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‘Acad época, 0 historlador se esforga para concliar as exigBncas da ‘objetividade e a necessidade que tem de reinterpretar 0 passado & luz do presente, Mas em face do que &, em face do que vem, o que diz a historia? Nese vo, Asletie Farge reflete sobre responsabilidad do historiador ciante do presente: pensar 0 sofrimento, a crueldade, a violencia, a guerra sem reduz-os a fatalidades ¢ também querer explcar as dispositvos, os mecanismos de racionalidade que os fizeram nascer, ‘As céncias do homem sempre tenderam a considera o campo emocional ‘como resultante apenas da fisilégico, das sentimentos. Ora, o sofrimenta hhumano née ¢ anedético: acontecimento singular é um momento de histéria, ‘Aopinido das pessoas a fal, o acontecimento que sobrevém fazem parte dos lugares politicos da histéria, Do mesmo modo, a ciferenca dos pants sexuels ‘do 6 uma fatalidade; ela esta submetida as vaiagbes da historia Lugares para @ histéria fomenta uma discusséo fundamental para 0 bisloriador: reinterpret @ histria de aoordo oom 0 nosso presente. Para tanto, a obra de Michel Foucault, com quem Avette Farge publicou, em 1982, Le césordre des familes (A cesordem ds famitias, inédito em portugués), ‘serve aqui de apoio para a andlse de diversas questbes que estio om jogo 1a esoritura a histria auténtica _waitentiaedtor com br (050028 31322 1 VINOLSIH V Wud SAHV9M1 Fy 5 Eg Ea & 8 LUGARES PARA A HISTORIA COLEGAO HISTORIA E HISTORIOGRAFIA auténtica CO historiador sempre tentou Poe esta te Pr OEM se} Gem eee a PEM eer eee tenn Se eee Dei ee ene ta. criadora de Michel Foucault Dee ne Co oe mee histéria por meio dessa reinter- Dec Om nad estudos de Arlette Farge. Pee Ea Cries aera Cn eee ey CO eect CoO ee ae PCE teeny BCC Me Cen at Pe eee aa Cree Cone reee) Roe ee sere Ge oe Cerne eee amen} ee Ur Ree CO OS eek Ear) Cee Peete SEE ccc? dos eventos de outras épacas da ey Ca Red francesa dedicada ao estudo do sé Dn Pa reer Ct Pee errr emis Mosler eM eas CEA SS ea Crd eee ed Oca Eee Ne ee ete Ce Ace) Te ee nL Pn cen Pete Panay Dre eee Peas oe ou) Cee ead Peart ee foe eee ie Pe eio Colegio HISTORIA & HISTORIOGRAFIA, Coordenosée Eliana de Freitas Dutra Arlette Farge Lugares para a histéria TRADUCA Fernando Scheibe auténtica © Editions du Seui, 1997. Collection La Librairie du XXI sil, sous la direction de Maurice Olender. Copyright © 2011 AutenticaEditora Lida, ‘mus no orca. fevsho Da TRADUGAO es leux pour histoire Vera Chacham ooRDDORA DA COLEGAO HISTOR E ewsko vero -AsTOROGRARA ‘Ana Carolina Lins Brandéo Ehana de Freitas Dutra lira Cordova FroiToGRanco 0s ovroRAREsrONSAVeL Alberto Bittencourt Rejane Dias rronacho nTONCs Conrado Esteves Revs conforme o Now Acordo Onorato. “Todos os tos reservados pla Autti Etora, Nenhuma pate desta publica pocea se reproduiia sa por melo Imecdnicos, levonicos, sea vie cpa nerograica, sem a Soret previa da Eda, AUTENTICA EDITORA LTDA. Belo Horizonte Rua Aimorés, 981, 8 andar. Funcionarios 30140-071 . Selo Horizonte MG Tel: ($5 31) 3222 6819 ‘io Paulo ‘Av, Paulista, 2073 . Conjunto Nacional Horsa. 11° andar. Conj. 1101. Cerqusira César (01311-940 . S30 Paulo. SP Tel: (55 11) 3034 aaa Televendas: 0800 283 13 22 wan autenticaeditora.com.br Dados nteracionas de CatalogagSo na Publicagso (CP) (Camara brostova do tne SP bret | Forge ete Lugaes para stra / Alte Farge raduco Fernando Scheib — flo Horzonte: Autrtica Eto, 2011 (Coleg Histo e Hstrograt, 3 ‘eoorsenapo lana de fretas Dato) | ‘ul origina Des lac pour Piste Bibra | se 378-85-7525:542-0 1. Historia —Flsofia 2. Historia ~Pesquse 3. Hitoogratie | Dwva, Eliane de reas. Tuoi Sere 08366 00-901 Trace pare ato sisters 1. Hate: Fafa 901 SUMARIO. Introdugao.. Do sofrimento.. Estas moradas vivas do histéria.. Ador politica. Da violéncia.. Sobre a legitimidade de buscar outros tipos de interpretacéo De algumas interpretagdes em historia da violénci Aleitura dos Ditos e escritos. Da guerra. A palavra, 0 lestemunho, « meméria Com Michel Foucault, zombar das origens? istérica além daqueles jé utilizados.. 13 16 19 25 7 28 33 Al 44 46 48 51 5A 59 59 61 7 73 76 81 Da opinido. 85 As palavras, os gestos, a atividade simbélica. 86 As disposigdes emotivas dos siiditos do rei 90 A percepcio estética dos fatos - € dos acontecimentos politico: 94 A voz de Marion: opiniées singulares e plurai 98 Michelet e a medida do instante. 98 99 100 Da diferenga dos sexos.. 103 Dos historiadores Bouvard e Pécuchet. 117 Bouvard e Pécuchet querem saber “o antigo” como quem guarda um 1S0UFO...eccscssneeeee 118 Bouvard e Pécuchet querem um relato sobre o passado... 122 Bouvard e Pécuchet escrevem eles proprios a histéria...... 126 . 131 Referéncias. Introdusdo Na multiplicidade atual das vias que se oferecem ao historiador, thé aquelas que nio tém necessariamente nome. Habitam a disciplina em suas fronteiras e em suas margens. Algumas foram mais particu- larmente infiuenciadas por questionamentos oriundos de encontros fortes ¢ de um percurso votado ao estudo de documentos especificos, 08 arquivos de policia do século das Luzes, por exemplo.' Robert Mandrou e Michel Foucault tiveram certa maneira de se preocupar com a hist6ria; a um como ao outro ~ sem confundir de modo algum nem seu discurso, nem suas priticas, considerando incessantemente suas posigdes irredutiveis — sou de certa forma devedora, mais pescadora furtiva que discfpula, Deles, retive tanto saber quanto admirei atitudes intelectuais ou éticas; e, num tra~ gado que, sem davida, nao teriam feito deles, inventariei certos espacos do século XVII, preocupada com a relacio a estabelecer com o presente, Certamente nio é novidade para um historiador preocupar-s¢) com 0s lagos de seu discurso com a sociedade em que o inscreve: “quando falam da historia, estio sempre na hist6ria”, escrevia Michel de Certeau (1975, p. 28). Bem antes dele, Marc Bloch (1993, p. 97) tinha sublinhado reiteradas vezes a necessidade de ser curioso quanto "Sobre ex mips vi que contsbuemn lve pars nti no coro da dipina a conscncin be uma “ere” € de uma diigo ds prisicae dot objetoshitricos, vera tecente alive de [NOIRIEL (1996); ver também 0 mimero especial da revista spas temps “Le temps lech Lihinoite au aque des historiens” (1995) Fete Wate Pata a pesto aos problemas que agitam o mundo, de colocar questées pertinen- tes para a comunidade cientifica, de “unir 0 estudo dos mortos 20 tempo dos vivos”. Poderiamos citar ainda muitos exemplos sobre este ponto, bastante discutido, da ciéncia histérica. A sagacidade critica das anilises de Robert Mandrou e a inteli- agéncia sarcéstica, iconoclasta ¢ criadora de Michel Foucault fizeram © resto; persegui, como historiadora, 0 estudo de lugares que fre- quentemente recolocam em causa, para tentar produzir formas de inteligéncia do outrora que sirvam para interrogar o hoje, e mesmo para inflectir 0 olhar langado sobre este. Ler Michel Foucault ajuda a efetuar este trabalho; ele vai a contrapelo das ideias feitas e dilacera _a8 certezas: ser historiador nao € algo Sbvio, ¢, se esse filésofo foi istoriador, foi ao prego de questionamentos fundamentais das pos- ttaras, dos métodos ¢ das convicgdes de ambas as disciplinas, T2-o e Concordar com ele para nio se assemelhar aqueles “que procuram a todo custo apagar aquilo que pode trair, em seu saber, o lugar de onde olham, o momento em que esto, o partido que tomam, o incontoravel de sua paixéo” (Foucautt, 1994i, p. 150) é escolher ser de um lugar, de um momento, de uma paixio, a fim, como ele diz ainda, de “nio apagar de seu préprio saber todos os tragos do querer” (p. 156).? Pode-se caricaturar 4 vontade essa posigio; o debate sobre a Objetividade do historiador também tem uma longa historia, evo- cada'em numerosos trabalhos, e sua persisténcia mostra claramente que a tensio que se instaura entre a necessidade de verdade, de ‘resultados seguros ¢ a elaboragio de pontos de vista que interesser i cominidade social faz parte da esséncia mesma da hist6ria. Que hhaja debate ou controvérsias nao impede que o trabalho historiador esteja situado ~ entre outros ~ neste lugar onde o saber-fazer ¢ 0 querer-fazer lhe so necessirios. “Pretender-se-ia que 0 estudo da historia € bom para a vida?”, conclui Philippe Boutry (1996), num * Os Dit ces de Foucault esto sendo publcadosem portaputs pea Forense Univenitts. © texto “Nietche, a geneloga,shistra” fora twaduide por Roberto Machado em A mings do poter (1979). (NT), * Soba diregio de Jean Bouter e Dominigue Julia, Pasesrecmpad, Champs et chants de stir, “A quoi pensen les histories” (1996, 13). Inmooueko artigo que procura situar as diversas tendéncias da disciplina; tem-se, é claro, vontade de responder afirmativamente a essa questio, consi- derando simultaneamente o quanto essa assercio é exigente e obriga a procedimentos arriscados ¢ ascéticos. Pode-se, a0 menos, exprimir © desejo de uma histéria inervada pelo tempo, logo irritada por ele. Na atualidade, ora trigica, ora melancélica (AUDISIO; CADORET; Douvitz; Gorman, 1996, p. 127-142), ha lugares para a historia que permite confrontar 0 passado e o presente interrogando de outra forma os documentos ¢ os acontecimentos, buscando articular © que desaparece com o que aparece. A esse propésito, Michel de Certeau (1975, p. 119) escrevia ainda: “A escritura da historia visa a criar no presente um lugar a preencher, um ‘dever-fazer’ [...] Assim, pode-se dizer que faz mortos para que haja, alhures, vivos”. ‘A imagem é forte; entretanto, a fim de que a histéria gua de seu conteddo e sua poténcia é preciso velar para nio correr 0 isco do anacronismo, para compreender os mundos passados sem recobri-los com julgamentos demasiado mode vara trabalhar precavidamente as questées Jos mortos, sabendo que nio sio necessariamente aguelas que se colocam aos vivos. Assim sendo, o historiador tem o direito de se perguntar: em face do que ¢ esta, em face do que vem, que diz a histéria? Mantendo, no entanto, a intima convicg%o de que € paradoxal interrogar 0 relato histérico sobre o porvir. Mas o discurso historiador pode também ser uma pritica de antecipagio. Lugares para a histéria: aqueles que sio declinados aqui desig- nam, de um lado, situagdes histdricas precisas tomadas ao século XVili Gofrimento, violéncia, guerra) que encontram eco de outra maneira na atualidade de hoje; de outro, uma forma de levar em “Conta iiodos singulares de existir ou de ser e estar no mundo (a fila, © acontecimento, as vozes singulares, a multiplicidade das relagdes entre homens e mulheres). Isso faz refletir sobre tudo 0 que resiste as investigagdes historicas tradicionais de pertencimento coletivo, assim como aquelas, singulares, do individuo. Esses dois conjuntos ‘Se religam pela presenga hoje de configuragSes sociais violentas € softidas, e de dificuldades sociais que desequilibram 0 conjunto das relagdes entre o um ¢ 0 coletivo, entre o homem e a mulher, 0 —— ‘Wenaes nada a veer ser singular e sua ~ ou suas ~ comunidade social, entre o separado e sua historia, “A historia tenta fazer aparecet todas as descontinuidades que nos atravessam” (FOUCAULT, 1994i, p, 154): se hi um método para abordar os temas da violéncia e da guerra, é sobre essa frase de ‘Michel Foucault (como sobre outras, equivalentes, que atravessam toda sua obra) que podemos nos apoiar para encontri-lo. A abor- dagem do descontinuo, do que nio se conecta automaticamente a ‘um sistema liso de continuidades e de causalidades evidentes, tem a vantagem de isolar cada acontecimento e de devolvé-lo a sua historia pura, aspera, imprevisivel. Privilegiando © que se furta 4 sintese, apreende-se 0 texto, 0 arquivo ou 0 fato que af se Eratasse de uma incerteza, de um estado jamais certo, fecimento que é € nio sera jamais o mesmo (Foucautt, 1994k).! A busca da descontinuidade obriga a um deslocamento intelectual; £m certos momentos desinscreve 0 acontecimento que sobreveio KE sua preténdida necessidade, aquela habitualmente privilegiada Pelas ExplicagSes do historiador. Aqui e ali, hoje, em numerosas Teituras, pode-se ler, embora furtivamente, que a histéria tem uma tendéncia a tudo reconciliar e a tornar liso 0 que de fito nao 0 é, © que dé ao leitor uma impressio filaciosa de inelutabilidade da hist6ria ou de embaralhamento de seus atores sociais. Sublinhando esse trago, Emmanuel Terray (1996, p. 207) escreve: “Quanto mais © trabalho & conduzido de maneira aprofandada e convincente, mais as conexées estabelecidas sto indiscutiveis [...] e mais o leitor tem 0 sentimento de que as coisas, com efeito, no podiam se pas- sar de forma diferente daquela como se passaram [...]. Ha também uma espécie de efeito perverso da atividade dos historiadores [...] © fato se encontra assim investido de uma necessidade ainda mais insidiosa por permanecer implicita”. Os acontecimentos ¢ 08 fitos (tais como a violEncia ou as guerras, por exemplo) cortam frequen temente a superficie do real nio por sua evidéncia, mas por sua como se se * FOUCAULT (19k p. 792): sat ron heii do Ocdet,daceredamon ‘ac rane dei ee een ao ann ox2 de non it a ot ds embrangegee,pe er spor mem rep, ‘tazido 3 lur ¢ utilizado, isso me interessa" “ me oe ven 10 Imeouco afiagdo; acham-se na perpendicular do horizonte de expectativa, encontrando-o em Angulo reto. Ainda assim é preciso percebé-los € em seguida transmiti-los em sua singular rugosidade. Falas, fatos infimos, opinides de um s6, formam 0 outro polo de atencio desta obra. Da Histéria da loucura e de seu primeiro pre~ ficio® aprendéramos (e isso fazia eco aos trabalhos e ao pensamento de Robert Mandrou) que as proposicdes de loucura, aquelas dos marginais e dos excluidos, as falas fragmentérias esbogadas nos in- terrogatérios de policia ndo deviam ser para o historiador “tempo decaido, pobre presuncio de uma passagem que 0 porvir recusa, alguma coisa no devir que é irreparavelmente menos do que a hist6ria” (Foucaurr, 1994a, v. I, p. 162). Que nao haja “tempo decaido” para o historiador foi uma frase decisiva: 0 vio, 0 vazio, © nada, © apenas dito se tornaram para mim lugares em que se pudesse estudar 0 homem e a mulher em seus esbogos, suas raivas € seus fracassos. O que excede, quebra ou desloca a normalidade formava espacos SObFE Os quais inclinar o olhar, de onde contar a hist6ria na “raiz calcinada do sentido”. Trabalhando mais de perto sobre 0s arquivos de policia, tornava-se cada vez mais explicito que 0 conhecimento nio toma ciéncia e razio senfio com aquilo que osiibverte e com as palavras de nada que organizam obscuras regides a pensar; a histéria também ¢ feita dessa opacidade, aque- In que se integra tio mal ao relto ofdindrio de" caiso das coisas ‘As falas singulares, as Vozes Gnicas so frequentemente poeiras de palavras que nada ~ aparentemente — amarra ao tempo, a nio ser, talvez, a narragio do historiador quando faz delas sua matriz, longe do fatalismo ou do dolorismo. Yves Bonnefoi (1996), no jornal Le ‘Monde, escrevia ha pouco que “a realidade, filha do desejo, nao & uma soma de objetos a descrever com mais ou menos fineza, mas uma comunidade de presengas”; que ele seja poeta no impede 0 historiador de subscrever a essa definigao da realidade que reconhece que as “presengas” sio a um s6 tempo plurais ¢ em comunidade: € 0 sentido mesmo dos textos escritos a seguir tentar a articulagio entre esses dois devires. * Be preficio desapareceu das rs redigSes fancesas da Hiss de Iau, enconteamo- 2g072 ‘os Dit tis (1994s, |, . 139-167) —_ Wonnen rama 4 HistOma, __ Essa atengio & desordem, ao sofrimento como ao singular, no recusa as interpretagdes usuais da historia e encontra sua fina lidade em efeitos de verdade que pode discemir, isso para além da acumulagio do saber, da fineza das grades de anilise, dos arranjos de configuragdes tedricas. A busca do sentido, da inteligibilidade (aquela que dé hoje a nossa attalidade acentos tio dolorosos) se foloca na pesquisa histérica como um gesto a mais, nao separado™ dos outros, que procura religar os mortos aos vivos, 0 sujéito a seus semelhantes, indicando os lugares de sua irredutivel separacio, [A onde jntewompem a histéria para construir outra, cértiinente pouco discemnivel, mas dizivel. SSeemnivel, mas dizivel. 12 Do sofrimento Isso comega de maneira simples: como o historiador, que, por seu oficio, esti encarregado de dar a uma sociedade sua meméria, seus lagos com seu pasado a fim de que possa viver melhor com seu presente, como o historiador pode dar conta do sofrimento? ‘Como o trata? © que faz com as palavras encontradas que exprimem a dor, que sentido ou que recusa de sentido lhes dar e, sobretudo, como pode ou deve escrever essas suspensdes tragicas da felicidade? Depois, isso se torna, talvez, um pouco mais complicado:_a, histéria tem verdadeiramente o costume de fazer desse sentimento uum objeto de pesquisa e de reflexcio, quando dor e softimento pa- recem to rapidamente confinados como sendo inclutaveis conse- quéncias de acontecimentos traumiticos? As guerras, as revolugdes, a§ ¢pidemias acarretam sofrimento: © historiador sente-se mais 3 vontade falando das primeiras que deste tiltimo...Além do mais, que ligagio exata tecer com ele, que nio seja nem de indiferenga, nem de miserabilismo, nem de denegacio, nem de voyeurismo? No entanto, responsivel pelo enunciado dos acontecim 10s que nos precederam, 0 historiador 0 € pelo enunciado dos softimentos que encontra em seus documentos, ainda mais que a meméria do solrimento € por veres fator de acontecimentos ulteriores. Partamos de um paradoxo tio visivel que se torna espantoso: na disciplina hist6rica, nio ha davida de que as situages, os acon- tecimentos, os lugares e os objetos que provocam softimento estio sobrerrepresentados. Sio mesmo um dos lugares de predilegio da 13 Woanes rata a HBToRA historia, quer se trate da histéria da vida privada, quer se trate da vida piblica. Com efeito, os temas mais estudados sio aqueles que abordam as rupturas e as descontinuidades no mais das vezes sofi| das: a morte, a doenga, o Iuto, a violéiicia, os divércios, o paito- a8 migragOes © as separagdes ocupam um bom lugar na histéiia da vida privada. No que concerne a vida piblica e a0 conjunto dos acontecimentos coletivos, pode-se dizer a mesma coisa: os motins, as comogdes populares, as pentirias, a criminalidade, as revolugdes, as guerras, as partidas de soldados, os acidentes de trabalho, as revoltas, as greves so muito estudados. Sio todos ocasides de softimentos Socials, fisicos e politicos. Evidentemente, hd uma razio simples Para esse estado de fato: a ruptura ¢ o acontecimento traumitico sio a0 mesmo tempo delimitiveis e visiveis; além disso, so frequen- temente fonte de arquivos ¢ de documentos abundantes. A paz, a Cotidianidade, a tranquilidade, a dogura ou 0 amor sio escritos nos livros de literatura e nao parecem despontar na histéria através de acontecimentos. Ademais, 0 historiador marca muitas vezes sua temporalidade e sua cronologia com essas descontinuidades sofri- das, encadeando o tempo através daquilo que o rompeu, quebrou, interrompeu com acontecimentos dolorosos ou sangrentos. Assim, a maior parte do tempo escandida por acontecimentos ue engendram softimento, a hist6ria, paradoxalmente, guarda seu ritmo sem o dizer, sem o enunciar, sem trabalhar sobre as palavras que o exprimem ¢ aquelas que o rodeiam. Ela pode trabalhar sobre a Revolugio e seus excessos, sobre Termidor e a guilhotina, evocando as catistrofes humanas e politicas que esses acontecimentos implicam, sem por isso se voltar (ou entio raramente) para os ditos de softimento que implicitamente pensa como modos de expressio invariances, © softimento é considerado desde entio como a evidente consequéncia deste ou daquele fato, ou de tal decisio politica; é um " bloco em si, uma entidade no estudada enquanto tal. Os gestos que © provocam, as racionalidades que a ele conduzem, as palavras que © dizem de tal ou tal maneira e aquelas que o acompanham — para suporti-lo ou negi-lo, heroizé-lo ou lamenté-lo~ nio figuram como um objeto pleno sobre o qual refletir e como algo que entra em interagdo com os acontecimentos. Hi sistemas relacionais e culturais 4 { Do sonmnro que fazem das palavras de softimento um mundo a compreender, endo um dado inevitavel. Hi, € claro, excegdes a essa constatagio um pouco peremp- toria, ¢ € bastante evidente que nestes iiltimos anos, sob 0 efeito da meméria e do pavor politicos, a histéria do tempo presente foi transtomada e reinterrogada por numerosos testemunhos do softi- mento dos sobreviventes da guerra ou dos campos de concentracio, por exemplo. Mas em tempos mais recuados, ou um pouco mais longinquos, a meméria dos fatos ~e aquela dos vivos ~estando au- sente, 0 soffimento dito parece pouco fazer parte do relato histérico, salvo exce¢des, ou quando suas implicagdes politicas sio flagrantes. E preciso recordar, evidentemente, que nos anos 1975-1985, gracas ao impulso da nova histéria e do que se chamava entio hist6ria das mentalidades, varios historiadores se debragaram sobre temas ~ do sofrimento. Pensamos particularmente nos célebres trabalhos de Philippe Ariés (1975), Michel Vovelle (1974) e Robert Favre (1978) sobre a morte e nos debates que desde entio se instauraram em tomo da realidade. A inflexio bastante particular dada a esses trabalhos orientava-os geralmente em duas direges: uma primeira ideia de acordo com a qual a morte era mais “vivivel” outrora do que hoje, porque entio era acompanhada, ritualizada, simbolizada, enquanto que o século XX, dizia-se, fiz viver a morte num soffi- mento que nio pode se esgotar em nenhum rito ¢ que se efetua no vazio hospital. Qutra questio girava em tomo dos limiares de tolerincia da dor, mais ou menos elevados segundo as épocas, da maior ou menor familiaridade com a morte que podia eventualmen- te fazer sentir menos tristeza que hoje, da sensibilidade do corpo is diferentes formas de esforgos fisicos que Ihe eram exigidos. Nesse amplo contexto, debateu-se mesmo ium bocado sobre o sentimento da infincia, para dai, tirar por vezes curiosas conclusdes a partir de ‘uma espécie de equagio estranha: quanto mais tivéssemos vivido ‘ , va peso maja Anocion «As quees ahora nese ap fom hes de a pet rcan do Joues Hixon pour ane Revue Buopente€stoe, qu ve ipa a cle Noma Suplieue oe ote “Dia soln em 10 de ua de 995, 15 — WOAKES PARA A HiORA em tempos recuados, menos teriamos sido sensiveis, mais a barbérie, # crueldade ¢ o softimento teriam sido considerados “normais”, Finalmente, no conjunto desses debates em tomo da morte ¢ dos sentimentos familiais, parece que jamais chegou a ser formulada 4 questio seguinte: a morte menos apavorante, menos escanda- Josa, menos triste por ser visivel, presente, ritualizada? Que haja familiaridade” com a morte nio impede nem a dor nem o pavor, ¢ cada 6poca, cada cultura, cada classe social ou grupo sexual tem Palavras para clamar o esciindalo, para dizer seu medo, para abafar sua mégoa. As priticas, os ritos, as crengas em torno da morte nio impedem de maneira alguma o sentimento do arrancamento, Este tem formas, palavras, modos de expressio que tém implicagbes sociais ¢ politicas e que pertencem plenamente a histéria, Estas moradas vivas da historia Encontrar os ditos de softimento: nos arquivos do século XVIII onde queixas, processos verbais, interrogatérios e testemunhos sic Pletora, palavras contam vidas que se quebraram ou que, de uma maneira ou de outra, simplesmente conheceram a pena ¢ 0 sofii- mento. Fragmentos de miséria, reliquias da linguagem do infortinio se oferecem assim aquele que trabalha a partir desses documentos Encontramo-los em estado bruto, escritos numa sintaxe aproximna_ tiva, sussurrados ou gritados em face do aparelho de policia. Ditos por pessoas ordinérias pegas a um s6 tempo pelo poder e por seu deficit de saber, enunciam a mégoa, a pena, a raiva ou as grimnas so palavras de softimento, Encontré-los, retranscrevé-los, é uma primeira coisa, extremamente important escutar as falas + € to raro em histéria Apreender essa fala ¢ trabalhi-la & responder 3 preocupacio de-reintroduzir existéncias e singularidades no discurso histérico ¢ desenhar, a golpes de palavras, cenas que sio de fato acontecimentos, Nao se trata a partir dai de acreditar que, gracasa essas falas, detemos de fato o real, a realidade, mas de escutar um desafio: entrar através dessas palavras numa das moradas vivas da histéria, If onde as pala- vras formam fraturas num espaco social ou imaginsrio particular, As 16 Do sonmesro falas de queixa, de sofrimento, marcam um lugar fronteirigo onde vemos a sociedade regulamentar, afrontar, bem ou mal, o que lhe sobrevém; a fratura que a dor formou é também um laco social, € 08 individuos o gerem de miltiplas maneiras. Quando se tenta refletir sobre esses momentos de soffimento e sobre essas palavras, em que se exprime a dor, é preciso nio acreditar de antemio que € 0 excesso que se visita, logo o extraordinitio, 0 histérico, esse dejeto inevitivel de toda dificuldade social. Os instantes em que se exprime — de tantas maneiras — a dor revelam a formidével tensio que faz com que se confrontem a ordem e sua negagio, a violéncia € 0 sentimento vitimitio, 0 ddio ¢ o desejo. Nos arquivos de poticia, as palavras da dor formam lagos sociais, configuragdes relacionais que devem ser levadas em conta, tanto mais que essas palavras € esses atos, sio “representados” numa cena pablica, aquela da justica do Antigo Regime, mais preocupada com a ordem do que com a igualdade e se arriscando a maior parte do tempo sem precaugo no terreno brusco, acidentado, cotidiano dos contfitos sociais e das paixSes humanas. Esse encravamento entre violéncia, softimento e presenca constrangedora do poder provoca também novas situagdes: a justiga regula 0 softi- mento? Ela o reduz? Em certos momentos essa gestio judiciéria nio é incitadora de violéncia e, portanto, da vinda de outros momentos em que as dores se transformario em acio politica? Pode-se, dessa forma, fazer, a partir desse material, dois tipos de leitura: tomar as falas individuais e compreender a0 mesmo tempo sua “competéncia” e sua fungdo; estudar aqueles que tém autoridade para gerira violéncia ou o despojamento, que reprimem, infligem ou perdoam. As filas se crazam e interagem; nenhuma delas existe sem o horizonte de recepgio que a rejeita, a consola ou a transforma. A queixa e a vontade social, assim como a vontade monarquica, for- ‘mam espagos que so objetos de histéria. O trabalho hist6rico se fiz desde entio a partir da fungio sempre movente, mével, cambiante — segundo os tempos e as situagdes — entre os ditos de softimento. As obrigagdes formais em que se inscrevem e a feroz singularidade de cada ser sofredor, de cada acontecimento softido, formam trés niveis de leitura méveis e significantes que podem informar sobre a ‘maneira como uma sociedade se move com ou contra o sofrimento. 