguinte forma: o passado colonial que se balanceia e encerra com o século XVIII. Naquele passado se constituíram os fundamentos da nacionalidade: povoou-se um território semi-deserto. uma organização social definida por relações específicas.Assim como Marx viu na crise de seu presente histórico o momento para refletir sobre a gênese da ideologia alemã. obra inédita ‘no plano das realizações humanas’ (Idem. e. diretamente. explicá-los. concretiza-se em todos os elementos que constituem um organismo social completo e distinto: uma população bem diferenciada e caracterizada. dos indígenas e suas nações. da dos portugueses que empreenderam a ocupação do território.

mas tão somente como forma de melhor expormos os usos da categoria de formação em seu texto. com uma população.‘Algo de novo’. Que nos seja permitido mais uma vez insistir na influência do pensamento marxista em Caio prado Junior. causalidade. Caio Prado Júnior não se demora a colocar que a linguagem de que dispõe. pois outras influências deixam-se transparecer em termos como atitude mental coletiva particular. de uma certa “atitude mental coletiva particular” (Ibidem). não se ocupa de abstrações. 2000: 2). O autor pretende se debruçar sobre as relações sociais específicas que observa neste percurso e que a formação de tal identidade se dá inclusive no surgimento de uma “consciência”. curso teleológico da história. quanto a diferenciação destes elementos – em comparação a outros casos – os tornando “evidentes”. Uma vez que entendemos que o autor faz um uso muito próprio do que se convencionou chamar de “materialismo histórico”. o que ele quer demonstrar é o fato de ter nascido. Em suma. um organismo social distinto. que . da infra para a super-estrutura (na linguagem marxista). uma sociedade que tem por base de constituição elementos próprios e que por isso demanda uma narrativa de esclarecimento. em idéias de síntese. sem obviamente qualquer pretensão de esgotar o assunto. inclusive no campo de sua constituição étnica. “bem diferenciada e caracterizada” (Idem. do “povoamento” para uma “atitude mental coletiva particular”. ao longo do período colonial. na construção de sua teoria. uma estrutura material. apontamento. toma como pressuposto metodológico que a compreensão de uma realidade histórica deve ir do material para o espiritual. mestiça – em sua próprias palavras. por via da objetividade da análise histórica.

. ao escrever primeiramente as histórias da sociedade burguesa. e fazer-lhe justiça.. jamais tiveram um único historiador. não devemos ignorar o pressuposto fundamental de seu materialismo. 1984: 53). um só historiador e a história estava por se fazer. Para ilustrar a importância de Marx. até chegar em Marx. pois pensamos ser estes trechos bastante significativos para o entendimento do método utilizado por Caio Prado Júnior. no entanto. empíricos. as primeiras tentativas para dar à história uma base materialista. Embora conheçamos. base terrestre para a história e. é. não obstante. não se articula com o estudo dos homens individuais. Para Marx. e do materialismo histórico para a escrita de Formação do Brasil Contemporâneo faremos um breve adendo à nossa exposição incluindo alguns trechos expositivos daquele método de interpretação da História..poderiam se encaixar na tradição filosófica de pensamento sobre a História que teria seu início em Rousseau. não havia ainda se formado até a Alemanha de seu tempo. portanto. A base material de que fala. passando pelo Idealismo alemão. Damos por justificada tal inclusão. Todos sabem que os alemães jamais o fizeram. no caso de seu estudo sobre o “18 de Brumário de Luís Bonaparte”. divisão social do trabalho. conseqüentemente. Seu estudo se dá através de conceitos como capital. do comércio e da indústria (Marx. seu esforço de historiador espreitar com uma análise da política. notoriamente. em toda a concepção histórica. em toda a sua importância e toda a sua extensão. no entanto. entre outros filósofos do Iluminismo. ou da população em termos abstratos. os franceses e os ingleses fizeram. a observação desse fato fundamental. portanto. como lemos nesta clássica página da Ideologia alemã: a primeira coisa. nunca tiveram. Voltaire. Hegel.

aqueles onde há crise. enraíza-se em Caio Prado Júnior a conhecida tese de que a história é a única ciência.luta de classes e organismo social. 1999: 23). Um longo trecho de A ideologia Alemã ilustra bem o caminho escolhido na estruturação de uma historiografia que tem por fim percorrer um amplo quadro . Assim devemos entender que a elaboração de uma historiografia à luz do materialismo histórico deve contar com o estudo de tais categorias e conceitos desenvolvidos por Marx. Fazer história com base material seria a única maneira de efetivamente se compreender o presente histórico e seus problemas. pois só ela é capaz de revelar não apenas a origem. paralelamente a este pressuposto metodológico. mas na compreensão dos problemas atuais e seus possíveis desdobramentos futuros. uma crítica porque não é de qualquer história que se trata mas de uma história que tenha por método a gênese analítica de certos momentos sintéticos. mas o sentido dos problemas de um presente histórico qualquer (Idem. etc. 1984: 62). e por objeto a base material . por fim. assim. como podemos verificar na leitura do segundo “Posfácio” da Contribuição à Crítica da Economia Política) (Idem. conceitos que nossa exposição anterior e seguinte a este trecho ilustrativo de nossa compreensão acerca da dívida que tem a leitura de Caio Prado Júnior para com a teoria de Marx pretende mostrar foram incorporados pelo autor a que nos dedicamos em nossa dissertação. Importa ressaltar. que este elogio e esta crítica aproximam a história da sociologia e a transformam em ferramenta cujo objetivo último não se restringe à narração de eventos passados. Isto é ao mesmo tempo um elogio à história e uma crítica: elogio porque só pela história os problemas podem ser efetivamente elucidados.do contrário poder-se-ia cair numa historiografia “idealista”..

