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CIRO GOMES ROBERTO MANGABEIRA UNGER O PROXIMO PASSO Uma alternativa pratica ao neoliberalismo TOPROOKS: Copyright © Ciro Gomes, 1996 Roberto Mangabeira Unger Composigio e folios Art Line Produgiies Grificas Lab Revisto Christine Aju Capa Victor Burton CIP Brasil. Catalogngao-na-fonte Sindical Nacional dos Editores de Livros, RJ Gomes, Cito GOL3p © préxime passo: uma alternativa pritica a9 neoliberalisine / Ciro Gomes, Roberto Mangabeira Unger. — Rio de Janeiro: Topbooks, 1996 Convtém dados bibliogeiieas 1. Brasil — Politica econdmiea. 2 Liberalisino. 3, Desenvolvimento econdimico. Unger, Roberto Mangabeira, Ul, Titulo. CDD 338.981 95.0131 CDU 338.984(81) Todos ox diteitos reservados pola TOPBOOKS EDITORA EF DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTDA, Tinprereo no Bros Sumario Prefacio Uma alternativa imaginada © discurso politico dominante (O argumento e sta idéin-forga © camino politivy dificil A estabilizagao consolidada A estabilizagao interrompida ‘A divida piblica interna, as privatizagaes € 0 saneamento da situagio parrimonial do Estado © refinanciamento do Estado © a verdadeira reforma tributéria As conseqiiéncias priticas da desesperanga O neoliberalismo substitufdo Atarefa © neoliberalismo ¢ 0 nacional-populisimo, Diretrizes da proposta A clevagiio da poupanga pablica e privada A parceria entre o Estado € os produtores privados B 27 38 41 a 55 R 4 16 84 88 96 Sakivio igno, O problema da e: agi revisto Abertura sem submissio O dualismo superado Os dois fururos da alternativa ao neolibe- ralismo: nas na nova economia Vinyguandas © reragu mundial: a questio programsitica decisiv A primeira vertente da politica antidualist: redistribuigio da riqu em gente € heranga social A soguni vertente da politica antidualist: alianga entre a vanguarda ¢ a retaguarda © formas inrermedisrias entre o privado © 0 paiblico fa, investimento A democracia acelerada Pontos de partida para repensar 0 Estado © a politica no Brasil © presidencialismo sem impasses Partidos de verdade A politica ibertada do dinheiro ‘A profissionalizagio da buroceacia © 2 acele ragio da politica A democratizagao dla comunicagio A conscientizagio e « militincia dos direitos Sobre os autores Ciro Ferreira Gomes Roberto Mangabeira Unger loz 110 113 123 135 140 144 146 148, 151 152 153 156 158 Prefacio Este pequeno livro vem a prelo num momento de perplexidade — no Brasil € em toda a parte. O esgotamento do na cional-populismo no terceitro mundo, o colapso do comunismo no segundo mundo © até mesmo a postura politicamente de- fensiva e institucionalmente conservadora da social-democracia no primeiro mundo deixaram drfiios de idéias os que acreditam estar a democratizagio das sociedades con- temporaneas ainda a meio caminho. No Brasil, como em muitos pafses em desen- volvimento, uma crise de confianga das clites transformou uma encruzilhada numa debandada. Renderam-se, ¢ querem render 6 Brasil, ao idedrio ora dominante nos pat- ses mais ricos. Aderiram ao neoliberalis- mo, a ideologia atual das metrdpoles, desculparam-se repetindo a toda a hora, porém sem conseqiiéncia pratica, que pos- suem uma consciéncia social e que querem humanizar o pais. Abandonaram, como romantica, a tentativa de construir uma civilizagdio propria no Brasil. Rejeitaram a concepgao de que a histéria humana deve continuar a ser uma histéria de grandes alternativas, tanto no plano das institui- ges quanto no plano dos ideais, Pois o que vale uma diferenga de cultura se The falta a encarnagio numa vida institucional propria? Intervimos neste quadro para ajudar a provocar a discussdo que falta ao pais. Pro- pomos um caminho especifico, que se con- trapde ao discurso neoliberal. Damo-lhe contornos definidos para melhor suscitar a polémica, Nao acalentamos, porém, ilu- shes sobre a necessidade deste ou daquele pormenor da proposta. Para cada solugio localizada que abragamos existem alterna- tivas plausiveis orientadas na mesma dire- cao. Ea diregao o que importa. A mudanga das citcunstncias, 0 avango do entendi- mento € as revelagdes do debate hao de renovar os pormenores da proposta, rejei- tando alguns ¢ aprimorando outros Pertencemos a partidos politicos dife- rentes — um de nés, a0 PSDB; 0 outro, a0 PDT. Imaginamos set 0 papel de uma pro- pos termedidrio entre o debate das idéias e o a como essa situar-se num ampo in- embate dos partidos. Nem s6 por partidos politicos se afirma o potencial transforma dor da politica. F também, correntes de opinitio ou partidos latentes. Geram parte da matéria-prima com que se constréi um futuro mais livre e mais consciente. Os adeptos de um idesrio, crescendo em ni- mero, espalham-se pelos partidos estabele cidos € pelas organizagdes da sociedade civil e sua influéncia se faz sentir, pouco a pouco, em muitas cabegas. Querendo fo- mentar um debate, queremos, também, trabalhar pelo surgimento de uma corrente de opiniio, Foi assim, no Brasil, com os que se opuseram a escravatura € ao impé- tio. Assim ha de ser hoje, no Brasil, com os que se opdem ao neoliberalismo. Tal movi- mento de pessoas ¢ idéias nao bastaria para mudar o curso da histéria brasileira. Sem ele, contudo, nada se fard. Além de pertencermos a partidos dife- rentes, temos caras diferentes no pais. Um de nés tem sido criticado por alguns como vitima da ambigao; 0 outro, como vitima do devaneio. Ambos, porém, sabemos que © importante € a dialética en:te a li penosa dos fatos ¢ a imaginagao disciplina- da do possivel. E facil ser realista quando se aceita tudo. E facil ser visionario quan- do nfo se enfrenta nada. Aceitar pouco € enfrentar muito € 0 caminho ¢ asolugao. 2 Uma Alternativa Imaginada O discurso politico dominante Todo © Brasil reclama a falta de pro- posta e de alternativa. Com 0 colapso dos regimes comunistas, 0 descrédito dos esquerdismos tradicionais ¢, sobretudo, a exaustao da nossa antiga estratégia de crescimento econémico, sobrou para o o da adesio ao modelo de organizagao © que parece ser um nico caminho: econémica ¢ social representado pelos ses mais ricos. Nesta obra de estreita- mento de horizontes, a inflagao foi parcei- ra da histéria: torturado pela inflagao, 0 povo brasileiro nao tinha cabega nem ocasiiio para tratar dos caminhos possiveis do desenvolvimento econémico e da re- 3 construgdo institucional. A conjuntura tem sido tudo para nés; a estrutura, nada. A época dos projetos nacionalistas e do viés estatizante, seguiu-se 0 discurso do adesismo desencantado, travestido de realismo maduro. Nestas condigSes, ge- neralizou no pais um s6 discurso politi- co: um discut 0 que afirma a incapacida- de do Estado para as atividades produti- vas ¢ estratégicas enquanto reclama a atuagio social de um Estado eficaz contra 08 extremos de desigualdade no nosso pais. © primeiro-muny “tudo pelo social”. O Estado, segundo esta visto, deve ser apenas um zelador das regras do mercado ¢ um agente de assis- téncia social. Foi assim que todos viraram mo imitativo eo proponentes da economia de mercado € defensores da social-democracia, tanto na esquerda quanto na direita da nossa po- litica. As politicas sociais compensatérias, destinadas a moderarem as desigualdades, seriam, junto com 0 zelo pela vigéncia das normas de concorréncia privada, as tare- 4 fas supremas do Estado. © Estado, segun- do 0 refrao ouvido a toda hora, deve tomar-se menor para fazer melhor aquilo que s6 ele pode fazer. Conservadores ¢ progressistas, direitistas e esquerdistas, distinguem-se hoje no Brasil mais pelo grau de radicalismo nas reivindicagdes redistribuidoras do que por roteiros con- cretos de desenvolvimento nacional. Divisdes iluséri s ¢ superficiais orna- mentam esta nova unanimidade em vez de rompé-la, Como arremedos de projeto temos dentro do governo, de um lado, 0 neoliberalismo compungido e, de outro lado, a defesa de quebras da ortodoxia neoliberal em favor de concessbes a seg- mentos do grande empresariado. Nao adianta proclamar triunfos ideolégicos na revisio constitucional ¢ na propaganda da capacidade do Estado de poupar ¢ inves- privatizagdes. Importa recuperar a tir. Governo ruim para 0 Brasil perpetua a dependéncia da estabilidade monetéria sobre duas bases frageis e insustentaveis: 0 cambio sobrevalotizado e os juros escor- 15 chantes. Cala sobre qualquer estratégia nacional de desenvolvimento econdmico. Aceita como fatalidade hist6rica irresist vel as regras do jogo da nova ordem eco- némica internacional, conformando-se com as exigéncias da hegemonia norte- americana. Presidente tuim para o Brasil exerce 0 poder presidencial como instru- mento de acertos entre politicos € empre- sfrios. Prima pela cordialidade. Foge aos 5, porque 0 aceita, ssiste, impotente, a esta conflitos. Trai o pa A esquerda abdicago nacional. Sem rejeitar co samente seu discurso tradicional, também nao acredita mais nele. Sua pregagao anda a reboque da militancia dos empre- gados das estatais ¢ dos sindicatos da grande indistria privada. Defe ide as esta- tais, indiscriminadamente, sem propor uma estratégia especifica de crescimento a que elas pudessem servir, E insiste nesta defesa, quer por compromisso com os in- teresses corporativos dos quadros das em- presas puiblicas, quer por nostalgia por um ideario perempto que Ihe parece 0 tinico 16 baluarte remanescente de resisténcia ao neoliberalismo. Descartada a defesa ceri- monial das estatais, s6 a estridéncia no protesto, frustrado, contra as desigualda- des distingue a esquerda das outras facgSes da politica brasileira. Por isso mesmo, nem sequer consegue dar voz aos ressenti- mentos mudos e desorientados da peque na classe média. O pais quer oposigao. Precisa de oposig4o. Nao confia na oposi- go que tem. Ha consenso no discurso politico bra- © consenso est errado. Seus sileiro. Mas equivocos ficam patentes na sua incapa- cidade de resolver os problemas do pais em trés setores cruciais: a consolidagao da estabilidade monetétia, a moderagio das desiguldades sociais ¢ a formulagio de um novo projeto de desenvolvimento nacional. Nao se completa a obra anti-infla- ciondria em sanear a situagiio patrimo- nial do Estado e elevar a receita puiblica Nao se fazem nem uma coisa nem outra sem compreender como avangos arrojados re nas privatizagées ¢ na tributa 0, aparen- temente regressiva, do consumo podem, logo em seguida, servir para financiar e fortalecer um Estado estrategista ¢ redis- tribuidor. Nao se conseguem des artar os expedientes do plano real — 0 cambio sobrevalorizado e os juros altissimos — tao titeis como expedientes tempordrios quanto ruinosos como solugées duradou- ras, sem limpar as contas € elevar as recei- tas do Estado brasileiro. O consenso, argu- mentaremos, deixou-nos despreparados Para as opgdes ¢ os conflitos que a conso- lidagao da estabilidade monetitia exige Por isso, deixa-nos sob a sombra da volta, a qualquer momento, da inflagdo desen- freada. ‘A mesma incapacidade de fazer 0 que promete caracteriza a politica social deste discurso hegemdnico. Todos lamentam que o Brasil ostente as d sigualdades mais terriveis do mundo. Todos em querer humanizar o pais. Porém, o caminho vis- lumbrado pelo discurso politico dominan- te — © das politicas sociais compensats- 18 rias - jamais bastard para alcangar o re- sultado almejado. ‘Temos uma economia ¢ uma sociedade divididas em dois. Enquanto parte do pais esté cada vez mais integrada na economia ena cultura dos pafses ricos igiia de acesso ao capital, outra parte continua am aos mercados € a tecnologia. Por causa desta estrutura dualista, 0 pafs cria desi- gualdade ao mesmo tempo que produz riqueza. As transferéncias do primeiro Brasil — do Brasi do ¢ favorecido — capitalizado, organiza- iam de ser ara o segundo Bra: —o Brasil marginalizado — te gigantescas para resolverem os problemas da maioria que continua aprisionada neste. Tais transferéncias nunca ocorre- ‘ria. As forgas que comandam o primeito Brasil jamais 0 riam na dimensao necess permitiriam, nem 0 poderiam permitir sob pena de se desorganiz: gada do pais Qualquer forma realista de moderagio a economia avan- das desigualdades exige, em condigdes como as nossas, a revistio do modelo eco- 19 ndmico — as instituigdes econdmicas e as relagdes entre Estado e produtores — nao apenas politicas destinadas a compensa- rem os efeitos de um padrao de cresci- mento que € excludente e desigualizador. Como elemento acessério desta revisio de modelo, as politicas sociais sao necessa- rias. Como maneira de dispensar tal revi- so, as politicas sociais sio um embuste Precisamos de uma alternativa produtivis- ta que integre a maioria dos brasileiros aos centros dindmicos da nossa economia, nao de uma formula caridosa que oferega aos excluidos as migalhas caidas da mesa dos abastados. E fécil ser defensor da de- mocracia social quando a democracia so- cial é impos vel de realizar. O “tudo pelo social” do discurso politico dominante nao € programa; € alibi Se 0 discurso dominante na politica brasileira € incapaz de nos guiar na conso- lid moderagao das desigualdades sociais, 6 ao da estabilidade monetéria ou na igualmente intitil 8 demarcagio de uma hova trajetdria desenvolvimentista para o 20 pats. Como programa para o desenvolvi- mento, o discurso hegeménico sofre de dois defeitos insanaveis. O primeiro defeito é que, no sabendo como refinanciar o Estado nem como diminuir as desigualdades, nao sabe, tam- bém, como conduzit o desenvolvimento. Pois o estrangulamento financeiro do Estado e 0 actimulo da divida social repre- sentam inibigées farais a um desenvolvi- il, avolumam-se os pontos de estrangula- > aparato fundamental de mentismo sustentavel. Hoje, no Bi mento no ne energia, transporte e comunicagao. E irrealista supor que, mesmo que radicaliza- das as privatizagGes, possa o capital priva- do, nacional ou estrangeiro, suprir as necessidades de investimento no instru- mental basico do nosso sistema produtivo. Por outro lado, um Estado quebrado nao pode também investir, em grande escala, na qualificagao do nosso povo e na gene- ralizagao das praticas mais avangadas de produgao. Restrito a préticas compensat- rias, que nem tem sequer como financiar a adequadamente, nao tem, também, como evitar, no futuro, que a massa miseravel do pais recorra a qualquer promessa de salvagio, interrompendo, pela politica plebiscitaria dos demagogos, os planos autoritarios dos tecnocratas. © segundo defeito do discurso domi- nante como biti sola de uma nova etapa de desenvolvimento nacional fica claro a luz de uma constatagao histérica simples. Nunca houve na histsria modema, com a excegao parcial da Gri-Bretanha ¢ dos Es- tados Unidos (se é que se pode compreen- der a industrializagao inglesa sem o prote- cionismo contra a indtistria téxtil da {ndia € as guerras contra os concortentes comer ciais da Inglaterra ou a industrializagao norte-americana sem o protecionismo contra quase tudo), nenhum pafs que se haja desenvolvido sem uma associagao in- tima e duradoura entre o Estado ¢ os pro- dutores privados. A agdo estratégica e pro- dutiva do Es em muito o horizonte das responsabilida- ado comumente ultrapassou des estritamente sociais e compensatérias. 2 As na s sim foi com a Alemanha e 0 Japio gunda metade do século XIX. Assim € hoje com as novas economias do nor- deste asidtico — Coréia do Sul, Taiwan e, sobretudo, as zonas adiantadas da propria China continental. Entre os paises con- temporfneos, as excegdes aduzidas, como uudeste as jAtico — © Chile ou 0s paises do Malisia, Indonésia ¢ Tailandia — nao se sustentam como exemplos para o Brasil. Os casos do sudeste asitico sfio de paises cujos regimes autoritatios, havendo supri- mido por longo tempo o conflito social, patrocinaram a formagaio de vanguardas exportadoras sem vinculos estreitos com o resto da economia nacional. O Chile, com uma economia agraria € extrativa, ¢ com um passado de lutas sociais igualiza- dor: que tanto os governos anteriores & ditadu- , € um situagio singular: um pais em ra quanto 0 proprio regime ditatorial se dedicaram ao investimento social ¢ em que o Estado usou seus recursos € poderes para fomentar uma lavoura moderna e exportadora dentro de uma economia 2B relativamente simples. Ademais, 0 Chile deve muito do éxito relative que obteve a trés desvios do modelo neoliberal. Pri- meiro, afora Cuba, nenhum pais da Amé- rica Latina impés controles tio amplos sobre o capital estrangeiro quanto 0 Chile. Com isso, procurou e conseguiu ganhar margem de manobra para fortalecer o sis- tema de poupanga e investimento inter- nos. Segundo, mantendo o cobre em méos do Estado, assegurou recursos para uma politica econémica mais flexivel. Terceiro, usou os poderes do Estado para reorganizar a produgio e a exportagao agririas. Salvas estas excecdes — poucas, parciais e imper- tinentes — o neoliberalismo nao encontra respaldo na experiéncia prétis volvimento. E devaneio do colonialismo do desen- econémico e cultural, nao projeto realista. A tinica estratégia de crescimento eco- némico implicita no discurso dominante é a esperanga de que a integragao crescente do pais na economia mundial baste, junto com a ago social do Estado, para assegurar © desenvolvimento. A verdade — como 4 argumentaremos — é que sé asseguraria 0 crescimento de uma vanguarda produtiva excludente da maioria dos brasileiros e confinada a setores em que j4 desfrutamos. de grandes vantagens comparativas. Todas as incapacidades do discurso politico hegeménico no Brasil rém dupla fonte. A primeira fonte € a falta de uma imaginagao institucional construtiva. A premissa decisiva daquele discurso é a impossibilidade das inovagdes institucio- nais conseqiientes. Por forga d sa, identificam-se a democracia represen- tativa, a economia de mercado e a socie- a premis- dade civil pluralista e aberta com as insti- tuigdes politicas, econdmicas ¢ sociais dos paises mais présperos do mundo. Para jus- icar esta rentincia 4 construgao institu- cional, os propagandistas do discurso ascendente subestimam até mesmo as variag6es institucionais entre os paises que querem copiar. Do esgotamento tanto do nosso antigo modelo de industrializa- ao quanto das aspiragSes revolucionarias do esquerdismo, inferem