Você está na página 1de 24

UNIVERSIDADE PAULISTA

MARIA APARECIDA DOS SANTOS MENEZES

IMPACTO PSICOLÓGICO NA MULHER COM CÁNCER DE MAMA

SÃO PAULO

2016

MARIA APARECIDA DOS SANTOS MENEZES

IMPACTO PSICOLÓGICO NA MULHER COM CÁNCER DE MAMA

Trabalho de conclusão de curso para obtenção do título de especialista em terapia cognitivo comportamental para atuação em múltiplas necessidades terapêuticas apresentado à Universidade Paulista - UNIP.

Orientadores:

Prof a . Ana Carolina S. de Oliveira

Prof. Hewdy L. Ribeiro

SÃO PAULO

2016

Menezes, Maria Aparecida dos Santos Impacto psicológico na mulher com câncer de mama. / Maria Aparecida dos Santos Menezes São Paulo, 2016. 22 f.

Trabalho de conclusão de curso (especialização) apresen- tado à pós-graduação lato sensu da Universidade Paulista, São Paulo, 2016. Área de concentração: Psicoterapia.

“Orientador: Profª. Ana Carolina S. Oliveira”

“Coorientador: Prof. Hewdy Lobo Ribeiro”

MARIA APARECIDA DOS SANTOS MENEZES

IMPACTO PSICOLÓGICO NA MULHER COM CÁNCER DE MAMA

Aprovado em:

Trabalho de conclusão de curso para obtenção do título de especialista em terapia cognitivo comportamental para atuação em múltiplas necessidades terapêuticas apresentado à Universidade Paulista - UNIP.

Orientadores:

Prof a . Ana Carolina S. de Oliveira

Prof. Hewdy L. Ribeiro

BANCA EXAMINADORA

/ /

Prof. Hewdy Lobo Ribeiro

Universidade Paulista – UNIP

/ /

Profa. Ana Carolina S. Oliveira

Universidade Paulista – UNIP

AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus por ter iluminado e conduzido meu caminho com clareza e perseverança.

A minha orientadora Prof.a. Ana Carolina S. Oliveira pela ajuda e confiança

para realização deste trabalho.

A esta universidade, seu corpo docente, a direção e administração que

oportunizaram conhecimentos, confiança e ética.

A minha família, pelo amor, incentivo e apoio incondicional.

“A gratidão é o único tesouro dos humildes”. (Willian Shakespeare)

RESUMO

O câncer de mama é com certeza uma das doenças mais temidas pelas mulhe- res devido à freqüência absurda com que vem ocorrendo e, sobretudo pelos seus efeitos psicológicos, que afetam a sexualidade e a imagem pessoal da mulher que o vivencia, sendo, portanto, devastadora tanto em termos físicos quanto psí- quicos, e levando-se em conta estes fatos, se faz importante falarmos sobre as implicações psíquicas envolvidas no tratamento e diagnóstico do câncer de mama. O diagnóstico de câncer e todo o processo da doença são vividos pelo paciente e pela sua família como um momento de intensa angústia, sofrimento e ansiedade. Neste sentido, este trabalho tem o objetivo de levantar alguns pon- tos de reflexão no que se relaciona aos significados culturais da doença e da identidade feminina. Partimos do princípio de que enriquecer a compreensão dos aspectos que influenciam o sofrimento da mulher com câncer de mama contribui para que os profissionais de saúde, principalmente os de saúde mental, possam assisti-la de maneira mais eficiente e abrangente.

Palavras- chave: Câncer de mama, aspectos psicológicos, psicologia.

ABSTRACT

The breast cancer is certainly one of the most feared diseases by women due to often what is happening and, above all by its psychological effects that affect sexuality and personal image of women who had this experience, therefore, starting these facts, is important to speak about psychological implications involved in the treatment and diagnosis of breast cancer. The diagnosis of cancer and the process of the disease are experienced by the patient and his family as a moment of intense anguish, suffering and anxiety. In this sense, we start with the idea of increasing knowledge and the understanding on the aspects influencing the suffering of women with breast cancer contributes to health professionals, particularly mental health, can accompany it efficiently and comprehensively.

