Universidade Federal do Rio de Janeiro

A idéia de Formação em Caio Prado
Júnior

Letícia Villela Dacol

2004

A IDÉIA DE FORMAÇÃO EM CAIO PRADO JÚNIOR

Letícia Villela Dacol

Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-graduação em Sociologia e
Antropologia – PPGSA, Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, como parte dos
requisitos necessários à obtenção do título de
Mestre em Sociologia (com concentração
em Antropologia).

Orientador: Gláucia Villas Boas
Co-orientador: André Pereira Botelho

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2004

A IDÉIA DE FORMAÇÃO EM CAIO PRADO JÚNIOR

Letícia Villela Dacol

Orientador: Gláucia Villas Boas
Co-orientador: André Pereira Botelho

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em
Sociologia e Antropologia, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração
em Antropologia).
Aprovada por:

_______________________________
Presidente, Profa. Dra. Gláucia Villas Bôas
____________________________
Prof. Dr. André Pereira Botelho
____________________________
Prof. Dr. Robert Wegner

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2004

4 p. Gláucia Villas Boas. I. . 2004. Villas Bôas.Dacol. vi. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais 2. Dissertação. 2004. A idéia de Formação em Caio Prado Júnior.7cm. Letícia Villela. Referências bibliográficas. 105 f. PPGSA. Gláucia. A idéia de formação em Caio prado Júnior / Letícia Villela Dacol. Universidade Federa do Rio de Janeiro 1. UFRJ. III. II. IFCS. 29.. Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia. Rio de Janeiro: UFRJ. IFCS.

uma vez que a Colônia obteve sentido e unicidade a partir de determinada relação com a Metrópole. o autor logrou realizar uma interpretação do Brasil tanto no plano da estrutura da sociedade. procura-se mostrar que a partir da idéia de formação. particularmente no que tange à sua “organicidade” e/ou “inorganicidade” e ainda sua específica situação de ter sua força motriz se constituído externamente . Partindo de pesquisa bibliográfica sobre os trabalhos recentes dedicados à obra de Caio Prado Júnior (1907-1990). história. analisa-se nesta dissertação a idéia de formação em Formação do Brasil contemporâneo (1942). Caio Prado Júnior. Em ambos os casos. como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia). quanto no plano da sociabilidade e das relações sociais cotidianas da Colônia e do período de transição desta para a nação. marxismo. Formação. Palavras-chave: pensamento social brasileiro.A idéia de Formação em Caio Prado Júnior Letícia Villela Dacol Orientador: Gláucia Villas Boas Co-orientador: André Pereira Botelho Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia. IFCS. da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. . o sentido da idéia de formação permite a Caio Prado Júnior problematizar e fomentar o debate sobre os impasses e possibilidades da constituição da sociedade nacional no Brasil. Assim. A hipótese é que esta categoria é central para a compreensão da obra do historiador paulista.

we pursuit to show that with formation categoria the autor had pretend to realize an interpretation of Brazil in so far in the plain of the society strucure sociability and quotidian social relations during the period of transition from Colony to the Republic nation. history. Key-words: brazilian social thought. da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. The hypothese is that this categoria is fundamental to compreend the work of this historian. Formation. the sens of formation idea allows Caio Prado Júnior to problematize and foment the discussion about impasses and possibilities of the constitution of the brazilian society as a nation. Working on bibliografic research about recently works dedicate to Caio Prado Júnior’s production (1907-1990). particularly in the case of its “organicity” or “inorganicity” had been especifically constituted externally – once the Colony had its sens and unicity been constituted on its relations with the Metropolis. IFCS.A idéia de Formação em Caio Prado Júnior Letícia Villela Dacol Orientador: Gláucia Villas Boas Co-orientador: André Pereira Botelho Abstract da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia. marxism. como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia). we analize in this dissertation the idea of “formation” in Formação do Brasil Contemporâneo (1942). Therefore. Both on either cases. . Caio Prado Júnior.

À CNPQ pela bolsa de mestrado a mim concedida. ao professor André Botelho e à professora Gláucia Villas Bôas. à minha amiga Ana Lima. Charles Villela. aos meus amigos Vinícius. Aos meus alunos de música. principalmente por ter sempre estado. ainda que de forma indireta. Ao meu amigo Roberto pelas cobranças epistemológicas nas mesas de bar. incentivando-me a continuar. pela paciência. Ao meu pai pelas críticas quanto à viabilidade destes caminhos. e pela inspiração na escolha deste tema. mesmo na contramão. . Marcelo Lion. meu primeiro interlocutor.Agradeço à minha mãe pelo exemplo de fibra e coragem para buscar novos caminhos. Ao meu irmão Flávio pelos pitos nas minhas horas de fraqueza. Nelsinho. Ao meu marido João pelo companheirismo. ao meu lado. sendo.

À memória da professora Ana Maria Galano .

1999: 46). publicada em 1959. no que diz respeito a este último autor. que também afirma que. podemos dizer que. às vezes pagam por isso. Concordando com essa sugestão de Roberto Schwarz. o caso se aplica também a Caio Prado Júnior no que se refere a seu livro ter se tornado um “clássico”. a despeito da relativa demora da ocorrência do debate em torno da sua . no caso de Antonio Candido. justamente o surgimento de trabalhos. Passados quarenta anos. por exemplo -. Assim. 1999. discutindo o livro Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido. ao mesmo tempo. neste momento.INTRODUÇÃO Em Seqüências Brasileiras – ensaios (1999). Assim. se por um lado o livro do historiador paulista não teve a aceitação imediata que parece ter tido A Formação da Literatura Brasileira. o debate que merecia. 12). na idéia de formação” (Idem. a idéia central de Antônio Cândido mal começou a ser discutida” (Schwarz. sobretudo monográficos. procurando repensar os “clássicos” do pensamento social brasileiro . de 1942. Roberto Schwarz sugere que os “livros que se tornam clássicos de imediato. tomamos o potencial educativo dos seus argumentos para avaliarmos o caso específico de Caio Prado Júnior (1907-1990) e da leitura de seu “clássico” Formação do Brasil Contemporâneo. tornam propício o resgate também da obra de Caio Prado Júnior. sem ter obtido. como foi o caso da Formação da literatura brasileira. ficando sem o debate que lhes devia corresponder.como é o caso do debate em torno de autores como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Está em curso. que. “a originalidade maior do trabalho está na concepção geral.

macrosociológico. como articulada no contexto da escrita de Formação do Brasil Contemporâneo. neste percurso. de uma leitura mais isenta . por assim dizer. assim. . a sociedade brasileira. podemos destacar como positiva a possibilidade. entendendo esta categoria como uma chave analítica central para o desenvolvimento da narrativa historiográfica de Caio Prado Júnior. trazida também pelo tempo e adensamento do conhecimento acumulado nas ciências sociais brasileiras. por via inversa. Pretende operar uma “desnaturalização” da leitura de Formação do Brasil Contemporâneo e elege como fio condutor para tanto destacar a idéia de formação. A hipótese que quero explorar é a de que a idéia de formação. tanto permitiu uma interpretação dentro de um contexto mais amplo. contribuir para um debate maduro capaz de repensar aquelas obras a partir da perspectiva dos problemas atuais do pensamento social e da sociedade brasileira. O presente trabalho pretende se inserir dentro desta corrente de reavaliações do pensamento social brasileiro. as bases não só institucionais e portanto. Podendo.maior ou menor em cada caso – do envolvimento emotivo que tais obras eram capazes de suscitar em outros tempos. como possibilitou. mesmo no âmbito daquele processo de reavaliação dos autores “clássicos” do pensamento social brasileiro.obra. da estrutura da Colônia e do sentido da colonização. “oficiais” da nação que tomaria corpo (a partir do início do século dezenove) como moldou formas de sociabilidade e conformou práticas e condutas que a nível da vida cotidiana resultou na formação de uma “identidade” ou “cultura” que resultará em uma sociedade determinada. ao autor se debruçar sobre as relações sociais específicas que constituíram.

. No campo progressista. alinhou-se. Como sugere Schwarz: “Quando o livro saiu. portanto. encontraremos algo análogo. a “comparação entre estas obras ainda está engatinhando. a filosofia e ainda. valendo lembrar que também a idéia de “momentos decisivos“ que figura no subtítulo de A Formação da Literatura Brasileira é devedora da obra do historiador paulista. aliás. Sérgio Buarque de Holanda e Celso furtado” (Idem. o autor filia o livro de Antonio Candido ao de Caio Prado Júnior. portanto. entre várias obras de perspectiva paralela e comparável. poderíamos dizer. nesta obra. Este momento alto estaria. que buscaram acompanhar a formação do país em outros níveis. como sugere Roberto Schwarz. à espera de trabalhos de síntese.1 1 Como sugere Roberto Schwarz. A idéia de formação. ou esteve. um estudo analítico de Formação do Brasil Contemporâneo para nós é pertinente pela capacidade de Caio Prado Júnior. 1999: 54). que um tal trabalho tem por motivação a idéia de que. Deve-se dizer. por sua capacidade de trazer para a historiografia brasileira elementos desenvolvidos pelas ciências humanas. Para Caio Prado Jr.haja visto a importância dada pelo autor ao trabalho de campo e à etnografia dos viajantes franceses em expedição no Brasil no século XIX. articular com segurança determinada metodologia. A esse respeito.. pela antropologia contemporânea . mais que um interesse puramente histórico ou ainda de destacar a possível genialidade de um autor.objeto central do autor entendida nos termos da unidade nos termos de uma nação pensada e elucidada a vista de suas contradições e sentido. principalmente pelas ciências sociais. é central na experiência intelectual brasileira. no futuro. os congêneres mais importantes e conhecidos eram os livros de Caio Prado Jr. O país será moderno e . a geografia. Muito sumariamente quero sugerir alguns contrastes. a formação brasileira se completaria no momento em que fosse superada a nossa herança de inorganicidade social – o oposto da interligação com objetivos internos – trazida da Colônia. e. Se passarmos a Sérgio Buarque de Holanda.

talvez porque a nação seja algo menos coeso do que a palavra faz imaginar” (Schwarz. dirá que a nação não se completa enquanto as alavancas do comando.Formação do Brasil no Atlântico Sul. 1997: 11-2). 1997: 11). Evolução política do Brasil (1933). 1999: 54-5).. a nação continua incompleta [. Formação da Literatura Brasileira (1959). Raízes do Brasil (1936). É como se nos dissesse que de fato ocorreu um processo formativo no Brasil e que houve esferas – no caso. Como se trata. a literária – que se completaram de modo muitas vezes até admirável. Formação do Brasil contemporâneo (1942). de uma noção “a um tempo descritiva e normativa. resultou mais sóbria e realista que a dos outros autores de que falamos.. apresentada por Antonio Candido. estará formado quando superar a sua herança portuguesa. Formação econômica do Brasil (1959) e. Trato dos Viventes . Como aliás. O esforço de formação é menos salvador do que parecia. por seu turno. bem indica sua recorrência. . na dependência das decisões do presente. Ou seja. em obras capitais do pensamento social brasileiro. sugere Arantes (Ibidem). para o autor. importante enfatizar. Os donos do poder. pode-se também dizer quer essa visão do acontecido. além do mais que o horizonte descortinado pela idéia de formação corresse na direção do ideal europeu de civilização relativamente integrada – ponto de fuga de todo espírito brasileiro bem formado” (Idem. em medidas e sentidos distintos. enquanto as decisões básicas que nos dizem respeito forem tomadas no estrangeiro. de Luís Felipe de Alencastro entre outras. principalmente as do comando econômico. Casa-grande & Senzala (1933). compreende-se. muitas vezes figurando nos próprios títulos. rural e autoritária. sem que por isso o conjunto esteja em visas de se integrar. Celso Furtado. Entendendo por formação a busca de “linhas evolutivas mais ou menos contínuas” para a vida social como tema central no pensamento social brasileiro. mais recentemente. ela constitui “verdadeira obsessão nacional” no Brasil (Arantes.] Com a distância no tempo. entre as quais poderíamos destacar: Evolução do Povo Brasileiro (1923). não passarem para dentro do país.A idéia de formação foi discutida em registo semelhante também por Paulo Arantes. Também aqui o ponto de chegada está mais adiante. quando então teríamos um país democrático. Formação do patronato político brasileiro (1958). Arantes observa que mais do que “uma experiência intelectual básica”.

Embora sejam muitas as referências à idéia de formação de Caio Prado Júnior na literatura pertinente. nesses ensaios explicita-se um esforço para dotar de sentido o mundo estudado. Em outros termos. refere-se. ou melhor. Articulando a idéia de formação à forma ensaio. buscando-se superar a situação individual do ensaísta (Bastos. a questão é posta em primeiro plano. 15). às análises que visam elaborar uma síntese sobre as sociedades nacionais. ele define o significado e o tipo de obra que Caio Prado Júnior desenvolveu. Num desses trabalhos mais recentes analisados nesta dissertação. em amplo sentido. longe de indicar estudos que fogem ao rigor científico e se desenvolvem apenas segundo impressões fugidias. Discutindo a forma narrativa de Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior. antes. inserindo-se em certa tradição hispano-americana. A idéia de formação. Em suas palavras. para Bastos aquela idéia estaria no centro das inovações que Caio Prado Júnior imprime na historiografia brasileira e constitui peça chave para a compreensão do seu trabalho. constitui categoria central da obra de Caio Prado Júnior. uma interpretação a nível nacional. no prefácio a um desses trabalhos. Sentimento do Brasil: Caio Prado Júnior – continuidades e mudanças no desenvolvimento da sociedade brasileira. 2000: p. se apresenta sob o gênero ensaio e tem por objetivo claro fornecer. elas em geral mantém um certo caráter genérico. Bastos sugere que esta. como sugere Elide Rugai Bastos no prefácio do livro de Rubem Murilo Leão Rego. mesmo naqueles trabalhos dedicados exclusivamente à análise da obra do historiador paulista. a despeito do sentido pejorativo que o termo ensaio pode assumir em certos momentos e contextos. . Para a autora: A palavra ensaio. estando assim umbilicadamente ligadas à idéia de formação e propondo-se a indagar sobre o sentido dessas formações.

cumpre advertir que no âmbito desta dissertação circunscrevemos a análise ao texto de Caio Prado Júnior. No segundo capítulo pretendemos traçar os principais aspectos da trajetória de Caio Prado Júnior tendo em vista sua vida intelectual e política. Assim procuraremos caracterizar as principais questões tratadas nas reavaliações recentes da obra de Caio Prado Júnior e. no contexto de seu livro Formação do Brasil Contemporâneo. tratar do tema. bem como alguns dos diferentes significados e sentidos que ela pode assumir no pensamento social brasileiro. nosso objetivo é evidenciar algumas possibilidades abertas pela idéia de formação do historiador paulista. nos moldes em que é dividido. Este conta ainda com uma segunda parte na qual indicaremos elementos centrais do horizonte ou contexto intelectual de Formação do Brasil Contemporâneo. bem como nos debruçaremos sobre a estrutura do livro. dar ênfase à categoria formação. . povoamento. na atualidade. Devemos dizer que ao operarmos uma seleção de textos relevantes não pretendemos dar conta da totalidade dos trabalhos que se debruçaram sobre o tema mais privilegiar a escolha de obras mais recentes que procuraram. no primeiro capítulo apresenta-se os resultados da pesquisa bibliográfica sobre Caio Prado Júnior. na medida do possível. estas reavaliações frente a análises contemporâneas sobre o pensamento social brasileiro. vida social. Assim procedendo. vida material. em particular. Assim.Reconhecendo a amplitude da problemática identificada em algumas das possibilidades interpretativas da idéia de formação. situando.

tão comuns entre nossos autores esquerdistas. postura de quem é ainda prisioneiro de uma atitude mental que tem suas raízes nos tempos da escolástica” (Ricupero. não se reivindica exatamente um caso de influência direta. prossegue Ricupero. 2000: 229-30). foi capaz de fazer uma obra monumental. manifesta na ausência de citações do pensador alemão ou de seus “discípulos” na sua obra. Pois. constitui objeto de controvérsias na literatura pertinente. a obra de Caio Prado Júnior deve muito a este autor e à tradição intelectual e política por ele inaugurada quanto à compreensão do presente histórico como resultado de um processo – até mesmo de um processo de formação. 2 2 Sobre a relativa ausência de “provas textuais” da influência do marxismo sobre Caio Prado Júnior. grande importância. 2000: 230). adequadamente a nosso ver. que o historiador paulista não encarou “o materialismo histórico como uma coleção de verdades universais. precisamente por ter sabido reter do marxismo o que nele é mais importante: a abordagem” (Idem. mostrando que ele não sente necessidade de recorrer ao argumento da autoridade. com o marxismo possivelmente limitado que conhecia. Assim. importa como indicação de que Caio Prado. “Carlos Nelson Coutinho pode mesmo ter razão ao dizer que Caio não devia conhecer muito marxismo. Questão que aliás. Assim. mas como um método vivo. . dada inclusive a pouca freqüência de citações na obra de Caio Prado Júnior como um todo de autores marxistas. Bernardo Ricupero sugere. pelo que consideramos. as citações dos clássicos marxistas. porém. o que nos obrigaria a uma pesquisa mais sistemática que foge ao âmbito desta dissertação. Nessa aproximação.No terceiro capítulo analisaremos a idéia de formação visando alcançar os objetivos já anteriormente explicitados. Ou melhor. Isto não tem. como nota Novais. todavia. não são freqüentes em Caio Prado. Neste ponto faremos um adendo ao texto acerca da concepção de história em Karl Marx.

. nessas análises contemporâneas. alguns dos artigos de História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior (1989). Caio Prado Jr. livro em homenagem ao historiador paulista reunindo os trabalhos apresentados na II Jornada de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista (UNESP) realizada entre 26 e 28 de 1988. já que nosso objetivo é realizar um balanço representativo das análises mais contemporâneas.CAPÍTULO 1 ASPECTOS DO DEBATE CONTEMPORÂNEO SOBRE CAIO PRADO JÚNIOR Neste capítulo pretendemos dar conta. 1976. 1967. e Leite. também. – Continuidades e mudanças desenvolvimento da sociedade brasileira (2000) de Rubem Murilo Leão Rego.?” publicado na revista Estudos: Sociedade e Agricultura. Num segundo momento. dos aspectos mais relevantes do debate contemporâneo acerca da obra de Caio Prado Júnior. Sentimento do Brasil: Caio Prado Jr. destacaremos também o artigo “Uma ciência política em Caio Prado Jr. particularmente em relação a Formação do Brasil Contemporâneo e. e Caio Prado Júnior na cultura política brasileira (2001). objeto deste trabalho. 3 Dentre as análises da obra de Caio Prado Júnior que podem ser consideradas “pioneiras”. deve-se destacar Cavalcanti. de Raimundo Santos (deste mesmo autor. mas que não serão contempladas neste trabalho. Assim procuraremos caracterizar as principais questões tratadas nas reavaliações recentes da obra do historiador paulista. ainda que de maneira sucinta. em abril de 2000). e a Nacionalização do Marxismo no Brasil (2000) de Bernardo Ricupero. Costa. 1966. avaliar o lugar da idéia de formação.3 Para tanto destacamos dois momentos recentes diferentes de retomada da obra de Caio Prado Júnior como objeto de análise privilegiando a discussão dos seguintes trabalhos: num primeiro momento.

Carlos Nelson Coutinho sugere que a metodologia implícita nos trabalhos historiográficos de Caio Prado Júnior não consiste na tentativa de “aplicar” ao Brasil alguns esquemas marxistas abstratos. Nesse sentido. cada um a seu modo. Sobre História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior Em seu artigo “Uma via não clássica para o capitalismo”. um fio condutor que lhe permite descobrir as conexões e o sentido dos fatos que constituem a gênese e a estrutura do Brasil contemporâneo. 1989: 115). pode-se dizer. mas na tentativa de “historicizar os conceitos” do marxismo transpondo este para a realidade brasileira: o marxismo do historiador paulista seria um método de análise. apresentar uma visão mais integrada e sistemática daqueles aspectos. da trajetória intelectual e biográfica do historiador paulista. 1. Coutinho afirma. os trabalhos destacados no que estamos chamando de segundo momento de retomada da sua obra procuram. que enquanto os artigos reunidos em História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior (1989) exploram aspectos diversos da obra. . dissertação de mestrado e tese de doutorado. nesse sentido. da trajetória política. sendo ao menos os trabalhos de Ricupero e Leão Rego originalmente formulados e apresentados como. que essa “recepção do marxismo como método e não como dogma abstrato é uma das principais razões dos acertos de interpretação contidos na obra de Caio Prado Júnior” (Coutinho. respectivamente.Ressalte-se o caráter monográfico desses últimos trabalhos.

