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A ÉTICA DE KANT

1) Contexto e caracterização da ética kantiana
Na sua obra “o que é o iluminismo?”, Kant fala da saída do estado de minoria de
idade, ou seja, servir-se de seu próprio entendimento, sem a influência de outros.
Referindo-se a nossa época, alega que não alcançamos a maioria de idade, mas que estamos
numa época de conscientização, pois é hora de assumirmos a nossa maioridade, pois somos
seres humanos e possuímos a consciência de termos um valor absoluto, e também por ser
sujeito da razão possui dignidade, e não preço.
Kant não quis ser apenas um homem esclarecido, mas quis acima de tudo ao criar
a moral e o direito, mostrar ao homem moderno a sua posição neste mundo. Por este motivo
deseja fundar uma moral que faca justiça ao valor absoluto do ser humano, fundando assim,
o Direito na Moral que interpreta o direito tendo como raiz a moral, sendo estes os dois
termos que podem promover o lugar que compete para a dignidade e ao valor absoluto do
homem dentro do mundo. Por isso, a moral de Kant é uma moral da razão pura prática, pois
somente pela razão o homem é capaz de chegar a autonomia, se tornando assim
independente de todas as coisas externas. Ele é essencialmente autônomo por ser sujeito da
razão incondicional.
Por ser a razão kantiana uma razão pura, ela se torna uma ética do dever, onde
tudo que é humano tem seu valor e nada é desprezível. O “selbst” é, a vontade autônoma,
que se declara autolegisladora de si mesma, decidindo tudo que acha bom e desejável.
Sendo a boa vontade a única coisa que é incondicional, ela se baseia na sua própria lei, e
assim poderá propor fins que são bons, e avaliar o que é bom e o que é mal. O problema da
relação da vontade com a razão, vai dar origem ao princípio supremo da moralidade.
2) Fundamentação do supremo princípio da moralidade

A segunda seção conduzida também pelo método analítico. Em Fundamentação da Metafísica dos costumes propõe como meta a fixação do princípio supremo da moralidade. e sim. pressupondo assim um conceito de dever. e o sintético fundamenta essas premissas e tira as conclusões devidas. . Kant vai mostrar que esse dever tem a forma de um imperativo categórico. A primeira seção parte do conceito de boa vontade na vida cotidiana que passa pelos conceitos de dever e de respeito e chega até o princípio do conhecimento moral da razão comum dos homens. e que sua determinação coincide com o conhecimento moral encontrado na primeira seção. pois o conhecer se limita ao mundo dos fenômenos. No imperativo categórico o querer de uma ação não é ligado analiticamente com outra. Admitindo-se assim o uso sintético da razão pura prática. podemos estabelecer que as duas primeiras foram conduzidas pelo método analítico. Agindo assim. e analisa os pressupostos. Terceiro: distinção e relação entre o mundo dos princípios a priori da razão. pois o nosso conhecimento não pode ultrapassar os limites da experiência. e a razão prática onde a liberdade pode ser pensada. ou seja.3 Quando Kant começou a escrever a sua ética as suas bases já haviam sido lançadas na Crítica da Razão Pura. junto a moralidade. O método analítico parte de algo dado. Kant empreende a dedução do imperativo categórico na terceira seção. quando nos referimos a fenômenos. no juízo moral o método analítico oferece as conexões. e a terceiro pelo método sintético. e do mundo sensível que deve ser regulado pela lei da razão. ele liga o querer de uma ação com o conceito de uma vontade de um ser racional. estamos cumprindo o princípio da moralidade: “devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal”. as idéias regulativas. Segundo: distinção entre conhecer e pensar. Tanto a primeira como a segunda seção pressupõe um imperativo categórico. Primeiro: distinção entre coisa e fenômeno. sendo assim abre-se a razão pura prática na qual a liberdade pode ser pensada. São três os pressupostos necessários para entender as suas obras morais. e o sintético tenta legitimar estes pressupostos como válidos. Das três partes da fundamentação. que só pode ser levada a frente pelo método sintético. parte do conceito de faculdade da razão prática. para além disso surge a razão.

como o ser humano. sem relação com outra. ou uma faculdade de razão prática. aí que a relação da faculdade da razão prática com a vontade empírica tem de ser representada como obrigação. pressupondo também um conceito de dever. Kant define o dever como “a necessidade de uma ação por respeito à lei”. e b) o respeito a esta lei para que ela possa ser determinante da ação. uma lei a priori. e a sua vontade não é em si plenamente conforme a razão. Com a formulação do imperativo categórico constrói-se a formula de uma vontade absolutamente boa. e a relação entre lei objetiva e vontade só assume a forma de obrigação quando a vontade não é só racional. A faculdade da razão prática ou vontade pura não coincide com a vontade empírica. pressupondo deste modo: a) um princípio ou uma lei a priori. E um ser que não é puramente racional. e da sua necessidade. nem sempre agiria segundo a representação das leis. que ao se tornar . a segunda é que a ação seja realizada segundo a lei a priori que a determina. A primeira condição para que o conceito de dever tenha uma boa vontade é a existência de uma motivação subjetiva correta. Kant mostra então que a obrigação tem a forma de um imperativo categórico. dizemos que só o ser racional tem uma vontade. Dentro deste contexto vemos que um ser puramente racional agiria exclusivamente pela representação das leis. pois representa uma ação necessária por si mesma. Sendo que a lei das ações em geras será: “devo proceder sempre de modo que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal”. diz ele: “só o imperativo categórico tem o caráter de uma lei prática”. se teria uma vontade pura. pois para isso é exigido a razão.4 O resultado final de ambas as análises (analítica e sintética) é a prova de que o imperativo categórico é pressuposto em todos os conceitos morais e que com todo direito podemos afirmar a sua validade incondicional. Assim o conceito de dever é usado de forma que o valor moral de uma ação depende da motivação subjetiva. Na segunda seção da fundamentação fala-se no conceito de faculdade prática da razão. Falar em razão significa poder agir racionalmente. como só o ser racional é capaz de agir segundo as leis.