Key-words: Breast cancer, psycological aspect, psychology.

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO

08

2 OBJETIVO

09

3 METODOLOGIA

10

4 DISCUSSÃO

11

4.1 Câncer de mama

11

4.2 Impacto psicológico do câncer de mama

13

4.3 História da Psicologia Oncótica

15

4.4 Tratamento psicológico na Terapia Cognitivo-Comportamental

18

5

CONCLUSÕES

21

REFERÊNCIAS

22

10

1

INTRODUÇÃO

O câncer de mama é a neoplasia maligna que mais atinge o sexo feminino

e é a maior causa de mortes por este tipo de doença, sendo responsável por cerca de 20% dos óbitos por câncer entre as mulheres.

Na literatura atual, segundo as evidências, este tipo de câncer situa-se entre as primeiras causas de morte por câncer nas mulheres. Causa, portanto, profundo impacto psicológico na percepção da sexualidade, na imagem pessoal

e autoestima, de maneira muito mais marcante do que qualquer outro câncer.

Considerando-se a alta incidência do câncer de mama, a grande possibilidade de uma longa sobrevida e desestruturação que o diagnóstico e tratamento do câncer de mama acarretam na vida da mulher, tem ocorrido uma maior demanda para se investir na qualidade de vida do paciente.

Ocorrerão alterações no cotidiano dessa mulher, mas estas alterações não poderão ser desprezadas, pois é nesse momento que se inicia uma etapa definitiva na sua vida e ela precisa ser informada sobre como deve prosseguir a partir daquele agravo. É indispensável apoia-la e encoraja-la a superar conflitos pessoais e sociais de surgir.

A importância da realização de um levantamento bibliográfico sobre as últimas produções que abordassem o tema do “impacto psicológico no câncer de mama”, visando assim a melhor compreensão dos processos internos (psicológicos) por que passa a mulher portadora do câncer de mama.

11

2 OBJETIVOS

A importância do psicólogo no tratamento de pacientes com câncer de mama

Sentimentos e dúvidas causadas no paciente assim que recebem o diagnóstico de câncer de mama

Tratamentos psicológicos em pacientes oncológicos

Tratamento através da Técnica Cognitiva Comportamental

12

3

METODOLOGIA

Para essa revisão, foi utilizada uma pesquisa no sistema Lilacs, Scielo e Google Acadêmico, entre 2004 e 2012, cruzando os unitermos “câncer de mama x aspectos psicológicos x psicologia”.

O idioma utilizado para essas consultas foi o português.

13

4

DISCUSSÃO

Câncer de Mama

Os cânceres ou neoplasias malignas vêm assumindo um papel cada vez mais

importante entre as doenças que acometem a população feminina, representando, no Brasil e no mundo, importante causa de morte entre as mulheres adultas. O câncer

de mama é segundo tipo de câncer mais frequente no mundo e o primeiro entre as

mulheres (SILVA, 2008).

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nas décadas de 60 e 70 registrou-se um aumento de 10 vezes nas taxas de incidência ajustada por idade nos Registros de Câncer de Base Populacional de diversos continentes (INCA, 2006a). No Brasil é a primeira causa de morte por câncer na população feminina, principalmente na faixa etária entre 40 e 69 anos (INCA, 2006b).

O câncer de mama é considerado de bom prognóstico se diagnosticado e

tratado oportunamente, sendo o principal fator que dificulta o tratamento o estágio

avançado em que a doença é descoberta. Em nosso país, a maioria dos casos é diagnosticada em estágios avançados (III e IV), correspondendo a cerca de 60% dos diagnósticos, por isso o número de mastectomias realizadas no Brasil é considerado alto (MAKLUF et al., 2006).