é inegável que o objetivo central da reflexão de Caio Prado Júnior – o ponto focal a partir do qual se articula o conjunto de sua ampla investigação histórica – é a compreensão do Brasil moderno” (Ibidem). não careceu e nem carece de uma revolução . Argumenta. o que implicaria para o autor enquanto marxista. numa “análise dialética da gênese e das perspectivas deste presente” (Ibidem). Caio Prado tem sempre em vista a investigação do presente como história. O autor argumenta que “embora exista em sua obra uma certa ambigüidade a respeito da caracterização do ponto de partida – ou seja. do modo de produção e da formação econômico-social vigentes no Brasil antes da Abolição”. nesse sentido. conceitos como o de “transição” ou de “modernização”. para a constelação histórico-social que apresenta hoje?” (Ibidem). através do Império e das várias Repúblicas.Considera que “embora tenha consagrado a maior parte de sua obra historiográfica à análise de nosso passado. “é indubitável que o historiador paulista não hesita em identificar como plenamente capitalista o Brasil republicano” (Ibidem). que mesmo quando trata do passado. por isso. Tendo como núcleo de sua reflexão historiográfica o materialismo dialético. Coutinho discute também o tema das desavenças entre Caio Prado e alguns intelectuais da época em torno do modelo interpretativo dominante na Terceira Internacional e no Partido Comunista Brasileiro. destacando que Caio Prado “insiste em que nosso país não é e jamais foi feudal ou semifeudal e. Coutinho afirma ainda que para Caio Prado pensar o presente como história (como anuncia em Formação do Brasil Contemporâneo) significava responder necessariamente a seguinte questão: “de que modo e porque vias o Brasil evolui da situação colonial originária. em sua interpretação destacam-se “ainda que só implicitamente”.

corrente em sua época. na História do Brasil. com Formação do Brasil Contemporâneo. em seu artigo “A dialética da história”. apontando-o como o esgotamento do sistema colonial. premido por uma realidade já muito antiga: o passado colonial” (Ferlini. culminando com o arranjo político de 1930” (Ferlini. Segundo a autora. entre os intelectuais brasileiros da época.agrária e antiimperialista para se tornar moderno e capitalista” (Idem. 1989: 1156). frente às solicitações ampliadas do capitalismo. da política e da economia nacionais. fato que resultou em uma busca. que pretendia “dar conta das profundas modificações da sociedade. de “inserir o Brasil numa economia capitalista mundial”. Destaca. E partia da profunda determinação do sistema colonial pela história do capitalismo para dissecar por que o Brasil ainda não tomara forma. Caio Prado pretendia “ressaltar o caráter decisivo do século XIX. Para Octavio Ianni. 229). bem como entre membros da elite nacional. Vera Lúcia Amaral Ferlini. que a originalidade do historiador paulista reside na sua . segundo a autora. 1989. que haviam se acelerado na última década. em 1942. ou numa elaboração. Ainda. era forte o desejo. sem o qual não foi mais possível pensar a história e o pensamento no Brasil” (Ibidem). com Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior “inaugura uma interpretação marxista da formação social brasileira. estabelecendo um horizonte intelectual novo. de imagens capazes de confeccionar uma identidade nacional com o intuito de unir. em seu artigo “Fidelidade à História”. 1989: 228). destaca a idéia de que a historiografia de Caio Prado Júnior foi animada por uma discussão. defender e valorizar as especificidades nacionais frente ao mundo (Ibidem). nesse sentido.

1989: 72). outros não. Portanto. presente e futuro da interpretação de Caio Prado. na narrativa. “conforme ela se mostra no século XX”. das relações sociais. Ianni aponta ainda a idéia de formação e a relação estabelecida. ainda em nossos dias. Formas de vida e trabalho díspares aglutinamse em um todo insólito. (tal como já anunciava o século XIX) com vários momentos pretéritos.capacidade de produzir. dentro da compreensão da relação entre passado. Ianni destaca o estabelecimento conceitual das idéias de sentido da história. uma definição ou estigma: O presente capitalista. industrializado. A circulação simples. 1989: 71). urbanizado convive. dialogando com diversos autores contemporâneos e anteriores a ele. alguns referidos em seus trabalhos. entre o passado e o presente como elementos fundamentais em Formação do Brasil Contemporâneo: “O presente. no qual se combinam vários pretéritos” (Ibidem). “uma nova interpretação dos contornos e movimentos mais característicos da formação social brasileira” (Idem. para Octavio Ianni. ou melhor. 1989: 63). parece um mapa histórico. modos de ser e pensar (Idem. revela-se. Dentre os principais fatores que teriam conduzido Caio Prado Júnior a produzir uma interpretação dialética da história da sociedade brasileira. a circulação mercantil e a capitalista articulam-se em um todo no qual comanda a reprodução ampliada do capital. arqueológico. Em seu artigo intitulado “A visão do amigo” Florestan Fernandes defende a idéia de que a interpretação histórica de Caio Prado Júnior se diferencia de outras anteriores e subseqüentes a ele por não buscar uma “reconstrução pura e simples . em escala internacional. formas de vida e trabalho. processos e estruturas que constituem “configurações sociais de vida” (Idem. O Brasil moderno parece um caleidoscópio de muitas épocas. o que seria “uma peculiaridade básica da formação social brasileira”. em cada época.

do passado” (Fernandes. está a análise influenciada pelo materialismo dialético como fator de diferenciação que estabeleceu e introduziu na historiografia brasileira entre a análise das estruturas e a história episódica ou descritiva. . Para a autora Formação do Brasil Contemporâneo apresenta uma estrutura de construção complexa e “é muito sugestiva da postura independente do engajamento político do autor. Insere sua historiografia num debate mais amplo. 1989: 378). do seu pioneirismo ao decifrar as possibilidades de adequação da dialética materialista ao contexto das contradições brasileiras. 1989: 32). 1989: 32). o qual se fundava no materialismo histórico” (Ibidem). síntese. Em seu artigo “Impasses do inorgânico” Maria Odila Leite da Silva Dias afirma que uma contribuição fundamental da obra de Caio Prado Júnior é sem dúvida “a elaboração do método. clareza” (Dias. Deste modo Caio Prado Júnior seria um dos principais expositores da explicação da sociedade escravista e das suas peculiaridades fundamentais (Fernandes. Portanto para Dias está claro que seu envolvimento com o materialismo dialético longe de ser um ponto que diminua a importância da interpretação de Caio Prado Júnior é mesmo uma das maiores contribuições dadas pelo autor à historiografia brasileira. elaborado na sua especificidade. como é o caso do ocorrido na França. o que propunha um desafio fundamental de método” (Ibidem). Afirma que entre suas grandes contribuições. sua concretude. entre a “história tradicional” e a “história interpretativa” e afirma que “Caio inaugurou o modo mais avançado de história interpretativa no Brasil. Ressalta que sua narrativa pode ser definida como “uma tentativa de interpretação histórica materialista fecunda” (Ibidem).

analisando as especificidades de seu tempo. a partir da exploração racional e coerente dos recursos do território com fins a satisfação das necessidades materiais da população que nela habita. fato que desembocaria em uma sociedade singular e contraditória.A autora destaca como um dos eixos fundamentais da obra de Caio Prado Júnior o “tema das tensões entre sociedade e nação”. aponta para a especificidade de um processo inacabado em nossa história e que corresponde a um dos traços característicos de nossa sociedade. Nesse sentido. proposto como “totalidade orgânica” implicava em questionar e refletir sobre as possibilidades de integração da massa da população no sistema produtivo do país. orgânico. de contradição fundamental que definiria todo o vir a ser da nacionalidade. a despeito de não ter chegado a esmiuçar os anos de formação da república. Caio Prado teria mostrado de forma objetiva a dificuldade estrutural da sociedade brasileira de se formar segundo seus próprios interesses e caracteres. Assim Caio Prado Júnior teria justamente desvendado e destacado a existência deste impasse. a autora destaca a importância dada em Formação do Brasil Contemporâneo ao estudo das especificidades locais do processo colonizador – estudo que a despeito de todo desdobramento posterior da Antropologia e do . Caio Prado teria desenvolvido sua obra com o intuito de mostrar que “a colonização não se orientara no sentido de construir uma base econômica sólida e orgânica” (Dias. segundo ela. 1989: 377). Assim no livro Formação do Brasil Contemporâneo. tensão que. Para Maria Odila da Silva Dias o tema da nacionalidade. Nesse sentido. que em seu tempo vivia uma atmosfera de expectativa de perspectivas diversas. e das relações sociais de dependência colonial.

de outro. de um lado. um dos objetivos fundamentais de Formação do Brasil Contemporâneo consistiria em mostrar. Por isso atingiu em 1942. regionais que revelaram potenciais de mudança. as chamadas “forças desagregadoras” de decomposição do sistema. 1989: 379). pois. devidamente localizados no processo de povoamento. Assim poder-se-ia notar que no emprego do método de interpretação das estruturas produtivas. Eric Hobsbawn e outros (Idem. cuidadosamente trabalhado na perspectiva histórica da análise das conjunturas regionais do Brasil. dado que. Caio Prado dedicou-se à elaboração de teoria abrangente que levou em conta o estudo de modos de produção. Maria Odila da Silva Dias observa ainda o víeis prático desta obra. conjunturas. a sua foi em vários sentidos uma obra pioneira pelo grau de elaboração do processo dialético. segundo ela. 1989: 382). segundo a autora. 1989: 378). contribuiriam justamente para a . Nesse sentido a autora sugere que: no plano mais amplo da historiografia marxista. um nível de concretude e de sofisticação de método que somente vinte anos depois começou a encontrar similares nas obras de Pierre Vilar. para melhor indicar um programa de ação para o futuro” (Idem. como marxista. essas forças dificultariam o processo e as potencialidades da transformação da colônia em nação e. em suas origens históricas. justamente por conciliar a interpretação marxista com a diversidade nacional. abarcando mediações sociais específicas. a partir de um movimento dialético.desenvolvimento de técnicas precisas se mostrava bastante inovador para a época. mais ou menos diretas de dependência e subordinação com a grande lavoura do litoral (Idem. conforme suas relações mais ou menos intensas. Albert Soboul. Ainda. Caio Prado “procurou as diversidades específicas do processo brasileiro de colonização e formação da sociedade.

assim como a relação de tempo estabelecida pelo autor (entre o nosso presente e o passado colonial). portanto. que se projetavam para o futuro (Ibidem). Caio Prado Júnior teria reconstituído as tensões históricas. Para a autora o enfoque estrutural escolhido pelo historiador paulista – delimitando precisamente seu objeto numa conjuntura de crise. Maria Odila da Silva Dias sugere que o historiador paulista aborda o processo de formação da nacionalidade brasileira como sendo marginal ao processo produtivo (voltado para o provimento de necessidades exteriores) e que. 1989: 284).constituição de uma sociedade livre – “acenariam para uma futura superação” do que se poderia chamar “impasse do inorgânico” presente ainda nos dias de hoje (Idem. as formas de vida sociais da colônia. da organização precária de sobrevivência da população brasileira. que enxergam em Caio Prado Júnior. localizado entre o final do século XVIII e a época da Independência . as especificidades do povoamento do interior. Para a autora. sob o ponto de vista da formação das classes sociais. das vicissitudes. o principal tema do historiador consistiu justamente em descobrir e revelar (por oposição a narrativa costumeira) o inorgânico da vida . 1989: 381).deixa transparecer de imediato o tom engajado do trabalho. que se apresentaram como possibilidades de transformação. uma visão estritamente economicista. dos condicionamentos geográficos. de um núcleo de relações de dependência colonial. que crescia a partir de uma contradição básica. se torna um fator de desagregação do sistema colonial indicando uma possível função de unidade no futuro (Idem. assim sendo. como um processo marginal. Ao contrário de críticos. enfim. até construir formas de vida social.

Caio Prado Júnior teria demonstrado que a formação do inorgânico conduziria a uma série de impasses estruturais visando. de suas preferências como pesquisador. profundo pesquisador dos impasses estruturais da sociedade brasileira. Antonio Candido se propõe a dar um depoimento a respeito da figura humana de Caio Prado Júnior. o que depois viria a constituir e formar originalmente as classes trabalhadoras e os fatores de futura nacionalidade (Idem. sob alguns aspectos. serviria como amostra de que certas estruturas próprias do sistema colonial teriam continuidade. Por isso. 1989: 365). Nesse sentido. Muitas vezes o fato histórico custava a se tornar inteligível para o historiador. segundo Maria Odila da Silva Dias. de seu modo particular de pesquisar. de explicitá-los no seu próprio devir dialético sem falsear a interpretação deste processo com posturas ou deslizes teorizantes e. movimentos. tensões (Idem. idealistas.social. demonstrar que estes impasses estruturais viriam a causar outros impasses como o do processo de industrialização do país no século atual e que este. com tendências. Assim. Nas suas palavras em Caio Prado: “o conhecedor de história e de economia do . Caio Prado cuidou de elaborar os conceitos marxistas da forma mais concreta possível. de seu gosto pela viagem como meio de conhecimento. pois se compunha de aglomerados de forças. escrever e estudar o Brasil. a seu ver. 1989: 397). Em seu artigo “A força do concreto”. procura a partir de sua teoria demonstrar e chamar a atenção para a necessidade de transformação da estrutura da sociedade como um todo. defende a idéia de que Caio Prado. ou seja. para a mudança das bases fundamentais da sociedade brasileira a despeito da compreensão idealista de esclarecimento e progresso (Idem. por exemplo. 1989: 385). para a autora.

a produção. o mecanismo de transmissão da propriedade. a partir de suas especificidades segundo sua distribuição no espaço. 1989: 24). Sob estes suportes teria fundado uma historiografia marxista voltada para a análise de instituições diversas. adverte Antonio Candido. suas realidades e por conseguinte suas formas de produção (Idem. O que lhe interessa são a vida diária. “é fácil inferir o tipo de historiador que é. Dessas “duas dimensões de gostos”. Faz questão. derivando seu conhecimento do meio físico. a natureza mercantil da empresa agrícola. no sentido de ignorar uma quantidade de datas. “atenta ao real. as técnicas de plantio. como lembrança da figura de Caio Prado Júnior. a história. pois que “mais de uma vez ele me disse alegremente não saber história. Caio Prado Júnior teria se formado como um estudioso ligado estritamente ao “concreto”. ao leitor sistemático e microscópico dos jornais” (Candido. sem esquemas nem a . 1989: 25). esquecer datas e dar pouca importância a batalhas e detalhes. sua irreverência frente à disciplina que o consagrou. grande historiador que retificou as perspectivas sobre a nossa formação e mostrou uma série de aspectos esquecidos ou ignorados – como a qualidade real da população da Colônia. do estudo das populações. ao espírito sempre aberto para o fato do dia. e coisas assim” (Ibidem). a presença do marginalizado. os costumes. contudo. nesse sentido. situando a família das classes dirigentes na devida escala e quebrando o perfil aristocrático traçado por uma ilusão complacente” (Ibidem). o movimento dos negócios. Para Antonio Candido. de registrar. tomando este objeto a partir de uma compreensão não limitada. se embrulhar nas dinastias.Brasil se confunde na sua personalidade intelectual ao insaciável viajante e observador.

dentro do cenário acadêmico de seu tempo. nas palavras de Antonio Candido. também seu amigo pessoal: grande historiador que retificou as perspectivas sobre a nossa formação e mostrou uma série de aspectos esquecidos ou ignorados – como a qualidade real da população da Colônia. a presença do marginalizado. Caio Prado Júnior esteve sempre “interessado em pesquisar os aspectos fundamentais da sociedade. que foi. ao leitor sistemático e microscópico dos jornais (Ibidem). ou seja. ao espírito sempre aberto para o fato do dia. nas palavras de Antonio Candido era ainda muito “idealista” (Idem. Da forma de desenvolvimento de suas características como historiador Antonio Candido indica que Caio Prado deu prioridade a via de conhecimento direta. 1989: 26). Assim. a natureza mercantil da empresa agrícola. situando a . sempre se posicionou de maneira pouco ortodoxa tendo tido a felicidade de poder experimentar e desenvolver em sua ação uma apreensão bastante sofisticada e pessoal das especificidades da realidade brasileira. analisa uma estatística de produção ou estuda o povoamento. Antonio Candido afirma ainda que Caio Prado Júnior. ligada em muitos sentidos. deixando de lado uma tradição do pensamento social brasileiro que. Ele já está previamente embebido por estas e efetua de maneira produtiva a abstração como fruto maduro. diga-se de passagem. não procede como o estudioso que parte da abstração para em seguida procurar comprovantes. Caio Prado quando compulsa um documento. O conhecedor de história e de economia do Brasil se confunde na sua personalidade intelectual ao insaciável viajante e observador. Ressalta que neste esforço voltado para a “realidade concreta”. Assim Candido define o historiador paulista. ao contato primário como meio de conhecimento. afastando os aspectos que afloram para ir até as forças que regem de fato” (Ibidem).imposição de prejulgamentos”.

. em suma. 1989. Caio Prado estava ciente de que inaugurava uma nova dimensão da história. Destaca para este entendimento de Caio Prado Júnior também a descoberta efetuada pelo autor de elementos da Geografia.. 1989: 25). Maria Cecília afirma que o historiador paulista tinha por opinião que. o que demonstra suas próprias palavras: “No Brasil. no Brasil. atenta ao real.. Para Candido. livro que “abriu a fase dos estudos marxistas na visão panorâmica do país”. Alberto Torres e Oliveira Vianna . Silvio Romero. 1989: 26).”. Afirma também que em relação a interpretações anteriores.. Caio Prado “deixa longe a tradição ainda meio idealizadora que preponderava em sua época” e “funda solidamente uma história marxista. Antonio Candido considera que as qualidades esboçadas no livro de 1933 seriam amadurecidas em 1942 em Formação do Brasil Contemporâneo (Idem. em termos de produção historiográfica “estava tudo por fazer” (Idem. no Brasil. Maria Cecília Naclério Homem afirma que a originalidade de Caio Prado Júnior não pode ser entendida sem levarmos em conta que: “sua dimensão de história será muito mais ampla porque pretende transformá-la tanto pela produção escrita quanto pela sua própria participação nos acontecimentos políticos e culturais” (Homem. 1989: 24). Afirmando que sua geração sofreu já com Evolução Política do Brasil influências fundamentais de Caio Prado Júnior.família das classes dirigentes na devida escala e quebrando o perfil aristocrático traçado por uma ilusão complacente” (Candido. Em seu artigo “Do palacete à enxada”. aberta. 1989: 47). 48). não chegaram a nada . sem esquemas nem a imposição de prejulgamentos” (Idem. p. que estudou com .

geógrafo francês. Assim entre os elementos que teriam possibilitado sua ruptura com a historiografia tradicional ocupa a Geografia. 1989: 87). Foram esses métodos. Em seu artigo “O sentido do colonialismo” Maximiliano Martin Vicente chama a atenção para o fato de que Caio Prado Júnior foi em seu tempo um escritor de fecunda originalidade assumindo “uma posição de vanguarda”. Observa ainda. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. na mesma direção de Antonio Candido. a autora assinala que as viagens de Caio Prado pelo Brasil e seu entendimento da contribuição da fotografia como instrumento de trabalho de grande importância para a análise historiográfica foram fatores que o permitiram romper com a historiografia puramente institucional da tradição estabelecida. para Maria Cecília N. “que é preciso fechar os livros e partir para o reconhecimento da realidade. levantando os problemas in loco” (Idem. Discutindo o papel de Caio Prado para a “compreensão da montagem do sistema colonial feito pelos portugueses no Brasil”.Pierre Deffontaines. Ainda nesse sentido. um lugar de destaque: “a geografia tornou-se seu instrumento de trabalho para o conhecimento do país e para a elaboração da própria História” (Ibidem). o que em “em muitas ocasiões lhe trouxe problemas” (Vicente. 1989: 49). Homem. métodos que defendeu outrora com as seguintes palavras: “chega uma hora”. argumenta Vicente: . que teriam permitido ao historiador paulista atingir seu objetivo de “levantar o sistema de vida e as condições de sobrevivência de cada lugar” (Ibidem). que Caio Prado privilegiou o estudo de campo e a observação direta. ensina ele. na recém-inaugurada Faculdade de Filosofia. argumenta.

Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777/1808). Adverte. principalmente em dois de seus livros. Daí sugerir que para a compreensão do historiador paulista e de sua inversão metodológica. e Formação. deve-se notar a importância central de uma especifica concepção de colônia. destaca o sentido da colonização e os principais componentes do sistema colonial” (Ibidem). dentro da qual ele busca um ‘sentido’ para a . as colocações de autores de ampla difusão. Já John M. que “ao retomar a visão colonial na obra de Caio Prado Júnior. 1989: 90). parece óbvia a afirmação segundo a qual pode-se dizer que Caio Prado Jr. em seus escritos. anteriores e mesmo posteriores a 30. Evolução. nota-se que. ou seja.se no momento atual. o mesmo que pretendiam Fernando de Azevedo e Oliveira Vianna). pareciam não entender bem a questão. o autor vê a colônia em perspectiva econômica. Esta diferença estaria no fato de que “ao procurar descobrir a persistência dos componentes coloniais na vida brasileira (diga-se de passagem. contudo. no quadro da historiografia de sua época.. Maximiliano Vicente mostra que na raiz das divergências que Caio Prado Júnior encarou em sua época está claramente a idéia de que a colônia teria sentido por ela mesma e assim poderia ser analisada (Idem. ou procuravam interpretá-la de acordo com sua conveniência em função de alguma idéia preestabelecida (Idem. principalmente depois do detalhado e completo estudo realizado na década de 70 por Fernando Novais. 1989: 89). é um dos melhores historiadores de que dispomos. Monteiro em artigo intitulado “A dimensão histórica do latifúndio” afirma que um dos fatores de inovação da teoria de Caio Prado Júnior é a descoberta de que “as estruturas agrárias brasileiras são produtos da lógica da expansão comercial européia. a volta ao passado (colônia) tem características diferentes” (Ibidem).

