Universidade Federal do Rio de Janeiro

A idéia de Formação em Caio Prado
Júnior

Letícia Villela Dacol

2004

A IDÉIA DE FORMAÇÃO EM CAIO PRADO JÚNIOR

Letícia Villela Dacol

Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-graduação em Sociologia e
Antropologia – PPGSA, Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, como parte dos
requisitos necessários à obtenção do título de
Mestre em Sociologia (com concentração
em Antropologia).

Orientador: Gláucia Villas Boas
Co-orientador: André Pereira Botelho

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2004

A IDÉIA DE FORMAÇÃO EM CAIO PRADO JÚNIOR

Letícia Villela Dacol

Orientador: Gláucia Villas Boas
Co-orientador: André Pereira Botelho

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em
Sociologia e Antropologia, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração
em Antropologia).
Aprovada por:

_______________________________
Presidente, Profa. Dra. Gláucia Villas Bôas
____________________________
Prof. Dr. André Pereira Botelho
____________________________
Prof. Dr. Robert Wegner

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2004

Villas Bôas. Gláucia. Dissertação.Dacol. Letícia Villela. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais 2. UFRJ. Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia. Gláucia Villas Boas.. IFCS. . A idéia de Formação em Caio Prado Júnior. III. 4 p. 2004. Rio de Janeiro: UFRJ. 29. A idéia de formação em Caio prado Júnior / Letícia Villela Dacol. II. 2004. Referências bibliográficas. vi. PPGSA. 105 f.7cm. Universidade Federa do Rio de Janeiro 1. I. IFCS.

procura-se mostrar que a partir da idéia de formação. da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Em ambos os casos.uma vez que a Colônia obteve sentido e unicidade a partir de determinada relação com a Metrópole. Partindo de pesquisa bibliográfica sobre os trabalhos recentes dedicados à obra de Caio Prado Júnior (1907-1990). Palavras-chave: pensamento social brasileiro. o sentido da idéia de formação permite a Caio Prado Júnior problematizar e fomentar o debate sobre os impasses e possibilidades da constituição da sociedade nacional no Brasil. como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia). Formação. . IFCS. história. o autor logrou realizar uma interpretação do Brasil tanto no plano da estrutura da sociedade. particularmente no que tange à sua “organicidade” e/ou “inorganicidade” e ainda sua específica situação de ter sua força motriz se constituído externamente .A idéia de Formação em Caio Prado Júnior Letícia Villela Dacol Orientador: Gláucia Villas Boas Co-orientador: André Pereira Botelho Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia. analisa-se nesta dissertação a idéia de formação em Formação do Brasil contemporâneo (1942). quanto no plano da sociabilidade e das relações sociais cotidianas da Colônia e do período de transição desta para a nação. Caio Prado Júnior. A hipótese é que esta categoria é central para a compreensão da obra do historiador paulista. Assim. marxismo.

particularly in the case of its “organicity” or “inorganicity” had been especifically constituted externally – once the Colony had its sens and unicity been constituted on its relations with the Metropolis. Therefore. Caio Prado Júnior. the sens of formation idea allows Caio Prado Júnior to problematize and foment the discussion about impasses and possibilities of the constitution of the brazilian society as a nation. Both on either cases. da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. The hypothese is that this categoria is fundamental to compreend the work of this historian. Working on bibliografic research about recently works dedicate to Caio Prado Júnior’s production (1907-1990). history. Formation.A idéia de Formação em Caio Prado Júnior Letícia Villela Dacol Orientador: Gláucia Villas Boas Co-orientador: André Pereira Botelho Abstract da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia. marxism. como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia). we pursuit to show that with formation categoria the autor had pretend to realize an interpretation of Brazil in so far in the plain of the society strucure sociability and quotidian social relations during the period of transition from Colony to the Republic nation. IFCS. . Key-words: brazilian social thought. we analize in this dissertation the idea of “formation” in Formação do Brasil Contemporâneo (1942).

sendo. ao meu lado. à minha amiga Ana Lima. Ao meu irmão Flávio pelos pitos nas minhas horas de fraqueza.Agradeço à minha mãe pelo exemplo de fibra e coragem para buscar novos caminhos. incentivando-me a continuar. Ao meu amigo Roberto pelas cobranças epistemológicas nas mesas de bar. ao professor André Botelho e à professora Gláucia Villas Bôas. pela paciência. Ao meu pai pelas críticas quanto à viabilidade destes caminhos. Nelsinho. Ao meu marido João pelo companheirismo. Aos meus alunos de música. Marcelo Lion. Charles Villela. principalmente por ter sempre estado. . À CNPQ pela bolsa de mestrado a mim concedida. aos meus amigos Vinícius. meu primeiro interlocutor. ainda que de forma indireta. e pela inspiração na escolha deste tema. mesmo na contramão.

À memória da professora Ana Maria Galano .

o caso se aplica também a Caio Prado Júnior no que se refere a seu livro ter se tornado um “clássico”. discutindo o livro Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido. sobretudo monográficos. justamente o surgimento de trabalhos. no que diz respeito a este último autor. ao mesmo tempo. Assim. às vezes pagam por isso. 1999. tomamos o potencial educativo dos seus argumentos para avaliarmos o caso específico de Caio Prado Júnior (1907-1990) e da leitura de seu “clássico” Formação do Brasil Contemporâneo. como foi o caso da Formação da literatura brasileira. publicada em 1959. no caso de Antonio Candido. de 1942. Passados quarenta anos. 1999: 46). a idéia central de Antônio Cândido mal começou a ser discutida” (Schwarz.como é o caso do debate em torno de autores como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Assim. procurando repensar os “clássicos” do pensamento social brasileiro . na idéia de formação” (Idem. o debate que merecia. Está em curso. que. ficando sem o debate que lhes devia corresponder.INTRODUÇÃO Em Seqüências Brasileiras – ensaios (1999). Concordando com essa sugestão de Roberto Schwarz. podemos dizer que. tornam propício o resgate também da obra de Caio Prado Júnior. a despeito da relativa demora da ocorrência do debate em torno da sua . que também afirma que. sem ter obtido. neste momento. 12). por exemplo -. se por um lado o livro do historiador paulista não teve a aceitação imediata que parece ter tido A Formação da Literatura Brasileira. Roberto Schwarz sugere que os “livros que se tornam clássicos de imediato. “a originalidade maior do trabalho está na concepção geral.

“oficiais” da nação que tomaria corpo (a partir do início do século dezenove) como moldou formas de sociabilidade e conformou práticas e condutas que a nível da vida cotidiana resultou na formação de uma “identidade” ou “cultura” que resultará em uma sociedade determinada.obra. por assim dizer. entendendo esta categoria como uma chave analítica central para o desenvolvimento da narrativa historiográfica de Caio Prado Júnior. de uma leitura mais isenta . assim. neste percurso. a sociedade brasileira. macrosociológico. como articulada no contexto da escrita de Formação do Brasil Contemporâneo. trazida também pelo tempo e adensamento do conhecimento acumulado nas ciências sociais brasileiras. como possibilitou. mesmo no âmbito daquele processo de reavaliação dos autores “clássicos” do pensamento social brasileiro. ao autor se debruçar sobre as relações sociais específicas que constituíram. podemos destacar como positiva a possibilidade.maior ou menor em cada caso – do envolvimento emotivo que tais obras eram capazes de suscitar em outros tempos. as bases não só institucionais e portanto. . da estrutura da Colônia e do sentido da colonização. por via inversa. A hipótese que quero explorar é a de que a idéia de formação. contribuir para um debate maduro capaz de repensar aquelas obras a partir da perspectiva dos problemas atuais do pensamento social e da sociedade brasileira. tanto permitiu uma interpretação dentro de um contexto mais amplo. Podendo. O presente trabalho pretende se inserir dentro desta corrente de reavaliações do pensamento social brasileiro. Pretende operar uma “desnaturalização” da leitura de Formação do Brasil Contemporâneo e elege como fio condutor para tanto destacar a idéia de formação.

Como sugere Schwarz: “Quando o livro saiu. A idéia de formação. é central na experiência intelectual brasileira. Deve-se dizer. a geografia. à espera de trabalhos de síntese. valendo lembrar que também a idéia de “momentos decisivos“ que figura no subtítulo de A Formação da Literatura Brasileira é devedora da obra do historiador paulista. ou esteve. o autor filia o livro de Antonio Candido ao de Caio Prado Júnior. nesta obra. Se passarmos a Sérgio Buarque de Holanda.haja visto a importância dada pelo autor ao trabalho de campo e à etnografia dos viajantes franceses em expedição no Brasil no século XIX. que um tal trabalho tem por motivação a idéia de que. a filosofia e ainda. mais que um interesse puramente histórico ou ainda de destacar a possível genialidade de um autor. Sérgio Buarque de Holanda e Celso furtado” (Idem. Este momento alto estaria. pela antropologia contemporânea . portanto. Para Caio Prado Jr. O país será moderno e . A esse respeito.1 1 Como sugere Roberto Schwarz.objeto central do autor entendida nos termos da unidade nos termos de uma nação pensada e elucidada a vista de suas contradições e sentido. aliás. a “comparação entre estas obras ainda está engatinhando. encontraremos algo análogo. a formação brasileira se completaria no momento em que fosse superada a nossa herança de inorganicidade social – o oposto da interligação com objetivos internos – trazida da Colônia. poderíamos dizer. alinhou-se. portanto.. Muito sumariamente quero sugerir alguns contrastes. no futuro. No campo progressista. 1999: 54). articular com segurança determinada metodologia. por sua capacidade de trazer para a historiografia brasileira elementos desenvolvidos pelas ciências humanas.. como sugere Roberto Schwarz. principalmente pelas ciências sociais. os congêneres mais importantes e conhecidos eram os livros de Caio Prado Jr. um estudo analítico de Formação do Brasil Contemporâneo para nós é pertinente pela capacidade de Caio Prado Júnior. que buscaram acompanhar a formação do país em outros níveis. e. entre várias obras de perspectiva paralela e comparável.

compreende-se. Entendendo por formação a busca de “linhas evolutivas mais ou menos contínuas” para a vida social como tema central no pensamento social brasileiro.. além do mais que o horizonte descortinado pela idéia de formação corresse na direção do ideal europeu de civilização relativamente integrada – ponto de fuga de todo espírito brasileiro bem formado” (Idem. a nação continua incompleta [.] Com a distância no tempo. pode-se também dizer quer essa visão do acontecido. estará formado quando superar a sua herança portuguesa. 1997: 11-2). apresentada por Antonio Candido. 1999: 54-5). Os donos do poder. quando então teríamos um país democrático. por seu turno. a literária – que se completaram de modo muitas vezes até admirável. Formação econômica do Brasil (1959) e. Celso Furtado. enquanto as decisões básicas que nos dizem respeito forem tomadas no estrangeiro. rural e autoritária. Formação do Brasil contemporâneo (1942). de Luís Felipe de Alencastro entre outras. sem que por isso o conjunto esteja em visas de se integrar. entre as quais poderíamos destacar: Evolução do Povo Brasileiro (1923). na dependência das decisões do presente. Raízes do Brasil (1936). . sugere Arantes (Ibidem). Também aqui o ponto de chegada está mais adiante. Evolução política do Brasil (1933). 1997: 11). de uma noção “a um tempo descritiva e normativa. Formação do patronato político brasileiro (1958). não passarem para dentro do país. ela constitui “verdadeira obsessão nacional” no Brasil (Arantes. Trato dos Viventes . Arantes observa que mais do que “uma experiência intelectual básica”. Como aliás. muitas vezes figurando nos próprios títulos. O esforço de formação é menos salvador do que parecia. principalmente as do comando econômico. Como se trata.A idéia de formação foi discutida em registo semelhante também por Paulo Arantes.. É como se nos dissesse que de fato ocorreu um processo formativo no Brasil e que houve esferas – no caso. bem indica sua recorrência. mais recentemente. Casa-grande & Senzala (1933).Formação do Brasil no Atlântico Sul. importante enfatizar. Ou seja. talvez porque a nação seja algo menos coeso do que a palavra faz imaginar” (Schwarz. resultou mais sóbria e realista que a dos outros autores de que falamos. dirá que a nação não se completa enquanto as alavancas do comando. Formação da Literatura Brasileira (1959). para o autor. em medidas e sentidos distintos. em obras capitais do pensamento social brasileiro.

inserindo-se em certa tradição hispano-americana. antes. Sentimento do Brasil: Caio Prado Júnior – continuidades e mudanças no desenvolvimento da sociedade brasileira. elas em geral mantém um certo caráter genérico. no prefácio a um desses trabalhos. Em outros termos. constitui categoria central da obra de Caio Prado Júnior. ou melhor. como sugere Elide Rugai Bastos no prefácio do livro de Rubem Murilo Leão Rego.Embora sejam muitas as referências à idéia de formação de Caio Prado Júnior na literatura pertinente. uma interpretação a nível nacional. Articulando a idéia de formação à forma ensaio. em amplo sentido. 2000: p. A idéia de formação. a despeito do sentido pejorativo que o termo ensaio pode assumir em certos momentos e contextos. nesses ensaios explicita-se um esforço para dotar de sentido o mundo estudado. se apresenta sob o gênero ensaio e tem por objetivo claro fornecer. às análises que visam elaborar uma síntese sobre as sociedades nacionais. Bastos sugere que esta. estando assim umbilicadamente ligadas à idéia de formação e propondo-se a indagar sobre o sentido dessas formações. para Bastos aquela idéia estaria no centro das inovações que Caio Prado Júnior imprime na historiografia brasileira e constitui peça chave para a compreensão do seu trabalho. buscando-se superar a situação individual do ensaísta (Bastos. Para a autora: A palavra ensaio. mesmo naqueles trabalhos dedicados exclusivamente à análise da obra do historiador paulista. 15). Em suas palavras. ele define o significado e o tipo de obra que Caio Prado Júnior desenvolveu. Discutindo a forma narrativa de Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior. longe de indicar estudos que fogem ao rigor científico e se desenvolvem apenas segundo impressões fugidias. Num desses trabalhos mais recentes analisados nesta dissertação. refere-se. . a questão é posta em primeiro plano.

tratar do tema. na medida do possível. vida material. cumpre advertir que no âmbito desta dissertação circunscrevemos a análise ao texto de Caio Prado Júnior. No segundo capítulo pretendemos traçar os principais aspectos da trajetória de Caio Prado Júnior tendo em vista sua vida intelectual e política. . no primeiro capítulo apresenta-se os resultados da pesquisa bibliográfica sobre Caio Prado Júnior. em particular. nosso objetivo é evidenciar algumas possibilidades abertas pela idéia de formação do historiador paulista. bem como nos debruçaremos sobre a estrutura do livro. bem como alguns dos diferentes significados e sentidos que ela pode assumir no pensamento social brasileiro. povoamento. Devemos dizer que ao operarmos uma seleção de textos relevantes não pretendemos dar conta da totalidade dos trabalhos que se debruçaram sobre o tema mais privilegiar a escolha de obras mais recentes que procuraram. nos moldes em que é dividido. na atualidade. Este conta ainda com uma segunda parte na qual indicaremos elementos centrais do horizonte ou contexto intelectual de Formação do Brasil Contemporâneo. situando. Assim procuraremos caracterizar as principais questões tratadas nas reavaliações recentes da obra de Caio Prado Júnior e. Assim procedendo. Assim.Reconhecendo a amplitude da problemática identificada em algumas das possibilidades interpretativas da idéia de formação. vida social. dar ênfase à categoria formação. estas reavaliações frente a análises contemporâneas sobre o pensamento social brasileiro. no contexto de seu livro Formação do Brasil Contemporâneo.

todavia. Assim. como nota Novais. Neste ponto faremos um adendo ao texto acerca da concepção de história em Karl Marx. 2 2 Sobre a relativa ausência de “provas textuais” da influência do marxismo sobre Caio Prado Júnior. as citações dos clássicos marxistas. precisamente por ter sabido reter do marxismo o que nele é mais importante: a abordagem” (Idem. porém. a obra de Caio Prado Júnior deve muito a este autor e à tradição intelectual e política por ele inaugurada quanto à compreensão do presente histórico como resultado de um processo – até mesmo de um processo de formação. Ou melhor. Bernardo Ricupero sugere. tão comuns entre nossos autores esquerdistas. prossegue Ricupero. não são freqüentes em Caio Prado. Pois. que o historiador paulista não encarou “o materialismo histórico como uma coleção de verdades universais. Isto não tem. mas como um método vivo. Nessa aproximação. . “Carlos Nelson Coutinho pode mesmo ter razão ao dizer que Caio não devia conhecer muito marxismo. 2000: 229-30). 2000: 230). não se reivindica exatamente um caso de influência direta. grande importância. importa como indicação de que Caio Prado. foi capaz de fazer uma obra monumental.No terceiro capítulo analisaremos a idéia de formação visando alcançar os objetivos já anteriormente explicitados. Assim. manifesta na ausência de citações do pensador alemão ou de seus “discípulos” na sua obra. com o marxismo possivelmente limitado que conhecia. Questão que aliás. postura de quem é ainda prisioneiro de uma atitude mental que tem suas raízes nos tempos da escolástica” (Ricupero. mostrando que ele não sente necessidade de recorrer ao argumento da autoridade. constitui objeto de controvérsias na literatura pertinente. adequadamente a nosso ver. o que nos obrigaria a uma pesquisa mais sistemática que foge ao âmbito desta dissertação. dada inclusive a pouca freqüência de citações na obra de Caio Prado Júnior como um todo de autores marxistas. pelo que consideramos.

em abril de 2000). particularmente em relação a Formação do Brasil Contemporâneo e. alguns dos artigos de História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior (1989). já que nosso objetivo é realizar um balanço representativo das análises mais contemporâneas.3 Para tanto destacamos dois momentos recentes diferentes de retomada da obra de Caio Prado Júnior como objeto de análise privilegiando a discussão dos seguintes trabalhos: num primeiro momento. avaliar o lugar da idéia de formação. 3 Dentre as análises da obra de Caio Prado Júnior que podem ser consideradas “pioneiras”. nessas análises contemporâneas. Costa.CAPÍTULO 1 ASPECTOS DO DEBATE CONTEMPORÂNEO SOBRE CAIO PRADO JÚNIOR Neste capítulo pretendemos dar conta. de Raimundo Santos (deste mesmo autor. mas que não serão contempladas neste trabalho. deve-se destacar Cavalcanti. 1976. e Caio Prado Júnior na cultura política brasileira (2001). Assim procuraremos caracterizar as principais questões tratadas nas reavaliações recentes da obra do historiador paulista.?” publicado na revista Estudos: Sociedade e Agricultura. . livro em homenagem ao historiador paulista reunindo os trabalhos apresentados na II Jornada de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista (UNESP) realizada entre 26 e 28 de 1988. também. – Continuidades e mudanças desenvolvimento da sociedade brasileira (2000) de Rubem Murilo Leão Rego. objeto deste trabalho. Sentimento do Brasil: Caio Prado Jr. dos aspectos mais relevantes do debate contemporâneo acerca da obra de Caio Prado Júnior. Num segundo momento. e a Nacionalização do Marxismo no Brasil (2000) de Bernardo Ricupero. e Leite. 1967. ainda que de maneira sucinta. Caio Prado Jr. 1966. destacaremos também o artigo “Uma ciência política em Caio Prado Jr.

um fio condutor que lhe permite descobrir as conexões e o sentido dos fatos que constituem a gênese e a estrutura do Brasil contemporâneo. pode-se dizer. 1. sendo ao menos os trabalhos de Ricupero e Leão Rego originalmente formulados e apresentados como. . apresentar uma visão mais integrada e sistemática daqueles aspectos. respectivamente. os trabalhos destacados no que estamos chamando de segundo momento de retomada da sua obra procuram. mas na tentativa de “historicizar os conceitos” do marxismo transpondo este para a realidade brasileira: o marxismo do historiador paulista seria um método de análise. dissertação de mestrado e tese de doutorado. nesse sentido. da trajetória política. Sobre História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior Em seu artigo “Uma via não clássica para o capitalismo”. Coutinho afirma. Carlos Nelson Coutinho sugere que a metodologia implícita nos trabalhos historiográficos de Caio Prado Júnior não consiste na tentativa de “aplicar” ao Brasil alguns esquemas marxistas abstratos. que essa “recepção do marxismo como método e não como dogma abstrato é uma das principais razões dos acertos de interpretação contidos na obra de Caio Prado Júnior” (Coutinho. da trajetória intelectual e biográfica do historiador paulista. Nesse sentido. que enquanto os artigos reunidos em História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior (1989) exploram aspectos diversos da obra.Ressalte-se o caráter monográfico desses últimos trabalhos. 1989: 115). cada um a seu modo.

o que implicaria para o autor enquanto marxista.Considera que “embora tenha consagrado a maior parte de sua obra historiográfica à análise de nosso passado. não careceu e nem carece de uma revolução . nesse sentido. conceitos como o de “transição” ou de “modernização”. numa “análise dialética da gênese e das perspectivas deste presente” (Ibidem). Argumenta. em sua interpretação destacam-se “ainda que só implicitamente”. é inegável que o objetivo central da reflexão de Caio Prado Júnior – o ponto focal a partir do qual se articula o conjunto de sua ampla investigação histórica – é a compreensão do Brasil moderno” (Ibidem). Tendo como núcleo de sua reflexão historiográfica o materialismo dialético. Caio Prado tem sempre em vista a investigação do presente como história. Coutinho discute também o tema das desavenças entre Caio Prado e alguns intelectuais da época em torno do modelo interpretativo dominante na Terceira Internacional e no Partido Comunista Brasileiro. O autor argumenta que “embora exista em sua obra uma certa ambigüidade a respeito da caracterização do ponto de partida – ou seja. “é indubitável que o historiador paulista não hesita em identificar como plenamente capitalista o Brasil republicano” (Ibidem). do modo de produção e da formação econômico-social vigentes no Brasil antes da Abolição”. por isso. através do Império e das várias Repúblicas. Coutinho afirma ainda que para Caio Prado pensar o presente como história (como anuncia em Formação do Brasil Contemporâneo) significava responder necessariamente a seguinte questão: “de que modo e porque vias o Brasil evolui da situação colonial originária. que mesmo quando trata do passado. destacando que Caio Prado “insiste em que nosso país não é e jamais foi feudal ou semifeudal e. para a constelação histórico-social que apresenta hoje?” (Ibidem).

