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MILTON SANTOS Por uma Geografia Nova Da Critica da Geografia a uma Geografia Critica ree ore 0 2002 Fm Sn io etary sae 20 eg Se Paitin 10 Per uma Cola Nove Da Cain da Gaga sms elt Cue Sno eal Ee Seelam an 1. Gog 2 Gps 3. Gea he Tei pa ‘fren apace Fake ne Desi ete lo 3 mens de Ls Fenare uma peaaa de cms «eo ‘heros gue lan por wn pop os eer ms goa ov. AGRADECIMENTOS s discusses que mantive entre 1974 ¢ 1977 com os meus anos da Universidade de Dates Salaam, na Tanzinia da Universidade (Cental da Venenuela,em Caracas, eda Universidade de Colimbia, em [Nova lorquc, muito contsbuiram para 6 amadurecimento da maior parte das dias aqui expostas, Nese sentido, muizoscolegas me dram ‘gualmente sua ajuda. Devo, porém, consignar deforma especial meu sgradecimento is deas. Antonia Déa Eedens ¢ Maria Awsiliadora da Silva, professoras da Universidade da Bahia, pelo inetimsvel apoio € colaboragio que me deram na fase de redagio definitva deste live. SUMARIO Intros ‘Uma Geogefia Nova? Um Prjeo Ambicioso ~ Um Riso Necetii, ACasrica on GeooRasia Os Powoabones: As Parrensbes Citnicas Aldeolgia da Geogra : [A Geografia Colonia (© ermine Suas Sis [A Gcogaia Cola e 0 Genero de Vide A Falecia de Geografia Chis (Os Perigord Anaogia Possibiamo vereus ge? "7 7 20 2 a0 u 2 x 2. Afenasga Fosoeice, Ae Foote. © Hegsianiame eo Marcio DeDescares 30 Feo Tots dl 3. ARunowaco no Anos Gurmna:*A New Geooeaeiy" 4 A Geocsasa Quantranvn, A Quamaeagio or Gogra Linearidade,Cliesriae, E ote “Medi para Refi ou Refi pra Mk? (Os Prblemas da Aboudagem Quanta Paradigm ou Metodo? 0 Pecado Maio. 4 Mopetos » Sisramas: Os Ecosisists 2 Aas de S698 Os Eos Sistemas Quango ‘Os Moskos em Geogeaia Consrugo eEceia dos Mossoe 6 AGrocearia px Pein # 90 Comroaranento A Pecepo: Suc verse Objeto? CComportment ou Pins 7. OTWUNrO Do Formato EDA IngoLacia (Geoqyais, Planament, Uektans, (© Reino do Empiismo, | Exclus do Movimento Sci Tara eo. 8. O BaLaNgo wa Chis A Gracnaria Viva Do Eseaco [A Reprod do Saber. 6s 66 ro “ 70 n ” 1 98 106 ns aw» no Geogr Poet Ip © Emp Abstato Do Imperial &Perda do Objeto (0 #spagoPulverizado A Geogr, Viva do Tsp050 Lig Promesas da Ces Segind Pare Geocnaria, SocieDAne, Esmago Uses Nowa IeFERDISCHPLINARIDADE (lucent da Geogr Vantage da inerssphnaridad (Geogr lonedscipinaridae. As tapas da Interdsphiaridade Aplicada Geografia [A Necesnae de ua Deinio do Objeo da Geogr to, tia Tasrart oe Drrntco 90 Bseago. Definiea Geograi oo Expo? (0 Problema da Autonoma das Categorias Anais. Objto Ciena e eoiasio. Ua Esforga de Defi Jo Espa 1.0 Fsragor Meno Rtstsxo pa SOcitDADE OU Faro SOCIAL? ‘Us Forma de Perepsf0? Hegel eo Espa (0 Espago, um Refexo? Um Fat Sci? 2,0 Bstago, us Baron? A Reprod do Fat Espa | Mobiidade do Capital é Raia (0 Espao na Toradade Social (0 Papel ds Rageidads, 4 ns 26 ny 1 uy 8 150 ss 16s 165 6 168 m ‘Una sraars Soil como at Outes? Uns EsratrsSabornada? i [A Espeicidade do Espo (0 spago como His Estar Por UMA Geockatta Cxfrica xe Bosca OE UN PaRADrent Toda Teri Revolucion. nnn Paradgma eLeoogia. ANarecz como Paradigms eae 10 snago Tora DE Nossos Diss oe Produstoe Espago A Universo da Economia © do Espagne Universalzasio Perera e Papel da Estar tern. “Total e Disa do spac Inseumentos de Trabalho e Espa. i Disuibeigo de Sida Totl no Espago sear, Proceso, Fans, Forma stano EEstago:O Estabo:Nagho costo USDADE {GrogRAFICA DE ESTUDO vr z AS Nora Fungi do Esa (0 Estado not Piss Subdetenvvio : (0 Bata Itermediri ne as Forgas Extras Internas Ago do Fado sabe o Subespagor. 0 Fatado ea Tansformagies Exp 7 Espag eTeriio 7 180 ss 193 194 Ws 196 an a1 208 22 20 au 226 nae 1p. As NocOes ne Tornisoane, i Fons Social Ex Rewovaglo nA GeocRaris Toclidade« Fapao. Formagio Soil eEspago [A Nog de Formagio Soil Foxmago Sociale Reaidade Nacional. Forma Sociale Renovagio da Grogan 18. A Nogdo br Thro nos Estupos Grosraricos ADituso de owas. (0 EnfoqueEspagoemporal eo Tempo Empirico A Necetsidae de ums Peiadiasto (0 Espace somo Acumulago Desigual de Tempos. ANaglo de "Tempo Espa”. ‘As Ragosidades do Espaco so Condo: A Geocnara 1-0 Furur0 D0 Hose. "spago-MercadoraeGoografia de Classes. Por uma Geograia Libera, Causa ¢ Context. 7 (© Joie Tris A Separato do Heo. spag Libera bloga z nas 236 239 2a 243 at 2 ase 259 ret 261 26 265 266 269 InTRODUGKO pic do se amo wd, De Maron 928, tee nesters trove comou sere Quon sm pe ‘wun: bcvan impress Sine recht 48 p27 aro am mons eee uns Frost J ble edna cae ceo roa Tam "un lena nal epee tise fuarscoen ges fo a wn camo ema Sitar umf” rims uma uta pts las en Bs 910 "on man in aos od ee ‘Usa Groat Nowa? Quando propugnamos uma nova geografis, iso pode, & primeira vista, parecer uma enorme pretensio, como se nos dispuséssemos a inventar 0 novo. A verdade, porém, & que tudo est sucto a les do raat movimento € da renovagio, inclusive as eéncas. O novo nde sein venta, descobees' Cada ver que as condiges gras de ealizaso da vida sobre a terra se moshfcam, ou a interprets de fares particlacesconcctnentes 8 cexisténcia do homer e das cosas conhece evolu importante, todas as iscipina cienifica iam obrigadasavealinharse para poder ex: primis, em teemos de presente endo mit de passado, aquela parcela de realdade total que Ihescabeexplicae. Vivernos, agora, uma desasfases onde a signeagSo das cosas ‘experimenta uma mudaaga praticamente revolcionsna. Se algumss disciplins se apereeberam dessas mudangs qualitativas eas incorpo: raram 20 seu acervo, aguas outras ofzeram apenas patcialmente fu fragmentariamente. Quando esta hima hipéreseocoet,estanos Tonge da claboragdo de um sistema ou, em outraspalaias, apenas al _gumas cateorias slo analsadas segundo um paradigma novo, enquan ‘to ureascontinuam a sr estudadas so o influxo de uma consteweio teérica ji ultrapassada,O resultado, neste caso, a impossiidade de ‘uma anilise coerente. A geogeafia se encontra nesta situagio, | verdade nos manda dizer que sempee fot asim porque, desde fundago do que historicameste se chama geogealia cents, no fim) do século XIX, jamais nos fi possivelconstuir um conjunto de pro posiges