Universidade Federal do Rio de Janeiro

A idéia de Formação em Caio Prado
Júnior

Letícia Villela Dacol

2004

A IDÉIA DE FORMAÇÃO EM CAIO PRADO JÚNIOR

Letícia Villela Dacol

Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-graduação em Sociologia e
Antropologia – PPGSA, Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, como parte dos
requisitos necessários à obtenção do título de
Mestre em Sociologia (com concentração
em Antropologia).

Orientador: Gláucia Villas Boas
Co-orientador: André Pereira Botelho

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2004

A IDÉIA DE FORMAÇÃO EM CAIO PRADO JÚNIOR

Letícia Villela Dacol

Orientador: Gláucia Villas Boas
Co-orientador: André Pereira Botelho

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em
Sociologia e Antropologia, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração
em Antropologia).
Aprovada por:

_______________________________
Presidente, Profa. Dra. Gláucia Villas Bôas
____________________________
Prof. Dr. André Pereira Botelho
____________________________
Prof. Dr. Robert Wegner

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2004

Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia.. UFRJ. IFCS. vi. A idéia de formação em Caio prado Júnior / Letícia Villela Dacol. II. Referências bibliográficas. 105 f. Gláucia. 2004. I. Dissertação. A idéia de Formação em Caio Prado Júnior.7cm. Letícia Villela. III.Dacol. Rio de Janeiro: UFRJ. Gláucia Villas Boas. . PPGSA. Universidade Federa do Rio de Janeiro 1. 4 p. 29. Villas Bôas. IFCS. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais 2. 2004.

o autor logrou realizar uma interpretação do Brasil tanto no plano da estrutura da sociedade. como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia). Caio Prado Júnior. Partindo de pesquisa bibliográfica sobre os trabalhos recentes dedicados à obra de Caio Prado Júnior (1907-1990). IFCS. particularmente no que tange à sua “organicidade” e/ou “inorganicidade” e ainda sua específica situação de ter sua força motriz se constituído externamente .uma vez que a Colônia obteve sentido e unicidade a partir de determinada relação com a Metrópole.A idéia de Formação em Caio Prado Júnior Letícia Villela Dacol Orientador: Gláucia Villas Boas Co-orientador: André Pereira Botelho Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia. história. A hipótese é que esta categoria é central para a compreensão da obra do historiador paulista. Assim. marxismo. Formação. da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. procura-se mostrar que a partir da idéia de formação. Palavras-chave: pensamento social brasileiro. Em ambos os casos. . analisa-se nesta dissertação a idéia de formação em Formação do Brasil contemporâneo (1942). quanto no plano da sociabilidade e das relações sociais cotidianas da Colônia e do período de transição desta para a nação. o sentido da idéia de formação permite a Caio Prado Júnior problematizar e fomentar o debate sobre os impasses e possibilidades da constituição da sociedade nacional no Brasil.

Working on bibliografic research about recently works dedicate to Caio Prado Júnior’s production (1907-1990). the sens of formation idea allows Caio Prado Júnior to problematize and foment the discussion about impasses and possibilities of the constitution of the brazilian society as a nation. marxism. IFCS. we analize in this dissertation the idea of “formation” in Formação do Brasil Contemporâneo (1942). The hypothese is that this categoria is fundamental to compreend the work of this historian. Formation. como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Sociologia (com concentração em Antropologia). . Caio Prado Júnior. we pursuit to show that with formation categoria the autor had pretend to realize an interpretation of Brazil in so far in the plain of the society strucure sociability and quotidian social relations during the period of transition from Colony to the Republic nation.A idéia de Formação em Caio Prado Júnior Letícia Villela Dacol Orientador: Gláucia Villas Boas Co-orientador: André Pereira Botelho Abstract da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia. history. particularly in the case of its “organicity” or “inorganicity” had been especifically constituted externally – once the Colony had its sens and unicity been constituted on its relations with the Metropolis. Key-words: brazilian social thought. Both on either cases. da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Therefore.

à minha amiga Ana Lima. incentivando-me a continuar. e pela inspiração na escolha deste tema. aos meus amigos Vinícius. Ao meu amigo Roberto pelas cobranças epistemológicas nas mesas de bar. Ao meu marido João pelo companheirismo. Ao meu pai pelas críticas quanto à viabilidade destes caminhos. mesmo na contramão. pela paciência. Ao meu irmão Flávio pelos pitos nas minhas horas de fraqueza. ainda que de forma indireta. sendo. ao professor André Botelho e à professora Gláucia Villas Bôas. principalmente por ter sempre estado.Agradeço à minha mãe pelo exemplo de fibra e coragem para buscar novos caminhos. Marcelo Lion. . Charles Villela. Nelsinho. ao meu lado. meu primeiro interlocutor. À CNPQ pela bolsa de mestrado a mim concedida. Aos meus alunos de música.

À memória da professora Ana Maria Galano .

Assim. o caso se aplica também a Caio Prado Júnior no que se refere a seu livro ter se tornado um “clássico”. no caso de Antonio Candido. Concordando com essa sugestão de Roberto Schwarz. 1999. Está em curso. no que diz respeito a este último autor. por exemplo -. justamente o surgimento de trabalhos. que. ficando sem o debate que lhes devia corresponder. tornam propício o resgate também da obra de Caio Prado Júnior. podemos dizer que. sem ter obtido.INTRODUÇÃO Em Seqüências Brasileiras – ensaios (1999).como é o caso do debate em torno de autores como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. 1999: 46). neste momento. Assim. que também afirma que. de 1942. Passados quarenta anos. às vezes pagam por isso. sobretudo monográficos. se por um lado o livro do historiador paulista não teve a aceitação imediata que parece ter tido A Formação da Literatura Brasileira. a idéia central de Antônio Cândido mal começou a ser discutida” (Schwarz. a despeito da relativa demora da ocorrência do debate em torno da sua . publicada em 1959. 12). ao mesmo tempo. “a originalidade maior do trabalho está na concepção geral. procurando repensar os “clássicos” do pensamento social brasileiro . como foi o caso da Formação da literatura brasileira. o debate que merecia. Roberto Schwarz sugere que os “livros que se tornam clássicos de imediato. tomamos o potencial educativo dos seus argumentos para avaliarmos o caso específico de Caio Prado Júnior (1907-1990) e da leitura de seu “clássico” Formação do Brasil Contemporâneo. discutindo o livro Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido. na idéia de formação” (Idem.

contribuir para um debate maduro capaz de repensar aquelas obras a partir da perspectiva dos problemas atuais do pensamento social e da sociedade brasileira. as bases não só institucionais e portanto. por assim dizer. Podendo.maior ou menor em cada caso – do envolvimento emotivo que tais obras eram capazes de suscitar em outros tempos.obra. mesmo no âmbito daquele processo de reavaliação dos autores “clássicos” do pensamento social brasileiro. macrosociológico. tanto permitiu uma interpretação dentro de um contexto mais amplo. . neste percurso. “oficiais” da nação que tomaria corpo (a partir do início do século dezenove) como moldou formas de sociabilidade e conformou práticas e condutas que a nível da vida cotidiana resultou na formação de uma “identidade” ou “cultura” que resultará em uma sociedade determinada. ao autor se debruçar sobre as relações sociais específicas que constituíram. da estrutura da Colônia e do sentido da colonização. Pretende operar uma “desnaturalização” da leitura de Formação do Brasil Contemporâneo e elege como fio condutor para tanto destacar a idéia de formação. por via inversa. O presente trabalho pretende se inserir dentro desta corrente de reavaliações do pensamento social brasileiro. A hipótese que quero explorar é a de que a idéia de formação. trazida também pelo tempo e adensamento do conhecimento acumulado nas ciências sociais brasileiras. como possibilitou. como articulada no contexto da escrita de Formação do Brasil Contemporâneo. entendendo esta categoria como uma chave analítica central para o desenvolvimento da narrativa historiográfica de Caio Prado Júnior. de uma leitura mais isenta . podemos destacar como positiva a possibilidade. a sociedade brasileira. assim.

Muito sumariamente quero sugerir alguns contrastes. Para Caio Prado Jr. Sérgio Buarque de Holanda e Celso furtado” (Idem. Se passarmos a Sérgio Buarque de Holanda. ou esteve. No campo progressista. os congêneres mais importantes e conhecidos eram os livros de Caio Prado Jr. no futuro. por sua capacidade de trazer para a historiografia brasileira elementos desenvolvidos pelas ciências humanas. a filosofia e ainda.objeto central do autor entendida nos termos da unidade nos termos de uma nação pensada e elucidada a vista de suas contradições e sentido. a “comparação entre estas obras ainda está engatinhando. é central na experiência intelectual brasileira. portanto. encontraremos algo análogo. aliás. um estudo analítico de Formação do Brasil Contemporâneo para nós é pertinente pela capacidade de Caio Prado Júnior. principalmente pelas ciências sociais.1 1 Como sugere Roberto Schwarz. mais que um interesse puramente histórico ou ainda de destacar a possível genialidade de um autor. que um tal trabalho tem por motivação a idéia de que.haja visto a importância dada pelo autor ao trabalho de campo e à etnografia dos viajantes franceses em expedição no Brasil no século XIX. A esse respeito. Deve-se dizer. à espera de trabalhos de síntese.. e. valendo lembrar que também a idéia de “momentos decisivos“ que figura no subtítulo de A Formação da Literatura Brasileira é devedora da obra do historiador paulista. como sugere Roberto Schwarz. alinhou-se. pela antropologia contemporânea . entre várias obras de perspectiva paralela e comparável. 1999: 54). que buscaram acompanhar a formação do país em outros níveis. articular com segurança determinada metodologia. nesta obra. Este momento alto estaria. portanto. o autor filia o livro de Antonio Candido ao de Caio Prado Júnior.. A idéia de formação. a geografia. Como sugere Schwarz: “Quando o livro saiu. a formação brasileira se completaria no momento em que fosse superada a nossa herança de inorganicidade social – o oposto da interligação com objetivos internos – trazida da Colônia. O país será moderno e . poderíamos dizer.

1999: 54-5). na dependência das decisões do presente. entre as quais poderíamos destacar: Evolução do Povo Brasileiro (1923). além do mais que o horizonte descortinado pela idéia de formação corresse na direção do ideal europeu de civilização relativamente integrada – ponto de fuga de todo espírito brasileiro bem formado” (Idem. principalmente as do comando econômico. dirá que a nação não se completa enquanto as alavancas do comando. mais recentemente. Também aqui o ponto de chegada está mais adiante.] Com a distância no tempo.. O esforço de formação é menos salvador do que parecia. por seu turno. Arantes observa que mais do que “uma experiência intelectual básica”. . Como se trata. importante enfatizar. não passarem para dentro do país. Celso Furtado. Trato dos Viventes . a nação continua incompleta [. talvez porque a nação seja algo menos coeso do que a palavra faz imaginar” (Schwarz. Os donos do poder. de uma noção “a um tempo descritiva e normativa. Formação do Brasil contemporâneo (1942). Formação econômica do Brasil (1959) e. estará formado quando superar a sua herança portuguesa. Raízes do Brasil (1936). sugere Arantes (Ibidem). Entendendo por formação a busca de “linhas evolutivas mais ou menos contínuas” para a vida social como tema central no pensamento social brasileiro. 1997: 11-2). rural e autoritária. sem que por isso o conjunto esteja em visas de se integrar. pode-se também dizer quer essa visão do acontecido. bem indica sua recorrência. É como se nos dissesse que de fato ocorreu um processo formativo no Brasil e que houve esferas – no caso. em medidas e sentidos distintos.A idéia de formação foi discutida em registo semelhante também por Paulo Arantes. a literária – que se completaram de modo muitas vezes até admirável. Evolução política do Brasil (1933). Casa-grande & Senzala (1933).. 1997: 11). em obras capitais do pensamento social brasileiro. apresentada por Antonio Candido. quando então teríamos um país democrático.Formação do Brasil no Atlântico Sul. resultou mais sóbria e realista que a dos outros autores de que falamos. muitas vezes figurando nos próprios títulos. Ou seja. Formação da Literatura Brasileira (1959). Como aliás. para o autor. Formação do patronato político brasileiro (1958). compreende-se. ela constitui “verdadeira obsessão nacional” no Brasil (Arantes. enquanto as decisões básicas que nos dizem respeito forem tomadas no estrangeiro. de Luís Felipe de Alencastro entre outras.

a questão é posta em primeiro plano. uma interpretação a nível nacional. mesmo naqueles trabalhos dedicados exclusivamente à análise da obra do historiador paulista. nesses ensaios explicita-se um esforço para dotar de sentido o mundo estudado. em amplo sentido. às análises que visam elaborar uma síntese sobre as sociedades nacionais. para Bastos aquela idéia estaria no centro das inovações que Caio Prado Júnior imprime na historiografia brasileira e constitui peça chave para a compreensão do seu trabalho. no prefácio a um desses trabalhos. Bastos sugere que esta. longe de indicar estudos que fogem ao rigor científico e se desenvolvem apenas segundo impressões fugidias. 2000: p. 15). elas em geral mantém um certo caráter genérico. inserindo-se em certa tradição hispano-americana. Num desses trabalhos mais recentes analisados nesta dissertação. A idéia de formação. ele define o significado e o tipo de obra que Caio Prado Júnior desenvolveu. ou melhor. estando assim umbilicadamente ligadas à idéia de formação e propondo-se a indagar sobre o sentido dessas formações. se apresenta sob o gênero ensaio e tem por objetivo claro fornecer.Embora sejam muitas as referências à idéia de formação de Caio Prado Júnior na literatura pertinente. Articulando a idéia de formação à forma ensaio. buscando-se superar a situação individual do ensaísta (Bastos. Para a autora: A palavra ensaio. a despeito do sentido pejorativo que o termo ensaio pode assumir em certos momentos e contextos. Sentimento do Brasil: Caio Prado Júnior – continuidades e mudanças no desenvolvimento da sociedade brasileira. como sugere Elide Rugai Bastos no prefácio do livro de Rubem Murilo Leão Rego. constitui categoria central da obra de Caio Prado Júnior. refere-se. Em outros termos. Discutindo a forma narrativa de Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior. . Em suas palavras. antes.

bem como nos debruçaremos sobre a estrutura do livro. em particular. cumpre advertir que no âmbito desta dissertação circunscrevemos a análise ao texto de Caio Prado Júnior. . estas reavaliações frente a análises contemporâneas sobre o pensamento social brasileiro. bem como alguns dos diferentes significados e sentidos que ela pode assumir no pensamento social brasileiro. nosso objetivo é evidenciar algumas possibilidades abertas pela idéia de formação do historiador paulista. Assim procuraremos caracterizar as principais questões tratadas nas reavaliações recentes da obra de Caio Prado Júnior e.Reconhecendo a amplitude da problemática identificada em algumas das possibilidades interpretativas da idéia de formação. na medida do possível. na atualidade. Assim procedendo. dar ênfase à categoria formação. povoamento. vida material. no primeiro capítulo apresenta-se os resultados da pesquisa bibliográfica sobre Caio Prado Júnior. No segundo capítulo pretendemos traçar os principais aspectos da trajetória de Caio Prado Júnior tendo em vista sua vida intelectual e política. vida social. situando. Devemos dizer que ao operarmos uma seleção de textos relevantes não pretendemos dar conta da totalidade dos trabalhos que se debruçaram sobre o tema mais privilegiar a escolha de obras mais recentes que procuraram. Assim. Este conta ainda com uma segunda parte na qual indicaremos elementos centrais do horizonte ou contexto intelectual de Formação do Brasil Contemporâneo. tratar do tema. nos moldes em que é dividido. no contexto de seu livro Formação do Brasil Contemporâneo.

mostrando que ele não sente necessidade de recorrer ao argumento da autoridade. porém. que o historiador paulista não encarou “o materialismo histórico como uma coleção de verdades universais. Questão que aliás. pelo que consideramos. 2000: 229-30). as citações dos clássicos marxistas. foi capaz de fazer uma obra monumental. não se reivindica exatamente um caso de influência direta. importa como indicação de que Caio Prado. 2 2 Sobre a relativa ausência de “provas textuais” da influência do marxismo sobre Caio Prado Júnior. grande importância. Nessa aproximação. o que nos obrigaria a uma pesquisa mais sistemática que foge ao âmbito desta dissertação. Pois. tão comuns entre nossos autores esquerdistas. prossegue Ricupero. dada inclusive a pouca freqüência de citações na obra de Caio Prado Júnior como um todo de autores marxistas. mas como um método vivo. Bernardo Ricupero sugere. todavia. a obra de Caio Prado Júnior deve muito a este autor e à tradição intelectual e política por ele inaugurada quanto à compreensão do presente histórico como resultado de um processo – até mesmo de um processo de formação. . Neste ponto faremos um adendo ao texto acerca da concepção de história em Karl Marx. Isto não tem. não são freqüentes em Caio Prado. precisamente por ter sabido reter do marxismo o que nele é mais importante: a abordagem” (Idem. com o marxismo possivelmente limitado que conhecia. 2000: 230). adequadamente a nosso ver. Assim.No terceiro capítulo analisaremos a idéia de formação visando alcançar os objetivos já anteriormente explicitados. Assim. “Carlos Nelson Coutinho pode mesmo ter razão ao dizer que Caio não devia conhecer muito marxismo. como nota Novais. Ou melhor. constitui objeto de controvérsias na literatura pertinente. postura de quem é ainda prisioneiro de uma atitude mental que tem suas raízes nos tempos da escolástica” (Ricupero. manifesta na ausência de citações do pensador alemão ou de seus “discípulos” na sua obra.

alguns dos artigos de História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior (1989).CAPÍTULO 1 ASPECTOS DO DEBATE CONTEMPORÂNEO SOBRE CAIO PRADO JÚNIOR Neste capítulo pretendemos dar conta.3 Para tanto destacamos dois momentos recentes diferentes de retomada da obra de Caio Prado Júnior como objeto de análise privilegiando a discussão dos seguintes trabalhos: num primeiro momento. Num segundo momento. ainda que de maneira sucinta. Costa. já que nosso objetivo é realizar um balanço representativo das análises mais contemporâneas. e Caio Prado Júnior na cultura política brasileira (2001). – Continuidades e mudanças desenvolvimento da sociedade brasileira (2000) de Rubem Murilo Leão Rego. dos aspectos mais relevantes do debate contemporâneo acerca da obra de Caio Prado Júnior. deve-se destacar Cavalcanti. 1966. Sentimento do Brasil: Caio Prado Jr. Caio Prado Jr. livro em homenagem ao historiador paulista reunindo os trabalhos apresentados na II Jornada de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista (UNESP) realizada entre 26 e 28 de 1988. e a Nacionalização do Marxismo no Brasil (2000) de Bernardo Ricupero. . particularmente em relação a Formação do Brasil Contemporâneo e. de Raimundo Santos (deste mesmo autor. e Leite. avaliar o lugar da idéia de formação. destacaremos também o artigo “Uma ciência política em Caio Prado Jr. também. 3 Dentre as análises da obra de Caio Prado Júnior que podem ser consideradas “pioneiras”.?” publicado na revista Estudos: Sociedade e Agricultura. nessas análises contemporâneas. em abril de 2000). 1976. mas que não serão contempladas neste trabalho. objeto deste trabalho. 1967. Assim procuraremos caracterizar as principais questões tratadas nas reavaliações recentes da obra do historiador paulista.

sendo ao menos os trabalhos de Ricupero e Leão Rego originalmente formulados e apresentados como. que essa “recepção do marxismo como método e não como dogma abstrato é uma das principais razões dos acertos de interpretação contidos na obra de Caio Prado Júnior” (Coutinho. Carlos Nelson Coutinho sugere que a metodologia implícita nos trabalhos historiográficos de Caio Prado Júnior não consiste na tentativa de “aplicar” ao Brasil alguns esquemas marxistas abstratos. respectivamente. Nesse sentido. cada um a seu modo. . os trabalhos destacados no que estamos chamando de segundo momento de retomada da sua obra procuram. da trajetória intelectual e biográfica do historiador paulista. dissertação de mestrado e tese de doutorado. 1989: 115). que enquanto os artigos reunidos em História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior (1989) exploram aspectos diversos da obra. nesse sentido. um fio condutor que lhe permite descobrir as conexões e o sentido dos fatos que constituem a gênese e a estrutura do Brasil contemporâneo. Coutinho afirma.Ressalte-se o caráter monográfico desses últimos trabalhos. mas na tentativa de “historicizar os conceitos” do marxismo transpondo este para a realidade brasileira: o marxismo do historiador paulista seria um método de análise. pode-se dizer. Sobre História e Ideal – Ensaios sobre Caio Prado Júnior Em seu artigo “Uma via não clássica para o capitalismo”. 1. apresentar uma visão mais integrada e sistemática daqueles aspectos. da trajetória política.

