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Universidade Federal do Rio de Janeiro

A idéia de Formação em Caio Prado
Júnior

Letícia Villela Dacol

2004

A IDÉIA DE FORMAÇÃO EM CAIO PRADO JÚNIOR

Letícia Villela Dacol

Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-graduação em Sociologia e
Antropologia – PPGSA, Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, como parte dos
requisitos necessários à obtenção do título de
Mestre em Sociologia (com concentração
em Antropologia).

Orientador: Gláucia Villas Boas
Co-orientador: André Pereira Botelho

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2004

A IDÉIA DE FORMAÇÃO EM CAIO PRADO JÚNIOR

Letícia Villela Dacol

Orientador: Gláucia Villas Boas
Co-orientador: André Pereira Botelho

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em
Sociologia e Antropologia, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração
em Antropologia).
Aprovada por:

_______________________________
Presidente, Profa. Dra. Gláucia Villas Bôas
____________________________
Prof. Dr. André Pereira Botelho
____________________________
Prof. Dr. Robert Wegner

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2004

IFCS. vi. Letícia Villela. Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia. Referências bibliográficas. Villas Bôas.. A idéia de Formação em Caio Prado Júnior. II. Dissertação. . UFRJ. A idéia de formação em Caio prado Júnior / Letícia Villela Dacol. IFCS. 4 p.7cm. 105 f. Rio de Janeiro: UFRJ. III.Dacol. Universidade Federa do Rio de Janeiro 1. 2004. PPGSA. 2004. I. 29. Gláucia Villas Boas. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais 2. Gláucia.

quanto no plano da sociabilidade e das relações sociais cotidianas da Colônia e do período de transição desta para a nação. procura-se mostrar que a partir da idéia de formação. Partindo de pesquisa bibliográfica sobre os trabalhos recentes dedicados à obra de Caio Prado Júnior (1907-1990). analisa-se nesta dissertação a idéia de formação em Formação do Brasil contemporâneo (1942).uma vez que a Colônia obteve sentido e unicidade a partir de determinada relação com a Metrópole. particularmente no que tange à sua “organicidade” e/ou “inorganicidade” e ainda sua específica situação de ter sua força motriz se constituído externamente .A idéia de Formação em Caio Prado Júnior Letícia Villela Dacol Orientador: Gláucia Villas Boas Co-orientador: André Pereira Botelho Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia. Assim. Caio Prado Júnior. o autor logrou realizar uma interpretação do Brasil tanto no plano da estrutura da sociedade. . o sentido da idéia de formação permite a Caio Prado Júnior problematizar e fomentar o debate sobre os impasses e possibilidades da constituição da sociedade nacional no Brasil. IFCS. história. da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Formação. como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia). Em ambos os casos. A hipótese é que esta categoria é central para a compreensão da obra do historiador paulista. Palavras-chave: pensamento social brasileiro. marxismo.

. we pursuit to show that with formation categoria the autor had pretend to realize an interpretation of Brazil in so far in the plain of the society strucure sociability and quotidian social relations during the period of transition from Colony to the Republic nation. the sens of formation idea allows Caio Prado Júnior to problematize and foment the discussion about impasses and possibilities of the constitution of the brazilian society as a nation. we analize in this dissertation the idea of “formation” in Formação do Brasil Contemporâneo (1942). Therefore. particularly in the case of its “organicity” or “inorganicity” had been especifically constituted externally – once the Colony had its sens and unicity been constituted on its relations with the Metropolis. IFCS. Formation. The hypothese is that this categoria is fundamental to compreend the work of this historian. Both on either cases. Caio Prado Júnior. marxism. como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia). da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.A idéia de Formação em Caio Prado Júnior Letícia Villela Dacol Orientador: Gláucia Villas Boas Co-orientador: André Pereira Botelho Abstract da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia. Key-words: brazilian social thought. history. Working on bibliografic research about recently works dedicate to Caio Prado Júnior’s production (1907-1990).

Charles Villela. sendo. principalmente por ter sempre estado. Ao meu pai pelas críticas quanto à viabilidade destes caminhos. . incentivando-me a continuar. À CNPQ pela bolsa de mestrado a mim concedida. meu primeiro interlocutor. Ao meu irmão Flávio pelos pitos nas minhas horas de fraqueza. Aos meus alunos de música. mesmo na contramão. Marcelo Lion. Nelsinho. Ao meu amigo Roberto pelas cobranças epistemológicas nas mesas de bar. e pela inspiração na escolha deste tema. ao professor André Botelho e à professora Gláucia Villas Bôas. aos meus amigos Vinícius. à minha amiga Ana Lima. ao meu lado. ainda que de forma indireta.Agradeço à minha mãe pelo exemplo de fibra e coragem para buscar novos caminhos. Ao meu marido João pelo companheirismo. pela paciência.

À memória da professora Ana Maria Galano .

sobretudo monográficos. tornam propício o resgate também da obra de Caio Prado Júnior. procurando repensar os “clássicos” do pensamento social brasileiro . sem ter obtido. Assim. no caso de Antonio Candido. Está em curso. “a originalidade maior do trabalho está na concepção geral. por exemplo -. ficando sem o debate que lhes devia corresponder. tomamos o potencial educativo dos seus argumentos para avaliarmos o caso específico de Caio Prado Júnior (1907-1990) e da leitura de seu “clássico” Formação do Brasil Contemporâneo. no que diz respeito a este último autor. a idéia central de Antônio Cândido mal começou a ser discutida” (Schwarz. de 1942. Concordando com essa sugestão de Roberto Schwarz. ao mesmo tempo. como foi o caso da Formação da literatura brasileira. Passados quarenta anos. Assim. discutindo o livro Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido.INTRODUÇÃO Em Seqüências Brasileiras – ensaios (1999). podemos dizer que. Roberto Schwarz sugere que os “livros que se tornam clássicos de imediato. às vezes pagam por isso. que. publicada em 1959. 1999. 12). na idéia de formação” (Idem. justamente o surgimento de trabalhos. se por um lado o livro do historiador paulista não teve a aceitação imediata que parece ter tido A Formação da Literatura Brasileira. a despeito da relativa demora da ocorrência do debate em torno da sua . neste momento. o caso se aplica também a Caio Prado Júnior no que se refere a seu livro ter se tornado um “clássico”. o debate que merecia.como é o caso do debate em torno de autores como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. 1999: 46). que também afirma que.

como possibilitou. assim. O presente trabalho pretende se inserir dentro desta corrente de reavaliações do pensamento social brasileiro. . contribuir para um debate maduro capaz de repensar aquelas obras a partir da perspectiva dos problemas atuais do pensamento social e da sociedade brasileira. Pretende operar uma “desnaturalização” da leitura de Formação do Brasil Contemporâneo e elege como fio condutor para tanto destacar a idéia de formação. podemos destacar como positiva a possibilidade. Podendo. tanto permitiu uma interpretação dentro de um contexto mais amplo. A hipótese que quero explorar é a de que a idéia de formação.maior ou menor em cada caso – do envolvimento emotivo que tais obras eram capazes de suscitar em outros tempos. macrosociológico. de uma leitura mais isenta . mesmo no âmbito daquele processo de reavaliação dos autores “clássicos” do pensamento social brasileiro. por assim dizer. como articulada no contexto da escrita de Formação do Brasil Contemporâneo. trazida também pelo tempo e adensamento do conhecimento acumulado nas ciências sociais brasileiras. da estrutura da Colônia e do sentido da colonização. as bases não só institucionais e portanto. ao autor se debruçar sobre as relações sociais específicas que constituíram. neste percurso. a sociedade brasileira.obra. entendendo esta categoria como uma chave analítica central para o desenvolvimento da narrativa historiográfica de Caio Prado Júnior. por via inversa. “oficiais” da nação que tomaria corpo (a partir do início do século dezenove) como moldou formas de sociabilidade e conformou práticas e condutas que a nível da vida cotidiana resultou na formação de uma “identidade” ou “cultura” que resultará em uma sociedade determinada.

a filosofia e ainda. Para Caio Prado Jr. os congêneres mais importantes e conhecidos eram os livros de Caio Prado Jr. Deve-se dizer. a formação brasileira se completaria no momento em que fosse superada a nossa herança de inorganicidade social – o oposto da interligação com objetivos internos – trazida da Colônia. Como sugere Schwarz: “Quando o livro saiu. articular com segurança determinada metodologia. A esse respeito. é central na experiência intelectual brasileira. que um tal trabalho tem por motivação a idéia de que. Este momento alto estaria. Se passarmos a Sérgio Buarque de Holanda.1 1 Como sugere Roberto Schwarz. valendo lembrar que também a idéia de “momentos decisivos“ que figura no subtítulo de A Formação da Literatura Brasileira é devedora da obra do historiador paulista. o autor filia o livro de Antonio Candido ao de Caio Prado Júnior.. à espera de trabalhos de síntese.haja visto a importância dada pelo autor ao trabalho de campo e à etnografia dos viajantes franceses em expedição no Brasil no século XIX. a “comparação entre estas obras ainda está engatinhando. como sugere Roberto Schwarz. por sua capacidade de trazer para a historiografia brasileira elementos desenvolvidos pelas ciências humanas. aliás. mais que um interesse puramente histórico ou ainda de destacar a possível genialidade de um autor. a geografia. O país será moderno e . portanto. alinhou-se. pela antropologia contemporânea . nesta obra. um estudo analítico de Formação do Brasil Contemporâneo para nós é pertinente pela capacidade de Caio Prado Júnior.. ou esteve.objeto central do autor entendida nos termos da unidade nos termos de uma nação pensada e elucidada a vista de suas contradições e sentido. poderíamos dizer. encontraremos algo análogo. A idéia de formação. que buscaram acompanhar a formação do país em outros níveis. 1999: 54). No campo progressista. Muito sumariamente quero sugerir alguns contrastes. no futuro. principalmente pelas ciências sociais. e. Sérgio Buarque de Holanda e Celso furtado” (Idem. entre várias obras de perspectiva paralela e comparável. portanto.

Entendendo por formação a busca de “linhas evolutivas mais ou menos contínuas” para a vida social como tema central no pensamento social brasileiro. bem indica sua recorrência. 1997: 11). Como se trata. É como se nos dissesse que de fato ocorreu um processo formativo no Brasil e que houve esferas – no caso. Arantes observa que mais do que “uma experiência intelectual básica”. Trato dos Viventes . de Luís Felipe de Alencastro entre outras. enquanto as decisões básicas que nos dizem respeito forem tomadas no estrangeiro.A idéia de formação foi discutida em registo semelhante também por Paulo Arantes. 1999: 54-5). resultou mais sóbria e realista que a dos outros autores de que falamos. sem que por isso o conjunto esteja em visas de se integrar. Formação da Literatura Brasileira (1959). Como aliás. principalmente as do comando econômico. em obras capitais do pensamento social brasileiro. em medidas e sentidos distintos. rural e autoritária. ela constitui “verdadeira obsessão nacional” no Brasil (Arantes. Raízes do Brasil (1936). .Formação do Brasil no Atlântico Sul.. a nação continua incompleta [. não passarem para dentro do país. Formação econômica do Brasil (1959) e. Formação do patronato político brasileiro (1958). compreende-se.. Evolução política do Brasil (1933). 1997: 11-2).] Com a distância no tempo. quando então teríamos um país democrático. para o autor. apresentada por Antonio Candido. Ou seja. importante enfatizar. sugere Arantes (Ibidem). pode-se também dizer quer essa visão do acontecido. mais recentemente. a literária – que se completaram de modo muitas vezes até admirável. Celso Furtado. Os donos do poder. talvez porque a nação seja algo menos coeso do que a palavra faz imaginar” (Schwarz. entre as quais poderíamos destacar: Evolução do Povo Brasileiro (1923). Também aqui o ponto de chegada está mais adiante. dirá que a nação não se completa enquanto as alavancas do comando. além do mais que o horizonte descortinado pela idéia de formação corresse na direção do ideal europeu de civilização relativamente integrada – ponto de fuga de todo espírito brasileiro bem formado” (Idem. na dependência das decisões do presente. O esforço de formação é menos salvador do que parecia. Casa-grande & Senzala (1933). estará formado quando superar a sua herança portuguesa. Formação do Brasil contemporâneo (1942). muitas vezes figurando nos próprios títulos. de uma noção “a um tempo descritiva e normativa. por seu turno.

constitui categoria central da obra de Caio Prado Júnior. inserindo-se em certa tradição hispano-americana. uma interpretação a nível nacional. Articulando a idéia de formação à forma ensaio. Bastos sugere que esta. longe de indicar estudos que fogem ao rigor científico e se desenvolvem apenas segundo impressões fugidias. nesses ensaios explicita-se um esforço para dotar de sentido o mundo estudado. 2000: p. refere-se. 15). elas em geral mantém um certo caráter genérico. mesmo naqueles trabalhos dedicados exclusivamente à análise da obra do historiador paulista. para Bastos aquela idéia estaria no centro das inovações que Caio Prado Júnior imprime na historiografia brasileira e constitui peça chave para a compreensão do seu trabalho. estando assim umbilicadamente ligadas à idéia de formação e propondo-se a indagar sobre o sentido dessas formações. Discutindo a forma narrativa de Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior.Embora sejam muitas as referências à idéia de formação de Caio Prado Júnior na literatura pertinente. se apresenta sob o gênero ensaio e tem por objetivo claro fornecer. às análises que visam elaborar uma síntese sobre as sociedades nacionais. buscando-se superar a situação individual do ensaísta (Bastos. ele define o significado e o tipo de obra que Caio Prado Júnior desenvolveu. . Em suas palavras. Para a autora: A palavra ensaio. Sentimento do Brasil: Caio Prado Júnior – continuidades e mudanças no desenvolvimento da sociedade brasileira. como sugere Elide Rugai Bastos no prefácio do livro de Rubem Murilo Leão Rego. A idéia de formação. a questão é posta em primeiro plano. Em outros termos. ou melhor. em amplo sentido. no prefácio a um desses trabalhos. antes. a despeito do sentido pejorativo que o termo ensaio pode assumir em certos momentos e contextos. Num desses trabalhos mais recentes analisados nesta dissertação.

tratar do tema. na medida do possível. Assim procedendo. no primeiro capítulo apresenta-se os resultados da pesquisa bibliográfica sobre Caio Prado Júnior. Assim. estas reavaliações frente a análises contemporâneas sobre o pensamento social brasileiro. bem como nos debruçaremos sobre a estrutura do livro. nosso objetivo é evidenciar algumas possibilidades abertas pela idéia de formação do historiador paulista. Devemos dizer que ao operarmos uma seleção de textos relevantes não pretendemos dar conta da totalidade dos trabalhos que se debruçaram sobre o tema mais privilegiar a escolha de obras mais recentes que procuraram. cumpre advertir que no âmbito desta dissertação circunscrevemos a análise ao texto de Caio Prado Júnior. vida social. Assim procuraremos caracterizar as principais questões tratadas nas reavaliações recentes da obra de Caio Prado Júnior e. no contexto de seu livro Formação do Brasil Contemporâneo. No segundo capítulo pretendemos traçar os principais aspectos da trajetória de Caio Prado Júnior tendo em vista sua vida intelectual e política. . povoamento. nos moldes em que é dividido. situando. na atualidade. vida material. em particular.Reconhecendo a amplitude da problemática identificada em algumas das possibilidades interpretativas da idéia de formação. bem como alguns dos diferentes significados e sentidos que ela pode assumir no pensamento social brasileiro. dar ênfase à categoria formação. Este conta ainda com uma segunda parte na qual indicaremos elementos centrais do horizonte ou contexto intelectual de Formação do Brasil Contemporâneo.

manifesta na ausência de citações do pensador alemão ou de seus “discípulos” na sua obra. Assim. foi capaz de fazer uma obra monumental. Ou melhor. a obra de Caio Prado Júnior deve muito a este autor e à tradição intelectual e política por ele inaugurada quanto à compreensão do presente histórico como resultado de um processo – até mesmo de um processo de formação. 2000: 229-30). mostrando que ele não sente necessidade de recorrer ao argumento da autoridade. não são freqüentes em Caio Prado. tão comuns entre nossos autores esquerdistas. constitui objeto de controvérsias na literatura pertinente. Isto não tem. 2000: 230). Bernardo Ricupero sugere. dada inclusive a pouca freqüência de citações na obra de Caio Prado Júnior como um todo de autores marxistas.No terceiro capítulo analisaremos a idéia de formação visando alcançar os objetivos já anteriormente explicitados. postura de quem é ainda prisioneiro de uma atitude mental que tem suas raízes nos tempos da escolástica” (Ricupero. as citações dos clássicos marxistas. mas como um método vivo. Pois. com o marxismo possivelmente limitado que conhecia. todavia. Neste ponto faremos um adendo ao texto acerca da concepção de história em Karl Marx. grande importância. o que nos obrigaria a uma pesquisa mais sistemática que foge ao âmbito desta dissertação. pelo que consideramos. não se reivindica exatamente um caso de influência direta. . precisamente por ter sabido reter do marxismo o que nele é mais importante: a abordagem” (Idem. importa como indicação de que Caio Prado. Assim. 2 2 Sobre a relativa ausência de “provas textuais” da influência do marxismo sobre Caio Prado Júnior. Questão que aliás. porém. que o historiador paulista não encarou “o materialismo histórico como uma coleção de verdades universais. prossegue Ricupero. adequadamente a nosso ver. Nessa aproximação. como nota Novais. “Carlos Nelson Coutinho pode mesmo ter razão ao dizer que Caio não devia conhecer muito marxismo.

Assim procuraremos caracterizar as principais questões tratadas nas reavaliações recentes da obra do historiador paulista. 3 Dentre as análises da obra de Caio Prado Júnior que podem ser consideradas “pioneiras”. Num segundo momento. 1976. e Leite.3 Para tanto destacamos dois momentos recentes diferentes de retomada da obra de Caio Prado Júnior como objeto de análise privilegiando a discussão dos seguintes trabalhos: num primeiro momento. . – Continuidades e mudanças desenvolvimento da sociedade brasileira (2000) de Rubem Murilo Leão Rego. dos aspectos mais relevantes do debate contemporâneo acerca da obra de Caio Prado Júnior. alguns dos artigos de História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior (1989).?” publicado na revista Estudos: Sociedade e Agricultura. ainda que de maneira sucinta. em abril de 2000). Caio Prado Jr. de Raimundo Santos (deste mesmo autor. e Caio Prado Júnior na cultura política brasileira (2001). e a Nacionalização do Marxismo no Brasil (2000) de Bernardo Ricupero. deve-se destacar Cavalcanti. também. objeto deste trabalho. já que nosso objetivo é realizar um balanço representativo das análises mais contemporâneas. destacaremos também o artigo “Uma ciência política em Caio Prado Jr.CAPÍTULO 1 ASPECTOS DO DEBATE CONTEMPORÂNEO SOBRE CAIO PRADO JÚNIOR Neste capítulo pretendemos dar conta. mas que não serão contempladas neste trabalho. nessas análises contemporâneas. 1967. particularmente em relação a Formação do Brasil Contemporâneo e. avaliar o lugar da idéia de formação. Sentimento do Brasil: Caio Prado Jr. livro em homenagem ao historiador paulista reunindo os trabalhos apresentados na II Jornada de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista (UNESP) realizada entre 26 e 28 de 1988. 1966. Costa.

que enquanto os artigos reunidos em História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior (1989) exploram aspectos diversos da obra. sendo ao menos os trabalhos de Ricupero e Leão Rego originalmente formulados e apresentados como. Carlos Nelson Coutinho sugere que a metodologia implícita nos trabalhos historiográficos de Caio Prado Júnior não consiste na tentativa de “aplicar” ao Brasil alguns esquemas marxistas abstratos. Nesse sentido. respectivamente. . da trajetória intelectual e biográfica do historiador paulista. que essa “recepção do marxismo como método e não como dogma abstrato é uma das principais razões dos acertos de interpretação contidos na obra de Caio Prado Júnior” (Coutinho. Coutinho afirma. nesse sentido. apresentar uma visão mais integrada e sistemática daqueles aspectos. um fio condutor que lhe permite descobrir as conexões e o sentido dos fatos que constituem a gênese e a estrutura do Brasil contemporâneo. Sobre História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior Em seu artigo “Uma via não clássica para o capitalismo”.Ressalte-se o caráter monográfico desses últimos trabalhos. da trajetória política. os trabalhos destacados no que estamos chamando de segundo momento de retomada da sua obra procuram. cada um a seu modo. 1989: 115). mas na tentativa de “historicizar os conceitos” do marxismo transpondo este para a realidade brasileira: o marxismo do historiador paulista seria um método de análise. pode-se dizer. dissertação de mestrado e tese de doutorado. 1.

