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As marteladas de Nietzsche:

desconstruindo preconceitos

Publicado originalmente em: www.logdemsn.com

Você certamente já deve ter ouvido falar em Nietzsche, filósofo


alemão do século XIX. E se conheceu ele através de autores que
falam sobre ele, certamente deve ter preconceitos quanto ao seu
pensamento, ou o considera um filósofo confuso e chato; eis a minha
intenção, quebrar alguns preconceitos com relação à filosofia do
martelo.

A obra de Nit tem como fundamento central, a destruição dos


conceitos moralistas e dos valores tradicionais, em busca de uma
reconstrução de novos valores, a reconstrução de um novo homem
em detrimento do homem fraco e humilde através da translação de
valores – a busca pelo super-homem. Para isso o conceito de Verdade
deve ser esterelizado do nosso pensamento.

O super-homem é o homem que tem poder sobre si mesmo,


independente, criativo e original; um homem além de tudo, liberto de
regras e normas morais, um criador de valores próprios. Porém, esse
homem ideal e seguro proposto por Nit, é extremamente
individualista, daí decorre uma série de interpretações errôneas do
seu pensamento que culminam em críticas infundadas.

Antes de tudo, o super-homem é um homem que admite a existência


de sentimentos profundos, mas deve buscar o controle sobre eles.
Parte em busca de viver o momento em detrimento da vida
prometida, vive e admite o sofrimento e a dor intensa da existência,
não nega qualquer valor, mas cria valores próprios para acreditar. Na
busca pela superação, não nega que também é “humano,
demasiadamente humano”.

Emergir do homem o super-homem não significa o surgimento do


totalitarismo, isso é uma interpretação completamente errônea do
conceito. O super-homem parte em busca do poder, mas não um
poder sobre os outros, mas sim, um poder sobre si mesmo, no sentido
de domar os seus instintos e impulsos nocivos. Cabe aqui ressaltar
que Nit foi extremamente influenciado pelo pensamento de
Schopenhauer, Darwin e, em especial, os gregos Aristóteles e Platão.

Os valores considerados tradicionais para Nit são aqueles decorrentes


do Cristianismo, ou aqueles que os homens criaram como “próteses”
para suas próprias fraquezas. É a negação do humilde, do fraco, do
desonrado e do submisso para afirmação do homem superador e
independente. Eis aqui um dos pontos mais criticado em Nit devido às
interpretações estúpidas de pessoas que certamente, necessitam de
“próteses” para suportar a vida.

Para compreender e ler Nit é necessário antes de tudo ter


pensamento livre. Jamais leia e interprete os pensamentos
nietzscheano de forma absoluta, o que vale é o “seu refletir sobre”,
pensamentos e argumentos.

Não caia na ilusão do entendimento do que “ele disse”, mas sim, ele
pensou em determinado momento; dessa forma, não vá criticá-lo
quando perceber que Nit disse algo que posteriormente entra em
contradição, diga que antes ele pensava de tal forma. Assim somos,
estamos em constante mutação, o que não significa que você é
desonrado, o mundo real não passa de uma representação fadada ao
erro.

Nit era extremamente sensível em suas relações, e em especial à


mulheres, a qual é objeto de crítica em vários momentos, e que
também, não significa que ele inferiorizava as mulheres. Suas críticas
é antes um grito de dor do que uma verdade. Escrevia o que sentia e
conseqüentemente não era imune à contradições, nossos
sentimentos são falhos e com freqüência nos levam a falar e se
comportar de forma que não desejamos.

O pensamento de Nit é antes uma reflexão em busca da libertação,


do que um conformismo de como as coisas são. Adorava poesia, e
além dos seus aforismos poéticos, sua obra é recheada de metáforas;
como todas metáforas, não são por si só idéias prontas e acabadas,
mas nos trazem um colorido de interpretação.

Ler Nit é dar vôo à imaginação e aos pensamentos, sua obra reflete
seus traços psicológicos intensos, de caráter e espírito, que tem
muito a acrescentar ao nosso modo de ver e interagir com o mundo.

Espero que esse breviário contribua para que você desconstrua


preconceitos errôneos que tinha a respeito, ou fica ai um convite. Nit
em nenhum momento falou sobre a construção de uma “super-raça”,
o super-homem é antes um homem com profundos sentimentos,
movido por honra e valores próprios, do que aquele mesquinho
individualista que faz da relação com o outro, uma relação de objeto.

Antes de dizer que Nit é confuso e contraditório, saiba que seus


escritos são pensamentos carregados por profundos sentimentos, e
como todo sentimento, é passivo à nuances de estupor. O próprio Nit
teve uma vida angustiada e solitária, principalmente após os conflitos
com Lou Salomé, a quem Nit morria de paixão.
Muitos de seus escritos são gritos angustiantes do câncer profundo
causado pelo fim desse relacionamento que nunca existiu. O próprio
criador do super-homem foi antes de tudo, um “humano,
demasiadamente humano”.

Em algum dia desses eu falo sobre o mundo de Zaratustra, a


encarnação profética de Nit. É um livro fabuloso, narrado por
Zaratustra (personagem) - a síntese do pensamento de Nit - onde ele
parte à difícil tarefa de conscientização da ignorância dos homens e
suas relações. Nesta obra, o arco-íris metafórico de suas palavras nos
permite uma reinvenção da vida e do pensamento.