Caio Prado pôde esmiuçar “as especificidades de um processo de industrialização sui generis na história do industrialismo capitalista ocidental”. Assim. o qual apontava para uma “inevitabilidade da desgraça que previa um movimento quase trágico. Nesse sentido. em sua “ênfase na estrutura” o que. necessário. no nível da simples subsistências física e do mínimo de desenvolvimento espiritual” e se encontraria relegada a um dos lados do abismo (Idem. a originalidade de Caio Prado Júnior em relação à historiografia anterior a ele estaria. Nesse sentido. 1989: 167). também quanto à industrialização. material e culturalmente. em cuja constituição jogou papel fundamental a importação de relações sociais de produção já desenvolvidas e acabadas nas sociedades clássicas do . graças a ênfase que dedicou ao estudo das estruturas e processos – o que o diferenciou ainda no meio da militância política” (Idem. para John Monteiro “percorre como espinha dorsal todas as suas análises concretas” (Ibidem). 1989: 168). mero resultado de pactos de elites conservadoras’. para a historia” (Ibidem). Justamente sua “ênfase na estrutura” teria sido o fator que possibilitou a Caio Prado Júnior manter-se afastado das interpretações “naturalistas” que produziram discursos as vezes “racistas” e “exageradamente deterministas” pautados na crença da existência de uma “massa popular que vegeta. 1989: 154).marcha da história nacional” (Monteiro. Discursos que mais legitimavam do que explicavam o tipo de exploração existente no meio social brasileiro. segundo Monteiro: nesta formação social periférica subordinada. Caio Prado pôde se separar da tradição determinista que tinha em seus princípios a “falsa noção de que a desigualdade social no Brasil se devia fundamental e primordialmente a um ‘desvio perversionista. entre outros aspectos.

capitalismo. não se põe nela o ciclo do capital industrial (o movimento geral do capital) com a inteireza dos seus departamentos e de sua realização. Bernardo Ricupero trabalha com a hipótese básica de que Formação do Brasil Contemporâneo representa um “caso bem sucedido de assimilação e recriação de um conjunto de idéias. ao conseguir isso. de uma orientação teórica e metodológica que prova sua fecundidade heurística dando conta de situação distinta da qual nasceu para dar expressão e. Não se põe nela um ciclo do capital conforme o conceito que lhe é próprio. ou estranheza. estudiosos de hoje. o autor defende que em Formação do Brasil Contemporâneo o que pode parecer uma obviedade ou um doutrinarismo – ainda mais para uma análise que não leve em conta o momento histórico de sua produção – deve ser precisamente desnaturalizado para que nós. Sobre alguns trabalhos monográficos recentes Em Caio Prado Jr. 2000: 17). como “uma resposta positiva para o dilema proposto por Gramsci sobre a “tradutibilidade” das linguagens científicas” (Idem. Portanto. 2000: 31). possamos tirar de seus meandros “sua face heurística”. modalidades determinadas unilateralmente (Ibidem). mas sim uma operação articulada. revela-se como universal” (Ricupero. Ricupero destaca que grande parte da recusa. E intra muros para que se dêem as condições necessárias deste modo de realização. de se estudar Caio Prado Júnior – que percebeu ser . é necessário que produção-distribuição-consumo se “enraízem” em formas naturais limitadas. Para o autor a “nacionalização” do marxismo operada por Caio Prado não foi uma tentativa inusitada ou isolada. e a nacionalização do marxismo no Brasil. A mais-valia desta economia periférica e subordinada realiza-se no e pelo mercado mundial. 2.

de sua indissociabilidade: naquilo que se refere à ação política. deve servir fundamentalmente para que se possa intervir na realidade do momento histórico que se vive – realidade esta que tem por princípio ser imperfeita. Além de razões práticas para operar a desnaturalização do pensamento de Caio Prado Júnior. A isto. Para Ricupero os livros de Caio Prado manifestam a convicção intelectual de que “o estudo teórico deve ser orientado para a compreensão do presente” (Ibidem). deve ser transformada. ou seja. para o autor. 2000: 26).constante por parte de nossa academia – advém de críticas. Ricupero rebate que boa parte do seu próprio interesse em Caio Prado viria justamente de sua associação com o marxismo. um defensor da unidade de teoria e prática. Assim. ou seja. Afirma que não podemos ler Caio Prado. em todos os sentidos. Caio Prado entende que a elaboração teórica tem por objetivo a política. as implicações políticas de suas análises. sem compreender que o Caio Prado como historiador é incompreensível sem levarmos em conta o Caio Prado militante político (Idem. e que uma vez que se trata de um autor revolucionário. em sua palavras “particularmente subestimado” pelo pensamento social posterior a ele. ou melhor. Assinala que Caio Prado foi. Portanto argumenta que pretende privilegiar em Caio Prado a parte que ficou. que apesar de toda crítica corresponde a um clássico de nossa literatura. e de um certo senso comum – que o acusa de uma associação ao marxismo. o historiador paulista é particularmente contundente em insistir que ela deve ser orientada por uma teoria adequada” (Ibidem). Ricupero desenvolve em seu trabalho uma análise do que denomina de “razões internas” da escrita do autor que justificam um estudo .

de um direcionamento causal. em nosso passado colonial e levantando hipóteses. Este sentido é indicado (a despeito de toda provocação e de todo alarde que possa causar) como sendo o de um interesse por um estabelecimento de um “empreendimento comercial voltado para o mercado externo. portanto. Assinala ainda que Caio Prado Júnior acreditaria que. Para ele. trabalhadas pelo braço escravo” (Idem. de suas contradições. tendo podido ir bastante fundo na investigação dos princípios de nossa formação. ou alheios. Ainda para Ricupero. baseado na produção de gêneros tropicais em grandes unidades agrícolas. Caio Prado Júnior tem grande relevância por ter sido um dos pioneiros. reflexão esta que constitui uma “contribuição particularmente importante para a compreensão da nossa realidade” (Idem. Caio Prado Júnior foi um dos que mais e melhor investigaram as origens das estruturas e do desenvolvimento do país. Acredita que dentre os nossos historiadores. a chamar a atenção para a idéia de “sentido da colonização” afirmando que não se pode falar de realidade brasileira sem levar em conta que temos em nossa constituição territorial a característica de sermos em nossa origem dotados de um “sentido”. no Brasil. em nossa historiografia. sugerindo que somos. em sua raiz. Caio Prado realizou uma “reflexão original sobre a história e a sociedade brasileira”.sistemático de sua obra. que tem por motivo. realizando fecundo mergulho. que até hoje seriam de difícil refutação. 2000: 27). interesses externos. aos nossos próprios. nosso passado é quase indissociável de nosso presente. ainda hoje (e mais ainda em sua época quando a industrialização do país e a estrutura agrária ainda estavam mais ligadas ao . 2000: 28). portanto.

começa a se formar. mesmo problematicamente. que podem até mesmo nos confundir. e a nacionalização do marxismo no Brasil. Bernardo Ricupero tem por finalidade central buscar “problematizar o sentido do Caio Prado Jr. e como notou Gildo Marçal Brandão no prefácio de Caio Prado Jr. p. mas como o de “uma certa sociedade que. o que reflete o fato de que ‘todos os momentos e aspectos não são senão partes. político e . Em suma. 2000: 157). categoria esta que deve muito a teoria marxista de interpretação da história como movimento materialista dialético. da elaboração deste sentido como essência da experiência colonial brasileira. Caio Prado foi capaz de compreender o sentido da nossa formação e fez deste sentido. Portanto para Ricupero.passado colonial).155-156). 2000. Somente a partir do desenvolvimento desta categoria de análise. por si só incompletas. há um certo ‘sentido’ que lhes confere inteligibilidade. de um todo que deve ser sempre o objetivo último do historiador’” (Idem. “já que ainda não o superamos de todo” (Ibidem). Assim elegendo como fato principal de nossa história o “sentido da colonização” Caio Prado pôde. compostos parte pelo passado. segundo Ricupero. Caio Prado pôde fornecer um retrato da Colônia “não como um mero amontoado de eventos e características combinados aleatoriamente”. apreender a “totalidade” da unidade social brasileira. pensando esta sociedade em bloco e não a partir de acontecimentos isolados” (Idem. uma chave analítica para a interpretação da história brasileira e dos desdobramentos posteriores que esta teve. A habilidade do historiador paulista em observar a realidade adviria precisamente da consciência de que “apesar de a história ser feita de um ‘cipoal de incidentes secundários’.

além do seu lugar na historiografia. muito distintas das de sua origem. Já Raimundo Santos. que ao longo de toda sua obra.teórico da política” (Brandão. Assinala. em Uma ciência política em Caio Prado Jr. 15). 2000. e argumenta que esta “vêm realçar algumas conjecturas que insistem em que. ou seja. 2000: 16). ao lado da relevância que damos as contribuições deste autor a historiografia brasileira deve-se compreender o autor como um ativista do partido e da causa política (Santos. buscando perseguir incansavelmente “uma problemática básica – as questões da construção nacional e das possibilidades de mudanças inscritas no processo histórico” – uma vez tendo atingido sustentação teórica busca conformar sua crítica (e sua pretensão de desenvolvimento de um projeto político) às determinações de processo histórico concreto (Idem. no entanto. Ainda segundo Brandão. Para contrastar estas “formulações oficiais do PCB” com as de Caio Prado. desenvolveu uma teorização que ia “muito além das ‘formulações’ oficiais do PCB” (Ibidem). exigindo . destaca os textos memorialísticos do historiador paulista (como a de seus diários políticos) como peças fundamentais para a compreensão do seu pensamento. num caminho de duas vias. Caio Prado desenvolve sua visão da política a partir dos desdobramentos práticos do seu trabalho de historiador e que. Bernardo Ricupero persegue como objetivo central mostrar como. 2001: 129). Santos sugere que a bibliografia estudada pelos integrantes do partido em geral dependia de alterações e adaptações pragmáticas que poderiam ajustar a cartilha desta literatura a conjunturas específicas. a obra de Caio Prado Jr.. Caio Prado como um autor “comunista brasileiro”. faz parte da cultura pecebista”.

particularmente a tese da existência de um feudalismo como modo de produção da colônia que Caio Prado refuta por achá-la absurda e ineficiente para explicar as origens da realidade do latifúndio brasileiro e das desigualdades no campo. mais se pareceria com a “fazenda de escravos romana do que com qualquer formação social representativa do feudalismo” (Ibidem) Para situar a discussão. que o considerava “o único teórico marxista do Partido Comunista Brasileiro”. um dos teóricos com maior . Entre os mais antigos destes autores destaca o próprio Luis Carlos Prestes que em 1954 escreveu uma crítica a Caio Prado para advertir a Revista Brasiliense pelo seu envolvimento naquilo que ele chamava de “nacional reformismo” (Idem. comunistas e não comunistas. Raimundo Santos destaca ainda um artigo publicado na imprensa comunista da época intitulado “Os fundamentos econômicos da revolução brasileira” no qual Caio Prado trata o tema da origem da economia agrária do seguinte modo: a fazenda brasileira “como sendo estruturada para o sistema de produção de grande empresa mercantil”. então militante-fundador do Ibesp. Raimundo Santos destaca ainda algumas opiniões de intelectuais sobre Caio Prado Júnior. 2001: 132).necessariamente ajustes para a práxis prescindindo. provocando entre seu meio certo mal estar. Raimundo Santos destaca que mesmo em seu período Caio Prado Júnior era notado com estranheza por outros autores. Para o entendimento da posição de Caio Prado Júnior nesta polêmica. ou Jacob Gorender. como a de Hélio Jaguaribe. portanto de uma reelaboração teórica. Raimundo Santos destaca ainda que em torno do autor se deu uma demorada polêmica em torno das teses comunistas da origem ou tipo de sociedade que existia durante a colonização no Brasil.

2001: 133). Critica precisamente as idéias de Caio Prado Júnior sobre a desnecessidade de se classificar a revolução que se faria no Brasil. Para Caio Prado Júnior a necessidade de sua tarefa consistiria em fazer uma teoria para a conjuntura. Raimundo Santos levanta a hipótese de que no livro A Evolução Política do Brasil. pondo diante do destino brasileiro. segundo ele. Afirma que seguramente “no primeiro volume de Formação do Brasil Contemporâneo o autor já buscava (para definir uma política para o seu partido?) – a especificidade da formação social. como Marx ao divisar na Europa a rota dos países atrasados. 2000. justamente para formar da diferença a idéia do “sentido” da “colônia de produção” brasileira (Ibidem). com sua análise histórica. pois. já em 1933. Em outro trabalho. Raimundo Santos destaca que Jacob Gorender comentando A revolução Brasileira de Caio Prado ainda em 1989 apontava a filiação ao positivismo lógico como um segundo deslize do historiador paulista. 15). Caio Prado Júnior já teria a pretensão de desenvolver.trânsito ao interior do PCB em seu tempo. p. para quem a rebeldia de Caio Prado em relação ao consenso da teoria do partido dever-se-ia a um “problema idealista” da sua formação (Ibidem). que nos levará ao socialismo” (Ibidem). uma teoria (uma ciência) política (Idem. Caio Prado Júnior na Cultura Política Brasileira. Afirma precisamente que as dissertações de Caio Prado Júnior sobre Formação do Brasil . Raimundo Santos procura examinar particularmente a tradição intelectual representante da cultura pecebista visando situar Caio Prado dentro da “cultura política do pecebismo contemporâneo” (Idem. somente dela é que “poderíamos avançar numa progressão. a “colônia de povoamento” americana. além do objetivo de romper com a historiografia oficial.

292). “não só mostraria como os textos políticos de Caio Prado Júnior não são meros opúsculos para consumo em pequenas querelas ad hoc. Nesse sentido. Acredita que é possível que “o movimento de interpelação do pensamento social brasileiro dos últimos tempos. que também procura resolver no livro que analisamos anteriormente. vida política (tradicionalmente à base de agitações e estéril) e estruturação partidária” (Idem. 2001. Caio Prado “sempre está buscando por à mão de seu partido elementos de teoria política para um socialismo definido de acordo com um programa de grandes reestruturações que as dissertações sobre a contemporaneidade brasileira lhe indicavam” (Ibidem). Assim. Partindo deste ponto levanta sua hipótese.Contemporâneo “desde cedo o põem em conflito com o seu partido. p. colorindo a obra com problematizações estratégicas no seu pensamento – mercantilismo e miserabilidade. ora em pleno . de que “a historiografia de Caio Prado Júnior se constrói para balizar a política comunista no Brasil a partir de alguns termos pares que afloram e sempre voltam em seus textos. “entre circunstância de pensamento social e condição militante”. justamente em torno da questão que ele chamava de falta de ‘fundamentos’ da política comunista no Brasil” (Idem. 2000: 39). Raimundo Santos considera que apesar de ser impensável fora de seu partido “o historiador vive a história de um intelectual outsider” (Ibidem). 2000: 17). no autor sempre pensada a partir da compreensão do conjunto da formação social em sua especificidade” (Idem. campesinismo e generalidade (mercado interno nacional). mas como que estariam trazendo teses para a reformulação da própria idéia de política socialista no Brasil. Raimundo Santos procura demonstrar que a reconstituição de uma unidade entre a obra básica de Caio Prado Júnior e a publicística do autor.

É este justamente o tema central de outro trabalho recente dedicado a Caio Prado Júnior: Sentimento do Brasil – Caio Prado Júnior – continuidades e mudanças no desenvolvimento da sociedade brasileira de Rubem Murilo Leão Rego. de um lado buscando reconstruir o modo de desenvolvimento do capitalismo no país que não se explica dentro dos limites estritos da nação e de outro procurando compreender porque esse processo é excludente e não democrático – essas duas questões definem o caráter da ruptura e o caráter fundador de sua macrointerpretação” (Rego. 2000: 16). os quais identifica no tipo de “definição dos sujeitos dos processos sociais” (Ibidem). De modo diferente a de outros autores.curso. Caio Prado Júnior como um autor igualmente portador de aberturas analíticas. traga. 2001: 293). entre suas surpresas. Ignácio Rangel e outros” (Idem. como vem acontecendo em relação a Gilberto Freire em algumas dimensões interdisciplinares. a começar pelo tema posto na ordem do dia pelas questões novamente trazidas pelo drama do mundo rural” (Ibidem). ou tipo especifico de “sentimento dos problemas” brasileiros. segundo ele assume uma perspectiva original.. que. bem como tornando aparente as linhas de força de sua análise. Bonfim. Rubem Murilo Leão Rego indica como eixo articulador da imagem de Brasil proposta por Caio Prado Júnior a idéia de constante “modernização . Leão Rego pretende chegar ao pensamento do historiador buscando a compreensão da lógica interna de suas idéias. O autor procura mostrar que existe uma “dupla via em que se desenvolve a análise caiopradiana. Afirma que “só muito recentemente chegam as primeiras manifestações sobre a atualidade de Caio Prado Jr. e ainda nos casos de Furtado.

sugere Leão Rego: Entre suas preocupações nucleares está a que procura constatar se as transformações ocorridas na estrutura da produção agropecuária resultaram ou não numa ampla incorporação populacional a uma estrutura de mercado. seja quanto ao caráter normativo de “transformação social” envolvido na sua obra. ganha sentido sua preocupação sobre em que medida os processos de modernização capitalista das relações sociais e da estrutura produtiva sujeitam. 2000: 27). Ou mesmo se esse mesmo processo de modernização não tem sido também um importante fator de expansão da miséria e da pobreza da população por ele excluída. em sua opinião.conservadora”. mostrando como as inovações as quais está exposta a estrutura brasileira se combina com a conservação e a reprodução. de molde a produzir efeitos positivos sobre a melhoria de suas condições de vida. embora diferentes intérpretes . Por isso. a crítica tem enfatizado a “originalidade” de Caio Prado Júnior seja quanto ao método. Sugerindo a atualidade de Caio Prado. já que nela a permanência do latifúndio está na gênese do fato de que o Brasil moderno reproduziu. conceito desenvolvido por Lênin e Gramsci. especialmente no mundo agrário. Para o autor a questão agrária ocupa lugar central na imagem caiopradiana do Brasil. Assim. consolidou e até expandiu os processos de exclusão e de marginalização social que caracterizam toda a nossa história. *** Como se pode depreender da exposição realizada. eliminam ou coexistem com os tradicionais traços arcaicos geradores da nossa miséria. tanto no primeiro quanto no segundo grupo de trabalhos destacados. Como visto também. suas reflexões têm a força da denúncia dos efeitos perversos do processo de transformação-persistência da grande propriedade funidária (Idem. particularmente mas não exclusivamente em função da introdução do marxismo nas chamadas interpretações do Brasil. ampliada do antigo sistema colonial. de consumo e de trabalho.

no próximo capítulo. aos 83 anos. apresentação dos traços fundamentais da trajetória intelectual e política do autor. mas necessária. 1. 2004). 2000: 19-21. Na segunda parte do capítulo. Pertencia a uma das famílias mais abastadas e influentes do Brasil. CAPÍTULO 2 CAIO PRADO JÚNIOR E FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO Recuperamos neste capítulo aspectos centrais da trajetória de Caio Prado Júnior sugerindo como nela as dimensões intelectual e política estão profundamente articuladas conferindo-lhe sentido próprio. ela não têm se constituído exatamente em objeto específico das análises recentes. Antes de apresentar e discutir a idéia de formação em Formação do Brasil contemporâneo de Caio Prado Júnior. Dentre . 1977. apresentamos brevemente as linhas fundamentais do contexto intelectual. Faleceu na mesma cidade em 23 de novembro de 1990. da concepção historiográfica e do plano narrativo de Formação do Brasil contemporâneo. Berriel. Aspectos de uma trajetória Caio Prado Júnior nasceu na cidade de São Paulo em 11 de fevereiro de 1907. cuja história confunde-se com a do baronato cafeicultor paulista e do próprio estado de São Paulo (Levi. faço. como estamos nos propondo a fazer. uma rápida. D’Avila. 2003. Karepovs. bem como da estrutura narrativa da obra selecionada para análise. objeto central do trabalho.se refiram e/ou destaquem em medidas diferentes a importância da idéia de formação na obra do historiador paulista.

sua cidade natal. vindo de Prado. Esse. mais que fortuna. Antônio elege-se para a Câmara Municipal de São Paulo. fazendeiros. que na incipiente cidade de São Paulo.seus ancestrais. por meio da esposa. Suas atividades nos ramos do empréstimo e do comércio lhe . no entanto. em cuja família encontravam-se notórios bandeirantes. um de seus filhos. foi um dos membros que mais se destacou na primeira geração. como ainda dois importantes historiadores: Eduardo Prado e Paulo Prado. chega em São Paulo no decorrer da primeira década do século XVIII. Sabe-se. Ao chegar ao Brasil. herda. Com a morte de sua primeira esposa casa-se com Francisca de Siqueira Moraes e se coloca como membro da elite paulistana sendo inclusive um financiador de uma expedição de ouro em Goiás em 1730. Martinho Prado (1722-1770). correspondia a casas. ruas São Bento e do Carmo. um patrimônio respeitável. empresários e políticos. que sua origem remonta à nobreza portuguesa do século XIII. temos que recuar aos idos da colônia. Antônio da Silva Prado articula desde cedo uma rede de influência importante. sabe-se que sua fortuna quando a época de seu falecimento foi modesta contando entre os bens mais valiosos deixados por ele uma rede de amigos e associados sem a qual certamente seria difícil o sucesso de seus herdeiros (Karepovs. Casa-se com Filippa do Prado. 2003). terrenos e comércio na região central. casado com Ana Vicência Rodrigues de Almeida. Seu sucessor Antônio Prado. Remonta já desta época a participação política da família. Seu primeiro membro a viver no Brasil foi Antônio da Silva Prado. destacam-se não apenas comerciantes. Ilustrando o quadro do aparecimento da família Silva Prado. Os resultados desta empreitada não são conhecidos.

