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N.º 203
Março 2015 Mensal l Portugal
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Universos
PARALELOS
Os parasitas
que nos habitam
SPL
ESA
JORGE NUNES
A vida em grego e cirílico
A propósito de universos paralelos, o tempo em que vivemos dá-nos boas lições de convergências, divergências e, tantas vezes, paralelismos lamentáveis, mas
que não podem deixar de fazer pensar. Sem intenção de sugerir que haja alguma li- gação palpável entre eles, seguem-se alguns exemplos lançados a esmo. Na Ucrânia, Putine brinca às guerras. Vindo de onde vem, provavelmente até está a esfregar as mãos de contente com a ideia de que Obama possa cair no engodo. Morre gente a torto e a direito, e, ao certo, por causa de quê? E à nossa porta, não é lá longe, numa Síria qualquer. Na Síria (e no Iraque, e no Afeganistão, e no Paquistão, e agora no Egito), morre gente às mãos cheias por causa de uns extremistas que se acham cru- zados dos tempos modernos e anseiam por chegar mais cedo à sua quota de virgens no paraíso. Para fugir do inferno, milhares de gregos optaram pelo suicídio: a taxa aumentou mais de 36 por cento desde o início da crise. Muitos gregos não têm luz, porque não podem pagá-la. Saberão que há uma guerra na Ucrânia? Em São Paulo, no Brasil, uma das maiores urbes do planeta, falta água nas torneiras durante mais de metade da semana (não corre um pingo ao sábado e ao domingo), e a eletrici- dade vai pelo mesmo caminho. Quando falta a luz, desaparece o sinal de telemóvel, isto é, a maior aglomeração urbana da América do Sul regressa, durante longas ho- ras, a padrões medievais de comunicação e salubridade. O Estado Islâmico deveria adorar a ausência de internet, TV e água para tomar banho e fazer a barba. Temos tendência para achar que a água e a luz são direitos inalienáveis, mas não é verdade. É como a paz. Achamos que estamos a salvo, mas, de um dia para o outro, podemos tornar-nos o alvo de algum maluco (vigoréxico mental). Tempos modernos? C.M.
O céu na cabeça Podemos estar a chegar ao momento em que se torna realidade o cenário do filme Gravidade. Vamos ter de reduzir rapidamente o lixo espacial, e começam a surgir ideias sobre como fazê-lo. Pág. 56
Feios, porcos e maus Dezenas de parasitas que se alojam no nosso organismo podem provocar doenças às quais costumamos prestar pouca atenção. Pág. 38
A perder
de vista
As paisagens
calcárias
escondem
segredos
que vale
a pena
descobrir.
Pág. 26
Lindos
de morrer?
A vigorexia
é uma das
obsessões mais vulgares no nosso tempo. As vítimas padecem de ilusões sobre a sua forma física. Pág. 82
AMBIENTE
AMBIENTE
Um mapa do plâncton
SAÚDE
ESPAÇO
SUPER
Portugueses
A flor da
charneca
Há várias razões para incluir Florbela Espanca na lista dos superportugueses. Para além da sua poesia, contemos também o fogo e a coragem de todos os pioneiros.
E xpliquemos melhor: como escritora,
Florbela Espanca tem, pela quali
dade dos seus poemas – também
compôs prosa, mas foi na poesia
que, verdadeiramente, atingiu a excelência –, um lugar de honra na literatura portuguesa e mesmo na literatura europeia. Portanto, nes te domínio, ela já superou, em muito, a media nia e, sob esta perspetiva, não interessa que fosse mulher ou homem: é um grande nome da nossa história. Todavia, há, como ficou dito, outras razões para que se lhe atribua um lugar na nossa gale ria dos notáveis. Uma delas prendese ainda com a sua poesia: além da sua qualidade, já referida, ela é, que saibamos, o primeiro caso de poesia erótica feminina, escrita numa época em que somente algumas – poucas! – mulheres portuguesas davam tímidos passos no caminho, não se dirá sequer da emanci pação, mas, antes de mais, da sua valorização perante a sociedade. Nesse tempo de geral pudor e recato, surge, intempestivamente, vinda do nada, uma pequenina mas perigosa Florbela que borra toda esta pintura – que se casa três vezes e se divorcia duas, que se apaixona e não hesita em escrever ao mundo essas paixões. Há mais, ainda falando da sua poesia erótica. É que, justamente em termos de erotismo, a poesia de Florbela Espanca atingiu um nível raras vezes igualado (temos presente, por exemplo, o caso de Maria Teresa Horta, mas que é muito mais recente, pois, felizmente, essa está viva e continua a escrever). Porque, entendamonos: o verdadeiro erotismo é mais sugerido do que explícito, é o oposto da por nografia. É mais um perfume ou um murmúrio do que uma visualização, do que um grafismo. Enfim, Florbela está também na galeria
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dos notáveis pela sua loucura, pela sua cora gem pioneira: não só por ser uma mulher que desafiou as convenções, mas porque essa mulher que ela foi veio de baixo; não era uma aristocrata nem uma grande burguesa. O pai começou por ser sapateiro, como o avô. Numa altura em que as mulheres quase não tinham acesso à educação, ela completou o liceu, chegou ao ensino superior, frequentou
a Faculdade de Direito. Ao longo da vida, sem
pre reivindicou o direito aos seus sentimentos
e reivindicou também o direito de os verter em poesia e em prosa. Destinada a publicação.
