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‘ruled oxgnl em een lier dla Historia Horio Argon Para Uso de Latirarercoe uals 4, 2001 Aslmages constants ness obra so datos Ae Caos Mates Alberto Blac e Meas Being i Beal Capt Fonte Sinesto Nal dos Bors de Lis.) ‘Wass, Mara ‘inter dist hist rgtini pr ode ain atmos Maro Meena [eno ‘Anta DiNardo Plo Respect, 20. sadn: 308) “Tad de Eero del Hor: Hogi Argel Para Us de aticaercsnoe 2. Anger Ama Lit - Hii. Amica tina Hirose aut Tia ra966 eon 7209 en rt) enon onto Diros reservados em ings portage EDITORA PERSPECTIVA SA ‘sc BigadcoLals Asn. 3025, 141-00 Sto Pal SP Bel “eb (on) 85-488 ‘weoraperapectiva conde ario x 1a Edigdo Brasileira ~ Ruth Verde Zein rodugio - Silvia Arango ira Parte STORIOGRAFIA ARQUITETONICA. \CTERIZAGAO DA DISCIPLINA Historia e Historiografia. : Historia Geral, Histria da Arquitetur, Historia da Arte. fea Histéria da Arqitetura,Histéria da Arte «0.000039 Historia, Teoria, Critica. Reflexio e Prixis oe Suibjetividade e Objetividade .. Segunda Parte CONCEITOS INSTRUMENTAIS PARA A ANALISE DA ARQUITETURA A PARTIR DE UM PONTO DE VISTA LATINO-AMERICANO Apresentacio Periodizagio... : Continuidade/Descontinuidade ‘As Duragies Histéricas. Centro/Periferia/Regiio Tipologia Linguagem .. Significado....... Patrimonio Arquiteténico e Urbano Centros Histéricos. 10. A Guisa de Conclusao. 55 37 63 n 83 +99 as 185 197 207 Para a Edicao Brasileira Sou imensamente devedora da contribuigio concetual de Marina ‘Waisman, historiadora, critica, jornalistae teérica da arquite- tura, Mew contato inical com seu trabalho deu-se pela leitara da seco “Servicio de Novedades’ regularmente publicada na revista Suna dos anos de 1960 a 1980: uma destilago critica, infor- ‘mada e dvertida acerca dos debates, obras e autores em destaque zno campo arquitetonico internacional. Seguiram-se os cadernos ‘Summaries, separatas aprofundando temas espectico, que a par= ‘tirdos anos de 1980 passa a divulgar também as vozes mais madu- ras ou mas jovens dos entio acesos debates latino-americanos; ‘que muito ajudaram a acabar com 0 deseonhecimento mituo entre nossos paises e suas produgées. Tive também a honra de desfrutar da amizade suave e carinhosa de Marina e de, como colaboradora e editora da revista Projet, solcitar para publica ‘fo alguns de seus excelentes textos. Waisman também colabo- ava intensamente com outras publicagoes, como as da editora, colombiana Escala, no contato fraterno com a amiga comum, € também excelente historiadora e critic, Silvia Arango. Ali publi- ‘ou 0 presente livro ~ O Interior da Histria ~e também aquele ue viria a ser seu cltimo trabalho, La Arguitectura Descentrada, tama visio desencantada, mas otimista, sobre as crises finissec Jares da modernidade arquitetonica. 52 OINTEROR DA MisroMAIsToRIOGRAFIA ARQUITETONICA, de modo que o recorte que, forgosamente, devers fazer, nao distorga os tracos fundamentais do territério onde atua. De ‘qualquer forma, ele deveria preveniro leitor declarando, exph citamente, sua ideologia arquitetOnica e © método a ser ul zado em seu trabalho®, com 0 qual ficaria descartada toda manipulagio do leitor, que estaria em condigdes de deco- dificar adequadamente a informagio € 0s juizos que Ihe sio apresentados. egunda Parte nceitos Instrumentais a Andlise da Arquitetura tir de um Ponto de Vista tino-Americano 2 Lacen Goldmann Ls lportaaca del Concepto de Concienca Poste ptt la Comniacn, mE Cans de yformacin em la Clonci Conteipe= rina Cidade do Mexico Siglo 33, 1966, p46. Um exemplo excelente do. umprimento dessa condo €o prlago do vo de Kenneth Feampto® ‘Modern Aritcir: A Crea! Hato, OxSord: Oxford University Pres 1,3 "Como multos onto de minha eraco, fl ifluenclado oro interpetacio marsstadahistra rbra mes asserted emp 75 134, “6 ‘OINTEION DA HISTORIA: CONCEITOS INSTRUMENTALS ‘ceTROVPERIFENAECIO ” 9 — do arquiteto™ (O presente estudo propée-se, justa- destacar pautas de valoracéo que possam contribuir entar a prixis arquitetOnica até a consolidagao - ou a 0 de uma identidade regional.) esar de todos 0s descolamentos indicados, a atracdo da eho arquitetGnica dos paises centrais ainda predomina uraslocaisc talver possa afirmar-se que as reagbes sio vidas, até certo ponto, nas margens das margens. E que, fal época de hipercomunicagao, a relagdo centro/margem da, nio s6 pela conformagio do sistema mundial odugio e consumo de bens ~ que levou certos setores da tnidade internacional e das comunidades locas a aceita- o papel passivo de consumidores de produtos sofstica~ de produtores dos mais elementares -, mas também pelo {ntrinseco da informago, mais poderosa em fungao de ondigao de “fraca” em comparagao com os sistemas de inio politico ou econdmico. a circunstincia coloca, de forma muito mais intensa que do, as diferentes culturas na encruzilhada entre univer- 0 € localism ou regionalismo, entre o universal eo parti- pentre a necessidade de mover-se ao ritmo geral do mundo imultaneamente, permanecerem fii si mesmas. As gran- arquiteturas do passado nio estiveram, de modo algum, as a0 peso das grandes correntes universai, ¢ mesmo das isdiretastransculturagées. As arquiteturas gotica, renascen- ‘mancirisa se difundiram a partir de centros bem delimi- dos as regides mais distantes,nelas adquirindo caracteristicas| prias, produto da assimilacio a um modo de fazer ou de correspondentes 4 nova sede, chegando, as vezes - caso do nna Inglaterra ~ a converter-se em expressdes simbdli- da nova nacionalidade. A difusio de ideologias, métodos, cedimentos, imagens e formas linguisticas constituiu, desde mpre, um elemento bisico da trama hist6rica Adverte-se também que a crise dos modelos do mun central deu lugar a0 pluralism, acabou com o monopélio tural dos grandes paises do Ocidente e, com isso, sancion a legitimacio dos diversos projetos locais, da descentral ‘s40 dos modelos — uma possibilidade nem sempre aprove pelos atoreslocais. Enguanto 0 centro manteve sua forga, 0s povos da rica Latina apareceram necessariamente como marginals sistema de producio cultural da arquitetura, Uma escala q -valores ndo declarada, porém aceita, colocava ~ eem boa ainda coloca ~ no plano mais alto as producdes de certos pal considerados centrais,escala que se afirma e prolonga gracas atitude de epigonos que assumem, em sua grande maioria, produtoreslatino-americanos. Porém, os deslocamentos ass nalados comegam a ver-se refletidos na produgio arquitet nica, tanto no campo tedrico como no pritico, Ji se comentou o processo de conscientizagio da depen ‘éncia cultural por parte dos povos antigamente coloni ‘ea consequente afirmacio dos préprios valores, No terreno d arquitetura estio sendo forjados os instrumentos, explorando a realidade em busca de valores pr6prios. Alguns exemplo conspictos marcam as possiveis orientagdes. A obra de Has- san Fathy no Fgito, de Doshi ou Charles Correa na India, dos latino-americanos Rogelio Salmona, Severiano Porto ¢ Eladio Dieste, entre outros, permite assegurar que existem caminhos possiveise fratiferos para tai buscas. As dificuldades enfrentadas nao sio poucas: em cultt- 13s arquitetOnicasinseridas em uma tradigdo de descontinulk dades, rupturas, de constantes irrupgdes de ideias alheias no desenvolvimento local, ni é facil defini a prépria identidades Recorred-se histéria. Uma nova e grande atragio pelo conhe- cimento da prépria histéria abriu um caminho de reflexde ppouco frequente nesse meio ~ excetuando-se, naturalmentes 605 estuidiosos da historia. No entanto,a passagem do conheck= ‘mento histérico ao descobrimento de valores que possam se considerados préprios, em primeiro lugar e depois 4 elabora- ‘fo de orientagées para o projet, a