o que implicaria para o autor enquanto marxista. não careceu e nem carece de uma revolução . do modo de produção e da formação econômico-social vigentes no Brasil antes da Abolição”. Tendo como núcleo de sua reflexão historiográfica o materialismo dialético. Argumenta. Coutinho afirma ainda que para Caio Prado pensar o presente como história (como anuncia em Formação do Brasil Contemporâneo) significava responder necessariamente a seguinte questão: “de que modo e porque vias o Brasil evolui da situação colonial originária. destacando que Caio Prado “insiste em que nosso país não é e jamais foi feudal ou semifeudal e. nesse sentido. que mesmo quando trata do passado. por isso. Coutinho discute também o tema das desavenças entre Caio Prado e alguns intelectuais da época em torno do modelo interpretativo dominante na Terceira Internacional e no Partido Comunista Brasileiro.Considera que “embora tenha consagrado a maior parte de sua obra historiográfica à análise de nosso passado. Caio Prado tem sempre em vista a investigação do presente como história. é inegável que o objetivo central da reflexão de Caio Prado Júnior – o ponto focal a partir do qual se articula o conjunto de sua ampla investigação histórica – é a compreensão do Brasil moderno” (Ibidem). para a constelação histórico-social que apresenta hoje?” (Ibidem). O autor argumenta que “embora exista em sua obra uma certa ambigüidade a respeito da caracterização do ponto de partida – ou seja. numa “análise dialética da gênese e das perspectivas deste presente” (Ibidem). através do Império e das várias Repúblicas. conceitos como o de “transição” ou de “modernização”. “é indubitável que o historiador paulista não hesita em identificar como plenamente capitalista o Brasil republicano” (Ibidem). em sua interpretação destacam-se “ainda que só implicitamente”.

na História do Brasil. bem como entre membros da elite nacional. 1989. 1989: 228). em seu artigo “Fidelidade à História”. Para Octavio Ianni. era forte o desejo. Ainda. Segundo a autora. em 1942. premido por uma realidade já muito antiga: o passado colonial” (Ferlini. em seu artigo “A dialética da história”. de imagens capazes de confeccionar uma identidade nacional com o intuito de unir. defender e valorizar as especificidades nacionais frente ao mundo (Ibidem). segundo a autora. Caio Prado pretendia “ressaltar o caráter decisivo do século XIX. que a originalidade do historiador paulista reside na sua . 229). fato que resultou em uma busca. E partia da profunda determinação do sistema colonial pela história do capitalismo para dissecar por que o Brasil ainda não tomara forma. que pretendia “dar conta das profundas modificações da sociedade. com Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior “inaugura uma interpretação marxista da formação social brasileira. estabelecendo um horizonte intelectual novo. entre os intelectuais brasileiros da época. de “inserir o Brasil numa economia capitalista mundial”. apontando-o como o esgotamento do sistema colonial. culminando com o arranjo político de 1930” (Ferlini. nesse sentido. sem o qual não foi mais possível pensar a história e o pensamento no Brasil” (Ibidem).agrária e antiimperialista para se tornar moderno e capitalista” (Idem. Vera Lúcia Amaral Ferlini. frente às solicitações ampliadas do capitalismo. corrente em sua época. destaca a idéia de que a historiografia de Caio Prado Júnior foi animada por uma discussão. Destaca. da política e da economia nacionais. ou numa elaboração. que haviam se acelerado na última década. com Formação do Brasil Contemporâneo. 1989: 1156).

das relações sociais. alguns referidos em seus trabalhos. Ianni aponta ainda a idéia de formação e a relação estabelecida. dentro da compreensão da relação entre passado. 1989: 71). na narrativa. (tal como já anunciava o século XIX) com vários momentos pretéritos.capacidade de produzir. ou melhor. “conforme ela se mostra no século XX”. modos de ser e pensar (Idem. processos e estruturas que constituem “configurações sociais de vida” (Idem. 1989: 63). arqueológico. 1989: 72). Ianni destaca o estabelecimento conceitual das idéias de sentido da história. formas de vida e trabalho. uma definição ou estigma: O presente capitalista. A circulação simples. no qual se combinam vários pretéritos” (Ibidem). para Octavio Ianni. urbanizado convive. O Brasil moderno parece um caleidoscópio de muitas épocas. entre o passado e o presente como elementos fundamentais em Formação do Brasil Contemporâneo: “O presente. a circulação mercantil e a capitalista articulam-se em um todo no qual comanda a reprodução ampliada do capital. presente e futuro da interpretação de Caio Prado. ainda em nossos dias. dialogando com diversos autores contemporâneos e anteriores a ele. outros não. “uma nova interpretação dos contornos e movimentos mais característicos da formação social brasileira” (Idem. em cada época. o que seria “uma peculiaridade básica da formação social brasileira”. em escala internacional. Dentre os principais fatores que teriam conduzido Caio Prado Júnior a produzir uma interpretação dialética da história da sociedade brasileira. parece um mapa histórico. Portanto. industrializado. Em seu artigo intitulado “A visão do amigo” Florestan Fernandes defende a idéia de que a interpretação histórica de Caio Prado Júnior se diferencia de outras anteriores e subseqüentes a ele por não buscar uma “reconstrução pura e simples . Formas de vida e trabalho díspares aglutinamse em um todo insólito. revela-se.

Ressalta que sua narrativa pode ser definida como “uma tentativa de interpretação histórica materialista fecunda” (Ibidem). o que propunha um desafio fundamental de método” (Ibidem). elaborado na sua especificidade. Insere sua historiografia num debate mais amplo.do passado” (Fernandes. do seu pioneirismo ao decifrar as possibilidades de adequação da dialética materialista ao contexto das contradições brasileiras. 1989: 32). Deste modo Caio Prado Júnior seria um dos principais expositores da explicação da sociedade escravista e das suas peculiaridades fundamentais (Fernandes. clareza” (Dias. o qual se fundava no materialismo histórico” (Ibidem). 1989: 378). sua concretude. síntese. Para a autora Formação do Brasil Contemporâneo apresenta uma estrutura de construção complexa e “é muito sugestiva da postura independente do engajamento político do autor. Afirma que entre suas grandes contribuições. Portanto para Dias está claro que seu envolvimento com o materialismo dialético longe de ser um ponto que diminua a importância da interpretação de Caio Prado Júnior é mesmo uma das maiores contribuições dadas pelo autor à historiografia brasileira. 1989: 32). como é o caso do ocorrido na França. está a análise influenciada pelo materialismo dialético como fator de diferenciação que estabeleceu e introduziu na historiografia brasileira entre a análise das estruturas e a história episódica ou descritiva. entre a “história tradicional” e a “história interpretativa” e afirma que “Caio inaugurou o modo mais avançado de história interpretativa no Brasil. Em seu artigo “Impasses do inorgânico” Maria Odila Leite da Silva Dias afirma que uma contribuição fundamental da obra de Caio Prado Júnior é sem dúvida “a elaboração do método. .

tensão que. a despeito de não ter chegado a esmiuçar os anos de formação da república. de contradição fundamental que definiria todo o vir a ser da nacionalidade. fato que desembocaria em uma sociedade singular e contraditória. Caio Prado teria desenvolvido sua obra com o intuito de mostrar que “a colonização não se orientara no sentido de construir uma base econômica sólida e orgânica” (Dias. a autora destaca a importância dada em Formação do Brasil Contemporâneo ao estudo das especificidades locais do processo colonizador – estudo que a despeito de todo desdobramento posterior da Antropologia e do . Caio Prado teria mostrado de forma objetiva a dificuldade estrutural da sociedade brasileira de se formar segundo seus próprios interesses e caracteres. que em seu tempo vivia uma atmosfera de expectativa de perspectivas diversas. analisando as especificidades de seu tempo. Assim no livro Formação do Brasil Contemporâneo. Assim Caio Prado Júnior teria justamente desvendado e destacado a existência deste impasse. a partir da exploração racional e coerente dos recursos do território com fins a satisfação das necessidades materiais da população que nela habita. Para Maria Odila da Silva Dias o tema da nacionalidade. orgânico. Nesse sentido. segundo ela. proposto como “totalidade orgânica” implicava em questionar e refletir sobre as possibilidades de integração da massa da população no sistema produtivo do país. Nesse sentido. e das relações sociais de dependência colonial. 1989: 377).A autora destaca como um dos eixos fundamentais da obra de Caio Prado Júnior o “tema das tensões entre sociedade e nação”. aponta para a especificidade de um processo inacabado em nossa história e que corresponde a um dos traços característicos de nossa sociedade.

pois. como marxista. segundo a autora. de outro. a sua foi em vários sentidos uma obra pioneira pelo grau de elaboração do processo dialético. devidamente localizados no processo de povoamento. de um lado. Maria Odila da Silva Dias observa ainda o víeis prático desta obra. Nesse sentido a autora sugere que: no plano mais amplo da historiografia marxista. as chamadas “forças desagregadoras” de decomposição do sistema. dado que. a partir de um movimento dialético. cuidadosamente trabalhado na perspectiva histórica da análise das conjunturas regionais do Brasil. Eric Hobsbawn e outros (Idem. segundo ela.desenvolvimento de técnicas precisas se mostrava bastante inovador para a época. conforme suas relações mais ou menos intensas. regionais que revelaram potenciais de mudança. mais ou menos diretas de dependência e subordinação com a grande lavoura do litoral (Idem. conjunturas. para melhor indicar um programa de ação para o futuro” (Idem. Albert Soboul. contribuiriam justamente para a . em suas origens históricas. Assim poder-se-ia notar que no emprego do método de interpretação das estruturas produtivas. Caio Prado dedicou-se à elaboração de teoria abrangente que levou em conta o estudo de modos de produção. abarcando mediações sociais específicas. Ainda. um nível de concretude e de sofisticação de método que somente vinte anos depois começou a encontrar similares nas obras de Pierre Vilar. 1989: 379). 1989: 382). um dos objetivos fundamentais de Formação do Brasil Contemporâneo consistiria em mostrar. Caio Prado “procurou as diversidades específicas do processo brasileiro de colonização e formação da sociedade. justamente por conciliar a interpretação marxista com a diversidade nacional. Por isso atingiu em 1942. essas forças dificultariam o processo e as potencialidades da transformação da colônia em nação e. 1989: 378).

Para a autora. que se projetavam para o futuro (Ibidem). que se apresentaram como possibilidades de transformação. que enxergam em Caio Prado Júnior. até construir formas de vida social. Ao contrário de críticos. localizado entre o final do século XVIII e a época da Independência . dos condicionamentos geográficos. as formas de vida sociais da colônia. como um processo marginal. Caio Prado Júnior teria reconstituído as tensões históricas. assim sendo. o principal tema do historiador consistiu justamente em descobrir e revelar (por oposição a narrativa costumeira) o inorgânico da vida . 1989: 284). de um núcleo de relações de dependência colonial. da organização precária de sobrevivência da população brasileira. assim como a relação de tempo estabelecida pelo autor (entre o nosso presente e o passado colonial). as especificidades do povoamento do interior.deixa transparecer de imediato o tom engajado do trabalho. sob o ponto de vista da formação das classes sociais. das vicissitudes.constituição de uma sociedade livre – “acenariam para uma futura superação” do que se poderia chamar “impasse do inorgânico” presente ainda nos dias de hoje (Idem. portanto. se torna um fator de desagregação do sistema colonial indicando uma possível função de unidade no futuro (Idem. Maria Odila da Silva Dias sugere que o historiador paulista aborda o processo de formação da nacionalidade brasileira como sendo marginal ao processo produtivo (voltado para o provimento de necessidades exteriores) e que. 1989: 381). Para a autora o enfoque estrutural escolhido pelo historiador paulista – delimitando precisamente seu objeto numa conjuntura de crise. uma visão estritamente economicista. que crescia a partir de uma contradição básica. enfim.

tensões (Idem. com tendências. Em seu artigo “A força do concreto”. demonstrar que estes impasses estruturais viriam a causar outros impasses como o do processo de industrialização do país no século atual e que este. 1989: 385). de seu modo particular de pesquisar. segundo Maria Odila da Silva Dias. de seu gosto pela viagem como meio de conhecimento. por exemplo. serviria como amostra de que certas estruturas próprias do sistema colonial teriam continuidade. Nesse sentido. idealistas. de explicitá-los no seu próprio devir dialético sem falsear a interpretação deste processo com posturas ou deslizes teorizantes e. para a autora. 1989: 397). o que depois viria a constituir e formar originalmente as classes trabalhadoras e os fatores de futura nacionalidade (Idem. sob alguns aspectos. escrever e estudar o Brasil. Muitas vezes o fato histórico custava a se tornar inteligível para o historiador. movimentos. profundo pesquisador dos impasses estruturais da sociedade brasileira. Antonio Candido se propõe a dar um depoimento a respeito da figura humana de Caio Prado Júnior. defende a idéia de que Caio Prado. procura a partir de sua teoria demonstrar e chamar a atenção para a necessidade de transformação da estrutura da sociedade como um todo.social. Por isso. Caio Prado Júnior teria demonstrado que a formação do inorgânico conduziria a uma série de impasses estruturais visando. de suas preferências como pesquisador. Nas suas palavras em Caio Prado: “o conhecedor de história e de economia do . 1989: 365). a seu ver. Caio Prado cuidou de elaborar os conceitos marxistas da forma mais concreta possível. pois se compunha de aglomerados de forças. ou seja. Assim. para a mudança das bases fundamentais da sociedade brasileira a despeito da compreensão idealista de esclarecimento e progresso (Idem.

e coisas assim” (Ibidem). 1989: 24). o mecanismo de transmissão da propriedade. se embrulhar nas dinastias. adverte Antonio Candido. tomando este objeto a partir de uma compreensão não limitada. “atenta ao real. a história. situando a família das classes dirigentes na devida escala e quebrando o perfil aristocrático traçado por uma ilusão complacente” (Ibidem). Caio Prado Júnior teria se formado como um estudioso ligado estritamente ao “concreto”. 1989: 25). O que lhe interessa são a vida diária. os costumes. Para Antonio Candido. as técnicas de plantio. suas realidades e por conseguinte suas formas de produção (Idem. como lembrança da figura de Caio Prado Júnior. de registrar. Faz questão. grande historiador que retificou as perspectivas sobre a nossa formação e mostrou uma série de aspectos esquecidos ou ignorados – como a qualidade real da população da Colônia. “é fácil inferir o tipo de historiador que é. a natureza mercantil da empresa agrícola. ao leitor sistemático e microscópico dos jornais” (Candido. sem esquemas nem a .Brasil se confunde na sua personalidade intelectual ao insaciável viajante e observador. a produção. do estudo das populações. sua irreverência frente à disciplina que o consagrou. o movimento dos negócios. a presença do marginalizado. Sob estes suportes teria fundado uma historiografia marxista voltada para a análise de instituições diversas. a partir de suas especificidades segundo sua distribuição no espaço. contudo. derivando seu conhecimento do meio físico. pois que “mais de uma vez ele me disse alegremente não saber história. esquecer datas e dar pouca importância a batalhas e detalhes. nesse sentido. no sentido de ignorar uma quantidade de datas. ao espírito sempre aberto para o fato do dia. Dessas “duas dimensões de gostos”.

deixando de lado uma tradição do pensamento social brasileiro que. Assim Candido define o historiador paulista. Da forma de desenvolvimento de suas características como historiador Antonio Candido indica que Caio Prado deu prioridade a via de conhecimento direta. Ele já está previamente embebido por estas e efetua de maneira produtiva a abstração como fruto maduro. 1989: 26). a presença do marginalizado. dentro do cenário acadêmico de seu tempo. O conhecedor de história e de economia do Brasil se confunde na sua personalidade intelectual ao insaciável viajante e observador. a natureza mercantil da empresa agrícola. que foi.imposição de prejulgamentos”. diga-se de passagem. Ressalta que neste esforço voltado para a “realidade concreta”. ou seja. afastando os aspectos que afloram para ir até as forças que regem de fato” (Ibidem). nas palavras de Antonio Candido era ainda muito “idealista” (Idem. Assim. ao espírito sempre aberto para o fato do dia. analisa uma estatística de produção ou estuda o povoamento. ao contato primário como meio de conhecimento. Caio Prado Júnior esteve sempre “interessado em pesquisar os aspectos fundamentais da sociedade. situando a . Caio Prado quando compulsa um documento. não procede como o estudioso que parte da abstração para em seguida procurar comprovantes. nas palavras de Antonio Candido. ligada em muitos sentidos. Antonio Candido afirma ainda que Caio Prado Júnior. também seu amigo pessoal: grande historiador que retificou as perspectivas sobre a nossa formação e mostrou uma série de aspectos esquecidos ou ignorados – como a qualidade real da população da Colônia. ao leitor sistemático e microscópico dos jornais (Ibidem). sempre se posicionou de maneira pouco ortodoxa tendo tido a felicidade de poder experimentar e desenvolver em sua ação uma apreensão bastante sofisticada e pessoal das especificidades da realidade brasileira.

Em seu artigo “Do palacete à enxada”. não chegaram a nada . livro que “abriu a fase dos estudos marxistas na visão panorâmica do país”.”.família das classes dirigentes na devida escala e quebrando o perfil aristocrático traçado por uma ilusão complacente” (Candido. Para Candido. Maria Cecília afirma que o historiador paulista tinha por opinião que. que estudou com . sem esquemas nem a imposição de prejulgamentos” (Idem. 1989: 25). aberta. 1989: 47). no Brasil. p.. Caio Prado “deixa longe a tradição ainda meio idealizadora que preponderava em sua época” e “funda solidamente uma história marxista. Afirmando que sua geração sofreu já com Evolução Política do Brasil influências fundamentais de Caio Prado Júnior. 1989: 26). 48). 1989: 24).. Caio Prado estava ciente de que inaugurava uma nova dimensão da história. em suma. 1989. em termos de produção historiográfica “estava tudo por fazer” (Idem. Antonio Candido considera que as qualidades esboçadas no livro de 1933 seriam amadurecidas em 1942 em Formação do Brasil Contemporâneo (Idem. Alberto Torres e Oliveira Vianna .. o que demonstra suas próprias palavras: “No Brasil.. Destaca para este entendimento de Caio Prado Júnior também a descoberta efetuada pelo autor de elementos da Geografia. no Brasil. Silvio Romero. Afirma também que em relação a interpretações anteriores. Maria Cecília Naclério Homem afirma que a originalidade de Caio Prado Júnior não pode ser entendida sem levarmos em conta que: “sua dimensão de história será muito mais ampla porque pretende transformá-la tanto pela produção escrita quanto pela sua própria participação nos acontecimentos políticos e culturais” (Homem. atenta ao real.

na recém-inaugurada Faculdade de Filosofia. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. argumenta. geógrafo francês. um lugar de destaque: “a geografia tornou-se seu instrumento de trabalho para o conhecimento do país e para a elaboração da própria História” (Ibidem). levantando os problemas in loco” (Idem. que teriam permitido ao historiador paulista atingir seu objetivo de “levantar o sistema de vida e as condições de sobrevivência de cada lugar” (Ibidem). métodos que defendeu outrora com as seguintes palavras: “chega uma hora”.Pierre Deffontaines. o que em “em muitas ocasiões lhe trouxe problemas” (Vicente. a autora assinala que as viagens de Caio Prado pelo Brasil e seu entendimento da contribuição da fotografia como instrumento de trabalho de grande importância para a análise historiográfica foram fatores que o permitiram romper com a historiografia puramente institucional da tradição estabelecida. Observa ainda. Assim entre os elementos que teriam possibilitado sua ruptura com a historiografia tradicional ocupa a Geografia. que Caio Prado privilegiou o estudo de campo e a observação direta. 1989: 49). Ainda nesse sentido. Homem. ensina ele. argumenta Vicente: . na mesma direção de Antonio Candido. Discutindo o papel de Caio Prado para a “compreensão da montagem do sistema colonial feito pelos portugueses no Brasil”. Foram esses métodos. 1989: 87). Em seu artigo “O sentido do colonialismo” Maximiliano Martin Vicente chama a atenção para o fato de que Caio Prado Júnior foi em seu tempo um escritor de fecunda originalidade assumindo “uma posição de vanguarda”. para Maria Cecília N. “que é preciso fechar os livros e partir para o reconhecimento da realidade.

nota-se que. destaca o sentido da colonização e os principais componentes do sistema colonial” (Ibidem). principalmente depois do detalhado e completo estudo realizado na década de 70 por Fernando Novais. as colocações de autores de ampla difusão. 1989: 90). ou seja. o mesmo que pretendiam Fernando de Azevedo e Oliveira Vianna). Adverte. em seus escritos. é um dos melhores historiadores de que dispomos. Esta diferença estaria no fato de que “ao procurar descobrir a persistência dos componentes coloniais na vida brasileira (diga-se de passagem. anteriores e mesmo posteriores a 30.se no momento atual. Já John M. a volta ao passado (colônia) tem características diferentes” (Ibidem). contudo. e Formação.. 1989: 89). Maximiliano Vicente mostra que na raiz das divergências que Caio Prado Júnior encarou em sua época está claramente a idéia de que a colônia teria sentido por ela mesma e assim poderia ser analisada (Idem. que “ao retomar a visão colonial na obra de Caio Prado Júnior. deve-se notar a importância central de uma especifica concepção de colônia. dentro da qual ele busca um ‘sentido’ para a . Evolução. pareciam não entender bem a questão. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777/1808). Daí sugerir que para a compreensão do historiador paulista e de sua inversão metodológica. Monteiro em artigo intitulado “A dimensão histórica do latifúndio” afirma que um dos fatores de inovação da teoria de Caio Prado Júnior é a descoberta de que “as estruturas agrárias brasileiras são produtos da lógica da expansão comercial européia. principalmente em dois de seus livros. o autor vê a colônia em perspectiva econômica. ou procuravam interpretá-la de acordo com sua conveniência em função de alguma idéia preestabelecida (Idem. parece óbvia a afirmação segundo a qual pode-se dizer que Caio Prado Jr. no quadro da historiografia de sua época.

mero resultado de pactos de elites conservadoras’. Justamente sua “ênfase na estrutura” teria sido o fator que possibilitou a Caio Prado Júnior manter-se afastado das interpretações “naturalistas” que produziram discursos as vezes “racistas” e “exageradamente deterministas” pautados na crença da existência de uma “massa popular que vegeta. Caio Prado pôde se separar da tradição determinista que tinha em seus princípios a “falsa noção de que a desigualdade social no Brasil se devia fundamental e primordialmente a um ‘desvio perversionista. para John Monteiro “percorre como espinha dorsal todas as suas análises concretas” (Ibidem). também quanto à industrialização.marcha da história nacional” (Monteiro. em cuja constituição jogou papel fundamental a importação de relações sociais de produção já desenvolvidas e acabadas nas sociedades clássicas do . Caio Prado pôde esmiuçar “as especificidades de um processo de industrialização sui generis na história do industrialismo capitalista ocidental”. Nesse sentido. o qual apontava para uma “inevitabilidade da desgraça que previa um movimento quase trágico. 1989: 167). em sua “ênfase na estrutura” o que. graças a ênfase que dedicou ao estudo das estruturas e processos – o que o diferenciou ainda no meio da militância política” (Idem. 1989: 168). segundo Monteiro: nesta formação social periférica subordinada. entre outros aspectos. Discursos que mais legitimavam do que explicavam o tipo de exploração existente no meio social brasileiro. Assim. a originalidade de Caio Prado Júnior em relação à historiografia anterior a ele estaria. Nesse sentido. material e culturalmente. 1989: 154). no nível da simples subsistências física e do mínimo de desenvolvimento espiritual” e se encontraria relegada a um dos lados do abismo (Idem. necessário. para a historia” (Ibidem).

