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6 A legitimidade da escraviza~ao e o ideal do servo cristao:

dúvidas morais e racionaliza~oes

Urna vez discutidos certos conflitos de interesse que, possivelmente, contribuí- ram para o pensamento antiescravocrata, podemos agora voltar ao campo da ética prática, e perguntar como a escravidao americana foi conciliada,de fato, com os valores legais e morais da civiliza¡;ao crism. Como vimos nos capítulos 3 e 4, os juristas e teólogos contavam com urna longa tradi'iao de justificar a servi- dao humana; todavía, houve urna tensao contínua entre os ideais crismos e os da escravidao. Em que medida essa tensao foi agravada, entao, pela característica violenta e brutal da servidao no Novo Mundo? Na época da conquista da América, o ponto de vista crismo da escravidao conciliava urna série de dualismos equilibrados. A escravidao era contrária ao rei- no ideal da natureza, mas era urna parte necessária do mundo do pecado; o cativo era internamente livre e espiritualmente igual a seu senhor, mas externamente era urna mera propriedade; os crismos eram irmaos, fossem escravos ou livres, mas os pagaos, de certa maneira, mereciam ser escravos. Havia urna outra divisao no pen- samento entre, de um lado, a problemática questao da origem e da legitimidade de , um poder do proprietário de escravo e, por outro, o. ideal do servo em urna famí- lía crism, em que urna igualdade espiritual harmonizava-se com urna obediencia e .autoridade externa para propiciar um modelo da rela¡;ao fraternal entre desiguais. Urna servidao amigável, com origem talvez em urna servidao benigna, poderia facilmente ser dissociada do ato violento de escraviza~o.Juristas e teólogos con- tinuavam a apoiar a teoria abstrata de escravizar prisioneiros de guerra, mas con- denavam universalmente o crÍlne de apropria~o do homem. Tomar um homem escravo envolvía sempre a possibilidade de pecado, especialmente se o ato pareces- se quebrar a ordem e o equilíbrío da natureza; mas manter um escravo era exerCÍ- tar um regulamento que era parte da estrutura govemante do mundo. Um bom exemplo desse acordo pode ser visto na edi'iao revisada do popula- rÍssimo De inventoribus rerum, dePolydore Vergil, publicado em 1521. Poly-

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PROBLEMA DA ESCRAVIDAO

NA CULTURA OCIDENTAL

dore des.creveu, aprovando-o, um costume ingles que deu reconhecimento sim- bólico a igualdade subjacente dos homens, e que lembrava a prática romana na saturnal: na época de Natal, tradicionalmente, elegia-se um servo para presidir temporariamente uma família inteira. Mas o nome servus, dizia ele, significava algo muíto diferente quando os homens eram escravizados na guerra. "Pela gra- ~a de Deus", ele concluí, somos agora quase todos irmaos em Cristo e cidadaos do reino de Deus. Enquanto tivermos servos [ministros) em nossas casas, eles nao deverao ser chamados escravos [servil. Muito menos os escravos devem ser apropriados, embora muitos desavergonhadamente fa~m isso."! Polydore que- ria dissociar a servidao crista da escravidao bárbara da Antigüidade; mas, em 1521, Hernándo Cortés estavaconquistando e escravizando os astecas no Méxi-

co, e Bartolomé de Las Casas tentava estabelecer urna colonia utópica em Cuma- ná, onde índios e europeus podiam viver juntos harmoniosamente. Portanto, a questao crucial era se a escraviza~aode homens de ra~asdiferentes, em urna ter- ra selvagem e distante, podia ser feíta de acordo com o ideal cristáo de urna famí- lia, onde as desigualdades humanas fossem, urna vez, sustentadas e desapareces- sem gradualmente em um santificado crisol de amor. Neste capítulo, trataremos da aplica~ao desses dualismos tradicionais nos novos problemas da escravidáo americana. Veremos que diferentes condi~oesna África e na América favoreceram um duplo padráo para julgar a escraviza~aode negros e de índios; e que ao mesmo tempo que um pequeno número de escrito- J res católicos questionou a legitímidade da setvidao do negro, sua aceita~áodas hipóteses e valores tradicionais estreitava o alcance de sua crítica, e impedía que

qualquer esfor~o coletivo

veremos que protestantes e católicos compartilharam muitas hipóteses em suas tentativas de tornar a servidao americana compatível com os ideais cristaos, mas que os protestantes encontraram grandes dificuldades para conciliar a subordi-

na~aoexterna com suas n~oes difundidas de liberdade religiosa. Descobriremos também que o fracasso dos protestantes para imbuir de princípios cristaos a ser- vidáo dos negros provocou grandes tensoesinternas no equilíbrio de valores que, durante muito tempo, sancionou a escravidao do homem.

erradicasse a institui~o. Entáo, no capítulo seguinte,

erradicasse a institui~o. Entáo, no capítulo seguinte, 1 Polydore Vergil, De intlentoribus Terum (Paris, 1528),

1 Polydore Vergil, De intlentoribus Terum (Paris, 1528), lib. v, cap. 2 (pp. lvi-lvii). A data da primeira edi~iiorevisada foi 1521. Devo a Denys Hay, daUniversidade de Edimburgo, a indica~o dessa passagem, que tao bem ilustra as ambigüidades em torno da palavra servus, que, como vimos, tem sido usada para "servo" e "viliio".

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A

LEGITlMIDADE

DA

ESCRAVIZAt;AO

E

O

IDEAL

DO

SERVO

CRISTAO

Os dualismos equilibrados dos quais falamos foram severamente colocados em questao pela escravizalrao dos índios americanos. mencionamos a tendencia de exploradores e missionários a ver no Novo Mundo o antigo ideal da natureza nao- corrompida, que podia ser usado como padrao para julgar os hábitos e os costu- mes da Europa. Seja retratado como um estóico abnegado, certo da verdade e nao perturbado pelos desejos fúteis e com as coisas supérfluas, ou como um epicuris- ta, contente com a abundancia auspiciosa de um Éden tropical, o nativo america- no parecia desfrutar da inocencia e felicidade de urna era anterior a queda do homem. Ele representava ao mesmo tempo o simples e o exótico, os costumes bizarros e a virtude universal. Era atraído pelo profundo desejo de retiro e repou-

so, e pelo desejo de urna vida sensitiva livre de roupas, leis e convenlróes. Sobretu- do, esse homem primitivo era considerado livre das diferenlras de hierarquia e riqueza, e da avareza que levou os europeus a declararem o ouro e as terras como suas propriedades privadas. 2 Se a escravidao era compatível com a sociedade pecadora e jamais poderia atingir a liberdade interna da alma do homem, como se poderia escravizar legitimamente esses filhos do paraíso de quem a vida externa parecia ser a expressao espontariea da natureza pura do homem? Na realidade, obviamente, o índio americano sentia~se longe de sua imagem idealizada, e mesmo os mais fervorosos missionários pararam longe de Rousseau. A escravidao doméstica era quase universal entre aqueles homeos supostamente livres, das regióes desertas, que vendiam cativos para outros e, eventualmente, para os europeus; e os freis dominicanos, que foram lembrados pelos índios de Virgílio e Horácio, ou da simplicidade da Igreja primitiva, nao se esqueceriam de que a vida selvagem mais filosófica era urna vida paga na escuridao espiritual.3

No entanto, converter o homem natural a fé crista nao

necessariamente requería

o homem natural a fé crista nao necessariamente requería 2' Gilbert Chinard, L' Amérique et le

2' Gilbert Chinard, L'Amérique et le reve exotique dans la littérature franf'lise au XVII

siecle (Paris, 1913), pp. v-vii, 1-20; Maren-Sofie Rostvig, The Happy Man: Studies in

the Metamorphoses ofa ClassicalIdeal, 1600-1700 (Oslo, 1954),pp. 41-47, 71,174; Hoxie Neale Fairchild, The Noble Savage; a Study in Romantic Naturalism (Nova

York, 1928), pp. 1-35. 3 Para uma prova substancial sobre a escravidáo entre tribos de índios americanos,

ver Almon W. Lauber, Indian Slavery in Colonial Times within the Present Limits of

the United $tates (Nova York, 1913), pp. 25-46. Embora a servidao dos indios fos- se, freqüentemente, de natureza doméstica e moderada, os escravos eram emprega- dos na minera~áo, na pesca e na agricultura e, as vezes, submetidos a uma grande

u

t'KUt!LtMA

DA

¡;~CRAVIDAO N.A CULTURA

OCIOENTA,L

sua escravizac;:ao. Em 1511, Antonio de Montesinos fez um caloroso sermáo, em Hispaniola, em que denunciou a escravizac;:áo de índios como um pecado severo. Sua linguagem foi quase tao veemente quanto a dQs abolicionistas posteriores, e foi repreendido por sua indiscric;:ao pelo dominicano superior, na Espanha.Com um espírito mais calmo, o teólogo Matías de Paz argumentou que os índiosnao poderiam ser dassificados nem como os escravos naturais de Aristótele.s nem como os judeus e sarracenos, que haviam sido postos diante da verdadeirá fé e a tinham rejeitado. Mas, em 1510, JohnMajor concluiu que o nativo americano nao correspondia a definic;:áo de Aristóteles do escravo natural; e muitos soldados e administradores estavam convencidos de que somente a coerc;:ao poderia prote- ger o selvagem de sua preguic;:a e gula nativa. Assim, o índioamericano, como observou Antonello Gerbi, colocou a Europa diante de um problema radicalmen-

te novo; ele nao correspondia as antíteses tradicionais entre cristao e pagao,

homemlivre e escravo, e homem e animal. 4 Para um pOVQ que valorizava as dis- ciplinas necessárias ariqueza e ao poder, ele parecia uma imitac;:áo grotesca e des- prezível da natureza humana; mas, para um pOYO cujo impulso acivilizac;:áo era

equilibrado por um desejo do simples e espontáneo, ele também parecía o nobre vestígio de uma idade de ouroperdida, quando as ac;:oes e os ideais dos homens nao se encontravam separados pela sombra do pecado. Antes de 15·14, Bartolomé de Las Casas havia explorado escravos índios em

suas tetras, em Hispaniola, mas naquele ano passou por uma daquelas crises de consciencia tao indecifráveis e, no entanto, tao comuns na história da religiao.

A vida de muitos futuros abolicionistas seria transformada por uma re~olta

seI'Ilelhante do espírito e uma mudanc;:a de visao. Desde entao, a vida religiosa

de Las Casas teria novo significado e direc;:ao por meio de sua cruzada para pro-

teger o nativo americano da setvidao e da exterminac;:áo. Como alternativaao severo sistema de encomienda) que dava, aos encomenderos espanhóis, direitos

.

.

/

de

trabalho e de produc;:ao em aldeias inteiras de írtdios, sugeriu que os índios e

os

europeus se fixassem em comunidades-modelo que dariam a base para uma

cristianizac;:ao pacífica do Novo Mundo. Se a civilizac;:ao crista nao conseguisse

do Novo Mundo. Se a civilizac;:ao crista nao conseguisse crueldade. Ocasionalmente, seus senhores cortavam-Ihes um

crueldade. Ocasionalmente, seus senhores cortavam-Ihes um tornozelo para evitarem fugas. 4 Lewis Hanke, The Spanish Strugg/e for Justice in the Conquest of America (Filadélfia, 1949), pp. 11-iS, 28; Hanke, Aristotle ami the American Indian: A Study in .Hace Prejudice in the Modern World (Chicago, 1959), p. 14; Lauber, Indian S/avery, pp: 4S-56; Antonello Gerbi, La disputa del Nuovo Mondo: storia di una po/emica, 17.50~1900(MWio, 1955), pp. 77-S5.

