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SUMÁRIO A Iniciação Créditos A Autora .

fazendo piercings juntos e aparecendo para o treinamento com . Ele cruza os braços. Pelo menos não até ela me prender em um mata leão e a minha visão começar a escurecer. mas provei do que sou capaz. e não consegui bater nela. – Juntar-se a uma facção não é só passar da iniciação. Agora. Uma gota de suor escorre pela minha nuca. Eu o cansei. como roer a unha do dedão ou segurar o garfo com a mão esquerda em vez de fazê-lo com a direita. Caso contrário. fecho os punhos com tanta força que começo a perder a sensibilidade nas pontas dos dedos. e vai à sala da paisagem do medo toda noite. Sempre que meu punho atinge o saco de pancada. Amanhã. Para derrotá-lo. meu rosto está todo roxo e cortado. – E sabe que enfrentará Eric amanhã. contra o maior garoto da Franqueza. e não aqui.A Iniciação: uma história da série Divergente A SALA DE treinamento cheira a esforço físico. levantando sempre que ele pensava ter me derrotado. poeira e sapatos. namorados. Sean. depois limpo a testa com o braço. Precisarei de habilidades que não tenho. enganchando os dedos na corrente que sustenta o saco de pancada. seja o que for. de uma força que ainda não conquistei. eu sei – responde Amah com uma risada. Mas você parece determinado a não ter nenhuma dessas coisas. Enxugo-a com os dedos enfaixados. cobertas de machucados depois de uma semana de lutas na Audácia. Os inimigos também. que aprendi bem cedo. Às vezes. com o odor de suor. Ainda sinto a culpa dentro de mim quando penso sobre isso. precisarei de mais do que um golpe esperto. Também quase perdi a segunda luta. meu adversário será Eric. afastando-me do saco de pancada e sacudindo as mãos. sinto uma pontada de dor nas juntas dos dedos. – É. Quase perdi a minha primeira luta contra a garota da Amizade. e uma única cotovelada no queixo a derrubou. ou de persistência. Descobri que você vem aqui toda manhã. Já vi os outros iniciandos juntos. Ele não sabia que superar a dor é um dos meus hábitos mais antigos. sabia? – diz Amah. assim como suas namoradas. testando a sua resistência. Mia. Você nunca passa tempo com os outros iniciandos. – Parece que você já viu o mural – diz Amah. Reagi por instinto. então comecei a perguntar para as pessoas. Está sempre exausto e dorme como uma pedra. – A maioria dos membros da Audácia conhece os seus melhores amigos durante a iniciação. – Também venho aqui de vez em quando – digo. passo muito tempo tentando entender qual é a sua. encostando-se no batente da porta. – Sabe. você estaria na paisagem do medo. Não sabia como derrotá-la sem bater nela.

E vim aqui porque estava pronto para parar de ouvir aquela voz. Lauren. está segurando a barra na lateral do vagão. como se eles fossem velhos amigos ou irmãos. amizade e flerte. cumpre o desafio e ganha a chance de desafiar outra pessoa a fazer outra coisa. – Não seja idiota de desperdiçar essa oportunidade. – Qual é o jogo? Amah apenas sorri. Na outra mão. – O primeiro participante escolhe uma pessoa e a desafia a fazer alguma coisa. recostados uns nos outros. está sentado de frente para mim. para estar preparado para a luta amanhã. Parecem tranquilos. parece que você está prestes a estourar. Não sou o único iniciando no vagão. Tento relaxar e envolvo os joelhos com os braços. mas não para de se balançar e quase cai para fora do trem. – Está bem – respondo. todos membros da Audácia. Ele está sentado de maneira desleixada. Um jogo da Audácia. ficamos um pouco bêbados e tropeçamos de volta para casa. ela segura um cantil prateado. o que explica muita coisa. e nada disso parece familiar para mim. bagunçando os cabelos uns dos outros. o que saltou primeiro. que eu me isole. ou que deveria tentar ser. como se os trilhos não estivessem suspensos dois andares acima da rua e ela não fosse quebrar o pescoço se caísse. Mas aquela voz. Cutuco o esparadrapo que cobre uma das juntas dos meus dedos. – Vamos lá.narizes. orelhas e lábios vermelhos e perfurados ou construindo torres de restos de comida sobre a mesa do café da manhã. +++ – O nome do jogo é Desafio. Zeke. Depois. Ela inclina a cabeça. a pessoa toma um trago. socando os braços uns dos outros. soa como a do meu pai. O que vejo é camaradagem. encostado contra Amah. exigindo que eu me comporte. Uma garota da Audácia. e não quero estar por perto quando isso acontecer – diz ele. Os outros são mais velhos. Quando todos já tiverem cumprido seus desafios. . ou morrido tentando. – Bem. Alguns de nós vamos jogar hoje à noite. – Como é que se vence? – grita um dos garotos da Audácia do outro lado do vagão. Deveria ficar aqui treinando e depois ir dormir. – Estou oferecendo a você um pouco de status da Audácia só porque sinto pena de você – diz ele. a que diz “deveria”. junto com uma garota de cabelo castanho com uma franja reta sobre a testa e um piercing no lábio. Eu não deveria sair para jogar. – Estou acostumado a ficar sozinho. Nunca pensei que poderia ser um deles. Dou de ombros. depois começa a rir e puxa o corpo para dentro.