é necessário que produção-distribuição-consumo se “enraízem” em formas naturais limitadas. de se estudar Caio Prado Júnior – que percebeu ser . possamos tirar de seus meandros “sua face heurística”. modalidades determinadas unilateralmente (Ibidem). Portanto. 2000: 17). estudiosos de hoje. E intra muros para que se dêem as condições necessárias deste modo de realização. revela-se como universal” (Ricupero. e a nacionalização do marxismo no Brasil. 2000: 31). não se põe nela o ciclo do capital industrial (o movimento geral do capital) com a inteireza dos seus departamentos e de sua realização. Bernardo Ricupero trabalha com a hipótese básica de que Formação do Brasil Contemporâneo representa um “caso bem sucedido de assimilação e recriação de um conjunto de idéias. Sobre alguns trabalhos monográficos recentes Em Caio Prado Jr. o autor defende que em Formação do Brasil Contemporâneo o que pode parecer uma obviedade ou um doutrinarismo – ainda mais para uma análise que não leve em conta o momento histórico de sua produção – deve ser precisamente desnaturalizado para que nós. Para o autor a “nacionalização” do marxismo operada por Caio Prado não foi uma tentativa inusitada ou isolada. ao conseguir isso. mas sim uma operação articulada. como “uma resposta positiva para o dilema proposto por Gramsci sobre a “tradutibilidade” das linguagens científicas” (Idem. de uma orientação teórica e metodológica que prova sua fecundidade heurística dando conta de situação distinta da qual nasceu para dar expressão e. A mais-valia desta economia periférica e subordinada realiza-se no e pelo mercado mundial. Ricupero destaca que grande parte da recusa. Não se põe nela um ciclo do capital conforme o conceito que lhe é próprio.capitalismo. 2. ou estranheza.

deve ser transformada. ou melhor. Portanto argumenta que pretende privilegiar em Caio Prado a parte que ficou. Ricupero rebate que boa parte do seu próprio interesse em Caio Prado viria justamente de sua associação com o marxismo. ou seja. Afirma que não podemos ler Caio Prado. 2000: 26). em sua palavras “particularmente subestimado” pelo pensamento social posterior a ele. de sua indissociabilidade: naquilo que se refere à ação política. o historiador paulista é particularmente contundente em insistir que ela deve ser orientada por uma teoria adequada” (Ibidem). Assim. A isto. e que uma vez que se trata de um autor revolucionário. Além de razões práticas para operar a desnaturalização do pensamento de Caio Prado Júnior. para o autor. um defensor da unidade de teoria e prática. Assinala que Caio Prado foi. as implicações políticas de suas análises. Para Ricupero os livros de Caio Prado manifestam a convicção intelectual de que “o estudo teórico deve ser orientado para a compreensão do presente” (Ibidem). Caio Prado entende que a elaboração teórica tem por objetivo a política.constante por parte de nossa academia – advém de críticas. deve servir fundamentalmente para que se possa intervir na realidade do momento histórico que se vive – realidade esta que tem por princípio ser imperfeita. sem compreender que o Caio Prado como historiador é incompreensível sem levarmos em conta o Caio Prado militante político (Idem. ou seja. em todos os sentidos. que apesar de toda crítica corresponde a um clássico de nossa literatura. Ricupero desenvolve em seu trabalho uma análise do que denomina de “razões internas” da escrita do autor que justificam um estudo . e de um certo senso comum – que o acusa de uma associação ao marxismo.

Este sentido é indicado (a despeito de toda provocação e de todo alarde que possa causar) como sendo o de um interesse por um estabelecimento de um “empreendimento comercial voltado para o mercado externo. de um direcionamento causal. portanto. trabalhadas pelo braço escravo” (Idem. Acredita que dentre os nossos historiadores. nosso passado é quase indissociável de nosso presente. 2000: 27). Ainda para Ricupero. no Brasil. reflexão esta que constitui uma “contribuição particularmente importante para a compreensão da nossa realidade” (Idem. Caio Prado Júnior foi um dos que mais e melhor investigaram as origens das estruturas e do desenvolvimento do país. interesses externos. portanto. Caio Prado Júnior tem grande relevância por ter sido um dos pioneiros. baseado na produção de gêneros tropicais em grandes unidades agrícolas. tendo podido ir bastante fundo na investigação dos princípios de nossa formação. Assinala ainda que Caio Prado Júnior acreditaria que. Caio Prado realizou uma “reflexão original sobre a história e a sociedade brasileira”. sugerindo que somos. que até hoje seriam de difícil refutação. em nossa historiografia. que tem por motivo. ainda hoje (e mais ainda em sua época quando a industrialização do país e a estrutura agrária ainda estavam mais ligadas ao .sistemático de sua obra. 2000: 28). em sua raiz. em nosso passado colonial e levantando hipóteses. a chamar a atenção para a idéia de “sentido da colonização” afirmando que não se pode falar de realidade brasileira sem levar em conta que temos em nossa constituição territorial a característica de sermos em nossa origem dotados de um “sentido”. ou alheios. de suas contradições. Para ele. aos nossos próprios. realizando fecundo mergulho.

Caio Prado pôde fornecer um retrato da Colônia “não como um mero amontoado de eventos e características combinados aleatoriamente”. Caio Prado foi capaz de compreender o sentido da nossa formação e fez deste sentido. e a nacionalização do marxismo no Brasil. Bernardo Ricupero tem por finalidade central buscar “problematizar o sentido do Caio Prado Jr. Portanto para Ricupero. segundo Ricupero. p. compostos parte pelo passado. apreender a “totalidade” da unidade social brasileira. Somente a partir do desenvolvimento desta categoria de análise. político e . da elaboração deste sentido como essência da experiência colonial brasileira. 2000: 157). por si só incompletas. “já que ainda não o superamos de todo” (Ibidem). o que reflete o fato de que ‘todos os momentos e aspectos não são senão partes. mesmo problematicamente. começa a se formar. Em suma. e como notou Gildo Marçal Brandão no prefácio de Caio Prado Jr.155-156). há um certo ‘sentido’ que lhes confere inteligibilidade. A habilidade do historiador paulista em observar a realidade adviria precisamente da consciência de que “apesar de a história ser feita de um ‘cipoal de incidentes secundários’. que podem até mesmo nos confundir. 2000. uma chave analítica para a interpretação da história brasileira e dos desdobramentos posteriores que esta teve. categoria esta que deve muito a teoria marxista de interpretação da história como movimento materialista dialético. de um todo que deve ser sempre o objetivo último do historiador’” (Idem.passado colonial). mas como o de “uma certa sociedade que. pensando esta sociedade em bloco e não a partir de acontecimentos isolados” (Idem. Assim elegendo como fato principal de nossa história o “sentido da colonização” Caio Prado pôde.

Para contrastar estas “formulações oficiais do PCB” com as de Caio Prado. Santos sugere que a bibliografia estudada pelos integrantes do partido em geral dependia de alterações e adaptações pragmáticas que poderiam ajustar a cartilha desta literatura a conjunturas específicas. faz parte da cultura pecebista”. 2001: 129). num caminho de duas vias. ou seja. 2000. Ainda segundo Brandão. destaca os textos memorialísticos do historiador paulista (como a de seus diários políticos) como peças fundamentais para a compreensão do seu pensamento. Bernardo Ricupero persegue como objetivo central mostrar como. buscando perseguir incansavelmente “uma problemática básica – as questões da construção nacional e das possibilidades de mudanças inscritas no processo histórico” – uma vez tendo atingido sustentação teórica busca conformar sua crítica (e sua pretensão de desenvolvimento de um projeto político) às determinações de processo histórico concreto (Idem. 2000: 16). em Uma ciência política em Caio Prado Jr. além do seu lugar na historiografia.. Já Raimundo Santos.teórico da política” (Brandão. exigindo . 15). desenvolveu uma teorização que ia “muito além das ‘formulações’ oficiais do PCB” (Ibidem). no entanto. que ao longo de toda sua obra. ao lado da relevância que damos as contribuições deste autor a historiografia brasileira deve-se compreender o autor como um ativista do partido e da causa política (Santos. Assinala. muito distintas das de sua origem. a obra de Caio Prado Jr. e argumenta que esta “vêm realçar algumas conjecturas que insistem em que. Caio Prado desenvolve sua visão da política a partir dos desdobramentos práticos do seu trabalho de historiador e que. Caio Prado como um autor “comunista brasileiro”.

um dos teóricos com maior . Raimundo Santos destaca que mesmo em seu período Caio Prado Júnior era notado com estranheza por outros autores. que o considerava “o único teórico marxista do Partido Comunista Brasileiro”. como a de Hélio Jaguaribe. comunistas e não comunistas. 2001: 132). ou Jacob Gorender. Entre os mais antigos destes autores destaca o próprio Luis Carlos Prestes que em 1954 escreveu uma crítica a Caio Prado para advertir a Revista Brasiliense pelo seu envolvimento naquilo que ele chamava de “nacional reformismo” (Idem. Para o entendimento da posição de Caio Prado Júnior nesta polêmica.necessariamente ajustes para a práxis prescindindo. particularmente a tese da existência de um feudalismo como modo de produção da colônia que Caio Prado refuta por achá-la absurda e ineficiente para explicar as origens da realidade do latifúndio brasileiro e das desigualdades no campo. então militante-fundador do Ibesp. portanto de uma reelaboração teórica. mais se pareceria com a “fazenda de escravos romana do que com qualquer formação social representativa do feudalismo” (Ibidem) Para situar a discussão. Raimundo Santos destaca ainda algumas opiniões de intelectuais sobre Caio Prado Júnior. Raimundo Santos destaca ainda um artigo publicado na imprensa comunista da época intitulado “Os fundamentos econômicos da revolução brasileira” no qual Caio Prado trata o tema da origem da economia agrária do seguinte modo: a fazenda brasileira “como sendo estruturada para o sistema de produção de grande empresa mercantil”. Raimundo Santos destaca ainda que em torno do autor se deu uma demorada polêmica em torno das teses comunistas da origem ou tipo de sociedade que existia durante a colonização no Brasil. provocando entre seu meio certo mal estar.

pondo diante do destino brasileiro. Raimundo Santos levanta a hipótese de que no livro A Evolução Política do Brasil. justamente para formar da diferença a idéia do “sentido” da “colônia de produção” brasileira (Ibidem). Afirma precisamente que as dissertações de Caio Prado Júnior sobre Formação do Brasil . para quem a rebeldia de Caio Prado em relação ao consenso da teoria do partido dever-se-ia a um “problema idealista” da sua formação (Ibidem). 2001: 133).trânsito ao interior do PCB em seu tempo. 15). Para Caio Prado Júnior a necessidade de sua tarefa consistiria em fazer uma teoria para a conjuntura. Raimundo Santos destaca que Jacob Gorender comentando A revolução Brasileira de Caio Prado ainda em 1989 apontava a filiação ao positivismo lógico como um segundo deslize do historiador paulista. Caio Prado Júnior na Cultura Política Brasileira. como Marx ao divisar na Europa a rota dos países atrasados. com sua análise histórica. Em outro trabalho. p. segundo ele. somente dela é que “poderíamos avançar numa progressão. Afirma que seguramente “no primeiro volume de Formação do Brasil Contemporâneo o autor já buscava (para definir uma política para o seu partido?) – a especificidade da formação social. Caio Prado Júnior já teria a pretensão de desenvolver. já em 1933. além do objetivo de romper com a historiografia oficial. Raimundo Santos procura examinar particularmente a tradição intelectual representante da cultura pecebista visando situar Caio Prado dentro da “cultura política do pecebismo contemporâneo” (Idem. uma teoria (uma ciência) política (Idem. pois. 2000. a “colônia de povoamento” americana. Critica precisamente as idéias de Caio Prado Júnior sobre a desnecessidade de se classificar a revolução que se faria no Brasil. que nos levará ao socialismo” (Ibidem).

2000: 39). ora em pleno . Raimundo Santos considera que apesar de ser impensável fora de seu partido “o historiador vive a história de um intelectual outsider” (Ibidem). que também procura resolver no livro que analisamos anteriormente. vida política (tradicionalmente à base de agitações e estéril) e estruturação partidária” (Idem. colorindo a obra com problematizações estratégicas no seu pensamento – mercantilismo e miserabilidade. Acredita que é possível que “o movimento de interpelação do pensamento social brasileiro dos últimos tempos. de que “a historiografia de Caio Prado Júnior se constrói para balizar a política comunista no Brasil a partir de alguns termos pares que afloram e sempre voltam em seus textos. campesinismo e generalidade (mercado interno nacional). 2001. Partindo deste ponto levanta sua hipótese. Nesse sentido. mas como que estariam trazendo teses para a reformulação da própria idéia de política socialista no Brasil. justamente em torno da questão que ele chamava de falta de ‘fundamentos’ da política comunista no Brasil” (Idem. 292). Raimundo Santos procura demonstrar que a reconstituição de uma unidade entre a obra básica de Caio Prado Júnior e a publicística do autor. 2000: 17).Contemporâneo “desde cedo o põem em conflito com o seu partido. “entre circunstância de pensamento social e condição militante”. “não só mostraria como os textos políticos de Caio Prado Júnior não são meros opúsculos para consumo em pequenas querelas ad hoc. p. no autor sempre pensada a partir da compreensão do conjunto da formação social em sua especificidade” (Idem. Caio Prado “sempre está buscando por à mão de seu partido elementos de teoria política para um socialismo definido de acordo com um programa de grandes reestruturações que as dissertações sobre a contemporaneidade brasileira lhe indicavam” (Ibidem). Assim.

. ou tipo especifico de “sentimento dos problemas” brasileiros. Caio Prado Júnior como um autor igualmente portador de aberturas analíticas. Leão Rego pretende chegar ao pensamento do historiador buscando a compreensão da lógica interna de suas idéias. traga. Rubem Murilo Leão Rego indica como eixo articulador da imagem de Brasil proposta por Caio Prado Júnior a idéia de constante “modernização . que. Bonfim.curso. De modo diferente a de outros autores. os quais identifica no tipo de “definição dos sujeitos dos processos sociais” (Ibidem). Afirma que “só muito recentemente chegam as primeiras manifestações sobre a atualidade de Caio Prado Jr. É este justamente o tema central de outro trabalho recente dedicado a Caio Prado Júnior: Sentimento do Brasil – Caio Prado Júnior – continuidades e mudanças no desenvolvimento da sociedade brasileira de Rubem Murilo Leão Rego. e ainda nos casos de Furtado. segundo ele assume uma perspectiva original. Ignácio Rangel e outros” (Idem. O autor procura mostrar que existe uma “dupla via em que se desenvolve a análise caiopradiana. entre suas surpresas. bem como tornando aparente as linhas de força de sua análise. 2000: 16). a começar pelo tema posto na ordem do dia pelas questões novamente trazidas pelo drama do mundo rural” (Ibidem). como vem acontecendo em relação a Gilberto Freire em algumas dimensões interdisciplinares. de um lado buscando reconstruir o modo de desenvolvimento do capitalismo no país que não se explica dentro dos limites estritos da nação e de outro procurando compreender porque esse processo é excludente e não democrático – essas duas questões definem o caráter da ruptura e o caráter fundador de sua macrointerpretação” (Rego. 2001: 293).

eliminam ou coexistem com os tradicionais traços arcaicos geradores da nossa miséria. a crítica tem enfatizado a “originalidade” de Caio Prado Júnior seja quanto ao método. conceito desenvolvido por Lênin e Gramsci. embora diferentes intérpretes . de consumo e de trabalho. suas reflexões têm a força da denúncia dos efeitos perversos do processo de transformação-persistência da grande propriedade funidária (Idem. *** Como se pode depreender da exposição realizada. Ou mesmo se esse mesmo processo de modernização não tem sido também um importante fator de expansão da miséria e da pobreza da população por ele excluída. ampliada do antigo sistema colonial. mostrando como as inovações as quais está exposta a estrutura brasileira se combina com a conservação e a reprodução. Por isso. ganha sentido sua preocupação sobre em que medida os processos de modernização capitalista das relações sociais e da estrutura produtiva sujeitam.conservadora”. Como visto também. especialmente no mundo agrário. Para o autor a questão agrária ocupa lugar central na imagem caiopradiana do Brasil. particularmente mas não exclusivamente em função da introdução do marxismo nas chamadas interpretações do Brasil. tanto no primeiro quanto no segundo grupo de trabalhos destacados. em sua opinião. já que nela a permanência do latifúndio está na gênese do fato de que o Brasil moderno reproduziu. Assim. 2000: 27). consolidou e até expandiu os processos de exclusão e de marginalização social que caracterizam toda a nossa história. Sugerindo a atualidade de Caio Prado. de molde a produzir efeitos positivos sobre a melhoria de suas condições de vida. seja quanto ao caráter normativo de “transformação social” envolvido na sua obra. sugere Leão Rego: Entre suas preocupações nucleares está a que procura constatar se as transformações ocorridas na estrutura da produção agropecuária resultaram ou não numa ampla incorporação populacional a uma estrutura de mercado.

Aspectos de uma trajetória Caio Prado Júnior nasceu na cidade de São Paulo em 11 de fevereiro de 1907. aos 83 anos. Faleceu na mesma cidade em 23 de novembro de 1990. no próximo capítulo. 1. CAPÍTULO 2 CAIO PRADO JÚNIOR E FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO Recuperamos neste capítulo aspectos centrais da trajetória de Caio Prado Júnior sugerindo como nela as dimensões intelectual e política estão profundamente articuladas conferindo-lhe sentido próprio. faço. bem como da estrutura narrativa da obra selecionada para análise. Dentre . ela não têm se constituído exatamente em objeto específico das análises recentes. 2000: 19-21. D’Avila. Na segunda parte do capítulo. como estamos nos propondo a fazer.se refiram e/ou destaquem em medidas diferentes a importância da idéia de formação na obra do historiador paulista. apresentamos brevemente as linhas fundamentais do contexto intelectual. Berriel. cuja história confunde-se com a do baronato cafeicultor paulista e do próprio estado de São Paulo (Levi. 1977. 2004). mas necessária. 2003. apresentação dos traços fundamentais da trajetória intelectual e política do autor. Karepovs. da concepção historiográfica e do plano narrativo de Formação do Brasil contemporâneo. objeto central do trabalho. Antes de apresentar e discutir a idéia de formação em Formação do Brasil contemporâneo de Caio Prado Júnior. uma rápida. Pertencia a uma das famílias mais abastadas e influentes do Brasil.

Com a morte de sua primeira esposa casa-se com Francisca de Siqueira Moraes e se coloca como membro da elite paulistana sendo inclusive um financiador de uma expedição de ouro em Goiás em 1730. Seu primeiro membro a viver no Brasil foi Antônio da Silva Prado. terrenos e comércio na região central. Martinho Prado (1722-1770). destacam-se não apenas comerciantes. Suas atividades nos ramos do empréstimo e do comércio lhe . Seu sucessor Antônio Prado. correspondia a casas. mais que fortuna. vindo de Prado. Casa-se com Filippa do Prado. um de seus filhos. foi um dos membros que mais se destacou na primeira geração. em cuja família encontravam-se notórios bandeirantes. que sua origem remonta à nobreza portuguesa do século XIII. Ilustrando o quadro do aparecimento da família Silva Prado. que na incipiente cidade de São Paulo. Sabe-se. um patrimônio respeitável. por meio da esposa. Os resultados desta empreitada não são conhecidos.seus ancestrais. temos que recuar aos idos da colônia. sabe-se que sua fortuna quando a época de seu falecimento foi modesta contando entre os bens mais valiosos deixados por ele uma rede de amigos e associados sem a qual certamente seria difícil o sucesso de seus herdeiros (Karepovs. 2003). casado com Ana Vicência Rodrigues de Almeida. herda. chega em São Paulo no decorrer da primeira década do século XVIII. no entanto. Ao chegar ao Brasil. empresários e políticos. fazendeiros. sua cidade natal. Remonta já desta época a participação política da família. Antônio da Silva Prado articula desde cedo uma rede de influência importante. como ainda dois importantes historiadores: Eduardo Prado e Paulo Prado. Esse. Antônio elege-se para a Câmara Municipal de São Paulo. ruas São Bento e do Carmo.