“é indubitável que o historiador paulista não hesita em identificar como plenamente capitalista o Brasil republicano” (Ibidem). não careceu e nem carece de uma revolução . por isso. nesse sentido. que mesmo quando trata do passado. em sua interpretação destacam-se “ainda que só implicitamente”. através do Império e das várias Repúblicas. O autor argumenta que “embora exista em sua obra uma certa ambigüidade a respeito da caracterização do ponto de partida – ou seja. é inegável que o objetivo central da reflexão de Caio Prado Júnior – o ponto focal a partir do qual se articula o conjunto de sua ampla investigação histórica – é a compreensão do Brasil moderno” (Ibidem). Caio Prado tem sempre em vista a investigação do presente como história. do modo de produção e da formação econômico-social vigentes no Brasil antes da Abolição”. destacando que Caio Prado “insiste em que nosso país não é e jamais foi feudal ou semifeudal e. Tendo como núcleo de sua reflexão historiográfica o materialismo dialético.Considera que “embora tenha consagrado a maior parte de sua obra historiográfica à análise de nosso passado. conceitos como o de “transição” ou de “modernização”. numa “análise dialética da gênese e das perspectivas deste presente” (Ibidem). Coutinho discute também o tema das desavenças entre Caio Prado e alguns intelectuais da época em torno do modelo interpretativo dominante na Terceira Internacional e no Partido Comunista Brasileiro. Argumenta. Coutinho afirma ainda que para Caio Prado pensar o presente como história (como anuncia em Formação do Brasil Contemporâneo) significava responder necessariamente a seguinte questão: “de que modo e porque vias o Brasil evolui da situação colonial originária. o que implicaria para o autor enquanto marxista. para a constelação histórico-social que apresenta hoje?” (Ibidem).

1989: 228). com Formação do Brasil Contemporâneo.agrária e antiimperialista para se tornar moderno e capitalista” (Idem. culminando com o arranjo político de 1930” (Ferlini. Ainda. nesse sentido. 1989: 1156). de “inserir o Brasil numa economia capitalista mundial”. que pretendia “dar conta das profundas modificações da sociedade. na História do Brasil. apontando-o como o esgotamento do sistema colonial. com Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior “inaugura uma interpretação marxista da formação social brasileira. de imagens capazes de confeccionar uma identidade nacional com o intuito de unir. 229). bem como entre membros da elite nacional. corrente em sua época. em seu artigo “A dialética da história”. entre os intelectuais brasileiros da época. sem o qual não foi mais possível pensar a história e o pensamento no Brasil” (Ibidem). que a originalidade do historiador paulista reside na sua . frente às solicitações ampliadas do capitalismo. em 1942. era forte o desejo. premido por uma realidade já muito antiga: o passado colonial” (Ferlini. Segundo a autora. fato que resultou em uma busca. segundo a autora. defender e valorizar as especificidades nacionais frente ao mundo (Ibidem). destaca a idéia de que a historiografia de Caio Prado Júnior foi animada por uma discussão. ou numa elaboração. estabelecendo um horizonte intelectual novo. Para Octavio Ianni. Destaca. Caio Prado pretendia “ressaltar o caráter decisivo do século XIX. E partia da profunda determinação do sistema colonial pela história do capitalismo para dissecar por que o Brasil ainda não tomara forma. 1989. que haviam se acelerado na última década. da política e da economia nacionais. Vera Lúcia Amaral Ferlini. em seu artigo “Fidelidade à História”.

dentro da compreensão da relação entre passado. entre o passado e o presente como elementos fundamentais em Formação do Brasil Contemporâneo: “O presente. “conforme ela se mostra no século XX”. uma definição ou estigma: O presente capitalista. outros não. no qual se combinam vários pretéritos” (Ibidem). presente e futuro da interpretação de Caio Prado. Formas de vida e trabalho díspares aglutinamse em um todo insólito. Dentre os principais fatores que teriam conduzido Caio Prado Júnior a produzir uma interpretação dialética da história da sociedade brasileira. das relações sociais. A circulação simples. para Octavio Ianni. processos e estruturas que constituem “configurações sociais de vida” (Idem. dialogando com diversos autores contemporâneos e anteriores a ele. a circulação mercantil e a capitalista articulam-se em um todo no qual comanda a reprodução ampliada do capital. parece um mapa histórico. em cada época. industrializado. ou melhor. Em seu artigo intitulado “A visão do amigo” Florestan Fernandes defende a idéia de que a interpretação histórica de Caio Prado Júnior se diferencia de outras anteriores e subseqüentes a ele por não buscar uma “reconstrução pura e simples . Ianni aponta ainda a idéia de formação e a relação estabelecida. urbanizado convive. Portanto. formas de vida e trabalho. o que seria “uma peculiaridade básica da formação social brasileira”. revela-se. na narrativa. 1989: 71). modos de ser e pensar (Idem.capacidade de produzir. 1989: 63). 1989: 72). em escala internacional. “uma nova interpretação dos contornos e movimentos mais característicos da formação social brasileira” (Idem. arqueológico. O Brasil moderno parece um caleidoscópio de muitas épocas. Ianni destaca o estabelecimento conceitual das idéias de sentido da história. ainda em nossos dias. alguns referidos em seus trabalhos. (tal como já anunciava o século XIX) com vários momentos pretéritos.

do seu pioneirismo ao decifrar as possibilidades de adequação da dialética materialista ao contexto das contradições brasileiras. o que propunha um desafio fundamental de método” (Ibidem). 1989: 32). sua concretude. entre a “história tradicional” e a “história interpretativa” e afirma que “Caio inaugurou o modo mais avançado de história interpretativa no Brasil.do passado” (Fernandes. síntese. 1989: 32). clareza” (Dias. . Para a autora Formação do Brasil Contemporâneo apresenta uma estrutura de construção complexa e “é muito sugestiva da postura independente do engajamento político do autor. Em seu artigo “Impasses do inorgânico” Maria Odila Leite da Silva Dias afirma que uma contribuição fundamental da obra de Caio Prado Júnior é sem dúvida “a elaboração do método. Afirma que entre suas grandes contribuições. o qual se fundava no materialismo histórico” (Ibidem). Deste modo Caio Prado Júnior seria um dos principais expositores da explicação da sociedade escravista e das suas peculiaridades fundamentais (Fernandes. Portanto para Dias está claro que seu envolvimento com o materialismo dialético longe de ser um ponto que diminua a importância da interpretação de Caio Prado Júnior é mesmo uma das maiores contribuições dadas pelo autor à historiografia brasileira. como é o caso do ocorrido na França. está a análise influenciada pelo materialismo dialético como fator de diferenciação que estabeleceu e introduziu na historiografia brasileira entre a análise das estruturas e a história episódica ou descritiva. 1989: 378). Ressalta que sua narrativa pode ser definida como “uma tentativa de interpretação histórica materialista fecunda” (Ibidem). elaborado na sua especificidade. Insere sua historiografia num debate mais amplo.

analisando as especificidades de seu tempo. segundo ela. Nesse sentido. a despeito de não ter chegado a esmiuçar os anos de formação da república. proposto como “totalidade orgânica” implicava em questionar e refletir sobre as possibilidades de integração da massa da população no sistema produtivo do país. tensão que.A autora destaca como um dos eixos fundamentais da obra de Caio Prado Júnior o “tema das tensões entre sociedade e nação”. Caio Prado teria mostrado de forma objetiva a dificuldade estrutural da sociedade brasileira de se formar segundo seus próprios interesses e caracteres. Nesse sentido. Caio Prado teria desenvolvido sua obra com o intuito de mostrar que “a colonização não se orientara no sentido de construir uma base econômica sólida e orgânica” (Dias. de contradição fundamental que definiria todo o vir a ser da nacionalidade. Assim no livro Formação do Brasil Contemporâneo. que em seu tempo vivia uma atmosfera de expectativa de perspectivas diversas. e das relações sociais de dependência colonial. Assim Caio Prado Júnior teria justamente desvendado e destacado a existência deste impasse. a autora destaca a importância dada em Formação do Brasil Contemporâneo ao estudo das especificidades locais do processo colonizador – estudo que a despeito de todo desdobramento posterior da Antropologia e do . a partir da exploração racional e coerente dos recursos do território com fins a satisfação das necessidades materiais da população que nela habita. Para Maria Odila da Silva Dias o tema da nacionalidade. 1989: 377). aponta para a especificidade de um processo inacabado em nossa história e que corresponde a um dos traços característicos de nossa sociedade. orgânico. fato que desembocaria em uma sociedade singular e contraditória.

devidamente localizados no processo de povoamento. dado que. de um lado. mais ou menos diretas de dependência e subordinação com a grande lavoura do litoral (Idem. conforme suas relações mais ou menos intensas. regionais que revelaram potenciais de mudança.desenvolvimento de técnicas precisas se mostrava bastante inovador para a época. conjunturas. cuidadosamente trabalhado na perspectiva histórica da análise das conjunturas regionais do Brasil. 1989: 378). justamente por conciliar a interpretação marxista com a diversidade nacional. 1989: 379). a sua foi em vários sentidos uma obra pioneira pelo grau de elaboração do processo dialético. Caio Prado “procurou as diversidades específicas do processo brasileiro de colonização e formação da sociedade. Eric Hobsbawn e outros (Idem. 1989: 382). Maria Odila da Silva Dias observa ainda o víeis prático desta obra. Nesse sentido a autora sugere que: no plano mais amplo da historiografia marxista. para melhor indicar um programa de ação para o futuro” (Idem. a partir de um movimento dialético. Por isso atingiu em 1942. Ainda. um dos objetivos fundamentais de Formação do Brasil Contemporâneo consistiria em mostrar. Assim poder-se-ia notar que no emprego do método de interpretação das estruturas produtivas. de outro. um nível de concretude e de sofisticação de método que somente vinte anos depois começou a encontrar similares nas obras de Pierre Vilar. as chamadas “forças desagregadoras” de decomposição do sistema. segundo ela. abarcando mediações sociais específicas. essas forças dificultariam o processo e as potencialidades da transformação da colônia em nação e. Caio Prado dedicou-se à elaboração de teoria abrangente que levou em conta o estudo de modos de produção. pois. como marxista. segundo a autora. em suas origens históricas. contribuiriam justamente para a . Albert Soboul.

da organização precária de sobrevivência da população brasileira. Para a autora o enfoque estrutural escolhido pelo historiador paulista – delimitando precisamente seu objeto numa conjuntura de crise. se torna um fator de desagregação do sistema colonial indicando uma possível função de unidade no futuro (Idem. enfim. Maria Odila da Silva Dias sugere que o historiador paulista aborda o processo de formação da nacionalidade brasileira como sendo marginal ao processo produtivo (voltado para o provimento de necessidades exteriores) e que. dos condicionamentos geográficos. localizado entre o final do século XVIII e a época da Independência . como um processo marginal. até construir formas de vida social. uma visão estritamente economicista. que se projetavam para o futuro (Ibidem). as formas de vida sociais da colônia. assim sendo.deixa transparecer de imediato o tom engajado do trabalho. 1989: 381). 1989: 284). Para a autora. de um núcleo de relações de dependência colonial.constituição de uma sociedade livre – “acenariam para uma futura superação” do que se poderia chamar “impasse do inorgânico” presente ainda nos dias de hoje (Idem. que crescia a partir de uma contradição básica. Ao contrário de críticos. que se apresentaram como possibilidades de transformação. assim como a relação de tempo estabelecida pelo autor (entre o nosso presente e o passado colonial). o principal tema do historiador consistiu justamente em descobrir e revelar (por oposição a narrativa costumeira) o inorgânico da vida . sob o ponto de vista da formação das classes sociais. que enxergam em Caio Prado Júnior. das vicissitudes. Caio Prado Júnior teria reconstituído as tensões históricas. portanto. as especificidades do povoamento do interior.

serviria como amostra de que certas estruturas próprias do sistema colonial teriam continuidade. sob alguns aspectos. Caio Prado Júnior teria demonstrado que a formação do inorgânico conduziria a uma série de impasses estruturais visando. movimentos. por exemplo. de suas preferências como pesquisador. segundo Maria Odila da Silva Dias. 1989: 397). defende a idéia de que Caio Prado. procura a partir de sua teoria demonstrar e chamar a atenção para a necessidade de transformação da estrutura da sociedade como um todo. Em seu artigo “A força do concreto”. Por isso. para a autora. tensões (Idem. para a mudança das bases fundamentais da sociedade brasileira a despeito da compreensão idealista de esclarecimento e progresso (Idem. demonstrar que estes impasses estruturais viriam a causar outros impasses como o do processo de industrialização do país no século atual e que este. Assim. a seu ver. de seu modo particular de pesquisar. idealistas. pois se compunha de aglomerados de forças. com tendências.social. Caio Prado cuidou de elaborar os conceitos marxistas da forma mais concreta possível. 1989: 365). profundo pesquisador dos impasses estruturais da sociedade brasileira. Muitas vezes o fato histórico custava a se tornar inteligível para o historiador. Nesse sentido. de explicitá-los no seu próprio devir dialético sem falsear a interpretação deste processo com posturas ou deslizes teorizantes e. escrever e estudar o Brasil. de seu gosto pela viagem como meio de conhecimento. Antonio Candido se propõe a dar um depoimento a respeito da figura humana de Caio Prado Júnior. Nas suas palavras em Caio Prado: “o conhecedor de história e de economia do . ou seja. 1989: 385). o que depois viria a constituir e formar originalmente as classes trabalhadoras e os fatores de futura nacionalidade (Idem.

nesse sentido. Sob estes suportes teria fundado uma historiografia marxista voltada para a análise de instituições diversas. o movimento dos negócios. ao espírito sempre aberto para o fato do dia. a partir de suas especificidades segundo sua distribuição no espaço. os costumes. se embrulhar nas dinastias. o mecanismo de transmissão da propriedade. 1989: 24). a natureza mercantil da empresa agrícola. Dessas “duas dimensões de gostos”. de registrar. situando a família das classes dirigentes na devida escala e quebrando o perfil aristocrático traçado por uma ilusão complacente” (Ibidem). pois que “mais de uma vez ele me disse alegremente não saber história. ao leitor sistemático e microscópico dos jornais” (Candido. O que lhe interessa são a vida diária. esquecer datas e dar pouca importância a batalhas e detalhes. contudo. e coisas assim” (Ibidem). “atenta ao real. sua irreverência frente à disciplina que o consagrou. a presença do marginalizado. tomando este objeto a partir de uma compreensão não limitada. grande historiador que retificou as perspectivas sobre a nossa formação e mostrou uma série de aspectos esquecidos ou ignorados – como a qualidade real da população da Colônia. suas realidades e por conseguinte suas formas de produção (Idem. sem esquemas nem a . Caio Prado Júnior teria se formado como um estudioso ligado estritamente ao “concreto”. derivando seu conhecimento do meio físico. adverte Antonio Candido. do estudo das populações.Brasil se confunde na sua personalidade intelectual ao insaciável viajante e observador. a produção. a história. as técnicas de plantio. “é fácil inferir o tipo de historiador que é. no sentido de ignorar uma quantidade de datas. como lembrança da figura de Caio Prado Júnior. Para Antonio Candido. 1989: 25). Faz questão.

Da forma de desenvolvimento de suas características como historiador Antonio Candido indica que Caio Prado deu prioridade a via de conhecimento direta. situando a . ao leitor sistemático e microscópico dos jornais (Ibidem). afastando os aspectos que afloram para ir até as forças que regem de fato” (Ibidem). Assim Candido define o historiador paulista. nas palavras de Antonio Candido era ainda muito “idealista” (Idem. Caio Prado Júnior esteve sempre “interessado em pesquisar os aspectos fundamentais da sociedade. não procede como o estudioso que parte da abstração para em seguida procurar comprovantes. sempre se posicionou de maneira pouco ortodoxa tendo tido a felicidade de poder experimentar e desenvolver em sua ação uma apreensão bastante sofisticada e pessoal das especificidades da realidade brasileira. ligada em muitos sentidos. a presença do marginalizado. Antonio Candido afirma ainda que Caio Prado Júnior. Ele já está previamente embebido por estas e efetua de maneira produtiva a abstração como fruto maduro. nas palavras de Antonio Candido. ou seja. 1989: 26). analisa uma estatística de produção ou estuda o povoamento. Ressalta que neste esforço voltado para a “realidade concreta”. ao contato primário como meio de conhecimento. Assim. Caio Prado quando compulsa um documento. ao espírito sempre aberto para o fato do dia. a natureza mercantil da empresa agrícola. deixando de lado uma tradição do pensamento social brasileiro que. também seu amigo pessoal: grande historiador que retificou as perspectivas sobre a nossa formação e mostrou uma série de aspectos esquecidos ou ignorados – como a qualidade real da população da Colônia. que foi. dentro do cenário acadêmico de seu tempo. diga-se de passagem. O conhecedor de história e de economia do Brasil se confunde na sua personalidade intelectual ao insaciável viajante e observador.imposição de prejulgamentos”.

”. não chegaram a nada . Alberto Torres e Oliveira Vianna .. Caio Prado estava ciente de que inaugurava uma nova dimensão da história. Afirmando que sua geração sofreu já com Evolução Política do Brasil influências fundamentais de Caio Prado Júnior. atenta ao real. Afirma também que em relação a interpretações anteriores.. 1989. 1989: 25). no Brasil. Em seu artigo “Do palacete à enxada”. Destaca para este entendimento de Caio Prado Júnior também a descoberta efetuada pelo autor de elementos da Geografia. Maria Cecília afirma que o historiador paulista tinha por opinião que. livro que “abriu a fase dos estudos marxistas na visão panorâmica do país”. Antonio Candido considera que as qualidades esboçadas no livro de 1933 seriam amadurecidas em 1942 em Formação do Brasil Contemporâneo (Idem. 1989: 47).. 1989: 26).família das classes dirigentes na devida escala e quebrando o perfil aristocrático traçado por uma ilusão complacente” (Candido. em termos de produção historiográfica “estava tudo por fazer” (Idem. Caio Prado “deixa longe a tradição ainda meio idealizadora que preponderava em sua época” e “funda solidamente uma história marxista. 48). aberta.. em suma. no Brasil. que estudou com . sem esquemas nem a imposição de prejulgamentos” (Idem. p. Maria Cecília Naclério Homem afirma que a originalidade de Caio Prado Júnior não pode ser entendida sem levarmos em conta que: “sua dimensão de história será muito mais ampla porque pretende transformá-la tanto pela produção escrita quanto pela sua própria participação nos acontecimentos políticos e culturais” (Homem. Para Candido. Silvio Romero. o que demonstra suas próprias palavras: “No Brasil. 1989: 24).

1989: 49). argumenta. Em seu artigo “O sentido do colonialismo” Maximiliano Martin Vicente chama a atenção para o fato de que Caio Prado Júnior foi em seu tempo um escritor de fecunda originalidade assumindo “uma posição de vanguarda”. Assim entre os elementos que teriam possibilitado sua ruptura com a historiografia tradicional ocupa a Geografia. Ainda nesse sentido. um lugar de destaque: “a geografia tornou-se seu instrumento de trabalho para o conhecimento do país e para a elaboração da própria História” (Ibidem). Foram esses métodos. ensina ele. 1989: 87). Discutindo o papel de Caio Prado para a “compreensão da montagem do sistema colonial feito pelos portugueses no Brasil”. geógrafo francês. métodos que defendeu outrora com as seguintes palavras: “chega uma hora”. a autora assinala que as viagens de Caio Prado pelo Brasil e seu entendimento da contribuição da fotografia como instrumento de trabalho de grande importância para a análise historiográfica foram fatores que o permitiram romper com a historiografia puramente institucional da tradição estabelecida. “que é preciso fechar os livros e partir para o reconhecimento da realidade. Observa ainda.Pierre Deffontaines. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. argumenta Vicente: . Homem. levantando os problemas in loco” (Idem. que teriam permitido ao historiador paulista atingir seu objetivo de “levantar o sistema de vida e as condições de sobrevivência de cada lugar” (Ibidem). para Maria Cecília N. que Caio Prado privilegiou o estudo de campo e a observação direta. na mesma direção de Antonio Candido. na recém-inaugurada Faculdade de Filosofia. o que em “em muitas ocasiões lhe trouxe problemas” (Vicente.

nota-se que. o mesmo que pretendiam Fernando de Azevedo e Oliveira Vianna). 1989: 90). Esta diferença estaria no fato de que “ao procurar descobrir a persistência dos componentes coloniais na vida brasileira (diga-se de passagem. o autor vê a colônia em perspectiva econômica. Maximiliano Vicente mostra que na raiz das divergências que Caio Prado Júnior encarou em sua época está claramente a idéia de que a colônia teria sentido por ela mesma e assim poderia ser analisada (Idem. Já John M.. dentro da qual ele busca um ‘sentido’ para a . principalmente em dois de seus livros. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777/1808).se no momento atual. no quadro da historiografia de sua época. anteriores e mesmo posteriores a 30. parece óbvia a afirmação segundo a qual pode-se dizer que Caio Prado Jr. Adverte. destaca o sentido da colonização e os principais componentes do sistema colonial” (Ibidem). Evolução. contudo. ou seja. principalmente depois do detalhado e completo estudo realizado na década de 70 por Fernando Novais. que “ao retomar a visão colonial na obra de Caio Prado Júnior. a volta ao passado (colônia) tem características diferentes” (Ibidem). e Formação. Daí sugerir que para a compreensão do historiador paulista e de sua inversão metodológica. é um dos melhores historiadores de que dispomos. em seus escritos. as colocações de autores de ampla difusão. 1989: 89). Monteiro em artigo intitulado “A dimensão histórica do latifúndio” afirma que um dos fatores de inovação da teoria de Caio Prado Júnior é a descoberta de que “as estruturas agrárias brasileiras são produtos da lógica da expansão comercial européia. deve-se notar a importância central de uma especifica concepção de colônia. ou procuravam interpretá-la de acordo com sua conveniência em função de alguma idéia preestabelecida (Idem. pareciam não entender bem a questão.

mero resultado de pactos de elites conservadoras’. para John Monteiro “percorre como espinha dorsal todas as suas análises concretas” (Ibidem). em cuja constituição jogou papel fundamental a importação de relações sociais de produção já desenvolvidas e acabadas nas sociedades clássicas do . Justamente sua “ênfase na estrutura” teria sido o fator que possibilitou a Caio Prado Júnior manter-se afastado das interpretações “naturalistas” que produziram discursos as vezes “racistas” e “exageradamente deterministas” pautados na crença da existência de uma “massa popular que vegeta. no nível da simples subsistências física e do mínimo de desenvolvimento espiritual” e se encontraria relegada a um dos lados do abismo (Idem. o qual apontava para uma “inevitabilidade da desgraça que previa um movimento quase trágico. em sua “ênfase na estrutura” o que. entre outros aspectos. 1989: 167). Nesse sentido. para a historia” (Ibidem). necessário. material e culturalmente. Caio Prado pôde se separar da tradição determinista que tinha em seus princípios a “falsa noção de que a desigualdade social no Brasil se devia fundamental e primordialmente a um ‘desvio perversionista.marcha da história nacional” (Monteiro. Discursos que mais legitimavam do que explicavam o tipo de exploração existente no meio social brasileiro. Assim. Nesse sentido. a originalidade de Caio Prado Júnior em relação à historiografia anterior a ele estaria. Caio Prado pôde esmiuçar “as especificidades de um processo de industrialização sui generis na história do industrialismo capitalista ocidental”. também quanto à industrialização. 1989: 154). graças a ênfase que dedicou ao estudo das estruturas e processos – o que o diferenciou ainda no meio da militância política” (Idem. segundo Monteiro: nesta formação social periférica subordinada. 1989: 168).