no curso da História (Idem. climáticas e outras. tem como .. (Marx.. como também aquelas que nasceram da sua própria ação. orográficas. hidrográficas. portanto. como ele. Insistimos na estranheza da expressão – espírito materialista – pois que se trata. é a sociedade burguesa que. como já assinalamos. e condicionando-os por sua vez.. Toda história deve partir dessas bases naturais e de sua modificação. que só podemos abstrair em imaginação. permitir uma avaliação dos problemas do presente histórico. Assim. as que encontraram já prontas.visando sua reconstituição à luz da categoria de formação. portanto. O primeiro estado real a constatar é. já resulta daquilo que o precede. condições geológicas. O que significa partir de uma “realidade concreta”. verificáveis através de um meio puramente empírico. a existência de seres humanos vivos. naturalmente. de uma “base material”? É Marx quem primeiro responde: As condições prévias das quais partimos não são bases arbitrárias ou dogmas. São os indivíduos reais. de reproduzir o espírito e não a letra do texto de Marx. são bases reais.. através da ação dos homens. Apenas a explicitação destas condições materiais poderia. como ferramenta de análise. 1984: 45) A condição primeira de toda história humana é. condicionada pelas forças de produção existentes em todos os estágios históricos que precedem o nosso. o patrimônio corporal desses indivíduos e as relações que esse patrimônio desenvolve com o resto da Natureza . 1984: 45). lemos também na Ideologia Alemã: A forma das relações humanas. sua ação e suas condições materiais de existência. À luz de uma base material é que poderiam ganhar sentido as relações sociológicas tais como estão estabelecidas. resultado do processo. Caio Prado Junior faz uma incursão estratégica por tópicos eminentemente geográficos para poder compor uma historiografia de “espírito materialista”. Como não ver na divisão dos capítulos e temas da Formação do Brasil Contemporâneo o cumprimento desta lição? Fazendo um esforço considerável para a organização das poucas fontes existentes. Essas bases são.

confere ao texto de A Formação do Brasil Contemporâneo uma estrutura muito própria. evidente que esta sociedade burguesa é o verdadeiro lar. aliás. que põe no centro das atenções a idéia de formação. e que forma em todos os tempos a base do Estado e do resto da superestrutura idealista. Já é portanto. estrutura. Ela abrange o conjunto da vida comercial e industrial de um estágio e ultrapassa por esse mesmo meio o Estado e a nação. João VI. o que se denomina tribo. negligenciando as relações reais e limitando-se aos grandes e estrondosos acontecimentos históricos e políticos. em um estágio de desenvolvimento determinado das forças produtivas. também para Caio Prado Júnior. a organização social nascida diretamente da produção e do comércio. A crise das relações sociais contemporâneas. A sociedade burguesa como tal só se desenvolve com a burguesia. embora deva por outro lado. O mesmo deve valer. não era tão somente.. O termo sociedade burguesa apareceu no século XVIII. precisam ser compreendidas à luz de suas condições materiais de constituição. 1984: 61). Uma estratégia metodológica bem determinada. a partir do momento em que as relações de propriedade foram desligadas da comunidade antiga e medieval. A sociedade burguesa reúne o conjunto das relações materiais dos indivíduos. aqui ilustrada pelas esparsas citações acima. Todavia. verdadeiro teatro de toda a história e vê-se a que ponto a concepção passada da história era um non-sense. como assinala o trecho acima. afirmar-se exteriormente como nacionalidade e organizar-se internamente como Estado. continua a ser designada sob o mesmo nome (Idem.condição prévia e base fundamental a família simples e a família composta. Devemos observar que em Formação do Brasil Contemporâneo o entendimento de que o todo social constitui um organismo social que dispõe até de uma consciência e uma atitude remete à construção da categoria de formação . Ironicamente. por desprezo à Corte que Caio Prado Júnior pretende “desvalorizar” a vinda de D.. para a organização ou desorganização do Estado.