ESTRANHA FAMÍLIA
De certo modo, o seu caráter pode ter sido influenciado pela infância, pela estra nha família em cujo seio nasceu – uma estra nheza que se deveu ao pai, que lhe deu, além da mãe natural, duas madrastas, digamos… simultâneas. Natural de Orada mas depois residente em Vila Viçosa, João Maria Espanca era um homem cheio de criatividade: de sapa teiro passou a antiquário, negociou em cabe dais, abriu uma casa de fotografia, mais tarde foi um pioneiro do animatógrafo; ajeitavase também a desenhar e a pintar. Era, além disso, um boémio incorrigível e um incorrigível con quistador de mulheres. Casou muito novo (21
anos) com uma loira Mariana do Carmo, que não podia ter filhos; então, logrou convencêla
a aceitar a seguinte situação: ele iria fazer um filho fora do matrimónio, em mulher de con dição humilde; depois, o casal tomaria conta da criança. Claro que João Maria escolheu cuidadosa mente a tal mulher de condição humilde: na rua de Vila Viçosa onde ele morava, traba lhava uma lindíssima Antónia da Conceição Lobo, criada de servir. Conquistoua, levoua
para a casa onde tinham vivido os seus pais, e assim veio a nascer Florbela Espanca, levada, logo que nasceu, para casa do pai, onde a mãe só entrava para a amamentar. Acrescentese que, dois anos mais tarde, João Espanca vol tou à carga (se assim se pode dizer), porque, agora, queria um filho varão. De novo, com o conhecimento da legítima esposa, foi dormir com Antónia. Passado o tempo regulamentar, veio ao mundo um rapaz, a quem o pai insis tiu em chamar Apeles. Esse ficou com a mãe até aos quatro anos; depois, Antónia abalou com outro homem e a criança foi viver com o pai, a irmã e a madrasta. Acrescentese que nem assim se apaziguaram os ardores de João Espanca; não há, evidentemente, uma relação das suas infidelidades conjugais, mas sabese que em 1906 começou uma secreta ligação amorosa com a criada da casa, Henriqueta de Almeida. Viria a casar com ela cerca de 15 anos depois, quando Mariana do Carmo lhe exigiu
o divórcio. Curiosamente, Florbela Espanca, na sua infância, não pareceu ressentirse emocional mente de toda esta “desordem”. Ela própria escreveu, numa carta, ter crescido “despreo cupada e feliz”. Aliás, adorava o pai, como adorava o irmão. Já em relação às mulheres
– a sua mãe, Antónia Lobo, e as madrastas,
Mariana e Henriqueta – guardou quase sem pre alguma distância emocional. Fosse como fosse, desde muito cedo se manifestou nela o estro, a imaginação criadora
e um inevitável desequilíbrio. No fundo, criati
vidade e criação implicam, de uma forma ou de outra, desequilíbrio; a questão, para o cria dor, está em ser ou não capaz de o gerir. Flor bela nunca soube fazêlo. De certo modo, já é premonitório o título do seu primeiro poema conhecido: “A vida e a morte”. Não é um
grande poema e o original apresenta erros de ortografia, mas, enfim, a autora tinha, então, oito anos de idade… Uma catraia com oito anos escreve um poema; não é normal. Embora os versos sejam ainda um pouco inábeis, embora denotem alguma ingenuidade, estão muito, muito acima do que se poderia esperar naquela idade. Isto para não falar do tema, vida e morte. Que, acrescentese, háde perseguir Florbela Espanca durante toda a vida. O menos que se pode dizer é que começou cedo. Quem sabe se não teria já, dentro daqueles precoces oito anos, a doença que parece ter herdado da mãe, a neurose, que, segundo o diagnóstico oficial, matou Antónia da Conceição Lobo aos 29 anos? Quanto a Florbela, dá notícia dos pri meiros sintomas numa carta para o pai, datada de 1907, em que se queixa de fadiga e dores de cabeça.