a falsa conclusio 25 de que s6 nos resta imitar o que seria — mas néo é — um padrdo tinico de organi- mundo Para nos rebelarmos contra a injustiga € 0 zago econdmica no prime atraso no Brasil temos, também, de nos. rebelar contra a falta de imaginagdo Se a falta de uma imaginagao institu- cional construtiva é a primeira causa dos descaminhos do discurso politico domi- nante, a segunda é seu vinculo com o blo- queio social da politica brasileira: o efeito inibidor que a oligarquia econémica do pais exerce sobre a classe média. Desde os tempos da velha Republica, nunca se afir- mou com tanta desfagatez como no Brasil de hoje 0 controle do Estado brasileiro pela plutocracia brasileira. A politica do governo central perde-se numa lista in- findavel de favorecimentos: a banqueitos aqui, a empresdrios da agricultura ali, a multinacionais da indistria automobilist ca acolé. As ambigiiidades calculadas do discurso hegeménico — neoliberal ¢ pseu- dosocial — langam uma cortina de fumaga atras da qual possa o Estado brasileiro 26 adaptar-se as novas regras da ordem eco- némica mundial sem incomodar os endi- nheirados. E apresentam esta cumplici- dade de maneira aceitavel a classe média — como sempre, patridtica, inconformada e insegura. Os grandes avangos do pats tem ocorrido nos momentos em que esta classe, que continua a ter nas maos o des- tino da politica nacional, percebe nao poder realizar seus objetivos — econdmi- cos, politicos ¢ morais — sem romper com a plutocracia inepta ¢ predatéria que man- da e desmanda no pais. Coloca-se na lide- ranga de um movimento nacional e popu- lar. Assim foi com a rebelido contra a escravatura € 0 império ¢, depois, contra 0s arranjos politicos ¢ as estruturas sociais da velha Reptblica. Hoje, tal ruptura haveria de tomar a forma do reptidio ao neoliberalismo pseudosocial Este breve texto é um libelo contra 0 agachamento das elites brasileiras, umn libelo animado pela indignagiio mas sobre- tudo pela esperanga. Aqui propomos uma alternativa, Falta ainda o caminho politico 27 ¢ partidério para a execugio desta alterna- tiva e continuard a faltar até que se afirme no pais a consciéncia de sua necessidade. O argumento e sua idéia-forca A idéia-forga que anima a nossa pro- posta é a convicgiio de que hé uma alter- nativa vidvel ao neoliberalismo. Esta alternativa nio se caracteriza, como se quer fazer aparentar no pats, pela simples devogtio a politicas de assisténcia social. Caracteriza-se pela recuperagio da capa dade do Estado de poupar de investir; pela parceria estratégica entre um Estado forte porém democratizado ¢ as empresas privadas; pelo compromisso com a liqu dagiio do dualismo (Brasil organizado, Brasil marginalizado) e pela construgio de instituigdes que acelerem a politica trans: formadora e organizem a sociedade civil. A economia politica que advogamos — construgio de uma economia democrati- zada de mercado, com tragos préprios — meio, nao fim: meio para a consolidagao 28 de instituigées que representem uma for- ma brasileira do experimentalismo demo- cratico © nos permitam desenvolver no nosso pais a nossa civilizagao. O Brasil nao precisa nem deve ser a cara do pri- meiro mundo existente. Se copiarmos as instituigdes ¢ as politicas dos paises ja ricos, acabaremos mais pobres, mais desi- guais e sobretudo mais medfocres do que eles. Nao thes imitaremos 0 exemplo, imitando-lhes os habitos ¢ os arranjos, Duas esperangas dito vida e significado a0 experimentalismo democratico. A pri- meira esperanga do democrata é que hi campo em que as condigdes do avango material da sociedade se cruzam com as condigdes da libertagio do individuo: sua libertagao das hierarquias e divisdes so- ciais rigidas e subjugadoras. Nao precisa mos acreditar, como acreditavam os libe- rais e os socialistas do século XIX, que hé convergéncia natural entre o enriqueci- mento da sociedade ¢ a libertagao do individuo; apenas prec sibilidade de reconcilié-los. A razfio pro- amos Crer Na pos- 2» funda da afinidade entre estes dois bens que ambos se assentam na difusio da capacidade de reimaginar as relages entre as pessoas ¢ de realizar na pritica 0 que se imaginou. A segunda esperanga do democrata é que sempre ha como cami- nhat na dirego marcada por esta primeira esperanga de maneira que atenda aos interesses praticos da maioria trabalhado- ra — os homens e as mulheres comuns de um pais. Hé formas de satisfazer tais inte- resses que so excludentes e inibidoras, dividindo fragdes da maioria trabalhadora e mantendo instituigdes existentes. Ha outras que sao solidaristas ¢ transformado- ras, buscando aliangas populares mais amplas e reconstruindo instituigdes. A inovagao institucional é 0 meio maior para a realizado destas duas espe- rangas, Hoje, no mundo, o debate ideols- gico muda de tema. O conflito entre esta- tismo ¢ privatismo morre enquanto come- ¢a a surgit um conflito entre as formas institucionais alternativas do pluralismo politico, econdmico e social: isto é, da 30 democtacia representativa, da economia de mercado e da sociedade civil livre. As instituigGes estabelecidas nas democracias ricas do Atlantico norte ndo so a varian- te tinica ou derradeira do pluralismo como quer a doutrina neoliberal, nova forma do velho casamento entre o interesse dos ricos ¢ 0 desencanto dos cultos. Nao bas- executar a obra do experimenta- tam pa lismo democratico no Brasil. Este peque- no livro propée um caminho diferente Sobretudo, propde uma discussio. Nesta primeira parte do livro, antecipa- mos a diregtio geral da nossa proposta para que 6 leiror possa entender cada passo da andlise & luz da intengio que a motiva. Na segunda parte, sobre a obra inaca- bada da estabilizagao, sustentamos que a politica anti-inflacionéria nao se completa sem uma grande reorganizagao das finan- as puiblicas. Entre as diferentes maneiras de executar esta reorganizagao algumas deixarao o Estado desaparelhado para con- duzir um projeto democratizante de desen- volvimento, enquanto outras nos coloca- u ro no caminho desta construgao. Estas precisam sanear a situagio patrimonial do Estado e aumentar em muito a receita piblica. A melhor maneira de resolver o problema patrimonial é promover algumas privatizages espetaculares. Podemos ¢ devemos fazé-lo, porém, sem aceitarmos a idéia do aba sabilidades produtivas; tanto assim que s ptiblicas enquanto privatizamos outras. A melhor ndono pelo Estado de respon- podemos criar novas empre maneira de aumentar ripida e radicalmen- te a receita publica é generalizar a tributa- ¢%0 indireta do consumo por um imposto sobre o valor agregado com aliquota alta, O efeito igualizador de um aumento da capacidade de investimento piblico mais do que compensaré 0 efeito regressive da tributagao indireta. Tanto o neoliberalis- mo supostamente humanizado quanto 0 seu adversaitio remanescente — 0 corpora- tivismo nacionalista e ressentido — sao igualmente incapazes de desempenharem a tarefa de concluir a estabilizagao pels mesmas razdes por que so incapazes de 2 formularem uma estratégia de crescimento e um projeto de democratizagao. Na terceira parte, tragamos as grandes linhas de uma alternativa desenvolvimen- tista e democratizante ao que, por falta de alternativa, ameaga virar 0 minimo deno- minador comum da politica brasileira: 0 neoliberalismo misturado com protestos — ocos — de preocupagao pelo social Cinco diretrizes norteiam esta alternativa. A primeira diretriz ¢ a prioridade dada & elevagao da poupanga, tanto publica quanto privada, ¢ aos instrumentos insti- tucionais, inclusive previdenciarios, que encaminhem a poupanga ao investimento produtivo em vez de abandoné-la ao ganho financeiro estéril. A segunda dire- triz é a criagdo de parceria entre o Estado € as empresas, que reinvente, de maneira mais descentralizada ¢ experimentalista, as formas de coordenagao estratégica entre Estado e empresa tio bem sucedidas nos paises do nordeste asidtico. A tercei ra diretriz € usar o investimento social, o empenho do Estado e 0 direito do traba- 3 tho para conseguir aumento duradouro da participagio relativa do salério na renda nacional ¢ repudiar a idéia da fatalidade econémica do salétio aviltado. A quarta dirctrie € investimento macigo em educa- ¢a0 publica e nas condigdes praticas de manutengao da escola, combinado com uma reorientagio radical do contetido do ensino brasileiro. ianga e do jovem na A quinta diretriz € promover uma integra- g&io da economia brasileira na economia mundial que, consolidada a estabilizagao, trabalhe com a taxa cambial mais baixa possivel, para conter © consumo e premiar a produgio, ainda que preservando a pos- sibilidade de estimular uma valorizagio conjuntural do cimbio; oferega estimulos compensatérios 4 importagao das altas tecnologias; utilize seletivamente as tari- fas alfandegarias a servigo da nossa estra- tégia produtiva e comercial; ¢ nos aproxi- me, econémica e politicamente, dos outros grandes paises marginalizados — China, Russia e fndia — com que com- partilhamos o interesse em diversificar as, regras da nova ordem, Uma alternativa norteada por tais diretrizes requer ¢ facul- ta uma grande alianga nacional. Cria as condigdes para opgdes nacio tal fundamento, nao se viabilizariam. Na quarta parte, argumentamos que esta grande alternativa consenstial ao neo- is que, sem liberalismo pode ter duas seqtielas diferen- tes: uma, relativamente conservadora; a outra, arrojada, transformadora e demo- cratizante, porque dirigida contra o dualis- mo —a divisio do Brasil em dois mundos. Esbogamos as grandes linhas de uma polt- tica antidualista, que sitva como segunda etapa da alternativa, desenvolvimentis democratizante, ao neoliberalismo. Esta politica antidualista tem duas grandes vertentes. A primeira vertente € gradativa diminuigao da influéncia que exerce sobre o destino de cada brasileiro a transmissio hereditéria da propriedade das oportunidades de educagio e trabalho. Numa sociedade justa, aberta e criadora, todos devem desfrutar uma heranga social minima que dé contetido pratico ao prin- 38 cfpio de igualdade de oportunidades em ver de poucos herdarem dos pais. A tribu- tagdo progressiva do consumo pessoal e das herangas ¢ doagées ha de ajudar a financiar uma conta bésica, de garantias € recursos minimos, a disposi¢aéo de cada brasileiro. A segunda vertente do projeto antidualista é a ampliagio das formas de parceria descentralizada entre Estado e empresa, j4 iniciadas na primeira etapa da alternativa. Fundos ¢ setvigos, que con- tem com o apoio do Estado porém gozem de ampla autonomia, podem trabalhar com pequenas e média dando-as a compartilharem recursos fi- nanceiros, comerciais e tecnolégicos. Di- empresas, aju- versificam-se, passo a paso, as formas de crédito © propriedade. Assim se vai for- mando uma economia democratizada de lismo mercado que substitua, de vez, o du econémico ¢ generalize entre todas as classes e regides do pais o extraordinario potencial inovador da nossa economia. A nossa esquerda tem permanecido cimpli- ce com o dualismo, acenando com os 36 acertos corporatives e a protegao estatal para o Brasil organizado ¢ com o assisten- cialismo para o Brasil marginalizado. Na quinta parte, mostramos que 0 avango do desenvolvimentismo democra- tizante e antidualista exige inovagdes na maneira de organizar a democracia politi- ca, Nao ha reforma igualizadora sem mobi- lizagao politica, nem ha politica de con- tetido estrutural que nio seja politica de alta energia popular. Advogamos a reforma lo do presidencialismo brasileiro para doi dos meios necessarios a resolugao de impasses entre 0s poderes do Estado; a for- jo de uma burocracia profissionaliza- da, bem remunerada, recrutada de forma competitiva, protegida contra o clientelis mo politico e, por tudo isso, capaz de atrair muitos dos melhores talentos do pais — agente essencial de um Estado capaz e par- ceira insubstituivel de uma cidadania mobilizada; a mudanga do regime eleitoral para fortalecer os partidos, até mesmo pelo expediente extremo do sistema de “listas fechadas"; 0 enfraquecimento do vinculo 37 entre dinheito ¢ eleigao pelo financiamen- to pablico parcial das campanhas eleitorais ¢ pela transparéncia das contribuigdes pri- vadias que forem permitidas; a democratiza- do dos meios de comunicagao ¢ a diversi: ficagao das formas de propriedade neles € de acesso a eles; e, sobretudo, o desenvol- vimento de instrumentos processuais e for- mas de assisténcia juridica popular que levem os brasileiros comuns a consciéncia © a reivindicagao dos dircitos. Sem fortale- cermos esta capacidade reivindicatéria, ja- mais desestabilizaremos na base as formas inclusive ra- de dominagio e exclusiio — ciais ¢ sextuais — que continuam a frustrar nossas aspiragGes democratizantes e nos impedem de desenvolvermos na pratica a civilizagdo pressentida nas nossas fantasias coletivas. O caminho politico dificil Um paradoxo politico ¢ partidatio d culta 6 caminho da alternativa transfor- madora. O pafs continua a procura de lideres, partidos e movimentos que ofere- 38 gam alternativa clara ao figurine mexica- no diluido que atualmente experimenta- mos. Nao ha, porém, base partidéria dis- ponivel para esta operagao necessaria e desejada. Na nossa realidade, a eleigao presidencial permite ganhar poder para uma proposta alternativa sem ter, ainda, base politica e partidaria consolidada. Constréi-se a base a partir do poder e da proposta. Foi esta a oportunidade que Collor, eleito sem base partidéria, apto- veitou, perverteu e desperdigou. A opor- tunidade, entretanto, persiste. Hoje, o PSDB, paralisado pela sua condigao de partido governista que nao governa, ameaga ser langado no caminho tradicional dos nossos partidos reformis- tas, j4 trilhado, desastrosamente, pelo PMDB: o roteiro da rendigdo ao pequeno realismo das elites, a formula dos acertos com os grandes empresirios ¢ banqueiros, conluios ornamentados por protestos de preocupagiio social. Enquanto isso, os par- tidos de esquerda, a comegar pelo PT, jo- garam sua sorte na defesa dos residuos da 39 antiga economia politica dos anos 50 ¢ na solidariedade com os interesses corporat vos dos trabalhadores, ptiblicos e priva- dos, mais privilegiados do pats A auséncia de um instrumento parti- dério aparente para a tarefa programética necesséria nao € problema apenas para os politicos que se disponham a enfrentar os limites da estrutura brasilei E problema para o Brasil. © Brasil todo ha de resolvé- lo. Nao pode resolvé-lo, porém, sem ver, cam outros olhos, onde estamos eo que podemos vir a ser. Por isso, escrevemos este pequeno livro. 40 A Estabilizagao Consolidada A estabilizagao interrompida A primeira etapa da luta contra a inflagio foi técnica. A segunda é politica. Por isso, ainda nao aconteceu, € nao aconteceré sem uma mudanga de rumos na mancira de governar ¢ entender 0 Brasil. Hoje, a estabilizagdo continua a depender do cambio sobrevalorizado e dos juros escorchantes. Nao se tomaram as iniciativas que permititiam tornar a esta- bilidade monetéria independente destes Oo resultado € que continuamos sob a amea- instrumentos onerosos € insustentavei ga da volta da inflagdo desenfreada. ‘A superinflagao era o mal maior. Nas condigoes politicas existentes no pats so- a braram a manutengao da taxa cambial ¢ a politica dos juros altos como meios para assegurar a primeira etapa da estabiliza- cio. Sempre se reconheceu, porém — e, como administrador do plano real durante seus primeiros meses, um de nés se cansou de repeti-lo — que, como expedientes efémeros e custosos, tinham e tém os dias contados. Sua eficdcia ameaca diminuir enquanto seus prejutzos, fatalmente, aumentam. Teriam e tém de dar lugar, logo que possfvel, a um refinanciamento, amplo do Estado como verdadeito esteio da estabilizagzio. Nunca se imaginou que pudessem perdurar, ou que viessem a subs- tituir a reorganizacao das finangas publi- cas. O actimulo do déficit na conta cor- tente € 0 agravamento da recessiio evi- denciam-lhes os limites. A ortodoxia eco- némica o reconhece ao apregoar a neces- sidade do “ajuste fiscal” como condi necessaria 4 consolidagao da estabili monetéria. O problema, porém, é que nao ha uma dnica maneira de fazer o ajuste Hé muitas. Cada uma antecipa uma visi 10 2 Jiferente do papel do Estado num novo srojeto de desenvolvimento nacional e 2xige um conjunto prdprio de aliangas ¢ compromissos. O ajuste fiscal ortodoxo deixaria o pais sem um Estado capaz de presidir a um srojeto de desenvolvimentismo democra- izante. Procurando uma elevagio modes- ada receita publica e um aperto rigoroso da despesa publica, tornaria o Estado po- sre ¢ impotente: um Estado incapaz de realizar os investimentos vultosos em gente e em infraestrutura produtiva de que, desesperadamente, precisamos. Contra este ajuste fiscal o pais acabaria por se rebelar ainda que o Congreso, pot fraqueza ou desorientagio, 0 viesse a acei- tar, Porque o pais resiste a tal ajuste orto- doxo, mas nao consegue vislumbrar, ou impor as elites, ajuste alternativo, pro- tela-se perigosamente a vida dos expedi- entes — titeis na época, prejudiciais agora — com que se iniciou a estabilizagio, Os obstculos politicos, quer a um sanea- mento financeito ortodoxo ¢ empobrece- 4B dor do Estado, quer a uma proposta alter- nativa como a nossa, so grandes. Nao justificam, porém, a ilustio de que o inves- timento estrangeiro nos salvaré, dispen- sando-nos da necessidade de oferecermos a.um Estado forte um financiamento séli- do, de elevarmos o nivel da poupanga pri- vada ¢ publica e de dirigirmos esta pou- panga para o investimento produtivo por novos instrumentos institucionais Toda a experiéncia contemporanea dos paises em desenvolvimento confirma 0 desacerto da confi nga no capital estrangeiro como tabua de salvagao. Se fio criarmos um Estado seguro em suas finangas, 0 capital estrangeito nao viré, ow no continuara vindo, na forma e na dimensao que nos convém. Estamos seguindo 0 caminho, ja desastrosamente percorrido pelo México, de abertura a capital destinado, em grande parte, as bol- sas de valores e aos tftulos piiblicos. Este caminho tem légica prépria, que progres- sivamente estreita a autonomia deciséria do Estado enquanto