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A lEGITlMIDADE. DA

ESCRAVIZAC;:ÁO

E O IDEAL

DO

SERVO

CRISTAO

estabelecer esses pontos de contato harmoniosos com a natureza americana, fracassaria em seu teste supremo. Las Casas nao teve exito em seus esfor~os para implantar urna colonia ut~pica na costa da América do Sul, mas conse- guiu, ínais tarde, em seu Very Brief Account of the Destruction oftbe Indies, fornecer a Europa urna imagem duradoura da crueldade espanhola e da viola- ~ao da América inocente. 5 Masenquanto isso o próprio Las Casas envolveu-se nas ambigüidades da conquistada América. Junto com seu plano original de comunidades cristas- modelo, recomendou que o trabalho for~ado nas minas fosse destinado aos escravos negros, que podiam tolerar condi~oesrigorosas como aquelas melhor que os índios. Um pouco antes do ano de 1518, fez sua famosa proposta a coroa espanholade substituir os trabalhadores índios pelos negros comprados na Ibéria. 6 Em sua Historia de las Indias, que nao foi publicada durante mais de trezentos anos, Las Casas disse que "muito tempo depois" descobriu que a escraviza~ao dos negros era, aparentemente, tao injusta quanto a dos indios; e confessou que nao estava certo de que suaignorancia e boas inten~oes de li- bertar os índios o perdoariam antes do julgamento da justi~adivina.? Mas por

s Hanke, Spanish Struggle for ]ustice, pp. 21, 54; Hanke, Bartolomé de las Casas: An

1951), pp. 56-57; Hanke, Bartolomé de

Interpretation of his Life and Writings (Raía,

Las Casas, Historian; an Essay in Spanish Historiography (Gainesville, Fla., 1952), p.4.

6 Hanke, Spanish Struggle for ]ustice, 60. Os abolicionistas e outros form influencia- dos pela ímagem de Las Casas na famosa History of America, de William Robertson. De acordo com Robertson, Las Casas foi arrebatado por urn impetuoso entusiasmo, e sua proposta foi rejeitada pelo cardeal Ximenes, que disse que nao submeteria urna ra\;a aescravidáo com o objetivo de salvar outra ([Viena ed., 1787], 1, 289-314). José Antonio Saco, que vira o manuscrito de Historia, de Las Casas, enfatizou o arrependi- mento do dominicano; e argumentou que o julgamento de Robertson nao fora apro- priado, mas que o abade Grégoire errara tanto quanto ele, ao tentar mostrar que Las Casas nunca havia sido favorávelil introdu\;ao de esClavos negros (Saco, Historia de la

esclavitud desde los tiempos mas remotos hasta nuestros días [2~ed., Havana, 1936-

1945], IV, 94-111). Anhur Helps também salientou a importancia do arrependimento de Las Casas, e rejeitou a imagem de Ximenes, por parte de Robertson, que, de acordo com Helps, estava interessado somente em questóes de renda, autoriza\;ao e oferta de

(HelpS, The Spanish Conquest in America, and itsRelation to

trabalhador doméstico

the History ofSlavery and to the Government ofColonies [oo. rev., Londres, 1900], I~

349-350; I1I, 153). Cabe mencionar que um grupo de padres da Ordem de Sao Jerónimo também fez peti\;ao de escravos negros aEspanha. 7 Bartolomé de Las Casas, Historia de las Indias (edilriio de Agustín Millares Calo e estudo preliminar de Lewis Hanke) (México, D.F., 1951), m, 274-275. Las Casas pediu a seus irmaos dominicanos para nao publicarem·o trabalho, pelo menos até quarenta anos depois de sua morte.

o PR08LEM'ADA ESCRAVIDÁO ,NA CULTURA OCIDENTAL

trásdesse breve reconhecimento de culpa, nao havia índicaC;ao alguma de que o "protetor dos índios" cOÍldenassepublicamente a escravízac;ao dos negros ou advogasse sua emancipac;ao. Aparentemente, ele próprio possuiu escravos até 1544. 8 As diferentes políticas dos governos, da Espanha e de :Portugal' revelavam um duplo padrao semelhante emrelac;ao aos índios e negros, que, emparte,

derivavada tendenciatradicional a associar os africanos aos mouros e, portan- to, ainfidelidade ameac;adora. Mesmo quando os negros nao haviam sido con- taminadospelo islamismo, erám do Velho Mundo, o mundo da Antigüidade.e

ficara exposto durante muitos séculos a palavrá de

Deus. Mas quando oS explotádores e conquistadores espanhóis escrávizavam milhares de índios desamparados, era difícil justificar isso pela verdadeira fé. Por isso, em 1537, o papa Paulo mdeclarou que os sacramentos deveriaÍn ser recusados a qualquer colonizador que os privasse de sua liberdade natural, desprezando a verdadé segundo a qual os índios eram seres racionais capazés de ser cristaos. 9 Em várias ocasiOes, os legisladores da Espanha e de Portugal proibiram a escravizac;áo de nativos americanos, mesmo em uma guerrasupos- tamente legítima. Em 1542, as Nuevas Leyes de las Indias reguhimentaram que os proprietários que' nao· tivesse.m prava de título legítimo deverhlm libertar seus escravos índios. ' Os proprietários de escravos nuncaconsideraram a interferencia moralista de maneira afável, eessas leis e decretos provocaram insurreic;Oes caloniais na Nova Espanha, no,Peru e na Nóva Granada. Em diversas ocasiOes, colonizadores brasi- leíros expulsaram os jesuítas devido,as suas atividades em favor dos trabalhado- 'res indígenas e, em 1652,'os habitantes do Maranhao reVoltaram:'se quando um governador ch~ou com ordens do reí de Portugal para emancipar escrayos indí- genas. Paulo da Silva Nuries, que representava o Maranhao emLisboa, noinício do século xvm, argumentou que os índios mais pareciam animais do que seres humanos; cOÍlstrüindo'uma defesa da escravidao coni basé em fontes bíblicas e

dássicas, sugeriu ainda a possibilidade de que os índios carregassem a 'praga de Caim. Esses pontos de vista eiam comuns entre colonizadores proprietários de escravos em toda a América Latina, onde uma política humana para os índios

da Bíblia, que, no mínimo,

humana para os índios da Bíblia, que, no mínimo, 8 Hanke, Aristotle and tbe Indían, p.

8 Hanke, Aristotle and tbe Indían, p. 9. Talvez seja significativo que Las Casastenha

56.

dado muito poucaa~en~oaos negros na Historia de las Indias.

9 C. H. Haring, The Spanish Empire in America (Nova York, 1947), pp. 55

De-

vido a urna disputa jurídica coma coroa espanhola, o papa revogou as penalidades no ano seguinte.

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A LEGITlMIDADE

DA

ESCRAVIZAC;AO

E O IDEAL

DO SERVO

CRIS:rAO

continuava a ser corrompida por uma resistencia obstinada, disputas jurídicas e umareconhecida necessidade de trabalho fQr~ado.lO· Mas apesar das crueldades do sistema de encomienda, apesardas incursOes escravagistas pelo interior, da separa~ode famílias, e da terrível mortalidade nas minas; as autoridades espanholas e portuguesas tiveram exitp na liberta~áode milhares de escravosindígenas e no impedimento da escraviz~áode outros milha- . res, Por um períod()de mais de tres séculos, um amplo corpo de legisla~áofoi cria- dQ pa~aisolar e proteger os americanos nativos das for~ase"Ploradoras de colo- niza~o~ Infelizmente, a redu~o gradual dá.escravidáo deíndios simplesmente . cqntribuiu para o crescimento da demanda de negros que, freqüentemente, eram -considerados uma mala -raza, e que náo eram protegidos por urna grande rede de dei::re:tos e leis imperiais. Alguns dos principais advqgados dos índios, como o bis- po Landa, do México, eram os mais fortes defensores daescl;'avidáo dos negros. Essa disCrit:nina~áo entre as duas ra~s de cor levou quase naturalmente a. uma_ visao de que os negros -haviam nascido para ser escravos e eram ~nerentemente infer-iores tanto aos índios quanto aos brancos. Em 1771, por exemplo, o vice-rei dq13rasil ordenou a degrada~¡¡ode um chefe indígena que "se rebaixar¿ muito por se casar com· uma negra, manchando seu sangue coro essa alian~a".l1 É significativo que o primeiro grande debate sobre a legitimidade da escravi- dao americana teriha sido centrado quase exclusivamente na natureza do índio,

lbid.,pp. 53-57; Robert Southey, History of Brazil (Lonckes, 1817-1822), II, 453- 455; C. R. Boxer, Race Relations in the Portuguese Empire. 1415-1825 (Oxford, 1963), pp. 87, 93~95-102.

Jaime JaramílÍo Uribe; "Esclavos y señores en la sociedad colombiana del siglo XVIII", Anuario colombiano de historia social y de la cultura, 1 (Bogotá, 1963),21; Maurflio de Gouveia, História da escraVidao (Rio de Janeiro, 1955), pp. 53-56, 90, 63, 68; Magnus Momer, "The Theory and Practice of Racial Segregation in Colonial . Spanish America», Proceedings of the. Thirty-Second lnternational Congress of Americanists (Copenhague, 1958), pp. 708-713; Hubert Herring, A Hístory of Latín -America from the Beginnings to the Present (Nova York,1955), pp. 190-191; Háring, Spanish Empire, pp. 57-58; Helps, Spanish Conquest,ill, 87; N, 241-248;-

Oriol Pi-Sunyer, "Historical Background to the Negro in Mexico",Jo~rnalof Negro History, XLII (Out., 1957),240; Raúl Carrancá y Trujillo, "El estatuto jurídico de los escravos en las postrimerías de la colonización española", Revista de historia de América (México, D.F.), N? 3 (Set., 1938); 22-24; BOlcer, Racé .Relations, p. 121. É :intetessante observar que enquanto os negros livres e mulatos éram, freqüentemente, proibidos de teremservos indios, como no México coloQial, algumastribos indígenas que naonaviam sido anteriormente proprietáriasde escrávos, 'como os creeks; com~ pravam négros dos brancos (H. J. Nieboer, Slavery as an lndustri'ar System [Haía,

.

1900], pp: 45, 70-71).

o PROBLEMA DA ESCRAVIDÁO NA CULTURA OCIDENTAL

embora, em 1550, quando Las Casas e Sepúlveda iniciaram sua importante con- trovérsia em Valladolid, a escravidao dos negros estivesse bem estabelecida no Novo Mundo. No entanto, há alguns paralelos interessantesentre os debates em Valladolid e os debates sobre o tráfico de escravos no Parlamento bridlnico uns duzentos e quarenta anos depois. Exatamente como os abolicionistas ingleses resolveram atacar mais as fontes do sistema escravocrata do que o próprio siste- ma, Las Casas, tendo tido exito em suas tentativas de abolir o sistema de enco- mienda, lan~ou uma campanha para acabar coro as guerras brutais que abaste- ciam os colonizadores espanhóis com escravos indígenas. Aqui, ele encontrou a oposi~aodo sábio Sepúlveda, que escreveu um tratado, aben~oadopelo presiden-

te do Conselho das fndias, defendendo a justi~a dessas

guerras. Se os últimos

defensores do tráfico de escravos invocavam os principios do mercantilismo e das teorias climáticas de Montesquieu, Sepúlveda opunha o fervor religioso ao humanisrno erudito do Renascimento. Na década de 1790, os proponentes do tráfico de escravos procuravam relacionar a causa da aboli~ao as heresias da Fran~ revolucionária; em Valladolid, Sepúlveda retratou urn debate imaginário entre democratas prudentes e urn alemao desatinado, Leopoldo, cujos pontos de vista em favor dos índios estavam contaminados com os erros luteranos. Além disso, os principais argumentos de Sepúlveda seriam usados, mais tarde, para jus- tificar o tráfico de escravos. Explorando a tradicional rela~ao entre pecado e escravidao, sustentava que os índios eram culpados pela idolatría e pelos pecados contra a natureza e, conseqüentemente, mereciam ser escravos. Ao contrário dos esclarecidos espanhóis, suas mentes eram bárbaras e obscurecidas,pelas ignóbeis supersti~oes;em resumo, eram seres inferiores que correspondiam a defini~aodo • escravo natural estabelecida por Aristóteles. Sua escraviza~ao promoveria a expansao do cristianismo e também protegeria os fracos de serem assassinados ou devorados pelos fones. u Por incrível que pare~a,Las Casas aceitava o ponto de vista aristotélico de que alguns homens eram escravos por natureza. Mas para Las Casas, a diferen- ~a entre homens naturais e hornens civilizados nao sugeria urna necessidade de repressao e disciplina severas. Ele argumentouque os Jndíos eram iguais aos europeus primitivos da Antigüidade, e que, portanto, podiam ser considerados matéria-prima para uma civiliza~aocrista. Em sua fé nas potencialidades de todos os· seres racionais e em sua afronta moral a urna viola~ao brutal da liber-

12 Hanke, Spanish Struggle fo.,. Justice, pp. 109-124; Hanke, Aristotle and the Indian, pp. 12-73; Gerbi, Disputa del Nuovo Mondo, pp. 77-79.