partir de tais valores, requet uma série de condigdes que vio além da pesquisa ou da pos- tura teérica, e que comprometem diretamente a qualidade ~€ Em sso ce aspect, pam ser ads doiimportanes expos © ‘de Sereno Porto Bras e0 de Edvard Rojo Chile. Nos dais casos, segues formal sua propos x pari do etd do mei clara amblental local Ea Severano Prt, uma maior matridade projtal petite Ihe chegar em diculdades amma arglezra moderna orig. Fens veils nfleicos fll enuanto Edna Rojas segue seu {uo cpstvo caminko no mesmo senda * ‘INTERIOR DA HISTORIA CONCHITOS INSTRUMESTAIS ccormomentrenamctio » Contudo, as condigdes da divulgagéo mudaram radical. mente no mundo contemporineo, bem como a relacio de poder entre as nagées do mundo. Desde a época em que og ‘mestres do gético viajavam de um pais a outro, levando se ‘modos de fazer arquitetura, ou depois, quando os tratadistag difundiam os modelos renascentistas ou maneirstas 20s maig remotos paises, até situagao atual,a magnitude das mudi ‘quantitativas ocorridas nos processos de difusio cultural prox dluziu uma alteragéo qualitativa fundamental. A aceleracio da histéria e das mudangas na vida social, nas expectativas, nos ‘modos de vida; a multiplicagao e o novo alcance dos meios de comunicagao, que eliminaram distancias ediferengas culturais no que se refere & recepcio da informagao; os mecanismos da sociedade de consumo, que estimulam a constante renovacdo de objetos e formas, decretando obsolescéncias e proclamando novos valores que, muito brevemente, por sua ver, ser30 subs rmetidos & lei do consumo: tudo isso resultou em que o cari= ter criativo, positivo e enriquecedor da difuséo cultural fique ‘muito frequentemente submerso sob os aspectos negatives de uma aceitagéo passivae superficial, pela qual as novas formas se superpdem as formas culturais existentes, sem entrar em intima conexao com elas, simplesmente substituindo-aseinte= rompendo seus possiveis desenvolvimentos. ‘Outro dos efeitos perversos do poder da informagio & 0 reducionismo que age na transmissdo da arquiteturae,em titima instancia, na propria erquitetura, Porque os meios de difusioy ‘com sua magnifica qualidade grifica, reduzem a arquitetura construida a uma representagio recortada de todo context, bidimensional,eloquente pelo impacto de sua imagem - fre- quentemente “construida” por um habilfotdgrafo. Esta operas redutiva atribui a apreciagio da arquitetura somente a um dos sentidos, o da visio, deixando de lado toda a riqueza espacial ‘material, sonora, ambiental ete. Porém, por sua ver, esta form de apreciar a arquiteturaestimala mais de um profssional a com= ceber sua obra em termos “fotogénicos’ buscando efeitos qU {alver, sejam irrelevantes na obra construida, mas que poderia™ realgar sua presenca nas péginas impressas. O empobreciment® conceitual e 0 esquematismo construtivo de muita da arquite™ ‘ura atual pode ter aqui uma de suas causa, também um efeito perverso, causa mais de desinforma- do que de informagio, 0 desequilibrio existente entre a je ea quantidade de informagio emitida e difundida paises centrais e pelos “periféricos” Uma barreira de inco- {cago bloqueia o intercambio de informages entre paises arginais, bloqueio que responde a complexas razdes, entre quais, ¢ com um importante papel, a manutengao de um_ tema de comunicagdes proprio do mundo colonial, 0 qual, de quase dois séculos de independéncia politica nos jses da América Latina, continua privilegiando as relagoes antigas colnias e metropoles e dificultando o intercim- das colonias entre si 0 sistema informativo serve, entio, para alimentar 08 canismos de consumo ~ consumo de informagao e por essa consumo de linguagens, imagens, ideias ~ apoiados pela itagio, por parte da periferia, dos produtos que sio avali- dos por tradicio de poder e prestigo, e sua contrapartida: snteresse