destréi algumas das 44 bases de um projeto rebelde de desen- volvimento nacional. A entrada do capi- tal leva o governo a aumentar 0 estoque de titulos piiblicos para compensar 0 efeito inflacionario do afluxo de recursos. Os juros astronémicos, que ajudaram a atrair 0 capital, multiplicam-no da noite para o dia, Um pequeno investimento transforma-se numa grande exigibilidade. © medo da crise que seria provocada pela fuga repentina do capital ja multiplicado 4a cores de inevitabilidade a politica de juros sensacionais. E como se fosse um zstelionato que praticamos contra nés mesmos para a alegria dos investidores estrangeiros ¢ dos seus s6cios nacionais. Se concluirmos com éxito a obra da zstabilizagao, s6 precisaremos do capital estrangeiro como fonte subsididria de ecursos. Ainda bem, jé que 0 estudo empitico demonstra que, em todo o nundo, o nivel de investimento em cada sais continua estreitamente dependente fo seu nivel de poupanga interna: nesta spoca de capital supostamente internacio- 45 nalizado, a grande maioria do capital fica em cz Enquanto isso, a economia brasileira sangra, 0 povo brasileiro sofre e os felizar- dos com dinheiro nos instrumentos finan- ceiros festejam. As concessdes casuisticas e antipopulares a parcelas do grande empre- sariado aparecem como alivio seletivo do regime do cambio alto e dos juros altés mos. A Fiesp contra o FMI — eis o peri- metro do debate num pais cujos politicos i alegam servir 8 democracia social. Con- quista-se a benevoléncia das classes pro- prietarias por uma politica de juros pagos pela rolagem da divida interna que absor- ve trés meses dos doze de receita priblica e permite aos aquinhoados desfrutarem, sob a estabilidade monetaria, a mesma multi- plicagao dos pies de que gozavam sob a inflagao. A reorganizagao das finangas piblicas de que o Brasil necessita tem, como qual- quer ajuste fiscal, dois aspectos: um aspec- to de patriménio — limpar as contas do Estado — ¢ um aspecto de fluxo — asse- 46 gurar a receita necessaria as tarefas sociais, e desenvolvimentistas do Estado. Nem uma nem outra podem ser corretamente concebidas sem tomarmos posigiio sobre a trajetdria do nosso desenvolvimento futu- ro. E as duas s6 podem ser encaminhadas ao mesmo tempo. Nao adianta limparmos as contas ptblicas sem havermos langado as bas finangas publicas; 0 acerto logo s teria. Nem convém reorganizarmos as s de um regime sustentavel de e subver- finangas publicas para termos o resultado do esforgo ameagado, no bergo, pelas con- seqiiéncias de um descalabro vindo do pasado. A divida publica interna, as privatizagdes e 0 saneamento da situagdo patrimonial do Estado A chave para a compreensio do pro- blema patrimonial do Estado brasileiro € que uma divida publica relativamente modesta se torna intoleravelmente onero- sa — para o Estado e para 0 povo — por 47 causa do nivel dos juros que por ela se pagam e da exigiiidade dos seus prazos. Cinco de doze meses de receita do gover- no central estiio comprometidos no paga- mento das dividas externa e interna: dois meses para a externa, € trés meses para a interna. Pelos 98 bilhdes de reais da divida interna (um numero que, em outubro de 1995, se encontrava em rdpida ascenséo) estd o governo despendendo mais do que despende para servir a divida externa de 130 bilhoes de délares. Enquanto, porém, © servigo da divida externa inclui o com- ponente da amortizagao gradativa, o servi- co da divida interna é um jugo permanen- te, vergando o Estado aos interesses finan- ceiros e assegurando ganhos financeiros mirabolantes aos espertos ¢ endinheirados. Limpar meiro lugar, livrar-nos do peso da divida s contas piblicas é, em pri- interna, reduzindo-a radicalmente. Todas as outras iniciativas patrimoniais conve- nientes — como a recusa de salvar os bancos estaduais falidos ¢ o redimensiona- mento das obrigagdes previdencirias para 48 com castas corporativas privilegiadas ou sao secundarias ou resultam da refor na da divida interna, Em outra etapa, conso- lidada a estabilizagao e reorganizadas as finangas publicas, podemos reestabelecer uma dévida piiblica interna como instru- mento normal de politica monetiria e de nvestimento piiblico. Promovida uma ampla reorganizagao da situagio patrimo- rial e financeira do Estado, teremos, tam- xém, como exigir que o servigo da divida externa se limite ao que for compativel som as exigéncias do nosso projeto de Jesenvolvimento nacional. Reduzir quanto? Nao ha formula aprio- ista. Reduzir até o ponto em que os juros Ja divida interna — a base maior de todo » sistema de juros no pais — alcancem o rivel internacional comum dos juros eais. Terfamos de realizar a operagao A luz le trés consideragées. A primeira é que, yuma circunst ncia como a nossa, com tma heranga de inconfiabilidade finan- eira do Estado e expectativa de juros ais altos, a redugio tem de ser substan- 49 cial: quase certamente mais da metade da divida existente. A segunda consideragio é que a relagdo entre o residuo da divida e © pagamento de juros altos pela sua rola- gem é descontinua: alcangado certo pata- mar, de definigao imprevisivel, reduzem- 2 consi- se 0s juros rapidamente. A tercei deragio é que, passado certo perfodo necessatio A mudanga, tanto das expecta- tivas quanto das praticas, sobretudo pela elevagao da receita publica, aleangada pelos meios que adiante referimos, a divi- da interna poderé voltar a crescer, e a desempenhar suas fungdes normais, sem ocasionar a agiotagem generalizada do regime atual Comumente se diz que bastaria a um Presidente forte convocar alguns grandes operadores ¢ investidores para deles exigir a aceitagio dos titulos priblicos com juros mais baixos ¢ prazos mais longos. Nunca ocorreu assim a reforma da divida publica, nem no Brasil nem em qualquer outro pats acaba por falar mais alto do que a suscet a dependéncia econémica do Estado 50 bilidade politica dos empresérios. Seja como for, as solugées sfio compativeis. A melhor maneira de exercer pressio politi- ca é demonstrar capacidade para amorti- zat a divida piblica. Tanto melhor sera para nés se o ini io de uma amorti: sustentavel jé facultar uma grande red do dos juros e um alongamento substan- sial dos prazos. © caminho mais rapido para 0 paga- nento da divida interna é a privatizaga seletiva ¢ desideologizada, de algumas grandes empresas ptiblicas. Nao ha yenhuma pureza ideolégica, seja liberal bu antiliberal, internacionalizante ou racionalista, que valha o desacerto das sontas priblicas. Consertar a situagio satrimonial do Estado € requisito para 0, jualquer projeto nacional conseqiiente. Somo o vulto absoluto da divida interna relativamente pequeno, algumas pouc orivatizagdes bastariam para reduzir subs- ancialmente a conta Temos de vender algumas grandes smpresas piiblicas nao por amor a ideolo- tia liberal mas para termos o direito de s endossarmos, ¢ as condigdes priticas para realizarmos, qualquer ideologia, inclusive uma que, como a nossa, se oponha ao liberalismo e ao neoliberalismo. A primei- ra empresa na lista pode ser a Telebrés por uma razio pratica simples: renderé mais dinheiro, tanto diretamente quanto pelo efeito indireto sobre o valor das outras do que ur empresas privatizadas. (Mai terco da capitalizagio das bolsas de valo- res no Brasil esta atualmente representado pelos papéis da Telebras e das suas subs didrias.) Dir-se- serem de valor “estraté- gico” a Telebras ¢ outros alvos possiveis 0, como se se pudesse falar da privatizaga em setores estratégicos quando nenhuma forga politica atuante no pais apresenta uma estratégia concreta de desenvolvi- mento nacional. Nao ha, porém, nada mais estratégico, neste momento da nossa histdria, do que libertar o Estado da dependéncia financeira e acabar a festan- ga das contas bancérias migicas que esta dependéncia faculta Tanto nao € ideolégica, antinacional 82 ou antipopular esta maneira de encarar o papel da privatizagao que ela se alia, na nossa proposta, a dois outros compromis- sos inaceitiveis ao idedrio neoliberal: a criagdo de novas empresas piblicas eo uso da politica das privatizagSes para criar novos paradigmas de uma economia democratizada de mercado. Enquanto algumas grandes empresas ptiblicas devem, por razdes pragmiticas ¢ circuns- tanciais, serem privatizadas, outras devem t criadas, inclusive no setor das teleco- municagées, dentro do programa desen- volvimentista e democratizante que esbo- garemos. Este programa repudia a idéia, definidora do neoliberalismo, de que o Estado deva abandonar atividades produ- tivas e estratégicas, e contentar-se com politicas sociais compensatérias. ‘Ao mesmo tempo, podem as privatiza- ges também servirem a exemplificar as regras de uma nova economia privada que seja de fat competitiva ¢ meritocratica, As grandes empresas piiblicas devem, 20 serem vendidas, serem, também, dividi- 53 das. O controle acionério deve ser frag- mentado e a geréncia profissional assegu: rada para que continuem a ser 0 que as grandes empresas priblicas tém sido no Brasil: um canal de ascensio pelo mérito para os jovens de classe média num meio social ainda dominado pelo capitalismo nepotista. A estes dois compromissos, que desi- deologizam as privatizagées, acrescenta-se uma salvaguarda essencial: 0 cuidado para evitar que as privatizagées sirvam de opor- tunidade para grupos privados se assenho- rearem de um dos grandes alvos ocultos da sua cobiga: os fundos de pensao das empre- sas piblicas. Montando, no total, a cerca de 50 bilhdes de reais, estes fundos devem ser resguardados na sua integridade para pela de investimentos produtivos que adiante propomos. Haver poderem, depois, serem aproveitados politi ja Como aprovei- téclos sem dano para os assegurados, desde que respeitado o principio essencial da diversificagao do risco no investimento. 84 O refinanciamento do Estado ¢ a verdadeira reforma tributaria Resolver o problema do patriménio do Estado sé faz sentido como parte de um esforgo para resolver 6 problema duradou- ro da relagao entre receita e despesa Assegurar receita adequada é 0 requisito essencial tanto da consolidacao da estabi- lidade monetéria quanto da execugao de qualquer estratégia de desenvolvimento nacional. O ponto de partida para o raciocinio é que precisamos elevar substancialmente a receita publica ao mesmo tempo que racionalizamos a despesa. Qualquer cami- nho de desenvolvimento que seja ao mesmo tempo vidvel e democratizante exigira grandes investimentos piiblicos em gente e em infraestrutura produtiva, sus- tentados durante muito tempo e financia- dos sem apelo aos macetes da finanga inflaciondria. Das muitas ilusdes que com- péem o ideério neoliberal, a mais danosa € supor que 0 dnus tributario seja grande ¢ que devamos reduzi-lo ao redimensionar- 55 mos o Estado. O que se pode dizer € que ele & mal distribuido e mal cobrado. H4, porém, um dilema a resolver. De um lado, um pais como 0 nosso precisa ter um nivel de tributagdo relativamente mais alto do que o nivel estabelecido em paises mais ricos ¢ mais igualitarios. (Compare, por exemplo, nivel brasileiro de 26% em média com o nivel francés de 46%). Por outro lado, porém, um pais como o Brasil parece nao tolerar uma carga tributaria tao alta quanto a de pajses mais desenvolvidos porque, precisando de poupanga e investimento privados para criar uma vigorosa economia de mercado, nao pode sufocé-los sob uma enxurrada de obrigages tributarias. Este dilema tem solugao: focalizar a tributagao sobre o consumo. Voltada para 0 consumo, a tri- butagiio pode crescer como estimulo, niio ameaga, 4 poupanga e ao investimento. A tributago do consumo tanto pode ser indireta (sobre transagées) como dire- ta (sobre pessoas). Quando € direta, pode também ser progressiva: tributa-se, em 56 escala crescente, a diferenga entre a renda € a poupanga ou o investimento de cada contribuinte, isentando-se o contribuinte que ganha ¢ consome pouco. E até possi- vel imaginar que, nos niveis mais altos, a aliquota de um imposto pessoal sobre o consumo seja, digamos, de 200% — o abastado paga ao Estado dois reais por cada real que consuma. A curto prazo, porém, a énfase na tri- butagio direta e progressiva do consumo individual nao € nem politicamente vid- vel nem socialmente necessaria. Basta tri- butar, de forma generalizada e indireta, 0 consumo. © instrumento mais neutro, menos distorsivo das decisées econdmi- zas € 0 imposto sobre o valor agregado. Propomos institui-lo na sua forma mais abrangente — ainda longe da forma par- I em que vem sendo, aos poucos, ado- ado no Brasil. Nesta forma, incide sobre 1 diferenga entre o prego dos insumos ¢ 0 srego do produto em cada etapa da produ- sho e da circulagao. Em cada uma destas stapas, 0 agente econdmico, transformado 87 em verdadeiro delegado fiscal do Estado, abate da quantia cobrada ¢ recolhida 0 valor do que foi cobrado ¢ recolhido nas etapas anteriores, A conseqiiéncia é fazer com que 0 efcito econémico do tributo incida sobre a etapa final de venda para 0 consumo. O governo federal dividiria com 698 estados ¢ os municipios o produto deste imposto segundo critétios que logo mais descrevemos. Assoc ese m 0 governo federal e os estados na cobranga do tribu- to: compartilhariam 0 investimento no instrumental humano e tecnolégico da arrecadago para que os melhores padroes de vigilancia se universalizassem no pats. Se, como propomos, este tributo for cobrado com uma aliquota alta, como 30%, representando parte substancial do prego, haverd, de uma s6 pancada, uma subida do nivel geral de pregos dos bens de consumo e servigos. Esta subida sera, porém, compensada pela diminuigao pro- porcional de outros impostos, inclusive do imposto sobre a renda da pessoa sica (que funciona no Brasil sobretudo como 58 ttibuto sobre os salérios da classe média). Também a compensaria a elevagio da receita ptiblica, facultando um aumento do investimento social do Estado. Os estudiosos concordam — e a experiéncia comparada 0 comprova — que esta eleva- cdo singular do nivel geral de pregos nao exerce efeito inflaciondrio quando faz parte de um novo equilibrio entre receita ¢ despesa piblicas. Pelo contrario, pode contribuir decisivamente & consolidagao da estabilidade monetéria. Livre de todas as restrigdes comprome- tedoras, o imposto atingiria tanto os servi- 0s quanto os bens, Nao hé dificuldade maior em fazé-lo incidir sobre os servigos financeiros. A tinica excegio a légica geral do imposto que advogamos agravaria 0 tributo em vez de atenud-lo: um trata- mento especial dos bancos que leve em conta a hipertrofia do setor financeiro no Brasil ¢ o desvirtuamento das suas fun- ces, estimulado pelo antigo regime infla- ciondrio. Propomos seguir o exemplo de Israel em tratar ndo apenas a prestagao de 59 servigos financeiros mas 0 valor total dos 108 ¢ dos materiais empregados como base do imposto. Para evitar que este tratamento mais severo prejudique a competitividade internacional dos bancos bras financeiras subsidistias, beneficiadas por um regime fiscal mais brando, as opera- leiros, atribuir-se-iam a empresas Ges internacionais dos nossos bancos A rigor, se estabelecéssemos o imposto sobre o valor agregado desta forma abran- gente, com alfquota alta, de 30% ou mais, reduzirfamos radicalmente nossa depen- dénc do sistema tributério complexo, ineficiente ¢ injusto a que ainda recorre- mos, Sozinho, o imposto generalizado sobre o valor agregado inanciaria grande parte da despesa publica, consolidando a estabilizagao e lastreando os investimen- tos ptiblicos. A técnica prudente seria combinar © imposto sobre o valor agrega- do com a manutengao de certos tributos existentes ou a introdugao de certos tribu- tos novos. Entre os tributos a desempe- nharem, nesta primeira etapa, um papel “0 acesssrio ao imposto generalizado sobre o valor agregado estariam aqueles que, além de produzirem receita significativa, prefi- gurariam os dois tipos de tributos diretos e atribuimos maior rele- igualizadores a que vo nas etapas subseqtientes de uma refor- ma democratizante: 0 imposto direto sobre 0 consumo, incidindo em escala progressiva sobre a diferenga entre os ren- dimentos totais e a poupanga de cada contribuinte, ¢ 08 impostos patrimoniais, sobretudo aqueles que incidem sobre as doagdes e herangas. Detalhamo-nos no quarto capitulo. Para entender 0 potencial arrecadador de um imposto verdadeiramente geral sobre 6 valor agregado, vale a pena come- gar pensando por analogia ao efeito de tal tributo nos Estados Unidos. E que, apesar da grande diferenga quantitativa entre a nossa economia e a americana, algumas das circunstancias bisicas dos Estados Unidos na tributagio indireta do consu- mo seriam semelhantes As nossas, justa- dos, como mente pot serem os Estados Ur 6 € 0 Brasil, um pats com uma taxa baixa de poupanga. Como o Brasil, insistem num regime tributério que, pretendendo ser progressista, gera relativamente pouca receita impede, por isso, uma redistri- buigao efetiva de ocorrer. A diferenga é que as contas piiblicas norte-americanas stio mais pormenorizadas e os efeitos pro- vaveis da instituigdio de um imposto gene- ralizado sobre o valor agregado tém sido If estudados em profundidade. © produto interno bruto dos Estados Unidos supera 6 trilhdes de délares. O valor de todos os on arrecadado por todos os trés niveis da federacao, € 1,75 trilhao (dados de 1994), excetuando-se as contribuigdes previden- tributos, somando: cidrias do “social security”, que elevariam esta quantia a 2,26 trilhdes. Como se alcangaria resultado semelhante sob um regime tributario organizado em torno de um imposto generalizado sobre o valor agregado? Estima-se em 4,14 trilhdes de délares o valor total do consumo pessoal, analisado, com seguranga, em cada um a dos seus componentes. Como o imposto generalizado sobre valor agregado nada mais é que a tributagao do total do consu- mo pessoal, um IVA, com aliquota de 30%, produziria, em tais condigdes, 1,23 trilhdo. A esta cifra, somemos, em primei- ro lugar, os 0,2 trilhao representados pelo equivalente do nosso imposto predial urbano e territorial rural que, nos Estados Unidos como io Brasil, representa, em a de um tributo sobre © patriménio. Final- mente, somemos 0,3 trilhiio, que atribui- nivel municipal, a forma fragmentér riamos, conservadoramente (para reforgar a analogia com o Brasil), ao produto de um imposto direto e progressive sobre sto é, sobre a dife- consumo pessoal — renga entre a renda ¢ a poupanga de cada contribuinte. Esta cifra € apenas a metade dos 0,6 trilhdo que atualmente produz o tributo que tal im-posto substituiria, 0 imposto sobre a renda da pessoa fisica. A soma destas trés quantias — as receitas do imposto sobre o valor agregado, do impos- to predial dos municipios ¢ do imposto 63 direto sobre 0 consumo pessoal, avaliado em metade do atual imposto sobre a renda da pessoa fisica — produziria nos Estados Unidos 1,73 trilhao de délares, quase o mesmo que a atual receita tributétia, dis- pensados todos os outros € numerosos tri- butos cobrados em todos os trés niveis da federagiio. Nao ha por que acreditar que no Brasil, dadas as proporgdes semelhan- tes de receita, poupanga ¢ consumo, seria muito diferente, desde que 0 aparato de vigilancia e cobranga da Receita brasileira fosse devidamente aparelhado e o gover- no demonstrassse vontade politica de identificar ¢ punir os evasores. Também no Brasil, um imposto gene- ralizado sobre o valor agregado logo se transformaria no esteio da receita pibli- ca. Bastaria combind-lo com alguns outros tributos para superarmos em muito © que atualmente arrecadamos em todos 0s niveis da federagao. Se projetarmos para o exercicio de 1995 um PIB de 5% superior ao PIB apurado em 1994, tere- mos 0 valor de 557,580 bilhaes de reais. 