Ricupero destaca que grande parte da recusa. Sobre alguns trabalhos monográficos recentes Em Caio Prado Jr. ao conseguir isso. não se põe nela o ciclo do capital industrial (o movimento geral do capital) com a inteireza dos seus departamentos e de sua realização. de uma orientação teórica e metodológica que prova sua fecundidade heurística dando conta de situação distinta da qual nasceu para dar expressão e. de se estudar Caio Prado Júnior – que percebeu ser . 2000: 17). Não se põe nela um ciclo do capital conforme o conceito que lhe é próprio.capitalismo. A mais-valia desta economia periférica e subordinada realiza-se no e pelo mercado mundial. ou estranheza. e a nacionalização do marxismo no Brasil. revela-se como universal” (Ricupero. modalidades determinadas unilateralmente (Ibidem). Portanto. Bernardo Ricupero trabalha com a hipótese básica de que Formação do Brasil Contemporâneo representa um “caso bem sucedido de assimilação e recriação de um conjunto de idéias. E intra muros para que se dêem as condições necessárias deste modo de realização. é necessário que produção-distribuição-consumo se “enraízem” em formas naturais limitadas. mas sim uma operação articulada. 2. o autor defende que em Formação do Brasil Contemporâneo o que pode parecer uma obviedade ou um doutrinarismo – ainda mais para uma análise que não leve em conta o momento histórico de sua produção – deve ser precisamente desnaturalizado para que nós. 2000: 31). como “uma resposta positiva para o dilema proposto por Gramsci sobre a “tradutibilidade” das linguagens científicas” (Idem. Para o autor a “nacionalização” do marxismo operada por Caio Prado não foi uma tentativa inusitada ou isolada. estudiosos de hoje. possamos tirar de seus meandros “sua face heurística”.

Portanto argumenta que pretende privilegiar em Caio Prado a parte que ficou. sem compreender que o Caio Prado como historiador é incompreensível sem levarmos em conta o Caio Prado militante político (Idem. e que uma vez que se trata de um autor revolucionário. que apesar de toda crítica corresponde a um clássico de nossa literatura. Ricupero rebate que boa parte do seu próprio interesse em Caio Prado viria justamente de sua associação com o marxismo. Ricupero desenvolve em seu trabalho uma análise do que denomina de “razões internas” da escrita do autor que justificam um estudo . de sua indissociabilidade: naquilo que se refere à ação política. e de um certo senso comum – que o acusa de uma associação ao marxismo. ou seja. Para Ricupero os livros de Caio Prado manifestam a convicção intelectual de que “o estudo teórico deve ser orientado para a compreensão do presente” (Ibidem). Assinala que Caio Prado foi. deve ser transformada.constante por parte de nossa academia – advém de críticas. A isto. ou seja. as implicações políticas de suas análises. deve servir fundamentalmente para que se possa intervir na realidade do momento histórico que se vive – realidade esta que tem por princípio ser imperfeita. em sua palavras “particularmente subestimado” pelo pensamento social posterior a ele. Além de razões práticas para operar a desnaturalização do pensamento de Caio Prado Júnior. o historiador paulista é particularmente contundente em insistir que ela deve ser orientada por uma teoria adequada” (Ibidem). Afirma que não podemos ler Caio Prado. Assim. 2000: 26). em todos os sentidos. Caio Prado entende que a elaboração teórica tem por objetivo a política. ou melhor. um defensor da unidade de teoria e prática. para o autor.

sugerindo que somos. tendo podido ir bastante fundo na investigação dos princípios de nossa formação. de um direcionamento causal. de suas contradições. em nosso passado colonial e levantando hipóteses.sistemático de sua obra. trabalhadas pelo braço escravo” (Idem. no Brasil. Ainda para Ricupero. Caio Prado realizou uma “reflexão original sobre a história e a sociedade brasileira”. Assinala ainda que Caio Prado Júnior acreditaria que. reflexão esta que constitui uma “contribuição particularmente importante para a compreensão da nossa realidade” (Idem. interesses externos. baseado na produção de gêneros tropicais em grandes unidades agrícolas. em nossa historiografia. ainda hoje (e mais ainda em sua época quando a industrialização do país e a estrutura agrária ainda estavam mais ligadas ao . em sua raiz. nosso passado é quase indissociável de nosso presente. que até hoje seriam de difícil refutação. ou alheios. 2000: 28). Caio Prado Júnior foi um dos que mais e melhor investigaram as origens das estruturas e do desenvolvimento do país. aos nossos próprios. que tem por motivo. a chamar a atenção para a idéia de “sentido da colonização” afirmando que não se pode falar de realidade brasileira sem levar em conta que temos em nossa constituição territorial a característica de sermos em nossa origem dotados de um “sentido”. Caio Prado Júnior tem grande relevância por ter sido um dos pioneiros. Para ele. 2000: 27). portanto. Acredita que dentre os nossos historiadores. Este sentido é indicado (a despeito de toda provocação e de todo alarde que possa causar) como sendo o de um interesse por um estabelecimento de um “empreendimento comercial voltado para o mercado externo. portanto. realizando fecundo mergulho.

por si só incompletas.passado colonial). pensando esta sociedade em bloco e não a partir de acontecimentos isolados” (Idem. o que reflete o fato de que ‘todos os momentos e aspectos não são senão partes. Bernardo Ricupero tem por finalidade central buscar “problematizar o sentido do Caio Prado Jr. compostos parte pelo passado. 2000: 157). de um todo que deve ser sempre o objetivo último do historiador’” (Idem. e a nacionalização do marxismo no Brasil. “já que ainda não o superamos de todo” (Ibidem). há um certo ‘sentido’ que lhes confere inteligibilidade. p. A habilidade do historiador paulista em observar a realidade adviria precisamente da consciência de que “apesar de a história ser feita de um ‘cipoal de incidentes secundários’. Assim elegendo como fato principal de nossa história o “sentido da colonização” Caio Prado pôde. apreender a “totalidade” da unidade social brasileira. 2000. categoria esta que deve muito a teoria marxista de interpretação da história como movimento materialista dialético. mesmo problematicamente. Em suma. Portanto para Ricupero. que podem até mesmo nos confundir. começa a se formar. político e .155-156). Caio Prado pôde fornecer um retrato da Colônia “não como um mero amontoado de eventos e características combinados aleatoriamente”. mas como o de “uma certa sociedade que. Somente a partir do desenvolvimento desta categoria de análise. segundo Ricupero. Caio Prado foi capaz de compreender o sentido da nossa formação e fez deste sentido. da elaboração deste sentido como essência da experiência colonial brasileira. uma chave analítica para a interpretação da história brasileira e dos desdobramentos posteriores que esta teve. e como notou Gildo Marçal Brandão no prefácio de Caio Prado Jr.

Para contrastar estas “formulações oficiais do PCB” com as de Caio Prado. no entanto. num caminho de duas vias. Caio Prado como um autor “comunista brasileiro”. Santos sugere que a bibliografia estudada pelos integrantes do partido em geral dependia de alterações e adaptações pragmáticas que poderiam ajustar a cartilha desta literatura a conjunturas específicas.. faz parte da cultura pecebista”. ao lado da relevância que damos as contribuições deste autor a historiografia brasileira deve-se compreender o autor como um ativista do partido e da causa política (Santos. destaca os textos memorialísticos do historiador paulista (como a de seus diários políticos) como peças fundamentais para a compreensão do seu pensamento. ou seja. Bernardo Ricupero persegue como objetivo central mostrar como. buscando perseguir incansavelmente “uma problemática básica – as questões da construção nacional e das possibilidades de mudanças inscritas no processo histórico” – uma vez tendo atingido sustentação teórica busca conformar sua crítica (e sua pretensão de desenvolvimento de um projeto político) às determinações de processo histórico concreto (Idem. em Uma ciência política em Caio Prado Jr. Caio Prado desenvolve sua visão da política a partir dos desdobramentos práticos do seu trabalho de historiador e que. além do seu lugar na historiografia. 2000: 16). Já Raimundo Santos. Assinala. 2000. Ainda segundo Brandão. a obra de Caio Prado Jr. que ao longo de toda sua obra. 2001: 129).teórico da política” (Brandão. exigindo . muito distintas das de sua origem. 15). e argumenta que esta “vêm realçar algumas conjecturas que insistem em que. desenvolveu uma teorização que ia “muito além das ‘formulações’ oficiais do PCB” (Ibidem).

então militante-fundador do Ibesp. Raimundo Santos destaca que mesmo em seu período Caio Prado Júnior era notado com estranheza por outros autores. provocando entre seu meio certo mal estar. Raimundo Santos destaca ainda algumas opiniões de intelectuais sobre Caio Prado Júnior. como a de Hélio Jaguaribe. ou Jacob Gorender. portanto de uma reelaboração teórica. Raimundo Santos destaca ainda que em torno do autor se deu uma demorada polêmica em torno das teses comunistas da origem ou tipo de sociedade que existia durante a colonização no Brasil.necessariamente ajustes para a práxis prescindindo. um dos teóricos com maior . Para o entendimento da posição de Caio Prado Júnior nesta polêmica. mais se pareceria com a “fazenda de escravos romana do que com qualquer formação social representativa do feudalismo” (Ibidem) Para situar a discussão. Entre os mais antigos destes autores destaca o próprio Luis Carlos Prestes que em 1954 escreveu uma crítica a Caio Prado para advertir a Revista Brasiliense pelo seu envolvimento naquilo que ele chamava de “nacional reformismo” (Idem. particularmente a tese da existência de um feudalismo como modo de produção da colônia que Caio Prado refuta por achá-la absurda e ineficiente para explicar as origens da realidade do latifúndio brasileiro e das desigualdades no campo. comunistas e não comunistas. que o considerava “o único teórico marxista do Partido Comunista Brasileiro”. 2001: 132). Raimundo Santos destaca ainda um artigo publicado na imprensa comunista da época intitulado “Os fundamentos econômicos da revolução brasileira” no qual Caio Prado trata o tema da origem da economia agrária do seguinte modo: a fazenda brasileira “como sendo estruturada para o sistema de produção de grande empresa mercantil”.

que nos levará ao socialismo” (Ibidem). p. segundo ele. justamente para formar da diferença a idéia do “sentido” da “colônia de produção” brasileira (Ibidem). pondo diante do destino brasileiro. como Marx ao divisar na Europa a rota dos países atrasados. já em 1933. Caio Prado Júnior na Cultura Política Brasileira. 2001: 133). 15). uma teoria (uma ciência) política (Idem. Raimundo Santos destaca que Jacob Gorender comentando A revolução Brasileira de Caio Prado ainda em 1989 apontava a filiação ao positivismo lógico como um segundo deslize do historiador paulista. para quem a rebeldia de Caio Prado em relação ao consenso da teoria do partido dever-se-ia a um “problema idealista” da sua formação (Ibidem). Caio Prado Júnior já teria a pretensão de desenvolver. Afirma que seguramente “no primeiro volume de Formação do Brasil Contemporâneo o autor já buscava (para definir uma política para o seu partido?) – a especificidade da formação social. Critica precisamente as idéias de Caio Prado Júnior sobre a desnecessidade de se classificar a revolução que se faria no Brasil. Em outro trabalho.trânsito ao interior do PCB em seu tempo. a “colônia de povoamento” americana. além do objetivo de romper com a historiografia oficial. Afirma precisamente que as dissertações de Caio Prado Júnior sobre Formação do Brasil . com sua análise histórica. pois. Raimundo Santos procura examinar particularmente a tradição intelectual representante da cultura pecebista visando situar Caio Prado dentro da “cultura política do pecebismo contemporâneo” (Idem. Raimundo Santos levanta a hipótese de que no livro A Evolução Política do Brasil. Para Caio Prado Júnior a necessidade de sua tarefa consistiria em fazer uma teoria para a conjuntura. 2000. somente dela é que “poderíamos avançar numa progressão.

de que “a historiografia de Caio Prado Júnior se constrói para balizar a política comunista no Brasil a partir de alguns termos pares que afloram e sempre voltam em seus textos. “entre circunstância de pensamento social e condição militante”. colorindo a obra com problematizações estratégicas no seu pensamento – mercantilismo e miserabilidade. 2000: 39). Nesse sentido. mas como que estariam trazendo teses para a reformulação da própria idéia de política socialista no Brasil. 292). que também procura resolver no livro que analisamos anteriormente. “não só mostraria como os textos políticos de Caio Prado Júnior não são meros opúsculos para consumo em pequenas querelas ad hoc. no autor sempre pensada a partir da compreensão do conjunto da formação social em sua especificidade” (Idem. campesinismo e generalidade (mercado interno nacional). Raimundo Santos considera que apesar de ser impensável fora de seu partido “o historiador vive a história de um intelectual outsider” (Ibidem). Caio Prado “sempre está buscando por à mão de seu partido elementos de teoria política para um socialismo definido de acordo com um programa de grandes reestruturações que as dissertações sobre a contemporaneidade brasileira lhe indicavam” (Ibidem). Raimundo Santos procura demonstrar que a reconstituição de uma unidade entre a obra básica de Caio Prado Júnior e a publicística do autor. justamente em torno da questão que ele chamava de falta de ‘fundamentos’ da política comunista no Brasil” (Idem. 2001. 2000: 17). ora em pleno . Acredita que é possível que “o movimento de interpelação do pensamento social brasileiro dos últimos tempos. Assim. vida política (tradicionalmente à base de agitações e estéril) e estruturação partidária” (Idem.Contemporâneo “desde cedo o põem em conflito com o seu partido. p. Partindo deste ponto levanta sua hipótese.

os quais identifica no tipo de “definição dos sujeitos dos processos sociais” (Ibidem). 2001: 293).curso. ou tipo especifico de “sentimento dos problemas” brasileiros. Ignácio Rangel e outros” (Idem. como vem acontecendo em relação a Gilberto Freire em algumas dimensões interdisciplinares. e ainda nos casos de Furtado. a começar pelo tema posto na ordem do dia pelas questões novamente trazidas pelo drama do mundo rural” (Ibidem). Leão Rego pretende chegar ao pensamento do historiador buscando a compreensão da lógica interna de suas idéias. Caio Prado Júnior como um autor igualmente portador de aberturas analíticas.. bem como tornando aparente as linhas de força de sua análise. O autor procura mostrar que existe uma “dupla via em que se desenvolve a análise caiopradiana. entre suas surpresas. É este justamente o tema central de outro trabalho recente dedicado a Caio Prado Júnior: Sentimento do Brasil – Caio Prado Júnior – continuidades e mudanças no desenvolvimento da sociedade brasileira de Rubem Murilo Leão Rego. traga. 2000: 16). de um lado buscando reconstruir o modo de desenvolvimento do capitalismo no país que não se explica dentro dos limites estritos da nação e de outro procurando compreender porque esse processo é excludente e não democrático – essas duas questões definem o caráter da ruptura e o caráter fundador de sua macrointerpretação” (Rego. Bonfim. De modo diferente a de outros autores. segundo ele assume uma perspectiva original. que. Rubem Murilo Leão Rego indica como eixo articulador da imagem de Brasil proposta por Caio Prado Júnior a idéia de constante “modernização . Afirma que “só muito recentemente chegam as primeiras manifestações sobre a atualidade de Caio Prado Jr.

tanto no primeiro quanto no segundo grupo de trabalhos destacados. Como visto também. particularmente mas não exclusivamente em função da introdução do marxismo nas chamadas interpretações do Brasil. consolidou e até expandiu os processos de exclusão e de marginalização social que caracterizam toda a nossa história. conceito desenvolvido por Lênin e Gramsci. Ou mesmo se esse mesmo processo de modernização não tem sido também um importante fator de expansão da miséria e da pobreza da população por ele excluída. embora diferentes intérpretes . 2000: 27). seja quanto ao caráter normativo de “transformação social” envolvido na sua obra. ganha sentido sua preocupação sobre em que medida os processos de modernização capitalista das relações sociais e da estrutura produtiva sujeitam. Para o autor a questão agrária ocupa lugar central na imagem caiopradiana do Brasil. especialmente no mundo agrário. de molde a produzir efeitos positivos sobre a melhoria de suas condições de vida. de consumo e de trabalho. sugere Leão Rego: Entre suas preocupações nucleares está a que procura constatar se as transformações ocorridas na estrutura da produção agropecuária resultaram ou não numa ampla incorporação populacional a uma estrutura de mercado. Assim. *** Como se pode depreender da exposição realizada. eliminam ou coexistem com os tradicionais traços arcaicos geradores da nossa miséria. já que nela a permanência do latifúndio está na gênese do fato de que o Brasil moderno reproduziu.conservadora”. Por isso. em sua opinião. ampliada do antigo sistema colonial. a crítica tem enfatizado a “originalidade” de Caio Prado Júnior seja quanto ao método. suas reflexões têm a força da denúncia dos efeitos perversos do processo de transformação-persistência da grande propriedade funidária (Idem. Sugerindo a atualidade de Caio Prado. mostrando como as inovações as quais está exposta a estrutura brasileira se combina com a conservação e a reprodução.

bem como da estrutura narrativa da obra selecionada para análise. Berriel. ela não têm se constituído exatamente em objeto específico das análises recentes. Antes de apresentar e discutir a idéia de formação em Formação do Brasil contemporâneo de Caio Prado Júnior. objeto central do trabalho. CAPÍTULO 2 CAIO PRADO JÚNIOR E FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO Recuperamos neste capítulo aspectos centrais da trajetória de Caio Prado Júnior sugerindo como nela as dimensões intelectual e política estão profundamente articuladas conferindo-lhe sentido próprio. 2000: 19-21. 1977. 1. no próximo capítulo. como estamos nos propondo a fazer. apresentação dos traços fundamentais da trajetória intelectual e política do autor. faço. da concepção historiográfica e do plano narrativo de Formação do Brasil contemporâneo. apresentamos brevemente as linhas fundamentais do contexto intelectual. Aspectos de uma trajetória Caio Prado Júnior nasceu na cidade de São Paulo em 11 de fevereiro de 1907. Pertencia a uma das famílias mais abastadas e influentes do Brasil. D’Avila. Na segunda parte do capítulo.se refiram e/ou destaquem em medidas diferentes a importância da idéia de formação na obra do historiador paulista. mas necessária. Dentre . aos 83 anos. cuja história confunde-se com a do baronato cafeicultor paulista e do próprio estado de São Paulo (Levi. Faleceu na mesma cidade em 23 de novembro de 1990. uma rápida. 2003. 2004). Karepovs.

mais que fortuna. temos que recuar aos idos da colônia. Antônio da Silva Prado articula desde cedo uma rede de influência importante. Antônio elege-se para a Câmara Municipal de São Paulo. Remonta já desta época a participação política da família. que sua origem remonta à nobreza portuguesa do século XIII. Casa-se com Filippa do Prado. chega em São Paulo no decorrer da primeira década do século XVIII. foi um dos membros que mais se destacou na primeira geração. terrenos e comércio na região central. por meio da esposa. Sabe-se. ruas São Bento e do Carmo. correspondia a casas. Martinho Prado (1722-1770). empresários e políticos. 2003). um de seus filhos.seus ancestrais. destacam-se não apenas comerciantes. casado com Ana Vicência Rodrigues de Almeida. sua cidade natal. Seu primeiro membro a viver no Brasil foi Antônio da Silva Prado. como ainda dois importantes historiadores: Eduardo Prado e Paulo Prado. Esse. Ao chegar ao Brasil. um patrimônio respeitável. no entanto. Seu sucessor Antônio Prado. Suas atividades nos ramos do empréstimo e do comércio lhe . em cuja família encontravam-se notórios bandeirantes. Com a morte de sua primeira esposa casa-se com Francisca de Siqueira Moraes e se coloca como membro da elite paulistana sendo inclusive um financiador de uma expedição de ouro em Goiás em 1730. vindo de Prado. Os resultados desta empreitada não são conhecidos. fazendeiros. Ilustrando o quadro do aparecimento da família Silva Prado. que na incipiente cidade de São Paulo. sabe-se que sua fortuna quando a época de seu falecimento foi modesta contando entre os bens mais valiosos deixados por ele uma rede de amigos e associados sem a qual certamente seria difícil o sucesso de seus herdeiros (Karepovs. herda.