7 — Usama PARA A weTOM Alguns exemplos podem esclarecer a proposigo: a queixa na Justiga no século XVIII traz luz um grande niimero de conffitos de ordem privada ou coletiva. As pessoas lesadas em seus bens, agredidas em seus corpos, em rixas, se apresentam diante do comissitio de policia; da mesma forma, os conflitos de vizinhanga ou de mercado estilo extremamente presentes, assim como aqueles que concerem. as relagdes entre homens e mulheres, entre marido e mulher, is rela- es conffituosas de trabalho, is criangas abandonadas ou maltratadas A cada vez, a queixa se apresenta como uma narragio, um relato oral ademnais, retranscrito pelo escrivao: as noticias se atabalhoam ai na precipita¢io € numa certa emogiio, o softimento se diz de ma- neira pudica ou violenta segundo 0 caso. Ao letmos tantas queixas diante dos comissérios, podemos trabalhar nao somente sobre seu contetido — etapa evidente em qualquer historiador — mas sobre as formas de enunciagio, os cédigos em que a fala se inscreve, os ‘momentos em que escapa deles, a formulacio singular e precisa do relato de infelicidade. Da mesma forma, é possivel refletir sobre as consequéncias que essas palavras provocam: produzem compaixio? Levam suas testemunhas a manifestar solidariedade ou agressivida- de? Podemos sentir se o singular de um traumatismo individual vai ou nio acarretar um leve ou profundo movimento social? Em ue lugar, em que oco, em que faltas essas falas vio se inserir para interagir com situacSes vividas dia apés dia pela populagio? Assim se revelam por vezes lugares de vulnerabilidade social que os acon- tecimentos habituais tratados pelo historiador no podiam deixar entrever. O suicidio, 0 acidente de trabalho, o aprendiz sutrado, a crianga maltratada, a mulher seduzida e abandonada, a rebeliio sio momentos particulares em que se desenham a um $6 tempo o singular e sua articula¢ao com sentimentos coletivos existentes ou Por nascer. Sem diivida é preciso conceder um lugar 3 parte pata a guerra que, nas sociedades do Antigo Regime, é pouco estudada na cotidianidade e no insustentivel de seus softimentos. Pudor do historiador. Pudor também dos documentos, dos escritos de oficiais, dos arquivos militares. A guetra é 0 exemplo do softimento por exceléncia, mas de um softimento avalizado ~ ou mesmo engolido’ * Yoo de palvas entre avai (rai) e eal (ngoldo). (NT. 18 Do sorawento pelo aspecto dito necessiio ¢ inevitvel do confito ~ sspecto jamais reinterrogado. A guerra tem isto de exemplar ou de aon acarreta para a sociedade inteira uma maneira de a tolerar ou ese arranjar com ela que oculta 0 softimento individual sentido. m 1743, apés uma severa derrota, um oficial das Guardas escreve suia namorada aquilo que viu e sent; pede expressamente que sua carta seja queimada apés a leitura justficando-se assim: “Pois aquilo que escrevemos assim 3s pressas e com a dor no coragio nio significam® jamais nada”’ Confissio terrivel: a dor significa, e a maneira como asociedade a capta ou a recusa é extremamente importante A dor politica ‘A dor, sensagio fisica e emocional ~ que no se pode separar da migoa—, é uma forma de relagio com o mundo. Nisso ela cnt na paisagem cultural, politica, afetiva e intelectual de uma socieda~ de, Esse contexto pode receber, rejeitar, agredir ou apaziguar essa dor: a historia social se constréi nesse movimento incessantemente cambiante.’ A dor nio é uma invariante, uma consequéncia ine- vitivel de situages dadas; é um modo de ser no mundo que vata segundo os tempos ¢ as cixcunstancias e que, por esa razio, pode se exprimir ou, a0 contrtio, se recalear, se expulsar ow se eras, negar ou arrastar outrem para ela, Certas situages sociais ou polt- ticas a constrangem fortemente, ¢ as palavras de softimento, muitas veves dificeis de suportar, podem se tornar o lugar de interditos e de tabus bastante firmes, Uma sociedade particular num dado tempo de sua histéria tem de fito um poder enorme sobre a expressio do sofrimento dos seus. A relagio com 0 mundo que os ditos do so- fimento exprimem no inacabamento ou na impoténcia nao & uma relagio estvel: sabe-se, a recepgio feita ao sofrimento de outrem é infintamente complexa. © soffimento pode tanto repugnar quan- to seduzir, gerar modos de assisténcia, sentimentos de compaixio. “s 7) © Mattenho a~ exranha ~ concondinca do orginal. (N: . * Sobre temas aproximades, ver ot tablhos de Alain Corbin, notalamente Le tems, leds Phone (1993), Luoanes rann a visto Assim, @ preciso tentar inscrever essas falas em temporalidades definidas e compreender sua manecira de “se atualizat” no interior dos fendmenos coletivos que sustentam ou rejeitam o sofrimento. ‘A enunciagio e a recepgio da dor por uma sociedade em um dado tempo fabricam um dispositive que faz sentido e cuja inter- pretagio € necessiria para compreender o presente ¢ nio cair nos esteredtipos evocados mais acima, Se consideramos certas formas de softimento e seus modos de expressio como acontecimentos histéricos, podemos refletir sobre sua consequéncia: uma epidemia, por exemplo, pode tanto acarretar arranjos de ordem social e politica quanto deflagrar movimentos religiosos de grande amplitude. A dor politica ~ desprezo pelo rei, indignagio diante da injustiga, revolta diante das recusas de sacra ‘mentos ~ tem suas palavras e formas de se exibir que conduzem a novos acontecimentos. Os sistemas punitivos do Antigo Regime que infligem os suplicios sio um meio de governar; um dia, no entanto, esse sofrimento exibido provocaré a dor naquele que a olha. O levante, o cadafalso tornam-se o meio de exprimir essa dor sobre as origens da qual podemos refletir. Pode-se também trabalhar sobre essa discreta, e muitas vezes muda, dor das migragdes, dos éxodos, dos deslocamentos de pessoas procurando trabalho cm todas as regides, longe de toda sua vida afetiva tradicional, e compreender que através desse softimento se tecem novos comportamentos e outras relacdes de forca. Poderiamos ‘mesmo evocar ~ notadamente para o século XIX — certas formas de expressio privadas e piiblicas da infelicidade feminina em face do mundo masculino ~ nos escritos ¢ nas correspondéncias —, para melhor compreender o que se passa a um s6 tempo na vida familial ¢ industrial desse século, O soffimento nio é um residuo de formas imutiveis; suas falas € seus gestos animam uma sociedade e a irradiam por todos os lados. Esté também na aurora dos desejos fraternais e dos movimentos de solidariedade: quebra tanto quanto solda, mas é, evidentemente, a recepgio que se lhe organiza que o toma s6rdido ou motivador. ‘Uma vez dado seu lugar as palavras e as situagdes de softimento singular, 0 proprio historiador deve encontrar palavras para dizé-las, 20 Do sornnento descrevé-las, introduzi-las de maneira pertinente em seu relato, a fim de implicar seus leitores nessas figuras significantes da alteridade que sio 20 mesmo tempo nossas ¢ longinguas. A escritura da hist6ria também é um trabalho, sobretudo se deseja articular com o maximo de sentido possivel o acontecimento do singular ¢ 0 do coletivo. A coisa nio é simples, pois hi muitas armadilhas a evitar. £ de fato, ficil cair no miserabilismo, na aventura historica “A la Zola”, aquela que deixa lugar demais para o maniquefsmo e que, por isso, quase no permite interpretagio significante, O historiador deve trazer reflexio antes de tudo, Pode-se ainda entrar insensivelmente nas formas sutis e finalmente muito elaboradas de um certo voyeurismo. A “estética da crueldade” é um lento veneno — infelizmente fascinante para alguns ~ que se toma rapidamente denegacio de soffimento ou derrapa para as regides sombrias dos revisionismos mais indignos. Outra coisa ainda: quando se trabalha sobre os grupos sociais ais desfavorecidos ¢ desapossados, 0 softimento dos pobres é um tema forte. A narragio desse sofrimento exige certo néimero de precaugdes: podemos rapidamente nos deixar arrastar para a des crigo fascinada de uma espécie de “exotismo” da pobreza, desviar insensivelmente para um olhar que inferioriza aqueles mesmos que estudamos. Desde entio a escritura deve manter essa tensio extrema que fiz da fala softida do mais pobre uma alteridade a um s6 tempo igual e separada; fruto de uma condigio singular e partilhada, que busca a todo custo seu arranjamento no interior da comunidade dos seres falantes. Visivel, afastada, a fala sofrida, restituida pelo historiador sua hist6ria e a outrem, é um éxodo de que a escritura historiadora deve tracar a viagem, A terra do softimento dos pobres no é uma terra exética ou selvagem a visitar; @ matriz de uma comunidade social, por vezes mesmo sua terra de origem. Por certo, aanedota é o que aflora com maior frequéncia quan- do se trabalha sobre essa multiplicidade de casos encontrados em arquivos, todos comoventes, todos espantosos. Ora, a histéria no é um aciimulo de anedotas, ea fala encontrada em arquivo, quando citada — 0 que é normal e sio -, deve ser a base a partir da qual 0 relato histérico avanga e se transforma ele proprio. O sofrimento no é anedético: o acontecimento singular é momento de histéria, 2 ‘WOAnes PARA a HisTORA, Para a historia do tempo presente, o problema se coloca de outra maneira, pois nio se trata de anedotas, mas de testemunhos, ¢ iss0 & bem diferente. Na realidade, esses dois tipos de relatos — aquele da disciplina histérica, aquele da testemunha ainda viva — no deveriam se opor, mas conseguir se interpenetrar e estimular reciprocamente. O testemunho precisa da disciplina para entrar rnum processo rigoroso de veridicidade de coeréncia, essencial Para a meméria de nossas sociedades presentes e por vir. A disci- plina histérica precisa do testemunho, sabendo que este é também reconstrugio da memGria e no — nao mais do que © arquivo do século ~ simples reflexo do real. Uma histéria que fosse feita apenas com testemunhos nio ctiticados e retrabalhados seria uma hist6tia que perderia sua coe~ réncia e sua veridicidade. Uma historia que nio levasse em conta 4 testemunha e a imrupgio da singularidade de sua situacio seria uma histéria que recusaria 0 excesso, o desvio, 0 deslocamento, as paixdes sangrentas, grandiosas ou infames, Uma questio pode se colocar a partir da escritura do historia dor que tenta dar conta da dor: pode-se, com efeito, pensar a justo titulo que, nesse dominio tio interior e tio intimo da infelicidade, somente a literatura é capaz de dar, com suas palavras e sua lingua gem, um verdadeiro estatuto 20 sofrimento, Penso apenas que a emogio, a dor, a infelicidade sio sentimentos que a histéria deve também interpretar, ¢ o relato literdrio, por mais sublime que seja, no pode remediar uma auséncia da histéria nesse dominio. A his t6tia pode se encarregar — de outro modo, num outro estatuto, com outras formas de demonstragio — de singularidades, extravagincias, emoges, infimias, gritos, vociferagdes ¢ dotes para pontuar set relato de suas irrup¢6es tragicas que, por vezes, desviam seu curso. O historiador é também o vigia dos intersticios por onde entra em cena a infelicidade dita ou sufocada. A objetividade da historia reside na possibilidade que seu sistema de inteligibilidade tem de introduzir aquilo que vem perturbar sua linearidade, suas aproxima- ges médias, em suma, alguma coisa de sua serenidade. Um relato historico que traz sentido e verdade para hoje é um relato capaz de assumir a irrupcio das dores evocadas. Neste caso, a emogio no 22 Do somvenro uma deficiéncia para a pesquisa se aceitamos nos servir dela como uma ferramenta de reconhecimento e conhecimento. A emogio ndo um revestimento pretensioso que toma insipido o objeto que recobre, é um estupor da inteligéncia que também se trabalha ese ordena. Enfim, pensemos nos efeitos de letura que 0 relato historico provoca. Em 1997, 0 sofrimento extremo esti proximo de nés, esté em nossas fronteiras e mesmo em nosso pais; em suma, € ur- géncia, Assim, quando tratado pelo historiador em relagio a outras épocas, parece importante que ele seja trabalhado no contexto dos mecanismos de racionalidade que 0 tornaram possivel, a fim de determinar com a maior frequéncia possivel os meios que o teriam tomado evitével. Trabalhar sobre sofrimento e crueldade em histéria 6 também querer erradicé-los hoje. Explicando os dispositivos e os mecanismos de racionalidade que os fizeram nascer, 0 historiador pode fornecer os meios intelectuais de suprimi-los ou de eviti-los. ‘A dor nao é um dado, é, 0 mais das vezes, dada, tem imediagSes ese insere em fenémenos de genealogia que podem se explicar e, portanto, ser eventualmente combatidos. Trabalhando sobre as con- dig&es de emergéncia do sofrimento em momentos precisos, pode-se tentar mostrar sua variedade e mostrar também que o sofrimento no é uma invariante regida pela fatalidade, Ha racionalidades do abominivel. Sio racionalidades sempre cambiantes, que é preciso isolar, estudar e fazer surgir de tal forma que possam ser julgadas, ctiticadas, desencravadas da fatalidade. Uma sociedade que se de- bruga sobre os mecanismos de racionalidade que organizam seus modos de produgio de violéncia ¢ de softimento é uma sociedade que fiz “existirem” aqueles que a dor aniquila e que pode, se o de- sejar, encontrar outras formas de racionalidade para pensar de outro modo “a noite da violéncia que faz 0 homem se erguer contra 0 homem” (BovEr, “La vie fraternelle”, Furor, n. 27). 23, Da violéncia A violencia e a barbérie desconcertam, enquanto os discursos sobre elas, sejam histéricos, sociolégicos ou mesmo filoséficos, deixam-nos insatisfeitos. A interpretacio historica da violéncia, dos massacres pasados, dos conflitos e das crueldades, praticamente nio ~ permite, na hora atual, “‘captar” em sua desorientadora atualidade o que se passa sob nossos olhos. A insatisfagio esti presente em fice de uma auséncia de pensamento ou, a0 contririo, da existéncia de interpretagdes s6lidas mas, hoje, pouco adequadas. Parece que seria preciso dispor de meios mais elaborados para dizer a violencia e, sobretudo, submeté-la a niles plurais que permitam —eventualmente — controli-la, erradicé-la hoje, em todo caso resisti-Ihe ou obrigi-la a nio existir mais sob as formas coletivas e desenfteadas que so atualmente as suas. Reffetir sobre a histéria da violéncia e sobre a historia das in- terpretagdes que a integraram 20 cora¢o dos dinamismos sociais, a fim de se submeter a novas interrogagdes em face de um presente inapreensivel e cruel, pode parecer ambicioso e ut6pico. Entretanto, é@ justo tentar a aventura da reflexio para nfo se deixar desbordar por aquela do sentimento de fatalidade ou de impoténcia. O pensamen- to de Michel Foucault nao é recente, mas a publicagio dos Ditos € escritos permite tentar uma experiéncia: esses textos ditos ou escritos, gue respondem em diversos pafses a miiltiplas questoes politicas, eventurais! ou filoséficas, podem servir de ponto de apoio para * Unico oadjeivo necgico “eventual” bastante empregado mas tadogde de cera oxo ance do acontecimento (emer de que Akin Badion & elves 0 principal exponents. “Eventual” 25 Woates ana a ston, uma reflexio em vias de reelaboracio sobre a violéncia, a morte, guerra ¢ a crueldade? Mesmo que se tratasse apenas de esbogos de pensamentos ou de respostas, estarfamos diante de deslocamentos de problemiticas certamente ricos em ensinamentos. O trabalho iniciado aqui é, por um lado, um retorno a ei- x0s ¢ problemiticas tomados pela histéria, no para criticé-los e torné-los obsoletos (participamos, numa certa época, da efetuagio de alguns deles), mas para interrogar sua pertinéncia e construir, agora, grades mais ajustadas e mais finas. Com efeito, nosso sistema de inteligéncia e de percepgio esta atualmente brutalizado — no dominio da violéncia ~ pelos grandes acontecimentos que atin- gem a Europa e a Africa (depuragio étnica, violagio sistemitica, genocidio de populagdes). Varias tentagdes de ordem intelectual sobrevém ao espfrito: seria de novo o impensivel, 0 fora-de- qualquer-lugar, 0 fora-do-humano da historia? Estariamos ainda uma vez numa franja cega e incompreensivel da humanidade que obrigaria a deixar de lado todo pensamento sobre 0 acontecimento e suas formas de violéncia? Seria a prova exorbitante de que toda marcha rumo-a “civilizagio” e A suavidade dos costumes é um engodo € que 0 caos original é a atualidade mais candente de nosso tempo? Seria 0 retorno (ciclico, inevitvel) a um arcaismo barbaro que retoma seus direitos e seus jogos? Hié ainda diversas maneiras intelectuais de sermos questionados pela amplidio da barbirie, que acreditévamos extinta para sempre apés 0 genocidio da Segunda Guerra Mundial. Com efeito, podemos ainda nos erguntar se uma certa impoténcia espreita a inteligéncia em face de acontecimentos, ela que nio péde mais do que ser derrotada pelas consequéncias de certos sistemas ideolégicos. A inteligéncia estaria hoje tio “borrada” pelo desbragamento da violéncia que desconfiaria de si mesma e desistiria, nio de compreendé-la, mas de interrogar seus princfpios e mecanismos ~ deixando-a invadir todos os campos do possivel sob pretexto de que os marcos ideo- l6gicos estio mortos. 60 elativo a0 acontecimento num sentido force dete termo, Mais adante aparece no texto © subsantivo “evenurldade” (ofwementi,o carter de acontecincnt, (N. 26 Da voc Sobre a legitimidade de buscar outros tipos de interpretacdio histérica além daqueles jé utilizados A interpretagiio, seja filoséfica ou hist6rica, no € uma coisa regulamentada de uma vez por todas. £ mesmo uma tarefa infinita, gue coloca em primeiro lugar o cariter ilimitado e infinitamente problematico da coisa a analisar e daquele que a analisa. O espago da interpretagio é um espago constantemente aberto e sempre por retomar, Michel Foucault podia sugerir a esse respeito que um dia se estabelega a soma de todas as técnicas de interpretagao do social edo homem que foram utilizadas desde 0 mundo grego: com a ajuda dessa soma poderiamos ler a histéria dos homens ¢ aquela dos saberes tentados. Essa sugestio lhe permitia outra afirmagio de acordo com a qual o importante na sociedade consiste certamente ‘mais na interpretagio do que na coisa. Com efeito, somente a in- ~ terpretagio é capaz de dar sentido, de produzir consentimento ou rebelides, de “dar um eixo” ao curso das coisas. Fé além do mais 0 sentimento que nasce em relagio 2 interpretagio, a opiniio estabe- lecida em torno e a partir dela que produziré outras interpretagdes, Jogo outros acontecimentos. “Com efeito, a interpretagio nio esclarece uma matéria a in- terpretar, que se ofereceria a ela passivamente; ela nao pode senio se apoderar, e violentamente, de uma interpretagio ja l4, que ela deve inverter, revirar, despedagar a golpes de martelo'™” (FoucAutT, 1994h, p. 571). Assim, tem-se “um tempo da interpretagio que é circular, Esse tempo é obrigado a repassar lé onde jé passou” (p. 571). A luz dessas reflexdes, como nio ver que em histéria elas se realizam constantemente? O exemplo da interpretagio incessante da Revolugio Francesa é significativo a esse respeito. Constatou-se, aliés, no momento do bicentendrio de 1789, que as interpretagdes reciprocas de julho de 1789 e do Termidor eram muito mais im- portantes do que os proprios “fitos”, quase apagados pelos dscursos sobre eles. Da mesma forma, péde-se ver que essas interpretacSes * Ess piginas foram inicilmente o objeto de uma confertnca puliada nos cadeenos Villa Gilet, 1.3, nov. 1995. 7 anes pana a msrom, Conjunturais nio fecharam o debate, que obrigaram mesmo a outras, reinterpretagdes, produzindo ao mesmo tempo acontecimentos de ordem politica e, em consequéncia, novos objetos de pesquisa. Em todo caso, nesse dominio da histéria da Revolugio, nio se pode negar que cada interpretagio cria novas formas de aquiescéncia ou de recusa na opiniio piblica; posturas novas, vindas do mundo erudito ou do homem da rua, so criadas a partir dela. A partir desse primeiro postulado ~ a interpretacio é primei- ta em relagio a coisa ~ pode-se avangar uma segunda afirmacio. Através de cada movimento da historia, através de cada periodo, produz-se um sujeito novo. A histéria, o acontecimento o consti_ tuem; findado e refundado por eles, esse sujeito & © produto da historia e de sua interpretagio. Assim, pode-se compreender que seja, evidentemente, em vista dessas emergéncias hist6ricas de um sujeito novo que se reorganizam interpretacdes ¢ reinterpretacées Se aceitamos, com Michel Foucault, que ha a um s6 tempo reinterpretagio ao infinito e refiindago no interior da historia de tum sujeito novo, podemos finalmente buscar compreender como se institui, a cada momento hist6rico, a relagio de uma sociedade com a violencia, como se fabrica um homem violento ou décil, como 0 discurso sobre a violéncia fabrica sujeitos resistentes ou consencientes € como sua reinterpreta¢io pode trazer novos acontecimentos que a obrigam a adotar um outro rosto. De algumas interpretacdes em historia da violéncia Segundo Norbert Elias e 0 conjunto de sua obra, a histéria do Ocidente entre a [dade Média e 0 século XX € caracterizada por ‘uma progressiva transformagio da economia emocional. Um processo de civilizagio (Eu1as, 1975; 1985) se instaura, © a violéncia no esta mais exposta a violéncia contréria e frontal Pouco a pouco vé-se proibida, reprimida, recalcada; 0 espaco so- cial progressivamente se pacifica enquanto os Estados absolutistas detém sozinhos a forca ¢ uma verdadeira autorrestri¢ao se exerce no interior dos individuos, que se tornam, entre 0 século XVI e 0 século XVILL, mais policiados, mais ritualizados e, portanto, menos 28 Da wouNci, violentos. Numerosas priticas sociais canalizam as emogdes € 0s \fetos enquanto “o” politico assume a violéncia. Assim ocorre, por exemplo, na sociedade de corte, ou, mais recentemente, ¢ di- ferentemente, no esporte, que se revela uma pritica regrada que se apodera das emogdes, das rivalidades e dos afetos. Uma regulacio «das tensbes politicas passa por formas da autoridade do poder ¢ das priticas sociais em que o individuo interioriza regras e comporta~ mentos. O espago piiblico ¢ o espaco privado adquirem pouco a pouco (tratados de civilidade, aprendizagem da leitura, adestramento dos corpos, sociedades de sociabilidade, regulamentos escolares, regulamentos esportivos, associagSes) 0 costume da nio violéncia, (ou ao menos de uma violéncia controlada, em que 0 processo de civilizagio permite a numerosas Areas do social conhecer uma re- lativa serenidade. No interior dessas reas, 0s mecanismos de transferéncia da __ violéncia sio a um s6 tempo complexos e sutis, dificeis de estudar. E claro que é impossivel, nestas piginas, entrar nos detalhes do pensamento eliasiano, que levou muito tempo para ter influéncia na Franca. Essa mescla eliasiana (sociolégica) penetrou amplamente a cigncia histérica; revela-se convincente e satisfatoria para certa historia sociocultural, para a histéria da vida privada, dos modelos culturais ¢ dos sistemas de representagio, mas dificilmente pode dar conta das grandes rupturas violentas que afetam 0 corpo social. Guerras, genocidios, massacres, atos de barbie, levantes, violéncias fendem com suas hidncias! esse processo de controle da violéncia; as explicagdes, a partir de entio, permanecem suspensas ou pouco convincentes. O forte sistema de causalidade (e talvez de lineari~ dade?) que sustenta esse modelo de Norbert Elias nao d& conta das descontinuidades e das rupturas; inconscientemente, parece obrigar aqueles que o seguem a pensar a partir de entio os grandes avatares da violéncia nio controlada como fendmenos nio explicitados de retomos de arcaismo, 0 que, no final das contas, no explica nada. © ncologismo “hiincia" costuma ser empregado pas uadusir 0 conceit lacaniano de “béona ‘um hiato, um burac, un aberturs, uma ausncia que aero proceso de consti do sentido (e donut). (N-T). 