AMOR, POESIA E MÁGOA
Estranhamente, Florbela Espanca não dei xou uma só palavra escrita sobre a revolu ção de 1910, que derrubou a monarquia. No entanto, ela estava em Lisboa, com a família, instalada no Hotel Francfort, que ficava em pleno Rossio. Tinha 16 anos, já escrevia, mas como que ignorou o acontecimento. O seu feminismo parece ser, acima de tudo, pessoal, vivido, mas não doutrinado, pouco político. Essencialmente, ela foi sempre uma militante de si própria, da sua própria vida. Toda essa vida – não muito longa, é certo – esteve centrada na poesia e na demanda de um amor ideal, perfeito, que ela nunca encon trou. O seu primeiro namorado, aos 17 anos, em Évora, foi um colega do liceu. Caso pouco conhecido, que Rui Guedes referiu na sua obra Acerca de Florbela. Esse namoro pouco
FLORBELA ESPANCA (1894–1930)
durou, porque logo em abril ela começava outro, também com um colega, mas que Flor
bela conhecia desde a infância: Alberto Silva Moutinho, com quem ela viria a casar dois anos mais tarde. Entre o começo do namoro
e o casamento, Florbela teve, porém, uma
violenta paixão por um jovem que conheceu na Figueira da Foz e cujo nome esteve oculto durante muito tempo; sabese agora que se chamava João Martins da Silva Marques, um futuro académico. A relação terminaria meses
depois e deixaria Florbela despedaçada, a ponto de, segundo as suas próprias palavras, nunca ter sarado a ferida que lhe ficou. Parece ter sido quase por compensação que reatou
o namoro com Alberto Moutinho e com ele
casou, em 1913. Este casamento não iria durar. A vida con jugal terminou efetivamente em fins de 1918, quando Florbela, que residia com o marido no Algarve, voltou para Lisboa, onde o casal
já tinha vivido, para retomar os estudos na
Faculdade de Direito. No princípio de 1920, conheceu um jovem alferes da GNR, António Guimarães… paixão quase instantânea; come çam a viver juntos, o que conduz ao divórcio de Florbela, logo que o marido toma conheci mento da situação. Depois, a 29 de junho de 1921, celebrase o matrimónio (também civil) entre Florbela Espanca e António Guimarães. Matrimónio que se degrada rapidamente, pois em 1923 já há acusações mútuas: a famí lia da mulher diz que o marido lhe bate, a família do marido sustenta que não: é Flor bela que lhe bate para o acordar, quando ele adormece durante a leitura dos poemas da esposa. No final do ano, António Guimarães inicia o processo de divórcio, quando ela já vive em casa do Dr. Mário Lage, médico que tem vindo a tratála. Desta vez, a família acha
O primeiro poema
E is o poema que Florbela escreveu aos oito anos de idade. Reproduzi molo com a ortografia atualizada.
O que é a vida e a morte
Aquela infernal inimiga
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A |
vida é o sorriso |
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E |
a morte da vida a guarida |
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A |
morte tem os desgostos |
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A |
vida tem os felizes |
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A |
cova tem a tristeza |
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E |
a vida tem as raízes |
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A |
vida e a morte são |
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O |
sorriso lisonjeiro |
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E |
o amor tem o navio |
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E |
o navio o marinheiro |
O dia 8
de dezembro
N a vida de Florbela Espanca, a data de 8 de dezembro é um ver
dadeiro Leitmotiv. É, como se sabe, o dia consagrado pela Igreja Católica a Nossa
Senhora da Conceição. Ora, Florbela nasceu a 8 de dezembro, casouse pela primeira vez a 8 de dezembro e mor reu a 8 de dezembro, pelas duas horas da manhã. É também verdade que Vila Viçosa, onde ela nasceu, tem como padroeira Nossa Senhora da Concei ção; que foi batizada na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, e que deu aulas no Colégio de Nossa Senhora da Con ceição, em Évora…
Interessante 11
SUPER
Portugueses
Imagem da infância: piquenique familiar. Florbela é a criança que está sentada no chão, à esquerda.