Ao morrer sua esposa casa-se com seu irmão. recebendo personalidades. promovendo encontros e debates entre as mais diversas tendências e credos políticos (Karepovs. foi o primeiro deputado republicano à Assembléia Constituinte de São Paulo e um dos abolicionistas e promotores da imigração européia subvencionada mais destacados. 2003: 8). Sua filha D. provavelmente. Compra em 1878 um terreno na então Rua Santa Cecília (hoje rua Dona Veridiana) e constrói um palacete onde mantém o salão literário mais importante da cidade de São Paulo. segundo filho de Veridiana. O terceiro Antonio Prado (1788-1875) recebe através de D. é escolhido prefeito da cidade em 1899. 2004).rendem fortuna. Antônio Prado (tio-avô de Caio Prado Junior). 2003: 9). inaugura. Destacaram-se entre suas atividades o comércio de açúcar e ainda seus serviços prestados à Coroa como coletor de impostos. Seu currículo ilustra seu empenho em reformar os convencionalismos e os padrões tradicionais da política do Império. provavelmente com fins pragmáticos de manter a fortuna em família (Ibidem). Filho de Veridiana Prado. bisavó de Caio Prado Júnior. Pedro II o título de Barão de Iguape em 1848. Obteve sucesso na administração da cidade sendo seu trabalho marcado pelo embelezamento da cidade bem como de obras de elevada importância cultural como é o caso do Teatro Municipal de São Paulo e da Praça da República. Veridiana da Silva Prado (1826-1910). Mulher emancipada separa-se do marido Martinho Prado e exerce grande influência tanto na família quanto na sociedade paulista do final do século XIX. avô de Caio Prado Junior. na família a verve “revolucionária” (D’Avila. cargo que ocupou até 1910. Martinico da Silva Prado Junior (1843-1906). . (Karepovs.

respondeu Veridiana. como Martinico Prado. como é o caso de Caio Prado Junior. Incentivou a educação não rígida dos filhos como parte de seu republicanismo e de seu repúdio aos costumes não tradicionais. Segundo uma versão da historia. Em 1887. tenderam para idéias de cunho liberal. Sabe-se que seu espírito inovador repercutiu fortemente na formação de seus filhos. Numerosa. sempre recorria ao exemplo da França e Estados Unidos. ele afrontava a elite paulista com pensamentos libertários e democráticos europeus defendendo a aplicabilidade dos mesmos no Brasil.Já. Martinico Prado Neto. quando cursava a Faculdade de Direito. de seis anos de idade e filho de Martinico. Durante o encontro. Pedro parou colocou sua mão sobre a cabeça do menino e perguntou: “este quem é?” “Filho de Martinico”. Na versão de Caio Prado Júnior. países pioneiros na modernização do Estado. tendo como membro o pai de Caio Prado Jr. adotando caráter progressista e. levando às últimas conseqüências a vida segundo ideais revolucionários. sim.. para salientar a necessidade de reformas políticas no país (Karepovs. 1956). esta história tinha uma diferença. teria manifestado certa raiva (Karepovs. Sorrindo. o imperador teria dito: “tão pequeno e já com instintos revolucionários como o pai”. Pedro II não teria sorrido ao saber da identidade de seu pequeno agressor. 2003: 9). governanta alemã que cuidou dos seus filhos.Pedro II. alguns membros da família Silva Prado. fato que Ina von Binzer. sofrendo por isso prisões e censura durante a sua vida. D. atingiu o imperador na face com uma bola de pétalas de rosa. sua família era reconhecida como um clã de rebeldes. cuja educação diferiu em muito da recebida em famílias típicas da elite brasileira. . e ainda situar sua posição na vida social paulista é curioso conhecer um caso contado em família. e. narra em seu livro de memórias Alegrias e tristezas de uma governanta alemã no Brasil. D. Como deputado pelo Partido Republicano em 1878. sua mãe – Veridiana – promoveu uma recepção para D. 4 Para ilustrar o comportamento dos filhos de Martinico Prado. 4 A despeito de sua condição de elite. salientando que os pequenos Prados tinham a fama de crianças mais “mal criadas” de toda São Paulo (von Binzer. 2003: 10). neto de Martinico.

à época. Por esta época. como observou Sérgio Miceli. Fundado em 1926. Teve. influenciado pelo pai. dos jesuítas. de ser convocados para os escalões superiores do serviço público. 1993. de professores particulares. em seu início. que neste mesmo ano se mudara da cidade de Itu para a Capital.6 Em 1928 ingressou no Partido Democrático (PD). estudou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. seja do governo central” (Miceli. tornando-se Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais aos 21 anos. . Nele permaneceu até a conclusão de sua formação secundária. Inglaterra. “pois não se dedicou à advocacia” (Iglésias. 2003: 10-11). Exerceu a advocacia por alguns anos (Karepovs. 2003: 11). em Eastbourn. com a orientação.Caio Prado Junior. centralizando “tanto a produção intelectual nacional. rico contato com o universo da crítica e do ensaísmo político. quanto parte significativa dos meios materiais de sua divulgação através de revistas e jornais jurídicos e literários” (Botelho. ver Nagle. 6 Embora como aponta Francisco Iglésias o “curso de direito. 2001: 118). ingressou no Colégio São Luis. “os estudantes dos cursos jurídicos tinham não apenas a pretensão mas também a possibilidade objetiva de ingressar nas carreiras ligadas ao trabalho político e intelectual ou. Entre 1924 e 1928. no âmbito seja das administrações estaduais. na Faculdade de São Paulo” pouco tenha valido a Caio Prado Júnior. o PD reunia parte da elite paulistana descontente com a hegemonia do Partido Republicano Paulista. talvez não se devesse minimizar a experiência de sociabilidade intelectual e política da instituição para a compreensão da formação do historiador paulista. como também uma “instância mediadora na importação e difusão da produção intelectual européia no país“. um dos principais sustentáculos do pacto liberal-oligárquico conhecido como “política do café-com- 5 Sobre a formação escolar da elite brasileira do período. e por não tolerar o Partido Republicano Paulista (PRP). durante a Faculdade de Direito. (Karepovs.5 Em 1918. freqüentou por um ano o colégio Chelmsford Hall. instalando-se na Avenida Paulista. em casa. 2000: 200). De modo que. teve formação escolar privilegiada contando. não apenas o reforço institucional da socialização da elite brasileira. 2002: 57). tendo esta apenas um ano de interrupção. como era comum entre as elites da época. em razão de doença de um de seus irmãos. ao longo da Primeira República. Para uma visão integrada do tema. 1977. então. ver Needell. A Faculdade de Direito constituía. uma vez que se indignara com fraude promovida por esse nas eleições municipais daquele ano.

Após a vitória das forças aliancistas. 1975. Júlio Prestes. 1975 e Schwartzman. . organizando o Partido Democrático nos bairros e no interior do Estado. Caio Prado Júnior participava intensamente como militante. Caio Prado Júnior foi designado para a Delegacia Revolucionária de Ribeirão Preto.leite” que predominou no Brasil nas primeiras décadas do século XX. em 31 de dezembro de 1929. em campanha eleitoral. Love. Antônio Prado. Dando-se conta da inutilidade de seus esforços. apurar casos de corrupção. e em especial. e ainda prestando serviços de rotina como a organização de comícios. estando em uma recepção oferecida a Julio prestes por membros da elite paulista. Por esta ocasião teve sua primeira prisão quando. Durante a campanha para as eleições presidenciais de 1930 o Partido Democrático apoiou Getúlio Vargas. Tendo sido derrotada nas urnas. contra o candidato oficial do regime representante do PRP. destacara-se entre os fundadores desse novo partido. 7 Sobre o Partido Democrático ver Carone. logo depois participando de episódios que antecederam a chamada Revolução de 1930 (Ibidem). deu um viva à Getúlio Vargas (Ibidem). candidato da Aliança Liberal. a Aliança Liberal iniciou os preparativos para um golpe de estado que desembocaram no movimento armado de 3 de outubro de 1930.7 É interessante notar ainda que seu tio-avô. pois seus inquéritos eram imediatamente arquivados. Uma de suas atribuições foi realizar um levantamento sobre os abusos do governo deposto. 1977. Caio Prado Junior participa neste momento de operações de sabotagem nas instalações de comunicações da estrada para o Rio de Janeiro (Ibidem). Embora não ocupasse posição de destaque. e. onde trabalhou cerca de três meses.

então. seguindo esta mesma orientação chamada “obreirista”. avaliada como “pequeno-burguesa” (Karepovs. Aproxima-se. sua origem social e ainda sua conhecida independência frente aos cânones ideológicos. 8 Neste momento. 2003: 12). em virtude de suas atividades profissionais. Ao entrar no PCB. encontra um momento particularmente difícil para os intelectuais. perseguindo em suas “fileiras” os que se identificavam com a linha política anterior. como é o caso de Astrojildo Pereira e Otavio Brandão. 1997 e Ricupero. nem sempre pacífica. diversos cargos da direção do partido foram ocupados por operários e militantes que pareciam se identificar com a nova orientação (Idem. o partido acusava a social-democracia como tributária do fascismo. Ainda. . ver Brandão. dedica-se entre outras atividades à tradução do Tratado de Materialismo Histórico. do marxismo.logo se afastou do cargo e decepcionado com a inconsistência política e ideológica da chamada “República Nova”. já que para se adequar às novas orientações políticas preconizadas no VI Congresso da Internacional Comunista. No período. como ele mesmo assinalou anos mais 8 Sobre Caio Prado Júnior e o PCB. foram destituídos ou afastados da direção partidária ou convidados a realizar “autocríticas” quanto a sua militância política. 2003: 12). ou ainda origem social. 2000. de autoria de Nicolai Bukharin. vários intelectuais. editado em quatro volumes pelas Edições Caramuru em 1933 e 1934 (Ibidem). marcaram quase que de modo permanente sua longa relação. filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1931. com o PCB. No caso de Caio Prado Júnior sua condição de intelectual.

estava o de “mostrar.tarde: “Nunca pertenci à direção do Partido. que eu considerava falhos. pela oposição a seus esquemas políticos e econômicos. Entre seus objetivos. portanto. em 1946. num livro ao alcance de todo mundo. no entanto. que também na nossa história os heróis e os grande feitos não são heróis e grandes senão na medida em que acordam com os interesses das classes dirigentes. no que diziam respeito ao Brasil” (Apud Karepovs. Sempre fui um elemento secundário e mal considerado. como Evolução Política do Brasil e outros estudos. inaugurando. em 1933. ao lado de outros ensaios anexados. Fato relevante é que este livro aparecia com o subtítulo de “Ensaio de interpretação materialista da história brasileira”. em cujo benefício se faz a história oficial” (Apud Karepovs. Caio Prado. Sempre fui muito marginalizado no Partido. nem tive nele grande prestigio ou influência. não em termos pessoais. o que remetia à originalidade de seu pensamento pretendendo diferenciá-lo das interpretações da sociedade brasileira anteriores e mesmo então correntes. procurou traçar a síntese da nossa evolução política. 2003: 12). com a publicação. Nessa obra. o uso de nova chave de interpretação da sociedade brasileira: o materialismo dialético. 2003: 8). de A evolução política do Brasil. no país. em meio às atividades políticas que Caio Prado inicia sua atividade propriamente intelectual. É. Em Evolução Política do Brasil já antecipa uma de suas teses fundamentais daquilo que viria a ser tanto a sua obra como todo quanto seu debate junto ao . publicada por sua conta. abandona este subtítulo e o publica. mas por causa da minha maneira de interpretar o Brasil.

Para Francisco Iglesias autores anteriores a Caio Prado Júnior não apontavam o interesse que o período dispõe justamente pelos movimentos populares: “a revolta dos cabanos. 9 Outros autores contemporâneos. dois historiadores com certo alcance junto à intelectualidade da época. da transição e do Império. notabilizou-se com Retrato do Brasil de 1928 (Berriel. Esta será uma das idéias básicas. 1999). 2000: 22). Ainda inovadora é sua detida narrativa sobre as revoltas do período da Regência. 2000: 202) Outro tema que o acompanha durante sua vida intelectual e política e que analisa já neste seu livro de estréia é o do latifúndio. muito repetida em outros escritos e uma das origens de suas discordâncias com os rotulados marxistas locais (Iglésias. Sintético. Oliveira. . 2000).9 Como sugeriu Francisco Iglésias sobre o livro: percebe-se no autor pleno domínio da trajetória nativa. com A Ilusão Americana (1893). Não se fala em feudalismo. Caio Prado Júnior tinha em sua família. a despeito de sua grande diferença e originalidade no campo da história.Partido Comunista Brasileiro: a impossibilidade de entender o período colonial brasileiro como feudal. de modo atenuado e de todo revisto em texto posteriores -. como Celso Furtado também se debruçariam sobre o tema a fim de contestar a ocorrência de feudalismo no Brasil. Há aí achados brilhantes e definitivos. em visão original. apreende o essencial do processo da Colônia. Paulo Prado. e posteriores. como Roberto Simonsen (1937). um dos principais financiadores da Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922 e elemento de coesão intelectual e social do modernismo paulista. a dos balaios e a agitação praieira têm lúcidas análises. como já se assinalou. sócio fundador da Academia Brasileira de Letras. quando antes quase não eram objeto de atenção” (Idem. situando-o aos idos da colônia e ao modo de produção próprio da mesma. como era comum – fala um pouco. primeiro livro apreendido pela polícia republicana em São Paulo (Ibidem. pela aplicação de categorias do mundo europeu. e seu tio-avô Eduardo Prado.

nesse caso a experiência do comunismo na União Soviética. datada do ano seguinte. de acordo com seu entendimento. Em 1934. 2000) – tendo também o estudo problemas com a censura do Estado Novo (Karepovs. Embora sem .R. 2003: 12).S. já havia estudado por meio de depoimentos de terceiros.R. Caio Prado Júnior realiza uma viagem de estudos à antiga União Soviética a fim de conhecer pessoalmente o que. Caio Prado Júnior se matricula na recém-criada Faculdade de Filosofia. U. 2003: 12). o considerava ultrapassado (Iglésias. um novo mundo.S.. U. seu interesse pela história viva.S. segundo Francisco Iglésias. Caio Prado relata sua viagem em concorridas conferências realizadas no Clube de Artistas Modernos em São Paulo (organização que ajudou a fundar. após seis meses. Ao retornar ao Brasil. tanto da China como da União Soviética. acabou sendo apreendida pela polícia. Neste desenvolve análise mais detalhada daquela experiência. Caio Prado já desenvolveria uma das chaves que o caracteriza como historiador. participando inclusive da formulação de seus princípios junto com seu irmão pintor Carlos Prado em 1932). publicado em 1934 e cuja segunda edição. um novo mundo trata tanto dos resultados conquistados da revolução que admirara e observava. sendo por ele abertamente defendida (Karepovs. O próprio Caio Prado Júnior. Neste. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. em 1935. 2003: 13) Anos mais tarde retoma aquela temática em outro livro: O mundo do socialismo (1962). Teve uma reedição apenas.No mesmo ano de 1933. assim como da ideologia que a sustentava e ainda o marxismo – ideal que o demoveu por toda vida.S.. apenas iniciada até então (Karepovs. Tamanho interesse despertado no público paulista motiva Caio Prado a escrever o seu segundo livro.

Paul Langevin. das quais Caio Prado era assinante e leitor atento (Ibidem). intelectuais como Lucien Febvre. especialmente os geógrafos Pierre Moinbeing e Pierre Deffontaines. e ainda sua participação e vivência em um ambiente cultural em que tinha como interlocutores. mantida por esta associação. entre outros. que viriam influenciar seus trabalhos posteriores (Karepovs. direta ou indiretamente. Jean Perrin. no campo de interesse da historiografia destacam-se a REVUE HISTORIQUE e os ANNALES DE HISTOIRE ECONOMIQUE E DE SYNTHÈSE SOCIALE.interesse em concluir o curso. que segundo a orientação do VII Congresso Internacional Comunista congraçavam todas forcas políticas que se opunham ao fascismo e ao nazismo. na época do Front Populaire. Henri Berr. No Brasil o resultado dessa nova orientação antifascista foi o surgimento da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Marc Bloch. (Iumatti. em 1935 formaram-se por todo mundo as chamadas “frentes populares”. O destaque nesta fase quanto às suas leituras científicas é para as revistas que repercutiam questões epistemológicas postas pelas recentes descobertas ocorridas em vários campos das ciências e que. que agrupava um variado . 2003: 13). Dentre um amplo campo de interesse no qual Caio Prado Júnior se formou. 2000). Caio Prado participa de turmas dos cursos de História e Geografia. pois não tinha necessidade do diploma. tornando-se em seguida um dos principais colaboradores da revista “Geografia”. Paulo Teixeira Iumatti destaca sua experiência a partir do debate com cientistas europeus. onde trava estreito contato com os professores da missão francesa que deram início aquela Universidade. No mesmo ano. Voltando à cena política. Caio Prado participa da fundação da Associação dos Geógrafos do Brasil.

no Rio Grande do Sul. Em decorrência de suas atividades frente à ANL em São Paulo. foi preso em dezembro de 1935. mas que atingiu uma ampla gama de opositores de Getúlio Vargas. Caio Prado Júnior assumiu a vice-presidência regional da ANL em São Paulo. e trazido a São Paulo. requereu um habeas-corpus que lhe valeu a liberdade. O fracasso do movimento levou a uma imediata repressão política. sucessivamente prorrogado até junho de 1937 (Ibidem). em abril de 1937 acabou denunciado por crime contra a segurança nacional. Nessa função. Após um breve período de legalidade. inclusive o Partido Comunista. 2003: 13). Ali. Recife e Rio de Janeiro. e fechada em junho de 1935. em Natal. palestras. mas com suspensão do estado de sitio em 1937. marcadamente anticomunista. do qual foi um dos diretores (Karepovs. viagens. após o desencadeamento da insurreição armada comunista. organizou diretórios municipais pelo Estado.espectro de forças sociais que se opunham ao governo Vargas. Caio Prado Júnior foi submetido a uma severa vigilância por parte da policia política paulista e. e que culminou com a aprovação do Estado de Sítio. além de redigir artigos publicados. a idéia de uma insurreição armada ganhou corpo e foi levada a cabo em fins de novembro. . sobretudo. general Miguel Costa. como militante do Partido Comunista Francês (PCF). (Ibidem). pelo diário paulistano A Platéia. chamada “Lei Monstro”. indo exilar-se na França. Ficou preso durante dois anos. Nos meses subseqüentes. Imediatamente saiu do Brasil. comícios. que teve como presidente o ex-comandante da Coluna Prestes. realizou. a ANL foi enquadrada na Lei de Segurança Nacional.

Tito Batini. João Amazonas.atuou em tarefas de apoio e solidariedade aos combatentes republicanos na Guerra Civil Espanhola (Ibidem). Estes reunindo-se nos “Comitês de Ação” contrapuseram-se àqueles e inspirados na ANL defenderam abertamente uma luta contra o “fascismo” do Estado Novo . 2003: 14). graças às relações deste junto ao Eixo durante a Guerra (Karepovs. Este acaba por apoiar Getúlio Vargas. sua militância políticopartidária foi muito restrita. portanto. Heitor Ferreira Lima. ao lado dos paises aliados e. sediada no Rio de Janeiro e tendo à frente o chamado “grupo baiano”. Os passos políticos previstos durante o chamado “Encontro da Mantiqueira”. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Diógenes Arruda. representados principalmente por Mário Alves. foi possível ao PCB voltar a se organizar. Zacharias de Sá Carvalho. pois o Partido Comunista Brasileiro fora fortemente abalado pela repressão policia do regime ditatorial varguista (Brandão. Após seu retorno. 1997). em plena ditadura do Estado Novo. Frente à iminência do desencadeamento da Segunda Guerra Mundial. Astrojildo Pereira e Mario Schenberg. David Lerner. pois ainda estava preso. formou-se a Comissão Nacional de Organização Partidária (CNOP). Nesse encontro. Caio Prado retornou ao Brasil em 1939. realizada na Serra da Mantiqueira. Maurício Grabois e Pedro Pomar tem como resposta a divergência de outro grupo que em São Paulo e Rio de Janeiro tinha como participantes Caio Prado Júnior. da União Soviética. em agosto de 1943. o que ocorreu após a Segunda Conferência Nacional. na qual Luis Carlos Prestes fora eleito secretário-geral in absentia. Victor Konder. pois também fora absolvido em dezembro de 1938 das acusações que sobre ele pesavam no Tribunal de Segurança Nacional.

a monocultura e a escravidão tratando também dos aspectos econômicos do Império e da República. Caio Prado Júnior não segue os dissidentes e permanece no PCB. Na década de 1940.(Ibidem). em 1945. Dedica-se à atividade editorial. Martinho Prado Neto. tendo como linha editorial a ênfase às Ciências Sociais e particularmente estudos e textos voltados à interpretação do Brasil como é o caso da coleção “Problemas Brasileiros”. Neste momento Caio Prado participa da fundação da União Democrática Nacional (UDN). Hermes Lima. Entre as obras literárias. Leandro Dupré. Em 1943 funda a Gráfica Urupês e a Editora Brasiliense. retoma sua produção intelectual em artigos. e chega a ser cotado para candidato à presidência da República com o apoio de liberais e comunistas aos quais servia como interlocutor intermediário (Ibidem). prefácios e principalmente publicando Formação do Brasil Contemporâneo. consegue a união dentro do PCB em torno da CNOP minimizando os conflitos internos e provocando mais tarde a dissidência de membros dos “Comitês de Ação” que criariam em 1945 o Partido Socialista Brasileiro (Ibidem). em 1942 – obra que o coloca em posição de destaque junto aos intérpretes do Brasil. vindo depois a contar com Monteiro Lobato entre outros. e já nos últimos anos do Estado Novo participa da revista Hoje – O Mundo em Letra e Forma. a editora é responsável pela . a qual visava colocar e apontar os problemas nacionais e se possível caminhos para solucioná-los. dentro de um certo recorte temático. Tem entre seus sócios seu pai. Arthur Neves. Ao sair da prisão Luis Carlos Prestes. Em 1945 retoma a análise do período colonial em História Econômica do Brasil dando ênfase à busca do sentido da colonização brasileira em que destaca por base econômica o latifúndio.

quando teve seu mandato cassado durante o exercício do governo do presidente Eurico Gaspar Dutra.publicação das obras completas de Lima Barreto. figurando como um elemento articulador dos vários segmentos da esquerda brasileira. o Partido Comunista Brasileiro retoma suas atividades de forma aberta e passa a contar com novos colaboradores entre eles escritores como Jorge Amado. Caio Prado participa da redação final de “Declaração de Princípios”. texto que articula os principais pontos tratados no I Congresso Brasileiro de Escritores. com a volta do estado de direito. quando mais uma vez o PCB volta a ilegalidade. ainda em 1945. após dezoito anos na ilegalidade. Graciliano Ramos e Álvaro Moreira. o arquiteto Oscar Niemeyer e inclusive Caio Prado Júnior que iria se candidatar por sua legenda nas eleições de 1945 e 1947. Participou ainda da criação do jornal Hoje. Volta a ser preso. Dedica-se neste momento aos estudos de . após protesto público contra a cassação dos mandatos do PCB e uma vez liberto retoma as atividades junto a editora Brasiliense. (Idem. Documento no qual afirma-se ainda a posição dos escritores frente ao Estado Novo e seu compromisso com a defesa do voto direto. Em 1945. o jornalista Aparício Torelli. como colaborador e acionista cedendo inclusive uma parte do imóvel aonde se instalava sua editora. Com intensa atividade política. o físico e professor Mario Schenberg. 2003: 8). o pintor Candido Portinari. Eleito deputado estadual em 1945. do Partido Comunista Brasileiro. Monteiro Lobato e Maria José Dupré. Caio Prado Júnior participa no período de ações contrárias ao Estado Novo. Caio Prado foi o líder da bancada do PCB na Assembléia Legislativa de São Paulo até 1947. o fim da ditadura e o exercício da democracia.