por aqueles que provém do mundo periférico e ente daqueles atributos. Contudo, jé fiz mengao ao movi- nto que almeja reverter esse tipo de processo, movimento se fortalece, ano a ano": ‘contlito entre universalismo ¢ localismo, entre a adesio modelos centrais, que se arrogam a condigio da universa- ,€ a formulacio de modelos especificos, parecia reco- eer como niicleo do problema a comentada relagao entre exo e praxis", que aparece rompida no caso dos paises mar- tis, Na verdade, a perda essencial sofrida pelos sistemas, 20 trasladados a novos meios, €a perda de suas raizes, a de sergio em uma determinada realidade fisicae cultural. As arquitetonicas, ao serem trasladadas, em lugar de apa- erem como 0 resultado de complexos debates produidos em Basa car os mumerosonencontos bie de argiturscongressos smn Plsos et. reulrmentereaizados em divers pies latin smericanos "5 encontos devs de argtetars, ue tent intnsfcao cones ‘eno itu, pinlo paso para sconce dais ves produ Unidaatino-americene paticlemente os Senos de Angers Tatino-Americana (st) qu nicados em 198, fram ntitaconliades cose em jonas de flex e dcbateenie autos rico que Ietdem oreniar a anqutturaltno-amercan sn diego sconsoldapo ews idertidae pop. Versipra.p 3046. ” ‘WTERIORDA HISTORIA: CONCEITOS INSTRUMENTALS Baio Dite. rj Crit Opn, em Atti, Uru torno de propostas e solugdes, em ver de exibirem seu carter de polémica entre as ideias eas realizagées, apresentam-se (ot siio recebidas) como sistemas fechados, como grandes esque ‘mas conceituais de valor universal e definitivo; e, além disso, perdem seu cariter essencial de etapa de wm processo~ teorial prxis/critica/reformulagao da teoria~ para aparecerem como estigiosfinas e irefutéveis da reflexdo. Enquanto ume teoria arquiteténica permanecer aberta ao didlogo com a realidade hist6rica, continuara gerando conceitos e instrumentos vili- dos para atuar nessa realidade; porém, quando esse didlogo se rompe, transforma-se em um corpo estéril,incapaz de reno= vvar-s¢a si mesmo ou de atuar produtivamente na realidade. Assim sendo, essas teorias ou ideotogiastransformadas em fesquemas conceituais mais ou menos rigidos ~ no melhor dos 2305 -, ou em uma mera colegio de imagens ~ mais frequente- ‘mente ~ fazem sua entrada em uma nova realidade que, certa- ‘mente, ndo tomou parte em sua elaboracio, Se esse novo meio possui uma tradigdo arquitet6nica mais ou menos sélida, as, rnovas ideias, provavelmente, serio confrontadas com o corpo, de conceitos ou 0s modos de produgio existentes; nesse encontro ‘ocorreré um interessante intercimbio sero geradas orientagdes apontem o necessério equilibrio entre o movimento do pen- smento universal as particularidades da cultural local Porém, como aconteceu na maioria dos paises periféricos, 40s centros de poder, se no existe uma tradigao de pensa- nto arquitetnico ou um grau de autoconsciéncia suiciente- “mente fundamentado, 0 mais provivel éque o sistema de ideias {fansplantado permanesa estranho & realidade local, que nao ja incorporado em profundidade, isto &, que nao lance novas| s. Sua propria condigio de alienado, por sta vez, acarre- ‘um processo de alienacao da cultura & qual se impde pela do prestigio,alienagio entre reflexio e praxis, entre prié- “xis e meio cultural social. Frequentemente ocorrerd ainda ‘0 temas propostos para reflexao repitam, sem maiores ‘arlagdes, os temas e modos de reflexio do pais de origem”: ‘Scorreri também que a préxis aceitara procedimentos ou ima- {gens provenientes daquelareflexio e daquela praxis alheias. A [propria interioridade perderd uma ocasido de consolidar-se ou 13 Como o que ore, pot exempl, com os execs sobre det urbanas ‘Scemeledosem um propa deestedode Buenos Ais, onl de cade A: typ (chamado La acta) evdenementeInfuencados elas propos tar tern europe 2 ‘OWWTERIOR DA lsTORIACONCEITOS