O câncer de mama é, portanto, uma preocupação da saúde pública, a qual,

para combatê-lo, atua formulando e implantando ações, planos e programas destinados ao controle da doença. (SILVA, 2008).

O câncer de mama é motivo de grande temor na sociedade em geral e

principalmente nas mulheres, em decorrência do elevado índice de morbimortalidade

e de mutilação, com consequente comprometimento da autoestima e do

desenvolvimento social de quem é por ele acometido (ARAÚJO; FERNANDES, 2008).

O câncer de mama tem se tornado serio problema de saúde pública, pois vêm

aumentando tanto a incidência de casos novos como o número de óbitos em mulheres

de todas as idades (ARAÚJO; FERNANDES, 2008).

14

Como justificava para esta situação, sobressai à educação deficiente das mulheres em relação aos fatores de risco e a demora em procurar atendimento, seja por falta de acesso, seja por medo ou negação da doença.

Diante desta doença, a mulher passa por completa mudança em suas relações sociais, familiares e com ela mesma, Requer, portanto, além de uma assistência humanizada, capaz de vê-la como pessoa que sofre, mas que não perdeu sua essência.

A confirmação do diagnóstico causa impacto psicossocial tanto na paciente

como nos seus familiares. Tal impacto requer uma rede social de apoio, com vistas a facilitar o reconhecimento e a aceitação da doença, e encontrar a melhor forma de

adaptação.

Atualmente a mulher desempenha inúmeros papeis, como mãe, esposa, trabalhadora, chefe de família e cidadão. Neste universo, são muitos obstáculos ao desempenho dos seus papéis, principalmente quando esse mesma mulher adoece.

Nesta situação particular, um suporte emocional especializado deverá ser sempre oferecido, pois, muitas vezes, o estresse decorrente do diagnóstico dificulta a absorção racional de todas as informações dadas. Tomada por estes sentimentos, a pessoa tende a se isolar do seu convívio social de apoio.

A partir do momento em que a mulher descobre que tem um nódulo na mama,

dá-se início a um processo interno de dúvidas e incertezas que podem ou não ser “amenizadas” através do exame físico e exames radiológicos (MALUF et al., 2005).

Havendo a confirmação de que aquele achado é um tumor maligno, a mulher passará por várias fases de conflito interno que oscilam desde a negação da doença, onde a paciente (e familiares) procuram diversos profissionais na esperança de que alguns deles lhe deem um diagnóstico contrário aos achados, até a fase final onde há aceitação da existência do tumor.

O tratamento primário é a mastectomia, intervenção cirúrgica que pode ser

restrita ao tumor, atingir tecidos circundantes ou até a retirada da mama, dos linfonodos da região axilar e de ambos os músculos peitorais. A mais frequente, em torno de 57% das intervenções realizadas, é a mastectomia radical modificada, aquela

15

que remove toda a mama juntamente com os linfonodos axilares. Tratamentos complementares geralmente são necessários, como a radioterapia, quimioterapia e hormonioterapia. O prognóstico e a escolha do tratamento são embasados na idade da paciente, estágio da doença, características do tumor primário, níveis de receptores de estrógeno e de progesterona, medidas de capacidade proliferativa do tumor, situação da menopausa e saúde geral da mulher (SILVA, 2008).

O tratamento traz repercussões importantes no que se refere à identidade

feminina. Além da perda da mama ou de parte dela, os tratamentos complementares

podem impor a perda dos cabelos a parada ou irregularidade da menstruação e a infertilidade, fragilizando ainda mais o sentimento de identidade da mulher. Além disso,

a representação de dor insuportável, de mutilações desfigurou e de ameaça de morte não desaparecem com a retirada do tumor, pois há sempre o fantasma da metástase

e da recorrência.