29 — TUOAES Pea 4 weTOmA Nos anos 1970, os estudos sobre a violéncia sio prolificos; integram-se perfeitamente a conjuntura da época combative o transgressiva que vé na rebelio, no conflito e na resisténcia meios de constituir lago social ¢ de lutar contra toda tentativa de pod. abusivo. Em 1970, a violéncia é ~ ‘entre outros — um meio ate um Expo social extabelcer tuma espécie de comunidade resistente Além do mais, no plano intelectual, a disciplina histérica encon~ {ta novas ferramentas, tomando-as emprestadas da etnologia e da an tropologia, muito vivas nessa época. Grandes trabalhos filosoficos ¢ sociolégicos abrem o caminho; pensemos somente no livro de René Girard, A violencia e o sagrado 1972), cujo impacto é, nesse momento preciso, excepcional. Nesse quadro se aprofiandam particularmente a nogio de contexto no qual vivem e morrem as comunidades sociais assim como a anilise dos rituais que acompanham o conjunto das formas de vida. Os rituais sio pensados como formas de integracio social, meios para os membros da comunidade fazerem pure dla € encontrarem certo conforto em seu seio. Da mesma forma se afirma a presenga de um “todo simbélico” que hatmonizaria os |a¢os tecidos pela comunidade, de qualquer natureza que sejam, A violencia, nesse contexto, encontra muito naturalmente Toga como ‘uma “ordem das coisas” que provoca rombos ~ certamente — mas Cujos gestos nio destroem o conjunto do corpo social, bem pelo contrétio, O esquema frequentemente adotado por socidloges e historiadores 6 o seguinte: quando uma sociedade se sente ameacads em sua realizacio e a simbélica coletiva correo risco de ser armuinada elas decisdes que sio tomadas a seu respeito, os gestos da violencia decidida tém de fato por meta refundit o corpo social, destruindo & ameaga, distanciando-a ¢ solidificando o lago social que parecia Se desagregar. Trata-se ai de uma visio relativamente positiva da violéncia considerada como uma forma de integracio. Citemos aqui como exemplo as primeiraslinhas da contracapa do livro de Mickel Maffesoli e de Alain Pessin, La Violence fondatrce (1978). Este livro vira pelo avesso as versdes oficiais que designam a violéncia como pura negatividade, residuo de uma era barbara ‘que seria preciso reabsorver, ¢ as substitu por uma anilise em . 30 que a violéncia passa a ser compreendida em seu duplo desfgnio de destruigio e de fiandacio da ordem social. A interpretagio é clara: anima muitos trabalhos de historiadores sobre a festa e a violéncia, a desordem ea rebeligo. Citemos de novo Maffesoli e Pessin: “A violéncia, a crueldade, a desordem, a festa, a perda nio sio mais do que aspéctos da vida cotidiana levados a seu extremo, ¢ este termo 6 a condi¢ao de um ressurgimento desta ‘mesma vida cotidiana”. Assim, haveria um drama orginico da vida ¢ da morte em que violéncia ¢ festa teriam seu “doce” lugar. No horizonte dessas interpretagSes, que em filigrana sustentam numero- sas pesquisas, existe uma verdadeira preocupa¢io com a construgio dos modos de regulacZo social, regulago que seria a um s6 tempo © ponto de partida dos modos de organizacio societiria e sua cul- minincia, Entre esses dois tempos, as violéncias sio rupturas que, de fato, consolidam possiveis regulacdes. A violéncia e a desordem tém sua fungio — essa hipétese permanece, sem diivida alguma, fecunda hoje; mais que isso, sio de certa forma sacralizadas; 0 pesquisador, nessa forma de interpre- taco bastante monolitica, corre o risco de trabalhar apenas sobre 05 elementos que Ihe permitem ligar incessantemente a violéncia e a ordem, numa perspectiva simbélica. Passa entio a deixar de lado todas as indicagdes que se afastam desse caminho linear: existéncia de uma comunidade social > ameaga a ela > violéncia > corpo social ressoldado, Hé ai um tipo de funcionalismo que, trabalhado de maneira sistemitica, revela-se exacerbado, tanto mais que o his- toriador, em todo caso, se beneficia de uma sorte extrema: conhece o fim da hist6ria, Fazendo isso, pode reinterpretar a ordem das coisas arranjando-a a seu resultado, exercendo nesse caso uma espécie de profetismo is avessas que nio faz sentido. Ademais, a démarche, se esti demasiado estreitamente ligada ao funcionalismo, tem algo de perigosamente aplanadora, Nio escrevia Foucault (1994i, p. 150- 151), questionando o historiador: “Sua aparente serenidade o faz reduzir tudo ao mais fiaco denominador. Ele deve saber surpreender os segredos que diminuem [...] ter por patria a bastardia e a vilania"? Com efeito, nesse quadro, desvios, extravasamentos, desloca- mentos nao sio levados em conta: 0 que se deve dizer (ou como 31 — oanes rata a nition analisar), por exemplo, dos momentos em que a propria violéncia parece lacerar o simbélico e fazer de tal modo que a ordem que se~ ‘guid seja forgosamente estracalhada por essa experiéncia traumitica? Como interpretar a violéncia quando esta se aparenta 3 barbirie ¢ nenhuma justificagio a posteriori permite recolocé-la num sistema coerente? Permanece impensivel ¢ nefasto deixé-la justamente no dominio do impensivel, do caos e da barbarie, que sio meios de derrapar no incontrolavel ¢ numa chocante maneira de avalizar crueldade e barbaric, £ preciso ainda dizer que essa interpretagio bastante funcio~ nalista dos anos 1970 trouxe numerosos trabalhos muito fecundos € que, além do mais, ela podia se justificar tranquilamente numa conjuntura em que a violéncia que se passava sob nossos olhos ndo representava um custo social muito alto e em que nos pensivamos definitivamente liberados das aberragdes e monstruosidades da Se- gunda Guerra Mundial Nos anos 1980, as perspectivas da historia mudam um pouco. Os atores sociais dominam a cena; quer-se, a justo titulo, tomar distancia das explicagdes psicologizantes que fizeram das multiddes. instrumentos cegos da violéncia, massas animais ou fémeas condu- idas pela selvageria ou pelo instinto, As pesquisas sobre as emo¢Ses Populares, as violéncias coletivas e as guerras civis tentam reencontrar 08 atores sociais e seguir seus gestos, suas falas, seus percursos e suas ages. Os levantes sio entio divisiveis em cenas que o historiador tenta reconstituir: no interior de cada cena procura-se o conjunto das ogicas priticas que determinaram e depois organizaram a violencia € stias manifestacdes. As priticas que regem 0 jogo dos atores si0 analisadas em ldgicas; o levante é feito de comportamentos légicos € diferenciados que sio adaptados aos lugares e as circunstincias, que, Por vezes, improvisam um sentido que permitiri estabelecer novos gestos e outras ages, Assim, pOde-se trabalhar, na esteira dos trabalhos de Edward Palmer Thompson (e de sua economia moral da multido [THoMPsoN, 1971, p. 76-136), sobre certas formas de legitimidade so- ial e politica das revoltas, levantes ou revolugdes (FaRGe; REVEL, 1986). Ao mesmo tempo que apareciam légicas particulares ¢ comportamentos especificos, os atores sociais (¢ nio somente os 32 Daviounon sapostos chefes) saiam da sombra e eram estudados em suas inten~ (goes e priticas. A leitura dos Ditos e escritos Nos quatro volumes dos Ditos e escritos, nio hi nenhuma interpretagio sistemética da violéncia, nenhum modelo global proposto, ¢ isso bom. Em compensagio, ao fio das paginas e das questdes colocadas a Michel Foucault, a violéncia se encontra frequentemente nomeada e por vezes refletida, £ a partir desse material disperso que nos perguntamos se no jaziam ali alguns elementos prdprios para reinterrogara violencia, para pensar aquela do passado assim como aquela que nos invade hoje. Sem esquecer que nio é de modo algum uma questio de langar 4s masmorras 0 conjunto das interpretagdes passadas, mas que se trata de descobrir se certas ferramentas que Michel Foucault nos dé podem reorientar certa forma de reflexio. Em sua Queixa da paz, de 1517, Erasmo (1992, p. 914) escreve que “a natureza ensinow a paz ¢ a concérdia” e que, em face desse estado natural, no se pode crer que “os homens que brigam e se combatem sio dotados da razio humana”. Michel Foucault (1994i, p. 145) sustenta, por sua vez, logo de entrada, uma afirmacio filoséfica totalmente oposta: “O mundo é sem ordem, sem encadeamento, sem forma, sem beleza, sem sa- bedoria, sem harmonia”. “O mundo ignora toda lei” (FoucAULT, 1994c, p. 546). Vivemos sem pontos de referéncia ou coordenadas origindrias, em miriades de acontecimentos perdidos: assim, na ori- gem, nio haveria a ordem, nem a razio, nem mesmo a liberdade. Esses postulados, longe de trazerem um nevoeito definitive sobre 0 caminho do historiador, permitem construir um olhar novo sobre © que Foucault chama a discérdia. Colocando o contfito no cora~ Gio da existéncia social, considerando os comecos como lugares da disc6rdia e do disparate, definindo o comego em sua baixeza e em seu derrisério, o homem é entio o sujeito que inventa e constréi a partir desse disparate e dessa desordem: “que homens dominem outros homens, ¢ é assim que nasce a diferenciagio dos valores; 33 — Waanes pata a HisrOna, que classes dominem outras classes, e é assim que nasce a ideia de liberdade” (Foucaurr, 1994i, p. 145). A ilusio do progresso ¢ de um processo de apaziguamento é aniquilada, mas a capacidade do sujeito permanece intacta, numa série de descontinuidades ¢ rupturas que fazem sua histéria: “a his ‘ria serd efetiva na medida em que introduzir 0 descontinuo em nosso préprio ser” (1994i, p. 145). Pois, em suma, “a humanidade no progride lentamente de combate em combate até uma reci- procidade universal em que a guerra seri substituida para sempre elas rejeiges; ela instala cada uma dessas violéncias num sistema de Tegras, € vai assim de dominagio em dominagio” (1994i, p. 145). A violéncia esté, portanto, presente assim como o afrontamento, ¢ é deles que nascerio valores, liberdades, a capacidade de substituir as regras precedentes por outras regras. Cabe aos sujeitos, a partir de entio, demarcar os sistemas de violéncia que os consttangem, para poder se subtrair a eles, desfazer-se deles ou estabelecer outros modos de regulacio. Assim, servindo-se de alguns dados estabelecidos por Michel Foucault e os utilizando para construir outra historia da violencia, um outro olhar sobre aquela que € a nossa, pode-se jé sublinhar que a violéncia € um fendmeno que se cola 20 corpo de toda intengio, toda humanidade, todo pressuposto, Ela é de certo modo primeira © inverte os esquemas mais furcionalistas. O historiador busca, isola, demarca sua emergéncia em momentos ou acontecimentos-chave que, em seguida, vio institui-la de novo em novas “tegras”, em hovas estruturas (pode-se entio esperar que mais plécidas...). Em consequéncia, a luta permite eventualmente inflectir momentanea- mente a violéncia, ao criar condigdes para que outras configura es do social sejam organizadas e depois, sem diivida, novamente desfeitas. Estamos, & claro, bem longe da crenga em um processo calmo que se dirige progressivamente para o bem e para a felicidade: encontramo-nos em lugares factuais onde existem possibilidades de lutar contra a violéncia, pois, como escreve Foucault (1994i, p. 147), “a regra permite que violéncia seja feita 3 violéncia”. Os atores sociais esto num esquema que Ihes permite inventar outros modelos, fazer emergir outros mecanismos. “A hist6ri 34 Da vote sscreve ainda Foucault, “com suas intensidades, seus furores secretos, suas grandes agitagdes febris assim como suas sincopes, & 0 corpo mesmo do devir” (1994i, p. 147) A partir dessas constatagées, 0 historiador adota uma postura sspecifica: pela introdugdo do conhecimento indica os meios para 1 Iuta, para 0 combate, Se traz& luz, pelo conhecimento, as regras que constituem os fendmenos de dominacio e de violéncia, forne- ce 08 meios de refletir sobre essas regras, e os homens do presente podem analisar melhor aquilo pelo que passam ou as violéncias que (0s regem, Assim, o devir da humanidade pode ser olhado como uma série de emergéncias em que se reinterpretam as regras da vio- lencia, 0 que necessariamente as transforma. A partir desse sistema de conhecimento, os fendmenos de racionalidade da violéncia 0 no apenas tornados visiveis mas outras formas de racionalidade sio autorizadas a colocé-los em jogo. Alias, nesse dominio particular de “racionalidade” e “violén- cia”, Michel Foucault é preciso. Numa entrevista com M. Dillon, em 1980 (Foucautr, 1994b, p. 38 et seg.), publicada no mesmo ano na Three Penny Review, declara que “entre violéncia e racionalidade no ha incompatibilidade” e que “o mais perigoso da violéncia é justamente sua racionalidade”. Respondendo de certa forma tam- bém & queixa erasmiana, acrescenta: “Meu problema nio é fazer 0 processo da razdo, mas determinar a natureza desa racionalidade que é tio compativel com a violéncia. Nao combato a razio”. O esquema claro: a coisa nio & mais combater a razo-desrazo dos homens no momento em que se exerce a violencia, mas analisar a natureza da racionalidade que produz essa violéncia a fim de trans- formar eventualmente seu curso. O “no combato a razio” permite que nos voltemos para as configuragées ¢ 0s dispositives que autorizaram a violéncia. Eles sio diferentes a cada momento histérico e, se a violéncia é uma invariante, eles de modo algum o so. Possuem diversas formas, diversos rostos, nascem a partir de mecanismos especificos a cada vez. Assim, a violéncia — ou a0 menos as formas de racionalidade que a regem — pode ser questionada de maneira singular e Ginica a cada momento da histéria, no momento de cada acontecimento 35 —— ‘WGAnes pana A Wisretin Violento, Bla ndo é mais (ow é pouco) considerada a posteriori como lima forma que dé nascimento a tl ou tal fenémeno de consolidacao do social ela estéisolada a montante através do conjunto de sews ‘mecanismos, portanto se torna um objeto que pode ser transformado Por outras formas de racionalidade, Mas entio “como sio racionalizadas as relagdes do. poder” (Foucauyr, 1994g, p. 160) entre os homens numa sociedade faque- le, por exemplo, de uma classe sobre outra, de uma nacio sebre Outta, de uma burocracia sobre uma populacio, dos homens sobre as mulheres, dos adultos sobre as criangas)? Colocar essa questi "é a tinica maneira de evitar que outrasinstituigSes, com os mesmnos objetivos e os mesmos efeitos, tomem seu lugar” (1994g, p 160), Colocar essa questio é também, em nossa opinizo, proporcionar-se imelo, enquanto historiador e cidadio, de desatar, jf na interpretacio, tuna violencia que se instaura num lugar preciso e compreender que a relacéo de poder tem também por racionalidade instituir tanto liberdade quanto coersio. O historiador, conhecendo ¢ revelanda as Proprias raizes da racionalidade politica, pode eventualmenta fomecer os meios de canalizar para mais tarde esta ou aquela forma de Violéncia “Se hi relapdes de poder através de todo campo social, € porque ha liberdade por toda parte. Mas hi efetivamente eclosdes de dominagao [...)” (Foucaunr, 19946 p.- 720-730), Onde encontrar essa formas de racionalidade? Elas se expti- tem em numerosos lugares, se situam tanto nos discursos quanto na ‘multiplicidade das fas singulares, tanto nas praticas sociais quanto Por baixo do discurso. Sua nomeacio, sua explicacio fabricam outro, olhar sobre a violéncia; a historia se faz no reconhecimento de que ©s acontecimentos sio singularidades irredutiveis e de que a huma. nidade se enraiza em pensamento na identificagao dessa situacoea singulares. Um exemplo tomado a Vigiar ¢ punir, de 1975 esclavece * Proposicio. Comentando 0 ritual do suplicio (¢ notadamente aguele da roda) e partindo dessa definicio dada por Jaucourt na Enciclopédia: “E um fendmeno inexplicével a extensio da imagina- sao dos homens em termos de barbarie e de crucldade”, Michel Foucault (1975, p. 37) escreve: “Inexplicavel talver, mas certamenee ‘lo irregular nem selvagem” nio é “uma raiva sem lei, mas uma 36 Da woutuon le que toma empresada arava como modo de furcionamento" Assim definido, osuplicio no se toma evitével? O encarnigament dos atoressociais em lutar, em estabelecer novas falas e prticas, no 1 deve tanto a sua visio de um mundo que precisa se Stic som Vem supremo, mas a uma configuragio precisa © prec lente de onde surge um projeto novo capaz de barrar de uma nova o desastre que sobrevém, an A guerma: sobre esse assunto Michel Foucaultse exprimiy one gamente em “Droit de mort et pouvoir sur la vie", quinto capitulo dde A vontade de saber (1976), e depois nos seus cursos. Reler ese capitulo 4 luz do que foi dito antes esclarece singularmente cero contfltos de hoje. Num primeiro momento, Michel Foucaul ree interroga sobre a maneira como, no século XIX, as guerras pu te ram se fom Ho sangrents¢ = pegunta 20 mesmo tempo ai & o caminho paradoxal adotado pelas sociedades para que se ten he “feito de tal sorte que “os massacres se tornaram vitas ovens 1976, p. 180) num periodo em que se atribui o tosis valor 3 vee (as precaugées com sua saiide, sua longevidade). Vé-se, uma questio que se encontra em defasagem em relaglo a0 conju teses sobre 0 acesso da humanidade pacificag: ; ‘A tudo isso, Michel Foucault responder de maneira a um 6 tempo violent, disc, logic inesperada, retomando tudo 20 aveso, fazendo ficar de pé situages que a opiniio acredita contraditérias Desde o fim da Idade Clissica (periodo-chave para Foucal) ‘uma ruptura se forma; a uma sociedade sob a ordem do sol ez, que expie seus siditos & morte quando ele proprio ext ames e que exerce seu poder como uma instincia de cont fico da vide do corpo, do sangue de seus stiditos, sucede uma soviedade eu técnica de poder nio é mais o confisco. Com efeito, a mor «endo arefecido um pouco (as sociedades conhecem menos epi is devastadoras e fomes mortais), aparece uma oeio now aguel de populagio. Um novo espago nasce onde sio teva ls em ona 0 processo da vida, as probabilidades de vida e de satide de us popalacio, as forgas que a compdem e que devem ser pro side. Desde entio, o poder nao esti mais em face de sujeitos sol : quais 0 dominio tiltimo a morte, mas em face de seres vivos sobre 37 en AA A PA oS ahals o domfnio exercido & a vida. Passanse, diz Foucault, a gerir 8 Vida, a espécie. E as guerras vio se realizar nesse nove contexto, nao mais em nome apenas do soberano, como sem divide ce dava pode aan home da necessidade que tém de viver. “O principio, Poder matar para poder viver, que sustentava a titiea dos combates, pan dnestzo nio € mais a da soberania, & aquela, biolégica, de uns Populagio [..]. © poder se exerce no nivel da vida, ds espécie, da raga” (Foucautr, 1976, p. 180). Fstamos numa problemética em que a natureza da racionalidade do poder explica a violéncia e a destruigio tormando ag compati- veis, 0 que explica que uma sociedade pode fazer corn que a pena 0 poder ndo é um sentimento humanitirio, uma suavizagio dos da nap tina l6gica de seu exercicio, Se € preciso multiplicar vida ea reforear, a pena de mozte se toma obsoleta, mas ¢ reflexio sobre a espécie © a populagdo vai condicionar a entrade em guerra dine oe incitar a guertas civis entre populagdes. Assim, pode.ce dizer que 0 nazismo é antes de tudo uma polities em que a racio- nalidade do abominavel é uma lei, © Proprio tema que organiza esses processos. Ao final dessa reflexdo, parece conveniente que, refletindo sobre o que é sugerido sobre a violencia e a crueldvde me Ditos mais pas tomar posicio em relacko a esses temas, quando ‘odo pressuposto linear de continuidade e de progresso, de origem, ¢ de destinasdo, os tipos de racionalidade que se tornara compati- Weis coma violencia. Em vez de ser considerada como uma com Sequéncia social, a violéncia pode ser mostrada come o objeto — 0 ‘sma ~ principal de uma politica, Além disso, a “racionalidade da 38 Da vounaa bomindvel” deixa de ser corroborada por ineerpresacdes simbo- leas em que o sagrado se instaura a partir do fim da vol A racionalidade no quer dizer progresso nem bem, ¢ inte ropa cada instante permite compreender suas configure cain poder E ai \der as formas de racions i-las. E preciso entio compreen: ncionali cre een Fora a violénets ‘Um espago complexo se abre onde 0 historiador, cujo procedimento é de revelar os mecanismos cio is que conduzem a violéncia, mostra eventualmente que, mnecanision existe, outs podem exist, contriios, diferentes, se tbrindo a novas posibldades Violéncia, barbirie ¢ creda sio cnganiagiee de poder que se imerevem em enna es poe nada é fatal nem mesmo obrigatério em sua apariglo, u ma vee que todo mecanismo é um jogo que se desmonta, e por ve se abole, num outro jogo. 39 Da guerra Dizem-na sempre “mortifera mas inevitivel”, “insuportivel mas ordinaria”. Como pensé-la de outro modo em histéria? A histéria jamais teria contado a guerra? Sim, é claro, o reino da hist6ria-batalha floresceu com aquele de seus corpos de elite e a lembranga de seus herdis. Os acontecimentos foram fielmente contados por ilustres historiadores; depois, com o declinio da histéria como crénica de acontecimentos a partir dos anos 1930 (os Annales, Lucien Febvre € ‘Marc Bloch), a anedota, o relato das batalhas e das estratégias foram deixados de lado. Fazendo isso, a historia se fez discreta, ao menos no que diz respeito 3 face sombria e cotidiana em que a morte € 0 sangue rogam o horror. Hoje, estranhamente — em parte doloro- samente~, a historia da guerra retoma certa atualidade. Ail Bis aqui © que foi escrito no dossié de imprensa (janeiro de 1996), estabele- cido pelas Editions du Rocher, que apresenta sua nova colegio A Arte da Guerra (Colegio de Estratégia e de Historia Militar). Existe “uma retomada de interesse do piiblico pelo pensamento estraté- gico, desta vez, concebido sob seu aspecto pritico. Assim, vemos multiplicarem-se no mundo anglo-saxio e no Extremo-Oriente as publicagdes de artes da guerra antigas utilizadas como ‘guias de saber prético’ (sou eu que sublinho) nos diversos dominios da ativi- dade econémica contemporinea ou do sucesso pessoal. Trata-se da retomada de uma longa tradi¢io pedagégica do estudo das obras de estratégia militar que era uma parte integrante da educagio do homem cultivado”. 4l —. anaes rata a veTOM Se a arte da guerra é um guia de saber pritico, certamente & tempo de reatar com uma historia da guerra que pudesse deslocar 6s termos “arte”, “inevitivel” e “ordindrio” para eventualmente tomé-los obsoletos, adotar um olhar obliquo e fazer um relato de realidades histéricas moventes e nio invariantes, O projeto aqui é de fazer da guerra um objeto contomnivel, desmontavel, isolado das outras guerras, ¢ que escape 4 fatalida- de dos esteredtipos que regem tantos estudos ¢ nos encurralam, obrigando-nos a nos exprimir numa litania exorbitante de lugares comuns tais como “desde sempre o homem fez a guerra ¢ assim a faré por toda eternidade”. Esta submissio 3 ideia feita 6 nio apenas Preguigosa, mas mals, jé que irreal e nio inventiva. Por que entio Pensar (e aceitar de antemao a ideia de) que a guerra seria (antes mesmo de que se estudem suas origens e seus comecos) nossa ine- vitivel realidade, a esséncia mesmo de nossa incapacidade de nos entendermos. Certamente, a histéria dos homens e das mulheres regurgita guerras; 6 mesmo (talve7), a longo prazo, antes uma historia das guerras ¢ dos aftontamentos do que uma historia das concérdias € dos tratados de paz. Essa evidéncia (jamais revisitada) se afronta apesar de tudo a um fenémeno muito importante e pouco notado: a aspirago 3 paz social, econémica e internacional é uma realidade visivel, legivel. Os homens nio tém constantemente vontade de totar. Essa aspiragio a paz, seus modos de expressio e de realizacio podem ser objeto de histéria. Por enquanto, pensemos na guerra e em sua historia dita inevitivel: € evidentemente dificil © um pouco utépico pensar a contrapelo das evidéncias sugeridas e também da multidio de escritos literitios, floséficos, sociolégicos sobre esse assunto que confirmam nosso espirito © nosso cora¢io na certeza de que a guerra é um lugar inevitavel, sem origem e sem fim. Os exem- plos sio to numerosos na literatura que tomar apenas um parece derris6rio; apesar de tudo é eloquente e vem de uma novela de Dino Buzzati (1967 apud Cuanteur, 1989, p. 18); “E quando. a noite se dissipa e 0 sol aparece, outra carnificina comega, com Outros assassinos de estrada, mas de igual ferocidade. Sempre foi assim desde a origem dos tempos e sera do mesmo jeito por séculos 42 Da over até 0 fim do mundo”."