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I

A LEGITIMIDADE

DA ESCRAVIZAC;AO

E O IDEAL

DO

SERVO

CRISTAo

dade e dignidade humanas, Las Casas abriu o caminho para os abolicionistas

posteriores. 13 Todavía, sua visao

entre a Europa e a América, entre a cíviliza~aoe a natureza inocente. Essa dialé-

tica deixou de fora o terceiro elemento essencial que o pr6prio Las Casas ajuda- raa introduzir.

moral baseava-se em um dualismo assumido

111

MesmoLas Casas nao conseguiu competir com Jean-BaptisteDu Tertre, um confrade dominicano do século XVII, ao celebrar as virtudes naturais do índio. Como um missionário com muitos anos de experiencia no Caribe frances, Du Tertre tinha conhecimento detalhado dos costumes e das supersti~oesaborígines, que, as vezes, considerava produtos do pecado ou, no mínimo, da ignorancia religiosa. Foi também muito franco ao admitir que os missionários franceses haviam fracassado, desastrosamente, em seus esfor~ospara·cristianizar o gentio americano.1 4 No entanto, ele se empenhou para inverter a imagem tradicional- mente sugerida pela palavra sauvage. Os tr6picos americanos nao eram um deserto estéril habitado por criaturas bárbaras que nao usavam da razao e'nao tínham sensibilidade moral. Em uma notável passagem, exclamou:

Portanto, urna vez que demonstrei que o ar na zona tórrida é mais puro, mais saudável e o mais temperado de todos, e que aterra é uma espécie de miniatura do Paraíso, sempre verde e banhada pelos mais puros riachos, devo demonstrar, neste tratado, que os nativos dessas ilhas sao os mais contentes, os mais felizes, os menos corruptos, os mais sociáveis, os menos falsos, os mais saudáveis de todos os povos do mundo.

pp. 123-126.

13 Hanke, Aristotle and tbe Indian, pp. 56-59; Hanke, Spanisb Struggle for Justice,

14 Jean-Baptiste Du Tmre, Histoire générale des Antilles babitées par les FranfOÍ$

1671),

(Paris, 1667 JI, 364-419, 501. Du Tertre foí pela primeira vez as Indias

Ocidentais em 1640, e a primeira edi~aode seu trabalho foí publicada em 1654. É curioso que seu entusiamo pelos indios e suaindiferen~a em rela~lio ao negro nao tenham mudado, urna vez que ele e seus companheiros missionários declararam ter convertido uns 15 mil escravos negros, mas apenas cerca de 20 indios, em um perio- do de trinta e cinco anos.

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o

PROBLEMA

DA

ESCRAVIDAo

NA

CULTURA OCIDENTAL

Além disso, preCisamente porque os Índios eram frutos de urna natureza nao-cultivada, "todos sao iguais, dificilmente com qualquer tipo desuperiorida- de"ou de servidao conheCidas; e é difíCil encontrar alguma forma de deferenCia como a que existe entre os patentes, porexemplo, entre pai e filho. Ninguém é

mais rico ou mais pobre

Mas esse par.aíso logo decaiu, quando entrou em contato com a gananCia e o estratagema dos europeus. Bem no iníCio de 1636, Gabriel Sagard retratou a cor-

muitos jesuítas

rup~ao do nobre selvagem no Canadá, e o tema foi explorado por

que seu vizinho" .15

e jansenistas, em parte como um meio de angariar suporte financeiro para suas missóes, que, supostamente, protegeriam a inocenCia dos índios, refor~ando~a com o cristianismo. Todavia, de acordocom o barao de Lahontan, os padres e sua religiao também contaminavam o homem natural; os europeus eram escravos dos costumes e preconceitos irraCionais, enquanto, ao contrário, o selvagem ame-

ricano havia sido verdadeiramente livre. 16 Mas se os índios representavam, ao mesmo tempo, urna vítima e um ideal, o que aconteceu com o negro? Du Tertre resumiu a diferen~a,quaIl,do repetiu, apa- rentemente aprovando-o,um provérbio das indias Ocidentais francesas: "Olhar

com suspeita para um índio é bater nele; bater nele é matá-Io; bater em um negro

alimentá-Io. "17 A admira~ao e simpatia do dominicano pelo nobre selvagem nao se estendiam ao negro, que ele via com aquela curiosa mistura de atitudes inconsistentes que iriam se tornar tao características dos proprietários de escra- vos americanos. 18 Admitia que muitos escravos negros haviam sido capturados na guerra e que algumas pessoas, inclusive prínCipes e rainhas, haviam sido seqüestradas ou injustamente aprisionadas. Todavia, observou, sem protestar ou declarar seu próprio ponto de vista, que os negros nas indias OCidentais cor- respondiam a defini~ao de Aristóteles do escravo como instrumento de seu senhor; que eles eram tratados como animais, como se a negritude de suas peles

tratados como animais, como se a negritude de suas peles 15 lbid., 11, 356-357. , 16

15 lbid., 11, 356-357.

,

16 Chinard, L'Amerique et le reve, pp. 119-186. Robert Beverley, primeiro historiador da Virgínia, achava que Lahontan tinha ido muito longe na idealiza~aodo nobre selva- gem, mas ele próprio bradava sobre a beleza e a moralidade dos índios, que eram cor- rompidos pelo contato com os europeus. Obviamente, ele considerava os índios muito superiores aos negros, de quem ele tinha pouco a dizer (The History and Present State of Virginia ledo por Louis B. Wright, Chapel Hill, 1947], pp. 159, 162-170,233); 17 Du Tertre, Histoire g"énérale, 11,490. 18 lbid., n, 483-498; Chinard, L'Amérique et le reve exotique, pp. 53-54. Diversas referencias em Du Tertre indicam que os missionários franceses eram proprietários de escravos negros.

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A LEGITIMIDADE

DA

ESCRAVIZA~AO E O IDEAL DO SERVO CRISTAO

fosse uma marca de seu infortúnio; e que se o trabalho físico era a penalidade para a rebeHao do homem contra Deus, a forma mais severa dessa puni~aohavia sido infligida aos africanos. 19 Du Tertre nao disse qije os negros deveriam ser considerados meros instrumentos ou animais, ou que SeU pecado era proporcio- nal a seu sofrimento. Sobre esse assunto, pelo menos, ele adotou o manto do his- toriador objetivo, e anunciou que evitaria a questao intrincada da legalidade decisiva da escravidao. Todavia, ele queria defender a reputa~aodos colonizado- res, que haviam sido injustamente prejudicados pelos piedosos, mas ignorantes, homens que postularam que as leis que protegiam a liberdade humana, na Fran~a,poderiam ser aplicadas no mundo inteiro. 20 .Du Tertre garantiu a seus leitores que os escravos negros, quando bem ali-. mentados e gentilmente tratados, constituíam o POyO mais feliz do mundo. Charles de Rochefort, que também tinha estado nas indias Ocidentais, e que, Du Tertre acusou de plagiá-Io, acreditava que os negros preferiam um tipo de senhor europeu asua Iiberdade original na África. 21 Mas os índios, eles concordavam, nunca poderiam resignar-se aservidao e soberbamente recusavam-se a se relacio- nar, de alguma maneíra, com o negro. Ao contrário do africano condescenden- te, o selvagem americano era ativo para defender a honra de sua mulher; se nao fosse tratado com respeito, freqüentemente definhava e morria de melancolía profunda. Esses foram os elementos para os estereótipos posteriores do índio orgulhoso, amante da Iiberdade, e do negro humilde, que nasceu para a escravi- dao. Mas nem em Du Tertre nem em de Rochefort a oposi~ao é tao completa e tao livre de ambigüidades. Ambos enfatizaram a necessidade de controlar os negros com firmeza e rigorosa disciplina. Basicamente arrogante e indigno de confian~a,o africano exploraria a menor fraqueza ou tolerancia de seu senhor e, a nao ser que fosse mantido com a devida submissao, insurgir-se-ia em urna revolta armada. Severidade excessiva também poderia provocar insurrei~ao,mas somente o constante medo de puni~ao induziria os escravos a trabalharem no campo sob o sol quente. Portanto, o dualismo do índio e do africano correspon- día a urna imagem dividida da própria escravidao do negro. Tem-se a impressao

19

20

Du Terne, Histoire générale, 11, 493-495, 523~524.

Ibid., 11, 483. Os pontos de vista de Du Tertre foram traduzidos e publicados lite- ralmente, sem aprecia~iio,por.Thomas Jefferys (The Natural and Civil History 01 the French Dominions in North and South America [Londres, 1760), pp. 186-193). 21 Du Tertre, Histoire générale, I, peef.; n, 497; Charles de Rocheforc, Histoire naturel- le des l/es Antilles de I'Amérique (Lyon, 1667),11, 136. O segundo volume intitula-se Histoire morale des Iles Antilles de J'Amérique.

203

U

I'RO.IJLI:MA DA

I:SCRAVIDAO

NA CULTURA

OCIDENTAL

de que esses missionários tendiam a conceber o negro como urn servo natural, que somente poderia encontrar a verdadeira·felicidade na.lealdade eobediencia

a um senhor benevolente crismo. Mas o quadro que apresentavam era de medo,

brutalidade violenta e trabalho cansativo e duro em benefício de urna dasse cujo

único interesse era a

Apesar de urna difundida tendencia a diferenciar o negro do índio ea associar

o último a liberdade da natureza, a escravidao do negro era imposta, na realidade,

ao lado de urna escravidao indígena preexistente; pelo menos na América do Norte, as duas nunca divergiram cómo institui~óesdistintas. 23 No entanto, as circunstan- cias práticas da coloniza~áo proporcionaram ao índio urna certa prote~ao. Do Canadá a América do Sul, os colonizadores consideravam a escraviza~aodos selva- gens hostis urna coisa normal; mas sabiam que seu comércio e, as vezes, sua própria sobrevivencia dependiam de alian~scom tribos amigáveis. Durante a guerra de Pequoit e a guerra do rei Filipe, os novos ingleses

embarcaram índios capturados para Bermuda e para as indias Ocidentais, e em outras épocas usaram a mesma puni~ao como meiode disciplinar tribos vizi- nhas. Mas isso significa que os "índios devotos" e aqueles que colaboravam com os colonizadores, usualmente, estavam isentos do perigo de escraviza~ao.Poucos colonizadores, como John Eliot e Roger Williams, que estabeleceram estreitas rela~Oescom os nativos, tendiam a questionar a ciencia ou a justi~ada condena- ~ao, inclusive dos selvagens·hostis, a servidao perpétua. 24 Por outro lado, na

rápic4 acurnula~aode riqueza. 22

250-282).

eu me atrevo

22 Du Tertre, Hístoíre générale, 1, 500; n, 484-493, 497-499,524-525; de Rochefort, Histoire naturelle, n, 136-138. 23 Nenhuma distin~o entre as duas ra~asfoi feíta na maior parte da legisla~aocolo­ nial inicial relativa aos escravos, ou nos acordos intercoloniais para a volta dos fugiti- vos (George H. Moore, Notes on the History ofSlavery in Massachusetts [Nova York, 1866], pp. 15-41; Bernard C. Steiner, A History ofSlavery in Connecticut [Baltimore, 1893], pp. 9-10; Lauber, Indian Slavery, pp. 48-102; 105-117,211-216,222-229,

24 Ulrich Bonnell Phillips,·American Negro Slavery: A SUTVey of the Supply, Em- ployement and Control of Negro Labor as Determíned by the Plantatíon Regime (ed. reimp., Gloucester, Mass., 1959), p. 101; Lauber, Indían Slavery, pp. 118- 152, 174-175, 197-202, 305; Moore, Notes onHistory of Slavery, pp~ 34-37; Collections of Massachúsetts Historical Society, 4~ sér., VI (Boston, 1863), 195- 196. Emboca Williams tenba sugerido a JohnWinthrop que a melhor política seria nao condenar, aescravidáo perpétua, os cativos capturados na guerra de Pequoit, escreveu tambémque uma vez que Deus ficara contente em dar a Winthrop "outro miserável rebanho da semente degenerada de Adao, e nossos irmaos por natureza,

a requerer a manuten~aoe a educa~aode um dos filhos". Em 1675,

204.