. é escolhido prefeito da cidade em 1899. Seu currículo ilustra seu empenho em reformar os convencionalismos e os padrões tradicionais da política do Império. provavelmente com fins pragmáticos de manter a fortuna em família (Ibidem). Obteve sucesso na administração da cidade sendo seu trabalho marcado pelo embelezamento da cidade bem como de obras de elevada importância cultural como é o caso do Teatro Municipal de São Paulo e da Praça da República. provavelmente. Veridiana da Silva Prado (1826-1910). Sua filha D. 2003: 8). foi o primeiro deputado republicano à Assembléia Constituinte de São Paulo e um dos abolicionistas e promotores da imigração européia subvencionada mais destacados. recebendo personalidades. promovendo encontros e debates entre as mais diversas tendências e credos políticos (Karepovs. Martinico da Silva Prado Junior (1843-1906). (Karepovs. Filho de Veridiana Prado. Mulher emancipada separa-se do marido Martinho Prado e exerce grande influência tanto na família quanto na sociedade paulista do final do século XIX. avô de Caio Prado Junior. Antônio Prado (tio-avô de Caio Prado Junior). Destacaram-se entre suas atividades o comércio de açúcar e ainda seus serviços prestados à Coroa como coletor de impostos. inaugura. bisavó de Caio Prado Júnior. 2003: 9). 2004). segundo filho de Veridiana. cargo que ocupou até 1910. Compra em 1878 um terreno na então Rua Santa Cecília (hoje rua Dona Veridiana) e constrói um palacete onde mantém o salão literário mais importante da cidade de São Paulo. Pedro II o título de Barão de Iguape em 1848.rendem fortuna. na família a verve “revolucionária” (D’Avila. O terceiro Antonio Prado (1788-1875) recebe através de D. Ao morrer sua esposa casa-se com seu irmão.

. Segundo uma versão da historia. Pedro II não teria sorrido ao saber da identidade de seu pequeno agressor. Numerosa. sua família era reconhecida como um clã de rebeldes.Pedro II. Sorrindo. como é o caso de Caio Prado Junior. e ainda situar sua posição na vida social paulista é curioso conhecer um caso contado em família. Como deputado pelo Partido Republicano em 1878. 1956). quando cursava a Faculdade de Direito. Pedro parou colocou sua mão sobre a cabeça do menino e perguntou: “este quem é?” “Filho de Martinico”. Na versão de Caio Prado Júnior. . ele afrontava a elite paulista com pensamentos libertários e democráticos europeus defendendo a aplicabilidade dos mesmos no Brasil. sempre recorria ao exemplo da França e Estados Unidos. esta história tinha uma diferença. o imperador teria dito: “tão pequeno e já com instintos revolucionários como o pai”. sua mãe – Veridiana – promoveu uma recepção para D. narra em seu livro de memórias Alegrias e tristezas de uma governanta alemã no Brasil. como Martinico Prado. D. países pioneiros na modernização do Estado. teria manifestado certa raiva (Karepovs. sofrendo por isso prisões e censura durante a sua vida. adotando caráter progressista e. neto de Martinico. atingiu o imperador na face com uma bola de pétalas de rosa. tenderam para idéias de cunho liberal. Martinico Prado Neto. 4 A despeito de sua condição de elite. fato que Ina von Binzer. Durante o encontro. governanta alemã que cuidou dos seus filhos.Já. D. Em 1887. 2003: 9). tendo como membro o pai de Caio Prado Jr. 2003: 10). levando às últimas conseqüências a vida segundo ideais revolucionários. Incentivou a educação não rígida dos filhos como parte de seu republicanismo e de seu repúdio aos costumes não tradicionais. salientando que os pequenos Prados tinham a fama de crianças mais “mal criadas” de toda São Paulo (von Binzer. para salientar a necessidade de reformas políticas no país (Karepovs. cuja educação diferiu em muito da recebida em famílias típicas da elite brasileira. respondeu Veridiana. 4 Para ilustrar o comportamento dos filhos de Martinico Prado. sim. e. alguns membros da família Silva Prado. de seis anos de idade e filho de Martinico. Sabe-se que seu espírito inovador repercutiu fortemente na formação de seus filhos.

em razão de doença de um de seus irmãos. 2003: 11). . durante a Faculdade de Direito. A Faculdade de Direito constituía. 2001: 118). De modo que. em seu início. que neste mesmo ano se mudara da cidade de Itu para a Capital.Caio Prado Junior. um dos principais sustentáculos do pacto liberal-oligárquico conhecido como “política do café-com- 5 Sobre a formação escolar da elite brasileira do período. instalando-se na Avenida Paulista. de ser convocados para os escalões superiores do serviço público. tornando-se Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais aos 21 anos. Por esta época. Fundado em 1926. dos jesuítas. Nele permaneceu até a conclusão de sua formação secundária. ver Needell. e por não tolerar o Partido Republicano Paulista (PRP). ingressou no Colégio São Luis. 1993. Exerceu a advocacia por alguns anos (Karepovs. 2002: 57). Entre 1924 e 1928. na Faculdade de São Paulo” pouco tenha valido a Caio Prado Júnior. como era comum entre as elites da época. em casa. talvez não se devesse minimizar a experiência de sociabilidade intelectual e política da instituição para a compreensão da formação do historiador paulista. (Karepovs. como também uma “instância mediadora na importação e difusão da produção intelectual européia no país“. como observou Sérgio Miceli. freqüentou por um ano o colégio Chelmsford Hall. influenciado pelo pai. de professores particulares. não apenas o reforço institucional da socialização da elite brasileira. quanto parte significativa dos meios materiais de sua divulgação através de revistas e jornais jurídicos e literários” (Botelho. “pois não se dedicou à advocacia” (Iglésias. 2003: 10-11). no âmbito seja das administrações estaduais. 2000: 200). seja do governo central” (Miceli. centralizando “tanto a produção intelectual nacional. 1977.6 Em 1928 ingressou no Partido Democrático (PD). rico contato com o universo da crítica e do ensaísmo político. o PD reunia parte da elite paulistana descontente com a hegemonia do Partido Republicano Paulista. tendo esta apenas um ano de interrupção. Para uma visão integrada do tema. então. com a orientação. ver Nagle. Inglaterra. “os estudantes dos cursos jurídicos tinham não apenas a pretensão mas também a possibilidade objetiva de ingressar nas carreiras ligadas ao trabalho político e intelectual ou. à época. em Eastbourn. Teve. 6 Embora como aponta Francisco Iglésias o “curso de direito. estudou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. ao longo da Primeira República. uma vez que se indignara com fraude promovida por esse nas eleições municipais daquele ano. teve formação escolar privilegiada contando.5 Em 1918.

Tendo sido derrotada nas urnas. Dando-se conta da inutilidade de seus esforços. onde trabalhou cerca de três meses. Por esta ocasião teve sua primeira prisão quando. Caio Prado Júnior participava intensamente como militante. contra o candidato oficial do regime representante do PRP. 1975. em campanha eleitoral. Embora não ocupasse posição de destaque. 1975 e Schwartzman. Júlio Prestes. estando em uma recepção oferecida a Julio prestes por membros da elite paulista. deu um viva à Getúlio Vargas (Ibidem). apurar casos de corrupção. Após a vitória das forças aliancistas.leite” que predominou no Brasil nas primeiras décadas do século XX. destacara-se entre os fundadores desse novo partido. e. organizando o Partido Democrático nos bairros e no interior do Estado.7 É interessante notar ainda que seu tio-avô. . e em especial. e ainda prestando serviços de rotina como a organização de comícios. Uma de suas atribuições foi realizar um levantamento sobre os abusos do governo deposto. pois seus inquéritos eram imediatamente arquivados. Caio Prado Junior participa neste momento de operações de sabotagem nas instalações de comunicações da estrada para o Rio de Janeiro (Ibidem). candidato da Aliança Liberal. Love. Caio Prado Júnior foi designado para a Delegacia Revolucionária de Ribeirão Preto. a Aliança Liberal iniciou os preparativos para um golpe de estado que desembocaram no movimento armado de 3 de outubro de 1930. Durante a campanha para as eleições presidenciais de 1930 o Partido Democrático apoiou Getúlio Vargas. Antônio Prado. 1977. logo depois participando de episódios que antecederam a chamada Revolução de 1930 (Ibidem). 7 Sobre o Partido Democrático ver Carone. em 31 de dezembro de 1929.

já que para se adequar às novas orientações políticas preconizadas no VI Congresso da Internacional Comunista. editado em quatro volumes pelas Edições Caramuru em 1933 e 1934 (Ibidem). No caso de Caio Prado Júnior sua condição de intelectual.logo se afastou do cargo e decepcionado com a inconsistência política e ideológica da chamada “República Nova”. de autoria de Nicolai Bukharin. vários intelectuais. do marxismo. como é o caso de Astrojildo Pereira e Otavio Brandão. o partido acusava a social-democracia como tributária do fascismo. dedica-se entre outras atividades à tradução do Tratado de Materialismo Histórico. então. foram destituídos ou afastados da direção partidária ou convidados a realizar “autocríticas” quanto a sua militância política. com o PCB. em virtude de suas atividades profissionais. No período. marcaram quase que de modo permanente sua longa relação. 2003: 12). ver Brandão. perseguindo em suas “fileiras” os que se identificavam com a linha política anterior. 1997 e Ricupero. 8 Neste momento. encontra um momento particularmente difícil para os intelectuais. seguindo esta mesma orientação chamada “obreirista”. sua origem social e ainda sua conhecida independência frente aos cânones ideológicos. 2000. filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1931. Ao entrar no PCB. . diversos cargos da direção do partido foram ocupados por operários e militantes que pareciam se identificar com a nova orientação (Idem. 2003: 12). nem sempre pacífica. Aproxima-se. avaliada como “pequeno-burguesa” (Karepovs. Ainda. ou ainda origem social. como ele mesmo assinalou anos mais 8 Sobre Caio Prado Júnior e o PCB.

Entre seus objetivos. Caio Prado. não em termos pessoais. pela oposição a seus esquemas políticos e econômicos.tarde: “Nunca pertenci à direção do Partido. o que remetia à originalidade de seu pensamento pretendendo diferenciá-lo das interpretações da sociedade brasileira anteriores e mesmo então correntes. ao lado de outros ensaios anexados. É. abandona este subtítulo e o publica. num livro ao alcance de todo mundo. com a publicação. nem tive nele grande prestigio ou influência. o uso de nova chave de interpretação da sociedade brasileira: o materialismo dialético. de A evolução política do Brasil. portanto. Sempre fui muito marginalizado no Partido. estava o de “mostrar. no que diziam respeito ao Brasil” (Apud Karepovs. Fato relevante é que este livro aparecia com o subtítulo de “Ensaio de interpretação materialista da história brasileira”. em 1933. no país. procurou traçar a síntese da nossa evolução política. em cujo benefício se faz a história oficial” (Apud Karepovs. no entanto. publicada por sua conta. mas por causa da minha maneira de interpretar o Brasil. Nessa obra. em 1946. Em Evolução Política do Brasil já antecipa uma de suas teses fundamentais daquilo que viria a ser tanto a sua obra como todo quanto seu debate junto ao . que eu considerava falhos. 2003: 8). em meio às atividades políticas que Caio Prado inicia sua atividade propriamente intelectual. como Evolução Política do Brasil e outros estudos. Sempre fui um elemento secundário e mal considerado. que também na nossa história os heróis e os grande feitos não são heróis e grandes senão na medida em que acordam com os interesses das classes dirigentes. 2003: 12). inaugurando.

Oliveira. notabilizou-se com Retrato do Brasil de 1928 (Berriel. em visão original. Há aí achados brilhantes e definitivos. 2000). . de modo atenuado e de todo revisto em texto posteriores -. situando-o aos idos da colônia e ao modo de produção próprio da mesma. muito repetida em outros escritos e uma das origens de suas discordâncias com os rotulados marxistas locais (Iglésias. da transição e do Império. dois historiadores com certo alcance junto à intelectualidade da época.Partido Comunista Brasileiro: a impossibilidade de entender o período colonial brasileiro como feudal. Esta será uma das idéias básicas. Não se fala em feudalismo. Caio Prado Júnior tinha em sua família. e seu tio-avô Eduardo Prado.9 Como sugeriu Francisco Iglésias sobre o livro: percebe-se no autor pleno domínio da trajetória nativa. Para Francisco Iglesias autores anteriores a Caio Prado Júnior não apontavam o interesse que o período dispõe justamente pelos movimentos populares: “a revolta dos cabanos. e posteriores. Sintético. como Roberto Simonsen (1937). um dos principais financiadores da Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922 e elemento de coesão intelectual e social do modernismo paulista. Ainda inovadora é sua detida narrativa sobre as revoltas do período da Regência. com A Ilusão Americana (1893). como era comum – fala um pouco. Paulo Prado. 2000: 22). como Celso Furtado também se debruçariam sobre o tema a fim de contestar a ocorrência de feudalismo no Brasil. quando antes quase não eram objeto de atenção” (Idem. como já se assinalou. apreende o essencial do processo da Colônia. primeiro livro apreendido pela polícia republicana em São Paulo (Ibidem. sócio fundador da Academia Brasileira de Letras. pela aplicação de categorias do mundo europeu. 2000: 202) Outro tema que o acompanha durante sua vida intelectual e política e que analisa já neste seu livro de estréia é o do latifúndio. a despeito de sua grande diferença e originalidade no campo da história. 1999). a dos balaios e a agitação praieira têm lúcidas análises. 9 Outros autores contemporâneos.

2003: 12). 2003: 12). segundo Francisco Iglésias. Caio Prado já desenvolveria uma das chaves que o caracteriza como historiador. U. nesse caso a experiência do comunismo na União Soviética. apenas iniciada até então (Karepovs.No mesmo ano de 1933. sendo por ele abertamente defendida (Karepovs. O próprio Caio Prado Júnior. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. acabou sendo apreendida pela polícia. Teve uma reedição apenas.. Caio Prado Júnior se matricula na recém-criada Faculdade de Filosofia. 2000) – tendo também o estudo problemas com a censura do Estado Novo (Karepovs. participando inclusive da formulação de seus princípios junto com seu irmão pintor Carlos Prado em 1932). após seis meses. já havia estudado por meio de depoimentos de terceiros. Caio Prado relata sua viagem em concorridas conferências realizadas no Clube de Artistas Modernos em São Paulo (organização que ajudou a fundar.S. tanto da China como da União Soviética. Caio Prado Júnior realiza uma viagem de estudos à antiga União Soviética a fim de conhecer pessoalmente o que. um novo mundo. 2003: 13) Anos mais tarde retoma aquela temática em outro livro: O mundo do socialismo (1962).R.S.S. publicado em 1934 e cuja segunda edição. Em 1934. Embora sem .S. em 1935. assim como da ideologia que a sustentava e ainda o marxismo – ideal que o demoveu por toda vida. datada do ano seguinte.. Neste.R. o considerava ultrapassado (Iglésias. seu interesse pela história viva. Tamanho interesse despertado no público paulista motiva Caio Prado a escrever o seu segundo livro. de acordo com seu entendimento. U. Neste desenvolve análise mais detalhada daquela experiência. Ao retornar ao Brasil. um novo mundo trata tanto dos resultados conquistados da revolução que admirara e observava.

que viriam influenciar seus trabalhos posteriores (Karepovs. Dentre um amplo campo de interesse no qual Caio Prado Júnior se formou. pois não tinha necessidade do diploma. especialmente os geógrafos Pierre Moinbeing e Pierre Deffontaines. onde trava estreito contato com os professores da missão francesa que deram início aquela Universidade. tornando-se em seguida um dos principais colaboradores da revista “Geografia”. Paul Langevin. (Iumatti. Caio Prado participa de turmas dos cursos de História e Geografia. na época do Front Populaire. Jean Perrin. entre outros. Voltando à cena política. em 1935 formaram-se por todo mundo as chamadas “frentes populares”. no campo de interesse da historiografia destacam-se a REVUE HISTORIQUE e os ANNALES DE HISTOIRE ECONOMIQUE E DE SYNTHÈSE SOCIALE. e ainda sua participação e vivência em um ambiente cultural em que tinha como interlocutores. que segundo a orientação do VII Congresso Internacional Comunista congraçavam todas forcas políticas que se opunham ao fascismo e ao nazismo. O destaque nesta fase quanto às suas leituras científicas é para as revistas que repercutiam questões epistemológicas postas pelas recentes descobertas ocorridas em vários campos das ciências e que. Marc Bloch. Caio Prado participa da fundação da Associação dos Geógrafos do Brasil. direta ou indiretamente. intelectuais como Lucien Febvre. que agrupava um variado . Paulo Teixeira Iumatti destaca sua experiência a partir do debate com cientistas europeus. No mesmo ano. mantida por esta associação. Henri Berr.interesse em concluir o curso. 2000). das quais Caio Prado era assinante e leitor atento (Ibidem). 2003: 13). No Brasil o resultado dessa nova orientação antifascista foi o surgimento da Aliança Nacional Libertadora (ANL).

como militante do Partido Comunista Francês (PCF). em Natal. Ficou preso durante dois anos. e trazido a São Paulo. sucessivamente prorrogado até junho de 1937 (Ibidem). mas com suspensão do estado de sitio em 1937. inclusive o Partido Comunista. realizou. comícios. Recife e Rio de Janeiro. organizou diretórios municipais pelo Estado. . O fracasso do movimento levou a uma imediata repressão política. Caio Prado Júnior foi submetido a uma severa vigilância por parte da policia política paulista e. Ali. Nos meses subseqüentes. (Ibidem). em abril de 1937 acabou denunciado por crime contra a segurança nacional. viagens. Caio Prado Júnior assumiu a vice-presidência regional da ANL em São Paulo. que teve como presidente o ex-comandante da Coluna Prestes. marcadamente anticomunista. e fechada em junho de 1935. general Miguel Costa. pelo diário paulistano A Platéia. Imediatamente saiu do Brasil. do qual foi um dos diretores (Karepovs. Em decorrência de suas atividades frente à ANL em São Paulo. no Rio Grande do Sul. mas que atingiu uma ampla gama de opositores de Getúlio Vargas. foi preso em dezembro de 1935.espectro de forças sociais que se opunham ao governo Vargas. Após um breve período de legalidade. indo exilar-se na França. chamada “Lei Monstro”. após o desencadeamento da insurreição armada comunista. e que culminou com a aprovação do Estado de Sítio. sobretudo. 2003: 13). a ANL foi enquadrada na Lei de Segurança Nacional. palestras. a idéia de uma insurreição armada ganhou corpo e foi levada a cabo em fins de novembro. além de redigir artigos publicados. requereu um habeas-corpus que lhe valeu a liberdade. Nessa função.

Victor Konder. David Lerner. Maurício Grabois e Pedro Pomar tem como resposta a divergência de outro grupo que em São Paulo e Rio de Janeiro tinha como participantes Caio Prado Júnior. Tito Batini. ao lado dos paises aliados e. portanto. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Após seu retorno. em plena ditadura do Estado Novo. sua militância políticopartidária foi muito restrita.atuou em tarefas de apoio e solidariedade aos combatentes republicanos na Guerra Civil Espanhola (Ibidem). Estes reunindo-se nos “Comitês de Ação” contrapuseram-se àqueles e inspirados na ANL defenderam abertamente uma luta contra o “fascismo” do Estado Novo . graças às relações deste junto ao Eixo durante a Guerra (Karepovs. 1997). Diógenes Arruda. o que ocorreu após a Segunda Conferência Nacional. Os passos políticos previstos durante o chamado “Encontro da Mantiqueira”. formou-se a Comissão Nacional de Organização Partidária (CNOP). representados principalmente por Mário Alves. Frente à iminência do desencadeamento da Segunda Guerra Mundial. Nesse encontro. João Amazonas. Zacharias de Sá Carvalho. 2003: 14). da União Soviética. Heitor Ferreira Lima. Este acaba por apoiar Getúlio Vargas. sediada no Rio de Janeiro e tendo à frente o chamado “grupo baiano”. pois o Partido Comunista Brasileiro fora fortemente abalado pela repressão policia do regime ditatorial varguista (Brandão. foi possível ao PCB voltar a se organizar. pois também fora absolvido em dezembro de 1938 das acusações que sobre ele pesavam no Tribunal de Segurança Nacional. na qual Luis Carlos Prestes fora eleito secretário-geral in absentia. pois ainda estava preso. realizada na Serra da Mantiqueira. Caio Prado retornou ao Brasil em 1939. em agosto de 1943. Astrojildo Pereira e Mario Schenberg.

Neste momento Caio Prado participa da fundação da União Democrática Nacional (UDN). Arthur Neves. retoma sua produção intelectual em artigos. Na década de 1940. e chega a ser cotado para candidato à presidência da República com o apoio de liberais e comunistas aos quais servia como interlocutor intermediário (Ibidem). Ao sair da prisão Luis Carlos Prestes. Em 1943 funda a Gráfica Urupês e a Editora Brasiliense. a qual visava colocar e apontar os problemas nacionais e se possível caminhos para solucioná-los. a monocultura e a escravidão tratando também dos aspectos econômicos do Império e da República. Martinho Prado Neto. a editora é responsável pela . Caio Prado Júnior não segue os dissidentes e permanece no PCB. prefácios e principalmente publicando Formação do Brasil Contemporâneo. Entre as obras literárias. Hermes Lima. e já nos últimos anos do Estado Novo participa da revista Hoje – O Mundo em Letra e Forma. Leandro Dupré. Tem entre seus sócios seu pai. em 1942 – obra que o coloca em posição de destaque junto aos intérpretes do Brasil. vindo depois a contar com Monteiro Lobato entre outros. Em 1945 retoma a análise do período colonial em História Econômica do Brasil dando ênfase à busca do sentido da colonização brasileira em que destaca por base econômica o latifúndio. em 1945. consegue a união dentro do PCB em torno da CNOP minimizando os conflitos internos e provocando mais tarde a dissidência de membros dos “Comitês de Ação” que criariam em 1945 o Partido Socialista Brasileiro (Ibidem). tendo como linha editorial a ênfase às Ciências Sociais e particularmente estudos e textos voltados à interpretação do Brasil como é o caso da coleção “Problemas Brasileiros”.(Ibidem). dentro de um certo recorte temático. Dedica-se à atividade editorial.