Em 1955. Gerard Lebrun. Gianfrancesco Guarnieri. Édson Carneiro. Neste. Afrânio Coutinho. Régis Duprat. Escreve em 1954 Diretrizes para uma política econômica brasileira concorrendo a Cátedra de Economia Política da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo a despeito de reconhecer sua difícil aprovação devido ao conhecido conservadorismo daquela instituição. Herbert de Souza. entre outros assuntos Caio Prado discute e. Catullo Branco. Fernando Henrique Cardoso. Antonio Candido. Elias Chaves Neto. Entre seus principais colaboradores estavam Manoel Correa de Andrade. o que colocava a reforma agrária como principal item . Francisco de Assis Barbosa. Maria Isaura Pereira de Queiroz. Reunindo alguns dos seus artigos. Jean Claude Bernadet. Caio Prado Júnior publica.filosofia e economia. Caio Prado Júnior lança a Revista Brasiliense. Michel Lowy. entre outros. 2003: 22). Edgard Carone. mais uma vez. Pretende ampliar os debates entre os interlocutores interessados em discutir o tema da formação da sociedade e do estado nacional brasileiro através da resolução de suas contradições. dado a qualidade do material apresentado (Idem. se contrapõe à tese defendida pelo PCB sobre os “resíduos feudais” na sociedade brasileira – segundo a qual o principal entrave da economia brasileira era a permanência do latifúndio. uma vez que não havia como sua tese ser reprovada. Florestan Fernandes. publicando também artigos na revista Fundamentos – sendo ainda membro da Comissão de Redação da mesma. coerente com as publicações da editora. resenhas e editoriais publicados na Revista Brasiliense. A questão agrária no Brasil. Otávio Brandão. Obteve assim o título de livre docente. em 1979. Josué de Castro.

O discurso que fez ao receber o prêmio Juca Pato (intelectual do ano) pode ilustrar seu ideal para uma prática intelectual: “refiro-me ao intelectual atuante. Publica em 1966 A revolução brasileira. e daí contempla sobranceiro o mundo. Para Caio Prado que defendia a tese da inexistência de um feudalismo no Brasil. deste feita pelo DEOPS-SP. 2003: 24).de resolução dos problemas nacionais. Caio Prado Júnior atribuía ao desconhecimento das reais condições e necessidades do país o fracasso político do PCB em 1964 (Karepovs. detido. Em 1964 a Revista Brasiliense foi extinta por ordem do regime militar que se instaurara em Abril daquele ano e Caio Prado foi. Por esta época o historiador paulista reafirma sua condição de intelectual cujo pensamento estava articulado à prática política. Durante todo este período a Editora Brasiliense e sua livraria estiveram sob o controle sistemático da censura tendo Caio Prado sofrido apreensões. Por isso criticava os que entendiam ser a reforma agrária o ponto chave para o desenvolvimento do socialismo mesmo porque já havia apontado a natureza capitalista da agricultura brasileira. mais uma vez. . ao homem de pensamento que não se encerra em torre de marfim. obra em que analisa as perspectivas econômicas e políticas do período e critica escolhas e erros do PCB. 2003: 23). E sim aquele que procura colocar o seu pensamento a serviço da coletividade em que vive e da qual efetivamente participa” (Apud Karepovs. o país deveria ser pensado como economia integrada no sistema mundial do capitalismo. prisões e submetido a depoimentos. Segundo ele o partido ao pensar e propor caminhos para a sociedade brasileira se apropriava de “modelos estranhos e inaplicáveis” à realidade brasileira.

O que é filosofia? (1981) e A cidade de São Paulo (1983). Formação do Brasil Contemporâneo e as questões do seu tempo Caio Prado Júnior escreve Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia interessado em dar conta do que chama de “sentido da formação” da realidade do Brasil até o presente em que vivia. quanto número de volumes previstos no . Deste esforço publica O estruturalismo de Levi-Strauss e O marxismo de Louis Althusser. Consta que o autor pretendia dar continuidade ao trabalho noutros volumes que seguiriam ao publicado em 1942 dedicado à colônia. Notas introdutórias à lógica dialética (1959). Em tese escrita e intitulada Historia e Desenvolvimento criticava a política econômica em curso na época que se mostrava equivocada por se basear em modelos criados para casos onde o capitalismo já havia amadurecido (Ibidem). Durante este período se dedica à revisão e debate de idéias em voga entre a intelectualidade da época e que julgava mal pensadas. instigado por amigos e inclusive pelo próprio Sérgio Buarque. É prejudicado pelo AI-5 e impedido de atingir seu objetivo. à livre-docência em História com fins de ocupar a cadeira de Sérgio Buarque de Holanda. 2. Escreveu além das obras já citadas. Dialética do Conhecimento (1952). O que é liberdade? (1980). Concorre. Foi indiciado e condenado a quatro anos de prisão ficando preso até 1971 na Casa de Detenção Tiradentes sendo depois transferido para o Quartel de Quintaúna. Não há consenso. no entanto. Esboço dos fundamentos da teoria econômica (1957).Em decreto de 1969 foi “aposentado” de sua condição de livre-docente na Faculdade de Direito da USP.

particularmente Populações Meridionais do Brasil (1920). quando. de 1945. se enquadra em . tendo o livro obtido vários anexos posteriores. pelo movimento modernista. já perceptível na década de 1920. deixando de lado a análise dos aspectos sociais e políticos que distinguem Formação do Brasil Contemporâneo.projeto original que. pela repercussão da revolução russa no Brasil. não chegou a se efetivar. por exemplo. Carlos Nelson Coutinho (1989: 115) e José Roberto do Amaral Lapa (1999: 261) falam em mais 3 volumes que chegariam a contemporaneidade. partira para outros campos do saber como o da filosofia e que em História Econômica do Brasil. e tampouco foi apontado pelos intérpretes anteriores. atêm-se em História Econômica do Brasil na análise das conjunturas e processos econômicos. 1982: 12). fala em apenas mais dois volumes. Os motivos pelos quais desistiu de continuar sua empresa não nos é conhecido. segundo Francisco Iglesias. Já Francisco Iglésias (2000: 203). Sabemos. animada pelas discussões contemporâneas ao centenário da Independência. Quanto ao horizonte ou contexto intelectual de Formação do Brasil Contemporâneo. percorre todo o trajeto antes imaginado para Formação do Brasil Contemporâneo de 1942. de fato. entre outros fatores. “se dá uma tentativa de redescoberta do Brasil”. Embora retomando parte deste e seguindo sua análise até 1976. devemos situar este trabalho dentro do quadro de uma renovação intelectual. Tal renovação. e Retrato do Brasil (1928) de Paulo Prado. no entanto que Caio Prado Júnior. tendo uma extensa produção intelectual. com os trabalhos. momento em que “o país crescera em população e vê o despertar de uma consciência crítica mais profunda e menos episódica” (Iglésias. de Oliveira Vianna.

discussões acerca do desejo de busca de uma identidade nacional que integrasse todo o território e que colocasse o país no curso da modernidade. em pleno Estado Novo repressivo e renovador. Nele se manifestava um autor que não disfarçava o labor da composição nem se preocupava com a beleza ou expressividade do estilo. apesar de tudo. da distribuição e do consumo (Idem. 1995: 11). sugere o autor: . Trazendo para a linha de frente os informantes coloniais de mentalidade econômica mais sólida e prática. este “publicado quando estávamos na escola superior” (Candido. Nesse sentido. também Octavio Ianni entende que com Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior respondia. Antonio Candido sugere que a sua própria geração aprendeu “a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos de passado e em função de três livros”: o próprio Raízes do Brasil. Formação do Brasil Contemporâneo surgiu nove anos depois do primeiro. dava o primeiro grande exemplo de interpretação do passado em função das realidades básicas de produção. Sobre Caio Prado Júnior e Formação do Brasil Contemporâneo neste contexto sugere Antonio Candido: Diferente dos anteriores [ refere-se a Casa-grande & Senzala e Raízes do Brasil]. à intensa agitação social. Na mesma direção de Antonio Candido. abafado pelo Estado Novo” (Ibidem). Discutindo o “significado” de Raízes do Brasil (1936) em prefácio ao livro de Sérgio Buarque de Holanda. política e cultural da década de 1930 e se inspira nesta com o intuito de prover de teoria um determinado apetite político e intelectual característico de seu tempo. de um lado. Observa Candido que estes livros procuravam exprimir “a mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e análise sociais que eclodiu depois da Revolução de 1930 e não foi. seis anos depois do segundo. 1995: 9). Casa-grande & Senzala de Gilberto Freyre e Formação do Brasil Contemporâneo.

Roberto Simonsen. Pandiá Calógeras. como observa Ianni. movimentos sociais. política e cultural. De outro lado. 1989: 64). à exceção de Casa-grande & Senzala (1933) de Gilberto Freyre. p. Já José Roberto do Amaral Lapa observa que. Gilberto Freyre. Azevedo Amaral. e mais abertamente a partir dos anos 30. Sérgio Buarque de Holanda e outros. A agitação social. Nesse sentido sugere o autor: diante das interpretações de Oliveira Lima. propostas e interpretações (Idem. suscitaram outras e novas idéias. Jackson de Figueiredo. De todo modo. Caio Prado mostra-se conhecedor de “estudos. quanto à “produção acadêmica que lhe foi contemporânea. . Caio Prado Júnior dialogava com vários autores contemporâneos e anteriores a ele. Martins de Almeida. repensa o presente e abre perspectivas sobre tendências futuras (Ibidem). contudo. desafiavam grupos e classes. aos quais. de que em alguns casos diverge quando não altera algumas de suas teses. José Maria Belo. pode ser tomada como uma interpretação diferente. Vicente Licínio Cardoso. a de Caio Prado Jr. Euclides da Cunha. 1989. controvérsias e interpretações contemporâneas e anteriores” não desprezando o desafio de “equacionar. juntamente com os impasses e as crises da economia.pode-se dizer que há uma contemporaneidade entre a interpretação desenvolvida por Caio Prado e as controvérsias e os dilemas com os quais a sociedade brasileira passou a defrontar-se desde décadas anteriores. sugere Octavio Ianni. As agitações e as crises provocavam todos. partidos políticos e intelectuais. 1999: 261). ignorou-os solenemente” (Lapa. Afonso Arinos de Mello Franco. pois redescobre o passado. formular e aprimorar uma nova interpretação dos contornos e movimentos mais característicos da formação social brasileira” (Ibidem). pouco se refere no livro (Idem. original e influente. Oliveira Viana. Gilberto Amado. Manoel Bonfim. 63). antes e depois do lançamento desse seu livro em 1942 [Formação do Brasil contemporâneo].

A utilização de tais fontes explica-se. ao não incorporar a “literatura científica sobre os temas de que trata”. Voyagens pitoresques. ainda que Caio Prado Júnior fosse “mais freqüentador de bibliotecas do que de arquivos” (Idem. par S. segundo o autor. 1816. que percorreram caminhos semelhantes. 1817. 1999: 260). feitas por diferentes autores com resultados menos expressivos” (Ibidem). registros informativos com dados demográficos. com critério e segurança capazes de superar leituras outras. estudos de itinerários e notícias descritivas em geral. vale destacar Voyage au Brésil dans les annés 1815. Dentre as fontes mais freqüentemente mobilizadas em Formação do Brasil Contemporâneo destacam-se a literatura de cronistas e tratadistas que escreveram sobre a colônia. já que no período colonial havia apenas . Já quanto às fontes primárias. ignorando-a simplesmente” (Ibidem). A. Maximillien. Francisco et dans la province de goyaz. do príncipe Maximillien de Wied-Neuwied. Amaral Lapa sugere que. cartas descritivas da costa brasileira. pela inexistência de coleta sistemática de dados. Sobre a literatura de viajantes. na medida em que o livro foi sendo reeditado. memórias e corografia histórica. bem como os relatos de viajantes. Voyage aux sources du Rio de S. B. Brésil de Henri Koster.Para José Roberto do Amaral Lapa. Voyage dans les provinces de St Paul e Sainte Catherine e Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Gerais de Auguste Saint Hilaire. S. Caio Prado Júnior “revelou auto-suficiência. e Viagem pelo Brasil de J. não concedendo sequer uma citação dessa produção. scientifiques et historiques en Amérique. “faz uma leitura atenta e inteligente. von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius entre numerosos outros relatos.

Antonio Candido: Nenhum romantismo. em conseqüência. uma exposição de tipo factual. Como linha interpretativa. inteiramente afastada do ensaísmo (marcante nos dois anteriores) e visando a convencer pela massa do dado e do argumento. Caio Prado destaca que somente pelos últimos anos do século XVIII tem-se noticia de um recenseamento seguro da ocupação que prescrevia por volta de quatro milhões o contingente populacional da época entre brancos e índios (Prado Júnior. devido ao desinteresse ou recusa da população em se alistar. a relutância em se declarar era ainda maior. Nesse sentido. que vinha sendo em nosso meio uma extraordinária alavanca de renovação intelectual e política. mas o desnudamento operoso dos substratos materiais. quanto à sonegação destes que dissimulavam o tamanho de suas paróquias às autoridades superiores da Igreja Católica. 1995: 11). nessa obra. no entanto.recenseamento com fins específicos tais como os eclesiásticos e militares. nenhuma disposição de aceitar categorias banhadas em certa aura qualitativa – como “feudalismo” ou “família patriarcal” -. Como os recenseamentos eclesiásticos visavam a oneração dos fiéis organizados em paróquias. aparecia pela primeira vez como forma de captação e ordenação do real. uma série de relações sociais estigmatizadas por outros autores. como sugerem os diferentes intérpretes vistos no capítulo anterior. com ferramentas bastante distintas da de outros ensaios do período. deixando transparecer suas . No caso do recrutamento militar. No plano metodológico. mostravam-se falhos devido tanto à relutância dos mesmos diante dos párocos. 1945). Formação do Brasil Contemporâneo teria desmistificado. e que. trazendo para a sua interpretação uma visão objetiva da vida da colônia. desligado de compromisso partidário ou desígnio prático imediatista (Candido. o materialismo histórico. por exemplo. Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia (1942). opera. como sugere.

para Ricupero mostrou como a sociedade que começou a se formar no Brasil a partir da Colônia se organizou toda ela para produzir alguns gêneros tropicais demandados pelo mercado externo. isto é. nota 55).10 Caio Prado Júnior. 1994. 2000: 158. os usos da terra. tanto a maior parte da população da colônia. com o intuito por hora de indicar a estrutura do texto. A partir daí. mas ao contrário. Formação do Brasil contemporâneo. o sentido que assumiu a colonização no Brasil que faz com que aqui tenha se desenvolvido um certo tipo de família e de ethos (Idem. não discutiram o seu sentido (Ricupero. etc. 2000: 157-8. sobre Sérgio Buarque de Holanda. 2000. .cruas relações. ver Wegner. bem como os bens naturais de que dispunha. o do aventureiro”. realçando o seu caráter econômico e fazendo saltar a vista as relações de exploração e opressão a que esteve sujeita (fazendo uso de terminologia nova). Bernardo Ricupero sugere que num confronto entre as suas obras capitais. ressalta que mesmo Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda tendo identificado questões centrais para nossa formação. ver Araújo. nota 55). “respectivamente o desenvolvimento de toda uma civilização a partir da família patriarcal e ação de um ethos particular na colônia. A 10 Sobre Gilberto Freyre. pode-se notar que não é a família patriarcal ou o aventureiro que explicam a colônia. Comparando Caio Prado Júnior aos seus “companheiros de geração” Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Casa-grande & Senzala e Raízes do Brasil. Faremos a partir de agora uma breve apresentação de Formação do Brasil Contemporâneo. segundo o autor se manteve constante e quase inalterado em certos cenários a que teve a oportunidade de conhecer por meio de viagens. gerando um determinado tipo de cultura e herança que.

Nota-se já neste primeiro capítulo de Formação do Brasil Contemporâneo toda objetividade e rigor formal que Caio Prado Júnior pretende dispor ao longo de seu trabalho. portanto. documentados em registros estatísticos localizados e examinados a luz da particularidade de cada região. Caracterizando o povoamento da colônia como sujeito a uma “evolução” entrecortada por períodos de mudanças e revoluções estruturais significativas 11 A discussão sobre a idéia de “sentido da colonização” também será contemplada no próximo capítulo. Na primeira parte. por sua vez. “Vida material” e “Vida social” antecedidas por uma introdução e o texto “Sentido da colonização”. 1999: 260). constituiu o objeto da sua narrativa. bem como a análise de outras ferramentas e metodologia aplicadas por Caio Prado Júnior na confecção daquele texto serão objeto do terceiro capítulo desta dissertação.11 Formação do Brasil Contemporâneo divide-se em três partes – “Povoamento”. já que esta é que propriamente colocou em movimento. “Povoamento”. a qual. do litoral e do interior. o autor trata dos aspectos humanos da formação da colônia dando especial atenção à distribuição da população ao longo do território. Caio Prado Júnior analisa o povoamento. os fluxos da população em correntes de povoamento e.problematização da categoria de formação. um determinado tipo de civilização. para o autor. a constituição da população. Neste primeira parte. períodos curtos e os fatos que pretende esmiuçar e rever para a história da ocupação do território. no qual Caio Prado Júnior “expõe a sede do seu pensamento em relação à história do Brasil” (Lapa. Ao contrário de heróicos personagens descobridores com epítetos retóricos e comentários ornados de adjetivos tendenciosos. no item denominado “Raças”. . nele encontramos um estilo enxuto.

os quais nos delimitam como um determinado tipo de contorno e aspecto. aspecto de nossa formação social – fato que parece ainda não ter de todo deixado de nos caracterizar até hoje – é a capacidade de mobilidade da população brasileira atestada no texto através de testemunho do . Curioso. a população refluía de um para o outro ponto. Princípio que vai tornando aparente determinados caracteres gerais de nossa formação. Mato Grosso e Goiás que provoca brusco deslocamento de contingentes populacionais criando uma nova estruturação das relações sociais e econômicas da colônia. A terceira fase se dá de forma paulatina. adensando-se nalguns. senão trágico. O povoamento estava longe ainda da estabilização. Sugere o autor a colonização não se aquietara: ocupavam-se novos territórios até então desertos. Minas. reduzindo-se em outros. abandonavam-se outros já devassados. a segunda se inicia com uma revolução demográfica e dela decorre a descoberta do ouro. e o quadro que a sua estrutura apresenta em qualquer momento é mais que provisório. sem os abruptos deslocamentos ocorridos anteriormente e para Caio Prado desemboca no momento de que pretende dar conta em seu recorte temporal. 1945: 65) Caio Prado distingue três grandes fases na evolução: a primeira começa com a colonização e se estende até o fim do século XVII. o deslocamento da produção da pecuária para o Sul – em decorrência da seca nos sertões nordestinos favorecendo a agricultura e enfim remodelando a feição colonial. Caio Prado chama a atenção para o fato de que a ocupação do território colonial português na América respondeu à determinados fins alheios ou exteriores.devido ao caráter ou sentido da colonização. reflete antes tendências que resultados adquiridos (Prado Júnior. De relativa brevidade esta fase tem sua derrocada com a decadência da mineração.