Caio Prado pretendia “ressaltar o caráter decisivo do século XIX. entre os intelectuais brasileiros da época. de imagens capazes de confeccionar uma identidade nacional com o intuito de unir. defender e valorizar as especificidades nacionais frente ao mundo (Ibidem). bem como entre membros da elite nacional. Vera Lúcia Amaral Ferlini. frente às solicitações ampliadas do capitalismo. segundo a autora. que pretendia “dar conta das profundas modificações da sociedade. nesse sentido. Segundo a autora. em 1942. 1989. da política e da economia nacionais. que a originalidade do historiador paulista reside na sua . 1989: 1156). 1989: 228). que haviam se acelerado na última década. na História do Brasil. com Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior “inaugura uma interpretação marxista da formação social brasileira. culminando com o arranjo político de 1930” (Ferlini. E partia da profunda determinação do sistema colonial pela história do capitalismo para dissecar por que o Brasil ainda não tomara forma. de “inserir o Brasil numa economia capitalista mundial”. Destaca. sem o qual não foi mais possível pensar a história e o pensamento no Brasil” (Ibidem). corrente em sua época. Para Octavio Ianni. premido por uma realidade já muito antiga: o passado colonial” (Ferlini. 229). estabelecendo um horizonte intelectual novo. ou numa elaboração. destaca a idéia de que a historiografia de Caio Prado Júnior foi animada por uma discussão. Ainda. em seu artigo “A dialética da história”. com Formação do Brasil Contemporâneo.agrária e antiimperialista para se tornar moderno e capitalista” (Idem. era forte o desejo. fato que resultou em uma busca. em seu artigo “Fidelidade à História”. apontando-o como o esgotamento do sistema colonial.

dentro da compreensão da relação entre passado. ainda em nossos dias. arqueológico. o que seria “uma peculiaridade básica da formação social brasileira”. Formas de vida e trabalho díspares aglutinamse em um todo insólito. das relações sociais. O Brasil moderno parece um caleidoscópio de muitas épocas. formas de vida e trabalho. outros não. uma definição ou estigma: O presente capitalista. para Octavio Ianni. Ianni aponta ainda a idéia de formação e a relação estabelecida. “uma nova interpretação dos contornos e movimentos mais característicos da formação social brasileira” (Idem. a circulação mercantil e a capitalista articulam-se em um todo no qual comanda a reprodução ampliada do capital. “conforme ela se mostra no século XX”. Portanto. Em seu artigo intitulado “A visão do amigo” Florestan Fernandes defende a idéia de que a interpretação histórica de Caio Prado Júnior se diferencia de outras anteriores e subseqüentes a ele por não buscar uma “reconstrução pura e simples . presente e futuro da interpretação de Caio Prado. dialogando com diversos autores contemporâneos e anteriores a ele. alguns referidos em seus trabalhos. (tal como já anunciava o século XIX) com vários momentos pretéritos. 1989: 72). 1989: 71). na narrativa. em escala internacional. modos de ser e pensar (Idem. ou melhor. entre o passado e o presente como elementos fundamentais em Formação do Brasil Contemporâneo: “O presente. urbanizado convive. A circulação simples. em cada época. Dentre os principais fatores que teriam conduzido Caio Prado Júnior a produzir uma interpretação dialética da história da sociedade brasileira.capacidade de produzir. 1989: 63). industrializado. no qual se combinam vários pretéritos” (Ibidem). processos e estruturas que constituem “configurações sociais de vida” (Idem. Ianni destaca o estabelecimento conceitual das idéias de sentido da história. parece um mapa histórico. revela-se.

entre a “história tradicional” e a “história interpretativa” e afirma que “Caio inaugurou o modo mais avançado de história interpretativa no Brasil. 1989: 32). Insere sua historiografia num debate mais amplo. Deste modo Caio Prado Júnior seria um dos principais expositores da explicação da sociedade escravista e das suas peculiaridades fundamentais (Fernandes. clareza” (Dias. Para a autora Formação do Brasil Contemporâneo apresenta uma estrutura de construção complexa e “é muito sugestiva da postura independente do engajamento político do autor. Portanto para Dias está claro que seu envolvimento com o materialismo dialético longe de ser um ponto que diminua a importância da interpretação de Caio Prado Júnior é mesmo uma das maiores contribuições dadas pelo autor à historiografia brasileira. o qual se fundava no materialismo histórico” (Ibidem). síntese. Ressalta que sua narrativa pode ser definida como “uma tentativa de interpretação histórica materialista fecunda” (Ibidem). 1989: 32). sua concretude. o que propunha um desafio fundamental de método” (Ibidem). . 1989: 378). está a análise influenciada pelo materialismo dialético como fator de diferenciação que estabeleceu e introduziu na historiografia brasileira entre a análise das estruturas e a história episódica ou descritiva. do seu pioneirismo ao decifrar as possibilidades de adequação da dialética materialista ao contexto das contradições brasileiras.do passado” (Fernandes. Em seu artigo “Impasses do inorgânico” Maria Odila Leite da Silva Dias afirma que uma contribuição fundamental da obra de Caio Prado Júnior é sem dúvida “a elaboração do método. elaborado na sua especificidade. Afirma que entre suas grandes contribuições. como é o caso do ocorrido na França.

Nesse sentido. 1989: 377). que em seu tempo vivia uma atmosfera de expectativa de perspectivas diversas.A autora destaca como um dos eixos fundamentais da obra de Caio Prado Júnior o “tema das tensões entre sociedade e nação”. segundo ela. orgânico. de contradição fundamental que definiria todo o vir a ser da nacionalidade. analisando as especificidades de seu tempo. Assim no livro Formação do Brasil Contemporâneo. fato que desembocaria em uma sociedade singular e contraditória. aponta para a especificidade de um processo inacabado em nossa história e que corresponde a um dos traços característicos de nossa sociedade. a despeito de não ter chegado a esmiuçar os anos de formação da república. Para Maria Odila da Silva Dias o tema da nacionalidade. a partir da exploração racional e coerente dos recursos do território com fins a satisfação das necessidades materiais da população que nela habita. Nesse sentido. e das relações sociais de dependência colonial. proposto como “totalidade orgânica” implicava em questionar e refletir sobre as possibilidades de integração da massa da população no sistema produtivo do país. Caio Prado teria mostrado de forma objetiva a dificuldade estrutural da sociedade brasileira de se formar segundo seus próprios interesses e caracteres. a autora destaca a importância dada em Formação do Brasil Contemporâneo ao estudo das especificidades locais do processo colonizador – estudo que a despeito de todo desdobramento posterior da Antropologia e do . tensão que. Caio Prado teria desenvolvido sua obra com o intuito de mostrar que “a colonização não se orientara no sentido de construir uma base econômica sólida e orgânica” (Dias. Assim Caio Prado Júnior teria justamente desvendado e destacado a existência deste impasse.

de um lado. a sua foi em vários sentidos uma obra pioneira pelo grau de elaboração do processo dialético. para melhor indicar um programa de ação para o futuro” (Idem. contribuiriam justamente para a . Maria Odila da Silva Dias observa ainda o víeis prático desta obra. conforme suas relações mais ou menos intensas. Ainda. cuidadosamente trabalhado na perspectiva histórica da análise das conjunturas regionais do Brasil. regionais que revelaram potenciais de mudança. 1989: 379). 1989: 378). pois. conjunturas. de outro. a partir de um movimento dialético. Nesse sentido a autora sugere que: no plano mais amplo da historiografia marxista. 1989: 382). justamente por conciliar a interpretação marxista com a diversidade nacional. Eric Hobsbawn e outros (Idem. Por isso atingiu em 1942. segundo ela. como marxista. Assim poder-se-ia notar que no emprego do método de interpretação das estruturas produtivas.desenvolvimento de técnicas precisas se mostrava bastante inovador para a época. as chamadas “forças desagregadoras” de decomposição do sistema. essas forças dificultariam o processo e as potencialidades da transformação da colônia em nação e. um nível de concretude e de sofisticação de método que somente vinte anos depois começou a encontrar similares nas obras de Pierre Vilar. mais ou menos diretas de dependência e subordinação com a grande lavoura do litoral (Idem. Caio Prado dedicou-se à elaboração de teoria abrangente que levou em conta o estudo de modos de produção. Albert Soboul. devidamente localizados no processo de povoamento. abarcando mediações sociais específicas. um dos objetivos fundamentais de Formação do Brasil Contemporâneo consistiria em mostrar. dado que. em suas origens históricas. Caio Prado “procurou as diversidades específicas do processo brasileiro de colonização e formação da sociedade. segundo a autora.

assim como a relação de tempo estabelecida pelo autor (entre o nosso presente e o passado colonial). se torna um fator de desagregação do sistema colonial indicando uma possível função de unidade no futuro (Idem. que se projetavam para o futuro (Ibidem).constituição de uma sociedade livre – “acenariam para uma futura superação” do que se poderia chamar “impasse do inorgânico” presente ainda nos dias de hoje (Idem.deixa transparecer de imediato o tom engajado do trabalho. que enxergam em Caio Prado Júnior. sob o ponto de vista da formação das classes sociais. da organização precária de sobrevivência da população brasileira. Caio Prado Júnior teria reconstituído as tensões históricas. as especificidades do povoamento do interior. 1989: 284). o principal tema do historiador consistiu justamente em descobrir e revelar (por oposição a narrativa costumeira) o inorgânico da vida . de um núcleo de relações de dependência colonial. Para a autora. que crescia a partir de uma contradição básica. Maria Odila da Silva Dias sugere que o historiador paulista aborda o processo de formação da nacionalidade brasileira como sendo marginal ao processo produtivo (voltado para o provimento de necessidades exteriores) e que. as formas de vida sociais da colônia. como um processo marginal. assim sendo. até construir formas de vida social. Ao contrário de críticos. localizado entre o final do século XVIII e a época da Independência . dos condicionamentos geográficos. portanto. das vicissitudes. que se apresentaram como possibilidades de transformação. uma visão estritamente economicista. Para a autora o enfoque estrutural escolhido pelo historiador paulista – delimitando precisamente seu objeto numa conjuntura de crise. 1989: 381). enfim.

para a autora. pois se compunha de aglomerados de forças.social. Antonio Candido se propõe a dar um depoimento a respeito da figura humana de Caio Prado Júnior. 1989: 397). procura a partir de sua teoria demonstrar e chamar a atenção para a necessidade de transformação da estrutura da sociedade como um todo. Nesse sentido. Muitas vezes o fato histórico custava a se tornar inteligível para o historiador. ou seja. escrever e estudar o Brasil. de explicitá-los no seu próprio devir dialético sem falsear a interpretação deste processo com posturas ou deslizes teorizantes e. com tendências. Caio Prado cuidou de elaborar os conceitos marxistas da forma mais concreta possível. Nas suas palavras em Caio Prado: “o conhecedor de história e de economia do . para a mudança das bases fundamentais da sociedade brasileira a despeito da compreensão idealista de esclarecimento e progresso (Idem. movimentos. Assim. defende a idéia de que Caio Prado. de seu modo particular de pesquisar. demonstrar que estes impasses estruturais viriam a causar outros impasses como o do processo de industrialização do país no século atual e que este. Caio Prado Júnior teria demonstrado que a formação do inorgânico conduziria a uma série de impasses estruturais visando. sob alguns aspectos. Em seu artigo “A força do concreto”. de suas preferências como pesquisador. 1989: 365). por exemplo. 1989: 385). tensões (Idem. serviria como amostra de que certas estruturas próprias do sistema colonial teriam continuidade. Por isso. de seu gosto pela viagem como meio de conhecimento. a seu ver. segundo Maria Odila da Silva Dias. idealistas. o que depois viria a constituir e formar originalmente as classes trabalhadoras e os fatores de futura nacionalidade (Idem. profundo pesquisador dos impasses estruturais da sociedade brasileira.

a partir de suas especificidades segundo sua distribuição no espaço. 1989: 24). os costumes. O que lhe interessa são a vida diária. e coisas assim” (Ibidem). se embrulhar nas dinastias. a história. tomando este objeto a partir de uma compreensão não limitada. a produção. a natureza mercantil da empresa agrícola. suas realidades e por conseguinte suas formas de produção (Idem. adverte Antonio Candido. Faz questão.Brasil se confunde na sua personalidade intelectual ao insaciável viajante e observador. o movimento dos negócios. situando a família das classes dirigentes na devida escala e quebrando o perfil aristocrático traçado por uma ilusão complacente” (Ibidem). Para Antonio Candido. de registrar. derivando seu conhecimento do meio físico. 1989: 25). como lembrança da figura de Caio Prado Júnior. nesse sentido. contudo. esquecer datas e dar pouca importância a batalhas e detalhes. Caio Prado Júnior teria se formado como um estudioso ligado estritamente ao “concreto”. grande historiador que retificou as perspectivas sobre a nossa formação e mostrou uma série de aspectos esquecidos ou ignorados – como a qualidade real da população da Colônia. sem esquemas nem a . as técnicas de plantio. do estudo das populações. pois que “mais de uma vez ele me disse alegremente não saber história. o mecanismo de transmissão da propriedade. a presença do marginalizado. no sentido de ignorar uma quantidade de datas. ao leitor sistemático e microscópico dos jornais” (Candido. “é fácil inferir o tipo de historiador que é. Dessas “duas dimensões de gostos”. ao espírito sempre aberto para o fato do dia. “atenta ao real. sua irreverência frente à disciplina que o consagrou. Sob estes suportes teria fundado uma historiografia marxista voltada para a análise de instituições diversas.

Antonio Candido afirma ainda que Caio Prado Júnior. O conhecedor de história e de economia do Brasil se confunde na sua personalidade intelectual ao insaciável viajante e observador. Caio Prado Júnior esteve sempre “interessado em pesquisar os aspectos fundamentais da sociedade. Da forma de desenvolvimento de suas características como historiador Antonio Candido indica que Caio Prado deu prioridade a via de conhecimento direta. Ele já está previamente embebido por estas e efetua de maneira produtiva a abstração como fruto maduro. deixando de lado uma tradição do pensamento social brasileiro que.imposição de prejulgamentos”. analisa uma estatística de produção ou estuda o povoamento. ao espírito sempre aberto para o fato do dia. Assim. a natureza mercantil da empresa agrícola. Caio Prado quando compulsa um documento. Assim Candido define o historiador paulista. sempre se posicionou de maneira pouco ortodoxa tendo tido a felicidade de poder experimentar e desenvolver em sua ação uma apreensão bastante sofisticada e pessoal das especificidades da realidade brasileira. ao contato primário como meio de conhecimento. nas palavras de Antonio Candido. ao leitor sistemático e microscópico dos jornais (Ibidem). também seu amigo pessoal: grande historiador que retificou as perspectivas sobre a nossa formação e mostrou uma série de aspectos esquecidos ou ignorados – como a qualidade real da população da Colônia. ligada em muitos sentidos. a presença do marginalizado. nas palavras de Antonio Candido era ainda muito “idealista” (Idem. Ressalta que neste esforço voltado para a “realidade concreta”. diga-se de passagem. dentro do cenário acadêmico de seu tempo. situando a . que foi. 1989: 26). não procede como o estudioso que parte da abstração para em seguida procurar comprovantes. afastando os aspectos que afloram para ir até as forças que regem de fato” (Ibidem). ou seja.

1989: 26). no Brasil. 1989: 24). 48). que estudou com . Afirma também que em relação a interpretações anteriores.. aberta. Antonio Candido considera que as qualidades esboçadas no livro de 1933 seriam amadurecidas em 1942 em Formação do Brasil Contemporâneo (Idem. em suma.. 1989. Maria Cecília Naclério Homem afirma que a originalidade de Caio Prado Júnior não pode ser entendida sem levarmos em conta que: “sua dimensão de história será muito mais ampla porque pretende transformá-la tanto pela produção escrita quanto pela sua própria participação nos acontecimentos políticos e culturais” (Homem.”. Destaca para este entendimento de Caio Prado Júnior também a descoberta efetuada pelo autor de elementos da Geografia. Afirmando que sua geração sofreu já com Evolução Política do Brasil influências fundamentais de Caio Prado Júnior. Caio Prado “deixa longe a tradição ainda meio idealizadora que preponderava em sua época” e “funda solidamente uma história marxista. 1989: 47). livro que “abriu a fase dos estudos marxistas na visão panorâmica do país”.. Silvio Romero. Em seu artigo “Do palacete à enxada”. Alberto Torres e Oliveira Vianna . no Brasil. Caio Prado estava ciente de que inaugurava uma nova dimensão da história. p. sem esquemas nem a imposição de prejulgamentos” (Idem. o que demonstra suas próprias palavras: “No Brasil. 1989: 25). Maria Cecília afirma que o historiador paulista tinha por opinião que. Para Candido. atenta ao real.família das classes dirigentes na devida escala e quebrando o perfil aristocrático traçado por uma ilusão complacente” (Candido.. não chegaram a nada . em termos de produção historiográfica “estava tudo por fazer” (Idem.

na mesma direção de Antonio Candido. que teriam permitido ao historiador paulista atingir seu objetivo de “levantar o sistema de vida e as condições de sobrevivência de cada lugar” (Ibidem). levantando os problemas in loco” (Idem. na recém-inaugurada Faculdade de Filosofia. 1989: 87). argumenta. ensina ele. Observa ainda. Discutindo o papel de Caio Prado para a “compreensão da montagem do sistema colonial feito pelos portugueses no Brasil”. Em seu artigo “O sentido do colonialismo” Maximiliano Martin Vicente chama a atenção para o fato de que Caio Prado Júnior foi em seu tempo um escritor de fecunda originalidade assumindo “uma posição de vanguarda”. “que é preciso fechar os livros e partir para o reconhecimento da realidade. Ainda nesse sentido. o que em “em muitas ocasiões lhe trouxe problemas” (Vicente. geógrafo francês. métodos que defendeu outrora com as seguintes palavras: “chega uma hora”. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. para Maria Cecília N. Foram esses métodos. Homem. que Caio Prado privilegiou o estudo de campo e a observação direta. um lugar de destaque: “a geografia tornou-se seu instrumento de trabalho para o conhecimento do país e para a elaboração da própria História” (Ibidem). argumenta Vicente: . Assim entre os elementos que teriam possibilitado sua ruptura com a historiografia tradicional ocupa a Geografia. a autora assinala que as viagens de Caio Prado pelo Brasil e seu entendimento da contribuição da fotografia como instrumento de trabalho de grande importância para a análise historiográfica foram fatores que o permitiram romper com a historiografia puramente institucional da tradição estabelecida. 1989: 49).Pierre Deffontaines.

. que “ao retomar a visão colonial na obra de Caio Prado Júnior. Adverte. as colocações de autores de ampla difusão. anteriores e mesmo posteriores a 30. no quadro da historiografia de sua época. nota-se que. ou procuravam interpretá-la de acordo com sua conveniência em função de alguma idéia preestabelecida (Idem. Já John M. e Formação. 1989: 89). Monteiro em artigo intitulado “A dimensão histórica do latifúndio” afirma que um dos fatores de inovação da teoria de Caio Prado Júnior é a descoberta de que “as estruturas agrárias brasileiras são produtos da lógica da expansão comercial européia. pareciam não entender bem a questão. a volta ao passado (colônia) tem características diferentes” (Ibidem). Esta diferença estaria no fato de que “ao procurar descobrir a persistência dos componentes coloniais na vida brasileira (diga-se de passagem. em seus escritos. 1989: 90).se no momento atual. Maximiliano Vicente mostra que na raiz das divergências que Caio Prado Júnior encarou em sua época está claramente a idéia de que a colônia teria sentido por ela mesma e assim poderia ser analisada (Idem. é um dos melhores historiadores de que dispomos. dentro da qual ele busca um ‘sentido’ para a . ou seja. contudo. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777/1808). principalmente em dois de seus livros. deve-se notar a importância central de uma especifica concepção de colônia. destaca o sentido da colonização e os principais componentes do sistema colonial” (Ibidem). Evolução. o autor vê a colônia em perspectiva econômica. Daí sugerir que para a compreensão do historiador paulista e de sua inversão metodológica. o mesmo que pretendiam Fernando de Azevedo e Oliveira Vianna). principalmente depois do detalhado e completo estudo realizado na década de 70 por Fernando Novais. parece óbvia a afirmação segundo a qual pode-se dizer que Caio Prado Jr.