É verdade que você só tem quatro medos? – É por isso que me deram esse nome – digo. Dou de ombros. Ele aponta para Shauna com o dedão. Os cantos da boca dela murcham. – Aliás. ninguém mais se ofereceu – comenta a garota ao seu lado. você é uma garota? Ela ergue as sobrancelhas. – Ei. com a Abnegação como resultado. apesar de eu saber que não é. como se o que ela disse pudesse ser verdade. – Zeke vira a cabeça. Eu sempre perco. Indico o meu rosto ferido. mostrando-me um grande hematoma na lateral inferior da mandíbula. pelo menos uma vez na vida. não é? Quatro? – Isso mesmo – respondo. – Porque. – Como assim? Você acha que não sou capaz de aguentar o tranco como todos os outros . em um refúgio da Audácia. – Meu nome é Shauna. – Mas acertei um bom soco. – Acho que você já nasceu com sangue da Audácia. acabei de inventar uma nova regra: você também vence quando não faz perguntas idiotas. – Eu serei a primeira. – É só me avisar quando chegarmos na parada certa! – grita ele.. Ela não sabe que o que me trouxe aqui foi a vontade de escapar da vida à qual fui designado.Realmente sou um Careta. Parece impressionada. Ela fecha a tampa do cantil e o joga para ele. – Você mandou bem no primeiro salto. eu desafio você a entrar na biblioteca da Erudição enquanto os Narizes estão estudando e gritar algo obsceno. Todos comemoram quando Amah bebe um gole do líquido. você é um transferido. Percebo. – Nada mal – digo. sob o regozijo geral. tarde demais. – Como estão indo as suas lutas? – pergunta Zeke. porque sou a detentora do álcool – diz ela. – Você vence se não for um maricote – diz Lauren. – Graças a esta garota aqui. – Olha só. aliás. como se ela estivesse triste por algum motivo. Mas ele apenas ri. que estou me esforçando ao máximo para passar pela iniciação só pra não precisar admitir que sou um impostor. Nascido na Abnegação. – Como vocês podem ver. que talvez ele não goste muito de ser lembrado disso. – Bem. mas não pergunto qual o problema. – Nossa! – Ela acena com a cabeça. – Amah. – Por que me importaria? – Não sei – respondo. – É. Zeke acena para mim. – Não se importa de ele ter batido em você? – pergunto. do seu momento de triunfo roubado por um tropeço e a perda de equilíbrio. e isso me faz ajeitar o corpo.. não foi o meu melhor momento. – Ele me derrotou – diz Shauna.

Não tenho medo da velocidade do trem. Amah se levanta. – Eles morreram quando eu era pequeno. eu entendo – diz ela. De repente. não sinto medo. lançando-se para dentro da noite. – Veja só. Você parece estar precisando. desvencilhando-se de Amah. mas o trem agora está perto do chão. quando salto. Ele dá de ombros. não conte a ele enquanto eu estiver aqui – diz Zeke. mas desce rápido. com o rosto corado. depois puxando a cabeça dele para junto do peito. não importa se você é garota. então nem hesito: aceito o cantil e bebo. – Não quero ver a cara dele. dê um gole. e marcha em direção à porta aberta. – Os avós de Amah eram amigos dos meus pais. Mas já vi como as pessoas parecem se sentir à vontade quando bebem. – Claro. – E os seus pais? – pergunto a Amah. Nunca provei álcool. O álcool queima a minha garganta e tem gosto de remédio. então. mas Amah não se segura em nada. Todos se levantam. Em um acidente de trem. apenas por um segundo. o meu pai morreu. e me pego encarando-o.iniciandos só porque tenho peitos? – Ela aponta para o busto. – Não foi o que eu quis dizer. O trem começa a descer. Os integrantes da Abnegação não bebem. por isso. você já está pegando o jeito de saltar do trem – diz Amah. garoto ou o que quer que seja. balançando a cabeça. Os outros saltam depois dele. É só que não estou acostumado com isso. Ele me oferece o cantil. Amah não lhe dá ouvidos. O que importa é se você tem coragem ou não. Caio em pé. – Vejo que você conheceu o meu jovem amigo Ezekiel. posicionando as mãos no quadril em uma pose dramática. e Amah é o primeiro a saltar. me dando uma cotovelada. tropeçando um pouco antes de parar. aquecendo-me. aproximando-se de Zeke e passando o braço ao redor do seu pescoço. eu nem tinha acesso a álcool. sugerindo um mergulho. e deixo que as pessoas atrás de mim me empurrem até a porta. – Ele sorri. Ele olha para mim. – Só porque a minha mãe me chama assim não significa que você precisa me chamar desse jeito – diz Zeke. – Eram? – Bem. – O salto? – Ah. – Mas é melhor você saber uma coisa sobre a Audácia: aqui. sem parecer irritada. e. – Desculpe – digo. antes de me lembrar de desviar o olhar. – Bom trabalho – diz Amah. e os avós dele também – explica Zeke. – Tome. Muito triste. como se não fosse tão triste. só da altura. Com nada disso. – E meus avós deram o salto depois que me tornei membro oficial da Audácia. . apenas se move e balança junto com o movimento do vagão. e quero desesperadamente parar de me sentir desconfortável. Ele faz um gesto com a mão.

