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DOMINGO, 23 DE MAIO DE 2010 O ESTADO DE S. PAULO

Internacional
estadão.com.br

Gráfico. O programa
nuclear iraniano
estadão.com.br/internacional

ESFORÇO DIPLOMÁTICO. Riscos e oportunidades

Para diplomatas brasileiros, entrar na questão iraniana foi mais uma maneira de reafirmar que o País é um ator global, capaz
de levar sua influência a todo o mundo; críticos do governo Lula, porém, definem esse raciocínio com uma só palavra: megalomania

Após pacto com Irã, Brasil reivindica


condição de porta-voz dos emergentes
WILSON PEDROSA/AE-17/5/2010

● O ESTADO
NO IRÃ

Roberto Simon
ENVIADO ESPECIAL / TEERÃ

Aos olhos de diplomatas brasi-


leiros, o maior – e mais impro-
vável – afago à atuação do País
no Irã veio do jornal britânico
Financial Times. Em editorial,
o prestigiado diário liberal de-
fendeu que o acordo nuclear
turco-brasileiro com Teerã, in-
dependentemente de seu re-
sultado, prova que o Brasil tor-
nou-se uma “ponte” entre o
Ocidente e “os emergentes”. A
Turquia, do outro lado, serviu
de elo entre os ocidentais e “o
mundo islâmico”.
O diagnóstico do jornal foi
uma boa notícia para o Itamara-
ty.Entrarnasearairaniana, acre-
ditam os diplomatas, é apenas
mais uma maneira de reafirmar
que o Brasil de hoje é um ator
global pleno, cuja influência po-
de determinar rumos em todo o
mundo. Críticos do governo do
presidente Luiz Inácio Lula da
Silva,porém,definemesse racio-
cínio com uma palavra: megalo-
mania.
No diálogo da semana passada
com o Irã, a diplomacia brasilei-
rafez questão deexaltarsua con- Paralelos. Imagem de Lula é projetada em telão durante reunião do G-15, em Teerã, ao lado de retratos dos aiatolás iranianos Khomeini e Khamenei
dição de potência emergente –
“aliada ao Ocidente, mas com vamente a linguagem da pres- cep Tayyip) Erdogan”, afirmou nuclear. Embora seja o Ministé- Irã e as potências ocidentais. usar o acordo firmado com tur-
umaagendasemiautônoma”, se- são”. Por isso, teriam sido inca- Seifzadeh ao Estado. rio da Defesa o principal respon- “Não negociei em nome de nin- cosebrasileirosparaganhartem-
gundo a definição do Financial pazes de emplacar o acordo de Em Teerã, representantes do sável pelo programa atômico, o guém nem pendi mandato”, dis- poeevitar novassançõesque po-
Times. Pelo discurso oficial em troca de urânio por material nu- Brasil deram de cara com o labi- poder de decisão sobre o tema se Amorim. O objetivo era discu- deriamserimpostaspeloConse-
Teerã, teria sido essa qualidade clear, proposto em outubro pela rinto de poder por trás da Repú- estápulverizadopelosistemapo- tir com os iranianos, ao lado dos lho de Segurança das Nações
socioeconômica – e agora políti- Agência Internacional de Ener- blicaIslâmica.Paratraduzir oso- lítico iraniano. turcos, o plano proposto em ou- Unidas a partir de junho.
ca – a chave para “arrancar” um gia Atômica (AIEA). nhado “protagonismo global” Alémdosmilitares,opresiden- tubro e definir zonas que perma- E o que é ainda pior: as pontes
acordo do governo iraniano. em um acordo nuclear concreto, te Mahmoud Ahmadinejad, o lí- neciam sombrias da proposta. com os “emergentes” e o “mun-
“Foiumanegociação respeito- Público interno. Já os emergen- a delegação brasileira viveu na der supremo iraniano, o aiatolá Exigências das potências fo- do islâmico”, que o Financial Ti-
sa entre países em desenvolvi- tes Brasil e Turquia tiveram pele a dificuldade do diálogo Ali Khamenei, e o Parlamento ram levadas em conta, admite o mes viu no Brasil e na Turquia,
mento, que compreendem os “maior capacidade de persua- com o Irã de que tanto falam têm voz sobre a questão e não há Itamaraty. A principal delas foi a não impediram a Casa Branca de
problemas uns dos outros”, dis- são” e acabaram provando ser americanos e europeus. umaorganizaçãohierárquicacla- reclamação americana da mu- anunciar que os votos necessá-
se,satisfeito,oministrodasRela- “maiseficazes”namesa denego- “É muito cacique para pouco ra,comonasburocraciasociden- dança constante de discurso por rios para aprovar uma quarta ro-
ções Exteriores, Celso Amorim, ciação, de acordo com o chance- índio”,resumiu uma importante tais. parte dos iranianos. Para sanar o dadadesanções contrao progra-
momentos após a assinatura do ler brasileiro. figura da delegação brasileira, ao “E olha que eles vendem tape- problema, o acordo prevê que a ma nuclear iraniano já foram an-
acordo, na segunda-feira. O cientista político Hossein tentar explicar a jornalistas tes há milhares de anos”, lem- posição de Teerã seja submeti- gariados.
O chanceler alfinetou o grupo Seifzadeh, da Universidade de quem eram exatamente os inter- brou um diplomata, explicando da, por escrito, à AIEA.
formado pelos cinco membros Teerã,temoutraexplicação.“Pa- locutores iranianos na barganha as dificuldades que brasileiros
permanentesdo ConselhodeSe- ra o governo iraniano, é mais fá- encontraram para negociar. Resistência americana. A me- Mais informações
gurança da ONU (EUA, Rússia, cil vender internamente uma O governo brasileiro também dida,porém,nãoconvenceuogo- sobre o Irã
China, Grã-Bretanha e França) e proposta feita por Lula e pelo deixou claro, em Teerã, que não verno Barack Obama. Os EUA Caderno Aliás
a Alemanha, que falam “exclusi- (primeiro-ministro turco, Re- atuava como mediador entre o acusam o regime dos aiatolás de