Discursos que mais legitimavam do que explicavam o tipo de exploração existente no meio social brasileiro. 1989: 167). em cuja constituição jogou papel fundamental a importação de relações sociais de produção já desenvolvidas e acabadas nas sociedades clássicas do . Nesse sentido. Justamente sua “ênfase na estrutura” teria sido o fator que possibilitou a Caio Prado Júnior manter-se afastado das interpretações “naturalistas” que produziram discursos as vezes “racistas” e “exageradamente deterministas” pautados na crença da existência de uma “massa popular que vegeta. para John Monteiro “percorre como espinha dorsal todas as suas análises concretas” (Ibidem). graças a ênfase que dedicou ao estudo das estruturas e processos – o que o diferenciou ainda no meio da militância política” (Idem. também quanto à industrialização. Nesse sentido. no nível da simples subsistências física e do mínimo de desenvolvimento espiritual” e se encontraria relegada a um dos lados do abismo (Idem. material e culturalmente. para a historia” (Ibidem). segundo Monteiro: nesta formação social periférica subordinada.marcha da história nacional” (Monteiro. necessário. Caio Prado pôde esmiuçar “as especificidades de um processo de industrialização sui generis na história do industrialismo capitalista ocidental”. Caio Prado pôde se separar da tradição determinista que tinha em seus princípios a “falsa noção de que a desigualdade social no Brasil se devia fundamental e primordialmente a um ‘desvio perversionista. mero resultado de pactos de elites conservadoras’. 1989: 168). entre outros aspectos. Assim. 1989: 154). em sua “ênfase na estrutura” o que. a originalidade de Caio Prado Júnior em relação à historiografia anterior a ele estaria. o qual apontava para uma “inevitabilidade da desgraça que previa um movimento quase trágico.

revela-se como universal” (Ricupero. Portanto. e a nacionalização do marxismo no Brasil. 2000: 31). é necessário que produção-distribuição-consumo se “enraízem” em formas naturais limitadas. possamos tirar de seus meandros “sua face heurística”. Para o autor a “nacionalização” do marxismo operada por Caio Prado não foi uma tentativa inusitada ou isolada. como “uma resposta positiva para o dilema proposto por Gramsci sobre a “tradutibilidade” das linguagens científicas” (Idem. ao conseguir isso. não se põe nela o ciclo do capital industrial (o movimento geral do capital) com a inteireza dos seus departamentos e de sua realização. de se estudar Caio Prado Júnior – que percebeu ser . de uma orientação teórica e metodológica que prova sua fecundidade heurística dando conta de situação distinta da qual nasceu para dar expressão e. ou estranheza. 2. Sobre alguns trabalhos monográficos recentes Em Caio Prado Jr. Ricupero destaca que grande parte da recusa. Não se põe nela um ciclo do capital conforme o conceito que lhe é próprio. mas sim uma operação articulada. E intra muros para que se dêem as condições necessárias deste modo de realização. A mais-valia desta economia periférica e subordinada realiza-se no e pelo mercado mundial. 2000: 17). Bernardo Ricupero trabalha com a hipótese básica de que Formação do Brasil Contemporâneo representa um “caso bem sucedido de assimilação e recriação de um conjunto de idéias. estudiosos de hoje. o autor defende que em Formação do Brasil Contemporâneo o que pode parecer uma obviedade ou um doutrinarismo – ainda mais para uma análise que não leve em conta o momento histórico de sua produção – deve ser precisamente desnaturalizado para que nós.capitalismo. modalidades determinadas unilateralmente (Ibidem).

Ricupero desenvolve em seu trabalho uma análise do que denomina de “razões internas” da escrita do autor que justificam um estudo . ou melhor.constante por parte de nossa academia – advém de críticas. ou seja. A isto. deve ser transformada. 2000: 26). sem compreender que o Caio Prado como historiador é incompreensível sem levarmos em conta o Caio Prado militante político (Idem. Além de razões práticas para operar a desnaturalização do pensamento de Caio Prado Júnior. Portanto argumenta que pretende privilegiar em Caio Prado a parte que ficou. para o autor. Assim. o historiador paulista é particularmente contundente em insistir que ela deve ser orientada por uma teoria adequada” (Ibidem). ou seja. em todos os sentidos. Ricupero rebate que boa parte do seu próprio interesse em Caio Prado viria justamente de sua associação com o marxismo. um defensor da unidade de teoria e prática. e que uma vez que se trata de um autor revolucionário. Afirma que não podemos ler Caio Prado. Caio Prado entende que a elaboração teórica tem por objetivo a política. Para Ricupero os livros de Caio Prado manifestam a convicção intelectual de que “o estudo teórico deve ser orientado para a compreensão do presente” (Ibidem). que apesar de toda crítica corresponde a um clássico de nossa literatura. e de um certo senso comum – que o acusa de uma associação ao marxismo. de sua indissociabilidade: naquilo que se refere à ação política. deve servir fundamentalmente para que se possa intervir na realidade do momento histórico que se vive – realidade esta que tem por princípio ser imperfeita. as implicações políticas de suas análises. em sua palavras “particularmente subestimado” pelo pensamento social posterior a ele. Assinala que Caio Prado foi.

Acredita que dentre os nossos historiadores. tendo podido ir bastante fundo na investigação dos princípios de nossa formação. Assinala ainda que Caio Prado Júnior acreditaria que. nosso passado é quase indissociável de nosso presente. Caio Prado Júnior foi um dos que mais e melhor investigaram as origens das estruturas e do desenvolvimento do país. aos nossos próprios. sugerindo que somos. 2000: 28). Este sentido é indicado (a despeito de toda provocação e de todo alarde que possa causar) como sendo o de um interesse por um estabelecimento de um “empreendimento comercial voltado para o mercado externo. Para ele. de suas contradições. de um direcionamento causal. reflexão esta que constitui uma “contribuição particularmente importante para a compreensão da nossa realidade” (Idem. que tem por motivo. interesses externos. no Brasil. realizando fecundo mergulho. ou alheios. portanto. Caio Prado realizou uma “reflexão original sobre a história e a sociedade brasileira”. 2000: 27). ainda hoje (e mais ainda em sua época quando a industrialização do país e a estrutura agrária ainda estavam mais ligadas ao . que até hoje seriam de difícil refutação. em sua raiz. Caio Prado Júnior tem grande relevância por ter sido um dos pioneiros. Ainda para Ricupero. trabalhadas pelo braço escravo” (Idem. portanto. baseado na produção de gêneros tropicais em grandes unidades agrícolas. em nossa historiografia. em nosso passado colonial e levantando hipóteses.sistemático de sua obra. a chamar a atenção para a idéia de “sentido da colonização” afirmando que não se pode falar de realidade brasileira sem levar em conta que temos em nossa constituição territorial a característica de sermos em nossa origem dotados de um “sentido”.

começa a se formar. e como notou Gildo Marçal Brandão no prefácio de Caio Prado Jr. apreender a “totalidade” da unidade social brasileira. da elaboração deste sentido como essência da experiência colonial brasileira. Assim elegendo como fato principal de nossa história o “sentido da colonização” Caio Prado pôde. há um certo ‘sentido’ que lhes confere inteligibilidade. mas como o de “uma certa sociedade que. p. e a nacionalização do marxismo no Brasil. que podem até mesmo nos confundir.passado colonial). Caio Prado pôde fornecer um retrato da Colônia “não como um mero amontoado de eventos e características combinados aleatoriamente”. por si só incompletas. “já que ainda não o superamos de todo” (Ibidem). 2000: 157). mesmo problematicamente. pensando esta sociedade em bloco e não a partir de acontecimentos isolados” (Idem. segundo Ricupero. o que reflete o fato de que ‘todos os momentos e aspectos não são senão partes. político e . A habilidade do historiador paulista em observar a realidade adviria precisamente da consciência de que “apesar de a história ser feita de um ‘cipoal de incidentes secundários’. categoria esta que deve muito a teoria marxista de interpretação da história como movimento materialista dialético.155-156). uma chave analítica para a interpretação da história brasileira e dos desdobramentos posteriores que esta teve. compostos parte pelo passado. 2000. Somente a partir do desenvolvimento desta categoria de análise. de um todo que deve ser sempre o objetivo último do historiador’” (Idem. Portanto para Ricupero. Em suma. Caio Prado foi capaz de compreender o sentido da nossa formação e fez deste sentido. Bernardo Ricupero tem por finalidade central buscar “problematizar o sentido do Caio Prado Jr.

que ao longo de toda sua obra. Para contrastar estas “formulações oficiais do PCB” com as de Caio Prado. 2000: 16). desenvolveu uma teorização que ia “muito além das ‘formulações’ oficiais do PCB” (Ibidem). ao lado da relevância que damos as contribuições deste autor a historiografia brasileira deve-se compreender o autor como um ativista do partido e da causa política (Santos. no entanto. e argumenta que esta “vêm realçar algumas conjecturas que insistem em que. Bernardo Ricupero persegue como objetivo central mostrar como. 2000. a obra de Caio Prado Jr. ou seja. num caminho de duas vias. muito distintas das de sua origem. Assinala. Caio Prado como um autor “comunista brasileiro”.teórico da política” (Brandão.. Caio Prado desenvolve sua visão da política a partir dos desdobramentos práticos do seu trabalho de historiador e que. buscando perseguir incansavelmente “uma problemática básica – as questões da construção nacional e das possibilidades de mudanças inscritas no processo histórico” – uma vez tendo atingido sustentação teórica busca conformar sua crítica (e sua pretensão de desenvolvimento de um projeto político) às determinações de processo histórico concreto (Idem. Ainda segundo Brandão. em Uma ciência política em Caio Prado Jr. faz parte da cultura pecebista”. Já Raimundo Santos. 15). destaca os textos memorialísticos do historiador paulista (como a de seus diários políticos) como peças fundamentais para a compreensão do seu pensamento. além do seu lugar na historiografia. 2001: 129). Santos sugere que a bibliografia estudada pelos integrantes do partido em geral dependia de alterações e adaptações pragmáticas que poderiam ajustar a cartilha desta literatura a conjunturas específicas. exigindo .

particularmente a tese da existência de um feudalismo como modo de produção da colônia que Caio Prado refuta por achá-la absurda e ineficiente para explicar as origens da realidade do latifúndio brasileiro e das desigualdades no campo. Para o entendimento da posição de Caio Prado Júnior nesta polêmica. comunistas e não comunistas. provocando entre seu meio certo mal estar.necessariamente ajustes para a práxis prescindindo. Raimundo Santos destaca ainda um artigo publicado na imprensa comunista da época intitulado “Os fundamentos econômicos da revolução brasileira” no qual Caio Prado trata o tema da origem da economia agrária do seguinte modo: a fazenda brasileira “como sendo estruturada para o sistema de produção de grande empresa mercantil”. Raimundo Santos destaca ainda algumas opiniões de intelectuais sobre Caio Prado Júnior. 2001: 132). como a de Hélio Jaguaribe. ou Jacob Gorender. portanto de uma reelaboração teórica. mais se pareceria com a “fazenda de escravos romana do que com qualquer formação social representativa do feudalismo” (Ibidem) Para situar a discussão. Entre os mais antigos destes autores destaca o próprio Luis Carlos Prestes que em 1954 escreveu uma crítica a Caio Prado para advertir a Revista Brasiliense pelo seu envolvimento naquilo que ele chamava de “nacional reformismo” (Idem. então militante-fundador do Ibesp. que o considerava “o único teórico marxista do Partido Comunista Brasileiro”. Raimundo Santos destaca que mesmo em seu período Caio Prado Júnior era notado com estranheza por outros autores. um dos teóricos com maior . Raimundo Santos destaca ainda que em torno do autor se deu uma demorada polêmica em torno das teses comunistas da origem ou tipo de sociedade que existia durante a colonização no Brasil.

Raimundo Santos levanta a hipótese de que no livro A Evolução Política do Brasil. além do objetivo de romper com a historiografia oficial. justamente para formar da diferença a idéia do “sentido” da “colônia de produção” brasileira (Ibidem). já em 1933. Em outro trabalho. para quem a rebeldia de Caio Prado em relação ao consenso da teoria do partido dever-se-ia a um “problema idealista” da sua formação (Ibidem). 15). Para Caio Prado Júnior a necessidade de sua tarefa consistiria em fazer uma teoria para a conjuntura. Afirma que seguramente “no primeiro volume de Formação do Brasil Contemporâneo o autor já buscava (para definir uma política para o seu partido?) – a especificidade da formação social. segundo ele. Afirma precisamente que as dissertações de Caio Prado Júnior sobre Formação do Brasil . p. somente dela é que “poderíamos avançar numa progressão. com sua análise histórica. Raimundo Santos destaca que Jacob Gorender comentando A revolução Brasileira de Caio Prado ainda em 1989 apontava a filiação ao positivismo lógico como um segundo deslize do historiador paulista. como Marx ao divisar na Europa a rota dos países atrasados. uma teoria (uma ciência) política (Idem. Caio Prado Júnior na Cultura Política Brasileira.trânsito ao interior do PCB em seu tempo. Critica precisamente as idéias de Caio Prado Júnior sobre a desnecessidade de se classificar a revolução que se faria no Brasil. 2001: 133). 2000. Raimundo Santos procura examinar particularmente a tradição intelectual representante da cultura pecebista visando situar Caio Prado dentro da “cultura política do pecebismo contemporâneo” (Idem. Caio Prado Júnior já teria a pretensão de desenvolver. pondo diante do destino brasileiro. que nos levará ao socialismo” (Ibidem). pois. a “colônia de povoamento” americana.

colorindo a obra com problematizações estratégicas no seu pensamento – mercantilismo e miserabilidade. justamente em torno da questão que ele chamava de falta de ‘fundamentos’ da política comunista no Brasil” (Idem. Nesse sentido. campesinismo e generalidade (mercado interno nacional). “não só mostraria como os textos políticos de Caio Prado Júnior não são meros opúsculos para consumo em pequenas querelas ad hoc.Contemporâneo “desde cedo o põem em conflito com o seu partido. no autor sempre pensada a partir da compreensão do conjunto da formação social em sua especificidade” (Idem. Partindo deste ponto levanta sua hipótese. Acredita que é possível que “o movimento de interpelação do pensamento social brasileiro dos últimos tempos. p. de que “a historiografia de Caio Prado Júnior se constrói para balizar a política comunista no Brasil a partir de alguns termos pares que afloram e sempre voltam em seus textos. Caio Prado “sempre está buscando por à mão de seu partido elementos de teoria política para um socialismo definido de acordo com um programa de grandes reestruturações que as dissertações sobre a contemporaneidade brasileira lhe indicavam” (Ibidem). mas como que estariam trazendo teses para a reformulação da própria idéia de política socialista no Brasil. Assim. 292). 2000: 17). Raimundo Santos procura demonstrar que a reconstituição de uma unidade entre a obra básica de Caio Prado Júnior e a publicística do autor. “entre circunstância de pensamento social e condição militante”. vida política (tradicionalmente à base de agitações e estéril) e estruturação partidária” (Idem. ora em pleno . Raimundo Santos considera que apesar de ser impensável fora de seu partido “o historiador vive a história de um intelectual outsider” (Ibidem). que também procura resolver no livro que analisamos anteriormente. 2000: 39). 2001.

ou tipo especifico de “sentimento dos problemas” brasileiros. O autor procura mostrar que existe uma “dupla via em que se desenvolve a análise caiopradiana.curso. Caio Prado Júnior como um autor igualmente portador de aberturas analíticas. como vem acontecendo em relação a Gilberto Freire em algumas dimensões interdisciplinares. segundo ele assume uma perspectiva original. Afirma que “só muito recentemente chegam as primeiras manifestações sobre a atualidade de Caio Prado Jr. a começar pelo tema posto na ordem do dia pelas questões novamente trazidas pelo drama do mundo rural” (Ibidem).. 2000: 16). traga. entre suas surpresas. Bonfim. Rubem Murilo Leão Rego indica como eixo articulador da imagem de Brasil proposta por Caio Prado Júnior a idéia de constante “modernização . É este justamente o tema central de outro trabalho recente dedicado a Caio Prado Júnior: Sentimento do Brasil – Caio Prado Júnior – continuidades e mudanças no desenvolvimento da sociedade brasileira de Rubem Murilo Leão Rego. e ainda nos casos de Furtado. bem como tornando aparente as linhas de força de sua análise. que. Ignácio Rangel e outros” (Idem. De modo diferente a de outros autores. 2001: 293). os quais identifica no tipo de “definição dos sujeitos dos processos sociais” (Ibidem). Leão Rego pretende chegar ao pensamento do historiador buscando a compreensão da lógica interna de suas idéias. de um lado buscando reconstruir o modo de desenvolvimento do capitalismo no país que não se explica dentro dos limites estritos da nação e de outro procurando compreender porque esse processo é excludente e não democrático – essas duas questões definem o caráter da ruptura e o caráter fundador de sua macrointerpretação” (Rego.

embora diferentes intérpretes . de consumo e de trabalho. Assim. seja quanto ao caráter normativo de “transformação social” envolvido na sua obra. ganha sentido sua preocupação sobre em que medida os processos de modernização capitalista das relações sociais e da estrutura produtiva sujeitam. a crítica tem enfatizado a “originalidade” de Caio Prado Júnior seja quanto ao método. tanto no primeiro quanto no segundo grupo de trabalhos destacados. ampliada do antigo sistema colonial. conceito desenvolvido por Lênin e Gramsci. sugere Leão Rego: Entre suas preocupações nucleares está a que procura constatar se as transformações ocorridas na estrutura da produção agropecuária resultaram ou não numa ampla incorporação populacional a uma estrutura de mercado. particularmente mas não exclusivamente em função da introdução do marxismo nas chamadas interpretações do Brasil. eliminam ou coexistem com os tradicionais traços arcaicos geradores da nossa miséria. suas reflexões têm a força da denúncia dos efeitos perversos do processo de transformação-persistência da grande propriedade funidária (Idem. Ou mesmo se esse mesmo processo de modernização não tem sido também um importante fator de expansão da miséria e da pobreza da população por ele excluída. especialmente no mundo agrário. consolidou e até expandiu os processos de exclusão e de marginalização social que caracterizam toda a nossa história. *** Como se pode depreender da exposição realizada. já que nela a permanência do latifúndio está na gênese do fato de que o Brasil moderno reproduziu. de molde a produzir efeitos positivos sobre a melhoria de suas condições de vida. mostrando como as inovações as quais está exposta a estrutura brasileira se combina com a conservação e a reprodução. Como visto também. Sugerindo a atualidade de Caio Prado. em sua opinião.conservadora”. 2000: 27). Por isso. Para o autor a questão agrária ocupa lugar central na imagem caiopradiana do Brasil.

apresentação dos traços fundamentais da trajetória intelectual e política do autor. apresentamos brevemente as linhas fundamentais do contexto intelectual. cuja história confunde-se com a do baronato cafeicultor paulista e do próprio estado de São Paulo (Levi. Aspectos de uma trajetória Caio Prado Júnior nasceu na cidade de São Paulo em 11 de fevereiro de 1907. CAPÍTULO 2 CAIO PRADO JÚNIOR E FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO Recuperamos neste capítulo aspectos centrais da trajetória de Caio Prado Júnior sugerindo como nela as dimensões intelectual e política estão profundamente articuladas conferindo-lhe sentido próprio. 2004). Pertencia a uma das famílias mais abastadas e influentes do Brasil. ela não têm se constituído exatamente em objeto específico das análises recentes. da concepção historiográfica e do plano narrativo de Formação do Brasil contemporâneo. 2000: 19-21. faço. mas necessária. Antes de apresentar e discutir a idéia de formação em Formação do Brasil contemporâneo de Caio Prado Júnior. Dentre .se refiram e/ou destaquem em medidas diferentes a importância da idéia de formação na obra do historiador paulista. aos 83 anos. Berriel. 2003. 1977. Na segunda parte do capítulo. objeto central do trabalho. como estamos nos propondo a fazer. bem como da estrutura narrativa da obra selecionada para análise. uma rápida. Karepovs. no próximo capítulo. Faleceu na mesma cidade em 23 de novembro de 1990. D’Avila. 1.

Esse. herda. empresários e políticos. casado com Ana Vicência Rodrigues de Almeida. Martinho Prado (1722-1770). foi um dos membros que mais se destacou na primeira geração. Antônio da Silva Prado articula desde cedo uma rede de influência importante. que na incipiente cidade de São Paulo. Antônio elege-se para a Câmara Municipal de São Paulo. no entanto. ruas São Bento e do Carmo. um de seus filhos. Sabe-se. Os resultados desta empreitada não são conhecidos.seus ancestrais. terrenos e comércio na região central. 2003). que sua origem remonta à nobreza portuguesa do século XIII. mais que fortuna. fazendeiros. Suas atividades nos ramos do empréstimo e do comércio lhe . Seu sucessor Antônio Prado. Casa-se com Filippa do Prado. sua cidade natal. em cuja família encontravam-se notórios bandeirantes. destacam-se não apenas comerciantes. Remonta já desta época a participação política da família. Com a morte de sua primeira esposa casa-se com Francisca de Siqueira Moraes e se coloca como membro da elite paulistana sendo inclusive um financiador de uma expedição de ouro em Goiás em 1730. chega em São Paulo no decorrer da primeira década do século XVIII. sabe-se que sua fortuna quando a época de seu falecimento foi modesta contando entre os bens mais valiosos deixados por ele uma rede de amigos e associados sem a qual certamente seria difícil o sucesso de seus herdeiros (Karepovs. temos que recuar aos idos da colônia. como ainda dois importantes historiadores: Eduardo Prado e Paulo Prado. vindo de Prado. Ilustrando o quadro do aparecimento da família Silva Prado. Ao chegar ao Brasil. Seu primeiro membro a viver no Brasil foi Antônio da Silva Prado. um patrimônio respeitável. por meio da esposa. correspondia a casas.