rendem fortuna. Filho de Veridiana Prado. 2003: 9). Antônio Prado (tio-avô de Caio Prado Junior). Veridiana da Silva Prado (1826-1910). avô de Caio Prado Junior. 2003: 8). recebendo personalidades. Seu currículo ilustra seu empenho em reformar os convencionalismos e os padrões tradicionais da política do Império. . na família a verve “revolucionária” (D’Avila. bisavó de Caio Prado Júnior. Compra em 1878 um terreno na então Rua Santa Cecília (hoje rua Dona Veridiana) e constrói um palacete onde mantém o salão literário mais importante da cidade de São Paulo. (Karepovs. Sua filha D. Martinico da Silva Prado Junior (1843-1906). foi o primeiro deputado republicano à Assembléia Constituinte de São Paulo e um dos abolicionistas e promotores da imigração européia subvencionada mais destacados. inaugura. provavelmente com fins pragmáticos de manter a fortuna em família (Ibidem). cargo que ocupou até 1910. segundo filho de Veridiana. provavelmente. Destacaram-se entre suas atividades o comércio de açúcar e ainda seus serviços prestados à Coroa como coletor de impostos. Obteve sucesso na administração da cidade sendo seu trabalho marcado pelo embelezamento da cidade bem como de obras de elevada importância cultural como é o caso do Teatro Municipal de São Paulo e da Praça da República. Pedro II o título de Barão de Iguape em 1848. promovendo encontros e debates entre as mais diversas tendências e credos políticos (Karepovs. 2004). O terceiro Antonio Prado (1788-1875) recebe através de D. Ao morrer sua esposa casa-se com seu irmão. é escolhido prefeito da cidade em 1899. Mulher emancipada separa-se do marido Martinho Prado e exerce grande influência tanto na família quanto na sociedade paulista do final do século XIX.

neto de Martinico. sofrendo por isso prisões e censura durante a sua vida. e ainda situar sua posição na vida social paulista é curioso conhecer um caso contado em família. como é o caso de Caio Prado Junior. tendo como membro o pai de Caio Prado Jr. o imperador teria dito: “tão pequeno e já com instintos revolucionários como o pai”. ele afrontava a elite paulista com pensamentos libertários e democráticos europeus defendendo a aplicabilidade dos mesmos no Brasil. alguns membros da família Silva Prado. e. Segundo uma versão da historia. quando cursava a Faculdade de Direito. Martinico Prado Neto. 2003: 9). sua mãe – Veridiana – promoveu uma recepção para D. Pedro II não teria sorrido ao saber da identidade de seu pequeno agressor. . Na versão de Caio Prado Júnior. narra em seu livro de memórias Alegrias e tristezas de uma governanta alemã no Brasil. D. 2003: 10). respondeu Veridiana. adotando caráter progressista e. sempre recorria ao exemplo da França e Estados Unidos. salientando que os pequenos Prados tinham a fama de crianças mais “mal criadas” de toda São Paulo (von Binzer. de seis anos de idade e filho de Martinico. países pioneiros na modernização do Estado. Em 1887.Já. levando às últimas conseqüências a vida segundo ideais revolucionários. D. tenderam para idéias de cunho liberal. governanta alemã que cuidou dos seus filhos. sim. 4 A despeito de sua condição de elite. esta história tinha uma diferença. atingiu o imperador na face com uma bola de pétalas de rosa. como Martinico Prado. Numerosa. Sabe-se que seu espírito inovador repercutiu fortemente na formação de seus filhos. 4 Para ilustrar o comportamento dos filhos de Martinico Prado.. Sorrindo. cuja educação diferiu em muito da recebida em famílias típicas da elite brasileira. teria manifestado certa raiva (Karepovs. Como deputado pelo Partido Republicano em 1878. 1956). Incentivou a educação não rígida dos filhos como parte de seu republicanismo e de seu repúdio aos costumes não tradicionais. Pedro parou colocou sua mão sobre a cabeça do menino e perguntou: “este quem é?” “Filho de Martinico”.Pedro II. fato que Ina von Binzer. sua família era reconhecida como um clã de rebeldes. Durante o encontro. para salientar a necessidade de reformas políticas no país (Karepovs.

. Inglaterra. freqüentou por um ano o colégio Chelmsford Hall. 1977. então. Por esta época. tornando-se Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais aos 21 anos. Fundado em 1926. de ser convocados para os escalões superiores do serviço público. estudou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. talvez não se devesse minimizar a experiência de sociabilidade intelectual e política da instituição para a compreensão da formação do historiador paulista. ingressou no Colégio São Luis. em seu início. “os estudantes dos cursos jurídicos tinham não apenas a pretensão mas também a possibilidade objetiva de ingressar nas carreiras ligadas ao trabalho político e intelectual ou. centralizando “tanto a produção intelectual nacional. tendo esta apenas um ano de interrupção.6 Em 1928 ingressou no Partido Democrático (PD). um dos principais sustentáculos do pacto liberal-oligárquico conhecido como “política do café-com- 5 Sobre a formação escolar da elite brasileira do período. o PD reunia parte da elite paulistana descontente com a hegemonia do Partido Republicano Paulista. em razão de doença de um de seus irmãos. teve formação escolar privilegiada contando.Caio Prado Junior.5 Em 1918. 2002: 57). Entre 1924 e 1928. à época. não apenas o reforço institucional da socialização da elite brasileira. que neste mesmo ano se mudara da cidade de Itu para a Capital. como também uma “instância mediadora na importação e difusão da produção intelectual européia no país“. como observou Sérgio Miceli. Para uma visão integrada do tema. dos jesuítas. De modo que. ver Nagle. 2001: 118). ver Needell. 2000: 200). uma vez que se indignara com fraude promovida por esse nas eleições municipais daquele ano. instalando-se na Avenida Paulista. no âmbito seja das administrações estaduais. com a orientação. 2003: 10-11). Teve. (Karepovs. de professores particulares. rico contato com o universo da crítica e do ensaísmo político. em Eastbourn. e por não tolerar o Partido Republicano Paulista (PRP). influenciado pelo pai. 2003: 11). 1993. seja do governo central” (Miceli. Exerceu a advocacia por alguns anos (Karepovs. ao longo da Primeira República. Nele permaneceu até a conclusão de sua formação secundária. A Faculdade de Direito constituía. 6 Embora como aponta Francisco Iglésias o “curso de direito. quanto parte significativa dos meios materiais de sua divulgação através de revistas e jornais jurídicos e literários” (Botelho. “pois não se dedicou à advocacia” (Iglésias. em casa. durante a Faculdade de Direito. como era comum entre as elites da época. na Faculdade de São Paulo” pouco tenha valido a Caio Prado Júnior.

destacara-se entre os fundadores desse novo partido. e. Caio Prado Júnior foi designado para a Delegacia Revolucionária de Ribeirão Preto. organizando o Partido Democrático nos bairros e no interior do Estado. Dando-se conta da inutilidade de seus esforços. 1975 e Schwartzman. e ainda prestando serviços de rotina como a organização de comícios. em campanha eleitoral.leite” que predominou no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Após a vitória das forças aliancistas. Uma de suas atribuições foi realizar um levantamento sobre os abusos do governo deposto. logo depois participando de episódios que antecederam a chamada Revolução de 1930 (Ibidem). pois seus inquéritos eram imediatamente arquivados. 7 Sobre o Partido Democrático ver Carone. onde trabalhou cerca de três meses. estando em uma recepção oferecida a Julio prestes por membros da elite paulista. Antônio Prado. Durante a campanha para as eleições presidenciais de 1930 o Partido Democrático apoiou Getúlio Vargas. . Júlio Prestes. e em especial. Por esta ocasião teve sua primeira prisão quando. a Aliança Liberal iniciou os preparativos para um golpe de estado que desembocaram no movimento armado de 3 de outubro de 1930. contra o candidato oficial do regime representante do PRP. apurar casos de corrupção. candidato da Aliança Liberal.7 É interessante notar ainda que seu tio-avô. Tendo sido derrotada nas urnas. deu um viva à Getúlio Vargas (Ibidem). Caio Prado Júnior participava intensamente como militante. 1975. em 31 de dezembro de 1929. Caio Prado Junior participa neste momento de operações de sabotagem nas instalações de comunicações da estrada para o Rio de Janeiro (Ibidem). 1977. Love. Embora não ocupasse posição de destaque.

No caso de Caio Prado Júnior sua condição de intelectual. encontra um momento particularmente difícil para os intelectuais. já que para se adequar às novas orientações políticas preconizadas no VI Congresso da Internacional Comunista. filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1931.logo se afastou do cargo e decepcionado com a inconsistência política e ideológica da chamada “República Nova”. foram destituídos ou afastados da direção partidária ou convidados a realizar “autocríticas” quanto a sua militância política. em virtude de suas atividades profissionais. dedica-se entre outras atividades à tradução do Tratado de Materialismo Histórico. ou ainda origem social. . 8 Neste momento. No período. Aproxima-se. 2000. Ao entrar no PCB. 1997 e Ricupero. do marxismo. perseguindo em suas “fileiras” os que se identificavam com a linha política anterior. 2003: 12). o partido acusava a social-democracia como tributária do fascismo. como é o caso de Astrojildo Pereira e Otavio Brandão. nem sempre pacífica. seguindo esta mesma orientação chamada “obreirista”. de autoria de Nicolai Bukharin. avaliada como “pequeno-burguesa” (Karepovs. sua origem social e ainda sua conhecida independência frente aos cânones ideológicos. diversos cargos da direção do partido foram ocupados por operários e militantes que pareciam se identificar com a nova orientação (Idem. vários intelectuais. então. 2003: 12). como ele mesmo assinalou anos mais 8 Sobre Caio Prado Júnior e o PCB. com o PCB. ver Brandão. editado em quatro volumes pelas Edições Caramuru em 1933 e 1934 (Ibidem). Ainda. marcaram quase que de modo permanente sua longa relação.

procurou traçar a síntese da nossa evolução política. em 1946. Sempre fui muito marginalizado no Partido. em cujo benefício se faz a história oficial” (Apud Karepovs. o que remetia à originalidade de seu pensamento pretendendo diferenciá-lo das interpretações da sociedade brasileira anteriores e mesmo então correntes. de A evolução política do Brasil. o uso de nova chave de interpretação da sociedade brasileira: o materialismo dialético. Caio Prado. que eu considerava falhos. que também na nossa história os heróis e os grande feitos não são heróis e grandes senão na medida em que acordam com os interesses das classes dirigentes. ao lado de outros ensaios anexados. no país. Fato relevante é que este livro aparecia com o subtítulo de “Ensaio de interpretação materialista da história brasileira”. abandona este subtítulo e o publica. em 1933. É. não em termos pessoais. no entanto. 2003: 8). em meio às atividades políticas que Caio Prado inicia sua atividade propriamente intelectual. 2003: 12). portanto. mas por causa da minha maneira de interpretar o Brasil. estava o de “mostrar. Nessa obra. com a publicação. Sempre fui um elemento secundário e mal considerado. pela oposição a seus esquemas políticos e econômicos. como Evolução Política do Brasil e outros estudos. no que diziam respeito ao Brasil” (Apud Karepovs. inaugurando. nem tive nele grande prestigio ou influência.tarde: “Nunca pertenci à direção do Partido. num livro ao alcance de todo mundo. Entre seus objetivos. Em Evolução Política do Brasil já antecipa uma de suas teses fundamentais daquilo que viria a ser tanto a sua obra como todo quanto seu debate junto ao . publicada por sua conta.

primeiro livro apreendido pela polícia republicana em São Paulo (Ibidem. Para Francisco Iglesias autores anteriores a Caio Prado Júnior não apontavam o interesse que o período dispõe justamente pelos movimentos populares: “a revolta dos cabanos. de modo atenuado e de todo revisto em texto posteriores -. Não se fala em feudalismo.Partido Comunista Brasileiro: a impossibilidade de entender o período colonial brasileiro como feudal. 2000: 22). sócio fundador da Academia Brasileira de Letras. quando antes quase não eram objeto de atenção” (Idem. Ainda inovadora é sua detida narrativa sobre as revoltas do período da Regência. um dos principais financiadores da Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922 e elemento de coesão intelectual e social do modernismo paulista. Caio Prado Júnior tinha em sua família. Há aí achados brilhantes e definitivos. . como Celso Furtado também se debruçariam sobre o tema a fim de contestar a ocorrência de feudalismo no Brasil. como já se assinalou. Esta será uma das idéias básicas. 2000). e posteriores.9 Como sugeriu Francisco Iglésias sobre o livro: percebe-se no autor pleno domínio da trajetória nativa. Paulo Prado. 1999). pela aplicação de categorias do mundo europeu. da transição e do Império. 9 Outros autores contemporâneos. dois historiadores com certo alcance junto à intelectualidade da época. apreende o essencial do processo da Colônia. a despeito de sua grande diferença e originalidade no campo da história. Sintético. com A Ilusão Americana (1893). a dos balaios e a agitação praieira têm lúcidas análises. notabilizou-se com Retrato do Brasil de 1928 (Berriel. situando-o aos idos da colônia e ao modo de produção próprio da mesma. Oliveira. e seu tio-avô Eduardo Prado. como Roberto Simonsen (1937). 2000: 202) Outro tema que o acompanha durante sua vida intelectual e política e que analisa já neste seu livro de estréia é o do latifúndio. em visão original. muito repetida em outros escritos e uma das origens de suas discordâncias com os rotulados marxistas locais (Iglésias. como era comum – fala um pouco.

Teve uma reedição apenas. datada do ano seguinte. em 1935. de acordo com seu entendimento.S.S.S. após seis meses. sendo por ele abertamente defendida (Karepovs. 2000) – tendo também o estudo problemas com a censura do Estado Novo (Karepovs.R. participando inclusive da formulação de seus princípios junto com seu irmão pintor Carlos Prado em 1932). Embora sem . Em 1934. um novo mundo trata tanto dos resultados conquistados da revolução que admirara e observava. Caio Prado Júnior se matricula na recém-criada Faculdade de Filosofia. Tamanho interesse despertado no público paulista motiva Caio Prado a escrever o seu segundo livro. Neste desenvolve análise mais detalhada daquela experiência. segundo Francisco Iglésias. 2003: 12).. Caio Prado Júnior realiza uma viagem de estudos à antiga União Soviética a fim de conhecer pessoalmente o que. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. acabou sendo apreendida pela polícia. Caio Prado já desenvolveria uma das chaves que o caracteriza como historiador. tanto da China como da União Soviética. O próprio Caio Prado Júnior. U. Caio Prado relata sua viagem em concorridas conferências realizadas no Clube de Artistas Modernos em São Paulo (organização que ajudou a fundar. um novo mundo. seu interesse pela história viva.S. 2003: 12).. o considerava ultrapassado (Iglésias. já havia estudado por meio de depoimentos de terceiros. apenas iniciada até então (Karepovs. assim como da ideologia que a sustentava e ainda o marxismo – ideal que o demoveu por toda vida. Neste. publicado em 1934 e cuja segunda edição.R. nesse caso a experiência do comunismo na União Soviética. Ao retornar ao Brasil. 2003: 13) Anos mais tarde retoma aquela temática em outro livro: O mundo do socialismo (1962). U.No mesmo ano de 1933.

No Brasil o resultado dessa nova orientação antifascista foi o surgimento da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Jean Perrin. das quais Caio Prado era assinante e leitor atento (Ibidem). no campo de interesse da historiografia destacam-se a REVUE HISTORIQUE e os ANNALES DE HISTOIRE ECONOMIQUE E DE SYNTHÈSE SOCIALE. O destaque nesta fase quanto às suas leituras científicas é para as revistas que repercutiam questões epistemológicas postas pelas recentes descobertas ocorridas em vários campos das ciências e que. Marc Bloch. pois não tinha necessidade do diploma. 2000). que viriam influenciar seus trabalhos posteriores (Karepovs. tornando-se em seguida um dos principais colaboradores da revista “Geografia”. e ainda sua participação e vivência em um ambiente cultural em que tinha como interlocutores. que agrupava um variado . onde trava estreito contato com os professores da missão francesa que deram início aquela Universidade. Dentre um amplo campo de interesse no qual Caio Prado Júnior se formou. entre outros.interesse em concluir o curso. No mesmo ano. Voltando à cena política. Paul Langevin. Caio Prado participa de turmas dos cursos de História e Geografia. mantida por esta associação. Caio Prado participa da fundação da Associação dos Geógrafos do Brasil. que segundo a orientação do VII Congresso Internacional Comunista congraçavam todas forcas políticas que se opunham ao fascismo e ao nazismo. em 1935 formaram-se por todo mundo as chamadas “frentes populares”. intelectuais como Lucien Febvre. (Iumatti. 2003: 13). direta ou indiretamente. Paulo Teixeira Iumatti destaca sua experiência a partir do debate com cientistas europeus. Henri Berr. especialmente os geógrafos Pierre Moinbeing e Pierre Deffontaines. na época do Front Populaire.

como militante do Partido Comunista Francês (PCF). foi preso em dezembro de 1935. Em decorrência de suas atividades frente à ANL em São Paulo. além de redigir artigos publicados. mas com suspensão do estado de sitio em 1937. realizou. Após um breve período de legalidade. e fechada em junho de 1935. e trazido a São Paulo. do qual foi um dos diretores (Karepovs. a idéia de uma insurreição armada ganhou corpo e foi levada a cabo em fins de novembro. chamada “Lei Monstro”. Ali. no Rio Grande do Sul. organizou diretórios municipais pelo Estado. mas que atingiu uma ampla gama de opositores de Getúlio Vargas. após o desencadeamento da insurreição armada comunista. em Natal.espectro de forças sociais que se opunham ao governo Vargas. requereu um habeas-corpus que lhe valeu a liberdade. . Recife e Rio de Janeiro. Nessa função. indo exilar-se na França. a ANL foi enquadrada na Lei de Segurança Nacional. general Miguel Costa. O fracasso do movimento levou a uma imediata repressão política. sobretudo. 2003: 13). Ficou preso durante dois anos. palestras. em abril de 1937 acabou denunciado por crime contra a segurança nacional. que teve como presidente o ex-comandante da Coluna Prestes. sucessivamente prorrogado até junho de 1937 (Ibidem). viagens. Caio Prado Júnior assumiu a vice-presidência regional da ANL em São Paulo. Nos meses subseqüentes. inclusive o Partido Comunista. (Ibidem). Imediatamente saiu do Brasil. marcadamente anticomunista. e que culminou com a aprovação do Estado de Sítio. Caio Prado Júnior foi submetido a uma severa vigilância por parte da policia política paulista e. comícios. pelo diário paulistano A Platéia.

Tito Batini. foi possível ao PCB voltar a se organizar. Este acaba por apoiar Getúlio Vargas. em agosto de 1943. David Lerner. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. portanto. sediada no Rio de Janeiro e tendo à frente o chamado “grupo baiano”. graças às relações deste junto ao Eixo durante a Guerra (Karepovs. pois ainda estava preso. Diógenes Arruda. realizada na Serra da Mantiqueira. representados principalmente por Mário Alves. Maurício Grabois e Pedro Pomar tem como resposta a divergência de outro grupo que em São Paulo e Rio de Janeiro tinha como participantes Caio Prado Júnior. em plena ditadura do Estado Novo. 1997). o que ocorreu após a Segunda Conferência Nacional. Frente à iminência do desencadeamento da Segunda Guerra Mundial. pois também fora absolvido em dezembro de 1938 das acusações que sobre ele pesavam no Tribunal de Segurança Nacional. formou-se a Comissão Nacional de Organização Partidária (CNOP). Astrojildo Pereira e Mario Schenberg. pois o Partido Comunista Brasileiro fora fortemente abalado pela repressão policia do regime ditatorial varguista (Brandão. Estes reunindo-se nos “Comitês de Ação” contrapuseram-se àqueles e inspirados na ANL defenderam abertamente uma luta contra o “fascismo” do Estado Novo . ao lado dos paises aliados e. na qual Luis Carlos Prestes fora eleito secretário-geral in absentia. 2003: 14). Caio Prado retornou ao Brasil em 1939. João Amazonas. Nesse encontro. Heitor Ferreira Lima.atuou em tarefas de apoio e solidariedade aos combatentes republicanos na Guerra Civil Espanhola (Ibidem). Victor Konder. Após seu retorno. da União Soviética. Os passos políticos previstos durante o chamado “Encontro da Mantiqueira”. Zacharias de Sá Carvalho. sua militância políticopartidária foi muito restrita.

