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Ni Aut Tin ‘ham. tor: tulo: Professora do Departamento de Historia da Universidade de Sao Paulo, Mary Del Priore acompanha neste livro as trans- formagées ocorridas no corpo das brasi- leiras ao longo da nossa histéria. Com bom humor e muita informacao, defende a idéia de que a historia das mulheres passa pela historia de seus corpos. Corpo a corpo com a mulher, segundo livro da Série Ponto Futuro, é uma contribuigao do SENAC de Sao Paulo ao conhecimento da condi¢do feminina no Brasil de hoje. : 305.4 D363 Del Priore, Mary, 1952- Corpo a corpo com a mulher : pequena 2448289 37196 N* Pat 70294 Ex UDESC CEART 4 Mary Del Priore Cet eRe LT 3054 Pequena histéria das transformacoes do corpo feminino no Brasil corfoRA “ADMINISTRAGAO REGIONAL DO SENAC NO ESTADO DE SKO PAULO Presidente do Consetho Regional: Abram Szajman Diretor do Departamento Regional: Luiz Francisco de Assis Salgado Superintendente de Operacdes: Darcio Sayad Maia EDITORA SENAC SAO PAULO Consetho Editorial: Luiz Francisco de Assis Salgado (Clairton Martins Luiz Carlos Doursdo Dario Sayad Maia ‘A. P. Quartim de Moraes Editor: A. P. Quartim de Moraes (quartim@ sp senac.br) Coordenagdo de Prospecedo Eilorial: abel M. M. Alexandre (jalexand@sp.senac:br) Coordenagdo de Producdo Editorial: Antonio Roberto Bertli (abertell@ sp.senac.br) Revisdo de Texto: Mércio Della Rosa Marisela S. da Nobrega Roberta Straciesi Silvana Vieira Ediworagiia Eletrinica: Antonio Carlos De Angelo Fabiana! Femandes Capa: Jodo Baptista da Costa Aguiar Geréncia Comercial: Marcus Vinicius Baril Alves (vinicius@ sp senac:br) Vendas: José Carlos de Souza I. Air @sp senac:br) Administragdo: Rubens Gongalves Fotha(rfotha@ sp-senac-br) ————————— STAOBRA FOICOMPOSTA PELA EDITORA SENAC SAO PAULO EM GARAMOND FIMPRESSA PELA LIS GRAFICA E EDITORA LTDA. EM OFFSET SOBRE PAPEL ‘CHAMBRIL BOOK NB. 90 G/M? DA CHAMPION S.A. EM JANEIRO DE 2001 ‘Todos 08 direitos desta edigto reservados 8 Editora SENAC Sto Paulo Rua Rui Barbosa, 377 ~ 1* andar ~ Bela Vista - CEP 01326-010 Caixa Postal 3595 ~ CEP 01060-970 ~ Sio Paulo ~ SP 187-1615 / 284-7957 | 251-5876 / 251-5562 289.9634 E-mail: eds @sp senac.br Home page: hitp-/iwww.sp-senac-br (© Mary Del Priore, 2000 | | Nota do editor Introdugio Corpo e imagem do corpo no passado ‘Abelezae suas zonas de sombra Conelusio Cronologia Glossério Bibliografia comentada Este livro édedicado as minbas amigas que vive bem com seus corpos: Camila de Souza Moraes, Celeste Marchese, Dirce de Sé Freire Costa, Hilug Del Priore, ‘Laura de Melo e Souze, Regina Wanderley. me eS crm Faxer-se bela, ser viulher Sobre a cera dos corpos femininos, o século XI vai imprimindo suas primeiras marcas. Produto social, produto cultural ¢ histéri- co, nossa sociedade os fragmentou e recompés, regulando seus uusos, notmas e fungdes. Nos iltimos anos, a mulher brasileira viveu diversas transformacées fisicas. Viu ser introduzida a higie- ne corporal que, alimentada pela revolugao microbiol6gica, trans- formou-se numa radicalizacio compulsiva ¢ ansiosa. Acompa- nhou a invencio do batom, em 1925, do desodorante, nos anos 50, cortou os cabelos a /a garyonne, gesto sacrilego contra bastas cabeleiras do século XIX. O aprofundamento dos decotes levou- aaaderir a depilagao. O espartilho, gracas ao trabalho feminino nas fabricas, diminuiu e se transformou em soutien para possibili- tar uma maior movimentagio dos bracos. “Manter a linha” tornow- se um culto. A magreza ativa foi a resposta do século 4 gordura passiva da belle époque. O jeans golado ¢ a minissaia sucederam, nos anos 60, a0 etotismo da mao na luva e das saias no meio dos Nos anos tzinta, of cabelos a la gersonme, cobertos com 0 chapéu as atengdes masculinas. O batom vermell dava 0 toque fi ‘cena eaprurade por Di Cavalcanti Masp, Sio Paulo. tomozelos caracteristicos dos anos 20. Com o desaparecimento da luva, essa ay surgin o esmalte de unhas. pa sensual que funcionava ao_mesmo tempo como freio ¢ estimulo do desejo, No decorrer do século XX a mulher se despiu, O nu, na midia, nas televises, nas revistas e nas praias, incentivou o corpo desvelar-se em piblico, banalizando-se sexvalmente. A solugio foi cobri-o de cremes, vitaminas, silicones ¢ colégenos. A pele tonificada, alisada, imps, apresenta-se idealmente como uma nova forma de Pi ssimenta, que nfo entuga nem “amassa” jamais. Uma estética esportiva votada we culto do corpo, fonte inesgotavel de ansiedade ¢ frustragio, levou a melhor pre a sensualidade imaginiria ¢ simbolica, Diferentemente de nossas avés,nio hos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da desgraca da rejeigio social, Nosso tormenta nao €0 fogo do inferno, mas a palanca e o espelho. “Liberar-se”, contrariamente a0 que queriam as feministas, jornou-se sindnimo de lutar, centimetro por centimetro, contra a decrepitude fatal, Dectepitude, agora, culpada, pois o prestigio exagerado da juventude tornou avelhice vergonhosa. © corpo feminino passou também por uma revolusao silenciosa nas liltimas trés décadas, A pilula anticoncepcional permitiu-Ihe fazer do sexo nfo mais uma questio moral, mnas de bem-cstar e prazer. A mulher tornou-se, assim, mais exigente ¢m relagio ao seu parceiro, vivendo uma sexualidade mais ativa ¢ prolongada. Entre ambos, surgiram notmas ¢ praticas mais igualititias. A corrente de igualdade niio varreu, contudo, dissimetria profunda entre homens ¢ mulheres na atividade sexual, Quando da tealizacio do ato fisico, desejo ¢ excitagao fisica continuam percebidos como dominio e espago de responsabilidade masculina. O casal rara- rerate reconhece a existéncia €a autonomia do desejo feminino, obrigando-o a teconder-se atris da capa da afetividade. A famosa “pilula azul”, o Viagra, s6 yeio a reforgar 0 primado do desejo masculino, explicitando uma visio fisicae mecanicista do ato sexual, reduzido ao bom funcionamento de um tinico érgio, Revanche masculina contra o “dominio de si” que a pilula anticoncepcional deu a mulher? Talvez... O espago privado no qual tais mudangas se impuseram também mudou. A bra- sileira saiu do campo e veio para a cidade. Teve que mudar 0 corpo e a alma. Em meio solidao da grande cidade, ao transito, a corrida contra o rel6gio, aprendeu a sonhar com a emogio do sentimento sincero, com o fantasma da interagio transparente ¢ fusional.(Leu preferencialmente romances ¢ livros de auto-ajuda, sempre 4 espera de um principe encantado que a levasse de volta ao século passado] Mas aprendeu também que, neste mundo de competicio ¢ trabalho, os sentimen- tos intensos demais provocam horrivel embarago ¢ que as lagrimas ¢ a dor devem submeter-se 4 implacvel discricao afetiva; a um tal de seff-control, Sob 0 choque ‘da modernidade capitalista, cla viu igualmente a familia se modificar. A crescente dissolugio de casamentos que duram cada vez menos, o aumento de divércios que nao impedem ninguém de recomegar novamente, constituiram-se em novo cenario para as relagdes afetivas. B o fim de um mundo constituido por vastas parentelas, familias enormes, sobrinhos ¢ afilhados reunidos nos domingos para © almoco, ondé residem tensdes mas também, ¢ sobretudo, solidariedades. Ocupando cada vez mais os postos de trabalho, a mulher vé-se na obrigacio de buscar um equilibrio entre o piiblico ¢ 0 privado. ‘Tarefa facil? Nao. O modelo que lhe foi oferecido como exemplo, até bem pouco tempo atrés, eta o masculino, O modelo feminino da supermulher dos anos 80, calcado sobre um modelo de forte investimento profissional ¢ de competicao, era o de “um homem como nés”, como diriam alguns patrdes. Mas a executiva de saias no deu certo. Isso porque sio intimeras as dificuldades e os sactificios da mulher quando ela quer conciliar seus papéis familiares ¢ profissionais. Ela é Shamam de “dobtadinha infernal”. A carga mental em que se constituem as fmbricacdes € sucessdes de atividades profissionais, o trabalho doméstico ¢ a tducacio dos filhos so mais pesados para ela do que para o homem. Quando quet investir-se profissionalmente, cla acaba por hipotecar sua vida familiar ou tsar todo tipo de astuciosa bricolagem, sacrificando o tempo livre que teria para seu prazere seu lazer e que poderia estar sendo vivido na esfera doméstica. Mui- fas mulheres, menos afortunadas, sio assim empurradas para uma pesadissima jornada de trabalho. O diagndstico das revolugées femininas até 0 século XX é, por assim dizer, ambi- goo, Ele aponta para conquistas, mas também para armadilhas. No campo da apa- x encia, da sexualidade, do trabalho ¢ da familia houve conquistas, mas também frustragSes. A tirania da perfeicdo fisica empurrou a mulher nao para a busca de uma identidade, mas de uma identificacio. A revolugio sexual eclipsou-se frente aos riscos da aids/ A profissionalizacio, se trouxe independéncia, trouxe também estresse, fadiga ¢ exaustio, A desestruturagio familiar onerou sobretudo os depen- dentes mais indefesos: 0s filhos. Nossa sociedade — nfo é a tinica, é bom que se ddiga—_mira cada vez mais nos valores de juventude € progresso. Ao mesmo tempo que se reconhece a importincia da satide como fonte de prazer, ea medicina tem feito intimeros avancos para nos prover com bem-estar, todos os esforcos sio investidos para dissolver a velhice. Para reduzi-la. O aumento da esperanca de vida tomnou-se um problema, pois as mulheres no querem mais “envelhecer”. Elas negam-se a mudar, a transformar-se. Como lidar com essas tenses? Este livro tem por objetivo resgatar uma parte dessa trajet6ria. A idéia que 0 conduz Ede que a historia das mulheres passa pela historia de seus corpos. Sexo belo ou 14] sexo frigil, tais denominagdes vinculam-se as imagens que nose sociedade fez dele, ade cua beleza ou de sua sade, No passado, 0 corpo da mulher, como vitetibe sdliante, era visto com as marcas da exclusio e da inferioridade. Cristalizada pelas formas de pensar de uma sociedade masculina, a evocagao das imagens do corpo eda identidade feminina, na pluma de diferentes autores, apenas refletia subordinacio. {Um exemplo? Segundo os médicos setecentistas, 0 CO“PO feminino era menor, seus ossos pequenos, suas carnes moles ¢ esponjosas, seu cariter débil. A subordinagio th mulher expressava-se, ainda, na sua capacidade de reproduzit, quando solicitada pelos homens. Contudo, na outra ponta dessa submissio, a mulher era senhora de heleza e sensualidade. Beleza considerada perigosa, pols capaz de perverter os omens. Sensualidade mortal, pois comparava-se a vagina a um Pogo FN fando, no qual o sexo oposto naufragava. As nogoes de feminilidade e corporeidade sempre estiveram, portanto, muito ligadas em nossa cultura. Hoje, depois de séculos de ocultagao, nossa sociedade livrow sf de uma verdadeira sacralizagio dos corpos. A higiene ¢ o esporte primeiro reabilitaram os corpos vracculinos; mas as mulheres rapidamente seguiram os homens. Em nostoe dias, a identidade do co#po feminino corresponde ao equilibrio entre & triade beleza- satide-juventude: As mulheres cada vez. mais so empurradas a identificar a beleza de seus corpos com juventude, a juventude com satide, O interessante — diz 0 antropélogo Bruno Remaury— é que essas sio basicamente a8 trés condicdes cul- tarais da fecundidade, portanto, da perpetuacio da linhagem. Em todas as cultu- vas a mulher é objeto de desejo. Em pouquissimas, esse desejo estaria dissociado de sua aptidio para a maternidade. Daia valorizagio dos quadris femininos, ber- go sementeira da raga humana, Ora, assim sendo, nfo deixa de ser cutioso constatar ee + Bruno Remaury, Le beau se ‘Faible~ eimager cd corps fein nie csmitige et santé (Pa Grasset, 2000). que, numa sociedade na qual as mulheres, gracas aos contraceptivos, aie gole de sua sexualidade, o modelo resultante de tantas mudangas nio trouxe is novidades. E piot: a redugio brutal dos quadris associada ao consumo de pilulas anticoncepeionais nio mudou, sob certos aspectos, sua situagioMesmo P mando posse do controle de seu corpo, mesmo regulando 0 momento de eneeber, a mulher nao esti fazendo mais do que repetit grandes modelos teadicionais,Ela continua submissa. Submissa no mais as miltiplas gestacdes, mas di riade de “perfeigio fsica”. A associagao entre fas sociedades ocidentais, aliada as priticas de aperfeigoamento do corpo, satensificou-se brutalmente, consolidando um mercado florescente que comporta jndstrias, linhas de produtos, jogadas de marketing © espagos as midias. A jntensificagio desse modelo corporal é tio grave, que suas conseqiiéncias na forma te técnicas € praticas vém sendo largamente discutidas por socidlogos € historiadores. A pergunta que ainda cabe é: que tipo de imagem preside a ligacio emere as mulheres ¢ essa triade? Foi sempre assim? O que mudou? O interesse dessas perguntas € que a imagem corporal da mulher brasileira esta longe de desembaracar-se de esquemas tradicionais, ficando longe, portanto, da propalada liberagao dos anos 70. Mais do que nunca, a mulher softe prescrigdes|Agora, nao mais do marido, do padre ou do médico;mas do discurso jornalistico € publicitario que a cerca, No inicio do sécul XX1, fomos todas obrigadas a nos colocar a ervigo de nossos proprios corpos. Isso é, sem diivida, uma outra forma de subordinacio. Subordinacio, diga-se, pior do que a que se sofria antes, pois dife- rentemente do passado, quando quem mandava era 0 marido, hoje o algoz no tem rost6, Ea midib. So 0s cartazes da rua. O bombardeio de imagens na televisio. Mas, para acompanhar 0 ritmo dessas transformagies do corpo feminino na hist6- tia do Brasil, convido-os, leitores, a voltarem 4o passado. Corpo e imagem do corpo no passado No principio era a mulber.. Ao desembatcar na entio chamada Terra de Santa Cruz, 0s recém- chegados portugueses impressionaram-se com a beleza de nossas indias: pardas, bem-dispostas, com cabelos compridos, andando nnuas e “sem vergonha alguma”. A Pero Vaz de Caminha nio passa- ram despercebidas as “mogas bem mogas e bem gentis, com cabe- Jos muito pretos compridos pelas espaduas”, Seus narizes, segundo 9 mesmo natrador, eram “bem-feitos” assim como tinham “bons rostos” Os corpos, “limpos e tio gordos ¢ tio formosos que nfo pode mais ser”. As tupinambis se pintavam com tinta de jenipapo, “com muitos lavores a seu gosto [...] ¢ poem grandes ramais de contas de toda a sorte nos pescogos € nos bracos”, segundo infor- ma, em 1587, Gabriel Soares de Sousa, um dos primeiros cronistas a descrever a gente do Novo Mundo. Ja o capuchinho francés Yves D’Evreux acentuava seu gosto pelos banhos e por peniear-se “muitas vezes”, Os cinones da belezaeuropéia transferiam-se para ca, no olhar guloso dos primeitos colonizadores. Durante o Renascimento, gracas a teoria neoplat6nica, amor ¢ beleza caminhavam, de maos dadas. Varios autores, como Petrarca, pot exemplo, trataram desse tema para discutir a cotrespondéncia entre Belo e Bom, entre o visivel e 0 invisivel. Nao € & toa que rnossas indigenas sao consideradas, pelos cronistas seiscentistas, criaturas inocentes. Seu despudor era associado a um desconhecimento do mal, ligando, portanto, sua “formosura” a idéia de pureza. ; bem verdade que as caracteristicas de nossas belas estavam um tanto distante do modelo renascentista europeu. Os grandes pintores do periodo — pensemos, por exemplo, em Veronese, 0 veneziano—preferiam mulheres de cabelos claros, ondu- Jados ou anelados, com rosto ¢ colo leitoso como pérola, bochechas largas, fronte alta, sobrancelhas finas e bem separadas. O corpo devia ser “entre o magro ¢€ 0 gordo, carnudo e cheio de suco”, segundo um literato francés. A “constragao”, como dizia-se entdo, tinha que ser de boa carnadura. A metafora servia para descrever combros e peito fortes, suportes para scios redondos, e costas em que nao se visse tum sinal de ossos. Até os dedos afuselados eram cantados em prosa ¢ verso, dedos de unhas rosadas finalizadas em pequenos arcos brancos. Jéias ¢ pedrarias, bem diversas dos ramais de contas e da tinta de jenipapo que recobriam nossas indias, reafirmavam o esplendor da uniao entre elementos anatémicos ¢ elegincia. Gilberto Freire? foi pioneiro em captar o interesse dos portugueses, nao pelo modelo clissico que acabamos de descrever, mas pela “moura encantada”: tipo delicioso de mulher morena de olhos pretos, segundo cle, envolta em misticismo sexual — sempre de encarnado, sempre penteando os cabelos ou banhando-se nos tios ou nas aguas de fontes mal-assombradas —, que os lusos vieram reencon- trar nas indias nuas e de cabelos soltos. “Que estas tinham também os olhos e 0s 2 Gilberto Freire, Casagrande & sengala (Rio de Janeiro/ Bra lia: INL/MEC, 1980), p. 10 beleza 20 cabelos pretos, 0 corpo pardo pintado de vermelho ¢, tanto quanto as nereidas mouriscas, eram doidas por um banho de rio onde se refrescasse sua ardente nudez ¢ um pente para pentear o cabelo. Além do que eram gordas como as mouras.” Ele lembra ainda que, enquanto em terras brasileiras prevalecia 0 mo- delo moreno, em Portugal a moda italiana vingava. La, na época de Filipe II, as mulheres “das classes altas tingiam os cabelos de cor loura, ¢ li na Espanha, varias arrebicavam o rosto de branco ¢ encatnado para tornarem a pele, que é tum tanto ou antes muito trigueira, mais alva e rosada, persuadidas de que todas as trigueiras sAo feias”, Segundo Freire, poder-se-ia afirmar que a mulher morena era a preferida dos portugueses para o amor fisico. A moda da mulher loura, limitada As classes altas, teria sido antes repercussio de influéncias exteriores do que expressio do gosto nacional. Prova disso, segundo 0 mesmo autor, € que nosso lirismo amoroso nio revela outra tendéncia do que a glorificacao da mula- ta, da cabocla, da morena celebrada pela beleza de seus olhos, pela alvura de seus dentes, pelos seus dengues, quindins e embelecos, muito mais do que as “virgens pilidas” eas “louras donzelas”” Estas surgiriam num ou noutro soneto ou modinha, fem o relevo das outras. Como veremos, a moda da loura, alias, s6 desembarcara, no Brasil, bem mais tarde. ‘Affonso Romano de Sant’Anna® lembra que nao faltaram marcas do apetite mas- culino em relagao 4 morena ou mulata na literatura dos séculos XVIII e XIX. O riso de pérolas e corais, 0s olhos de jabuticaba, as negras franjas ¢ a cor do buriti sio os signos sedutores dessa fémea que convida ao paladar, a degluticao, a0 tato, Siio elas as verdadeiras presas do desejo masculino, mulheres-caca, diz ele, que o ‘homem persegue e devora sexualmentes J Affonso Romano de Sant’Anna, © camibalicmo anoroso— 0 dessa ea interdisi em nossa cultura aravts da poesia (Sio Paulo: Beasiliense, 1984), pp. 26-7. Morenice e robustez eram, entdo, padrdes de beleza. Nao apenas na pluma dos poetas, mas também na pena de viajantes estrangeiros de passagem pelo Brasil, sensiveis cles também as nossas vénus. Coube-thes deixar o registro do que era percebido e apreciado. Registro, diga-se, de uma forma de reagir & beleza. Suas palavras sobre nossas ancestrais as reproduzem ao mesmo tempo que as modelam eesculpem: ‘As portuguesas do Brasil sio, em geral, extremamente honradas ¢ tém ‘0 corpo bem-feito; seus cabelos sio de um belo castanho-escuro € os . seus olhos, grandes e negros, deixando transparecer uma espécie de languidez que denuncia um pouco de crueldade. Suas manciras sio doces e afaveis, sobretudo em relacio aos estrangeiros. Em matéria de amor, entretanto, é muito perigoso despertar o seu chime, pois clas sio capazes de grandes excessos [...]