haseads num sistema comum eentelagado por uma légica interna. Se a geografis ndo fo capar de ultapassar esta defcienci, porque esteve sempre muito mais preocupada com uma discussio narcsta em orno da geografia como disciphina ao ins de preoct parse com 2 geografia como objeto. Sempre, e ainda hoje, se dicute muito mais sobre a geografia do que sobre o espago, que €0 objeto da citncia geogifca. Desse modo, o forgo de conceitualizasio ea feito, sobretudo, de fora do objeto da cinciae node dentro, Tal procedimento condus a um grave erro epistemologico. Os rogressos tentados consstem muito mais em subsite sgniticados buseados geralmente em disciplinas afins, do que mesmo a partic das realidades ou aspectos da realidade que caberia examina. © sctimolo de ereos assim obtido complica a tarefa de encontrar uma tliregio de trabalho que permitaatribuir a0 objeto da geogeaia, isto {0 espaso geogrifco, um género de preocupasio conducente dela bboragio de um conjunto de prncipios de base, eapaz de servir como fa para a formulagio tecica, para o trabalho empirico e também paca a agio. E postive! que, nos dias de hoje, esa tarefa possa ser realizada por «ue, deur ado, ilosofa abandonou a se pape itor da elaboragio entific epassou a ocuparse muito mais do dominio das dias esa compatibilizasio. Atualmente nfo e pode mais falar de uma filosofia etal que dite notmas de pensar ou uma telologia para cada discpina particulae. Desse fate def o outro aspecto do problema. Cada dss lina passou a ter a sia propria epistemologi, aqulo que Bachelard chamou de “teoria rgional, fandada na sua propria pritca com feferéncia a seu proprio objeto. so no quer der que se busca pro: ‘vara exstncia de uma cigncia independemte, porque no hi ciéncias realmente independents, A realidad socal é uma s6 ea cada cicia particular cabe o esto de um dos seus aspecto. 150 no invalida a ogo de unidade da cnc, visto que extudse uma roalidade aravés| da propria rotalidade somente pode levar&tauclogia. Como para qualquer outeaaividade produtiva no momento em que se torna complexa, aqui também se impe uma divsio de taba. Da a justfiacio de ciéncias partculares aurénomas, cujo objeto & uma parce da realidad cota e para evo estudoseestabelecem, em urn ‘movimento continuo, principos eras ese viam namas de proceder em diferentes aves desde a epistemologia as ténicas. Mas, a auton: mia nfo €a independznca.O universo particular que cada citncia cia ‘como seu sistema proprio de pensar uma parte um aspecto da coisa, tem que esta subordinado 20 univers gral dado pela realidad total. ‘Uma cicia particular fo 6 sesulteda de um secionamentoarbitrrio de uma cigncia da cosa toa, it é, daguilo ques fossepossvel rea Tizar se chamaria “iénca total”, Tampouco, o objeto de eadacigncia particular pode aceitar um secionamento,igualmente abiticio, do ‘objeto que, em um dado momento, essa ciéncia particular se atibu Use Progero Anais Este volume pretende ser primviro de uma série de cinco, con- sagcados a um tema geral: © Expaco Haamano. Este € um problema ‘que, apeste de eratado extensivamente por diferentes especiaitas mas sobretudo por ge6arafes, durante mais de um século, ainda no ha via dado logar awa tenatva de um sistema global, exceto na obra ragisral de Maximilien Sorre, Nossa taela, tentada em condigbes essai hisrieas diferentes é, pois, pretensiosaedrdua. A cons ‘ncia dessa dificuldade no faz delaras, logo de inicio, que © n0$s0 «sforso, realizado durante anos a io, tem sido enorme, os resultados ‘obter serio, seguramente, modestos. Mas esa no €uma razio para cximieinos ds exponsabilidade de partilhar a experitacia de ensino € pesquisa que ns foi dado vive em contato com realidades to dife- fees em paises ecultras as mais diversas na Europa, na Aiea (do ‘Norte, Ocidenal ¢ Oriental) e nas Américas. A posibildade de um trabalho inerdscplinar também nos obrigow a um esforgo de eituea {gue desbordou do campo da geografa para o terreno das encias so ciais traicionaise modernas, obrigou-nos, mesmo, a tomar ineresse por categoriasfilosaficase principios de citniasexatas que ha alguns anos aus estivames long de imaginar pudessem se tis 2 um me: lor conhecimento do espago humano. Nosso maior esforgo, porém, foi o de encontvar uma forma de expresso que, buscando ser exata, fesse também simples. © letorjulgaté se atingimos esse objetivo (sextudos dos quais est primeito devem formar um conjunto| coerente. Mas cada volume pretende se, por s 56, um ivr, posivel de ser ldo independentemente sc nos obrigot a uma esquematizagio prévia cua difculdade ndo escondemos: a redagio de um livros faz ‘40 mesmo tempo que novos conhecimentos afloram e novasidas se claboram: assim é bem possivel que o plano dos volumes subsequentes sofa alterages, da mesma forma que o presente véa luz seguindo um fordenamento que é bem diferente do projeto original Pretendendo chegar a uma geogeafia eitica, este volume & em primeicolugay,consagrado a uma revisio erica da evolugo da ge Balla. Nio temos a pretensto de exgotar 0 assunto do qual tantos ‘outros autores jtrataram de forma exaustiva. Noss objetivo, aqui, unicamenteapontar aqusles problemas que, 20 n0s50 ve, impedemn ‘a consteugio de uma geografa orientada para uma problema social mais ampla e mais construtiva, Nio € uma critica deliberadamente ptcial nem gratuit, pois ela visa a servic como uma inerodugoa essa eografia erties hi tanto buseada e para cuja construgio queremos dar uma contrbuigdo, ainda que pequena. Pastimos do passado com vistas a0 futuro, (Os demais quatio volumes serio consagrados,respectivamente, 305 temas sepintes: 2. Da Natureza Césmice 3 Divisio Internacional do ‘Teabalho; 3. Onganizagao Espacial da Sociedade Contemporanes; Tempo Sociale Espao Humano; 8. Totaidade Sociale Espaco Total: Forma, Puncao, Processoe Estraturs, Mas esa enumerasio ni sg nifia que os livros seguintes aparece nessa order. 