Arthur Neves. e já nos últimos anos do Estado Novo participa da revista Hoje – O Mundo em Letra e Forma. em 1945. Em 1943 funda a Gráfica Urupês e a Editora Brasiliense. Ao sair da prisão Luis Carlos Prestes. Martinho Prado Neto. Em 1945 retoma a análise do período colonial em História Econômica do Brasil dando ênfase à busca do sentido da colonização brasileira em que destaca por base econômica o latifúndio. Tem entre seus sócios seu pai. Dedica-se à atividade editorial. Entre as obras literárias. a monocultura e a escravidão tratando também dos aspectos econômicos do Império e da República. a editora é responsável pela . Neste momento Caio Prado participa da fundação da União Democrática Nacional (UDN). Leandro Dupré. dentro de um certo recorte temático.(Ibidem). retoma sua produção intelectual em artigos. tendo como linha editorial a ênfase às Ciências Sociais e particularmente estudos e textos voltados à interpretação do Brasil como é o caso da coleção “Problemas Brasileiros”. em 1942 – obra que o coloca em posição de destaque junto aos intérpretes do Brasil. prefácios e principalmente publicando Formação do Brasil Contemporâneo. Hermes Lima. Na década de 1940. e chega a ser cotado para candidato à presidência da República com o apoio de liberais e comunistas aos quais servia como interlocutor intermediário (Ibidem). Caio Prado Júnior não segue os dissidentes e permanece no PCB. consegue a união dentro do PCB em torno da CNOP minimizando os conflitos internos e provocando mais tarde a dissidência de membros dos “Comitês de Ação” que criariam em 1945 o Partido Socialista Brasileiro (Ibidem). vindo depois a contar com Monteiro Lobato entre outros. a qual visava colocar e apontar os problemas nacionais e se possível caminhos para solucioná-los.

texto que articula os principais pontos tratados no I Congresso Brasileiro de Escritores. após protesto público contra a cassação dos mandatos do PCB e uma vez liberto retoma as atividades junto a editora Brasiliense. após dezoito anos na ilegalidade. Caio Prado Júnior participa no período de ações contrárias ao Estado Novo. Com intensa atividade política. Eleito deputado estadual em 1945. (Idem. 2003: 8). Caio Prado foi o líder da bancada do PCB na Assembléia Legislativa de São Paulo até 1947. do Partido Comunista Brasileiro. Participou ainda da criação do jornal Hoje. figurando como um elemento articulador dos vários segmentos da esquerda brasileira. Em 1945.publicação das obras completas de Lima Barreto. o jornalista Aparício Torelli. o fim da ditadura e o exercício da democracia. Documento no qual afirma-se ainda a posição dos escritores frente ao Estado Novo e seu compromisso com a defesa do voto direto. o arquiteto Oscar Niemeyer e inclusive Caio Prado Júnior que iria se candidatar por sua legenda nas eleições de 1945 e 1947. Graciliano Ramos e Álvaro Moreira. Volta a ser preso. o pintor Candido Portinari. Monteiro Lobato e Maria José Dupré. como colaborador e acionista cedendo inclusive uma parte do imóvel aonde se instalava sua editora. quando mais uma vez o PCB volta a ilegalidade. o Partido Comunista Brasileiro retoma suas atividades de forma aberta e passa a contar com novos colaboradores entre eles escritores como Jorge Amado. ainda em 1945. quando teve seu mandato cassado durante o exercício do governo do presidente Eurico Gaspar Dutra. o físico e professor Mario Schenberg. com a volta do estado de direito. Dedica-se neste momento aos estudos de . Caio Prado participa da redação final de “Declaração de Princípios”.

Michel Lowy. Fernando Henrique Cardoso. em 1979. Edgard Carone. Herbert de Souza. Caio Prado Júnior publica. Entre seus principais colaboradores estavam Manoel Correa de Andrade. Francisco de Assis Barbosa. Escreve em 1954 Diretrizes para uma política econômica brasileira concorrendo a Cátedra de Economia Política da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo a despeito de reconhecer sua difícil aprovação devido ao conhecido conservadorismo daquela instituição. entre outros. Josué de Castro. Caio Prado Júnior lança a Revista Brasiliense. publicando também artigos na revista Fundamentos – sendo ainda membro da Comissão de Redação da mesma. Otávio Brandão. uma vez que não havia como sua tese ser reprovada. Gianfrancesco Guarnieri. se contrapõe à tese defendida pelo PCB sobre os “resíduos feudais” na sociedade brasileira – segundo a qual o principal entrave da economia brasileira era a permanência do latifúndio. Maria Isaura Pereira de Queiroz. Pretende ampliar os debates entre os interlocutores interessados em discutir o tema da formação da sociedade e do estado nacional brasileiro através da resolução de suas contradições. Em 1955.filosofia e economia. coerente com as publicações da editora. Florestan Fernandes. Neste. Obteve assim o título de livre docente. resenhas e editoriais publicados na Revista Brasiliense. 2003: 22). Régis Duprat. dado a qualidade do material apresentado (Idem. mais uma vez. Gerard Lebrun. Jean Claude Bernadet. Catullo Branco. Elias Chaves Neto. entre outros assuntos Caio Prado discute e. Édson Carneiro. o que colocava a reforma agrária como principal item . Reunindo alguns dos seus artigos. A questão agrária no Brasil. Afrânio Coutinho. Antonio Candido.

Por esta época o historiador paulista reafirma sua condição de intelectual cujo pensamento estava articulado à prática política. Para Caio Prado que defendia a tese da inexistência de um feudalismo no Brasil. 2003: 23). e daí contempla sobranceiro o mundo. Durante todo este período a Editora Brasiliense e sua livraria estiveram sob o controle sistemático da censura tendo Caio Prado sofrido apreensões. mais uma vez. Em 1964 a Revista Brasiliense foi extinta por ordem do regime militar que se instaurara em Abril daquele ano e Caio Prado foi. Publica em 1966 A revolução brasileira. o país deveria ser pensado como economia integrada no sistema mundial do capitalismo. ao homem de pensamento que não se encerra em torre de marfim. E sim aquele que procura colocar o seu pensamento a serviço da coletividade em que vive e da qual efetivamente participa” (Apud Karepovs. deste feita pelo DEOPS-SP. prisões e submetido a depoimentos. Segundo ele o partido ao pensar e propor caminhos para a sociedade brasileira se apropriava de “modelos estranhos e inaplicáveis” à realidade brasileira. obra em que analisa as perspectivas econômicas e políticas do período e critica escolhas e erros do PCB. O discurso que fez ao receber o prêmio Juca Pato (intelectual do ano) pode ilustrar seu ideal para uma prática intelectual: “refiro-me ao intelectual atuante.de resolução dos problemas nacionais. Por isso criticava os que entendiam ser a reforma agrária o ponto chave para o desenvolvimento do socialismo mesmo porque já havia apontado a natureza capitalista da agricultura brasileira. Caio Prado Júnior atribuía ao desconhecimento das reais condições e necessidades do país o fracasso político do PCB em 1964 (Karepovs. . 2003: 24). detido.

Dialética do Conhecimento (1952). Foi indiciado e condenado a quatro anos de prisão ficando preso até 1971 na Casa de Detenção Tiradentes sendo depois transferido para o Quartel de Quintaúna. Formação do Brasil Contemporâneo e as questões do seu tempo Caio Prado Júnior escreve Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia interessado em dar conta do que chama de “sentido da formação” da realidade do Brasil até o presente em que vivia. É prejudicado pelo AI-5 e impedido de atingir seu objetivo. Consta que o autor pretendia dar continuidade ao trabalho noutros volumes que seguiriam ao publicado em 1942 dedicado à colônia. Deste esforço publica O estruturalismo de Levi-Strauss e O marxismo de Louis Althusser. Não há consenso. à livre-docência em História com fins de ocupar a cadeira de Sérgio Buarque de Holanda. Concorre. Notas introdutórias à lógica dialética (1959).Em decreto de 1969 foi “aposentado” de sua condição de livre-docente na Faculdade de Direito da USP. Em tese escrita e intitulada Historia e Desenvolvimento criticava a política econômica em curso na época que se mostrava equivocada por se basear em modelos criados para casos onde o capitalismo já havia amadurecido (Ibidem). no entanto. Durante este período se dedica à revisão e debate de idéias em voga entre a intelectualidade da época e que julgava mal pensadas. Escreveu além das obras já citadas. quanto número de volumes previstos no . O que é filosofia? (1981) e A cidade de São Paulo (1983). Esboço dos fundamentos da teoria econômica (1957). 2. instigado por amigos e inclusive pelo próprio Sérgio Buarque. O que é liberdade? (1980).

Sabemos. pelo movimento modernista. particularmente Populações Meridionais do Brasil (1920). Embora retomando parte deste e seguindo sua análise até 1976. quando. pela repercussão da revolução russa no Brasil. momento em que “o país crescera em população e vê o despertar de uma consciência crítica mais profunda e menos episódica” (Iglésias. animada pelas discussões contemporâneas ao centenário da Independência. não chegou a se efetivar. deixando de lado a análise dos aspectos sociais e políticos que distinguem Formação do Brasil Contemporâneo. Já Francisco Iglésias (2000: 203). já perceptível na década de 1920. 1982: 12). se enquadra em . de fato. Tal renovação. percorre todo o trajeto antes imaginado para Formação do Brasil Contemporâneo de 1942. atêm-se em História Econômica do Brasil na análise das conjunturas e processos econômicos.projeto original que. fala em apenas mais dois volumes. Carlos Nelson Coutinho (1989: 115) e José Roberto do Amaral Lapa (1999: 261) falam em mais 3 volumes que chegariam a contemporaneidade. Os motivos pelos quais desistiu de continuar sua empresa não nos é conhecido. e Retrato do Brasil (1928) de Paulo Prado. tendo o livro obtido vários anexos posteriores. partira para outros campos do saber como o da filosofia e que em História Econômica do Brasil. de Oliveira Vianna. segundo Francisco Iglesias. “se dá uma tentativa de redescoberta do Brasil”. no entanto que Caio Prado Júnior. e tampouco foi apontado pelos intérpretes anteriores. devemos situar este trabalho dentro do quadro de uma renovação intelectual. Quanto ao horizonte ou contexto intelectual de Formação do Brasil Contemporâneo. com os trabalhos. tendo uma extensa produção intelectual. de 1945. entre outros fatores. por exemplo.

também Octavio Ianni entende que com Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior respondia. política e cultural da década de 1930 e se inspira nesta com o intuito de prover de teoria um determinado apetite político e intelectual característico de seu tempo. da distribuição e do consumo (Idem. seis anos depois do segundo. à intensa agitação social. em pleno Estado Novo repressivo e renovador. de um lado. Antonio Candido sugere que a sua própria geração aprendeu “a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos de passado e em função de três livros”: o próprio Raízes do Brasil. apesar de tudo. 1995: 11). Nesse sentido. Sobre Caio Prado Júnior e Formação do Brasil Contemporâneo neste contexto sugere Antonio Candido: Diferente dos anteriores [ refere-se a Casa-grande & Senzala e Raízes do Brasil]. abafado pelo Estado Novo” (Ibidem). 1995: 9). sugere o autor: . Na mesma direção de Antonio Candido. Formação do Brasil Contemporâneo surgiu nove anos depois do primeiro. Discutindo o “significado” de Raízes do Brasil (1936) em prefácio ao livro de Sérgio Buarque de Holanda. Casa-grande & Senzala de Gilberto Freyre e Formação do Brasil Contemporâneo. Nele se manifestava um autor que não disfarçava o labor da composição nem se preocupava com a beleza ou expressividade do estilo. este “publicado quando estávamos na escola superior” (Candido. Trazendo para a linha de frente os informantes coloniais de mentalidade econômica mais sólida e prática.discussões acerca do desejo de busca de uma identidade nacional que integrasse todo o território e que colocasse o país no curso da modernidade. Observa Candido que estes livros procuravam exprimir “a mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e análise sociais que eclodiu depois da Revolução de 1930 e não foi. dava o primeiro grande exemplo de interpretação do passado em função das realidades básicas de produção.

pode-se dizer que há uma contemporaneidade entre a interpretação desenvolvida por Caio Prado e as controvérsias e os dilemas com os quais a sociedade brasileira passou a defrontar-se desde décadas anteriores. Jackson de Figueiredo. Oliveira Viana. Nesse sentido sugere o autor: diante das interpretações de Oliveira Lima. p. a de Caio Prado Jr. propostas e interpretações (Idem. Martins de Almeida. 63). pode ser tomada como uma interpretação diferente. pois redescobre o passado. De outro lado. pouco se refere no livro (Idem. Sérgio Buarque de Holanda e outros. 1989. contudo. Euclides da Cunha. 1999: 261). Pandiá Calógeras. e mais abertamente a partir dos anos 30. Gilberto Amado. Vicente Licínio Cardoso. controvérsias e interpretações contemporâneas e anteriores” não desprezando o desafio de “equacionar. Manoel Bonfim. . formular e aprimorar uma nova interpretação dos contornos e movimentos mais característicos da formação social brasileira” (Ibidem). Caio Prado mostra-se conhecedor de “estudos. original e influente. à exceção de Casa-grande & Senzala (1933) de Gilberto Freyre. sugere Octavio Ianni. Já José Roberto do Amaral Lapa observa que. partidos políticos e intelectuais. Afonso Arinos de Mello Franco. quanto à “produção acadêmica que lhe foi contemporânea. As agitações e as crises provocavam todos. desafiavam grupos e classes. Caio Prado Júnior dialogava com vários autores contemporâneos e anteriores a ele. de que em alguns casos diverge quando não altera algumas de suas teses. A agitação social. suscitaram outras e novas idéias. ignorou-os solenemente” (Lapa. aos quais. antes e depois do lançamento desse seu livro em 1942 [Formação do Brasil contemporâneo]. Roberto Simonsen. Azevedo Amaral. política e cultural. como observa Ianni. juntamente com os impasses e as crises da economia. José Maria Belo. repensa o presente e abre perspectivas sobre tendências futuras (Ibidem). Gilberto Freyre. De todo modo. 1989: 64). movimentos sociais.

feitas por diferentes autores com resultados menos expressivos” (Ibidem). bem como os relatos de viajantes. 1817. segundo o autor. B. Brésil de Henri Koster. par S. Maximillien. Voyage dans les provinces de St Paul e Sainte Catherine e Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Gerais de Auguste Saint Hilaire. já que no período colonial havia apenas . Francisco et dans la province de goyaz. Voyage aux sources du Rio de S. A utilização de tais fontes explica-se. Caio Prado Júnior “revelou auto-suficiência. Voyagens pitoresques. com critério e segurança capazes de superar leituras outras. que percorreram caminhos semelhantes. 1816. “faz uma leitura atenta e inteligente. memórias e corografia histórica. vale destacar Voyage au Brésil dans les annés 1815. A. na medida em que o livro foi sendo reeditado. S. ignorando-a simplesmente” (Ibidem). ao não incorporar a “literatura científica sobre os temas de que trata”. ainda que Caio Prado Júnior fosse “mais freqüentador de bibliotecas do que de arquivos” (Idem. registros informativos com dados demográficos. scientifiques et historiques en Amérique. cartas descritivas da costa brasileira. Já quanto às fontes primárias. Dentre as fontes mais freqüentemente mobilizadas em Formação do Brasil Contemporâneo destacam-se a literatura de cronistas e tratadistas que escreveram sobre a colônia. e Viagem pelo Brasil de J. Sobre a literatura de viajantes. Amaral Lapa sugere que. pela inexistência de coleta sistemática de dados. estudos de itinerários e notícias descritivas em geral. von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius entre numerosos outros relatos. 1999: 260). do príncipe Maximillien de Wied-Neuwied. não concedendo sequer uma citação dessa produção.Para José Roberto do Amaral Lapa.

aparecia pela primeira vez como forma de captação e ordenação do real. Nesse sentido. nessa obra. No plano metodológico. nenhuma disposição de aceitar categorias banhadas em certa aura qualitativa – como “feudalismo” ou “família patriarcal” -. uma série de relações sociais estigmatizadas por outros autores. Formação do Brasil Contemporâneo teria desmistificado. Como os recenseamentos eclesiásticos visavam a oneração dos fiéis organizados em paróquias. opera. como sugerem os diferentes intérpretes vistos no capítulo anterior. desligado de compromisso partidário ou desígnio prático imediatista (Candido. Como linha interpretativa.recenseamento com fins específicos tais como os eclesiásticos e militares. no entanto. o materialismo histórico. No caso do recrutamento militar. e que. quanto à sonegação destes que dissimulavam o tamanho de suas paróquias às autoridades superiores da Igreja Católica. Caio Prado destaca que somente pelos últimos anos do século XVIII tem-se noticia de um recenseamento seguro da ocupação que prescrevia por volta de quatro milhões o contingente populacional da época entre brancos e índios (Prado Júnior. uma exposição de tipo factual. deixando transparecer suas . trazendo para a sua interpretação uma visão objetiva da vida da colônia. em conseqüência. com ferramentas bastante distintas da de outros ensaios do período. Antonio Candido: Nenhum romantismo. que vinha sendo em nosso meio uma extraordinária alavanca de renovação intelectual e política. 1995: 11). como sugere. 1945). mas o desnudamento operoso dos substratos materiais. por exemplo. mostravam-se falhos devido tanto à relutância dos mesmos diante dos párocos. Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia (1942). a relutância em se declarar era ainda maior. inteiramente afastada do ensaísmo (marcante nos dois anteriores) e visando a convencer pela massa do dado e do argumento. devido ao desinteresse ou recusa da população em se alistar.

Bernardo Ricupero sugere que num confronto entre as suas obras capitais. para Ricupero mostrou como a sociedade que começou a se formar no Brasil a partir da Colônia se organizou toda ela para produzir alguns gêneros tropicais demandados pelo mercado externo. ver Araújo.10 Caio Prado Júnior. pode-se notar que não é a família patriarcal ou o aventureiro que explicam a colônia. sobre Sérgio Buarque de Holanda. o sentido que assumiu a colonização no Brasil que faz com que aqui tenha se desenvolvido um certo tipo de família e de ethos (Idem. 1994. A 10 Sobre Gilberto Freyre. ressalta que mesmo Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda tendo identificado questões centrais para nossa formação. mas ao contrário. com o intuito por hora de indicar a estrutura do texto. 2000. 2000: 158. ver Wegner. isto é. Formação do Brasil contemporâneo. Faremos a partir de agora uma breve apresentação de Formação do Brasil Contemporâneo. nota 55). Comparando Caio Prado Júnior aos seus “companheiros de geração” Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. 2000: 157-8. o do aventureiro”. os usos da terra. etc. não discutiram o seu sentido (Ricupero. Casa-grande & Senzala e Raízes do Brasil. . segundo o autor se manteve constante e quase inalterado em certos cenários a que teve a oportunidade de conhecer por meio de viagens. realçando o seu caráter econômico e fazendo saltar a vista as relações de exploração e opressão a que esteve sujeita (fazendo uso de terminologia nova).cruas relações. tanto a maior parte da população da colônia. nota 55). gerando um determinado tipo de cultura e herança que. “respectivamente o desenvolvimento de toda uma civilização a partir da família patriarcal e ação de um ethos particular na colônia. bem como os bens naturais de que dispunha. A partir daí.

nele encontramos um estilo enxuto. . no item denominado “Raças”. Caio Prado Júnior analisa o povoamento. um determinado tipo de civilização. períodos curtos e os fatos que pretende esmiuçar e rever para a história da ocupação do território. no qual Caio Prado Júnior “expõe a sede do seu pensamento em relação à história do Brasil” (Lapa.problematização da categoria de formação. Nota-se já neste primeiro capítulo de Formação do Brasil Contemporâneo toda objetividade e rigor formal que Caio Prado Júnior pretende dispor ao longo de seu trabalho. bem como a análise de outras ferramentas e metodologia aplicadas por Caio Prado Júnior na confecção daquele texto serão objeto do terceiro capítulo desta dissertação. “Povoamento”. o autor trata dos aspectos humanos da formação da colônia dando especial atenção à distribuição da população ao longo do território. constituiu o objeto da sua narrativa. portanto. Ao contrário de heróicos personagens descobridores com epítetos retóricos e comentários ornados de adjetivos tendenciosos. Na primeira parte. 1999: 260). por sua vez. para o autor. já que esta é que propriamente colocou em movimento. a constituição da população. documentados em registros estatísticos localizados e examinados a luz da particularidade de cada região.11 Formação do Brasil Contemporâneo divide-se em três partes – “Povoamento”. os fluxos da população em correntes de povoamento e. “Vida material” e “Vida social” antecedidas por uma introdução e o texto “Sentido da colonização”. Caracterizando o povoamento da colônia como sujeito a uma “evolução” entrecortada por períodos de mudanças e revoluções estruturais significativas 11 A discussão sobre a idéia de “sentido da colonização” também será contemplada no próximo capítulo. a qual. do litoral e do interior. Neste primeira parte.

Curioso. os quais nos delimitam como um determinado tipo de contorno e aspecto. Minas. A terceira fase se dá de forma paulatina. 1945: 65) Caio Prado distingue três grandes fases na evolução: a primeira começa com a colonização e se estende até o fim do século XVII. Mato Grosso e Goiás que provoca brusco deslocamento de contingentes populacionais criando uma nova estruturação das relações sociais e econômicas da colônia. aspecto de nossa formação social – fato que parece ainda não ter de todo deixado de nos caracterizar até hoje – é a capacidade de mobilidade da população brasileira atestada no texto através de testemunho do . abandonavam-se outros já devassados. senão trágico. O povoamento estava longe ainda da estabilização. reduzindo-se em outros. o deslocamento da produção da pecuária para o Sul – em decorrência da seca nos sertões nordestinos favorecendo a agricultura e enfim remodelando a feição colonial. Caio Prado chama a atenção para o fato de que a ocupação do território colonial português na América respondeu à determinados fins alheios ou exteriores. a segunda se inicia com uma revolução demográfica e dela decorre a descoberta do ouro. sem os abruptos deslocamentos ocorridos anteriormente e para Caio Prado desemboca no momento de que pretende dar conta em seu recorte temporal. adensando-se nalguns. e o quadro que a sua estrutura apresenta em qualquer momento é mais que provisório. Princípio que vai tornando aparente determinados caracteres gerais de nossa formação. reflete antes tendências que resultados adquiridos (Prado Júnior. a população refluía de um para o outro ponto. Sugere o autor a colonização não se aquietara: ocupavam-se novos territórios até então desertos.devido ao caráter ou sentido da colonização. De relativa brevidade esta fase tem sua derrocada com a decadência da mineração.