. “emigrava-se às vezes por nada. (XIX).. Daí a sua instabilidade. 1945: 67). notará. a extrema mobilidade da população brasileira”. ainda não havia sido estudada de forma sistemática – assim como acontecia com os povos indígenas. No item que Caio Prado Júnior dedica à composição étnica da colônia. “compreendendo-o e dominando-o”. Nisto temos a constituição de uma constante no “espírito” de uma população.viajante: “Saint-Hilaire viajando pelo Brasil em princípios do século passado. como mais tarde se plantará algodão ou café: simples oportunidade do momento. com seus reflexos no povoamento determinando nele uma mobilidade superior ainda à normal dos países novos (Ibidem). o mesmo lamenta que o estudo quanto às especificidades dos diferentes povos negros que aqui aportaram. Observa ainda que o critério utilizado na escolha dos colonos era religioso. um comércio instável e precário sempre [. com a acuidade de sua visão. para o historiador paulista cultivava-se a cana como se extrai o ouro. Destaca na composição da colônia até o início do século XIX que o “branco” que para cá se deslocou era “quase que só de origem portuguesa”. com vistas para um mercado exterior e longínquo. fato que segundo Caio Prado é próprio de uma população que não se ajustou completamente a seu meio. escolhido o católico.] a colonização não se orienta no sentido de construir uma base econômica sólida e orgânica. Estrangeiros foram proibidos quando da ocasião da descoberta do ouro tendo sua vinda para o Brasil sido possível durante curto período de tempo. e com simples e vagas esperanças de outras perspectivas” (Idem. bem como suas distintas contribuições na formação social brasileira. Em um primeiro momento que vai até a segunda metade do século XVII a imigração é escassa exercendo a colônia pouco atrativo à . isto é a exploração racional e coerente dos produtos do território para a satisfação das necessidades materiais da população que nela habita.

Também os judeus têm importância nesta fase da colonização. para Caio Prado Júnior. e como trabalhador. o negro teve. ao propagarem a fé católica. tendo o comércio com o Oriente desaparecido. No primeiro momento. Em crise. Neste momento. segundo Caio Prado “contribuem em boa proporção para as correntes povoadoras os degredados” (Idem. e pretendiam. Pretendeu-se aproveitar o índio como povoador. defender os interesses da Igreja. Atuavam em ‘reduções’. do lado dos colonos. e seus métodos antes tornava em “autômatos” os “catequizados” que os preparava para a “utilidade” pretendida por colonizadores portugueses. muitas vezes tinham por objetivo fins contrários aos daqueles. tentou-se organizar a colônia por meio do trabalho de seus habitantes nativos. Isso se deu já no século XVIII. maior importância na constituição da população brasileira. Outra força interessada na domesticação indígena eram os jesuítas que.Metrópole. Representando. ainda como escravos. vindo desde fidalgos e letrados – com fim de ocupar cargos administrativos. como se chamavam as aglomerações indígenas organizadas pela Companhia de Jesus. segundo Caio Prado. sem resquícios de “ressentimentos” . Portugal empobrecido. tem início um grande fluxo de emigração para a colônia. até indivíduos de classes menos abastadas. um terço da população e constituindo parte do percentual restante. Caio Prado destaca que o interesse advém de diversas categorias sociais. Neste ponto o autor discute um tema comum na época revelando. à luz dos objetivos da metrópole que naquele momento só pensava em ocupar o território. A esse fato seguiu a perseguição e a legislação restritiva de sua prática cujo ponto mais alto é precisamente a perseguição adotada e representada pelo Marquês de Pombal. 1945: 83).

No Brasil “as uniões mistas se tornaram a regra”. No entanto o fator de branqueamento foi.ou “problema”. Linguagem realista e clara. Guardando as proporções entre elas escreve: “são juntas que devem figurar. portanto “uma resultante do problema sexual do colono branco” (Idem. É uma tal aptidão que o Brasil deveu a sua unidade. sendo. Confrontando a colonização submetida ao Brasil e aos Estados Unidos. 1945: 103-104). pôde impor seus padrões e cultura à colônia. resulta de excepcional capacidade do português em se cruzar com outras raças. signo sob o qual se formou a etnia brasileira. que mais tarde separada da mãe-pátria. numa orgia de sexualismo desenfreado que faria da população brasileira um dos mais variegados conjuntos étnicos que a Humanidade jamais conheceu” (Ibidem). juntas e mesclando-se sem limite. a constituição mestiça da população: “é este o caráter mais saliente da formação étnica do Brasil: a mestiçagem profunda das três raças” (Idem. a sua própria existência com os característicos que são os seus. . o texto de Caio Prado é objetivo: a mestiçagem. segundo o autor. 1945: 102). o número relativamente pequeno de colonos brancos que veio povoar o território pôde absorver as massas consideráveis de negros e índios que para ele afluíram ou nele já se encontravam. A essa capacidade do português de se misturar no quadro da população nativa e escravizada em parte atribui-se a falta de mulheres brancas no primeiro momento devido ao caráter aventuroso do emigrante português que buscava na colônia uma forma de enriquecimento e que pelo risco parte só – fato que distingue o tipo de colonização que terá curso no Brasil. conservará os caracteres de sua formação (Ibidem). sem as imagens românticas de outros escritores. Graças a ela. Caio Prado Júnior sugere: “Nos atuais Estados Unidos a imigração por grupos familiares é numerosa” e havia o recrutamento de mulheres menos favorecidas que partiam para o Novo Mundo afim de povoar o território.

a fazenda em detrimento da pequena exploração do tipo camponês.sempre uma constante nas relações sociais que caracterizam o Brasil . ou ainda: “a nossa economia se subordina inteiramente a este fim.. visando a agricultura como garantidora do fim exposto acima. vias de comunicação e transporte. A segunda parte do livro é dedicada à análise da vida material da Colônia. comércio. 1945: 105). Caio Prado destaca o depoimento do viajante Martius que se “refere que muitos aventureiros europeus passavam no Brasil uma vida descuidada de cidadãos abonados graças aos casamentos realizados em famílias que estavam procurando ‘apurar’ o sangue” (Idem.. 1945: 117). mineração. e que é aliás de pouca monta. o algodão. isto é. produções extrativas. o ouro. Assim a organização. bem como seu povoamento. A vida material da colônia. artes e indústrias. será subsidiário e destinado unicamente a amparar e tornar possível a realização daquele fim essencial” (Ibidem). Ilustrando a questão. se dá por meio da grande propriedade monocultora. o engenho. Esta parte se subdividirá entre as seguintes atividades: grande lavoura. se organizará e funcionará para produzir e exportar aqueles gêneros.”. pecuária. (Idem. agricultura de subsistência. é marcada profundamente pelo que Caio Prado Júnior caracterizou ser o sentido da sua formação: “colônia destinada a fornecer ao comércio europeu alguns gêneros tropicais ou minerais de grande importância: o açúcar. Todo mais que nela existe.maior ou menor composição do sangue branco significou sempre maior ou menor fortuna. com destaque para as atividades desenvolvidas e empreendidas ao longo do território. Este fato é primordial no entendimento dos problemas que seguirão o sentido visado pelo .

O ciclo extrativo do pau-brasil. etc. 1945: 118). café. .colonizador: “o tipo de colono europeu que procurou os trópicos e nele permaneceu. cana. No item “Grande Lavoura” Caio Prado Júnior afirma ser a agricultura “o nervo econômico da civilização”. Vem para dirigir” (Idem. antes do cultivo da cana-deaçúcar se mostrou menos importante. só contando o comércio interno com restrita agricultura de subsistência e comércio local. o caráter de uma economia. sua natureza e organização. não é o trabalhador. e já quase extinta de todo neste século XVI” (Idem. o anil. melhor que a de qualquer um dos setores particulares da produção. o simples povoador. ou seja. o empresário de um grande negócio. 1945). Em nosso caso. o baixo nível técnico (Idem. a produção e a extração interna de produtos comercializáveis era quase toda voltada para o mercado externo. tabaco. Por ora nos limitamos a registrar que uma tal exploração é vista de forma crua por nosso autor que escreve: “é aliás esta exigência da colonização dos trópicos americanos que explica o renascimento da escravidão na civilização ocidental em declínio desde fins do Império Romano. o cacau. Caracterizou a prática agrária durante seus diferentes ciclos. Quanto ao comércio. Encontramos aí uma síntese que a resume e explica” (Idem. Caio Prado Júnior afirma que “o estudo do comércio colonial” coroa a tese principal de seu texto: “a análise da estrutura comercial de um país revela sempre. 1945: 120). como demonstra sua exposição. A interpretação deste sentido de colonização vamos discutir no próximo capítulo. mas o explorador. é com ela que se inicia a ocupação do território brasileiro. 1945: 235).

Herança que segundo Caio Prado Júnior vem a se incorporar ao “conceito do trabalho”. século XV.A terceira parte por fim cuida da vida social tratando dos aspectos da organização social. feições jamais correlatas a outros casos em que ocorre. e de um modo profundo. vida social e política. que se fosse adotar por aqui preceitos morais já ultrapassados por uma ordem material que visou exclusivamente um enriquecimento comercial no vasto território encontrado. e fora substituída por outras formas de trabalho mais evoluídas” (Ibidem). um fator de identificação da sociedade brasileira pois como afirma em nenhuma outra sociedade uma prática de tal natureza importou tanto para a constituição de “todos os setores da vida social”: “Organização econômica. no Brasil. deixe de atingir. seja por suas repercussões remotas” (Idem. Tendo em seu caso moderno surgido junto com os grandes descobrimentos. tendo status para o . “nasce de chofre. seguindo uma linha evolutiva do pensamento europeu. seja diretamente. por exemplo. no caso dos trópicos americanos. Caio Prado Júnior identifica na instituição da escravidão. iluminado por questões próprias as da lógica-filosófica não se poderia prever. uma vez que o escravo é utilizado nos mais diferentes ramos e atividades. que. no período em que se ocupa – princípios do século XIX. Restaura apenas uma instituição justamente quando ela já perdera inteiramente sua razão de ser. padrões materiais e morais nada há que a presença do trabalho servil quando alcança as proporções de que fomos testemunhas. Destaca o fato de que a escravidão apresenta. não se liga a passado ou tradição alguma. administração. O texto de Caio Prado Júnior assume aqui um tom de perplexidade um tanto irônica pois. assume caráter pejorativo. 1945: 277). no mundo antigo.

não é senão um derivado da a escravidão. De um corpo informe e inconsistente vai compor uma realidade social diversa e única. se bem que constituam a base do único setor organizado da sociedade colonial. O que faz prever: aquela parte da população que o constitui e que vegeta à margem da vida colonial. Como sugere o autor: A escravidão e as relações que dela derivam. no século XVI. Tal realidade prescreve problemas sérios para o país. ou diretamente. a situação se apresenta. . 1945: 356). menos apresenta organicidade social. a sociedade brasileira contemporânea. Serviram apenas para momentaneamente conservar o nexo social da colônia. uma prática mercantilista injustificada por qualquer estrutura de pensamento moderno. à medida que se torna mais livre. ou substituindo-a lá onde um sistema organizado de vida econômica não pôde constituir-se ou se manter (Idem. Caio Prado Júnior identifica na reinvenção da escravidão. no outro setor dela. pior. para o autor. Desta distorção histórica surge um tipo de sociedade que. que a dará identidade e da qual surgirá.homem livre apenas raras ocupações. não ultrapassam contudo um plano muito inferior. o que se mantém à margem da escravidão. em certo sentido. e não frutificam numa super-estrutura ampla e complexa. A inorganização é aí a regra. e tivesse permitido a esta manter-se e se desenvolver.

como também. em síntese.CAPÍTULO 3 A IDÉIA DE FORMAÇÃO Discute-se neste capítulo a idéia de formação em Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior procurando mostrar como tal idéia permitiu ao autor formular uma interpretação da estrutura social da Colônia e do sentido da colonização. A razão desta escolha é dupla: de um lado. Formação: sentido e processo É fato que em Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior toma o século XIX como “momento decisivo” a ser estudado para a compreensão da realidade social e política do Brasil. indagam sobre a unidade da sociedade e território brasileiros. ou seja. o autor pretende elaborar uma narrativa. das formas de sociabilidade que foram se forjando nesse processo de constituição da sociedade brasileira. é o momento onde estão depositadas as possibilidades para o futuro do País. entender a que deve sua formação e constituição. de outro. para explicitar o processo histórico cuja resultante é o Brasil contemporâneo. Em outras palavras. Importa ressaltar que tomar o processo de formação do Brasil como objeto não impede. é um momento de síntese de “três séculos de colonização”. ou pelo menos não deve impedir. à observância de um longo período histórico. o historiador de servir-se desse estudo como meio segundo o qual pode efetivamente entender a realidade social . Nestes termos a obra pretende dar conta de conhecidas questões sociológicas que.

no Brasil Contemporâneo? Todas estas questões iluminam a função central. fica clara a função central da noção de formação para os propósitos de Caio Prado Júnior. quase que sua gênese social. Mas o que pode revelar este decidido afastamento de eventos políticos? O que muda quando começamos a falar em formação? Mais ainda. à época deste texto Caio Prado Júnior já havia começado a desenvolver método e estilo bastante diverso do corrente entre os intérpretes do país até aquele momento. Assim formulado o projeto do livro. Anuncia assim que pretende romper com determinada forma e conceito de historiografia. por que o acento tão forte. Não fosse uma preocupação com a formação do País. como falamos no primeiro capítulo. ao modo então mais corrente de se fazer história. seria no mínimo estranho um texto sobre história o afastar-se dos acontecimentos políticos.brasileira. bem como vislumbrar suas possibilidades futuras. pois para o autor seria equivocado demorar-se em sobre-valorizar a vinda de D. a vinda de D. segundo . seguindo sua experiência precedente. João VI para o Brasil e a data da Independência como objeto historiográfico de primeira importância uma vez que: “o início do século XIX não se assinala para nós unicamente por estes acontecimentos relevantes que são a transferência da sede da monarquia portuguesa para o Brasil e os atos preparatórios da emancipação política do país” (Prado Júnior. João VI para o Brasil. indicado no título. por exemplo. O tom da primeira página do livro pode ser indicativo desta suspeita. Talvez aí possamos ler uma crítica velada à história “oficial” ou melhor. 2000: 1). no “fim da história”.

a despeito de outros intérpretes do pensamento social brasileiro. e representa como imagem concreta. Mas a análise deste momento deve possuir um olhar atento para ser capaz de “eliminar” os eventos “acidentais” e “intercorrentes” e ousar avistar o período. uma nova fase” (Ibidem). para Caio Prado Júnior. deve-se notar. pensando-os como totalidade (Ibidem). Pois. Por outro lado. segundo cremos. Caio Prado Júnior pretende que este seja o momento chave “para se acompanhar e interpretar o processo histórico posterior” (Ibidem). momento em que já estão presentes suas características mais profundas. o início do século XIX. os aspectos fundamentais da formação da realidade contemporânea: Caio Prado Júnior elege este período como divisor de águas no quadro amplo que pretende desenhar. da categoria de formação nesta obra. desvela. sua tese central. então. Trata-se de momento chave precisamente pois. corresponder o momento ao primeiro que “contém o passado que nos fez” (Ibidem).pretendemos sustentar. abre. Seu objetivo é o de rever. prende-se ao fato de que Caio Prado Júnior entende. Retomemos. ele inaugura. social. como chave. como uma síntese dos fatos e acontecimentos mais relevantes. um tempo em que primeiro esteve presente em conjunto os elementos que comporiam a nossa identidade e a nossa unidade como nação. político e econômico. à luz de um corte temporal determinado. por um lado. Tal momento histórico: “marca uma etapa decisiva em nossa evolução e inicia em todos os terrenos. A relevância atribuída a este. como objeto de análise. Para o autor o momento se apresenta. como propício para um balanço final da obra da colonização. uma identidade formada no decorrer dos trezentos anos passados. uma análise da mesma pode desbaratar semelhantes perguntas. Nas palavras do .

então. mais remotamente. e debruçar-se sobre o que foi efetivo nesta formação. em termos caros aos . Nestes termos. por sua vez. Percebe-se que Caio Prado Júnior está pensando em termos de construção de teoria e que. no Idealismo alemão. econômica e política do País. Afinal. é bom lembrar que o próprio Marx. o presente histórico só pode ser efetivamente compreendido mediante sua gênese. a idéia do momento histórico atual como síntese de um processo é fundamental. Mais ainda. Corresponde a estrutura em formação então à “base” sob a qual se constrói o quadro do Brasil contemporâneo. Não é á toa que era caro aos idealistas de uma maneira geral a importância da noção de organismo. Percebe-se também a influência do pensamento de Karl Marx para quem. inspira-se nisso em Hegel ou. 1986: 75). e seu corte temporal pode ser entendido como uma ferramenta de análise da realidade social. seja na fase da Ideologia Alemã seja na fase madura do Capital.autor: “Alcança-se aí o instante em que os elementos constitutivos da nossa nacionalidade – instituições fundamentais e energias – organizados e acumulados desde o início da colonização. Por outro lado. mero reflexo de outra coisa. para isso constrói sua narrativa. segundo a crítica especializada. e para compreender esta gênese o estudioso deve deixar de lado o que é mero evento exterior. Afastar-se da política é estratégia metodológica para isolar o que é “exterior” e captar o que é efetivo. desabrocham e se completam” (Ibidem). foi neste contexto que pela primeira vez se separou uma Historie – disciplina do entendimento – de uma Weltgeschichte – um discurso sobre o sentido necessário da história. podemos entender as questões acima levantadas a respeito de Caio Prado Júnior. algo cuja compreensão depende de uma gênese (Lebrun.

mas. em segundo. passar da super-estrutura para a infra-estrutura. Pensar Formação do Brasil Contemporâneo sem sublinhar seu método inspirador seria incorreto. outros intelectuais tentaram. Grosso modo. grande lavoura. A tarefa do intelectual seria compatibilizar a diacronia européia com o processo de constituição do Brasil. interpretar a história do Brasil à luz de teses marxistas. é. a influência do pensamento marxista em Caio Prado Júnior. colonizador. Mas falar da influência do pensamento marxista em Caio Prado Júnior não esgota a riqueza de sua obra. ao que parece. feudal e burguês. econômica e política do País nos termos de uma luta de classes que teria se configurado sucessivamente nos modos de produção tribal. Afinal. com o brasileiro. quase que pela mesma época. não fará mais que importar sua estrutura metodológica voltando-se para aquilo que há de concreto em nosso história: povoamento. . compreender o presente histórico como resultado de um longo processo. vias de comunicação. Não é essa. raças. todavia. Destacar o “fim” da história no título. podemos ironicamente dizer que importa a Caio Prado Júnior a formação do Brasil e não sua história propriamente. O problema básico de tal esforço. inspirados na Ideologia Alemã. o Brasil Contemporâneo. colonizado. seria o de construir uma esquematização por demais formal de interpretação ao fazer corresponder ponto a ponto o universo europeu. buscavam entender os problemas da realidade social.marxistas. Se é assim. em primeiro lugar. mineração. evadir-se de uma historiografia que tem a narrativa histórica como único fim e assumir a história como uma ferramenta de análise para os problemas sociológicos da atualidade. segundo cremos e por assim dizer. Ele não repetirá a equação da ideologia Alemã mudando seus termos.

– para citarmos alguns dos tópicos do próprio índice do livro. Entendido que fazer análise da formação do País não é reproduzir sua história oficial nem reproduzir formalmente o esquema geral da Ideologia Alemã. Assim caracteriza-se por ser um regime de subordinação. coube a Caio Prado Júnior levar às últimas conseqüências algumas categorias do pensamento marxista. mas verdadeiramente um marxista brasileiro. Em Formação do Brasil contemporâneo o período colonial é pensado como sendo um período em que esteve a colônia subjugada à ação e obra da metrópole. descrita no capítulo anterior. seja os economistas ingleses seja Hegel. No espírito do que assinalamos acima. como argumenta a propósito Bernardo Ricupero.administração etc. como um empreendimento. período em que nossa formação se dá principalmente pelas mãos de agentes estrangeiros alienados da idéia de nação que para Caio Prado Júnior só começa a fazer sentido a partir da derrocada do sistema colonial. Haveria outra forma de ser mais marxista? E a história pessoal e política de Caio Prado Júnior. notadamente aquela de formação. Para quem pudesse considerar isto pouco marxista. revela o quanto questões como essa esgarçaram suas relações com o Partido Comunista. 2000: 24). Por isso Caio Prado Júnior. “não é qualquer marxista do Brasil. ele poderia responder perguntando se não foi isso. que o próprio Marx fez em relação às suas fontes de inspiração intelectual. e compreender o sentido de nossa história cuja necessidade deveria assentar-se em base efetivamente materiais. afinal. Caio Prado Júnior não entende ser a decadência do Reino o motivo principal de sua crise e derrocada: . isto é. alguém que abre caminho para a aproximação da teoria marxista com a realidade brasileira” (Ricupero.

