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A Revolução das Letras

O 25 de Abril explicado às crianças

de Vergílio Alberto Vieira

Quem primeiro deu o alerta no Quartel das Letras


foi o Cabo Clarim que, farto de tocar a recolher, ou porque
não, ou porque sim, anunciou de pronto a hora do motim.
Acenderam-se então os holofotes na parada,
saíram as letras a correr da camarata e, quando o
Comandante-General se levantou, estremunhado, e veio
à janela a toda a pressa, à pressa pediu contas a cada
sentinela.

“Mas que pouca-vergonha é esta?” desaprovou, o boca aberta, a


língua em tropel: “Que parece que a tropa virou festa no quartel!”

Não se enganava o Comandante, ao megafone, pois já por toda a parte se ouviam


toques de caixa, gaitas e trombone. Se alguém o disse, assim o fez.
As letras queriam viver em liberdade, e sem birra, nem desfeita, tinha chegado,
desta feita, a ocasião de irem dizê-lo à cidade, por que não?, nem que tivessem de
marchar, por terra e mar, contra a nação.
Como o que tem de ser tem muita força, e não cumprir
um dever, diz o poeta, é o que há na vida de melhor, logo as
letras se fardaram, a rigor, e vai de abrir caminho, numa boa,
de Santarém a Lisboa, pondo de aviso Portugal de que, se não
mudasse a bem, mudava a mal!
Mas por que havia de se opor, o povo português, a quem tão bem lhe queria?
Como em 1385 e em 1640, a revolta era, de resto, para levar à letra. Heróis do mar não
são heróis da treta.
E já que a pátria, em guerra, assim sofria, cada letra decidiu fazer de Abril um
grande dia nos quartéis, derrubar o vinte e quatro/a vinte e cinco, com afinco, e fazer de
Portugal, outro país a vinte e seis.
No quartel das letras, o Comandante-General é que nem queria acreditar.
Não vai que as letras, alinhadas em coluna, sem demora se dirigiram à capital,
estrada fora?
E como ninguém ousou fazer-lhes frente, não tardaram a chegar às portas de
Lisboa, cada um por sua vez, pelotões de letras, armados de G-3, e a jurar fidelidade a
um jovem Capitão, que os comandava a bem da democracia da nação.
Já no alto do Castelo de São Jorge o sol dardejava o Terreiro do Paço e o Tejo &
tudo amanheciam, quando as letras, ao romper do dia, ignorando o que podia acontecer,
foram informadas que os ditadores a correr, de rabo entre as pernas, rumo à fronteira e
prò Brasil, apercebendo-se que morreriam nesse Abril, caso insistissem em ficar nos
cadeirões de São Bento e de Belém, pudessem lá saber, por ordem de quem.
Foi então que as letras, uma a uma, combinaram avançar prò Largo do Carmo em
carros de combate, ainda que isso lhes parecesse um disparate.
Só que Lisboa, nessa noite, não estava pra dormir. Chamou o povo à rua, fez
história, ergueu a voz, e cantou vitória, em forma de canção.

Em nome da Liberdade,
Foi-se o regime à viola.
Longe de ti, ó cidade,
Deram os tiranos à sola.

Ai deles que não dessem!


Pois mal do Quartel da Guarda veio sinal de rendição, logo as letras, de cravo
vermelho na espingarda, se juntaram para decretar a Revolução.
Era o fim da Censura, da mão pesada e dura dos Coronéis, que, daí então, de bico
calado e aos papeis, teriam que dar volta ao quarteirão.
E partir de agora?
Rádios, jornais, televisão podiam já noticiar em
liberdade que a Revolução iria ser coisa nunca vista, apesar
do povo em festa nem sequer pensar no que iria mudar com
a conquista. Cada letra era um soldado, trajado à maneira, e
as multidões, do Rossio ao Camões, celebravam o fim da
pasmaceira nacional, dando vivas de novo a Portugal.
Onde quer que chegassem, com beijos e abraços recebidas, as letras não podiam
ser esquecidas, devendo-lhes, de ora em diante, cada cidadão o direito de ser filho da
nação.
Como, além de mandar de guias a velha Ditadura, tinham as letras por missão criar
ideias, logo que abriram as portas aos presos políticos nas cadeias, todo o alfabeto
passou dos discursos à acção, prometendo Trabalho, Segurança, Habitação.
Isto, porém, não era tudo, lá isso não, pois sem Saúde, Cultura, Educação, de nada
valeria meter na linha a Reacção. Não perderam tempo, os maganões, que, pelo cheiro,
puseram ao fresco o seu dinheiro; quais ricos pobretões a passear como gente pelos
salões.
Vai daí, antes não fosse, como no conto do vigário, que à primeira quem quer cai, à
segunda cai quem quer.
Entre político e militar não há que meter colher.
Pois que revolução, para inglês ver, em português – lá se foi, era uma vez…
CORO DAS LETRAS

REFRÃO
Somos as letras, em alta
Damos nas vistas demais.
Sempre que a língua nos falta,
Fazem de nós meros sinais.

1
Em tempo de liberdade,
Usam-nos como bandeira
Do poder e da vaidade
Que os coroa a vida inteira.

2
Em tempo de escravidão,
Usam-nos como capachos
Da mais franca reinação
De príncipes, reles e baixos.

3
Trocando as voltas à história,
Irá Portugal onde quer,
Se a revolução for memória
Sempre que o povo quiser.