Lembro-me deles murmurando que ela morreu por causa de complicações ao parir outra criança. desajeitado e gracioso ao mesmo tempo. Ela está morta. vestindo impecáveis roupas azuis. com os membros da Abnegação enchendo a nossa casa com seus sussurros. – Ele não aceitou nem um pouco. – E você? – pergunta Zeke. larga sobre a mais justa de baixo. – Minha mãe morreu há muito tempo. e seus olhos refletem o luar. cada edifício que compõe a sede é como um pilar de luz. As sedes das facções podem deixar as luzes acesas em seus saguões à meia-noite. com a barriga reta. sabia? – Não – respondo. Meu pai não virá no Dia da Visita. consegui dizer adeus a eles – diz Amah. com o cantil na mão. alguns meses antes da sua morte. aceitou a sua escolha? – pergunta ele. frio e triste. O setor da Erudição é mais limpo do que qualquer outra parte da cidade. com os cabelos arrumados. mas todas as outras luzes precisam estar apagadas. Eles não me parecem vaidosos. no setor da Erudição.– Os membros idosos da Audácia às vezes dão um salto para o desconhecido no Abismo quando chegam a certa idade. com os narizes enfiados em livros e monitores. e Amah corre para alcançar o resto do grupo. Minha avó não queria seguir em frente sem ele. Ele caminha ao meu lado. diante da sua cômoda. assim. mesmo que você não tenha se despedido. – E o seu pai. Eles me parecem pessoas se . abotoando a segunda camisa. e isso me assusta. humor e bravata da Audácia. Câncer. distante. Lembro-me do funeral. – Na maioria das vezes. Mas tenho uma lembrança dela. até que não sobrasse mais nenhum resquício dela. Tenho certeza. porque esse lado secreto é duro. Sinto que preciso pisar com cuidado para não arranhar a calçada com meus tênis. com cada pedaço de lixo e destroço varrido da calçada. Ele inclina a cabeça para trás e olha para o céu. Fico para trás com Zeke. Eles nos levaram refeições em bandejas de metal cobertas com papel-alumínio. O lado secreto dele desaparece com um rápido sorriso. a morte simplesmente chega. Os outros membros da Audácia caminham com desleixo. ou conversando em voz baixa entre si. Balanço um pouco a cabeça. – O meu avô estava muito doente. Por um instante. cada rachadura na rua coberta de asfalto. e mais da metade deles usa óculos brilhantes. Os jovens e os velhos se misturam em todas as mesas. – Pelo menos. Paro e os observo um pouco. É uma lembrança infantil e não confiável. Aqui. acompanhando-nos no nosso luto. A única opção que têm é se tornarem sem-facção – conta Amah. Vaidade. afastando a memória. – O Dia da Visita está chegando. – Lamento – digo. limparam a nossa cozinha e encaixotaram todas as roupas da minha mãe para nós. sinto que ele está me mostrando um lado secreto de si. – Você tem família? – Um pai – respondo. e as solas dos seus sapatos estalam no chão como o barulho de chuva. diria o meu pai. Eles se preocupam tanto em parecer inteligentes que se tornam tolos. As janelas pelas quais passamos mostram membros da Erudição sentados ao redor de mesas longas. Ele nunca mais falará comigo. cuidadosamente escondido sob camadas de charme. como um cão selvagem.