Ao morrer sua esposa casa-se com seu irmão.rendem fortuna. Compra em 1878 um terreno na então Rua Santa Cecília (hoje rua Dona Veridiana) e constrói um palacete onde mantém o salão literário mais importante da cidade de São Paulo. Filho de Veridiana Prado. . segundo filho de Veridiana. recebendo personalidades. promovendo encontros e debates entre as mais diversas tendências e credos políticos (Karepovs. 2004). cargo que ocupou até 1910. O terceiro Antonio Prado (1788-1875) recebe através de D. Martinico da Silva Prado Junior (1843-1906). 2003: 8). foi o primeiro deputado republicano à Assembléia Constituinte de São Paulo e um dos abolicionistas e promotores da imigração européia subvencionada mais destacados. é escolhido prefeito da cidade em 1899. Pedro II o título de Barão de Iguape em 1848. provavelmente com fins pragmáticos de manter a fortuna em família (Ibidem). (Karepovs. Veridiana da Silva Prado (1826-1910). Sua filha D. inaugura. Seu currículo ilustra seu empenho em reformar os convencionalismos e os padrões tradicionais da política do Império. Destacaram-se entre suas atividades o comércio de açúcar e ainda seus serviços prestados à Coroa como coletor de impostos. provavelmente. Antônio Prado (tio-avô de Caio Prado Junior). Mulher emancipada separa-se do marido Martinho Prado e exerce grande influência tanto na família quanto na sociedade paulista do final do século XIX. avô de Caio Prado Junior. bisavó de Caio Prado Júnior. na família a verve “revolucionária” (D’Avila. Obteve sucesso na administração da cidade sendo seu trabalho marcado pelo embelezamento da cidade bem como de obras de elevada importância cultural como é o caso do Teatro Municipal de São Paulo e da Praça da República. 2003: 9).

teria manifestado certa raiva (Karepovs. levando às últimas conseqüências a vida segundo ideais revolucionários. neto de Martinico. para salientar a necessidade de reformas políticas no país (Karepovs. atingiu o imperador na face com uma bola de pétalas de rosa. sua família era reconhecida como um clã de rebeldes. D. ele afrontava a elite paulista com pensamentos libertários e democráticos europeus defendendo a aplicabilidade dos mesmos no Brasil. como Martinico Prado. Numerosa. como é o caso de Caio Prado Junior. governanta alemã que cuidou dos seus filhos. países pioneiros na modernização do Estado..Já. sua mãe – Veridiana – promoveu uma recepção para D. 1956). sempre recorria ao exemplo da França e Estados Unidos. o imperador teria dito: “tão pequeno e já com instintos revolucionários como o pai”. sofrendo por isso prisões e censura durante a sua vida. 4 A despeito de sua condição de elite. 2003: 10). de seis anos de idade e filho de Martinico. quando cursava a Faculdade de Direito. 2003: 9). respondeu Veridiana. sim. tendo como membro o pai de Caio Prado Jr. Sabe-se que seu espírito inovador repercutiu fortemente na formação de seus filhos. salientando que os pequenos Prados tinham a fama de crianças mais “mal criadas” de toda São Paulo (von Binzer. cuja educação diferiu em muito da recebida em famílias típicas da elite brasileira. Incentivou a educação não rígida dos filhos como parte de seu republicanismo e de seu repúdio aos costumes não tradicionais. esta história tinha uma diferença. alguns membros da família Silva Prado. 4 Para ilustrar o comportamento dos filhos de Martinico Prado. Na versão de Caio Prado Júnior. D. Em 1887. Durante o encontro. adotando caráter progressista e. Como deputado pelo Partido Republicano em 1878. Pedro parou colocou sua mão sobre a cabeça do menino e perguntou: “este quem é?” “Filho de Martinico”. e. Martinico Prado Neto. e ainda situar sua posição na vida social paulista é curioso conhecer um caso contado em família. Pedro II não teria sorrido ao saber da identidade de seu pequeno agressor. Sorrindo. . tenderam para idéias de cunho liberal. fato que Ina von Binzer. narra em seu livro de memórias Alegrias e tristezas de uma governanta alemã no Brasil. Segundo uma versão da historia.Pedro II.

ao longo da Primeira República. ver Needell. A Faculdade de Direito constituía. na Faculdade de São Paulo” pouco tenha valido a Caio Prado Júnior. quanto parte significativa dos meios materiais de sua divulgação através de revistas e jornais jurídicos e literários” (Botelho. 2001: 118). então. Nele permaneceu até a conclusão de sua formação secundária. De modo que. Inglaterra. ver Nagle. 2002: 57). em Eastbourn.5 Em 1918. seja do governo central” (Miceli. teve formação escolar privilegiada contando. não apenas o reforço institucional da socialização da elite brasileira. no âmbito seja das administrações estaduais. 2003: 11). freqüentou por um ano o colégio Chelmsford Hall. o PD reunia parte da elite paulistana descontente com a hegemonia do Partido Republicano Paulista. estudou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. rico contato com o universo da crítica e do ensaísmo político. como também uma “instância mediadora na importação e difusão da produção intelectual européia no país“. 2000: 200). Para uma visão integrada do tema. Teve. e por não tolerar o Partido Republicano Paulista (PRP). Por esta época. um dos principais sustentáculos do pacto liberal-oligárquico conhecido como “política do café-com- 5 Sobre a formação escolar da elite brasileira do período. uma vez que se indignara com fraude promovida por esse nas eleições municipais daquele ano. Entre 1924 e 1928. influenciado pelo pai. que neste mesmo ano se mudara da cidade de Itu para a Capital. 6 Embora como aponta Francisco Iglésias o “curso de direito. 2003: 10-11). à época. . como observou Sérgio Miceli. como era comum entre as elites da época. “pois não se dedicou à advocacia” (Iglésias. 1977. de professores particulares. Exerceu a advocacia por alguns anos (Karepovs. “os estudantes dos cursos jurídicos tinham não apenas a pretensão mas também a possibilidade objetiva de ingressar nas carreiras ligadas ao trabalho político e intelectual ou. em razão de doença de um de seus irmãos. (Karepovs. em seu início. com a orientação. de ser convocados para os escalões superiores do serviço público. centralizando “tanto a produção intelectual nacional. ingressou no Colégio São Luis. em casa.Caio Prado Junior. 1993. Fundado em 1926. talvez não se devesse minimizar a experiência de sociabilidade intelectual e política da instituição para a compreensão da formação do historiador paulista. tendo esta apenas um ano de interrupção.6 Em 1928 ingressou no Partido Democrático (PD). tornando-se Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais aos 21 anos. instalando-se na Avenida Paulista. dos jesuítas. durante a Faculdade de Direito.

1977. Uma de suas atribuições foi realizar um levantamento sobre os abusos do governo deposto. candidato da Aliança Liberal. em campanha eleitoral. e. logo depois participando de episódios que antecederam a chamada Revolução de 1930 (Ibidem). e em especial. a Aliança Liberal iniciou os preparativos para um golpe de estado que desembocaram no movimento armado de 3 de outubro de 1930. 1975. organizando o Partido Democrático nos bairros e no interior do Estado. Dando-se conta da inutilidade de seus esforços. estando em uma recepção oferecida a Julio prestes por membros da elite paulista. Tendo sido derrotada nas urnas. Júlio Prestes. Durante a campanha para as eleições presidenciais de 1930 o Partido Democrático apoiou Getúlio Vargas. em 31 de dezembro de 1929. Caio Prado Júnior foi designado para a Delegacia Revolucionária de Ribeirão Preto. apurar casos de corrupção. . contra o candidato oficial do regime representante do PRP. Caio Prado Júnior participava intensamente como militante. 7 Sobre o Partido Democrático ver Carone. Embora não ocupasse posição de destaque.7 É interessante notar ainda que seu tio-avô. e ainda prestando serviços de rotina como a organização de comícios. Caio Prado Junior participa neste momento de operações de sabotagem nas instalações de comunicações da estrada para o Rio de Janeiro (Ibidem). deu um viva à Getúlio Vargas (Ibidem). Love. Por esta ocasião teve sua primeira prisão quando.leite” que predominou no Brasil nas primeiras décadas do século XX. destacara-se entre os fundadores desse novo partido. Após a vitória das forças aliancistas. Antônio Prado. 1975 e Schwartzman. pois seus inquéritos eram imediatamente arquivados. onde trabalhou cerca de três meses.

2000. 8 Neste momento. avaliada como “pequeno-burguesa” (Karepovs. . com o PCB. então. nem sempre pacífica. de autoria de Nicolai Bukharin. ver Brandão. Aproxima-se. foram destituídos ou afastados da direção partidária ou convidados a realizar “autocríticas” quanto a sua militância política. seguindo esta mesma orientação chamada “obreirista”. 2003: 12). Ao entrar no PCB. No caso de Caio Prado Júnior sua condição de intelectual. ou ainda origem social. 1997 e Ricupero. encontra um momento particularmente difícil para os intelectuais. Ainda. sua origem social e ainda sua conhecida independência frente aos cânones ideológicos.logo se afastou do cargo e decepcionado com a inconsistência política e ideológica da chamada “República Nova”. como ele mesmo assinalou anos mais 8 Sobre Caio Prado Júnior e o PCB. editado em quatro volumes pelas Edições Caramuru em 1933 e 1934 (Ibidem). No período. em virtude de suas atividades profissionais. vários intelectuais. diversos cargos da direção do partido foram ocupados por operários e militantes que pareciam se identificar com a nova orientação (Idem. do marxismo. já que para se adequar às novas orientações políticas preconizadas no VI Congresso da Internacional Comunista. o partido acusava a social-democracia como tributária do fascismo. perseguindo em suas “fileiras” os que se identificavam com a linha política anterior. como é o caso de Astrojildo Pereira e Otavio Brandão. marcaram quase que de modo permanente sua longa relação. dedica-se entre outras atividades à tradução do Tratado de Materialismo Histórico. 2003: 12). filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1931.

em meio às atividades políticas que Caio Prado inicia sua atividade propriamente intelectual. mas por causa da minha maneira de interpretar o Brasil. abandona este subtítulo e o publica. 2003: 12). Em Evolução Política do Brasil já antecipa uma de suas teses fundamentais daquilo que viria a ser tanto a sua obra como todo quanto seu debate junto ao . como Evolução Política do Brasil e outros estudos. em cujo benefício se faz a história oficial” (Apud Karepovs. que eu considerava falhos. Sempre fui muito marginalizado no Partido. Entre seus objetivos. portanto. estava o de “mostrar. Fato relevante é que este livro aparecia com o subtítulo de “Ensaio de interpretação materialista da história brasileira”. que também na nossa história os heróis e os grande feitos não são heróis e grandes senão na medida em que acordam com os interesses das classes dirigentes. em 1946.tarde: “Nunca pertenci à direção do Partido. o que remetia à originalidade de seu pensamento pretendendo diferenciá-lo das interpretações da sociedade brasileira anteriores e mesmo então correntes. Sempre fui um elemento secundário e mal considerado. num livro ao alcance de todo mundo. no país. É. com a publicação. em 1933. procurou traçar a síntese da nossa evolução política. pela oposição a seus esquemas políticos e econômicos. Nessa obra. o uso de nova chave de interpretação da sociedade brasileira: o materialismo dialético. não em termos pessoais. ao lado de outros ensaios anexados. publicada por sua conta. 2003: 8). inaugurando. nem tive nele grande prestigio ou influência. no que diziam respeito ao Brasil” (Apud Karepovs. no entanto. de A evolução política do Brasil. Caio Prado.

como Celso Furtado também se debruçariam sobre o tema a fim de contestar a ocorrência de feudalismo no Brasil. .9 Como sugeriu Francisco Iglésias sobre o livro: percebe-se no autor pleno domínio da trajetória nativa. Há aí achados brilhantes e definitivos. Ainda inovadora é sua detida narrativa sobre as revoltas do período da Regência. primeiro livro apreendido pela polícia republicana em São Paulo (Ibidem. apreende o essencial do processo da Colônia.Partido Comunista Brasileiro: a impossibilidade de entender o período colonial brasileiro como feudal. um dos principais financiadores da Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922 e elemento de coesão intelectual e social do modernismo paulista. sócio fundador da Academia Brasileira de Letras. e posteriores. em visão original. com A Ilusão Americana (1893). Caio Prado Júnior tinha em sua família. Paulo Prado. quando antes quase não eram objeto de atenção” (Idem. a despeito de sua grande diferença e originalidade no campo da história. como Roberto Simonsen (1937). Não se fala em feudalismo. a dos balaios e a agitação praieira têm lúcidas análises. situando-o aos idos da colônia e ao modo de produção próprio da mesma. Esta será uma das idéias básicas. 2000: 22). Para Francisco Iglesias autores anteriores a Caio Prado Júnior não apontavam o interesse que o período dispõe justamente pelos movimentos populares: “a revolta dos cabanos. e seu tio-avô Eduardo Prado. 2000). 9 Outros autores contemporâneos. da transição e do Império. notabilizou-se com Retrato do Brasil de 1928 (Berriel. Sintético. 2000: 202) Outro tema que o acompanha durante sua vida intelectual e política e que analisa já neste seu livro de estréia é o do latifúndio. de modo atenuado e de todo revisto em texto posteriores -. muito repetida em outros escritos e uma das origens de suas discordâncias com os rotulados marxistas locais (Iglésias. 1999). pela aplicação de categorias do mundo europeu. como era comum – fala um pouco. dois historiadores com certo alcance junto à intelectualidade da época. Oliveira. como já se assinalou.

um novo mundo trata tanto dos resultados conquistados da revolução que admirara e observava.R. tanto da China como da União Soviética. um novo mundo. Ao retornar ao Brasil. Caio Prado Júnior realiza uma viagem de estudos à antiga União Soviética a fim de conhecer pessoalmente o que.No mesmo ano de 1933. em 1935. Embora sem . Caio Prado relata sua viagem em concorridas conferências realizadas no Clube de Artistas Modernos em São Paulo (organização que ajudou a fundar. 2003: 12). sendo por ele abertamente defendida (Karepovs.S. 2003: 13) Anos mais tarde retoma aquela temática em outro livro: O mundo do socialismo (1962).R. o considerava ultrapassado (Iglésias. Caio Prado Júnior se matricula na recém-criada Faculdade de Filosofia. segundo Francisco Iglésias. publicado em 1934 e cuja segunda edição. seu interesse pela história viva. O próprio Caio Prado Júnior. já havia estudado por meio de depoimentos de terceiros. 2000) – tendo também o estudo problemas com a censura do Estado Novo (Karepovs.S. Neste desenvolve análise mais detalhada daquela experiência. após seis meses..S. U. Tamanho interesse despertado no público paulista motiva Caio Prado a escrever o seu segundo livro. apenas iniciada até então (Karepovs. 2003: 12). Em 1934. datada do ano seguinte. Teve uma reedição apenas. U. Neste. Caio Prado já desenvolveria uma das chaves que o caracteriza como historiador. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.. acabou sendo apreendida pela polícia.S. de acordo com seu entendimento. assim como da ideologia que a sustentava e ainda o marxismo – ideal que o demoveu por toda vida. nesse caso a experiência do comunismo na União Soviética. participando inclusive da formulação de seus princípios junto com seu irmão pintor Carlos Prado em 1932).

2000). Voltando à cena política. Dentre um amplo campo de interesse no qual Caio Prado Júnior se formou. mantida por esta associação. Caio Prado participa de turmas dos cursos de História e Geografia. que agrupava um variado . Jean Perrin. que segundo a orientação do VII Congresso Internacional Comunista congraçavam todas forcas políticas que se opunham ao fascismo e ao nazismo. O destaque nesta fase quanto às suas leituras científicas é para as revistas que repercutiam questões epistemológicas postas pelas recentes descobertas ocorridas em vários campos das ciências e que. 2003: 13). Paulo Teixeira Iumatti destaca sua experiência a partir do debate com cientistas europeus. em 1935 formaram-se por todo mundo as chamadas “frentes populares”. na época do Front Populaire. que viriam influenciar seus trabalhos posteriores (Karepovs. pois não tinha necessidade do diploma. e ainda sua participação e vivência em um ambiente cultural em que tinha como interlocutores. entre outros.interesse em concluir o curso. Paul Langevin. No Brasil o resultado dessa nova orientação antifascista foi o surgimento da Aliança Nacional Libertadora (ANL). intelectuais como Lucien Febvre. (Iumatti. direta ou indiretamente. das quais Caio Prado era assinante e leitor atento (Ibidem). Marc Bloch. No mesmo ano. especialmente os geógrafos Pierre Moinbeing e Pierre Deffontaines. Caio Prado participa da fundação da Associação dos Geógrafos do Brasil. onde trava estreito contato com os professores da missão francesa que deram início aquela Universidade. no campo de interesse da historiografia destacam-se a REVUE HISTORIQUE e os ANNALES DE HISTOIRE ECONOMIQUE E DE SYNTHÈSE SOCIALE. Henri Berr. tornando-se em seguida um dos principais colaboradores da revista “Geografia”.

marcadamente anticomunista. comícios. Ali. a idéia de uma insurreição armada ganhou corpo e foi levada a cabo em fins de novembro. no Rio Grande do Sul. foi preso em dezembro de 1935. O fracasso do movimento levou a uma imediata repressão política. mas que atingiu uma ampla gama de opositores de Getúlio Vargas. após o desencadeamento da insurreição armada comunista. como militante do Partido Comunista Francês (PCF). viagens. que teve como presidente o ex-comandante da Coluna Prestes. general Miguel Costa. em Natal. palestras. Nessa função. do qual foi um dos diretores (Karepovs.espectro de forças sociais que se opunham ao governo Vargas. e que culminou com a aprovação do Estado de Sítio. organizou diretórios municipais pelo Estado. a ANL foi enquadrada na Lei de Segurança Nacional. Recife e Rio de Janeiro. inclusive o Partido Comunista. Após um breve período de legalidade. (Ibidem). requereu um habeas-corpus que lhe valeu a liberdade. e fechada em junho de 1935. além de redigir artigos publicados. pelo diário paulistano A Platéia. em abril de 1937 acabou denunciado por crime contra a segurança nacional. e trazido a São Paulo. mas com suspensão do estado de sitio em 1937. Nos meses subseqüentes. sucessivamente prorrogado até junho de 1937 (Ibidem). 2003: 13). chamada “Lei Monstro”. Caio Prado Júnior assumiu a vice-presidência regional da ANL em São Paulo. Ficou preso durante dois anos. Caio Prado Júnior foi submetido a uma severa vigilância por parte da policia política paulista e. Em decorrência de suas atividades frente à ANL em São Paulo. Imediatamente saiu do Brasil. indo exilar-se na França. realizou. . sobretudo.

Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. portanto. sua militância políticopartidária foi muito restrita. o que ocorreu após a Segunda Conferência Nacional. David Lerner. representados principalmente por Mário Alves. Diógenes Arruda. Astrojildo Pereira e Mario Schenberg. Victor Konder. Caio Prado retornou ao Brasil em 1939. sediada no Rio de Janeiro e tendo à frente o chamado “grupo baiano”.atuou em tarefas de apoio e solidariedade aos combatentes republicanos na Guerra Civil Espanhola (Ibidem). foi possível ao PCB voltar a se organizar. da União Soviética. graças às relações deste junto ao Eixo durante a Guerra (Karepovs. Estes reunindo-se nos “Comitês de Ação” contrapuseram-se àqueles e inspirados na ANL defenderam abertamente uma luta contra o “fascismo” do Estado Novo . 1997). Maurício Grabois e Pedro Pomar tem como resposta a divergência de outro grupo que em São Paulo e Rio de Janeiro tinha como participantes Caio Prado Júnior. Frente à iminência do desencadeamento da Segunda Guerra Mundial. pois o Partido Comunista Brasileiro fora fortemente abalado pela repressão policia do regime ditatorial varguista (Brandão. Após seu retorno. Zacharias de Sá Carvalho. 2003: 14). Nesse encontro. Este acaba por apoiar Getúlio Vargas. em plena ditadura do Estado Novo. Os passos políticos previstos durante o chamado “Encontro da Mantiqueira”. formou-se a Comissão Nacional de Organização Partidária (CNOP). em agosto de 1943. João Amazonas. realizada na Serra da Mantiqueira. Tito Batini. ao lado dos paises aliados e. na qual Luis Carlos Prestes fora eleito secretário-geral in absentia. Heitor Ferreira Lima. pois também fora absolvido em dezembro de 1938 das acusações que sobre ele pesavam no Tribunal de Segurança Nacional. pois ainda estava preso.

a monocultura e a escravidão tratando também dos aspectos econômicos do Império e da República. Leandro Dupré. prefácios e principalmente publicando Formação do Brasil Contemporâneo. a qual visava colocar e apontar os problemas nacionais e se possível caminhos para solucioná-los. em 1942 – obra que o coloca em posição de destaque junto aos intérpretes do Brasil. dentro de um certo recorte temático. retoma sua produção intelectual em artigos. Martinho Prado Neto. e já nos últimos anos do Estado Novo participa da revista Hoje – O Mundo em Letra e Forma. Hermes Lima. e chega a ser cotado para candidato à presidência da República com o apoio de liberais e comunistas aos quais servia como interlocutor intermediário (Ibidem).(Ibidem). Entre as obras literárias. a editora é responsável pela . consegue a união dentro do PCB em torno da CNOP minimizando os conflitos internos e provocando mais tarde a dissidência de membros dos “Comitês de Ação” que criariam em 1945 o Partido Socialista Brasileiro (Ibidem). Na década de 1940. Ao sair da prisão Luis Carlos Prestes. tendo como linha editorial a ênfase às Ciências Sociais e particularmente estudos e textos voltados à interpretação do Brasil como é o caso da coleção “Problemas Brasileiros”. em 1945. Tem entre seus sócios seu pai. Em 1943 funda a Gráfica Urupês e a Editora Brasiliense. Caio Prado Júnior não segue os dissidentes e permanece no PCB. Arthur Neves. vindo depois a contar com Monteiro Lobato entre outros. Neste momento Caio Prado participa da fundação da União Democrática Nacional (UDN). Em 1945 retoma a análise do período colonial em História Econômica do Brasil dando ênfase à busca do sentido da colonização brasileira em que destaca por base econômica o latifúndio. Dedica-se à atividade editorial.

quando teve seu mandato cassado durante o exercício do governo do presidente Eurico Gaspar Dutra.publicação das obras completas de Lima Barreto. quando mais uma vez o PCB volta a ilegalidade. ainda em 1945. após dezoito anos na ilegalidade. Eleito deputado estadual em 1945. Em 1945. do Partido Comunista Brasileiro. o físico e professor Mario Schenberg. Dedica-se neste momento aos estudos de . o jornalista Aparício Torelli. Documento no qual afirma-se ainda a posição dos escritores frente ao Estado Novo e seu compromisso com a defesa do voto direto. texto que articula os principais pontos tratados no I Congresso Brasileiro de Escritores. o arquiteto Oscar Niemeyer e inclusive Caio Prado Júnior que iria se candidatar por sua legenda nas eleições de 1945 e 1947. Caio Prado participa da redação final de “Declaração de Princípios”. figurando como um elemento articulador dos vários segmentos da esquerda brasileira. Participou ainda da criação do jornal Hoje. o fim da ditadura e o exercício da democracia. Com intensa atividade política. com a volta do estado de direito. Monteiro Lobato e Maria José Dupré. como colaborador e acionista cedendo inclusive uma parte do imóvel aonde se instalava sua editora. Caio Prado Júnior participa no período de ações contrárias ao Estado Novo. (Idem. o Partido Comunista Brasileiro retoma suas atividades de forma aberta e passa a contar com novos colaboradores entre eles escritores como Jorge Amado. Graciliano Ramos e Álvaro Moreira. Volta a ser preso. 2003: 8). após protesto público contra a cassação dos mandatos do PCB e uma vez liberto retoma as atividades junto a editora Brasiliense. Caio Prado foi o líder da bancada do PCB na Assembléia Legislativa de São Paulo até 1947. o pintor Candido Portinari.