que se debruça sobre um indivíduo social, completo e autônomo, que deve ser
analisado segundo uma duração, um tempo.
Insistamos mais uma vez que o recorte temporal proposto pelo historiador
paulista aponta para uma nova fase da vida deste organismo social, que dispunha
de uma certa estrutura e que, por razões intrínsecas a sua formação e ainda
devido a fatores externos a esses, se transforma e mergulha em processo
histórico diverso ao que passara no tempo da colonização. Este novo processo
vai formar o Brasil contemporâneo. Deve-se notar que, para Caio Prado Júnior o
país [como nação] à seu tempo permanece em vias de se formar, ou seja
prossegue curso começado em longa data e não possui assim uma identidade
plena: “é então o presente que se prepara... mas este novo processo histórico se
dilata, se arrasta até hoje. E ainda não chegou a seu termo” (Prado Júnior, 2000:
3).
Assim para Caio Prado Júnior, quando o historiador se ocupa daquela
formação, que de fato não se configurou totalmente: “não estará se ocupando
apenas com devaneios históricos, mas colhendo dados, e dados indispensáveis
para interpretar e compreender o meio que o cerca na atualidade” (Ibidem). Caio
Prado Júnior chama atenção para a especificidade da atividade de que se ocupa
pelo fato de seu objeto permanecer em formação, ou seja, a despeito de outros
objetos do campo da história, o estudo da formação do Brasil contemporâneo
pode ser pensado como história viva ou rica inclusive pelo seu potencial
sociológico de fornecer uma possibilidade de teorizar uma prática que possibilite
ao organismo social se formar de fato.

A especificidade da atividade do historiador que se ocupa com o tema da
formação, no caso brasileiro, consiste em que, nas palavras do próprio autor, “o
passado, aquele passado colonial, aí ainda está, e bem saliente; em parte
modificado é certo, mas presente em traços que não se deixam iludir” (Ibidem). A
primeira nota do texto ilustra sua compreensão ao tratar da viagem como método
privilegiado de análise histórica:
pessoalmente, só compreendi perfeitamente as descrições que
Eschwege, Mawe e outros fazem da mineração em Minas Gerais
depois que lá estive e examinei de visu os processos empregados
e que continuam, na quase totalidade dos casos, exatamente os
mesmos. Uma viagem pelo Brasil é muitas vezes, como nesta e
tantas outras instâncias, uma incursão pela história de um século e
mais para trás. Disse-me certa vez um professor estrangeiro que
invejava os historiadores brasileiros que podiam assistir
pessoalmente às cenas mais vivas do seu passado (Idem, 2000:
5).

Em sua tese, escrita em 1954 e intitulada Diretrizes para uma política
econômica brasileira ele retoma esta idéia afirmando que nossa história é um
“Presente (o termo está em maiúscula o que destaca seu sentido) de nossos
dias”.
“aliás a nossa história, e particularmente a nossa história
econômica, é antes uma sucessão de episódios muito
semelhantes, de ciclos que se repetem monotonamente no tempo
e no espaço. E continuam repetindo-se. Essa a razão por que
afirmei anteriormente ser a nossa história um Presente de nossos
dias. Para observá-la, é muitas vezes preferível uma viagem pelas
nossas diferentes regiões, à compulsa de documentos e textos. o
tempo se projetou aqui no espaço, facultando ao historiador um
método original de pesquisa”.

Formação: sociedade e sociabilidade

A visão do passado no decorrer do presente não é, claro, privilégio apenas
da sociedade brasileira, em outros casos observa-se a transposição das camadas
do tempo, em um eterno retorno próprio da sedimentação de tradições e
estruturas. No caso brasileiro o que o autor parece querer contrapor é a idéia de
ruptura com o passado como dimensão explicativa da modernidade, e as
transformações assimiladas em todos os níveis da vida social, econômica e
política nas sociedades avançadas que modificam sua estrutura e apagam os
traços do passado (este aparecendo com o esforço da conservação da memória e
das tradições), e a idéia de “atraso”, no caso da sociedade brasileira. Nesta, o que
se observa é a continuação de determinadas estruturas que não condizem com a
condição almejada pelo corpo político e jurídico que pretende dar forma à Nação.
Observa por exemplo, que à sua época, o trabalho livre “não se organizou
inteiramente em todo o país”, apresentando este, a despeito de esforços
institucionais, “traços bastante vivos do regime escravista que o precedeu” (Idem,
2000: 3). Como já pretendemos ter mostrado, ressoa aí ecos de uma história
preocupada com o sentido dos fatos a qual, para evitar um jogo aleatório de
interpretações põe em cena a idéia do “real” como síntese do processo de sua
formação.
Acrescente-se que a subordinação e dependência da economia ao
mercado externo, a falta de um largo mercado interno, são outros dos aspectos
fundamentais em que se verifica aquele “atraso”: “numa palavra, não
completamos ainda hoje a nossa evolução da economia colonial para a nacional”
(Ibidem). Essas reminiscências não são, segundo o autor, anacronismos ou fatos

mas “traduzem fatos profundos”. mais tarde ouro e diamantes. Este sentido dominará a cena da formação do país que. para o comércio europeu. voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio. mais até hoje sobre aquela direção se desenvolverá e terá que buscar respostas para os problemas que aquele tipo de colonização colocara. Não hesita em afirmar: se vamos à essência da nossa formação. veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar. depois. portanto. portanto. O Brasil contemporâneo se formará. Isto é demonstrado no decorrer do estudo. 2000: 4). industrial. inverterá seus cabedais e recrutarão a mãode-obra que precisa: indígenas ou negros importados. 2000: 20). e em seguida café. no decorrer da ascensão e do declínio daquelas estruturas. que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras. Virá o branco europeu para especular. Caio Prado Junior constrói. se constituirá a colônia brasileira (Idem. tabaco. lentamente. busca compreender. sua narrativa buscando distinguir o que é “essencial” para a sua compreensão. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura. a do Brasil contemporâneo. E com tal objetivo. Nada mais que isto. Com tais elementos. algodão. bem como as atividades do país. a partir do início de nova fase. objetivo exterior. nação. aspectos que se colocou como problema e que o autor. como marxista. apresentando a especificidade de ter seu sentido histórico singularizado por ter se constituído primeiro como empresa e depois como país. fundamental para a compreensão do seu objeto: o sentido da formação de um todo. pois acredita vir de uma compreensão destes dados a transformação da sociedade brasileira (Idem. realizar um negócio. alguns outros gêneros.isolados. desde seu princípio . Este essencial é o que se apresenta como “linha mestra”. A população que ocupa este território “inventado” faz parte de um sistema mundial. articulados numa organização puramente produtora.tem mais tarde .