64 Obtém-se a base do imposto generalizado sobre 0 valor agregado — o total do con- sumo pessoal no pais — subtraindo do valor do PIB o valor total da poupanga, niblica e privada, somando ou subtraindo 9 saldo da conta corrente, ¢ subtraindo a sarte da despesa publica corrente gasta 2m materiais. (A despesa publica na conta de capital é poupanga publica, anquanto que a despesa publica corrente 2m pessoal se transforma em poupanga ou consumo dos indivéduos.) Esta quantia seguramente excederia hoje 400 bilhdes Ie reais; 30% seriam, portanto, mais de (20 bilhoes de reais. Calcula otal da arrecadagio de todos os trés riveis da federagao hoje em pouco mais Je 150 bilhdes de reais, dos quais 83,660 rilhdes de reais sao arrecadados pela eo valor Jniao. Se acrescentarmos a estes 120 silhdes de reais um imposto seletivo obre os produtos de luxo ou téxicos incluindo automéveis particulates, cigar- 08, bebidas, cosméticos, armas ¢ muni- Jes), 0 atual imposto sobre a proprieda- 65 de territorial urbana e rural, um imposto direto e progressivo sobre © consumo pes- soal (rendendo, na etapa inicial e proba- téria, pelo menos metade do que rende o atual imposto de renda sobre a pessoa fisi- ca) e, ainda, um comego de tributagao séria das herangas e doagées, chegarfamos a uma quantia muito superior aos 150 bil- hoes de reais atualmente arrecadados. En- tretanto, conseguirfamos este resultado por um sistema radicalmente simplifica- do, que eliminaria o grande nimero de gravames atuais sobre a produgao, tais como PIS/Cofins, o imposto de renda sobre a pessoa juridica € o imposto sobre os produtos industrializados. Ha, entao, duas indagagées a fazer. Como se devem repartir entre a unio, os estados e os municfpios as receitas e os encargos? Como se devem distribuir entre estados ou municipios mais ricos ¢ mais pobres estes dinheiros? Como resposta primeira indagagao, propomos assegurar aos estados e aos municipios pelo menos os 12,5% do PIB que atualmente rece- 66 em. Esta porcentagem seria garantida ela soma dos tributos locais com as tansferéncias da Uniao suficientes para tingir este resultado. Alcangada esta aeta, todo 0 acréscimo da arrecadagio aberia 4 Uniao, pois a Uniao seria a pri- vel pela politica de inves- reira respons mentos sociais ¢ produtivos que descre- emos em seguida. Na distribuigao das vansferéncias federais entre estados ou iunicfpios ricos e pobres, haveriam de ¢ em conta dois critérios contra- gstos: a contribuigdo relativa de cada stado ou municipio ao valor arrecadado 10 caso do imposto sobre o valor agrega- >, por exemplo, 0 critério mais relevan- » pode ser a distribuigéo geografica da ilha de pessoal) ¢ a distribuigao pela i2o inversa da renda per capita multi- icada pela populagao. Se o primeiro cri- rio beneficia os estados ou municfpios cos, 0 segundo resguarda os pobres. O ivel de beneficiamento dos estados ou unicipios mais pobres deve ser o bas- inte para permitir que cofinanciem 0 investimentos produtivos sem terem de recorrer a isengdes ou incentives espe- ciais. Podem, assim, contrabalangar as desvantagens inerentes a iniciativas cempresariais em regides atrasadas. ‘As respostas que propomos a estas duas ordens de indagagdes podem ser contro- versas. io, porém, transparentes. Exporiam as claras a distribuigao dos recursos piblicos no Brasil. Obrigariam a renegociagao periddica do pacto federati- vo. E beneficio, nao custo, da proposta. Os reformistas protestam, no Brasil como em todo o mundo, que um sistema tributario, como 0 que propomos, que valorizasse a tributagio indireta do con- sumo seria injusto e regressivo. En- ganam-se. A grande e desconhecida li¢to dos estudos tributérios comparados que, nas condigdes reais das sociedades con- temporineas, a redistribuicao da renda e da riqueza se faz muito mais pelo lado da despesa publica do que pelo lado da tri- butagiio progressiva. © vulto da receita acaba por importar mais do gue o perfil 68 a sua arrecadagao. Daf porque a mais esigual de todas as democracias ociden- ais ticas — os Estados Unidos — seja ustamente aquela que ostente, na forma, sta. E uc a despesa priblica, arrimada na tribu- » indireta do consumo, € muito "sistema tributdtio mais progre: a renos desestabilizadora dos incentivos € 0s atranjos econdmicos do que um nivel ortespondente de tributagiio direta, so- rretudo quando o tributo direto incide obre a renda. Por isso, tolera-se um dnus ributdtio mais alto quando a tributagao ndireta do consumo financia grande arte dele Temos de pensar dialeticamente tanto obre a tributagao quanto sobre a privati- agao. Privatizemos algumas grandes mpresas ptiblicas para reduzir dramatica- nente a divida interna e ter no futuro os acios de alavancar o investimento pibli- ©, inclusive o investimento na criagdo de ovas empresas ptiblicas. Abandonemos, 1or hora, a ilusio da tributagao progressi- a e redistribuidora por amor a compro- 69 missos redistributivos © progressistas. Elevada rapidamente a receita, e formada, pela iniciativa de um Estado enriquecido, uma nagio de brasileitos livres da miséria e da ignorancia, podemos, na etapa seguinte, instituir um sistema tributério organizado em torno da tributago direta e progressiva do consumo e da riqueza pessoa Ha, porém, uma condigao elementar para a pertinéncia desta argumentagao: a cobranga efetiva dos impostos e o sancio- namento exemplar da evasio fiscal. Ha um fato singelo que desmente todos os protestos de seriedade na administragao tributaria: em todo 0 territério de um pas em que se sonegam, escancaradamente, os impostos, e em que alguns dos homens mais ricos do Brasil ocupam os primeiros lugares no rol dos sonegadores, nem uma 86 pessoa est na cadeia por sonegagiio fis- cal. Muitas precisam estar, comegando pelos gratidos. Nada seria mais benéfico ao financiamento do governo — ou A confianga dos brasileitos na capacidade e 7” na justiga do Estado brasileiro — do que 0 comum uma ver enclausurados em p centena de sonegadores de grande nome e fortuna. Para is 6 inves- 0, € preciso no s tir no aparato humano e tecnolégico da Receita mas também legislar para aumen- tar as penas e limitar as desculpas. O fisco deve ter acesso a todas as transferéncias econémicas (mesmo porque a sistematica do imposto sobre o valor agregado o exige), ao mesmo tempo que os seus qua- dros se coloquem sob um regime de sigilo severamente sancionado sobre as informa- ges de que tivessem ciéncia especial. Os privilégios penais de réus primérios devem, em matéria tributaria, restringir-se a pessoas de condigao humilde, sem infor- magiio ou traquejo adequados, ¢ as san- gies 6 triplo do valor sonegado. Devem patrimoniais devem ter por minimo empregat-se em grande escala as técnicas, conhecidas € comprovadas, de imputagio da riqueza e da renda por indicios de ati- vidade econémica. ‘A consolidagio da estabilidade mone- 1 taria que propomos — reduzir substancial- mente a divida interna por algumas ven- das patrimoniais espetaculares ¢ aumentar substancialmente a receita pela tributagao indireta do consumo — destina-se a apa- relhar um Estado forte e atuante. Sua forga persuasiva vem do projeto desenvol- vimentista e democratizante que precisa ter neste Estado o seu principal agente. Este projeto é o tema das partes seguintes deste pequeno livro. Por falta dele, nao se consolida a estabilizagao. Pois o paradoxo que esta enfraquecendo o pats € que, no tendo projeto, nado tem também como completar a estabilizagao, que é prelimi- nar indispensavel de qualquer projeto. As conseqiiéncias praticas da desesperanga Por falta de projeto, nao se quer nem se pode domar a divida interna ¢ elevar substancialmente a receita publica. Por falta de projeto, nao se tem como nem por que mobilizar o povo contra os grupos n le pressiio ¢ os lobbies plutoctaticos ou orporativos. Por falta de projeto, per- erte-se a politica das privatizagdes numa lemonstragaio de conformismo ideolégico © formulario de Washington e sufocam- € nossas grandes empresas piiblicas, ne- ando-se-lhes, ao mesmo tempo, recursos compradores. Por falta de projeto, es rera-se ser redimido das conseqiiéncias do mobilismo pelo investimento estrangeiro, jue, contudo, jamais substituira nosso it6prio esforgo para poupar e investir, Por alta de projeto, permite-se a qualquer rrasileiro profissional ou empresario ga- ahar mais nos juros da divida publica do jue ganha pelo trabalho, acumpliciando nuitos nas classes proprietatias num es- juema predatério e ruinoso ao pais. Por alta de projeto, cede-se cada dia poder a lireita politica, de um lado, ¢ a parcelas lo grande empresariado, de outro, descul- ando-se a subserviéncia com a ladainha inica do. “tudo pelo social”. Por falta de ¢ 0 neoliberalismo em yrojeto, suaviz: vez de substitui-lo. O Neoliberalismo Substituido A tarefa Consolidada a vitéria sobre a inflagao, de cujas condicées tratamos no capitulo anterior, chega 0 momento de executar- mos um novo projeto nacional de desen- volvimento. Nao ¢ tarefa para o futuro longinquo. E obra para aqui e agora, mesmo porque a consolidagio da politica anti-inflaciondria e o langamento do pro- jeto desenvolvimentista sio reciproca- mente dependentes. Ha alternativa viavel ao idedtio neoli- beral: economicamente viavel porque, muito melhor do que ele, promete acele- rar © crescimento econémico dentro das novas condiges da economia mundial ¢ "4 politicamente viavel porque pode contar com 0 apoio de uma base social abrangen- te, inclusive grandes setores do empresa- riado, Nao acalentamos a ilusdo de que a execugdo deste programa democratizaria profundamente 0 Brasil. Nele vemos uma tarefa consensual do pats, preliminar a qualquer mudanga mais igualizadora. No capitulo seguinte a este, esbogamos 0 que poderia vir a ser a segunda etapa, franca- mente antidualista, desta estratégia. Por ser projeto capaz de merecer ampla hase de apoio nacional 0 que propomos, nem por isso 0 imaginamos ser de facil realizagaio econémica ou politica. E desatio aos limi- tes, institucionais ¢ imaginativos, do pai Para um povo ou um estadista, 0 caminho Ja grandeza é aquele que rejeita os cha- voes prestigiosos da época e€ os acertos Sbvios entre os interesses dominantes, e insiste em operar na fronteita das capaci- A missio do visiondrio dades nacionai: realista © corajoso € tornar 0 necess io possfvel e inspirar 0 povo a passar pela desilustio da desilusto. 15 O neoliberalismo e 0 nacional-populismo Antes de desenvolvermos as diretrizes da alternativa que propomos, convém precisar tanto a natureza do neoliberal mo quanto 0 sentido da sta relagéo com a estratégia de industrializagao que o neoli- beralismo pretende substituir. O programa neoliberal, também alcun do na sua forma mais atual “consenso de Was- hington”, seria aquele que prega a estabi- lizagdo monetéria, ancorada, de inicio, em alguna forme de paridude cambial, porém sustentada tanto na elevagio da receita quanto, sobretudo, na contengio da des- pesa publica; a liberalizagao, entendida como a aceitagéo da concorréncia inter- nacional, née como a mudanga da estru- tura nepotista ¢ oligopolizada do capitalis- mo privado em paises vatizag: como © nosso; a pri- o, vista como o abandono pelo Estado de atividades produtivas, realizada através da simples transferéncia das empresas ptiblicas a maos privadas; e o desenvolvimento de politicas sociais com- pensatorias destinadas a suavizarem os 6 efeitos sociais dos ajustes econdmicos. O neoliberalismo, portanto, nao € o laissez- faire despreocupado com os problemas sociais. E a doutrina, socialmente preocu: pada, da adesao As instituigdes dos paises ricos do Atlantico Norte. O discurso do » € uma alternativa “tudo pelo social” a0 neoliberalismo; € apenas uma maneira ientar as suas pretensdes compensa- de si térias, dando-the, habitualmente, tanto maior relevo na retética quanto menor realizagao na pratica. Na sua realidade pratica, sobretudo em anos recentes na América Latina, 0 neoli: beralismo reveste forma especifica. Nesta forma especifica revela, mais claramente, seu contetido politico e social, mascarado pela formulagao abstrata da doutrina Traduzido nesta variante pratica, 0 neoli- beralismo prima pela manutengio de taxas reduzidas de poupanga interna (abrangendo tanto a poupanga publica quanto a privada), tipicamente abaixo de 20%; pela rentincia a uma estratégia pré- pria de crescimento econémico (portanto, n pela aceitagdo passiva das vantagens e desvantagens comparativas existentes da economia nacional dentro da economia mundial); ¢ pelo recurso duradouro ao que setiam os expedientes tempordrios de juros altissimos e cambio sobrevalorizado para assegurar a estabilidade monetaria Estes diversos aspectos do que se pode chamar a variante operativa do neolibera- lismo tém um ponto em comum: a deses- truturacao do Estado como agente de uma estratégia propria de desenvolvimento nacional. Em grandes paises em cresci- mento, como o Brasil, existe um setor de vanguarda dentro da economia. Este setor pouco precisa do Estado. Relaciona-se diretamente com as outras vanguardas da economia mundial. Todo o peso do des- mantelamento do Estado recai sobre as maiorias que vivem excluidas desta van- guarda econdmica, e que s6 pela atuagao estratégica do Estado se poderiam, em ptazo cutto, incorporar a ela Visto na sua forma real — néo mera- mente na sua apresentagaio doutrinéria — 8 mo sofre de dois vicios gra- 1 consegue libertar o pais do que se poderia chamar a escada rolante © neoliberalis ves. Primeiro, n da economia mundial. Se permite a uma vanguarda, relativamente isolada dentro da economia brasileira, progredir, obriga 0 resto do pafs a aguardar a sua vez, penan- do no purgatério do trabalho semiquali- ficado, mal equipado e mal pago. Segun- do, cria, por isso mesmo, as condigdes para um vaivém perene entre ortodoxia econdmica ¢ populismo econdmico, ambos incapazes de mudarem as estruturas ou as estratégias bisicas da produgao. Um pouco de arrocho aqui, um pouco de inflagdo ali, até que as massas exclufdas se vinguem pela politica daquilo que thes foi negado na economia e elejam, outra vez, um governo populista que, dando voz a frustragao popular, vire a mesa da ortodo- xia econémica. Este segundo defeito revela um para- 0 do neoliberalismo. Se doxo caracterist fosse aplicado literalmente, segundo a letra da sua formulagio doutrinéria, pode- ” ria até ser, em alguns aspectos, um progra- ma transformador e democratizante. Nao toleraria, por exemplo, as priticas nepo- tistas que mantém muitas das nossas maiores empresas industriais ¢ dos nossos maiores bancos sob 0 controle dindstico de familias, permitindo a tais empresas de familia usarem o mercado de capitais como mera fonte de financiamento, sem se sujeitarem a democratizagiio efetiva do controle acionério. As forgas que susten- tam 0 neoliberalismo nao tém o menor interesse nesta radicalizagao do neolibera- lismo. Querem um neoliberalismo seleti- vo, que dome o poder do Estado para reforgar, ainda mais, os grandes interesses ro discurso da pri- privados. Querem us vatizagao do setor ptiblico para evitar a privatizagao do setor privado. Por outro lado, para sustentar a ampliagiio da pro- posta neoliberal, um neoliberalismo le- vado ao pé da letra teria de contar com grande base popular. Esta base acabaria por mudar-the o contetido, exigindo-lhe, por exemplo, um compromisso com 0 80 derguimento cultural, tecnolégico e hanceiro da nossa vasta retaguarda eco- Smnica. Este paradoxo revela um aspecto sur- reendente do neoliberalismo. Num s n- do profundo, ele representa a continui- ade do modelo de crescimento econdmi- 9 e de financiamento do Estado que ele rocuraria substituir. A estratégia de idustrializagao montada no pais, sobretu- o nas duas décadas subseqiientes & egunda Guerra Mundial, comumente onhecida como a “substituigao de impor- igdes”, produziu grandes avangos, justa- ente porque representou uma forma de ‘sociagao pratica entre governos € pro- itores. Ao mesmo tempo, porém, 0 chamento da economia brasileira permi- wo enriquecimento dos setores protegi- ys da economia as custas do povo e das gides favorecidas as custas do Brasil profundou o dualismo brasileiro — a visio interna do pais entre vanguarda taguarda. O Estado brasileiro acabou refém dos 81 setores favorecidos que ajudara a criar. Daf resultou 0 cunho caracteristico das nal deste finangas publicas no periodo modelo. A economia inflacionaria foi mo. Ao. uma espécie de pseudokeynesiani contrétio do keynesianismo verdadeiro, que reforgou o Estado na sua capacidade de gerir a economia, esta finanga populis- ta revelava a fraqueza crescente do nosso Estado. Em vez de impor os custos