- registrava, cuidadoso, em 1757, M. dela Flotte:* Por sua vez, Juan Francisco Aguin anotava em 1782: ‘As mulheres do Rio de Janeiro vestem-se como as de Portugal. Ha algumas senhoras que nfo dispensam o uso de mantilhas ¢ dos penteados adornados com fitas. O que mais Ihes interessa, porém, € ‘estarem bem calcadas e empoadas. Para irem as igrejas ow a qualquer outra parte, usam sempre uma capa de castor — seja qual for a estacio do ano. As fidalgas portam, em geral, saia e manta. Durante a Semana Santa, quando as vestimentas ganham maior luxo, as saias sio abertas, na frente e deixam A mostra um saiote bordado em ouro e prata. Nessa ocasio, as senhoras portam uma grande quantidade de pedias preciosas 1 Sobre a opiniso de viajantes estrangeitos a respeito da populacio brasileira ver Jean-Marcel Carvalho Franga (org), Visier do Rio de Janie colonial (1531-1800) (Rio de Janeiro: UERJ /José Olympio, 1995), 21 . Os portugueses que as contemplam julgam que estio diante das formosas damas do universo. A moda nao tem grande penetragao entre as mulheres do Rio de Janeiro ¢ o gosto é bastante flexivel, o que faz com que as cores e os padrdes das vestimentas variem muito. Observamos que hi uma grande predilecio pelas cores fortes como 0 azul, o violeta ¢ 0 vermelho ¢ pelos desenhos de ramagens. O apre¢o pelas pedrarias, como mencionamos, é enorme. Uma noite, no teatro, parou ao nosso lado uma senhora que, em razio dos grandes anéis € de outras jdias que trazia, cra apelidada pelas gentes da terra de Tabuleta ou Vitrine de Ourives. Essa mesma dama usava um penteado copiado de uma inglesa que h pouco passara por esta cidade a caminho do Oriente. Tanto os homens quanto as mulheres sao muito asseados € adoram vestir roupa branca, a qual é bem tratada, lavada e engomada primorosamente. Todos tém especial predilegao pelos laivos azuis que o emprego do anil deixa no tecido branco. Um dos fundadores da Australia, de passagem pelo Rio de Janeiro em 1787, legou- 1nos também suas impress6e As mulheres, antes da idade de casar, sio magras, pilidas delicadas. Depois de casadas, tornam-se robustas, sem contudo perder a palidez, ‘ou melhor, uma certa cor esverdeada. Elas tm os dentes muito bonitos ¢ mais bem tratados do que a maioria das mulheres que habita paises quentes, onde o consumo de acicar é clevado. Seus olhos sio negros ¢ vivos e elas sabem como ninguém utiliz4-los para cativar os cavalhei- ros que Ihes agradam, Fm geral elas sio muito atraentes e suas manciras livres enriquecem suas gracas naturais, Tanto os homens quanto as mulheres deixam crescer prodigiosamente os seus cabelos negros: as amas em forma de grossas trancas que nao combinam com a delicadeza dos tracos. Mas o habito torna familiares as mais estranhas modas. Estando um dia na casa de um rico particular do pafs, comentei com ele minha surpresa relativa & grande quantidade de cabelos das damas 23 actescentei que me era impossivel acreditar que tais cabelos fossem naturais, Esse homem para demonstrar que eu estava errado, chamou sua mulher, desfez seu penteado e, diante de meus olhos, puxou duas longas trangas que iam até o chio, Ofereci-me, em seguida, para rearranji-los, que foi aceito com simpatia. {No pasado ou hoje, os cabelos femininos ainda sio altamente valorizados em [nossa cultura, A cultura feminina das aparéncias Enquanto poetas ¢ viajantes despiam o que a sociedade cobria, uma rede de objetos, matérias, cores e odores buscava transformar 0 corpo feminino! Dissimular, apagar, substituir as imperfeigdes gragas ao uso de pés, perucas, ungiientos, espartilhos ¢ tecidos volumosos era comum. A pele azeitonada, a robustez fisica, as feigdes delicadas e a longa cabeleira passavam por processos feitos de bens € servicos, utensflios ¢ téenicas, usos e costumes capazes de traduzir gostos e rejeicio, preccitos c interditos, Muitos deles, aliés, ja bem conhecidos na Europa moderna. La, desde 0 séculd XVI circulavam livros de receitas ~ os segredas— de beleza. A cosmética evolufa. A depilacio das sobrancelhas, a pintura dos olhos ¢ dos lébios, a coloragio das macs do rosto, 0 relevo dado 4 fronte atestavam uma nova representagio da mulher. Preparacies variadas desdobravam-se em maquilagens pesadas, muito parecidas a mascaras. Dificeis de manejat, muitos pés precisavam ser diluidos em gua de rosas, servindo para cobrir a cara inteira. Elaborado a partir de pau-brasil owcochinilha, e mais raramente de cinabre, 0 roygeapresentava-se na forma liquida ou de ungiiento quando se Ihe adicionava gotdura de porco ou cera. Servia para 24 tingir boca ¢ bochechas ¢ tinha consisténcia ideal quando aplicado quente. Resisténcia eraum critério recomendado. Os bons tinham que durar entre sete ¢ trinta dias. Sua cor variava do carmim, para passeios ao ar livre, ao vermelhao, usado 4 luz de velas, até um “meio-rouge”, pata dormir.|Complexas ou onerosas, boas e baratas, tais receitas cram feitas a partir de ingredientes diversos. A virtude de algumas atravessou os séculos. A acio depilatéria do sulfato de arsénico, malgrado sua toxicidade, por exemplo, é uma delas. O leite de cabra e a gordura de cavalo, pela analogia com os longos pélos do animal, garantiam cabelos soberbos e sedosos. A pele e a gordura de cobra prometiam renovar a pele feminina. Pérolas esfregadas nos dentes garantiriam brilho e brancura. Milagrosa, para o mesmo fim, era a pedra- pomes dormida no vinho branco e transformada em pé. Pomadas e pentes davam forma perfeita aos pélos faciais restantes. Coberto de alvaiade, o rosto era totalmente emaciado com a finalidade de cobrir as marcas deixadas por doengas, entio corriqueiras: variola, catapora, manchas de sol, acne. Numa época em que o dimorfismo sexual era lei, a figura feminina era marcada, nas partes baixas do corpo, pelas curvas, e no rosto pelos signos da feminilidade. A cabeleira em trangas ¢ birotes era alvo de todas as preocupagdes. Monumento de afetacio, extravagancia ¢ desmesura, cla se equilibrava gracas a camadas de farinha empoadas pelo cabéleirciro. Embranquecer e perfumar os cabelos gracas a utilizacio do amido, de ossos secos ¢ transformados em pé depois de bem pilados, de madeiras raspadas ¢ reduzidas a p6, era oficio desses ciimplices da intimidade feminina. Depois, os cabelos eram frisados, ericados, encrespados e banhados em pomadas.S Os penteados mais conhecidos eram o “tapa-missa” e 0 “trepa-mo- 5 Sobre o assunto, ver Philippe Perrot, Le rani! des apparencs on les transformations du corps fminin XVI XIX sidee Pati: Seuil, 1984) 26 leque”’. Esse tiltimo feito com uma infinidade de pentes sobre os quais se empilhavam perucas, inclusive as feitas com cabelos de mocas defuntas.* O resultado final? Nuno Marques Pereira, cronista dos habitos baianos do inicio do século XVIII, é quem descreve as mulheres que traziam enfeites € toucados nas cabegas, € vinha a ser que se usava naqueles tempos uma moda que chamavam patas, feitas também de cabelo: porém presos em arames. Foi crescendo tanto a demasiada moda [...] € tao disformes, que para entrar uma mulher com este enfeite nas igrejas, ea necessario que estivessem as portas desimpedidas de gente! A mania dos cabelos longos vicejou. E como! Cem anos mais tarde, na rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, a loja do cabeleireiro Cabega de Ouro exibia na vitrina uma formosa tranga que media onze palmos e meio: “muito vasta, de cabelos finos ede cor castanha, quase pretos, de formosa nuance, ¢ tao longa se estendia, que se mostrava em trés lancos ou voltas na vidraca”. O artefato, transformado em objeto de desejo de centenas de senhoras, fazia também sonhar os homens. E um deles quem nos conta: Eram cabelos de comprimento extraordindrio ¢ de beleza notavel mediam ftada menos do que dois metros, fora o que deles ficara ornando ainda a cabe da senhora que, sem duivida, a seu pesar se privara de tesouro tio singular; deviam, po a de sua dona cabelos de doze a treze palmos de comprimento [...]. Quando ela os abandonasse soltos, aqueles imensos e formosos cabelos nao lhe cairiam © Quem informa é Joaquim Manuel de Macedo nas suas Memérias da rvz do Onvider (Brasilia: UnB, 1988), p96, enfeites de eabega das até os pés, como os imaginarios de uma das mais belas heroinas dos romances de Alexandre Dumas, arrastar-sc-iam seis ou sete palmos pelo chao, como estupenda cauda de um manto de madeixas.” Apesar da pobreza material que caracterizava a vida diatia no Brasil colonia, a /pteocupagio feminina com a aparéncia no era pequenaySé que ela era controlada 28 pela Igreja. A mulher perigosa por sua beleza, por sua sexualidade, por sua associagio com a natureza, inspirava toda a sorte de preocupacdes dos pregadores catélicos. Nio foram poucos os que fustigaram o corpo feminino, associando-o, conforme a teologia cristi, com um instrumento do pecado e das forcas obscuras e diabélicas:* Quem ama sua mulher por ser formosa, cedo Ihe converter o amor em édio; ¢ muitas vezes nao sera necessério perder-se a formosura para perder-se também 0 amor, porque como o que se emprega nas perfeigdes e partes do corpo no é 0 verdadeiro amor, se nao apetite, € a nossa natureza é sempre inclinada a variedades, em muitos nao duraré, admoestava um pregador resmungio. O enfeamento do corpo estava articulado com a teoria punitiva do uso deste mesmo corpo. Os vicios ¢ as “fervencas da carne”, ou seja, o desejo, tinham como alvo 0 que a Igreja considerava ser “barro, Jodo e sangue imundo”, onde tudo era feio porque pecado. Isso porque a mulher —avelha amiga da serpente e do Diabo — era considerada, nesses tempos, como um veiculo de perdicio da satide e da alma dos homens. Aquela “bem parecida”, sinénimo no século XVII para formosa, era a pior! Logo, modificar a aparéncia ou melhoré-la pelo emprego de artificios, implicava em adensar essa inclinagio pecaminosa. Mais. Significava, também, alterar a obra do Criador que modelara seus filhos a sua imagem e semelhanga. Interferéncia impensavel, diga-se de passagem. Varios opiisculos circulavam tentando impedir as vaidades femininas. Os padres confessores, por exemplo, ameacavam com penas infernais: Estar a janela cheia de besuntos, levantar os fatos [os vestidos] quando nao ha lama, levantar a voz entoando falsete, por ostentar melindre; + Uso, nos préximos parigrafos, informagées extraidas de Mary Del Priore, Ae sal do carpe — condo ominina, melovidades¢ metalidades na Colbnia (2. ed. Rio de Jancito: José Olympio, 1993), 1998. tingir 0 sobrolho com certo ingtediente ¢ fazer 0 mesmo A cara com tintas brancas ¢ vermelhas, trazer boas meias e fingir um descuido para as mostrar, rit de manso para esconder a podridiio ow a falta dos dentes ¢ comer mal para vestir bem. | Apesar de tantas adverténcias, a mulher sempre quis ser ou fazer-se bela. Se a Igreja nao lhe permitia tal investimento, a cultura Ihe incentivava a forjar os meios para transformar-se. Os dispositivos de embelezamento, assim como 0 cortejo de sonhos ¢ ilusdes que os acompanhava, eram de conhecimento geral. O antro- pologo Bruno Remaury lembra que o investimento maior concentrava-se no rosto, Jocus por exceléncia da beleza. As outras partes do corpo eram menos valorizadas. Conseqiiéncia dircta dessa valorizacio, o embelezamento facial recortia a certa incipiente técnica cosmética. A preocupagio maior era, em primeiro lugar, tratar a pele com remédios. Seguia-se a maquilagem com pés, “besuntos” ¢ “tintas brancas ¢ vermelhas”, como ja se viu. Desabrochava, nessa época, ume-visio médica da cosmetologia, visto que foi fortemente retomada no séculé XX pelos fabricantes de cosméticos. Assim como hoje, ha quatrocentos anos a idéia fundamental consistia em esconder os males de mancira artificial. Afeccdes cutiineas e ma coloragio da tez eram consideradas pteocupantes. Para combaté-las usou-se, até o aparecimento da quimica, certa farmacopéia doméstica a base de produtos que, ainda hoje, vigoram: cera de abelha, mel, améndoas doces, gordura de carneiro, agua de rosas, leite de pepi- nos, glicerina, benjoim. A partir do século XVI, o crescimento das trocas ‘econémicas e comerciais inctementou o aparecimento de especiarias que vinham do Oriente ou da América para a Europa no fundo das naus: limao, arroz, agicar, manteiga de cacau, que foram acrescidos ao reccituario tradicional. Havia, contudo, produtos mais prosaicos. O “leite de mulhtr parida”, por exemplo, era considerado eficiente pata a queda de cabelo, sinais ¢ cicatrizes, erisipela, ictericia 30 e“cancro”. Os excrementos de animais, mais conhecidos como “flores brane: ‘foram largamente utilizados para clarear ¢ cicatrizar sinais na pele. Excrementos, diga-se, que podiam ser tanto de sofisticado crocodilo afticano quanto de simples cachorro doméstico. A utina, poderoso cicatrizante, idem. E obvio que tais produtos nao cram aplicado sobre a pele sem certos cuidados. Cozimentos, exposigio ao sol, maceracdes buscavam decompor ou desmaterializar o componente original. A destilacio, apropriada da alquimia, alimentava 0 imaginirio de pureza associado aos tratamentos cosméticos. Era preciso purificar para embelezar, Matérias puras, limpidas, essenciais sio ainda hoje associadas & eficicia de certos produtos. A idéia platOnica de associar beleza e pureza persistiu, a despeito da passagem dos séculos. © curioso é que o limite entre a cosmética saudivel, aquela capaz de sanar males ¢ doencas, ¢ a cosmética para “embelezat” era estreito. As mulheres resvalavam de uma para outra, sob 0 olhar sempre condenatotio de matidos, padres e médi- cos. A critica regular do uso excessivo de tintas, besuntos, cremes ¢ ungiientos acumulava-se. Perseguia-se a possibilidade de ver a mulher assemelhar-se as cort ou prostitutas. O critério, portanto, era o “muito” ou “pouco” maquilada, eritério esse que variou ao longo dos tempos. Basta pensar no “meio-rouge” que as mu- Iheres usavam, ao dejtar-se, no século XVIII! ‘Aos cuidados com a beleza do rosto, somaram-se outros, relativos 4 roupa. O carter ambivalente desta tiltima, desvelando ao cobrir, revestindo as partes mais cobigadas da anatomia, constitufa, a0 mesmo tempo, um instrumento decisivo € um obsticulo a sedugao. Montaigne protestava: “por que sera que as mulheres cobrem com tantos impedimentos, uns sobre os outros, as partes onde habita nosso desejo? Para que servem tais bastides com os quais clas armam seus quadtis, se nilo a enganar nosso apetite, € a nos atrair ao mesmo tempo em que nos afastam?”. O pudor aumentava a cobiga que deveria atenuar. O escritor francés Anatole France triou também uma parabola sobre o tema, em seu A ilha dos pingiins. Um missionirio disposto a cobrie a nudez das aves que convertera, resolve vestir uma delas, ¢ como essa passa a set perseguida pelo conjunto de seus semelhantes, loucos de desejo, ele ‘© pudor comunica as mulheres uma atracao irresistivel”” conch (Quanto mais” — diz Philippe Perrot — “afastamos do campo do discurso ¢ do. thar os objetos refetidos ao sexo, mais eles invadem ¢ habitam o imaginario”. Em todas as latitudes, 0 jogo entre roupa e corpo foi uma constante. Suas varias fangdes condicionam as formas que implicam em comportamentos, em posturas, em gestos que, por sua vez, influenciam essas mesmas formas ¢ sua funcio. Sabemos que uma mulher nfo caminha com saltos altos da mesma maneira que ‘com chinelos,/Da mesma forma, as fungdes ¢ as formas vestimentares sempre variaram de acordo com as circunstancias, as classes, os papéis sociais. A oposigio entre o amplo ¢ 0 justo, o longo € 0 curto que traduziam o desconforto ou a facilidade de movimentos reproduziam, por exemplo na Idade Média, as clivagens que separavam nobres e camponeses. Os primeiros andavam e gesticulavam no ritmo ditado pela lentidao das cerimdnias de corte; os segundos mostravam uma negligéncia sublinhada pela vivacidade de seu caminhar € a amplitude de seus gestos; uns manifestavam uma ociosidade digna de seu status, os outros, um envilecido labor manual. Sabemos que, com o passat do tempo, a roupa curta caminhard para um ajuste ¢ encurtamento crescentes até ser considerada, no século XX/funcional. E sua funcionalidade tornou-se um valor de prestigio. A roupa Tonga, por sua vez, subsistiu como vestimenta de padres, juizes, professores exigindo, por seu carater solene, certa postura, certa forma de locomover-se. Ela > Philippe Perrot, Les desmur otle desrons de a bourgeoisie (Paris: Fayard, 1981), p. 22 ¢ segs. Empresto do mesmo as idéias que passarei a usar aqui a1 representa, ainda, a idéia simbélica de calma majestade, reproduzindo 0 sentimento de gravidade ¢ decoro que estiveram na sua base. A roupa, na sua forma, cor e substncia, significou durante o Antigo Regime, ou scja, entre os séculos XVI e XVIII, uma condigio, uma qualidade, um estado. Nio havia dividas quanto a isso. Instrumento de regulagio politica, social ¢ econémica, as “leis suntuérias” existiam para manter visiveis os niveis sociais de quem se vestia[O luxo de tecidos e bordados era apanagio da aristocracia. Seus membros nio podiam ser confundidos com os das camadas emergentes. Codificando cortes, materiais, tinturas, a roupa garantia marcas de poder, intensificando o brilho dos aristocratas, Semelhante ao que ocorre, hoje, com 0 uso de roupas de griff Nao. Muito mais rigido. A roupa, entre os séculosXVe XVII} tinha um papel politico-social. Ela funcionava como signo de hierarquizacao, de fixidez ou de mobilidade dos grupos. Um exemplo? Em Portugal, judeus tinham que usat uma carapusa amarela, ¢ mouros, uma lua de pano vermelho de quatro dedos, “cosida no ombro, na capa e no pelote”, segundo o c6digo de leis conhecido como Ordenagées Filipinas.” Outro exemplo para que 0 leitor perceba a que ponto tal legislacio era restritiva diz respeito as roupas que se podiam ou nao usar durante 0 lutg, chamado entio d6: Quando“a alguma pessoa falecer pai ou mie, ou outro ascendente ou filha, ou outro descendente, sogro ou sogra, genro ou nora, ou cu- nhado, poder trazer por dé capuz, tabardo ou loba cerrada por tempo de um més somente, € serio de mais comprimento que até os artelhos, ¢ dai por diante poder trazer capa aberta de dé que niio passa de meia perna[...] € 0s pelotes € roupetas que trouxerem por d6 ‘O mais daradouro cédigo legal portugués, promulgado em 1603, vigorando ativamente no Brasil até 18: Ver aedigao critica de Silvia Hunold Lara (org), Ondenays Filipnar (Sio Paulo: Companhia das Letras, 1999) nao serio mais compridas que até cobrirem 0s joelhos, neles, mangas largas. CO tabardo era uma capa, capote € casacio com capuz ¢ manga. Loba era um tipo de tinica aberta, sem mangas, que se sobtepunha pela frente, ¢ a roupeta, uma veste mais estreita, como a tinica dos jesuftas, Como se pode observar, a imobilidade das linhas correspondia a imobilidade que se esperava de quem estivesse triste ¢ Chorando a partida dos seus. Tais leis suntuarias funcionavam? Sabemos que elas ‘mais freavam do que impediam o porte de determinadas vestimentas ou tecidos por quem no devia. Um exemplo? Nos finais do século XVI, durante o reinado. He Luis XVII, chegou-se a cercear, de acordo com o nivel social, a grossura dos galdes ou a matéria dos botdes. Restritos 20 uso masculino, os botées s6 entio passaram a ser usados pelas mulheres, antes obrigadas a manusear um sem-niimero de lacos ¢ fitas para fechar suas vestimentas| Mas nao ha dévidas de que, com a emergéncia da burguesia ¢ 0 declinio do feudalismo, tem inicio a corrida pelo dese- jo de consumo. Até entio as qualidades vestimentares femininas cram baseadas na Inodéstia e na moderacio, como pregava a Biblia} No século XVIII tudo se precipita. ‘A gestio das tivalidades entre cortesdos escapa progressivaments 208 soberanos, ¢ a moda, que desde o Renascimento parecia ter tendéncias seculares, adquire sua acepcao moderna de tendéncia passageira, de gosto coletivo ¢ efémero. Bessa pelo menos a definigao que Ihe é dada, em 1690, num diciondtio francés. Viajantes estrangeiros de passagem pot Paris ficavam bestificados com 0 nimero de butiques casas de comércio que ofereciam seus servicos para quem quisesse estar na moda, Cabeleireiros, peruqueitos, sapateitos, tintureiros, perfumistas, bordadeiras, costu- reiras, avadcitas, joalheiros, enfim, os mais variados comerciantes eram responsi veis pela multiplicagao de conceitos: beleza ou feitira, elegincia ou ridiculo. Ta prestadores de servigos eram chamados de pelil-maiires, pequenos mestres, Po havia até especialistas capazes de incrustar insets migrosc6picos em joias, ou pedras raras em madciras de cheiro utilizadas na confecgio de botdes, presilhas ¢ pentes. 