* Sim, & certo, quando a noite se dissipa, Doutra camificina comeca, mas somos obrigados a crer que “seri do mesmo jeito por séculos até o fim do mundo”? Nao & antes fora cega do habito que mantém a realidade e 0 conceito” (Joxe, 1991), © qual é entio esta estranha disposi¢ao que nos fez considerar esse fenémeno como normal? ‘Uma das responsabilidades ¢ a de se perguntar, entre outras questées, em que este tempo preciso e exacerbado ~ uma guerra ~ 6 finalmente anormal, em que momento particular se decide, sobre que consenso (ou auséncia de consenso) se forma, entre que modos de tolerincia e de intolerincia decorze, contra que vontades se fa- brica, que consequéncias provoca entre os homens. Outra questio que se pode colocar é aquela da articulagao entre o desejo de ser, aquele de revanche, ¢ o pavor da morte espalhada, 0 Iuto que dura geragdes apés as vit6rias e as derrotas. / Existe uma grande variedade de dispositivos politicos e sociais, miticos ¢ imaginarios que produzem e acolhem uma guerra, tor- nando-a possivel ou desejavel. Estranhamente, se conhecemos bem a historia estratégica e diplomatic das batalhas, quase nfo sabemos © que dizer de cada uina de suas singularidades bumanas, que no as tornam nem semelhaites nem inevitiveis. Repudiando a justo titulo a histéria positivistae a historia-batalha, a escola dos Annales, de modo bastante compreensivel, langou menos luz ds consequén- cias huumanas da guerra, salvo recentemente quando se tratou de refletir sobre as guerras do tempo presente e sobre o sinistro see XX. E preciso também mencionar os trabalhos pessoais de André Corvisiere aqueles estabelecidos sob sua diregio, como L' Histoire militaire de la France, em quatro volumes, das origens a 1991.!* Muito especializados, ste trabalhos nio tém por meta interrogarem-se sobre a guerra, mas sobre a maneira como as armas € a defesa se transformam e se integram 3 nagio. i of fem outro de 1995 no Frum Le Monde © Na ccm dee cpl, omic Te Mas, conga oot “se lesb dro de RogePl Dr » Soba eo de CORVISTER, Hite ited le Fa (9) C&. them CHAGNIOR, Pas eam XPT ie 995) Wome rata 4 HsrORA Um objeto floséfico Antes de ser um objeto de estudo sociolégico ou histérico, a gucrra é um objeto de estudo filoséfico."* Pode-se fazer uma ripida € nio exaustiva historicizacio deste pensamento filoséfico da guerra, antes de dar alguns elementos que contribuam para a historicizagio de sua softida realidade. Para o mundo grego, a ordem do mundo se estabelece pelo Jogo necessirio da guerra e da paz. “Tudo se faz por discérdia”, escreve Hericlito, enquanto que a maior parte da filosofia grega se inscreve no interior dessa necessidade, condigio da vida humana, virtude cfvica e moral. De outro lado, a civilizagio judaico-crista entretém uma rela¢3o menos simples com a guerra. O “No mata- ris” pronunciado por Deus e retomado no capitulo XX do Exodo, depois no Novo Testamento, vai complicat a tarefa dos filésofos e dos te6logos. Enquanto o amor € a paz sio 0s dois valores sagrados dessa civilizagio, os padres da Igreja trabalham sobre © conflito € a discérdia emitindo opinides frequentemente contradit6rias Alguns excluem a guerra desde 0 princfpio, outros a consideram licita em certas condigées. Seri 0 caso de santo Agostinho, por exemplo. Santo Tomas de Aquino demarcari essa posigio com a aparigdo de uma nogio nova: a guerra justa. A guerra é dita justa se € empreendida por um poder legitimo que tem por meta assegurar uma paz ameacada, e isso por uma causa justa. Depois sobrevém a questio filoséfica do desejo da guerra, e Maquiavel assegura que a raiz mesma desta esta no desejo, esse atributo da natureza humana que a distingue da animal. © animal sobrevive combatendo, o homem deseja a guerra. : Mais tarde, com O Leviati de Hobbes, a paz é pregada como sendo 0 meio de conservar o homem, cuja esséncia é a guerra. Com efeito, essa exacerbacio dos contflitos permite ao homem satisfazer ‘uma paixdo quase instintiva e abolir com ela seu temor do outro. A © No pode a 0 car 0 conf ox bt, oda Angle + noord pss Santo Agotno, Magus, Habbo Clase uno out. Cemor como cxengi gee livros recentes: CHANTEUR (1989); D'ALLONES (1994); DELMAS (1995). ™ 44 Da outer giéria vem apenas como um acréscimo, uma vez realizada essa paixdo «© desfeito esse temor. Poderiamos ainda falar de Hegel, para quem a guerra é um ato fundador que dé nascimento ao ser humano: por ssa decisio, mostra ao outro que nao esti apegado 4 vida e que a realizago humana se fiz numa lta até a morte. ‘Mas existem também filosofias da paz, chamadas frequentemente nas obras de utopias. Para serem construidas, haurem elementos da existéncia historica dos homens, da historicizagio das situagdes. A. guerra é uma invariante, um objeto filoséfico; a esséncia do homem, neste sentido, constitui a paz como uma variante hist6rica da guer- 1a. Quando La Boétie, por exemplo, explica a fraternidade como uma nio submissio do homem ao homem e avanga que © estado de natureza é pacifico, realiza de fato um soriho de fusio, mas sabe também que esse sonho € muitas vezes quebrado pela historia que ritma o tempo em guerras e tréguas. Pergunta-se entio sobre o que na historia do homem veio contradizer a realizacio pacifica. Diante de tal questionamento, conclui que a histéria pode, tomando cons- ciéncia, renunciar a este habito desastroso que é a guerra. “Tomar consciéncia” nio é, a cada instante de um tempo histérico dado, numa sociedade dada, tomar a medida dos motivos e dispositivos que desfiguram a paz ¢ constroem devastagdes belicosas? Da mesma forma, Jean-Jacques Rousseau é obrigado a se servir da historia para sustentar sua teoria: segundo ele, a paz € original e, sea guerra vem destrui-la, no é em razio de algum pecado original (como frequentemente se diz), mas porque a “natureza” humana nio se encoittra jamais nas condicdes materiais, geogrificas, histéricas € liméticas que Ihe assegurariam uma existéncia em conformidade a0 que cla é, Para Rousseau, ha deprava¢io do homem histérico, ow seja, uma nogio pessimista do devir histérico. © homem esti de um Jado, com sua natureza boa e bela, a hist6ria sobrevém do outro para desfazer essa disposigio — 0 tempo — de maneira irremedivel. Claro esti, 0 que quer que possamos pensar dessa concep¢io filos6fica ¢ historica, que essa démarche, como as precedentes, coloca de modo ativo o papel da historia. Em seu Projeto de paz perpétua, Kant leva em conta a historia: sabe que © homem sempre fez a guerra, mas afirma, apesar de tudo, que a guerra pode cessar ¢ a ideia de paz, 45 Wuoases rata a mstoa Sanhar realidade. Seu argumento é o seguinte: a espécie humana tem por originalidade em relacéo a espécie animal o fato de ter consciéncia da lei moral. Admitiu também que podia se afistar dela, © que € 0 penhor de sua liberdade ¢ prova ao mesmo tempo que sua inclinagZo para 0 mal nio é necesséria, portanto, que a historia esta livre de seu tempo. Para Kant, a guerra nio é tio necessiria assim, ¢ 0 desvio em relagio & paz & de fato a historia desejada do homem, a histéria adjacente a sua liberdade. Essas poucas consideragdes sobre a guerra como objeto filosé fico estio ai para mostrar que o estudo da paz e da guerra necessita, Para se fazer, de um desenvolvimento temporal, e que & segura mente insatisfat6rio limitar-se a definigdes da natureza humana ou da esséncia do homem para explicar os momentos guerreiros ou aqueles de paz. As condigdes nas quais a paz se encontra, se aloja ou se inscreve numa sociedade, devem ser pensadas no contexto da obra humana, no direito, na economia ¢ nas formas da vida in ternacional. Da mesma maneira podem ser pensadas as condigGes reais em que a guerra surge, se estende ou se eterniza. Essa suave “esperanga na paz”, a um 6 tempo real e elaborada filosoficamente, é também feita de espacos sociais e hist6ricos ma- teriais que a organizam. Obra a realizar, a paz se projeta e se funda Desastre fimnesto, a guerra é um caminho escolhido. De fito, a razio ¢aliberdade reunidas constroem tempos precisos, todos diferentes, ctivados de falhas, erigados de obsticulos, votados 3 paz ou investidos pela guerra, segundo determinagdes e condigdes de possibilidade que podemos explicar hist6tica socialmente. Um objeto de historia Construsio social, a guerra é 0 produto de uma multiplici- dade de racionalidades. Pode-se trazé-las & luz (como acaba de ser Proposto para a historia da violéncia) a fim de que a guerra aparega no como um ato submetido as invariantes da natureza humana, ‘mas deliberadamente escolhido em fungio de critérios que, uma ver estabelecidos, tém chance de se revelarem modificiveis no porvir. Em certo sentido, a histéria efetiva da guerra abre ao porvit um campo de reflexao, 46 A desordem guerreira levanta muitas questdes, dentre as gua algumas, por pudor (mas de que pudor se trata?), so poco bor. dadas. Com fet, a bara € mn aconecimento, conduzido por homens e softido por popalisde, ave nance aumst tempo © rimento, a morte, a barbarie. Te combatente? © gue abems da covada ow de secon suas convigbes ou de suas rege? Ee para alguns a gues permanece um mito, ou sinds wm ideal qu se passa com aqueles que a fizem e com aqueles que a “recebem”, no espago insio de seu espirito e de seu imaginario? Quem, pois, toler a gue ox Obriga os outros toeré-la? Sobre que sistemas de consentime mo de denegacio ou, 20 contro, de dejo ela se organiza Em que halo de horror nomeado ou caido se encontea inser? £ preciso também refletir sobre a meméria que inscreve no bomen ¢ sobre a temporalidade que Ihe inflige. O sldade Se 2904, ue a : u sta répida, viveu um temp i ee onesie vege tpn correspondncias em seus Famosos “cartes posts” tem alguna coisa de muito importante a significar. Aliés, 0 historiador sobre isso hoje."* ; Sieuagio police, pasioaleexiencial, a gueraé um aconte~ cimento em nstinca que" desnltipica os sentsnents 20 mesmo tempo que obriga seres humanos a se tomarem diferen daguilo que queriam ou imaginavam ser. Os Paroxismos sio tais qt et iam ter um nome, nomes, para a historia; ou seja, que com historia seja feita a fim de que possa ser desfeita. ; ‘Trabalhar com essa ideia — de que explicar os Incas de um acontecimento e nomear o conjunto dos senimentos que 6 rodeiam permite modificar aquilo que, a primeira vista, parece imodifcivel — no deve fazer crer que entsatnos aqui num stems de crenga, ingénuo ¢ utdpico, na perfectibilidade harman gue ase guraria a paz para sempre. Estudar a guerra e seus momentos, seco bl é isi da ten pent. Paden " os nete dominio o fot no a hi den = quces de Stéphane Avdouin-Rowreau sobre a guern de 1914, de ws oe GET te omen dole de suru (1986) ot deemed cai 115, tr mater 1918 (1995). 47 —_ WOAnES PARA A HISTORIA tantos acontecimentos articulados e diziveis, é simplesmente poder Perguntar en: que foram posstveis, portanto em que teriam podide escapar a essa possibilidade. E trabalhar sobre “a singularidade do acontecimento, fora de toda finalidade monétona, ¢ espreit-lo (el ¢ suas consequéncias) li onde menos se o espera [ (Foveacrn, 1994i, p. 138). E, ainda, aproveitar seu retomo, nfo, de modo algum, para “gozar” de sua evolugio, mas para compreender que utras cenas se representaram ainda, com outras racionalidades paixdes. Tudo isso pensando que, de qualquer maneira, io" que aconteceu podia nio ter lugar. , “aquilo” A guerra no século XVIll No século XVIII, a guerra € uma construgio consciente ¢ organizada, e, se devemos analisé-la, é tornando-nos “leitores da desorden” Goxs, 1991), mas também leitores de mitos, ¢ desti- zendo-ns {de pensamentos seguros demais, para abord-la como Ameaga de morte, A expressio pode parecer paradoxal Aqueles que creem saber que nfo hé guerra em tertitério francés no século XVIIT ¢ que aquelas que se organizam nas fronteiras sio ditas guer- tas dos principes, comentadas de longe por uma opiniio pili ouco interessada, ou somente reativa em relagio ao aumento dos impostos. No entanto, ha morte, apesar do rei Luis XV, io Luis, 0 Pacifico, pouco guloso de guerra, mas que cor finalmente longas ¢ mortiferas. : chamado mas que conduz trés, ___ Aprimeira guerra, aquela da Sucessio da Pol6nia & uma questio de honra (Howann, 1988). Com sft i ign fempo a “questio da Polénia” agita a Europa, Quando Estanilan € cleito rei, vé-se cagado de seu trono; suplantado pelo cleitor da Sein, € encerrado em Danzig ¢ sitiado por um exército russo, A opino fancesa quer vingar Las XV desis afonta que Ihe € fies embaixador em Copenhague, 0 conde de Plélo (coronel dos ‘agdes exaltado e vivo) obtém a passagem de sua frota e das tropas enquanto, ap6s hesitagdes, siléncio, renegacées, Fleury acabs ne enviar trés corpos expediciondrios a Danzig. E uma guerra de carves 48 Da oven de mecinica ordinéria, desgastante e fastidiosa, Enquanto em Danzig © conde de Plélo vé voltar com estupor seus dois regimentos, deci- de desafiar essa desonra, toma 0 comando das tropas ¢ parte para a batalha com elas, conduzindo, sem maiores precaugées, 0 que seré tum “ataque louco”. No dia seguinte a essa batalha, 0s russos enviam em carrogas, com o corpo de Plélo, os mortos franceses. Foi dito, com efeito, que se tratou de uma guerra cortés, em que, durante os cercos, todos se divertiam representando comédias, com as damas, da guerra; foi dito, ainda, que em Danzig, as vésperas da batalha, 6s oficiais russos tinham a extraordiniria polidez (?) de levar damas polonesas até as linhas francesas para que os oficiais lhes fizessem a corte. A coisa esta quase certa; entretanto, para essa guerra, 84,000 milicianos foram recrutados e a batalha de Danzig foi sangrenta. Ao ‘mesmo tempo ~ nao se deve esquecer ~ era preciso marchar rumo 4 Itdlia, onde se lutava intensamente para repelit os austriacos: serio “verdadeiras matangas”, com mais de cem oficiais mortos, 0 que faz augurar 0 pior quanto aos soldados. Mas as cifras dos mortos, anénimos jamais sio publicadas (LEONARD, 1958). Mais tarde, em 1740, abre-se a Guerra de Sucessio da Austria: o marechal de Belle-Isle recebe 0 comando, com 40.000 homens, a fim de sustentar o eleitor da Baviera, concorrente de Maria Teresa 20 império. Belle-Isle leva consigo Mauricio da Sax6nia, tenente~ general, a fim de prosseguir essa guerra em que se tratava de poder fazer coroar em Praga o eleitor da Baviera. Assim, era preciso tomar Praga ao rei da Boémia. £ Chevert que é encarregado dessa missio. Uma primeira vitoria marcada em 1741, quando sobrevém a mé noticia: o rei da Préssia, Frederico II, aliado da Franga e do bavaro, assina com a Austria a paz separada da Breslavia, Belle-Isle deve en- ‘do se retirar de Praga: aproveita a geleira para levar 12.000 homens consigo, deixando de fato Chevert em Praga com 5.000 doentes ¢ feridos em mis condigdes. Até aqui, 0 exército francés combatia como auxiliar do exército bavaro e imperial, assim como daquele dos eleitores. No fim de 1744, a guerra ser4 oficialmente declarada & Inglaterra ¢ a Austria: em Praga, de 7.000 a 8.000 homens morrerio em condigdes pavorosas. Numerosos testemunhos surpreendentes relatam 0 estado lamentavel dos exércitos, a indisciplina, as pilhagens, 49 Uraaren pana a warOM os mortos em abundancia: basta ler Vauvenargues, que perde em Praga um de seus amigos mais queridos, e Mauricio da Saxdnia em seu Traité des légions, publicado apés sua morte em 1753. Em 1744, 0 rei Luis XV assume 0 comando das operagdes, sem conviceio e em condigdes particulares, muitas vezes mencionadas (leva consigo, contra todos 0s conselhos, sua amante, a duquesa de Chiteauroux e depois cai gravemente doente em Metz): serio primeiro aquilo que se diz serem cercos ficeis de realizar, Ypres, depois a retirada dos austriacos, a entrada em Estrasburgo e a tomada de Friburgo. Seri, enfim,a muito proclamada e honrada (pensamos em Voltaire) vit6ria de Fontenoy, em 1745, vit6ria brilhante, mas sem. nenhum resultado politico. A paz se prepara em péssimas condigdes, o rei nio consegue negociar, declarando agit “como Rei e nio como mercado”. Ainda que sejam dadas honras e recompensas ao marechal dda Saxénia, a hostilidade da corte cresce contra ele enquanto leva seus voluntirios para serem admirados pelo rei no Bosque de Bolonha, onde toda a Paris vem admirar ingenuamente tropas estrangeiras de costumes bizarros, “negros sobre cavalos brancos”, etc. A paz assinada em 1748 é uma paz perdedora. Além disso, nos exércitos, fascinados pelos da Prissia, os casos de indisciplina maior se multiplicam, en quanto numerosos oficiais refletem, por um lado, sobre sua situagZo, €, por outro, sobre a possbilidade de organizar novas titicase estratégias, outras concepges da guerra. Aqui, uma vez mais, os recrutamentos setio numerosos, atingindo os 145,000 homers. A Guerra dos Sete Anos (1756-1763) foi de longe a mais cruel €a mais dificil do século: ainda que pouco se tenha dito, criow um verdadeiro traumatismo no corpo social, assim como no dos of ciais. Para ela, so recrutados 104,000 milicianos, mas os exércitos permanecem verdadeiramente sem comando eficaz, de tanto que 0s oficiais ¢ os generais brigam. Despojados, abandonados, por vees nus ou esgotados, os soldados passario por batalhas pesadas em derrotas, enquanto que, o recrutamento habitual nio sendo suficiente para prover a necessidade de homens, veremos oficiais roubarem recrutas uns dos outros. A guerra é longa, as aldeias e os camponeses sofreram muito, a desordem é imensa. Sobre as costas as derrotas sto severas. 50 Da ours Em 1761, Choiseuil seri nomeado ministro da Guerra em substituigo a0 marechal de Belle-Isle: ele o ser até sua desgraga em 1770 tentard duas reformas, em 1762 € 1764, visando a reorganizat © recrutamento, o enquadramento ¢ a administragio do exército. Seri sobretudo apés a dura Guerra dos Sete Anos que grandes decisdes de reforma serio tomadas, notadamente com o conde de Saint-Germain (que foi tenente-general durante essa guerta); ele promulgara, em menos de dois anos, 98 decretos transformando a organizacio militar, Iutando contra a nobreza ¢ criando realmente ‘um exército do Rei. O conde de Saint-Germain seri desde entio tum bode expiatorio, pois suas reformas, embora inspiradas em Guibert (Essai général de tactique, 1770-1773), sero extremamente impopulares. Ler a desordem Pode-se ler a desordem em diversos niveis. A narragdo pre- cedente dos trés episédios guerreiros nas fronteiras da Franga, que se estendem por todo o século XVIII, mostra claramente decis6es conscientes ¢ organizadas, com mecanismos relativamente estaveis, em que principes, sucessbes e questbes de honra fazem uma Europa em armas se mover, uma Franga sem convic¢io e softidos exércitos fanceses. Mas os processos de decisio slo visveis: neles, a guerra jamais aparece como uma fitalidade, ¢ sim como um principio declarado de solugio de conflitos entre principes. A guerra aqui, por trés vezes, & anormal, evitivel; é uma configuragéo politica da violéncia simbélica, um momento fatal de aferrolhamento da historia, e se apoia sobre a ameaga de morte, no preciso momento em que poderia ter inventado outros tipos de ameagas. Mas, no século XVIII, a guerra j4 est constituida h4 muito tempo como, um estado e um resultado de uma natureza humana impiedosa ¢ selvagem: outros cédigos de representagio teriam arrancado a guerra a sua pseudonecessidade. ‘Ainda em outro nivel, 1é-se a desordem: numa tealidade terri torial e humana bem pouco descrita até aqui. A guerra esta ao longe, em diregio a Flandres, em territérios fronteirigos, ¢ 0 recrutamento demora a inquietar a opiniio. E claro, apenas os fronteiricos, as aldeias 51 Wane Pa a ron, do norte ou as populagdes atravessadas pelas marchas de soldados podem informar sobre 0 que foi o estado das coisas. Dificil, € certo, encontrar tragos disso nos arquivos: entretanto, certas anotagées aflo- tam, claras, precisas, exprimindo desolagio ou softimento, enquanto outras, mais concretas, indlicam certos fatos que dio a pensar. Os boletins de policia conservados na biblioteca do Arsenal"? informam bastante bem sobre as primicias ¢ sobre a Guerra de Su- cessio da Polénia, Entré 1733 e 1735, os observadores salientam os incidentes da opiniio e 0 conjunto bem particular das razdes para a entrada na guerra. Esporadicamente vém algumas noticias do re- crutamento das milicias de que se sabe muito bem que nao é feito sem abusos (Farge, 1996), sem esgotamento da parte dos recrutas, sem desolagao da parte das populagdes forcadas a sofrer as passagens dos soldados. No dia 16 de julho de 1733, encontra-se anotado da maneira mais lacénica, nos boletins parisienses, 0 antincio de um motim de milicia nas Ardénias, em Charleville: Diz-se da mesma forma que houve uma tevolta perto de Char- leville, da parte da milicia que esti em guarnigio nesse cantio, que essa revolta foi suscitada pelo povo, ¢ outros asseguram que 0 povo nio teve parte alguma, que um grande ntimero de milicianos foi preso e enviado is galeras. [...] 25 de julho de 1733. Nao temos noticia alguma de nossos baixéis, comandados em Toulon pelo senhor Cavalheiro de Luynes, esperamos seu retorno a Bresse. Estamos muito surpresos que se tenha dado esse comando a ese cavalheiro que € umn velho celerado que sempre viveu em deboches com sua prépria irma ignorando tudo da arte da marinha e que nio esteve no mar hi 17 anos, ¢ eis como © Govemno vai na Franga. ‘Nio se aprova muito que os soldados de milicia em Cham- agne tenham sido dizimados por se terem revoltado contra seus regimentos; “bastava fazer punir os autores da revolta” " Redigidss por obtervadores da poli, informam o tenente-general da police de Pai € conte- ‘quentemente ore, sobre certo exado ds opinio parent, Eso conservadas a Liblotee do ‘Arenal, no fando dos aquivos da Basha robo lo: Gactn de Pale. Cote AB 10155-10170, 52 Da outmia E raro que os boletins se exprimam sobre esse género de pro- blemas; em compensagio, numerosas paginas entre 1733 ¢ 1735 so consagradas a uma opinio flutuante, ora extasiada com a guerra, ora consternada, em todo caso queixando-se de nfo ser jamais informada e de viver a mercé das gazetas ¢ dos jornalistas 3 mio, mantida em segredo, esgotando-se em rumores. Por momentos, hi inquietagio com og recrutamentos, com o dinheiro que isso vai custar € com 0 néimero eventual de descontentes, mas isso € raro em compara¢io com as mil ¢ uma noticias de politica de guerra. Tris de siovembro de 1733, alguns dizem que o Rei jamais sofiers embaraco para reunir tropas, mas que todas as dificul- dades consistirio em encontrar dinheiro para fizé-las subsistir, diz-se que se recorterd aos expedientes mais violentos, 05 quais poderio aumentar os descontentes. Diz-se mesmo que, nas pro- vincias, sero necessirias tropas para fazer com que 0s impostos sejam pagos, que nio & possivel que desde que 0 reino esti em paz o Rei tenha dissipado todos os rendimentos anuais e que seria preciso pedir contas aqueles que os geriram. Desse mar de “diz-se”, nada de verdadeiramente preciso se destaca, sobretudo no que pode concernir aos desgastes, i motte ¢ a0 sangue. Por vezes fala-se de fome, de soldados sem po ou obri- gados a roubi-lo, depois enforcados por essa desordem. Esbogam-se algumas “gatunagens” em terras camponesas com tal discrigo que podemos imaginar muito bem a realidade. Em “3 de janeiro de 1735, diz-se que uma grande quantidade de soldados morre em Estrasburgo e em Phélisbourg € que nio se encontram cirurgides que queiram ir i, porque hé muitos mortos”, Os boletins de policia, nesse dominio preciso da guerra, sio uma fonte esclarecedora onde se leem por baixo a desordem das infor- mages ¢ das incertezas concernentes & guerra e a generalizagio de segredos mais ou menos bem guardados sobre as decisées tomadas, as nomeagSes as responsabilidades mais importantes, a verdade das batalhas ¢ 0 estado das populagdes de soldados ou de camponeses sobre as fronteiras. Em compensacio, memérias andnimas, projetos de reforma, relatos de abuso ¢ malversago, notas sobre os hospitais e sobre os 53 Lunes pasa a tom aprovisionamentos, relatérios sobre a disciplina dos soldados ¢ a ignorincia dos oficiais deixam perceber palmos de realidade de que © historiador se apropria um apés outro para reconstituir 0 que foi a aspereza dos acontecimentos e, sobretudo, sua tio penosa impro~ visaglo. Ler a desordem é poder retomar uma a uma as imagens veiculadas ordinariamente da guerra e confronté-las com a “visi- bilidade nua daquilo que visa os homens”, depois fazer a historia desses tempos precisos (aqui a Guerra de Sucessio da Polénia de 1733) em que se cria “a impossivel efetuacio do comum que afeta os homens” (Bauty, NaNcy, 1991). De fato, podemos descobrir 0 quanto, a cada vez, 0 itinerdrio é aleat6rio para que a guerra a ou- trem seja declarada (¢ vivida como) digna de crédito e compreender também o conjunto de movimentos aberrantes, mesmo que légicos. As Luzes e a toleréncia O século XVIII nao é um século banal, pois 6 aguele das Luzes, efervescentes, da critica da injustica e da intolerancia, aquele dos acontecimentos passados pelo crivo da inteliggncia e da vontade de reforma. Temos entio o direito de colocar a questio de sua atitude em face das guerras feitas ao longe. Precisemos inicialmente que no século XVIII ninguém se interroga, nio mais do que no século XVII ou mesmo no XX, sobre a invengo da guerra, sobre uma possivel arqueologia de seus numerosos adventos. Ela é e permanece um acontecimento banal, embora exterior. Claro esti, e 0 século XVIII nesse sentido é par ticularmente ativo, que ela é repensada em suas estratégias, assim como na organizagio de seus exércitos, através dos tratados e dos manuais de grande sucesso com o piiblico (Guibert, Folard, Saxe). © proprio rei se esforga por retiré-la aos nobres e confi-la a oficiais magistrados. Seja como for, ela é perdida ou ganha e, de qualquer modo, pertence ao rei e aos principes; e a opinio puiblica, apesar de certos sobressaltos, a deixa existir como se deixa existir uma paisagem familiar sem se perguntar demais se as folhagens esto bagungadas © se por vezes a morte € 0 sangue amornado no tém mau cheiro. O século XVIII é filos6fico, reformula os cédigos e as norma, refaz a mise-en-sedne do mundo por meio da razio e do espirito critico, 54 Da ert Quase todos 05 assuntos sociais, econmicos literrios io trespassados pelo questionamento idnico ¢ racional do espitito filos6fico. Assim, 0 que se diz da guerra? £ ou nio intolerivel? A refle~ xio filos6fica se inscreve na esfera de influéncia dos finos espiritos letrados do século XVIII, tais como Fénelon, La Bruyére, Bayle ou Vauban, que tinham sobre ela julgamentos mais do que severos? Nio é simples responder a estas interrogagées, pois o século dos filésofos, curiosamente, no possui sobre a guerra uma construgio ideol6gica precisa e homogénea & qual possamos nos referir. Pare- ce, de fato, que 0 conjunto da reflexio sobre a guerra esteja freado por claros limites: @ arte militar deve ser repensada; a guerra dos principes € uma calamidade, mas as vitérias reais sio vivamente saudadas; a guerra 6 uma infelicidade ordinéria & qual é preciso dar leis; a soldadesca & impia, e 0 soldado um homem vil e comprivel; uma nagio em armas é uma bela patria. © material de reflexio & heteréclito, e, se hé antimilitarismo, é de decep¢io; ¢, se ha tole- Hincia, é antes para com este acontecimento guerra, desde que os principes nio abusem dele. ; Mas dir-se-&: e Voltaire? Sim, suas paginas contra a guerra si0 de uma grande forga: este compreende todas as doengas contagiosss, que sio cerca deus outer ses dos presentes [peste ¢ foe] nos vém da Providéncia. Mas a guerra, que retine todos esses dons, nos ‘vem da imaginagio de 300 ou 400 pessoas espalhadas sobre a superficie do globo sob o nome de principes ou ministros, ¢ é talvez por esta razio que sio chamados de imagens vivas da Divindade (© mais determinado dos bajuladores conviri sem dificuldade ue a guerra acarreta sempre a peste ¢ a fome, por pouco que tena visto on hospitas dos exérits e que tena pasado por algumas aldeias onde grandes feitos de guerra tenham ocorrido, (Vortare, 1764, artigo “Guerre”) Entretanto, em 1745, Voltaire péde escrever um magnifico poema exaltando o vencedor da batalha de Fontenoy, acontecimento relatado pelo muito atento Diério de Barbier (1849, p. 450), na data de 6 de maio de 1745. 