'O segundo volume, provisoriamente imitslado Do Espaco Csmico Divisdo Internacional do Trabalho pretendeoleecer uma expicagio Alaguilo que se pode chamar de proceso de produgio do espago. A tese sustentada € de que, ao se tornae produto, sto &, um utlizador conseiente dos instrumentos de eabalho, o homer se toena 20 mesmo tempo um ser socal ¢ um eriador de espago. A evolugio espacial € dada pela complicagio dos ftores das relagbes de producio, cujos marcos, no tempo, sio as diversas etapas da divisio internacional e interna do trabalho. A extensio da dvisio do trabalho corresponde a separacdo, no espago, das diversas instineias do processo produtivo, com a valorzagio diferente, segundo as Epocas,dessas mesmas is ‘ncias. A utbanizagio & um resultado do estigiocoveespondente, do mesmo modo que as outras formas de arrumagio espacial: 0 estado de produsio do espago deve funcionar como uma veedadeirateoria do espace humane. (© terciro volume trata, especiicamente da Organizagdo Espacal ta Sociedade Contemporinea. O estado compeeendest: uma diss slo do que pode ser considerado como o presente ecanémico, social « politico e © que pode se considerad como 0 presente espacial, tomado como uma realidade hstorcamenteespecifica. Uma tentativa Ge defingio da era tenoldgica eda universalizagio da sociedade que cla engendrou levard a defincio do espago global, total como win conseqiéncia. © Estado-Nagdo seré analisado como unidade geo arifica de estado. Entre outros temas tatados est uma tenatva de reinterretagdo do fenémeno da urbanizagio, com expec relerincia 206 paises subdesenvolvidos, (© quarto volume trarard das telagBes entre 0 tempo (socal) ¢ © ‘espago total). A nogio de tempo social leva & nogio de periodizagSo da histévia © essa necessidade epistemoldgica provém do fato que a Histéra 6,2 um s6 tempo, continua e descontinua. A categoria modos de produsio permite essa periodizacio. Ela é, todavia, insufcent, porque dentro de um tempo existem tempos. 0 tempo do modo de roducio ¢ universak dai impie-se igualmente considera 0 tempo do Estado-Nagdo, que permite analisar a articulagio entre a divisio internacional do trabalho ea divisio interns do trabalho e asegura 0 «scudo do jogo entre as forgas internas eas forgas externas de mode tem da sociedade edo espaso. A nogdo de um tempo empitico a tn ca eapaz de ser compattilizds com a nosio de um espace objetivo, Ela deve permitie que se trabalhe, finalmente, em rermos de sistemas ‘espago-temporais. Ese volume pretende ser um primeiroesforgo de construgio de uma epistemologia do espago humano, decorrente da teoria da qual os ts primiros volumes atem.O quinto volume deve completa este esforgoepistemolégico. Esse quintoe dlimo volume da sévie watacd de problemas que podem ser genericamente considerados como pertncentes 30 Ambito de uma dialética do espago, melhor dito, uma daléca no espago, A toralidade social é tratada como um sereujaexistnci, em slima instncia, é dada através do espago total, O tudo da rotaidade social em processo permanente de toalizagio éassorado, assim, 4 andlise deur espago em proceso de permanente mudanga, As mutagées dt sociedade correspondemcisdes que motificam profundamente a ork- nizago espacial, Esses dots movimentos conjugados somente poder see analisadosateavés de categoias que sjam, 30 mesmo tempo, 2 ‘egorias da realidade. Forma, fungdo, processoeesteutura serio, pois, ttatados como categrias de anise eategoras do real, imbricadas€ ‘terdependentes, O lugat da ideologia cars assim demarcado, tanto no interior da totalidade social como dentro do espago, A pasagem parecer, entdo, como uma espécie de "mentira funcional”. $6 0 «studo do movimento da totalidade podera permite a separagio do ieol6gieoeautoriza ssi, que se defina, de uma s6 ver, aesteutura, fo contexto¢ a tendéncia, Quem sabe poderemos assim reconsteuir © futuro, em ama época em que o expago passou 4 ser uma categoria flosia e politica fundamental? Se © nosso projeto chegar a ser, como desejamos, um projeto coerente, esses elementos esparsos constituirio um todo. Os temas twatados io, asim, se entvcruzar, As repetigbes, necesirias, nio inetferieio com a énfase que obteré, em cada livro separado, um problema abordado aqui e ali peas neessdades de exposgio. [No presente volume estudamos certs temas como o do tempo, © das telagBes ence forma e fungio, process eestutura, 0 da organi acho espacial da sociedade tual cada vez que se mostram necessrios ue serio objeto deur volume especial onde o ratamento da maévia seri 4 clareas da exposigo, mas de maneira mas ou menos espasa, ‘outro, tanto em extenso como em profundidade, Outros temas serio ‘objet de reiteragio, mas, também neste caso, a observago precedente eviida A preocupagio que nos gua neste livro, que & apenas uma etapa a tarefa que nos impomos,éetoma, pela raz, a problemitica do ago, comeganda pels anise do trabalho feito até hoje por diferentes «scolas do persamentogeogelico, para propor finalmente, uma linha de esto haseada nas ealidades aruais e que sea, a0 mesmo tempo, sama teoria uma epstemalogia, "Nossa ambigfo€forncer, 30 mesmo tempo, a explicagio da ral ade espacial eosinstrumentos para sua anilise.Acredtamos que uma teofia que no gera, 20 mesma tempo, a sua propria epistemologia, inde porque nfo é operacional, do mesmo modo que uma episte tmologia que no seja baseads numa tori é macs, porque oferece instrumentos de andlise que desconhecem ou deformam a realidad ‘A coeténcia cientica, que deve sero objetivo final éatflexdo, no pode ser obtida de outa forma, UUs Bisco Necesshavo Sabemos a que rscos nos expomos, Bertrand Russel dizi (1965, . 