33 34 E entre nés, como funcionavam tais cuidados com a vestimenta? De acordo com as informacdes que temos para o Brasil colonial, nossas antepassadas foram ex- celentes rendeiras. Se o trabalho de fiar algodio, reservado a escravas negras ¢ indias, era considerado cansativo, adornar panos casciros, roupas, xailes e redes era tarefa generalizada entre as mulheres das mais variadas condigdes sociais. Sentadas com as pernas cruzadas ao chio, frente a certa quantidade de bilros ¢ uma almofada, seu trabalho funcionava ao mesmo tempo como fonte de lucro € diversio. O crivo, trabalho de agulha feito sobre desenho, com fios de linha cerzido num padrao, complementava os adornos" em qualquer vestimenta, Sabe-se, também, que uma quantidade enorme de rendas era importada de Espanha e Portugal. Aqui, como li, nenhuma mulher andava sem véus ou uma profuséo de rendas nas roupas. A seda prestava-se bem para realcar tais trabalhos. De seda negra eram as mantilhas guarnecidas com rendas largas que serviam para tapar a cabeca, como um capuz, talvez para “embucar” a dama nas ruas, em sua caminha- da para a igreja. Ha informagées de que algumas eram tio grandes que s6 deixa- vam expostos 08 olhos, cobrindo toda a pessoa até os pés. Mulheres negras, de origem mugulmana ovfflio, cobriam-se com finos véus de algodio branco, tido por “o das mulheres,do Oriente”, ¢ longos mantos que Ihes cafam até os pés, cnvolvendo todo o corpo. Usavam-se também capas ou mantas em cores vivas. O anil eo pau-brasil eram costumeiramente utilizados para tornar os tecidos mais atraentes. Urina era o produto mais utilizado na fixacio das cores. Tal como na © Informagio extraida de James Hardy Vaux (1807), Memoirs of James Hardy Vaux (Londres: Clowes, 1891), 2,pp.213-4 ‘As informagies desse parigra _feminino sob o olbar dos viageros do ste foram extraidas de Tinia Quintancico, Retrator de mulher ~ 0 eotidiano XIX (Petr6polis: Vozes, 1995), pp. 184-5. Furopa moderna, onde tecidos catos serviam para a realizagao de modelos da moda, entre nds, as mulheres nao pareciam ter dificuldade para escolher. Os per- ealcos, contudo, chegavam na hora do pagamento. Pois mesmo sendo o ambiente da terra de grande precariedade e pobreza," vestir-se com apuro fazia parte das mentalidades € no se mediam esforcos para aparecer bem, © contetido dos batis Os emblemas exteriores de riqueza contavam, ¢ muito, numa terra onde as aparén- cias, na maior parte das vezes, enganavam. Nao faltaram criticos ao habito de “parecer, sem sex”. Jaem 1587, Gabriel Soares de Sousa queixava-se dos colonos que tratavam cuas mulheres “com vestidos demasiados, porque nao vestem senio sedas, por a terra nfo set fria, e no que fazem grande despesa, mormente entre a gente de menor condicio”. Pavonear-se em “sedas, veludos ¢ panos finos de Portugal” era muito comum. Mas 0 outro lado dessa exibigdo eram as dividas. O exibicionismo ¢ conseqiente endividamento levaram o padre AntOnio Vieira a vituperar do piilpito contra 0 gasto excessivo dos figis com tecidos, na cidade de Sao Luis: Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro panos e quatro sedas que ja se Ihes passou aera e nfo tém gasto; 0 que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra; di-Ihes uma sacadela ¢ di-lhes outra, com que cada vez lhes sobe mais o prego; ¢ 08 bonitos, ou os que querem parecer, todos esfaimados 0s trapos, ali ficam engasgados e presos, com dividas de um ano para > Ver sobre o tema Laura de Mello e Souza (org), Fernando Antonio Novaes (dir), Histnia da vide privada ‘no Brasil cotidiane¢ vida privada na Amrica portuguesa (Sao Paulo: Companhia das Letras, 1997), ¥ 1 35 36 outro ano [...] No triste farrapo com que saem 4 rua, para isso se matam todo 0 ano. [A maior parte das naus que aportava no litoral trazia fazendas finas ou grosseiras -se numa cultura de aparéncias para vender. A busca pelo raro ¢ caro traduz exibida na praca publica — cenério ideal para aquelas que buscavam fazer parte do espeticulo dos privilegiados — ¢ multiplicada na concorréncia. Era 0 “efeito vitrine” que contava. Mas nio escapava aos mais observadores 0 ponto fraco da questio. “O luxo dos vestidos” — escrevia em 1768 0 governador de Sio Paulo ~ é desigual a possibilidade desta gente; se as fazendas fossem do Reino tudo ficava em casa, porém sendo estrangeiras nio ha ouro que as pague...Tudo isso compra-se fiado, ¢ depois estuda-se para pagar”. Por vezes, a descricao das roupas, mesmo as de festa, no indicava a énfase em tais gastos suntuarios. A descrigao de uma denunciada a Inquisicao, no século XV, demonstra que suas melhores roupas (“e vestiu de festa”, diz 0 documento) constavam de “uma saia de tafeta azul ¢ jubaio de holanda e toucado na cabega”[A dupla saia e gibio dompinava também entre os burgueses ¢ camponeses europeus cujo guarda-roupa basico era de cinco pegas. O que variava era o contraste com a qualidade ¢ a quantidade de tecido. As cores, como no caso 0 mencionado azul, podiam identificar 0 uso da roupa: “festa”. Para atividades diarias, escolhiam-se as escuras. A li era escolhida por sua durabilidade. Vestidos eram coisa de aristocracia, cujos membros enfiavam uma média de dez peas de roupa, fora. roupa brancac intima. O século XVIII introduziu na Europa tecidos novos: sedas, algodées, linhos. Os coloridos se diversificavam. Os ricos se adaptavam com mais rapidez a essa mudanca de gosto, mas os pobres também aderiam, O que se ganhava em diversidade, perdia-se em solidez. Esse é 0 momento em que as classes menos abastadas comecam, elas também, a acclerar o ritmo das compras.} Confirmando a hegemonia da aparéncia, a maior parte das mulheres s6 se vestia para it as ruas. Era a confirmagio do velho ditado: “Por fora, bela viola; por rentro, pio bolorento!”. Em casa, cobertas com um “timo”, espécie de confor- tavel camisolio branco em tecido leve, ocupavam-se nas atividades domésticas. Os cabelos, mal penteados ou en papillotes, segundo a inglesa Maria Graham, davam uma péssima impressio de desmazelo. Pior, seios. Ea estrangeira fulminava: “Nao vi hoje a tal camisola deixava expostos os uma sé mulher toleravelmente bela. Mas quem poder resistir deformacio como a que a sujeira ¢ 0 desleixo exereem sobre uma mulher! Ao visitar, em 1821, residéncias baianas, anotou consternada; r ; sobre suas moradoras( “Quando apareciam, dificilmente poder-se-ia acreditar que a metade delas eram senhoras de sociedade. Como nao usam nem coletes, Hem espartlhos, 0 corpo torna-se indecentemente desalinhado logo ap6s a primeira javentude; isto é tio mais repugnante quanto elas se vestem de modo muito ligei- to, no usam lencos a0 pescogo € raramente os vestidos tém qualquer manga. Depois, nesse clima quente, é desagtadavel ver escuros algoddes ¢ outros tecidos sem roupa branca, diretamente sobre a pele, 0 cabelo preto mal desgrenhado, amarrado inconvenientemente, ou, ainda pior, em papelotes, ¢ a pessoa toda com a aparéncia de nio ter tomado banho”. Segundo Maria Beatriz Nizza da Silva,"*a saida dominical para a missa levava as mulheres a usar uma mantilha negra de seda que ocultava as roupas mais transparentes ¢ decotadas usadas por baixo elas, Outto inglés, Thomas Lindley, que esteve na Bahia no inicio do século XTX, observou que o vestuitio feminino mais comum era uma saia us sada por cima de tima camisa: “esta ¢ feita de musselina mais fina, sendo geralmente muito traba- Ihada e enfeitada. E tio larga no busto que resvala pelos ombros ao menor mo- \ Maria Beatriz Niza da Silva, Vide privadae quotidiano no Estampa, 1993), p. 231. Brasil nd tpoca de D. Maria ede D. Joao VI (Lisbox: 38 vimento, deixando o busto inteiramente 4 mostra. Além disso é tao transparente que se vé toda a pele”. O prussiano Theodor Leithold, por seu turno, observou que, no Rio de Janeiro, no primeiro quartel do século XTX, as mulheres vestiam- se de preto, geralmente com sda, com meias de seda branca, sapatos da mesma cor, “e sobre a cabeca um véu preto de fino crepe que cobre a metade do corpo”. ‘A simplicidade ou pobreza da indumentaria contrastava comfas j6ias. Sem clas, as mulheres nao safam as ruasJAs negras portavam figas, crucifixos e pencas de ouro. As brancas, anéis, colares, brincos e braceletes ricamente trabalhados, te- souro que tanto podia ser presente do marido, quanto parte do dote de casamen- to. Segundo Nizza da Silva, além de sairem aos domingos para ir a igreja, as mulheres apareciam em pibblico nas reunides da Cotte, se fossem aristocratas € morassem no Rio de Janeiro, ou nos espetaculos teatrais, que s6 se tealizavam nas grandes cidades, momento em que tiravam as jéias do cofre. Pedras preciosas como esmeraldas, crisOlitas, topizios brancos ou amarelos, diamantes rosas, guas- marinhas, pérolas, além de vestidos bordados a ouro € prata, ousadamente decotados a moda francesa da segunda década do Oitocentos, enchiam a platéia. Na cabeca colocavam-quatro ou cinco plumas, importadas da Franga, inclinadas para a frente, ¢ na fronte, diademas incrustados de diamantes.¢ pérolas. Para Gancar nos bailes)o cetimonial exigia “vestidos redondos, luvas ¢ enfeites de “Cabeca mais ligeiro préprios para aquele fim”. Ocespeticulo teatral, no entender da mesma autora, exigia menos luxo do que as ceriménias da Corte, ¢ nesse ambiente usavam as mulheres flotes no cabelo, brincos compridos ¢ vistosos, um xaile pelos ombros ¢ um leque que podia ser mais.ou menos valioso. Dois prussianos em visita ao Rio de Janeiro, em 1819, fizeram questio de anotar que “as mulheres de elite possufam amplos guarda-roupas de linho ¢ sedas de toda a classe, guarnecidos de outros enfeites”. Para atender a essa demanda de consumo, os armarinhos de luxo enchiam as ruas cariocas. Capelistas vendiam fitas largas caracteristicas do sécul XVII: pulseiras, brincos, fivelas, colares e anéis Musen Imperial 40 ou estreitas, lisas ou lavradas, na sua maior parte de seda, mas também de veludo; galdes de ouro ¢ de prata, guamigdes bordadas, franjas ¢ rendas de varias ualidades (linho, linha, fild, seda) inclusive de fio de ouro para “véus de ombros”, tiras bordadas para “coleiras”, entremeios, cordées de seda, bordaduras de ouro e tudo o mais o que servisse para enfeitar as mulheres. Entre o mundo rural ¢ 0 urbano, estabeleciam-se clivagens. No primeiro, os valo- res de estabilidade, identificados ao clima, & duragio das pecas € a0 uso reiterado do vestuario, permaneciam regra. No sul do Brasil, John Luccock observou mu- theres usando capotes de casimira com ornamentos de pele ¢ escravas enroladas em pedagos de baeta enfeitados com franjas. Em Minas Gerais, elas vestiam-se de branco ou de cores vistosas, ¢ guarda-séis coloridos abrigavam-nas no sol causticante. Na falta desses, usavam um chapéu de li negra. O gosto pelas telas risticas e tecidos resistentes como a baeta, o baetio, a estamenha, o lemiste ¢ a sarja mostra que os habitos no eram exclusivamente os ditados pelos ticos. Nem nuas nem rotas Sendo a roupa o envelope do corpo, como seria andar nuzCom a pele em contato ‘com o vento € 0 sol, as partes vergonhosas expostas, os indios inspiraram ao padre Anchieta tiradas de muito humo [u] de ordinatio andam nus e quando muito vestem alguma roupa de algodio ou de pano baixo € nisto usam de primores a seu modo, porque um dia saem com gorro, carapuca ou chapéu na cabega eo mais ‘nu; outras vezes trazem uma roupa curta até a cintura sem mais outra coisa. Quando casam vio is bodas vestidos e tarde se vio passear somente com 0 gorto na cabeca sem outra roupa, e Ihes parece que vio assim mui galantes Sabemos que escravas c indias vestiam-se com camisa e saia de algodio grosso. A preocupaciio era de que no se vissem “nuas nem rotas”, como queixava-se Anchieta. ‘Mas que significado teria o nu feminino, na Idade Moderna? Havia, entio, uma grande diferenga entre nudez e nu, A primeira referia-se Aquelas que fossem despojadas de suas vestes. A segunda remetia no 4 imagem de um corpo transido e sem defesa, mas 20 corpo equilibrado e seguro de si mesmo. O vocbulo foi incorporado, no século XVIII, as academias de ciéncias artisticas em que a pintura e a escultura faziam do nu o motivo essencial de suas obras. No mesmo ano do achamento do Brasil, Bellini pintou uma Mulber faxendo a toalete, na qual ji se observam as formas amplas que itiam caracterizar a arte veneziana. Giorgione criara uma Vénus, deitada ¢ adormecida numa paisagem cor de mel, totalmente oferecida ao olhar do espectador, embora seu corpo branco exalasse castidade. Para os pintores do Renascimento, a mulher desnuda era simbolo de vida criadora e geracio. Na metade do século, os nus comecam a revirar-se na tela, abandonando a posicao frontal. A idéia de seducio do corpo feminino faz-se presente. As carnes ou a pele ganham luz, cor, enfim, parecem vivas. Os movimentos de torcio colocam em evidéncia seios, ancas e quads, {A entrada do agiicar nos mercados europeus vai ajudar a criar um modelo de corpo cheio de curvas, ¢ por que nao dizer, gorduras, cuidadosamente reproduzidas por mestres como Rubens ¢ Rembrandt. No século XVIII, um outro padrio invade as telas. Si0 corpos déceis e pequenos, como os que pintou Boucher, que — grande surpresa — mostram-se de costas. Estendidas sobre a barriga, apoiando-se nos cotovelos, ninfas ¢ herojnas exibem, com at de sedugio, as nédegas. Na mesma época no Brasil, indias ¢ negras andavany seminuas.|Ambas tinham, contudo, condigSes de transformar sua nudez em objeto estético. Todo um cédigo ——— 2 artistico era inscrito na substincia corporal através de t€cnicas areaicas: pinturas | faciais, tatuagens, escarificacdes, que as transformavam em obras de arte ambu- lantes, em “quadros vivos”, Nao escaparam a Gilberto Freire'® seus sinais de | nnacdo, as tatuagens africanas ao longo do natiz, os talhos imitando pés de galinha, a teera enas faces, ‘“talhinhos ou recortes, verdadeias rendas, pelo £0st0 todo”. AAs orelhas furadas, para argolas ou brincos, também eram uma constante- As iads, de tituais religiosos, tinham direito a pinturas corporais No corpo, valorizavam-se as nidegas arrcbitadas para tris, empinadas e salientes, a““bunda grande’. Os peitos valorizados eram os pequenos ¢ duros, a ponto de haver uma lenda recolhida por Nina Rodrigues, * sobre 0 assunto: uma mulher, muito grande e valente, tinha peitos to grandes que caiam pelo chao. Depois de fim embate com guerreiros inimigos, na floresta onde morava, foi morta, despedacada e cozida pelas mulheres da mesma tribo. “Entio” — diz 0 conto — “cada qual tratou de apoderar-se de um pedaco do peito; as que puderam apanhar um pedago grande tiveram os peitos muito grandes; as que s6 alcancaram um pedacinho, ficaram com, peito pequeno, € € por isso que as mulheres nao tém peitos do mesmo tamanho”. A gigante de peitos grandes ¢ caidos, entidade maléfica, era também’¢ritério de feitira na cultura africana. Os antincios de jornal, notificando a fuga de escravos, informavam sobre as ca- ‘alva ou fula da pele”; os racteristicas fisicas de nossas avés negras: a cor “preta”, cabelos encarapinhados, crespos, lisos, anelados, cacheados, acaboclados, russos, assa, avermelhado ¢ até louro. Cabelos que eram cuidadosamente arranjados em birotes, tangas, coques. Cabelos “agaforinhados com pentes de marrafa dos lados” (IX (Gio Paulo: Nacional, 1979), jon inet Nina Rodrigues, Os afisanes no Brasil (SH0 Paulo: Nacional, 1977). Debret Gilberto Freire, © eseravo nos anincir de jomeis brasileiros do século 44 ou alisados com éleo de coco. Os dentes quase sempre inteiros e alvos, podiam ser “limados” ou “aparados”. As deformagées profissionais deixavam marcas nas maos, pés € pernas, ¢ os vestigios de chicote pelo corpo nao eram escamotea- dos: “nas nadegas marcas de castigo recente” ou “relho nas costas”. Os olhos podiam ser “na flor do rosto”, grandes, castanhos ou “tristonhos”. Podiam, ainda, piscar “por faceirice”, enquanto a negra falava. De muitas dizia-se “ter boa figura”, ser “uma flor do pecado”, ser “alta ¢ seca”, “bem-feita de corpo” du simplesmente robusta. “Ter peitos em pé”, “peitos escorridos e pequenos”, “nariz afilado pequeno”, “peitos em pé e grandes”, “pés e maos pequenas” era sinal de formosura que podia impressionar o comprador. O peito feminino era também o lugar de sinais de nacio ou marcas. A negra rebolo, que em 1840 desaparecera da casa de seus senhores, informa-nos Freire, trajava “vestido azul com flores amarelas”, ostentava “argolas de ouro pequenas nas orelhas” ¢ levava no peito esquerdo a marca MR”. Os vistosos panos da costa, turbantes ¢ rodilhas, xailes amarrados 4 cabeca, saias rendadas, camisas abertas de renda e bico e chinelinhas vestiam muitas delas. Uma poesia de Melo Moraes Filho veste e enfeita a mulata ou a negra com muitos dos aderecos“thtilizados pelas brancas: camisa bordada, fina tio alva arrendada, torso de cassa a cabeca, corais engrazados nos pulsos, saias de rendas finas, brincos de pedrarias, correntinha de prata. E suas palavras exprimem o citime das brancas:|“Eu sou mulata vaidosa, linda faceira, mimosa, quais muitas brancas nio sio!”. Para arrematar, “minhas idids da janela, me atiram cada olhadela, Ai dé-se\ Mortas assim... E eu sigo mais orgulhosa, como se a cara raivosa, nao fosse feita pra mim”. © Poema “A mulat p72. spud June E, Habner, A malber no Brasil (Rio de Janciro: Civilizagio Brasileira, 1976), No século XIX, o pais comegava a sair de profunda sonoléncia. Sobretudo, nas reas urbanas. A vinda da familia real, em 1808] introduzira habitos sociais que foram se multiplicando entre as varias camadas sociais. Recepgdes, casamentos, batizados, cortejos, jogos, éperas, enfim, o luzir de fidalgos davam modelos ¢ incitavam imitacdes. Construfam-se casas nobres, ¢ palicios eram rapidamente recheados de “imensas cousas”. Méveis cram importados da Inglaterra assim como o piano, para ser mansamente batucado pelas maos das sinhazinhas. Importavam-se também professores de danga ¢ canto, capazes de ensiné-las a animar bales e saraus da cidade. Viajantes observavam o crescimento da influéncia, francesa na importagio de modas, artigos de fantasia ¢ de decoracio. Emi 1821, havia cingtienta ¢ quatro modistas francesas instaladas no Rio de Janeiro. Nao eram poucas as negras livres que, gracas ao “seu talento”, nfo apenas trabalhavam com tais profissionais mas também conseguiam “imitar muito bem as maneiras francesas, trajando-se com rebuscamento e decéncia”."