do governo, tanto de operagiio quanto de investimento, as classes aquinhoadas do pais, generalizou este custo para a socieda- de toda através da inflagio. E persistiu na fraqueza até que a inflagéo, havendo desorganizado 0 setor piblico, acabou por ameagat a prépria economia privada do grande capital O neoliberalismo real, que é0 neolibe- ralismo seletivo, descartou 0 que em sua época foi eficaz € progressista no antigo modelo econémico — a rebeliio contra as forgas supostamente irresistiveis d economia mundial e contra o lugar que estas forgas atribufam ao pafs na divisio 82 nternacional do trabalho. Reinventou, sorém, o acerto dualista que maculava quele modelo. Se aumentou o grau de oncorténcia internacional que a van- warda teria de enfrentar, abandonou a etaguarda a sua propria sorte. Se negou ae os endinheirados a indexagao privilegi la do capital sob o antigo regime inflacio- ar xétio, permitiu que continuassem a go: le uma indexagiio de fato pelos juros reat stronémicos de que se beneficiam os nvestidores em instrumentos financeiros =a comecar pelos investidores nos titu- 9s da divida pabl iw ar, em novos moldes ¢ novas circunstan- ca interna. Nossa tarefa . Temos de reinven- ramente a invers ias, a rebelidio nacional contra um desti- 10 que nos seria imposto pelas forgas egas da evolugio econémica mundial Tavemos, porém, de fazé-lo de maneira ue enfrente ¢ supere o dualismo econd- ico e social. Este é 0 impulso que anima 10880 texto. Neste esforgo, 0 problema da posigo le Sao Paulo dentro do Brasil assume 83 1 e relevo especial. Pois tinua a ser, ao mesmo tempo o maior beneficidrio ¢ a maior vitima dos acertos dualistas, forjados no antigo modelo ¢ redesenhados na politica neoliberal da situagéio. Concentrou-se riqueza em Sa0 Paulo. Concentrou-se pobreza também. © segundo Brasil veio morar dentro do pri- meito. Ao contrério do que insinuam os apélogos do neoliberalismo, Sao Paulo nado é uma espécie de estagio intermedia- rio entre os Estados Unidos ou a Europa © resto do Brasil. Sio Paulo € Brasil. Os ressentimentos reciprocos criados entre encobrem a 0 Paulo € 0 resto do pais divisio interna da sociedade paulista representam parte do prego que © pats todo paga pelo legado do dualismo. Li- quidar estes ressentimentos, debelando- thes as causas, € um dos objetivas da nossa proposta. Diretrizes da proposta Cinco diretrizes norteiam esta primeira etapa da alternativa desenvolvimentista 84 jue propomos: primeiro, politicas € insti- uigdes econdmicas que elevem rapida e -adicalmente o nivel de poupanga, tanto siblica quanto privada, e estabelegam os nstrumentos institucionais necessdrios a0 nvestimento produtivo da poupanga niblica ¢ privada, inclusive pela reforma tbrangente do sistema previdencisrio; segundo, a criagao de formas descentrali- cadas © experimentalistas de parceria ou cordenagao estratégicas entre o Estado € 1s empresas ¢ bancos piiblicos, de um ado, e os produtores privados, de outro, Jotando-nos dos meios para reali armos una estratégia produtiva e comercial deli- serada; terceito, uma politica de pro- nogio salarial que, por todo um conjunto le iniciativas ¢ de maneira duradoura, iumente a participagao dos saldrios na enda nacional, desmentindo a falsa idéia le que aumento salarial sem ganho de srodutividade € fatalmente inflacionario; juarto, uma politica social que privilegie 1fio sé a generalizagaio da educagao publi- sa sendo também a mudanga do seu con- 85 tetido e © preenchimento das condigées de apoio familiar que assegurem a perma- néncia da crianga na escola; e, quinto, uma forma de integragéo na economi mundial que favorega a mais baixa taxa cambial que pudermos sustentar, limite os riscos desta politica cambial pelo uso de estimulos ctiteriosos & importagio de tec nologias avangadas, troque o dogma do livre comércio pelo uso seletivo, tempora- rio, ¢ estratégico das tarifas de importa- 10 das nos- sas relagdes comerciais, aproximando-nos, econémica ¢ politicamente, dos outros Go, ¢ aprofunde a diversifica grandes paises marginalizados — a China, a Riis samos tornar mais pluralis ea India — com cuja ajuda pos- aa nova ordem econ6mica internacional. A execugao persistente e simultanea destas cinco séries de iniciativas nao revo- lucionaria o Brasil. Daria, porém, contet- do pratico @ reivindicagao nacional de uma alternativa ao neoliberalismo. Certos politicos alegam no setem aderentes 20 neoliberalismo por causa dos seus com- 86, promissos sociais, como se 0 manejo das politicas sociais compensatérias nao fizes- se parte integrante do “consenso de Washington”. © problema é que, na auséncia de inovagées institucionais € s no mudangas de estrutura, tais politi dao em nada. © neoliberalismo nem sequer dota o Estado dos recursos neces rios aos grandes investimentos sociais, muito menos muda as causas estruturais da marginalizagao das maiorias. Para poderem dizer que nao sio neoliberais, definem o neoliberalismo como uma fan- tasia direitista que nenhum formulador sério desta doutrina reconheceria. O que distingue uma posigo como a io € o discurso nossa do neoliberalismo mentiroso do “tudo pelo social”. E 0 com- promisso com toda uma série de inovagées institucionais — econdmicas e politicas — capazes de acelerarem 0 experimenta- lismo democrético, criando um Estado forte, rico e igualizador, um Estado que nfo apenas assiste sendio também investe, produz, coordena e organiza. Este Estado 87 nao € o inimigo de uma economia demo- cratizada de mercado; cle é, em circums- tancias sociais como a nossa, sua condi- sao. Esbogamos, em seguida, cada um dos cinco elementos de nossa proposta. A elevagdo da poupanga priblica e privada Do ponto de vista estritamente econd. mico, o mais grave erro do ideétio neoli- beral, tal como foi praticado no México € na Argentina, foi aceitar um nivel muito baixo de poupanga afluxo do investimento estrangeito com- interna e supor que o pensaria a falta desta poupanga. Os resul- tados esto a vista no s6 naqueles paises sendo também em todos os que imaginam encontrar no capital internacionalizado uma alternativa 4 mobilizagao dos recur- sos nacionais. De um lado, o capital estrangeiro ndo vem na dimenséo neces- sdria e com a paciéneia necessariay em todo 0 mundo os niveis de poupanga e de investimento em cada pats permanecem estreitamente vinculados. De outro lado, vindo 0 capital estrangeiro, fica sujeito as 88 crises de confianga ou as mudangas em mercados remotos; qualquer imprevisto se ransforma em crise na conta corrente & trangula o desenvolvimento nacional. A Jiferenca mais simples e mais importante entre as grandes economias latino- americanas e as dos “tigres asidticos” ou da China continental é o nivel de poupanga. Dingapura poupa 49% do seu PIB, a China continental cerca de 35%, 0 México 16%, 1 Argentina 16% e 0 Brasil 18%. O nivel de poupanga nao é fatalidade cultural; é, em grande parte, conseqiiéncia Je arranjos institucionais, imaginados e ealizados pela politica. H4, nas nossas condigdes, trés grandes instrumentos: a nudanga do regime fiscal, a reforma do sistema previdenciario e a criagdo de jovos canais entre poupanga € 0 inves- imento produtivo, canais em cuja cons- rugdo € geréncia o poder piiblico ¢ a ini- ciativa privada teriam de associa A chave para uma reforma tributaria se. jue assegure a elevagaio do nivel de pou- vanga é fazer com que 0 maior peso dan 89 butagao incida sobre o consumo, com ali- quotas suficientemente altas para permiti- rem um grande aumento do investimento piiblico em gente e em infraestrutura pro- dutiva. No inicio, o instrumento principal pode ser um imposto sobre o valor agrega- do com aliquota em tomo de 30%, fun- cionando da forma descrita no segundo capitulo. Com o tempo, pode aumentar a importancia relativa do imposto direto sobre 0 consumo pessoal, incidindo, em escala progresssiva, sobre a diferenga entre a renda ea poupanga de cada con- tribuinte. As aliquotas deste imposto dire- to podem, com facilidade, ultrapassar 100% para a classe rica: 0 rico paga ao Estado mais do que o valor daquilo que ele consome. A parte da poupanga que 0 contribuinte nao puder demonstrar estar legitimamente investido no pais conta como que se fora gasto. Além de financiar 0 Estado com um minimo de distorgao das, dec sumo, se aplicada com suficiente rigor, ‘es econdmicas, a tributagao do con- constitui estimulo poderoso & poupanga. 90 A reforma da previdéncia que se exige, na linha da democratizagao da economia de mercado, nao € aquela exemplificada pelo prestigioso modelo chileno, que dis- tingue a previdéncia privada para os tra- balhadores de boa renda de uma previ- déncia publica minima para a maioria pobre. Num pafs como nosso, tal esquema sofre de dois defeitos fatais: nao obriga a um nivel suficiente de poupanga privada, ¢ permite & maioria privilegiada do pais separar ainda mais facilmente sua sorte da sorte da maioria pobre. Melhor exemplo, se precisarmos de exemplos estrangeiros, é o Fundo Central de Previdéncia de Cingapura, devidamente diversificado e democratizado. Todos os trabalhadores devem, compulsoriamente, contribuir com uma porcentagem dos seus ganhos a um fundo de previdéncia. Para os abasta- dos, © Estado nao contribui nada; para os trabalhadores de renda modesta, a contri- buigdo do Estado junta-se contribuigio do trabalhador; o Estado contribui pelo trabalhador pobre. Ademais, uma parte 1 dos fundos acumulados pela primeira categoria € transferida, por uma formula pré-estabelecida, para a terceira categoria. O dinheiro ficaria a disposigio de varios fundos de investimento que, administra- dos por representantes do governo e dos assegurados, gozariam de grande autono- mia de iniciativa. Sua tarefa seria reconci- liar a rentabilidade das aplicagdes com as exigéncias do desenvolvimento, escapan- do ao curto-prazismo do investidor priva- do tradicional. Nao adianta levantar a poupanga, pri- vada e ptiblica, sem organizar, ao mesmo tempo, oportunidades de investimento produtivo. O calcanhar de Aquiles das economias de mercado, ral como geral- mente organizadas, é a relagdo entre a finanga e a atividade produtiva. Em todas as economias de mercado contempora- neas, grande parte do potencial produtivo do capital se dissipa num jogo de apostas — sejam as apostas das aplicagées finan- ceiras, sejam as apostas das bolsas de valo- tes. Mesmo numa economia com um mer- 92 cado de capitais maduro, como a alemi, sm que 0s bancos notoriamente cultivam -elagdes intimas e duradouras com as empresas, cerca de 80% dos fundos de nvestimentos das empresas so gerados nternamente dentro de cada empresa; ao vém do financiamento externo. Para cada nova empresa que se socorre do inanciamento externo, o estudo empirico Jemonstra haverem muitas que foram sstranguladas no bergo por falta injustifi- cada de crédito. Critérios objetivos de isco e rentabilidade nao bastam para -xplicar este malogro do mercado de capi- ais no exercicio do que seria sua fungiio ocial prioritéria de mobilizar a poupanga imento produtivo. O keyne- vara o inves iianismo — a heresia econdmica mais nfluente do século XX — inspirou-se ium aspecto especifico deste problema, assim como 0 marxismo havia sublinhado nutro aspecto. Do ponto de vista estrutu- al, as inovag6es institucionais mais s de mercado importantes nas economi sontemporaneas seriam aquelas que 93 fariam a produ o prevalecer sobre a joga- ando o potencial dormente Parte do resultado da tributagao do consumo deve, junto com as acumulagdes: da previdéncia, ser destinada aos fundos de investimento piiblicos. Além de goza- rem de ampla autonomia decisdria ¢ de responderem pelos seus resultados econd- micos, estes fundos se especializariam em diferentes estratégias de investimento e em setores distintos da economia. Ao mesmo tempo, os poupadores teriam a alternativa de confiarem suas poupangas nao-previdencidrias a bancos e fundos mituos privados. Para que este canal de investimento 1 criando as praticas ¢ as instituigdes de uma verda- privado funcione, precisamos deira economia democratizada de merca- do. Imponhamos o capitalismo aos capita- listas. Os instrumentos de manipulagao cabalistica no mercado de capitais — 0 recurso as agSes nominais sem direito a voto, o tratamento madrasto dos acionis- 94 as minoritérios, 0 abuso da informagao stivilegiada e confidencial e a condugao como le grandes organizagées financeira ‘negécios de familia” — seriam todas tbolidas ou sancionadas, civil e penal- nente. Nao se permitiria a grandes em- as irresponsé- oresas, em maos de dinas' seis, perverterem o mercado de capita ratando 0 langamento de agdes como onte de financiamento sem abertura de voder. Ao mesmo tempo que se organizem as vases institucionais de uma economia lemocratizada de mercado, capaz de sstreitar 0 vinculo entre a poupanga pri- sada ou piblica e 0 investimento produti- priticas 20, haverfamos de combater saralelas de uma cultura empresarial ticiada no ganho estéril e facil da especu- aco financeira. As aplicagdes de curto srazo ou de cunho meramente financeiro cofreriam tratamento fiscal punitivo Reconstituida a divida publica interna somo instrumento normal de politica nonetaria ¢ de investimento publico, 98 nunca mais voltaria a servir, como serve agora, a uma espécie de indexagaio perma- nente do capital. A parceria entre o Estado e os produtores privados A segunda direttiz da alternativa ao neoliberalismo € a construgio de uma alianga ativa entre o poder piblico e a iniciativa privada, em contraste com a retirada do Estado das atividades produti- vas, recomendada pelo idedrio neoliberal Nosso pensamento sobre a politica indus- trial deve partir de exemplos do que fun- ciona em ver de entregar-se a dogmas ¢ preconceitos. Ha duas séries de experién- cias contemporiineas de avango econdmi- co que merecem atengao especial: a dos “tigres astiticos” ¢ a das regides industriais mais inovadoras da Europa e dos Estados Unidos. E impossivel explicar ¢ éxito dos “tigres asidticos” sem dar crédito & coorde- na > estratégica entre o Estado ¢ as empresas privadas: diferenciagdo nos juros %6 ara facilitar o crédito ao investimento de ingo prazo nos setores de maior poten- mbio para conter al; diferenciagao no consumo ¢ favorecer a importacio dos ateriais ¢ das tecnologias necessdrios A tratégia produtiva e comercial do pais; ssociagao flexivel entre produtores piibli- 3s e ptivados; formagio de quadros, pra- cas ¢ idéias. O problema n Taiwan — 0 exemplo de maior des- antralizagdo econdmica entre os “tigres” & que mesmo ~ a parceria tem o aspecto de um conluio tre elites policias e burocraticas € seto- +s favorecidos do empresariado, urdido istentado por um Estado forte e autorité- o. Daf a tendéncia a descambar para os sertos clientelistas. Daf também a in- uéncia do dogmatismo burocratico, res- onsdvel por ertos custosos e persistentes. A licado que devemos inferir d xperiéncia € que a coordenagao estrat ca entre Estado e empresa € tanto mais sta icaz € democratica quanto mais descen- alizada onais. Em vez de confiarmos a formula- e mais rica em agentes institu ” ao da politica industrial e comercial do pafs a ministérios centralizados, como fa- zem os “tigres”, devemos entregi-los a uma variedade de fundos e centros ptiblicos, que gozem de grande independéncia ¢ se sociem a diferentes conjuntos de empre- sas. Em vez de uma s6 estratégia, devemos ter varias, aliando assim & coordenagao estratégica a inteligéncia sutil dos merca- dos. Em vez de construirmos um Estado forte ¢ autoritério como eles fizeram (o autoritarismo € atalho perigoso em direcio ao teforgamento do Estado) temos de construir um Estado forte e democratizado. As regides econdmicas mais progressis tas da Atlantico Norte ensinam-nos outra ligdo. Ha grande transformagao industrial em curso nas economias mais adiantadas, A qual as vezes se aplica o rétulo de pés- fordismo. Nao a podemos adequadamente compreender nem pela primazia de certas s (da informagao e comunica- ¢4o), nem pela qualificagao técnica da tecnologi: forga de trabalho (qualificagio aprofunda- da), nem pela forma de combinar escala e 98 diversidade (produtos e servigos nao padronizados). Sua esséncia estd na gene- talizagio do experimentalismo produtivo. Da-se esta generalizagao pela revisio constante das priticas e dos produtos & luz das oportunidades, pela flexibilidade das relagées entre os integrantes da equipe de trabalho e pela conseqiiente primazia das capacidades genéricas sobre as competén- is. Preferem-se as formas cias especializad: de cooperagao que diminuam os obstdcu- los A inovagao permanente. © que aprendemos da experiéncia des- tas regiGes mais adiantadas € que o experi- mentalismo produtivo pode vigorar numa vanguarda, como vigora num pequeno setor da economia brasileira, com ajuda minima dos governos. Pode ir criando os seus proprios instrumentos de trabalho. Mesmo nestas economias adiantadas, iadas por densidade de educacao, tecnologia e capital, o vanguar- porém, benefi dismo produtivo exige associagSes entre governos de “concorréneia cooperativa” entre as © empresas, bem como priticas 9 proprias empresas. Sob o disfarce de regi- mes conservadores ¢ ortodoxias neolibe- rais, difundiram-se empreendimentos associativos entre o poder publico e a ini- ciativa privada. Assim acontece, por exemplo, nos Estados Unidos com a poli- tica industrial conduzida com igual afinco por governadores de estado dos dois prin- cipais partidos. Entre nds as priticas de concorréncia cooperativa, fundadas numa parceria entre governos e produtores pri- vados, j4 passaram de mera hipétese espe- culativa: o Ceara, Santa Catarina e outros estados da federagao ja assistiram a expe- riéncias vitoriosas, ainda que em escala relativamente pequena. Falta generalizar para todo o pats, e equipar com institui- Ges econémicas préprias, o que ja se pra~ ticou de forma pontual e empirica. Ensinam-nos estas experiéncias que ha espago imenso entre o extrema da distri- buigdo publica de estimulos, subsfdios e proteges a empresas € 0 extremo oposto, da passividade econdmica do Estado. Governos podem tomar a iniciativa de 100 estudar e difundir as préticas do vanguar- dismo industrial experimentalista. Podem