Você está na página 1de 1

Marta Cruz, Portugal.

Arquitecta, licenciada pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (1998), mestre em


Urbanismo pela Université Aix-Marseille III (2003), doutorada em Arquitectura pela École Nationale
Supérieure d'Architecture de Marseille (2009).
Colaborou com o Centro de Estudos da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em
actividades de investigação (2005-2007) e com a Universidade de Évora em actividades de docência
(2003-2007).
É investigadora no Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Palavras-chave - Casas em banda, Flexibilidade, Usos, Cooperativas de Habitação Económica.

Título - Configurações espaciais e familiares na habitação unifamiliar contemporânea. O caso da


Cooperativa de Habitação Económica O Lar do Trabalhador.

Tema C - Soluções habitacionais e modos de vida.

Resumo

Esta comunicação pretende dar a conhecer os resultados da investigação desenvolvida no âmbito de uma
tese de doutoramento sobre o espaço doméstico da habitação unifamiliar. A investigação teve por base o
estudo do caso da CHE "O Lar do Trabalhador" em Matosinhos, projectada pelo arquitecto Rogério
Cavaca em várias fases desde os anos 80 até aos nossos dias que combinam a habitação colectiva em
edifícios de apartamentos duplex e triplex e a habitação unifamiliar em banda. A investigação foi
desenvolvida estudando as moradias unifamiliares da primeira fase de construção projectada nos finais da
década de 80.

O questionamento de base prende-se com a necessidade de contemplar a diversidade dos modos de vida
e dos usos na concepção dos espaços de habitação a custos controlados, não apenas numa perspectiva
sincrónica, considerando a variedade das práticas domésticas e familiares em determinado momento, mas
também numa perspectiva diacrónica, compreendendo que a arquitectura é constantemente chamada a
responder a necessidades diferentes daquelas que foram tidas em conta aquando da sua concepção.

Esta questão foi aprofundada simultaneamente do ponto de vista da forma arquitectónica e do ponto de
vista da organização do espaço doméstico, procurando reconhecer na arquitectura da casa em banda as
qualidades espaciais que favorecem, por um lado, a permanência da família nas suas diferentes fases do
ciclo de vida familiar, e por outro, a construção de uma relação identitária de diferentes tipos de família
com um mesmo espaço de habitação.

O terreno de estudo foi abordado com uma metodologia composta, mobilizando instrumentos de diferente
pertença disciplinar, de modo a apreender as realidades observadas. Se por um lado se procurou aceder
ao universo próprio das famílias, identificando a diversidade da sua composição e as transformações da
vida familiar no quotidiano doméstico, por outro, procurou-se conhecer o modo como o espaço físico da
casa se relaciona com as práticas, favorecendo ou limitando as dinâmicas de vida.
Assim, o levantamento gráfico do estado actual das casas, registando as alterações feitas ao longo dos
anos pelos habitantes, foi complementado pelo registo fotográfico dos mesmos e pela realização de
entrevistas semi-directivas às famílias. Esta metodologia, que podemos designar de etno-arquitectónica
(Pinson, 1988; 1992), visa complementar a informação verbal com a informação visual, captando a riqueza
dos universos domésticos e a complexidade da acção dos habitantes sobre o seu próprio espaço.

As conclusões deste estudo produziram-se tanto em relação ao modo como as práticas das famílias se
vão alterando de acordo com a fase do ciclo de vida da família e de acordo com as transformações sociais
a que assistimos nas últimas décadas, como relativamente às qualidades espaciais das casas estudadas,
nomeadamente em termos de forma, disposição e articulação dos espaços do ponto de vista da sua
prática.

Num momento em que se reflecte sobre a "durabilidade dos territórios", avaliar, ao longo do tempo, as
qualidades de uso dos espaços construídos face às cada vez mais rápidas e inevitáveis transformações
sociais revela-se um exercício importante para a prática do projecto, implicando um conhecimento
aprofundado dos modos de vida e do modo como estes se inscrevem no espaço arquitectónico. É ambição
desta investigação contribuir para esse conhecimento.