* Jornais dirigidos as mulheres exibiam figurinos, reccitas culinirias, moldes de trabalhos manuais, Era © caso do Correio das Modas, de 1839, do Espelbo Fluminense, de 1843, do Recreio do Bello Sexo, de 1856, ou do Jornal das Familias, de 1863. Vejamos a descrigio que fez, em 1849, Alvares de Azevedo dessas belezas que enfeitavam um baile académico: ‘A condessa de Iguacu ¢ a Belisiria eram as rainhas do baile, com a diferenca que a Belisaria com a simplicidade de seu traje estava mais bonita do que a Bela com a sua riqueza de jéias ¢ sedas. A Bela tinha um vestido cinzento que Ihe fazia uma cinturinha de silfide — no colo ‘numa volta sé Ihe corria 0 colar de finissimas, digo grossissimas pérolas. Na cabeca prendendo as trancas tinha um pequenino boné a grega, cujo JB. Debret, Viagem pitorescaehistrica ao Brasil (1816) (So Paulo: Martins, 1954), p. 216. 4s 46 fundo era de rede de prata ¢ a franja também de prata. No colo, na cintura, no bouguet exalavam-Ihe perfumosos ramos de violetas”.” A Bela, leitor, era ninguém menos do que a filha da marquesa de Santos, primeira amante do imperador d. Pedro I. Na época em que a jovem condessa de Iguacu rodopiava pelos sales, os vestidos, armados e em forma de sino, inflados pelo uso da crinolina, eram a modgAs florts ~ outra moda — acentuavam o erotismo dos contornos, a cintura fina, uitrdecote ligeitamente mais ousado, Flores deve- riam acentuar a beleza da mulher-flo: Os imperativos da moda Importada da Franca, que sempre ditara a ultima tendéncia, ao final do século (XVII A moda foram as saias corola, usadas por Maria Antonieta. “Desfolhada” durante a Revolugio, a saia corola encolheu a ponto de assemelhat-se 4 espiral de uma itis; dessa mesma maneira, foi largamente utilizada durante o Diretdrio e 0 Império. Sob a imperatriz Maria Luisa, as mangas tinham se enchido, como um célice de imensa papoula. A Restauragio voltara a encher as corolas das saias.” ‘Tanta inflorescéncia alimentou a fabricacao de flores de penas, escamas e asas. Vamos, leitor, entrat numa dessas lojas, para conhecer, de perto, o acessério mais importante da moda oitocentista: L.-J seguindo pela rua do Ouvidor, chega-se ao estabelecimento de Madame Dubois,a principal fabricante de flores de pena no Rio.\Ela ® Apnd Wanderley Pinho, Sales e damar de Segundo Reinade (Si0 Paulo: Mattins, s/d). ® Sio informasses de Philippe Perrot, Les dessus e er desons de la bourgaisie,cit.,p. 53 € segs. sucedeu Madame Finot [...] Ao entrar em sua loja, encontra-se a parte da frente destinada 4 venda de flores,je a de trés a sua fabricagio As caixas nas paredes e nas janelas estavam cheias de flores das mais belas, grinaldas de flor de laranjeira, festdes de cravos brancos pintados de azul ¢ rosa, € camélias alvas [...] Na parte de tras da loja havia uma longa separacio, atrés da qual muitas mogas trabalhavam, armando as flores, torcendo, cortando ¢ colando com afinco. Diante delas havia montes de penas, um monte de cada cor. De fato, é surpreendente como um material tio delicado pode ser manejado com tanta pericia, principalmente porque as flores nfo sio tingidas, como as da Madeira, mas formadas por penas isoladas, coladas pata produzir todos os efeitos. Ao manter em piblico o proceso de fabricagio, Madame Dubois oferece uma garantia material da auséncia de tinturas, demonstrando que as flores sio feitas, honestamente, de penas de muitas cores.,As dames de comptoir sto geralmente mulatas ¢, embora mais escuras até que as mogas espanholas, sio geralmente mais belas. [Uma demoiselle inglesa é mantida para atender visitantes ingleses ¢ seu emprego no parece uma sinecura.”" Os precos das flores variavam. Como fossem mais comuns, os cravos eram vendidos por 1 mil-réis cada; nos outros tipos de flor, Madame Dubois geralmente cobrava demais para 0 bolso do pessoal da Marinha. Os passaros custavam geralmente dez shillings a divzia; havia alguns “extra-super” beija-flores, vendidos a3 mil-réis cada, ¢ as aves-do-paraiso custavam 20 mil-réis. Na mesma época, outros viajantes haviam igualmente observado que nenhum enfeite excedia em esplendor as flores feitas com penas do colo e do pescoco de beija-flores. “Uma senhora, comentavam, cujo chapéu ou gorro de seda adornado com semelhantes 2 Os comentatios sdo de Edward Wilberforce, em Brazil Viewed threxgh « Naval Glass ~ With Notes on Slavery and the Slave Trade (Londres: Longman, Brown, Green and Longmans, 1856), pp. 51-5. 47 9,22 penas, parece cercada dos lampejos do mais vistoso ¢ variado brilho”; acrescentando que nessas lojas encontravam-se flores feitas com asas de insetos ou escamas de peixe e alfinetes de peito em que se incrustavam pequenos besouros brilhantes. No Natal de 1852, para ficar num exemplo, fez sucesso no baile oferecido pelo comendador Joao Batista Moreira, consul de Portugal no Rio de Janeiro, Madame Bregaro, “notavel pela originalidade de levar ramos de flores artificiais como que escondidos por baixo de seu vestido de fil6”. ‘Além das flores ¢ chapéus, as luvas ¢ os sapatos eram outro acessétio capaz de decretar um dos lugares do desejo no corpo femining| Mios e pés atrafam olhares ¢ atengdes masculinas, Grandes romances do século XIX, como A pata da gazela, de José de Alencar, ou A mao ¢a lava, de Machado de Assis, revelam, em metiforas, o carater erético dessas partes do corpo| Maos tinham que ser longas ¢ possuidoras de dedos finos acabando em unhas arredondadas ¢ transparentes| Vejamos José de Alencar descrevendo uma de suas personagens, Emilia, em Diva: “Na contradanga as pontas de seus dedos afilados, sempre calcados nas luvas, apenas rogavam a palma do cavalheiro: o mesmo era quando aceitava o braco de alguém”.* Nao apenas os dedos eram alvo de interesse mas seu toque ou os gestos daf detivados eram reveladores da pudicicia de uma mulher. O ideal é que estivessem sempre no limite do nojo ou da repugnancia pot qualquer contato fisico.* Pequenosos pés tinham que ser finos, terminando em ponta; a ponta era a linha de mais alta tensio sensual. Faire petit pied era uma exigéncia nos saldes franceses; 2 Daniel Parish Kidder e James Cooley Fletcher, O Brasil es brasikiros(esboo bistrioe dessritvn) (So Paul Nacional, 1941),p. 31 % José de Alencar, Diva (Rio de Janeiro: José Olympio, 1977), p. 115. % Ver sobre o assuinto Luis Felipe Ribeiro, em seu belo Malheres de papel~ um estudo do imagindrio em Jost de Alencar ¢ Machado de Assis Rio de Janeiro: EDUFF, 1996), p. 118. Nacional de Belas Artes 50 as carnes ¢ os ossos dobrados ¢ amoldados as dimensdes do sapato, deviam revelar a pertenga a um determinado grupo social, grupo em que as mulheres pouco safam, pouco caminhavam e, portanto, pouco tinham em comum com _escravas ou trabalhadoras do campo ou da cidade, donas de pés grandes e largos. O pé pequeno, fino e de boa curvatura era modelado pela vida de écio, era ‘emblema de“uma raca”, expresso anatomica do sangue puro, “sem mancha de raga infecta”, como se dizia no século XVIII. Circunscrita, cuidadosamente embrulhada no tecido do sapato, essa regio significou, muitas vezes, 0 primeiro passo na conquista amorosa. Enquanto o principe do conto de fadas europeu curvava-se ao sapatinho de cristal da Borralhcira, entre nés os namoros comeca- vam por uma “pisadela”, forma de pressionar ou de deixar marcas em lugar tio ambicionado pelos homens. Tirar gentilmente o chinelo ou descalgar a mulé era o inicio de um ritual no qual o sedutor podia ter uma vista do longo percurso a conquistaz™] Paixdes originais, excéntricas ¢ conturbadas nasccram em torno dessa extremida- de, inspirando até a crdnica da época. Nas suas Memérias da rua do Onvider, Joaquim Manuel de Macedo relembra a paixio do ruivo comerciante inglés, Mister Williams, pela provocante costureira francesa, Mademoiselle Lucy, no inicio do século XIX. O heréi da historia & contudo, o pé. Depois de alguns arrufos capazes de api- mentar o romance, Macedo nos informa: O inglés estava furioso; mas apesar da fuiria, na lembranga lhe ficara 0 pé de Mlle. Lucy. Nao era pé verdadeiramente francés, era-o antes de espanhola, ou melhor de brasileira: pé delgado, pequenino e de suaves proporgées,|Realmente Williams nio tinha sapatinhos para aquele pé % Empresto aqui informagées de Philippe Perrot, Les dessus ef ler destons dela bourgecii,cit.,p. 72 mimoso na sua loja de calcado inglés. E a conviccao de que nio havia ‘miss, nem lady, que nao havia, enfim, inglesa que tivesse pé como aquele que Mile. Lucy mostrara, exarcebava a colera de Williams. Mas o lindo pé da costureira francesa ficara na meméria, e encantadora e infelizmente representado nu, branco, delgado, pequenino e delicado na imaginagio do pudico e severo inglés)...] Tania Quintaneiro lembra bem que no Nordeste € no Sul do pais, os sapatos eram muito coloridos e algumas damas se esmeravam em exibi-los ~ vistosos, bordados e de seda — erguendo uma ponta da saia ou movendo com habilidade sua capa. As esposas de ricos comerciantes do litoral, além de sempre usarem meia de seda ¢ sapatos, mostravam-se, segundo o viajante Walsh, “particularmente habeis ¢ cuidadosas na decoracio de suas pernas e pés, que sio geralmente pequenos e de bonita forma”, As mocas usavam botinhas de salto e chapeuzinhos franceses. Dos vapores vindos do Havre desembarcavam “borzeguins de Meliés todos de bezerro e cordovio”, tiltimo novidadel Alguns insistiam, diz a historiadora, no pouco que viam as senhoras bem calcadas. Essas portavam 0 que parece ser 0 antepassado da sandélia: “o que é chamado sapatra: uma sola de madeira com os calcanhares altos, seda ou cetim costurado cobrindo a parte dos dedos. Com meias ou sem meias, elas metem seus dedos sob 0 cetim ¢ a cada passo a parte posterior da sola cai com estrondo”, informava Wheeler, outro viajante.** Eo “talhe”, palavra hoje rara, mas presente em toda a descri¢do de mulher bonita no século pasado? A mesma Emilia, por exemplo, era possuidora de um invejavel talhe, desses “flexiveis ¢ lancados, que sio hastes de litio para o rosto gentil”, conta-nos Alencat. Ora,6 talh¢, quando nfo atributo natural, era conseguido gracas % Apad Vania Quintaneiro, Retatos de mulber~0coidiane feminine 10h o olbar dos vigeros do séala XIX, cit. 188 ¢ segs 52 ‘40 uso do espartilho. O artefato, nascido com a Idade Moderna, correspondia, segundo Perrot, a uma nova sensibilidade voltada para a auséncia de sinuosidades, a linha plana e reta. Aestranha couraca, informa Perrot, encerrava 0 tronco ajustando as formas convencionais a uma forma inflexivel. A postura, tal qual a haste do litio, impunha uma posicio teatral, imponente, altaneira, manifestando igualmente as qualidades da alma ¢ as virtudes de um certo cariter feminino. Inicia-se, assim, toda uma severa estética da compostura, uma ética da contracio. ‘A vida nas cortes européias, ou na nossa, iria controlar todas as possiveis turbuléncias do corpo, sua expansio ou vacilagdes. O envelope em couro ou pano duro, que cobria dos joelhos aos ombros, servia também para conter a moleza intrinseca do corpo feminino, cortigindo a sua fragilidade natural ¢ constitutiva, Vitéria da razio sobre a natureza, da fixidez contra os movimentos intempestivos, da impassibilidade sobre a emogio, o espartilho — junto com a juva, as plumas do chapéu e 0 salto alto no sapato —remetia aos signos nobres da improdutividade.|O uso do corpete deve ter se gencralizado no-Brasil/durante 0 “Segundo Império, Nao ha uma descrigio de heroina de romance, nem fotografia da aristocracia do café em que as mulheres nao aparecam com o enrijecimento dorsal, tipico do uso do espartilho. JFicavam para tras as damas meio desnudas, de cabelos desgrenhados, prostradas pelo calor, displicentemente sentadas no chio ou abandonadas numa rede, como as descreve Quintaneiro para a primeira metade do século XIX. A vida urbana e os servigos tinham retirado essas damas das camarinhas escuras, onde, rodeadas de parentes, criancas ¢ escravas passavam seus dias, levando-as para os passcios, os jardins, as pragas. Ato de diferenciagio, vestir-se) explica Perrot, era essencialmente um ato de sig- nifica¢io| Ele manifestava, simbolicamente ou por convencio, ao mesmo tempo ou separadamente, uma esséncia, uma tradicio, um apanagio, uma heranca, uma casta, uma linhagem, uma proveniéncia social e geografica, um papel econémico, Em resumo, a roupa, signo ou simbolo, consagrava e tornava visiveis as clivagens e hierarquias, segundo um cédigo garantido ¢ perenizado pela sociedade ¢ suas instituic6es|Na elaboracio de sua aparéncia vestimentar, as classes dominantes procuravam, desde sempre, distanciar-se das camadas populares. Nao s6 pelo uso de tecidos ¢ materiais prestigiosos, mas ainda pela falta de conforto que levaria a um comportamento menos hieritico,|O importante para uma mulher de élite era ficar o mais longe possivel da imagem da mulher descomposta, em chambre ou timio, que se confundia com a simplicidade de escravas ¢ mulheres do povo e cuja amarfanhada intimidade tanto chocara Maria Graham. Nao é por acaso que alguns anos mais tarde outro escritor, José de Alencar, vai emprestar a um de seus personagens o olhar para definir 0 que fosse a beleza feminina. E essa definigio acaba contaminando-se com a idéia de classe ou de riqueza. Bela seria, igualmente, chique. Em Senhora, seu romance de 1875, Alencar empresta a-voz a Seixas para falar desse critério duplo: Seixas era uma natureza aristocritica, embora acerca de politica tivesse a balda de alardear uns européis de liberalismo. Admitia a beleza rustica, como uma convengio artistica; mas a verdadeira formosura, a suprema graca feminina, a humanacio do amor, essa, ele s6 compreendia na mulher a quem cingia a auréola da elegincia.” Belezas nisticas ¢ plebéias eram, para o escritor romantico, uma convengio esté- tica. A beleza enquanto realidade, s6 aquela sustentada pelo luxo dos saldes nos quais circulavam as mulheres da aristocracia cabocla, A beleza popular, inculta, ® José de Alencar, Senbore (7. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977), p. 239. Empresto aqui considera- ‘es de Luis Felipe Ribeito, Matheres de pepel— wm etude de imag cit, p.173 e segs. 53 54 plebéia, poderia até ser bela, mas nfo seria nunca accita como tal, O autor deixava entrever, em suas linhas, o preconceito social por tris dos valores. As perfeigdes fisicas que descteve s6 aparecem enredadas em tafetis, babados, rufos e sedas. Beleza e elegincia, no século XIX, eram uma coisa s6.)Vejamos novamente o que diz escritor: A lua vinha assomando pelo cimo das montanhas fronteiras; descobri nessa ocasiao, a alguns passos de mim, uma linda moga que parara um instante para contemplar no horizonte as nuvens brancas esgarcadas sobre o céu azul ¢ estrelado.\Admirei-Ihe do primeiro olhar um talhe esbelto e de suprema elegincia. O vestido que o moldava era cinzento com otlas de veludo,e castanho, e dava esquisito realce a um desses rostos suaves, puros e didfanos que parecem vio desfazer-se ao menot sopro, como os ténues vapores da alvorada.* O interessante é que, num pais escravista, essa nogio de beleza associada a roupa estende-se a mulheres negras. Em 1849, o pintor Edouard Manet atribuiu o conceito de feio as que viu “nuas da cintura para cima”, trazendo no maximo “um pano de seda preso ao pescogo ¢ caindo sobre o peito”.” As “bastante bonitas” eram aquelas que “traziam turbantes” ou “carapinhas artisticamente arranjadas”, usavam turbantes e saiotes enféitados com imensos babados. Era como sea nudez excluisse as primeiras da estima social, pois no havia entio separagio entre a roupa ¢ a condigio do individuo. Percebemos que a moda jé era um principio de leitura do mundo] Vestidas, as negras se apropriavam, a sua maneira, da economia de luxo ® José de Alencar, Lacils (7. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977). -5- » “A carta de Edouard Manet a sua mie esti reproduzida em Miriam Moreira Leite (org), A conde feminina no Ri de Jacire ~ scale XIX (Sic Paulo / Brasilia: Hucitec/Pré-Meméria, 1984), pp. 1123. de outras camadas, suscitando, ¢ ao mesmo tempo prolongando, o desejo da economia suntuaria que aqui ja existia, Belas, lindas... como seriam, entre nossas avs, aquelas que inspiravam os suspitos do poeta? No século XIX, eram majoritariamente morenas. Manet extasiara-se: “as brasileiras sio getalmente lindas; tém olhos e cabelos magnificamente negros!”. Os padrées de beleza Manet nio foi o tinico. Em 1875, John Bigg-Wither também nio podia esquecer a harmonia das formas de mulheres negras, sua elegincia e nobreza na postura € na altura, sua graca ¢ alegria, a perfeicio de seu desenvolvimento fisico, a compleicio perfeitamente adaptada ao clima, sua pele como “ébano polido”.|E exclamava, maravilhado: Bu nunca vi em qualquer raga européia tio perfeito desenvolvimento € maravilhosa simetria na forma como a que quase universalmente essas mulheres exibem. Altas ¢ eretas, com peitos nus ¢ bragos que literalmente reluzem quando elas se movem, com uma textura de seda lustrosa belamente tecida, existe um ar de graga e dignidade natural perfeitas em cada movimento que é absolutamente indescritivel, mas que uma senhora muito bem-nascida em nosso proprio pais poderia ter invejado. A ti feitira [do semblante] € esquecida numa rara perfeigao das formas. Em 1865, o casal Jean-Louis ¢ Elizabeth Agassiz observava, pot seu turno, que os negros eram “uma raca possante ¢ as mulheres em particular tém as formas belas € um porte quase nobre”. 194, “ApadTinia Quintanciro, Reiraes de mulber—o cotdiane feminine sob olbar dos vigeires do século XIX, ct. 5 6 ‘A obesidade) fantasma do final do século XX, ja provocava, no XIX, interjeigdes negativas. Sobre as baianas, “os maiores espécimes da raca humana”, dizia um estarrecido viajante, essas pesavam mais de 200 libras e andavam “sacudindo suas carnes na rua, ¢ a grossa circunferéncia de seus bragos”. As mulheres brancas eram descritas como possuidoras de um corpo negligenciado, corpulento e pesa- do, emoldurado pot um rosto precocemente envelhecido. As causas, explica Quintaneiro," eram varias: a indoléncia, os banhos quentes, o amor a comodida- de, o cio excessivo desfrutado numa sociedade escravista ou recém-saida desse sistema, o matriménio ¢ a maternidade precoces, as formas de lazer e de sociabi- lidade que nfo estimulavam o exercicio fisico, o confinamento ao lar impregnado de apatia onde prevalecia o habito de “desfrutar de uma sesta, ou cochilo depois do jantar”, como explicava James Henderson em 1821. Apesar do declarado horror & obesidade, os viajantes reconheciam que o modelo “cheio”, arredondado, correspondia ao ideal de beleza dos brasileitos, o que explica- vam pela decorréncia do gosto de seus ancestrais. Gorda e bela eram qualidades sindnimas para a raga latina meridional, incluidos af os brasileiros, ¢ para explicar essa queda pela exuberiincia, éra invocada a influéncia do sangue mourisco, Dizia-se que o maior elogio que se podia fazer a uma dama no pais era noté-la cada dia “mais gorda ¢ mais bonita”, “coisa” — segundo o inglés Richard Burton, em 1893 — “que cedo acontece 4 maioria delas”, Gordas quando mocinhas, ao chegarem aos trinta anos jf eram corpulentas, incapazes de seduzir o olhar dos estrangeiros, A que em joven possuira formas longilineas, breve seria volumosa e pesada senhora. “O leitor pode notar, nessas mogas vestidas de preto da cintura para cima, um contraste com a gorda matrona quea segue”, queixava-se Daniel Kidder. Ibid, pp. 194-5. ® [bid p. 195. Alguns viajantes atribuiam a palidez eo desmazelo das mogas & severidade com que eram tratadas pelos pais ¢ matidos, sendo mantidas muito segregadas da vida social — situagio ainda mais grave no interior, onde passavam as vezes muitos meses encerradas entre quatro paredes, sem aparecer as janelas.” A sujeira eo desleixo que diziam testemunhar provocavam, segundo cles, violentas deforma- ges fisicas. As mulheres brancas, ainda que em geral bem tratadas, levavam “uma vida estiipida, fechadas para o mundo em seus quartos escuros” € por esse motivo pareciam também descoradas e doentes, queixava-se Herbert Smith em 1879. - Mesmo mulheres mais jovens nao deixavam de exibir no rosto uma tonalidade amarelada, desagradivel ¢ enfermica. Um certo Gaston, em 1867, queixava-se que “existia uma marcada deficiéncia de beleza” por parte daquelas que estiveram sob sua observacio. Seu diagnéstico, depois de assistir 2 uma missa em Paranapanema, era de que a “grande maiotia era absolutamente feia!”