ociagées de trabalhar junto com empresatios ¢ trabalhadores para formar uma nova forga de trabalho. Podem impe- dir que o aperto financeiro estrangule a 1. Sobretudo, podem iniciativa empresari estabelecer um regime impessoal, que condicione 0 apoio piiblico — seja técni- co ou financeiro — a critérios objetivos de desempenho, avaliado por organiza- ges independentes. Quanto mais d is desigualmente organizada a sociedade sigual a economia ¢ r civil, quanto mais fundo o fosso entre a vanguarda ¢ a retaguarda da economia, tanto maior deve ser o papel da iniciativa publica. Aquilo que, tanto nas economias adiantadas quanto em alguns paises em desenvolvimento, j4 € feito por governos de provincia, teria, no Brasil, de ser realiza do em escala maior, e com gestao descen- tralizada, pelo governo federal e pelos Srgdos que ele criar. O espirito do exper mentalismo produtivo ¢ democratico, que 101 anima toda esta proposta, procura criar no uma estratégia indu ri | unitdria senao uma grande diversidade de estratégias, algumas complementares, outras conflitan- tes, formuladas por organizagdes diferentes, comprometidas com idéias distintas. Saldrio digno Se os juros mirabolantes ¢ 0 cambio sobrevalorizado sio os dois esteios mais conhecidos da estabilizagao interrompida, © terceiro, menos evidente, & a repress salarial. Se o desmantelamento de um Estado capaz de conduzit um projeto rebel- de de desenvolvimento nacional é a preo- cupagiio mais ostensiva do neoliberalismo, a outra, igualmente importante, é a manu- tengo duradoura de participagao baixa do salério na renda nacional, Barato mesmo. no Brasil de hoje € s6 0 trabalho — do opertio que esteja fora do eixo da grande indtistria do sudeste, do lojista ¢ do traba- Ihador bragal, da secretéria e da professora priméria, do pedo e da doméstica. Era bara 102 © antes do plano real, ¢ continua a ser epois. Mais barato do que em paises bem nais pobres do que o Brasil como o , onde empresatios brasileiros 3olivi mportam operdrios brasileiros para Ihes soderem pagar salérios aviltados, recusados selos bolivianos. A Organizagao das Nagées Unidas para o Desenvolvimento ndustrial calculou mais recentemente a sorcentagem representada pelos salérios no valor agregado da industria brasileira como 23%. E triste comparar com as cifras cor- ‘espondentes de paises mais pobres do que > Brasil (sobretudo pelo critério mais rele- vante do valor produzide por cada traba- hador) como a India (38%), a Africa do Sul (51%), ou o Panama (37%), ou de pz ies mais ricos como a Italia (69%) ou a Noruega (71%). E estas comparagées nem evam em conta as desigualdades salariais, oxtremadas no Brasil. Um marxista diria ser o Brasil paraiso da mais valia. Nés sutros observamos apenas que aqui a 2xploragao humana passa da conta. 103 Nao € verdade que remuneragao sala- tial baixa — baixa em comparagdo com outros paises em nivel semelhante de renda, riqueza e produtividade — seja agem para 0 ctescimento econémico do pats. E apenas vantagem para os ja avantajados — uma inigiiidade que bota a perder todas as pretensdes da politica social. Entre os paises mais ricos, a Alemanha nao progrediu menos que os Estados Unidos nas tiltimas décadas por haver mantido niveis salariais mais altos do que os dos Estados Unidos em todas as classes abaixo da dos altos executivos profissionais. Entre os paises em desenvol- vimento, 0 Brasil no cresceu mais rapi- damente do que Taiwan por haver convi- vido com salatios mais baixos do que os de Taiwan para todos, menos os altos exe- cutivos e profissionais, durante quase todo 0 periodo do apés-guerra. O aviltamento salarial nao financiou crescimento Financiou apenas desigualdade. E a desi- gualdade, levada ao extrema como o é entre nds, vira ameaga tanto ao cresci- mento quanto 4 democrac! 104 Os do para a situagdo material do brasileiro s ntimeros mais importantes 0 9 saldério minimo e a despesa piiblica no gasto social. Toda a estrutura de salérios no Brasil guarda relagao com o salario minimo. A maioria dos brasileiros precis: do Estado brasileiro — 0 Estado que 0 neoliberalismo quer vergar. A despesa pti blica no gasto social depende do nivel da stado receita ptiblica e da capacidade do E: de libertar-se dos juros pagos pela rolagem da divida interna. A generalizagao do efeito multiplicador do salério minimo sobre toda a estrutura salarial — no ape- nas sobre a situagao da minoria que traba- Iha na grande indistria ou nas burocracias e empresas do Estado — depende da liber- dade de organizacao © mi na cidade e no campo. Depende do exer- ‘Ancia sindicais cicio desta liberdade fora dos setores em que ela tradicionalmente se afirmou. Depende da busca de uma solidariedade programitica e estratégica entre as partes da forga de trabalho que o governo cen- tral respeite ¢ apoie. 10s yee Ha duas grandes dificuldades que uma politica de promogao salarial tem de enfrentar. O primeito problema € a dissi- pacio inflacionéria do ganho salatial, com a divergéncia entre salétio nominal e sald- rio real. Este foi um dos embustes caracte- rfsticos do antigo nacional-populismo ¢ da pseudokeynesiana. A solugiio € insistir que a promogio sala- sua politica econdmii rial ocorra dentro do contexto da estabili- dade monetéria, sustentada sobre o refi- nanciamento do Estado nos moldes que descrevemos. Nao ha incompatibilidade técnica entre a manutengao da estabilida- de monetaria ¢ a duplicagao do salatio mfnimo num periodo de poucos anos, com todo © impacto que esta duplicacao teria sobre os saldrios inferiores. O que ha 6 uma heranga de praticas e expectativas que emprestam falso cunho de naturalida- de & divisio leonina da renda nacional. Nao ha pretexto no Brasil atual para um ldrio minimo de menos de 200 reais. Se toda a elevagéo nao inflacionéria dos sa ios houvesse que basear-se num 106 ganho de produtividade, nunca mudaria a participagao relativa do salario e do lucro ‘na renda nacional, a nao ser por destino zego. Nao se explicariam as grandes dife- rengas entre pafses em circunstancias semelhantes de riqueza, progresso tecno- légico e densidade demografica nas partes jue cabem ao trabalho e ao capital. Os fatos fisicos e econémicos nado bastam sara explicar tais diferengas; a politica completa, indispensavelmente, a explica- 80. A educacio do trabalhador e seu ‘etreinamento periddico durante toda a vida, a extensao do direito do trabalho, a |, a transpa- ‘orga do movimento sindica ‘@ncia na contabilidade das empresas, 0 empenho do Estado, vigor da concor- séncia, imposto tanto por uma legislagzio antitruste intransigente quanto pela aber- cura comercial do pais, sfio todos fatores que impedem a tradugio automatica de aumentos de saldrio em aumentos de arego. A politica industrial teria de lide- ar uma mudanga no perfil da produgao, sreparando o sistema produtivo para o 107 ie maior poder de compra dos trabalhadores. Até mesmo 0 controle seletivo e temporé- tio de precos pode ter um papel acessdrio a desempenhar desde que nao sirva para substituir o fundamento sélido de uma moeda estavel no refinanciamento do. Estado Os efeitos econémicos de uma mudan- a nas participagées relativas do trabalho e do capital sio complexos. De um lado, tal mudanga aprofundaria o mercado in- temo, fortalecendo as condigées para uma trajetoria propria de desenvolvimento nacional. De outro lado, obrigaria as empresas a reordenarem sua politica de investimento. Com a conquista de um nivel normal de juros, facultada pelo redi- mensionamento da divida interna e pela elevagao da receita publica, os fundos das empresas deixariam de desviar-se para 0 investimento financeiro estéril. O merca- do de capitais, reconstruido’ no contexto da parceria descentralizada entre os pro- dutores privados e o Estado ou os fundos e centros independentes, desempenharia de 108 ato sua fungio de mobilizar a poupanga ‘ara o investimento produtivo. O retorno © custo do capital sio tamanhos entre 6s que temos muito caminho a andar ntes que aumentos salariais causem limi- lesemprego de monta, sobretudo s armos os encargos € as contribuigdes que ineram a folha de pessoal. O outro obsticulo a politica de promo- fo salarial é mais refratario. Numa estru- ura social dividida como a nossa, a eleva- 0 dos salérios acaba rapidamente distor- ida pela logica do prdprio dualismo. Con- entra-se 0 efeito multiplicador do aumen- o salarial no setor favorecido, capitalizado organizado da economia. Dilui-se rapida- nente & medida que se cruzam as frontei- as da segunda economia brasileira — 0 Srasil marginalizado, desarrumado e desca- ‘italizado, que continua a ser, mesmo no udeste, o Brasil majoritétio. A solugdo é olocar a promogao do salatio e do sindi- alismo no bojo de uma politica antidua- ista. E 0 que descrevemos no capitulo eguinte como segunda etapa desta alter- 109 nativa democratizante e desenvolvimentis- ta ao neoliberalismo. O efeito antidualista daquelas propostas esta, porém, antecipado na primeira ctapa da alternativa, discutida neste capitulo, pelo cunho descentralizado ¢ abrangente que queremos dar is parcerias entre os produtores privados e o Estado, ou 8 fundos e centros independentes que ele estabeleca. Daf resulta a importancia que atribuimos a organizagao das pequenas empresas ou dos empreendimentos mais rudimentares para ganharem as condigées, antes culturais do que econdmicas, que Ihes permitam associar-se a empresas, publicas ou privadas, da nossa vanguarda econémica. Mas o que sobretudo antecipa © efeito antidualista neste primeiro mo- mento da alternativa € a reconstrugdo que propomos na base social e na orientagdo pedagégica do ensino brasileiro. O problema da educagao revisto A quarta diretriz da alternativa ao neoliberalismo € a revolugao educativa. Virou lugar-comum dizer que a prioridade 10 brasileira seja educagio. De fato, toda experiéncia comparada dos paises em desenvolvimento mostra ser a educagiio o setor em que mais claramente as exigén- cias da igualdade se cruzam com os pressu- postos do avango econémico. Investi- mento educacional em peso € 0 caminho mais répido a igualdade maior e o primei- ro requisito para a extensio do vanguar- dismo econémico. Entretanto, as ale- gages de carinho pela causa da educagao 56 ultrapassariam a lenga-lenga mentirosa do “tudo pelo social” se baseadas numa grande elevagao da receita ptiblica e c: das com uma revolugio no contéudo da educagao brasileira. (De um total de 30,5 milhdes de alunos matriculados na pri- meira série do primeiro grau apenas 13,4 chegam a oitava série. De 1989 a 1991, a participacio da educago no PIB caiu de 2,2% para 1,2%.) O primeiro principio a nortear a poli- tica educacional é a primazia da realidade humana e social da escola sobre a estrutu- i ta fisica. E facil construir escolas. Difi — e necessério — é multiplicar a remu- neragio e melhorar o preparo, substantivo ¢ pedagégico, do professorado primatio ¢ secunds io, bem como desenvolver uma pratica associativa que engaje as familias no acompanhamento das escolas. O segundo principio é 0 da necessidade do apoio material A crianga pobre para que fique na escola e na familia. A eficdcia deste apoio cresce dramaticamente quan- do administrada em colaboragéo com associagdes comunitarias ou de pais; dai, mais uma vez, a importancia do trabalho associativo. O terceiro principio € a necessidade da mudanga radical no con- tetido da educagao brasileira. Nao é de ensino vocacional ou profissionalizante que precisamos. Este modelo de ensino hierarquizado e especializado est em franca dissolugaéo nos proptios paises — como a Alemanha — que nele mais se notabilizaram. O experimentalismo pro- dutivo requer o desenvolvimento de capacidades genéri ceituais — que permitam ao individuo is — praticas e con- 12 ontinuar aprendendo e mudando ao ongo da vida. O que pre Jo brasileira, em todos os niveis, desde o set extirpado da educa- i até os cursos de doutoramen- sré-prim: 0, € 0 marasmo do decoreba, a pratica da ssiva de ducag aformagies, quando deve ser a aprendiza- Jo como transmissio ps em do poder de fazer e refazer, de inter- rretar e de reimaginar, de analisar, pesqui at ¢ ctiticar. Por falta de educagio orien- ada neste sentido, carecemos da base cul- ural para estendermos dominio do van- uardismo econémico. Por falta dela, 0 énio da nossa civilizagao, com sua infor- ralidade subversiva ¢ seu engenho sur- reendente, tao bem expressos na nossa ultura popular, vive abafado na vida pré- ica e no trabalho intelectual. \bertura sem submissdo A quinta diretriz desta alternativa a0 coliberalismo € cultivar uma forma de aserit a economia brasileira na economia 13 mundial que reforce, em vez de aniquilar, nossa capacidade de seguir um caminho proprio de desenvolvimento nacional. Dar cobertura ndo s6 a inconformidade de agora mas também a possibilidade do inconformismo amanhii deve ser o princi- pio norteador da nossa politica externa. A dificuldade é fazé-lo em circunstincias marcadas nao sé pela “interdependéncia”, invocada pela meia-verdade da época, sen‘io também e sobretudo pela preponde- rancia de um s6 idedtio e um sé pats. Nao € verdade que, a0 executarmos este prin- cipio de buscar cobertura para a inconfor- midade, tenhamos de escolher entre 0 protecionismo indiscriminado da nossa antiga economia politica e a aceitagao fatalista das novas regras do jogo interna- cional, pregada pelo discurso dominante de hoje. Também nao temos de optar entre terceiro-mundismo fantasioso da nossa esquerda tradicional e a cantilena da “modermidade” a que se renderam, por falta de idéias e excesso de interesses, nossas elites. 14 Junto com os outros grandes paises que da nova ordem, 0 ‘ontinuam na periferi 3rasil € um dos poucos que tém condigées e servirem como nascedouro de alterna- ivas € campo de resisténcias. Para fazer- nos da abertura econdmica ao mundo ama experiéncia libertadora, a primeira sondigdo € mobilizarmos a poupanga nterna. © capital estrangeiro € tanto nais titil quanto menos dependemos dele: -angada uma politica de investimentos, yaseada na poupanga interna, e assegura- la a situagao financeira de um Estado rte e capaz, yar no estrangeiro a presenga de capital Zio teremos mais de mendi- sspeculativo, nem pagar por ele juros luplamente ruinosos — para nossos sovernos e nossos produtores. Nas condigées da reorganizagao finan- seira e tributdria que propomos, 0 pats sodera abragar a politica cambial que ‘a de cm- nais nos convém — uma polt io livre ou flutuante que desvincule a sstabilidade da moeda da valorizagao cambial, tdo custosa 4 causa produtiva ¢ Tr desenvolvimentista no pats. Se ha uma razio para limitar a liberdade no cambio (por um sistema de bandas petiodicamen- te reajustadas), ou para tentar influencia- la pela atuagao do Banco Central nos mercados, é justamente para favorecermos uma taxa que esteja, por critérios como o da paridade do poder de compra, abaixo do “valor real”. Com isto, premiamos a produgio sobre o consumo e afastamos o espectro inibidor das crises de conta cor- rente. A politica de cambio alto teve seu momento na primeira etapa da estabiliza- 40; perpetuada, deixa de ser um instru- mento titil e até indispens vel © passa a ser um estratagema perdulario e uma falsa alternativa ao saneamento financeiro do Estado. A restrigio mais importante a politica do cambio baixo, poupadora de riquezas e de ilusdes, é a necessidade de conceder estimulos especiais & importagao de tecnologias ¢ materiais que sejam ne- cess ‘irios 4 produgao. A diferenciagao cambial deve ser acompanhada por diferenciagao, também, 116 da politica tarifaria, até o limite maximo permitido pelos nossos compromissos internacionais. OQ dogma do livre comér- cio absoluto — livre para os bens ¢ 0 capital, nao livre para o trabalho — é tio do prote- tolo ¢ irrealista quanto a prt cionismo permanente e generalizado. a tariféria Todo 0 problema de uma politi e cambial seletiva esta em evitar sua per- versio pelo favoritismo politico. Por isso cia de tais alternativas, mesmo, a efi aparentemente técnicas, esta intimamen- te ligada a reconstrugio do Estado © da politica Pensada numa dimensio mais ampla, queremos uma integragio do Brasil na economia mundial que nos assegure a pos- sibilidade de construirmos nfio s6 um de- senvolvimento a nosso modo senao tam- Tal inregra- bém uma civilizagao propri éncia A nova forma do “si cdo exige re tema de Bretton Woods” que os pafses ricos, sob a chefia dos Estados Unidos, estao organizando. Em vez de simplesmen- a ordem, devemos mi te aderirmos a es 417 tar dentro dela para diversificd-la. Nao temos por que escolher entre o ressenti mento fantasioso e o adesismo acabrunha- do. E intoleravel que, sob o pretexto de manter aberto o sistema de trocas interna- cionais, as organizagdes Bretton Woods — o FMI, 0 Banco Mundial e a nova Organizagéo Internacional do Comércio — se transformem em agentes do idedrio neoliberal e dos interesses das poténcias dominantes. Por isso, devemos reivindicar a criagéo de organizagées internacionais miltiplas e diferentes, que quebrem 0 car- tel da tecnocracia internacional e se ponham a servigo de projetos alternativos de desenvolvimento nacional. Neste trabalho de resisténci ¢ recons- trugiio, nossos aliados devem s 0s outros, paises continentais marginalizados — a China, a Rtissia e a India. Com eles com- partilhamos um mundo de interesses mal reconhecidos — desde as complementari- dades econémicas nao aproveitadas até o desejo de preservar pélos de tecnologia avangada fora do controle das multinacio- 18 nais. Esta ampliagao de perspectivas pre- se sobre a base da cisa, porém, construi diplomacia tra- revisio paciente da no dicional: multiplicando os acordos bilate- rais justificados pela extraordinaria diver- sificagao geografica da nossa pauta de S e conduzinds as nossas rela- exportags ges com a América Latina de maneira a impedir que o espago latino-americano se reduza a uma zona de influéncia dos Estados Unidos. Havemos de administrar com sutileza a relagao crucial com os Estados Unidos, evitando que se limite ao plano unidimensional ¢ conflitive dos goni- interesses de grandes empresas prc zados por governos. Aproveitemos as con- tradigdes de uma sociedade que se, de um lado, € intolerante para com ameagas a sua hegemonia, é, de outro lado, capaz de ser generosa na simpatia por formas emer- gentes do experimentalismo demoeritico. Para fazer ago diplomatica, contamos, no Itamarati, com excelente quadro pro- nal. S6 nao podemos permitir qu este quadro domine a formulagao da poli- 119 tica exterior do pais em vez de encarregar- se da sua execugao: 0 maior defeito da nossa politica diplomética € justamente sua desvinculagao da vida brasileira e dos debates nacionais. O pats todo preci patticipar da definigao do papel do Brasil no mundo e © governo precisa ajudé-lo a fazé-lo, multiplicando as trocas — de idéias, iniciativas ¢ pessoas — entre poli- tica interna ¢ politica externa. A nova ordem internacional esté repleta de brechas e de oportunidades. Jamais as saberemos aptoveitar enquanto nao tivermos nosso prdprio projeto nacio- nal. © caminho para 9 encontro com o mundo nao passa pela submiss jo econd- mica e pela prostragao espiritual a que o fatalismo neoliberal nos quer condenar. 