Documento no qual afirma-se ainda a posição dos escritores frente ao Estado Novo e seu compromisso com a defesa do voto direto. após protesto público contra a cassação dos mandatos do PCB e uma vez liberto retoma as atividades junto a editora Brasiliense. após dezoito anos na ilegalidade. Dedica-se neste momento aos estudos de . o Partido Comunista Brasileiro retoma suas atividades de forma aberta e passa a contar com novos colaboradores entre eles escritores como Jorge Amado. Caio Prado foi o líder da bancada do PCB na Assembléia Legislativa de São Paulo até 1947. do Partido Comunista Brasileiro.publicação das obras completas de Lima Barreto. 2003: 8). Caio Prado Júnior participa no período de ações contrárias ao Estado Novo. o pintor Candido Portinari. ainda em 1945. quando mais uma vez o PCB volta a ilegalidade. texto que articula os principais pontos tratados no I Congresso Brasileiro de Escritores. Participou ainda da criação do jornal Hoje. o arquiteto Oscar Niemeyer e inclusive Caio Prado Júnior que iria se candidatar por sua legenda nas eleições de 1945 e 1947. Monteiro Lobato e Maria José Dupré. o fim da ditadura e o exercício da democracia. o jornalista Aparício Torelli. Em 1945. o físico e professor Mario Schenberg. Com intensa atividade política. com a volta do estado de direito. figurando como um elemento articulador dos vários segmentos da esquerda brasileira. (Idem. Caio Prado participa da redação final de “Declaração de Princípios”. como colaborador e acionista cedendo inclusive uma parte do imóvel aonde se instalava sua editora. Eleito deputado estadual em 1945. quando teve seu mandato cassado durante o exercício do governo do presidente Eurico Gaspar Dutra. Graciliano Ramos e Álvaro Moreira. Volta a ser preso.

Escreve em 1954 Diretrizes para uma política econômica brasileira concorrendo a Cátedra de Economia Política da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo a despeito de reconhecer sua difícil aprovação devido ao conhecido conservadorismo daquela instituição.filosofia e economia. mais uma vez. Florestan Fernandes. entre outros. Édson Carneiro. coerente com as publicações da editora. Afrânio Coutinho. dado a qualidade do material apresentado (Idem. publicando também artigos na revista Fundamentos – sendo ainda membro da Comissão de Redação da mesma. Antonio Candido. Em 1955. entre outros assuntos Caio Prado discute e. o que colocava a reforma agrária como principal item . Obteve assim o título de livre docente. em 1979. uma vez que não havia como sua tese ser reprovada. Jean Claude Bernadet. Entre seus principais colaboradores estavam Manoel Correa de Andrade. Caio Prado Júnior lança a Revista Brasiliense. Reunindo alguns dos seus artigos. Edgard Carone. Elias Chaves Neto. Otávio Brandão. resenhas e editoriais publicados na Revista Brasiliense. Caio Prado Júnior publica. Herbert de Souza. Gianfrancesco Guarnieri. Josué de Castro. Régis Duprat. A questão agrária no Brasil. Michel Lowy. se contrapõe à tese defendida pelo PCB sobre os “resíduos feudais” na sociedade brasileira – segundo a qual o principal entrave da economia brasileira era a permanência do latifúndio. Gerard Lebrun. 2003: 22). Maria Isaura Pereira de Queiroz. Pretende ampliar os debates entre os interlocutores interessados em discutir o tema da formação da sociedade e do estado nacional brasileiro através da resolução de suas contradições. Fernando Henrique Cardoso. Francisco de Assis Barbosa. Catullo Branco. Neste.

. Para Caio Prado que defendia a tese da inexistência de um feudalismo no Brasil. deste feita pelo DEOPS-SP. o país deveria ser pensado como economia integrada no sistema mundial do capitalismo. E sim aquele que procura colocar o seu pensamento a serviço da coletividade em que vive e da qual efetivamente participa” (Apud Karepovs. ao homem de pensamento que não se encerra em torre de marfim. detido. 2003: 24). obra em que analisa as perspectivas econômicas e políticas do período e critica escolhas e erros do PCB. Publica em 1966 A revolução brasileira.de resolução dos problemas nacionais. e daí contempla sobranceiro o mundo. 2003: 23). prisões e submetido a depoimentos. Segundo ele o partido ao pensar e propor caminhos para a sociedade brasileira se apropriava de “modelos estranhos e inaplicáveis” à realidade brasileira. Por esta época o historiador paulista reafirma sua condição de intelectual cujo pensamento estava articulado à prática política. Durante todo este período a Editora Brasiliense e sua livraria estiveram sob o controle sistemático da censura tendo Caio Prado sofrido apreensões. mais uma vez. Caio Prado Júnior atribuía ao desconhecimento das reais condições e necessidades do país o fracasso político do PCB em 1964 (Karepovs. Por isso criticava os que entendiam ser a reforma agrária o ponto chave para o desenvolvimento do socialismo mesmo porque já havia apontado a natureza capitalista da agricultura brasileira. O discurso que fez ao receber o prêmio Juca Pato (intelectual do ano) pode ilustrar seu ideal para uma prática intelectual: “refiro-me ao intelectual atuante. Em 1964 a Revista Brasiliense foi extinta por ordem do regime militar que se instaurara em Abril daquele ano e Caio Prado foi.

Deste esforço publica O estruturalismo de Levi-Strauss e O marxismo de Louis Althusser. Foi indiciado e condenado a quatro anos de prisão ficando preso até 1971 na Casa de Detenção Tiradentes sendo depois transferido para o Quartel de Quintaúna. Durante este período se dedica à revisão e debate de idéias em voga entre a intelectualidade da época e que julgava mal pensadas. no entanto. quanto número de volumes previstos no . Dialética do Conhecimento (1952). Notas introdutórias à lógica dialética (1959). Não há consenso. O que é filosofia? (1981) e A cidade de São Paulo (1983). Consta que o autor pretendia dar continuidade ao trabalho noutros volumes que seguiriam ao publicado em 1942 dedicado à colônia. à livre-docência em História com fins de ocupar a cadeira de Sérgio Buarque de Holanda. Escreveu além das obras já citadas. 2. Em tese escrita e intitulada Historia e Desenvolvimento criticava a política econômica em curso na época que se mostrava equivocada por se basear em modelos criados para casos onde o capitalismo já havia amadurecido (Ibidem). instigado por amigos e inclusive pelo próprio Sérgio Buarque.Em decreto de 1969 foi “aposentado” de sua condição de livre-docente na Faculdade de Direito da USP. Concorre. Esboço dos fundamentos da teoria econômica (1957). É prejudicado pelo AI-5 e impedido de atingir seu objetivo. O que é liberdade? (1980). Formação do Brasil Contemporâneo e as questões do seu tempo Caio Prado Júnior escreve Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia interessado em dar conta do que chama de “sentido da formação” da realidade do Brasil até o presente em que vivia.

Embora retomando parte deste e seguindo sua análise até 1976. já perceptível na década de 1920. e tampouco foi apontado pelos intérpretes anteriores. Os motivos pelos quais desistiu de continuar sua empresa não nos é conhecido. e Retrato do Brasil (1928) de Paulo Prado. particularmente Populações Meridionais do Brasil (1920). partira para outros campos do saber como o da filosofia e que em História Econômica do Brasil. 1982: 12). Quanto ao horizonte ou contexto intelectual de Formação do Brasil Contemporâneo. segundo Francisco Iglesias. pelo movimento modernista.projeto original que. deixando de lado a análise dos aspectos sociais e políticos que distinguem Formação do Brasil Contemporâneo. se enquadra em . Sabemos. atêm-se em História Econômica do Brasil na análise das conjunturas e processos econômicos. fala em apenas mais dois volumes. de 1945. Tal renovação. tendo uma extensa produção intelectual. por exemplo. “se dá uma tentativa de redescoberta do Brasil”. de Oliveira Vianna. percorre todo o trajeto antes imaginado para Formação do Brasil Contemporâneo de 1942. animada pelas discussões contemporâneas ao centenário da Independência. entre outros fatores. momento em que “o país crescera em população e vê o despertar de uma consciência crítica mais profunda e menos episódica” (Iglésias. com os trabalhos. de fato. quando. devemos situar este trabalho dentro do quadro de uma renovação intelectual. Já Francisco Iglésias (2000: 203). no entanto que Caio Prado Júnior. Carlos Nelson Coutinho (1989: 115) e José Roberto do Amaral Lapa (1999: 261) falam em mais 3 volumes que chegariam a contemporaneidade. não chegou a se efetivar. pela repercussão da revolução russa no Brasil. tendo o livro obtido vários anexos posteriores.

1995: 11). Casa-grande & Senzala de Gilberto Freyre e Formação do Brasil Contemporâneo. Na mesma direção de Antonio Candido. da distribuição e do consumo (Idem. Observa Candido que estes livros procuravam exprimir “a mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e análise sociais que eclodiu depois da Revolução de 1930 e não foi. também Octavio Ianni entende que com Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior respondia. à intensa agitação social. em pleno Estado Novo repressivo e renovador. Antonio Candido sugere que a sua própria geração aprendeu “a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos de passado e em função de três livros”: o próprio Raízes do Brasil. dava o primeiro grande exemplo de interpretação do passado em função das realidades básicas de produção. apesar de tudo. Discutindo o “significado” de Raízes do Brasil (1936) em prefácio ao livro de Sérgio Buarque de Holanda. de um lado. Trazendo para a linha de frente os informantes coloniais de mentalidade econômica mais sólida e prática. Nesse sentido.discussões acerca do desejo de busca de uma identidade nacional que integrasse todo o território e que colocasse o país no curso da modernidade. política e cultural da década de 1930 e se inspira nesta com o intuito de prover de teoria um determinado apetite político e intelectual característico de seu tempo. 1995: 9). abafado pelo Estado Novo” (Ibidem). este “publicado quando estávamos na escola superior” (Candido. sugere o autor: . Sobre Caio Prado Júnior e Formação do Brasil Contemporâneo neste contexto sugere Antonio Candido: Diferente dos anteriores [ refere-se a Casa-grande & Senzala e Raízes do Brasil]. seis anos depois do segundo. Nele se manifestava um autor que não disfarçava o labor da composição nem se preocupava com a beleza ou expressividade do estilo. Formação do Brasil Contemporâneo surgiu nove anos depois do primeiro.

pois redescobre o passado. Azevedo Amaral. à exceção de Casa-grande & Senzala (1933) de Gilberto Freyre. p. de que em alguns casos diverge quando não altera algumas de suas teses. 1989. Sérgio Buarque de Holanda e outros. Martins de Almeida. José Maria Belo. De todo modo. Roberto Simonsen. Pandiá Calógeras. juntamente com os impasses e as crises da economia. contudo. As agitações e as crises provocavam todos. Caio Prado Júnior dialogava com vários autores contemporâneos e anteriores a ele. 1989: 64). aos quais. Caio Prado mostra-se conhecedor de “estudos. De outro lado. política e cultural. propostas e interpretações (Idem. pode ser tomada como uma interpretação diferente. 63). e mais abertamente a partir dos anos 30. partidos políticos e intelectuais. Afonso Arinos de Mello Franco. sugere Octavio Ianni. A agitação social. Oliveira Viana. Gilberto Freyre. . a de Caio Prado Jr. 1999: 261). movimentos sociais. controvérsias e interpretações contemporâneas e anteriores” não desprezando o desafio de “equacionar. Já José Roberto do Amaral Lapa observa que. desafiavam grupos e classes. Nesse sentido sugere o autor: diante das interpretações de Oliveira Lima. pouco se refere no livro (Idem. como observa Ianni. Jackson de Figueiredo. Euclides da Cunha. repensa o presente e abre perspectivas sobre tendências futuras (Ibidem). original e influente. suscitaram outras e novas idéias. quanto à “produção acadêmica que lhe foi contemporânea. Manoel Bonfim. Vicente Licínio Cardoso. antes e depois do lançamento desse seu livro em 1942 [Formação do Brasil contemporâneo]. Gilberto Amado. formular e aprimorar uma nova interpretação dos contornos e movimentos mais característicos da formação social brasileira” (Ibidem). ignorou-os solenemente” (Lapa.pode-se dizer que há uma contemporaneidade entre a interpretação desenvolvida por Caio Prado e as controvérsias e os dilemas com os quais a sociedade brasileira passou a defrontar-se desde décadas anteriores.

1817. “faz uma leitura atenta e inteligente. ao não incorporar a “literatura científica sobre os temas de que trata”. B. com critério e segurança capazes de superar leituras outras. Maximillien. Francisco et dans la province de goyaz. Voyage aux sources du Rio de S. S. Sobre a literatura de viajantes. na medida em que o livro foi sendo reeditado. A.Para José Roberto do Amaral Lapa. par S. Voyage dans les provinces de St Paul e Sainte Catherine e Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Gerais de Auguste Saint Hilaire. estudos de itinerários e notícias descritivas em geral. não concedendo sequer uma citação dessa produção. Já quanto às fontes primárias. cartas descritivas da costa brasileira. 1816. Voyagens pitoresques. feitas por diferentes autores com resultados menos expressivos” (Ibidem). e Viagem pelo Brasil de J. pela inexistência de coleta sistemática de dados. Brésil de Henri Koster. memórias e corografia histórica. já que no período colonial havia apenas . ainda que Caio Prado Júnior fosse “mais freqüentador de bibliotecas do que de arquivos” (Idem. Caio Prado Júnior “revelou auto-suficiência. 1999: 260). vale destacar Voyage au Brésil dans les annés 1815. Amaral Lapa sugere que. do príncipe Maximillien de Wied-Neuwied. que percorreram caminhos semelhantes. registros informativos com dados demográficos. scientifiques et historiques en Amérique. segundo o autor. ignorando-a simplesmente” (Ibidem). A utilização de tais fontes explica-se. Dentre as fontes mais freqüentemente mobilizadas em Formação do Brasil Contemporâneo destacam-se a literatura de cronistas e tratadistas que escreveram sobre a colônia. bem como os relatos de viajantes. von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius entre numerosos outros relatos.

deixando transparecer suas . a relutância em se declarar era ainda maior. Nesse sentido. quanto à sonegação destes que dissimulavam o tamanho de suas paróquias às autoridades superiores da Igreja Católica. e que. No plano metodológico. como sugerem os diferentes intérpretes vistos no capítulo anterior. Como linha interpretativa. Caio Prado destaca que somente pelos últimos anos do século XVIII tem-se noticia de um recenseamento seguro da ocupação que prescrevia por volta de quatro milhões o contingente populacional da época entre brancos e índios (Prado Júnior. Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia (1942). em conseqüência. 1945). mas o desnudamento operoso dos substratos materiais. desligado de compromisso partidário ou desígnio prático imediatista (Candido. uma exposição de tipo factual. com ferramentas bastante distintas da de outros ensaios do período. Antonio Candido: Nenhum romantismo. uma série de relações sociais estigmatizadas por outros autores. 1995: 11). No caso do recrutamento militar. inteiramente afastada do ensaísmo (marcante nos dois anteriores) e visando a convencer pela massa do dado e do argumento. devido ao desinteresse ou recusa da população em se alistar. por exemplo. Formação do Brasil Contemporâneo teria desmistificado. no entanto. o materialismo histórico. que vinha sendo em nosso meio uma extraordinária alavanca de renovação intelectual e política. Como os recenseamentos eclesiásticos visavam a oneração dos fiéis organizados em paróquias. como sugere. nenhuma disposição de aceitar categorias banhadas em certa aura qualitativa – como “feudalismo” ou “família patriarcal” -.recenseamento com fins específicos tais como os eclesiásticos e militares. aparecia pela primeira vez como forma de captação e ordenação do real. opera. trazendo para a sua interpretação uma visão objetiva da vida da colônia. nessa obra. mostravam-se falhos devido tanto à relutância dos mesmos diante dos párocos.

isto é. o sentido que assumiu a colonização no Brasil que faz com que aqui tenha se desenvolvido um certo tipo de família e de ethos (Idem. etc. “respectivamente o desenvolvimento de toda uma civilização a partir da família patriarcal e ação de um ethos particular na colônia. bem como os bens naturais de que dispunha. pode-se notar que não é a família patriarcal ou o aventureiro que explicam a colônia. gerando um determinado tipo de cultura e herança que. Faremos a partir de agora uma breve apresentação de Formação do Brasil Contemporâneo. ver Wegner. o do aventureiro”. realçando o seu caráter econômico e fazendo saltar a vista as relações de exploração e opressão a que esteve sujeita (fazendo uso de terminologia nova). 2000: 158.cruas relações. tanto a maior parte da população da colônia. ressalta que mesmo Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda tendo identificado questões centrais para nossa formação. para Ricupero mostrou como a sociedade que começou a se formar no Brasil a partir da Colônia se organizou toda ela para produzir alguns gêneros tropicais demandados pelo mercado externo. 1994. 2000. A 10 Sobre Gilberto Freyre. Comparando Caio Prado Júnior aos seus “companheiros de geração” Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. os usos da terra. 2000: 157-8. nota 55). Casa-grande & Senzala e Raízes do Brasil. nota 55). com o intuito por hora de indicar a estrutura do texto. não discutiram o seu sentido (Ricupero. Formação do Brasil contemporâneo. mas ao contrário. segundo o autor se manteve constante e quase inalterado em certos cenários a que teve a oportunidade de conhecer por meio de viagens. ver Araújo. sobre Sérgio Buarque de Holanda.10 Caio Prado Júnior. A partir daí. . Bernardo Ricupero sugere que num confronto entre as suas obras capitais.

períodos curtos e os fatos que pretende esmiuçar e rever para a história da ocupação do território. Ao contrário de heróicos personagens descobridores com epítetos retóricos e comentários ornados de adjetivos tendenciosos.11 Formação do Brasil Contemporâneo divide-se em três partes – “Povoamento”. Caio Prado Júnior analisa o povoamento. a constituição da população. constituiu o objeto da sua narrativa. bem como a análise de outras ferramentas e metodologia aplicadas por Caio Prado Júnior na confecção daquele texto serão objeto do terceiro capítulo desta dissertação. a qual. um determinado tipo de civilização. o autor trata dos aspectos humanos da formação da colônia dando especial atenção à distribuição da população ao longo do território. para o autor. Neste primeira parte. por sua vez. 1999: 260). documentados em registros estatísticos localizados e examinados a luz da particularidade de cada região. do litoral e do interior. “Povoamento”. no item denominado “Raças”. Caracterizando o povoamento da colônia como sujeito a uma “evolução” entrecortada por períodos de mudanças e revoluções estruturais significativas 11 A discussão sobre a idéia de “sentido da colonização” também será contemplada no próximo capítulo. nele encontramos um estilo enxuto. portanto. no qual Caio Prado Júnior “expõe a sede do seu pensamento em relação à história do Brasil” (Lapa. os fluxos da população em correntes de povoamento e. . Na primeira parte. Nota-se já neste primeiro capítulo de Formação do Brasil Contemporâneo toda objetividade e rigor formal que Caio Prado Júnior pretende dispor ao longo de seu trabalho. “Vida material” e “Vida social” antecedidas por uma introdução e o texto “Sentido da colonização”. já que esta é que propriamente colocou em movimento.problematização da categoria de formação.

a população refluía de um para o outro ponto.devido ao caráter ou sentido da colonização. adensando-se nalguns. aspecto de nossa formação social – fato que parece ainda não ter de todo deixado de nos caracterizar até hoje – é a capacidade de mobilidade da população brasileira atestada no texto através de testemunho do . senão trágico. abandonavam-se outros já devassados. Sugere o autor a colonização não se aquietara: ocupavam-se novos territórios até então desertos. A terceira fase se dá de forma paulatina. De relativa brevidade esta fase tem sua derrocada com a decadência da mineração. a segunda se inicia com uma revolução demográfica e dela decorre a descoberta do ouro. Minas. Caio Prado chama a atenção para o fato de que a ocupação do território colonial português na América respondeu à determinados fins alheios ou exteriores. e o quadro que a sua estrutura apresenta em qualquer momento é mais que provisório. Mato Grosso e Goiás que provoca brusco deslocamento de contingentes populacionais criando uma nova estruturação das relações sociais e econômicas da colônia. Princípio que vai tornando aparente determinados caracteres gerais de nossa formação. sem os abruptos deslocamentos ocorridos anteriormente e para Caio Prado desemboca no momento de que pretende dar conta em seu recorte temporal. os quais nos delimitam como um determinado tipo de contorno e aspecto. Curioso. reflete antes tendências que resultados adquiridos (Prado Júnior. reduzindo-se em outros. O povoamento estava longe ainda da estabilização. 1945: 65) Caio Prado distingue três grandes fases na evolução: a primeira começa com a colonização e se estende até o fim do século XVII. o deslocamento da produção da pecuária para o Sul – em decorrência da seca nos sertões nordestinos favorecendo a agricultura e enfim remodelando a feição colonial.