. A pa de cal veio, na mesma época, de um certo Ulick Burke. Para ele, beleza fisica feminina era coisa inexistente no Brasil! | Se houve aqueles que enxergavam pouca beleza em nossas avés, nao faltaram os que preferiam elogiar. Os cabelos brilhantes ¢ densos, 08 olhos escuros, fogosos, cutiosos € expressivos chamaram a atengio de muitos estrangeiros. O inglés John Mawe achava as mineiras “decididamente lindas!’?. O missionario Kidder exultava com abeleza das paulistas, sem igual no Império e “motivo de orgulho € nobreza de sua linhagem”. |Percorrendo, em 1865, 0 vale do Paraiba, Alfredo Taunay registraria, em cartas a familia;"“os rostos de belas cores”, “mogas agradiiveis ¢ bonitas”, % Ibid, p. 197. 58 Uma olhada no album de fotografias que acompanha o clissico Salées ¢ damas do Segundo Reinado, de Wanderley Pinho, confirma a tese de que os conceitos de beleza, como quaisquer outros, sio construgdes culturais que obedecem aos critérios de uma época. As figuras da senhora Taupin, da baronesa de Canindé, de sinhazinha Barros Barreto ou da viscondessa de Guaf revelam fisionomias fechadas, arredondadas pelo queixo duplo, escurecidas pot um indisfargavel buco, encerradas em imensos vestidos balio, incapazes de sequer sugerit 0 que escondiam. O talhe fino tantas vezes descrito por José de Alencar? Nem pensar. Gilberto Freire chega a dizer, com graca, que as “vastas € ostensivas ancas” das matronas brasileiras eram verdadeiras “insignias aristocraticas”. A “descadeirada” sendo olhada como deficiente de corpo! A mulher de formas mais salientes tendia a ser considerada a mais ortodoxamente feminina.# E assim foi por muito tempo. Manuel Bandeira, em sua Exocapio do Recife, cantou as “cadeirudas” recifenses que se banhavam nuas, no entao limpo Capibaribe. Ancas ¢ram o simbolo da mulher sexuada, desejavel e fecunda) Feliz prisioneira dessas formas, ela sublinhava a relacao entre sua conformagio anatémica e sua funcio biolégica ¢, 40 mesmo tempo, sagrada: reproduzir, procriar, perpetuar,| Asancas ganharam uma grande aliada com a moda das “anquinhas”. Essa espécie de enchimento artificial capaz de valorizar o baixo corporal feminino, deu ao posterior feminino uma forma ainda mais luxuriante. Se preciso fosse, usavam-se suplementos de variado tipo, feitos de barbatanas, laminas de ferro, pufes de jornal e até “pneumiticos” para preencher ¢ valorizar as virtudes calipigias das que nao as tinham. Houve quem se prestasse ao riso dos amigos, por usi-las tio exageradas. Eram ridicularizadas no momento da missa, pois quem estivesse atras de um desses monumentos, nele escorava o seu livro de oragdes. Quem conta é Wanderley Pinho: ™ Gilberto Freire, Modes de bomem & modas de muller (Rio de Janeito: Record, 1986), p. 65. Devia ser gracas & ajuda de um desses postigos cheio de ar que certa \ baronesa exibia, apesar dos tributos que j4 havia pago a idade, continuava a pagar, umas paribolas de forte arrojo. O dandy ousado, arriscando-se muito, quis tirar a limpo aquela burla ou inacreditivel realidade, Muniu-se de um grampo de chapéu, e observado de longe por um grupo a quem comunicara a aventura em que ia meter-se, foi sentar-se num sofa junto 4 titular, por sinal, excelente palestradora. E, tendo feito seus cilculos ¢ medidas, 4 medida que a conversa se desdobrava cheia de verve, mantendo o interesse da prosa, talvez com algum nervosismo mas com grande presenca de espirito, ia enfiando no flanco, através de renas e tufos de seda e saias de baixo, o estilete audaz, milimetro por milimetro, tateando, receoso de, ao invés de uma ampola de ar, encontra-la de carne sensivel. A baronesa nada acusava [...] € 0 grampo foi menos suavemente recolhido ao bolso do analista minudente. Quando, vaidosa, se ergueu a baronesa notou admirada que as saias Ihe desciam em cauda meio palmo abaixo; € 0s conspiradores daquela audicia riam 4 socapa, contemplando o desapontamento murcho da fidalga, despojada dos efeitos remocantes de sua camara de ar. No século XIX, belas cram, portanto, as elegantes, possuidoras de um corpo- ampulheta, verdadeiras construgées trabalhadas por espattilhos e anquinhas ca- pazes de comprimir ventres € costas, projetando seios ¢ nadegas. A couraga vestimentar deveria servir para protegé-las, simbolicamente, do desejo masculino. Desejo alimentado pela voluptuosidade da espera, do mistério, do jogo de es- conde-esconde que as mulheres traduziam com seus corpos. A mio cobria-se com luvas, os cabelos, com véus e chapéus, os pés com sapatos finos, 0 corpo, submerso por toneladas de tecidos, s6 se despia por ocasido de bailes. Ai os decotes revelavam o verdadeiro desenho de pescogos ¢ ombros. O ideal do ® Wanderley Pinho, op: dt, p. 164. 59 60 charme feminino correspondia a um mosaico de cheios e vazios, curvas e retas: ombros, arredondados e inclinados em suave queda, pescoco flexivel ¢ bem langado, seios “obviamente” opulentos, bacia larga ¢ evasé, talhe esbelto e fino, bragos carnudos, pulsos delicados e magros, maos longas mas recheadas, dedos afilados, pernas sdlidas, pés pequenos e de artelhos bem graduados. Curvas, ondas, acidentes compunham a cartografia fisica, feita de escrupulosa distribuigao de superficies ¢ volumes. Quanto ao rosto, a moda da fisiognomonia, ou seja, a arte de conhecer o cariter das pessoas pelos tragos do rosto, ditava fegras, Trocas fisiolégicas entre interior € exterior, relagdes entre fisico e moral, compunham um abeceditio de normas para fazer o rosto “falar”: a fronte alta ¢ lisa era denotativa de temperamento décil e serenidade de alma; sobrancelhas naturalmente arqueadas diziam da franqueza de sua possuidora; olhos negros anunciavam calor e vontade; os azuis, ternurae paixGes tranqiiilas; o nariz nao podia ser nem muito pontudo, nem muito largo, e suas aletas, suficientemente bem recortadas para exprimir “impresses fugitivas”; a boca jamais poderia ter labios finos, pois associavam-nos a mesquinharia. Uma beleza feita de convengdes que deveria inspirar panico as nossas avés, teme- rosas, coitadas, de que se descobrissem seus vicios ¢ defeitos, no menor dos movimentos, no nfais inocente dos gestos, na menos feliz das caracteristicas fisi- cas e hereditarias. E 0 que fazer para arrancat essa mascara ao modelo? A beleza e suas zonas de sombra © corpo em movimento A segunda metade do século XIX foi marcada pela presenga do romantismo na literatura e, por conseguinte, de imagens romanti- cas associadas is mulheres, Movimento que atingiu sobretudo as camadas letradas no Brasil, o romantismo propunha como atitude certa prostrasio exibicionista, a exaltagio fervorosa do eu, a ex- citagdo sentimental. Tais sentimentos desdobravam-se na valori- zacio da tez espectral, marmérea, tez de reflexos verdes ou azuis, a propalada “fronte ebiitnea”, cantada por poetas como Alberto de Oliveira. Essa face de esfinge era percebida como reflexo do fogo interior, do destino vencido pelas doencas que grassavam: tisica, anemia ou tuberculose. O ar lnguido era também aquele da fatalidade. O interessante é que nio faltaram receitas de beleza para dar realidade a tais representacdes. Uma cosmética a base de 6leos de cacau, mascaras a base de sangue de galinha, urina de crianga de peito ou excrementos agilizavam a obtengio da palidez clegiaca, cantada em prosa ¢ verso. Para ajudar a expresso dos sentidos, a maquilagem ganhavamclevo, Um doce olhar de bon. dade tinha que diferenciat-se daquele inflamado de paixio| A per- 62 gunta que as mulheres se faziam diante do espelho er sedutor a esse rosto apagado’ ‘Como dar um ar mais . Um produto ceroso, feito a base de améndoas doces aromatizado com esséncia de rosas garantia labios pouco coloridos, po- rém, apetitosos. P6s ¢ lapis pretos, feitos com carvio, terras escuras ou outros” colorantes escuros, delineavam, sem exagetos, os olhos. Ao lado dos esforgos para aproximar as mulheres de uma heroina romantica havia, contudo, outro movimento a empurri-las. Desde d inicio do século XIX, na Europa, multplicavam-se 0s gindsios, os professores de ginistica, os manuais de medicina que chamavam a atengio para as vantagens fisicas e morais dos exercicios. As idéiés de teOricos importantes como Sabbathier, Amoros, Tissot ou Pestalozzi corriam o mundo. Uma nova atengao voltada a anilise dos miisculos e das articulagde4 praduava, como explica Perrot,” os exercicios, racionalizando e programando seu aprendizado, Nao se desperdicava mais forca na desordem de gesticulagées livres. Os novos métodos de gindstica investiam em potencializar as forcas fisicas, distanciando-se do maneirismo aristocritico da equitacio ou da esgrima, ou da brutalidade dos jogos populares, Nos finais do século, mulheres comesam a pedalar ou a jogarténis na Europa. Nio faltou quem achasse a novidade imoral, uma degenerescéncia e até mesmo pecado.|Perseguia- se tudo 0 que pudesse macular o papel de mie dedicada exclusivamente ao lat. Era como seas mulhere® estivessem se apropriando de exercicios musculares préprios 4 atividade masculina. Algumas vozes, todavia, se levantaram contra a satanizacio da mulher esportiva. Médicos ¢ higienistas faziam a ligacio entre histetia e melancolia— as grandes vilis do final do século — a falta de exercicios fisicos. Confinadas em casa, diziam, as mulheres s6 podiam fenecer, estiolar, murchar. Era preciso oxigenar as carnes ¢ alegrar-se gragas a0 equilibtio saudavel do organismo] O esporte seria “Ibid, pp. 190-5, todas as informagées do patigrafo anterior e do seguinte. as mutheres praticavam equitagio, ndo deixando de como podiam, os males provocados pelo clima, mesmo uma forma de combater os adultérios incentivados pelo romantismo. Afin encerradas ou aprisionadas, s6 restava is mulheres sonhar com amores impossiveis ou tentar seduzir o melhor amigo do marido. A clegincia feminina comecou a rimar com satide. Se a mudanga ainda se revelava hesitante, nfo demorou muito a instalar-se ea tornat-se inexorivel. O leitor, contu- do, deve estar se perguntando como se passaram tais transformagGes entre nds. ‘As mulheres da elite sempre montaram a cavalo. A equitag0, como esporte, foi praticada por uma parcela importante de nossa aristocracia, sobretudo, durante 0 reinado de d. Pedro II. Ao ser recebido em Petr6polis em abril de 1872, 0 monarca legantes” — conta-nos Wanderley teve a sua espera “as amazonas da Corte!” Pinho—” “enchiam as estradas com suas plumas r6cagantes, em fogosos cor Wid, p. 147. 63 64 deixando voar nas lufadas de vento indiscreto as fimbrias do vestido revolucio- nario”. A propria condessa de Barral, preceptora ¢, dizem as mas linguas, depois amante de d, Pedro II, era conhecida como amazona intrépida capaz de precipitar- se a galope sobre vacas fugidas. Gilberto Freire acrescenta que, desde os finais do século XIX, a ginastica sueca concorria para dar maior vigor aos brasileiros cres- cidos nas cidades; sem a vantagem dos banhos de rio, dos passeios a cavalo e da vida ao ar livre em fazendas ¢ engenhos. Mas o Brasil em que o corpo feminino comeca a movimentar-se na direcdo dos esportes ja nao era mais 0 do fim do Segundo Reinado. Era o do inicio da Repi- blica, no qual as cidades trocavam a aparéncia paroquial por ares cosmopolitas; nelas, misturavam-se imigrantes, remanescentes da escravidio e representantes da élite, Nesse cenério, nascia uma nova mulher. Hoje em dia, preocupada com mil frivolidades mundanas, passcios, chés, tangos e visitas, a mulher deserta do lar. E como se a um templo se evadisse um idolo. E como se a um frasco se evolasse um perfume, A vida exterior, desperdiada em banalidades é um criminoso esbanjamento de energia. A familia se dissolve e perde a urdidura firme e ancestral dos seus liames queixava-se um editorial da Revista Feminina, em agosto de 1890.** Ela abandonara os penteados ornamentais com ondas conseguidas gracas aos ferros de frisat para cortar os cabelos 4 /a gargonne.\O sport, antes condenado, tornara-se indicativo ® Apud Matina Maluf e Matia Liicia Mott, “Recdnditos do mundo feminino”, em Fernando Novais (dir), Histnia da vida privada no Brasil,3v. Nicolau Sevcenko (org.), Repablica— da Belle Epoque a Era de Radio Sio Paulo: Companhia das Letras, 1998), pp. 372-3, a quem empresto essas ¢ outras informasdes a seguir. de mudangas: “Nosso fim é a beleza. A beleza sé pode coexistir com a satide, com a robustez e com a forca” alardeava o autor de A belleza feminina e a cultura physica, em 1918{A revolugao dos costumes comegou a subir as saias, € estas brigavam com as botinhas de cano alto que, por sua vez, procuravam cobrir 0 pedaco da canela exposta, A cintura de vespa, herdada do século anterior, continuava aprisionada em espartilhos. Esses, contudo, tinham melhorado. O dissimulado instrumento de tortura, feito de pano forte e varetas de barbatana de baleia, tdo rigidas a ponto de sacrificar o figado e os rins, mudara. Era, agora, feito de varetas flexiveis de ago. A partir de 1918, ele comega a ser substituido pelo “corpinho”. Se os primeiros salientavam os seios como pomos redondos, 0 corpinho deixava-os mais livres e achatados. Ao final da Primeira Guerra Mundial, as chamadas “exuberincias adiposas”, passam a set contidas, no mais pelo terrivel espartilho, causador de danos irreparéveis, mas pela cinta elistica. “Artigos sanitirios”, antes desconhecidos e que atendiam pelos insdlitos nomes de Korex, Keg, e Modess anunciavam o fim do tabu da menstruagio nas revistas femininas. Vendidos 4 diizia, eram complicadas “toalhas higiénicas com franjas”, serviettes esterilizadas, “‘calcas sanitarias em borracha e marguisette, rematada com debruns de borracha”, “cintos para serviettes”. Catélogos de roupas brancas, feitas por sofisticadas bordadeiras, revelavam que a vida no boudoir, no quarto de vestir e de dormir ganhava novos contornos. Contrariamente as suas antepassadas capazes de passat os dias em roupio branco e desgrenhadas, a mulher do€ anos 20)parecia querer seguir a gisca os conselhos da Revista Feminina, em que a artculista Henriette admoestava:” > Tid, pp. 395-7. 65 66 Como entio, ha algumas leitoras que andem em casa sem meias? Hi pelo menos 60% de senhoras casadas que pelo menos até a hora do almoco, ficam com o chinelo com que se levantam, o cabelo amarrado com uma fitinha e um roupio lembrar-nos de que nds, mulheres, fomos criadas para a fantasia. Todas as vezes que nos mostrarmos muito materiais perdemos o encanto que nos acham os homens. Para além do “corpinho” e de cintas, o corpo comecava a se soltar. O famoso costureiro francés Paul Poiret rompe com o modelo de ancas majestosas ¢ seios pesados para substitui-lo por outro. No inicio do século XX, tem inicio a moda da mulher magra.|Nio foi apenas uma moda, foi também, diz Philippe Perrot,” o desabrochar de uma mistica da magreza, uma mitologia da linha, uma obsessio pelo emagrecimento; tudo isso temperado pelo uso de roupas fusiformes. O “tamanho”, ou seja, rubrica que passa a determinar a largura e a conformagio do corpo em relacio a roupa, torna-se uma espécie de forma anatomica, Além de constrangimento moral endo apenas corporal, tamanho traduzia, num martitio mental ¢ nio mais fisico, a linha de demarcacio que passara a reprovar ¢ estigma- tizar toda mulher que o extrapolasse,|“Dé-me um menor, esse nio é 0 meu tamanho!”, passava a sef triste confissio,| Na Europa, de onde Vinham todas as modas, a entrada da mulher no mundo do exercicio fisico, do exercicio sobre bicicletas, nas quadras de ténis, nas piscinas e ptaias, trouxe também a aprovacio de corpos esbeltos, leves ¢ delicados. Tinha inicio a persegui¢ao ao chamado embonpoint, os quilinhos a mais, mesmo que discreto) O estilo “tubo” valorizava curvas graciosas ¢ bem langadas. O grande Philippe Perrot, Le trasail des apparences ou les transformations du corps fominin XVIII-XIX siécle (avis: Seu 1984), pp. 19 oduz novos penteados, 0 uso do sh de sensWalidade e vida ativa. Museu t, 0 duas. ma americano nos anos 5 pecas,a Nacional de Belas Artes dos sims 68 romancista Emile Zola, se alarmava: “A idéia de beleza varia. Ela agora reside na esterilidade de mulheres alongadas, donas de flancos pequenos”, Era a eclipse do ventre. Alguns médicos rebelavam-se contra a moda de tendéncia masculina que associavam as idéias feministas ¢ ao desprezo pela maternidade. Os cabelos cur- tos, as pernas finas, os seios pequenos eram percebidos por muitos homens como uma negacio da feminilidade. O movimento, contudo, estava langado. Regime musculagio comegavam a modelar as compleigdes longilineas e méveis que pas- sam a caracterizar a mulher moderna, desembaragada do espartilho ¢ ao mesmo tempo, de sua gordura decorativa. As pesadas matronas de Renoir sio substitui- das pelas silfides de Degas. Insidiosamente, a norma estética, afirma Philippe Perrot, emagrece, endurece, masculiniza 0 corpo feminino, deixando a “ampulheta” para tras, Corpos esculpidos Entre nés, o esporte, responsivel indireto por tantas mudancas, é introduzido pelos imigrantes e por alguns representantes das oligarquias em contato com as modas curopéias. Segundo Ménica Schpun,"' a pratica desportiva era destinada a combater © 6cio € os habitos mundanos da juventude. Tinha, portanto, uma funcio profilitica No niimero 2 da revista Sports, o educador Fernando de Azevedo definia: A educacio fisica da mulher deve constar de: a) jogos infantis, especial- c b) gindstica sueca, principalmente apropriada a fungio respiratéria e a bacia e aos membros infetiores; c) esportes, tais ‘Monica Raisa Schpun, Belege em jogo — cultura fi fi M ‘cultura fisica ¢ comportamento em Sio Paulo not anes 20 (So Paulo: Editora SENAC Sio Paulo, 1999), pp. 50-1 ila como danga clissica, ao at livre, pedestrianismo (pequenos passeios, cotridas ¢ marchas de pouca duragio € extensio); d) e, finalmente, a natacio, que é esporte utilitario de maior capacidade higiénica morfogénica, Referindo-me as dangas, sob o ponto de vista higiénico, claro esta que nesta categoria de indiscutivel valor fisiolégico nao po- dem entrar as dangas modernas (dangas de salio), 4 noite, em salas mal arcjadas, tio repelidas pela higiene moderna como por ela so aconse- Ihadas as dancas antigas - essas admirdveis variagdes do salto e da marcha. Os exercicios, pois, que mais convém & mulher sio aqueles que aumentam a flexibilidade e a destreza da coluna vertebral, isto é, os movimentos que, sujeitos as leis da cadéncia e do ritmo, se tornam, por assim dizer, a poesia da locomogio. E que na flexibilidade do tronco e da harmonia dos movimentos depende um dos maiores encantos da mulher: a GRACAJA educacio fisica para mogas deve ser, pois, higiénica e estética, e nunca “atlética”, visar sobretudo o desenvolvimento da parte inferior do corpo, dar a graca e a destreza dos movimentos, procurando antes a ligeireza do que a forca. | A despeito da presenca de mulheres nas raias das piscinas ou nas quadras de ténis dos clubes privados, o mundo onde, de fato, estava presente, era o da casa‘A sua vida doméstica ganhava, contudo, valores de consumo, nunca dantes vistos no Brasil. Certos produtos de beleza comesavam a ser industrializados-Quem podia, cedia aos encantos do produto importado. Guerlayn e Coty eram as marcas mais procuradas. Pequenas oficinas domésticas produziam, segundo Schpun,** cremes € pos para o rosto, perfumes, produtos para os olhos e para a maquilagem em geral, vendidos de porta em porta para consumidoras de classes médias. A moda também se desenvolve. As lojas de luxo importam vestidos e moldes; algumas chegam mesmo a oferecer os servicos de seus ateliés de costura para consertos € © Ibid, p.77. ‘ 69 Proteses, ansbolizantes, sxigenadas! ajustes, ou ainda para fazer roupas intimas. Costureiras e chapeleiras de origem estrangcira, instalam-se com suas lojas. Vitrines e manequins enfeitam grandes lojas como o Mappin Stores de Sio Paulo, cujos produtos eram também vendidos através de catilogos, de encomendas por telefone ¢ correio ¢ de um servico de entregas. Antincios em francés visavam atrair a clientela mais sofisticada, apregoando robes d'aprés-midi et de soirées.