120 O Dualismo Superado Os dois futuros da alternativa ao aeoliberalismo A alternativa nacional ¢ desenvolwi- nentista ao neoliberalismo que pre- conizamos no capitulo anterior iniciaria 1m perfodo histérico de grandes opgdes sara o povo brasileiro. Aquela alternativa ado tem uma tinica seqiiela possivel. Pode ser seguida de uma politica relativamente conservadora que aceite a divisdo do pais entre avango € atraso ¢ entre classes ricas > pobres. Tal politica confiaria na capaci- Jade do Estado de moderar as conseqiién- sias destas divisdes, quer pelo investimen- 0 educativo e social, quer pela gradati ampliagao das oportunidades de parceria 11 entre o Estado, ou os fundos e centros de apoio semi-independentes a que nos refe- timos, e os produtores privados. E, sem diivida, a linha de menor resisténcia: dis- pensaria grandes inovagées na forma in: titucional do Estado e da politica. O futuro alternativo e francamente democratizante que esbogamos neste capi- tulo pautar-se-ia pelo enfrentamento e pela superagao do dualismo: a divisio do pais em dois mundos interdependentes porém hierarquicamente sobrepostos: 0 mundo do Brasil americanizado ou euro- peizado — organizado, capitalizado, favo- recido — © 0 mundo do Brasil desorgani- zado, marginalizado, moreno e pobre. Antes de tragarmos as grandes linhas desta politica antidualista, € preciso com- preendermos melhor a natureza da nova economia mundial ¢ a verdadeira fonte das grandes desigualdades sociais. O des- conhecimento destas realidades forma o clima propicio & sobrevivéncia do idesrio neoliberal e do seu parceito constante, o discurso do “tudo pelo social”. 122 Vanguardas e retaguardas na nova economia mundial: a questdo programatica decisiva A visio tradicional tanto da direita, ou lo pensamento econdmico convencional, quanto da esquerda, ou da critica terceiro- nundista, € que as atividades produtivas se Jistribuem hierarquicamente pelo mundo fora: produgao adiantada nas economias Jesenvolvidas ¢ centrais, produgdo atrasa- Ja nas economias pobres ¢ periféricas. , hit ima escalada evolutiva por que todos os saises tém de passar. Esta escalada pa dor um perfodo prolongado de produgio sxportadora, com mio-de-obra semiquali- ‘icada e baixos salarios. Para a esquerda, a Jo hierdrquica da produgao & Para a dircita, assumida ou mascarade sa fistribui ima realidade danosa, reforgada por mui- as formas de dominio, e dificil de escapar. A “teoria da dependéncia” é uma das mui- as variantes desta idéia. E a mesma tese la direita, com outro sentido politico: 3asta trocar-lhe o sentido polft ‘ubstituir uma tese pela outra. oO para 123 ™ Entretanto, os fatos estio a desmentir a concepgao, aparentemente inegavel, da distribuigdo hierdrquica da produgao. Hoje a produgdo vanguardista ocorre em toda a parte: tanto no Brasil, na China, na {ndia ou na Maldsia quanto nos E Japao. A caracteristica essencial da produ- ados Unidos, na Alemanha ou no ¢ao vanguardista ndo é nem a grande capitalizagdo, nem a tecnologia requinta- da, nem a mo-de-obra altamente qualifi- cada, nem a escala menor € mais flexivel. E 0 experimentalismo produtivo: a reava- liagiio constante dos produtos ou servigos ¢ das praticas, relagdes e processos produ- tivos a luz da experiéncia e da oportuni- dade © pelo método da discussio perma- nente. A grande forga motora da econo- mia mundial hoje é uma confederagao de vanguardas. As vanguardas produtivas de todo o mundo animam-se reciprocamen- te: pelas trocas comerciais e financeiras, pela circulagao de tecnologias, praticas e pessoal e, sobretudo, pela emulagao recf- proca. A tio decantada e exagerada mobi- 124 lidade internacional do capital esté a ser- vigo desta confederagio mundial de van- guardas quando ndo é apenas expresso da jogatina predatéria. O grande problema é que, dentro de cada pats, um fosso separa a vanguarda da retarguarda. Podemos dis- tinguir quatro situagdes tipicas. Primeiro, ha pafses ricos, como a Suécia, em que as politicas compensats- rias abrangentes € igualizadoras moderam as conseqiiéncias sociais da divisio entre vanguarda e retaguarda. A dificuldade é que, ampliadas nos periodos de prosperi- dade e ré adquiridos, nos perfodos de aperto, estas stindo a cortes, como direitos politicas ameagam tornar-se um Gnus insuportavel sobre o crescimento econd- mico ¢ as finangas piblicas. Segundo, ha paises ricos, como os Estados Unidos, onde o cunho desigual ¢ seletivo das transferéncias compensatérias deixa ope- rarem mais livremente os efeitos sociais da separago entre vanguarda e retaguar- da, Terceiro, h4 paises pobres, como a {ndia, onde se moderam estes efeitos 125 menos pela atuagao redistribuidora e social do Estado do que pela difusio, poli- ticamente apoiada, da pequena proprieda- de, rural e urbana. O problema é que as pequenas propriedades, numerosas porém economicamente isoladas e inermes, nao guardam relagao intima com a dindmica da inovagdo nem dao acesso as vantagens decisivas da grande escala. Quarto, ha pafses pobres, como o Brasil ¢ 0 México, em que a fraqueza na difusio da pequena propriedade, bem como 0 tamanho mi- niisculo das politicas compensatérias fren- te A magnitude das desigualdades, faz a di- visio entre vanguarda ¢ retaguarda assu- mit su is proporgées e€ surtir seus efeitos mais cruéis. Nao ha politica social e com- pensatéria que possa prevalecer contra as conseqiiéncias de um dualismo extremo, que condena a marginalizagio, a insegu- ranga € ignordncia a maioria trabalha- dora de um grande pais. A mais importante indagacio na poli- tica contemporanea em toda a parte é se podemos superar a divisio entre vanguar- 126 Ja e retaguarda ou se temos de nos con- entar em moderar-lhe os efeitos. A importancia da indagagdo aumenta a medida que descobrimos a insuficiéncia dos dois mecanismos de modera politicas de compensaco social e a difu- sao da pequena propriedade. Falta a —as ambos, nas suas formas existentes, uma relagao orgénica com a ldgica do cresci- mento econdmico. O pressuposto basico politicos generali- da pratica e do discursi zados no Brasil € que nao hé alternativa. al que inva- A retérica da consciéncia soci riavelmente acompanha este adesismo servil em nada the diminui os efeitos degradantes. A primeira vertente da politica antidua- lista: redistribuigaéo da riqueza, investi- mento em gente e heranga social Uma politica antidualista enfrentaria dentro do Brasil a divisdo entre vanguarda e retaguarda. Esta politica pressupde tanto a consolidagio da estabilidade monetaria 7 quanto o desenvolvimento de uma econo- mia politica substitutiva do neoliberalis- mo. Sobre esta base, ela avanga simulta- neamente em duas frentes: o investimen- to social no individuo e a formagao de parcerias produtivas entre setores da van- guarda e setores da retaguarda, orquestra- das ¢ apoiadas pelo governo, pelas empre- sas e bancos ptiblicos, e pelos centros ¢ fundos semi-independentes que surgiriam entre os governos ¢ 08 produtores. Reconhecer a primazia da mudanga estrutural sobre as politicas sociais com- pensatérias nao é descartar estas. Nao sendo suficientes, sio, contudo, necess rias, Integradas num plano de transforma- io estrutural, mudam tanto de significa- do quanto de contetido. Num projeto antidualista, como seria esta segunda etapa da alternativa democratizante a0 neoliberalismo, a base haveria de ser ainda o persistente fortalecimento fiscal do Estado ¢ 0 ponto de partida, a priorida- de dada a educagao publica. No primeiro estigio da substituigaio do neoliberalismo, 0 objetivo primordial ¢ 128 quase tinico da reforma tributaria deve ser slevar a receita piiblica de uma forma que sstimule, em vez de onerat, a poupanca e ) investimento. Daf a prioridade dada a ributagio s rumento mais eficiente, que € 0 imposto obre 0 consumo, pelo seu ins- ‘eneralizado sobre o valor agregado, com liquotas altas (por exemplo, 30%) Desde que administrado com vigor ¢ com » instrumental disponivel a arrecadagio 10 mundo contemporaneo, tal tributo, om tal aliquota, bastaria, num contexto le desenvolvimento econémico sustenta- lo, para criar no Brasil um Estado rico em ecursos. Neste segundo estagio, porém, com uas preocupagées mais claramente demo- ratizantes, devem ganhar forga dois tri- utos redistribuidores. Um € 0 imposto ireto e progressivo sobre 0 consumo pes oal. Incide, numa escala progressiva, sbre a diferenga entre a renda (incluindo odos 08 rendimentos do capital) e a pou- anga ou o investimento demonstrados. {4 um patamar, que deixa isento 0 consu- 129 midor pobre. Nos niveis superiores, hé uma progressdo r4pida, com aliquotas que podem ser, como quis Kaldor, de 200 a 400%. A poupanga nao demonstrada por exemplo, evadida ilegalmente do pais — conta como se fora gasta. O outro tributo redistribuidor é 0 im- posto sobre o patriménio, do qual de longe a variante mais importante é a tri- butagiio das herangas e doagdes. A heran- ¢a da propriedade, combinada com a tras- missao hereditaria das oportunidades desi- guais de educagao e trabalho, dio a uma sociedade como a nossa a sua feigio de es. A uma extrema hierarquia de cl. experiéncia comparada das democracias industriais contemporaneas j4 demonstra ser possivel it muito longe na tributagao da heranga com efeitos muito menores sobre os incentivos econdmicos do que aqueles que os apélogos da desigualdade alardeiam. Temos todos os motivos para fazé-lo. Se a incapacidade de mobilizar adequadamente a poupanga para o inves- timento produtivo € um dos maiores 130 defeitos — praticos e morais — das for- mas estabelecidas da economia de merca- do, um outro € permitir que a loteria das herangas se sobreponha & diversidade dos talentos e dos esforgos. Podemos até imaginar um sistema de vinculagdes genéricas entre os tributos e suas destinagdes sociais, bem diferente daquelas vinculagses especificas que os tributaristas modernos sensatamente repudiam. A tributagao progressiva do consumo pessoal financiaria pelo menos parte das despesas operacionais do gover- no, acrescida de parte do valor arrecadado pela tributagdo indireta do consumo atra- vés do imposto sobre o valor agregado: Assim se estabeleceria um vinculo entre 0 avango da redistribuigao igualizadora e 0 interesse de auto-afirmagao do aparato politico ¢ burocratico. A tributagiio indi- reta do consumo pela via do imposto sobre o valor agregado serviria de prefe- réncia para financiar as parcerias produti- vas do Estado com a iniciativa privada, sobretudo na diregao antidualista que 131 adiante descrevemos. Assim, aquele imposto assumiria a sua vocagto de ser um tributo cobrado sobre 0 consumo para servir a produgao. Por fim, a tributagao pesada e progressiva das herangas ¢ doa- bes pagaria aqueles aspectos do investi- mento social — ambém descritos em seguida — que se destinam a dotar o individuo de uma heranga que substitua parcialmente a heranga familiar que a imensa maioria dos brasileiros nao rece- bem. Tais vinculagdes nao se reduzem a mera simetria curiosa. Elas asseguram aquilo que a histéria das finangas publicas demonstra ser de importancia decisiva: leolégico que deite raizes no sentimento coletivo do pritico e do um esquem: justo, um imagindrio que ofereca uma nova maneira de entender a relagdo entre as responsabilidades do Estado e as opor- tunidades do enriquecimento individual. O investimento na educagéo publica seré sempre a diretriz de qualquer politica compensatéria que sirva A superagio do dualismo. Para tal, deve a politica educa- 132 cional ter os tracos assinalados: primazia da realidade humana e social da escola sobre sua estrutura fisica, com multiplica~ ao do tamanho ¢ rendimentos do magis- tério, sobretudo primario € secundario, € desenvolvimento de praticas associativas que engajem as familias nas escolas; apoio material A crianga e & familia para garan- tir a presenca daquela na escola; € reo- rientagdo radical do contetido do ensino em todos os niveis, repudiando-se o culto estéril da informagio memorizada em troca do cultivo de capacidades genéricas de fazer e pensar. Cumpridas as tarefas mais prementes, terfamos de nos voltar para os problemas da educagao prolonga- da durante toda a vida do individuo Tanto o experimentalismo produtivo quanto 0 experimentalismo democratico exigem que a educagio se torne para 0 trabalhador ¢ cidadiio comum, e para 0 , a obra de toda uma Estado que os ap vida, Numa sociedade que quer ver 0 van- guardismo econdmico e a militancia cfvi- ca se ampliarem, o retreinamento do 133 adulto tem de incluir, ao lado do ensino vocacional ou profissionalizante, o desen- volvimento permanente das capacidades fundamentais. Nos seus desdobramentos mais distan- tes ¢ arrojados, a politica social do anti- dualismo deve evoluir para a formagao da heranga social do individuo. Alguns ele- mentos desta heranga setiam direitos so- ciais e econdmicos A prestagao de servigos — tal como a satide e a educagio piblicas pelo Estado. J outros seriam vales a serem gastos, em etapas diferentes da formagao do individuo, entre prestadores privados e competitivos de s rvigos — por exemplo, de educagao complementar, Outros, ainda, se traduziriam em dinheiro, que poderi ser sacado em certos momentos e para cer- tas finalidades, como o pagamento inicial de um imével préprio ou o financi mento inicial de um pequeno negécio. Uma gera- sao deve poder herdar da outra sem que tudo tenha de passar pelo acaso e pela desigualdade da heranga familiar A segunda vertente da politica antidua- lista: alianga entre a vanguarda e a retaguarda e formas intermedidrias entre o privado e o prblico ‘A segunda vertente do antidualismo € produtiva e estrutural. Seu cerne € uma alianga, orquestrada pelo Estado, entre a vanguarda e a retaguarda econdmicas. Nao € verdade que tenhamos de escolher entre uma tecnologia adiantada ¢ poupa- dora de mio-de-obra ¢ outra, primitiva, porém empregadora de gente. A evolugiio dos padrdes de tecnologia ¢ organizagio industrial permite que a vanguarda produ za, de maneira nao padronizada, os mate- riais ¢ as maquinas que os empreendimen- tos mais rudimentares da retaguarda sejam capazes de assimilar. Aliam-se, assim, van- guarda e retaguarda. $6 que esta alianga no ocorre por acaso. Precisa ser provoca~ Estado, assegurando 0 da pela atuagio do surgimento de grande diversidade de agentes de financiamento. Tais agentes teriam como alongar os prazos de inves mento € de rentabilidade e diversificar os 138 riscos dos seus investimentos. Desen- volveriam relages intimas, de ajuda nao 86 financeira sendo também técnica e estratégica, com as empresas que apoias- sem. E a missaio basica dos fundos e cen- tros, intermediarios entre o Estado e as empresas, detentoras de grande margem de autonomia de iniciativa, e responsiveis tanto diante do Estado quanto diante das empresas, a que antes nos teferimos. Quanto maior o abismo entre vanguarda e retaguarda — e 0 nosso é dos maiores do mundo — mais vigorosa tem de ser a ini- ciativa publica na promogao do vanguar- dismo econémico. Numa etapa subseqiiente, regimes alternativos de propriedade poderiam desenvolver-se a partir das relagdes diver- sas entre Estado, fundos e empresas. Entre eles esto formas fragmentirias, condicio- nais e tempordrias da propriedade, formas que combinem a propriedade pablica (ainda que descentralizada na gestfio) e a propriedade privada, e formas que asso- ciem a propriedade individual ao mutirao 136 cooperativo de recursos. Sé um dogmatis- mo interesseiro ou um fatalismo precon- ceituoso, refletidos no pensamento juridi- co € econdmico ortodoxos, explicariam a identificagio da economia de mercado com uma tnica forma da descentralizagao de iniciativa. De toda esta evolugao institucional possivel ja temos exemplos antecipados e parciais, tanto na organizagao da agricul- tura de porte familiar em muitos paises quanto nas experiéncias de inovagio industrial em economias industriais avan- gadas como a italiana. A agricultura mais eficiente do mundo € aquela que se est beleceu em paises como os Estados Unidos & base de uma parceria abrangente entre os governos ¢ os fazendeiros — pat- ceria financeira, técnica e comercial, assentada, historicamente, no apoio polf- tico a lavoura de familia. Pelo actimulo de riscos fisicos e econdmicos que enfrenta, a agricultura de dimensao familiar, embora incomparavelmente eficiente, depende de apoio publico, reforcado, quando possivel, 137 pela “concorréncia cooperativa” — a capacidade de empreendimentos que competem, também cooperarem. S6 nao temos o exemplo da generalizagao desta experiéncia agratia vitoriosa para a eco- nomia como um todo. As relagdes que 7 pequenas firmas vanguardistas de regides como a Emilia Romagna na Itélia desen- volveram entre si e com seus governos lao-nos uma pequena idéia do que significaria tal generalizagao. O dualismo locais italiano demonstra os limites desta solu- ¢4o regional quando nao ha Estado nacio- nal forte capaz de combater a separagiio rigida entre vanguarda e retaguarda. Criar tal Estado é a missio prioritaria da poll ca brasileira. Entendido ¢ praticado assim, 0 anti- dualismo nao 6, como € 0 populismo, a vinganga dos excluidos pela