– Quem ainda não foi? – pergunta Lauren. andar e escalar. e todos paramos em um beco. Ele levanta o cantil como um troféu e aponta para Shauna. sorrindo. Os edifícios estão em decadência. e grita: – Ei. Todos começamos a fugir. quem sou eu para julgá-los? Eles são um refúgio que eu poderia ter escolhido. mas Amah levanta as calças e corre na nossa direção. Minhas pernas estão doendo de tanto correr. talvez seja só a minha imaginação. Os membros da Erudição atrás da recepção dão a volta e correm para prendê-lo. dando risadinhas. Sinto-me quente apesar do ar frio. e ainda nem cumpri meu desafio. mas minha mente ainda está alerta. encostando-nos nos tijolos para recobrar o fôlego. o azul-escuro do céu e a silhueta de cada edifício contra ele. estamos perto da sede da Audácia. A primeira coisa que notei foi a sua argúcia. Os membros da Erudição que nos perseguem desistem depois de uma quadra. Agora. mas será que ela parece um pouco assustada? Amah entra correndo no saguão. Também estou rindo. com as mãos levantadas. Seus olhos examinam todo o grupo até me encontrarem. Zeke corre ao meu lado. . Ela é bonita. – Eu a desafio a escalar a escultura na frente do edifício dos Níveis Superiores. – Jovem – diz ele. porque não há mais para onde correr. Olho lá para dentro e vejo um retrato de Jeanine Matthews pendurado na parede à frente. mas essa não foi a primeira coisa que notei no retrato. com a maneira como a minha barriga dói de tanto rir. e fico surpreso com isso. Se isso significa usar óculos sem precisar. +++ Quando finalmente chega a minha vez. – Sem problema – diz ela. trôpegos e rindo de todas as piadas. e todos da Audácia caem na gargalhada quando Amah se vira e mostra a bunda para eles. Mas acabei escolhendo o refúgio que caçoa deles através das janelas e que manda Amah para dentro do saguão para causar confusão. Amah alcança a porta do edifício central da Erudição e entra. Shauna pega o cantil quando ele o arremessa e toma um trago. e nós o aplaudimos. absorvendo todos os detalhes da noite: o forte odor de mangue e o som das risadinhas. Assistimos do lado de fora. Seu cabelo loiro está bem preso em um rabo de cavalo alto. todos estão bêbados. ignorando os protestos do pessoal da Erudição na recepção. Amah é o último a chegar. e a jaqueta azul foi abotoada até a garganta.esforçando ao máximo para se sentirem tão espertas quanto devem ser. e seguimos em direção aos trilhos. Narizes! Olhem isso! Os membros da Erudição no saguão levantam as cabeças em frente aos livros e monitores. mesmo as mais idiotas. Não consigo resistir. Além disso.

– Um Careta? – O garoto que estava sentado tão confortavelmente ao lado de Amah olha para mim. Ela levanta uma sobrancelha ao olhar pra mim. – Se eu me encrencar por ter acendido as luzes a esta hora. Aliás.. Não vou fugir do desafio. nos nervos. vou dizer que foi culpa de vândalos e . Se eu tivesse que bolar um desafio. eles ainda estão. – Está bem. Ele me joga o cantil. – Tori boceja. – Você tem certeza de que quer uma mulher com sono fazendo a sua tatuagem. +++ Tori está vestindo uma cueca masculina e uma camiseta quando abre a porta.– Ah. Não consegui decidir. como se isso fosse um fato. Quatro. já vi pessoas escalando estruturas altas. – Por favor? – pede Amah. Tori reaparece vestindo calças. e eu o esvazio. É ele quem está com o cantil e determinará o próximo desafio. não conseguiria pensar em nada. atropelando as palavras. o iniciando de nome numérico da Abnegação. Quatro? Esse não é o tipo de tinta que sai no banho – diz ela. – Está bem. braços. Obviamente a acordamos de um sono profundo. mas marcado com memórias de dor. Dou de ombros. Vejo a tinta nas peles deles. Meus pensamentos estavam embaçados demais. Tachas de metal atravessam orelhas. saltando para dentro de buracos escuros e entrando em edifícios vazios para buscar uma torneira ou uma cadeira. Minha pele está em branco. certo? – Isso mesmo. Não depois de ver todos cumprirem os seus. ombros e pescoços. apesar de o líquido queimar a minha garganta e os meus lábios e ser amargo como veneno. narizes. No caminho até aqui. Sinto um tremor no peito. inteira. Já volto. – É para o jogo de Desafio. com cicatrizes das coisas às quais sobrevivi. para provar que você realmente pertence à Audácia agora. subindo por seus punhos. o seu cabelo caído sobre o lado esquerdo do rosto. fiquei pensando no que gostaria de tatuar e onde. – Então. Vou vestir umas calças. Eu deveria ter cicatrizes.. lábios e sobrancelhas. curada. apenas um pouco ranzinza. Seguimos em direção à Pira. – Faço qualquer coisa pela tradição da Audácia. Até agora. – Confio em você – respondo. Ainda bem que sou o último. mas ela não parece irritada. Ela sai e fecha a porta. O que ele exigirá que eu faça? – Os Caretas são muito certinhos – diz o garoto. mas ainda sem nada nos pés. eu o desafio a fazer uma tatuagem. vi pessoas correndo peladas por becos e enfiando agulhas nos lóbulos das orelhas sem qualquer anestesia. Mas ela não combina com a pessoa que sou. Alguns segundos depois. ser marcado como eles são.