(A inovacao dos saldos ¢ liquidaces permitia as camadas urbanas médias adotar a roupa de gente rica.| Além de Consumir, com os olhos ou com a bolsa, os milhares de novos produtos expostos nas vitrines, nos anincios ptiblicos e nas revistas femininas, as mulheres vio imbuindo-se, lentamente, de uma nova preocupacio, como sublinha a historiadora: a apresentacio fisica, que as introduz na vida urbana de forma convenientel E a palavra de ordem ¢ beleza! Toda a feitira deve ser banida Javimos que a preocupacio em ser bela nao era novidade. Mas aqui a percepcio da beleza feminina tornava-se mais palpavel. Os concursos de beleza, recém- inventados, chancelavam essa preocupacio, junto com centenas de imagens femi- ninas que invadiam a imprensa na forma de consclhos de beleza. Todos os me- Ihoramentos deviam ser estimulados. O misto de beleza e clegancia, antes apanigio do romantismo, comega a ceder as formas de exibigiio do corpo feminino,]O discurso higienista, tio ativo entre os anos 20 ¢ 30, estimula a vida das mulheres a0 ar livre, menos cobertas ¢ mais fortificadas." O habito dos esportes, a fundacao © Ibid, pp. 81-2. Empresto suas informagies para o parigrafo seguinte. “ Sobre o discurso higienista é obtigatorio o livro de Jurandit Freire Costa, Ordem médica ¢ norma familiar (Rio de Janeiro: Graal, 1979). Como bem esclarece © autor, o higienismo é implementado por um importante ramo da medicina de entio, a medicina social. Esse ramo pregava a tese de que a sociedade, quando em mau funcionamento, podetia ser causadora de doéngas, sendo, portanto, passivel de medicacio. Ha um claro sentido politico nessa abordagem, uma Yez que se propugnava a formacio de ‘uma “familia higiénica” capaz de formar a elite ditigente do pais. 7 72 de clubes, a énfase na danga estimulada pela recém-inventada industria fonografica, instigavam aexposi¢io dos corpos,Instala-se a busca da aparéncia si\ A medicina comega a sublinhar a importincia de exercicios e vida saudavel para preservar, nao somente a satide, mas também a frescura da tez, a pele saudavel, 0 corpo firme e joverijAcreditava-se que 0s defeitos fisicos poderiam set corrigidos, no 4 custa de toneladas de maquilagem ou qualquer outro artificio, mas por outros meios salutares, como a vida higiénica, disciplinada e moderada. Vejamos 0 conselho da Revista Feminina, de outubro de 1920: {As feias [..] nlio devem fingir-se belas, Contentem-se em ser feias, tra- tem de educar seu espirito, de viver higienicamente para adquitir satide, de nutrit-se convenientemente, de ser simples, bem-cducadas e meigas. A vida higiénica, a boa nutrigio, os esportes garantir-lhes-do a satide, a boa pele, os bons dentes, a harmonia das formas, o desembarago dos gestos e a graca das atitudes; a leitura si, 0 cultivo do espitito, dar-lhes- do inteligéncia e a fronte; a bondade, a simplicidade, a meiguice torné- las-do perturbadoramente simpiticas. Deixario, pois, de ser feias; ou, se continuam feias, valerio mais do que as belas, terio mais prestigio pessoal, impor-se-do as simpatias gerais.*_/ Mas ser feia, nas primeiras décadas do século XX, tinha seus pontos negativos. Todas sabiam que a fotografia, o cinema e a imprensa divulgavam padrdes que deviam ser seguidos, excluindo aquelas que deles nao se aproximassem. Tipos femininos criados por Clara Bow, Alice White, Colleen Moore incentivavam ima- gens sobre “garotas modernas”, misto de alegria, mocidade, jazz ¢ cocktails! Um controle mais rigido sobre a apresentacio pessoal era exigido até nos empregos © Aud Monica Schpun, Beleza em jogo — calbarafisicae comportamento em Sie Paslo nos anos 20, cit., p. 88. ocupados por mulheres. A chamada “boa aparéncia” impunha-seyOs bons casa- mentos sobretudo dependiam dela. Olhos e boca, agora, gracas a0 batom indus- trial, passam a ser 0 centro de todas as atengdes. Theda Bara e Greta Gatbo arrasavam com sua malicia singular; eram o simbolo da mulhet-mistétio. O aparato colocado a servigo da beleza corporal, nessa época, aparato feito de receitas de fabrico doméstico, de produtos farmacéuticos ou de artificios de maquilagem, pareciam prometer 4 mulher a possibilidade de, em nao sendo bela, tornar-se bela(Havia salvagao! A propalada coquetterie, desdobrada em cursos de maquile- gem, cuidados de pele ¢ cabelo, massagens e tratamentos dos mais variados, cur- sos para aprender a caminhar ea gesticular, constitufam um investimento..As feias teriam uma chance, Feia? $6 quem quisesse: [A coguettere a qualidade mais admirivel na mulher. Gragas a ela muitas mulheres feias parecem bonitas, ¢ as bonitas~ encantadoras. E a coguetterie que acentua a graca aos cabelos que beijam a nuca ou sombreiam a fronte; € a coquetterie que imprime sorrisos de gléria 4 linda curva do seio; pot ela 6s olhos expressam languidez ou triunfo, os corpos, com trajes artisticos, fazem ressaltar a harmonia das formas. A coguetterie rodeia a mulher como uma allure graciosa ou grave segundo cottespondia o seu tipo; ela rege as modulagoes da voz e a harmonia do rosto, | explicava o ntimero quinzenal de A eigarra, em julho de 1920. A palavras francesas como coquetterie, literalmente a preocupagio de se valorizar para agradar, ¢ allure, distingao de porte, somam-se outras, em inglés, influéncia do cinema: sex-appeal e it. A primeira dispensa tradugio; a segunda, referia-se ao “qué” de sedutora que havia em cada mulher, “It € 1m dom de atragio [...] uma qualidade passiva, que atrai a atencio ¢ desperta o désejo. A mulher deve possuir © it para atrair o homem” ¢xplicava o articulista de Cinearte, em 1928. Ji o sex- 73 74 appeal, segundo o mesmo cronista, definia-se pelo fisico)“atraente perfeito, pelas atitudes provocantes, o olhas liqiefeito e perigoso, no andar lento ¢ sensual, nos libios contornados e convidativos. As que tém [isso] os homens seus escravos io” |A“malicia”, outro ingrediente indispensiivel ao sucesso ferninino, era sugerida por subentendidos na estética cinematogrifica. Gragas ao cinema americano, novas imagens femininas comegam a multiplicar-se ‘A moda, diz uma historiadora,“ foi uma das principais articuladoras do novo ideal estético imposto pela indistria cinematografica americana, Nao era mais Paris quem a ditava, mas os estidios de Hollywood. Nas paginas de revistas como Cinearfe podiam encontrar-se, as dezenas, artigos com titulos sugestivos como: “O que as estrelas vestem?”, “Cabelos curtos ou compridos?”, “A volta das saias compridas”, “A mulher ea moda, segundo a opiniao de Esther Ralston”, “As mogas devem ou nio usaf meias? Falam algumas estrelas de Hollywood”, “Por que as estrelas furnam?”, ete. | Na matéria “Nao se vistam como nés”, 0 articulista constata com certa ironia que, apés a exibicdo de um filme com “uma mulher perigosa, toda vestida de cetim Ld voluptuosa ¢ tentadora” éinevitivel que, “dias depois, nos escritérios das cidades [uJ as dasilgrafas entrefh, perfeitamente vestidas de cetim, com imensos brincos, quando possivel, imitando-a, terrivelmente”’ com o penteado daquela artista. Segundo a mesma historiadora, o que estava em jogo em todo esse discurso da aparéncia¢é a transformacio do corpo feminino em objeto de um desejo fetichista. T Mada Fernanda Baptista Bicalho, “A arte da seducio ~ a representagio da mulher no cinema mudo brasileiro”, em Albertina de Oliveira Costa ¢ Cristina Bruschini (orgs), Entre « virtude « puede (Sa0 Paulo, Fundagio Carlos Chagas/Rosa dos Tempos, 1992). Empresto ao seu artigo varias das informa- des-sobre 0 mesmo assunto, Se por um lado a estética cinematogrifica era sindnimo de mentalidade moderna ¢ um dominio onde a mulher podia tomar iniciativas, por outro a sensualidade que emanava de sua representasio a transformava em objeto passivo de consu- mo. Mais um adendo: a indumentiria usada pelas atrizes, ¢ copiada no mundo inteiro, nao fazia mais do que traduzir metaforicamente a personalidade feminina. (Ora, 0 poder de sedugio de estrelas do cinema marcou toda uma geracio de mulheres, servindo de modelo para a imagem que queriam delas mesmas.| ‘Ao aparecimento desses rostos na tela rostos jovens, maliciosos ¢ sensuais — somaram-se outros fatores cruciais para a construgio de um modelo de beleza. Data dessa época o banimento de cena da mulher velha. Se até o século XIX matronas pesadas c vestidas de negro enfcitavam Albuns de familia ¢ retratos a dleo, nas salas de jantar das casas patricias, no século XX,elas tendem a desapare- cer da vida publica))Envelhecer comega a set associado a perda de prestigio € 0 afastamento do convivio social. Associa-se gordura diretamente a velhice. Ba emergéncia da lipofobia. Nao se associava mais o redondo das formas —as “‘che- inhas” — a sade, ao prazer, a pacifica prosperidade burguesa que lhes permitia comer muito, do bom e do melhor.'A obesidade comeca a tornar-se um critério determinante de feitira, representando o universo do vulgar, em oposi¢o ao elegante, fino e raro. Curiosamente, esbeltez ¢ juventude se sobrepdem. Velhice ¢ gordura, idem)“E feio, é triste mesmo ver-se uma pessoa obesa, principalmente se se tratar de uma senhora; toca as vezes as raias da repugnincia” advertia a Revista Feminina, em 1923. A gordura opunha-se aos novos tempos que exigiam corpos égeis e ripidos. A magreza tinha mesmo algo de libertirio: leves, as mulheres moviam-se mais e mais rapidamente, cobriam-se menos com vestidos mais curtos c estreitos, estavam nas ruas. O rosto rosado pelo ar livre, pela atividade nao se coadunava com o semblante amarelo das mulheres eqfifinadas em casa, 75 76 Vitéria da silhueta eta? Nio! lustracdes ¢ charges dio a pista para o gosto mas- culino em relagao as formas femininas. Elas seguiam arredondadas, valorizando quadtis ¢ nédegas, seios pequenos e pouco salientes. Resumindo: quatrocentos anos de morenas ¢ mulatas sinuosas, da consagrada “morenidade” descrita por Gilberto Freire, resistiam bravamente aos modelos importados € aos ang das beldades escandinavas, ditadas pelo higienismo ou hollywood a Gases lywoodianas, impostas Nasce a “louraga-belzebu” Foi mais uma vez Gilberto Freire quem chamou a atengio para o surgimento da moda das louras entre nds. No final do Império, o Brasil foi invadido por uma série de inovaces técnicas adaptiveis a busca de melhotia da situacio industrial em que estavamos. Importavam-se desde descascadores, despolpadores e venti- ladores para produtos agricolas, a0 gosto pela cerveja — a Franziskaner Brau ¢ Pilsener ou Ypiranga —jé fabricadas entre nds. Os sapatos Clark, feitos por esco- ceses “expressamente gdaptados ao clima do Brasil” prometiam dar aos pés “a maior elegincia”. Armarinhos ¢ lojas importavam “as novidades das estades”, 0 chic parisien, enquant6 nos leildes de arte disputavam-se artigos com nomes antes desconhecidos: bibelot, cristofle fayance, maple |A maquina Singer, introduzida no final do século XIX, permitia copiar todos os francesismos/Um Tepresentante da loja Au printemps, no Rio de Janeiro de mil oitocentos ¢ tanto, incentivava o consumo de roupa de baixo ¢ enxovais de noivas ou de colégios, cuja brancura doméstica era mantida, gragas aos excrementos de cabra, alvejante sem par. Na vo; das coisas que vém de fora, explica-nos Freire, chegam as louras. Nao as de Scie €0850. Mas as de porcelana com olhos azuis. Eram as bonecas francesas, substitutas das de pano, companhciras de brinquedo de tantas meninas ¢ iaias. Eram bonecas de meninas ricas, as mais prestigiosas. Coradas e vestidas de seda, “resultado de mios habeis no modelamento, possuiam feigdes simpaticas”. Segundo Freire, 0 culto da boneca loura ¢ de olhos azuis entre as meninas da gente mais rica do Império deve ter concorrido para contaminar algumas delas de certo arianismo; para desenvolver no seu espitito a idealizagio das criangas que nascessem louras ¢ crescessem parecidas as bonecas francesas; ¢ também para tornar a francesa 0 tipo ideal da mulher bela e elegante aos olhos das mogas em que depressa se transformavam no trépico aquelas meninas."” © desprezo pela pele trigucira foi agravado pela contemplagao de anjos, madonas e santos nérdicos nas capelas de colégios, ou pela leitura das aventuras de Chiquinho, herdi louro da revista O Tico- Tico. Depois das bonecas de louca, do final do Império, chegaram outras louras, muitas delas falsas. Eram as Mimis, prostitutas estrangeiras de cabelo “cor de fogo”, canes brancas e, na sua maiotia, sotaque carregado: “Menino, vem c4 pri dentro sind vam te fazer mall”, gritou certa vez uma delas para 0 jovem Di Cavalcanti, fugitivo de uma briga de morte na rua do Niincio, Rio de Janeiro. Foram tais “mundanas” ou “hetairas” européias que desenvolveram entre nossos homens certa “consciéncia sanitétia”, participando a seu modo da onda de higienizago que vartia as grandes capitais da jovem Repiblica. ‘A moda da loura vai ganhar forga logo depois da proclamagao da Reptblica por diferentes razdes: primeiramente, pelo ideal de branqueamento das elites, inco- modadas com o mulatismo da populacao. A seguir, gracas 4 chegada massiva de imigrantes estrangeitos, 0s alemies, sobretudo, considerados exemplares mode- Ios de eugenia Finalmente, as teorias arianas conquistaram parte dos intelectuais brasileitos. Era crenga comum que o “clareamento da pele” aproximaria o Brasil © Gilberto Freire, Ordem ¢ pregrsse (Rio de Janeiro: Record, 1990), p. 90. de certa “melhoria da raga” responsvel, em iiltima instincia, pela construcao do progtesso nacional. Em tal cenatio, fica facil entender a valorizacio social das mulheres claras.| Quem nao era branca tratava de parecer branca através da utilizacio de pos, pomadas brancas e cabelos tingidos. Revistas femininas reco- mendavam as mulheres protegerem-se do sol antes de sair de casa, evitando a todo custo o “aspecto grossciro” ea “cor feia” resultante do bronzeamento. A beleza natural nao estava associada & pele dourada, mas as faces rosadas. A sucessio encabecada pela platinum blonde Jean Harlow, seguida de Marlene Dietrich, Marilyn Monroe, Anita Eckberg, Jane Mansfield, Doris Day entre outras, dew uma linhagem de grande influéncia entre nds, até a chegada das barbies, nos anos 90. Abaixo as “barbies”! A feitira, hoje to universal quanto no passado, nao tem histéria. Tampouco se escreveu a histéria da solidao e da dor, suas conseqiiéncias mais imediatas. Hé séculos, 0s feios servem de bode expiatdrio a sociedades muito seguras de suas verdades ¢ do discurso de suas elites. Tal como as nossas, nos anos 20 € 30, essas elites determinavam que a beleza cra o modelo “sueco”. Hoje, embora o discurso higic- nista tenha desaparecido, continuamos falando em coisas como “patricinhas & mauricinhos”, em “peruas e marombeiros”. Nessa perspectiva, as transformagSes do corpo da mulher brasileira foram brutais. Uma radicalizagio comp cosa a empurrou nos tiltimos dez anos, ¢ a segue empurrando para a triade abenco- ada pela midia: ser bela, ser jovem, ser saudavell Gragas & supremacia das imagens, instaurou-se a tirania da perfeicio fisica.\Hoje, todas querem ser magras, leves, turbinadas|Num mundo onde se morre de fome, grassa uma verdadeira lipofobia. “Todas as mulheres parecem querer participar da sinfonia do corpo magnifico, quase atualizando as intolerantes teses estéticas dos nazistas. ‘iva e ansi- 80 Na outra ponta, pessoas como madre Teresa de Calcuté conheceram de perto os horrores do softimento fisico. Numa entrevista, ela dizia que 0 trigico da “feitra” de um leproso era a sua solidio, o fato de ser indesejavel, naio amado, rejeitado. Que se podia fazer tudo por um corpo em sofrimento, mas nada por esse “outro sofrimento feito de negacao. Anénimas, as que nao sio belas, simplesmente recu- sam seus corpos, tanto mais quanto vivemos hoje a supremacia da aparéncia. A fotografia, o filme, a televisio e o espelho das academias dio a mulher moderna © conhecimento objetivo de sua propria imagem. Mas, também, a forma subjetiva que cla deve ter aos olhos de seus semelhantes. Numa sociedade de consumo, a estética aparece como motor do bom desenvolvimento da existéncia. O habito nao faz 0 monge, mas quase....A feidra é vivida como um drama. Dai a multipli- cagio de fabricas de “beleza” cujo pior fruto é a clinica de cirurgia plastica milagrosa. Os pagamentos a perder de vista, com “pequenos juros de mercado”, parecem garantir, gracas a préteses, a constituicio de um novo corpo: formal, mecinico, teatral. Corpo que a efigie do desejo modetno, desejo dertisério de uma perpétua troca das pecas que envelhecem: de nadegas a coxas ¢ panturrilhas. Essa relagao com o corpo implica em opinides contraditérias. Os adversatios da cirurgia estética recusapa-se em dar ao corpo uma importancia que valha a pena modificar. O que conta é a alma ou o espitito. O desejo de modificacio torna-se para alguns até mesmo suspeito. Os partidarios da cirurgia estética, por sua vez, acreditam que a forma corporal é uma realidade cujo papel na vida cotidiana esta longe de ser pequeno. A cirurgia, aqui, é um elemento importante para o equilibrio. psicolégico e seus desdobramentos: 0 casamento feliz, o sucesso profissional! As pessoas pouco percebem que a chave de um bom relacionamento com a vida passa por certa dose de aceitacio, inteligéncia, carinho ¢ alegria. Pelo menos € 0 que afirmam os especialistas!