redistribuigao paternalista ¢ seletiva da riqueza a uma populagao desorganizada. E a condigaio pratica da uniao nacional, construfda sobre a base das formas organizadas de produgao. E a generalizagio do avango 138 mais do que a insurreigio do atraso. Mais controversa ¢ conflitiva do que a primeira etapa da alternativa que propomos, nem por isso precisa ou pode prosperar como 0 projeto do segundo Brasil dirigido contra 6 primeito Brasil. Oferecendo oportunida- des a ambas as partes do pas, tem de encontrar e construir agentes ¢ aliados em ambas. Tem de set proposta nacional para ser proposta vitivel e fecunds 139 A Democracia Acelerada Pontos de partida para repensar o Estado e a politica no Brasil A politica comanda a economia Quanto maiores as ambigdes de mudanga estrutural num pais, mais decisiva deve ser esta primazia, Nesta quinta e tltima parte, tratamos das reformas do Estado, politica e do direito nec 1 ‘drias 4 alterna- tiva desenvolvimentista e democratizante que propomos. Estas reformas sio pelo menos tao importantes quanto as mudan- as econdmicas de que tratamos nos capi tulos anteriores. Além de darem contetido realista ao projeto democratico numa sociedade hierdrqu ‘a e dividlida como a nossa, condicionam as mudangas econ. 40 micas. Mesmo a consolidagao da estabili- dade monetéria — tema do segundo capf- tulo — exige seniio as inovagGes institu cionais que aqui esbocamos pelo menos uma inteligéncia politica guiada pelo espirito de tais inovagdes. Nosso racioct- nio parte de duas premissas. A primeira premissa é que, num: democracia, ha relag3o estreita entre o contetido estrutural da politica ¢ 0 nivel de mobilizag3o ou energia popular na polftica. Uma politica vocacionada para a pratica freqiiente das reformas estruturais — como teria de ser uma politica ndo s6 democratica senao também democratizan- necessaria- te num pats como o Brasil — mente uma politica de alta energia. Do contrario, as reformas nao acontecem ou se perdem nas perversdes do autoritarismo tecnocratico. A questdo é saber se esta energia indispensavel encontrara, como queremos, instrumentos institucionais adequados, ou se se entregaré as praticas extra-institucionais da politica populista ou cesarista, Forjando tais instrumentos, Mt criamos, também, os meios para resolver- mos um falso paradoxo nas aspiragées politicas do pats: o desejo de ampliar o espago da vida publica e da discussao publica sem, contudo, deixar a sociedade civil cair sob a tutela do Estado. Nao ha vida publica mais vigorosa sem controle ptiblico maior sobre um Estado que, ao mesmo tempo, se fortalega como agente de transformagao. Nao h4 controle pibli- co maior sobre um Estado fortalecido sem engajamento organizado e persistente do povo na vida associativa e na vida politi- ca. Nao hé persisténcia neste engajamen- to sem instituiges que a favorecam. A segunda premissa do nosso racio nio € que reformas da macro-politica — mudando a grande estrutura institucional do Estado e do conflito partidério — pre- cisam caminhar juntas com inovagées na micro-polftica — mudando tanto as prati- cas associativas quanto o trato e a cons- ciéncia dos direitos na vida quotidiana. Do contrétio, as inovagées institucional s mais arrojadas acabarao deformadas pela 142 estrutura e pela desesperanga da vida quo- tidiana. No Brasil, 0s preconceitos ¢ as ora praticas do racismo ¢ do machismo — velados com sutileza, ora brutalmente impostos — fazem parte de um quadro maior de subjugagiio. Costumam misturar~ se, nas relagdes do dia-a-dia, as trocas, as dominagées e as lealdades. Sentimenta- liza-se a prepoténcia no manejo das trocas desiguais. Um programa institucional nao 0 basta para romper esta légica da coer banalizada. Pode, porém, equipar os brasi- leiros a desafis-la. A base destas duas premissas, propo- mos linhas convergentes de reforma: na estrutura do presidencialismo brasileiro, no regime eleitoral e partidério, no finan- ciamento das campanhas eleitorais, na ional da burocracia, no formagio profit acesso aos meios de comunicagao, &, sobretudo, nos instrumentos disponiveis aos brasileiros para conhecerem e reivin- dicarem seus direito 43 O presidencialismo sem impasses A utilidade do regime presidencial numa situacdo como a nossa est4 no seu potencial desestabilizador, na relativa facilidade com que a eleigao presidencial ¢ a iniciativa presidencial podem mobili- zar 0 povo, furar os acertos oligérquicos ¢ transcender as preocupacées locais. Na campanha do plebiscito sobre a forma de governo, um de nés defendeu o parlamen- tarismo; 0 outro, 0 presidencialismo. Estamos ambos convencidos, porém, de que, mantido o presidencialismo, é neces- srio redesenhé-lo. O perigo do regime presidencialista tradicional, amplamente demonstrado no curso da nessa histéria, resulta de uma defasagem persistente. O Presidente é forte para favorecer ou punir interesses, mas € fraco para transformar estruturas. A parte do pais excluida dos arranjos corporativistas que tanto domi- naram a vida nacional nas tiltimas gera- gdes pode vingar-se politicamente dos los pela eleigio de um Presidente favores 144 mprometido com reformas que tompani is arranjos. Eleito, este Presidente en- ntra uma maioria cripto-conservadora trincheirada no Congresso, no Judi- frio, na midia, e em todas as organi: ves das elites. Dé sse de der: um impasse entre os poderes for- se um imp ais do Estado ¢ um impasse, também, tre o poder executivo eleito € os pode- + informais da sociedade rica e organiza- . Temos de dotar o presidencialismo asileiro de mecanis nos capazes de supe- ‘em tais impasses, engajando, em derra- ira instancia, 0 eleitorado na sua resolu- 9. Entre estes mecanismnos esto a prio- lade legislativa dos programas de gover- sobre a legislacao episddica; a possibi- ade de o Congreso e o Presidente con- rdarem sobre a realizacaio e as termos de 1 plebiscito ou referendo quando nao nseguem se acordar sobre o programa governo; € 0 poder investido tanto no sidente quanto no Congresso de con- carem eleigdes antecipadas ¢ simulta as para ambos estes poderes quando nao. 14s conseguem dissolver o impasse de outro modo. Dir-se que alguns destes procedi- mentos parlamentarizam o presidencialis- mo. O importante é compreender que ha maneiras diferentes de fazé-lo, e que pequenas diferengas institucionais nesta combinagao podem ter conseqiiéncias praticas enormes. O caminho preferivel reforga o poder transformador da Presi- déncia, aumenta a responsabilidade poli- tica do Congreso e acelera a priitica das reformas. Di contetido pritica & promes sa, até agora descumprida, da Consti- tuigio de 1988 de associar tragos da democracia direta as préticas da democra- cia representativa. Partidos de verdade A reforma do presidencialismo deve vir acompanhada por uma mudanga do regime eleitoral ¢ partidério que nos ajude a criar partidos capazes de servirem como agentes ¢ interlocutores de uma politica rica em alternativas program 146 para construirem as aliangas sociais que tais alternativas exigem. Nao se trata de purismo doutrindrio nem de antagonismo as concessdes ¢ as confusdes prdéprias de toda a politica verdadeiramente democré- tica. O objetivo é diversificar as opgdes disposigao do pais e fugit & homogeneida- de do nosso discurso politico atual: 0 dis- curso da economia de mercado ou do a primeiro-mundismo ou da modernidade, justaposto ao discurso do “tudo pelo deste problema nao depen- de apenas da formulagao de propostas, como aquela que oferecemos neste peque- no livro. Depende, também, de mudangas no regime juridico da politica. Para con- sertar os partidos, preferimos a solugao mais extrema: néo apenas diminuit-lhes 0 nximero mas adotar o regime da “lista fechada” em vez do “sistema distrital misto”, tio elogiado no Brasil. © eleitor nao vota em candidatos em eleigGes par- sto é, lamentares. $6 vota em partidos: numa lista, j4 hierarquicamente organiza “7 da, que os partidos Ihe apresentam Obrigam-se os partidos a decidirem as prioridades na representagao parlamentar. O eleitor vai brigar por democracia e por definigao dentro dos partidos a que se sente préximo. Partido que faz a lista na bas pelo eleitorado. A relagao da personalida- de programatica de cada partido com a personalidade real dos integrantes da lista do caciquismo sera, como tal, julgado acaba sendo tema central do conflito den- tro dos partidos ¢ entre os partidos. Se nao for politicamente vidvel a adogio franca deste sistema, hi muitas maneiras mais suaves de aproximar-lhe os efeitos. A politica libertada do dinheiro Ao reconstruirmos a forma constitu- cional do Estado ¢ o regime juridico da politica partiddria, devemos, também, atenuar tanto quanto possivel vinculo entre politica ¢ dinheito. Nao é realista tentar suprimir completamente 0 uso politico do dinheiro privado: a. pretensto 148 de fazé-lo no direito eleitoral vigente levou a uma hipoctisia que serviu: apenas para desmoralizar as normas eleitorais ¢ para abrir ainda mais o caminho do privi- légio e da corrupgao. H4, contudo, dois instrumentos praticos que, atuando em conjunto, diminuiriam substancialmente a influéncia do dinheito sobre a politica O primeiro destes meios é 0 financia mento piiblico parcial das campanhas cleitorais. Reduzido 0 ntimero de partidos, seriam financiados por uma {6rmula inter- mediéria entre a igualdade ¢ a proporcio- nalidade A representagiio atual. As quan- segurarem a tias seriam suficientes para 4 todos um minimo de condigdes materiais para uma campanha eficaz. O efeito do dinheiro privado diminui em muito quan- do ha uma alternativa a ele. E bom inves- timento no saneamento da vida republi- cana: surtiria efeitos grandes a custos rela- tivamente pequenos. O outro meio é a transparéncia nas contribuigdes privadas a campanhas, in- clusive no uso do dinheiro préprio do 9 candidato. Limitado 0 vulto de cada con- tibuigao, todas devem ser enumeradas. Aparelhar-se-ia a Justiga Eleitoral com os meios investigativos e judicidrios para vigiar com rigor as fontes de financiamen- to, sob sangao penal tanto para o contri- buinte quanto para o candidato. A Justiga Eleitoral mandaria publicar nos jornais e difundir pelo radio e pela televisio a lista de financiamento e financiadores de cada candidato. O eleitor formaria seu juizo a luz desta revelagao. A dependéncia eco- némica continuaria a anular o valor desta informacio para muitos eleitores. Para muitos outros, porém, a informagiio seria esclarecedora e até decisiva, mostrando as ligagdes ocultas debaixo das pretensoes. Da tentativa de coibir 0 uso do dinhei- to privado em politica ha um aspecto que deve continuar a ser priotitério: 0 reforgo da legislagao e da vigilancia contra as ati- vidades criminosas das grandes empreitei- ras — ainda os mais prédigos e arrojados corruptores da politica brasileira. Ver os responsaveis presos e falidos deve ser 150 compromisso sagrado de qualquer governo brasileiro. A profissionalizagao da burocracia ea aceleragao da politica Qualquer projeto transformador no Brasil — seja o que propomos, seja outro ~ exige burocracia profissionalizada, altamente qualificada, remunerada € pres- tigiosa, recrutada em bases competitivas, tanto em meio quanto em inicio de car- reira, ¢ atraente a muitos dos melhores talentos do pais. As nomeagées politicas ¢ discriciondrias devem limitar-se a pou- quissimos postos de chefia, respeitada sempre a diferenga entre politica e admi- nistragdo. Uma das mudangas mais dano- sas ao Brasil na dltima geragao foi a deses- t burocracia, acelerada sob trutura alguns governos recentes. Hi relagiio de interdependéncia entre o desenvolvimen- to do experimentalismo democratico ¢ @ formagao de quadros administrativos independentes. Quando combinada com 181 todas as inovagées institucionais destina- das a acelerar a democracia, nfo restringe 4 mobilizagio politica do povo. Ajuda a tornd-la eficaz e inteligente. Nao é causa popular no Brasil, dada nossa heranga, mull nea, de clientelismo e prepoténci na administragao publica Faz parte, porém, da tarefa pedagdgica de qualquer estadista brasileiro levar o povo a com- preender o caréter imprescindivel desta construgio administrativa. A democratizagdo da comunicagao A aceleracao da politica transformado- ra, exige, como m dos seus pressupostos, um espago coletivo no qual possa a nagio discutir coletivamente os problemas cole- tivos Dat a necessidade de estabelecer 6rgios independentes, incumbidos de usar © poder concessiondrio para aumentar a diversidade no controle no contéudo da comunicagio por telev dio e radio, apro- veitando © potencial mal realizado das novas tecnologias. Daf o interesse em 152 estimular alguns dos fundos deseritos em capitulo anterior a financiarem novas empresas produtoras de programas, algu- mas delas cooperativas de jornalistas ¢ a importancia de defender artistas. D: ampliar a tradigéo de acesso gratuito a televisio ¢ ao radio em favor nao sé de partidos politicos senao também de movi- mentos sociais. A conscientizagao e a militncia dos direitos s na estrutura Nenhurma destas reform do estado, da politica e da comunicagio € to importante quanto o fortalecimento da capacidade individual de conhecer € reivindicar os direitos. A sociedade bras leira continua presa numa engrenagem de formas miltiplas de subjugagao e exclu- sio. Algumas delas — como as que dizem respeito ao racismo e ao machismo — sao mal reconhecidas na sua verdadei a dimensao. No seu efeito convergente, ileiros exercem sobre a maioria dos bre um poder avassalador de inibigao. Escra- 153 vizam seus supostos beneficidrios tanto quanto suas vitimas evidentes. Negam, na base, as energias e as esperancas indivi- duais que dao vida a qualquer projeto democratizante e transformador. Inovagées institucionais jamais basta- r4o para debelar estes mecanismos de opressao no dia-a-dia da sociedade ci: Praticas associativas e contestadoras, exemplos individuais de ruptura e rein- vengaio — as profecias e quotidiano — Ss epifanias do indispensaveis. H4, porém, um papel para as instituigées, até mesmo neste plano, mais refratario e intangivel, da vida social. O brasileiro e a brasileira comuns precisam sentir que tem poder para enfrentarem os abusos que [hes sejam mais préximos. Por isso, precisam ter a seu lado quem os ajude a conhecer ¢ reivindicar seus direitos na familia, na vizinhanga, na rua e no trabalho. Para isso, precisamos estabelecer, pelo pais afora, uma multidao de centros de assis- téncia juridica popular e regulamentar instrumentos, como o mandado de injun- 184 do, que, com rito sumério, sitvam a sal- vaguarda dos direitos econdmicos € sociais. Numa outra etapa, simultanea com 0 projeto de superagaio do dualismo, deverfamos cuidar de instituir um poder proprio e independente do Estado. Res- ponsabilizar-se-ia este poder pela inter- vengao localizada, porém reconstrutora, em organizages que sistematicamente oprimam os direitos dos seus membros ou dos seus trabalhadores. Contaria com os recursos financeiras ¢ técnicos necessé- trios. E uma tarefa para a qual a experién- cia das democracias mais ricas ¢ igualita- rias demonstra ser insuficiente 0 Judicia- rio tradicional — insuficiente tanto pelos métodos quanto pelos recursos. Cada cidadao deve sentir-se poderoso. Cada excluido ou subjugado deve saber onde encontrar ajuda e aliado. Um Brasil desse jeito € um Brasil em que a vitalidade do nosso povo ganha asas e bracos. E um Brasil em que quem esta de joelhos pode ficar de pé. 158 Sobre os autores Ciro Ferreira Gomes Ciro Ferreira Gomes formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceara. Tornou-se Professor de Direito Tributdrio e Direito Constitucional. Jovem, ingressou na politica, elegendo-se Deputado Estadual pelo Ceari, Prefeito de Fortaleza e Governador do Ceara (1991-1994). Passou a ser um dos Iideres nacionais do seu partido, o PSDB. Foi o Prefeito e Governador mais popular do pais em todas as pesquisas, Como Governador, recebeu o prémio Maurice Pate da Unicef, dado ao povo e ao gover- no do Ceara pelo combate & mortalidade infantil. Dobrou o salatio real dos profes- 156 sores da rede publica de edueagao e multi- plicou por trés a presenga de agentes comunitérios de satide, estendendo 0 pro- grama a todos os municipios do interior. No seu termo de governo o Ceari prati- cou o melhor nivel de poupanga e inve mento de sua histéria e manteve o melhor perfil fiscal entre todos os estados da fede- ragio: 23% das receitas para investimen- to, 54% para a folha de pessoal € resgate de toda a divida mobilidria do estado. Deixou 0 governo do Ceara para ser 0 tilti- mo Ministro da Fazenda do governo Iramar Franco € administrou o “plano real” em meio A crise provocada pela de- missio de seu antecessor. Terminado o governo Itamar Franco, tornou-se “visiting scholar” na Faculdade de Direito da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, estudando os problemas brasi- leiros a luz da experiéncia de outros paises. Roberto Mangabeira Unger Roberto Mangabeira Unger nasceu no Rio de Janeito e formou-se pela Univer- sidade Federal do Rio de Janeiro. E Pro- fessor titular de Direito da Universidade de Harvard nos Estados Unidos e membro. da Academia Americana de Artes e Cién- cias. Com o inicio da redemocratizagao do pais, passou a assessorar a oposigao politica, havendo redigido 0 manifesto de fundagtio do PMDB. Logo apés 3 reincor- poragdo aquele partido da ala conservado- ra do antigo MDB, filiou-se ao PDT, no qual continua a militar. Seus esctitos pro- gramaticos brasileiros esto coligides no livro A Alternativa Transformadora: Como Democratizar 0 Brasil (Editora Guanabara, 1990), atualmente distribuido pela Edi- tora Boitempo, que esta preparando uma edigao brasileira de toda sua obra. Seus trabalhos foram descritos pelo Prof. Geoffrey Hawthorn da Universidade de Cambridge (Inglaterra) como “a teoria social mais poderosa da segunda metade 158 do século XX”. Entre seus livros estéo Passion: An Essay on Personality (1984) € False Necessity: Anti-Necessitarian Social Theory in the Service of Radical Democracy (1987). A Editora Verso publicara em 1996 dois livros novos seus: What Should Legal Analysis Become? e Democratic Experimentalism. 159