Eu a sigo por sua sala de estar escura. algo que eu consiga facilmente esconder. Ele ergue as sobrancelhas ao olhar para mim. – Princípios básicos da tatuagem – diz Tori. – Na nádega – sugere Zeke com uma risadinha debochada. Um dos desenhos chama a minha atenção em especial: uma interpretação artística das chamas. Agora. . Tori acende a luz sobre uma das cadeiras e arruma as agulhas de tatuagem em uma bandeja ao seu lado. embora os equipamentos sejam velhos. As paredes do estúdio estão cobertas de desenhos. – Aquele – digo. Corro para alcançá-los. Olho para o garoto que me desafiou. – Quanto menos enchimento houver sob a pele. formando um tipo de sistema de raízes para o olho da Erudição e para a balança da Franqueza. – Não seria a primeira vez. É como se os símbolos estivessem se entremeando uns com os outros. não sei. Já passei por ele algumas vezes. atravessando a cozinha de Tori. Sobre eles. cada uma marcada com um desenho diferente. mais a tatuagem doerá.. Venham – diz ela.. indicando que devemos segui-la. que também é muito arrumada. mas não me interessei em entrar. Uma das páginas retrata todos os símbolos das facções. parece que tenho uma razão. pois tinha certeza de que nunca teria uma boa razão para agredir o meu próprio corpo com agulhas. Tori deve ser o mais próximo que existe de um artista dentro da Audácia. o que todos eles esperam: que eu faça algo pequeno. Olho para a parede com todos os símbolos.entregarei os seus nomes – ameaça ela. A porta nos fundos da cozinha está aberta e leva a um corredor curto e úmido. no braço ou. Sei o que ele espera. outros coloridos e quase irreconhecíveis. – Entendi – digo. A parede ao lado da porta é inteiramente dedicada a símbolos da Audácia. ou quanto mais ossudo você for em uma área em particular. As agulhas serão uma forma de me separar do passado. – Tem uma porta nos fundos. como a maioria das tatuagens que vi por aqui. as mãos da Abnegação parecem quase aninhar as chamas da Audácia. apontando para o desenho. como se estivessem se preparando para assistir a algum tipo de performance. mas também aos meus próprios olhos cada vez que eu olhar para o meu reflexo. A árvore da Amizade está na parte inferior. Paro diante da mesa. Já que é a sua primeira vez. presa por um grande grampo. que é arrumada. Nem a última. alguns pretos e simples. mas outros são mais complexos. Meu rosto esquenta. Os outros membros da Audácia se reúnem em bancos e cadeiras ao nosso redor. que vai dar no estúdio de tatuagem. Tori dá de ombros. a torneira esteja enferrujada e a porta da geladeira. é melhor fazer a tatuagem. Alguns são grosseiros e simples. Os outros já passaram por mim. exceto pelas folhas espalhadas pela mesa de centro. sem os círculos que costumam enquadrá-los. detalhados. no braço ou na perna. não apenas aos olhos dos outros membros da Audácia.

todos eles estão cobertos de cortes e hematomas. não ligo para a dor. Meu pai teve uma série de noites ruins logo após a morte da minha mãe. que ainda está sarando. – A esta altura. eu começava a duvidar de que passara por tudo aquilo. e Amah joga o cantil para mim. – Como isto aconteceu. lembrando-me de antigos hematomas e do medo que senti de morrer. Tori me encara por alguns segundos. – Tem alguma ideia de onde vai fazer? Tenho uma cicatriz. erguendo a bainha da camisa. e todos começam a exibir suas próprias feridas e cicatrizes. Você deveria ver como eles andam juntos. sempre. Ela apenas liga a agulha. elas não somem pra sempre. – Ele é um iniciando – diz Amah. – Arrumei este quando eles me derrubaram. – Esse talvez seja o local onde dói mais. embora as feridas cicatrizem. E parece fazer sentido que ela documente a pior memória de dor que tenho. e as lembranças se tornavam nebulosas com o tempo. É uma cena triste. enchendo o ar com um zumbido. – Bem. O álcool queima a pele das minhas costas. de alguma maneira. Levanto o rosto e percebo que Amah está me encarando. então acho que estamos quites.. de uma vez que tropecei na calçada quando criança.– Certo – diz Tori. Apoio a mão nas costelas. Eu a saboreio. Essa tatuagem será isto pra mim: uma cicatriz. e bronze em vez de prateado. Eu as carrego para todo lugar a que vou. . – Estou com um machucado enorme no joelho – comenta Zeke. e é assim que as coisas são. – Ótimo – digo. Sempre me pareceu idiota o fato de que a dor pela qual passei não deixou uma marca visível. depois da tirolesa. Ela está prestes a se afastar quando franze a testa e puxa a minha pele com a ponta do dedo. Maravilha. e tenho certeza de que ela não aceitou a explicação de Amah para as marcas nas minhas costas. e ela molha um chumaço de algodão no álcool. Inclino o tronco para a frente. depois o passa nas minhas costelas. sentando-me na cadeira. às vezes. – Ele tem uma cor azul nojenta. – Parece que temos um masoquista na mesa hoje.. Quero carregar algo que me lembre de que. mas. assim que as cicatrizes são. e eu contraio o rosto. mas não insiste na questão. como não tinha um meio de prová-la para mim mesmo. eu levei uma facada quando você errou o lançamento da faca. Quatro? – pergunta ela. e eu contraio o rosto. – Tori senta-se no banco ao meu lado e coloca um par de luvas de borracha. franzindo a testa. uma pequena cavidade no joelho. todos mancando. Zeke levanta a perna da calça para exibir o hematoma para os outros. O álcool ainda queima a minha garganta quando a agulha toca a minha costela. O grupo de membros da Audácia comemora e começa a passar de mão em mão um cantil ainda maior do que o anterior. – Você tem certeza? – pergunta Tori.