INSTRUMENTAIS conTmovPeurENaEcHo ® fortalecer-see seré arrebatada em diregdo a uma pura exter cade. Ester taba tr bandana eu eee dirigir-sea X. : esse modo, para os paises da América Latina, com consciéncia cultural, s vezes vacilante ou nao sulicientement definida, com seu sentimento de formar a periferia no mi ocidental, a transposicao de ideologias arquitetnicas tra forma-se,frequentemente, em um dos tantos processos de nagio que diariamente sofrem no campo social, econdmig ou politico. -Essas questdes, como é natural, foram percebidas em no 08 paises antes mesmo que nas metrépoles". Contudo, algum tempo certa critica internacional vem considerand como uma das tendéncias positivas da arquitetura atual o regi nnalismo como forma de oposicio construtiva as diversas for ‘mas negativas do universalismo, pela via de reforcar ou mi as identidades regionais. O termo regionalismo é, no entan extremamente ambiguo, pois pode referi-se a posisées que flutuet entre uma reinterpretagio local das ides internacio nais e um conservadorismo reacionario de cardter folcldrico ou populista. Parece, portanto, indispensivel encontrar clemene tos para uma definicdo que possbilite um uso instrumental do termo, retirando-o do teritdrio das aspiragées vagamente no tilgicas’. Um dos aspectos a ser considerado nessa definicio € a discusséo dos termos em uso, tema sobre o qual voltarei em seguida jm dos elementos que podem, efetivamente, colaborar formacio de uma arquitetura de sentido regional é a do papel e do cariter da tecnologia e sua relagio como de modernidade. Na verdade, parece aceito 0 fato de igrau de “avanco” ou modernidade da arquitetura deva edido por sua possbilidade de acesso & tecnol 's chamada high tech. Em uma entrevista, Oriol Bohigas trou que ndo é questo de basear a propria identidade no olvimento ou na pobreza, mas na lua para alcangar nologia do desenvolvimento". Pois bem, o que deve ser idido em nossos paises por tecnologia avangadat As gra- ‘e monumentais construgbes de Norman Foster ou Hel- Maho, as fabulosas ciipulas de Buckminster Fuller, as sutis ide César Peli ou de Kevin Roche? “A forga das ideias ~ e da propaganda ~ do mundo desen- Jo, baseada na ideologia da modernidade, levou-nos a ‘como certo que o tinico caminho para 0 progresso & ‘que esses paises tenham percorrido, aceitando de fato ;conceito de progresso. Tentamos segui-lo, cada vez de mais ge, mesmo depois que suas sequéncias desastrosasficaram. entes para o equilibrio do mundo. Portanto, parece urgente ‘0 que oconceito de “tecnologia avancada” significa para 0s paises. Em uma primeira aproximacio pode-se dizer ‘tecnologia avangada é aquela que permite, com base em ss0s humanos e materiais acessves, alcangar, mediante seu erfeicoamento e desenvolvimento, o mais alto grau de pro- dade para conseguir um habitat adequado a cada regio e smodos de vida, tanto em qualidade como em quantidade. Pode-se dizer que todos os materiais sdo universais, tanto jodernos como os antigos. Mas, cada um deles, 0 tijolo ‘© concreto, a madeira como 0 a¢0, possuem qualidades ondigbes em seu processo de producao ¢ em seu “proceso usa” que os tornam mais apropriados para sua utilizaco em erentes lugares. Na Argentina, por exemplo, 0 desequilibrio gional faz com que uma tecnologia aceitivel para Buenos Aires insforme-se em uma caricatura, quando pretende ser utili- da em dreas semirrurais, e vice-versa, que a transposicio de 14 Hivos aos, et sem ditto um pont de vit rego ma la Contnernsionl dst de Ager), open so Siero espetcs prt proces nino americans E90 o08 ‘mini onnzao pels Univer Mentndes cya Sate Span ano Ramin Gurr cmo Aston Toce ecu mes nd !nenamos nwo ovale deepal oso om otal diordines eos con eapantos Nocti gs eB ‘mals trea net revi de Mai ARV, rgd porn Jes = loro Lis Ferner alo, ack o ctrl elon deca Ye Age con pein 2 tna 