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Equilíbrio Ácido- Básico

O Papel dos Rins

O organismo produz diariamente 80 mEq (50 a 100 mmoles/dia) de ácidos não


voláteis (não excretáveis pelos pulmões), principalmente a partir do metabolismo das
proteínas. E cerca de 15 a 20 moles/dia de ácidos voláteis.
O mecanismo primário para a remoção desses ácidos não voláteis é a excreção
renal. Entretanto o controle preciso das concentrações de íons H+ no Líquido extracelular
(LEC) envolve mais que a simples eliminação desses íons pelos rins, como mecanismos de
tamponamento ácido-básico envolvendo o sangue, as células e os pulmões, que são
essenciais à manutenção das concentrações normais dos íons H+, tanto no Líquido
intracelular (LIC) quanto no LEC.
A concentração de íons H+ nos líquidos corporais é normalmente mantida em nível
baixo, em comparação aos outros íons.
[H+] 40 x 10-9Eq/l ou 40 nEq/l
O íon Hidrogênio é um próton livre liberado a partir do átomo de Hidrogênio, as
moléculas que contém átomos de Hidrogênio são capazes de liberar íons Hidrogênio e são
denominadas ácidos.
Ex: HCl se ioniza na água e libera H+ e Cl-.
H2CO3 se ioniza na água e libera H+ e HCO3- .
Uma base é um íon ou molécula que pode aceitar um íon H+.
Ex: HCO3- é uma base visto que pode combinar-se com o H+ e formar o H2CO3.
HPO4-- é uma base visto que pode combinar-se com o H+ e formar o H2PO4--.
As proteínas também funcionam como base, visto que alguns aminoácidos têm
carga negativa e prontamente aceitam íons H+.
A Hemoglobina nos eritrócitos e as proteínas em outras células estão entre as bases
mais importantes no corpo.
O termo base é freqüentemente é utilizado como sinônimo do termo álcali, que é
uma molécula formada pela combinação de um ou mais dos metais alcalinos (Sódio,
Potássio e Lítio) com um íon fortemente básico como o íon hidroxila (OH-).
A porção básica dessas moléculas reage rapidamente com os íons H+ para removê-
los da solução.
Alcalose refere-se a remoção excessiva de íons H+ dos líquidos corporais.
Acidose refere-se a adição excessiva de íons H+ nos líquidos corporais.
Distúrbios ácido-básicos metabólicos resultam da mudança na [HCO3-].
Distúrbios ácido-básicos respiratórios resultam da mudança na pCO2.
Ácido forte: rapidamente se dissocia e libera grandes quantidades de H+ na solução,
ex: HCl.
Base forte: reage rapidamente e fortemente com o H+ e remove ativamente íons H+
da solução, ex: OH- forma H2O.
Ácido fraco: libera íons H+ com menor intensidade, ex: H2CO3.
Base fraca: liga-se mais fracamente com o H+ do que a hidroxila, ex: HCO3-.
A maioria dos ácidos e bases no LEC que estão envolvidos no controle ácido-básico
são ácidos e bases fracas (H2CO3 e o HCO3-).

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pH dos Líquidos Corporais

Concentrações extremas de íons H+ podem variar desde 10 nEq/l a 160 nEq/l sem
causar a morte. Como a concentração de íons H+ é normalmente muito baixa, se costuma
expressar esta concentração em escala logarítmica, utilizando-se as unidades de pH, que
está relacionado à verdadeira concentração de íons H+.
pH = log 1/ [H+] = - log [H+]
A partir desta fórmula podemos verificar que o pH esta inversamente relacionado
com a concentração de íons H+, pH baixo = alta concentração de íons H+ e um pH alto =
baixa concentração de íons H+.
Os limites de pH compatíveis com a vida são 6,8 e 8,0.
A necessidade de ajuste nestes limites é devido a influencia do pH na atividade
enzimática, no funcionamento cardíaco e oxigenação tecidual.
A faixa normal de variação do pH sangüíneo é de 7,37 a 7,42.

Tampões, Pulmões e Rins

Existem 3 sistemas primários que regulam a concentração de íons H+ nos líquidos


corporais para evitar o desenvolvimento de acidose e alcalose:
1. Os sistemas químicos de tampões ácido-básicos dos líquidos corporais (primeira
linha de defesa contra as variações de pH)
2. O centro respiratório
3. Os rins.

Tampão

Qualquer substância que pode ligar-se reversivelmente aos íons H+. Ácido fraco e
sua base conjugada e uma base fraca e seu ácido conjugado.

TAMPÃO + H+ TAMPÃO H

Sistema tampão bicarbonato: ácido fraco e sal bicarbonato

1) ácido carbônico

CO2 + H2O H2CO3 H+ + HCO3 -

* anidrase carbônica
* Enzima presente nas células alveolares pulmonares, células tubulares renais,
hemácias.