saboreei aquelas palavras. Do outro lado da arena. o latejar da minha cabeça. que a camaradagem da noite anterior não se estenderá para a sala de treinamento. havíamos esvaziado todos os cantis. a que era focada e obstinada. Ele aponta para os meus tênis. e Eric corre na minha direção. . Amah está no centro da arena. Ele me encara com um olhar de reprovação. conferindo o relógio. – Amarre os cadarços e pare de me fazer perder tempo. E Eric tem razão. – Que bom que você resolveu dar o ar de sua graça – debocha ele. atingindo a minha mandíbula em cheio com o punho. Eu me levanto. cuidadosamente. depois levanto para tomar banho.+++ No dia seguinte. – Porque eu venceria de qualquer maneira. Ele olha para mim. rápido. sem parar de me encarar. uma a uma. Ele deve ter feito os piercings recentemente. tudo dói. trôpego. quando acordo. quando finalmente fomos embora. Vou perder. Tori fez um sinal de positivo com o dedo quando deixei o estúdio de tatuagem. Faltam dez minutos para a luta. Vou me atrasar. Então Amah dá um passo para trás. Ao encarar Eric. Ele levanta. Ontem à noite. a queimação nas minhas costelas. – Você está com uma cara péssima – diz ele. Deixo a água gelada escorrer sobre mim por mais alguns minutos. Agora. Apoio a cabeça nas mãos por alguns segundos. Eric estala as juntas dos dedos das mãos. depois confiro o relógio na parede do banheiro. esperando a tatuagem ficar pronta. que não parecia ser o lar de pequenos homenzinhos com martelos. e o movimento brusco faz minha cabeça latejar ainda mais. se espreguiça e deixa o dormitório. Preciso manter metade do corpo fora da água por causa da tatuagem na área das costelas. Meu Deus. Quando atravesso a porta. os iniciandos transferidos e alguns dos nascidos na Audácia estão em pé no canto da sala. queria ter a minha velha cabeça de volta. amarrando os cadarços do sapato. e. Não tenho prestado muita atenção. Os membros da Audácia passaram horas comigo. Amarro os cadarços correndo e enfio as pontas dentro dos sapatos para que não me atrapalhem. e Zeke apoiou o braço nos meus ombros e disse: – Acho que você é da Audácia agora. Percebo. pela maneira como ele ergue as sobrancelhas. só consigo sentir o bater do meu coração. – Espero que não use isso como desculpa quando perder a luta – diz ele com um risinho debochado. A pele ao redor dos anéis em seu lábio está vermelha. Especialmente a minha cabeça. Eric está sentado na ponta do colchão ao lado do meu. a minha cabeça. Aperto a mão contra a testa e corro até a sala de treinamento com metade dos pés para fora dos sapatos.