Impacto psicológico do câncer de mama

Os conflitos são demonstrações das alterações psicológicas por que passam a mulher portadora de câncer de mama e seus familiares, e que não terminam com a cirurgia, mas que vão além, com os tratamentos como a quimioterapia, radioterapia, e hormônoterapia.

A partir do diagnóstico confirmado, o paciente vê sua vida tomar um rumo

diferente do que poderia imaginar, já que o câncer pode acarretar alterações significativas nas diversas esferas da vida como trabalho, família e las er (VENÂNCIO,

2004).

Considera- que a sobrevivência ao câncer de mamãe processo que se inicia no momento do diagnóstico não cessa, prolongando-se até o final da vida.

A vivência do período pós tratamento do câncer de mama expõe a mulher a inúmeros estressores, compatíveis com o enfrentamento de doença crônica complexa, que ameaça sua integridade física e que exige cuidados intensivos. Além das repercussões emocionais, familiares, laborais e na vida de relações também

16

persistem decorrentes do tratamento intrusivo e das incertezas quanto à evolução do quadro. Toda essa condição de vida testa a capacidade adaptativa da paciente.

Conhecer os estressores específicos do período pós -tratamento, tendo em vista as demandas de ajustamento que eles suscitam, é passo primordial par a o adequado planejamento das atividades assistenciais com fins de reabilitação.

Ao pesquisarem a qualidade de vida das mulheres tratadas de câncer de mama, a luz do funcionamento social, evidenciam que as mudanças no trabalho, lazer relações familiares e sociais dessas mulheres são provocadas, mas por problemas psicológicos do que físicos (VENÂNCIO, 2004).

As questões abordadas por ela são: perda do controle sobre a vida, mudança na autoimagem, medo da dependência, estigmas, medo do abandono, raiva, isolamento e morte. O medo da progressão da doença e da recidiva são outras preocupações constantes. Apontam fatores que podem estar associados com ansiedade e depressão durante o câncer de mama. Esses fatores são: variáveis demográficas, idade, nível educacional, estágio da doença, temperamento (otimista ou pessimista), respostas ao estresse e estratégias de confrontação com a doença (VENÂNCIO, 2004).

Estudo desenvolvido por Spiegel com mulheres com câncer de mama mostra que o grau da depressão independe da malignidade do tumor. Dessa forma, só a suspeita de ter um câncer pode trazer abalos significativos na vida da mulher. Esse mesmo autor alerta que em diversos casos depressão não é detectada, já que muitos dos seus sintomas como falta de apetite e pouca energia, podem estar associados aos efeitos do tratamento ou às consequências do próprio câncer.

Ao se estudar as consequências psicológicas causadas pelo câncer de mama são importantes ressaltar que quanto maior a mutilação, mais traumático será o seu efeito. Nesse caso, a mulher mastectomizada sofre sequelas maiores, já que vivencia alterações significativas na sua imagem corporal.

Um medo muito frequente entre as pacientes mastectomizadas é o de não ser mais atraente sexualmente. Dessa forma, a presença do companheiro na reestruturação de sua integridade é fundamental.

17

Quando o tratamento está em andamento, as inquietações se voltam para a mutilação, a desfiguração e suas consequências para a vida sexual da mulher (SILVA,

2008).

Mesmo quando o tratamento permite a preservação da mama e ocorre a penas a retirada do tumor, observa-se que a indicação causa medos e crises nas doentes.

Foi verificado também que as mulheres apresentam o interesse sexual diminuído, por causa dos efeitos secundários do tratamento, como menopausa precoce, diminuição da libido e alteração na produção de hormônios sexuais, o que torna o ato sexual doloroso, além de diminuir a excitação e inibir o orgasmo (SILVA,

2008).