55 Wate pa a roa No dia 11, 0s inimigos tendo atacado, houve urna batalha sangrenta, © Circulo do Rei fez maravilhas, e diz-se que de- terminou a vitéria, Perdemos também bravos oficiais [..]. O regimento do rei softeu bastante, com muitos oficiais mortos. [...] O senhor Voltaire, que é 0 grande poeta de nossos dias, fez em dois dias um belissimo poema da batalha de Fontenoy a partir do simples detalhe que dela teve por cartas. Os artigos da Enciclopédia que tocam de longe ou de perto a guerra sGo extremamente instrutivos: resumem com forga as com- plexas ambivaléncias do pensamento esclarecido sobre o problema militar ¢ a guerra ¢ oferecem uma mistura heterdclita de sentimen- tos, de fantasmas, de raciocinios. A indignagio por vezes surgida, sucede a convicgio quanto 3 beleza das coragens ésperas que brilham nos campos de batalha. Muitos lugares-comuns estio escondidos ai, ¢ ficamos quase admirados de nio perceber nenhum indicio da possibilidade de se desprender de alguns deles. Os sentimentos sio. cruzados, encavalados, entre a reflexio nova sobre a bela-arte que se racionaliza, o desprezo por aquele que, com suas mos, com seu compo, faz a guerra, a convicgio de que os oficiais sio corrompi- dos e de que os cetcos interminéveis nao tém alma. Mas o que é entio a alma da guerra? E quem poderia, se nio defendé-la, a0 menos descrevé-la? O espitito filos6fico € devoto da sublimidade da coragem e dos Antigos, ¢ 0 cavaleiro jaz.em todos os coragdes sem que seja interrogada uma filosofia esclarecida da cavalaria Em realidade, sera sob a pena de alguns oficiais, em plena guerra, que serio ditas certas frases terriveis ¢ definitivas sobre 0 horror dos campos de batalha. “O pavimento de tudo isso é sangue humano, farrapos de carne humana” (D’ARGENSON, 1745); “vi tan- tos rostos desfeitos, tantas cabegas desmontadas que nio cri dever Prosseguir”, exclama 0 marechal de Belle-Isle numa carta a M. de Chevert explicando-the de Wesel, que se recusa a levar seu ataque mais adiante. Poderiamos citar ainda Vauvenargues, convencido entretanto da guerra, o marqués de Valfons ow as terriveis cartas es- ctitas durante a Guerra dos Sete Anos pelo conde de Saint-Germain a Paris Duverney. 56 Da ounena Cruzando assim 0 conjunto das fontes que recobrem as guerras do século XVIII e mantendo, a cada nivel de leitura, a posigéo de leitor da desordem, vemos aparecer um sistema, singular ¢ demar- cével, contraditério, em que a intolerincia e a tolerdncia da guerra conseguem construi-la, Vemos também aparecer uma nogio da qual © heroismo se esvaiu e em que nasceu profundamente o desprezo pelo soldado, tudo aquilo que inscreveu no imaginario ¢ no pen- samento das elites uma miscura de nostalgia ¢ de necessidade nova e ctiar guerras diferentes. A guerra é de certa forma tolerével no século XVIUI; as reflexdes levadas a cabo sobre ela, sejam oficiais (Guibert, Roland, etc.) ou anénimas (memeérias, anotagdes), niéo sido de modo algum reflexes tio elaboradas quanto aquelas que os filésofos produziram no campo politico ou econémico. Assim, entrando no dédalo “mole” dos dispositivos politic intelectuais ¢ sociais que permitiram a guerra, péde-se estabelecer ‘uma historicizagio desses momentos precisos em que coexistem a decepgao em face do ideal guerreiro, a intolerincia em face do soldado (homem do povo, no mais das vezes miserivel) € que, portanto, permitem a guerra, A propésito da guerra ¢ de sua hist6ria, por que ndo reinterrogar as convicgdes preestabelecidas que temos sobre esse acontecimento? Por que nio fazer a histéria dessa convic¢io ou desse assentimen- to? Depois, trabalhar na anilise arqueolégica e genealdgica desse modo supremo de conflito, seguindo a iconoclasta recomendagio de Michel Foucault quando, em “Nietzsche, la généalogie, l'histoire” (1994i, p. 136-156), sugere que os acontecimentos ou as coisas sejam tratados como no sendo tio necessirios assim, e negando ao mesmo tempo ao conjunto dos fenémenos um principio original de que estes decorreriam. E se a guerra, a cada vez, fosse uma “surpresa”, como trabalhariamos sobre ela? E certo que nossas grades de leitura seriam modificadas e que 0 objeto guerra sairia dat diferente e no enviscado num principio imével e fixo de inevitabilidade. Trabalhar atualmente sobre a guerra sem se interrogar sobre a emergéncia da desordem que fibrica diferentemente a cada vez no é jé entrar numa espécie de tolerincia a seu respeito? Tolerdncia ideologica, certamente, ‘mas isso pode evidentemente se compreender; tolerincia intelectual, 57 — Uoaanes rata a Heron sobretudo, aquela que nos cega sobre a propria natureza da guerra. Um outro olhar permite trabalhar numa relagdo de nio necessidade com ela, o que muda 0 questionirio e faz entrar num campo onde 4 guerra é um acontecimento como os outros: isto é, cuja aparigao € desapari¢io nio sio jamais dadas de antemio. Analisando assim os fenémenos da guerra, impedimos a nogio de invariante da guerra de se sobrepor sub-repticiamente a outros conceitos e conseguimos entrar na intolerincia de sua fatalidade em advir. Num livro de Lionel Richard, Les artiste et la peinture de guere, © autor escrevia com tristeza que era bem preciso arte para dizer a guerra, jd que “as apresentaces dos historiadores tém tendéncia a teconciliat”. Frase dura se nos detemos sobre ela: quando o historia dor analisa os fatos guerreiros na linearidade e na longa monotonia da evidéncia e das causalidades simples, nao diz a guerra, mas a suaviza, Pode-se a justo titulo pensar que ele “reconcilia” por que tem dificuldade em exprimir aquilo que ¢ a irrupgio trigica dos ab- surdos ¢ inesqueciveis infortiinios. Claro esti, ele explica, inventaria, interpreta, portanto modifica 0 que, nos espiritos, parece de uma fixider absoluta: a ideia de que a guerra faz inexoravelmente parte da organizagio das cidades. A guerma, de fato, é uma “loucura”, um objeto que se inventa, 58 Da fala Se admitimos uma das definigdes recentemente dadas pelo fil6sofo Jacques Ranciére (1995, p. 47) a propésito dos homens, estes “seres que engajam sobre palavras um destino coletivo”, podemos propor algumas questdes & relagio que a histéria mantém com as palavras dos homens. A historia cimentada pela fala? Deixemos inicialmente deslizar evidéncias, aquelas que inter rogaremos mais tarde. 1. Em toda primeira aproximagio, poderfamos dizer que a fala e a oralidade estio naturalmente contidas no relato histérico, cle que esti encarregado de estabelecer uma temporalidade feita de acontecimentos, de continuidades e de rupturas, tomando a seu catgo 0s fatos e 0s dizeres humanos. O relato engole forcosamente as palavras dos homens para dar forma a ‘uma aventura humana que se desdobra através do tempo. O sentido e 6 conhecimento se dizem entio pelo escrito do historiador encarregado de classificar e de isolar os fitos, de devolvé-los a uma eventual coeréncia que provoca a inteligéncia do passado para o leitor. Nessa acep¢io bas- tante tradicional da historia, as palavras 6 precisam ser reconstituidas para serem colocadas em algumas citagdes ou anedotas feitas para Ageadego& revit Line! da ations Calmann-Lévy porter poblicado ess pginas em seu ‘nimero 4 puliado no oxtono de 1995, consgeado 20 or 59 — GARD PARA A WNC ¢lucidar, exemplificar, trazer imagens, verdade ou, antes, a impressio do veridico: feitas ainda para lustraro relato, alivir seu peso gracas 20 surgimento de alguns didlogos ou de algumas “fitias de vida”. 2. De maneira muito diferente, poderiamos ainda sustentar due a oralidade € subjacente a tudo 0 que é escrito em histéria, quando mais nio fosse porque, na origem mesma do mundo, nic houve escrita ¢ muitos dos documentos sobre os quais trabalham 05 historiadores foram estabelecidos pela tradicio oral. E, mesmo quando sobreveio o escrito e as falas puderam enfim ser consigna- dhs, pode-se afirmar que a Kingua historica sempre teve por dever trazer as palavras & luz Da infinita diversidade das palavras, da infinita diversidade dos comportamentos, dos fatos, dos escritos ¢ dos acontecimentos, a historia fiz ordem. Entio as palavras desaparecem para que a6 mesmo tempo se afiste a desordem das particularidades, esvaeca © murmirio ensurdecedor e cadtico de tudo 0 que pode ser dito. 3. Por que nio dizer também que é sempre possivel deixar 4 historia contar os acontecimentos através de um relato fidvel « autorizado sem que seja mesmo necessirio fazer alusio is falas? Por diversas razBes, todas sensatas: sea porque o historiador tomon por fema objetos de poucas falas, como a histéria dos sistemas econd micos, aquela da marinha mercante ou do desenvolvimento dos grandes comércios intemnacionais, etc, o que nio necessta forcosa- mente do recurso explicito a palavra, ou antes engloba esta sem um procedimento especifico; seja porque o historiador, voltado para a homogencizagio, as sinteses ¢ uma cera ideia do percurso global, € poco solicitado pela estranheza do caso singular —o estrépito da Palavra que, para ele, no faz parte do corpo de seu raciocinio e cuja aparicio faria diversio, operaria mesmo um desvio segundo os casos. 4. & preciso dar lugar a outras formas de histéria, aquela das mentalidades, por exemplo, ou a historia social, ou ainda a historia Sociocultural; elas encontram em seu caminho numerosos docu. ‘mentos que transcrevem ou evocam dizeres. Estes podem ser vali- damente clasificados, ordenados em géneros, em formas distintes de Pensamento de tomadas de posigio, em tipologias (por exemplo, © consenciente, o submisso, o astuto, o transgressivo, etc.), ¢ se 60 Daman encontrarem, no interior do relato, resumidos de maneira clara e met6dica, especificando comportamentos ¢ atitudes que tenham inflectido modos de relago humana, portanto acontecimentos. A historia tem condigdes de se fazer a partir desses dizeres, reagrupan- do-0s € restituindo-os ao leitor, convertidos pela linguagem histo- Hadora, trabalhados ereconduaidos por sua linearidade ao estado de exposigSes bem construidas. As falas no sio passadas sb siléncio, ‘mas passadas sob o revestimento diligente da escritura historiadora, A histéria dita rapido demais Dito isso, sobre tais evidéncias, & preciso saber voltar, pois eis aqui: a historia pode ser dita répido demais e o homem, emudecido. Felizmente, a atualidade da histéria (aquela que sobrevém em nossos dias) obriga o historiador a novas interrogacées colocadas na urgén- cia. E assim que a disciplina se abre a outros caminhos, mi ods ¢ formas de exposiclo. Hla o faz frequentemente sob a injungio de ooutras disciplinas, mais que por urgéncia conjuntural (a histria e a urgéncia no sio sempre companheiras). Em todo caso, desde h pouco, o singular, portanto 0 acontecimento de fila, vem bater a porta do relato histérico."” - E claro, nada totalmente novo nesta matéria, e nao se trata de fazer aqui uma historia da historia que recordaria os momentos precisos de inflexao da disciplina em relago a suas maneiras de dizer o homem, a mulher, o desviante, 0 marginal, o curso ordinitio das coisas ¢ a ruptura do cotidiano. Que me permitam apenas lembrar alguns nomes de fildsofos ¢ de historiadores preocupados com a escriturahistorica e com o lugar que ela pode dar i gente simples Coloco-os a granel; sei que se exprimem em niveis diferentes ¢ desenvolvem sistemas de interpretagio distintos; pouco importa, a disciplina historica teve que ouvi-los. Penso em Michel Foucault e em alguns de seus livros ou artigos menos explorados que os outros, tas como “A vida dos homens infames”, Eu, Pierre Rividre...; A desordem das familias; Herculine Barbin, em que falas e palavras, testemunhos ‘ is pla sigs Astana, Pat "Ten hin oben S itn polis pe ‘np Chan atone Ph do eon eae Dene 18 6 —_— anes Pata a Histo singulares, sio a substincia mesma da reflexzio histérica. As pala vras € 0s corpos deslocam o sentido, a oralidade provoca quebras, a dessemelhanga singular € posta como primeira e tinica, objeto de historia e sujeito de verdade. Penso também em Michel de Cer- teau ¢ em sua reflexio sobre a linguagem da possessa (A escrita da histbria; La Possession de Loudun). Evoco Paul Ricoeur, em Tempo ¢ nanativa, trabalhando sobre narragio e hist6ria. Dou lugar a Jacques Rancigre, em Os nomes da histéria, dizendo aos historiadores que eles precisam dar conta da extravagincia e da “perturbagio da vida apreendida pela fala”. 1, Entremos no coragio do assunto apoiando-nos sobre esta escolha ~ jé antiga e que foi minha — de trabalhar sobre os arquivos de policia do século XVIII para encontrar a fala dos mais despos- suidos, daqueles que nao sabiam escrever e dos quais encontramos © trago escrito das palavras que proferiram através dos dossiés de Policia (conservados sob forma manuscrita) que contém processos verbais, investigacdes, interrogatérios, testemunhos, confrontagdes, etc. Uma vez ultrapassado 0 argumento segundo o qual essas falas em arquivos sio necessariamente enviesadas, nio sio o reflexo do real e brincam demais de esconde-esconde com a verdade (o historiador nio € tio ingénuo e sabe além do mais distinguir entre 0 verossimil a mentira; pode trabalhar em meio a essas figuras retranscritas sem acreditar estar diante de uma realidade passada que teria apenas que recopiar) para serem fidveis, é preciso compreender que esses tragos de oralidade abrem para um deciframento possivel das maneiras de Pensar, de imaginar, de ver das pessoas do povo, a0 mesmo tempo que das formas de sociabilidade e de comportamentos civis e poli- ticos. O observatério social autotizado por essas falas, esses pedacos de respostas anotadas, esses fragmentos de frases subscritas dé uma visio do campo desconhecido das relagdes cotidianas entre homens € mulheres, pais e filhos, dos papéis desempenhados por uns ¢ outros em todas as circunstincias, das relagdes de forgas ¢ das tomadas de poder microsc6picas mas reais que recobrem o campo do privado, © campo econdmico e social. Assim, podemos, a partir dessas falas, reconstruir € dizer os modos de racionalidade e de indecisio que regulam as priticas ¢ as ages, os cédigos (submissos, normativos 62 Dama ou transgressivos) que regem as relagdes sociais ou as regulam, seja ‘momentaneamente, seja de forma duradoura. 2. Eles filam, contam, respondem, omitem, dissimulam, men- tem, dizem a verdade, mas, sobretudo, eles nfo se definem porque estio simplesmente no mundo, ¢ sim porque estio entre eles ¢ vice em face dos outros, com eles, em face do poder ¢ “num universo de representagSes nio indiferente is situagSes em que aquelas se vém ativadas” (Lepertt, 1995), Suas falas dizem o entre-dois, 0 viver-com ow contra ¢ ainda o viver-sem; suas filas dizem, ou ao menos suge- rem, que nio se pode evitar efltir sobre o que pode ser 0 acordo ent siiditos do rei ou a disc6rdia (Leper, 1995). Assim, estamos, gracas is palavras pronunciadas ¢ encontradas pelo historiador, um mundo onde se pode examinar 0 modo como as pessoas se entendem. ou nfo sobre assuintos e acontecimentos, ¢ a maneira como lagos se fazem e se desfazem de acordo com processos mais inesperados do ‘que uma “histéria sem palavras” nos deixaria crer. O surgimento do vvestgio oral nos documentos histéricos provoca muitas vezes surpresa ¢ desordem no espitito do historiador, pois a ordem das palavras no esté forgosamente do lado da linearidade e da estrutura lisa. Algu- ma coisa se desloca do lado da defisagem, da ruptura, que obriga a conplexificar 0 reat histrico ow a The devolves cera sspereza visivel ¢ interpretivel. Nessa primeira fase, em que a linguagem F palavras encontradas oferece 20 historiador uma desmultiplicagio de sentidos que no esperava, hi uma primeira tarefa que consiste em declinar a uma s6 vez o plural dos itineririos singulares e o singular das semelhangas. Isso para introduzir dessemelhanga, aquela que traz com conviegio 4 semelhanga sua parte desconhecia, nso. Shean i 4vel. As falas, por momentos, cometem raptos: o que di- vende inaudito de inblit, de Go particular ¢ etranho desfigura a unidade das semelhangas ¢ arranha, desfigurando-o, 0 rosto liso ie construgio histérica. Pode-se entio afirmar que a irrupgio da fl nas fontes historiadoras é uma sorte, que traz, por sua estranei intrinseca, novas interrogages, nao apenas 3 interpretagdo dos acon- tecimentos histéricos mas & propria fatura do relato, 3. Tomar as falas como emergéncias novas, como aconte~ cimentos (Farce, 1989), fiz certamente o historiador correr um 6 woes pana a wren risco: aquele de ser afogado sob as singularidades, de atomizar seu discurso ¢ de sucumbir aos encantos atuais do individualismo e das individualidades, justificando-se hipocritamente pela “perda das referéncias” e pela “queda das ideologias”, duas explicagdes que se tormaram sacrossantas e sequer revisitadas, Se escolhemos levar adiante um projeto rigoroso, evidentemente nio se trata disso. O encontro com os seres filantes no coragio dos arquivos de policia suscita de fato alteragio. Alteracio, nos dois sentidos do termo sedento de sentido; transformado por outrem. E essas duas opera~ ¢6es conduzem a novas pesquisas, a novas posturas: trata-se entio, na organizago mesmo lacunar dessas falas em face do poder, de ler 5 deslocamentos que cada um tenta inventar para si mesmo e para aqueles que © cercam. Acontece por vezes que outra maneira de organizar 0 mundo ai se ensaie; a partir de entio é preciso dizé-la, interpreté-la ~ nio para provar o que jé se sabe sobre as classes po~ bres ou populares, mas para mostrar, com apoio da prova, como essa mesmas classes populares tragam algo de outro, de alhures, de diferente, de improvavel (tornado provivel, jé que existente). Estas asperezas singulares s6 ganham sentido se o historiador toma © cuidado de articuld-las incessantemente aos grupos sociais e aos, acontecimentos coletivos de que sio dependentes sob miiltiplas formas (submissio, afastamento, revolta, resistencia, consentimento, efusio, repulsa). Encontramo-nos, entio, longe do perigo jé cita- do, de que o historiador acumule singularidades para construir um relato esmigalhado, incapaz de sentido e, portanto, de verdadeiro conceito de alteridade. E claro, nessas condigdes, em que o discurso do historiador se vé alterado pela fala de outrem — pelo brilho vivo da palavra Pronunciada, pela enunciagio da diferenga -, que alguma coisa do lado da homogeneidade, da linearidade ou da continuidade se perde. A partir de entio, pode-se perguntar por que privilegiar © desvio, o excesso, o descontinuo em lugar de trabalhar sobre a rea tranguila das causalidades identificaveis e dos processos que se » Emborsraramente, “dati” pode significa, em facts, “sede in erlment exorad pel fore". Em portugués, hi vesgio deste sgafcado no verbo “dente 64 Dara encadeiam uns aos outros. Simplesmente, podemos responder, por termos aprendido, com Michel Foucault e com a observagio do tempo presente, isto: © mundo, tal como o conhecemos, no € esta figura, simples, em suma, em que todos os acontecimentos se apagaram para que se acusem pouco a pouco tragos essenciais, 0 sentido fina, © valor primeiro ¢ derradeiro. £, a0 contrario, uma miriade de acontecimentos encavalados [..]. Acreditamos que nosso presente se apéia sobre inteng&es profundas, necessidades es- tveis, pedimos aos historiadores para nos convencerem disso. ‘Mas o verdadeiro sentido historico reconhece que vivemos sem referéncias nem coordenadas origindtias [..] [..] Eneio a histériaé 0 conhecimento diferencial das energias¢ dos desfalecimentos, das alturase dos desabamentos (FOUCAULT, 1994i, p. 148) ‘As energias e os desfalecimentos, as alturas e os desabamentos Jeem-se frequentemente nas falas, no ruido surdo por baixo da his- téria, nos propésitos mindsculos, no que quer se dizer e por vezes desmorona antes de ser formulado, no “menos” da historia. Assim, quando aparece uma enunciacio, é preciso tentar estudé-la no pouco de sua instincia, de sua irrupgio, ¢ no forosamente a cada vez através de um encadeamento causal que a religaria eventualmente ao que a precedeu. A fala, em lugar de ilustrar 0 discurso da historia com um exemplo, vem he causar problema, exigindo dela outro relato dos fatos ¢ dos acontecimentos, capaz de integrar 0 descon- tinuo e 0 desfigurador. Partir das palavras daquele que fala (quando as fontes o permite) é ao mesmo tempo interrogar de outro modo aqueles que estio em relagio hostil ou familiar com ele, pois o ser falante “decorre” tanto de seus proximos ou de sua familia quanto os interroga, “decorre” tanto das formas de poder que o cercam quanto as provoca ou se submete a elas, inflectindo-as por sua vez. 4, Se & preciso sempre submeter a emergéncia das palavras sin gulares a um coletivo que convém definira cada vez, é mesmo possivel trabalhar sobre a maneira como cada época gere essa articulagao (a histéria da articulagZo entre os seres singulares e lugares ou aconte- cimentos coletivos ainda esta por fazer; ela traria um grande aporte 65 —— UW anaes Pana a STOR ois é sem diivida uma das chaves de nosso devit), Além do mais, ¢ € outra questio, é necessitio refletir sobre o modo como o escrito historiador pode, de varias maneiras, desfazer ou apagar a fala. O relato, porque relato, dissimula ~ ¢ isso € normal -, mas deve saber como dissimula ¢ como arrisca exorcizar demais a oralidade. Pode, Por exemplo, exorcizar a fala, reenviando-a sistematicamente a lugares de atribuicao demasiado simples que acabam por tomné-la muda. £, entre outras coisas, o que explica Jacques Ranciére, em Os nomes da histéria, a propésito do historiador em face da heresia: entretanto, a resposta do historiador é seguir o dective da familiaridade que recon- dduz todo excesso de fala a seu lugar natural, ao lugar que di corpo a sua voz. “O que ele nao quer conhecer, é a heresia: a vida desviada do verbo, vida desviada pelo verbo” (Rancits, 1993a, p. 149) Mas hi outra maneira de passar a borracha sobre a fala singular: & tomando-a tio exterior, tio espantosa tio éspera que se toma objeto de fascinagio ¢ lugar de estetizagio abusiva. A fila do outro tampouco deve ser considerada como aquela do selvagem, do primitivo, do in- digena exdtico, e 0 historiador tem o dever de trabalhar numa grande tensio: saber que a fala é separagio, saber, ao mesmo tempo, que essa separagio nao deve forgosamente ser entendida, olhada nem inter- pretada como se olha ou visita uma terra desconhecida e selvagem, tornada cativa pelo relato emocional ¢ estético que se pode fazer dela, Quando se trata dos pobres, ¢ da reflexdio sobre sua condicio, este tisco é grande: o exotismo dado as palavras de pessoas pobres, 0 jorro de inocéncia que delas surge no mais das vezes podem conduzir a desfalecimentos de sentido e a uma verdadeira inferiorizagio daqueles ‘mesmos que estudamos e de que fazemos a histéria. E preciso manter ssa tensio extrema para fazer da fala aquela de uma alteridade a um $6 tempo separada e igual, desconcertante e familiar, fruto do singular ebuscando de qualquer modo a fronteira com 0 conjunto organizado pelos outros seres falantes. Vistvel, afastada, entregue a si propria e a outrem, a fala é um éxodo de que o historiador deve tracar a viagem, um inacabamento que vai de lugar em lugar. 