Não sabia que ela podia vir em tantas variedades. O sangue encharca seu queixo e corre entre seus dentes. A palma da mão dele atinge a minha orelha. Ele avança outra vez. e o medo volta a me invadir. mas. Ocorre-me que fui eu que fiz aquilo. Um medo do que eu sou. escuro e cheio de lugares secretos e silenciosos. e seguro seu braço para imobilizá-lo enquanto o golpeio. . como sabores. e vejo sua perna se mover. cotovelos ou punhos. mas estou segurando seu braço com toda a força. fazendo-a zunir. Levanto as mãos para bloquear o soco seguinte.Tropeço para trás. duas. é um medo diferente. uma. só que. sinto nem ouço nada. Ele acha que eu sou tudo o que imaginou que eu era quando me conheceu: humilde. Ele tenta se soltar. Eles estão desfocados. levando as mãos ao rosto. Meus olhos estão embaçados por meia dúzia de dores diferentes. Eaton. Então finalmente ouço seus gritos e vejo-o cobrir o rosto com as mãos. Ele não acredita que eu possa feri-lo tanto quanto ele pode me ferir. acho que descobri o seu verdadeiro nome. Toda a dor se mistura na minha mente. Estou vazio. em sussurros. +++ O complexo da Audácia é um bom lugar para se recuperar. ácido. na abertura arrogante que ele deixa para mim. mas seu pé atinge a minha costela com força. dando lugar à ira. e perco o equilíbrio. é a arrogância. desta vez. O sangue brilha em sua pele. tocando o chão para não cair. como se minha vida dependesse disso. o orgulho que sentem em saber coisas que as outras pessoas ignoram. Tento girar o corpo e desviar do chute. Os membros da Abnegação costumam dizer. Encontro seus olhos sob as mãos que cobrem o rosto. e deixo a arena sem ser liberado. Naquele momento. – Sabe – diz Eric baixinho –. para mim. Nem vejo onde estou atingindo. que o problema de muitos da Erudição é o egoísmo. fui eu. desfiro um gancho na sua barriga. mas atingindo minha clavícula. altruísta e passivo. As juntas dos meus dedos latejam. sobrepujado pelo medo. reconheço isso como a fraqueza de Eric. daquilo em que posso estar me transformando. Chuto sua costela com força. – Isto é mais fácil do que eu esperava – comenta Eric. e. não vejo. Eric sacode a mão e diz: – Será que conto para eles? Será que revelo o seu segredo? Ele tem meu nome entre os dentes. tentando me acertar no rosto. Sinto minha dor desaparecer. Minha cabeça lateja. O sentimento de vergonha esquenta o meu corpo. fogo. sozinho. vazios. dor e pontada. três vezes. e ele desaba. nada. Sinto como se um choque elétrico atravessasse o lado esquerdo do meu corpo. uma arma bem mais ameaçadora do que os seus pés.

você é o melhor. recostando-se na outra parede do corredor. então. Solto uma risada. Tento limpá-lo. não. se você não quiser me ajudar. brasa. de repente desconfiado. Só não sei exatamente como. Não sou muito boa. é só. cutucando o meu sapato com a ponta do pé. Não sei conversar com meninas. Especialmente meninas da Audácia. se levanta e começa a ir embora. mas ela quer que todos a chamem de Brasa. Algo me diz que não há como saber o que esperar de uma menina da Audácia. – Quero que você me ajude porque você é o melhor no seu grupo. e não com medo. Venci a luta. Leva os joelhos ao peito e os abraça. Realmente me matar. – Sabe. o sangue de Eric. – Eu não danço – respondo. sim. Mas. e você acabou de derrotá-lo. A dor de cabeça voltou. De qualquer maneira. – Nós daremos um jeito. – Terei que enfrentar uma garota em dois dias. depois de alguns . mas já está seco. tanto faz. há um preço. confusa. – Ela balança a cabeça. – Por que você quer a minha ajuda? – pergunto. – Eu ajudarei. – Levanto a cabeça e vejo Shauna batendo na parede de pedra. e temo que ela vá me matar. é claro. – Eric está no hospital – conta ela com um sorriso no rosto. – Ajudar com o quê? – A lutar. Ela é uma menina. eu deveria ter adivinhado. Talvez até feliz por finalmente pertencer a um lugar. Nossos pés estão a poucos centímetros de distância. Não sei por que noto isso. é claro que não! – Ela franze as sobrancelhas. as chamas da Audácia. Arranquei o dente de uma pessoa? – Eu pensei que talvez você pudesse me ajudar – diz ela. Eu deveria estar satisfeito.. Que tal amanhã à tarde? Me encontra na arena? Concordo com a cabeça. – Não sou. – Você e Eric eram os únicos invictos. deixando que o frio da pedra escorra para dentro de mim. – Esta não é exatamente a dança da vitória que eu esperava. por estar entre pessoas cujos olhos não se desviam dos meus na mesa de jantar. ela é uma das melhores do nosso grupo. Ela sorri. o nome dela é Brenda. e isso significa que minha posição na Audácia está segura por enquanto. Com certeza um dente se foi. – Por que você sabe que sou um Careta e que devemos ajudar as pessoas? – O quê? Não. – Shauna revira os olhos. Qual será o preço de ser da Audácia? – Ei. Como suspeitei: as meninas da Audácia são imprevisíveis. – É. Ela sorri. como se ela fosse uma porta.. Mas sei que. para tudo de bom que acontece. Bem. junto com várias outras causadas pela luta. mas quase não as percebo. Ouça. – Eles acham que você quebrou o nariz dele. – Ela se senta de frente pra mim. sei sim. Olho para o chão.Encontro um corredor perto do Fosso e sento recostado na parede. Sempre sou humilhada na arena. As juntas dos meus dedos estão grudentas de sangue.