Redução da qualidade de vida nos domínios emocional, social e s exual, não somente no período de um a dois anos após o tratamento inicial, mas também após cinco anos. Sugerem, por isso, que o cuidado psico oncológico oferecidos às pacientes deve ser mantido mesmo após o ritmo do tratamento clínico. O câncer de mama e seu tratamento interferem na identidade feminina, levando, geralmente, a sentimentos de baixa auto estima, de inferioridade e medo de rejeição do parceiro. Ao afastarem-se do ideal de mulher, as doentes de câncer de mama julgam-se incapazes de poder gratificar e proporcionar experiências positivas, tanto a seus companheiros quanto a seus filhos.

História da Psicologia Oncótica

A psico-oncologia surgiu como um desdobramento da considerável redução dos índices de mortalidade da maioria dos tipos de câncer observada em diversos países, a qual, por sua vez resultou dos avanços técnico-científicos que tornaram os tratamentos mais resolutivos (MENEZES et al., 2012).

As transformações no conceito de saúde, ocorridas entre os anos 70e 90, quando passa a ser compreendida como um fenômeno biopsicossocial, construíram um marco na criação de um espaço para o psic ólogo nos serviços de saúde (VENÂNCIO, 2004).

18

Outro fato importante que contribuiu para a inserção do psicólogo na área de saúde foi a realização da Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde, em 1978, na cidade de Alma-Ata, na então União Soviética, quando passou- se a enfatizar os cuidados primários dando-se ênfase à promoção da saúde e prevenção da doença. A partir de então, ocorreu uma maior preocupação com a adesão do paciente ao tratamento. Dessa forma, mais espaço se abre ao psicólogo, já que a adesão ou não ao tratamento muitas vezes implicam em questões psicológicas.

No final da década de 70, surgiram novos métodos de detecção precoce e tratamentos mais eficazes contra o câncer, resultando num aumento gradual da expectativa de vida do paciente e consequentemente numa maior preocupação com

a sua qualidade de vida. Isso resultou no surgimento do campo de estudo e prática da Psicologia Oncológica.

O Instituto Nacional de Câncer/ INCA, órgão de referência nacional no tratamento dessa patologia, apenas em 1979 contratou o primeiro psicólogo.

Em 1998 obteve-se um grande avanço na área de psicologia, quando o Ministro da Saúde da época, através da portaria 3.535 do Ministério da Saúde, publicada no D.O.U. de 14/10/98, tornou obrigatória a presença de profissionais especialistas em Psicólogia Clínica como um dos critérios para cadastramento de Centros de Alta Complexidade em Oncologia (CACON) junto ao Sistema Único de Saúde (SUS) (VENÂNCIO, 2004).

Dessa forma, o psicólogo passa a ser membro da equipe multidisciplinar cuidadora do paciente com câncer, atuando em todas as etapas do processo do tratamento oncológico.

O trabalho do psicólogo torna-se de grande valia tanto para a família quanto, e principalmente, para a paciente, que tem a oportunidade de expressar toda a sua angústia, medos (principalmente o da morte) e incertezas frente ao câncer,

verbalizando conteúdos, que possivelmente não cont aria a um amigo e/ ou familiar, com a diferença que estará tendo um suporte de um profissional preparado para isso

e que poderá acompanhá-la durante todo esse processo (MALUF et al., 2005).

19

Temos que nos ater ao fato de que a mulher portadora de câncer de mama passa por vários lutos ao longo do processo de tratamento: o primeiro pela existência da possibilidade de ter câncer, o segundo quando do diagnóstico, o terceiro quando do tratamento cirúrgico, um quarto luto gerado pela perda da imagem corporal e correlata, um quinto luto causado pelas possíveis limitações que terá em consequência da cirurgia e um último causado pelos tratamentos quimioterápicos, radioterápicos e hormonioterápicos.

O processo de luto é, por definição, um conjunto de reações diante de uma perda, envolvendo uma sucessão de quadros clínicos que se mesclam e se substituem.