Catullo Branco. Otávio Brandão. Michel Lowy. Fernando Henrique Cardoso.filosofia e economia. Reunindo alguns dos seus artigos. Obteve assim o título de livre docente. o que colocava a reforma agrária como principal item . Josué de Castro. Jean Claude Bernadet. mais uma vez. Escreve em 1954 Diretrizes para uma política econômica brasileira concorrendo a Cátedra de Economia Política da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo a despeito de reconhecer sua difícil aprovação devido ao conhecido conservadorismo daquela instituição. resenhas e editoriais publicados na Revista Brasiliense. publicando também artigos na revista Fundamentos – sendo ainda membro da Comissão de Redação da mesma. Caio Prado Júnior publica. uma vez que não havia como sua tese ser reprovada. Gerard Lebrun. Em 1955. Gianfrancesco Guarnieri. Herbert de Souza. Édson Carneiro. Afrânio Coutinho. Neste. em 1979. Pretende ampliar os debates entre os interlocutores interessados em discutir o tema da formação da sociedade e do estado nacional brasileiro através da resolução de suas contradições. entre outros assuntos Caio Prado discute e. se contrapõe à tese defendida pelo PCB sobre os “resíduos feudais” na sociedade brasileira – segundo a qual o principal entrave da economia brasileira era a permanência do latifúndio. Francisco de Assis Barbosa. Entre seus principais colaboradores estavam Manoel Correa de Andrade. Maria Isaura Pereira de Queiroz. coerente com as publicações da editora. Florestan Fernandes. entre outros. dado a qualidade do material apresentado (Idem. 2003: 22). Régis Duprat. Antonio Candido. A questão agrária no Brasil. Edgard Carone. Elias Chaves Neto. Caio Prado Júnior lança a Revista Brasiliense.

ao homem de pensamento que não se encerra em torre de marfim. deste feita pelo DEOPS-SP. mais uma vez. Em 1964 a Revista Brasiliense foi extinta por ordem do regime militar que se instaurara em Abril daquele ano e Caio Prado foi. O discurso que fez ao receber o prêmio Juca Pato (intelectual do ano) pode ilustrar seu ideal para uma prática intelectual: “refiro-me ao intelectual atuante. obra em que analisa as perspectivas econômicas e políticas do período e critica escolhas e erros do PCB. Caio Prado Júnior atribuía ao desconhecimento das reais condições e necessidades do país o fracasso político do PCB em 1964 (Karepovs. 2003: 24). E sim aquele que procura colocar o seu pensamento a serviço da coletividade em que vive e da qual efetivamente participa” (Apud Karepovs. 2003: 23). Por esta época o historiador paulista reafirma sua condição de intelectual cujo pensamento estava articulado à prática política. Para Caio Prado que defendia a tese da inexistência de um feudalismo no Brasil. Por isso criticava os que entendiam ser a reforma agrária o ponto chave para o desenvolvimento do socialismo mesmo porque já havia apontado a natureza capitalista da agricultura brasileira. prisões e submetido a depoimentos. Segundo ele o partido ao pensar e propor caminhos para a sociedade brasileira se apropriava de “modelos estranhos e inaplicáveis” à realidade brasileira. o país deveria ser pensado como economia integrada no sistema mundial do capitalismo. Publica em 1966 A revolução brasileira. detido. . Durante todo este período a Editora Brasiliense e sua livraria estiveram sob o controle sistemático da censura tendo Caio Prado sofrido apreensões. e daí contempla sobranceiro o mundo.de resolução dos problemas nacionais.

Durante este período se dedica à revisão e debate de idéias em voga entre a intelectualidade da época e que julgava mal pensadas. 2. O que é liberdade? (1980). Em tese escrita e intitulada Historia e Desenvolvimento criticava a política econômica em curso na época que se mostrava equivocada por se basear em modelos criados para casos onde o capitalismo já havia amadurecido (Ibidem). Concorre. Dialética do Conhecimento (1952). quanto número de volumes previstos no . Consta que o autor pretendia dar continuidade ao trabalho noutros volumes que seguiriam ao publicado em 1942 dedicado à colônia. no entanto. Formação do Brasil Contemporâneo e as questões do seu tempo Caio Prado Júnior escreve Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia interessado em dar conta do que chama de “sentido da formação” da realidade do Brasil até o presente em que vivia. à livre-docência em História com fins de ocupar a cadeira de Sérgio Buarque de Holanda. Escreveu além das obras já citadas.Em decreto de 1969 foi “aposentado” de sua condição de livre-docente na Faculdade de Direito da USP. Deste esforço publica O estruturalismo de Levi-Strauss e O marxismo de Louis Althusser. É prejudicado pelo AI-5 e impedido de atingir seu objetivo. Esboço dos fundamentos da teoria econômica (1957). Notas introdutórias à lógica dialética (1959). instigado por amigos e inclusive pelo próprio Sérgio Buarque. Não há consenso. Foi indiciado e condenado a quatro anos de prisão ficando preso até 1971 na Casa de Detenção Tiradentes sendo depois transferido para o Quartel de Quintaúna. O que é filosofia? (1981) e A cidade de São Paulo (1983).

Sabemos. percorre todo o trajeto antes imaginado para Formação do Brasil Contemporâneo de 1942. atêm-se em História Econômica do Brasil na análise das conjunturas e processos econômicos. segundo Francisco Iglesias. quando. Quanto ao horizonte ou contexto intelectual de Formação do Brasil Contemporâneo. 1982: 12). Carlos Nelson Coutinho (1989: 115) e José Roberto do Amaral Lapa (1999: 261) falam em mais 3 volumes que chegariam a contemporaneidade. tendo o livro obtido vários anexos posteriores. animada pelas discussões contemporâneas ao centenário da Independência. já perceptível na década de 1920. no entanto que Caio Prado Júnior. com os trabalhos. particularmente Populações Meridionais do Brasil (1920).projeto original que. Já Francisco Iglésias (2000: 203). de 1945. devemos situar este trabalho dentro do quadro de uma renovação intelectual. partira para outros campos do saber como o da filosofia e que em História Econômica do Brasil. momento em que “o país crescera em população e vê o despertar de uma consciência crítica mais profunda e menos episódica” (Iglésias. de Oliveira Vianna. e tampouco foi apontado pelos intérpretes anteriores. Os motivos pelos quais desistiu de continuar sua empresa não nos é conhecido. “se dá uma tentativa de redescoberta do Brasil”. fala em apenas mais dois volumes. pelo movimento modernista. e Retrato do Brasil (1928) de Paulo Prado. por exemplo. de fato. entre outros fatores. pela repercussão da revolução russa no Brasil. não chegou a se efetivar. se enquadra em . Embora retomando parte deste e seguindo sua análise até 1976. Tal renovação. deixando de lado a análise dos aspectos sociais e políticos que distinguem Formação do Brasil Contemporâneo. tendo uma extensa produção intelectual.

à intensa agitação social. este “publicado quando estávamos na escola superior” (Candido. sugere o autor: . Discutindo o “significado” de Raízes do Brasil (1936) em prefácio ao livro de Sérgio Buarque de Holanda. dava o primeiro grande exemplo de interpretação do passado em função das realidades básicas de produção. Na mesma direção de Antonio Candido.discussões acerca do desejo de busca de uma identidade nacional que integrasse todo o território e que colocasse o país no curso da modernidade. de um lado. Casa-grande & Senzala de Gilberto Freyre e Formação do Brasil Contemporâneo. política e cultural da década de 1930 e se inspira nesta com o intuito de prover de teoria um determinado apetite político e intelectual característico de seu tempo. da distribuição e do consumo (Idem. Formação do Brasil Contemporâneo surgiu nove anos depois do primeiro. Observa Candido que estes livros procuravam exprimir “a mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e análise sociais que eclodiu depois da Revolução de 1930 e não foi. 1995: 11). Sobre Caio Prado Júnior e Formação do Brasil Contemporâneo neste contexto sugere Antonio Candido: Diferente dos anteriores [ refere-se a Casa-grande & Senzala e Raízes do Brasil]. Trazendo para a linha de frente os informantes coloniais de mentalidade econômica mais sólida e prática. também Octavio Ianni entende que com Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior respondia. Antonio Candido sugere que a sua própria geração aprendeu “a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos de passado e em função de três livros”: o próprio Raízes do Brasil. Nele se manifestava um autor que não disfarçava o labor da composição nem se preocupava com a beleza ou expressividade do estilo. Nesse sentido. em pleno Estado Novo repressivo e renovador. apesar de tudo. seis anos depois do segundo. abafado pelo Estado Novo” (Ibidem). 1995: 9).

63). suscitaram outras e novas idéias. pouco se refere no livro (Idem. formular e aprimorar uma nova interpretação dos contornos e movimentos mais característicos da formação social brasileira” (Ibidem). Euclides da Cunha. De outro lado. Gilberto Amado. Roberto Simonsen. p. antes e depois do lançamento desse seu livro em 1942 [Formação do Brasil contemporâneo]. Oliveira Viana. Martins de Almeida. controvérsias e interpretações contemporâneas e anteriores” não desprezando o desafio de “equacionar. aos quais. original e influente. de que em alguns casos diverge quando não altera algumas de suas teses. Pandiá Calógeras. Azevedo Amaral. à exceção de Casa-grande & Senzala (1933) de Gilberto Freyre. Manoel Bonfim. Gilberto Freyre. a de Caio Prado Jr. Já José Roberto do Amaral Lapa observa que. Nesse sentido sugere o autor: diante das interpretações de Oliveira Lima. movimentos sociais. repensa o presente e abre perspectivas sobre tendências futuras (Ibidem). pois redescobre o passado. As agitações e as crises provocavam todos. sugere Octavio Ianni. propostas e interpretações (Idem. Caio Prado mostra-se conhecedor de “estudos. Afonso Arinos de Mello Franco. 1999: 261). contudo. De todo modo. e mais abertamente a partir dos anos 30. José Maria Belo. desafiavam grupos e classes. Vicente Licínio Cardoso. quanto à “produção acadêmica que lhe foi contemporânea. Jackson de Figueiredo. A agitação social. juntamente com os impasses e as crises da economia. .pode-se dizer que há uma contemporaneidade entre a interpretação desenvolvida por Caio Prado e as controvérsias e os dilemas com os quais a sociedade brasileira passou a defrontar-se desde décadas anteriores. política e cultural. Sérgio Buarque de Holanda e outros. partidos políticos e intelectuais. como observa Ianni. pode ser tomada como uma interpretação diferente. 1989. ignorou-os solenemente” (Lapa. Caio Prado Júnior dialogava com vários autores contemporâneos e anteriores a ele. 1989: 64).

Dentre as fontes mais freqüentemente mobilizadas em Formação do Brasil Contemporâneo destacam-se a literatura de cronistas e tratadistas que escreveram sobre a colônia.Para José Roberto do Amaral Lapa. Amaral Lapa sugere que. Voyagens pitoresques. do príncipe Maximillien de Wied-Neuwied. segundo o autor. Sobre a literatura de viajantes. von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius entre numerosos outros relatos. Voyage dans les provinces de St Paul e Sainte Catherine e Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Gerais de Auguste Saint Hilaire. ainda que Caio Prado Júnior fosse “mais freqüentador de bibliotecas do que de arquivos” (Idem. 1817. A utilização de tais fontes explica-se. que percorreram caminhos semelhantes. B. e Viagem pelo Brasil de J. vale destacar Voyage au Brésil dans les annés 1815. bem como os relatos de viajantes. feitas por diferentes autores com resultados menos expressivos” (Ibidem). 1999: 260). estudos de itinerários e notícias descritivas em geral. Brésil de Henri Koster. scientifiques et historiques en Amérique. A. já que no período colonial havia apenas . Caio Prado Júnior “revelou auto-suficiência. S. não concedendo sequer uma citação dessa produção. ao não incorporar a “literatura científica sobre os temas de que trata”. 1816. par S. registros informativos com dados demográficos. “faz uma leitura atenta e inteligente. Já quanto às fontes primárias. Francisco et dans la province de goyaz. pela inexistência de coleta sistemática de dados. cartas descritivas da costa brasileira. ignorando-a simplesmente” (Ibidem). na medida em que o livro foi sendo reeditado. memórias e corografia histórica. Maximillien. Voyage aux sources du Rio de S. com critério e segurança capazes de superar leituras outras.

o materialismo histórico. Antonio Candido: Nenhum romantismo. desligado de compromisso partidário ou desígnio prático imediatista (Candido. Como os recenseamentos eclesiásticos visavam a oneração dos fiéis organizados em paróquias. Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia (1942). inteiramente afastada do ensaísmo (marcante nos dois anteriores) e visando a convencer pela massa do dado e do argumento. no entanto. 1995: 11). quanto à sonegação destes que dissimulavam o tamanho de suas paróquias às autoridades superiores da Igreja Católica. como sugere. deixando transparecer suas . devido ao desinteresse ou recusa da população em se alistar. como sugerem os diferentes intérpretes vistos no capítulo anterior. com ferramentas bastante distintas da de outros ensaios do período. mas o desnudamento operoso dos substratos materiais. 1945). No caso do recrutamento militar. No plano metodológico. nessa obra. a relutância em se declarar era ainda maior. Caio Prado destaca que somente pelos últimos anos do século XVIII tem-se noticia de um recenseamento seguro da ocupação que prescrevia por volta de quatro milhões o contingente populacional da época entre brancos e índios (Prado Júnior. Como linha interpretativa. nenhuma disposição de aceitar categorias banhadas em certa aura qualitativa – como “feudalismo” ou “família patriarcal” -. trazendo para a sua interpretação uma visão objetiva da vida da colônia. opera. uma exposição de tipo factual. uma série de relações sociais estigmatizadas por outros autores. Nesse sentido. e que.recenseamento com fins específicos tais como os eclesiásticos e militares. mostravam-se falhos devido tanto à relutância dos mesmos diante dos párocos. que vinha sendo em nosso meio uma extraordinária alavanca de renovação intelectual e política. aparecia pela primeira vez como forma de captação e ordenação do real. em conseqüência. por exemplo. Formação do Brasil Contemporâneo teria desmistificado.

Comparando Caio Prado Júnior aos seus “companheiros de geração” Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. 2000: 158. etc. não discutiram o seu sentido (Ricupero. nota 55). “respectivamente o desenvolvimento de toda uma civilização a partir da família patriarcal e ação de um ethos particular na colônia. o sentido que assumiu a colonização no Brasil que faz com que aqui tenha se desenvolvido um certo tipo de família e de ethos (Idem. 2000: 157-8. Casa-grande & Senzala e Raízes do Brasil. 1994. para Ricupero mostrou como a sociedade que começou a se formar no Brasil a partir da Colônia se organizou toda ela para produzir alguns gêneros tropicais demandados pelo mercado externo. ver Wegner. sobre Sérgio Buarque de Holanda. bem como os bens naturais de que dispunha. isto é. gerando um determinado tipo de cultura e herança que.cruas relações. tanto a maior parte da população da colônia. segundo o autor se manteve constante e quase inalterado em certos cenários a que teve a oportunidade de conhecer por meio de viagens. Faremos a partir de agora uma breve apresentação de Formação do Brasil Contemporâneo. Bernardo Ricupero sugere que num confronto entre as suas obras capitais. . realçando o seu caráter econômico e fazendo saltar a vista as relações de exploração e opressão a que esteve sujeita (fazendo uso de terminologia nova). pode-se notar que não é a família patriarcal ou o aventureiro que explicam a colônia. ver Araújo. A 10 Sobre Gilberto Freyre. o do aventureiro”. ressalta que mesmo Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda tendo identificado questões centrais para nossa formação. nota 55).10 Caio Prado Júnior. os usos da terra. 2000. mas ao contrário. com o intuito por hora de indicar a estrutura do texto. A partir daí. Formação do Brasil contemporâneo.

o autor trata dos aspectos humanos da formação da colônia dando especial atenção à distribuição da população ao longo do território. a constituição da população. bem como a análise de outras ferramentas e metodologia aplicadas por Caio Prado Júnior na confecção daquele texto serão objeto do terceiro capítulo desta dissertação. portanto. períodos curtos e os fatos que pretende esmiuçar e rever para a história da ocupação do território. 1999: 260). a qual. Caio Prado Júnior analisa o povoamento. um determinado tipo de civilização. “Povoamento”. os fluxos da população em correntes de povoamento e. Nota-se já neste primeiro capítulo de Formação do Brasil Contemporâneo toda objetividade e rigor formal que Caio Prado Júnior pretende dispor ao longo de seu trabalho. Caracterizando o povoamento da colônia como sujeito a uma “evolução” entrecortada por períodos de mudanças e revoluções estruturais significativas 11 A discussão sobre a idéia de “sentido da colonização” também será contemplada no próximo capítulo. do litoral e do interior. . Ao contrário de heróicos personagens descobridores com epítetos retóricos e comentários ornados de adjetivos tendenciosos. no item denominado “Raças”. por sua vez. no qual Caio Prado Júnior “expõe a sede do seu pensamento em relação à história do Brasil” (Lapa. constituiu o objeto da sua narrativa. documentados em registros estatísticos localizados e examinados a luz da particularidade de cada região. nele encontramos um estilo enxuto. para o autor.11 Formação do Brasil Contemporâneo divide-se em três partes – “Povoamento”. Na primeira parte. “Vida material” e “Vida social” antecedidas por uma introdução e o texto “Sentido da colonização”. Neste primeira parte. já que esta é que propriamente colocou em movimento.problematização da categoria de formação.

os quais nos delimitam como um determinado tipo de contorno e aspecto. sem os abruptos deslocamentos ocorridos anteriormente e para Caio Prado desemboca no momento de que pretende dar conta em seu recorte temporal. reflete antes tendências que resultados adquiridos (Prado Júnior. De relativa brevidade esta fase tem sua derrocada com a decadência da mineração. Sugere o autor a colonização não se aquietara: ocupavam-se novos territórios até então desertos. o deslocamento da produção da pecuária para o Sul – em decorrência da seca nos sertões nordestinos favorecendo a agricultura e enfim remodelando a feição colonial. Minas.devido ao caráter ou sentido da colonização. abandonavam-se outros já devassados. aspecto de nossa formação social – fato que parece ainda não ter de todo deixado de nos caracterizar até hoje – é a capacidade de mobilidade da população brasileira atestada no texto através de testemunho do . A terceira fase se dá de forma paulatina. a segunda se inicia com uma revolução demográfica e dela decorre a descoberta do ouro. Caio Prado chama a atenção para o fato de que a ocupação do território colonial português na América respondeu à determinados fins alheios ou exteriores. O povoamento estava longe ainda da estabilização. Princípio que vai tornando aparente determinados caracteres gerais de nossa formação. reduzindo-se em outros. e o quadro que a sua estrutura apresenta em qualquer momento é mais que provisório. Curioso. Mato Grosso e Goiás que provoca brusco deslocamento de contingentes populacionais criando uma nova estruturação das relações sociais e econômicas da colônia. senão trágico. 1945: 65) Caio Prado distingue três grandes fases na evolução: a primeira começa com a colonização e se estende até o fim do século XVII. a população refluía de um para o outro ponto. adensando-se nalguns.

fato que segundo Caio Prado é próprio de uma população que não se ajustou completamente a seu meio. e com simples e vagas esperanças de outras perspectivas” (Idem. um comércio instável e precário sempre [. com vistas para um mercado exterior e longínquo. notará.] a colonização não se orienta no sentido de construir uma base econômica sólida e orgânica. Destaca na composição da colônia até o início do século XIX que o “branco” que para cá se deslocou era “quase que só de origem portuguesa”. como mais tarde se plantará algodão ou café: simples oportunidade do momento. Estrangeiros foram proibidos quando da ocasião da descoberta do ouro tendo sua vinda para o Brasil sido possível durante curto período de tempo. para o historiador paulista cultivava-se a cana como se extrai o ouro.viajante: “Saint-Hilaire viajando pelo Brasil em princípios do século passado. “emigrava-se às vezes por nada. (XIX). ainda não havia sido estudada de forma sistemática – assim como acontecia com os povos indígenas. Em um primeiro momento que vai até a segunda metade do século XVII a imigração é escassa exercendo a colônia pouco atrativo à . Nisto temos a constituição de uma constante no “espírito” de uma população. “compreendendo-o e dominando-o”. Daí a sua instabilidade. escolhido o católico... com a acuidade de sua visão. isto é a exploração racional e coerente dos produtos do território para a satisfação das necessidades materiais da população que nela habita. bem como suas distintas contribuições na formação social brasileira. No item que Caio Prado Júnior dedica à composição étnica da colônia. Observa ainda que o critério utilizado na escolha dos colonos era religioso. o mesmo lamenta que o estudo quanto às especificidades dos diferentes povos negros que aqui aportaram. com seus reflexos no povoamento determinando nele uma mobilidade superior ainda à normal dos países novos (Ibidem). 1945: 67). a extrema mobilidade da população brasileira”.