15 Asser moe avn no tetera. Ra cao reba de Ege Browne, Or Argun ns Ltn re a8 ‘eS Arango ed Crtan rnd Co os gases rca Imoeridade oe deja prs ets lcs Nox talon pent ls ar dives dis do apse se amb enon um pre ‘tel tei ep sd. 15 Albeto Petia “Oral Bohigas La Perseccio dela Moderna Summa, aah ago. de 1986, 25-52 ” ‘OWWTERIOR DA HISTORIA CONCEITOS INSTRUMENTS tecnologias e imagens rurais torne-se incoerente e anacrOnica ro meio urbano da metrépole. Quanto ao desenvolvimento de sistemas altamente tecnol6gicos, isto exige tanto de uma politica exterior estavel como de um mercado interno forte e de acio permanente, condigdes que so habituais em poucos paises da América Latina, © uso dos recursos regionais nao implica, certamente, éstancamento ou atraso: isso ¢ brilhantemente provado, entre otros, por Eladio Dieste, Rolegio Salmona, Togo Diaz , sem divida, Severiano Porto, criador de uma arquitetura de grande valor a partir da tecnologia da madeira. A pesquisa das quali- dads dos materiais regionais, de sua adaptagao as necessidades atuais, de sua resposta ds condigoes ambientais, da existéncia de uma mio de obra com capacidade para desenvolver-se ¢ daptar-se aos necessérios avangos téenicos é um dos aspectos a serem acentuados nessa busca de identidade regional ‘AtG aqui utilizei os termos “centro/periferia”e “centro/mar- ‘gens; sem submeté-losa um exame. Trata-se, no entanto, de ter- ‘ms repletos de conotagoes, que exigem um cuidadoso debate Em primeiro lugar o par de conceitos centro/periferia traz consigo a ideia de dependéncia, pelo fato de os dois termos per- tencerem a um sistema no qual o segundo esta subordinado ‘40 primeiro, ocupando um lugar secundatio, acess6rio, Tudo 0 ‘que for produzido na periferia ser feito dentro do quadiro das decisdes tomadas pelo centro; na periferia,s6 serdo possiveis as decisbes de “segundo grau’ ou sea, aquelas tomadas dentro do quadro tracado pelos drgios de decisio de primeiro grau. Os modelos fornecidos pelo centro constituirio a base de todo © desenvolvimento periférico e, ns casos em que esses mode- los nao possam ser reproduzidos, seré conservada, a0 menos, ‘2 imagem do modelo central, de modo a favorecer no possivel ‘© quadro fornecido pelo centro. A aaceitasao de tal condigdo exigiria, por um lado, que ela respondesse fetivamente a uma situagio histérica erta,e por outro, que se decidisse a renunciar a toda possibilidade de desenvolver uma arquitetura apropriada @ regio. No tocante 20 primeiro, um exame histérico da arquitetura latino-ameri- cana revela que nao foi esse o tipo de relacio entre metrpo- les col6nias, em todas as épocas, Ramén Gutiérrez destacou ‘conmoyrsnurenaEcHO % a complexa origem dos modelos espanhéts da arquitetura jal latino-americana revela combinagies inéditas no pals- stro, um novo produto destilado de memérias, de procedi- tos e de imagens, por sua ver, modificado para adequé-lo ‘novos ambitos, com suas distintas possbilidades tecnol diferentes entornos urbanos ou rurais e, com isso, difi- rete 0 resultado final pode ser inscrito em uma relagao 5 reproduao”. fi no século xx, a diversidade das fontes a chegada indiscriminada da informagio, em geral, deixam seconheciveis 0s possiveis modelos, que forem objeto de rages sincréticas, quase nunca de repeticdes litera. Talvez nas durante o periodo do ecletismo e academicismo pode- ‘detectar uma relagio direta entre metrépole ¢ periferia ~ smo quando protiferam as ives fantasiosasinterpretagDes ‘modelos centrais ~ com a importacio de planos, materiais, ologia, atesios etc. ssa relagio desigual a0 longo da histria permitiia pen- que a arquitetura representou, mais de uma vez na historia, ppossbilidade de evitar o peso total do poder central e mini- sra relacio de dependéncia. ‘Quanto ao segundo ponto destacado, isto é,a possibilidade desenvolver uma arquitetura