sendo sua implantação necessária por motivos oriundos da atividade empresarial que se pretendia realizar visando a prosperidade da metrópole. com características distintas de formas anteriores de escravidão no mundo ocidental teve repercussão em todos os setores da vida social. Frisando a diferença da escravidão moderna. a escravidão brasileira foi para o Brasil a mais significativa instituição sendo ela que “antes de mais nada. em todos os níveis de sua vida. e em nosso caso é “motor” de uma sociedade. sendo a base de toda organização econômica e produtora de padrões materiais e morais de conduta em nível inédito de influência. No caso dos Antigos é resultante de um modo de vida. à população do centro deste sistema. insere-se em determinada tradição. conseqüência. caracteriza a sociedade brasileira de princípios do século XIX” (Idem. com a qual dialoga. No Brasil ele é privado de sua cultura de origem.inclusive que se emancipar e se tornar independente neste contexto por motivos intrínsecos da relação social primeira. de um sistema de pensamento. negocia. competir é o termo certo. No entanto não dispõe de ferramentas para se contrapor. . segundo Caio Prado Júnior a despeito do desenvolvimento das noções morais que já constituíam a sociedade do velho mundo. 2000: 277). destituído de sentido e usado como força bruta de produção material. Na Antigüidade o escravo faz parte da cultura. Sua ocorrência. e acima de tudo. causa. A privação da liberdade a ele imposta concorre para a ausência (no plano da organização da sociedade e da construção de seu sentido) de contribuição da maior parte da população da colônia para a formação da estrutura da sociedade brasileira até o início do século XIX. a que aqui se desenvolveu por motivos mercantilistas.

Caio Prado Júnior desloca a questão do nível moral da discussão da miscigenação da população. o último não pode ser esquecido ou subestimado. seja ela técnica. Não só ele é numericamente volumoso. seja ela religiosa – como chegou a ocorrer com os indígenas doutrinados pela ordem jesuítica -. 2000: 281). a exemplo de Gilberto Freyre com quem dialoga em Formação do Brasil Contemporâneo. observando a ausência de preocupação quanto à formação dos negros no Brasil. e têm suas atenções voltadas totalmente para o comércio e tráfico segundo os interesses de Portugal: “O negro e o índio teriam tido certamente outro papel na formação brasileira. Assim o que constitui a base da vida da colônia. e muito menos estética. Tal fato contribui diretamente para o atraso da economia colonial. como é . A distinção do fato da escravidão em nosso caso se dá tanto na produção material como no nível do serviço doméstico e que “apesar da amplidão e importância econômica muito maiores do primeiro setor. e papel amplo e fecundo. Caio Prado Júnior discorda de outros autores que. moral ou intelectual. Caio Prado Júnior salienta que em se tratando da “economia da colônia praticamente todo o trabalho é servil” (Idem. seu ritmo e sua direção. 2000: 286).resulta na preparação de um contingente populacional destituído de meios para se inserir no quadro da vida social do Brasil contemporâneo. se diverso tivesse sido o rumo dado à colonização. sua mais organizada instituição social . se se tivesse procurado neles. pretendem que já na sociedade colonial se dispunha de unidade ou identidade.a escravidão .Em decorrência disso. ou aceitado uma contribuição menos unilateral e mais larga que a do simples esforço físico” (Idem. Os responsáveis pelo sentido da colonização estão alienados de tal intento.

Ao constituir-se como “empresa” da metrópole não se constituiu como uma unidade nacional. só pode configurarse com a marca do “atraso”. o dano social causado pela estruturação da sociedade de forma escravista reveste toda estrutura da sociedade que formará o Brasil contemporâneo. entre outras coisas. a despeito de uma retórica que procurava de certa forma travestir a imagem da escravidão sofrida no Brasil de um ar romântico. se é que se pode falar em sociedade civil neste caso.. De tal sorte que é preciso enfatizar o “pouco que ela trouxe de favorável.. Dado o significado que assume o trabalho no Brasil. Caio Prado Júnior é categórico em afirmar que. devido à proximidade do senhor e do escravo no mundo da vida íntima. Assim se configura uma formação cuja lógica e sentido estão fora e não dentro do País. começou-se a formar. e os saborosos quitutes da culinária afro-brasileira” (Ibidem). Assim: “Torna-se muito restrito o terreno reservado ao trabalho livre . própria do senso comum da época. O arranjo social determinado por uma lógica externa às suas próprias fronteiras. Bem diferente de uma discussão taxativa. principalmente nas cidades. Ironicamente.grande a participação que tem na vida social da colônia e na influência que sobre ela exerce” (Ibidem). também: a ternura e afetividade da mãe preta. bem como nas regiões onde atividades ligadas à . é precisamente desta relação – desumanamente desleal – que advém “a maior parte dos malefícios da escravidão” (Ibidem). e a utilização universal do escravo nos vários misteres da vida econômica e social acaba reagindo sobre o conceito do trabalho que se torna ocupação pejorativa e desabonadora”. (Ibidem). Daí uma sociedade civil desorganizada.

