Você está na página 1de 7

06/05/13

Contemplus - O Valor Pedagógico do Estudo do Contraponto

CONTEMPLUS

Contraponto

Projeto de ensino-aprendizagem de música

Fux Fux

06/05/13

Contemplus - O Valor Pedagógico do Estudo do Contraponto

Contemplus - O Valor Pedagógico do Estudo do Contraponto CONTRAPONTO do Latim: contrapunctus, de contra punctum:

CONTRAPONTO

do Latim: contrapunctus, de contra punctum: ‘contra nota’;

no Francês: contrepoint; Alemão: Kontrapunkt; Italiano: Contrappunto;

Português: Contraponto

O Contraponto, esse ancião que teima em acompanhar a música ocidental desde sua fundação, milagrosamente sobrevivendo às grandes revoluções que testemunhou durante toda sua trajetória, algumas vezes com status de ciência e outras completamente marginalizado, está completando aproximadamente 700 anos. Aproximadamente, pois só foi reconhecido através do discantus, por volta do século XIV, no intuito de descrever a combinação de linhas melódico-musicais soando simultaneamente.

Em sua trajetória, denominando desde uma simples voz até uma composição inteira dividida de acordo com seus princípios (p. ex. Vincenzo Galilei, Contrapunti a due voci, 1584; ou os contrapuncti de J.S. Bach, A Arte da Fuga), ocupou, por vezes, o lugar de sua progenitora a própria Polifonia.

Para muitos a lista de grandes personagens que estudaram e escreveram sobre contraponto culmina em Schenker que coligiu e formulou as razões básicas para a importância desse estudo. O declínio no interesse no estudo do contraponto como disciplina em algumas fases de sua história, tem a mesma causa que gerou o mesmo problema em disciplinas importantes como aritmética, geometria, filosofia, latim, entre outras, ou seja, por um lado, a ausência de professores qualificados capazes de tornar seu estudo significativo e interessante aos alunos, procurando evidenciar as conexões de suas qualidades enquanto técnica aos diversos estilos musicais, e por outro, a mistura confusa de estilos e métodos, ou seja, de uma abordagem vinculada a um estilo que, por sua vez, é traduzido em alguns exercícios “graduados” derivados das espécies de J.J.Fux.

Para muitos autores, entre eles Walter Piston, a arte do contraponto é a arte de combinar linhas melódicas. Sua essência, como um ingrediente de vitalidade interior, é, entretanto, alguma coisa mais profunda do que um processo de manipulação e combinação, sendo encontrado em aproximadamente toda a música. O que significa que toda a música possui algum grau contrapontístico. Implícito na origem do termo contraponto está a idéia de discordância. A atuação recíproca de concordância e discordância dos fatores que formam a textura musical, constitui o elemento contrapontístico em música. O estudo dessas qualidades de concordância e discordância,

06/05/13

Contemplus - O Valor Pedagógico do Estudo do Contraponto

ou, para dizê-lo de forma diferente, de dependência ou independência, é o cerne da questão envolvida no estudo (PISTON).

Na história da música podemos observar alguns marcos na arte do contraponto:

1.a polifonia do período Gótico, seguindo-se pelo contraponto elaborado e virtuoso da escola franco-flamenga;

2.a música da segunda metade do séc. XVI, exemplificada por Palestrina;

3.o período Barroco que culmina nas obras de Johann Sebastian Bach;

4. A utilização de técnicas contrapontísticas em compositores clássicos e românticos;

5. O contraponto na música do século XX.

O primeiro dos períodos mencionados está sendo muito estudado atualmente, apesar de, aparentemente, ter cessado de exercer uma influência mais ativa na música, mas Palestrina e Bach se tornaram os maiores símbolos da polifonia. Uma consideração de momento das obras desses dois homens revela a existência de dois tipos de proximidade, duas atitudes contrapontísticas distintas, ou estilos contrapontísticos distintos. Ambos são de extrema importância no desenvolvimento da arte da música e o estudo de ambos é indispensável para todos os músicos e estudantes de música. (PISTON)

Em 1725, aos 65 anos de idade, J. J. Fux escreveu o Gradus ad Parnassum onde o ideal do estilo de Palestrina representava o ideal da música sagrada, e essa escolha é relembrada na inscrição Soli Deo Gloria, que os trabalhos do tempo de Fux carregam. A questão da excelência musical era para Fux a questão de uma expressão adequada do trabalho divino. “Sendo Deus a mais alta perfeição, a harmonia composta para sua devoção deveria seguir as regras mais estritas que a perfeição pode clamar, até que as imperfeições humanas possam realizá-las”, escreve Fux. Mas uma particularidade notável do trabalho de Fux está no fato de que a integridade artística foi emparelhada com um discernimento histórico e pedagógico que lhe apontou a escolha da polifonia do século XVI como o último modelo de musical severidade e pureza. Assim, adotando a forma clássica do diálogo para as lições do Gradus, Fux se auto-declarou (Josephus) o estudante de Palestrina (Aloysius); e quando, no final do livro, mestre e discípulo analisam partes das missas de Fux, é como se Fux quisesse submeter seus próprios trabalhos ao julgamento do “príncipe da música sagrada”.