propria da regio, deve-selevar ‘conta que o sistema centro/periferiaestabelece uma escala “devalores que éa escala do centro, e que serviré para categorizar “tanto os produtos centrais como os marginais, Assim, tudo 0 que $e faca ou nio se faca, tudo 0 que se pense ou se deixe de pen sar serd necessariamente lido em fungio daquilo que se faga ou ‘se pense na metrépole. O produtor da perifera ser julgado, no ‘melhor dos casos, como um altuno destacado; no pior, como um Jgnorante incapaz de compreender a sutilezas da produgao cen tral; porém, mais frequentemente, seri simplesmente ignorado ~ ‘omodo de categorizasio mais depreciativo -,conhecido (embora znem sempre reconhecido) apenas em seu meio mais préximo. }écomentei, antes, como a organizaglo do material histo~ rico por parte da historiografia central situou decisivamente fora de contexto a produgio latino-americana: 0 sistema de valores apto para entender a arquitetura central mostrou-se 17 atetema fanaa por Rama Gulez diversas onfertcis Ver Samia 35 inapto para entender a arquitetura periférica, porém nio se criou um sistema alternativo para esse fim. este modo, ao introduzir a producio desses paises no sis- tema centro/periferia, comete-se a mesma falicia de quando se julga um periodo histérico em fungio dos valores pré- prios de outro. (A incompreensio e 0 desprezo pela arte bar- roca provocado pela ideologia neoclissca é um dos exemplos paradigmaticos.) © conceito de periferia implica, assim, 0 desconhec ‘mento da centralidade intrinseca de cada cultura em relagio «si mesma, uma centralidade “fraca,talvez, como j foi dito, ‘mas indispensivel de ser reconhecida no caso de se preten- der chegar a uma compreensio de sua producio e seu carter. Essas consideracbes a propdsito do termo “periferia” so vidas, sem maiores mudangas para o termo “margemt’ Em ambos 0s casos, trata-se de marcar posigdes subordinadas a ‘um centro, com um pertencimento adventicio que nio Thes di direto participacio, nem thes deixa liberdade para defini sew Proprio desenvolvimento, ‘A partir de taisreflexdes, parece surgir a necessidade de substituir os termos analisados, “periferia” e “margem’ por algum outro mais adequado tanto & situagio histérica como 08 projetos de futuro. Por isso, o conceito de regio tende a substituir aqueles dois termos nos estudos dos iltimos anos. Porque a ideia de regiéo, contrariamente a de periferia, situa ‘ada cultura em um sistema que tem como base, precsamente, « pluralidade de regides, sistema no qual nenhuma delas exerce ‘a hegemonia, nem pode, portanto, erigir-se em modelo de vali dade universal, Verifica-se nesse sistema a perda do centro, de ue falam os fildsofos citados anteriormente, ea valoragio das cultaras “marginais’ na auséncia de valores centrais A ideia (totalitiria) de uma cultura superior é substituida aqui pela do pluralismo cultural. Os juizos sobre vantagens desvantagens, apresentadas por cada cultura nos diversos Ambitos, poderdo entrar em outros sistemas ~ 0 da demogra- fia, da climatologia,o da producao agricola ou industrial ete.~ ‘dentro dos quais poderio ser categorizadas de acordo com suas respectivas vantagens e desvantagens, porém nao serio juizos de valor que permitam qualifcar ou desqualifcar globalmente ‘cexovnnurERuvatetio 7 ‘uma cultura regional em fungio de outra. Nesse sistema, nio & inecessério colocar a producio de uma regito no leito de Pro- ‘custo dado pelas pautas dos paises “centrais’ para poder qua- Tificd-Ia: 0 juizo se dirige a um centro proprio, enele distingue valores que talvez nao tenham sido descobertos, desvalores {que haviam sido confundidos em seu significado profundo. A substituiglo dos conceitos de periferia ou de margem ppelo de regio, o deslocamento radical do ponto de vista — ‘quase uma revolugio copernicana ~ permitiu que arquitetos, ‘eritcos, historiadores