A LEGITIMIDADE

DA

ESCRAVIZAI;AO

E

O

IDEAL

DO SERVO

CRISTAO

Virgínia, Nathaniel Bacon atacou severamente a política dogoverIlador de Berkeley de proteger tribos amigáveis e, em 1676, o líder rebelde garantiu urna lei autorizando a escraviza~aode todos os índios capturados em guerra. Mas nao obstante o exito de Bacon em aumentar o 6dioracial e emsaquear e escravizar tribos amigáveis, os habitantes da Virgínia tendiam a fazer urna nítida distin~ao entre aliados internos e inímigos estra¡;tgeiros. 25 Todavía, para o comprador de negros, nao havia diferent;;a política entre os mandingas e os daomeanos. Removidos das fontes de escravidao africana, eram relacionados a origem tribal somente como indicat;;ao do provável caráter e da reSistencia. Enquanto os colonizadores norte-americanoscontinuaram a manter escra- vos indígenas durante todo o século XVllr, pelo menos, admitíam que a maioria dos índios era legitimamente Iivre e que todo escravo era um catívo legítimo ou descendente de um assim. Eles eram também alertados para os perigos de antagonizarem-se com tribos vizinhas ou de encherem suas comunidades com guerreiros inimigos que, facilmente, podiam fugir para as florestas da vizinhan- t;;a. Conseqüentemente, a legislat;;ao colonial, aos poucos, revelava uro duplo padrao em rela~ao aos índios e aos negros, análogo as dístínt;;oes feitas pela leí espanhola e por escritores como Las Casas e Du Tertre. Por motivos de conveniencia, um grande número de colonias proibiu intei- ramente a ímportat;;ao de escravos indígenas. De 1712 a 1714, isso foi feíto por Massachusetts, Connecticut e Rhode !sland, com o objetívode acabar COm o flu- xo de grande número de cativos capturados na guerra dos tuscarora, na Caroli- na. 26 Temendo que o carregamento dos navíos de escravos indígenas do conti- nente fosse feito em detrimento de outro comércio, a Jamaica sancionou urna lei, em 1741, que proibia todas as compras futuras de índios importados, e garantía

todas as compras futuras de índios importados, e garantía Eliot argumentou que a venda de índios

Eliot argumentou que a venda de índios para as Índias Ocidentais era "um co- mércio perigoso",que poderia prolongar a guerra e provocar um julgamento sobre aterra. 25 Wilcomb E. Washhurn, The Governor and the Rebel; a History of Bacon 's Rebellion in Virginia (Chapel Hill, 1957), pp. 38,58, 123; Wesley Frank Craven, The Southern Colonies in the Seventeenth Century, 1607-1689 (Baton Rouge, 1949), pp. 366, 368, 385; Helen T. Catterall (org.), Judicial Cases Concerning American Slavery and the Negro (Washington, 1926-1937),1,68-69. 26 Lauber, Indian Slavery, pp. 187-190. Em 1679,Nova York formulou urna distin~o legal entre índios nativos, que eram livres, e Índios estrangeirosimportados, que eriun escravos. Mas, em 1688, o Conselho detidiu libertar e enviar de volta todos os índios que eram súditos dorei da Espanha. Em 1746, Rhode !sland agiu de forma sémelhante (ibid., pp. 317-318).

205

o PROBLEMA DA ESCRAVIDAo NA CULTURA OCIDENTAL

a liberdade daqueles levados ilegalmente para a ilha. A lei nao afetava os índios que já se encontravam na colonia, mas é significativo que tenha sido feita urna tentativa de abolir o tráfico de escravos indígenas no momento em que os negros eram cada vez mais demandados. 27 Embora as colonias inglesas e francesas dessem o mesmo status legal aos escravos indígenas e negros, demonstraram urna tendencia acentuada, no século xvrn, a restringir a servidao dos índios de certas tribos. Na Carolina do Sul, a escravidao dos índios esteve estreitamente ligada ao comércio de peles ocidental; e, na luta com a Franc;;a e a Espanha para controlar o sudoeste, a instituic;;ao tornou-se urna arma importante para garantir alianc;;as e punir inimigos. Os comerciantes da Carolina nao tinham escrúpulos de comprar índios dos cou- reurs de bois* na boca do Mississippi, e de vende-los finalmente rias indias Ocidentais. Mas os proprietários da colónia sempre prometiam protec;;ao a seus aliados indígenas. E, após 1740, as cortes da Carolina do Sul sustentaram que a cor do índio, ao contrário da do negro, nao era prima facie evidencia de escravi- dao, urna vez que nao era possível presumir que qualquer índio ou seus ances- trais tivessem sido legitimamente capturados em guerra. A distinc;;ao parece ter sido resultado das demandas práticas do comércio e da diplomacia. 28 Os canadenses franceses adotaram urna política semelhante. A partir do final do século XVII, as colonias no vale de Saint Lawrence supriram urn mercado regular de escravos pawnees que eram capturados no Oeste por outros índios e depois vendidos para os franceses. Mas, por urna lei de 1709, todos os panis e os negros foram legalmente classificados como escravos e, em 1760, no Tratado de Montreal, a Inglaterra reconheceu formalmente a legitimidade da escravidao do

reconheceu formalmente a legitimidade da escravidao do 27 Frank Wesley Pitman, "Slavery on British West India

27 Frank Wesley Pitman, "Slavery on British West India Plantations in the Eighteenth Century",Journal ofNegro History, XI (Out., 1926),589. Ca¡;adores profissionais do norte dos Estados Unidos e do Canadá que comerciali- zavam peles. (N. da T.) 28 Lauber, Indian Slavery, pp. 168-175, 315. O código de escravos, de 1740, da

Carolina do Sul regulamentava que "todos os negros e índios (exceto os Índios livres em rela¡;aO harmonica com este governo, e negros, mulatos ou quaisquer mesti¡;os, que agora sao livres), mulatos ou quaisquer mesti¡;os que agora estao, ou doravante

serao e sao pelo pre-

sente declarados e permanecem para sempre, a partir de agora, escravos absolutos"

estarao nesta província, e todos os seus fi!hos e descendencia

(John Codman Hurd, The Law of Freedom and Bondage in the United States

[Boston, 1856-1862],1,303). Mas, ao mesmo tempo que essa lei dava o mesmo sta- tus aos escravos indígenas e aos negros, na prática os índios eram considerados em harmonia com o governo a nao ser que o contrário pudesse ser comprovado.

206

,.

,.

i

.,

,

A

LEGfTfMfDADE

DA

ESCRAVfZAC;AO

E

O

IDEAL

DO

SERVO

CRISTAo

negro e do pawnee no Canadá. 29 Se era surpreendente escolheruma tribo ociden- tal particular para escravizar, é ainda mais impressionante que os franceses cha- massem os pawnees de "os negros da América". Como os africanos, os pawnees chegaram de urna área tao distante que era.possívelignorar o modo e a justi~ade sua escraviza~o. E como o govemador La Jonquíere determinou, em rela~o ao

negros que fugíam das colonias britanicas para o Canadá, "tout negre est esclave,

quelque part qu'il se trouve"

vídao aqueles dois grupos, surgiu logo a questao sobre se outros índios poderiam, legitimamente, ser mantidos como escravos. Poi a decisiio de Luís XV, de que a questiio seria determinada de acordo com o uso estabelecido da colonia,que deu plenos direitos ao cidadiio francés de conveJ.'ter índios, com ex~ao dos desafor- tunados pawnées. Embora os índios de várias tribós ocidentáis fossemclassifica- dos, as vezes, como panis, o que justificava serem mantidos escravos, os coloniza- dores franceses nao desejavam arriscar rela~óescomerciais vitais com a escraviza- ~ao de índios do lago ou das regióes florestais. Eles capturaram ol/. compraram muitos esquimós, maS estes comprovaram ser escravos muito inferiores)1 As ambigüidades da servidao indígena evidenciaram-se, especialmente, na Virgínia. Uma lei, de 1670, fixou que "todos os servos importados, por meio de navíos, para esta colonia, que nao forem cristiios, serao escravos por toda a vida; mas os que chegarem por terra servirao, se garotos ou garotas até os trinta anos de idade, se homenso.u mulheres, doze anos e nenhum a mais".3 2 Essa lei foi interpretada, as vezes, simplesmente como um passo para diferenciar índios de negros, mas urna vez que os escravos indígenas eram, ocasionalmente, importa- dos via mar, a distin~ofundamental parece ter sidó entre os pagaos de áreas dis- tantes e aqueles dos arredores do país. Essa distin~o foi logo apagada por um grande número de estatutos, mais especialmente por urna lei de 1682, que punha

*30 Mas, uma vez que a leí de 1709limitava a escra-

30

32

.29 Marcel Trudel, L 'Esclavage au Cana da franyaisj histoire et conditions de

I'esclavage (Québec, 1960), pp. 4142; 55. Além de uns 2.472 escravos indígenas, Trudel estima que cerca de 68 % eram panis. Os canadenses franceses tinham apenas a mais vaga n04(ao de onde eram provenientes os panis, e usavam o termo indiscrimi-

nadamente para vários índios dos vales do Arkansas e do Missouri.

,. "Todo negro é escravo, independente do lugar em que se encontre." (N. da T.)

.

.

Ibid., pp. 42, 55, 64.

31 Ibid., pp. 80-81. É provável que diferen~asculturais tenham feíto os índios ou os negros de algumas tribos mais adaptáveis, ou menos, aescravidao; contudo, é signi- ficativo que os franceses classificassem todos os africanos como negres, e a maioria dos escravos indígenas do Oeste como panis, independente das origens tribaís reais.

Hurd, Law of Freedom, 1, 233.

207.

o

PROBLEM<A

DA

ESCRAVIDAO

NA

CULTURA

OCIDENTAL

os índios e os negros em pé de igualdade e autorizava a compra de escravos cap- turados ou adquiridos de outramaneíra por tribos vizinhas. Uma leí, de 1691, para fomentar o livre corilércio com índios, aparentemente retirou o direito de comprar escravos e, em 1705, quando parte da leí de 1682 foi redecretada, os índios foram especificamente omitidos da cIassifica~ao de servos importados, que eram considerados escravos. 33 . A servidao indígena persistiu na Virgínia, mas a institui~otrouxe cada vez mais confusao e litígio. Em meados do século XVIII, quase todos os índios eram livres, ao mesmo tempo que os negros, em sua grande maioria, eram escravos. A resolu~aofinal chegou em 1806, com o caso crucial dos Hudgins versus Wríghts, que envolveu a descendencia quase branca de um escravo indígena. Abordando

a doutrina da liberdade natural incorporada pela Declarac;;ao de Direitos da Virgínia, o chanceler George Wythe sustentou que serilpre que urna pessoa reí- vindícasse manter outra em servidao, o onus probandi seria dever do pretenden- te. Saint George Tucker, alarmado com uma constru~ao que se aplicaria com a mesma for~aaos negros e índios, argumentou que a Declara~áo de Direitos "era notoriamente concebida com um olho cuidadoso voltado para essa questao, e tinha como objetivo abranger o caso dos cidadaos livres, ou simplesmente es- trangeiros; e nao, por meio de um vento enviesado, derrubar os direitos de pro- priedade". Baseando sua posi~aomais no precedente histórico do que no princí- pio abstrato, Tucker apelou, em primeiro lugar, para uma decisao anterior que havia combinado liberdade para todos os índios e seusdescendentes que tives- sem entrado na Virgínia após 1705, e designou, entao, que a data decisiva seria antecJpada para 1691, quando a importa~ao dos escravos indígenas tornara-se, de fato, ilegal. O decreto final da Suprema Corte do Estado estava em harmonia com os princípios do chanceler Wythe somente no que dizia respeito aos brancos

e aos Índios americanos, "mas inteiramente em discrepancia com eles no que

dizia respeito aos africanos nativos e seus descendentes",34 Após um lento e con- fuso desenvolvimento, a diferenciac;;ao entre Índios e negros estava agora total-

a diferenciac;;ao entre Índios e negros estava agora total- 33 Ibid., 1, 234-241; John H. Russell,

33 Ibid., 1, 234-241; John H. Russell, Tbe Free Negro in Virginia, 1619-1865

(Baltimore, 1913), pp. 39-40; Lauber, Indian Slavery, pp. 186, 312-313; Catterall (org.), Judicial Cases, 1, 61-65. 34 Catterall (org.), Judicial Cases, 1, 112-113. Por outro lado, em Nova Jersey, o. prin- cipal tribunal determinou, em 1797, que os Índios fossem reconhecidos como escra- vos por tanto tempo, qué qualquer visao contrária violada os direitos fundamentais de propriedade (Henry Scofield Cooley, A Study of Slavery in New Jersey [Baltimore,

1896},pp.12-13).