Caio Prado destaca que o interesse advém de diversas categorias sociais. segundo Caio Prado “contribuem em boa proporção para as correntes povoadoras os degredados” (Idem. e como trabalhador. Isso se deu já no século XVIII. maior importância na constituição da população brasileira. A esse fato seguiu a perseguição e a legislação restritiva de sua prática cujo ponto mais alto é precisamente a perseguição adotada e representada pelo Marquês de Pombal. como se chamavam as aglomerações indígenas organizadas pela Companhia de Jesus. à luz dos objetivos da metrópole que naquele momento só pensava em ocupar o território. Em crise. ao propagarem a fé católica. muitas vezes tinham por objetivo fins contrários aos daqueles. o negro teve. até indivíduos de classes menos abastadas. tendo o comércio com o Oriente desaparecido.Metrópole. Outra força interessada na domesticação indígena eram os jesuítas que. ainda como escravos. do lado dos colonos. No primeiro momento. para Caio Prado Júnior. tem início um grande fluxo de emigração para a colônia. Portugal empobrecido. Neste ponto o autor discute um tema comum na época revelando. Atuavam em ‘reduções’. sem resquícios de “ressentimentos” . Neste momento. segundo Caio Prado. Também os judeus têm importância nesta fase da colonização. 1945: 83). vindo desde fidalgos e letrados – com fim de ocupar cargos administrativos. Representando. defender os interesses da Igreja. tentou-se organizar a colônia por meio do trabalho de seus habitantes nativos. e seus métodos antes tornava em “autômatos” os “catequizados” que os preparava para a “utilidade” pretendida por colonizadores portugueses. Pretendeu-se aproveitar o índio como povoador. e pretendiam. um terço da população e constituindo parte do percentual restante.

No Brasil “as uniões mistas se tornaram a regra”.ou “problema”. pôde impor seus padrões e cultura à colônia. sem as imagens românticas de outros escritores. sendo. que mais tarde separada da mãe-pátria. 1945: 103-104). juntas e mesclando-se sem limite. Caio Prado Júnior sugere: “Nos atuais Estados Unidos a imigração por grupos familiares é numerosa” e havia o recrutamento de mulheres menos favorecidas que partiam para o Novo Mundo afim de povoar o território. 1945: 102). a constituição mestiça da população: “é este o caráter mais saliente da formação étnica do Brasil: a mestiçagem profunda das três raças” (Idem. . numa orgia de sexualismo desenfreado que faria da população brasileira um dos mais variegados conjuntos étnicos que a Humanidade jamais conheceu” (Ibidem). É uma tal aptidão que o Brasil deveu a sua unidade. portanto “uma resultante do problema sexual do colono branco” (Idem. a sua própria existência com os característicos que são os seus. o número relativamente pequeno de colonos brancos que veio povoar o território pôde absorver as massas consideráveis de negros e índios que para ele afluíram ou nele já se encontravam. segundo o autor. Confrontando a colonização submetida ao Brasil e aos Estados Unidos. o texto de Caio Prado é objetivo: a mestiçagem. A essa capacidade do português de se misturar no quadro da população nativa e escravizada em parte atribui-se a falta de mulheres brancas no primeiro momento devido ao caráter aventuroso do emigrante português que buscava na colônia uma forma de enriquecimento e que pelo risco parte só – fato que distingue o tipo de colonização que terá curso no Brasil. No entanto o fator de branqueamento foi. Graças a ela. conservará os caracteres de sua formação (Ibidem). signo sob o qual se formou a etnia brasileira. Linguagem realista e clara. resulta de excepcional capacidade do português em se cruzar com outras raças. Guardando as proporções entre elas escreve: “são juntas que devem figurar.

bem como seu povoamento.”. se dá por meio da grande propriedade monocultora. ou ainda: “a nossa economia se subordina inteiramente a este fim. pecuária. e que é aliás de pouca monta. A vida material da colônia. 1945: 105). Este fato é primordial no entendimento dos problemas que seguirão o sentido visado pelo . Caio Prado destaca o depoimento do viajante Martius que se “refere que muitos aventureiros europeus passavam no Brasil uma vida descuidada de cidadãos abonados graças aos casamentos realizados em famílias que estavam procurando ‘apurar’ o sangue” (Idem.maior ou menor composição do sangue branco significou sempre maior ou menor fortuna. mineração. o ouro. A segunda parte do livro é dedicada à análise da vida material da Colônia.. Todo mais que nela existe. Assim a organização. 1945: 117). produções extrativas..sempre uma constante nas relações sociais que caracterizam o Brasil . Ilustrando a questão. o algodão. é marcada profundamente pelo que Caio Prado Júnior caracterizou ser o sentido da sua formação: “colônia destinada a fornecer ao comércio europeu alguns gêneros tropicais ou minerais de grande importância: o açúcar. Esta parte se subdividirá entre as seguintes atividades: grande lavoura. comércio. visando a agricultura como garantidora do fim exposto acima. a fazenda em detrimento da pequena exploração do tipo camponês. o engenho. com destaque para as atividades desenvolvidas e empreendidas ao longo do território. isto é. se organizará e funcionará para produzir e exportar aqueles gêneros. vias de comunicação e transporte. será subsidiário e destinado unicamente a amparar e tornar possível a realização daquele fim essencial” (Ibidem). artes e indústrias. agricultura de subsistência. (Idem.

o baixo nível técnico (Idem.colonizador: “o tipo de colono europeu que procurou os trópicos e nele permaneceu. como demonstra sua exposição. mas o explorador. 1945: 235). café. O ciclo extrativo do pau-brasil. não é o trabalhador. Vem para dirigir” (Idem. No item “Grande Lavoura” Caio Prado Júnior afirma ser a agricultura “o nervo econômico da civilização”. só contando o comércio interno com restrita agricultura de subsistência e comércio local. a produção e a extração interna de produtos comercializáveis era quase toda voltada para o mercado externo. antes do cultivo da cana-deaçúcar se mostrou menos importante. o caráter de uma economia. . o anil. Por ora nos limitamos a registrar que uma tal exploração é vista de forma crua por nosso autor que escreve: “é aliás esta exigência da colonização dos trópicos americanos que explica o renascimento da escravidão na civilização ocidental em declínio desde fins do Império Romano. Encontramos aí uma síntese que a resume e explica” (Idem. 1945: 120). e já quase extinta de todo neste século XVI” (Idem. é com ela que se inicia a ocupação do território brasileiro. A interpretação deste sentido de colonização vamos discutir no próximo capítulo. Em nosso caso. sua natureza e organização. Quanto ao comércio. melhor que a de qualquer um dos setores particulares da produção. o cacau. ou seja. 1945: 118). cana. Caio Prado Júnior afirma que “o estudo do comércio colonial” coroa a tese principal de seu texto: “a análise da estrutura comercial de um país revela sempre. etc. o simples povoador. Caracterizou a prática agrária durante seus diferentes ciclos. tabaco. o empresário de um grande negócio. 1945).

e de um modo profundo. que. no período em que se ocupa – princípios do século XIX. no mundo antigo. século XV. seguindo uma linha evolutiva do pensamento europeu. feições jamais correlatas a outros casos em que ocorre. Tendo em seu caso moderno surgido junto com os grandes descobrimentos. Herança que segundo Caio Prado Júnior vem a se incorporar ao “conceito do trabalho”. não se liga a passado ou tradição alguma. tendo status para o . seja diretamente.A terceira parte por fim cuida da vida social tratando dos aspectos da organização social. e fora substituída por outras formas de trabalho mais evoluídas” (Ibidem). iluminado por questões próprias as da lógica-filosófica não se poderia prever. por exemplo. O texto de Caio Prado Júnior assume aqui um tom de perplexidade um tanto irônica pois. padrões materiais e morais nada há que a presença do trabalho servil quando alcança as proporções de que fomos testemunhas. vida social e política. 1945: 277). no caso dos trópicos americanos. um fator de identificação da sociedade brasileira pois como afirma em nenhuma outra sociedade uma prática de tal natureza importou tanto para a constituição de “todos os setores da vida social”: “Organização econômica. que se fosse adotar por aqui preceitos morais já ultrapassados por uma ordem material que visou exclusivamente um enriquecimento comercial no vasto território encontrado. deixe de atingir. seja por suas repercussões remotas” (Idem. Caio Prado Júnior identifica na instituição da escravidão. uma vez que o escravo é utilizado nos mais diferentes ramos e atividades. Destaca o fato de que a escravidão apresenta. administração. “nasce de chofre. no Brasil. assume caráter pejorativo. Restaura apenas uma instituição justamente quando ela já perdera inteiramente sua razão de ser.

Desta distorção histórica surge um tipo de sociedade que. a situação se apresenta. pior. e tivesse permitido a esta manter-se e se desenvolver. Como sugere o autor: A escravidão e as relações que dela derivam. a sociedade brasileira contemporânea. . o que se mantém à margem da escravidão. Caio Prado Júnior identifica na reinvenção da escravidão.homem livre apenas raras ocupações. Tal realidade prescreve problemas sérios para o país. não ultrapassam contudo um plano muito inferior. menos apresenta organicidade social. para o autor. no outro setor dela. O que faz prever: aquela parte da população que o constitui e que vegeta à margem da vida colonial. A inorganização é aí a regra. ou diretamente. em certo sentido. à medida que se torna mais livre. não é senão um derivado da a escravidão. se bem que constituam a base do único setor organizado da sociedade colonial. De um corpo informe e inconsistente vai compor uma realidade social diversa e única. 1945: 356). que a dará identidade e da qual surgirá. no século XVI. e não frutificam numa super-estrutura ampla e complexa. ou substituindo-a lá onde um sistema organizado de vida econômica não pôde constituir-se ou se manter (Idem. Serviram apenas para momentaneamente conservar o nexo social da colônia. uma prática mercantilista injustificada por qualquer estrutura de pensamento moderno.

Em outras palavras. ou seja. Importa ressaltar que tomar o processo de formação do Brasil como objeto não impede. é o momento onde estão depositadas as possibilidades para o futuro do País. de outro. para explicitar o processo histórico cuja resultante é o Brasil contemporâneo. é um momento de síntese de “três séculos de colonização”. entender a que deve sua formação e constituição. A razão desta escolha é dupla: de um lado.CAPÍTULO 3 A IDÉIA DE FORMAÇÃO Discute-se neste capítulo a idéia de formação em Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior procurando mostrar como tal idéia permitiu ao autor formular uma interpretação da estrutura social da Colônia e do sentido da colonização. como também. Formação: sentido e processo É fato que em Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior toma o século XIX como “momento decisivo” a ser estudado para a compreensão da realidade social e política do Brasil. Nestes termos a obra pretende dar conta de conhecidas questões sociológicas que. das formas de sociabilidade que foram se forjando nesse processo de constituição da sociedade brasileira. à observância de um longo período histórico. indagam sobre a unidade da sociedade e território brasileiros. o autor pretende elaborar uma narrativa. ou pelo menos não deve impedir. o historiador de servir-se desse estudo como meio segundo o qual pode efetivamente entender a realidade social . em síntese.

à época deste texto Caio Prado Júnior já havia começado a desenvolver método e estilo bastante diverso do corrente entre os intérpretes do país até aquele momento. Assim formulado o projeto do livro. no “fim da história”. por exemplo. João VI para o Brasil e a data da Independência como objeto historiográfico de primeira importância uma vez que: “o início do século XIX não se assinala para nós unicamente por estes acontecimentos relevantes que são a transferência da sede da monarquia portuguesa para o Brasil e os atos preparatórios da emancipação política do país” (Prado Júnior. bem como vislumbrar suas possibilidades futuras. Anuncia assim que pretende romper com determinada forma e conceito de historiografia. fica clara a função central da noção de formação para os propósitos de Caio Prado Júnior. Não fosse uma preocupação com a formação do País. Talvez aí possamos ler uma crítica velada à história “oficial” ou melhor. Mas o que pode revelar este decidido afastamento de eventos políticos? O que muda quando começamos a falar em formação? Mais ainda. quase que sua gênese social. indicado no título. como falamos no primeiro capítulo. seguindo sua experiência precedente. ao modo então mais corrente de se fazer história. segundo . seria no mínimo estranho um texto sobre história o afastar-se dos acontecimentos políticos. no Brasil Contemporâneo? Todas estas questões iluminam a função central.brasileira. 2000: 1). João VI para o Brasil. O tom da primeira página do livro pode ser indicativo desta suspeita. por que o acento tão forte. a vinda de D. pois para o autor seria equivocado demorar-se em sobre-valorizar a vinda de D.

o início do século XIX. como propício para um balanço final da obra da colonização. Tal momento histórico: “marca uma etapa decisiva em nossa evolução e inicia em todos os terrenos. sua tese central. abre. Para o autor o momento se apresenta. A relevância atribuída a este. e representa como imagem concreta. uma nova fase” (Ibidem). Trata-se de momento chave precisamente pois. Nas palavras do . deve-se notar. então. por um lado. político e econômico. ele inaugura. para Caio Prado Júnior. à luz de um corte temporal determinado. Retomemos. Seu objetivo é o de rever. Caio Prado Júnior pretende que este seja o momento chave “para se acompanhar e interpretar o processo histórico posterior” (Ibidem). corresponder o momento ao primeiro que “contém o passado que nos fez” (Ibidem). momento em que já estão presentes suas características mais profundas. segundo cremos. social. uma análise da mesma pode desbaratar semelhantes perguntas. como chave. uma identidade formada no decorrer dos trezentos anos passados. a despeito de outros intérpretes do pensamento social brasileiro. Por outro lado. um tempo em que primeiro esteve presente em conjunto os elementos que comporiam a nossa identidade e a nossa unidade como nação. como uma síntese dos fatos e acontecimentos mais relevantes.pretendemos sustentar. Mas a análise deste momento deve possuir um olhar atento para ser capaz de “eliminar” os eventos “acidentais” e “intercorrentes” e ousar avistar o período. prende-se ao fato de que Caio Prado Júnior entende. como objeto de análise. da categoria de formação nesta obra. desvela. Pois. os aspectos fundamentais da formação da realidade contemporânea: Caio Prado Júnior elege este período como divisor de águas no quadro amplo que pretende desenhar. pensando-os como totalidade (Ibidem).

Percebe-se que Caio Prado Júnior está pensando em termos de construção de teoria e que. mero reflexo de outra coisa. podemos entender as questões acima levantadas a respeito de Caio Prado Júnior. desabrocham e se completam” (Ibidem). Afinal. é bom lembrar que o próprio Marx. no Idealismo alemão. e debruçar-se sobre o que foi efetivo nesta formação. mais remotamente. Nestes termos. foi neste contexto que pela primeira vez se separou uma Historie – disciplina do entendimento – de uma Weltgeschichte – um discurso sobre o sentido necessário da história. a idéia do momento histórico atual como síntese de um processo é fundamental. por sua vez. Corresponde a estrutura em formação então à “base” sob a qual se constrói o quadro do Brasil contemporâneo. 1986: 75). inspira-se nisso em Hegel ou. Percebe-se também a influência do pensamento de Karl Marx para quem. o presente histórico só pode ser efetivamente compreendido mediante sua gênese.autor: “Alcança-se aí o instante em que os elementos constitutivos da nossa nacionalidade – instituições fundamentais e energias – organizados e acumulados desde o início da colonização. para isso constrói sua narrativa. e para compreender esta gênese o estudioso deve deixar de lado o que é mero evento exterior. econômica e política do País. Por outro lado. seja na fase da Ideologia Alemã seja na fase madura do Capital. em termos caros aos . segundo a crítica especializada. algo cuja compreensão depende de uma gênese (Lebrun. e seu corte temporal pode ser entendido como uma ferramenta de análise da realidade social. Não é á toa que era caro aos idealistas de uma maneira geral a importância da noção de organismo. Mais ainda. então. Afastar-se da política é estratégia metodológica para isolar o que é “exterior” e captar o que é efetivo.

Grosso modo. colonizador. colonizado. seria o de construir uma esquematização por demais formal de interpretação ao fazer corresponder ponto a ponto o universo europeu.marxistas. podemos ironicamente dizer que importa a Caio Prado Júnior a formação do Brasil e não sua história propriamente. Se é assim. Não é essa. interpretar a história do Brasil à luz de teses marxistas. . Destacar o “fim” da história no título. outros intelectuais tentaram. em segundo. feudal e burguês. a influência do pensamento marxista em Caio Prado Júnior. Pensar Formação do Brasil Contemporâneo sem sublinhar seu método inspirador seria incorreto. não fará mais que importar sua estrutura metodológica voltando-se para aquilo que há de concreto em nosso história: povoamento. compreender o presente histórico como resultado de um longo processo. é. evadir-se de uma historiografia que tem a narrativa histórica como único fim e assumir a história como uma ferramenta de análise para os problemas sociológicos da atualidade. segundo cremos e por assim dizer. Mas falar da influência do pensamento marxista em Caio Prado Júnior não esgota a riqueza de sua obra. ao que parece. inspirados na Ideologia Alemã. mas. o Brasil Contemporâneo. todavia. grande lavoura. vias de comunicação. passar da super-estrutura para a infra-estrutura. com o brasileiro. Afinal. Ele não repetirá a equação da ideologia Alemã mudando seus termos. raças. econômica e política do País nos termos de uma luta de classes que teria se configurado sucessivamente nos modos de produção tribal. buscavam entender os problemas da realidade social. O problema básico de tal esforço. quase que pela mesma época. mineração. em primeiro lugar. A tarefa do intelectual seria compatibilizar a diacronia européia com o processo de constituição do Brasil.

isto é. descrita no capítulo anterior. Entendido que fazer análise da formação do País não é reproduzir sua história oficial nem reproduzir formalmente o esquema geral da Ideologia Alemã. Caio Prado Júnior não entende ser a decadência do Reino o motivo principal de sua crise e derrocada: . Haveria outra forma de ser mais marxista? E a história pessoal e política de Caio Prado Júnior. Por isso Caio Prado Júnior. 2000: 24). – para citarmos alguns dos tópicos do próprio índice do livro. mas verdadeiramente um marxista brasileiro. Para quem pudesse considerar isto pouco marxista. “não é qualquer marxista do Brasil. ele poderia responder perguntando se não foi isso. afinal. No espírito do que assinalamos acima. revela o quanto questões como essa esgarçaram suas relações com o Partido Comunista. que o próprio Marx fez em relação às suas fontes de inspiração intelectual. e compreender o sentido de nossa história cuja necessidade deveria assentar-se em base efetivamente materiais. notadamente aquela de formação. alguém que abre caminho para a aproximação da teoria marxista com a realidade brasileira” (Ricupero. período em que nossa formação se dá principalmente pelas mãos de agentes estrangeiros alienados da idéia de nação que para Caio Prado Júnior só começa a fazer sentido a partir da derrocada do sistema colonial. coube a Caio Prado Júnior levar às últimas conseqüências algumas categorias do pensamento marxista.administração etc. como um empreendimento. Assim caracteriza-se por ser um regime de subordinação. como argumenta a propósito Bernardo Ricupero. Em Formação do Brasil contemporâneo o período colonial é pensado como sendo um período em que esteve a colônia subjugada à ação e obra da metrópole. seja os economistas ingleses seja Hegel.