5. “Eu” & um lugar hist6rico a visitar: nele, ha 0 campo do engodo € do desfeito, figuras do esquartejamento e do desati- no que informam aquelas do raciocinio, “Eu” s6 se declina em 66 Dara filiagio com lugares conhecidos ou comuns, ou em exterioridade em relagio a eles. “Eu” caminha numa paisagem de fronteiras vacilantes que o historiador pode demarcar. A escritura deve entio criar lugares proprio para fazer o relato desses deserdamentos € desses inacabamentos sem construir automaticamente sistemas de filiagZo genealégica ou de lugares apropriados como a patria, a nagio, o meio, todas nogdes prontas para usar, prontas para pensar sem distingao todas as falas do mundo. “Eu” se conduz de outro modo e informa o relato escapando frequentemente de unidades homogéneas demasiado bem criadas para ele, tais como 0 século, © pais e a classe. “Eu” desclassifica. E sem davida a coexisténcia entre os lugares conjuntos da classificagao e da desclassificagio do raciocinio e do desatino que é uma historia nela mesma. A fazer, a escrever. 6. E preciso terminar. Por uma questio que volta com frequéncia € que talvez seja mesmo subjacente a toda reflexio sobre a oralida- de: a ficgio literéria nfo é de grande ajuda para uma historia mais acostumada a ser sem falas do que com falas? © jogo da lingua e da expressio poética ou romanesca nao é aquele que melhor convém para ajudar uma histéria a se dizer completamente? As palavras do escritor nao estio mais aptas a dizer o que se disse, ¢ a respeitar os desvios da interioridade humana? Tomemos 0 Marqués de Sade (citado por Michel de Certeau em A escrita da histéria) distinguindo duas maneiras de conhecer o homem, a histéria e o romance: “O buril de uma s6 0 pinta quando ele se faz ver, ¢ entio nio & mais ele; [...] 0 pincel do romance, ao contrario, capta-o em seu interior” (Marquis ve Sapz, 1966, t. IX, p. 16). Pensemos ainda na histéria presente e naquela, bastante recente, das guerras e do genocidio: Primo Levi, Robert Antelme, Jorge Semprun nio disseram, nao dizem melhor o horror e a subjetividade que qualquer livro de histéria? Quanto as testemunhas ¢ as vitimas do genocidio, elas nao interpelaram frequentemente os historiado- res, cansadas de nfo ler em seus relatos as marcas indeléveis de seu sofrimento? A ficgio, o relato oral, o testemunho nfo sio os lugares privilegiados onde a dor, por um lado, ¢ 0 relato do mal, por ou- tro, podem ser desnudados em sua crueldade sem partilha? Quem or — WWOARES PABA A HBTOORA pode ~ deve ~ dizer o atroz? A histéria esté fadada a reduzi-lo, e 0 testemunho e a ficgio a capti-lo sem partilha? Aessas questdes, todas imensas, ¢ preciso responder. Uma coisa € certa: a literatura e a histéria no estio em competicio em face desses problemas. Sio dois géneros narrativos que nio se confian- dem, nio se anulam e tém, claro estd, necessidade um do outro. Nenhum dos dois deve engolir o outro. Nenhum tem preeminéncia em relacio ao outro. Iniitl insistir sobre a necessidade da literatura, evidente © sem desvio. Da histéria, é preciso dizer 0 quanto seu relato € indispensivel, pois nenhuma sociedade pode prescindir de seu estatuto de veridicidade e dos protocolos de pesquisa que asse~ guram sua coeréncia, sua fiabilidade, sua ética, Mesmo reformulada, revisitada incessantemente porque reinterrogada pelo presente, a historia é, a cada época, o relato ponderado dos acontecimentos, aquele que evita sua falsificagéo e a vergonha das derrapagens fla~ grantes ou das denegacSes mortiferas, Uma vez dito isso ~ e sobre 0 que todo mundo pode estar de acordo resta pensar, apesar de tudo, a questio do lugar da oralida- de, da fala e do “en” no relato ponderado. £ evidente que a histéria deve se prevalecer contra todo reducionismo, e isso nao é simples. E aliés um problema que se coloca a outras disciplinas, 3 sociologia por exemplo, Recentemente, Pierre Bourdieu e uma parte de sua equipe trouxeram uma resposta curiosa em A miséra do mundo (1993): a fatara mesmna desta obra, feita de entrevistas controladas por um questionétio extremamente rigoroso, leva em conta fila de ouitrem como suporte essencial de uma demonstragio espantosa sobre a expressio da dor ¢ do softimento, enunciada em muitos niveis, Bem recentemente, Jean-Frangois Laé e Numa Murard, tam- bém sociélogos, escolhem outro procedimento para responder i dificil questo da considetagio do dizivel/indizivel que aparece a0 final das investigagdes sociolégicas. Laé publica inicialmente na revista Esprit (Lat, Murarp, 1988, p. 66-75) uma novela, tendo Por suporte aquilo que nao péde lhe servir na anilise ponderada de seu trabalho sociolégico. Precedeu-a de um texto que explica sua escolha e seu procedimento: em face do que chama os “dejetos” ou “refugos” de toda investigacio sociolégica, om seja, as falas © os 68 Damas relatos de outrem que néo puderam entrar em suas grades de leitura nem se integrar ao ordenamento de seu trabalho, decide no perdé-las, publicando-as sob forma de ficgio literiria e de novelas. Mais tarde, com Numa Murard, escreve um livro, Les réits du malheur (1995), uunicamente composto de novelas literirias. © preficio precisa a intengio deles, Assim, escreveram dois livros: uma obra de socio- logia com suas investigagSes, um livro de novelas com os refagos de suas investigagdes. A escolha é forte: trata-se de outra forma de acesso a0 real, dizem eles, um real mais denso. Com efeito, para eles, o relato pode “mais ficilmente se acomodar is incoeréncias, hhidincias, incompreenses que surgem na propria investigagio. O horizonte da literatura esti em melhores condigées de levar em conta a heterogeneidade das singularidades — aqui sofredoras” (Lats; Murarp, 1995, “Preficio”). Na revista Esprit, Jean-Frangois Laé escreve: Excolhendo 0 modo de exposigio da novela, quero por a vista materais de observagio num lugar de vacincia da sociologia, aquele das emogGes ¢ do sentimento, habitualmente relegados 3 psicanilise, 4 ilusio do senso comum ou & apologia do cotidiano. Creio que a forga da novela € de desenhar miltiplos univers de sentido, lé onde toda emogio sai de nés, ampliar um meio. A confissio é forte: no hi lugar para emog@es, sentimentos, falas de sideragio na enunciagio sociolégica. O sociélogo, para nio calé-los, se serve da literatura De minha parte, como historiadora, recuso que qualquer va~ cincia da histéria me obrigue a escolher a literatura para que sejam ditas as falas de uns e de outros. Talvez por causa desta fiase de Michel Foucault (19944, p. 237-253) a propésito de textos colo- cados nos arquivos do século XVIII, vindos de tetemunkhas pobres: “Confesso que esses textos que surgem subitamente através de dois séculos e meio de siléncio sacudiram em mim mais fibras do que aquilo que se chama normalmente literatura”. Sobretudo, porque tenho a conviccio de que a histéria tem o dever de ser afetada — como foi dito mais acima — pelas hifncias e pelas extravagincias de outrem, sem socobrar no esmigalhamento das anedotas; que ela pode dar sentido 4s efragdes do cotidiano construindo a historicidade de 6 Wounts pana as seu lago com os sentimentos coletivos. Se o historiador & “poeta do detalhe”, como escreve Michel de Certeau, sua escritura deve se obstinar em religar os seres ¢ as palavras, em reconhecer “a ins- ctigio simbélica na cidade [...] de seres falantes, dotados de uma fala que nio exprime simplesmente a necessidade, 0 softimento e © furor, mas manifesta a inteligéncia” (RANCIERE, 1995, p. 45, 47), seres que formam comunidade. A histéria e 0 politico obtém-se 4 este prego: a escritura histérica da fala nfo 6 um desafio langado 4 literatura, é um meio para designar diferencas, estabelecer redes de conhecimento, fazer de tal forma que os afastamentos entre as. ‘margens, as zonas silenciosas e outras mais sombrias sejam religados entre si, nomeando os acontecimentos e as cesuras, 0 encavalamento das origens. Quando o cineasta arménio Pelechian filma multiddes, alguma coisa de uma identidade comum se desenha através dos movimentos de multidio em que a cimera mostra atos singulares transmitindo-se uns aos outros, compondo uma vertiginosa espiral onde em seguida vai se ler (se ver) 0 “rosto” de um grupo de homens ¢ de mulheres num momento particular de sua historia. A cimera diz 0 movimento de conjunto sem jamais ter esquecido de mostrar © que particularmente religa um ao outro, divide um e outro, eles proprios tornados tio visiveis.2" A histéria nao é cinema, mas pouco importa, Por sua escritura, deve nio fazer o relato das singularidades, mas “‘cravar” a fala no coragio de seu discurso, partir de sua raridade e de sua existéncia para trabalhar sobre os limites e dar lugar aos “restos”, respeitando tanto © fora de lugar de que sairam quanto a inquietante tenacidade com que brocam a norma. A historia, neste sentido, designa o presente. * RetropectvaPeechian, Museu do Jeu dePasme, abil de 1992; Habs. Noms. Sans. Cure 70 Do acontecimento Captar a irregular existéncia que vem a luz no que se faz, se diz, Michel Foucault CO acontecimento que sobrevém é um momento, um fragmento de realidade percebida que nao tem nenhuma outra unidade além do nome que se Ihe dé, Sua chegada no tempo € imediatamente partilhada por aqueles que o recebem, o veem, ouvem falar dele, o anunciam e depois o guardam na meméria. Fabricante e fabricado, © acontecimento é inicialmente um pedago de tempo e de a¢lo posto em pedagos, em partilha como em discussio: é através dos farrapos de sua existéncia que o historiador trabalha se quiser dar conta dele, Em face do acontecimento encontrado, ou relatado, esti diante de uma auséncia de ordem. Com efeito, sua estrutura, percebida através dos textos, dos testemunhos ou das imagens, & jé em si uma colocagio em relagio, Nio é um dado nem um cliché fotogrifico; sua maneira de sobrevis, de ser transmitida, oferecida e depois filada e projetada no porvir faz parte de sua existéncia e disse~ mina sua volta uma infinidade de sentidos, pouco ficeis de demarcar. Assim, 0 acontecimento seria jé da ordem da desordem, do arrebentamento das percepgdes e do sentido: o historiador se acha desde entdo no em face do homogénco, mas do heterogéneo, Trabalhando a partir de documentos de arquivos de policia do século XVIII, pezceber um acontecimento é na verdade a coisa 7 Lucian rata HTOWA mais ordindria do mundo ~ a prépria fonte libera acontecimentos de maneira pletérica, uma vez que, de manuscrito em manuscrito, passamos realmente de acontecimento a acontecimento, Isso numa amavel embrulhada em que se encontram lado a lado 0 que chama- mos classicamente de grandes acontecimentos, como as revoltas, as entirias, os grandes crimes, os acidentes, etc., que organizam em seguida o curso da histéria, tal como é decidido pelos manuais, uma multidio de fatos sarapintados, distintos, todos significantes mas frequentemente insignificantes, 0 que acaba por desenhar um jogo de sombras e de luzes sobre o qual refletir. Setia o “grio dos dias” (Michel Foucault), aquele que se espalha generosamente através dos documentos judiciarios, mand opaco e atraente, _ Mais intrigante ainda, mais dificil de manejar, 6 também ofe- recido a leitura historiadora o conjunto dos interrogatérios e dos testemunhos. Aqui, as falas, os pedacos de afirmagio, de denega- 40, 05 comentitios organizam o acontecimento: conduzidos pelo aparelho de policia, excedem frequentemente a ordem indicada, transbordam o senso comum, extraviam as evidéncias e introduzem no curso da histéria uma multiplicidade de aparigdes do singular. Assim, hé os fatos, pequenos e grandes, e 0 barulho que fazem, © barulho por baixo da historia, aquele das linguas-sujeitos que no- meiam ¢ contam, “o murmiirio obstinado de uma linguagem que falaria sozinha” mesmo se enderegando a outrem. Essa fala, esses discursos formam momentos precisos; podemos considers-los como acontecimentos na medida em que sua enunciagio se inscreve em modos de pertencimento e de relagdes singulares a cada um, ¢ em afirmagdes que excluem outras e tragam caminhos particulares. Essas Palavras ditas em hist6ria, demasiado raras, formam um lugar preciso; com fiequéncia criam uma falha, aquela que separa as palavras do discurso, acionando o politico daquelas de todos os dias que expri- ‘mem antes a singularidade de ser ou de softer. Enquanto essa filha, em vez de ser integrada ao relato de histéria, ndo for compreendida como algo que inflecte as formas retéricas e conceituais, no havers histéria em que valha se fiar. O fato © a fila sobre 0 fito sio dois materiais diferentes que exigem que reflitamos sobre sua inclusio no relato. 72 De aconrtemene Desfazer evidéncias Por seu oficio e pelas grades de leitura que impée a sua do- cumentacio, o historiador fixa a regra e 0 tempo, as periodizagdes, feitas, diz ele, de tempos fracos e tempos fortes, de momentos de laténcia e depois de crise. Estabelece uma cronologia que induz por si propria prinefpios de causalidade e de consequéncia. A longa linha de hotizonte da histéria é uma longa linhagem de acontecimentos que se sucedem uns aos outros, em niveis diferentes, por certo, mas sempre percebidos, seja pela ruptura que impdem ao tempo, seja pela evidéncia de sua presenga, aquela que esti em continuidade com © que se passou antes. Acontecimentos que se leem numa temporalidade quebrada ou continua, que os encaixa e 0s explica, © historiador ama o acontecimento: seu gosto por ele € pto- porcional a sua inquietude com o “siléncio das fontes”; em geral, procura (portanto encontra) aquele que é saliente e se toma signifi- cante a partir de suas proprias hip6teses de trabalho. Desde entio 0 acontecimento ~ ou os acontecimentos ~ mantém o fio do relato, sio asperezas tangiveis que fornecem provas, em torno das quais 0 historiador estabelece sentido, uma cronologia, adventos. E porque 0 historiador festeja o acontecimento desentocado do arquivo que ele constr6i seu relato a seu redor, inclui-o em seu procedimento como aquilo que traz a justificagio do que quer demonstrar. O acontecimento encontrado desempenha frequentemente o papel de uma forca suplementar de legitimagio a seu discurso. La jaz 0 paradoxo perverso de sua presenga no discurso histérico: indo de acontecimento justificador em acontecimento justificador como se avanga no ludo, o historiador corre o risco por vezes de esquecer que 0 acontecimento, extrafdo das fontes, é aittes de mais nada 0 objeto de uma selegio que serve a uma tese discursiva e demonstra- tiva mais ampla; é desta forma que se homogeneiza ao contato do relato. Absorvido pelo ‘‘cozimento da histéria” (Michel Foucault), © acontecimento toma desde entio um lugar evidente e “regular” num discurso que pode dificilmente recolocar em questio as modali- dades de sua escolha e oblitera que, ao selecionar tal acontecimento, deixou outros de lado. Assim, pode-se construir de “fonte segura” uma espécie de amnésia. Wonaes rata a mTOR Repertoriados, declinados, os acontecimentos formam uma cronologia; no melhor dos casos, desenham motivos habilmente dispostos numa temporalidade atenta aos desvios. Muitas vezes, sto conjugados a partir de casais de nogdes: ruptura-continuidade; rogressio-regressio; arcaismo-moderidade; evidéncia-contradi¢a0; redes de significagio, excecio, aqueles mesmos que sio raramente recolocados em questio. Nessa maneira de “ixar” 0s aconteci- mentos, que tem evidentemente suas regras, e stias honestas ra 26es, o historiador tem um papel particular: com efeito, se isola 0 acontecimento e lhe da um estatuto ¢ um lugar notiveis, corre o risco de o diluir simultaneamente numa série de outros fatos e de 0 absorver gulosamente no discurso histérico. f instrutivo examinar de perto esse fendmeno, banal no fim das contas, esse gesto evi dente da profissio que consiste em isolar um fato para demonstrar € provar em seguida que ele no é nada sem 0s outros ¢ faz evi- dentemente parte de um grande conjunto de outros mecanismos e acontecimentos. Isolar 0 acontecimento, certamente, mas isso tio frequentemente para imergi-lo a seguir “no inferno da consecugio”, segundo a expressio licida de Pierre Retat (1995, p. 15). Assim, © acontecimento s6 se veria por vezes nomeado por ser redutivel a outros do mesmo género ou representativo de toda uma série mais ‘ou menos semelhante; assim descrito, posto na frente, alteado nio Por sua eventual singularidade, mas para ser assimilado a outros, compreendido entre outros, enviscado em séries compactas e se~ melhantes, o acontecimento corre o risco de perder sua antonomia ¢ seu lugar ‘inico, sua singularidade. Ocorre que 0 acontecimento 86 se tome perceptivel através das formas ditas aneddticas de sua aparigio e desaparigio. Existem formas mais elaboradas de anilise do acontecimento em que este pode se tornar observatério do social, ou seja, o meio de compreender 0 conjunto das relagSes que itigam um grupo social, uma cidadezinha, um bairro ou mesmo um Estado. A micro- historia, de tradi¢Zo italiana, estabeleceu esse campo disciplinar com brilho. Teorizando sobre essa maneira de escrever a historia, no ® Uma primeita formulas dest cpio , bjt de una coms fora omar 2 "L'histoire au risque de Michel Foucault”, = ar oumbre de 05 ‘no Beaubourg nos da 17 «18 de outubro de 1995, 74 Des accnimeenento preficio do livro de Giovanni Levi, Le Powvoir au village, histoire d'un exorcste dans le Pidmont du XVIF side Jacques Revel (Lev1, 1989, p. XXXII) escreve: “A escolha do individual (do microaconte- cimento) nao é pensada como contraditéria com aquela do social: cla toma possivel uma aproximacio diferente deste, sobretudo, deve pemnitir apreender, no fio de um destino particular ~ aquele do homem, de uma comunidade, de uma obra ~, a meada complexa das relages, a multiplicidade dos espagos e dos tempos nos quais se inscreve”, Essa visio tem a vantagem de deslocar 0 questionitio, de renovar as escolhas do possivel. Ao mesmo tempo, de acordo com a palavra empregada por Jacques Revel, ela “inscreve” o singular na multiplicidade dos espagos, na complexidade do social. Essa inscri¢ao coloca, no entanto, um problema, De que ins- crigdo se trata? Se se inscrever quer dizer fandir-se, impossivel no ver que 0 microacontecimento tem sua propria maneira de entrar em companhia ou nio com o conjunto dos fatos que o cercam, A proptia “inscrigao” € objeto de historia, pois, se ha fatos que se inscrevem por evidéncia, outros o fazem por dedugio, ou rompendo com o passado, ou ainda entrando de forma transversal e anémica com os outros acontecimentos. Que haja “inscrig¢io” nio resolve todos os problemas de interpretacio; isso exige que nio se a tome por adquirida, mas como uma questio, e que nos perguntemos a cada vvez qual é a autonomia possivel do “microacontecimento estudado”, que fragmento do real veio declinar ou completar ao sobrevir, a gue “sucesso de acasos” se refere. Qual é, portanto, o jogo de sua instincia e 0 que vem excluir de entrada, quando surge, que nao tera lugar e talvez, sem isso, poderia ter tido lugar? O lugar, a maneira, as condigdes da inscrigio de um acontecimento no tecido social formam sua irredutivel singularidade, aquela que faz de sua aparigéo no uma evidéncia mas uma interrogacio, aquela que constréi seu desvio definitivo em relagio a outro ¢ que por essa razio deve ser analisada enquanto tal. Podemos entio retomar uma das frases de Michel Foucaule para caracterizar esse questionamento: qual é essa irregular existéncia que vem & luz no que se diz, no que sobrevém? ° © precio de Jacques Revel coma dh tao briikirsob onda “A iia a es doo” (NT). 75 Wanes rata a sro Sim, a existéncia de um ser, de um acontecimento, de uma obra ou de uma palavra tem por estatuto ser irregular. Cabe a0 historiador tentar aprender seu curso, aceitando desregular seus raciocinios, deixar a propria irregularidade criar um campo de anilise ¢ de apreciagio. Isso pela tensio explicita de seu relato, tinico capaz de restituir 0 acidental e a ruptura, de fazer perceber que o confli- to, o disparate, eventualmente o erro, a incerteza ¢ o desregrado organizam toda origem do acontecimento, de sua colocagio em meméria e, mais ainda, de sua leitura e de sua enunciagao fixturas. A palavra, o testemunho, a meméria “Mas e a palavra?”, escreve Michel Foucault (1994e, p. 424). “Quero dizer o ténue acontecimento que se produziu num ponto do tempo e em nenhum outro.” Essa frase acompanha meu questionamento. A pritica dos ar- quivos judiciarios, aquela dos documentos, depois a reflexio te6rica do fildsofo sobre a ordem e as fungdes do discurso, mescladas a uma reflexio entabulada com certos historiadores do tempo presente sobre o testemunho e a meméria, levam-me a colocar agora isto: a fala irris6ria, quase inaudivel, apoucada (mas o que é uma grande fala2), a resposta formulada, o relato empreendido sio para mim Outros tantos acontecimentos. Como as batalhas, como os motins, como os tratados diplomiticos. “Como” ¢ de outro modo, bem entendido. O primeito preficio 4 Histéria da louaura, “A vida dos homens infames”, Eu, Piere Rivitre.... Le désondre des familles si0 alguns dos meios de pensar essa fala surpreendida e surpreendente. © historiador, por vezes, tomou o tempo de nio forgosamente escutar essa questio do fildsofo, como niio escutava talvez a stiplica das palavras de outrora. Entretanto, existia jé a obra de Michel de Certeau, contemporineo de Foucault, compreendendo entre ou- tras La fable mystique e A escrita da histbria. Foi de novo um filésofo, Jacques Ranciére, que tentou, em 1992, questionar a disciplina histérica. Les mots de histoire (renomeado numa segunda edigio Les noms de Phistoie) tabalha sobre a maneira como a hist6ria justamente “inscreve” e integra sem rigor suficiente as falas, a extravagincia 7 > Aeonmnemento dos seres falantes, num relato homogéneo que se di por evidente ¢ no restitui nenhuma aspereza, nenhum fora de lugar ou no lugar nos quais essas falas puderam ser ditas. O livro é forte: “A era da historia foi aquela em que os historiadores inventaram um dispositive conceitual e narrative proprio para neutralizar o excesso de fala” (Rancitre, 1993a, p. 88); corre o risco de ser pouco entendido. B evidentemente mais ficil descrever, inscrever, que desfazer, dester- ritorializar, deslocar, devolver a fala a sua inaudita e inclassificével eventuralidade. No entanto, deslocar no tomar incompreensivel nem des- construir o relato. E possivel modificar 0 curso do pensamento historico para introduzir aquele, ordinario, das falas ¢ dos aconteci- mentos. A partir da hipétese de trabalho segundo a qual a fala é um acontecimento, a atencio se desloca para dar estatuto de veridicidade a essas falas, ¢ no para fazé-las figurar como simples anedotas que refrescam 0 conjunto da narragio histérica. A fila citada ou colo- cada entre aspas — bem sabemos ~ é tantas vezes aquela que colore 0 relato sem sequer o inflectir... Trata-se de outra coisa se somos, como afirma ser Michel Foucault, “obsedado[s] pela existéncia dos discursos, pelo fato de que as falas tiveram lugar; os acontecimentos fancionaram em relacio a sua situacZo original, deixaram tragos atrés deles, subsistem e exercem, nessa mesma subsisténcia no in- terior da histéria, certo néimero de fines manifestas ou secretas” (Foucautt, 19941, p. 595). ““Falas tiveram lugar”: elas produzem acontecimento e fazem surgir novas situagdes observaveis. Tratando-as no jogo de sua ins- tincia, no momento de sua vinda, aceita-se em primeiro lugar lidar com uma populacio de acontecimentos dispersos. A heterogenei- dade vira norma, em seguida se adivinham formas de pensamento, alteridades ou contradicdes que reforgam o real com seus desvios ¢ disjunges. Assim, pode-se escolher, em certos casos, fazer desse disparate, ou mesmo da diferenciagio radical, o proprio campo de certa historia, apta a encarar os desafios que lhe propde a aparente excepcionalidade. Hé historiadores confrontados com a fala da testemunha: sio aqueles do tempo presente. Em face deles e da coeréncia do discurso histérico que querem construir, colocami-se 7 oars pata ea as testemunhas do passado, ainda vivas, muitas vezes vibrantes de Jembrangas ¢ de questées sem resposta, © testemunho e a objeti- vidade da historia parecem entio se contradizer, enquanto se corre © risco de que um conflito se estabelega, por vezes doloroso, entre meméria e historia, A meméria, bem o sabemos, é um teatro pessoal ese fabrica através de reconstituicdes intimas ou miticas que podem embaracar 0 historiador.