208

A lEGITIMIDADE

DA

ESCRAVIZAC;.li.O

E

O

IDEAL

DO

SERVO

CRIST.li.O

mente dara; somente o aborígine, que fora retratado por Du Tertre e Lahontan como crian~a inocente da natureza, podería compartilhar os direitos naturais e as liberdades dos habitantes da Virgínia.

IV

Embora tanto os índios quanto os negros fossem cruelmente explorados e fre- qüentemente reduzidos ao mesmo status de escravos, é incontestável que a cons- ciencia dos europeus estava mais preocupada com os problemas do americano nativo. Sugerimos que ess-a sensibilidade mo~al em rela~aoao índio era produto de urna intera~aoentre as condi~oesda col()niza~aoamericana e alguns pontos

nível da conveniencia, os coloniza-

dores relutavam em capturar selvagens das vizinhan~as, que os supriam com comércio e produ~ao. E urna vez que, na América, era muito difícil dissociar até mesmo a mais moderada servidao dQS índios da violencia da escraviza~ao, juízes e missionários eram sensÍveis a tradicional oposi~aoentre liberdade e um ato de for~a, que somente podia ser justificado por intermédio de urna prova concreta do crime da vÍtima. Na África era diferente. Porque os negros viviam a maior parte do tempo em sociedades populosas e altamente organizadas, foram capazes de negociar quase em termos de igualdade com os primeiros comerciantes portugueses, que respei- tavam tanto a riqueza quanto o poder de seus reis. Pouca razao existia para asSQ- ciar.o africano a urna natureza primitiva ou nao-corrompida. Ele era conhecido por meio da Bíblia e dos escritores da Antigüidade, e freqüentemente sofreu influencia da cultura mu~ulmana. Dizia-se, as vezes, que, um día, havia sído exposto a verdadeira fé, mas que a rejeitara ou esquecera. De qualquer maneira, ele estava muito adiantado em matéria de cultura para ser considerado.urn ino- cente selvagem sem terra e liberdade devido a avareza dos europeus. Ele nao foi derrotado por exércitos ou por urna massa de colonizadores espalhada em seu país. Seu contato com os europeus foi limitado aos pequenos grupos de comer- ciantes profissionais que se juntaram em fortes vulneráveis ao longo da costa, sujeitos'a regras e restri~oesde um sistema comercial bem desenvolvido. Quando o chefe de urna sociedade semifeudal vendia cativos para um comerciante portu- gues, ele simplesmente seguia urna longa prática estabelecida entre seu próprio POyO e, além disso, estimulada pelos mercadores árabes. Ele nao podia prever

de vista tradicionais da servidao hurnana

No

U

I'KUtH.I::MA

DA f~CRAVIDAU

NA

CULTURA

OCIDcNTAL

que a coloniza~ao da América revolucionaria o caráter de seu comércio, ou que suas conseqüendas maléficas seriam obscurecidas pelo poder aparente e pela

independencia de seu povo.3 5 As mudan~s mais graduais sao, freqüentemente, as mais destrutivas. Se os europeus e os africanos come~aram seu infeliz relaclonamento como semelhan- tes, o fluxo das mercadorias européias, especialmente das armas, lentamente romperia Ó equilíbrio das culturas africanas ocidentais. Para a Europa, o aperfei- ~oamento da tecnologia levava poder e saúde, mas para a África levava apenas meios mais eficientes de capturar escravos para o mercado americano. A estrutu- ra de poder religioso e político dos Estados africanos ocidentais era peculiarmen- te suscetível aos efeitos corrosivos do sistema escravocrata.No delta do Níger, onde os padres haviam imposto multas pesadas para os homens que ofendessem um oráculo, era relativamente fácil descobrir um númerO cada vez maior de ofensas que poderiam ser expiadas somente por meio de um pagamento em for- ma de escravos, que poderiam, entio, ser vendidos de um modo lucrativo para os comerciantes europeus. Acreditando no reinado divino e dividido por grandes lealdades religiosas, os POyOS da floresta da Guiné consideravam os outros como hereges contemplativos que mereciam a morte ou a escravidao; assim, suas guer- ras religiosas eram bem adaptadas aprocura de cativos que seriam trocados por armas. E, uma vez que as tribos que capturassem o maior número de escravos recebiam mais mercadorias européias e ficavam, assim, mais bem equipadas para

a luta· pela sobrevivencia, simplesmente era natural que alguns grupos no inte-

ríor, como os achantis e os daomeanos, aumentassem o poder de especialistas na

arte da escraviza~io. Inicialmente, isolados dos

que eram capazes de atuar como intermediárias, esses reinados da floresta, final-

mente, abriram caminho em dire~aoao mar, ampliando a zona de terror enquan- to seu poder crescia,36 Por isso, em 1727, John Atkins queixou-se de que o triun-

europeus·pelas tribos costeirás,

de que o triun- europeus·pelas tribos costeirás, 35 Basíl Davidson, Blac;:k Motber: The Yeaisof theAfrican

35 Basíl Davidson, Blac;:k Motber: The Yeaisof theAfrican Slave TraJe (Baston, 1961),

pp. 18-24. Para urna análise excelente de urna das culturas africanas ocidentais, ver

Melville J. Herskovits, Dahomey: An Andent West African KingJom (Nova York,

1938) e Melville J. Herskovits e FrancesS. Herskovits, .Dahomean Narrative¡ a Cross- Cultural Analysis (Evanston, m., 1958). Davidson descreve os efeitos desastrosos do tráfico de escravos no Congo ena África Oriental, assim como na Guiné (pp. 153-194). 36 Davidson, Black Mother, pp. 82-90, 110-162,224-235,251-253,273-285; H. A.

Wyndham, Problems of Imperial Trusteeship: The Atlantic anJ Slavery (Londres,

1935), pp. 3-7,28-29; W. E. F.Ward, A History ofGhana (ed. rev., Londres, 1958), pp. 102-103, 142-143; Elizábeth Donnan (org.), Documents I1lustrative orthe History ofthe Slave TraJe to América (Washington, 1930-1935), n, pp. 342-361.

210

,.

A LEGITIMIDADE

DA

ESCRAVIZA~AO E O IDEAL DO

SERVO

CRISTAo

fo de Daomé destruíra o padrao ordenado do tráfico de escravos; o negro que

vendia escravos para voce em um dia podía ser, ele próprio, vendido uns poucos

días depois. E o caos provocado pela

lizadas combinava, no caso dos europeus, com a chegada dos comerciantes índe· pendentes que procuravam somente lucro rápido. Livres dos interesses a longo prazo das maiores companhias,esses mercadores poucose importavam com a maneira como os escravos eram adquiridos, e nao tinham escrúpulo em seqües· trar ou incitar invasoes nas aldeias pacíficas.3 7 Todavía, de modo geral, o sistema era institucionalizado de modo que os europeus tivessem pouco contato com o processo real de escraviza~¡¡o. Somente em 1721, a Companhia Real Mricana pediu a seus agentes para investigarem o.s modos de escraviza~ao no interior e descobrirem se havia alguma fonte a mais "do que serem capturados como prisioneiros em tempos de guerra".38 William Smith demonstrou a dependencia que os comerciantes tinham das condi~oesafri· canas, quando responsabilizou, pela escassez de escravos ao longo das costas de Quaqua e de Grain, a relativa ausencia de querelas entre nativos. Alguns comer- ciantes sabiam que devedores inadimplentes e culpados pelas mais leves ofensas aos membros de uma tribo eram vendidos como escravos, e que os reís envía- vam, a noite, tropas para atacarem aldeias distantes, onde homens e mulheres sem defesa tinham a boca amorda~ada, eram amarrados e as crian~aseram joga-

emergencia de condi~oes escravas especia·

das em sacos. Mas esse conhecimento, normalmente, era vago e, uma vez que também se tornou conhecido que os negros, freqüentemente, sacrificavam suas vítimas, um europeu poderia plausíveImente concluir que somente sua influen- cia,na Africa, pouparia vidas.3 9 Em meados do século XV, Gomes Eannes de Azurarafoi testemunha ocular de um ataque de portugueses, para escraviza~o, e da venda subseqüente dos cativos. Ficou profundamente perturbado com o espetáculo de seres humanos se

Guinea

37 John Atkins, A Voyage ta Guinea, Brazil. and the West·Indies;in his Majesty's

Ships. the Swallow and Weymouth (Londres, 1735), pp. 119, 1S1; Donnan (org.) Dacuments, II, xtü, pp. 342-361. 38 Donnan (org.), Documents, II, 254-255.

39 Ibid., 11, 330-32; John Barbot, A Description af the. Coasts of North and South-

em John Churchill, A Collection af Voyages and Travels (Londres, 1732),

, V, 47, 110; Thomas Astley, A New General Callection af Vayages and Travels

(Londres, 1745-1747),11,268; Davidson, Black Mother, pp. 217-221. Os comer- ciantes europeus tinham pouco conhecimento das redescomerciais no interior. da África; William Smith ficou atónito quando alguns malaios surgiram para ser vendi- dos em Acra, depois de atravessarem todo o continente!

o

PROBLEMA DA

ESCRAVIDAO

NA CULTURA OCIDENTAL

matando para evitar a"captUra, com a separa~io brutal de famt1ias, com o te as mies que inutilmente se agarravam a seus maridos e filhos. Elenio pode conter o choro, apesar de seu entendimento de que esses pagios mereciam ser escravos, e rezau para que Deus perdoassesuas lágrimas. Sua rea~io de compai-

xao, ao conn-árip de sua cren~a de que o cristianismo justificava a desumanida-

qualquer época. 40 Mesmo os capitaes

de navios negreiros de séc1.dos posteriores nao eram imunes a essessentiínentos, embora sua sensibilidade fosse enfraquedda por um sistema que alimentava a racionaliza~io.Jean Barbot pe~cebeu que o tráfico de escravos deveria ser con- duzido de acordo com opreceito áureo: os europeus deveriam trataros negros como eles próprios seriam tratados se tivessem a infelicidade de ser capttuados pelos argelinos (o mesmo paralelo sugería umaresposta diferente para. os qua- kers de Germantown, em 1688). Barbotcongratulou-se por sua própria humani- dade. Quando, por acaso, ele comprou membros de uma família que havia si40 separada quando escravizada,.ficou tao comovido com a alegria deles de estarem juntos novamente, que mandou seus marinheiros tratá-Ios melhor do que usual- mente, e sacrificou seu lucro por vendé-los a um único comprador na Marti- nica. 41 Descreveu a tra~essiado Atlantico em seu próprio navio como um verda- deiro cruzeiro de. deleite, com negros felizes fumando cachimbos no convés, dan- ~ando e cantando durante a.noite. O fato de muitos es.cravos tentarem.suicídio ou recusarem alimentar-se ele. atribuía ao medo infantil de serem devorados pelos canibais europeus. Barbot disse que, uma vez que era, naturalmente, um homem comiseradoe nao podia deixá-Ios morrer de fome, achou necessado qlJe- brar seus denteS e alimenta-los ji for~a.42William Snelgrave fez um prognuna de orienta~aopara seus escravos antes da partida, garandndo-Ihes que nao seriam comidos e descreyendo as alegrías da vida na plantation nas Índias Ocidentais.