bem como suas distintas contribuições na formação social brasileira. “emigrava-se às vezes por nada. ainda não havia sido estudada de forma sistemática – assim como acontecia com os povos indígenas. Em um primeiro momento que vai até a segunda metade do século XVII a imigração é escassa exercendo a colônia pouco atrativo à . como mais tarde se plantará algodão ou café: simples oportunidade do momento. “compreendendo-o e dominando-o”.] a colonização não se orienta no sentido de construir uma base econômica sólida e orgânica. No item que Caio Prado Júnior dedica à composição étnica da colônia. fato que segundo Caio Prado é próprio de uma população que não se ajustou completamente a seu meio.. para o historiador paulista cultivava-se a cana como se extrai o ouro. com vistas para um mercado exterior e longínquo. Observa ainda que o critério utilizado na escolha dos colonos era religioso. Daí a sua instabilidade. escolhido o católico. e com simples e vagas esperanças de outras perspectivas” (Idem. isto é a exploração racional e coerente dos produtos do território para a satisfação das necessidades materiais da população que nela habita. com a acuidade de sua visão. notará. Destaca na composição da colônia até o início do século XIX que o “branco” que para cá se deslocou era “quase que só de origem portuguesa”.viajante: “Saint-Hilaire viajando pelo Brasil em princípios do século passado. o mesmo lamenta que o estudo quanto às especificidades dos diferentes povos negros que aqui aportaram. Estrangeiros foram proibidos quando da ocasião da descoberta do ouro tendo sua vinda para o Brasil sido possível durante curto período de tempo. (XIX).. com seus reflexos no povoamento determinando nele uma mobilidade superior ainda à normal dos países novos (Ibidem). um comércio instável e precário sempre [. a extrema mobilidade da população brasileira”. 1945: 67). Nisto temos a constituição de uma constante no “espírito” de uma população.

do lado dos colonos. Isso se deu já no século XVIII. o negro teve. Representando. e seus métodos antes tornava em “autômatos” os “catequizados” que os preparava para a “utilidade” pretendida por colonizadores portugueses. ao propagarem a fé católica. sem resquícios de “ressentimentos” . maior importância na constituição da população brasileira. tendo o comércio com o Oriente desaparecido. à luz dos objetivos da metrópole que naquele momento só pensava em ocupar o território.Metrópole. Atuavam em ‘reduções’. e pretendiam. até indivíduos de classes menos abastadas. segundo Caio Prado “contribuem em boa proporção para as correntes povoadoras os degredados” (Idem. muitas vezes tinham por objetivo fins contrários aos daqueles. 1945: 83). tem início um grande fluxo de emigração para a colônia. Pretendeu-se aproveitar o índio como povoador. para Caio Prado Júnior. Neste ponto o autor discute um tema comum na época revelando. No primeiro momento. Neste momento. vindo desde fidalgos e letrados – com fim de ocupar cargos administrativos. como se chamavam as aglomerações indígenas organizadas pela Companhia de Jesus. segundo Caio Prado. tentou-se organizar a colônia por meio do trabalho de seus habitantes nativos. Caio Prado destaca que o interesse advém de diversas categorias sociais. e como trabalhador. Portugal empobrecido. Também os judeus têm importância nesta fase da colonização. defender os interesses da Igreja. Outra força interessada na domesticação indígena eram os jesuítas que. ainda como escravos. Em crise. A esse fato seguiu a perseguição e a legislação restritiva de sua prática cujo ponto mais alto é precisamente a perseguição adotada e representada pelo Marquês de Pombal. um terço da população e constituindo parte do percentual restante.

sendo. conservará os caracteres de sua formação (Ibidem). Linguagem realista e clara. o número relativamente pequeno de colonos brancos que veio povoar o território pôde absorver as massas consideráveis de negros e índios que para ele afluíram ou nele já se encontravam. a sua própria existência com os característicos que são os seus. resulta de excepcional capacidade do português em se cruzar com outras raças. 1945: 103-104).ou “problema”. Confrontando a colonização submetida ao Brasil e aos Estados Unidos. Guardando as proporções entre elas escreve: “são juntas que devem figurar. No Brasil “as uniões mistas se tornaram a regra”. numa orgia de sexualismo desenfreado que faria da população brasileira um dos mais variegados conjuntos étnicos que a Humanidade jamais conheceu” (Ibidem). Caio Prado Júnior sugere: “Nos atuais Estados Unidos a imigração por grupos familiares é numerosa” e havia o recrutamento de mulheres menos favorecidas que partiam para o Novo Mundo afim de povoar o território. É uma tal aptidão que o Brasil deveu a sua unidade. a constituição mestiça da população: “é este o caráter mais saliente da formação étnica do Brasil: a mestiçagem profunda das três raças” (Idem. pôde impor seus padrões e cultura à colônia. segundo o autor. 1945: 102). Graças a ela. portanto “uma resultante do problema sexual do colono branco” (Idem. o texto de Caio Prado é objetivo: a mestiçagem. . sem as imagens românticas de outros escritores. No entanto o fator de branqueamento foi. juntas e mesclando-se sem limite. A essa capacidade do português de se misturar no quadro da população nativa e escravizada em parte atribui-se a falta de mulheres brancas no primeiro momento devido ao caráter aventuroso do emigrante português que buscava na colônia uma forma de enriquecimento e que pelo risco parte só – fato que distingue o tipo de colonização que terá curso no Brasil. signo sob o qual se formou a etnia brasileira. que mais tarde separada da mãe-pátria.

produções extrativas. será subsidiário e destinado unicamente a amparar e tornar possível a realização daquele fim essencial” (Ibidem). Ilustrando a questão. Todo mais que nela existe.maior ou menor composição do sangue branco significou sempre maior ou menor fortuna. 1945: 117). o engenho. com destaque para as atividades desenvolvidas e empreendidas ao longo do território. ou ainda: “a nossa economia se subordina inteiramente a este fim. artes e indústrias. a fazenda em detrimento da pequena exploração do tipo camponês. (Idem. visando a agricultura como garantidora do fim exposto acima. Este fato é primordial no entendimento dos problemas que seguirão o sentido visado pelo . mineração.. se organizará e funcionará para produzir e exportar aqueles gêneros. o algodão..”. pecuária. A segunda parte do livro é dedicada à análise da vida material da Colônia. e que é aliás de pouca monta. agricultura de subsistência. 1945: 105). o ouro. isto é. A vida material da colônia. bem como seu povoamento. Assim a organização.sempre uma constante nas relações sociais que caracterizam o Brasil . Caio Prado destaca o depoimento do viajante Martius que se “refere que muitos aventureiros europeus passavam no Brasil uma vida descuidada de cidadãos abonados graças aos casamentos realizados em famílias que estavam procurando ‘apurar’ o sangue” (Idem. se dá por meio da grande propriedade monocultora. vias de comunicação e transporte. comércio. Esta parte se subdividirá entre as seguintes atividades: grande lavoura. é marcada profundamente pelo que Caio Prado Júnior caracterizou ser o sentido da sua formação: “colônia destinada a fornecer ao comércio europeu alguns gêneros tropicais ou minerais de grande importância: o açúcar.

Por ora nos limitamos a registrar que uma tal exploração é vista de forma crua por nosso autor que escreve: “é aliás esta exigência da colonização dos trópicos americanos que explica o renascimento da escravidão na civilização ocidental em declínio desde fins do Império Romano. 1945). Caracterizou a prática agrária durante seus diferentes ciclos. não é o trabalhador. 1945: 120). Encontramos aí uma síntese que a resume e explica” (Idem. Vem para dirigir” (Idem. o empresário de um grande negócio. o baixo nível técnico (Idem. sua natureza e organização. No item “Grande Lavoura” Caio Prado Júnior afirma ser a agricultura “o nervo econômico da civilização”. só contando o comércio interno com restrita agricultura de subsistência e comércio local. o caráter de uma economia. Quanto ao comércio. é com ela que se inicia a ocupação do território brasileiro. . mas o explorador. 1945: 235). antes do cultivo da cana-deaçúcar se mostrou menos importante.colonizador: “o tipo de colono europeu que procurou os trópicos e nele permaneceu. tabaco. Em nosso caso. a produção e a extração interna de produtos comercializáveis era quase toda voltada para o mercado externo. Caio Prado Júnior afirma que “o estudo do comércio colonial” coroa a tese principal de seu texto: “a análise da estrutura comercial de um país revela sempre. café. o simples povoador. como demonstra sua exposição. ou seja. melhor que a de qualquer um dos setores particulares da produção. 1945: 118). o cacau. A interpretação deste sentido de colonização vamos discutir no próximo capítulo. o anil. e já quase extinta de todo neste século XVI” (Idem. cana. etc. O ciclo extrativo do pau-brasil.

e de um modo profundo. O texto de Caio Prado Júnior assume aqui um tom de perplexidade um tanto irônica pois. um fator de identificação da sociedade brasileira pois como afirma em nenhuma outra sociedade uma prática de tal natureza importou tanto para a constituição de “todos os setores da vida social”: “Organização econômica. no período em que se ocupa – princípios do século XIX. Restaura apenas uma instituição justamente quando ela já perdera inteiramente sua razão de ser. Destaca o fato de que a escravidão apresenta. deixe de atingir. vida social e política. e fora substituída por outras formas de trabalho mais evoluídas” (Ibidem). que. tendo status para o . seja por suas repercussões remotas” (Idem. administração. padrões materiais e morais nada há que a presença do trabalho servil quando alcança as proporções de que fomos testemunhas. “nasce de chofre.A terceira parte por fim cuida da vida social tratando dos aspectos da organização social. Caio Prado Júnior identifica na instituição da escravidão. que se fosse adotar por aqui preceitos morais já ultrapassados por uma ordem material que visou exclusivamente um enriquecimento comercial no vasto território encontrado. seguindo uma linha evolutiva do pensamento europeu. século XV. no mundo antigo. não se liga a passado ou tradição alguma. assume caráter pejorativo. uma vez que o escravo é utilizado nos mais diferentes ramos e atividades. Herança que segundo Caio Prado Júnior vem a se incorporar ao “conceito do trabalho”. no caso dos trópicos americanos. seja diretamente. no Brasil. iluminado por questões próprias as da lógica-filosófica não se poderia prever. Tendo em seu caso moderno surgido junto com os grandes descobrimentos. por exemplo. 1945: 277). feições jamais correlatas a outros casos em que ocorre.

A inorganização é aí a regra. que a dará identidade e da qual surgirá. O que faz prever: aquela parte da população que o constitui e que vegeta à margem da vida colonial. . no outro setor dela. e tivesse permitido a esta manter-se e se desenvolver. no século XVI. em certo sentido. Desta distorção histórica surge um tipo de sociedade que. não ultrapassam contudo um plano muito inferior. e não frutificam numa super-estrutura ampla e complexa. De um corpo informe e inconsistente vai compor uma realidade social diversa e única. uma prática mercantilista injustificada por qualquer estrutura de pensamento moderno. Tal realidade prescreve problemas sérios para o país. pior. à medida que se torna mais livre. Serviram apenas para momentaneamente conservar o nexo social da colônia. 1945: 356). ou substituindo-a lá onde um sistema organizado de vida econômica não pôde constituir-se ou se manter (Idem. menos apresenta organicidade social. o que se mantém à margem da escravidão. a sociedade brasileira contemporânea. ou diretamente. a situação se apresenta. não é senão um derivado da a escravidão. se bem que constituam a base do único setor organizado da sociedade colonial. Como sugere o autor: A escravidão e as relações que dela derivam. para o autor. Caio Prado Júnior identifica na reinvenção da escravidão.homem livre apenas raras ocupações.

como também. A razão desta escolha é dupla: de um lado. ou seja.CAPÍTULO 3 A IDÉIA DE FORMAÇÃO Discute-se neste capítulo a idéia de formação em Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Prado Júnior procurando mostrar como tal idéia permitiu ao autor formular uma interpretação da estrutura social da Colônia e do sentido da colonização. ou pelo menos não deve impedir. o autor pretende elaborar uma narrativa. Em outras palavras. Importa ressaltar que tomar o processo de formação do Brasil como objeto não impede. à observância de um longo período histórico. em síntese. entender a que deve sua formação e constituição. Formação: sentido e processo É fato que em Formação do Brasil Contemporâneo Caio Prado Júnior toma o século XIX como “momento decisivo” a ser estudado para a compreensão da realidade social e política do Brasil. Nestes termos a obra pretende dar conta de conhecidas questões sociológicas que. é um momento de síntese de “três séculos de colonização”. para explicitar o processo histórico cuja resultante é o Brasil contemporâneo. indagam sobre a unidade da sociedade e território brasileiros. das formas de sociabilidade que foram se forjando nesse processo de constituição da sociedade brasileira. o historiador de servir-se desse estudo como meio segundo o qual pode efetivamente entender a realidade social . de outro. é o momento onde estão depositadas as possibilidades para o futuro do País.

Mas o que pode revelar este decidido afastamento de eventos políticos? O que muda quando começamos a falar em formação? Mais ainda.brasileira. segundo . quase que sua gênese social. seria no mínimo estranho um texto sobre história o afastar-se dos acontecimentos políticos. O tom da primeira página do livro pode ser indicativo desta suspeita. João VI para o Brasil e a data da Independência como objeto historiográfico de primeira importância uma vez que: “o início do século XIX não se assinala para nós unicamente por estes acontecimentos relevantes que são a transferência da sede da monarquia portuguesa para o Brasil e os atos preparatórios da emancipação política do país” (Prado Júnior. Assim formulado o projeto do livro. bem como vislumbrar suas possibilidades futuras. ao modo então mais corrente de se fazer história. fica clara a função central da noção de formação para os propósitos de Caio Prado Júnior. pois para o autor seria equivocado demorar-se em sobre-valorizar a vinda de D. Anuncia assim que pretende romper com determinada forma e conceito de historiografia. por exemplo. a vinda de D. seguindo sua experiência precedente. 2000: 1). à época deste texto Caio Prado Júnior já havia começado a desenvolver método e estilo bastante diverso do corrente entre os intérpretes do país até aquele momento. como falamos no primeiro capítulo. no Brasil Contemporâneo? Todas estas questões iluminam a função central. por que o acento tão forte. João VI para o Brasil. no “fim da história”. Talvez aí possamos ler uma crítica velada à história “oficial” ou melhor. indicado no título. Não fosse uma preocupação com a formação do País.

Caio Prado Júnior pretende que este seja o momento chave “para se acompanhar e interpretar o processo histórico posterior” (Ibidem). uma análise da mesma pode desbaratar semelhantes perguntas. e representa como imagem concreta. pensando-os como totalidade (Ibidem).pretendemos sustentar. os aspectos fundamentais da formação da realidade contemporânea: Caio Prado Júnior elege este período como divisor de águas no quadro amplo que pretende desenhar. prende-se ao fato de que Caio Prado Júnior entende. à luz de um corte temporal determinado. para Caio Prado Júnior. segundo cremos. ele inaugura. Para o autor o momento se apresenta. A relevância atribuída a este. um tempo em que primeiro esteve presente em conjunto os elementos que comporiam a nossa identidade e a nossa unidade como nação. por um lado. Trata-se de momento chave precisamente pois. Mas a análise deste momento deve possuir um olhar atento para ser capaz de “eliminar” os eventos “acidentais” e “intercorrentes” e ousar avistar o período. uma nova fase” (Ibidem). Por outro lado. momento em que já estão presentes suas características mais profundas. como propício para um balanço final da obra da colonização. da categoria de formação nesta obra. como uma síntese dos fatos e acontecimentos mais relevantes. o início do século XIX. abre. como chave. Pois. político e econômico. uma identidade formada no decorrer dos trezentos anos passados. social. sua tese central. como objeto de análise. corresponder o momento ao primeiro que “contém o passado que nos fez” (Ibidem). deve-se notar. Nas palavras do . Retomemos. Seu objetivo é o de rever. Tal momento histórico: “marca uma etapa decisiva em nossa evolução e inicia em todos os terrenos. desvela. então. a despeito de outros intérpretes do pensamento social brasileiro.

é bom lembrar que o próprio Marx. no Idealismo alemão. Percebe-se que Caio Prado Júnior está pensando em termos de construção de teoria e que. e para compreender esta gênese o estudioso deve deixar de lado o que é mero evento exterior. por sua vez. econômica e política do País. desabrocham e se completam” (Ibidem). segundo a crítica especializada. em termos caros aos . podemos entender as questões acima levantadas a respeito de Caio Prado Júnior. 1986: 75). para isso constrói sua narrativa. o presente histórico só pode ser efetivamente compreendido mediante sua gênese. então. e seu corte temporal pode ser entendido como uma ferramenta de análise da realidade social. mais remotamente. mero reflexo de outra coisa. Afastar-se da política é estratégia metodológica para isolar o que é “exterior” e captar o que é efetivo. Percebe-se também a influência do pensamento de Karl Marx para quem. foi neste contexto que pela primeira vez se separou uma Historie – disciplina do entendimento – de uma Weltgeschichte – um discurso sobre o sentido necessário da história. Afinal. algo cuja compreensão depende de uma gênese (Lebrun. Por outro lado. seja na fase da Ideologia Alemã seja na fase madura do Capital. a idéia do momento histórico atual como síntese de um processo é fundamental. Corresponde a estrutura em formação então à “base” sob a qual se constrói o quadro do Brasil contemporâneo. Nestes termos. Não é á toa que era caro aos idealistas de uma maneira geral a importância da noção de organismo. Mais ainda. e debruçar-se sobre o que foi efetivo nesta formação. inspira-se nisso em Hegel ou.autor: “Alcança-se aí o instante em que os elementos constitutivos da nossa nacionalidade – instituições fundamentais e energias – organizados e acumulados desde o início da colonização.

Pensar Formação do Brasil Contemporâneo sem sublinhar seu método inspirador seria incorreto. segundo cremos e por assim dizer. em primeiro lugar. Ele não repetirá a equação da ideologia Alemã mudando seus termos. grande lavoura. podemos ironicamente dizer que importa a Caio Prado Júnior a formação do Brasil e não sua história propriamente. todavia. Destacar o “fim” da história no título. econômica e política do País nos termos de uma luta de classes que teria se configurado sucessivamente nos modos de produção tribal. evadir-se de uma historiografia que tem a narrativa histórica como único fim e assumir a história como uma ferramenta de análise para os problemas sociológicos da atualidade. compreender o presente histórico como resultado de um longo processo. colonizado. é. buscavam entender os problemas da realidade social. outros intelectuais tentaram. A tarefa do intelectual seria compatibilizar a diacronia européia com o processo de constituição do Brasil. não fará mais que importar sua estrutura metodológica voltando-se para aquilo que há de concreto em nosso história: povoamento. Afinal. quase que pela mesma época. com o brasileiro. inspirados na Ideologia Alemã. . raças. a influência do pensamento marxista em Caio Prado Júnior.marxistas. ao que parece. Se é assim. colonizador. mineração. mas. passar da super-estrutura para a infra-estrutura. O problema básico de tal esforço. interpretar a história do Brasil à luz de teses marxistas. Grosso modo. Não é essa. Mas falar da influência do pensamento marxista em Caio Prado Júnior não esgota a riqueza de sua obra. o Brasil Contemporâneo. em segundo. seria o de construir uma esquematização por demais formal de interpretação ao fazer corresponder ponto a ponto o universo europeu. feudal e burguês. vias de comunicação.

como um empreendimento.administração etc. e compreender o sentido de nossa história cuja necessidade deveria assentar-se em base efetivamente materiais. revela o quanto questões como essa esgarçaram suas relações com o Partido Comunista. seja os economistas ingleses seja Hegel. Entendido que fazer análise da formação do País não é reproduzir sua história oficial nem reproduzir formalmente o esquema geral da Ideologia Alemã. Assim caracteriza-se por ser um regime de subordinação. Para quem pudesse considerar isto pouco marxista. notadamente aquela de formação. como argumenta a propósito Bernardo Ricupero. mas verdadeiramente um marxista brasileiro. alguém que abre caminho para a aproximação da teoria marxista com a realidade brasileira” (Ricupero. No espírito do que assinalamos acima. Em Formação do Brasil contemporâneo o período colonial é pensado como sendo um período em que esteve a colônia subjugada à ação e obra da metrópole. 2000: 24). – para citarmos alguns dos tópicos do próprio índice do livro. isto é. Caio Prado Júnior não entende ser a decadência do Reino o motivo principal de sua crise e derrocada: . que o próprio Marx fez em relação às suas fontes de inspiração intelectual. coube a Caio Prado Júnior levar às últimas conseqüências algumas categorias do pensamento marxista. Por isso Caio Prado Júnior. afinal. período em que nossa formação se dá principalmente pelas mãos de agentes estrangeiros alienados da idéia de nação que para Caio Prado Júnior só começa a fazer sentido a partir da derrocada do sistema colonial. descrita no capítulo anterior. “não é qualquer marxista do Brasil. Haveria outra forma de ser mais marxista? E a história pessoal e política de Caio Prado Júnior. ele poderia responder perguntando se não foi isso.