O processo de luto pelo qual passa a mulher com câncer de mama é um momento em que esta tem a possibilidade de entrar em contato com os seus conteúdos internos e os chocar com a nova realidade, elaborando isso, para que possa refazer psiquicamente sua autoimagem, através do contato com uma nova realidade, neste caso, o câncer de mama. Porém, este processo é doloroso, sendo acompanhado desde uma tristeza até uma profunda de pressão, além de sentimentos como angustia, medo e desesperança.

Quando falamos em luto através do tratamento cirúrgico, queremos dizer que por um lado a “cirurgia é “reconfortante” para o paciente, pois através do procedimento ela poderá “ acabar com isso logo”, ela será tratada, findando um “ problema “. Porém

a alegria o alivio” causado por esta primeira etapa do tratamento tem um certo tempo de duração, até o momento em que a paciente e aí se inicia o luto. Luto pelo corpo perdido, pela feminilidade “roubada”, sentimentos de menos valia por ser “menos mulher que as demais” (que possuem seios), entre outros.

Em relação a reconstrução mamária imediata, os estudos mostram que este

tipo de intervenção possuem vantagens relacionadas a um melhor resultado estético

e custo benefício para mulheres que a realizaram imediatamente após a cirurgia (MALUF et al., 2005).

Quando se compara o impacto psicológico da reconstrução imediata com grupos de reconstrução tardia constata-se neste último grupo, um grande nível de

20

sofrimento psíquico e rebaixamento das funções psíquicas aliados a uma baixa autoimagem.

O tratamento quimioterápico, seja pré e, principalmente, pós-operatório, provoca reações de luto pelo impacto nas mudanças corpóreas como a queda de cabelo, muitas vezes expressa como maior preocupação.

Outras mudanças corpóreas e não fisiológicas incluem, mal- estar geral (inclusive na possibilidade de diminuição da imunidade e infecções oportunistas), quadro clínico decorrente de hipo estrogeinismo por diminuição da função ovariana.

Nesta fase, o apoio familiar e o suporte médico, psicológico podem amenizar os possíveis efeitos colaterais com medicação específica se sempre orientado a paciente e os familiares das possíveis evoluções, diminuindo assim a tensão e o medo do incerto (SILVA; SANTOS, 2010).

Chegando a conclusões de que quanto mais conservadora a cirurgia, menor o impacto psicológico causado pela perda da autoimagem. Porém não há unanimidade quanto a isso, havendo outros estudos que afirmam não haver diferença entre o impacto psicológico em pacientes submetidas a mastectomia radical ou cirurgia conservadora.

É de grande relevância que todas as pacientes diagnosticadas com câncer de mama tenham um adequado suporte psicológico durante todas as fases do tratamento.

Devemos nos ater que o adoecer é uma experiência única, uma experiência de desordem, que adquire um sentido específico no momento existencial dessa mulher, com significados que os sintomas, as experiências com o tratamento e as relações interpessoais passam a ter contexto de sua vida.

Tratamento psicológico na Terapia Cognitivo-Comportamental

O termo terapia cognitivo-comportamental (TCC) é utilizado para um grupo de técnicas nas quais há uma combinação de uma abordagem cognitiva e de um conjunto de procedimentos comportamentais (KNAPP; BECK, 2010).

21

Existe uma diversidade de abordagem da TCC emergiu ao longo das décadas subsequentes, atingindo vários graus de aplicação e sucesso. As TCCs podem ser classificadas em três divisões principais: 1. Terapias de habilidades de enfrentamento, que enfatizam o desenvolvimento de um repertório de habilidades que objetivam fornecer ao paciente instrumentos para lidar com uma série de situações problemáticas; 2. Terapia de soluções de problemas, que enfatiza o desenvolvimento de estratégias gerais para lidar com uma ampla variedade de dificuldades pessoais; e 3. Terapias de reestruturação, que enfatizam a pressuposição de que problemas emocionais são uma consequência de pensamentos mal adaptativos, sendo a meta de tratamento reformular pensamentos distorcidos e promover pensamentos adaptativos.