2000: 2). (Idem. Ora. interpreta que seu fim se fez necessário pois o conjunto das instituições.Tínhamos naquele momento chegado a um ponto morto. Sente-se que a obra da metrópole estava acabada. social. esta tomaria seu rumo seguindo seu quadro evolutivo. se desenrola através de um século e meio de vicissitudes” (Idem. no entanto. . tendo Portugal se desligado ou não da função de ‘gerenciar’ a seqüência dos acontecimentos da colônia. no âmago de suas contradições e iminentes instituições. mutatis mutandis. Esta ‘evolução’. O regime colonial realizara o que tinha para realizar.. por maior que ela fosse: isto não representa senão um fator complementar e acessório que quando muito reforçou uma tendência já fatal e necessária apesar dela (Prado Júnior. substância e densidade própria indicando direções e transformações que lhe eram necessárias e que. Não apenas por efeito da decadência do Reino. Antes. 2000: 1-2). etc – “que se prolonga até nossos dias e que ainda não está terminado”. o sistema colonial na totalidade dos seus caracteres econômicos e sociais se apresenta prenhe de transformações profundas. não é exatamente esta a lição a ser tomada da conhecida tese de Marx segundo a qual um modo de produção é superado quando explora todas as suas possibilidades internas e entra em crise? O sistema colonial tem seu termo. pois este momento contêm. político. em todos os níveis de sua criação – econômico. O que se apresenta como futuro para a colônia é o desdobramento de um longo processo histórico. 2000: 3). ‘localizado’ – para fins teóricos precisamente no ponto circundado como objeto visado pelo historiador. avanços e recuos. mas “com vaivens. não pode ser entendida de forma linear. o ponto de partida para sua compreensão do que seja o Brasil contemporâneo..

explicá-los. e por isso o termo formação lhe é tão caro. é um truísmo que um problema só pode ser resolvido depois de devidamente compreendido. da dos portugueses que empreenderam a ocupação do território. indiretamente. e.Assim como Marx viu na crise de seu presente histórico o momento para refletir sobre a gênese da ideologia alemã. até etnicamente e habitando um determinado território. Nossa efetiva formação pode. Naquele passado se constituíram os fundamentos da nacionalidade: povoou-se um território semi-deserto. 2000: 1-2). quanto da que se desenvolvia à séculos no velho continente. embora em menor escala. Afinal. Percebe-se que Caio Prado Júnior está preocupado em determinar e analisar os elementos constituidores de nossa identidade. Como historiador pretende demonstrar a especificidade da civilização que se instalara neste território. como também. constituída na base de elementos próprios. mais as transformações que se sucederam no decorrer do centênio anterior a este e no atual. mais precisamente uma certa ‘atitude’ mental coletiva particular (Idem. nossos problemas de país colonizado deveriam ser compreendidos à luz desta “colonização”. uma estrutura material particular. resolvê-los. dos indígenas e suas nações. Criouse no plano das realizações humanas algo de novo. obra inédita ‘no plano das realizações humanas’ (Idem. eis o objetivo último da análise. que inaugura um modo de vida distinto. Caio Prado Júnior define então o Brasil contemporâneo da seguinte forma: o passado colonial que se balanceia e encerra com o século XVIII. finalmente. até uma consciência. diretamente. uma organização social definida por relações específicas. . tanto do que já havia antes da chegada dos exploradores. Este “algo de novo” não é uma expressão abstrata. concretiza-se em todos os elementos que constituem um organismo social completo e distinto: uma população bem diferenciada e caracterizada. 2000: 2) – à vista do quadro geral das civilizações. organizou-se nele uma vida humana que diverge tanto daquela que havia aqui.

sem obviamente qualquer pretensão de esgotar o assunto. por via da objetividade da análise histórica. quanto a diferenciação destes elementos – em comparação a outros casos – os tornando “evidentes”. Caio Prado Júnior não se demora a colocar que a linguagem de que dispõe. curso teleológico da história. da infra para a super-estrutura (na linguagem marxista). inclusive no campo de sua constituição étnica. o que ele quer demonstrar é o fato de ter nascido. ao longo do período colonial. na construção de sua teoria. O autor pretende se debruçar sobre as relações sociais específicas que observa neste percurso e que a formação de tal identidade se dá inclusive no surgimento de uma “consciência”. Uma vez que entendemos que o autor faz um uso muito próprio do que se convencionou chamar de “materialismo histórico”. causalidade. do “povoamento” para uma “atitude mental coletiva particular”. pois outras influências deixam-se transparecer em termos como atitude mental coletiva particular. Em suma. mestiça – em sua próprias palavras. 2000: 2). um organismo social distinto. não se ocupa de abstrações. mas tão somente como forma de melhor expormos os usos da categoria de formação em seu texto. que . toma como pressuposto metodológico que a compreensão de uma realidade histórica deve ir do material para o espiritual. de uma certa “atitude mental coletiva particular” (Ibidem). com uma população. apontamento. “bem diferenciada e caracterizada” (Idem. uma sociedade que tem por base de constituição elementos próprios e que por isso demanda uma narrativa de esclarecimento. em idéias de síntese.‘Algo de novo’. Que nos seja permitido mais uma vez insistir na influência do pensamento marxista em Caio prado Junior. uma estrutura material.

a observação desse fato fundamental. entre outros filósofos do Iluminismo. um só historiador e a história estava por se fazer. como lemos nesta clássica página da Ideologia alemã: a primeira coisa. não se articula com o estudo dos homens individuais. notoriamente. nunca tiveram. não devemos ignorar o pressuposto fundamental de seu materialismo. seu esforço de historiador espreitar com uma análise da política.. passando pelo Idealismo alemão. não obstante. no entanto. Hegel. portanto. no entanto. não havia ainda se formado até a Alemanha de seu tempo.poderiam se encaixar na tradição filosófica de pensamento sobre a História que teria seu início em Rousseau. ou da população em termos abstratos. em toda a sua importância e toda a sua extensão. pois pensamos ser estes trechos bastante significativos para o entendimento do método utilizado por Caio Prado Júnior. portanto. Embora conheçamos. A base material de que fala. em toda a concepção histórica. empíricos. e do materialismo histórico para a escrita de Formação do Brasil Contemporâneo faremos um breve adendo à nossa exposição incluindo alguns trechos expositivos daquele método de interpretação da História. até chegar em Marx. 1984: 53). Para ilustrar a importância de Marx. Todos sabem que os alemães jamais o fizeram. Damos por justificada tal inclusão. Para Marx. os franceses e os ingleses fizeram. e fazer-lhe justiça. as primeiras tentativas para dar à história uma base materialista. no caso de seu estudo sobre o “18 de Brumário de Luís Bonaparte”.. do comércio e da indústria (Marx. ao escrever primeiramente as histórias da sociedade burguesa. . jamais tiveram um único historiador. Voltaire. conseqüentemente. Seu estudo se dá através de conceitos como capital. é. divisão social do trabalho. base terrestre para a história e.

mas o sentido dos problemas de um presente histórico qualquer (Idem.do contrário poder-se-ia cair numa historiografia “idealista”. etc. assim. paralelamente a este pressuposto metodológico.. pois só ela é capaz de revelar não apenas a origem. Isto é ao mesmo tempo um elogio à história e uma crítica: elogio porque só pela história os problemas podem ser efetivamente elucidados. conceitos que nossa exposição anterior e seguinte a este trecho ilustrativo de nossa compreensão acerca da dívida que tem a leitura de Caio Prado Júnior para com a teoria de Marx pretende mostrar foram incorporados pelo autor a que nos dedicamos em nossa dissertação. mas na compreensão dos problemas atuais e seus possíveis desdobramentos futuros. como podemos verificar na leitura do segundo “Posfácio” da Contribuição à Crítica da Economia Política) (Idem. enraíza-se em Caio Prado Júnior a conhecida tese de que a história é a única ciência. 1999: 23). Um longo trecho de A ideologia Alemã ilustra bem o caminho escolhido na estruturação de uma historiografia que tem por fim percorrer um amplo quadro . 1984: 62). que este elogio e esta crítica aproximam a história da sociologia e a transformam em ferramenta cujo objetivo último não se restringe à narração de eventos passados. uma crítica porque não é de qualquer história que se trata mas de uma história que tenha por método a gênese analítica de certos momentos sintéticos.luta de classes e organismo social. e por objeto a base material . Assim devemos entender que a elaboração de uma historiografia à luz do materialismo histórico deve contar com o estudo de tais categorias e conceitos desenvolvidos por Marx. Importa ressaltar. aqueles onde há crise. por fim. Fazer história com base material seria a única maneira de efetivamente se compreender o presente histórico e seus problemas.

como ele. climáticas e outras. hidrográficas. condicionada pelas forças de produção existentes em todos os estágios históricos que precedem o nosso. lemos também na Ideologia Alemã: A forma das relações humanas. Toda história deve partir dessas bases naturais e de sua modificação. que só podemos abstrair em imaginação. orográficas. como também aquelas que nasceram da sua própria ação. é a sociedade burguesa que. verificáveis através de um meio puramente empírico. 1984: 45). portanto. permitir uma avaliação dos problemas do presente histórico. tem como . condições geológicas. Essas bases são.. de uma “base material”? É Marx quem primeiro responde: As condições prévias das quais partimos não são bases arbitrárias ou dogmas. Como não ver na divisão dos capítulos e temas da Formação do Brasil Contemporâneo o cumprimento desta lição? Fazendo um esforço considerável para a organização das poucas fontes existentes. resultado do processo.. através da ação dos homens. Caio Prado Junior faz uma incursão estratégica por tópicos eminentemente geográficos para poder compor uma historiografia de “espírito materialista”. a existência de seres humanos vivos. o patrimônio corporal desses indivíduos e as relações que esse patrimônio desenvolve com o resto da Natureza . O que significa partir de uma “realidade concreta”. (Marx.. já resulta daquilo que o precede. Apenas a explicitação destas condições materiais poderia. Insistimos na estranheza da expressão – espírito materialista – pois que se trata. no curso da História (Idem. O primeiro estado real a constatar é. e condicionando-os por sua vez. de reproduzir o espírito e não a letra do texto de Marx. Assim. sua ação e suas condições materiais de existência. como já assinalamos. 1984: 45) A condição primeira de toda história humana é. são bases reais. São os indivíduos reais. as que encontraram já prontas.visando sua reconstituição à luz da categoria de formação. À luz de uma base material é que poderiam ganhar sentido as relações sociológicas tais como estão estabelecidas.. naturalmente. portanto. como ferramenta de análise.

como assinala o trecho acima. Devemos observar que em Formação do Brasil Contemporâneo o entendimento de que o todo social constitui um organismo social que dispõe até de uma consciência e uma atitude remete à construção da categoria de formação . evidente que esta sociedade burguesa é o verdadeiro lar. aqui ilustrada pelas esparsas citações acima. João VI. a partir do momento em que as relações de propriedade foram desligadas da comunidade antiga e medieval. a organização social nascida diretamente da produção e do comércio. A sociedade burguesa reúne o conjunto das relações materiais dos indivíduos.condição prévia e base fundamental a família simples e a família composta. A crise das relações sociais contemporâneas. O mesmo deve valer. continua a ser designada sob o mesmo nome (Idem. A sociedade burguesa como tal só se desenvolve com a burguesia. negligenciando as relações reais e limitando-se aos grandes e estrondosos acontecimentos históricos e políticos. Ironicamente. também para Caio Prado Júnior. confere ao texto de A Formação do Brasil Contemporâneo uma estrutura muito própria. Já é portanto. 1984: 61). aliás. estrutura. o que se denomina tribo. e que forma em todos os tempos a base do Estado e do resto da superestrutura idealista. por desprezo à Corte que Caio Prado Júnior pretende “desvalorizar” a vinda de D. Ela abrange o conjunto da vida comercial e industrial de um estágio e ultrapassa por esse mesmo meio o Estado e a nação. Todavia. precisam ser compreendidas à luz de suas condições materiais de constituição. que põe no centro das atenções a idéia de formação.. afirmar-se exteriormente como nacionalidade e organizar-se internamente como Estado. para a organização ou desorganização do Estado. embora deva por outro lado. não era tão somente. Uma estratégia metodológica bem determinada.. em um estágio de desenvolvimento determinado das forças produtivas. O termo sociedade burguesa apareceu no século XVIII. verdadeiro teatro de toda a história e vê-se a que ponto a concepção passada da história era um non-sense.

que se debruça sobre um indivíduo social, completo e autônomo, que deve ser
analisado segundo uma duração, um tempo.
Insistamos mais uma vez que o recorte temporal proposto pelo historiador
paulista aponta para uma nova fase da vida deste organismo social, que dispunha
de uma certa estrutura e que, por razões intrínsecas a sua formação e ainda
devido a fatores externos a esses, se transforma e mergulha em processo
histórico diverso ao que passara no tempo da colonização. Este novo processo
vai formar o Brasil contemporâneo. Deve-se notar que, para Caio Prado Júnior o
país [como nação] à seu tempo permanece em vias de se formar, ou seja
prossegue curso começado em longa data e não possui assim uma identidade
plena: “é então o presente que se prepara... mas este novo processo histórico se
dilata, se arrasta até hoje. E ainda não chegou a seu termo” (Prado Júnior, 2000:
3).
Assim para Caio Prado Júnior, quando o historiador se ocupa daquela
formação, que de fato não se configurou totalmente: “não estará se ocupando
apenas com devaneios históricos, mas colhendo dados, e dados indispensáveis
para interpretar e compreender o meio que o cerca na atualidade” (Ibidem). Caio
Prado Júnior chama atenção para a especificidade da atividade de que se ocupa
pelo fato de seu objeto permanecer em formação, ou seja, a despeito de outros
objetos do campo da história, o estudo da formação do Brasil contemporâneo
pode ser pensado como história viva ou rica inclusive pelo seu potencial
sociológico de fornecer uma possibilidade de teorizar uma prática que possibilite
ao organismo social se formar de fato.

A especificidade da atividade do historiador que se ocupa com o tema da
formação, no caso brasileiro, consiste em que, nas palavras do próprio autor, “o
passado, aquele passado colonial, aí ainda está, e bem saliente; em parte
modificado é certo, mas presente em traços que não se deixam iludir” (Ibidem). A
primeira nota do texto ilustra sua compreensão ao tratar da viagem como método
privilegiado de análise histórica:
pessoalmente, só compreendi perfeitamente as descrições que
Eschwege, Mawe e outros fazem da mineração em Minas Gerais
depois que lá estive e examinei de visu os processos empregados
e que continuam, na quase totalidade dos casos, exatamente os
mesmos. Uma viagem pelo Brasil é muitas vezes, como nesta e
tantas outras instâncias, uma incursão pela história de um século e
mais para trás. Disse-me certa vez um professor estrangeiro que
invejava os historiadores brasileiros que podiam assistir
pessoalmente às cenas mais vivas do seu passado (Idem, 2000:
5).

Em sua tese, escrita em 1954 e intitulada Diretrizes para uma política
econômica brasileira ele retoma esta idéia afirmando que nossa história é um
“Presente (o termo está em maiúscula o que destaca seu sentido) de nossos
dias”.
“aliás a nossa história, e particularmente a nossa história
econômica, é antes uma sucessão de episódios muito
semelhantes, de ciclos que se repetem monotonamente no tempo
e no espaço. E continuam repetindo-se. Essa a razão por que
afirmei anteriormente ser a nossa história um Presente de nossos
dias. Para observá-la, é muitas vezes preferível uma viagem pelas
nossas diferentes regiões, à compulsa de documentos e textos. o
tempo se projetou aqui no espaço, facultando ao historiador um
método original de pesquisa”.

Formação: sociedade e sociabilidade

A visão do passado no decorrer do presente não é, claro, privilégio apenas
da sociedade brasileira, em outros casos observa-se a transposição das camadas
do tempo, em um eterno retorno próprio da sedimentação de tradições e
estruturas. No caso brasileiro o que o autor parece querer contrapor é a idéia de
ruptura com o passado como dimensão explicativa da modernidade, e as
transformações assimiladas em todos os níveis da vida social, econômica e
política nas sociedades avançadas que modificam sua estrutura e apagam os
traços do passado (este aparecendo com o esforço da conservação da memória e
das tradições), e a idéia de “atraso”, no caso da sociedade brasileira. Nesta, o que
se observa é a continuação de determinadas estruturas que não condizem com a
condição almejada pelo corpo político e jurídico que pretende dar forma à Nação.
Observa por exemplo, que à sua época, o trabalho livre “não se organizou
inteiramente em todo o país”, apresentando este, a despeito de esforços
institucionais, “traços bastante vivos do regime escravista que o precedeu” (Idem,
2000: 3). Como já pretendemos ter mostrado, ressoa aí ecos de uma história
preocupada com o sentido dos fatos a qual, para evitar um jogo aleatório de
interpretações põe em cena a idéia do “real” como síntese do processo de sua
formação.
Acrescente-se que a subordinação e dependência da economia ao
mercado externo, a falta de um largo mercado interno, são outros dos aspectos
fundamentais em que se verifica aquele “atraso”: “numa palavra, não
completamos ainda hoje a nossa evolução da economia colonial para a nacional”
(Ibidem). Essas reminiscências não são, segundo o autor, anacronismos ou fatos

E com tal objetivo. para o comércio europeu. sua narrativa buscando distinguir o que é “essencial” para a sua compreensão. voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio. pois acredita vir de uma compreensão destes dados a transformação da sociedade brasileira (Idem. articulados numa organização puramente produtora. mais tarde ouro e diamantes. busca compreender. portanto. inverterá seus cabedais e recrutarão a mãode-obra que precisa: indígenas ou negros importados. Nada mais que isto. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura. industrial. nação. Este sentido dominará a cena da formação do país que. depois. mas “traduzem fatos profundos”. tabaco. alguns outros gêneros.isolados. que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras. Caio Prado Junior constrói. como marxista. apresentando a especificidade de ter seu sentido histórico singularizado por ter se constituído primeiro como empresa e depois como país. A população que ocupa este território “inventado” faz parte de um sistema mundial.tem mais tarde . veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar. 2000: 20). fundamental para a compreensão do seu objeto: o sentido da formação de um todo. algodão. lentamente. e em seguida café. 2000: 4). bem como as atividades do país. Não hesita em afirmar: se vamos à essência da nossa formação. Isto é demonstrado no decorrer do estudo. realizar um negócio. a partir do início de nova fase. a do Brasil contemporâneo. desde seu princípio . se constituirá a colônia brasileira (Idem. O Brasil contemporâneo se formará. Este essencial é o que se apresenta como “linha mestra”. no decorrer da ascensão e do declínio daquelas estruturas. objetivo exterior. Com tais elementos. portanto. Virá o branco europeu para especular. mais até hoje sobre aquela direção se desenvolverá e terá que buscar respostas para os problemas que aquele tipo de colonização colocara. aspectos que se colocou como problema e que o autor.

Na Antigüidade o escravo faz parte da cultura. à população do centro deste sistema. sendo sua implantação necessária por motivos oriundos da atividade empresarial que se pretendia realizar visando a prosperidade da metrópole. a escravidão brasileira foi para o Brasil a mais significativa instituição sendo ela que “antes de mais nada. de um sistema de pensamento. causa. e acima de tudo. . Sua ocorrência. negocia. competir é o termo certo. 2000: 277). e em nosso caso é “motor” de uma sociedade. A privação da liberdade a ele imposta concorre para a ausência (no plano da organização da sociedade e da construção de seu sentido) de contribuição da maior parte da população da colônia para a formação da estrutura da sociedade brasileira até o início do século XIX. No entanto não dispõe de ferramentas para se contrapor. sendo a base de toda organização econômica e produtora de padrões materiais e morais de conduta em nível inédito de influência. a que aqui se desenvolveu por motivos mercantilistas. com características distintas de formas anteriores de escravidão no mundo ocidental teve repercussão em todos os setores da vida social. segundo Caio Prado Júnior a despeito do desenvolvimento das noções morais que já constituíam a sociedade do velho mundo. No Brasil ele é privado de sua cultura de origem. em todos os níveis de sua vida. No caso dos Antigos é resultante de um modo de vida. destituído de sentido e usado como força bruta de produção material. Frisando a diferença da escravidão moderna. com a qual dialoga.inclusive que se emancipar e se tornar independente neste contexto por motivos intrínsecos da relação social primeira. caracteriza a sociedade brasileira de princípios do século XIX” (Idem. insere-se em determinada tradição. conseqüência.

sua mais organizada instituição social . e têm suas atenções voltadas totalmente para o comércio e tráfico segundo os interesses de Portugal: “O negro e o índio teriam tido certamente outro papel na formação brasileira. o último não pode ser esquecido ou subestimado. pretendem que já na sociedade colonial se dispunha de unidade ou identidade.a escravidão . como é . 2000: 281). seja ela técnica. A distinção do fato da escravidão em nosso caso se dá tanto na produção material como no nível do serviço doméstico e que “apesar da amplidão e importância econômica muito maiores do primeiro setor. Tal fato contribui diretamente para o atraso da economia colonial. Assim o que constitui a base da vida da colônia. se diverso tivesse sido o rumo dado à colonização. ou aceitado uma contribuição menos unilateral e mais larga que a do simples esforço físico” (Idem. Os responsáveis pelo sentido da colonização estão alienados de tal intento. a exemplo de Gilberto Freyre com quem dialoga em Formação do Brasil Contemporâneo. 2000: 286). e muito menos estética.resulta na preparação de um contingente populacional destituído de meios para se inserir no quadro da vida social do Brasil contemporâneo. Caio Prado Júnior desloca a questão do nível moral da discussão da miscigenação da população. moral ou intelectual. seja ela religiosa – como chegou a ocorrer com os indígenas doutrinados pela ordem jesuítica -. e papel amplo e fecundo.Em decorrência disso. se se tivesse procurado neles. Não só ele é numericamente volumoso. seu ritmo e sua direção. Caio Prado Júnior discorda de outros autores que. observando a ausência de preocupação quanto à formação dos negros no Brasil. Caio Prado Júnior salienta que em se tratando da “economia da colônia praticamente todo o trabalho é servil” (Idem.

bem como nas regiões onde atividades ligadas à . Daí uma sociedade civil desorganizada. Assim: “Torna-se muito restrito o terreno reservado ao trabalho livre . o dano social causado pela estruturação da sociedade de forma escravista reveste toda estrutura da sociedade que formará o Brasil contemporâneo. principalmente nas cidades. Assim se configura uma formação cuja lógica e sentido estão fora e não dentro do País. também: a ternura e afetividade da mãe preta. começou-se a formar.. se é que se pode falar em sociedade civil neste caso. (Ibidem). Dado o significado que assume o trabalho no Brasil.grande a participação que tem na vida social da colônia e na influência que sobre ela exerce” (Ibidem). Ironicamente. Bem diferente de uma discussão taxativa. De tal sorte que é preciso enfatizar o “pouco que ela trouxe de favorável. O arranjo social determinado por uma lógica externa às suas próprias fronteiras. e a utilização universal do escravo nos vários misteres da vida econômica e social acaba reagindo sobre o conceito do trabalho que se torna ocupação pejorativa e desabonadora”. é precisamente desta relação – desumanamente desleal – que advém “a maior parte dos malefícios da escravidão” (Ibidem). entre outras coisas.. só pode configurarse com a marca do “atraso”. própria do senso comum da época. devido à proximidade do senhor e do escravo no mundo da vida íntima. Caio Prado Júnior é categórico em afirmar que. Ao constituir-se como “empresa” da metrópole não se constituiu como uma unidade nacional. a despeito de uma retórica que procurava de certa forma travestir a imagem da escravidão sofrida no Brasil de um ar romântico. e os saborosos quitutes da culinária afro-brasileira” (Ibidem).