* Com efeito (e 0 debate neste momento é atual) a meméria nio € a historia; sua irrupgio é frequentemente Julgada embaragante pelos profissionais de uma histéria que deve dar o relato coerente, ordenado e veridico do que se passou. A testemunha, clamando sua fala, parece submergir o historiador por um derramamento demasiado vivo de seus sentimentos, por uma meméria demasiado sensivel, demasiado dolorosa ou mesmo de- formada, que distrai ou extravia a fabricacdo do discurso historico. Pode-se muito bem compreender isso; basta, aliés, pensar na hist ria da Segunda Guerra mundial, naquela de Vichy ou ainda na do genocidio. As testemunhas t8m evidentemente sua propria histéria a revelar, querem fazé-la ouvir € pode acontecer a partir de entio que o historiador entre em discussio com a subjetividade daqueles que viveram os fatos, se inquiete com essa fala julgada demasiado desbordante para deslizar a0 fio de um relato ordenado. ‘Mas, se o conflito entre testemunha e relato, entre meméria € hist6ria é por vezes tio violento, no podemos pensar que isso se deve também ao fato de que a histéria nem sempre é capaz de trabalhar a fala de outrem? Ou, ao menos, ao encontrar a fala, njo tomou como postulado principal territorializ4-la, aplani-la,fazé-la entrar “normal- mente” no campo das anilises certficadas, portanto das certezas? A fila em hist6ria serve facilmente demais ao relato como simples anedota, distragio do discurso, ¢ nio é frequente que intervenha como lugar principal de onde brota a interrogacao historiadora. Recentemente, numa obra coletiva sobre a Resisténcia, Jean~ Pierre Vernant (historiador da Antiguidade e ele préprio resistente) escrevia: “Quando uma testemunha [da Resistencia] diz. a0 histo- % Ver, sob a directo de Jean-Marie Gullon «Pier Labori, Menai tie: la ristane (199 sssim como Henry Roaso (1995, p, 92-9), 78 Do aconmeants riador: ‘A gente no se encontra no seu discurso’, diz na verdade: “Mas entio, ¢ a carne humana?” (VERNANT, 1995, p. 344), O que o histotiador faz da came humana, com efeito, aquela que deseja, ama, softe ou contradiz a linha reta das anilises claras? Essa questdo, tio ‘crucial para os historiadores do tempo presente, coloca-se de fito da ‘mesma maneira para todos os historiadores. A fila “coloca a histéria fora de verdade” (RANCERE, 1993a, p. 125), mas como escrever esta historia? Surpreender as palavras no estado nativo de sua elaborago, vé-las surgir em defasagem com o horizonte de fala tradicional € fazer desses acontecimentos interrogacGes € apostas para o relato historico nao é coisa simples e poderia, para certas épocas, dar outra dimensio & disciplina. As testemunhas, mortas ou vivas, aquelas encontradas em arquivos ou que se exprimem em voz alta, sio bem evidentemente, por esséncia, aquelas que filam demais, ou equivocadamente, de outro lugar: cabe a nés, historiadores, tratar 0 excesso, a disfuncio, reelaborar os sentidos e “pensar” 0 peso das palavras e sua estranha maneira de estar entre diversos lugares a0 mesmo tempo. Pode-se colocar de forma clara ¢ essencial o problema da fala ou da testemunha, numa época em que o testemunho, o relato pessoal sio justamente as vedetes absolutas das midias. Imprensa escrita, televisio disputam as “melhores” testemunhas, aquelas cuja palavra supostamente inscreve no cora¢io do leitor ou do espectador um trago indelével. Essa exibi¢ao pletérica do singular é sem davida alguma proporcional ao sentimento de falta que se tem diante da frieza das andlises, sejam elas politicas, jornalisticas, sociol6gicas ou mesmo historicas. E 0 que fard o historiador dentro de cinco ou dez anos, quando tiver que se engajar em trabalhar sobre o perfodo con- temporineo ¢ os arquivos the derem a ler ou a ver tantos sem-teto, tantos Beurs® descontentes nas periferias, tantos jovens desorientados, tantos grevistas e desempregados? Que relato ele elaborard sobre esse mar de testemunhos mais ou menos bem escolhidos, mais ou ‘menos singulares, mais ou menos representativos ou ex6ticos? Jé lhe sera preciso interrogar a amplidio dos fenémenos sociais e politicos > Gita (va) para designs joven Ganceses de scendncia magrebina. (N.T.) 79 Uaanes rsa a HsrOUA que incitaram a recolher esses testemunhos, que os desentocaram, formataram e publicaram.* L4 jaz solto todo um pedago do real a explorar. Mas em seguida se coloca a questio: se no fim do século XX acreditou-se bom produzir tantas testemunhas consencientes, nio foi porque no apenas nio se conseguia colocar o presente em fichas e em anilise, mas porque a hist6ria no sabia responder a sua tarefa? Isto é, saber que as palavras de outrem extraviam 0 curso da historia ao mesmo tempo que a fibricam. Enfim vir o mais dific fazer dessas falas a matriz. extravagante e segura de nossa hist6ria. Como isso poderi se fazer se j4 0 historiador, apenas demasiado raramente, em seu habitual trabalho de deciffagio, elevou a fala a seu estatuto de acontecimento possivel? Com efeito, as palavras ditas no século XVIII ou agora conta, zna maior parte do tempo acidentes bem estranhos, caminhos toma- dos e subitamente interrompidos, tentativas repensadas out abortadas, confiscos de poder, derrotas mal digeridas_misturadas com lem- brancas triunfantes, vitérias um tanto quanto cambaleantes. Tudo isso, reinvestido de sentido e de escritura pelo histotiador, no seu modo de surgir, de ser dito, dé de fato nascimento ao que vai existir, sentido 20 que se improvisa sob nossos olhos, Através de pedacos de identidade encontrados, de falas ditas entre dois lugares, entre dois males, podemos ver a histéria se fazer, se improvisar. Podemos tomar numerosos exemplos de testemunhos contemporineos: entre les o de Khaled Kelkal, acusado de um atentado terrorista no trilho do TGV Paris-Lyon, interpelado no dia 29 de setembro de 1995 em Vaugueray € morto numa troca de tiros. Em 7 de outubro de 1995, 0 jornal Le Monde publica uma entrevista desse jovem, feita bem antes de esses fatos ocorrerem, em que se exprimia sobre suas condigdes de vida ¢ sobre suas relagdes com seus irmios ¢ irmis nna cidade. Kelkal explica: “Falam de nés somente quando hi vio- Iencia, entio fazemos a violencia. E somente o barril de pélvora. E somente apés os levantes que comecam a compreender. Nio é grande coisa, é para dizer tipo ‘estamos af’.” Através dessas palavras, rugosas, repetidas rapidamente, laconicamente, podemos ler alguma Una etatva dese gto rencontre io drgdo por Pee Bounties, La Midd monde (1993) 80 Do Aconttonerto coisa de dilacerante, de dilacerado, que fura o tempo ¢ a norma, impondo 4 hist6ria seu horror, sua marca, seu ritmo, seu crime projetado sobre outrem sob a forma de um atentado e sua violéncia inelutével; podemos compreender a que ponto o acontecimento de fala cria 0 acontecimento, como o “nao é grande coisa, é para dizer tipo ‘estamos ai”, que & uma frase em que o tumulto, a de~ manda insistente, a denegacio de gravidade desenham um jovem, mas também jovens improvisando trigica e cinicamente seu lugar na historia, confessando que fazem eco ao desinteresse de que sio objeto, tomando por forma de acio o crime. Aqui sobrevém uma irregular existéncia que se cria e se desfaz 4 medida que as palavras sio ditas: acontece simplesmente que a histéria oficial dessa vida é finalmente aquela do antincio de uma morte apés acusagio de atentado, acontece que existe uma histéria sob a histéria que fiz parte desta histéria. Seria preciso saber fazer falar a irregularidade original, esprei~ tar 0 acontecimento ld onde menos se espera, compreender que a historia se passa 16 onde tudo passa como se nio houvesse historia alguma, a fim de “nunca barrar 0 caminho 3s intensidades atuais da vida e de suas criagdes”. Visio utépica do historiador? Sem divi- da, Pelo menos, continuo persuadida de que “as palavras [...] sio mais teimosas do que os fatos” (RANCIERE, 1993a, p. 195) e de que 6 historiador se afasta delas quando simplesmente as explica sem ergué-las em seu momento nativo de enunciago e no que fazem surgir como tipo de acontecimento que fabrica tempo e sentido. E por que nao crer que, se 0 historiador tivesse sido mais perturbado elas palavras de outrora, 0 presente no teria talvez este rosto in- decidivel, indecifeivel? Com Michel Foucault, zombar das origens? O texto é iconoclasta: é aquele escrito por Michel Foucault em 1971, intitulado “Nietzsche, a genealogia, a histéria”, em que © autor “[ri] das solenidades da origem” (1994i, p. 139) e se opde com vigor ¢ zombaria 4 procura da origem, explicativa de todos os fenémenos que a seguem e em que, de fato, nfo se recolhem mais do que formas iméveis em que nos comprazemos sempre 81 uanes rsa a HsTOUA em acreditar em idades de ouro, em comesos plenos de perfei¢io, empanturrados de serenidade e beleza, aqueles mesmos que o tem- po teria em seguida pervertido. Para Foucault, essa visio é filsa, tragicamente errénea: ele afirma, 20 contrario, nesse texto intenso, veemente ¢ soberbamente escrito, que “é preciso manter 0 que se passou na dispersio que lhe é propria” (1994i, p. 141) ¢ saber reconhecer que “de fato, 0 comeso histérico é baixo, ittisério, irénico” (1994, p. 149), Esse texto desinstala porque quebra uma parte dos pressupostos de toda pesquisa ¢ desfaz numerosas bases estabelecidas hi tanto tempo. Esse texto é um tumulto da razio, em que a razio deve se desfazer da ideia de obrigatéria origem para tomar os caminhos originais da dispersio e do esfacelamento, Entretanto, que os comecos histdricos sejam “baixos, derrisé- ios, irdnicos” ndo é nem uma invengio filosofica nem a afirmacao sardénica de um autor do século XX particularmente turbulento; os arquivos judiciais do século XVIII e seu longo cortejo de processos- verbais e de interrogat6rios ilustram bem o que isso quer dizer. Com feito, © acontecimento, a derrisio e a falta se formam através de ‘uma infinita espessura de desordens, de rancores, mas também de Iutas e encarnicamentos que acabam por trazé-los & luz. E, quando Foucault (1994i, p. 144) escreve: “A emergéncia é portanto a en- trada em cena das forgas [...], designa um lugar de afrontamento”, ‘© que acontece © mais das vezes, hi a exterioridade do acidente, do imprevisivel, a condugio tranquila ow a forca de conflitos, e 0 que sobrevém emerge desses lugares improviveis mas reais, onde falas se confrontam, saberes e normas se cruzam, restrigdes ¢ trans- gressdes nascem. Rejeitar a ideia de uma origem ideal nao quer dizer rejeitar a fliagio nem a genealogia; o que permite a Foucault (1994a, v. IH, p. 116-118) escrever ainda: “Nao somos nada além. daquilo que foi dito ha séculos, meses, semanas”. E se parece existir assim uma cadeia de palavras, esta nada tem de linear nem de liso; é antes da ordem do esquartejamento, da individuagio, tecendo ‘uma estrutura trigica, dispersa de acontecimentos e de falas de que podemos encontrar as condigdes de emergéncia, Uma ciéncia, um discurso, um mecanismo politico ou social, desenrolamentos de 82 Do aconmtewenro tempo sio entio construidos desses pedagos de sentido de irrupgio intempestiva. E preciso saber reconhecé-los ¢ dizé-los. Em 1951, Roland Barthes (1993, p. 91-102) escrevia: “A hist6ria € um sonho, porque conjuga sem espanto e sem convicgao a vida e a morte. Em sua longa sucessio de fatos recontados, a histéria sonha pouco, pois quase nao se admirou, diante da heterogeneidade dos sujeitos e temas postos em cena, a vida excessiva ¢ reparou apenas nas grandes regularidades de fenémenos coletivos, anotando para melhor integri-las as falas de uns e de outros que diziam outra coisa que nao essa regularidade. Fazer falar 0 acontecimento, por certo, ‘mas permanecendo surpreso por ele; eis 0 que pode fazer 0 histo riador através de seu gesto simples de coleta dos fatos. E se é preciso se assegurar quanto a uma construgio do relato histérico que obrigue a novos espantos ¢ a irregulares horizontes de leitura, basta escutar uma vez mais Michel Foucault semanas (1994a, v. IIL, p. 145) a este propésito: “A historia nao tem sentido, © que nio quer dizer que é absurda ow incoerente. Ao contririo, 6 inteligivel e deve poder ser analisada quase em seu menor deta~ Ihe: mas segundo a inteligibilidade das lutas, dos movimentos, das cestratégias e das taticas”. 83 Da opinido Em nenhum caso, trate-se de hoje ou de outrora, a opiniio & redutivel a medida média de seus contetidos ou ao inventirio minu- cioso ¢ exaustivo das reagdes singulares que a compéem. A opiniio tampouco pode ser 0 objeto de uma “selecio de instantineos””, pois desborda amplamente o acontecimento sobre o qual se apoia; em certa medida, 0 constr6i por seu modo de reagir, de nele fazer entrar uma memiéria ou memérias, de nele perceber formas de porvir. Em torno de um fato que esti se produzindo, existem tantos alvitres ou sentimentos expressos quantos pensamentos silenciosos. ‘As percepgdes de um mesmo fato sio varidveis a0 infinito: mani festas e imediatas, laventes ou caladas, cristalizam-se na hora ou, a0 contririo, tardam a se transmutar em opinides visiveis e percepti- veis, De fato, a linguagem da opinido é opaca, de maneira que ¢ preciso evitar certas facilidades de interpretagio a seu respeito: por exemplo, consenso no é sinénimo de adésio, ficar em cima do muro nio significa ser indiferente; o siléncio no é forgosamente signo de cumplicidade com o que acaba de ocorrer. Da mesma maneira, as ambivaléncias, as contradigdes as ambiguidades dos alvitres sobre um mesmo acontecimento nio impedem que a coe- réncia e 0 sentido se organizem a seu redor. A opiniio é um lugar emaranhado onde a meméria, o saber, a informagio ¢ a projegio sobre o presente ¢ porvir se mesclam para 0 desenhar; através das. mani- A expresio & de PieseLabosis em seus tabalhos e smindrios cf. Pere Laborie (1990), 85 WOARES pana a sro tensdes ¢ das distorgSes de suas formas de expresso nota-se uma bocado de heterogeneidade. F preciso portant levar em conta suas miltiplas inflexdes, aquelas que vao de sua mobilidade fluida a suas formas de expresso mais mascaradas, muitas vezes secretas, Simultaneamente organiza-se 0 sentido geral da opiniio enquanto existem vozes singulares ¢ timicas a serem levadas em conta também, relato do historiador conjuga a andlise do plural com aquela do singular, com o cuidado de nao deixar este ser absorvido por aquele, ‘Como Marion,* personagem furtiva da peca de teatro de Georg Biichner, A morte de Danton (1953), que interpela rapida- mente Danton e desregra seu discurso, toda voz singular desregra a ordem do discurso histérico. Aqui — compreende-se — a voz de ‘Marion simboliza aquela de toda pessoa ordinaria que fratura 0 curso habitual dos acontecimentos por suas palavras ou atitudes, Essa voz se articula sobre aquela dos outros, mas nao se fiande naquela dos ‘outros: ha por um lado irrup¢io, por outro desvio. A articulacio entre as vores singulares e a expressio dita coletiva da opiniio marca lum espaco que se pode estudar: pode-se descrever, analisar a um s6 tempo a voz singular e sua capacidade de desvio em relacio 3 norma, assim como seu modo de articulagio sobre a comunidade social. Sem voltarmos a um tema desenvolvido em outro livro (F: "ARGE, 1992), podem 108 refletir sobre as formas de expresso da sociedade popular do século XVIII e sobre a maneira como a histori tomé-las matéria sua, oshnors pols As palavras, os gestos, a atividade simbélica Bem entendido, as fontes principais se encontram ainda uma vez recolhidas nos arquivos judiciais do século XVIII, mais parti- cularmente nas notagdes dos observadores da policia, feitas no dia a dia por ordem do rei, os relatérios de inspetores e espias postos nas encruzilhadas, nos passeios e nos cabarés, os processos movidos contra aqueles que levantam criticas contra o rei e mantém aquilo que se chama “maus discursos”, as pegas judicidrias conservadas * Agmadego Jean-Christophe Baily (1988, p. 117-122) ter strido minha sengio seta penonagers, 86 Drom nos Arquivos da Bastilha e alhures concementes a siiditos pouco reverentes em face da realeza, os fundos manuscritos conservados na Biblioteca Nacional (Fundo Joly de Fleury, por exemplo) em que se encontram inscritas as notas sobre a opiniio dos siiditos do rei no momento dos grandes acontecimentos (0 atentado de Da~ miens contra Luis XV em 1757, por exemplo). Podemos também encontrar diversas informacGes nas folhas volantes (0 mais das vezes manuscritas), nos cronistas € nos memorialistas: mas aqui as reali- dades transctitas sobre © humor da populago tém outro estatuto, uma vez que passam pelo olhar de um narrador que restitui a sua maneira 0 acontecimento e suas consequéncias.”” Tudo isso restitui palavras ¢ falas sobre as questdes pablicas do tempo; aquelas mesmas que sio sempre denegadas pelo poder como sendo “insensatas” ou frequentemente qualificadas de ins- tintivas demais para serem razoaveis. Sio, no entanto, procuradas pelos observadores ¢ pelo rei. A monarquia nio percebe essa estranha contradigio que a faz se interessar pelos stiditos como fonte de informagdes preciosa no momento mesmo em que esses ‘mesmos stiditos s0 qualificados de ineptos. © movimento que se forja entre 2 a¢do da monarquia ¢ a fala ativa da populagio um lugar histérico onde se 1é, de maneira clara, a interacio entre uma denegacio e uma fascinagio que vém do alto e que terminam por suscitar uma fala popular, nao estimada, embora perseguida como ‘eventualmente ameagadora. . Os dossiés dé arquivos, repletos de falas,vivas e fortes, fizem ver a que ponto a populagio vive durante o século XVII em sistema de inteligéncia com aquilo que vé, sofie e escuta. A cada acontecimento, trate-se de guerra ou do prego do pio, de tratados diplomiticos, da vinda do rei, de partida a0 estrangeiro ou de fatos diversos, falas se pronunciam definindo as formas de recepgao de ‘uma populacio vida de informagdes e que constréi, muito rapido, com seus proprios meios, o sentido daquilo que vé. Guardando a meméria, projetando-se adiante, essa populagio desenha, a golpes © As foes ctfo em ger conervadas nat scien X ¢ ¥ dos arguivosnacionis © os arquivor da ‘Bula consereados ma Biblioteca do Asenl 87 — LUGARES Pana A HSTORLA, de palavras, trajetos da opinido em que o julgamento sobre a coisa piblica cria novas agdes, esperangas ou intengdes. A coroagio de Luis XV, por exemplo, transportow o rei ao coragio de uma onda de falas e de reagdes em que tentam se conciliar a esperanca de um novo rei que ndo extenuaria seu povo com guerras cruéis e a imagem simbolicamente pesada e majestosa do precedente Rei-Sol, guerreiro e vencedor. Luis XV recebia da populagio o presente envenenado dos trajetos contraditérios de uma opinio cujos fios nio saberia verdadeiramente desatar Poderiamos tomar outros exemplos (Farge, 1992), mas é pre~ ciso antes acrescentar que as falas, as palavras ditas no sio as tinicas a fabricarem uma ow virias opinides. Uma comunidade social se exprime também por gestos,ritos e priticas observaveis; sdo eles que declinam o sentido das aspiragGes ou dos descontentamentos. Os ges- tos € 0s usos sociais, tanto os espacos quanto os ajuntamentos, nfo sio evidentemente operages intelectuais como os escritos e as palavras, ‘mas esbocam atitudes que se carregam de significago. Distanciar-se do rei, por exemplo, ou empreender por momentos uma sorte de desafei¢io em face dele, pode-se fazer pelo viés de comportamentos discemiveis no dia a dia. Roger Chartier faz a demonstracio disso em As origens culturais da Revolugio Francesa, o que The permite escrever: “A desafeigio em face do soberano nao é alids necessariamente o resultado de uma operacao intelectual, Pode se instaurar na imediatez de priticas ordinarias, dos gestos feitos sem pensar, de falas que se tomam lugares comuns” (CHARTER, 1990, p. 108). Com efeito, sob 0 Antigo Regime, a opiniio popular nao se “mede”; s6 se a adivinha examinando nao apenas as falas, mas também atos ¢ comportamentos. Além disso, esses gestos e atitudes tém 4s vezes por alvo fatos bem diferentes dos acontecimentos tra- dicionalmente assinalados; ligam-se frequentemente a fatos diversos, espeticulos, rumores, conflitos privados e informam sobre a maneira como 0s stiditos entreveem, julgam e vive suas relagdes com o Conjunto da sociedade. O acidente que fez 300 mottos, ocorrido em 1770 quando da festa de comemoracio do nascimento do delfim, Provocou numerosas reagdes que se explicam também pela maneira como varios outros acontecimentos no mesmo momento foram 88 Da ornsto estimados e qualificados. E assim quanto a numerosos fatos - grandes ou pequenos ~ que sobrevém na vida da cidade; da mesma forma pode-se afirmar que certos lugares (igrejas, cemitérios, passagens, cabarés) provocam formas precisas de conciliago ou de disputa, liberam imaginérios em que a opinifio se faz e se desfaz, exprimindo assim seu modo de aprender um real que é ele também distribuido lugar por lugar. © espaco cria o movimento ¢ o julgamento; quanto 4 posigo dos mortos, aquela de Deus ow ainda do pio, todos esses. lugares constroem atitudes mentais ¢ decidem de campos de acio onde a reivindicagio, o descontentamento se combinam por vezes com a adesio. Di-se espaco 4 atividade simbélica, assim como a carga sim- bélica das relagdes dos membros dos grupos sociais com um poder ele proprio extremamente ritualizado e 3s manifestagdes que dele recebem. As entradas reais, os Te Deum, as festas, as niipcias, os castigos e suplicios, os espeticulos na Opera, o Palicio de Justiga e seus faustos abrem para espacos legiveis em que o olhar dos siiditos inscreve a parte de sua expectativa e de suas desilusdes. Da mesma forma, na vida de todos os dias, a presenca dos mortos, a doenga, os gritos da rua, os ritos de camaradagem e as ceriménias de confrarias engendram muitos implicitos e julgamentos, Essa maneira de viver acarteta nfo apenas gestos mas também julgamentos, pensamentos imediatos. Nio é necessério para um grupo social produzir cons- tantemente a afirmagio explicita de sua situago; ele possui ademais uma linguagem implicita, aquela de sua atividade simbélica que o faz, por exemplo, aproximar-se do sagrado ot insulté-lo, partici par com indiferenga ou entusiasmo das ceriménias obrigatérias. O proprio siléncio detém sentido a interpretar. As falas proferidas, os panfletos escritos nos muros, as priticas sociais ordinirias no esgotam o conjunto das opinides e dos sen- timentos que uma populacao possui para refletir e agir: a recusa de izer, a linguagem implicita, 0 sonho e a ilusio, o medo, a expec- tativa, a denegacio silenciosa sio outros tantos polos maiores que requerem atengio. Fantasmas e sonhos criam a cultura e a histéria. ‘© mesmo acontece com a emogio. 89 ones ae a stom As disposigées emotivas dos siiditos do rei No século XVIII, a monarquia e as elites desqualificam a po- pulagio pelo cariter emotivo de suas reagdes. Desqualificada, sua emogio é rapidamente tornada suspeita: a0 mesmo tempo “imbe~ cil” ¢ perigosa, a emotividade popular é um pulso que bate ripido demais ¢ que é preciso vigiar. Os textos da época estio repletos dessa crenga na animalidade perigosa das multidées, ¢ 0 historiador é obrigado a trabalhar a partir desses julgamentos sobre a popula- gio. E-the ainda menos ficil se desfazer deles visto que no século XIX 0s questionarios e as grades de interpretagio dos historiadores reproduzem essa inquietagio em face da periculosidade popular ¢ manifestam uma atitude defensiva perante todo surgimento de manifestagdes emotivas. Varias teorias sociais fizem um mau juizo sobre as condutas das multidées, sublinhando o desregramento de seus atos ¢ de seus pensamentos, a efeminacio de suas atitudes, a animalidade de suas necessidades. Uma populagio presa da emocio tem mais a ver com a animalidade do que com uma racionalidade qualquer, diz-se © peso da denegacio de todo julgamento ¢ de toda logica nas priticas emotivas populares nio facilita a tarefa de quem quet justamente ser tocado por elas, estudé-las e fazer aparecer a emogio como um tipo banal de reago social cujas formas so portadoras de julgamentos. Bem evidentemente, a questio das emoges opostas 20 julgamento ¢ a razio no data de ontem e nfo escapou aos filésofos que trabalham desde a Antiguidade sobre a razio e a paixio ~ basta pensarmos em Platio ou, bem mais tarde, em Locke opondo-se a agitacio das paixdes geradoras de ideias falsas. Nao deixa de ser es- tranho que essa pesada heranca (que se intensificou no século XIX com Le Bon, Tarde, Taine) no tenha sido desmontada para set retomada em termos novos nas ciéncias humanas e sociais contem- pordneas. Mesmo se & preciso confessar que as sociologias anglo- saxnica ¢ francesa publicaram enormemente sobre essa questio, em termos, aligs, contraditérios,® parece que raramente se percebeu * Chon. 6 da revista Raion pratique, 1995, La colour des pene: sentiments, émotions,inten- ‘ors, Lembremos também Senge Mosovii, Lge dos (1981). 