. ainda não havia sido estudada de forma sistemática – assim como acontecia com os povos indígenas. com a acuidade de sua visão. Observa ainda que o critério utilizado na escolha dos colonos era religioso. notará. No item que Caio Prado Júnior dedica à composição étnica da colônia.. (XIX). “compreendendo-o e dominando-o”.] a colonização não se orienta no sentido de construir uma base econômica sólida e orgânica. fato que segundo Caio Prado é próprio de uma população que não se ajustou completamente a seu meio. Daí a sua instabilidade. a extrema mobilidade da população brasileira”. Em um primeiro momento que vai até a segunda metade do século XVII a imigração é escassa exercendo a colônia pouco atrativo à . isto é a exploração racional e coerente dos produtos do território para a satisfação das necessidades materiais da população que nela habita. um comércio instável e precário sempre [. escolhido o católico. e com simples e vagas esperanças de outras perspectivas” (Idem. 1945: 67). para o historiador paulista cultivava-se a cana como se extrai o ouro. com vistas para um mercado exterior e longínquo. com seus reflexos no povoamento determinando nele uma mobilidade superior ainda à normal dos países novos (Ibidem).viajante: “Saint-Hilaire viajando pelo Brasil em princípios do século passado. o mesmo lamenta que o estudo quanto às especificidades dos diferentes povos negros que aqui aportaram. bem como suas distintas contribuições na formação social brasileira. Destaca na composição da colônia até o início do século XIX que o “branco” que para cá se deslocou era “quase que só de origem portuguesa”. “emigrava-se às vezes por nada. Estrangeiros foram proibidos quando da ocasião da descoberta do ouro tendo sua vinda para o Brasil sido possível durante curto período de tempo. Nisto temos a constituição de uma constante no “espírito” de uma população. como mais tarde se plantará algodão ou café: simples oportunidade do momento.

Também os judeus têm importância nesta fase da colonização. segundo Caio Prado. Atuavam em ‘reduções’. Portugal empobrecido. ao propagarem a fé católica. o negro teve. Neste momento. A esse fato seguiu a perseguição e a legislação restritiva de sua prática cujo ponto mais alto é precisamente a perseguição adotada e representada pelo Marquês de Pombal. um terço da população e constituindo parte do percentual restante.Metrópole. segundo Caio Prado “contribuem em boa proporção para as correntes povoadoras os degredados” (Idem. e seus métodos antes tornava em “autômatos” os “catequizados” que os preparava para a “utilidade” pretendida por colonizadores portugueses. à luz dos objetivos da metrópole que naquele momento só pensava em ocupar o território. Isso se deu já no século XVIII. Em crise. Neste ponto o autor discute um tema comum na época revelando. tem início um grande fluxo de emigração para a colônia. maior importância na constituição da população brasileira. até indivíduos de classes menos abastadas. do lado dos colonos. defender os interesses da Igreja. Caio Prado destaca que o interesse advém de diversas categorias sociais. vindo desde fidalgos e letrados – com fim de ocupar cargos administrativos. para Caio Prado Júnior. e pretendiam. Pretendeu-se aproveitar o índio como povoador. tentou-se organizar a colônia por meio do trabalho de seus habitantes nativos. muitas vezes tinham por objetivo fins contrários aos daqueles. No primeiro momento. 1945: 83). Representando. sem resquícios de “ressentimentos” . Outra força interessada na domesticação indígena eram os jesuítas que. como se chamavam as aglomerações indígenas organizadas pela Companhia de Jesus. ainda como escravos. e como trabalhador. tendo o comércio com o Oriente desaparecido.

signo sob o qual se formou a etnia brasileira. o texto de Caio Prado é objetivo: a mestiçagem. Linguagem realista e clara. o número relativamente pequeno de colonos brancos que veio povoar o território pôde absorver as massas consideráveis de negros e índios que para ele afluíram ou nele já se encontravam. 1945: 102). 1945: 103-104). numa orgia de sexualismo desenfreado que faria da população brasileira um dos mais variegados conjuntos étnicos que a Humanidade jamais conheceu” (Ibidem). Graças a ela. . No Brasil “as uniões mistas se tornaram a regra”. É uma tal aptidão que o Brasil deveu a sua unidade.ou “problema”. segundo o autor. juntas e mesclando-se sem limite. que mais tarde separada da mãe-pátria. pôde impor seus padrões e cultura à colônia. A essa capacidade do português de se misturar no quadro da população nativa e escravizada em parte atribui-se a falta de mulheres brancas no primeiro momento devido ao caráter aventuroso do emigrante português que buscava na colônia uma forma de enriquecimento e que pelo risco parte só – fato que distingue o tipo de colonização que terá curso no Brasil. a sua própria existência com os característicos que são os seus. No entanto o fator de branqueamento foi. portanto “uma resultante do problema sexual do colono branco” (Idem. sem as imagens românticas de outros escritores. Confrontando a colonização submetida ao Brasil e aos Estados Unidos. Caio Prado Júnior sugere: “Nos atuais Estados Unidos a imigração por grupos familiares é numerosa” e havia o recrutamento de mulheres menos favorecidas que partiam para o Novo Mundo afim de povoar o território. a constituição mestiça da população: “é este o caráter mais saliente da formação étnica do Brasil: a mestiçagem profunda das três raças” (Idem. conservará os caracteres de sua formação (Ibidem). Guardando as proporções entre elas escreve: “são juntas que devem figurar. sendo. resulta de excepcional capacidade do português em se cruzar com outras raças.

o algodão. comércio. artes e indústrias. e que é aliás de pouca monta. se organizará e funcionará para produzir e exportar aqueles gêneros. Este fato é primordial no entendimento dos problemas que seguirão o sentido visado pelo .”. será subsidiário e destinado unicamente a amparar e tornar possível a realização daquele fim essencial” (Ibidem). produções extrativas. Todo mais que nela existe. (Idem. o ouro. vias de comunicação e transporte. ou ainda: “a nossa economia se subordina inteiramente a este fim. A vida material da colônia. Assim a organização.sempre uma constante nas relações sociais que caracterizam o Brasil . mineração. a fazenda em detrimento da pequena exploração do tipo camponês. bem como seu povoamento. Ilustrando a questão. é marcada profundamente pelo que Caio Prado Júnior caracterizou ser o sentido da sua formação: “colônia destinada a fornecer ao comércio europeu alguns gêneros tropicais ou minerais de grande importância: o açúcar. Esta parte se subdividirá entre as seguintes atividades: grande lavoura. pecuária. se dá por meio da grande propriedade monocultora. A segunda parte do livro é dedicada à análise da vida material da Colônia. o engenho. Caio Prado destaca o depoimento do viajante Martius que se “refere que muitos aventureiros europeus passavam no Brasil uma vida descuidada de cidadãos abonados graças aos casamentos realizados em famílias que estavam procurando ‘apurar’ o sangue” (Idem. 1945: 105). visando a agricultura como garantidora do fim exposto acima. agricultura de subsistência.. 1945: 117). com destaque para as atividades desenvolvidas e empreendidas ao longo do território. isto é..maior ou menor composição do sangue branco significou sempre maior ou menor fortuna.

1945: 120). sua natureza e organização. Em nosso caso. não é o trabalhador. A interpretação deste sentido de colonização vamos discutir no próximo capítulo. Vem para dirigir” (Idem. No item “Grande Lavoura” Caio Prado Júnior afirma ser a agricultura “o nervo econômico da civilização”. tabaco. etc. melhor que a de qualquer um dos setores particulares da produção. como demonstra sua exposição. o cacau. 1945). o anil.colonizador: “o tipo de colono europeu que procurou os trópicos e nele permaneceu. O ciclo extrativo do pau-brasil. . e já quase extinta de todo neste século XVI” (Idem. 1945: 118). o caráter de uma economia. é com ela que se inicia a ocupação do território brasileiro. Caracterizou a prática agrária durante seus diferentes ciclos. o baixo nível técnico (Idem. o empresário de um grande negócio. mas o explorador. Encontramos aí uma síntese que a resume e explica” (Idem. Por ora nos limitamos a registrar que uma tal exploração é vista de forma crua por nosso autor que escreve: “é aliás esta exigência da colonização dos trópicos americanos que explica o renascimento da escravidão na civilização ocidental em declínio desde fins do Império Romano. só contando o comércio interno com restrita agricultura de subsistência e comércio local. 1945: 235). café. a produção e a extração interna de produtos comercializáveis era quase toda voltada para o mercado externo. Caio Prado Júnior afirma que “o estudo do comércio colonial” coroa a tese principal de seu texto: “a análise da estrutura comercial de um país revela sempre. ou seja. o simples povoador. cana. antes do cultivo da cana-deaçúcar se mostrou menos importante. Quanto ao comércio.

Restaura apenas uma instituição justamente quando ela já perdera inteiramente sua razão de ser. no período em que se ocupa – princípios do século XIX. iluminado por questões próprias as da lógica-filosófica não se poderia prever. “nasce de chofre. e fora substituída por outras formas de trabalho mais evoluídas” (Ibidem).A terceira parte por fim cuida da vida social tratando dos aspectos da organização social. deixe de atingir. administração. padrões materiais e morais nada há que a presença do trabalho servil quando alcança as proporções de que fomos testemunhas. feições jamais correlatas a outros casos em que ocorre. que se fosse adotar por aqui preceitos morais já ultrapassados por uma ordem material que visou exclusivamente um enriquecimento comercial no vasto território encontrado. no Brasil. e de um modo profundo. vida social e política. século XV. seguindo uma linha evolutiva do pensamento europeu. Tendo em seu caso moderno surgido junto com os grandes descobrimentos. seja por suas repercussões remotas” (Idem. não se liga a passado ou tradição alguma. 1945: 277). Herança que segundo Caio Prado Júnior vem a se incorporar ao “conceito do trabalho”. Caio Prado Júnior identifica na instituição da escravidão. O texto de Caio Prado Júnior assume aqui um tom de perplexidade um tanto irônica pois. Destaca o fato de que a escravidão apresenta. um fator de identificação da sociedade brasileira pois como afirma em nenhuma outra sociedade uma prática de tal natureza importou tanto para a constituição de “todos os setores da vida social”: “Organização econômica. no mundo antigo. que. tendo status para o . assume caráter pejorativo. no caso dos trópicos americanos. por exemplo. seja diretamente. uma vez que o escravo é utilizado nos mais diferentes ramos e atividades.

Serviram apenas para momentaneamente conservar o nexo social da colônia. à medida que se torna mais livre. para o autor. não ultrapassam contudo um plano muito inferior. O que faz prever: aquela parte da população que o constitui e que vegeta à margem da vida colonial. uma prática mercantilista injustificada por qualquer estrutura de pensamento moderno. se bem que constituam a base do único setor organizado da sociedade colonial. Tal realidade prescreve problemas sérios para o país. a sociedade brasileira contemporânea. . ou substituindo-a lá onde um sistema organizado de vida econômica não pôde constituir-se ou se manter (Idem. 1945: 356).homem livre apenas raras ocupações. no século XVI. menos apresenta organicidade social. no outro setor dela. De um corpo informe e inconsistente vai compor uma realidade social diversa e única. que a dará identidade e da qual surgirá. o que se mantém à margem da escravidão. e tivesse permitido a esta manter-se e se desenvolver. em certo sentido. ou diretamente. A inorganização é aí a regra. Como sugere o autor: A escravidão e as relações que dela derivam. não é senão um derivado da a escravidão. pior. Caio Prado Júnior identifica na reinvenção da escravidão. Desta distorção histórica surge um tipo de sociedade que. a situação se apresenta. e não frutificam numa super-estrutura ampla e complexa.

A razão desta escolha é dupla: de um lado. à observância de um longo período histórico. o historiador de servir-se desse estudo como meio segundo o qual pode efetivamente entender a realidade social . indagam sobre a unidade da sociedade e território brasileiros. das formas de sociabilidade que foram se forjando nesse processo de constituição da sociedade brasileira. em síntese. para explicitar o processo histórico cuja resultante é o Brasil contemporâneo. de outro. Nestes termos a obra pretende dar conta de conhecidas questões sociológicas que. é o momento onde estão depositadas as possibilidades para o futuro do País. Importa ressaltar que tomar o processo de formação do Brasil como objeto não impede. entender a que deve sua formação e constituição. Em outras palavras. ou seja. o autor pretende elaborar uma narrativa. ou pelo menos não deve impedir. como também. é um momento de síntese de “três séculos de colonização”. Formação: sentido e processo É fato que em Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior toma o século XIX como “momento decisivo” a ser estudado para a compreensão da realidade social e política do Brasil.CAPÍTULO 3 A IDÉIA DE FORMAÇÃO Discute-se neste capítulo a idéia de formação em Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior procurando mostrar como tal idéia permitiu ao autor formular uma interpretação da estrutura social da Colônia e do sentido da colonização.

quase que sua gênese social. Anuncia assim que pretende romper com determinada forma e conceito de historiografia. no Brasil Contemporâneo? Todas estas questões iluminam a função central. seria no mínimo estranho um texto sobre história o afastar-se dos acontecimentos políticos. O tom da primeira página do livro pode ser indicativo desta suspeita. bem como vislumbrar suas possibilidades futuras. por que o acento tão forte. pois para o autor seria equivocado demorar-se em sobre-valorizar a vinda de D. segundo . a vinda de D. seguindo sua experiência precedente. Talvez aí possamos ler uma crítica velada à história “oficial” ou melhor. fica clara a função central da noção de formação para os propósitos de Caio Prado Júnior.brasileira. como falamos no primeiro capítulo. à época deste texto Caio Prado Júnior já havia começado a desenvolver método e estilo bastante diverso do corrente entre os intérpretes do país até aquele momento. João VI para o Brasil. João VI para o Brasil e a data da Independência como objeto historiográfico de primeira importância uma vez que: “o início do século XIX não se assinala para nós unicamente por estes acontecimentos relevantes que são a transferência da sede da monarquia portuguesa para o Brasil e os atos preparatórios da emancipação política do país” (Prado Júnior. ao modo então mais corrente de se fazer história. 2000: 1). Mas o que pode revelar este decidido afastamento de eventos políticos? O que muda quando começamos a falar em formação? Mais ainda. Assim formulado o projeto do livro. no “fim da história”. Não fosse uma preocupação com a formação do País. por exemplo. indicado no título.

Por outro lado. Seu objetivo é o de rever. um tempo em que primeiro esteve presente em conjunto os elementos que comporiam a nossa identidade e a nossa unidade como nação. uma análise da mesma pode desbaratar semelhantes perguntas. prende-se ao fato de que Caio Prado Júnior entende. abre. ele inaugura. o início do século XIX. da categoria de formação nesta obra. corresponder o momento ao primeiro que “contém o passado que nos fez” (Ibidem). para Caio Prado Júnior. sua tese central. Retomemos. Nas palavras do . momento em que já estão presentes suas características mais profundas. uma identidade formada no decorrer dos trezentos anos passados. os aspectos fundamentais da formação da realidade contemporânea: Caio Prado Júnior elege este período como divisor de águas no quadro amplo que pretende desenhar. então. deve-se notar. pensando-os como totalidade (Ibidem).pretendemos sustentar. Trata-se de momento chave precisamente pois. e representa como imagem concreta. como uma síntese dos fatos e acontecimentos mais relevantes. como chave. A relevância atribuída a este. à luz de um corte temporal determinado. como propício para um balanço final da obra da colonização. Pois. político e econômico. Mas a análise deste momento deve possuir um olhar atento para ser capaz de “eliminar” os eventos “acidentais” e “intercorrentes” e ousar avistar o período. segundo cremos. a despeito de outros intérpretes do pensamento social brasileiro. desvela. Caio Prado Júnior pretende que este seja o momento chave “para se acompanhar e interpretar o processo histórico posterior” (Ibidem). social. por um lado. Para o autor o momento se apresenta. Tal momento histórico: “marca uma etapa decisiva em nossa evolução e inicia em todos os terrenos. como objeto de análise. uma nova fase” (Ibidem).

Mais ainda. econômica e política do País. em termos caros aos . podemos entender as questões acima levantadas a respeito de Caio Prado Júnior. Afinal. algo cuja compreensão depende de uma gênese (Lebrun. e seu corte temporal pode ser entendido como uma ferramenta de análise da realidade social. Percebe-se também a influência do pensamento de Karl Marx para quem. mais remotamente.autor: “Alcança-se aí o instante em que os elementos constitutivos da nossa nacionalidade – instituições fundamentais e energias – organizados e acumulados desde o início da colonização. desabrocham e se completam” (Ibidem). e para compreender esta gênese o estudioso deve deixar de lado o que é mero evento exterior. é bom lembrar que o próprio Marx. por sua vez. para isso constrói sua narrativa. Percebe-se que Caio Prado Júnior está pensando em termos de construção de teoria e que. inspira-se nisso em Hegel ou. Nestes termos. seja na fase da Ideologia Alemã seja na fase madura do Capital. Não é á toa que era caro aos idealistas de uma maneira geral a importância da noção de organismo. 1986: 75). Corresponde a estrutura em formação então à “base” sob a qual se constrói o quadro do Brasil contemporâneo. no Idealismo alemão. a idéia do momento histórico atual como síntese de um processo é fundamental. então. Por outro lado. Afastar-se da política é estratégia metodológica para isolar o que é “exterior” e captar o que é efetivo. foi neste contexto que pela primeira vez se separou uma Historie – disciplina do entendimento – de uma Weltgeschichte – um discurso sobre o sentido necessário da história. e debruçar-se sobre o que foi efetivo nesta formação. segundo a crítica especializada. o presente histórico só pode ser efetivamente compreendido mediante sua gênese. mero reflexo de outra coisa.

seria o de construir uma esquematização por demais formal de interpretação ao fazer corresponder ponto a ponto o universo europeu. não fará mais que importar sua estrutura metodológica voltando-se para aquilo que há de concreto em nosso história: povoamento. Se é assim. Destacar o “fim” da história no título. em segundo. a influência do pensamento marxista em Caio Prado Júnior. Ele não repetirá a equação da ideologia Alemã mudando seus termos. Afinal. feudal e burguês. o Brasil Contemporâneo. é. segundo cremos e por assim dizer. interpretar a história do Brasil à luz de teses marxistas. em primeiro lugar. Não é essa. com o brasileiro. ao que parece. grande lavoura. colonizado. vias de comunicação. Pensar Formação do Brasil Contemporâneo sem sublinhar seu método inspirador seria incorreto. mas. raças. passar da super-estrutura para a infra-estrutura. . Mas falar da influência do pensamento marxista em Caio Prado Júnior não esgota a riqueza de sua obra. outros intelectuais tentaram. evadir-se de uma historiografia que tem a narrativa histórica como único fim e assumir a história como uma ferramenta de análise para os problemas sociológicos da atualidade. econômica e política do País nos termos de uma luta de classes que teria se configurado sucessivamente nos modos de produção tribal.marxistas. A tarefa do intelectual seria compatibilizar a diacronia européia com o processo de constituição do Brasil. podemos ironicamente dizer que importa a Caio Prado Júnior a formação do Brasil e não sua história propriamente. todavia. mineração. quase que pela mesma época. inspirados na Ideologia Alemã. buscavam entender os problemas da realidade social. Grosso modo. O problema básico de tal esforço. compreender o presente histórico como resultado de um longo processo. colonizador.

revela o quanto questões como essa esgarçaram suas relações com o Partido Comunista. notadamente aquela de formação. como argumenta a propósito Bernardo Ricupero. Entendido que fazer análise da formação do País não é reproduzir sua história oficial nem reproduzir formalmente o esquema geral da Ideologia Alemã. como um empreendimento. Em Formação do Brasil contemporâneo o período colonial é pensado como sendo um período em que esteve a colônia subjugada à ação e obra da metrópole. No espírito do que assinalamos acima. período em que nossa formação se dá principalmente pelas mãos de agentes estrangeiros alienados da idéia de nação que para Caio Prado Júnior só começa a fazer sentido a partir da derrocada do sistema colonial. Por isso Caio Prado Júnior. coube a Caio Prado Júnior levar às últimas conseqüências algumas categorias do pensamento marxista. ele poderia responder perguntando se não foi isso. que o próprio Marx fez em relação às suas fontes de inspiração intelectual. Assim caracteriza-se por ser um regime de subordinação. seja os economistas ingleses seja Hegel. alguém que abre caminho para a aproximação da teoria marxista com a realidade brasileira” (Ricupero. mas verdadeiramente um marxista brasileiro. Caio Prado Júnior não entende ser a decadência do Reino o motivo principal de sua crise e derrocada: . Para quem pudesse considerar isto pouco marxista. Haveria outra forma de ser mais marxista? E a história pessoal e política de Caio Prado Júnior. descrita no capítulo anterior. 2000: 24). afinal. – para citarmos alguns dos tópicos do próprio índice do livro. e compreender o sentido de nossa história cuja necessidade deveria assentar-se em base efetivamente materiais. “não é qualquer marxista do Brasil. isto é.administração etc.