Chega-se assim na constituição de um contingente de “desclassificados. entravam em declínio. restringindo-se a poucas atividades. para Caio Prado Júnior contribui de forma decisiva para a preparação da estrutura da vida social do Brasil contemporâneo. 2000: 289). Seguindo as lições do materialismo histórico. inúteis e inadaptados”. Fechando sua exposição. Caio Prado Júnior destaca que. em detrimento da atividade remunerada. Neste nível a escravidão. Caio Prado Júnior vai ater-se propriamente aos aspectos humanos da formação do Brasil contemporâneo nos tempos da colônia. o autor vai passar da descrição daquela “base material” para as relações sociais que sobrevieram a elas. o de ser empresa de lucro fácil. parte para a conclusão de seu estudo demorando-se na análise das 12 Fontes mais usadas: Recompilação de notícias soteropolitanas e brasílicas do fim do século XVIII . por conseguinte a pobreza. pois demandam riqueza prévia como é o caso das atividades das profissões liberais que requerem preparação intelectual. pois não possuem o capital para comprarem quem por eles trabalhe (Idem. O elemento inorgânico é para a vida social um dos aspectos da formação da identidade do Brasil contemporâneo (Idem. um contingente de pessoas que escolhe a vadiagem. e. algumas de acesso restrito.Luís dos Santos Vilhena . 2000: 287). lançando mão de uma de suas fontes preferidas de conhecimento.mineração. O comércio era privilégio dos “reinóis” – os nascidos no Reino – e poucas eram as atividades restantes de que se pudesse orgulhar os não abastados. anteriormente referidas. Tendo caracterizado os tipos que vão ocupar e constituir todo o território. No campo. o sentido da colonização.12 a despeito da abundância de terra. indivíduos que poderiam ser proprietários preferem não o ser.

é bom que se diga. as classes. o . entre os agentes que deram forma ao corpo social brasileiro. Mas. cujo sentido é o de ser empresa e não nação. O uso desta expressão é defendida pelo autor da seguinte forma: “Tomo a expressão ‘nexo moral’. Para Caio Prado Júnior. o resultado é um tecido social pouco rico de interação. os resultantes direta e imediatamente das relações de trabalho e produção: em particular. os grupos sociais. Assim. o “nexo moral” precisa ser entendido como resultado daquele processo. não uma colonização qualquer e sim um processo que obedece à lógica exterior ao próprio território colonizado. antes mencionado. o trabalho servil era. de colonização. Entendido nestes termos e não como conceito que explique e fundamente explicações da realidade social.relações sociais que se desenvolveram a partir da realidade dada da colônia. no seu sentido amplo de conjunto de forças de aglutinação. como já foi discutido anteriormente. complexo de relações humanas que mantém ligados e unidos os indivíduos de uma sociedade e os fundem num todo coeso e compacto” (Idem. ou seja. procurando colocar em relevo as formas de interação entre os indivíduos. 2000: 353). a despeito de seus problemas. segue justificando sua posição quanto a ausência de nexo moral da sociedade brasileira nos tempos coloniais a partir do fato de que: “os mais fortes laços que lhes mantêm a integridade social não serão senão os primários e mais rudimentares vínculos humanos. Destaca como sendo de suma importância a ausência de nexo moral entre os atores de tal sociedade. 2000: 357). a subordinação do escravo ou do semi-escravo aos seu senhor” (Idem. De tal base material poucas relações poderão derivar-se.

que ficava fora da relação de trabalho servil. ao escravo. muito menos provia o incremento da vida cultural da colônia. O trabalho livre caracterizava-se pela dispersão formando um setor “imenso e inorgânico de populações desenraizadas. o trabalho nada ensina. para Caio Prado Júnior. nas suas duas atribuições – a de trabalho e a sexual – o escravo não ultrapassa o limite da relação servil. No seu plano material o trabalho escravo “nunca irá além de seu ponto de partida: o esforço físico constrangido”. porque o sentido de sua inserção no contexto brasileiro obedecia uma lógica externa àquela de uma identidade nacional. flutuando sem base em torno da sociedade colonial organizada” (Idem. Caio Prado Júnior vai explicar a afirmação segundo a qual as relações sociais que vingam a partir do regime organizado da escravidão são relações primárias e elementares justificando que. Ao contrário.único efetivamente organizado e portanto que funcionava no país. Sendo este setor da sociedade diretamente afetado pelo setor do trabalho servil que. encontra-se uma inorganicidade como regra. de tal forma que ele próprio. a utilização do negro como escravo no Brasil não contribuiu para a formação de uma “superestrutura” ampla e complexa servindo “apenas para momentaneamente conservar o nexo social” (Ibidem). no caso da mulher. A atividade sexual do escravo. Senão por outras razões. nem no campo da práxis nem no da intuição intelectual ou moral (Idem. 2000: 355). 2000: 354). vai alienar “o conteúdo cultural” de que dispunha anteriormente. Portanto. a consumação física do escravo o macula diretamente. por sua vez. não tem as funções de que ocupa a fruição posterior de um trabalho que pode ser reflexivo. estando uma vez . No outro ponto da sociedade brasileira.