Alguns trechos das discussões entre Aloysius e Josephus, especialmente no inicio e no final, são sem dúvida reminiscências de cenas entre Fux e seus próprios alunos. Mas na essência do seu trabalho, Fux aparece como Josephus – o estudante – pois Fux verdadeiramente se deu conta que ensinar significa deixar aprender e que de forma a assumir o papel de intérprete do passado, o professor deve assumir o papel de discípulo (MANN).

Meu objetivo é ajudar os jovens que querem aprender. Conheci e ainda conheço muitos jovens que possuem excelentes aptidões e estão realmente ávidos para estudar; contudo, na falta de meios e

06/05/13

Contemplus - O Valor Pedagógico do Estudo do Contraponto

um professor, não podem realizar sua ambição, mas continuam como antes, para sempre desesperadamente ansiosos. Procurando uma solução para esse problema, comecei portanto, vários anos atrás, a desenvolver um método similar ao pelo qual as crianças aprendem primeiro letras, depois sílabas, depois combinação de sílabas e finalmente, como ler e escrever. E isso não foi em vão. Quando utilizei esse método no ensino, observei que os alunos fizeram progresso assombroso em curto espaço de tempo. Então achei que prestaria um bom serviço à arte se o publicasse para o beneficio dos jovens estudantes, e repartisse com o mundo musical a experiência de quase trinta anos, durante os quais servi três imperadores (pelo que devo, com toda modéstia, me orgulhar). Além disso, como Cícero cita de Platão: "Nós não vivemos apenas para nós mesmos; nossas vidas pertencem também ao povo, aos nossos pais e a nossos amigos".

(J.J.FUX - 1725)

O método de estudo por espécies adotado por Fux é, até hoje, largamente utilizado. Coube a Schenker demonstrar o grande valor pedagógico desse método.

Algumas vantagens, principalmente para iniciantes, na abordagem por espécies foram destacadas por Alan Belkin (2000) e são aqui transcritas:

·Através da eliminação da variedade explícita do ritmo nas quatro primeiras espécies e pela imposição de uma estabilidade harmônica, ele libera o estudante a se concentrar nas linhas individuais e nas dissonâncias (foi dito “variedade explícita do ritmo” pois mesmo em uma linha construída, por exemplo, em semínimas, as mudanças de direção implicam necessariamente em agrupamentos rítmicos [as notas passam a ter um valor grupal]).

·O uso de um cantus em semibreves oferece um esqueleto para uma forma completa, liberando o estudante de ter que planejar uma estrutura harmônica completa.

·A limitação para as harmonias mais elementares simplifica o entendimento da dissonância;

·A ênfase na escrita vocal gera um excelente ponto de partida no estudo do contraponto por três razões principais:

·Todo estudante tem uma voz;

·A maioria dos instrumentos tradicionais foram criados para cantar, ou seja, imitar a voz humana;

·Os instrumentos são muito mais variados em construção e idiomas do que as vozes.

·Evitar inicialmente o uso de motivos libera o estudante das conseqüências formais que eles engendram;

06/05/13

Contemplus - O Valor Pedagógico do Estudo do Contraponto

·A progressão da escrita a duas, três, quatro e mais partes é lógica embora as harmonias criadas principalmente em duas partes possuam características únicas;

Cada uma das quatro primeiras espécies de Fux (em número de cinco) enfoca somente um ou dois elementos principais:

·Primeira espécie: através de uma ausência total de dissonâncias força a concentração no relacionamento dos contornos melódicos;

·Segunda espécie: introduz o problema do equilíbrio entre três formas simples do desenvolvimento linear entre duas harmonias – elaboração estática (notas vizinhas), desenvolvimento gradativo (nota de passagem) e movimentos melódicos por saltos (inclusive de arpejos);

·Terceira espécie: introduz outros idiomas para o desenvolvimento linear entre harmonias – A sucessão de duas notas de passagem (incluindo a nota de passagem relativamente acentuada); combinação entre notas de passagem e arpejos, e (dependendo da preferência do professor) talvez a cambiata e da dupla nota de passagem. De fato a terceira espécie corresponde exatamente a antiga tradição das Differencias, onde os estudantes exploram sistematicamente todas as formas possíveis de preencher o espaço entre dois tons de um acorde com um número dado de notas. A técnica das Diferencias era parte do treinamento tanto de compositores quanto de instrumentistas. Schoenberg em seu Exercícios Preliminares em Contraponto utiliza uma variante desse método.

·Quarta espécie: Enfoca a Suspensão. Com as suspensões, pela primeira vez, o estudante encontra a melodia e a harmonia fora de fase no primeiro tempo forte do compasso e o início de padrões harmônicos mais elaborados.

·A Quinta espécie, a culminação de todas as outras anteriores, propõe a construção de trabalhos preliminares com flexibilidade rítmica [mistura de diversos valores rítmicos]. Como resultado é possível um idioma mais elaborado a partir da possibilidade de várias resoluções ornamentadas de suspensões, mas o foco essencial do estudante deve necessariamente se dar na manutenção do equilíbrio rítmico (mas sem a utilização de motivos).