A terapia cognitivo-comportamental tem sido utilizada como base metodológica para a intervenção em diversos tratamentos de saúde como: dor crônica, obesidade, diabetes, HIV, cardiopatias entre outros (LORENÇÃO et al., 2009).

A atividade cognitiva, ativada com o diagnóstico de uma doença crônica como

o câncer, pode influenciar o comportamento e as emoções do paciente, alterando a

forma como ele se sente, e podendo resultar em transtornos psicológicos decorrentes de um modo distorcido de se perceber os acontecimentos, denominado distorções

cognitivas.

Diante de todo o desgaste físico e emocional vivenciados pelo paciente perante

o diagnóstico de uma doença maligna, que o coloca em iminência de morte e que o

faz submeter-se a procedimentos terapêuticos invasivos e, muitas vezes, mutilantes,

o indivíduo é tomado por sentimentos de raiva, medo, angústia, pena de si mesmo,

além da sensação de ter perdido o controle em relação a sua vida (SILVA et al., 2008)

A Terapia Cognitiva, criada por Aaron Beck na década de 60, consiste em uma

abordagem diretiva, objetiva, focada no aqui-agora, de tempo limitado e baseada no método científico. Adota o modelo biopsicossocial e considera a influência de fatores psicológicos, ambientais, biológicos e sociais como fundamentais para o entendi- mento do comportamento humano. De acordo com a Terapia Cognitiva, os transtornos psicológicos decorrem de um modo distorcido ou disfuncional de perceber os aconte- cimentos, influenciando o afeto e o comportamento (PEREIRA; PENIDO, 2010).

22

No entanto, é relevante ressaltar que isso não significa que os pensamentos causam os problemas emocionais, mas sim que modulam e mantêm as emoções dis- funcionais, independente de suas origens. A maneira como um indivíduo interpreta situações específicas (e não as situações em si) influencia seus sentimentos, motiva- ções e ações. Portanto, o foco do modelo cognitivo está na interação entre pensa- mentos, sentimentos e comportamentos. O objetivo fundamental desta terapia é a mu- dança do comportamento do indivíduo através da modificação de seus pensamentos (PEREIRA; PENIDO, 2010).

A abordagem cognitiva de Beck representa uma mudança teórica no entendi- mento e tratamento de transtornos emocionais. Mais de 40 anos após a publicação da teoria cognitiva da depressão, a técnica cognitiva se tornou a abordagem psicote- rápica independente mais importante é com melhor validação científica.

Conforme Beck “o progresso continuo na pesquisa e prática evidenciado na história das terapias Cognitivo-Comportamentais pode ser interpretado com uma indicação de que o futuro do campo indubitavelmente presenciará avanços contínuos” (KNAPP; BECK, 2008).

.

23

O sofrimento psicológico da mulher que passa pela circunstância de ser por- tadora de um câncer de mama e de ter de acolher um tratamento difícil, como vimos, transcende ao sofrimento configurado pela doença em si. É um sofrimento que com- porta representações e significados atribuídos à doença ao longo da história e da cul- tura e adentra as dimensões das propriedades do ser feminino, interferindo nas rela- ções interpessoais, principalmente nas mais íntimas e básicas da mulher. Considerar estes aspectos nas propostas de atenção à mulher com câncer de mama é mais que necessário: é indispensável.

A partir do diagnóstico até o tratamento, a mulher com câncer de mama pode perder sua homeostase, e passar por períodos de: raiva, tristeza, inquietação, ansie- dade, angústia, medo e luto. Isso porque a incerteza, a possibilidade de recorrência ou morte se fazem presentes.