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Tampão Bicarbonato

NaHCO3 (sal Bicarbonato de Sódio)

Na HCO3 Na+ + HCO3 -

Considerando-se todo o sistema

CO2 + H2O H2CO3 HCO3 - + H+


+

Na

Adicionando-se ácido forte, ex: HCl eu desvio a equação para a esquerda,


adicionando-se base forte (NaOH), a equação é desviada para a direita.

CO2 + H2O H2CO3 HCO3 - + H+


+ NaOH + Na

Equação de Henderson-Hasselbach

Fornece a relação matemática definida entre a proporção das concentrações dos


elementos ácidos e básicos de cada sistema tampão e o pH da solução.
Com ela se pode calcular o pH de uma solução se forem conhecidas a concentração
molar de íon Bicarbonato e a PCO2.
pH = 6,1 + log HCO3-
(0,03 x pCO2)

Tampão Fosfato

H2PO4- e HPO4 --

ácido forte -> HCl + Na2HPO4 NaH2PO4 + NaCl


base forte -> NaOH + NaH2PO4 Na2HPO4 + H2O

Importante tampão nos líquidos intracelulares visto ser a concentração de fosfatos


nestes líquidos maior que no LEC.

Proteínas

As proteínas são os tampões mais abundantes do organismo em virtude de suas altas


concentrações, especialmente no interior das células.
Nos eritrócitos a hemoglobina é um importante tampão H+ + Hb HHb

Regulação Respiratória

É o controle da concentração de CO2 do LEC pelos pulmões que por sua vez
diminui a concentração de íons H+.

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O CO2 é produzido constantemente pelas células devido aos processos metabólicos,
se difunde das células para os líquidos intersticiais e daí para o sangue, onde é levado aos
pulmões para ser trocado e eliminado na atmosfera.
Em média existem 1,2 mmol/l CO2 dissolvidos no LEC, o que corresponde a pCO2
de 40 mmHg. Se a produção de CO2 aumentar eleva a pCO2, se ocorrer redução metabólica
a pCO2 diminui. O aumento da concentração dos íons H+ estimula a ventilação alveolar.
Sistema de feedback negativo, eficiência de 50 a 75%, resposta observada em 3 a 15 min.
Se a produção metabólica de CO2 permanecer constante o único outro fator capaz de
afetar a pCO2 é a ventilação alveolar. Quanto mais alta a ventilação alveolar, menor pCO2 e
quanto menor a ventilação alveolar maior a pCO2.

Controle Químico da Respiração

O objetivo final da respiração: manutenção dos níveis de O2, CO2 e H+ nos tecidos.
O excesso de CO2 e H+ no sangue exerce ação direta no centro respiratório,
intensificando os sinais motores tanto inspiratórios como expiratórios (músculos).
O2 não exerce efeito direto (atua em quimiorreceptores periféricos - corpos
carotídeos e aórticos); níveis de pO2 < 70 mmHg (60 para 30).
Resposta dos neurônios quimiossensíveis aos íons H+, que não atravessam
facilmente a barreira hematoencefálica.

Efeito do CO2 sangüíneo sobre a estimulação da área quimiossensível:

CO2 + H2O H2CO3 H+ + HCO3-

O efeito estimulador do CO2 é diminuído após 1 a 2 dias (intenso nas primeiras


horas declina gradualmente, diminuindo 1/5 efeito inicial).
A capacidade global de tamponamento do sistema respiratório é 1 a 2 vezes maior
que os tampões químicos. Anormalidades respiratórias podem causar mudanças nas
concentrações de íons H+, levando a acidose respiratória.

Controle Renal

Os rins controlam o equilíbrio ácido-básico ao excretarem urina ácida ou básica.


Os rins desempenham papel chave na regulação dos íons H+.
Os rins impedem a perda de Bicarbonato na urina, cerca de 4320 mEq de
Bicarbonato por dia são filtrados em condições normais, e quase todo ele é reabsorvido.
Os 80 mEq de ácidos não voláteis produzidos diariamente principalmente a partir do
metabolismo das proteínas são excretados pelos rins.
Cerca de 4400 (4320 + 80) mEq de íons H+ devem ser secretados diariamente no
líquido tubular.
Na alcalose ocorre a redução dos íons H+do LEC, os rins são incapazes de
reabsorver todo o HCO3- filtrado, aumentando assim a excreção de HCO3-, esta perda de
HCO3- eqüivale a adicionar íons H+ ao LEC.
Na acidose os rins não excretam HCO3- na urina, mas reabsorvem todo o HCO3-
filtrado e produzem novo HCO3-, que é devolvido ao LEC.