Mas, apesar disso, e apesar de sua descri~ao idílica da travessia do Adantico, admitiu que seus escravos enttavam freqüentemente em.rebeliao. 43 Thomas Phil- lips, que também ficou. desanimado com o fato de os escravosrecusarem-sea comer e pularem no mar, confessou que ele era muito humano para cortar bra- ~ose pernas de uns negros, como faziam alguns capitaes para aterrorizar os demais; coínO crismo, naotinha dúvida de que os negros eram amados por Deüs como os homens brancos. Mas, como homem prático, sabia que,quando o.s

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de, era a rea~ao de um homem normal.de

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de, era a rea~ao de um homem normal.de , ,-" " . 40 Donnan (org.), DQc.uments,

40 Donnan (org.), DQc.uments, 1, 25-28. 41 Barbot, Descriptioñ, pp; 271, 548.

421bid.,pp.272,547.

43 Astley, Voyages~11,505-507.

212

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A LEGITlMíDADE

DA ESCRAVIZA~AO E O IDEAL DO SERVO CRISTAO

escravoseramalimentados a bordo, seus homens tinham que ajudarcom armas Ol1'Tegadase fósforos acesos. 44 .De formas variadas, os comerciantes e capitaes tentavam fazer, de seus negó

cios cruéis, dos males o menor. Os agentes da Companhia Real Africana nao tlnham perinissao de comprar negr~sque tivessem sido seqüestrados e, em caso

de. dúvida, tinham que consultar o alcaide dos nativos. Francis Moore, agente ·comercial da Companhia, contou sobre a liberta~o de um homem, que fora

'escravizadopor roubar urn cachimbo, embora o dono dó cachimbo nao tivesse

aprovadoessa caridade. 45 Os comerciantes associados as grandes companhias eram \inanimes em condenar a crueldade e a deslealdade dos mercadores inde-

·pendentes. Sabiam também que os lucros regulares dependiam do cultivo do desejo'de .cettas tribos pela: mercadoria, do fornecimento rápido e das transa~oes eficientes, e da manuten~o de seu navioo mais limpo e arrumado possível. Mas essa crescente preocupa~ocom o aperfei~oamentodos detalhes do sistema obs- curecia o problema central do que significava a escravidao para a África. Poisa

· maiorpart;e

·compravam negros que haviam sido condenados a escravidao pelas leis de seu próprio país, e esses cativos levariam uma vida mais segura e mais feliz nas co~unidadescristlis do Novo Mundo. Em urna época ero que os ingleses cOnSí- deravam humano transportar,.em navios, criminosos acorrentados para a Amé~ ·rica em condi~Oes semelhantes as do tráfico africano, poueos homens podiam ap.reciar a questlio colocada pelo editor, Thomas Astley, ao comentar o argu- mento Snelgrave segundo oqual os negros beneficiavam~seda escravidao americana. Se fosse assim, disse Astley, a escolha deveria ser deixada para ser fei- ta ·pelos negros.46 A distancia da África e o fato de os cativos'serem, geralmente, originários das regioes florestais logo depois da costa tornavam máis fácil dissociar a servi-

'~Q do negro do ato violento de escraviza~o. E porque o continente negro desa- fiava a penetra~o, os europeus retratavam-no como um mundo hostil de doen- ·tes, animáis perigosos e guerreiros formidáveis. Até o século XVIII, a imagem da ·África era nítidamente diferenciada daquela da América pacífica, nao~arruinada.

dos europeos era suficientemente informada de que os mercadores

europeos era suficientemente informada de que os mercadores 44 Ibid., U, 407-408; Donnan(org.), Documents, 1,

44 Ibid., U, 407-408; Donnan(org.), Documents, 1, 406-407. ~4S Astley, Voyages, n, 242, 244; Donnan (org.), Documents, U,. 396. 46 Donnan (org.) Documents, n, 327-328; Atkins, Voyagé, pp. 156 ss.; Barbot, Des- cription, pp. 270-272, 545-546; Abbot Emerson Smith, Co/onists mBondage: White Servitude and Convia Labor in America,1607-1776 (Chapel Hill, 1947), pp. 125, 128-129; Astley, Voyages, n, 505-507.

o

PROBLEMA DA ESCRAVIDAo NA CULTURA OCIDENTAL

Se foi Um crime, como muitos escritores afirmam, privar os americanos nativos de sua liberdade natural, foi realmente um ato de liberta~aoremover negros de seu mundo desagradável de pecado e de supersticrao melancólica. 47 Assim, as próprias condicroes do comércio africano teforcravam o lado mais repressivo dos dualismos tradicionais relativos aescravidao. o ideal do servo feliz em umaso- ciedade crism justificava um comércio vital as economías da Europa e da Amé- rica. "Ainda que a denomina~ao odiosa de escravos seja anexada a .esse comér-

certamente eles sao tratados com

cio", escreveu um

grande leniencia e humanidade: e como a melhora dos bens dos colonos depen-

de exatamente de tomarem cuidado com sua saúde e vida, só posso pensar que sua situacrao é muito melhor do que era em seu próprio país. "48

importante economista, "

v

Mas a plantation era mais facilmente idealizada do que o mercado de escravos africano. Se, por uns dois séculos, nem Las Casas lutou ativamente pela liberda- de dos negros, nem Du Teme celebrou suas virtudes, no mínimo houve uns poucos homens que questionaram a legitimidade do tráfico africano. Como vimos, a servidao foi, durante muito tempo, uma fonte de tensao no pensamen- to crismo, e nao faltaram justificativas para censurar a compra de homens que haviam sido reduzidos a servidao sem um motivo justo. Esses protestos reque- riam uma considerável independencia da mente, uma vez que os postos portu-

47

BryanEdwards, The History Civil and Commercial, of the British Colonies in West Indies (Filadélfia, 1806), I1,234-241; Malachy Postlethwayt, Britain's Commercial

(Lond.res,1757), I, 430-432. Ao mesmotempo

que Edwards admitiu que os abusos evidendavam-se gradativamente no tráfico de escravos, defendeu Las Casas contra as acusa~óes de William Robertson, que, disse ele, ignorava o fato de que os negros estavam acostumados aescravidao ao passo que os índios nasciam livres. Postlethwayt, o grande defensor do tráfico de escravos, elo- giou os índios em termos que lembram Du Tertre. No capítulo 15, discutiremos a des-

Interest Explained and Improved

coberta da África "primitiva" e do selvagem negro nobre. 48 {Malachy Postlethwayt], The NationaI and Private Advantages of the African

(Londres, 1746), p. 4. A mesma questao foi, com freqüenda,

colocada pelos escritores franceses, que também sustentavaIíl que os negros nas Indias Oddentais estavam em melhores condi~óes do que os camponeses na Europa (Luden Peytraud, L'Esclavage aux AntilIes frant;aises avant 1789 [parís, 1897], p. 238).

Trade Considered

214

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A

lEGITlMIDADE

DA ESCRAVtZA~Ao E O

IDEAL

DO

SERVO

CRISTAO

gueses deescravos eram estreitamente ligados as institui~Oesmissionárias, e urna crítica ao tráfico africano poderia amea~ar o próprio ideal de propaga~ao da

era ami-

go de Las Casas, observou com aten~o os rumores de que os negros estavam sendo capturados por meios ilícitos. Embora nao houvesse nada de errado, disse ele, com a compra de homens que se vendiam a escravidio, ninguém poderla, em ,~ consciencia, manter urn homem que tivesse nascido livre e tivesse sido escra- vizado por meio de fraude ou violencia, mesmo se ele fosse comprado de boa fé. De Soto tinha dúvidas se havia algurna justi~na escravidio do negro.so Em 1571, a questio foi explorada mais detalhadamente por urn famoso teó- logo de Sevilha, Tomás de Mercado, de quem a Suma de tratos y contratos for- neceu um exame minucioso crítico dos efeitos dilaceradores da coloniza~aoame- ricana sobre os pre~os, contratos e a ética dos negócios. Os comentários de Mercado sobre a escravidio foram, as vezes, citados fora de contexto, e é impor- tante compreender que ele trabalhou com premissas inteiramente convencio- nais. S1 Reconheceu a autoridade do rei de Portugal na costa da África. Admitiu a legalidade da escraviclao como institui~ao,aceitando os motivos tradicionais de guerra, crime e comércio. Embora considerasse os africanos bárbaros que cometiam crimes enormes e detestáveis, aceitava a justi~de suas leis condenan- do os transgressores a servidio perpétua. Divididos em pequenos Estados com pouco sentido de ordem ou de obriga~aopara com urn soberano, os negros tam- bém travavam lutas continuas e, portanto, detinham muitos cativos. Isso era jus:- tificado pela lei das na~oes,mesmo que a influencia misericordiosa do cristianis- mo tenha levado os europeus a resgatarem prisioneiros de suaprópria fé. Mer-

fé. 49 No entanto, em meados do. século XVI, frei Domingo de Soto, que

Scelle,

49 Ruth D. Wilson, "Justifications of Slavery, Past and Present", Phylon, 4th Quarter (1958),408-409; Boxer, Race Relations, pp. 8-9.

so Biblioteca de autores españoles, desde la formación del lenguaje hasta nuestros

días. LXV (Madri, 1873), p. xlvi.

SI Tomás de Mercado, Suma de tratos, 'Y contratos••• (Sevilha, 1587), capítulo 20. Essa

edi~aoantpliada foi publicada, pela primeira vez, em 1571; a primeira edi~o,intitula-

da Tratos y contratos de mercaderes y tratantes •.• foi publicada em 1569. Tanto José

Saco quanto Georges Scelle ciWant alguns dos ataques de Mercado aescravidao dos

negros, mas por ignorarem suas justificativas positivas da institui~ªofizerant com que ele parecesse mais radical do que realmente era (Saco, Historia de la esclavitud, ID, 361;

La traite négriere aux Indes de Castille: contracts et traitésd'assiento [parís,

1906],1, 716-721). É importante observar que Mercado estivera na América e tinha

conhecido diretantente a escravidao (Enciclopedia universal ilustrada, Europeo-

Americana [Barcelona, s.d.], XXXIV, 801).

215

O PROBLEMA

DA

ESCRAVIOAO

NA

CULTURA

OCIDENTAL

cado pareceu ter um pouco mais de dúvida, quando passou a tratar do direito dos pais africanos de venderem seus próprios filhos. Mas enquanto a prática havia sido proibida na Grécia e Roma antigas, e era obviamente assunto de per~ verSao, em última análise derivava da autoridade paterna e sua legalidade nao póderia ser questionada. s2 .Se a escravídao dos negros permanecesse somente com base nesses argumen- tos, possivelmente Mercado nao tería obj~ao alguma. No entanto, ele achava que um grande número de escravos estava sendo obtido por meio de trapa~a, for~a e roubo. Por serem os africanos selvagens, suas a~Oes eram dominadas mais pela paixao do que pela razao. Os portugueses e espanhóis ofereciam pre- ~s tao altos pelos escravosque os negros se ca~avam como cervos, invadíndo aldeias e raptando pessóas desprotegidas, mesmo quando nao tinham a desculpa

de guerra. Estimulados pela ganancia, príncipes e juízes condenavam seus rivais

e inúmeros outros presidiários com base em acusa~oesforjadas. Os pais vendiam

seus filhos por ofensas ou leve desobediencia. Mercado continuou a descrever a crueldade e a opressao dos navíos de escravos, em que o cheiro era suficiente para matar um grande número de cativos. Recentemente, atacou ele, um navio havia saído de Cabo Verde com destino aNova Espanha com quinhentos escra- vos. Apínhados, sob ó convés, como cachorros, uns cento e vinte morreram na primeira noite. Somenteduzentos haviam sobrevivido aviagem. Mercado antecipol.l os abolicionistas do século XVDI em suas conclusOes, assim como em suas descri~oes das invasoes para escravizar e da travessia do Atlantico. Enfatizando que a compra e venda de negros nao era em si ilegal, afir-

mou, ao mesmo tempo, que a realidade da situa~aotornava impossível o engaja- mento no comércio africano sem incorrer em um pecado fatal. Um comprador de qualquer mercadoria era culpado por um pecado, se tivesse razao para suspeitar que a mercadoria havia sido roubada ou que o vendedor nao tinha um título legal. E, já que era comUlÍl ter conhecimento de que urna grande propor~ao dos negros havia sido obtida ilegalmente, ninguém podia entrar no comércio com a consciencia limpa. Mercado considerou a possibilidade de oficiais reais supervi- sionarem o mercado de escravos e exigirem que todos os comerciantes compro- vassem a legalidade de suas transa~Oes.Mas rejeitou essa idéia como inexeqüível.