93) que “qualquer douteina dotada de alguma coeréncia sexu raments, pelo menos em parte, penosa ¢ contiria nos preconceitos contents”. Quando alguém se dispée a mostrar tis preconceitos, 3 tarela cientifca se torna também uma tarefa politica, porque os esos, ss vezes deliberados, numa ciaca comprometida, benefiiam a certos srupos de interests. ‘Atarela da renovagio a cigncia Sempre equivaleu i tarefa da reno- ‘ago das formas de pens da sociedade isso, em nossos das, €talvez ainda mais vlido do que no tempo de Galle. Qualquer tentativa de renovar uma cicia para que ela se adapt 20 real vai encontrar um ‘enorme acervo de obstculos. Ths obsticulos so seguramente mais Aifices de ranspor quando parte da propa profissio. De um lado, sua origem traz 9 sla do saber oficial, que funciona como um aval tanto mais paderaso quanto 0 erroé mais prolongado De outro lado, Iho isco de ere suscebilidades entre companheires. Na verdade rio basta dizer com Robert Lynd que este ¢ um tempo critico para as ciéncias soca ao € um tempo para cores. (© comportamento da coetvidade centifica € muito importante ‘quando se tata de difundie um i como nova, e choca. Agueles que tém mais experéncia 3s vezes So ay sobeetudo se ela se presenta cos mais duros na acitagSo da novidade, Aqui valria a pena recorcer ‘uma ida exposta por Peter Hagget (1965, p. 114) segundo a qual estudantes eto muito mais prontosa receher novasieias do que ns estamos prontos para ensins-las™. Admitindo uma tal posigo, devs, de logo, estar convencido de que “um esforgo semelhante pode resulta impopulas, pelo menos pelo fato de se poder supor que ra sua origerm hi cera imodéstia e que o autor desea impor-se como imérpretedefinkvo dos esorgosreslzados no passado eo nico guia para os facuros esforgos”. Esta advertécia de Bernardo Secchi no deve, prim, confuadi oexposios, porque no ha nenhuma posi Tidade de se fazer pogredic uma ciéncia sem uma grande parcels de csforgo ertico. Eno hi esforgo etic sem rsco ‘Categorias fandamentais como 0 homem, a natureza, as relasbes soca estaro sempre presenes como insrumentos de anise, mbora «a cada periodo histrico a seu conteido mude.E porsso que o passado ‘no pode sevir como meste do presente, tod trea pioneiraexige do se autor um esforgo enorme para perder a memoria, porque © novo éo ainda nio feito ow ainda ado codficado. O novo é, de ceta forma, o desconhecide¢ x6 pode ser concstualizado com imaginasio ‘eno com certeras. Porsso nto devemos rer medo de apresentar ‘como resultado do nosso esforgo aguilo que é mais imporeance para fazer participa a outros da nossa busca, aguilo a que chamasiamos de pebidéias. A idea, tl como se transmite, & jf uma codiicag 3. “Comet, hal quam rs sneha Topic rae cena notincn se rien emo ete cn du rain nomen a aca Terme emt seh gp 179 ‘pio sein Ta ora do Eno de amd Ns aprisionamento do conesito por uma linguagem, enguanto que a pre {dia € idea em vas de erase, de tal forma que sua exporigioinsere ‘letor no props processo de sua produsio. Setvimo-nos, uma vez mais, de uma idéia de Kant, quando diz que “quando comparamos os pensamentos que um autor exprime em felagio a0 astunto que estudou, é muito comum achar que o compre endemos melhor do que ele proprio fea". que’ elaboragio da iia precede o enconto da inguagem necessiriaaexprimi-lacorretamente (© criador de wma ideia wabalha com o vocabulério de que dspoe, isto um elenco de palaveas destinadas a expeimir um eonjunto de ensamentos que ele desea substituir por um outco Esta tatefa pode trazer a0 pensador uma satsfagio prematura Assim, o melhor & fazer como Woodbridge (1940, p. 11) quando, a propenito do seu lvro A Essay om Nature, escreveu que “naguilo que ‘screv fui profundamente sério, mas muitasvezes tive que sori das sminhas afiemagies cada ver que buscava professar com auroridade” A Critica DA GEOGRAFIA r Os Funpapores: As PRETENSOES CIENTIFICAS ln ina a lcm yi sinc lua Se gu or egraton lenin cen os ides era fn pen El fo: me wens Tends cm un mca propedal on iterasonaluma ama Secombate tue Eadvslriog ern sida xa Het Sn con fogla ands ce {lm as conten dor wcnoes dat sodes cota, ca lite te gute des PS se prop mtd pga ae hums es cai si ans ekg ec a. De fat, geografia ofa, foi "desde os seus comegos” mais uma ieologis que wma flsofia,¢ isso nio se dew apenas na Alemanha ‘mas um pouco pelo mundo inteir. Aliés,Dreschreconhece esse fato quando escrove que “desde suas oxigens, cla rexponde a uma ideologia rocessriamenteorintada”™ Que ideo & essa? Atosotocia on Geocnarin ‘A ideologa engendtada pelo eapitalsmo quando da sua implan ‘ago tinha que ser adequada is suas necesidades de expansio nos paises centras ena pesferia. Esse era um momento crucial em que urpia remediag, a0 mesmo tempo, o excesso de produgio © 0 exces 0 de capitis, bm como sopitar a5 crises sociais eeconémicas que sacudizam os paises interessados. Era necessirio, portanto, erae as condigdes para a expansto do cométcio. As necessidades em matérias primas da grande indisteia garantiam além-mar a abectura de minas «3 conguista de tras que eram também utlizadas para a producio de alimentos necessivios aos patses eno industrializados numa fase fonde a divsio internacional do wabalho ganhava nova dimensio. Era entioimperativo adaptaras estruturas espacial eecondmica dos paises pobres 3s novas tres que deviam assegurar sem descontinuidade A geograia foi chamada 2 representar um papel importante nessa sransformagio Diante da marcha tunfante do imperialism, os gebgrafos divi ‘am seus pontos de vista, De um lado, aqueles que Intavam pelo adver: to dem mundo mais justo, onde oespagoseria oxganizado como fi de oferecer ao homem mais igualdade e mais felicdade: so 05 casos, {de Elsée Rests ¢ Calle Vallaux. Seré que se pode também ineluir Kropotkineenteos que viam no espago uma das chaves da consteusio de uma nova sciedade? Nio importa que o principe anarqusta no tena sido ofcialmente um gedgrafo Por outeo lado, aqueles que preconizaram claramente 0 colonia lismo eo império do capital eaquees, mais numerosos, ques imag nando humanistas nfo chegaram a constrir uma ciéncia geogrfica conforme a seus generosos ancl. 1. tase cot gue © Sue (1951, 198 p18 pe Cail alla “| es mera saps aber eis se ab Nascda tardiamente como clénca oficial weograia eve dic dades para se desligay, desde o bergo, dos grandes intersse. Estes acabaram caregando-a consgo. Uma das grandes metas concituais da seografa fi justaments, de un lado, escondero papel do Estado bem como o das clases, na organizaio da sociedade edo espago A just Feativa da obea colonial foi um outtoaspecto do mesmo programs, AGrocearia Cononsat ‘A uilizagto da geografia como inserumento de conquista colonial ro foi uma orientagio isolada, p paises colonizadores, howve gedgrafos empenhados nessa