os acontecimentos posteriores a Independência quando a sociedade brasileira acaba por reproduzir “quase integralmente a monarquia portuguesa que viera substituir” sendo o modelo imposto e não produzido pela mesma (Idem. desagregada e desenraizada. por sua vez. o quanto esta formação pesa sobre o presente e futuro País. segundo Caio Prado Júnior – condicionando e sendo a origem de tipos e formas de relações sociais de uma parte da população que crescerá continuamente por todo período colonial e que chegará a colocar os problemas enfrentados pela sociedade até hoje. Assim esta ausência de “nexo moral” da sociedade colonial se caracterizava mais pela desagregação e por forças dispersivas. acaba – como já assinalamos anteriormente. contribuir para a formação de um meio mais integrado e coeso contra a ação coercitiva da metrópole.amplamente organizado. Mais ainda. Fatos que demonstram a importância do poder externo na vida da colônia são. tendendo seus atores para a composição de uma malha social instável. A qual faz valer sua autoridade a despeito da ineficiência da administração pública da colônia ser uma de suas realidades. 2000: 357). para Caio Prado Júnior. a escravidão resultando na composição de um setor de trabalho livre que se caracteriza mais pela inércia que pela atividade que poderia. Não menos primárias serão as relações sociais entre estes agentes que devido a uma inconstância de trabalho e de evolução material tendem para a vadiagem e a “caboclizaçao”. O que caracteriza este setor é a ausência mesmo de uma estrutura social organizada. .

que se pensará e se buscará uma identidade e singularidade para a cultura brasileira (Idem. pior ainda. em seu princípio. de crenças. 2000: 358). No primeiro aspecto da vida social da colônia predomina como já foi mostrado o trabalho servil. “uma geral moleza”. para Caio Prado Júnior. uma análise da formação pode revelar: a identidade nacional não aparece desde sempre mas é construída. 2000: 358). e de uma certa forma contrapondo a estes outras formas de “sentir”. de que deriva a sobrevalorização do ócio. Daí uma das idéias chaves que.Nesta mesma linha. filhos do reino. e. funda-se ordinariamente no trabalho – relações econômicas . organizadas em torno da realidade condicionada por aquele. sendo encontrada de forma disseminada entre a maioria – contrapondose a atitude dos reinóis. “de cultura”. de língua”. “uniformidade de sentimentos.e nas relações de família. retardando assim diretamente a economia colonial que se desenvolvia quase que totalmente em torno do trabalho forçado (Idem. acrescente-se que a colônia também importa da metrópole “uma certa uniformidade de atitudes”. que se ocupavam das atividades relativas ao comércio e produziam riquezas com certa facilidade – “acabará naturalmente . que “serviria” portanto de “base moral e psicológica para a formação do Brasil como nação”. desenvolvidas fora da lógica e dos sentimentos importados de Portugal e ainda de outros países. resultando em que “nenhum homem livre se rebaixa a empregar músculos no trabalho”. sendo precisamente sobre estes elementos. Caio Prado Júnior defende a idéia de que tal atitude frente ao trabalho. Para dar conta da análise das relações sociais encontradas e desenvolvidas na vida colonial Caio Prado Júnior parte do princípio de que uma sociedade. é determinada por uma lógica externa aos próprios limites espaciais.

tão acanhado de oportunidades e de perspectivas tão mesquinhas” (Ibidem). mas antes se compõe de emigrantes isolados. a despeito das riquezas do meio natural a sua volta. em busca de enriquecimento. 2000: 360). usufruindo durante sua vida de um baixo padrão de vida. Contribui para tal fato uma certa “facilidade . Caio Prado Júnior nota a constante mobilidade de uma população que não se organiza. que acaba se apoderando do indivíduo todo” (Ibidem). temos uma segunda explicação para tal fato social (o tipo de preguiça e ócio improdutivo) na incorporação abrupta de índios quando estes não dispõem dos mecanismos apropriados para a tradução da lógica a que é submetido. Outra causa da inatividade dos indivíduos livres da colônia “é o sistema da colônia. ou seja. sobretudo de uma “inatividade sistemática.por se integrar na psicologia coletiva como um traço profundo e inerraigável do caráter brasileiro” (Idem. de uma atividade sedentária. mas. sendo esta ininteligível segundo a constituição de seus padrões sociais. (Idem. a lógica da produção e acúmulo de bens a partir de trabalho metódico. O trabalhador livre da colônia dispende o mínimo de energia necessária para o seu sustento. 2000: 360-361). sua subsistência. causando a estagnação e uma apatia que “não vem somente da luxúria e da cobiça. Por outro lado. 2000:359). Estes fatores em conjunto resultarão por fim em um “tom geral de inércia”. solteiros cujo ímpeto aventureiro. que tentou ‘modelá-los’ “por figurinos europeus estranhos aos seus gostos” (Idem. refreia a constituição de células monogâmicas. Contribui para isto um “ridículo sistema de educação” uma suposta Paidéia. na sua maioria. No que tange às relações pessoais entre os indivíduos. em torno de famílias estruturadas.