PONTOS-CHAVE

● Ofensiva ● Reação ● Insistência ● Revelação


Comitiva brasileira chegou a No dia seguinte, EUA elogia- Brasil reafirma acordo com Carta enviada a Lula por Barack
Teerã na terça-feira para ram empenho brasileiro, Teerã e Turquia diz que pres- Obama, 15 dias antes da viagem
assinar acordo sobre o envio de mas disseram ter apoio dos são americana apresenta ao a Teerã, revela que o presidente
urânio enriquecido do Irã para membros permanentes do mundo o dilema de acreditar americano apoiava, até então, o
a Turquia, sob ceticismo da CS para seguir em frente na supremacia da lei ou na texto do acordo que foi assinado
comunidade internacional com as sanções ao Irã lei dos mais fortes entre Brasil, Turquia e Irã

✽ No entanto, o governo americano tem poucas cia.“Não acho quealguémacredite queessassan- Apesar de tudo isso, o Irã fez avanços substan-
Análise: Robert Burns opções.Seaúltimarodadanão funcionar,asesco- ções em particular farão o Irã desistir de seu pro- ciais em seu programa nuclear, partes do qual
lhas poderão se estreitar – ir à guerra ou aprender gramanuclear”,disseSharon Squassoni, especia- aindacorreemsegredo.OgeneralJamesCartwri-
a conviver com um Irã nuclear. O problema está lista em proliferação nuclear do Centro de Estu- ght, vice-comandante do Estado-Maior Conjun-
Sanções da ONU no cerne de uma das mais altas prioridades de dos Estratégicos Internacionais. to,disseaoCongresso, nomêspassado, quequan-
política externa de Obama: barrar a proliferação As sanções, porém, podem tornar a vida mais do o Irã decidir construir sua primeira bomba, ele
provavelmente não de armas nucleares. difícil–tecnicamente,financeiramenteepolitica- poderia acumular urânio enriquecido suficiente
Autoridades americanas acreditam que se o Irã mente – para o Irã. “As sanções estão saindo caro para fazê-lo em até 12 meses.
deterão os iranianos se tornar nuclear, outros países no Oriente Mé- e isso entra nos cálculos que os iranianos estão A nova resolução de sanções da ONU, propos-
dio se sentirão compelidos a trilhar o mesmo ca- fazendo sobre o futuro de seu programa nu- ta na terça-feira, é claramente mais dura que suas

A
s novas penalidades propostas na ONU minho, entre eles Turquia, Egito e, possivelmen- clear”, disse Squassoni. predecessoras,emboraaspenalidades ainda pos-
contra o Irã estão muito aquém do que te, Arábia Saudita. O conjunto inicial de sanções da ONU contra o sam ser atenuadas durante as deliberações com
seria necessário para efetivamente pre- Oesboço deresolução desanções da ONU,que Irã teve como base uma resolução aprovada pelo os 15 membros do Conselho de Segurança.
judicaroprogramanucleardopaís.Mes- EUA, Rússia e China apresentaram na terça-fei- Conselho de Segurança em dezembro de 2006. Entre outras punições, a nova proposta obriga-
mo ataques militares poderiam apenas atrasar as ra, vai além de conjuntos de penalidades anterio- Ela pedia que os países membros tomassem as ria os países a proibir o suprimento de combustí-
ambições nucleares do Irã. Em última análise, o res contra o Irã, com medidas mais duras para “medidas necessárias” para impedir o forneci- vel ou serviços a embarcações pertencentes ou
único país capaz de parar o Irã é o Irã. Sabendo reduzir suas atividades militares, financeiras e de mento, venda ou transferência – por terra, mar contratadas pelos iranianos suspeitas de carre-
disso, o governo dos EUA calcula que vale a pena transporte marítimo. O Irã, porém, tem uma his- ou ar – de todos os materiais, equipamentos, gar cargas proibidas. As embarcações só pode-
tentarapressão econômica.As autoridadesespe- tória de se adaptar às pressões de fora. bens e tecnologia que pudessem contribuir para riam ser abordadas e inspecionadas se o Estado
ram que um aumento suficiente dessa pressão “As sanções em si não farão o truque”, disse as atividades nucleares do Irã. Resoluções poste- sobcujabandeiraaembarcaçãonavegaconcorda-
poderá convencer o Irã de que os benefícios da Alireza Nader, especialista em Irã do centro de riores da ONU, em março de 2007 e março de rem. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK
bomba não valem seus custos. Mas, nas três roda- pesquisas Rand Corp. Ele acredita que os clérigos 2008,fizeram pedidos similares, repetindo asco-
das anteriores de sanções, o Irã mostrou que não governantes iranianos veem sua busca de uma branças de que o Irã fosse transparente sobre seu ✽
se importa em ser um pária internacional. arma nuclear como uma questão de sobrevivên- programa nuclear. É ANALISTA DA ‘ASSOCIATED PRESS’