. não pode ser entendida de forma linear. Antes. Não apenas por efeito da decadência do Reino.Tínhamos naquele momento chegado a um ponto morto. o ponto de partida para sua compreensão do que seja o Brasil contemporâneo. mutatis mutandis. etc – “que se prolonga até nossos dias e que ainda não está terminado”. 2000: 1-2). avanços e recuos. interpreta que seu fim se fez necessário pois o conjunto das instituições. se desenrola através de um século e meio de vicissitudes” (Idem. tendo Portugal se desligado ou não da função de ‘gerenciar’ a seqüência dos acontecimentos da colônia.. 2000: 3). não é exatamente esta a lição a ser tomada da conhecida tese de Marx segundo a qual um modo de produção é superado quando explora todas as suas possibilidades internas e entra em crise? O sistema colonial tem seu termo. ‘localizado’ – para fins teóricos precisamente no ponto circundado como objeto visado pelo historiador. substância e densidade própria indicando direções e transformações que lhe eram necessárias e que. O regime colonial realizara o que tinha para realizar. O que se apresenta como futuro para a colônia é o desdobramento de um longo processo histórico. 2000: 2). pois este momento contêm. Esta ‘evolução’. político.. em todos os níveis de sua criação – econômico. esta tomaria seu rumo seguindo seu quadro evolutivo. no âmago de suas contradições e iminentes instituições. (Idem. por maior que ela fosse: isto não representa senão um fator complementar e acessório que quando muito reforçou uma tendência já fatal e necessária apesar dela (Prado Júnior. no entanto. Ora. social. o sistema colonial na totalidade dos seus caracteres econômicos e sociais se apresenta prenhe de transformações profundas. mas “com vaivens. Sente-se que a obra da metrópole estava acabada.

até uma consciência. Como historiador pretende demonstrar a especificidade da civilização que se instalara neste território. mais precisamente uma certa ‘atitude’ mental coletiva particular (Idem. Percebe-se que Caio Prado Júnior está preocupado em determinar e analisar os elementos constituidores de nossa identidade. finalmente. Nossa efetiva formação pode. diretamente. que inaugura um modo de vida distinto. mais as transformações que se sucederam no decorrer do centênio anterior a este e no atual. eis o objetivo último da análise. Caio Prado Júnior define então o Brasil contemporâneo da seguinte forma: o passado colonial que se balanceia e encerra com o século XVIII. Naquele passado se constituíram os fundamentos da nacionalidade: povoou-se um território semi-deserto. organizou-se nele uma vida humana que diverge tanto daquela que havia aqui. 2000: 2) – à vista do quadro geral das civilizações. obra inédita ‘no plano das realizações humanas’ (Idem. quanto da que se desenvolvia à séculos no velho continente. uma estrutura material particular. Criouse no plano das realizações humanas algo de novo. tanto do que já havia antes da chegada dos exploradores. é um truísmo que um problema só pode ser resolvido depois de devidamente compreendido. constituída na base de elementos próprios. explicá-los. uma organização social definida por relações específicas. concretiza-se em todos os elementos que constituem um organismo social completo e distinto: uma população bem diferenciada e caracterizada. e por isso o termo formação lhe é tão caro. e. 2000: 1-2). Afinal. até etnicamente e habitando um determinado território. da dos portugueses que empreenderam a ocupação do território. . indiretamente. resolvê-los.Assim como Marx viu na crise de seu presente histórico o momento para refletir sobre a gênese da ideologia alemã. nossos problemas de país colonizado deveriam ser compreendidos à luz desta “colonização”. dos indígenas e suas nações. Este “algo de novo” não é uma expressão abstrata. embora em menor escala. como também.

mas tão somente como forma de melhor expormos os usos da categoria de formação em seu texto. apontamento. inclusive no campo de sua constituição étnica. uma estrutura material. o que ele quer demonstrar é o fato de ter nascido. uma sociedade que tem por base de constituição elementos próprios e que por isso demanda uma narrativa de esclarecimento. que . pois outras influências deixam-se transparecer em termos como atitude mental coletiva particular. com uma população. não se ocupa de abstrações. ao longo do período colonial. O autor pretende se debruçar sobre as relações sociais específicas que observa neste percurso e que a formação de tal identidade se dá inclusive no surgimento de uma “consciência”. do “povoamento” para uma “atitude mental coletiva particular”. um organismo social distinto. por via da objetividade da análise histórica. sem obviamente qualquer pretensão de esgotar o assunto. da infra para a super-estrutura (na linguagem marxista). curso teleológico da história. Em suma.‘Algo de novo’. “bem diferenciada e caracterizada” (Idem. Que nos seja permitido mais uma vez insistir na influência do pensamento marxista em Caio prado Junior. 2000: 2). Caio Prado Júnior não se demora a colocar que a linguagem de que dispõe. quanto a diferenciação destes elementos – em comparação a outros casos – os tornando “evidentes”. toma como pressuposto metodológico que a compreensão de uma realidade histórica deve ir do material para o espiritual. em idéias de síntese. de uma certa “atitude mental coletiva particular” (Ibidem). Uma vez que entendemos que o autor faz um uso muito próprio do que se convencionou chamar de “materialismo histórico”. mestiça – em sua próprias palavras. na construção de sua teoria. causalidade.

é. entre outros filósofos do Iluminismo. Hegel. não obstante. no caso de seu estudo sobre o “18 de Brumário de Luís Bonaparte”. conseqüentemente. e fazer-lhe justiça. não se articula com o estudo dos homens individuais. Para ilustrar a importância de Marx. não devemos ignorar o pressuposto fundamental de seu materialismo. não havia ainda se formado até a Alemanha de seu tempo.. ou da população em termos abstratos. A base material de que fala. . no entanto.poderiam se encaixar na tradição filosófica de pensamento sobre a História que teria seu início em Rousseau. Para Marx. do comércio e da indústria (Marx. e do materialismo histórico para a escrita de Formação do Brasil Contemporâneo faremos um breve adendo à nossa exposição incluindo alguns trechos expositivos daquele método de interpretação da História. jamais tiveram um único historiador. Voltaire. divisão social do trabalho. no entanto. em toda a concepção histórica. notoriamente. pois pensamos ser estes trechos bastante significativos para o entendimento do método utilizado por Caio Prado Júnior.. seu esforço de historiador espreitar com uma análise da política. empíricos. como lemos nesta clássica página da Ideologia alemã: a primeira coisa. Embora conheçamos. base terrestre para a história e. as primeiras tentativas para dar à história uma base materialista. portanto. um só historiador e a história estava por se fazer. 1984: 53). os franceses e os ingleses fizeram. até chegar em Marx. Damos por justificada tal inclusão. a observação desse fato fundamental. passando pelo Idealismo alemão. portanto. em toda a sua importância e toda a sua extensão. nunca tiveram. Todos sabem que os alemães jamais o fizeram. ao escrever primeiramente as histórias da sociedade burguesa. Seu estudo se dá através de conceitos como capital.

como podemos verificar na leitura do segundo “Posfácio” da Contribuição à Crítica da Economia Política) (Idem. assim. pois só ela é capaz de revelar não apenas a origem. enraíza-se em Caio Prado Júnior a conhecida tese de que a história é a única ciência. Importa ressaltar. etc.luta de classes e organismo social.. mas na compreensão dos problemas atuais e seus possíveis desdobramentos futuros. Um longo trecho de A ideologia Alemã ilustra bem o caminho escolhido na estruturação de uma historiografia que tem por fim percorrer um amplo quadro . Fazer história com base material seria a única maneira de efetivamente se compreender o presente histórico e seus problemas. aqueles onde há crise. conceitos que nossa exposição anterior e seguinte a este trecho ilustrativo de nossa compreensão acerca da dívida que tem a leitura de Caio Prado Júnior para com a teoria de Marx pretende mostrar foram incorporados pelo autor a que nos dedicamos em nossa dissertação. uma crítica porque não é de qualquer história que se trata mas de uma história que tenha por método a gênese analítica de certos momentos sintéticos. paralelamente a este pressuposto metodológico. Isto é ao mesmo tempo um elogio à história e uma crítica: elogio porque só pela história os problemas podem ser efetivamente elucidados. 1984: 62). Assim devemos entender que a elaboração de uma historiografia à luz do materialismo histórico deve contar com o estudo de tais categorias e conceitos desenvolvidos por Marx. que este elogio e esta crítica aproximam a história da sociologia e a transformam em ferramenta cujo objetivo último não se restringe à narração de eventos passados. por fim. e por objeto a base material . mas o sentido dos problemas de um presente histórico qualquer (Idem.do contrário poder-se-ia cair numa historiografia “idealista”. 1999: 23).

lemos também na Ideologia Alemã: A forma das relações humanas.. O que significa partir de uma “realidade concreta”. naturalmente. como já assinalamos. as que encontraram já prontas. são bases reais. Essas bases são. 1984: 45).visando sua reconstituição à luz da categoria de formação. hidrográficas. Toda história deve partir dessas bases naturais e de sua modificação. Caio Prado Junior faz uma incursão estratégica por tópicos eminentemente geográficos para poder compor uma historiografia de “espírito materialista”. como também aquelas que nasceram da sua própria ação. como ele. de uma “base material”? É Marx quem primeiro responde: As condições prévias das quais partimos não são bases arbitrárias ou dogmas. a existência de seres humanos vivos. sua ação e suas condições materiais de existência. permitir uma avaliação dos problemas do presente histórico. e condicionando-os por sua vez. portanto. Assim. portanto. São os indivíduos reais. climáticas e outras. resultado do processo. através da ação dos homens. condicionada pelas forças de produção existentes em todos os estágios históricos que precedem o nosso. 1984: 45) A condição primeira de toda história humana é... é a sociedade burguesa que. Insistimos na estranheza da expressão – espírito materialista – pois que se trata. no curso da História (Idem. orográficas. O primeiro estado real a constatar é. verificáveis através de um meio puramente empírico. como ferramenta de análise. condições geológicas. À luz de uma base material é que poderiam ganhar sentido as relações sociológicas tais como estão estabelecidas. já resulta daquilo que o precede. Como não ver na divisão dos capítulos e temas da Formação do Brasil Contemporâneo o cumprimento desta lição? Fazendo um esforço considerável para a organização das poucas fontes existentes. tem como . (Marx. que só podemos abstrair em imaginação. de reproduzir o espírito e não a letra do texto de Marx. Apenas a explicitação destas condições materiais poderia. o patrimônio corporal desses indivíduos e as relações que esse patrimônio desenvolve com o resto da Natureza ..

por desprezo à Corte que Caio Prado Júnior pretende “desvalorizar” a vinda de D. embora deva por outro lado. a organização social nascida diretamente da produção e do comércio. A crise das relações sociais contemporâneas. para a organização ou desorganização do Estado. A sociedade burguesa como tal só se desenvolve com a burguesia. o que se denomina tribo. evidente que esta sociedade burguesa é o verdadeiro lar. João VI. Devemos observar que em Formação do Brasil Contemporâneo o entendimento de que o todo social constitui um organismo social que dispõe até de uma consciência e uma atitude remete à construção da categoria de formação . continua a ser designada sob o mesmo nome (Idem. que põe no centro das atenções a idéia de formação. confere ao texto de A Formação do Brasil Contemporâneo uma estrutura muito própria. A sociedade burguesa reúne o conjunto das relações materiais dos indivíduos. Ironicamente.. a partir do momento em que as relações de propriedade foram desligadas da comunidade antiga e medieval. Todavia. precisam ser compreendidas à luz de suas condições materiais de constituição. aliás. e que forma em todos os tempos a base do Estado e do resto da superestrutura idealista. Já é portanto. Ela abrange o conjunto da vida comercial e industrial de um estágio e ultrapassa por esse mesmo meio o Estado e a nação.condição prévia e base fundamental a família simples e a família composta. 1984: 61).. aqui ilustrada pelas esparsas citações acima. estrutura. em um estágio de desenvolvimento determinado das forças produtivas. não era tão somente. O termo sociedade burguesa apareceu no século XVIII. Uma estratégia metodológica bem determinada. também para Caio Prado Júnior. afirmar-se exteriormente como nacionalidade e organizar-se internamente como Estado. negligenciando as relações reais e limitando-se aos grandes e estrondosos acontecimentos históricos e políticos. O mesmo deve valer. como assinala o trecho acima. verdadeiro teatro de toda a história e vê-se a que ponto a concepção passada da história era um non-sense.

que se debruça sobre um indivíduo social, completo e autônomo, que deve ser
analisado segundo uma duração, um tempo.
Insistamos mais uma vez que o recorte temporal proposto pelo historiador
paulista aponta para uma nova fase da vida deste organismo social, que dispunha
de uma certa estrutura e que, por razões intrínsecas a sua formação e ainda
devido a fatores externos a esses, se transforma e mergulha em processo
histórico diverso ao que passara no tempo da colonização. Este novo processo
vai formar o Brasil contemporâneo. Deve-se notar que, para Caio Prado Júnior o
país [como nação] à seu tempo permanece em vias de se formar, ou seja
prossegue curso começado em longa data e não possui assim uma identidade
plena: “é então o presente que se prepara... mas este novo processo histórico se
dilata, se arrasta até hoje. E ainda não chegou a seu termo” (Prado Júnior, 2000:
3).
Assim para Caio Prado Júnior, quando o historiador se ocupa daquela
formação, que de fato não se configurou totalmente: “não estará se ocupando
apenas com devaneios históricos, mas colhendo dados, e dados indispensáveis
para interpretar e compreender o meio que o cerca na atualidade” (Ibidem). Caio
Prado Júnior chama atenção para a especificidade da atividade de que se ocupa
pelo fato de seu objeto permanecer em formação, ou seja, a despeito de outros
objetos do campo da história, o estudo da formação do Brasil contemporâneo
pode ser pensado como história viva ou rica inclusive pelo seu potencial
sociológico de fornecer uma possibilidade de teorizar uma prática que possibilite
ao organismo social se formar de fato.

A especificidade da atividade do historiador que se ocupa com o tema da
formação, no caso brasileiro, consiste em que, nas palavras do próprio autor, “o
passado, aquele passado colonial, aí ainda está, e bem saliente; em parte
modificado é certo, mas presente em traços que não se deixam iludir” (Ibidem). A
primeira nota do texto ilustra sua compreensão ao tratar da viagem como método
privilegiado de análise histórica:
pessoalmente, só compreendi perfeitamente as descrições que
Eschwege, Mawe e outros fazem da mineração em Minas Gerais
depois que lá estive e examinei de visu os processos empregados
e que continuam, na quase totalidade dos casos, exatamente os
mesmos. Uma viagem pelo Brasil é muitas vezes, como nesta e
tantas outras instâncias, uma incursão pela história de um século e
mais para trás. Disse-me certa vez um professor estrangeiro que
invejava os historiadores brasileiros que podiam assistir
pessoalmente às cenas mais vivas do seu passado (Idem, 2000:
5).

Em sua tese, escrita em 1954 e intitulada Diretrizes para uma política
econômica brasileira ele retoma esta idéia afirmando que nossa história é um
“Presente (o termo está em maiúscula o que destaca seu sentido) de nossos
dias”.
“aliás a nossa história, e particularmente a nossa história
econômica, é antes uma sucessão de episódios muito
semelhantes, de ciclos que se repetem monotonamente no tempo
e no espaço. E continuam repetindo-se. Essa a razão por que
afirmei anteriormente ser a nossa história um Presente de nossos
dias. Para observá-la, é muitas vezes preferível uma viagem pelas
nossas diferentes regiões, à compulsa de documentos e textos. o
tempo se projetou aqui no espaço, facultando ao historiador um
método original de pesquisa”.

Formação: sociedade e sociabilidade

A visão do passado no decorrer do presente não é, claro, privilégio apenas
da sociedade brasileira, em outros casos observa-se a transposição das camadas
do tempo, em um eterno retorno próprio da sedimentação de tradições e
estruturas. No caso brasileiro o que o autor parece querer contrapor é a idéia de
ruptura com o passado como dimensão explicativa da modernidade, e as
transformações assimiladas em todos os níveis da vida social, econômica e
política nas sociedades avançadas que modificam sua estrutura e apagam os
traços do passado (este aparecendo com o esforço da conservação da memória e
das tradições), e a idéia de “atraso”, no caso da sociedade brasileira. Nesta, o que
se observa é a continuação de determinadas estruturas que não condizem com a
condição almejada pelo corpo político e jurídico que pretende dar forma à Nação.
Observa por exemplo, que à sua época, o trabalho livre “não se organizou
inteiramente em todo o país”, apresentando este, a despeito de esforços
institucionais, “traços bastante vivos do regime escravista que o precedeu” (Idem,
2000: 3). Como já pretendemos ter mostrado, ressoa aí ecos de uma história
preocupada com o sentido dos fatos a qual, para evitar um jogo aleatório de
interpretações põe em cena a idéia do “real” como síntese do processo de sua
formação.
Acrescente-se que a subordinação e dependência da economia ao
mercado externo, a falta de um largo mercado interno, são outros dos aspectos
fundamentais em que se verifica aquele “atraso”: “numa palavra, não
completamos ainda hoje a nossa evolução da economia colonial para a nacional”
(Ibidem). Essas reminiscências não são, segundo o autor, anacronismos ou fatos

Virá o branco europeu para especular. para o comércio europeu. articulados numa organização puramente produtora. industrial. voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio. depois. como marxista. Não hesita em afirmar: se vamos à essência da nossa formação. sua narrativa buscando distinguir o que é “essencial” para a sua compreensão. veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar. fundamental para a compreensão do seu objeto: o sentido da formação de um todo. desde seu princípio . aspectos que se colocou como problema e que o autor. Caio Prado Junior constrói. E com tal objetivo. portanto. algodão. mais até hoje sobre aquela direção se desenvolverá e terá que buscar respostas para os problemas que aquele tipo de colonização colocara. e em seguida café. apresentando a especificidade de ter seu sentido histórico singularizado por ter se constituído primeiro como empresa e depois como país. tabaco. busca compreender. a do Brasil contemporâneo. objetivo exterior. Com tais elementos. 2000: 20). A população que ocupa este território “inventado” faz parte de um sistema mundial. O Brasil contemporâneo se formará. lentamente. nação. inverterá seus cabedais e recrutarão a mãode-obra que precisa: indígenas ou negros importados. no decorrer da ascensão e do declínio daquelas estruturas. portanto. alguns outros gêneros. bem como as atividades do país.isolados. realizar um negócio. Nada mais que isto. Este essencial é o que se apresenta como “linha mestra”. mas “traduzem fatos profundos”. Isto é demonstrado no decorrer do estudo. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura. 2000: 4). mais tarde ouro e diamantes. que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras. se constituirá a colônia brasileira (Idem. pois acredita vir de uma compreensão destes dados a transformação da sociedade brasileira (Idem. Este sentido dominará a cena da formação do país que.tem mais tarde . a partir do início de nova fase.

A privação da liberdade a ele imposta concorre para a ausência (no plano da organização da sociedade e da construção de seu sentido) de contribuição da maior parte da população da colônia para a formação da estrutura da sociedade brasileira até o início do século XIX. sendo a base de toda organização econômica e produtora de padrões materiais e morais de conduta em nível inédito de influência. e acima de tudo. No entanto não dispõe de ferramentas para se contrapor. e em nosso caso é “motor” de uma sociedade. de um sistema de pensamento. . 2000: 277). em todos os níveis de sua vida. insere-se em determinada tradição. caracteriza a sociedade brasileira de princípios do século XIX” (Idem. Na Antigüidade o escravo faz parte da cultura. a escravidão brasileira foi para o Brasil a mais significativa instituição sendo ela que “antes de mais nada. Frisando a diferença da escravidão moderna. Sua ocorrência. à população do centro deste sistema. causa. com características distintas de formas anteriores de escravidão no mundo ocidental teve repercussão em todos os setores da vida social. No Brasil ele é privado de sua cultura de origem. destituído de sentido e usado como força bruta de produção material. No caso dos Antigos é resultante de um modo de vida. sendo sua implantação necessária por motivos oriundos da atividade empresarial que se pretendia realizar visando a prosperidade da metrópole. a que aqui se desenvolveu por motivos mercantilistas.inclusive que se emancipar e se tornar independente neste contexto por motivos intrínsecos da relação social primeira. negocia. com a qual dialoga. segundo Caio Prado Júnior a despeito do desenvolvimento das noções morais que já constituíam a sociedade do velho mundo. competir é o termo certo. conseqüência.

Caio Prado Júnior discorda de outros autores que. 2000: 286). sua mais organizada instituição social . seja ela técnica. observando a ausência de preocupação quanto à formação dos negros no Brasil. pretendem que já na sociedade colonial se dispunha de unidade ou identidade. Caio Prado Júnior desloca a questão do nível moral da discussão da miscigenação da população. seja ela religiosa – como chegou a ocorrer com os indígenas doutrinados pela ordem jesuítica -. moral ou intelectual. Caio Prado Júnior salienta que em se tratando da “economia da colônia praticamente todo o trabalho é servil” (Idem. e muito menos estética.resulta na preparação de um contingente populacional destituído de meios para se inserir no quadro da vida social do Brasil contemporâneo. como é . Tal fato contribui diretamente para o atraso da economia colonial. e papel amplo e fecundo. e têm suas atenções voltadas totalmente para o comércio e tráfico segundo os interesses de Portugal: “O negro e o índio teriam tido certamente outro papel na formação brasileira.Em decorrência disso. Não só ele é numericamente volumoso. a exemplo de Gilberto Freyre com quem dialoga em Formação do Brasil Contemporâneo. Assim o que constitui a base da vida da colônia. se diverso tivesse sido o rumo dado à colonização. o último não pode ser esquecido ou subestimado. 2000: 281). Os responsáveis pelo sentido da colonização estão alienados de tal intento. ou aceitado uma contribuição menos unilateral e mais larga que a do simples esforço físico” (Idem.a escravidão . se se tivesse procurado neles. seu ritmo e sua direção. A distinção do fato da escravidão em nosso caso se dá tanto na produção material como no nível do serviço doméstico e que “apesar da amplidão e importância econômica muito maiores do primeiro setor.