não se processou. puramente formal. Sobre a massa inorgânica e livre da colônia Caio Prado Júnior sublinha: “A formação brasileira. tudo isto faz a casa-grande. sustentada pela relação desigual de forças entre partes envolvidas. no caso entre senhores e escravas. deficiente.de costumes” que proporciona ao imigrante “mulheres submissas de raças dominadas”. Mais do que o julgo de uma moral pessoal. das classes superiores da ‘casa-grande’. não se constitui em um fator disciplinador da vida sexual dos indivíduos sendo ao contrário a permissividade. salvo no caso limitado e como veremos. as suas virtudes. a indisciplina que nela reina. mal disfarçada por uma hipócrita submissão. a promiscuidade com escravos”. Caio Prado Júnior observa ainda que: “A família perde aí inteiramente. num ambiente de família” (Idem. Dentro da organização da casa-grande ainda se observa que a família. atuar como modelo formador do caráter das relações humanas ali constituídas. 2000: 362). quase como regra. antes uma escola de vício e . 2000: 361). torna-se pelo contrário campo aberto e amplo para o mais desenfreado sexualismo” (Ibidem). No caso da vida da colônia “o sistema de vida que dá lugar. Ainda fatores como instabilidade e insegurança econômica corroboram para tanto. e em vez de ser o que lhe concede razão moral básica de existência e que é de disciplinadora da vida sexual dos indivíduos. e constitui uma base não familiar da vida destes (Idem. ou quase. Caio Prado Júnior está trabalhando com um fato social: estabelecendo a diferença do papel que esta representa para a vida social nos moldes em que desenvolveu ao longo do tempo e o que passa a significar no âmbito da sociedade colonial brasileira. “as facilidades que proporciona às relações sexuais irregulares e desbragadas. ao contrário do que se afirma correntemente.

e em larga escala” (Ibidem). Dentre uma minoria de uniões regulares. No entanto o que se verifica como predominante é a ausência de uniões estáveis e a grande maioria dos homens prefere “em geral não pensam em se deixar prender” (Idem. de prostitutas” (Ibidem). Outro aspecto importante na formação das relações sociais da colônia é o de que. mas de forma adulterada em decorrência do caráter dinâmico da vida sexual. nos “mais insignificantes arraiais” onde “quase toda a sua população fixa é constituída. o que teria concorrido. sua influência na sistematização dos costumes desta se mostrou relativa.desregramento. ocupa lugar. grande número de casais ainda não oficializam o matrimonio por motivos vários como por exemplo o da falta de condições financeiras. e de classe. Deste modo festas e sacramentos se enraizavam na cultura. Caio Prado Júnior sublinha ainda o fato de que a prostituição. além dos vadios. ficando mais . sendo de tal forma disseminada esta atividade na colônia que “não há recanto da colônia em que não houvesse penetrado. 2000: 364). pelo seu custo. sendo porém estas uniões comuns e num certo sentido aceitas naturalmente. que de formação moral” (Ibidem). ou por restrições e constrangimentos raciais. escassez de padres para a cerimônia. para uma ampla difusão da prostituição. tendo sido na prática cultos e cerimônias religiosas incorporados ao cotidiano se desligando muitas vezes do significado originário da prática religiosa de origem. na vida da colônia. na falta de condições de obter sustento. em outros lugares mais comum nas cidades de médio e grande porte. Tal fato contribui para que as moças pobres nem cheguem a pensar no casamento como algo possível. a despeito da presença das ordens religiosas na constituição de suas instituições. apanhando a criança desde o berço.

pobreza e miséria na economia. Caio Prado Júnior começa a analisar as forças renovadoras que vão efetuar a mudança no estado das coisas na Colônia. Cabe lembrar mais uma vez. A questão que se coloca aqui. 2000: 364-365). para o autor. poderiam realizar a virada de mesa e de fato construir uma nação no Brasil. o estudo da história é ferramenta.observada a exterioridade dos ritos em detrimento do significado dos signos e símbolos religiosos. Forças estas que não devem ser vistas como meras hipóteses ideais. ruína em que chafurdava a colônia e sua variegada população. nos fatos concretos. quais seriam os elementos. não fazem nada. Assim é antes do quadro geral já tratado anteriormente. uma vez tendo desenhado o quadro geral da vida social da colônia. expressões ou sintomas aparentes de uma realidade que vai por baixo. inércia e corrupção nos dirigentes leigos e eclesiásticos. construção de teoria para uma prática efetiva. Assim caracteriza a ação geral uma “tolerância infinita quanto à moral” sendo mesmo a prática do clero não diferente (Idem. e não fim. e com que força. Neste verdadeiro descalabro. 2000: 368). neste ponto da exposição. capacidade de renovação? (Idem. e que. afinal: “as idéias por si. de ser empresa da coroa portuguesa. é a de perguntar. que encontramos de vitalidade. e para o historiador não devem servir senão de sinais. que esta é a preocupação central de Caio Prado Júnior em Formação do Brasil contemporâneo. e dos diversos aspectos e contradições inerentes aquele sistema – entendidos no seu movimento dialético – . e que as provoca (Idem. caráter empresarial da colônia. dissolução nos costumes. 2000: 365). política: numa palavra e para sintetizar o panorama da sociedade colonial: incoerência e instabilidade no povoamento.