substância e densidade própria indicando direções e transformações que lhe eram necessárias e que. Esta ‘evolução’. Ora. ‘localizado’ – para fins teóricos precisamente no ponto circundado como objeto visado pelo historiador. em todos os níveis de sua criação – econômico. Não apenas por efeito da decadência do Reino. avanços e recuos. 2000: 1-2). não pode ser entendida de forma linear. Sente-se que a obra da metrópole estava acabada. o ponto de partida para sua compreensão do que seja o Brasil contemporâneo. no entanto. político. mutatis mutandis. no âmago de suas contradições e iminentes instituições. . por maior que ela fosse: isto não representa senão um fator complementar e acessório que quando muito reforçou uma tendência já fatal e necessária apesar dela (Prado Júnior. pois este momento contêm. 2000: 3). social. etc – “que se prolonga até nossos dias e que ainda não está terminado”.Tínhamos naquele momento chegado a um ponto morto. (Idem.. mas “com vaivens. se desenrola através de um século e meio de vicissitudes” (Idem.. não é exatamente esta a lição a ser tomada da conhecida tese de Marx segundo a qual um modo de produção é superado quando explora todas as suas possibilidades internas e entra em crise? O sistema colonial tem seu termo. esta tomaria seu rumo seguindo seu quadro evolutivo. o sistema colonial na totalidade dos seus caracteres econômicos e sociais se apresenta prenhe de transformações profundas. O regime colonial realizara o que tinha para realizar. interpreta que seu fim se fez necessário pois o conjunto das instituições. tendo Portugal se desligado ou não da função de ‘gerenciar’ a seqüência dos acontecimentos da colônia. 2000: 2). O que se apresenta como futuro para a colônia é o desdobramento de um longo processo histórico. Antes.

e por isso o termo formação lhe é tão caro. como também. mais precisamente uma certa ‘atitude’ mental coletiva particular (Idem. indiretamente. Percebe-se que Caio Prado Júnior está preocupado em determinar e analisar os elementos constituidores de nossa identidade. Como historiador pretende demonstrar a especificidade da civilização que se instalara neste território. 2000: 2) – à vista do quadro geral das civilizações. Nossa efetiva formação pode. da dos portugueses que empreenderam a ocupação do território. explicá-los.Assim como Marx viu na crise de seu presente histórico o momento para refletir sobre a gênese da ideologia alemã. até etnicamente e habitando um determinado território. eis o objetivo último da análise. embora em menor escala. obra inédita ‘no plano das realizações humanas’ (Idem. constituída na base de elementos próprios. Afinal. e. Criouse no plano das realizações humanas algo de novo. diretamente. organizou-se nele uma vida humana que diverge tanto daquela que havia aqui. Naquele passado se constituíram os fundamentos da nacionalidade: povoou-se um território semi-deserto. quanto da que se desenvolvia à séculos no velho continente. resolvê-los. . até uma consciência. Caio Prado Júnior define então o Brasil contemporâneo da seguinte forma: o passado colonial que se balanceia e encerra com o século XVIII. Este “algo de novo” não é uma expressão abstrata. tanto do que já havia antes da chegada dos exploradores. concretiza-se em todos os elementos que constituem um organismo social completo e distinto: uma população bem diferenciada e caracterizada. mais as transformações que se sucederam no decorrer do centênio anterior a este e no atual. finalmente. uma estrutura material particular. nossos problemas de país colonizado deveriam ser compreendidos à luz desta “colonização”. uma organização social definida por relações específicas. que inaugura um modo de vida distinto. 2000: 1-2). é um truísmo que um problema só pode ser resolvido depois de devidamente compreendido. dos indígenas e suas nações.

por via da objetividade da análise histórica. uma estrutura material. na construção de sua teoria.‘Algo de novo’. Em suma. “bem diferenciada e caracterizada” (Idem. causalidade. O autor pretende se debruçar sobre as relações sociais específicas que observa neste percurso e que a formação de tal identidade se dá inclusive no surgimento de uma “consciência”. o que ele quer demonstrar é o fato de ter nascido. sem obviamente qualquer pretensão de esgotar o assunto. quanto a diferenciação destes elementos – em comparação a outros casos – os tornando “evidentes”. pois outras influências deixam-se transparecer em termos como atitude mental coletiva particular. inclusive no campo de sua constituição étnica. não se ocupa de abstrações. com uma população. mestiça – em sua próprias palavras. toma como pressuposto metodológico que a compreensão de uma realidade histórica deve ir do material para o espiritual. em idéias de síntese. que . curso teleológico da história. um organismo social distinto. da infra para a super-estrutura (na linguagem marxista). apontamento. do “povoamento” para uma “atitude mental coletiva particular”. uma sociedade que tem por base de constituição elementos próprios e que por isso demanda uma narrativa de esclarecimento. de uma certa “atitude mental coletiva particular” (Ibidem). Uma vez que entendemos que o autor faz um uso muito próprio do que se convencionou chamar de “materialismo histórico”. 2000: 2). mas tão somente como forma de melhor expormos os usos da categoria de formação em seu texto. Caio Prado Júnior não se demora a colocar que a linguagem de que dispõe. ao longo do período colonial. Que nos seja permitido mais uma vez insistir na influência do pensamento marxista em Caio prado Junior.

é. Voltaire. seu esforço de historiador espreitar com uma análise da política. jamais tiveram um único historiador. como lemos nesta clássica página da Ideologia alemã: a primeira coisa. Todos sabem que os alemães jamais o fizeram. não devemos ignorar o pressuposto fundamental de seu materialismo. no caso de seu estudo sobre o “18 de Brumário de Luís Bonaparte”. nunca tiveram.poderiam se encaixar na tradição filosófica de pensamento sobre a História que teria seu início em Rousseau. A base material de que fala. Embora conheçamos. portanto. empíricos. a observação desse fato fundamental. no entanto. Para ilustrar a importância de Marx. e do materialismo histórico para a escrita de Formação do Brasil Contemporâneo faremos um breve adendo à nossa exposição incluindo alguns trechos expositivos daquele método de interpretação da História. Damos por justificada tal inclusão. em toda a concepção histórica. não obstante. até chegar em Marx.. pois pensamos ser estes trechos bastante significativos para o entendimento do método utilizado por Caio Prado Júnior. não se articula com o estudo dos homens individuais. Para Marx. passando pelo Idealismo alemão. . notoriamente. e fazer-lhe justiça. um só historiador e a história estava por se fazer. portanto. as primeiras tentativas para dar à história uma base materialista.. 1984: 53). base terrestre para a história e. no entanto. não havia ainda se formado até a Alemanha de seu tempo. divisão social do trabalho. conseqüentemente. os franceses e os ingleses fizeram. Seu estudo se dá através de conceitos como capital. Hegel. do comércio e da indústria (Marx. entre outros filósofos do Iluminismo. ou da população em termos abstratos. ao escrever primeiramente as histórias da sociedade burguesa. em toda a sua importância e toda a sua extensão.

etc. conceitos que nossa exposição anterior e seguinte a este trecho ilustrativo de nossa compreensão acerca da dívida que tem a leitura de Caio Prado Júnior para com a teoria de Marx pretende mostrar foram incorporados pelo autor a que nos dedicamos em nossa dissertação. Importa ressaltar. por fim. como podemos verificar na leitura do segundo “Posfácio” da Contribuição à Crítica da Economia Política) (Idem. assim. que este elogio e esta crítica aproximam a história da sociologia e a transformam em ferramenta cujo objetivo último não se restringe à narração de eventos passados.. Assim devemos entender que a elaboração de uma historiografia à luz do materialismo histórico deve contar com o estudo de tais categorias e conceitos desenvolvidos por Marx. paralelamente a este pressuposto metodológico. uma crítica porque não é de qualquer história que se trata mas de uma história que tenha por método a gênese analítica de certos momentos sintéticos. e por objeto a base material .do contrário poder-se-ia cair numa historiografia “idealista”. mas na compreensão dos problemas atuais e seus possíveis desdobramentos futuros. 1984: 62). Fazer história com base material seria a única maneira de efetivamente se compreender o presente histórico e seus problemas.luta de classes e organismo social. 1999: 23). mas o sentido dos problemas de um presente histórico qualquer (Idem. Um longo trecho de A ideologia Alemã ilustra bem o caminho escolhido na estruturação de uma historiografia que tem por fim percorrer um amplo quadro . aqueles onde há crise. Isto é ao mesmo tempo um elogio à história e uma crítica: elogio porque só pela história os problemas podem ser efetivamente elucidados. pois só ela é capaz de revelar não apenas a origem. enraíza-se em Caio Prado Júnior a conhecida tese de que a história é a única ciência.

orográficas.. tem como .visando sua reconstituição à luz da categoria de formação. portanto. 1984: 45). sua ação e suas condições materiais de existência. como ele. através da ação dos homens. Caio Prado Junior faz uma incursão estratégica por tópicos eminentemente geográficos para poder compor uma historiografia de “espírito materialista”. condicionada pelas forças de produção existentes em todos os estágios históricos que precedem o nosso. Apenas a explicitação destas condições materiais poderia. que só podemos abstrair em imaginação. como ferramenta de análise. naturalmente. 1984: 45) A condição primeira de toda história humana é. verificáveis através de um meio puramente empírico. as que encontraram já prontas. como também aquelas que nasceram da sua própria ação. e condicionando-os por sua vez. a existência de seres humanos vivos. é a sociedade burguesa que. de reproduzir o espírito e não a letra do texto de Marx. como já assinalamos. permitir uma avaliação dos problemas do presente histórico. Toda história deve partir dessas bases naturais e de sua modificação. O que significa partir de uma “realidade concreta”.. À luz de uma base material é que poderiam ganhar sentido as relações sociológicas tais como estão estabelecidas. Essas bases são. Assim.. hidrográficas. portanto. condições geológicas. lemos também na Ideologia Alemã: A forma das relações humanas. Insistimos na estranheza da expressão – espírito materialista – pois que se trata. (Marx. São os indivíduos reais. já resulta daquilo que o precede. o patrimônio corporal desses indivíduos e as relações que esse patrimônio desenvolve com o resto da Natureza .. no curso da História (Idem. de uma “base material”? É Marx quem primeiro responde: As condições prévias das quais partimos não são bases arbitrárias ou dogmas. são bases reais. O primeiro estado real a constatar é. Como não ver na divisão dos capítulos e temas da Formação do Brasil Contemporâneo o cumprimento desta lição? Fazendo um esforço considerável para a organização das poucas fontes existentes. resultado do processo. climáticas e outras.

verdadeiro teatro de toda a história e vê-se a que ponto a concepção passada da história era um non-sense. o que se denomina tribo. O termo sociedade burguesa apareceu no século XVIII. 1984: 61). por desprezo à Corte que Caio Prado Júnior pretende “desvalorizar” a vinda de D. como assinala o trecho acima. embora deva por outro lado. evidente que esta sociedade burguesa é o verdadeiro lar.condição prévia e base fundamental a família simples e a família composta. A crise das relações sociais contemporâneas. estrutura. João VI. a partir do momento em que as relações de propriedade foram desligadas da comunidade antiga e medieval. afirmar-se exteriormente como nacionalidade e organizar-se internamente como Estado. Ela abrange o conjunto da vida comercial e industrial de um estágio e ultrapassa por esse mesmo meio o Estado e a nação. Devemos observar que em Formação do Brasil Contemporâneo o entendimento de que o todo social constitui um organismo social que dispõe até de uma consciência e uma atitude remete à construção da categoria de formação . não era tão somente. e que forma em todos os tempos a base do Estado e do resto da superestrutura idealista. confere ao texto de A Formação do Brasil Contemporâneo uma estrutura muito própria. que põe no centro das atenções a idéia de formação. precisam ser compreendidas à luz de suas condições materiais de constituição. Todavia. Já é portanto. aliás. em um estágio de desenvolvimento determinado das forças produtivas. A sociedade burguesa como tal só se desenvolve com a burguesia. continua a ser designada sob o mesmo nome (Idem. Ironicamente. para a organização ou desorganização do Estado. Uma estratégia metodológica bem determinada. negligenciando as relações reais e limitando-se aos grandes e estrondosos acontecimentos históricos e políticos. também para Caio Prado Júnior. aqui ilustrada pelas esparsas citações acima.. A sociedade burguesa reúne o conjunto das relações materiais dos indivíduos. a organização social nascida diretamente da produção e do comércio.. O mesmo deve valer.

que se debruça sobre um indivíduo social, completo e autônomo, que deve ser
analisado segundo uma duração, um tempo.
Insistamos mais uma vez que o recorte temporal proposto pelo historiador
paulista aponta para uma nova fase da vida deste organismo social, que dispunha
de uma certa estrutura e que, por razões intrínsecas a sua formação e ainda
devido a fatores externos a esses, se transforma e mergulha em processo
histórico diverso ao que passara no tempo da colonização. Este novo processo
vai formar o Brasil contemporâneo. Deve-se notar que, para Caio Prado Júnior o
país [como nação] à seu tempo permanece em vias de se formar, ou seja
prossegue curso começado em longa data e não possui assim uma identidade
plena: “é então o presente que se prepara... mas este novo processo histórico se
dilata, se arrasta até hoje. E ainda não chegou a seu termo” (Prado Júnior, 2000:
3).
Assim para Caio Prado Júnior, quando o historiador se ocupa daquela
formação, que de fato não se configurou totalmente: “não estará se ocupando
apenas com devaneios históricos, mas colhendo dados, e dados indispensáveis
para interpretar e compreender o meio que o cerca na atualidade” (Ibidem). Caio
Prado Júnior chama atenção para a especificidade da atividade de que se ocupa
pelo fato de seu objeto permanecer em formação, ou seja, a despeito de outros
objetos do campo da história, o estudo da formação do Brasil contemporâneo
pode ser pensado como história viva ou rica inclusive pelo seu potencial
sociológico de fornecer uma possibilidade de teorizar uma prática que possibilite
ao organismo social se formar de fato.

A especificidade da atividade do historiador que se ocupa com o tema da
formação, no caso brasileiro, consiste em que, nas palavras do próprio autor, “o
passado, aquele passado colonial, aí ainda está, e bem saliente; em parte
modificado é certo, mas presente em traços que não se deixam iludir” (Ibidem). A
primeira nota do texto ilustra sua compreensão ao tratar da viagem como método
privilegiado de análise histórica:
pessoalmente, só compreendi perfeitamente as descrições que
Eschwege, Mawe e outros fazem da mineração em Minas Gerais
depois que lá estive e examinei de visu os processos empregados
e que continuam, na quase totalidade dos casos, exatamente os
mesmos. Uma viagem pelo Brasil é muitas vezes, como nesta e
tantas outras instâncias, uma incursão pela história de um século e
mais para trás. Disse-me certa vez um professor estrangeiro que
invejava os historiadores brasileiros que podiam assistir
pessoalmente às cenas mais vivas do seu passado (Idem, 2000:
5).

Em sua tese, escrita em 1954 e intitulada Diretrizes para uma política
econômica brasileira ele retoma esta idéia afirmando que nossa história é um
“Presente (o termo está em maiúscula o que destaca seu sentido) de nossos
dias”.
“aliás a nossa história, e particularmente a nossa história
econômica, é antes uma sucessão de episódios muito
semelhantes, de ciclos que se repetem monotonamente no tempo
e no espaço. E continuam repetindo-se. Essa a razão por que
afirmei anteriormente ser a nossa história um Presente de nossos
dias. Para observá-la, é muitas vezes preferível uma viagem pelas
nossas diferentes regiões, à compulsa de documentos e textos. o
tempo se projetou aqui no espaço, facultando ao historiador um
método original de pesquisa”.

Formação: sociedade e sociabilidade

A visão do passado no decorrer do presente não é, claro, privilégio apenas
da sociedade brasileira, em outros casos observa-se a transposição das camadas
do tempo, em um eterno retorno próprio da sedimentação de tradições e
estruturas. No caso brasileiro o que o autor parece querer contrapor é a idéia de
ruptura com o passado como dimensão explicativa da modernidade, e as
transformações assimiladas em todos os níveis da vida social, econômica e
política nas sociedades avançadas que modificam sua estrutura e apagam os
traços do passado (este aparecendo com o esforço da conservação da memória e
das tradições), e a idéia de “atraso”, no caso da sociedade brasileira. Nesta, o que
se observa é a continuação de determinadas estruturas que não condizem com a
condição almejada pelo corpo político e jurídico que pretende dar forma à Nação.
Observa por exemplo, que à sua época, o trabalho livre “não se organizou
inteiramente em todo o país”, apresentando este, a despeito de esforços
institucionais, “traços bastante vivos do regime escravista que o precedeu” (Idem,
2000: 3). Como já pretendemos ter mostrado, ressoa aí ecos de uma história
preocupada com o sentido dos fatos a qual, para evitar um jogo aleatório de
interpretações põe em cena a idéia do “real” como síntese do processo de sua
formação.
Acrescente-se que a subordinação e dependência da economia ao
mercado externo, a falta de um largo mercado interno, são outros dos aspectos
fundamentais em que se verifica aquele “atraso”: “numa palavra, não
completamos ainda hoje a nossa evolução da economia colonial para a nacional”
(Ibidem). Essas reminiscências não são, segundo o autor, anacronismos ou fatos

Este sentido dominará a cena da formação do país que. que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras. realizar um negócio. algodão. 2000: 20). sua narrativa buscando distinguir o que é “essencial” para a sua compreensão. como marxista. inverterá seus cabedais e recrutarão a mãode-obra que precisa: indígenas ou negros importados.tem mais tarde .isolados. objetivo exterior. portanto. industrial. Nada mais que isto. Não hesita em afirmar: se vamos à essência da nossa formação. lentamente. bem como as atividades do país. Virá o branco europeu para especular. voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura. O Brasil contemporâneo se formará. tabaco. mais tarde ouro e diamantes. desde seu princípio . veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar. apresentando a especificidade de ter seu sentido histórico singularizado por ter se constituído primeiro como empresa e depois como país. se constituirá a colônia brasileira (Idem. e em seguida café. para o comércio europeu. aspectos que se colocou como problema e que o autor. nação. a partir do início de nova fase. a do Brasil contemporâneo. A população que ocupa este território “inventado” faz parte de um sistema mundial. Com tais elementos. Este essencial é o que se apresenta como “linha mestra”. depois. mais até hoje sobre aquela direção se desenvolverá e terá que buscar respostas para os problemas que aquele tipo de colonização colocara. mas “traduzem fatos profundos”. Isto é demonstrado no decorrer do estudo. Caio Prado Junior constrói. portanto. fundamental para a compreensão do seu objeto: o sentido da formação de um todo. E com tal objetivo. 2000: 4). articulados numa organização puramente produtora. no decorrer da ascensão e do declínio daquelas estruturas. pois acredita vir de uma compreensão destes dados a transformação da sociedade brasileira (Idem. alguns outros gêneros. busca compreender.

competir é o termo certo. com características distintas de formas anteriores de escravidão no mundo ocidental teve repercussão em todos os setores da vida social. e acima de tudo. 2000: 277). A privação da liberdade a ele imposta concorre para a ausência (no plano da organização da sociedade e da construção de seu sentido) de contribuição da maior parte da população da colônia para a formação da estrutura da sociedade brasileira até o início do século XIX. destituído de sentido e usado como força bruta de produção material.inclusive que se emancipar e se tornar independente neste contexto por motivos intrínsecos da relação social primeira. caracteriza a sociedade brasileira de princípios do século XIX” (Idem. conseqüência. a que aqui se desenvolveu por motivos mercantilistas. No Brasil ele é privado de sua cultura de origem. negocia. causa. segundo Caio Prado Júnior a despeito do desenvolvimento das noções morais que já constituíam a sociedade do velho mundo. e em nosso caso é “motor” de uma sociedade. . Frisando a diferença da escravidão moderna. à população do centro deste sistema. com a qual dialoga. insere-se em determinada tradição. Sua ocorrência. sendo sua implantação necessária por motivos oriundos da atividade empresarial que se pretendia realizar visando a prosperidade da metrópole. em todos os níveis de sua vida. Na Antigüidade o escravo faz parte da cultura. No caso dos Antigos é resultante de um modo de vida. sendo a base de toda organização econômica e produtora de padrões materiais e morais de conduta em nível inédito de influência. de um sistema de pensamento. a escravidão brasileira foi para o Brasil a mais significativa instituição sendo ela que “antes de mais nada. No entanto não dispõe de ferramentas para se contrapor.

resulta na preparação de um contingente populacional destituído de meios para se inserir no quadro da vida social do Brasil contemporâneo. seu ritmo e sua direção. se se tivesse procurado neles. Caio Prado Júnior desloca a questão do nível moral da discussão da miscigenação da população. sua mais organizada instituição social . se diverso tivesse sido o rumo dado à colonização. pretendem que já na sociedade colonial se dispunha de unidade ou identidade. Os responsáveis pelo sentido da colonização estão alienados de tal intento. Caio Prado Júnior discorda de outros autores que. como é . 2000: 281). moral ou intelectual. e têm suas atenções voltadas totalmente para o comércio e tráfico segundo os interesses de Portugal: “O negro e o índio teriam tido certamente outro papel na formação brasileira. A distinção do fato da escravidão em nosso caso se dá tanto na produção material como no nível do serviço doméstico e que “apesar da amplidão e importância econômica muito maiores do primeiro setor.Em decorrência disso. Caio Prado Júnior salienta que em se tratando da “economia da colônia praticamente todo o trabalho é servil” (Idem. Não só ele é numericamente volumoso. ou aceitado uma contribuição menos unilateral e mais larga que a do simples esforço físico” (Idem. seja ela técnica. o último não pode ser esquecido ou subestimado. Assim o que constitui a base da vida da colônia. e muito menos estética. e papel amplo e fecundo. observando a ausência de preocupação quanto à formação dos negros no Brasil. seja ela religiosa – como chegou a ocorrer com os indígenas doutrinados pela ordem jesuítica -. 2000: 286). Tal fato contribui diretamente para o atraso da economia colonial. a exemplo de Gilberto Freyre com quem dialoga em Formação do Brasil Contemporâneo.a escravidão .