pela qual pode ser eficiente independentemente de causas estranhas que a determinem. mas válido para o agir de todo o ser racional. do fim em si e do reino dos fins. A liberdade é autonomia. Isso é exatamente a formula do imperativo categórico e o princípio da moralidade. Além da formula fundamental Kant nos da ainda três outras formulações do imperativo categórico: a fórmula da autonomia. Para que a liberdade possa ser o terceiro termo desta conexão no imperativo categórico. Deste modo comprova-se que o imperativo categórico não é apenas um pressuposto conceptual. assim a obrigação é a forma que assume a lei da vontade pura quando se dirige à vontade empírica. A liberdade é a propriedade da causalidade da vontade. O imperativo categórico liga o querer de uma ação de uma vontade com o conceito de uma vontade de um ser racional. Se atribuímos a um ser razão e vontade também devemos atribuir-lhe a idéia de liberdade. Ele fala ainda da autonomia da vontade como princípio supremo da moralidade. teremos de atribuí-la a todos os seres racionais. Baseandose na formula fundamental: “age só segundo aquela máxima pela qual tu possas querer ao .5 universal sua máxima não pode nunca se contradizer. livre é aquele que não é determinado por algo externo. Mas como é pensada na obrigação a relação que o imperativo categórico exprime? Para Kant. esta lei caracteriza o princípio do seu agir. Admitir que o ser humano não pode agir a não ser sob a idéia de liberdade. Só a liberdade possibilita ligar a vontade pura como legisladora com a vontade empírica. que nesse caso é a liberdade. Deste modo poderemos mostrar como a liberdade pode estabelecer a conexão (entre vontade pura e empírica) que o imperativo categórico implica. pois a moralidade tem que valer para todos enquanto seres racionais. Teremos de mostrar que a liberdade pertence a todos os seres racionais dotados de vontade. É com isso que a tarefa de Kant estará concluída. e de razão prática. O ser humano que é tanto racional como sensível. é decisivo para poder provar que o imperativo categórico vale para todos. sendo assim. as proposições sintéticas só são possíveis por ambos os conhecimentos estarem ligados entre si pelo enlace de um terceiro termo. terá de pensar-se como legislador e como submetido à lei da razão. a vontade pura e a vontade empírica.

Assim em Kant. o homem deve agir unicamente motivado pela forma de sua razão. O princípio do direito põe a liberdade em concordância consigo mesma e atua como princípio de consistência do mundo externo. tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro. e nunca como meio”. sempre e ao mesmo tempo como fim. ele é apenas o princípio supremo da moralidade e tem o poder de mostrar toda a sua força humana e racional no desenvolvimento da ética e do direito. A fórmula do fim em si: “age de tal modo que uses a humanidade. ela é um processo de universalização caracterizado pela igualdade e equidade. 3) Razão pura prática. . abrindo um imenso espaço para a liberdade. surge então as demais fórmulas. a relação de Moral e Direito pode ser determinada não propriamente como moralidade e legalidade. A legislação jurídica permite outros móbiles externos para a realização das exigências da razão. a racionalidade universal e procedimental assume a figura do imperativo categórico.6 mesmo tempo que ela se torne lei universal”. não por cumprimento à lei. A fórmula do reino dos fins: “age segundo máximas de um membro legislador em ordem a um reino dos fins meramente possível”. Deste modo as três fórmulas explicam e interpretam a fórmula fundamental do imperativo categórico. ela exige o cumprimento dos deveres. A legislação ética só admite o dever como móbil para a execução das exigências da razão. A fórmula da autonomia: “age de tal modo que a vontade possa considerar-se a si mesma pela sua máxima ao mesmo tempo como legisladora universal”. A razão prática da moral kantiana se manifesta nos diferentes princípios de universalização e regras de procedimento. mas como dois modos de legislação: ético e jurídico. mas pelo motivo externo da coação. Como lei fundamental da liberdade interna do homem. Ética e Direito A ética de Kant não se reduz apenas ao imperativo categórico.

o contrato não está a serviço de qualquer fim. Ele atua como princípio de universalização no plano jurídico-estatal. . É nossos dias que a exigência de um Direito internacional se torna mais urgente que nos tempos de Kant. justiça e paz coincidam. de organizar uma ordem que possa superar toda injustiça recebe um interesse todo especial dentro do cenário da globalização econômica. na qual direito e segurança. que compete a todo ser humano e a todo Estado. sendo ele uma lei universal formal da liberdade de ação. O dever. não é um instrumento a serviço de interesses.7 A razão prática ordena a liberdade externa através do princípio do direito. O direito humano único que pertence a todo o homem em virtude de sua humanidade. A filosofia do direito de Kant é a única filosofia política moderna que elevou o desejo de paz de todo ser humano à dignidade de um direito da humanidade. ligando todas as economias diminuindo o raio de ação do Estado e do indivíduo. nunca foi tão grande o desafio lançado por sua ética. exige a instalação de uma realidade mundial. As exigências universais da razão fazem com que a filosofia de Kant desemboque numa república mundial. O Direito político de Kant concentra-se na idéia de contrato.