dirigissem um novo olhar, mais cons- ‘rutivo e original 3 propria historia, ressituando episédios na “nova historiografia, assim como também & préxis arquitet6- ‘ica, assentando as bases de uma teoria®. [Nesse sentido, pode-se aceitar a aproximagio regionalista gomo um modo de entender a circunstancia local, nos mais, iversos aspectos ~ modos de vida, tradigbes construtivas e cnoligicas antigas € recentes, imagens urbanes, tipologias fc. sem que isso implique a limitagdo dentro de um loca- smo estreito ou o congelamento do desenvolvimento hist6- 0, mas como um modo de afiangar e construir um mundo ultural sobre modelo préprio. Essa “centralizagio” das culturas, antes consideradas mar- ais, pode ser interpretada de diferentes maneiras: Kenneth Frampton, que contribuiu enormemente para lancar o tema na internacional de discusses, como uma possbilidade resistencia diante do aparato do mundo pés-industral, como ‘modo de manter um miicleo vital sem deixar-se absorver aparato. De minha parte prefiro interpreté-Ia como uma divergéncia dentro da diregio geral da cultura pés-moderna, gomo uma intengio de achar caminhos alternativos 0s d los pela sociedade global ‘A primeira seria uma interpretacdo, por assim dizer, esté- trata-se de conservar algo, de entrincheirar-se diante da 18 Pode ser ada ar anes de va Arango cm reas ualiades ps ‘moderas da argutetralatino americana a dda S 94 oes Je Ruth Verde Zein oe a argitetra branes pray etalon 4: Carlos Edvard Dis Comas sobre ogni da brs de ici Cota esse arpct, merece ser cada obra erica ce Crista Ferner Con [ucts Kdentied Sumergida por Nosoton Mismon Sumarn 126 1988 p53 ” ‘owereox a sTORA:CONCEITOS INSTRUMENTALS invasio de tm sistema indesejivel; é uma posigio, deg modo, romantica ou nostilgica. A segunda, pelo cont uma interpre dinamica, pretend expres in jeto: em vista das restriges apresentadas pelo aparatg, pelo aparata pés-modernidade aos povos peiféicos para que este, aproximem dos modelos centrais, abandona-se essa li ‘em busca de modelos mais apropriados ~ epossives~ p © cumprimento de sa trajetéria histrica, Resistir € manter uma situagio, criar para si mes met hater dese pee secs (mas, até quando?) “_ Divergir¢ sur do sistema, deixar de lado suas strut empreender ramos inéditos. est éperanecer pra defender o qu sed ivergr €desenvolver a partir daquilo que se & lo que eé,aquiloqu se pode cha ser. Provavelnent a ifena ee las interpretagdes provém da diferenga de origem de se defensores:a partir do centro as margens no podem ser como geradoras de projetos, mas apenas, talvez, como refigio. A parti das margens tudo é~ ou devera ser ~ projto. jpologia diversos textos e propostas relativos & tipologia podem ie-se dois modos fundamentals de entender seu papel teoria ena praxis arquitetonica: como instrumento ou como incipio da arquitetura; 0 primeiro derivado da consideracao ica do tipos 0 outro, de sua abstracao do devir hist6rico. logia como instrumento é utilizada tanto para a ané- {quanto para o ato de projetar, tanto no nivel correspon nte ao objeto arquitetSnico como no dos estudos urbanos. essa abordagem concentra-se na anélise historica e, espect- camente, naquilo que se refered arquitetura "Antes de abordar 0 tema especifco, algumas observagdes carter geral se impdem: em primeiro lugar, sobre as razOes elas quais o conceito da tipologia aparece no campo do pen- amento arquitet6nico contempordneo (ou melhor, reaparece) fem segundo lugar, sobre o paralelismo entre este conceito outras nodes que caracterizam o pensamento do periodo. ‘O ser humano é impensivel fora da cultura; a cultura é produto humano, mas ao mesmo tempo o ser humano € pro- futo de sua cultura, Cada cultura esté definida por uma série autas que determinam aquelas formas de comportamento, aguelas atitudes diante da sociedade e do mundo que serio