Ao constituir-se como “empresa” da metrópole não se constituiu como uma unidade nacional. bem como nas regiões onde atividades ligadas à . entre outras coisas. só pode configurarse com a marca do “atraso”. própria do senso comum da época. se é que se pode falar em sociedade civil neste caso. O arranjo social determinado por uma lógica externa às suas próprias fronteiras.. é precisamente desta relação – desumanamente desleal – que advém “a maior parte dos malefícios da escravidão” (Ibidem). e a utilização universal do escravo nos vários misteres da vida econômica e social acaba reagindo sobre o conceito do trabalho que se torna ocupação pejorativa e desabonadora”.. e os saborosos quitutes da culinária afro-brasileira” (Ibidem). principalmente nas cidades. Daí uma sociedade civil desorganizada. Bem diferente de uma discussão taxativa.grande a participação que tem na vida social da colônia e na influência que sobre ela exerce” (Ibidem). o dano social causado pela estruturação da sociedade de forma escravista reveste toda estrutura da sociedade que formará o Brasil contemporâneo. Assim se configura uma formação cuja lógica e sentido estão fora e não dentro do País. a despeito de uma retórica que procurava de certa forma travestir a imagem da escravidão sofrida no Brasil de um ar romântico. Ironicamente. De tal sorte que é preciso enfatizar o “pouco que ela trouxe de favorável. também: a ternura e afetividade da mãe preta. (Ibidem). começou-se a formar. devido à proximidade do senhor e do escravo no mundo da vida íntima. Caio Prado Júnior é categórico em afirmar que. Dado o significado que assume o trabalho no Brasil. Assim: “Torna-se muito restrito o terreno reservado ao trabalho livre .

anteriormente referidas. por conseguinte a pobreza. Caio Prado Júnior destaca que. Neste nível a escravidão. Chega-se assim na constituição de um contingente de “desclassificados. algumas de acesso restrito. Caio Prado Júnior vai ater-se propriamente aos aspectos humanos da formação do Brasil contemporâneo nos tempos da colônia. o de ser empresa de lucro fácil. entravam em declínio. 2000: 289). e. o autor vai passar da descrição daquela “base material” para as relações sociais que sobrevieram a elas. Seguindo as lições do materialismo histórico.12 a despeito da abundância de terra. parte para a conclusão de seu estudo demorando-se na análise das 12 Fontes mais usadas: Recompilação de notícias soteropolitanas e brasílicas do fim do século XVIII . pois demandam riqueza prévia como é o caso das atividades das profissões liberais que requerem preparação intelectual.mineração. O elemento inorgânico é para a vida social um dos aspectos da formação da identidade do Brasil contemporâneo (Idem. em detrimento da atividade remunerada.Luís dos Santos Vilhena . lançando mão de uma de suas fontes preferidas de conhecimento. indivíduos que poderiam ser proprietários preferem não o ser. 2000: 287). um contingente de pessoas que escolhe a vadiagem. Tendo caracterizado os tipos que vão ocupar e constituir todo o território. Fechando sua exposição. o sentido da colonização. O comércio era privilégio dos “reinóis” – os nascidos no Reino – e poucas eram as atividades restantes de que se pudesse orgulhar os não abastados. pois não possuem o capital para comprarem quem por eles trabalhe (Idem. restringindo-se a poucas atividades. No campo. para Caio Prado Júnior contribui de forma decisiva para a preparação da estrutura da vida social do Brasil contemporâneo. inúteis e inadaptados”.

os grupos sociais. Assim. cujo sentido é o de ser empresa e não nação. Mas. não uma colonização qualquer e sim um processo que obedece à lógica exterior ao próprio território colonizado. Destaca como sendo de suma importância a ausência de nexo moral entre os atores de tal sociedade. ou seja. De tal base material poucas relações poderão derivar-se.relações sociais que se desenvolveram a partir da realidade dada da colônia. Entendido nestes termos e não como conceito que explique e fundamente explicações da realidade social. no seu sentido amplo de conjunto de forças de aglutinação. o trabalho servil era. o “nexo moral” precisa ser entendido como resultado daquele processo. procurando colocar em relevo as formas de interação entre os indivíduos. 2000: 357). o resultado é um tecido social pouco rico de interação. é bom que se diga. a despeito de seus problemas. os resultantes direta e imediatamente das relações de trabalho e produção: em particular. as classes. O uso desta expressão é defendida pelo autor da seguinte forma: “Tomo a expressão ‘nexo moral’. 2000: 353). segue justificando sua posição quanto a ausência de nexo moral da sociedade brasileira nos tempos coloniais a partir do fato de que: “os mais fortes laços que lhes mantêm a integridade social não serão senão os primários e mais rudimentares vínculos humanos. antes mencionado. Para Caio Prado Júnior. o . complexo de relações humanas que mantém ligados e unidos os indivíduos de uma sociedade e os fundem num todo coeso e compacto” (Idem. entre os agentes que deram forma ao corpo social brasileiro. como já foi discutido anteriormente. a subordinação do escravo ou do semi-escravo aos seu senhor” (Idem. de colonização.

vai alienar “o conteúdo cultural” de que dispunha anteriormente. que ficava fora da relação de trabalho servil. nas suas duas atribuições – a de trabalho e a sexual – o escravo não ultrapassa o limite da relação servil. A atividade sexual do escravo. no caso da mulher. Ao contrário. Senão por outras razões. nem no campo da práxis nem no da intuição intelectual ou moral (Idem. Portanto. encontra-se uma inorganicidade como regra. 2000: 354). flutuando sem base em torno da sociedade colonial organizada” (Idem. por sua vez. Caio Prado Júnior vai explicar a afirmação segundo a qual as relações sociais que vingam a partir do regime organizado da escravidão são relações primárias e elementares justificando que. para Caio Prado Júnior. No seu plano material o trabalho escravo “nunca irá além de seu ponto de partida: o esforço físico constrangido”. porque o sentido de sua inserção no contexto brasileiro obedecia uma lógica externa àquela de uma identidade nacional. Sendo este setor da sociedade diretamente afetado pelo setor do trabalho servil que. muito menos provia o incremento da vida cultural da colônia. não tem as funções de que ocupa a fruição posterior de um trabalho que pode ser reflexivo. a consumação física do escravo o macula diretamente.único efetivamente organizado e portanto que funcionava no país. de tal forma que ele próprio. ao escravo. No outro ponto da sociedade brasileira. a utilização do negro como escravo no Brasil não contribuiu para a formação de uma “superestrutura” ampla e complexa servindo “apenas para momentaneamente conservar o nexo social” (Ibidem). 2000: 355). O trabalho livre caracterizava-se pela dispersão formando um setor “imenso e inorgânico de populações desenraizadas. estando uma vez . o trabalho nada ensina.

Não menos primárias serão as relações sociais entre estes agentes que devido a uma inconstância de trabalho e de evolução material tendem para a vadiagem e a “caboclizaçao”. O que caracteriza este setor é a ausência mesmo de uma estrutura social organizada. A qual faz valer sua autoridade a despeito da ineficiência da administração pública da colônia ser uma de suas realidades. acaba – como já assinalamos anteriormente. o quanto esta formação pesa sobre o presente e futuro País. tendendo seus atores para a composição de uma malha social instável. Assim esta ausência de “nexo moral” da sociedade colonial se caracterizava mais pela desagregação e por forças dispersivas. segundo Caio Prado Júnior – condicionando e sendo a origem de tipos e formas de relações sociais de uma parte da população que crescerá continuamente por todo período colonial e que chegará a colocar os problemas enfrentados pela sociedade até hoje. a escravidão resultando na composição de um setor de trabalho livre que se caracteriza mais pela inércia que pela atividade que poderia. para Caio Prado Júnior. Fatos que demonstram a importância do poder externo na vida da colônia são. Mais ainda. contribuir para a formação de um meio mais integrado e coeso contra a ação coercitiva da metrópole. os acontecimentos posteriores a Independência quando a sociedade brasileira acaba por reproduzir “quase integralmente a monarquia portuguesa que viera substituir” sendo o modelo imposto e não produzido pela mesma (Idem. 2000: 357).amplamente organizado. por sua vez. desagregada e desenraizada. .

que se pensará e se buscará uma identidade e singularidade para a cultura brasileira (Idem. sendo precisamente sobre estes elementos. retardando assim diretamente a economia colonial que se desenvolvia quase que totalmente em torno do trabalho forçado (Idem. uma análise da formação pode revelar: a identidade nacional não aparece desde sempre mas é construída. organizadas em torno da realidade condicionada por aquele. e de uma certa forma contrapondo a estes outras formas de “sentir”. desenvolvidas fora da lógica e dos sentimentos importados de Portugal e ainda de outros países. pior ainda. No primeiro aspecto da vida social da colônia predomina como já foi mostrado o trabalho servil. para Caio Prado Júnior. “uma geral moleza”. filhos do reino. é determinada por uma lógica externa aos próprios limites espaciais. “de cultura”. funda-se ordinariamente no trabalho – relações econômicas . de crenças. de língua”. 2000: 358).Nesta mesma linha. em seu princípio. de que deriva a sobrevalorização do ócio. que se ocupavam das atividades relativas ao comércio e produziam riquezas com certa facilidade – “acabará naturalmente . “uniformidade de sentimentos. sendo encontrada de forma disseminada entre a maioria – contrapondose a atitude dos reinóis. acrescente-se que a colônia também importa da metrópole “uma certa uniformidade de atitudes”. Caio Prado Júnior defende a idéia de que tal atitude frente ao trabalho. que “serviria” portanto de “base moral e psicológica para a formação do Brasil como nação”.e nas relações de família. e. resultando em que “nenhum homem livre se rebaixa a empregar músculos no trabalho”. 2000: 358). Para dar conta da análise das relações sociais encontradas e desenvolvidas na vida colonial Caio Prado Júnior parte do princípio de que uma sociedade. Daí uma das idéias chaves que.

Contribui para isto um “ridículo sistema de educação” uma suposta Paidéia. Caio Prado Júnior nota a constante mobilidade de uma população que não se organiza. No que tange às relações pessoais entre os indivíduos. usufruindo durante sua vida de um baixo padrão de vida. 2000:359). 2000: 360-361). O trabalhador livre da colônia dispende o mínimo de energia necessária para o seu sustento. que acaba se apoderando do indivíduo todo” (Ibidem). solteiros cujo ímpeto aventureiro.por se integrar na psicologia coletiva como um traço profundo e inerraigável do caráter brasileiro” (Idem. que tentou ‘modelá-los’ “por figurinos europeus estranhos aos seus gostos” (Idem. sua subsistência. temos uma segunda explicação para tal fato social (o tipo de preguiça e ócio improdutivo) na incorporação abrupta de índios quando estes não dispõem dos mecanismos apropriados para a tradução da lógica a que é submetido. em torno de famílias estruturadas. a despeito das riquezas do meio natural a sua volta. sobretudo de uma “inatividade sistemática. tão acanhado de oportunidades e de perspectivas tão mesquinhas” (Ibidem). sendo esta ininteligível segundo a constituição de seus padrões sociais. refreia a constituição de células monogâmicas. de uma atividade sedentária. causando a estagnação e uma apatia que “não vem somente da luxúria e da cobiça. na sua maioria. ou seja. (Idem. Contribui para tal fato uma certa “facilidade . mas. em busca de enriquecimento. Por outro lado. mas antes se compõe de emigrantes isolados. 2000: 360). Outra causa da inatividade dos indivíduos livres da colônia “é o sistema da colônia. Estes fatores em conjunto resultarão por fim em um “tom geral de inércia”. a lógica da produção e acúmulo de bens a partir de trabalho metódico.

“as facilidades que proporciona às relações sexuais irregulares e desbragadas. Ainda fatores como instabilidade e insegurança econômica corroboram para tanto. as suas virtudes. deficiente. a indisciplina que nela reina. ou quase. tudo isto faz a casa-grande. não se processou. quase como regra. 2000: 362).de costumes” que proporciona ao imigrante “mulheres submissas de raças dominadas”. das classes superiores da ‘casa-grande’. No caso da vida da colônia “o sistema de vida que dá lugar. no caso entre senhores e escravas. ao contrário do que se afirma correntemente. torna-se pelo contrário campo aberto e amplo para o mais desenfreado sexualismo” (Ibidem). Dentro da organização da casa-grande ainda se observa que a família. num ambiente de família” (Idem. e constitui uma base não familiar da vida destes (Idem. Caio Prado Júnior está trabalhando com um fato social: estabelecendo a diferença do papel que esta representa para a vida social nos moldes em que desenvolveu ao longo do tempo e o que passa a significar no âmbito da sociedade colonial brasileira. Sobre a massa inorgânica e livre da colônia Caio Prado Júnior sublinha: “A formação brasileira. mal disfarçada por uma hipócrita submissão. puramente formal. atuar como modelo formador do caráter das relações humanas ali constituídas. e em vez de ser o que lhe concede razão moral básica de existência e que é de disciplinadora da vida sexual dos indivíduos. salvo no caso limitado e como veremos. 2000: 361). sustentada pela relação desigual de forças entre partes envolvidas. a promiscuidade com escravos”. antes uma escola de vício e . não se constitui em um fator disciplinador da vida sexual dos indivíduos sendo ao contrário a permissividade. Caio Prado Júnior observa ainda que: “A família perde aí inteiramente. Mais do que o julgo de uma moral pessoal.

pelo seu custo. Deste modo festas e sacramentos se enraizavam na cultura. Dentre uma minoria de uniões regulares. tendo sido na prática cultos e cerimônias religiosas incorporados ao cotidiano se desligando muitas vezes do significado originário da prática religiosa de origem. a despeito da presença das ordens religiosas na constituição de suas instituições. na vida da colônia. Tal fato contribui para que as moças pobres nem cheguem a pensar no casamento como algo possível. apanhando a criança desde o berço. em outros lugares mais comum nas cidades de médio e grande porte. na falta de condições de obter sustento. grande número de casais ainda não oficializam o matrimonio por motivos vários como por exemplo o da falta de condições financeiras. Caio Prado Júnior sublinha ainda o fato de que a prostituição. ocupa lugar. No entanto o que se verifica como predominante é a ausência de uniões estáveis e a grande maioria dos homens prefere “em geral não pensam em se deixar prender” (Idem. 2000: 364). escassez de padres para a cerimônia. que de formação moral” (Ibidem).desregramento. e de classe. além dos vadios. sendo porém estas uniões comuns e num certo sentido aceitas naturalmente. de prostitutas” (Ibidem). Outro aspecto importante na formação das relações sociais da colônia é o de que. e em larga escala” (Ibidem). o que teria concorrido. sua influência na sistematização dos costumes desta se mostrou relativa. mas de forma adulterada em decorrência do caráter dinâmico da vida sexual. para uma ampla difusão da prostituição. ou por restrições e constrangimentos raciais. ficando mais . nos “mais insignificantes arraiais” onde “quase toda a sua população fixa é constituída. sendo de tal forma disseminada esta atividade na colônia que “não há recanto da colônia em que não houvesse penetrado.

2000: 364-365). de ser empresa da coroa portuguesa. política: numa palavra e para sintetizar o panorama da sociedade colonial: incoerência e instabilidade no povoamento. dissolução nos costumes. expressões ou sintomas aparentes de uma realidade que vai por baixo. Cabe lembrar mais uma vez. Caio Prado Júnior começa a analisar as forças renovadoras que vão efetuar a mudança no estado das coisas na Colônia. para o autor. Assim caracteriza a ação geral uma “tolerância infinita quanto à moral” sendo mesmo a prática do clero não diferente (Idem. e que. o estudo da história é ferramenta. quais seriam os elementos. 2000: 365). Forças estas que não devem ser vistas como meras hipóteses ideais. e não fim. que esta é a preocupação central de Caio Prado Júnior em Formação do Brasil contemporâneo. neste ponto da exposição. e para o historiador não devem servir senão de sinais. ruína em que chafurdava a colônia e sua variegada população. capacidade de renovação? (Idem. poderiam realizar a virada de mesa e de fato construir uma nação no Brasil. A questão que se coloca aqui. caráter empresarial da colônia. 2000: 368). nos fatos concretos. e que as provoca (Idem. Assim é antes do quadro geral já tratado anteriormente. afinal: “as idéias por si. inércia e corrupção nos dirigentes leigos e eclesiásticos. é a de perguntar. que encontramos de vitalidade.observada a exterioridade dos ritos em detrimento do significado dos signos e símbolos religiosos. não fazem nada. construção de teoria para uma prática efetiva. uma vez tendo desenhado o quadro geral da vida social da colônia. e dos diversos aspectos e contradições inerentes aquele sistema – entendidos no seu movimento dialético – . pobreza e miséria na economia. e com que força. Neste verdadeiro descalabro.

seu desenvolvimento histórico. .que revelará aquela organização social o viés que a conduzirá a sua forma seguinte. para Caio Prado Júnior. Muito mais a partir dos elementos desconexos da vida social e dos setores inorgânicos da população do que de uma ordem política constituída de cima para baixo – como é o ocorrido na constituição do Império aqui delineado aos moldes da organização da política na Europa – que o País seguirá.

prática. através da idéia de formação. entendendo esta como articuladora entre os diversos tempos da História. Para tanto. portanto. Assim o tema. o qual se constitui como um desdobramento daquele sentido. “momento decisivo” . Caio Prado Júnior consegue colocar seu objeto e expô-lo segundo ordem cronológica estendida no tempo. a intenção de consistir numa teoria visando a aplicabilidade de seus resultados por via política e. pensada da parte ao todo. No percurso realizado neste trabalho não deixamos de procurar entender. ou seja. conforme . conforme articulada no texto de Caio Prado Júnior possibilita a este autor realizar a síntese do que chama de Brasil contemporâneo. pensando o objeto e o articulando-o segundo sua constituição estrutural básica. que a elaboração da escrita de Formação do Brasil Contemporâneo teve também. condensando contradições e contendo direcionamentos de cujos desdobramentos virá a tonar o Brasil contemporâneo de cuja compreensão o autor pretende entender e demonstrar o sentido. e o presente. no que nos demoramos quando esmiuçamos a trajetória política do autor. seu corte temporal – o início do século XIX. Vislumbra seu objeto à luz da grande narrativa. conforme demonstrado no decorrer do texto.CONSIDERAÇÕES FINAIS A leitura de Formação do Brasil Contemporâneo operada segundo o recorte da problematização da idéia de formação nos leva a concluir que esta categoria. dividido em seus alicerces fundamentais.por ser transitivo. objeto visado em seu estudo. A longa duração de sua narrativa foi possível. Seu domínio é o da síntese. consegue vislumbrar seu objeto segundo uma extensa linha demarcada e divisada entre o passado colonial. para Caio Prado Júnior. seu sentido.

o Brasil contemporâneo pôde ser analisado segundo sua estrutura tendo ido o autor às suas especificidades e revelado sua composição. que tem seu início precisamente datado naquele corte temporal e que se estende e nos tange nos dias de hoje).sua formação. no que tange aos aspectos de suas . e segundo sua intenção. a que deve seu sentido. cuja resultante é o Brasil contemporâneo. Vale ressaltar mais uma vez que ao tomar o processo de formação do Brasil como objeto o historiador coloca seu estudo. segundo atenta Caio Prado Júnior. Assim Caio Prado Júnior demonstrará que da organicidade do trabalho escravo. tendo em vista a que este deve sua constituição e sua formação. o Brasil contemporâneo. entendido como meio. à disposição dos que pretendem entender a realidade social brasileira (e porque não reforçarmos o já dito – coloca sua análise a disposição dos que pretendem vislumbrar possibilidades futuras e desdobramentos do objeto segundo o qual nos informamos. Dividido o tema em Povoamento. a idéia de formação opera não só a sistematização da estrutura da exploração e “invenção” da “quase-empresa” colonial. Vida Material e Vida Social o autor analisa o processo histórico. mas também é chave analítica eficaz para o autor demorar-se em aspectos menos estruturais e mais sistêmicos da vida cotidiana da colônia que corrobora intensamente para a presente forma de vida do Brasil contemporâneo. frutificará no Brasil determinada disposição para o trabalho. Via dupla de desvelamento da realidade social brasileira. do tipo de relação social que esta suscita. Assim a idéia de formação de Caio Prado Júnior permite ao autor pensar a formação da sociedade brasileira num quadro mais amplo entendido em termos de uma totalidade social: o sistema colonial.

capazes. e ainda no quadro especifico das significações. . depois da independência política. que se esboçasse aqui algo relativamente novo em termos de sociabilidade e organização social. em 1822. ao mesmo tempo. no caso histórico brasileiro. das representações. a idéia de “formação” sugere a sobrevivência das estruturas e atitudes sociais às condições específicas que as criaram tanto no plano das relações sociais cotidianas. mas que. de sociabilidade e ações sociais. de seu significado e espaço no quadro da cultura. Associada à idéia de “sentido da colonização”. não logrou gerar uma autonomia e dinâmica próprias. ou seja. Assim concluímos que a idéia de formação de Caio Prado Júnior permite distinguir. de construir uma nação autônoma. quanto na definição mais geral da estrutura social do que se formou como sociedade brasileira. como o processo de colonização aqui implementado permitiu que se esboçasse uma nacionalidade que foi progressivamente se distanciando do seu modelo europeu.diversas disposições práticas.

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