taefa, re- cular a um pais. Em todos os adaptada segundo a condigdes € renovads sob novos ailicios ada vverque a marcha da Hstriaconhecia uma inlexto,Freemann (1961, 1-8) considera que existe mesma uma eelagio entre a expansio da _sografia a da colonizagfo!. O impeto dado &colonizagioe o papel nea representado por nossa disipina teria sido um fator de seu de- senvolvimento, A. Mabogunis,repatado geérafo nigerian insite (1975) ness fato, forgand a mio na apreciagio do papel dos ge raf franceses ese mostrando um tant distraide quando menciona ‘trabalho dos ingles ‘A prmeitacadeea frances de geograi,estabelecida em Pars em 1809 ¢vaga coma morte de A. Himly,coube a Vidal de La Bache em 1899, segunda citeda,criada em Paris em 1892, fia de geograia colonial, ocupada por M. Dubois. A segunda dessa mesma maria, «riada em 1937, fo ocupad por Charles Robequain. Outeascadeeas SA eden pea ue nompaves coon mos 9, MTUSTSSS asta y saa nde eon de ee re nat Desde que preciso separar as variveissgnfcaiva,tratase de a8 defini bem. Esta definigio no € feta fora do quadro de um jul mento de valor nem de uma posiao trea que implique uma escolha “Mas principalmenteem angio da realidad conereta seu movin to. E neste sentido que se pode falar de precedéncia do qualitative, Quando esta escolha é feta, pode-seentdo pasar a etapa reguite, 3 procura dos modos de contabilizae os fendmenos. Esta etapa torna-se indispensivel se se deseja apresenta resultados com wim minimo de rigor mas também para refinar a elaboragio de tears ‘Trabalhar em outra diregio equivale supressio do esforgo de considerarexplcages€ por iso mesmo climinas. nto condi se cai nos erros do pasado. B, Berry (1965) rconhece a impees indibilidade dos concetos quando se trata da utlizasdo dos métodos _quanstaivos. Mas uma cosa ¢ partir de coneetoselaborados a partir da eealidade conecetae outra coisa € a aplicagio de uma epstemo- Togia estereoripada, ideologica, onde os pardmetros procuram sua Tegiimidade em outros parimetios eno nas coisas e acontecimentos combinados, tl como se apeesentam objetivamente. A abordagem ‘quanstacvalevaria também construgio de modelos abstratos, perigo assinalado por J-O.M. Brook (1967, p. $0 e 105}. Na mesma ordem de zis, Elion Hurst (1973, p. 46) afirma que na paisagem a maior parte daguilo que € objeto de nossa expeiéncia no € susceptivel de andlise quantiatva ‘© Peeavo Maton (© nar pecado, entretanto, da imiulada geograia quantitativa que ela desconhece totalmente a existéncia do tempo € suas qual ddades essenciais A aplicagio corrente das matemdticas 8 geografia ‘ean }OM. Desk Deh permite trabalhar com estos sucesivs da evolugo espacial mas & Ireapar de dizer alguma coisa sobre o que se enconta entre um est fio outro, Temos, asim, uma reprodugio de estgios em sucesso, tas nunca a propria sucesso. Em otras palavras, tabalha-se com resuleados, mas os procestos si omitdos, 0 que equivale a diver que ts resultados podem ser objto no propriamente de interpretasio, mas de mistiliasio, ode-seconhecer wma coisa desconhecendo sua génese? O expaso io € 0 espago das ‘que a pengrafia matemitica pretende reproduzit ni & 0 espa fociedades em movimento esi a fotografia de alguns de seus momen ox. Ora, a Fotografias permitem apenas uma descrigio ea simples desctgao nto pode jamais ser confundida com a explicagio. Somente testa pode pretender ser elevada 20 nivel do trabalho cientifco 5 MOobELos £ SISTEMAS: Os EcossisteMas. AAsKust be ists aniline dos sistemas! preston grandes servigos 3s diciplinas cexatas para o progresso das quis ela contribuis. Hi pelo seo vinte anos também utiizada pela cigncias hurnanas. A geografia € dente clas talves skima 2 utlizarse dsse metodo? orp Sip al a ere suse decane era geal ors” Gin Kh The Gor ‘Siem tag Gn Stems, vl X. 1966 p29) ors ima see AD er ag “esion f SemGenna rn YMG Rha 5K Cut) 5 Maan, Seite Method Opn earch 1970, FF Emer i 2 rp dole Uso eopata erento Chi, 1 Choy “Gemorlo nd Geral Spe Ti” Pape 68 Gel Soe © espago, objeto essencial dos etudos geogificos, sndo conside ‘ado como um sistema, tado espago independente de sua dimensio, sezia assim susceptvel de uma anslise correspondents, Haveia assy, entre os diferentes espagos « 0s sistemas correlatos, uma especie de hirarquia isto contibuiria para explicar as localizages ¢ as pola- rizagbes. Para Chisholm (1967), 0s gedgrafos jéestudavam o espace em ‘ermos de sistema, apesar de fazé-lo sob difecentesdenominagdes. Ele rmenciona, por exemplo, 0s ciclos de eosio e as regides funcionas E outro gedgrafo, B.B. Rodoman (1972, pp. 114118; 1975, pp. 100- 105) mostra como esta forma de proceder j era conhecida na Unio Sovieica apesar de a expressio "sistema tritrial” ser recente’ ‘Ascidades eas redesurbanas slo também consieradas em termos de sistema. Para Brian Berry (1964, p. 148} "a ceoria urbana pode ser encarada como um aspecto da eoria geal dos sistemas”, Richard L “Meyer (1965, . 1) tema mesma opiniio; para ele “a cidade & um sis tema vivo, complexo e podemos estudar e analisar sus anatomia esa ‘composigo da mesma forma que em qualquer outro sistema viv [No se artigo clssio "City a8 Systems within Systems of Cities", Brian Bory esrevew 'os resultados precedentes apontam paca ums Airesio: as cidades e grupos de cidades sho sistemas suseptiveis do S00, rn ur "Cae Sytem Ci" Pp Reg Mgnt” Geopupist aah Jon 0, : Serio Giar Olen 97,3)" moo deep veer li, ‘brimacunacods console oma pcan rsp po Eee 961. rma Cy 6) Freee ‘ovtiena’ereabin A Chrome 1977p. 860 4. "Aquaman ee pede propre te eet sinamcnut en stp on done nese neon ‘Sip ca doen dev cag osiema ss i hs 966 p30) soins sa at se am ut om serene sce || Em rent, ‘ol dor mam popan oor ae ext seme mesmo spo de anslise que outros sistemas e caracterizados pels mes mas geeralizagies, constragbes e modelos (p. 158). 