A inspec~aotornar-se-ia urna formalidade sem significado; os colonizadores ame.,.

ricanos já haviam demonstrado como a vontade dos reís podía ser desafiada ou mal interpretada. Mercado temía que fosse impossível remediar os problemas do

·1 52 Mercado, Suma de tratos, capítulo 20.

216

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A LEGITlMIDADE

DA ESCRAVIZA~AO E O IDEAL DO SERVO CRISTAO

negro, embora observasse que os lucros do tráfico de escravos fossem incertos e de curta dura~ao,o que era indício da desaprova~ao divina. Em rela~o ao comér- cio do negro, em Sevilha, sugeriu que cada homem consultasse seu confessor. S3 Um ataque ainda mais radical a escravidao dos negros surgiu em 1573, por parte de Bartolomé de Albornoz, que se tornara professor de direito na Universi- dade do México no momento em que foi criada e que, mais tarde, foi chamado para estudar em Talavera. Como Mercado, Albornoz contestou tanto os métodos pelos quais os africanos eram capturados quanto a legalidade de sua venda subse- qüente. Todavia, foi além do teólogo, em seu desdém pelo sofismá e pela raciona- liza~ao. No tom irónico de um philosophe, Albornoz disse que a compra de negros pelos portugueses devia estar de acordo tanto com a lei instituída quanto

com a lei da consciencia, urna vez que era aceita pelos reís e pela opiniao pública;

nenhum membro de

tráfico e, de fato, o clero era tao ativo na compra e venda de escravos quanto outras pessoas. Ao comentar as justificativas teóricas de Mercado para a escravi~ dao, Albornoz pensou que as razOes deveriam ser boas, urna vez que nao as com- preendia. Mas quando levou a sério, achou os argumentos, que satisfaziam Mercado, até menos convincentes do que aqueles que o teólogo havia rejeitado. Nem mesmo Aristóteles havia declarado que os prisioneiros de guerra deveriam ser escravizados; e, certamente, essa prática nao era sancionada pela leí de Cristo. Como era possível um comprador saber se urn cativo havia sido justamente cap- turado? E o que dizer das mulheres e crian~as que nao podiam ser culpadas de agressao? Pela lei natural, a suposi~ao era sempre em favor da liberdade, e os homens tinham a obriga~ao de ajudar as vítimas da opressao ao contrário de se tornarem cúmplices nos atos .opressivos. 54 Todavia, costumava-se dizer que os negros estavam em melhor situa~ao em urna terra crista, mesmo como escravos, do que vivendo como animais na África. Albornoz abordou esse argumento com cuidadoso ceticismo. Sugeriu que o euto- peu nao podia ser o mais indicado para resolver esse assunto; e, de qualquer maneira, melhorar o bem-estar do negro dificilmente dava san~aoa injusti~a, Judas nao havia alcan~do benefício algurn com o bem que sua a9aO produ- ziu. Ninguém comprovara que os africanos deveriam perder sua liberdade natu- ral para se tornarem cristaos. A lei de Cristo estabelecia que a liberdade da alina

urna ordem religiosa

havia feito declara~o pública contra o

ordem religiosa havia feito declara~o pública contra o 53 ¡bid. 54 Bartolomé de Albornoz, "De la

53 ¡bid. 54 Bartolomé de Albornoz, "De la esclavitud", reimpressao de Arte de los contractos, in Biblioteca de autores españoles, LXV, 232~233; Enciclopedia universal,IV, 175.

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deveria ser paga por intermédio da escravidao do corpo? A verdade era que o cle-

ro gostava muito de seu conforto, para ir aÁfrica, carregar a cruz e trabalhar por conversoes genuínas. Albornoz sabia que essas observa~oes seriam condenadas por muitos. Mas em benefício próprio e por amor aos semelhantes, sentiu-se na obriga~ao de advertir aos mercadores que havia coisas melhores nas quais inves- tir sua riqueza do que esse comércio sanguinário. Embora Bartolomé de Albornoz nao tenha demandado uma emancipa~ao geral dos escravos, tinha visao de um autentico abolicionista. Parece que nínguém mais atacou a escravidao do negro com tamanha ousadia intransigente até o final do século XVII. E cabe observar

que o livro de

Mas as questoes levantadas por Mercado e por Albornoz continuaram a per-" turbar uns poucos escritores católicos. Tomás Sanchez, o jesuíta casuísta, pare- cia concordar com os dois críticos, quando decretou que era ilegal comprar negros capturados por meio de fraude ou violencia injusta. Isto significava, como sabia Sanchez, que o comércio africano era altamente ilegítimo. Todavía, ele forneceu aos comerciantes e aos colonos uma enorme porta para escaparem:

era responsabilidade do comprador original, na maior parte dos casos um mer- cador negro, determinar a legitimidade do título. Todos os compradores poste- riores poderiam dormir com a consciencia limpa. S6 Alonso de Sandoval nao estava certo de que o problema pudesse ser tratado com tanta clareza. Como Mercado e Albornoz, ele sabia que os africanos eram condenados ji servidao pelas menores ofensas, e utilizou a própria linguagem de Mercado para atacar os crimes dos comerciantes europeus. Após citar Eurípides e Fílon de Alexandria, definí u a servidao como "una junta de todos los males" .S7

Nem todo o ouro e todos os bens do mundo eram suficientes para pagar a liber-

dade

Albornoz, que agora é extremamente raro, foi posto no índex. ss

humana. Mas essas corajosas pal~vras eram

contrabalan~adas pela cren~a

55

56

Albornoz, "De la esclavitud", pp. 232.233.

Russell P. Jameson, Montesquieu et l'esclavage: étude sur les origines de l'opinion antiesclavagiste en France au XVIlJ.6 siecle (París, 1911), p. 124. 57 Saco, Historia de la esclavitud, IV, 254-257. Saco, aparentemente, nao informou que a passagem de Sandoval citada por ele usava as mesmas frases que se encontra- vam na passagem de Mercado que citara anteriormente (m, 361). C. R. Boxer, apa- rentemente pensando de modo geral sobre essa denúncia intensa dos comerciantes de escravos, retratou Sandoval como um dos mais eloqüentes críticos da escravidao, antes dos abolicionistas ingleses do final do século xvm (Four Centuries of Portu- guese Expansion, 1415-1825: A Succinct Survey Uohannesburg, 1961], p. 69). Mas George Scelle salienta o fato de Sandoval ter atacado somente os abusos do tráfico de escravos, e nao o próprio tráfico (La traité négriere, It 712; 718-719, 719 n.).

218

A

LEGITIMIDADE

DA ESCRAVIZA~AO

E

O

IDEAL

DO

SERVO

CRISTAO

de Sandoval de que, as vezes, a escravidao era justificável. Em 1610, escreveu para Luís Brandao,reítor do colégio jesuíta em Luanda, para obterinforma~óes espe- cíficas sobre as fontes da escravidao do negro. Brandao explicou que seria impos- sível encontrar, entreos milhares de escravos exportados, os poucos que haviam sido capturados ilícitamente ou condenados injustamente por ofensas insignifi-

dizer que milhares de

almas estariam perdidas para Cristo, simplesmente porque uns poucos escravos haviam sido capturados ilegalmente, nada ajudaria a Deus. De qualquer maneira, Brandao encontro.u consolo no fato de o tráfico nunca ter sirlo questionado pelo Conselho de Consciencia, em Lisboa, ou pelos padres jesuítas, no Brasil. E essa carta, que aparece no último livro de Sandoval, foi aceita como decisiva pela Or- deJIl dos Jesuítas. Em 1685, o Conselho Espanhol das Índias.citou Sandoval, jun- to a Sanchez e a Luis Molina, em defesa da legitimidade do comércio africano. 58 Mas a questao da legitimidade havia, anteriormente, levado conflitos de consciencia para o lado ocidental do Atlantico. Quando o jesuíta Miguel Garcia

chegou ao Brasil, na década de 1850, ficou chocado ao descobrir que, mesmo o colégio de sua Ordem, na Bahia, era proprietário de negros que haviam sido escravizados ilícitamente. Repudiando as usuais racionaliza~óes,chegou até a se recusar a ouvir a confissao de qualquer envolvido na injusti~ada propriedade de escravos. Garcia foí claramente um homem de influencia destruído e, logo, encontrou a oposi~aoindignada de homens que sabiam que tinham uma posi~ao nao inteiramentecerta do ponto de vista moral. Nem ele, nem Gon~alo Leite, o primeiro professor de artes, no Brasil, conseguiam tolerar um país que clamava que sua sobrevivencia dependia de injusti~a,e ambos voltaram para a Europa- talvez os primeiros, mas certamente nao os últimos dos emigrados de uma socie- dade escravocrata americana. 59 Mais típico foí o grande jesuíta Manuel da Nóbrega que, ao chegar a Bahia, em 1549, denunciou os colonos por maltratarem os índios, e de quem os apelos ao Conselho de Consciencia, em Lisboa, ajudaram a produ~ao de leis proíbíndo a escraviz~aodos índios, exceto nas guerras autorizadas pelo reí ou pelo gover- nador. tíO Quase imediatamente após sua chegada ao Brasil, Nóbrega aceitou,

cantes. Nenhum

negro admitiría ser escravo legalmente. E,

59 60
59
60

58 Saco, Historia de la esclavitud, IV, 254-257; Scelle, La traité négriere, 1, 712; Donnan (org.), Documents, 1,123-124,124 n.

Serafim Leíte, História da Companhia de Jesus no Brasil (Rio de Janeiro e Lisboa, 1938-1950), II, 227-228.

Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, n, 347; Serafim Leíte, Breve itine- rmio para uma biografía do P. Manuel da Nóbrega, fundador da provincia do Brasil

219

o PROBLEMA DA ESCRAVIDAO

NA CULTURA OCIDENTAL

sem hesitar, a necessidade da escravidao do negro tanto para a Colonia como para sua própria Ordem. Em uma carta de 1557, para uma autoridade jesuíta em Portugal, falou da necessidade de mais negros para manter sua institui~ao

religiosa, depois de se referir amorte de alguns escravos que haviam sido doados

Miguel Garcia refutou, publicamente, o ponto de vista de Nóbrega,

segundo o qual a legalidade da escravidao dos negros havia sido cuidadosamen- te avaliada nas consciencias das pessoas; mas, em 1583, quando a questao foi remetida a um corpo de juristas e moralistas europeus, foi o pOnto de vista de Nóbrega que prevaleceu. Serafim Leite, a autoridade moderna sobre os jesuítas no Brasil, argumentou que é anti-histórico censurar Nóbrega ou outros jesuítas por nao atuarem como os abolicionistas do século XIX; acusá-Ios de injusti~a, por favorecerem os índios, diz Leite, é como condenar um homem por criar um hospital para tuberculose enquanto ignora as vítimas da lepra. 62 Mas, mesmo se concordamos com Leite que as alternativas eram condenar a escravidao e, por- tanto, renunciar a todos os esfor~ospara a coloniza~ao,ou aceitar a escravidao, como fez Nóbrega, na esperan~a de que ela poderia ser mitigada pelo cristianis- mo, irmanamo-nos pelo pensamento segundo o qual os homens mais respeitáveis

pelo rei. 61

e moralmente ¡nfluentes emprestaram suas vozes muito facilmente para endossar

o que era mais lucrativo. Tudo isso é mais surpreendente a luz da coragem moral de homens como Antonio Vieira, que conduziram, no século XVII, o espírito de reforma de Montesinos e de Las Casas. Vieira lutou bravamente pelos direitos dos índios,

e

Southey,

e

da cidade de Sao Paulo. 1517-1570 (Lisboa e Río de Janeiro, 1955), pp. 195-196;

JI, 453.