No campo. inúteis e inadaptados”. e. o autor vai passar da descrição daquela “base material” para as relações sociais que sobrevieram a elas. O elemento inorgânico é para a vida social um dos aspectos da formação da identidade do Brasil contemporâneo (Idem. Chega-se assim na constituição de um contingente de “desclassificados. entravam em declínio. o de ser empresa de lucro fácil. indivíduos que poderiam ser proprietários preferem não o ser. para Caio Prado Júnior contribui de forma decisiva para a preparação da estrutura da vida social do Brasil contemporâneo. 2000: 287). algumas de acesso restrito. Fechando sua exposição. anteriormente referidas. pois demandam riqueza prévia como é o caso das atividades das profissões liberais que requerem preparação intelectual.Luís dos Santos Vilhena . Caio Prado Júnior destaca que.mineração. O comércio era privilégio dos “reinóis” – os nascidos no Reino – e poucas eram as atividades restantes de que se pudesse orgulhar os não abastados. o sentido da colonização. um contingente de pessoas que escolhe a vadiagem. pois não possuem o capital para comprarem quem por eles trabalhe (Idem. Caio Prado Júnior vai ater-se propriamente aos aspectos humanos da formação do Brasil contemporâneo nos tempos da colônia. Tendo caracterizado os tipos que vão ocupar e constituir todo o território. restringindo-se a poucas atividades. parte para a conclusão de seu estudo demorando-se na análise das 12 Fontes mais usadas: Recompilação de notícias soteropolitanas e brasílicas do fim do século XVIII . lançando mão de uma de suas fontes preferidas de conhecimento. Seguindo as lições do materialismo histórico. em detrimento da atividade remunerada. Neste nível a escravidão. por conseguinte a pobreza. 2000: 289).12 a despeito da abundância de terra.

é bom que se diga. O uso desta expressão é defendida pelo autor da seguinte forma: “Tomo a expressão ‘nexo moral’. como já foi discutido anteriormente. Mas. segue justificando sua posição quanto a ausência de nexo moral da sociedade brasileira nos tempos coloniais a partir do fato de que: “os mais fortes laços que lhes mantêm a integridade social não serão senão os primários e mais rudimentares vínculos humanos. o “nexo moral” precisa ser entendido como resultado daquele processo. entre os agentes que deram forma ao corpo social brasileiro. o resultado é um tecido social pouco rico de interação. 2000: 353). Para Caio Prado Júnior. antes mencionado. ou seja. procurando colocar em relevo as formas de interação entre os indivíduos. De tal base material poucas relações poderão derivar-se. os resultantes direta e imediatamente das relações de trabalho e produção: em particular. 2000: 357). no seu sentido amplo de conjunto de forças de aglutinação. não uma colonização qualquer e sim um processo que obedece à lógica exterior ao próprio território colonizado. os grupos sociais. Assim. Entendido nestes termos e não como conceito que explique e fundamente explicações da realidade social. o trabalho servil era. complexo de relações humanas que mantém ligados e unidos os indivíduos de uma sociedade e os fundem num todo coeso e compacto” (Idem. a subordinação do escravo ou do semi-escravo aos seu senhor” (Idem. o . cujo sentido é o de ser empresa e não nação.relações sociais que se desenvolveram a partir da realidade dada da colônia. Destaca como sendo de suma importância a ausência de nexo moral entre os atores de tal sociedade. as classes. de colonização. a despeito de seus problemas.

porque o sentido de sua inserção no contexto brasileiro obedecia uma lógica externa àquela de uma identidade nacional. para Caio Prado Júnior. por sua vez. a utilização do negro como escravo no Brasil não contribuiu para a formação de uma “superestrutura” ampla e complexa servindo “apenas para momentaneamente conservar o nexo social” (Ibidem). muito menos provia o incremento da vida cultural da colônia. que ficava fora da relação de trabalho servil.único efetivamente organizado e portanto que funcionava no país. No seu plano material o trabalho escravo “nunca irá além de seu ponto de partida: o esforço físico constrangido”. flutuando sem base em torno da sociedade colonial organizada” (Idem. A atividade sexual do escravo. de tal forma que ele próprio. Ao contrário. a consumação física do escravo o macula diretamente. encontra-se uma inorganicidade como regra. o trabalho nada ensina. ao escravo. Caio Prado Júnior vai explicar a afirmação segundo a qual as relações sociais que vingam a partir do regime organizado da escravidão são relações primárias e elementares justificando que. não tem as funções de que ocupa a fruição posterior de um trabalho que pode ser reflexivo. estando uma vez . Portanto. 2000: 354). vai alienar “o conteúdo cultural” de que dispunha anteriormente. 2000: 355). Sendo este setor da sociedade diretamente afetado pelo setor do trabalho servil que. O trabalho livre caracterizava-se pela dispersão formando um setor “imenso e inorgânico de populações desenraizadas. No outro ponto da sociedade brasileira. Senão por outras razões. nem no campo da práxis nem no da intuição intelectual ou moral (Idem. no caso da mulher. nas suas duas atribuições – a de trabalho e a sexual – o escravo não ultrapassa o limite da relação servil.

2000: 357). . a escravidão resultando na composição de um setor de trabalho livre que se caracteriza mais pela inércia que pela atividade que poderia. contribuir para a formação de um meio mais integrado e coeso contra a ação coercitiva da metrópole. Mais ainda. A qual faz valer sua autoridade a despeito da ineficiência da administração pública da colônia ser uma de suas realidades. desagregada e desenraizada. os acontecimentos posteriores a Independência quando a sociedade brasileira acaba por reproduzir “quase integralmente a monarquia portuguesa que viera substituir” sendo o modelo imposto e não produzido pela mesma (Idem. O que caracteriza este setor é a ausência mesmo de uma estrutura social organizada. para Caio Prado Júnior. acaba – como já assinalamos anteriormente. segundo Caio Prado Júnior – condicionando e sendo a origem de tipos e formas de relações sociais de uma parte da população que crescerá continuamente por todo período colonial e que chegará a colocar os problemas enfrentados pela sociedade até hoje. Não menos primárias serão as relações sociais entre estes agentes que devido a uma inconstância de trabalho e de evolução material tendem para a vadiagem e a “caboclizaçao”. o quanto esta formação pesa sobre o presente e futuro País. por sua vez. Fatos que demonstram a importância do poder externo na vida da colônia são.amplamente organizado. Assim esta ausência de “nexo moral” da sociedade colonial se caracterizava mais pela desagregação e por forças dispersivas. tendendo seus atores para a composição de uma malha social instável.

uma análise da formação pode revelar: a identidade nacional não aparece desde sempre mas é construída. No primeiro aspecto da vida social da colônia predomina como já foi mostrado o trabalho servil. Para dar conta da análise das relações sociais encontradas e desenvolvidas na vida colonial Caio Prado Júnior parte do princípio de que uma sociedade. em seu princípio.e nas relações de família.Nesta mesma linha. Caio Prado Júnior defende a idéia de que tal atitude frente ao trabalho. 2000: 358). é determinada por uma lógica externa aos próprios limites espaciais. para Caio Prado Júnior. Daí uma das idéias chaves que. “uma geral moleza”. e. organizadas em torno da realidade condicionada por aquele. acrescente-se que a colônia também importa da metrópole “uma certa uniformidade de atitudes”. pior ainda. sendo precisamente sobre estes elementos. que “serviria” portanto de “base moral e psicológica para a formação do Brasil como nação”. de que deriva a sobrevalorização do ócio. de crenças. funda-se ordinariamente no trabalho – relações econômicas . que se ocupavam das atividades relativas ao comércio e produziam riquezas com certa facilidade – “acabará naturalmente . de língua”. desenvolvidas fora da lógica e dos sentimentos importados de Portugal e ainda de outros países. que se pensará e se buscará uma identidade e singularidade para a cultura brasileira (Idem. e de uma certa forma contrapondo a estes outras formas de “sentir”. filhos do reino. sendo encontrada de forma disseminada entre a maioria – contrapondose a atitude dos reinóis. “uniformidade de sentimentos. “de cultura”. resultando em que “nenhum homem livre se rebaixa a empregar músculos no trabalho”. 2000: 358). retardando assim diretamente a economia colonial que se desenvolvia quase que totalmente em torno do trabalho forçado (Idem.

temos uma segunda explicação para tal fato social (o tipo de preguiça e ócio improdutivo) na incorporação abrupta de índios quando estes não dispõem dos mecanismos apropriados para a tradução da lógica a que é submetido. na sua maioria. sobretudo de uma “inatividade sistemática. sua subsistência. 2000: 360-361). mas. (Idem. Por outro lado. solteiros cujo ímpeto aventureiro. sendo esta ininteligível segundo a constituição de seus padrões sociais. que acaba se apoderando do indivíduo todo” (Ibidem). mas antes se compõe de emigrantes isolados. em torno de famílias estruturadas. que tentou ‘modelá-los’ “por figurinos europeus estranhos aos seus gostos” (Idem. Outra causa da inatividade dos indivíduos livres da colônia “é o sistema da colônia. a lógica da produção e acúmulo de bens a partir de trabalho metódico. 2000:359). O trabalhador livre da colônia dispende o mínimo de energia necessária para o seu sustento. a despeito das riquezas do meio natural a sua volta. usufruindo durante sua vida de um baixo padrão de vida.por se integrar na psicologia coletiva como um traço profundo e inerraigável do caráter brasileiro” (Idem. Contribui para tal fato uma certa “facilidade . causando a estagnação e uma apatia que “não vem somente da luxúria e da cobiça. No que tange às relações pessoais entre os indivíduos. ou seja. 2000: 360). Estes fatores em conjunto resultarão por fim em um “tom geral de inércia”. Caio Prado Júnior nota a constante mobilidade de uma população que não se organiza. Contribui para isto um “ridículo sistema de educação” uma suposta Paidéia. em busca de enriquecimento. tão acanhado de oportunidades e de perspectivas tão mesquinhas” (Ibidem). refreia a constituição de células monogâmicas. de uma atividade sedentária.

das classes superiores da ‘casa-grande’. ao contrário do que se afirma correntemente. não se constitui em um fator disciplinador da vida sexual dos indivíduos sendo ao contrário a permissividade. 2000: 361). mal disfarçada por uma hipócrita submissão. torna-se pelo contrário campo aberto e amplo para o mais desenfreado sexualismo” (Ibidem). as suas virtudes. No caso da vida da colônia “o sistema de vida que dá lugar. Mais do que o julgo de uma moral pessoal. a indisciplina que nela reina. 2000: 362). a promiscuidade com escravos”. quase como regra. e em vez de ser o que lhe concede razão moral básica de existência e que é de disciplinadora da vida sexual dos indivíduos. sustentada pela relação desigual de forças entre partes envolvidas. e constitui uma base não familiar da vida destes (Idem. ou quase. Ainda fatores como instabilidade e insegurança econômica corroboram para tanto. deficiente.de costumes” que proporciona ao imigrante “mulheres submissas de raças dominadas”. Caio Prado Júnior observa ainda que: “A família perde aí inteiramente. tudo isto faz a casa-grande. não se processou. Caio Prado Júnior está trabalhando com um fato social: estabelecendo a diferença do papel que esta representa para a vida social nos moldes em que desenvolveu ao longo do tempo e o que passa a significar no âmbito da sociedade colonial brasileira. num ambiente de família” (Idem. salvo no caso limitado e como veremos. atuar como modelo formador do caráter das relações humanas ali constituídas. antes uma escola de vício e . Dentro da organização da casa-grande ainda se observa que a família. Sobre a massa inorgânica e livre da colônia Caio Prado Júnior sublinha: “A formação brasileira. puramente formal. “as facilidades que proporciona às relações sexuais irregulares e desbragadas. no caso entre senhores e escravas.

ocupa lugar. Dentre uma minoria de uniões regulares. na falta de condições de obter sustento. Caio Prado Júnior sublinha ainda o fato de que a prostituição. sendo porém estas uniões comuns e num certo sentido aceitas naturalmente. 2000: 364). mas de forma adulterada em decorrência do caráter dinâmico da vida sexual. para uma ampla difusão da prostituição. sua influência na sistematização dos costumes desta se mostrou relativa. em outros lugares mais comum nas cidades de médio e grande porte. ficando mais . sendo de tal forma disseminada esta atividade na colônia que “não há recanto da colônia em que não houvesse penetrado. que de formação moral” (Ibidem). na vida da colônia. tendo sido na prática cultos e cerimônias religiosas incorporados ao cotidiano se desligando muitas vezes do significado originário da prática religiosa de origem. grande número de casais ainda não oficializam o matrimonio por motivos vários como por exemplo o da falta de condições financeiras. de prostitutas” (Ibidem). e em larga escala” (Ibidem). nos “mais insignificantes arraiais” onde “quase toda a sua população fixa é constituída. escassez de padres para a cerimônia. além dos vadios. Outro aspecto importante na formação das relações sociais da colônia é o de que. o que teria concorrido. a despeito da presença das ordens religiosas na constituição de suas instituições. pelo seu custo. Deste modo festas e sacramentos se enraizavam na cultura. e de classe. apanhando a criança desde o berço. ou por restrições e constrangimentos raciais. No entanto o que se verifica como predominante é a ausência de uniões estáveis e a grande maioria dos homens prefere “em geral não pensam em se deixar prender” (Idem. Tal fato contribui para que as moças pobres nem cheguem a pensar no casamento como algo possível.desregramento.

Forças estas que não devem ser vistas como meras hipóteses ideais. Caio Prado Júnior começa a analisar as forças renovadoras que vão efetuar a mudança no estado das coisas na Colônia. e para o historiador não devem servir senão de sinais. e não fim. e que as provoca (Idem.observada a exterioridade dos ritos em detrimento do significado dos signos e símbolos religiosos. A questão que se coloca aqui. de ser empresa da coroa portuguesa. dissolução nos costumes. o estudo da história é ferramenta. 2000: 365). quais seriam os elementos. neste ponto da exposição. construção de teoria para uma prática efetiva. afinal: “as idéias por si. inércia e corrupção nos dirigentes leigos e eclesiásticos. e que. Assim caracteriza a ação geral uma “tolerância infinita quanto à moral” sendo mesmo a prática do clero não diferente (Idem. não fazem nada. é a de perguntar. uma vez tendo desenhado o quadro geral da vida social da colônia. que encontramos de vitalidade. que esta é a preocupação central de Caio Prado Júnior em Formação do Brasil contemporâneo. Cabe lembrar mais uma vez. para o autor. pobreza e miséria na economia. política: numa palavra e para sintetizar o panorama da sociedade colonial: incoerência e instabilidade no povoamento. ruína em que chafurdava a colônia e sua variegada população. caráter empresarial da colônia. Assim é antes do quadro geral já tratado anteriormente. 2000: 368). e dos diversos aspectos e contradições inerentes aquele sistema – entendidos no seu movimento dialético – . capacidade de renovação? (Idem. expressões ou sintomas aparentes de uma realidade que vai por baixo. Neste verdadeiro descalabro. nos fatos concretos. e com que força. poderiam realizar a virada de mesa e de fato construir uma nação no Brasil. 2000: 364-365).

para Caio Prado Júnior. . seu desenvolvimento histórico. Muito mais a partir dos elementos desconexos da vida social e dos setores inorgânicos da população do que de uma ordem política constituída de cima para baixo – como é o ocorrido na constituição do Império aqui delineado aos moldes da organização da política na Europa – que o País seguirá.que revelará aquela organização social o viés que a conduzirá a sua forma seguinte.

pensada da parte ao todo. condensando contradições e contendo direcionamentos de cujos desdobramentos virá a tonar o Brasil contemporâneo de cuja compreensão o autor pretende entender e demonstrar o sentido. seu sentido. conforme articulada no texto de Caio Prado Júnior possibilita a este autor realizar a síntese do que chama de Brasil contemporâneo. o qual se constitui como um desdobramento daquele sentido. dividido em seus alicerces fundamentais. e o presente. no que nos demoramos quando esmiuçamos a trajetória política do autor. entendendo esta como articuladora entre os diversos tempos da História. prática. Assim o tema. que a elaboração da escrita de Formação do Brasil Contemporâneo teve também. A longa duração de sua narrativa foi possível. ou seja. portanto. a intenção de consistir numa teoria visando a aplicabilidade de seus resultados por via política e. para Caio Prado Júnior. consegue vislumbrar seu objeto segundo uma extensa linha demarcada e divisada entre o passado colonial. “momento decisivo” . conforme . Caio Prado Júnior consegue colocar seu objeto e expô-lo segundo ordem cronológica estendida no tempo. No percurso realizado neste trabalho não deixamos de procurar entender. objeto visado em seu estudo. Seu domínio é o da síntese.por ser transitivo.CONSIDERAÇÕES FINAIS A leitura de Formação do Brasil Contemporâneo operada segundo o recorte da problematização da idéia de formação nos leva a concluir que esta categoria. pensando o objeto e o articulando-o segundo sua constituição estrutural básica. Para tanto. conforme demonstrado no decorrer do texto. através da idéia de formação. seu corte temporal – o início do século XIX. Vislumbra seu objeto à luz da grande narrativa.

sua formação. mas também é chave analítica eficaz para o autor demorar-se em aspectos menos estruturais e mais sistêmicos da vida cotidiana da colônia que corrobora intensamente para a presente forma de vida do Brasil contemporâneo. no que tange aos aspectos de suas . Dividido o tema em Povoamento. Vale ressaltar mais uma vez que ao tomar o processo de formação do Brasil como objeto o historiador coloca seu estudo. tendo em vista a que este deve sua constituição e sua formação. que tem seu início precisamente datado naquele corte temporal e que se estende e nos tange nos dias de hoje). segundo atenta Caio Prado Júnior. Assim Caio Prado Júnior demonstrará que da organicidade do trabalho escravo. entendido como meio. o Brasil contemporâneo. do tipo de relação social que esta suscita. Vida Material e Vida Social o autor analisa o processo histórico. cuja resultante é o Brasil contemporâneo. e segundo sua intenção. à disposição dos que pretendem entender a realidade social brasileira (e porque não reforçarmos o já dito – coloca sua análise a disposição dos que pretendem vislumbrar possibilidades futuras e desdobramentos do objeto segundo o qual nos informamos. frutificará no Brasil determinada disposição para o trabalho. a que deve seu sentido. o Brasil contemporâneo pôde ser analisado segundo sua estrutura tendo ido o autor às suas especificidades e revelado sua composição. a idéia de formação opera não só a sistematização da estrutura da exploração e “invenção” da “quase-empresa” colonial. Assim a idéia de formação de Caio Prado Júnior permite ao autor pensar a formação da sociedade brasileira num quadro mais amplo entendido em termos de uma totalidade social: o sistema colonial. Via dupla de desvelamento da realidade social brasileira.

das representações. de construir uma nação autônoma. que se esboçasse aqui algo relativamente novo em termos de sociabilidade e organização social. no caso histórico brasileiro.diversas disposições práticas. de sociabilidade e ações sociais. como o processo de colonização aqui implementado permitiu que se esboçasse uma nacionalidade que foi progressivamente se distanciando do seu modelo europeu. . de seu significado e espaço no quadro da cultura. ou seja. capazes. e ainda no quadro especifico das significações. mas que. a idéia de “formação” sugere a sobrevivência das estruturas e atitudes sociais às condições específicas que as criaram tanto no plano das relações sociais cotidianas. ao mesmo tempo. quanto na definição mais geral da estrutura social do que se formou como sociedade brasileira. não logrou gerar uma autonomia e dinâmica próprias. Associada à idéia de “sentido da colonização”. em 1822. depois da independência política. Assim concluímos que a idéia de formação de Caio Prado Júnior permite distinguir.

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