que revelará aquela organização social o viés que a conduzirá a sua forma seguinte. Muito mais a partir dos elementos desconexos da vida social e dos setores inorgânicos da população do que de uma ordem política constituída de cima para baixo – como é o ocorrido na constituição do Império aqui delineado aos moldes da organização da política na Europa – que o País seguirá. para Caio Prado Júnior. . seu desenvolvimento histórico.

Vislumbra seu objeto à luz da grande narrativa. seu sentido. portanto. prática. conforme demonstrado no decorrer do texto. o qual se constitui como um desdobramento daquele sentido. Seu domínio é o da síntese. através da idéia de formação. dividido em seus alicerces fundamentais.CONSIDERAÇÕES FINAIS A leitura de Formação do Brasil Contemporâneo operada segundo o recorte da problematização da idéia de formação nos leva a concluir que esta categoria. consegue vislumbrar seu objeto segundo uma extensa linha demarcada e divisada entre o passado colonial. condensando contradições e contendo direcionamentos de cujos desdobramentos virá a tonar o Brasil contemporâneo de cuja compreensão o autor pretende entender e demonstrar o sentido. entendendo esta como articuladora entre os diversos tempos da História. conforme articulada no texto de Caio Prado Júnior possibilita a este autor realizar a síntese do que chama de Brasil contemporâneo.por ser transitivo. Caio Prado Júnior consegue colocar seu objeto e expô-lo segundo ordem cronológica estendida no tempo. conforme . ou seja. pensando o objeto e o articulando-o segundo sua constituição estrutural básica. para Caio Prado Júnior. Assim o tema. que a elaboração da escrita de Formação do Brasil Contemporâneo teve também. no que nos demoramos quando esmiuçamos a trajetória política do autor. pensada da parte ao todo. A longa duração de sua narrativa foi possível. e o presente. objeto visado em seu estudo. a intenção de consistir numa teoria visando a aplicabilidade de seus resultados por via política e. “momento decisivo” . No percurso realizado neste trabalho não deixamos de procurar entender. seu corte temporal – o início do século XIX. Para tanto.

que tem seu início precisamente datado naquele corte temporal e que se estende e nos tange nos dias de hoje). tendo em vista a que este deve sua constituição e sua formação. do tipo de relação social que esta suscita. frutificará no Brasil determinada disposição para o trabalho. Vale ressaltar mais uma vez que ao tomar o processo de formação do Brasil como objeto o historiador coloca seu estudo. cuja resultante é o Brasil contemporâneo. e segundo sua intenção. a que deve seu sentido. segundo atenta Caio Prado Júnior. o Brasil contemporâneo. entendido como meio. Via dupla de desvelamento da realidade social brasileira. à disposição dos que pretendem entender a realidade social brasileira (e porque não reforçarmos o já dito – coloca sua análise a disposição dos que pretendem vislumbrar possibilidades futuras e desdobramentos do objeto segundo o qual nos informamos. Dividido o tema em Povoamento. Assim a idéia de formação de Caio Prado Júnior permite ao autor pensar a formação da sociedade brasileira num quadro mais amplo entendido em termos de uma totalidade social: o sistema colonial. mas também é chave analítica eficaz para o autor demorar-se em aspectos menos estruturais e mais sistêmicos da vida cotidiana da colônia que corrobora intensamente para a presente forma de vida do Brasil contemporâneo. Assim Caio Prado Júnior demonstrará que da organicidade do trabalho escravo. Vida Material e Vida Social o autor analisa o processo histórico. no que tange aos aspectos de suas . o Brasil contemporâneo pôde ser analisado segundo sua estrutura tendo ido o autor às suas especificidades e revelado sua composição.sua formação. a idéia de formação opera não só a sistematização da estrutura da exploração e “invenção” da “quase-empresa” colonial.

de seu significado e espaço no quadro da cultura. em 1822. . ao mesmo tempo. mas que. de construir uma nação autônoma. e ainda no quadro especifico das significações. não logrou gerar uma autonomia e dinâmica próprias. como o processo de colonização aqui implementado permitiu que se esboçasse uma nacionalidade que foi progressivamente se distanciando do seu modelo europeu. das representações. capazes.diversas disposições práticas. a idéia de “formação” sugere a sobrevivência das estruturas e atitudes sociais às condições específicas que as criaram tanto no plano das relações sociais cotidianas. que se esboçasse aqui algo relativamente novo em termos de sociabilidade e organização social. Assim concluímos que a idéia de formação de Caio Prado Júnior permite distinguir. depois da independência política. Associada à idéia de “sentido da colonização”. no caso histórico brasileiro. ou seja. de sociabilidade e ações sociais. quanto na definição mais geral da estrutura social do que se formou como sociedade brasileira.

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