_| Esse equilibrio passa, também, por uma constatacio pouco valorizada: 0 culto & beleza, ¢ exclusivamente a cla, € perigoso. Intimamente ligado ao da juventude € do efémero, o culto a beleza torna-se um desafio ao tempo ¢, mais dramatico, a0 proprio homem. Pior é quando um modelo de beleza nosso, mestigo, passa a ser ameacado pelo que vem de fora(Entre nés, aumenta assustadoramente o niimero de mulheres que opta pela imagem da Barbie americana, dona de volumosos scios de plistico, cabeleiras louras falsas e labios de Pato Donald. No outro extremo encontramos a androginia mais absoluta, em que cada um quer ter as formas do outro, com todas as suas conseqiiéncias. Inclusive aquela terrivel, de que quando nossas preocupacées fisicas tomam a frente, clas significam o medo ea recusa dos que nio sio como nés. Mal se percebe que nossa sociedade valoriza nto a identidade, mas a identificagio(Os pequenos defeitos, que outrora davam charme a.uma mulher, 0 tal de if, estio em baixa) ‘Ora, o Brasil é um pais mestico. Nossos corpos, como mostrei aqui, sio o resul- tado de uma longa hist6ria biolégica na qual se misturam indios, negros, brancos de varia procedéncia e amarelos. O resultado foram ancas, cabelos crespos, a maneira ondulante de andar e o que Gilberto Freire chamou de “morenidade”. E preciso proteger c libertar nossa socicdade do que ela pode fazer com cla mesma, E preciso proteger nela a sua integridade, a sua identidade subjetiva e genealdgica, adignidade de suas formas ¢ das suas cores originais contra o materialismo € 0 desmantelamento do corpo{Xé, Barbies, proteses, anabolizantes, anotéxicas ¢ oxigenadas! Abaixo a insisténcia em fabricar mulheres sem marcas nem diferen- as capazes de individualizé-las. Num pafs onde sio tantas as variiveis corporais, onde gracas ¢ desgracas sio distribuidas de acordo com as diversas herangas bioldgicas e sociais, a imposicaio de um modelo “perua” importada s6 é bom quando se trata de veiculo de passeio sobre quatro roda 81 82 Mas vejamos agora, leitor, como é que médicos, especialistas e jornalistas vm tratando das transformagées do corpo feminino em nossa sociedade. A academia, 0 médico e 0 monstro Realizada em setembro de 1996, uma pesquisa do Datafolha,* cujo titulo era “Beleza a qualquer custo”, revelava que 50% das mulheres nio estavam satisfeitas com o seu peso € que 55% gostariam de fazer uma cirurgia plastica. O dado contrastante é que 61% das mesmas nio praticavam exercicios fisicos, preferindo cuidar da beleza na base da compra de cosméticos. Barrigas perfeitas, pernas rijas, seios altos, enfim, se possivel, “tudo no lugar”, gracas a produtos milagrosos! A jornalista Alessandra Blanco informa ainda que, de todas as entrevistadas, apenas 2% disseram nio se importar € n3o comprar produtos de beleza. As demais, segundo ela, compram e muito: 44% das mulheres gastavam mais de 20% do seu salério com esse tipo de produto. E esse niimero nao fica apenas nas camadas sociais mais elevadas, informa-nos ela. Ao contratio, entre mulheres cujos rendimentos iam até 10 salarios minimos, 54% diziam gastar mais de 20% do salétio com cosméticos.” As partes menos apreciadas do corpo feminino, ¢ portanto sujeitas a mudanga gracas ao bisturi, seriam barriga (16%), seios (12%) e rosto (9%). Por que isso tudo?“Medo de envelhecer”{ confessa uma entrevistada. “A hora que cair tudo, eu subo. No tenho o menor pudor”, afirma conhecida atriz.” Segundo a jornalista, a eterna reclamaciio masculina de que as mulheres nunca esto satisfeitas com a © Revista da Folha, 231, Folba de S.Pawlo, 22 set. 1996, pp. 12-20. © ‘Trata-se de Claudia Raia, Revista da Folha, cit., p. 13. propria aparéncia também parece ser verdade. Segundo o Datafolha, 64% gostariam de mudar alguma coisa no cabelo, 50% nao estio satisfeitas com o seu peso atual e\20% gostariam de perder mais de dez quilos..Emagrecer, sim. Fazer ginastica, como propunham os higienistas dos anos 20, nao! A preocupagao com a beleza suplanta a preocupagio comasaide. 4, Microcameras que entram no corpo, cénulas que sugam gentilmente camadas de gordura entre peles e miisculos, transferéncia de gordura de uma regio do corpo para outra, substancias sintéticas que funcionam como massa de modelar, tudo isso permite a mulher “fazer-se mais bela”. Na ansia de escapar as transformagdes que chegam com a idade, ou a fantasia de ter o nariz da Cindy Crawford, a mulher é capaz de tudo. Demi Moore fez onze operagdes para obter um corpo escultural, e Jane Fonda, apesar de propalar as reccitas de um corpo feliz por seu método de gindstica, retirou costelas inferiores para afinar a cintura. A maiot rede nacional de televisio apresentou em horitio nobre uma moga de 20 anos que havia comegado, ainda adolescente, a se submeter a “pritica estética” de cirurgias, j4 contando com duas dezenas delas. Se 20 piiblico seu corpo € rosto no pareciam ter sofrido grandes mudancas, cla, por outro lado, afirmava sentir- se muito mais fel Segundo pesquisa realizada pela Globo Ciéncia,® s6 no ano de 1996, 6 mil profissionais brasileiros que atuavam na rea realizaram nada menos de 150 mil operages estéticas (0 maior indice mundial em relacao 4 populagio) ¢ 0 dobro das reparadoras, conforme as estimativas. A previsio para o final de 2000 é de 350 mil. © caso parece sinalizar a existéncia de uma “epidemia nacional de vaida- * A matéva, inttulada “A arte de reconstrit 0 corpo”, assinada for Renato Ventura Modernell, Solange Barrcita ¢ Wagner de Oliveira, foi publicada no n° 75, pp. 38-47 83 a4 Malhagio, a palavra de ordem! de”, dizem os jornalistas responsaveis pela matéria. Ivo Pitanguy, entao per completar 50 mil cirurgias, negou o fato. Nao hi um culto cm relacio 4 cirurgia estética. O que existe é a valorizacao do corpo, da boa forma fisica. Nos ultimos anos, houve uma maior tendéncia em se cultuar a imagem. As pessoas procuram fazer gindstica [equivoca-se 0 renomado cirurgiio], preferem uma alimentacao sadia, com o objetivo de ficarem bem consigo mesmas. E também procuram os caminhos da cirurgia plastica para isso. Alimentagao sadia? Tudo indica que esse é outro erro da avaliagao de Pitanguy. A revista Epoca publicou avassaladora matéria cujo titulo é “O triunfo do hambirguer!”"’ O que deveria ser uma preferéncia juvenil, ou seja, cachorro- quente, batata frita, sorvetes ¢ chocolates, é hoje o cardapio de 30% de integrantes das classes A ¢ B. A obesidade ameaca, adverte a Sociedade Brasileira de Alimentagio ¢ Nutrigio[/As transformagées na alimentaco sio certamente responsiveis por mudangas na satide e na forma fisica, Estamos consumindo, cada vez mais, uma alimentagio calérica responsavel por tertiveis quadros de hipertensio, diabetes e colesterol alto, segundo adverte o diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Marcos Vinicius Malaquias. No campo da beleza, a alimentagao também faz suas vitimas.( Encontros recentes, como a XIX Jornada Carioca de Cirurgia Plistica, colocaram em cena prés e contras dos diferentes tipos de cirurgia estética, Ha polémicas sobre a eficécia dos implantes de silicone nas nédegas, por exemplo, implante que, para alguns cirurgides, no funciona nos ghiteos volumosos da mulher brasileira: “A cirargia s6 ¢ indicada para mulheres totalmente sem nadegas ou de nidegas * Bpece, 24 abr. 2000, pp. 54-60. A matéria€assinada por Samuel Vargas Mateclo Giglio. 85 caidas ou flicidas, mas os resultados nao tém sido satisfatdrios. Ainda ha riscos de compressio dos nervos que vio para as pernas”, adverte o cirurgiio plistico Pau- lo Roberto Leal. Ja seu colega José Aurino Cavalcanti Saraiva afirma ser essa uma “cirurgia campea”. “Do ano passado para cé”” —insiste —‘“aumentou bastante a procura. Hoje se equipara a procura por implantes de mama.” Sua cliente, Isabel, empresaria, garante: “Fiz ¢ foi dtimo. Nos quinze primeiros dias senti um pouco de incémodo e o bumbum pesado e, durante dias precisei dormir de brugos, Mas ii no sexto dia viajei de carro durante trés horas, sem problemas!”.®* Outra questi a lipoaspiragio faz 20 anos. Um dos temas mais debatidos é a quantidade de gordura que deve ser retirada de cada paciente. Alguns médicos criticam colegas que fazem megalipoaspiragées, retirando de dez a quinze litros de gordura do paciente. A clinica Santé, em Sao Paulo, faz rotina dessas citurgias ¢ esté sendo intimada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plastica a dar explicagdes.* Nao & toa, multiplicam-se os casos como o de Roberta Woo, leitora da revista Plistica e Vocé, que pergunta a coluna do dr. Ewaldo Bolivar: “Eu fiz lipoaspiracio na barriga ha um ano e ficou cheia de ondas. Da para consertar isso?”.5° O cirurgifio plastico Farid Hakme aponta os hibitos alimentares das brasileiras como responsaveis pélo aumento da demanda de cirurgias € lipoaspiragdes ou lipoesculturas. Some-st a isso, explica o médico, a miscigenagio caracteristica de nossa cultura. Miscigenaciio capaz de somar um nariz levantino com um posterior africano(“A combinagio nem sempre harmoniosa dos tragos promove desproporcionalidades.” Desproporcionalidades que podem ser eliminadas gra- ta a Marcia Cezimbra, do Jornal da Familia de O Globo, 30 jul. 2000. 2,p.26. Entrevista a Marcia Cezimbra, cit, p. 2. cit, p. 29. Entrev Entrevista a revista Plistice ¢ % Plisticae as 4 “multiplistica”, ou seja, uma cirurgia que corrige, ao mesmo tempo, diversas imperfeigdes anatdmicas, paga em suaves prestacdes. Hakme é dos poucos a dizer com todas as letras que beleza nao pode ser um “apanagio dos endinheirados”. De fato, As revistas femininas ¢ a midia, em geral, ao referirem-se as benesses da plastica, o fazem sempre tendo como interlocutoras as mulheres que pertencem As camadas altas da populacao. E como se, na outra ponta, feitira e pobreza se misturassem num rétulo tinico. O efeito no pode ser mais perverso. Além de todas as clivagens econémicas e sociais que existem no Brasil, haveria essa outra: adaestética | Entrevistada, a fotégrafa Isabel Pedrosa deu sua versio das dificuldades encon- tradas pelos bons profissionais ao ter que clicar uma siliconada para revistas do tipo Playboy ou outras do género: “Serd que o leitor pereebe que o que esté vendo, admirando em fotos de mulher nua em revistas como a Playboy, nao é 0 que 0 fordgrafo vé quando esta diante daquela modelo? Sera que dé para perceber que tudo é uma grande ilusio? Que nfo ha mulher perfeita no mundo? Alguns fotégrafos contam que muitas vezes, quando olham a mulher nua a ser fotografada, pensam: “Th! Agora dancei mesmo!”. Tentam compensar todos os “defeitos” daquele corpo com truques de iluminagio, “foques” e desfoques de lentes, filtros e toda a tecnologia ao alcance. Mas o milagre efetivamente ocorre no computador. Onde todas as ditas “falhas” sio minuciosamente cortigidas. Nao hi uma foto sequer, publicada nesse tipo de revista, que no tenha sido retocada, alids brilhantemente na maioria das vezes. Nao importa se a mulher é uma garota, uma balzaquiana ou uma cingiientona: sempre ha alguma “imperfeicio” que é apagada. Pergunto-me como essas mulheres (e seus maridos/ % Entrevista a Veja, 10 Paulo, Abril, 21 dez. 1996. 87 namorados/amantes) depois de se verem transformadas pelos programas do computador se sentem, Ficari a frustragio de no serem daquele jeito? A satisfagao de que todos achem que sio assim? E os homens que as conheceram primeiro pelas imagens publicadas e que depois porventura venham a conhecé-las a0 vivo, sem photoshop, se decepcionam? Sera por isso que muitas delas, depois de posar para as fotos, gastam o dinheiro ganho fazendo novas plisticas?_) \ Por que essa necessidade de perfeicao? A iluso nao provoca mais frustragio que prazer? Nao sera esse tipo de imagem que leva milhares de mulheres a se subme- terem a tortura de uma operacio plistica, continuar frustradas, umas mais, outras menos, com seus corpos reais, mesmo depois da transformagio? Fico sempre abismada com essas “esculturas vivas construidas” que vio surgindo pelo caminho. E que, na verdade, depois desse tipo de intervencio, nao consigo conceber aqueles corpos como uma coisa “normal”. ( Algumas mulheres que fotografei e que tinham feito cirurgia plastica recentemente estavam euforicas com os resultados, a ponto de querer compartilhi-lo com uma desconhecida/Essa nova moda do silicone nos seios provoca na mulher uma desinibigio constrangedora para mim. Varias me ofereceram os seios: “Vocé nio quer tocar, para ver corn é2”, perguntam felizes a fotdgrafa. Fico comovida a0 vé-las tio satisfeitas com seus corpos. As vezes as modelos trocam de roupa na nossa frente ¢ exibem, orgulhosas, seus implantes de silicone... O que no consigo entender € como as cicatrizes nao interferem no prazer. Dizem que elas diminu- em, mas as que vi... A tinica imagem que tenho em mente para descrevé-las € peito Frankenstein. Nao entendo como alguém pode se sentir feliz com uma cicatriz em torno dos mamilos que depois desce, numa espécie de T invertido, com um seio retalhado. Sera que, para o homem, o toque naqueles seios compensa a imagem de uma ferida? \ Nio creio que a questo seja se é valido o uso de computadores numa foto. Acho que sim, mas claro que depende do uso a que se destine, Em fotojornalismo sou absolutamente contra; acho antiético e perigoso a manipulagao da imagem. Nun- ca é demais lembrar 0 uso e abuso que os soviéticos fizeram com as imagens, nas quais cada camarada que cafsse em desgraca era “apagado” ou subst outro em ascensio no regime, transformando a realidade em ficgio. Mas nao condeno 0 uso desses recursos tecnolégicos em fotos que niio tenham de representar a realidade{ A pergunta é: até que ponto as revistas vendem a fotografia de mulher nua como algo real, veridico? Até que ponto os leitores compram a revista pensando que aquilo que esto vendo nao tem nenhuma interferéncia humana (outra que no a dos médicos, bem entendido!)? E até que ponto essas imagens de perfei¢do impossivel nao interferem nos relacionamentos homem/ mulher? E nao minam a auto-estima feminina? Alimentagio equivocada, falta de exercicio ¢ mesticagem biolégica somam-s outro dado da pés-modernidade para consagrar a obsessao pelo corpo perfeito: a magreza. As carnudas estrelas dos anos 50, como Matilyn Monroe, Sophia Loren ou Anita Ekberg, foram substitufdas, nos 60, por criaturas esqualidas. O modelo? Certa ‘Twiggy, uma inglesa sardenta e seus epigonos: Kate Moss, Claudia Schiffer, entre outras. Nossa época lipofdbica deixou para tris 0 padrio de estética burgués que associava riqueza ¢ gordura. A estigmatizagio de gordos ¢ gordas é produto do fosso cada vez mais profundo entre identidade social e identidade virtual. A ali- mentacao em quantidade foi gubstitufda por aquela em qualidade, qualidade que € promessa de satide ¢ beleza, Nessa légica, o corpo precisa refletir 0 controle narcisico dos apetites, das pulsdes, das fraquezas. Ai daquelas que nio se contro- lam frente ao prato de batatas fritas! Vencidas pela gula, as gordas so considera- 9 0 das perdedoras, inspirando, segundo pesquisadores, imagens ligadas 4 “piedade” “pena”. Tornar-se um saco de ossos parece o ideal da mulher contemporinea, mulher que habita um mundo onde milhates morrem de fome. Regimes obsessi- vos associados a estética do corpo multiplicam-se nas revistas femininas que consagram as mulheres niimeros inteiros com terriveis titulos do tipo: “dltima chance antes do verio!”. O espelho retruca: “nunca bastante magra”. A ret6rica sobre a magreza nio pode ser mais repressiva. O resultado dessa onda é que os casos de bulimia e anorexia nervosa nfo param de se multiplicar entre jovens curopéias, As chamadas desordens alimentares yém mobilizando médicos de toda parte. Eles nao hesitam em afirmar que a magreza é, hoje, uma questio Sociocultural, A pressio de torar-se fisicamente perfeita caminha lado a lado com o ideal de conseguir chegar ao corpo ideal, em forma, saudével. Mesmo que A custa de atropelar calorias necessitias para uma vida equilibrada. Jantares? S6 quando convidada e mesmo assim deixou de ser um dos ‘meus programas prediletos, pois vivo numa dieta rigorosa [..] como jé disse, comer hi muito deixou de ser um prazer e sim a satisfagio pura e simplesde uma necessidade vital. Me alimento muito mais dos clogios que recebo. explica uma mulher. “La symbolique du gros”, Communications, 46 5 Versobre o tema da gordura o artigo de Claude Fischl (Gcole des Hautes Etudes en Sciences Sociales), Olivier Burgelin (org) ¢f a, Parure, pudear, diquete |, 1987), pp. 255-76. Olhares cruzados no espelho ou sofrer para ser bela Nos anos 70, desembarcaram no Brasil, junto com as bonecas Barbie, numerosas méquinas e técnicas do corpo, instrumentos de um verdadeiro marketing de vivéncias corpotais: 0 body business. Passava-se de uma estética feminina para uma ética feminina, segundo a pesquisadora Sylvie Malisse,* ética que obrigaria a mulher a responsabilizar-se por seu proprio envelhecimento/O corpo numa sociedade de abundancia industrial tinha uma nova tarefa: ser um corpo consumidor, ¢ pior, consumidor em cada uma das suas partes individualizadas ¢ cuidadas. Para as unhas, esmaltes € lixas. Para os cabelos, xampus, tinturas, secadores. Para o corpo, bronzeadores, hidratantes, sabonetes cremosos ¢ desodorizantes. Difundindo padres de beleza, as imagens publicitdrias de produtos nunca dan- tes vistos refletem-se no piblico feminino. J. C. Rodrigues lembra que nasce af a imagem do corpo livre ¢ liberado, de quem sabe o que quer, que goza, que € dono do proprio nariz; corpo livre da submissio dos signos do trabalho. Um corpo sem cicatrizes, um corpo-sorriso, um corpo publicitario, Ironicamente, diz a psicéloga Joana Novaes,®” um corpo que, 20 buscar incessantemente a sua originalidade, apaga-se no coletivo dessa busca, pois esta transforma-se em regra. Dramaticamente — ela insiste — essa busca estara sempre referida a um ideal inatingfvel, uma vez que as imagens veiculadas nada tém de humano ea promessa de felicidade absoluta, plenitude e intemporalidade af contida empurra as mulheres para a impossibilidade de adequar-se aos novos padres estéticos. A publicidade 3 Sylvie Malisse, “A la recherche du corps idéal ~ culte féminin du corps dans la zone bainéaire de Ri de Jancito”, Cabiers du Brcil contemporain, 31, 160. “ % Joana de Vilhena Novaes, “Corpo e prazer ~ 0 corpo do conslimo e o consumo do cor 1997), p. 18 ” 92 embute, em relacao a essas que niio se encaixam nos padrées, uma ideologia de fracasso, de impoténcia frente ao prdprio corpo. A indistria cultural ensina as mulheres que cuidar do binémio satide-beleza é 0 caminho seguro para a felicidade individual. E. 0 culto ao corpo na religiio do individuo em que cada um é simultaneamente adorador e adorado. Mas 0 culto nio é para todos. O tal corpo adorado é um corpo de(“classe”. Ele pertence a quem possui capital para freqiientar determinadas academias, tem personal trainer, investe no body fiiness; esse corpo é trabalhado e valorizado até adquitit as condigées ideais de competitividade que lhe garanta assento na l6gica capitalista. Quem nao omodela, esta fora, é excluido. O artificio, segundo Joana Novaes," é esperto em termos econdmicos, uma vez que insere em outro tipo de mercado consumidor toda uma camada da populacao feminina privada dos servicos de academias de gindstica e de praticas dispendiosas. canal de TV Shoptime e os catilogos em domicilio, com ofertas a pregos populares de aparelhos para “tirar a barriga”, cremes para celulite, pastas emagrecedoras, steps, esteiras domésticas sfio exemplares para ilustrar a l6gica de mercado. O modelo, segyndo a psicdloga, visa a gratificagao imediata, prome- tendo 4 consumidora que nada Ihe sera negado{ A beleza é vendida como uma promessa para toda Ter um corpo trabalhado, explica Novaes, esti na ordem do dia e nao € 4 toa que © verbo mais empregado é “malhar”. Malhar como se malha o ferro, malhar significando o intenso esforco embutido nesse significante. Trabalhar diferentes @ I. Strozemberg, De corpo ¢ alma (Rio de Janeiro: Contemporiinea, 1986). 4 Joana de Vilhena Novaes, “Corpo e prazer — 0 corpo do consumo € 0 consumo do corpo”, cit. p. 22. partes do corpo que precisam ser modificadas. Do joelho ao culote, do brago & panturrilha, 0 corpo é visto como fragmento; cada parte podendo ser reesculpida, consertada, desconectada de um todo.® Perguntadas por que “malham”, as mulheres respondem:® Na moda atual conjugamos roupas infimas e corpos secos destituidos de qualquer gordura, Para meu desespero, gordinhas nio sio apreciadas! Para lutar contra a lei da gravidade, meu bem. Vivo em fungio disso. Igual a crianca quando vicia nas coisas. Gostaria de ser do tipo de mulher que acredita que idade é um estado de espirito. Porque a competi¢io hoje é f... Isso aqui €a minha dose diaria de injecio no ego. Sabe que eu me acho 0 méximo? Quando eu vou 4 praia e olho aquelas ‘garotas de 20 anos cheias de estria, flicidas ¢ a bunda coalhada de celulite, € eu nfo tenho nada disso... Para ficar gostosa © bids p.23. ‘ © Pesquisa realizada pela psict yga Joana Novaes para sua tese de doutorado. 