O que se apresenta como futuro para a colônia é o desdobramento de um longo processo histórico. não é exatamente esta a lição a ser tomada da conhecida tese de Marx segundo a qual um modo de produção é superado quando explora todas as suas possibilidades internas e entra em crise? O sistema colonial tem seu termo. o ponto de partida para sua compreensão do que seja o Brasil contemporâneo. Sente-se que a obra da metrópole estava acabada. pois este momento contêm. Ora. Antes. no âmago de suas contradições e iminentes instituições. avanços e recuos. em todos os níveis de sua criação – econômico.. mutatis mutandis. o sistema colonial na totalidade dos seus caracteres econômicos e sociais se apresenta prenhe de transformações profundas. Não apenas por efeito da decadência do Reino. interpreta que seu fim se fez necessário pois o conjunto das instituições. O regime colonial realizara o que tinha para realizar. 2000: 2). Esta ‘evolução’. esta tomaria seu rumo seguindo seu quadro evolutivo. etc – “que se prolonga até nossos dias e que ainda não está terminado”. . tendo Portugal se desligado ou não da função de ‘gerenciar’ a seqüência dos acontecimentos da colônia. mas “com vaivens. 2000: 1-2). social. por maior que ela fosse: isto não representa senão um fator complementar e acessório que quando muito reforçou uma tendência já fatal e necessária apesar dela (Prado Júnior. substância e densidade própria indicando direções e transformações que lhe eram necessárias e que. ‘localizado’ – para fins teóricos precisamente no ponto circundado como objeto visado pelo historiador.Tínhamos naquele momento chegado a um ponto morto. (Idem. se desenrola através de um século e meio de vicissitudes” (Idem. não pode ser entendida de forma linear. 2000: 3). político. no entanto..

Naquele passado se constituíram os fundamentos da nacionalidade: povoou-se um território semi-deserto. uma estrutura material particular. da dos portugueses que empreenderam a ocupação do território. concretiza-se em todos os elementos que constituem um organismo social completo e distinto: uma população bem diferenciada e caracterizada. Como historiador pretende demonstrar a especificidade da civilização que se instalara neste território. mais precisamente uma certa ‘atitude’ mental coletiva particular (Idem. Afinal. constituída na base de elementos próprios.Assim como Marx viu na crise de seu presente histórico o momento para refletir sobre a gênese da ideologia alemã. nossos problemas de país colonizado deveriam ser compreendidos à luz desta “colonização”. Nossa efetiva formação pode. diretamente. Criouse no plano das realizações humanas algo de novo. que inaugura um modo de vida distinto. explicá-los. 2000: 2) – à vista do quadro geral das civilizações. . embora em menor escala. organizou-se nele uma vida humana que diverge tanto daquela que havia aqui. tanto do que já havia antes da chegada dos exploradores. é um truísmo que um problema só pode ser resolvido depois de devidamente compreendido. e por isso o termo formação lhe é tão caro. finalmente. Percebe-se que Caio Prado Júnior está preocupado em determinar e analisar os elementos constituidores de nossa identidade. dos indígenas e suas nações. até etnicamente e habitando um determinado território. Este “algo de novo” não é uma expressão abstrata. eis o objetivo último da análise. indiretamente. como também. até uma consciência. obra inédita ‘no plano das realizações humanas’ (Idem. resolvê-los. mais as transformações que se sucederam no decorrer do centênio anterior a este e no atual. quanto da que se desenvolvia à séculos no velho continente. Caio Prado Júnior define então o Brasil contemporâneo da seguinte forma: o passado colonial que se balanceia e encerra com o século XVIII. 2000: 1-2). e. uma organização social definida por relações específicas.

pois outras influências deixam-se transparecer em termos como atitude mental coletiva particular. mas tão somente como forma de melhor expormos os usos da categoria de formação em seu texto. ao longo do período colonial. uma sociedade que tem por base de constituição elementos próprios e que por isso demanda uma narrativa de esclarecimento. Em suma. causalidade. de uma certa “atitude mental coletiva particular” (Ibidem). uma estrutura material. da infra para a super-estrutura (na linguagem marxista). inclusive no campo de sua constituição étnica. toma como pressuposto metodológico que a compreensão de uma realidade histórica deve ir do material para o espiritual. por via da objetividade da análise histórica. Caio Prado Júnior não se demora a colocar que a linguagem de que dispõe. que . 2000: 2). Que nos seja permitido mais uma vez insistir na influência do pensamento marxista em Caio prado Junior. na construção de sua teoria. não se ocupa de abstrações. O autor pretende se debruçar sobre as relações sociais específicas que observa neste percurso e que a formação de tal identidade se dá inclusive no surgimento de uma “consciência”. o que ele quer demonstrar é o fato de ter nascido. mestiça – em sua próprias palavras. Uma vez que entendemos que o autor faz um uso muito próprio do que se convencionou chamar de “materialismo histórico”. sem obviamente qualquer pretensão de esgotar o assunto. apontamento. curso teleológico da história. em idéias de síntese. do “povoamento” para uma “atitude mental coletiva particular”. um organismo social distinto. com uma população.‘Algo de novo’. “bem diferenciada e caracterizada” (Idem. quanto a diferenciação destes elementos – em comparação a outros casos – os tornando “evidentes”.

entre outros filósofos do Iluminismo. notoriamente. ou da população em termos abstratos. no entanto. em toda a concepção histórica. e fazer-lhe justiça. Para Marx. Seu estudo se dá através de conceitos como capital.. no entanto. conseqüentemente. é. e do materialismo histórico para a escrita de Formação do Brasil Contemporâneo faremos um breve adendo à nossa exposição incluindo alguns trechos expositivos daquele método de interpretação da História. no caso de seu estudo sobre o “18 de Brumário de Luís Bonaparte”. jamais tiveram um único historiador. não havia ainda se formado até a Alemanha de seu tempo. portanto. as primeiras tentativas para dar à história uma base materialista. não se articula com o estudo dos homens individuais. Voltaire.. 1984: 53). ao escrever primeiramente as histórias da sociedade burguesa. do comércio e da indústria (Marx. A base material de que fala. portanto. seu esforço de historiador espreitar com uma análise da política. empíricos. base terrestre para a história e. como lemos nesta clássica página da Ideologia alemã: a primeira coisa.poderiam se encaixar na tradição filosófica de pensamento sobre a História que teria seu início em Rousseau. divisão social do trabalho. Todos sabem que os alemães jamais o fizeram. Hegel. nunca tiveram. pois pensamos ser estes trechos bastante significativos para o entendimento do método utilizado por Caio Prado Júnior. em toda a sua importância e toda a sua extensão. Damos por justificada tal inclusão. um só historiador e a história estava por se fazer. não obstante. Embora conheçamos. até chegar em Marx. a observação desse fato fundamental. . não devemos ignorar o pressuposto fundamental de seu materialismo. passando pelo Idealismo alemão. os franceses e os ingleses fizeram. Para ilustrar a importância de Marx.

1999: 23). pois só ela é capaz de revelar não apenas a origem. Isto é ao mesmo tempo um elogio à história e uma crítica: elogio porque só pela história os problemas podem ser efetivamente elucidados. Importa ressaltar..do contrário poder-se-ia cair numa historiografia “idealista”. uma crítica porque não é de qualquer história que se trata mas de uma história que tenha por método a gênese analítica de certos momentos sintéticos. Fazer história com base material seria a única maneira de efetivamente se compreender o presente histórico e seus problemas. por fim. aqueles onde há crise. mas o sentido dos problemas de um presente histórico qualquer (Idem. paralelamente a este pressuposto metodológico.luta de classes e organismo social. enraíza-se em Caio Prado Júnior a conhecida tese de que a história é a única ciência. Um longo trecho de A ideologia Alemã ilustra bem o caminho escolhido na estruturação de uma historiografia que tem por fim percorrer um amplo quadro . etc. Assim devemos entender que a elaboração de uma historiografia à luz do materialismo histórico deve contar com o estudo de tais categorias e conceitos desenvolvidos por Marx. 1984: 62). mas na compreensão dos problemas atuais e seus possíveis desdobramentos futuros. que este elogio e esta crítica aproximam a história da sociologia e a transformam em ferramenta cujo objetivo último não se restringe à narração de eventos passados. e por objeto a base material . assim. como podemos verificar na leitura do segundo “Posfácio” da Contribuição à Crítica da Economia Política) (Idem. conceitos que nossa exposição anterior e seguinte a este trecho ilustrativo de nossa compreensão acerca da dívida que tem a leitura de Caio Prado Júnior para com a teoria de Marx pretende mostrar foram incorporados pelo autor a que nos dedicamos em nossa dissertação.

sua ação e suas condições materiais de existência. através da ação dos homens. 1984: 45) A condição primeira de toda história humana é. condições geológicas. de uma “base material”? É Marx quem primeiro responde: As condições prévias das quais partimos não são bases arbitrárias ou dogmas. orográficas. que só podemos abstrair em imaginação. Assim. portanto. já resulta daquilo que o precede. São os indivíduos reais. Essas bases são. hidrográficas. naturalmente. Caio Prado Junior faz uma incursão estratégica por tópicos eminentemente geográficos para poder compor uma historiografia de “espírito materialista”. lemos também na Ideologia Alemã: A forma das relações humanas. Como não ver na divisão dos capítulos e temas da Formação do Brasil Contemporâneo o cumprimento desta lição? Fazendo um esforço considerável para a organização das poucas fontes existentes. verificáveis através de um meio puramente empírico. Insistimos na estranheza da expressão – espírito materialista – pois que se trata. são bases reais.visando sua reconstituição à luz da categoria de formação... como também aquelas que nasceram da sua própria ação. como já assinalamos. tem como . 1984: 45). como ele. a existência de seres humanos vivos. e condicionando-os por sua vez. Apenas a explicitação destas condições materiais poderia. À luz de uma base material é que poderiam ganhar sentido as relações sociológicas tais como estão estabelecidas. é a sociedade burguesa que... permitir uma avaliação dos problemas do presente histórico. de reproduzir o espírito e não a letra do texto de Marx. climáticas e outras. o patrimônio corporal desses indivíduos e as relações que esse patrimônio desenvolve com o resto da Natureza . no curso da História (Idem. O que significa partir de uma “realidade concreta”. condicionada pelas forças de produção existentes em todos os estágios históricos que precedem o nosso. como ferramenta de análise. portanto. as que encontraram já prontas. O primeiro estado real a constatar é. (Marx. Toda história deve partir dessas bases naturais e de sua modificação. resultado do processo.

embora deva por outro lado. não era tão somente. O termo sociedade burguesa apareceu no século XVIII. para a organização ou desorganização do Estado. afirmar-se exteriormente como nacionalidade e organizar-se internamente como Estado. precisam ser compreendidas à luz de suas condições materiais de constituição. que põe no centro das atenções a idéia de formação. e que forma em todos os tempos a base do Estado e do resto da superestrutura idealista. por desprezo à Corte que Caio Prado Júnior pretende “desvalorizar” a vinda de D. evidente que esta sociedade burguesa é o verdadeiro lar. em um estágio de desenvolvimento determinado das forças produtivas. o que se denomina tribo. A crise das relações sociais contemporâneas. aqui ilustrada pelas esparsas citações acima. aliás. A sociedade burguesa como tal só se desenvolve com a burguesia.condição prévia e base fundamental a família simples e a família composta. também para Caio Prado Júnior. verdadeiro teatro de toda a história e vê-se a que ponto a concepção passada da história era um non-sense. Todavia. Ela abrange o conjunto da vida comercial e industrial de um estágio e ultrapassa por esse mesmo meio o Estado e a nação. A sociedade burguesa reúne o conjunto das relações materiais dos indivíduos.. 1984: 61). João VI. O mesmo deve valer. estrutura. Uma estratégia metodológica bem determinada. Devemos observar que em Formação do Brasil Contemporâneo o entendimento de que o todo social constitui um organismo social que dispõe até de uma consciência e uma atitude remete à construção da categoria de formação . confere ao texto de A Formação do Brasil Contemporâneo uma estrutura muito própria. a organização social nascida diretamente da produção e do comércio. continua a ser designada sob o mesmo nome (Idem. negligenciando as relações reais e limitando-se aos grandes e estrondosos acontecimentos históricos e políticos.. Já é portanto. a partir do momento em que as relações de propriedade foram desligadas da comunidade antiga e medieval. como assinala o trecho acima. Ironicamente.

que se debruça sobre um indivíduo social, completo e autônomo, que deve ser
analisado segundo uma duração, um tempo.
Insistamos mais uma vez que o recorte temporal proposto pelo historiador
paulista aponta para uma nova fase da vida deste organismo social, que dispunha
de uma certa estrutura e que, por razões intrínsecas a sua formação e ainda
devido a fatores externos a esses, se transforma e mergulha em processo
histórico diverso ao que passara no tempo da colonização. Este novo processo
vai formar o Brasil contemporâneo. Deve-se notar que, para Caio Prado Júnior o
país [como nação] à seu tempo permanece em vias de se formar, ou seja
prossegue curso começado em longa data e não possui assim uma identidade
plena: “é então o presente que se prepara... mas este novo processo histórico se
dilata, se arrasta até hoje. E ainda não chegou a seu termo” (Prado Júnior, 2000:
3).
Assim para Caio Prado Júnior, quando o historiador se ocupa daquela
formação, que de fato não se configurou totalmente: “não estará se ocupando
apenas com devaneios históricos, mas colhendo dados, e dados indispensáveis
para interpretar e compreender o meio que o cerca na atualidade” (Ibidem). Caio
Prado Júnior chama atenção para a especificidade da atividade de que se ocupa
pelo fato de seu objeto permanecer em formação, ou seja, a despeito de outros
objetos do campo da história, o estudo da formação do Brasil contemporâneo
pode ser pensado como história viva ou rica inclusive pelo seu potencial
sociológico de fornecer uma possibilidade de teorizar uma prática que possibilite
ao organismo social se formar de fato.

A especificidade da atividade do historiador que se ocupa com o tema da
formação, no caso brasileiro, consiste em que, nas palavras do próprio autor, “o
passado, aquele passado colonial, aí ainda está, e bem saliente; em parte
modificado é certo, mas presente em traços que não se deixam iludir” (Ibidem). A
primeira nota do texto ilustra sua compreensão ao tratar da viagem como método
privilegiado de análise histórica:
pessoalmente, só compreendi perfeitamente as descrições que
Eschwege, Mawe e outros fazem da mineração em Minas Gerais
depois que lá estive e examinei de visu os processos empregados
e que continuam, na quase totalidade dos casos, exatamente os
mesmos. Uma viagem pelo Brasil é muitas vezes, como nesta e
tantas outras instâncias, uma incursão pela história de um século e
mais para trás. Disse-me certa vez um professor estrangeiro que
invejava os historiadores brasileiros que podiam assistir
pessoalmente às cenas mais vivas do seu passado (Idem, 2000:
5).

Em sua tese, escrita em 1954 e intitulada Diretrizes para uma política
econômica brasileira ele retoma esta idéia afirmando que nossa história é um
“Presente (o termo está em maiúscula o que destaca seu sentido) de nossos
dias”.
“aliás a nossa história, e particularmente a nossa história
econômica, é antes uma sucessão de episódios muito
semelhantes, de ciclos que se repetem monotonamente no tempo
e no espaço. E continuam repetindo-se. Essa a razão por que
afirmei anteriormente ser a nossa história um Presente de nossos
dias. Para observá-la, é muitas vezes preferível uma viagem pelas
nossas diferentes regiões, à compulsa de documentos e textos. o
tempo se projetou aqui no espaço, facultando ao historiador um
método original de pesquisa”.

Formação: sociedade e sociabilidade

A visão do passado no decorrer do presente não é, claro, privilégio apenas
da sociedade brasileira, em outros casos observa-se a transposição das camadas
do tempo, em um eterno retorno próprio da sedimentação de tradições e
estruturas. No caso brasileiro o que o autor parece querer contrapor é a idéia de
ruptura com o passado como dimensão explicativa da modernidade, e as
transformações assimiladas em todos os níveis da vida social, econômica e
política nas sociedades avançadas que modificam sua estrutura e apagam os
traços do passado (este aparecendo com o esforço da conservação da memória e
das tradições), e a idéia de “atraso”, no caso da sociedade brasileira. Nesta, o que
se observa é a continuação de determinadas estruturas que não condizem com a
condição almejada pelo corpo político e jurídico que pretende dar forma à Nação.
Observa por exemplo, que à sua época, o trabalho livre “não se organizou
inteiramente em todo o país”, apresentando este, a despeito de esforços
institucionais, “traços bastante vivos do regime escravista que o precedeu” (Idem,
2000: 3). Como já pretendemos ter mostrado, ressoa aí ecos de uma história
preocupada com o sentido dos fatos a qual, para evitar um jogo aleatório de
interpretações põe em cena a idéia do “real” como síntese do processo de sua
formação.
Acrescente-se que a subordinação e dependência da economia ao
mercado externo, a falta de um largo mercado interno, são outros dos aspectos
fundamentais em que se verifica aquele “atraso”: “numa palavra, não
completamos ainda hoje a nossa evolução da economia colonial para a nacional”
(Ibidem). Essas reminiscências não são, segundo o autor, anacronismos ou fatos

a do Brasil contemporâneo. sua narrativa buscando distinguir o que é “essencial” para a sua compreensão. mas “traduzem fatos profundos”. apresentando a especificidade de ter seu sentido histórico singularizado por ter se constituído primeiro como empresa e depois como país. no decorrer da ascensão e do declínio daquelas estruturas. pois acredita vir de uma compreensão destes dados a transformação da sociedade brasileira (Idem. 2000: 20). mais até hoje sobre aquela direção se desenvolverá e terá que buscar respostas para os problemas que aquele tipo de colonização colocara. E com tal objetivo. articulados numa organização puramente produtora. depois. industrial. tabaco. Não hesita em afirmar: se vamos à essência da nossa formação. alguns outros gêneros. Isto é demonstrado no decorrer do estudo. aspectos que se colocou como problema e que o autor.tem mais tarde . algodão. Este sentido dominará a cena da formação do país que. A população que ocupa este território “inventado” faz parte de um sistema mundial. inverterá seus cabedais e recrutarão a mãode-obra que precisa: indígenas ou negros importados. lentamente. O Brasil contemporâneo se formará. desde seu princípio . mais tarde ouro e diamantes. se constituirá a colônia brasileira (Idem. a partir do início de nova fase. nação. Nada mais que isto. e em seguida café.isolados. Virá o branco europeu para especular. como marxista. veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar. realizar um negócio. para o comércio europeu. 2000: 4). Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura. bem como as atividades do país. voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio. que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras. objetivo exterior. portanto. Este essencial é o que se apresenta como “linha mestra”. Caio Prado Junior constrói. fundamental para a compreensão do seu objeto: o sentido da formação de um todo. portanto. busca compreender. Com tais elementos.

caracteriza a sociedade brasileira de princípios do século XIX” (Idem. segundo Caio Prado Júnior a despeito do desenvolvimento das noções morais que já constituíam a sociedade do velho mundo.inclusive que se emancipar e se tornar independente neste contexto por motivos intrínsecos da relação social primeira. a que aqui se desenvolveu por motivos mercantilistas. Sua ocorrência. com a qual dialoga. destituído de sentido e usado como força bruta de produção material. No caso dos Antigos é resultante de um modo de vida. competir é o termo certo. sendo sua implantação necessária por motivos oriundos da atividade empresarial que se pretendia realizar visando a prosperidade da metrópole. de um sistema de pensamento. insere-se em determinada tradição. com características distintas de formas anteriores de escravidão no mundo ocidental teve repercussão em todos os setores da vida social. em todos os níveis de sua vida. e em nosso caso é “motor” de uma sociedade. e acima de tudo. conseqüência. sendo a base de toda organização econômica e produtora de padrões materiais e morais de conduta em nível inédito de influência. No Brasil ele é privado de sua cultura de origem. à população do centro deste sistema. Na Antigüidade o escravo faz parte da cultura. causa. Frisando a diferença da escravidão moderna. No entanto não dispõe de ferramentas para se contrapor. 2000: 277). . A privação da liberdade a ele imposta concorre para a ausência (no plano da organização da sociedade e da construção de seu sentido) de contribuição da maior parte da população da colônia para a formação da estrutura da sociedade brasileira até o início do século XIX. a escravidão brasileira foi para o Brasil a mais significativa instituição sendo ela que “antes de mais nada. negocia.

e muito menos estética.resulta na preparação de um contingente populacional destituído de meios para se inserir no quadro da vida social do Brasil contemporâneo. pretendem que já na sociedade colonial se dispunha de unidade ou identidade. e têm suas atenções voltadas totalmente para o comércio e tráfico segundo os interesses de Portugal: “O negro e o índio teriam tido certamente outro papel na formação brasileira. seja ela religiosa – como chegou a ocorrer com os indígenas doutrinados pela ordem jesuítica -. Os responsáveis pelo sentido da colonização estão alienados de tal intento. Tal fato contribui diretamente para o atraso da economia colonial. e papel amplo e fecundo. observando a ausência de preocupação quanto à formação dos negros no Brasil. como é . a exemplo de Gilberto Freyre com quem dialoga em Formação do Brasil Contemporâneo. o último não pode ser esquecido ou subestimado. seja ela técnica. seu ritmo e sua direção. 2000: 286). ou aceitado uma contribuição menos unilateral e mais larga que a do simples esforço físico” (Idem. se diverso tivesse sido o rumo dado à colonização.Em decorrência disso. A distinção do fato da escravidão em nosso caso se dá tanto na produção material como no nível do serviço doméstico e que “apesar da amplidão e importância econômica muito maiores do primeiro setor. Caio Prado Júnior salienta que em se tratando da “economia da colônia praticamente todo o trabalho é servil” (Idem. se se tivesse procurado neles.a escravidão . moral ou intelectual. Assim o que constitui a base da vida da colônia. 2000: 281). Caio Prado Júnior desloca a questão do nível moral da discussão da miscigenação da população. Não só ele é numericamente volumoso. Caio Prado Júnior discorda de outros autores que. sua mais organizada instituição social .