é precisamente desta relação – desumanamente desleal – que advém “a maior parte dos malefícios da escravidão” (Ibidem).. começou-se a formar. devido à proximidade do senhor e do escravo no mundo da vida íntima. Bem diferente de uma discussão taxativa. a despeito de uma retórica que procurava de certa forma travestir a imagem da escravidão sofrida no Brasil de um ar romântico. (Ibidem). Caio Prado Júnior é categórico em afirmar que. bem como nas regiões onde atividades ligadas à .. O arranjo social determinado por uma lógica externa às suas próprias fronteiras. Dado o significado que assume o trabalho no Brasil.grande a participação que tem na vida social da colônia e na influência que sobre ela exerce” (Ibidem). De tal sorte que é preciso enfatizar o “pouco que ela trouxe de favorável. Assim se configura uma formação cuja lógica e sentido estão fora e não dentro do País. Ao constituir-se como “empresa” da metrópole não se constituiu como uma unidade nacional. só pode configurarse com a marca do “atraso”. se é que se pode falar em sociedade civil neste caso. Daí uma sociedade civil desorganizada. própria do senso comum da época. e os saborosos quitutes da culinária afro-brasileira” (Ibidem). entre outras coisas. o dano social causado pela estruturação da sociedade de forma escravista reveste toda estrutura da sociedade que formará o Brasil contemporâneo. Assim: “Torna-se muito restrito o terreno reservado ao trabalho livre . principalmente nas cidades. também: a ternura e afetividade da mãe preta. Ironicamente. e a utilização universal do escravo nos vários misteres da vida econômica e social acaba reagindo sobre o conceito do trabalho que se torna ocupação pejorativa e desabonadora”.

Caio Prado Júnior vai ater-se propriamente aos aspectos humanos da formação do Brasil contemporâneo nos tempos da colônia. O comércio era privilégio dos “reinóis” – os nascidos no Reino – e poucas eram as atividades restantes de que se pudesse orgulhar os não abastados. o sentido da colonização. para Caio Prado Júnior contribui de forma decisiva para a preparação da estrutura da vida social do Brasil contemporâneo. e.12 a despeito da abundância de terra. entravam em declínio. O elemento inorgânico é para a vida social um dos aspectos da formação da identidade do Brasil contemporâneo (Idem. lançando mão de uma de suas fontes preferidas de conhecimento. anteriormente referidas. por conseguinte a pobreza. em detrimento da atividade remunerada. algumas de acesso restrito. indivíduos que poderiam ser proprietários preferem não o ser. parte para a conclusão de seu estudo demorando-se na análise das 12 Fontes mais usadas: Recompilação de notícias soteropolitanas e brasílicas do fim do século XVIII . Chega-se assim na constituição de um contingente de “desclassificados. Fechando sua exposição. Neste nível a escravidão. No campo. Caio Prado Júnior destaca que. um contingente de pessoas que escolhe a vadiagem. Tendo caracterizado os tipos que vão ocupar e constituir todo o território. Seguindo as lições do materialismo histórico.Luís dos Santos Vilhena . o autor vai passar da descrição daquela “base material” para as relações sociais que sobrevieram a elas. inúteis e inadaptados”.mineração. 2000: 287). pois não possuem o capital para comprarem quem por eles trabalhe (Idem. 2000: 289). restringindo-se a poucas atividades. o de ser empresa de lucro fácil. pois demandam riqueza prévia como é o caso das atividades das profissões liberais que requerem preparação intelectual.

o “nexo moral” precisa ser entendido como resultado daquele processo. De tal base material poucas relações poderão derivar-se. os resultantes direta e imediatamente das relações de trabalho e produção: em particular. não uma colonização qualquer e sim um processo que obedece à lógica exterior ao próprio território colonizado. 2000: 357). os grupos sociais. a despeito de seus problemas. Mas. o . a subordinação do escravo ou do semi-escravo aos seu senhor” (Idem. antes mencionado. as classes. no seu sentido amplo de conjunto de forças de aglutinação. 2000: 353). complexo de relações humanas que mantém ligados e unidos os indivíduos de uma sociedade e os fundem num todo coeso e compacto” (Idem. como já foi discutido anteriormente. procurando colocar em relevo as formas de interação entre os indivíduos. ou seja. cujo sentido é o de ser empresa e não nação. o trabalho servil era. Entendido nestes termos e não como conceito que explique e fundamente explicações da realidade social. Para Caio Prado Júnior. Assim. é bom que se diga. Destaca como sendo de suma importância a ausência de nexo moral entre os atores de tal sociedade.relações sociais que se desenvolveram a partir da realidade dada da colônia. entre os agentes que deram forma ao corpo social brasileiro. O uso desta expressão é defendida pelo autor da seguinte forma: “Tomo a expressão ‘nexo moral’. de colonização. segue justificando sua posição quanto a ausência de nexo moral da sociedade brasileira nos tempos coloniais a partir do fato de que: “os mais fortes laços que lhes mantêm a integridade social não serão senão os primários e mais rudimentares vínculos humanos. o resultado é um tecido social pouco rico de interação.

flutuando sem base em torno da sociedade colonial organizada” (Idem. no caso da mulher. não tem as funções de que ocupa a fruição posterior de um trabalho que pode ser reflexivo. a consumação física do escravo o macula diretamente.único efetivamente organizado e portanto que funcionava no país. encontra-se uma inorganicidade como regra. muito menos provia o incremento da vida cultural da colônia. que ficava fora da relação de trabalho servil. a utilização do negro como escravo no Brasil não contribuiu para a formação de uma “superestrutura” ampla e complexa servindo “apenas para momentaneamente conservar o nexo social” (Ibidem). de tal forma que ele próprio. Sendo este setor da sociedade diretamente afetado pelo setor do trabalho servil que. Caio Prado Júnior vai explicar a afirmação segundo a qual as relações sociais que vingam a partir do regime organizado da escravidão são relações primárias e elementares justificando que. 2000: 354). para Caio Prado Júnior. O trabalho livre caracterizava-se pela dispersão formando um setor “imenso e inorgânico de populações desenraizadas. vai alienar “o conteúdo cultural” de que dispunha anteriormente. No seu plano material o trabalho escravo “nunca irá além de seu ponto de partida: o esforço físico constrangido”. nas suas duas atribuições – a de trabalho e a sexual – o escravo não ultrapassa o limite da relação servil. o trabalho nada ensina. Ao contrário. 2000: 355). Portanto. No outro ponto da sociedade brasileira. Senão por outras razões. ao escravo. A atividade sexual do escravo. nem no campo da práxis nem no da intuição intelectual ou moral (Idem. porque o sentido de sua inserção no contexto brasileiro obedecia uma lógica externa àquela de uma identidade nacional. estando uma vez . por sua vez.

o quanto esta formação pesa sobre o presente e futuro País. 2000: 357). desagregada e desenraizada. O que caracteriza este setor é a ausência mesmo de uma estrutura social organizada. tendendo seus atores para a composição de uma malha social instável. Não menos primárias serão as relações sociais entre estes agentes que devido a uma inconstância de trabalho e de evolução material tendem para a vadiagem e a “caboclizaçao”. Fatos que demonstram a importância do poder externo na vida da colônia são. Mais ainda. A qual faz valer sua autoridade a despeito da ineficiência da administração pública da colônia ser uma de suas realidades. Assim esta ausência de “nexo moral” da sociedade colonial se caracterizava mais pela desagregação e por forças dispersivas. contribuir para a formação de um meio mais integrado e coeso contra a ação coercitiva da metrópole. por sua vez. segundo Caio Prado Júnior – condicionando e sendo a origem de tipos e formas de relações sociais de uma parte da população que crescerá continuamente por todo período colonial e que chegará a colocar os problemas enfrentados pela sociedade até hoje.amplamente organizado. acaba – como já assinalamos anteriormente. para Caio Prado Júnior. . a escravidão resultando na composição de um setor de trabalho livre que se caracteriza mais pela inércia que pela atividade que poderia. os acontecimentos posteriores a Independência quando a sociedade brasileira acaba por reproduzir “quase integralmente a monarquia portuguesa que viera substituir” sendo o modelo imposto e não produzido pela mesma (Idem.

e. 2000: 358). é determinada por uma lógica externa aos próprios limites espaciais. resultando em que “nenhum homem livre se rebaixa a empregar músculos no trabalho”. pior ainda. No primeiro aspecto da vida social da colônia predomina como já foi mostrado o trabalho servil. para Caio Prado Júnior. e de uma certa forma contrapondo a estes outras formas de “sentir”. “uniformidade de sentimentos. organizadas em torno da realidade condicionada por aquele. uma análise da formação pode revelar: a identidade nacional não aparece desde sempre mas é construída. “de cultura”. acrescente-se que a colônia também importa da metrópole “uma certa uniformidade de atitudes”. desenvolvidas fora da lógica e dos sentimentos importados de Portugal e ainda de outros países. em seu princípio. sendo encontrada de forma disseminada entre a maioria – contrapondose a atitude dos reinóis. que “serviria” portanto de “base moral e psicológica para a formação do Brasil como nação”. funda-se ordinariamente no trabalho – relações econômicas . de crenças. que se pensará e se buscará uma identidade e singularidade para a cultura brasileira (Idem. 2000: 358).Nesta mesma linha. que se ocupavam das atividades relativas ao comércio e produziam riquezas com certa facilidade – “acabará naturalmente . Para dar conta da análise das relações sociais encontradas e desenvolvidas na vida colonial Caio Prado Júnior parte do princípio de que uma sociedade. de que deriva a sobrevalorização do ócio. filhos do reino.e nas relações de família. Daí uma das idéias chaves que. Caio Prado Júnior defende a idéia de que tal atitude frente ao trabalho. “uma geral moleza”. de língua”. retardando assim diretamente a economia colonial que se desenvolvia quase que totalmente em torno do trabalho forçado (Idem. sendo precisamente sobre estes elementos.

Contribui para isto um “ridículo sistema de educação” uma suposta Paidéia. No que tange às relações pessoais entre os indivíduos. ou seja. que acaba se apoderando do indivíduo todo” (Ibidem). 2000:359). mas antes se compõe de emigrantes isolados. refreia a constituição de células monogâmicas. sobretudo de uma “inatividade sistemática. mas. a lógica da produção e acúmulo de bens a partir de trabalho metódico. na sua maioria.por se integrar na psicologia coletiva como um traço profundo e inerraigável do caráter brasileiro” (Idem. Por outro lado. 2000: 360-361). temos uma segunda explicação para tal fato social (o tipo de preguiça e ócio improdutivo) na incorporação abrupta de índios quando estes não dispõem dos mecanismos apropriados para a tradução da lógica a que é submetido. Outra causa da inatividade dos indivíduos livres da colônia “é o sistema da colônia. solteiros cujo ímpeto aventureiro. (Idem. O trabalhador livre da colônia dispende o mínimo de energia necessária para o seu sustento. que tentou ‘modelá-los’ “por figurinos europeus estranhos aos seus gostos” (Idem. usufruindo durante sua vida de um baixo padrão de vida. em torno de famílias estruturadas. em busca de enriquecimento. sua subsistência. Caio Prado Júnior nota a constante mobilidade de uma população que não se organiza. Contribui para tal fato uma certa “facilidade . a despeito das riquezas do meio natural a sua volta. de uma atividade sedentária. 2000: 360). tão acanhado de oportunidades e de perspectivas tão mesquinhas” (Ibidem). Estes fatores em conjunto resultarão por fim em um “tom geral de inércia”. sendo esta ininteligível segundo a constituição de seus padrões sociais. causando a estagnação e uma apatia que “não vem somente da luxúria e da cobiça.

Sobre a massa inorgânica e livre da colônia Caio Prado Júnior sublinha: “A formação brasileira. a indisciplina que nela reina.de costumes” que proporciona ao imigrante “mulheres submissas de raças dominadas”. Ainda fatores como instabilidade e insegurança econômica corroboram para tanto. as suas virtudes. ao contrário do que se afirma correntemente. Caio Prado Júnior está trabalhando com um fato social: estabelecendo a diferença do papel que esta representa para a vida social nos moldes em que desenvolveu ao longo do tempo e o que passa a significar no âmbito da sociedade colonial brasileira. Mais do que o julgo de uma moral pessoal. deficiente. salvo no caso limitado e como veremos. Dentro da organização da casa-grande ainda se observa que a família. não se processou. “as facilidades que proporciona às relações sexuais irregulares e desbragadas. quase como regra. tudo isto faz a casa-grande. antes uma escola de vício e . torna-se pelo contrário campo aberto e amplo para o mais desenfreado sexualismo” (Ibidem). a promiscuidade com escravos”. atuar como modelo formador do caráter das relações humanas ali constituídas. mal disfarçada por uma hipócrita submissão. e constitui uma base não familiar da vida destes (Idem. Caio Prado Júnior observa ainda que: “A família perde aí inteiramente. 2000: 362). num ambiente de família” (Idem. sustentada pela relação desigual de forças entre partes envolvidas. no caso entre senhores e escravas. ou quase. não se constitui em um fator disciplinador da vida sexual dos indivíduos sendo ao contrário a permissividade. e em vez de ser o que lhe concede razão moral básica de existência e que é de disciplinadora da vida sexual dos indivíduos. No caso da vida da colônia “o sistema de vida que dá lugar. puramente formal. das classes superiores da ‘casa-grande’. 2000: 361).

Dentre uma minoria de uniões regulares. apanhando a criança desde o berço.desregramento. Caio Prado Júnior sublinha ainda o fato de que a prostituição. No entanto o que se verifica como predominante é a ausência de uniões estáveis e a grande maioria dos homens prefere “em geral não pensam em se deixar prender” (Idem. sendo de tal forma disseminada esta atividade na colônia que “não há recanto da colônia em que não houvesse penetrado. escassez de padres para a cerimônia. tendo sido na prática cultos e cerimônias religiosas incorporados ao cotidiano se desligando muitas vezes do significado originário da prática religiosa de origem. na vida da colônia. grande número de casais ainda não oficializam o matrimonio por motivos vários como por exemplo o da falta de condições financeiras. ou por restrições e constrangimentos raciais. nos “mais insignificantes arraiais” onde “quase toda a sua população fixa é constituída. de prostitutas” (Ibidem). sendo porém estas uniões comuns e num certo sentido aceitas naturalmente. Outro aspecto importante na formação das relações sociais da colônia é o de que. 2000: 364). e em larga escala” (Ibidem). sua influência na sistematização dos costumes desta se mostrou relativa. ficando mais . que de formação moral” (Ibidem). em outros lugares mais comum nas cidades de médio e grande porte. Deste modo festas e sacramentos se enraizavam na cultura. mas de forma adulterada em decorrência do caráter dinâmico da vida sexual. Tal fato contribui para que as moças pobres nem cheguem a pensar no casamento como algo possível. a despeito da presença das ordens religiosas na constituição de suas instituições. além dos vadios. e de classe. na falta de condições de obter sustento. pelo seu custo. para uma ampla difusão da prostituição. ocupa lugar. o que teria concorrido.

ruína em que chafurdava a colônia e sua variegada população. 2000: 368). nos fatos concretos. não fazem nada. e que. Cabe lembrar mais uma vez. e para o historiador não devem servir senão de sinais. caráter empresarial da colônia. A questão que se coloca aqui. para o autor. e dos diversos aspectos e contradições inerentes aquele sistema – entendidos no seu movimento dialético – . expressões ou sintomas aparentes de uma realidade que vai por baixo. pobreza e miséria na economia. que esta é a preocupação central de Caio Prado Júnior em Formação do Brasil contemporâneo. 2000: 364-365). Neste verdadeiro descalabro. e que as provoca (Idem. neste ponto da exposição. Forças estas que não devem ser vistas como meras hipóteses ideais. construção de teoria para uma prática efetiva. dissolução nos costumes. é a de perguntar. inércia e corrupção nos dirigentes leigos e eclesiásticos. 2000: 365). Assim caracteriza a ação geral uma “tolerância infinita quanto à moral” sendo mesmo a prática do clero não diferente (Idem. capacidade de renovação? (Idem. política: numa palavra e para sintetizar o panorama da sociedade colonial: incoerência e instabilidade no povoamento. poderiam realizar a virada de mesa e de fato construir uma nação no Brasil. Caio Prado Júnior começa a analisar as forças renovadoras que vão efetuar a mudança no estado das coisas na Colônia. quais seriam os elementos.observada a exterioridade dos ritos em detrimento do significado dos signos e símbolos religiosos. e com que força. uma vez tendo desenhado o quadro geral da vida social da colônia. que encontramos de vitalidade. de ser empresa da coroa portuguesa. o estudo da história é ferramenta. e não fim. afinal: “as idéias por si. Assim é antes do quadro geral já tratado anteriormente.

para Caio Prado Júnior. . seu desenvolvimento histórico. Muito mais a partir dos elementos desconexos da vida social e dos setores inorgânicos da população do que de uma ordem política constituída de cima para baixo – como é o ocorrido na constituição do Império aqui delineado aos moldes da organização da política na Europa – que o País seguirá.que revelará aquela organização social o viés que a conduzirá a sua forma seguinte.

seu sentido. Seu domínio é o da síntese. para Caio Prado Júnior.por ser transitivo. Para tanto. “momento decisivo” . entendendo esta como articuladora entre os diversos tempos da História. Vislumbra seu objeto à luz da grande narrativa. prática. no que nos demoramos quando esmiuçamos a trajetória política do autor. condensando contradições e contendo direcionamentos de cujos desdobramentos virá a tonar o Brasil contemporâneo de cuja compreensão o autor pretende entender e demonstrar o sentido. pensando o objeto e o articulando-o segundo sua constituição estrutural básica. consegue vislumbrar seu objeto segundo uma extensa linha demarcada e divisada entre o passado colonial. a intenção de consistir numa teoria visando a aplicabilidade de seus resultados por via política e. dividido em seus alicerces fundamentais. o qual se constitui como um desdobramento daquele sentido. conforme demonstrado no decorrer do texto.CONSIDERAÇÕES FINAIS A leitura de Formação do Brasil Contemporâneo operada segundo o recorte da problematização da idéia de formação nos leva a concluir que esta categoria. No percurso realizado neste trabalho não deixamos de procurar entender. conforme . ou seja. seu corte temporal – o início do século XIX. portanto. que a elaboração da escrita de Formação do Brasil Contemporâneo teve também. e o presente. Caio Prado Júnior consegue colocar seu objeto e expô-lo segundo ordem cronológica estendida no tempo. objeto visado em seu estudo. Assim o tema. pensada da parte ao todo. através da idéia de formação. A longa duração de sua narrativa foi possível. conforme articulada no texto de Caio Prado Júnior possibilita a este autor realizar a síntese do que chama de Brasil contemporâneo.

cuja resultante é o Brasil contemporâneo. frutificará no Brasil determinada disposição para o trabalho. a que deve seu sentido. e segundo sua intenção. Assim a idéia de formação de Caio Prado Júnior permite ao autor pensar a formação da sociedade brasileira num quadro mais amplo entendido em termos de uma totalidade social: o sistema colonial. no que tange aos aspectos de suas . segundo atenta Caio Prado Júnior. Vale ressaltar mais uma vez que ao tomar o processo de formação do Brasil como objeto o historiador coloca seu estudo. Dividido o tema em Povoamento. tendo em vista a que este deve sua constituição e sua formação. do tipo de relação social que esta suscita. Vida Material e Vida Social o autor analisa o processo histórico. o Brasil contemporâneo. mas também é chave analítica eficaz para o autor demorar-se em aspectos menos estruturais e mais sistêmicos da vida cotidiana da colônia que corrobora intensamente para a presente forma de vida do Brasil contemporâneo. Via dupla de desvelamento da realidade social brasileira.sua formação. o Brasil contemporâneo pôde ser analisado segundo sua estrutura tendo ido o autor às suas especificidades e revelado sua composição. entendido como meio. Assim Caio Prado Júnior demonstrará que da organicidade do trabalho escravo. a idéia de formação opera não só a sistematização da estrutura da exploração e “invenção” da “quase-empresa” colonial. à disposição dos que pretendem entender a realidade social brasileira (e porque não reforçarmos o já dito – coloca sua análise a disposição dos que pretendem vislumbrar possibilidades futuras e desdobramentos do objeto segundo o qual nos informamos. que tem seu início precisamente datado naquele corte temporal e que se estende e nos tange nos dias de hoje).

ou seja. Assim concluímos que a idéia de formação de Caio Prado Júnior permite distinguir. Associada à idéia de “sentido da colonização”. em 1822. não logrou gerar uma autonomia e dinâmica próprias. das representações. . e ainda no quadro especifico das significações. que se esboçasse aqui algo relativamente novo em termos de sociabilidade e organização social. como o processo de colonização aqui implementado permitiu que se esboçasse uma nacionalidade que foi progressivamente se distanciando do seu modelo europeu. capazes. depois da independência política. de seu significado e espaço no quadro da cultura.diversas disposições práticas. a idéia de “formação” sugere a sobrevivência das estruturas e atitudes sociais às condições específicas que as criaram tanto no plano das relações sociais cotidianas. de construir uma nação autônoma. mas que. no caso histórico brasileiro. quanto na definição mais geral da estrutura social do que se formou como sociedade brasileira. ao mesmo tempo. de sociabilidade e ações sociais.

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