93 94 ‘A beleza moderna, longe de prometer uma compensagio nareisica & mulher, agudiza sua frustraco c impoténeia face & imagem ideal, diz a psicdloga. A mulher passa a ser mais algoz de si mesma, desenvolvendo uma relagio persecutoria contra o proprio corpo. Cada ruga, cada grama, leva-a ao desespero. Aprisionada As maquinas, a0 personal trainer, as drogas anabolizantes, essa mulher se vé como escrava da imagem de Barbies, Xuxas, Galisteus e quejandos. Ela é cada vez mais aquilo que 0 outro quer que ela seja, precisa ou deixa que ela sejd, Pior, transfor- mada em miragem, ela nao é 0 que se vé, mas 0 que se quet ver.|A modelo carioca Marinara exemplifica, numa entrevista, tal projecio: {© Levei menos de dois anos para esculpir meus misculos e, além de musculacio, gosto de dangar ¢ pedalar. Depois dos 30 anos a mulher precisa se cuidar. A tendéncia é ela ter um corpo cada vez mais definido, mas é preciso saber dosar pata nao ganhar uma silhueta masculina, A Madonna é um exemplo de corpo ideal. O fim do século XX inventou, segundo Jean-Paul Aron, * um narcisismo coletivo, uma estética insdlita do amor de si. A beleza instituiu-se como pritica corrente, pior, ela consagrou-se como condi¢ao fundamental para as relagdes sociais, Banali- zada, estereotipada, ela iflvade o quotidiano através da televisio, do cinema, da midia, explodindo num todo —o corpo nu, na maioria das vezes—ou em pedagos, pernas, costas, scios e nadegas. Nas praias, nas ruas, nos estidios ou nas salas de gindstica, a beleza exerce uma ditadura permanente, humilhando e afetando os que no se dobram ao seu império. Respondendo as questdes de Joana Novaes, muitas mulheres mostram-se participantes desse modelo: @ Entrevista a Antonio Marinho, no Jornal da Familia de O Glebe, 12 set. 1999, p. 2. Jean-Paul Aron, “La tragédie de Papparence a ’époque contemporaine”, em Parr, pudeur et itiquette, ications, n. 46 (Paris: Seuil, 1987), pp. 305-15. Com Ja tomei de tudo: bomba, aminodcido, fat burnere além disso me trato com ortomolecular, onde comecei a tomar minerais, antioxid: vitaminas, Mas antigamente era pior, quando malhava na Radar academia, segundo a psicéloga, situada na Zona Sul do Rio de Janeiro ¢ freqiientada por malhadores compulsivos]. Para mim ¢ assim: acho que a gente nao tem que conviver com aquilo que a gente nio gosta Eu, por exemplo, nio gostava do meu nariz; fiz plistica. Achava que tinha uma bola nos quadris, lipoaspirei o culote. Achava que tinha seios pequenos demais, virei Barbie, taquei silicone. Nao queria esperar ‘0 meu cabelo crescer, coloquei um Mega bair. Mas hoje s6 consumo o que é realmente necessirio, pois no da para bancar tudo. tes € © meu corpo € diferente do padrao brasileiro. Pouco busto, no maximo 40; pouca cintura e pouco quadril. Um corpo sem excessos. Petnas longas, bragos longos, pescogo muito longo. Se vocé perguntasse para um homem, ele diria preferir uma Tiazinha, ou uma Carla Perez, muita coxa, cinturinha e bundao. Eu prefiro assim, © que nao suporto é gente se lamuriando insatisfeita com o préprio corpo, mas que niio faz nada a respeito. No meu caso, quando comecar a sentir que tem algum excesso vou me cortar. Minha auto-estima melhorou muito com esse lance de preocupacio com © corpo. Mas nfo é $6 isso. E toda uma postura, uma forma de encarar a vida sempre Aight, contra o baixo-astral. Isso tudo acredito que tenha ajudado a atrair mais homens, sobretudo, os gatinhos mais jovens. Quando venho malhar e mantenho o meu peso ideal ta tudo azul, saio, me divirto, levo uma vida normal. Quand6’ndo, é depressio na certa, nao me relaciono nem com meus filhos. 95 96 Ah! Mas isso tudo nao é para agradar os outros... é para eu me sentir melhor comigo mesma, mais feliz. F felicidade irrestrita, entende? Jamais vou alcangar Luana Piovani, Adriane Galisteu e Feiticeira Segundo Novaes, * para as entrevistadas (mulheres na faixa etaria entre 16 ¢ 48, ‘anos), “malhar” esta associado a satide; porém, o conceito de satide refere-se, ele mesmo, as melhorias estéticas) Por detras dessa associacao, a psicéloga percebe que existe a construcio social de uma identidade feminina calcada quase que exclusivamente na montagem ¢ escultura desse novo corpo. Ou seja, um corpo cirdrgico, esculpido, fabricado e produzido, corpo que é centro das atengdes € fetiche de consumo. Nessa perspectiva, 0 sujeito serve ao corpo em vez de servir~ se dele. A beleza, nesse contexto, explica-nos ela, deixa de ter como fungi mostrar as caracteristicas essenciais das mulheres ¢ passa, cada vez mais, a seguit modelos menos diferenciados entre homens ¢ mulheres — 0 modelo andrégino. E na “bundinha definida”, ou seja, no bumbum arrebitado e bem trabalhado que se cruzam dois ideais: 0 de valorizagao masculina de beleza de uma parte do corpo ¢ a construgio social,da feminilidade enquanto corpo. A mulher fica, conseqiientemente, diante de dois modelos inatingiveis: o primeito referido a0 modelo masculino dé'corpo — anatomicamente impossivel de ser alcangado. O segundo, referido as modelos fotogrificas. Ora, tais corpos, como explica a psicdloga, colocam a distancia entre real ¢ imaginArio. Sim, pois o que as fotogra- fias propdem sio corpos idcalizados, abstratos, inatingiveis e mesmo eternos. Corpos que nao sio submetidos a dor, ao envelhecimento e muito menos 4 morte. © que muitas vezes poderia ser encarado como uma das maiores possibilidades % Joana de Vilhena Novaes, “Corpo ¢ prazer ~ 0 corpo do consumo € o consumo do corpo”, cit, pp. 24-5. do feminino, qual seja, a vivencia da dor, do corpo em sua interioridade, em fangdo de sua anatomia, foi sempre ocultado, no valorizado e muitas vezes tido como vergonhoso. Dessa forma, em vez de apropriar-se do que, até por esséncia, seria da ordem do feminino, a mulher contemporinea investe na exterioridade de seu corpo, deixando-se aprisionar pelo mito imposto da juventude eterna. Prisio- neira em seu proprio corpo.” Professora do Departamento de Psicologia da PUC/RJ e psicanalista, Dirce de Si Freire Costa, refletindo sobte as relacdes homem /mulher nessas circunstincias, acrescenta: Nao é dessa mulher plastificada que ouvimos falar em nossos consul- t6tios. Os clientes adultos masculinos nos falam de companheiras de carne € 0550, a0 contririo do que querem os meios de comunicagio, muito provavelmente o circulo de amigas e conhecidas que legitimam esse (falso) desejo de manterem um corpo esculpido de acordo com o modelo Barbie de consumo. As mies desses homens adultos, que exercem uma grande influéncia sobre suas escolhas amorosas, nao par- tilhavam dessa estética perversa que veste com uma grande camisa de forga o imaginario de suas mulheres e companheiras. Percebo uma tentativa, na maioria desses clientes, de provar para suas companheiras que estio satisfeitos com seus corpos, que chegam mesmo a achi-los belos. Mas eles nio sio sequer ouvidos, pois suas afirmagdes soam a0 ouvido delas como um reles afago numa ferida narcisica, nio podendo tais afirmages serem consideradas como verdadeiras. Convertida em discurso, a beleza inunda a imprensa, confiando as imagens a representagio incessante e exorbitante de suas gracas. Nao ha beleza fora da saiide. Eis por que o ptimado da “forma”, do shape, do fitness, primado chancelado por especialistas: © Tbidem. 97 98 O treinamento muscular [garante um professor de musculagio] diminui © percentual de gordura. E isso faz parte de um padrio estético determinado pela socicdade moderna. Até modelos famosas, como ‘Naomi Campbell, estio com 0 corpo mais musculoso. Mas é preciso ter um minimo de petcentual de gordura para manter as curvas que agradam a maioria dos homens e evitar problemas de saiide.** Estar em forma é fetiche que mudou o modo de viver ¢ pensar, inaugurando condutas que se estendem, inexoravelmente, as camadas subalternas da populacio.” ‘As academias, nos baittos chiques, convivem com incipientes sucedineos em favelas, segundo Joana Novaes. A visio de classe do corpo da bela rica sera, em pouco tempo, a visio de um corpo estandardizado. Concluindo: 0 terrivel € que, de maneira geral, pobtes ¢ ricas, bonitas ou feias, as mulheres parecem condenar- 0 se a ser apenas um corpo, 0 seu corpo. biden ; joana de Vilhena Novaes, “La tragédie de l'apparence & l'époque contemporaine”, Communications, , Le bean sexe faible les inages du corps feminin entre cosmétique et santé it, p.19. Parecer ou dar-se a ver... Mis noticias nesta entrada do século XXI: as mulheres continuam submissas! De nada adiantaram a propalada revolugo sexual, a queima de soutiens em praca publica, a difusio da pilula. E como se quiséssemos continuar como as eternas representantes do “sexo fragil”, a quem tudo se impGe. Mudamos muito, mas mudamos para continuarmos as mesmas. (0 que ha de ruim nisso? Ha um fato novo e quase imperceptivel para a maioria de nds, Trocamos a dominagio de pais, maridos e patrdes por outra, invisivel e, por isso mesmo, mais perigosa. A dominacao da midia ¢ da publici dade. E ruim, e até pior, pois diariamente enfrentamos a tarefa de ter que ser eternamente jovens, belas e sadias, Nao ha priséo mais violenta do que aquela que nao nos permite mudar. Que nos bom- bardeia com imagens de eterna juventude, doutrinando-nos a ne- gar as mudangas. Como envelhecer, quando tudo que nos cerca, — 0 outdoor, a televi- so, as fotos na revista — é construido de forma a negar o envelhe- cimento; envelhecimento definido, em nosso tempo, como sinénimo 100 de perda? Os socidlogos tém denunciado 0 fato de que vivemos um terrivel paradoxo: a possibilidade oferecida de, enfim, prolongar seus dias é vivida como algo de negativo. Moldada em torno de valores como o progresso ¢ a juventude, nossa sociedade lida mal com o nimero crescente daqueles que, envelhecendo, beneficiam-se de um alongamento sem precedentes da esperanca de vida. Os efeitos dessa constatacio entre as mulheres é perverso. Em sua grande mai- oria, investem tudo o que podem na aparéncia exterior. O modelo de Giseles, Xuxas, Veras parece nao deixar op¢ao. Nao hé limites para continuar magra, turbinada e vitaminada. As cirurgias plasticas, no entender de uma conhecida atriz, tornaram-se uma questio de “higiene”. O silicone nos scios substitui, como explicou saudoso, um comediante, o “tradicional Ieitinho”. Ora, a identidade corporal feminina est sendo condicionada no pelas conquistas da mulher no mundo privado ou publico, mas por mecanismos de ajuste obrigatério a trfade beleza-juventude-satide. Leia-se: a mulher deve explicitar a beleza do corpo por sua juventude, sua juventude por sua satide, sua satide por sua beleza. Pode nao parecer evidente, mas as relagdes que temos tido com nossos corpos revelam 0 tipo de identidade que estamos construindo. As revistas femininas nos ensinam que vivemos um moméfito ideal de “otimismo”. “Que idade? Jovem!” O anincio acompanha o produto:anti-rugas com o rosto sorridente da mulher de idade indefinida. A foto resume bem essa disposico para fazer com que a idade madura pareca o fim da hist6ria, Nada existiria depois dela. Nem mesmo aquele pais cinza, da cor da cabega de nossas avés. A midia, por sua vez, cauciona essa tese, sem pudores, Argumentos publicitarios, produtos de beleza ¢ medicina vulgari- zada nas revistas sio mecanismos sutis, mas extremamente repressivos, que agem sobre 0 corpo feminino. Bom seria comegar a ter uma posicio critica em relacao asses discursos. Discursos tio mais perigosos quanto mais aderirem de manei- ra sub-repticia a nosso quotidiano, fazendo-nos confundir sua normalidade com banalidade. O que estamos esperando para comecat a reagit? Cronologia 1500 Chegada dos portugueses ao litoral do Brasil e Carta de Ca- minha, mencionando a beleza fisica de nossas tupi-guaranis. 1552 Veronese pinta A bela Nani, ideal de beleza feminino do Renascimento. 1554 Aparece em Veneza o primeito manual de beleza: I/ bro della bella donna, de F. Luigi, cheio de segredos e truques de maquilagem. 1587 Gabriel Soares de Souza critica as despesas exageradas das colonas com roupas importadas. 1630 (ina) Inicio da moda de perucas e do uso de farinha para mon- tart as cabeleiras. 1670 Na comédia O burgués fidalgo, Moliéte caricaturiza os que querem vestir-se como aristocratas sem sé-lo. 1748 Morelly publica em Amsterda Fisica da beleza e poder sobre- natural de seus charmes, * 102 1750 nn) Agudiza-se, na Franga, a obsessio com a roupa branca ou intima; o uso 1750 1770 1778 1787 1805 1830 1850 1885 do lengo branco se difunde, Primeitos textos médicos que atacam a pratica de comprimit 0 dorso ¢a cintura. Surgem anquinhas que duram, com altos e baixos, até 1895, Maria Antonieta langa, na corte francesa, a moda de vestir-se fantasiada: A arménia, 4 turca, 4 italiana, etc. Surgem, em Paris, os primeitos niimeros de Le cabinet des modes, pioneiro jornal de moda ¢ beleza, Vestidos femininos perdem amplitude e, como camisolas, pendem a0 longo do corpo. Os decotes arredondam-se e as cintutas deslocam.se para cima: € 0 estilo império. 1810 ny Os primeitos espartilhos a Ninon, s6 para separat os scios, como exigiaa moda. As saias abrem-se em corolas armadas sobre andguas ¢ ctinolinas. Aparecimento da escarpolete, ancestral das atuais calcinhas, A exposicfo universal de Paris, expondo artefatos de paises exéticos, anca moda do xaile que se beneficiava das anquinhas sobre as quais expunha seus arabescos com esplendor. 1890 wn Loja de Madame Coulon, no Rio de Janeiro, vendia lingerie, enquanto a célebre loja de departamentos Au Printemps, de Pati, oferecia, por catalogo, seus produtos aos consumidotes brasileiros. 1895 wins) Registros da importacio de bidets ¢ materclosets 1900 vin) Voga da Agua de Flérida, do sabonete Reuter, do perfume Houbigant e 1913 1918 1920 1922 1925 1927 1928 1939 1947 1950 1960 1967 da substituicio do carmim pelo rouge no rosto. A Sociedade Hipica Paulista organiza cagas 4 raposa com a presenca de varias amazonas. A Bellega Feminina e a Cultura Physica, Langada a Revista Feminina, que se mantera até 1929. Chanel abandona as sombrinhas ¢ langa a moda da pele dourada pelo sol. Baton em escala industrial. Catilogo de roupas brancas e colletes Rejane, A revista Sports comenta o estilo das tenistas brasilciras Chegada do mailatde tricé com perninhas, para uso nas praias e piscinas, New look: voltam vestidos armados a rodados. Desodorante em escala industrial Minissaia: roupas curtas e retas acompanhadas de cabelos longos. Roland Barthes, a partir da semiologia, pensa o corpo e a roupa no seu Sistema da moda, 1970 (any Chegam ao Brasil o body business e a boneca Barbie. IN 103 Glossario * a lagaronne: cabelos curtos, como de menino, gargon, em francés. * bibelot: pequeno objeto de adorno para ser exibido em aparadeiras. * birote: cabelo enrodilhado no alto da nuca. * boudoir. comodo onde se dispunham as pegas relativas a0 embelezamento feminino - penteadeira, espelhos ¢, as vezes, banheira. * cabelos en papillotes: papillote era um pedago de papel em torno do qual se enrolavam as mechas de cabelo para tornd-lo ondeado. * cancro: no sentido figurado, mal que mina lentamente 0 organismo; no sentido médico, lesio inicial da sifilis ou cancer. * capelistas: chapeleiras. * corpinho: blusa ajustada ao corpo que nfo ultrapassa a cintura ¢ é usada como roupa intima. * crisdlitas: pedra semipreciosa que se parece com o diamante ¢ brilha como outro. ; 106 cristofle: matca de prataria francesa. dames du comptoir balconistas. dimorfismo sexual: metéfora, no texto, para um fendmeno comum em aves ¢ insetos, em que, na mesma espécie, a fémea difere do macho em tamanho, cor, etc. embugar: cobrir o rosto até os olhos ¢ 0 corpo com capa longa. espartilho: colete com barbatanas de baleia ou laminas de ago, usado justo a0 corpo, para comprimir a cintura, Jaire petit pied: ter pés elegantes ¢ de forma reduzida. fayance. tipo de cerimica vidrada importada da Franca. fitness, refere-se a aptidao, ao ajuste ¢ adestramento do corpo. jubio: casaco. maple: alusio aos méveis ingleses importados de Maple Store, ou seja, a loja Maple. mute. tipo de chinelo fechado na frente ¢ aberto no calcanhar. nuance: cada uma das diversas gradagées de uma cor. robes d’apris-midi et de soirées: roupas utilizadas & tarde ou 4 noite, obedecendo ctitérios de cor, tecido e corte. roupa de griff: roupa produzida por marca, de preferéncia, estrangeita. self control: o mesmo que dominio de si. shape: forma do corpo. teoria neoplaténica: filosofia de Plato e seus discipulos; o platonismo é um idealismo, um essencialismo, uma concepcao metafisica da beleza ¢ do amot. Bibliografia comentada Poucas publicacdes existem sobre a histéria do corpo da mulher brasileira. E uma histéria que ainda esta por fazer. O or ou leitora interessados no assunto terio que garimpar informacées em textos gerais que, aqui e ali, mencionam habitos, gestos ou tradigdes. Obra fundamental é a trilogia de Gilberto Freire: Casa-grande & senzala, Sobrados mocambos, Ordem e progresso, pioneira em fazer, no Brasil, uma histéria da vida intima e privada, cheia de informacdes sobre como nossos antepassados vestiam-se, banhavam-se, penteavam: se, consumiam. Bem posterior é a colecio Histéria da vida privada no Brasil (Sio Paulo: Companhia das Letras), quatro volumes sob a direcio de Fernando Antonio Novaes, menos atenta a tais questdes, mas ainda assim util, Os viajantes que passaram pelo Brasil dos culos XVII ao XIX sao excelente fonte de consulta, embora seus comentarios sobre a mulher estejam perdidos entre tantos outros sobre a paisagem, os animais ea escravidao, Visoes do Rio de Janeiro colonial (Rio de Janeiro: UERJ/José Olympio), em dois volumes, organizado por Jean-Marcel Carvalho Franca é, nesse sentido, leitura obrigatéria. Tania Quintaneiro, gom o seu Retratos de mulher — 0 cotidiano feminino sob olhar des viageiros do séeulo XIX (Petr6polis: Vozes, 106 108 1995), assim como Miriam L. Moreira Leite e seus.A mulber no Rio de Janeiro no século XIX — um tndice de referéncias em livros de vijantes estrangeiros (S20 Paulo: Fundacio Carlos Chagas, 1982) e A condigéo feminina no Rio de Janeiro do século XIX (Brasilia: Hucitee/INL, 1984) oferecem excelente instruments de trabalho. Indo mais dirctamente ao problema temos Wanderley Pinho, em seu Salées ¢ damas do Segund Reinado (Sao Paulo: Martins, s/d), a tese de Ménic fm a Schpun, Beleza em jogo — cultura Sisica ¢ comportamento em So Paulo nas anos 20 (Sao Paulos Editora SENAC Sa : Sio P: 1999) ¢ o meu Ao sul do cor am José Olympio, 1993) ~ acondigae feminina no Brasil colonial (Rio de Jancito: Tendo por fio condutor a idéia de que a histéria das mulheres passa pela histéria de seus corpos, este ensaio bem-informado e bem-humorado, re- pleto de surpreendentes revelacées, imp6e-se como indispensavel iniciagao a0 conhecimento da condigao femi- nina no Brasil de hoje. Mary Det Priore é, desde 1989, professora do Departamento de Histéria da Universidade de Sao Paulo. Organizadora de Histéria das mutheres no Brasil, com o qual ganhou © prémio Jabuti e o prémio Casa- grande & Senzala, da Fundacao Joaquim Nabuco, publicou ainda A mulher na Histéria do Brasil e Mulheres no Brasil colonial. & co-autora do volume I de Historia da vida privada no Brasil — Cotidiano e vida privada na América portuguesa, Recebeu em 2000, pela segunda vez, o prémio Casa- grande & Senzala pela organizacso do livro Histdria das criangas no Brasil,