Irmã de um só irmão
E u fui na vida a irmã de um só Irmão/ E já não sou a irmã de ninguém
mais!” Assim termina um soneto de Flor bela Espanca dedicado à memória do irmão. Houve quem considerasse que o seu amor por ele era mais do que frater nal, mas nada o confirma, nem os factos nem os escritos. O que é verdade, sim, é
a profunda afeição que ela sentia. Apeles
Demóstenes da Rocha Espanca estudou em Évora e Coimbra, depois entrou na Escola Naval e tornouse oficial da Mari nha. Era, ao mesmo tempo, um pintor com méritos, sobretudo em óleos e agua
relas. Partilhava, assim, certas qualidades artísticas da irmã – e talvez um pouco do seu desequilíbrio: quando a sua noiva morreu, em fins de 1925, ele confessou
a Florbela a vontade de se suicidar. No
entanto, nada prova que a sua morte fosse mais do que um acidente. Florbela conseguiu a posse de dois fragmentos dos destroços do hidroavião em que o irmão morreu. Por sua vontade expressa, foi enterrada com eles.
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que é demais e corta relações, durante dois anos; em 1925, Florbela casa, pelo civil e pela Igreja, com Mário Lage. No entanto, ela tem uma ideia negativa
sobre o casamento: “O casamento é bru tal”, escreve à sua amiga Júlia Alves. É uma “coisa revoltante”. Isto por uma razão: “Essa razão é a posse, essa suprema e grande lei da natureza que, no entanto, revolta tudo quanto eu tenho de delicado e bom.” Como diz num
poema, quer “amar, amar perdidamente”,
mas revoltaa o preço a pagar. Ainda assim, casa pela terceira vez; tem 31 anos, sofreu dois abortos involuntários, a sua saúde é frágil, a melancolia assaltaa, mas continua a escrever. A produção literária de Florbela Espanca encontrase hoje acessível, praticamente, na totalidade. Nela se destacam os sone tos, mas também muitos outros poemas. A primeira obra publicada é o Livro de Mágoas (1919). O segundo, o Livro de Soror Saudade, sairá no princípio de 1923, mas ela já não verá editada mais nenhuma das suas obras. Entre
seu
tanto, publicará poemas em várias revistas, nomeadamente Modas e Bordados, uma revista que, na época, apesar do título, se interessava também pela prosa e pela poesia femininas.
OS ÚLTIMOS ANOS
O período que vai de 1927 a 1930, ano do suicídio de Florbela, é particularmente som brio. Começa com a morte prematura do irmão: Apeles Espanca era oficial da Marinha e decidira fazer o curso de pilotoaviador para entrar na Aviação Naval; a 6 de junho, num voo de treino, o hidroavião que pilotava caiu no Tejo. O corpo não foi encontrado. Este foi o choque mais violento que Florbela sofreu e do qual nunca se refez. Durante o ano seguinte, o seu casamento com Mário Lage começou a dar sinais de desagregação e a sua
doença nervosa agravouse sensivelmente. No verão, apaixonouse novamente, agora pelo médico e músico Luís Cabral, mas em agosto
já tudo terminara e ela fez uma primeira tenta
tiva de suicídio. Em 1929, andou por Lisboa, Évora e Pedras Salgadas. Consultava médicos
e tentava, sem êxito, encontrar editor para
dois livros. Depois, em 1930, conheceu – pri
meiro por carta e depois pessoalmente – um admirador italiano, Guido Battelli, de 62 anos, professor na Universidade de Coimbra. Battelli (que viria a traduzila para italiano) mostrase disposto a editarlhe um livro de poemas, a Charneca em Flor. Em agosto, Flor bela regressa a Matosinhos, onde reside com
o marido, Mário Lage. Os meses seguintes
decorrem entre a ânsia de ver publicado Char- neca em Flor e o desânimo, a angústia, o desin teresse da vida: a neurose está a vencêla. Em outubro, uma nova paixão, por Ângelo César, um advogado. Não dura e pouco depois Flor bela tenta pela segunda vez suicidarse. A terceira foi de vez. Na casa de Matosinhos abundavam os barbitúricos. Florbela só conseguia dormir à força de Veronal, e foi com Veronal que ela se matou enfim, a 8 de dezembro de 1930. Só depois, em 1931, seria publicado Charneca em Flor, e a seguir os livros inéditos e as ree dições do Livro de Mágoas e do Livro de Soror Saudade. Só depois, graças à ação de vários nomes da cultura (entre eles, há que o reco
nhecer, António Ferro) se afirmou, lenta mas seguramente, o nome literário de Florbela Espanca. Até então, enquanto foi viva, e ape sar de alguns amigos fiéis, foi verdade o que ela escreveu um dia: “O mundo querme mal porque ninguém/ tem asas como eu tenho!”
JOÃO AGUIAR
Este artigo foi publicado originalmente na SUPER 113. João Aguiar faleceu em 2010.
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