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Os íons H+ não são em sua maior parte excretados como íons livres, mas sim em
combinação com outros tampões urinários como o fosfato e a amônia.
Os rins controlam a concentração de íons H+ do LEC através de 3 mecanismos
básicos:
1. Secreção de íons H+
2. Reabsorção dos íons HCO3- filtrados
3. Produção de novos íons HCO3-.

A secreção de íons H+ e reabsorção de Bicarbonato ocorrem em todas as partes dos


túbulos, exceto nos ramos delgados descendente e ascendente da alça de Henle, mas cerca
de 80 a 90 % ocorre no TCP.
A cada Bicarbonato reabsorvido, é necessária a secreção de um íon H+.
As células epiteliais do túbulo proximal, segmento espesso da alça de Henle e
túbulo distal secretam íons H+ através do contratransporte de Na+-H+.
Íons HCO3- são titulados com os íons H+ nos túbulos.
No excesso de íons HCO3 - em relação aos íons H+ (alcalose metabólica), o excesso
de íons HCO3 - não podem ser reabsorvidos e então são excretados na urina.
Na acidose o excesso de íons H+ , provoca a reabsorção completa de íons HCO3 -
enquanto que o excesso de íons H+ passa para a urina (tamponados pelos íons fosfatos e
amônia e excretados como sais).
Células intercaladas no túbulo distal final e coletor secretam íons H+ por transporte
ativo primário.
Bomba ativa é responsável por 5% do total de íons H+ secretados, mecanismo
importante na formação de urina maximamente ácida.
Quando ocorre secreção de íons H+ em quantidades superiores ao HCO3 - apenas
pequena parte desses íons pode ser excretada na forma iônica (pH mínimo da urina é de 4,5
= [H+] 0,03 mEq/l).
Os íons H+ são excretados com os tampões no líquido tubular.
Os tampões mais importantes são os tampões fosfato (HPO4 -- e H2PO4 -) e amônia.
Sistema tampão fosfato transporta o excesso de íons H+ na urina e gera novo HCO3 -.Toda
vez que H+ se ligar com um tampão diferente do HCO3 - o efeito final consiste na adição de
novo HCO3 - ao sangue.

Tampão Amônia

O sistema tampão amônia (NH3) e o íon amônio (NH4) são os mais importantes do
ponto de vista quantitativo (o fosfato é reabsorvido e apenas 30 a 40 mEq/dia são
disponíveis para o tamponamento dos íons H+).
O íon amônio é sintetizado a partir da Glutamina (transportada ativamente para o
interior das células epiteliais dos túbulos proximais, ramo ascendente espesso da alça de
Henle e túbulos distais).
Cada molécula de Glutamina é metabolizada para formar dois íons amônio (NH4) e
dois íons HCO3-.
O NH4 é transportado por mecanismo de contratransporte em troca do Na+ e o
HCO3- é reabsorvido pelo sangue - novo HCO3-.

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O aumento na concentração de H+ LEC estimula o metabolismo da Glutamina e,
portanto aumenta a formação do NH4 e de novo HCO3 - para serem utilizados no
tamponamento dos íons H+.
Os estímulos mais importantes para aumentar a secreção dos íons H+ pelos túbulos
na acidose são:
1. Aumento da pCO2 no LEC
2. Aumento da concentração de H+ no LEC (pH baixo).

Causas Clínicas dos Distúrbios Ácido-Básicos

Acidose respiratória: lesão bulbo, obstrução das vias aéreas, pneumonia extensão ou
doença que diminua a área de superfície da membrana pulmonar, ou qualquer fator que
interfira na troca de gases entre o sangue e o ar alveolar.
Alcalose respiratória: ventilação excessiva, raramente de causas físicas, psiconeurose,
subida a altas altitudes (alcalose respiratória leve).
Acidose metabólica: incapacidade dos rins de excretar ácidos metabólicos do organismo,
perda de bases dos líquidos corporais; diarréia intensa (bicarbonato nas fezes), diabetes
mellitus descompensado (ácido acetoacético e Betahidroxibutírico); insuficiência renal
crônica.
Alcalose metabólica: excesso de aldosterona; vômitos do conteúdo gástrico apenas, ingesta
de fármacos alcalinos (Bicarbonato de Cálcio).

Análise da Urina

A análise do volume e das propriedades física, química e microscópica da urina,


chamada de análise de elementos anormais e sedimento (EAS), revela muito sobre as
condições do corpo.
As principais características são: volume, cor, aspecto, odor, pH e gravidade
específica (densidade).
A água responde por 95% do volume total de urina e os 5% restantes consistem em
eletrólitos, solutos derivados do metabolismo celular e substâncias exógenas, tais como
fármacos.

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