'A este respeito David Harvey (1969, p. 453) observa com uma 1 oop de sitemacnio em sites ei cours sien ot ania a a nfo | etn ea tat, Eno disarm [etawesemgucaleclvespetior ese un emena oi tema de one Sods mare, Na opinido de Fred Luckermann, “a gedpeafo deve conceber os pontos da ferea como partes de um sistema relacionado us 60m 05 Sutros, segunda diferntes nites de interasio em Abler, Adams & Gould, 1971, p. 54). Todavia, na alse de sistemas, ofa geogrtico esti contido na definigio de “elemento” outrora wilzada por David Harvey (1969, p. 452), st uma “unidade de base do sistema que de ‘um ponto de vista matemsticonio tem defsigio". Assim dizo mesmo Autor, “a anise matemtica dos sistemas pode ser fei sem que precise levar em consderagio a natureza dos elements”. Isto levaria, Sem dificuldade, a uma tautolgia “ utiizagio matemitica da teoria Gesistemas, para avoeae problemas substantivosdepende intensamente te nossa capacidade de of conceituaizar de forma a trats-os como, clementosem um sistema matemstico” (D. Harvey, 1969, p. 45) um beco sem sada. ‘Un sstema re define por um nulo, ums peiferia ea energia median ea qual as caracteitcas pioneiras elabocadase leclizadas no centro conseguem projetarse na periferia, qv ser entio modifiada por cl somentea patie deste esquema que seemos capazes de apreender sistematiament as articulagSes do espagoe eeconhecer a sua propria ratureza Isto deveriapossibilta a definigio, de maneizaexatae par ticlay, de cada pedago da ters. Cada sistema espacial eas lcalizage> corzespondentes aparecem, edo, como o resultado de um jogo de relagdes; a andlise ser tanto mais rigorosa quasto sejamos capazes de escapar as confrontagbes ene variivis simples que na matoria das veneslevam a andlsescausais ou a relagdes de causa eefeio que isolam artifcalmentecertasvarisveis eimpedem de abranger a rota Tidade ds inceragses, ‘Sempre um sistema substiui um outro porque o sistema espacial 6 sempre a consequéncia da projecdo de um ou vitos sistemas his- ‘éricos. Como o espago contém caracteriticas das diferentes idades das varives correspondiente, tal enfogue devevia permite ura in terpretaglo mais cuidadosa e mais sistemdtica das sobrevivencias e dss fils. problemas das relagdes entre 0 que éatual eo passado enconta riam entdo uma solu berm mais fil j& que eles sto estudados fora do quadeolinitado das histéxias particulars de cada varidvel. Com efeito, a evolucio do espago mio & 0 resultado da soma das historias de cada dado, mas o resultado da sucesso de sistemas. ‘A pautirdessa dic, o problema da esala do estado ganhs nov Aimensio. Se, por neesidades da anise, pode-se sempre lmitaewms «certa parte do espago, nfo se deve, por isso, imaginar que a anilise ciccunscrevaa ess eseala geografcns 0 contri, a escala do estado lrapass essa eseala “natural” cadaver que as vaniveis consideradas forem defnidas em celagio a sistemas de um nivel supeiog 0s Feosserenas Entre estas nova tendéncias considera frequentementeo spago em wexmos de ecossisterst AA primeira vista, poderse‘ia imaginar uma volta a uma aatiga orientagio, mais ou menos esquscid que foi chamada aos Estados Unidos de ecologia do homem e que pode ser assimilada 2 escola eu ropéia de geografa tegional. 4. Mepis Deb, “Organ dsr Gvgrihl Mes 196 aa MC 991, p57 anus despa dn tad a tiara ols cr so oa ot I ae uaa a ee © The 3 De ato, sio muito préximas entre si, pela dfinigio de suas tendén- cia. A geografia regional se interes pelo estudo das difeenciagdes spaciais por intermedio das interrelages entre os dados da natuteza as sociedades humanas. A ecologia humana ocupa-se de formas de adaptagio do homem aos diferentes meios eas eaizagbes materials que dai decortem. ‘A nogio de ecosstema renova até certo ponto estes pressupostos clentficos, mas os fundamentos mecodolégicossio diferentes, come ¢ando pelo fato de ltrapassa 0 quadro do estudo dos dados naturais {ais quais les so, Sem divida alguma, a nogio de ecossstema aplies- do explicagio do espago é, em part, fundamentada nos progressos previamenteeeaizados pelas dscplnas da ecologla natural. Se hi, porém, uma fillagao metodol6gza, 0 conteido é mais amp. [A nogio de ecossistema devia permit #incorporagio concom ante 8 andlise espacial dos subsistemashistricos ¢ dos subsistemas natura isto na medida em que, de um lado, as condiges natura ‘so uilzadas de formas diferentes pels soviedades humana em ead periodo histérco 6 do outro, pela prépria maturera que € transfor: mada pelo homemy isto & & medida que a histéra se desencola, os trupes humans sucessivos ae relacionam a um quadro natural jé modifcado’ Se 0 espago nio pode se defini pelasretagBes bilaeras entre © homem e 0s dados naturais, tampouco ele & resultado exclusivo 4 ago de flaxos econdmicos, como se a superficie da tera fosie 0 campo de aso de forgas de modelamento que no leva em conta as rgosidades, A vantagem oferecida por ests tentativa ¢ ser susceptive ‘meres pusinan 9 on date le ‘paid ude cmt nc ‘rsa detpsniyenaapaas opm snc ss ‘Sesctedeppone do sa sata fe he 9M ph de ultrapassar a objeglo que podera se levantada em um enfogue tevgréfico haseado unicamenteno principio delocalizagio, isto 6 ds ‘manira coma ele & compreendido pelos economisas | grande difculdade da tentatva regional do tipo eeol6gico ver ‘exatamente da impossibilidade de limitar a uma determina totaldade de fendmenos econémicos,socais ou politicos que a con cernem, mas cujaesala de ago ulrapassa ado lugar de sua maifes: {ago aparente ou fisiea. Toda vex que no houversemelhanga entre tes dove dados, a geografiacegional correo risco de rornarse mero ‘estudo de aspectos, uma pobre desrigio. Ora, na maria dos casos € ‘exatamente iso que acontec, Ssranas# Quawnsicagho A definigio de Reino Ajo mostra as ligagSes entre o enfoquesste- rmitico ea utiliza dos modelos matemiicos. No seu artigo “An AP- proach to Demogeaphical Systems Analysis", publcado em Economic Geography, vol 38, n° ele diz que apenas através do conheimento rmatemtico das equagBer que governam um sistema pode-se chepar 3 ‘spsificidade do sou comportamento. De acordo com V. Vaggaginie G. Demartis (1976, p, 126), uma das prandesfraqueras da andlise de sistemas vem do fto de que este asso, ao servigo do "método analitico quantitativo" no est 3 altura para autorizar que se levem em consideragio e que se analiser a8 re= lagies eetroaivas da forma ~ que els charnam “estrtura