History o{ Brazil, J, 300;

61 Leite, Hist6ria da Companhia de Jesus no Brasil, JI, 347, 350-352; Manuel da

Nóbrega, Cartas do Brasil e mais escritos do P. Manuel da Nóbrega. com introdu~ao

notas históricas e críticas de Serafim Leite (Coimbra, 1955), p. 267.

62 Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, JI, 227,346-347; VI, 350-351. É

curioso que Leite tenha escolhido a tuberculose e a lepra pata sua analogía; os índios eram, freqüentemente, considerados vitimas de doen~s fisicas e sociais destrutivas introduzidas pelos homeos brancos; a pele escura do negro e suas fei~Oeseram vistas, as vezes, como um tipo de lepra, ou como resultado de uma doen~a semelhante a lepra, pelas quais, naturalmente, os europeus nao se responsabilizavam. Parece que Leite aceita a distin~aotradicional entre os indios livres e os africanos usados para a servídao. Ele mostra que os jesuitas, freqüenremente, tratavam seus escravos com simpatia e caridade, mas sua defesa contra a acusa~o de que eram proprietários de escravos em grande escala nao é inteiramente convincente. Foi avaliado que os jesuí- tas eram proprietários de 1.200 eSClavos negros somente no Chile (Hubert Herring,

History o{ Latin America, p. 192).

220

A LEGITIMIDADE

DA

ESCRAVIZAI;AO

E

O

IDEAL DO

SERVOCRISTAO

no Brasil, e defendeu sua causa nas cortes de Lisboa e de Roma. Em 1640, quando .os portugueses, no Brasil, foram duramente pressionados pela Holan~ da, Vieira pregou um sermao jeremiado que desenvolveu O clássicotema da

trai~ao,pelos colonizadores, de seu alto propósito original, e da necessidade de reforma e purifica~ao. A fonte dos males do Brasil, disse Vieira, era o mesmo p~adoque havia corrompido a humanidade: assim como Adao havia pegado algo a que nao tinha direito, os brasileiros ambiciosos haviam desprezado a jus- ti~ae se apoderado das posses de outros. O grande jesuíta foi mais explícito em um sermao contundente pronunciado em sua chegada ao Maranhao, em 1653, após ter desfrutado de um período de influencia política em Portugal. Compa~ rando as calamidades de guerra do passado, doen~as e fome as puni~oes do

faraó devido a recusa de soltar os israelitas, Vieira do abolicionista radical:

aproximou~se da veemencia

.

Todo homem que mantém outro, injustamente, na servidao, sendo capaz de soltá-lo, cel'tamente está em estado de condenac;ao. Todos os homens, ou quase todos os homens, no Maranham [sic], mantem outros, injustamente, na servi- dao; portanto todos, ou quase todos, estaD em estado de condenac;ao. 63

Nos primeiros tempos, o demonio oferecera a todos os reinos da terra a compra de urna simples alma, mas, no Maranhao, o pre~o havia sido reduzido:

"Um negro por urna alma, e a alma mais negra dos dois! Esse negro deve ser seu escravo nos poucos días que vace puder viver, e vossa alma deve ser minha escra- va por toda a eternidade."64 O espírito de denúncia, o artificio de projetar a negritude do negro na alma do dono de escravos, a imagem da escravidao como o pecado original destruin-

do

a inocencia e a missao da América - tudo isso antecipa a estrutura da men-

te abolicionista e sugere que seus componentes nao dependíam do protestantis- mo evangélico. Mas embora Vieira tenha utilizado os temas hebraicos de entre- ga e de culpa comum, aceitou também o ponto de vista estóico e dos primeiros cl'istaos segundo o qual os escravos, enquanto livres na alma e iguais perante

o qual os escravos, enquanto livres na alma e iguais perante 63 Leite, História da Companhia

63 Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, vn, 81; Southey, History of Brazil, 1, 663; 11, 474-478; Richard Graham, "The Jesuit Antonio Vieira and bis Plans for the Economic Rehabilitation of Seventeenth-Century Portugal" (teste de mestrado, University of Texas, agosto, 1957), p. 10; Boxer, Race Relations, p. 87. 64 Southey, History ofBrazil, 11, 474476. O sermao dizia respeito mais aes.;ravidao dos índios tapuia do que aos negros.

221

o PROBLEMA DA

ESCRAVIDAO

NA CULTURA OCIDENTAL

Deus, deveriam aquiescer a seu destino externo. O próprio Vieira nao aquiesceu ao destino dos índios, pois embora admitisse que o Brasil nao podia existir sem seu trabalho forc;ado, corajosamente ele se opos aos interesses dos colonizadores em sua cruzada por urna legislac;ao protetora. Ganhando carta branca, para os jesuítas, nos assuntos indígenas, fez muito para limitar e regulamentar a futura escravizac;ao dos aborígines. 65 Mas esses esforc;os nao se estenderam aos africa- nos. VieIra falou aos escravos negros que ele tinha conhecimento de suas chagas e flagelos, sua fome, fadiga e ultrajes; mas se eles suportassem esses sofrimentos com paciencia, seguindo o exemplo do aben~oado Redentor, teriam o mérito assim como o tormento do martírio. Sua servidao podería tomar-se umnovo Calvário, mas eles nao deviam, simplesmente porque seu trabalho era árduo, esquivar-se de seu dever. Quase dois séculos depois, urn bispo episcopal faria a

JIlesma mensagem

O fato de, nas colonias espanholas e portuguesas, o clero ser proprietário de milhares de escravos era prova, de acordo com o Conselho das Índias, de que o trá- fico africano era legítimo. Essa sanc;ao religiosa foi crucial, em 1685, quando o Conselho da Inquisic;ao se· opos a concessao do assiento espanhol a um herege holandes, Balthazar Coymans. O tráfico de escravos havia sido justificado, tradi- cionalmente, pelo argumento de que promovia a propagac;ao do cristianismo cató- lico; por esse motivo, os escravos muc;ulmanos haviam sido barrados nas colonias espanholas. O Conselho da Inquisic;ao temía que os negros seriam, entao, contami- nados pelo protestantismo holandes, e propagariam a doenc;a na América espa- nhola. Essa obje~ao levou Carlos n a determinar urna investigac;ao completa do tráfico africano. 67 . A campanha contra Balthazar Coymans teve éxito em levantar como conse-:- qüencia algurnas questoes relativas a legitimidade da escravizac;ao africana. Isso

aconteceu na época emque o Conselho das Índias apelou para as opinioes anterio-

confortante aos negros, na Virgínia. 66 .

738-742.

Jesuit

Antonio Vieira", pp. 15,17-21. Nao posso concordar com Leite que a dedara~ao de

6S Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, VI, 351, vn, 81; Graham,

Vieira de que todos os homens sao descendentes de Adao, de que sao salvos pelo san- gue do mesmo Cristo, e de que somente o corpo do escravo é cativo, sendo sua mais

seja um grito veemente igualável apenas ao dos abolicionistas .do

século XIX. Isso parece ser doutrina crista tradicional.

nobre alma livre -

66 Antonio Vieira, Obras escolhidas com prefácios e notas de Antonio Sérgio e Hema-

ni Cidade, Vol. XI: Sermí5es (ii) (Lisboa, 1954), pp. 30-32; Boxer, Race RelationS, pp. 40,102; Southey, History ofBrazil, 11, 675-676. O bispo episcopal foi William Meade. 67 Donnan (org.), Documents, 1,357-359; Scelle, La traite négriere, 1, 708-711,

222

A

lEGITlMIDADE

DA

ESCRAVIZÁ~ÁO E O

IDEAL

DO

SERVO

CRISTÁO

res de Molina, Sanchez, e Sandoval, assím como para as autoridades clássicas. Além de seres infiéis, de acordo com alguns teóricos pró-escravidao, os negros nas- ceram para e eram predestinados aservidao além de estarem em harmonía com a concepcrao de Aristóteles do escravo natural. E, mesmo se as origens da servidao dos negros nao era estritamente legítima, o Cónselho da indias sustentava que o tráfico de escravos nao podía ser interrompido sem par em risco a sobrevivéncia das colonias e, conseqüentemente, a propagac;ao da verdadeira fé. Todos os artifí- dos de sofisma eram empregados para demonstrar que as almas dos negros pode- riam sobreviver, a salvo, a urna viagem transatlántica com um capitao herege. Finalmente, Coymans concordou em equipar seus navios com monges capuchi- nhos. O primeiro exame sério da legitimidade e da utilidade do tráfico de escravos resultou em sua completa justificac;ao. 68 Nas colonias católicas, toda a preocupac;ao existente era de que o negro fos- se amplamente direcionado para a salvac;ao de sua alma. Seus maiores defenso- res foram homens como San Pedro Claver, que foi ao encontro dos navios ne- greiros quando chegaram a Cartagena, batizou os ocupantes enquanto desem- barcavam, e tentou suavizar seus sofrimentos com atos de delicadeza e caridade. Más, embora Claver fosse urn homem dedicado e devoto, e se autodenominasse "o escravo dos negro~", nao desenvolveu os argumentos antiescravocratas que tinham sido esboc;ados por Mercado e por Albornoz. Os raros indivíduos que reviveram as primeiras dúvidas sobre a legitimidade da escravizac;ao africana foram julgados com descrédito e até mesmo banidos das colonias. Já em 1794, por exemplo, urn frade capuchínho, José de Bolonha, foi expulso da Bahia por sustentar que os compradores de escravos eram responsáveis pela . determinac;ao da legitimidade do título, e por argumentar que, por isso nao ser fei- to, o tráfico africano era ilegal. O governador descobriu que Bolonha adquirira suas idéias radicais com alguns padres italianos, que também receberam ordens de deixar a província. Muito antes, em 1758, Manuel Ribeiro Rocha publicara um discurso sobre a escravidao, após deixar a Bahía e voltar para Lisboa. Em vez de ameac;ar a legalidade da escravidao como instituicrao, Rocha focalizou sua atenc;ao nas crueldades sádicas que os senhores brasileiros infligiam em seus escravos. Afirrruindo que. os negros deveriam ser tratados como irmaos em Cristo, Rocha recomendou que lhes fosse permitido ter famílias, que lhes fossem dados alimentos adequados e educacrao religiosa, e que eles fossem preparados para urna possível

68 Scelle, La traite négriere, 1, 708-711, 723-745 (para muitos documentos, em espa-

u

I'RUIlLéMp,

DA

é:;~RAVI DAU

NA '~UL TURA U~IDENTAL

liberdade. Mas essa modesta proposta foi considerada altamente subversiva. Quando, finalmente, o espírito antiescravocrata com~ou a emergir no Brasil, no início do século XIX, foi fomentado por urna continua tradi~ao de protesto. Os priméiros líderes nao foram inspirados por essas figuras ¡soladas do passado, como Sandoval, Rocha e Bolonha, mas por idéias do iluminismo e pelo exemplo dos reformadores ingleses. 69

m,p.90.
m,p.90.

69 Octávio Tarquínio de Souza, História dos fundadores do lmpério do Brasil (Rio

de Janeiro, 1957-1958), IX, 68-73; Agostinho Marques Perdigao Malheiro, A escra-

vidáo no Brasil; ensaio histórico-iurídico-social (Rio de Janeiro, 1866-1867), parte

224

,

.

7 A legitimidade da escraviza~aoe

o

ideal do servo cristao:

o

fracasso da cristianiza~ao