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TRATADO DE FANTAXMAGORIA

A Academia Fantaxma uma rede de compartilhamento de ideias e


afetos. Nossa base de operaes a lngua portuguesa entendida como
um campo de atuao esttica/poltica e nossa ferramenta de trabalho a
promiscuidade entre os signos, os corpos e as culturas.
Somos artistas incompletos, sem muita honra, mas com vergonha na cara,
no esforo de manter ebuliente um constante processo de aprendizado e
revoluo. Atuamos num espao lquido somos piratas; pervertemos a
linguagem para faz-la gemer aquilo que ainda no disse ou para, quem
sabe, alcanar ecos do dito que se dissipou. Somos investigadores:
perscrutamos as invenes alheias e nos embevecemos da beleza
fabricada.
Somos apcrifos, sempre seremos apcrifos, ainda que a ironia venha nos
canonizar: nosso esforo produzir uma arte que se insurja contra todo
enquadramento no, isto no um cachimbo.
A fantaxmagoria est, portanto, entre aquelas coisas que deslizam, que
evaporam, desmancham, que devm: ela o eterno retorno de Nietzsche,
o rio e o fogo de Herclito, o beijo que Rimbaud deu no Diabo, o inverno
que chega sempre no gerndio, a mscara de Guy Fawkes sobre a barba
de Allan Moore, o projeto que se realiza como experincia, no como
produto, o tempo pensado em tentculos, no em linha, um livro que
comea com vrgula e termina com dois-pontos, uma festa de Dada no
jardim de Epicuro.
A fantaxmagoria coletivo porque no busca o eu de um autor genial, ela
acontece do contato entre subjetividades errantes que fluem de uma para a
outra e se afetam mutuamente. Ela literria, porque assim quisemos, mas
pode-se ser fantaxma em msica, cinema, artes marciais, eletrnica de
televises ou relaes sexuais ser fantaxmagrico um jeito de
reconhecer a prpria fragilidade & transitoriedade, pensar a vida como
constante reorganizao, rearranjo, re-inveno e tecelagem. Somos
sistemas caticos que se alteram com o tempo o fantaxma o humano
em estado mximo de desejo de esttica, quando a arte e a tica se
confundem numa mesma postura libertadora e vitalista. Nisso reside sua
inventividade. A fantaxmagoria clandestina porque ela est sempre a
caminho de um outro lugar sem convite, sem visto, sem autorizao.