territorial” sabre os processes. Para i até af, 0 métod devia levarem conta a natureza das pr ras varsveis, ea propensio que clas tém para entra em combinagio sob condighesprecsas de tempo e espago. E neste sentido que a analise de sistemas de um lado € a aprox rmagio modelistcae quantitative do outa fembora uma no exclus a ‘outra) aparecem com crtafagilidade. (0 uso de modelos matemaiicosastciado 8 anise de sistemas tem provocade certo nero de observacdes. Uma delas vem da parte de {Gunnar Olson (1967) para quem “formulas matemétias similares podem ser aplicadas, sem problema, a fendimenos completamente dierent Em 1974 (p. 273) escreviamos que ‘afer E peo aber and como dei un ta Senso ca 3 NMaunce Gade 1972, 258), "um stem um pup de erature erie Poesia tosses ors defen por um roped nega, Soa, Hate, 1978, 7 A (0 uso da palava eda nogio de sistema como sinnimo de roa dade, implicita na obra de Montesquieu’ 0 &explicitamente na obra de outros. Para Marx, a defingio de sistema nio est longe da de ‘strutura ede totalidade. De acordo com a expicagio de M, Godelier (nox, 1966, p. $29), “um sistema [.] €uma combinagio determinada «de modos espeifcos de produsio, de circulagio, de distibuiglo ede consumo de bens materiis". A totaidade social € deinida a partir hep 7% 1 ri ous Cpe ep Geogr Umecudocampeoe se e193 Unie [9943] anea spac Gene Devido ao fato de quo principal iteressado neste mecanismo, ou seja, 0 suisito,& ao mesmo tempo um ser objetivo eum microcoxno, f encontro ene a objeivdade da coisa (ow a coika objetiiada) ¢ a Subjetividade de seu decifrador permite uma variedade de percepgdes ‘coisa permanece una total intact, mas as modalidades de sua per eps sio diversas, patcelars, reqlentementedeformantes. “Eu sou tum mundo" (o microcosm) iz Wittgenstein (1924, 1961, p. 117). A chamada geografia da percepeo limicou se a aprofundar a an lise das percepgbes dos objets geogrdficos,cobrindo-se na justiicagio de que as percepySet sao também dados objetvos, mas esqueceu de Tevar em conta duas coisas, De um lado, a percepsio individual nao & fo conhecimento; de outta forma, a coisa alo seria objetva ea propria teoria da percepgio seria incomplets, senio init. De outro lado, a ‘Simples apreensio da coisa, por seu aspect ou sua estrutura extern, nos dio objeto em si mesmo, o que ele apresenta mas no o que ele ‘Sh tansin em Pal Clone Bt ocho Ain Sly ee Lc Pa A {iesmindonpuandocy oe dct cnn ‘wadoeUndov eda Eons (Geran Wetstn,Jse Ret Lape, oi Va Fup or Copa Cnsen48,170 "Osten mis an con eens line sen tan hey p19 Pom oo epi ga ‘oun aii mn nyt i 8-0 pet acd “ree do ual como wae ce apo ser ndependente Be ¢ iero neyo slaeelp 3) face wept doawete psa “oman unndn any ese ude um stem (Erinn de cps ste cama abl jae apems sec vad por ana pcp represents, Ors, 0 objeto & 0 resultado de dterminagbes paralelas ‘oncomitantes da estrutura uae daideologi. Est, contida no objeto, € dada pelo funciona, simbdico Como W. Kaufmann escreveu (1966, p. 23), 0s partidirios do “conhesimentoimediato” sofrem de amnésa: o que eles alegam co- mhecerdeimediato g de ato, imediatizado por um process histérico ‘bem longo. O que agora aparece como auto-evidente ni era abvio no passado eo que parece simples é, na realidade,o resultado de um completo desenvolvimento “enterrado em simplicidade™. Livia de Olvera (1977) esti certa quando afirma que no se deve confundlr sensasSo epercepsio.E preci imediatamenteacresceatar ‘que também no se deve confundir uma ov ovtra com a realidade propria do objeto experimentado ou pereehido, Além disto, L de (Olivera escreve (p61) que “o canhecimento do munda fisico éanto perceptivo como representativo”. ‘Mas seu trabalho, rca de detalhes sobre os aspects propriamente boioligicos da questo, incluindo a da objetividade, esquece de men cionae que a ideologa la mesma, tio abjtiv como qualquer ost dado objetivo e participa, asim, da percengio, dando a coisa obser vada uma repeesenatividade atria, As experincias realizadss sem levarem conta ete problema razem, pois, ete pecado originale provam apenas que os objetosearregados de signficacio tansmitem ‘sta sigificagioa seus observadores. A dsfinigio de um objeto no se limita a “eeceber os dados sencorais transormé-los em dads recep- ‘vos. Impae-se também separar no objeto pereebido sua sgnficagio atribuida e sua sgnificago real [No sistema simbolico, escreve P. Fase (1976, p. 5) a elaboracio das respostasfundamenta-se estencialmente no emprego de simbolos ‘que so 0s insteumentos cuja combinatéra pecmite as operagées do . 122) chamou de “intelectual dandyem”, a procura de expicages superficiis encontradasa partir de uma compreensio pobre das dst- plina vizinas, Em realidade, para te sucesso antes de tudo preciso partie do propria objeto de nossa disipin,o espaco, tal como ele se presenta como um produto histric,e do das desiphnasjulgadas capazes de apresentar elementos para sua adequada interpretagi. 10 Uma Tentariva DE DEFINIGAO po Esrago tuando se est mais preocupado com a geograia em simesma | como cigniaformaizada epouco ou nada com aquilo que na realidade, seu objet de estud,owseja, oespago,corre'se0 randSrisco de cai no erro condenado por Durkheim (1898, 1962, . 