·Finalmente, os exercícios com espécies misturadas, utilizados em algumas tradições pedagógicas, possibilitam uma introdução a texturas estratificadas encorajando a exploração do uso de dissonâncias simultâneas e a manutenção de um contexto harmônico claro.

06/05/13

Contemplus - O Valor Pedagógico do Estudo do Contraponto

Assim, o estudo do contraponto “estrito” pode ser muito útil. Entretanto quando os estudantes avançam, muitas das restrições pedagógicas se tornam inúteis [e perigosas]. Por exemplo, o estudante que nunca trabalhou sem um cantus firmus não possuirá a habilidade de planejar uma sucessão harmônica completa “própria”. A monotonia do ritmo harmônico – sem mencionar da métrica (muitas nunca vão além do 4/4!) - gera problemas, deixando o estudante sem nenhum guia na escrita com maior mobilidade da voz do baixo, que é tão típica em texturas contrapontísticas, afetando os diversos momentos harmônicos e, conseqüentemente, a forma. A limitação em harmonias mais simples se torna um empecilho ridículo quando aplicada, por exemplo, no contraponto “inversível”, onde o uso de acordes com sétima aumenta em muito as possibilidades utilizáveis. E assim por

O estudo da fuga de Fux é bem menos conhecido do que seu estudo de contraponto; mas é o estudo da fuga

que ele mesmo descreve como o aspecto mais importante de seu trabalho. Muitas vezes observa que o

treinamento contrapontístico por espécies, que precede o estudo da fuga, não deveria ser considerado um fim em

si mesmo. Ele subordina os exercícios simples ao contraponto florido [quinta espécie] – uma combinação livre de

diversos valores rítmicos que ainda seguem as regras estritas governando o uso das dissonâncias. Este, por outro lado, serve na preparação dos estudantes para o momento “quando as restrições do Cantus Firmus são

removidas, e ele (o aluno), pode se sustentar nos próprios pés, ou melhor

este é o tempo em que se adentra no estudo da fuga. Ainda neste novo estágio de liberdade, o estudante não é

deixado sem guia. Na forma imitativa, sua própria invenção serve como uma espécie de Cantus Firmus, e de compasso em compasso, cada nova idéia forma a base para a próxima. Este processo determina logicamente para Fux o momento do estudo da fuga no ensino da composição.

pode escrever composições livres” –

O método de progresso graduado de Fux – expresso no título do trabalho – é, portanto, um método que oferta um

percorrer degrau por degrau as possibilidades para o estudante, confrontando-o gradualmente com tipos diferentes de problemas.

Essa idéia fez com que Schoenberg no seu Exercícios Preliminares de Contraponto incluisse, após a quinta espécie, uma outra espécie, denominoda por ele de primeira espécie composicional e que consiste, basicamente, na criação de duas vozes livres (Voz Livre X Voz Livre) sem a presença da voz do Cantus Firmus (CF) ou Canto Dado, mas orientadas pelos mesmos procedimentos da quinta espécie de Fux (Cantus Firmus X Voz Livre).

Outras abordagens no aprendizado do contraponto estão normalmente baseadas em estilos, e na maioria das vezes conectadas ao estilo ou de Palestrina ou de Bach. Enquanto que variam em eficácia, elas geram uma séria limitação: No ensino de um estilo específico os princípios gerais são facilmente obscurecidos. Para um compositor o estilo não pode ser um tipo de limitação, mas um constante envolvimento com a linguagem. Por estas razões, a abordagem parece mais apropriada ao treinamento do musicólogo do que do músico atuante

06/05/13

Contemplus - O Valor Pedagógico do Estudo do Contraponto

como cantor, instrumentista, regente ou compositor.

Nessa perspectiva, qualquer que seja a abordagem pedagógica existem fatores essenciais que contribuem para o sucesso no estudo do contraponto:

·Os estudantes devem cantar as linhas individuais enquanto ouvem outros cantando outras linhas. As outras linhas podem ser cantadas por outros estudantes ou tocadas no teclado. Este é o treinamento contrapontístico auditivo: Ele dirige a atenção às varias linhas melódicas mantendo uma como referência. Este exercício singelo conduz a um intimo conhecimento dos detalhes internos da música que de outra forma, dificilmente pode ser obtido.

·A quantidade conta: Quanto mais exercícios de cada tipo o estudante confecciona e realiza, tanto mais torna-se familiar com os modos de combinar as notas musicais. Desde que os movimentos básicos entre os tons dos acordes são relativamente limitados, logo, tornam-se familiares.

·Qualquer exercício de contraponto, do mais simples ao mais elaborado, deve ser discutido como uma simulação de uma “composição real”, com um início, um desenvolvimento e um fim. Esta é a única forma de valorizar o estudo do contraponto ao que será consistentemente relevante aos problemas reais de uma composição musical.

Orlando Marcos Martins Mancini

Professor de Contraponto da FAAM

2012

Marcos Martins Mancini Professor de Contraponto da FAAM 2012 < Ant Próx >