Como proposto por esta pesquisa, a partir da revisão dos estudos, foi possí- vel observar a influência do aspecto biopsicossocial nas mulheres acometidas pelo câncer de mama. Acredita-se ser de fundamental importância a atuação do psicólogo com a paciente, família e a equipe médica, tanto para identificar os aspectos psicos- sociais das mulheres com câncer de mama, quanto para auxiliar essa rede de intera- ções complexas, na compreensão da doença e dos conflitos acarretados por toda a situação na qual estão envolvidos. Desta forma família e equipe de saúde podem ser- vir de apoio à paciente, não a deixando só para lidar com este processo doloroso de luta frente ao câncer.

Foi possível perceber também uma maior inserção do psicólogo na área da Saúde. Porém, muitas conquistas ainda podem ser feitas buscando uma maior inte- gração entre os diversos profissionais da área de Saúde, visando a criação de um espaço próprio para a atuação do psicólogo.

REFERÊNCIAS

24

1 SILVA, A. Câncer de mama e sofrimento psicológico: Aspectos relacionados ao feminino . Psicologia em Estudo, v. 13 , n. 2, p. 231- 237, 2008.

2 INCA – Instituto Nacional de Câncer (2006a). Incidência de câncer no Brasil:

estimativa

3 INCA – Instituto Nacional de Câncer (2006b). Programa Nacional de Controle do câncer do Colo do Útero e de Mama “Viva Mulher”. Recuperado em 12 junho de 2006, de http://www.inca.gov.br/conteudo_view.asp?id=140.

de

2006.

Recuperado

em

12

junho

de

2006,

4 MAKLUF, A.S.D; DIAS, R.C; BARRA, A.A. Avaliação da qualidade de vida em

mulheres com câncer da mama. Rev. Bras. De Cancerologia, v. 52, n. 1, p. 49- 58,

2006.

5

ARAUJO, I.M.A; FERNANDES, A.F.C. O significado do diagnóstico do

câncer de mama para a mulher . Es c Anna Ver Enferm , v. 12 , n. 4 , p. 664- 71, 2008.

6 MALUF, M.F.M; MORI, L.J; BARROS, A.C.S.D. O impacto psicológico do

câncer de mama . Rev. Bras. De Cancerologia , v. 51, n. 2, p. 149 - 154, 2005.

7 VENÂNCIO, J.L. Importância da Atuação do Psicólogo no Tratamento de

Mulheres com Câncer de Mama. Rev. Bras. de Cancerologia, v.50, n.1, p. 55- 63,

2004.

8

MENEZES, N.N.T; SCHULZ, V.L; PERES, R.S. Impacto psicológico do

diagnóstico de câncer de mama: um estudo a partir dos relatos de pacientes em um grupo de apoio. Estudos de Psicologia, v.17, n. 2, p. 233-240, 2012.

9 SILVA, G; SANTOS, M.A. Estressores pós-tratamento do câncer de mama:

um enfoque qualitativo. Rev. Latino-Am. Enfermagem, v.18, n.4, p.8, 2010.

10 LOURENÇÃO, V.C; SANTOS JUNIOR, R; LUIZ, A.M.G. Aplicações da terapia

cognitivo-comportamental em tratamentos de câncer. Rev. Bras. Terapia

Cognitivo, v. 5, n. 2, 2009.

11 SILVA, S.S; AQUINO, T.A.A ; SANTOS, R .M. O paciente com câncer:

cognições e emoções a partir do diagnóstico. Rev. Bras. de Terapias Cognitivas, v. 4,

n.2, p.73-88, 2008.

12 PEREIRA F.M; PENIDO, M.A. Aplicabilidade Teórico-Prática da Terapia

Cognitivo Comportamental na Psicologia Hospitalar. Rev. Bras. Terapia Cognitivo, v. 6, n. 2, p. 189- 220 , 2010.

13. KNAPP, P; BECK, A.B. Fundamentos, modelos conceituais, aplicações e pesquisa da terapia cognitiva . Rev. Bras. Psiquiatr, v. 30 , n. 2 , p. 554 - 64, 2008.