18} em relagio 20s socidlogos do seu tempo, erro de trabalhar ‘mais ow menos exslusivamente com conceitos Jo que com coisas Dern Grooraris ov 0 Eseago? (© problema € aqui o da defingio do objeto de eada discptina 1 wnverso do saber. No caso da geografia, chegarse a eae objetivo presenta umm certo mimero deseo, mas nent én is grave que ‘o de confundi, nese exercicio reérico e metodelogic, a ciéncia ela mesma ¢ 0 s0u objeto. Quando, em 1925, De Martonne se ceferia aos lagos de nossa liscipina com os demais ramos do saber, fai, sobreudo, alusio 3s relagdes entre essasoutras cigncase a geograia, ao inv de preocu pase com as relages entre o objeto da geogralia, que & 0 espago, € (08 outeosaspectoscangiveis ou nd da reaidade socal. Ta posi conduz,necessariamente, a uma falsainterpetasao. O que se quer conheces, por intermédio das cincias pasiculares, slo o8 diversos aspectos da realidade que compete estudseglobalmente. E 0 eorreto conhecimento dos diversos aspects dessa eaidade que nos permite, um dado momento da evolugio do pensamento cientifco, defnir melhor cada aspecoe, paralelamente, toda a ralidade, Tal operasio 6 ems mesma, multipcadora, porgue cada nova sintese obs per: mite, gualmente, um novo avango no tabalha analitico «vice-versa Desgeagadamente, porém, de todas as dsciplinas soins, « goografs foi a que mais se atrasou na definigao do seu objeto e passou, mesmo, 2 negligenciar completamente esse problema, ‘Um dos gedgrafos mais influenes dos Estados Unidos peo vigor de sua vocagio como toSrco, Hartshorne (1939, p. 374), asseverou ‘que “a geografiadeveria set definida anes plo sew método proprio « particular de aproximagio ou de enfogue do que em termos do seo “objeto”. O geégrao francts Le Lannow fi mais lange pra afirman ct ‘egoricamente, que a geografia era unicamente “um ponto de vista Tal forma de definir (ou nfo definir) © campo de interesse da seografiainfluencio 0 julgamento de nossdssiplina por outros c= pecialistas. Em 1963, 0 gedlogo P. Rat, escrevendo sobre a geograia, lisse o seguince:“podese dizer que ne hi fatosgeogrficos, mas una ‘maneira geogrdfica de considera cada conjunto de fatos™. Mas hi os ‘que, como C. R. Dryer pensam em rermos de distibuicdo das coisas Sobre a face da terra mas também no seu contexto (ver Freeman, 1961, p. 70, ‘A muliplicidade de defniges da geograia est, assim, longe de siudar o seu proprio desenvolvimento. F. Lukermann (1964), por ‘exemplo, penst que nemo conteido nem 0 método sio coisa impor antes e que a geogeafia se define peas quests que coloca[citado por ‘Minshull, 1970, p. 11). Esas quests seriam, para o gebgra inglés ‘Cements Markham (1905, p. 58) a5 seguintes: “Onde est ito? Que «sto? Quando isto se pastou?"? Reproduzi uma lista de defnigies da geografa€ sempre cans ‘vo, talvercontraprodacenel Sema cic se define por seu objeto, sem sempre a definigio da diciplina leva em conta ese objeto. Este 6 partiularments, © ‘ago € una forma de percepsa0 afirmar, como Bertrand Russell 0 fez (1948, 1966, p. 234), que “o espago untirio do senso comumn & uma constugio, emboca ce sea uma construgio deliberada", Mas 0 rane filosofo inglés ests se referindo & representasSo do espaso no espitto de cada um. Quando, porém, crata-se do espago das coisis, 0 espago fico, sua compreenso, segundo Casier (1957, vo. 3, p- 145) se faz pela ‘eunido de dados particulars que provém dos nossos sentids, de sua comparagio e da consragio que sus correlagao torna possivel. Esse ‘expago seria um esquema inteletual constrado, mas pode também teatarse do espago da geomeria pur, earacterizado por qualidades como “a constinei, a infnidade¢ a uniformidade” Quando 20 espago humana, ele & diferent. Hrcxt € 0 Esrsco Para alguns, Hegel pode se incluido a lista daguees para quem 0 espago existe, antes do mais, em nosso pensamento. Esa leita do fundador da daletica moderna &, por exemplo,a de Sholomo Avines Para est autor no érelevanteo fato de haver Hegel inluidoa nature ‘a inanimada em su sistema dialtico, pois pata ele a natuteza const ‘uma auto-alenasio (1970, p. 65). No sistema hegeiano, a natureza “no sera um sujet, mas apenas um predicado do pensamento € 0 espinto debrucado sobre si mesmo devera emergi ds abstagio exo narseobjeificado”, escreveAvineri (1970, pp. 11-12). A objetivagion esse espirito seria dada exatamente por intermédio da natrera Essa leiura de Hegel por Avinerié também, sob cetos aspectos, uma tletura de Mars, quando este interpreta Hegel. Quando Hege! admite que aeragio do homem se fee pela modifcagso de suas els ‘hes com a naturera, Marx condena essa idea que, alii 150 prixima 4a ua, alegando que Hegel epinitaaliza o homer ea naturea erediz 4 binéria ea propria vida a nivel de wm conceit, No trabalho de A. Cornu (1945, p,S} onde encontramos essa observasio, vem reprodu sido aquele pensamento do fundador do marxismo, segundo 0 qual ‘para chegara uma concepeio exata do homem, da aatureza, de suas relages,impde-seconsderilos em sua naturezaconcreta™ No capitulo consagrado 3s bases geogeicas da histéria em sua Flosofia do Dirsto flsofo ale faz cferéncias a0 solo, a0 cima, 4 situag do diteito passa pela anise do seu conteido no qual, ao lado do oografca. Nesse mesma livo € dito que “a compreensio carter nacional paetiular a cada povo e do seu estigio proprio de desenvolvimento histrico, incluse 0 complexo total dasrelagbes que tm por hase 38 necessidades da nature” Tambsm em seu Vermunf der Geschichte (Hamburg, 1955, p 187), Hegel esreven que™.-ocontesto natural simplesmente a base cografea da histria universal eno, em primero haga, a peecondh ‘30 objetiva do trabalho social ermbora a eases de trabalho possim ser encaradas como wm reflex do contesto natural”. Hegel tera mesmo admiido que a natureza existe por ela mesma, como um objeto. “0 sol a lua, as montanhas, os tos ¢ os objetos rnatues de todo tipo que nos rodeiam existem” (1942, 1966, p. 166). (Quando ulizamos um instrumento de trabalho ou tomamos gua de 1. Atos, al da Safa desea de He pnd Kaos um io, que fazemos €reconhece, sem poder anulio,o carter pare ticular do bjeto que serve & nossa fnaidade. Nox econhecemos assim «qe se trata de um objeto e avaiamos at que ponto sua existéncia € auténoma” (Knox, 1942, 1962, p. 346, 146). Todavia, quando se trata de descobri finalidade da natarers como uma cago divina”, tla deixa de existe deforma auténoms e depende da Ida para sua construgiofloséfca (Hegel, 1942, 1962, p. 348) Para Hegel, a natureza sera, enfim, 2 objetificagzo do esprito, Seguindo o caminko apontado por Feuerbach. Mas vines (1970, p. 12) interpreta essa posgio como se ea levasse Hegel a iro mais longe posivel cm materia de abstagio" 0 Fseaco, ust RerLex0? Em sua Phisologa (Pars, 1637) Campanella considera que Deus 110 espago como uma “eapacidade”, um reeepticulo para os corpes. “Locum dico substantiam primam incorpoream, inimobilers, ‘pram ec eceptandum anne corpus.” Essn concepg30¢préxima da de Kant, quando ese fildsofoalemsio double de geografo, em sua Critica