90 Drcmuo ‘que a responsabilidade primeira de nossos modelos de racionalidade éa de terem contribuido por muito tempo para manter a distincia 05 sujeitos ditos “emotivos”, as mulheres, por exemplo, ou outras minorias ativas, Apesar da constatagio pessimista, € preciso correr © tisco, levando em conta a literatura recente, de trabalhar sobre © campo emocional como construtor de histéria ¢ de lago social. Um dos trabalhos de Luc Boltanski (Borrans«; Goner, 1995, p. 30-76) a que faremos referéncia vai nesse sentido e permite pensar em termos mais liberadores. Para trabalhar sobre as formas constitutivas da opinio piiblica no século XVIII, a componente emocional é um dado essencial. io restam davidas de que ha uma légica social dos afetos (Farge, Revel, 1986), mas é preciso ainda ler os momentos irruptivos de emogao que vém dilacerar o tecido social a fim de estudar sua po- téncia de producio de meméria, de pensamento e de julgamento. Em certos momentos, a emogio sentida por um grupo social ou sexual em fice de um acontecimento é propiciadora de ago e muda © curso das coisas, provocando novos acontecimentos sobre os quais eventualmente se apoiaré mais tarde. Diz-se com frequéncia (¢ 0 rufdo vem de longe: dos estoicos, depois de Descartes, Espinosa ¢ tantos outros) que, por mais que a emogio esteja do lado da inteligéncia, por mais que faga parte de uma verdadeira operagio cognitiva, ela provoca julgamentos falsos (Nusspaum, 1995, p. 20-31). E verdade que, se a emogio é um género de pensamento, ela pode “tomar um caminho falso”, mas isso significa esquecer que um pensamento também pode tomar um caminho falso sem por isso ser negligencivel. Nenhuma razio, pois, para nio trabalhar sobre a emogo como julgamento. O “aquilo- que-foi-feito-por-emogio” est Id, mesmo que discutivel, produz veridicidade e efeitos, forja laco social, muitas vezes paixdes, e deixa tragos que a meméria reaviva pelo jogo das imagens, das metiforas ¢ da Jembranga dos sentimentos que intervieram. O fluir dos afetos € a vinda da emogio em momentos particulares do tempo social niio sio por esséncia atividades desordenadas, mas um colocar em ago sensagdes e reagdes que nascem e se movem no interior de um grupo (vizinhanga, imével, familia, bairro, ceriménia), cujo a canes ana a srON olhar transformam provocando sistemas de pensamento e de agio que se transmitem rapidamente no interior ¢ no exterior do grupo concernido. A emogio que faz agir se assemelha a um frémito que percorre o corpo. Empregando essa metifora, dé-se peso aqueles que colocam a emogio do lado dos sentimentos pouco aceitiveis porque “frementes”, mas podemos também nos apoiar sobre uma das frases de Luc Boltanski no estudo citado mais acima: “A emo- io € a um s6 tempo operador de julgamento [...] e da forma que toma o engajamento [em face do acontecimento julgado] [...]. E uma exteriorizagio da interioridade. ajuntamento em tomo de uma causa, a configuragio de um coletivo se faz pelo contigio das emogdes que fazem circular a liga de interioridade em interioridade (Bouransxr; Gover, 1995, p. 39-40)”. A partir de entio, “a emogio entretém um lago estreito com a verdade”, 0 que muda as pers- pectivas e permite reatar com o senso comum, As ciéncias sociais ¢ historicas tiveram tendéncia a rejeitar 0 campo emocional para 0 campo fisiolégico, para a irracionalidade ou ainda para a manipu- lagio sordida de sentimentos. A emogio & uma das manifestagdes da verdade que desvela novas realidades e permite engajar-se nelas. Hi um “sentido ordindrio das emogdes” (BoLTaNskr; Gover, 1995 p. 42). Existe portanto uma histéria desse sentido e desse curso, Estudando fenémenos de opiniio (popular ¢ politica), levan- tam-se numerosas atitudes emocionais: elas nio “deterioram” a opiniio, fiandam simples ¢ naturalmente uma parte dela, Em tomo dos antincios de guerra, do aumento dos pregos do trigo e do pio, das execugdes capitais ou de fatos diversos monstruosos, emo¢des expressas ou implicitas surgem. Enunciam uma “disposigio” dos expiritos e dos coragées daqueles que assistem a eles; fabricam “moti- ‘yos” patticulares que desenham modos diversos de compreensio dos acontecimentos. Transmitindo-se, as emogdes dizem algo de uma ‘expectativa ou de uma projecio sobre o porvir. As disposig&es emo- ciomais dos atores sociais, mesmo que efémeras, marcam momentos precisos ¢ tragam sulcos onde se alojam a meméria e a visio do porvir. Assim, juizos de valor aparecem gragas a essas emogdes: em certos casos, esses juizos fazem evoluir os pensamentos e permitem que o presente seja criticado em nome de um porvir esperado. Um. 92 Da ornate pensamento critico se organiza em tomo dos afetos ¢ com eles. Foi assim quando dos raptos de criangas na Paris de 1750 que criaram emogio e emogdes; 0 mesmo acontece, mais ordinariamente, com ‘os motins de cadafalso que organizam em tomo da execugio um sentimento de intolerincia que transforma — a curto ou a longo prazo ~ as modalidades das execugGes e dos castigos corpora. ‘As condigdes de produgio da emogo séo por vezes surpreen- dentes: ocorre — e muitos documentos ou textos o provam — que 0s sentimentos emocionais sejam cientemente solicitados pela mo- narquia, O rei, na retérica que entretém com seus stiditos, aspira 4 efusio coletiva de seus siiditos, criando um corpo mistico e real entre elec cles. Os Te Deum, as entradas reais, 0s grandes fogos de artficio por ocasiio dos casamentos principescos buscam as aclamagGes € 0 fervor dos siiditos. Um espaco é portanto criado pela monarquia, para que se formem signos de efusio comunitiria em face dela. Es- paco desejado, mas simultaneamente temido, uma ver que 0 rei ¢ seus principes sentem pavor e repugnancia em face do “populacho emocionado”. Nessa interagio, desejada pelo rei, entre seus siiditos cele, coloca-se desde o principio certa desconfianga, aguela que em certos casos vai justamente criar emogdes pouco tranquilizadoras para a monarquia, A efervescéncia emocional da sociedade se aloja nos intersticios: é movente, complexa, solicitada, nio advém sem- pre com 0 rosto esperado. Mesmo conduzida ¢ incitada em certos momentos precisos pelo rei, pode lhe escapar ou tomar diregdes diferentes das esperadas; pode inventar outras disposicdes, outros tipos de respostas surpreendentes € inteligentes, contrastadas. Em todo caso, a faculdade de emocionar € um tisco tomado pelo rei, pois 0 modo de aparicio da emogio assim como a escolha de seu ugar e suas consequéncias no podem ser inteiramente controlados. Toda resposta emocional, mesmo suscitada, permanece livre em suas modalidades: mas, tenha a forma que tiver, toma emprestada a linguagem da sensibilidade comum, 0 que a torna possante. A emocio é uma disposi¢io banal dos corpos ¢ dos espiritos; apoia-se sem desvios sobre situagdes, falas, espetéculos que refletem sonhos comuns e simples veiculados na cultura partilhada de todos 0s dias: a morte, 0 sol, 0 perdio, a separagio, o amor, 0 medo, a 93, Woases rata a ron vontade de passar da infelicidade 4 felicidade, por exemplo, sio algumas de suas maiores apostas. Apostas triviais, certamente, mas que pertencem a todos e elaboram visies do mundo sensiveis ¢ consensuais. Essa “simplicidade” do afeto nio deve ser neglicen- ciada, nem por sua simplicidade nem por sua medida comum, e podemos trabalhar seus motivos sem desprezo. Da mesma forma, podemos, como historiadores, estar nés mesmos 3s voltas com uma emosio pessoal diante do que lemos e analisamos: é outra partilha a assumir, uma maneira modesta de aceitar que 0 “intelectual”, como qualquer um, esté s voltas com o lugar-comum dos sonhos € dos sofrimentos sentidos. A emocio nio é uma tela, mas uma ferramenta, uma forma de inteligéncia aguda que se confronta 20 Conjunto das realidades humanas, mesmo que transformadas pelas grades da andlise e do estudo, A percepsiio estética dos fatos e dos acontecimentos politicos Julgar em termos estéticos o fandamento de uma decisio pol tica ou de uma ceriménia real no é raro. Ainda mais que o proprio rei e seus principes se servem explicitamente daquilo que chamam 4 “beleza”, uma beleza cujos caracteres jamais definem, mas que designam como evidente e universal o bastante para assentar seu poder, sujeitar seus siditos e fundi-los numa mesma percepeio feliz de seus feitos e gestos. A realeza se mostra ¢ utiliza seus proprios ctitérios do “belo” para reger suas festas, seus lutos, suas vit6rias e seus deslocamentos: a magnificéncia 6 uma palavra soberana que guia 08 atos reais, influi sobre os siiditos e deve seduzir uma populagio confundida, diz-se, pelos esplendores e pelos faustos desdobrados diante dela. Mas as formas da beleza utilizadas pelo rei no sio sempre per- cebidas favoravelmente pelos stiditos: ha momentos e tempos em que a beleza outorgada, vinda de cima, nao esta ao gosto daqueles que supostamente devetiam recebé-la com prazer e contentamento. A “beleza”, sem outta definigio que nio ela mesma, sem carac~ teristicas precisas além da de estar acoplada mecanicamente a toda exterioriza¢io do poder monirquico, nio é forgosamente recebida 94 Dacensto na populagio da mesma maneira que é, de certa forma, administrada. Nio é recebida “regiamente”, poderiamos dizer. Basta examinar um pouco as reagdes populares para saber que a “beleza” deve saber coincidir com as necessidades da populagio; E belo o que é justo, diz-se, e prolonga a ideia do bem. HA osten- tages desgraciosas e espeticulos monirquicos em que a inflagio da beleza ¢ do cenario, da riqueza extrema, manifesta um sobrelango excessivo. Esse sobrelango, assim como a eventual beleza da pompa monirquica, pode se tornar objeto de feiura, de repugnincia, pela inadequagio absoluta com as necessidades e os sentimentos de uma populacdo molestada por numerosas preocupagées. Hé portanto formas de beleza julgadas ineficazes, ainda mais que a ret6rica real, Jogando com o belo ¢ 0 bem confundidos, di a seus stiditos a ocasiio de compreender que o bem por vezes ni esti no interior do belo, Oaspecto moral que faz sentir com acuidade a nogio de justiga © aquela de necessidade autoriza cada membro da sociedade a for- mular um julgamento estético e ético sobre aquilo que Ihe é dado ver. Nenhuma representacio piiblica do poder pode prescindir da |justeza, da justiga, nem da fundamentagao de seus signos. A histéria esti repleta de exemplos desse género, ¢ espantamo-nos por vezes gue os reis do século XVIII, cumulados de virtude e de bondade, no tenham percebido as faltas inerentes a suas gloriosas propostas festivas ou punitivas. Remontar a Cicero pode parecer distariciar-se demais do tempo estudado aqui; entretanto, em sua tiltima obra, © De Offs, o autor- orador reflete sobre esse aspecto essencial do poder que considera um_ dever maior. “E preciso”, escreve, “conipreender que os homens costumam perguntar-se ndo apenas se um ato é belo moralmente ou vergonhoso, mas ainda entre dois projetos moralmente belos, qual o mais belo” (Cicero, 1974, tI, livro I, p. 152). Aquele que governa deve deter a beleza moral; € nesse sentido que que em- preende é aitil ao lago social construtor da nagio, a functio societatis, A beleza moral, a partir de entio, se define pelo discernimento do verdadeiro, a salvaguarda dos interesses da sociedade e da justiga, a grandeza de alma assim como a ordem e a medida dos atos e das falas. O combate pela salvagio comum é uma “beleza” reconhecida 95 Wats pa a ioe por todos como necesséria. E Cicero (1974, t. Il, livro Il, p. 30) acrescenta: “O belo assim concebido comove todas as almas por sua natureza e seu aspecto exterior”. Hi entdo “belezas” mal concebidas ¢ muito pouco justas que no dio mais emogio ou ainda que suscitam indignagio, isto 6 um sentimento emotivo e racional de rejeigio e repulsio em face de seus autores. A relagio dos stiditos — como se vé bem no século XVIII ~ com a atualidade politica e mondrquica é uma maneira de pensar € de sentir 0 que é visto através de um prisma em que beleza, justiga ¢ bem devem sobriamente coincidir. Se seguimos a um s6 tempo Kant e Michel Foucault comentando-o, quase dois séculos depois, a propésito das Luzes e da Revolugio (Foucaurr, 1994), p. 679-688), percebemos que o acontecimento é essencialmente constituido pelo espeticulo que impée e a disposi¢io de espirito daqueles que assistem a ele, julgando-o entre entusiasmo por seu conteiido ¢ esperanga rnaquilo que produzira talvez. Momentos hist6ricos foram inflectidos pela disposigao de espirito daqueles que os viveram e assstiram a cles; seu sentido foi definido por eles, seja de maneira positiva, por nele verem generosidade e moral, logo beleza, seja de maneira negativa, por nele lerem feiura, desprezo, por vezes mesmo impudor. Reto- mando 0 exemplo revolucionirio e as reflexdes de Michel Foucault a esse respeito, podemos ir mais longe e perceber que uma parte do eli revolucionitio foi também fabricado por aqueles que nio par- ticipavam diretamente dele, mas o sentiam e o reconheciam como elemento de sublime ou simplesmente de “beleza moral”. Nos mecanismos da opiniio piblica, o “prazer estético” nio tem um contetido universal, invaridvel, dado de uma vez por todas através do tempo. O gosto e o belo se inscrevem em condigdes historias e sociais de possibilidade, ou mesmo de necessidade, que ‘mudam de um momento para o outro. No século XVIII, a populagio urbana utiliza portanto capacidades e necessidades estéticas que sio a ‘um s6 tempo o produto de sua histéria, de suas condigdes de vida e do uso pessoal e coletivo que faz das “belezas” que lhe so outorgadas. ‘As classes populares sabem se apropriar das formas da beleza de acordo com o que esperam de um poder que deveria Ihes ser benéfico: verdade ¢ a beleza sio motivos de luta (BouRDIEU, 1994, p. 231). 96 Dk mates Neste sentido, numerosos acontecimentos, grandes ou peque- nos, que tiveram lugar sob os reinados de Luis XV e de Luis XVI, provocam uma rea¢io que pode ser de ordem estética. Citemos alguns exemplos: a esmola para 0 povo no momento dos Te Deum péde ser diversamente apreciada de acordo com a maneira como foi realizada; Luis XV e a rainha, diz-se, demonstram maior despre- 20 do que o grande rei Luis XIV, cujos gestos eram considerados belos. Luis XV nio parte de maneira bela para a guerra em 1774, quando vai a Flandres, uma vez que é constrangido a fazé-lo e 0 faz acompanhado de sua amante, o que nio é do melhor gosto. No momeito da querela jansenista e das recusas de sacramentos (1752), as decises tomadas pela monarquia e pela Igreja sio julgadas de grande feiura, O termo € empregado, e nio é de espantar: como, na beleza ¢ na harmonia, deixar morrer alguém sem 0 socorro dos ‘iltimos sacramentos, ¢ isso porque seu confessor cometeu 0 finico erro de ser de sensibilidade jansenista? Para cada fato, acham-se convocados diversos tipos de im- presses e de sentimentos que dizem respeito ao belo e ao bem, Os adjetivos “belo/feio”, “justo/barbaro”, “bem/mal” qualificam 08 acontecimentos, modelam sua recep¢io. Neste caso, a meméria entra em jogo, como é o caso de Luis XV dando esmola, evocando a Jembranga (sem divida aureolada) de seu predecessor. Fascinagio ou repugnincia se formam rapidamente, inclusive a propésito de cada ato ou fato diverso cotidiano: nesse contexto movente, impetuoso, por que se admirar de que uma imagem fasta (nfesmo inquietante) se construa em tomo de Cartouche, o grande criminoso? Esse tipo de heréi é também um tipo estético. E no é a corrente dos conde- nados A galé atravessando Paris que pode corrigir esse julgamento, muito pelo contritio: sombria e sérdida, ilumina por contraste 0 rosto daquele que desafia a autoridade. A repugnancia se sobrepde a0 medo: atestam-no os testemunhos de policia, assim como os cenunciados dos cronistas. Em face dessas expresses sucessivas de entusiasmo ou de rejeic¢do, a monarquia manifesta, a maior parte do tempo, pouco discernimento, fiel neste ponto 4 forma de seu julgamento sobre ‘© meio popular, declarado inepto por esséncia e de antemio. 7 Loans pan a rd No entanto, a magnificéncia no pode se bastara si mesma: a popula~ io em todas suas ages prova que no a recebe como ela lhe é dada. A voz de Marion: opinides singulares e plurais Como articular um provivel sentido da opinifo coletiva ea realidade das opinides singulares? Todo consenso é finalmente he- terogéneo, uma vez que consenso & aquilo que é posto em partilha, Jogo em pedacos. O que fazer desses pedagos, dessas falas simples ¢ ‘anicas, que fazer, por exemplo, de Marion dizendo algumas palavras, em plena Revolugio, a Danton; em suma, como dizer Marion e sua comunidade, individuo em ou contra sua comunidade? A questio no é nova: Michelet a colocou a sua maneira, Marcel Schwob igualmente, como tantos outros. Michelet e a medida do instante” Segundo Michelet, capturar o homem em sua individualidade 6, para o historiador, capturar a generalidade da vida popular: “Nao hi nada de tio nobre”, escreve, “quanto aquilo que se distancia das individualidades, 0 que é principio, abstrago (Emits de jeunesse, I, p. 84).”Assim, & bom “puxar” o individuo para o principio geral. A contradi¢io sentida entre individuo e povo se resolve pela heroicizagio deste iiltimo: “No topo povo, s6 ele € 0 he- 16i (Journal, t. Il, p. 162)!”. Nao & portanto necessirio entrar no detalhe das individualidades, mas essa posigio relativamente nova contradiz a visio romantica de um Thomas Carlyle, por exemplo, para quem o importante é antes de tudo “o triunfo do individuo, 2 afirmagio, contra 0 povo, da superioridade do grande homem” (Pouter, 1964, p. 257) Em seu Diério, Michelet chega a duvidar de sua propria posigio: inquieta-se progressivamente com o fato de que seu procedimento (uma visio julgada por ele talvez demasiado geral) vira as costas “vida concreta”, & singularidade de cada um. Em 1839, atormenta~ se com isso ¢ sente como que um remorso, Vai mesmo além desse Para este captlo ver paricularmente POULET, 1964, v. 1V, La meaue de Vint, cap. XI, “Michele” p. 253-275 98 Da mater sentimento e toma consciéncia de que nao hé histéria sem morte da pessoa ¢ que o historiador consente facilmente demais nessa morte. Eis como Georges Poulet (1964, p. 257) comenta e descreve sua reflexio: “Renunciar 4 pessoa humana para escolher a generalidade da humanidade é renunciar ao ser vivo [...] renunciar 3 generalidade é renunciar & hist6ria”. Dilema que tem acentos atuais.°? Michelet © resolve a sua maneira: inventa de certa forma uma lingua, um ritmo de escritura, uma suntuosidade das metéforas que querem fazer crer na reuniio do “eu” e da hist6ria. “Cada homem é uma humanidade”, escreve no tomo IV da Histbria da Franga, ou ainda, ‘mais intenso e mais intimo, em seu Didrio: “Eu sou 0 povo, eu sou a humanidade”. Parece-Ihe consumada a alquimia entre ele proprio, cada sujeito de historia, © povo e o género humano. ‘Apesar da beleza do relato micheletiano, compreende-se que esse modo de identificagiio entre ele e 0 povo anula de fato a relagio tio viva e complexa entre a humanidade e a opiniao singular. Ora, esta é ja, em si, um objeto de histéria, um lugar no qual a historia intervém: cada época, cada tempo, mas também cada acontecimento produz um vinculo particular entre o individuo e sua comunidade. (© que se passa entre eles no é uma relagio de tipo universal, mas uma histéria que pode ser decifrada ¢ interpretada. £ no momento ‘em que compreendemos o sentido e 0 contetido dessa relagio his- térica que 0 individuo em sua comunidade pode ser contado. Cada século fabrica a historia especifica dessa rela¢o, em movimentos ¢ tensdes incessantes. Michelet, para alcangar o individuo, para contar © humano, nio percebeu que eles tinham historia entre eles. Marcel Schwob Em 1957, as primeiras palavras do preficio de Marcel Schwob is Vidas imagindrias sio as seguintes: “A ciéncia hist6rica nos deixa na incerteza sobre 0s individuos”. Essa incerteza arrasta definitiva- ‘mente o autor para a arte e o distancia da historia: “A arte é 0 oposto das ideias gerais, s6 descreve o individual, s6 deseja 0 tinico. Nio » Expresosno que conceme Ahtria no iv tad de Jacques Ranciee, Os nome dei Bates scents eso presente em fodo nono fn de clo, na mprens, na mis, mas mane de ilar ‘de nose histria do presente, oxide ene generldare mpordinciaatbulda is wstemunhas, 99 WOARES pata mTOR clasifica; desclassifica”. Marcel Schwob insiste nesta desclasificagio; é preciso, escreve, “contar com o mesmo cuidado as existéncias tinicas dos homens, quer tenham sido divinos, medfocres ou criminosos”, Como Schwob, insisto nessa desclassficaco, nesse cuidado, mas sem abandoné-los inteiramente & literatura; a histria pode conter esse jogo astuto, feliz ou softido da opinio singular, desde que desclassifique, desorganize o relato, para lstrar a narragio de quebras e de pesos de vida irregularmente ordenados fora do sentido geral das coisas Marion Marion é portanto este personagem andnimo e furtivo da pega de Georg Biichner (1953), A Morte de Danton, a0 qual fizemos alusio ‘mais acima, Nessa meditagio sobre a histéria ¢ sobre 0 jugo do tem- po, Biichner faz conversarem a politica e a Revolugio Francesa por intermédio de seus atores, Robespierre, Danton, Hérault e Camille Desmoulin, Marion intervém uma Gnica vez no primeio ato, na cena : nfo se sabe quem é, mas fala a Danton, ¢ isso uma tinica vez, em seu quarto, descrevendo-Ihe em palavras simples o que é sua vida e que cor tomaram os dias quando viu pela janela carregarem numa padiola seu amante afogado. Fratura a pega com seu relato singular, mais andnimo do que todos os relatos anénimos: “Carregavam-no numa padiola”, diz ela, “a lua brilhava em sua fronte palida, seus cachos estavam molhados, tinha-se afogado, Pus-me a chorar.” Danton responde: “Por que nio posso conter toda tua beleza em mim, absorvé-la totalmente?” (BUCHNER, 1953, p. 31). Por essa fala, Danton parece compreender. Compreende que uma parte da historia reside nessa fila ténue e softida que nada tem a ver com a algazarra da Revolugio. Marion fala uma lingua transtornante e Danton, a menos que seja Biichner, sabe que nem ele nem a histéria podem reter ou acolher esse instante de luz crua e singular. Marion esti lé, na peca de teatro, soberana pelo talento da mise-en-scéne de seu autor, mas excluida. Excluida do discurso da hist6ria, permanece em softimento, Que fazer de Marion, de sua entrada em fala que esté a contratempo no palco da Revolugio e que é a propria existéncia? Hi uma maneira cémoda e insatisfat6ria de inscrevé-la no curso da histéria, e essa maneira todo mundo a conhece. Basta colocar Marion como uma anedota, a titulo de exemplo ou, ainda melhor, 100 Dacmnto “entre aspas”, para dispor de sua fala como se usa um bonito cenirio. A citagio, assim concebida, esté ld para ilustrar a teoria que precede, dar um pouco de cor & austeridade dos enunciados sustentados e a sua generalidade abstrata, Marion 6 citada, mas nfo levada em conta realmente. Se deve haver citacio, que se incruste no campo do discurso para perverté-lo, obrigue-o a dobrar-se a uma nova ordem que seria aquela do descontinuo ¢ do estabelecimento do desvio como desvio. Quando Marion, no teatro, fala a Danton, trata-se de um efeito particular de cena, mas a realidade historica é talveza seguinte: Marion fila verdadeiramente a Danton, ¢ a hist6ria analisaria a tensio que sobrevém entio entre o singular e 0 coletivo. Essa voz sem lugar interpela “o” lugar. Voz vinda de alhures, que diz outra coisa, alguma coisa estranha em rela¢io 4 norma do mo- mento e que toma todo seu lugar, um lugar que eriga 0 real com sua gravidade singular. Se é verdade, como pensa a micro-histéria, que podemos assim. reencontrar “a multiplicidade das experiéncias e das representagdes, sociais e contraditorias através das quais os homens constroem 0 mundo (Revet, 1996, “Preficio”), analisa-se a voz de Marion percebendo-se também seu modo de interven¢io como o lugar de ‘uma tensio irredutivel com a ordem social, que organiza a partir de entio reajustes ¢ agenciamentos imprevisiveis anteriormente. Isso seria seguir 0 pensamento de Jacques Ranciére (1993b, p. 1011- 1018) quando escreve na revista Annales: “O real tem lugar li onde algumas [...], a partir do desvio singular que as faz falar, desenham uma comunidade infigurivel aberta/oferecida, onde se arriscam outras singularidades que ali inscreverdo sua fila, seu ato, seu desvio produtor de comunidade”. Deixemos o real ter lugar, portanto, deixemos Marion existir em seu lugar e em sua eficicia, erguida perpendicularmente em relagio aos outros seres e aos acontecimentos, alcangando-os nesse lugar onde se arriscaro ainda outros espagos, imprimindo outro ritmo ao equilibrio social. Se a historia marca seu trago assim, ela dé conta do edificio onde Marion tem sua parte. 101