própria do senso comum da época. Ironicamente. devido à proximidade do senhor e do escravo no mundo da vida íntima. Dado o significado que assume o trabalho no Brasil.grande a participação que tem na vida social da colônia e na influência que sobre ela exerce” (Ibidem). começou-se a formar. a despeito de uma retórica que procurava de certa forma travestir a imagem da escravidão sofrida no Brasil de um ar romântico. Caio Prado Júnior é categórico em afirmar que. Ao constituir-se como “empresa” da metrópole não se constituiu como uma unidade nacional. é precisamente desta relação – desumanamente desleal – que advém “a maior parte dos malefícios da escravidão” (Ibidem). também: a ternura e afetividade da mãe preta. Bem diferente de uma discussão taxativa.. O arranjo social determinado por uma lógica externa às suas próprias fronteiras. De tal sorte que é preciso enfatizar o “pouco que ela trouxe de favorável. Assim: “Torna-se muito restrito o terreno reservado ao trabalho livre . principalmente nas cidades. Daí uma sociedade civil desorganizada. entre outras coisas. e a utilização universal do escravo nos vários misteres da vida econômica e social acaba reagindo sobre o conceito do trabalho que se torna ocupação pejorativa e desabonadora”. o dano social causado pela estruturação da sociedade de forma escravista reveste toda estrutura da sociedade que formará o Brasil contemporâneo. bem como nas regiões onde atividades ligadas à .. (Ibidem). se é que se pode falar em sociedade civil neste caso. e os saborosos quitutes da culinária afro-brasileira” (Ibidem). só pode configurarse com a marca do “atraso”. Assim se configura uma formação cuja lógica e sentido estão fora e não dentro do País.

um contingente de pessoas que escolhe a vadiagem. o de ser empresa de lucro fácil. O elemento inorgânico é para a vida social um dos aspectos da formação da identidade do Brasil contemporâneo (Idem.Luís dos Santos Vilhena .12 a despeito da abundância de terra. inúteis e inadaptados”. lançando mão de uma de suas fontes preferidas de conhecimento. o autor vai passar da descrição daquela “base material” para as relações sociais que sobrevieram a elas. em detrimento da atividade remunerada. para Caio Prado Júnior contribui de forma decisiva para a preparação da estrutura da vida social do Brasil contemporâneo. indivíduos que poderiam ser proprietários preferem não o ser. Seguindo as lições do materialismo histórico. Caio Prado Júnior destaca que. No campo. 2000: 287). Neste nível a escravidão. pois demandam riqueza prévia como é o caso das atividades das profissões liberais que requerem preparação intelectual. pois não possuem o capital para comprarem quem por eles trabalhe (Idem. O comércio era privilégio dos “reinóis” – os nascidos no Reino – e poucas eram as atividades restantes de que se pudesse orgulhar os não abastados. algumas de acesso restrito. por conseguinte a pobreza. entravam em declínio. Fechando sua exposição. anteriormente referidas. 2000: 289). e. Caio Prado Júnior vai ater-se propriamente aos aspectos humanos da formação do Brasil contemporâneo nos tempos da colônia. parte para a conclusão de seu estudo demorando-se na análise das 12 Fontes mais usadas: Recompilação de notícias soteropolitanas e brasílicas do fim do século XVIII . o sentido da colonização. Chega-se assim na constituição de um contingente de “desclassificados. restringindo-se a poucas atividades.mineração. Tendo caracterizado os tipos que vão ocupar e constituir todo o território.

a subordinação do escravo ou do semi-escravo aos seu senhor” (Idem. antes mencionado. segue justificando sua posição quanto a ausência de nexo moral da sociedade brasileira nos tempos coloniais a partir do fato de que: “os mais fortes laços que lhes mantêm a integridade social não serão senão os primários e mais rudimentares vínculos humanos. o “nexo moral” precisa ser entendido como resultado daquele processo. o trabalho servil era. a despeito de seus problemas. De tal base material poucas relações poderão derivar-se. 2000: 357). Mas. os resultantes direta e imediatamente das relações de trabalho e produção: em particular. cujo sentido é o de ser empresa e não nação. entre os agentes que deram forma ao corpo social brasileiro. como já foi discutido anteriormente. o resultado é um tecido social pouco rico de interação. procurando colocar em relevo as formas de interação entre os indivíduos. não uma colonização qualquer e sim um processo que obedece à lógica exterior ao próprio território colonizado. de colonização. as classes. Entendido nestes termos e não como conceito que explique e fundamente explicações da realidade social.relações sociais que se desenvolveram a partir da realidade dada da colônia. no seu sentido amplo de conjunto de forças de aglutinação. complexo de relações humanas que mantém ligados e unidos os indivíduos de uma sociedade e os fundem num todo coeso e compacto” (Idem. O uso desta expressão é defendida pelo autor da seguinte forma: “Tomo a expressão ‘nexo moral’. é bom que se diga. ou seja. Para Caio Prado Júnior. o . Destaca como sendo de suma importância a ausência de nexo moral entre os atores de tal sociedade. 2000: 353). os grupos sociais. Assim.

vai alienar “o conteúdo cultural” de que dispunha anteriormente. por sua vez. não tem as funções de que ocupa a fruição posterior de um trabalho que pode ser reflexivo. nem no campo da práxis nem no da intuição intelectual ou moral (Idem. No seu plano material o trabalho escravo “nunca irá além de seu ponto de partida: o esforço físico constrangido”. Caio Prado Júnior vai explicar a afirmação segundo a qual as relações sociais que vingam a partir do regime organizado da escravidão são relações primárias e elementares justificando que. 2000: 355). encontra-se uma inorganicidade como regra. no caso da mulher. muito menos provia o incremento da vida cultural da colônia. Senão por outras razões. o trabalho nada ensina. a consumação física do escravo o macula diretamente. nas suas duas atribuições – a de trabalho e a sexual – o escravo não ultrapassa o limite da relação servil. ao escravo. O trabalho livre caracterizava-se pela dispersão formando um setor “imenso e inorgânico de populações desenraizadas. de tal forma que ele próprio. a utilização do negro como escravo no Brasil não contribuiu para a formação de uma “superestrutura” ampla e complexa servindo “apenas para momentaneamente conservar o nexo social” (Ibidem). porque o sentido de sua inserção no contexto brasileiro obedecia uma lógica externa àquela de uma identidade nacional. flutuando sem base em torno da sociedade colonial organizada” (Idem. Portanto. No outro ponto da sociedade brasileira. estando uma vez . 2000: 354). para Caio Prado Júnior. Sendo este setor da sociedade diretamente afetado pelo setor do trabalho servil que.único efetivamente organizado e portanto que funcionava no país. A atividade sexual do escravo. Ao contrário. que ficava fora da relação de trabalho servil.

por sua vez. desagregada e desenraizada. Não menos primárias serão as relações sociais entre estes agentes que devido a uma inconstância de trabalho e de evolução material tendem para a vadiagem e a “caboclizaçao”. para Caio Prado Júnior. A qual faz valer sua autoridade a despeito da ineficiência da administração pública da colônia ser uma de suas realidades. acaba – como já assinalamos anteriormente. Mais ainda. 2000: 357). Fatos que demonstram a importância do poder externo na vida da colônia são. contribuir para a formação de um meio mais integrado e coeso contra a ação coercitiva da metrópole.amplamente organizado. Assim esta ausência de “nexo moral” da sociedade colonial se caracterizava mais pela desagregação e por forças dispersivas. . o quanto esta formação pesa sobre o presente e futuro País. os acontecimentos posteriores a Independência quando a sociedade brasileira acaba por reproduzir “quase integralmente a monarquia portuguesa que viera substituir” sendo o modelo imposto e não produzido pela mesma (Idem. segundo Caio Prado Júnior – condicionando e sendo a origem de tipos e formas de relações sociais de uma parte da população que crescerá continuamente por todo período colonial e que chegará a colocar os problemas enfrentados pela sociedade até hoje. O que caracteriza este setor é a ausência mesmo de uma estrutura social organizada. tendendo seus atores para a composição de uma malha social instável. a escravidão resultando na composição de um setor de trabalho livre que se caracteriza mais pela inércia que pela atividade que poderia.

uma análise da formação pode revelar: a identidade nacional não aparece desde sempre mas é construída. Para dar conta da análise das relações sociais encontradas e desenvolvidas na vida colonial Caio Prado Júnior parte do princípio de que uma sociedade. desenvolvidas fora da lógica e dos sentimentos importados de Portugal e ainda de outros países. de crenças. “uniformidade de sentimentos. e. é determinada por uma lógica externa aos próprios limites espaciais. de que deriva a sobrevalorização do ócio. para Caio Prado Júnior.Nesta mesma linha. filhos do reino. organizadas em torno da realidade condicionada por aquele. sendo encontrada de forma disseminada entre a maioria – contrapondose a atitude dos reinóis. No primeiro aspecto da vida social da colônia predomina como já foi mostrado o trabalho servil. 2000: 358). que se ocupavam das atividades relativas ao comércio e produziam riquezas com certa facilidade – “acabará naturalmente . sendo precisamente sobre estes elementos. de língua”. em seu princípio.e nas relações de família. 2000: 358). que se pensará e se buscará uma identidade e singularidade para a cultura brasileira (Idem. “uma geral moleza”. “de cultura”. Caio Prado Júnior defende a idéia de que tal atitude frente ao trabalho. funda-se ordinariamente no trabalho – relações econômicas . resultando em que “nenhum homem livre se rebaixa a empregar músculos no trabalho”. e de uma certa forma contrapondo a estes outras formas de “sentir”. que “serviria” portanto de “base moral e psicológica para a formação do Brasil como nação”. acrescente-se que a colônia também importa da metrópole “uma certa uniformidade de atitudes”. retardando assim diretamente a economia colonial que se desenvolvia quase que totalmente em torno do trabalho forçado (Idem. Daí uma das idéias chaves que. pior ainda.

No que tange às relações pessoais entre os indivíduos. 2000: 360). que tentou ‘modelá-los’ “por figurinos europeus estranhos aos seus gostos” (Idem. sendo esta ininteligível segundo a constituição de seus padrões sociais.por se integrar na psicologia coletiva como um traço profundo e inerraigável do caráter brasileiro” (Idem. usufruindo durante sua vida de um baixo padrão de vida. 2000: 360-361). em torno de famílias estruturadas. que acaba se apoderando do indivíduo todo” (Ibidem). a lógica da produção e acúmulo de bens a partir de trabalho metódico. Contribui para tal fato uma certa “facilidade . de uma atividade sedentária. Outra causa da inatividade dos indivíduos livres da colônia “é o sistema da colônia. temos uma segunda explicação para tal fato social (o tipo de preguiça e ócio improdutivo) na incorporação abrupta de índios quando estes não dispõem dos mecanismos apropriados para a tradução da lógica a que é submetido. sua subsistência. solteiros cujo ímpeto aventureiro. tão acanhado de oportunidades e de perspectivas tão mesquinhas” (Ibidem). 2000:359). na sua maioria. Caio Prado Júnior nota a constante mobilidade de uma população que não se organiza. O trabalhador livre da colônia dispende o mínimo de energia necessária para o seu sustento. mas antes se compõe de emigrantes isolados. Por outro lado. (Idem. a despeito das riquezas do meio natural a sua volta. refreia a constituição de células monogâmicas. Contribui para isto um “ridículo sistema de educação” uma suposta Paidéia. mas. Estes fatores em conjunto resultarão por fim em um “tom geral de inércia”. ou seja. sobretudo de uma “inatividade sistemática. em busca de enriquecimento. causando a estagnação e uma apatia que “não vem somente da luxúria e da cobiça.

não se processou. no caso entre senhores e escravas. No caso da vida da colônia “o sistema de vida que dá lugar. puramente formal. sustentada pela relação desigual de forças entre partes envolvidas. Caio Prado Júnior está trabalhando com um fato social: estabelecendo a diferença do papel que esta representa para a vida social nos moldes em que desenvolveu ao longo do tempo e o que passa a significar no âmbito da sociedade colonial brasileira. as suas virtudes. não se constitui em um fator disciplinador da vida sexual dos indivíduos sendo ao contrário a permissividade. quase como regra. Caio Prado Júnior observa ainda que: “A família perde aí inteiramente. num ambiente de família” (Idem. e constitui uma base não familiar da vida destes (Idem. “as facilidades que proporciona às relações sexuais irregulares e desbragadas. ao contrário do que se afirma correntemente. a indisciplina que nela reina. torna-se pelo contrário campo aberto e amplo para o mais desenfreado sexualismo” (Ibidem). Ainda fatores como instabilidade e insegurança econômica corroboram para tanto. a promiscuidade com escravos”. 2000: 361). antes uma escola de vício e . ou quase. tudo isto faz a casa-grande.de costumes” que proporciona ao imigrante “mulheres submissas de raças dominadas”. Sobre a massa inorgânica e livre da colônia Caio Prado Júnior sublinha: “A formação brasileira. Mais do que o julgo de uma moral pessoal. atuar como modelo formador do caráter das relações humanas ali constituídas. salvo no caso limitado e como veremos. mal disfarçada por uma hipócrita submissão. Dentro da organização da casa-grande ainda se observa que a família. e em vez de ser o que lhe concede razão moral básica de existência e que é de disciplinadora da vida sexual dos indivíduos. deficiente. das classes superiores da ‘casa-grande’. 2000: 362).

ou por restrições e constrangimentos raciais. apanhando a criança desde o berço. mas de forma adulterada em decorrência do caráter dinâmico da vida sexual. na vida da colônia. que de formação moral” (Ibidem).desregramento. Caio Prado Júnior sublinha ainda o fato de que a prostituição. o que teria concorrido. nos “mais insignificantes arraiais” onde “quase toda a sua população fixa é constituída. sendo de tal forma disseminada esta atividade na colônia que “não há recanto da colônia em que não houvesse penetrado. Deste modo festas e sacramentos se enraizavam na cultura. para uma ampla difusão da prostituição. escassez de padres para a cerimônia. pelo seu custo. Outro aspecto importante na formação das relações sociais da colônia é o de que. na falta de condições de obter sustento. sua influência na sistematização dos costumes desta se mostrou relativa. a despeito da presença das ordens religiosas na constituição de suas instituições. grande número de casais ainda não oficializam o matrimonio por motivos vários como por exemplo o da falta de condições financeiras. ficando mais . No entanto o que se verifica como predominante é a ausência de uniões estáveis e a grande maioria dos homens prefere “em geral não pensam em se deixar prender” (Idem. Tal fato contribui para que as moças pobres nem cheguem a pensar no casamento como algo possível. e de classe. de prostitutas” (Ibidem). 2000: 364). além dos vadios. tendo sido na prática cultos e cerimônias religiosas incorporados ao cotidiano se desligando muitas vezes do significado originário da prática religiosa de origem. sendo porém estas uniões comuns e num certo sentido aceitas naturalmente. Dentre uma minoria de uniões regulares. e em larga escala” (Ibidem). ocupa lugar. em outros lugares mais comum nas cidades de médio e grande porte.

e para o historiador não devem servir senão de sinais. afinal: “as idéias por si. inércia e corrupção nos dirigentes leigos e eclesiásticos. que esta é a preocupação central de Caio Prado Júnior em Formação do Brasil contemporâneo.observada a exterioridade dos ritos em detrimento do significado dos signos e símbolos religiosos. ruína em que chafurdava a colônia e sua variegada população. e que. e com que força. construção de teoria para uma prática efetiva. Forças estas que não devem ser vistas como meras hipóteses ideais. Assim caracteriza a ação geral uma “tolerância infinita quanto à moral” sendo mesmo a prática do clero não diferente (Idem. Assim é antes do quadro geral já tratado anteriormente. para o autor. é a de perguntar. de ser empresa da coroa portuguesa. e dos diversos aspectos e contradições inerentes aquele sistema – entendidos no seu movimento dialético – . A questão que se coloca aqui. uma vez tendo desenhado o quadro geral da vida social da colônia. não fazem nada. Neste verdadeiro descalabro. pobreza e miséria na economia. que encontramos de vitalidade. nos fatos concretos. 2000: 368). dissolução nos costumes. poderiam realizar a virada de mesa e de fato construir uma nação no Brasil. Cabe lembrar mais uma vez. política: numa palavra e para sintetizar o panorama da sociedade colonial: incoerência e instabilidade no povoamento. 2000: 364-365). Caio Prado Júnior começa a analisar as forças renovadoras que vão efetuar a mudança no estado das coisas na Colônia. neste ponto da exposição. capacidade de renovação? (Idem. expressões ou sintomas aparentes de uma realidade que vai por baixo. e não fim. caráter empresarial da colônia. e que as provoca (Idem. 2000: 365). o estudo da história é ferramenta. quais seriam os elementos.

Muito mais a partir dos elementos desconexos da vida social e dos setores inorgânicos da população do que de uma ordem política constituída de cima para baixo – como é o ocorrido na constituição do Império aqui delineado aos moldes da organização da política na Europa – que o País seguirá. . seu desenvolvimento histórico.que revelará aquela organização social o viés que a conduzirá a sua forma seguinte. para Caio Prado Júnior.

conforme . no que nos demoramos quando esmiuçamos a trajetória política do autor. objeto visado em seu estudo. a intenção de consistir numa teoria visando a aplicabilidade de seus resultados por via política e. Seu domínio é o da síntese. conforme demonstrado no decorrer do texto. pensada da parte ao todo. entendendo esta como articuladora entre os diversos tempos da História.CONSIDERAÇÕES FINAIS A leitura de Formação do Brasil Contemporâneo operada segundo o recorte da problematização da idéia de formação nos leva a concluir que esta categoria. Caio Prado Júnior consegue colocar seu objeto e expô-lo segundo ordem cronológica estendida no tempo. conforme articulada no texto de Caio Prado Júnior possibilita a este autor realizar a síntese do que chama de Brasil contemporâneo. o qual se constitui como um desdobramento daquele sentido. prática. para Caio Prado Júnior. através da idéia de formação. seu corte temporal – o início do século XIX. condensando contradições e contendo direcionamentos de cujos desdobramentos virá a tonar o Brasil contemporâneo de cuja compreensão o autor pretende entender e demonstrar o sentido. Para tanto.por ser transitivo. pensando o objeto e o articulando-o segundo sua constituição estrutural básica. ou seja. consegue vislumbrar seu objeto segundo uma extensa linha demarcada e divisada entre o passado colonial. dividido em seus alicerces fundamentais. que a elaboração da escrita de Formação do Brasil Contemporâneo teve também. Assim o tema. Vislumbra seu objeto à luz da grande narrativa. “momento decisivo” . portanto. No percurso realizado neste trabalho não deixamos de procurar entender. A longa duração de sua narrativa foi possível. e o presente. seu sentido.

mas também é chave analítica eficaz para o autor demorar-se em aspectos menos estruturais e mais sistêmicos da vida cotidiana da colônia que corrobora intensamente para a presente forma de vida do Brasil contemporâneo. a que deve seu sentido. o Brasil contemporâneo. Via dupla de desvelamento da realidade social brasileira. cuja resultante é o Brasil contemporâneo. frutificará no Brasil determinada disposição para o trabalho. Assim a idéia de formação de Caio Prado Júnior permite ao autor pensar a formação da sociedade brasileira num quadro mais amplo entendido em termos de uma totalidade social: o sistema colonial. Vida Material e Vida Social o autor analisa o processo histórico. Dividido o tema em Povoamento. no que tange aos aspectos de suas . que tem seu início precisamente datado naquele corte temporal e que se estende e nos tange nos dias de hoje). o Brasil contemporâneo pôde ser analisado segundo sua estrutura tendo ido o autor às suas especificidades e revelado sua composição. do tipo de relação social que esta suscita. Assim Caio Prado Júnior demonstrará que da organicidade do trabalho escravo. entendido como meio. Vale ressaltar mais uma vez que ao tomar o processo de formação do Brasil como objeto o historiador coloca seu estudo. tendo em vista a que este deve sua constituição e sua formação. segundo atenta Caio Prado Júnior.sua formação. e segundo sua intenção. à disposição dos que pretendem entender a realidade social brasileira (e porque não reforçarmos o já dito – coloca sua análise a disposição dos que pretendem vislumbrar possibilidades futuras e desdobramentos do objeto segundo o qual nos informamos. a idéia de formação opera não só a sistematização da estrutura da exploração e “invenção” da “quase-empresa” colonial.

que se esboçasse aqui algo relativamente novo em termos de sociabilidade e organização social. mas que. no caso histórico brasileiro. quanto na definição mais geral da estrutura social do que se formou como sociedade brasileira. e ainda no quadro especifico das significações. de sociabilidade e ações sociais. das representações. Associada à idéia de “sentido da colonização”. capazes. ao mesmo tempo.diversas disposições práticas. de seu significado e espaço no quadro da cultura. Assim concluímos que a idéia de formação de Caio Prado Júnior permite distinguir. . depois da independência política. a idéia de “formação” sugere a sobrevivência das estruturas e atitudes sociais às condições específicas que as criaram tanto no plano das relações sociais cotidianas. não logrou gerar uma autonomia e dinâmica próprias. em 1822. como o processo de colonização aqui implementado permitiu que se esboçasse uma nacionalidade que foi progressivamente se distanciando do seu modelo europeu. de construir uma nação autônoma. ou seja.

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