Concordo com a cabeça. Ao lado dele. está sentado em uma das outras mesas com Lynn. Já percebi que os membros da Audácia têm uma quedinha por doces. Seu cabelo curto está preso. Uriah. +++ Naquela mesma manhã. Zeke chora de tanto rir. Sento com Zeke e Shauna na mesa de café da manhã. mas sei que. os melhores sabores já tinham acabado. – Não muito – responde ele. cujos cadarços costumam ficar desamarrados. – Quer dizer. Olho para o sangue de Eric nas juntas dos meus dedos e sorrio. cuja facção só é identificável pela cor das roupas. voltando pelo corredor. – Não fique tão amuado. – Você sente saudade de morar em casa? – pergunto. Eu posso ter escolhido a Audácia como um refúgio. ainda está na fila do café da manhã. e não consigo conter um sorriso ao terminar de tomar meu suco. decido assumir um risco. mas. a minha família está bem ali. Sua mãe. sem saber por onde começar. agora estão bem atadas. Eu mesmo acabei de aprender . estou me destacando. Aceite isso. para entre cada soco a fim de ajustar a sua posição. a irmã mais nova de Shauna. – E você? – pergunta ele. Fiquei tão perturbado com a luta que nem parei pra pensar no que significa ter derrotado Eric: agora sou o primeiro na minha turma de iniciandos. agitando-se quando ela anda. A única coisa que Shauna consegue fazer é ficar inclinada sobre a comida. Ela soca o ar. de repente. ela se vira. eu fico assistindo. o queixo de Shauna escorrega da mão. e suas botas da Audácia. Quando foi a minha vez de pegar um. Os iniciandos nascidos na Audácia não devem conversar com seus familiares até o Dia da Visita. e. então escolhi um de grãos. mas me aponta os integrantes da sua família: seu irmão mais novo. e ela cai de cara em seu muffin de chocolate.passos. se eu realmente precisar de alguma coisa. encontro Shauna na sala de treinamento. o membro da Audácia mais dócil que já vi. mas não estou apenas sobrevivendo aqui. Quatro – diz ela. Zeke boceja enquanto toma café. por um momento. respondendo perguntas com grunhidos. – Todos estão impressionados com você. eles estarão lá. +++ Na manhã seguinte. mais tarde. Vejo a silhueta dela desaparecer no final do corredor. – Sente saudade de casa? Estou prestes a responder que não. Hana. Há sempre pelo menos dois sabores de bolo no jantar e uma montanha de muffins numa mesa perto do final da fila do café da manhã. Shauna fecha os olhos e cai no sono com o queixo apoiado na mão.

mas é bom adotar essa linguagem como minha. Ao notar minha presença. macia e delicada. – É melhor não. a forma como soca usando o cotovelo em vez de projetar o peso do corpo em cada golpe. Preciso ficar cutucando o seu cotovelo com o punho para lembrá-la de proteger o rosto. Shauna se sobressalta. Porque. – Um bom gancho será o suficiente. e então ela dá um soco para cima. permitir-me relaxar e assumir seus ritmos. – O problema não é esse. então? – Na verdade. Eu a acertaria bem aqui.. Se você colocar um Careta na Audácia. – Essa garota com quem você terá que lutar amanhã. – O que você acredita ser um tipo remanescente de cavalheirismo da Abnegação é. Movemo-nos um ao redor do outro por alguns segundos. ajeitando o corpo. permitindo-me sorrir um pouco. – A questão é que pra mim isso não é um jogo. sua mão esquerda se afasta do rosto. No último segundo. não sou muito a favor de violência gratuita. como não levanta uma das mãos para proteger o queixo. encarando-a. ela pelo menos já está se movendo melhor do que antes.como desferir um soco. – Desculpe. na mandíbula. não. pela primeira vez. – É uma coisa de Careta. Seus olhos estão brilhantes e críticos. A maneira como ela se posiciona com os joelhos travados. começo a reparar em certos detalhes. enquanto assisto. e há certo bailado em sua postura que não existia antes. Eu estava pensando em algumas dicas pra você. por . como se tivesse tocado em um fio desencapado. Posso aguentar um pouco de dor. Começamos devagar. Os Caretas não gostam de nenhum tipo de violência. Ao fazê-lo. É a primeira vez que expresso isso para alguém. contendo cada golpe para não nos machucarmos. não sou qualificado para ensinar nada a ela. Sua pele está vermelha de cansaço. ele deixará que as pessoas o soquem o dia inteiro – digo. – Encosto na parte interna da minha mandíbula. Não é só por você ser menina. depois aproveito a guarda aberta pra fazer uma investida. – Ela morde o lado de dentro da bochecha. e depois nos enfrentamos na arena de luta.. mas de uma forma forte e capaz. que ela é bonita. meio insultante – diz ela. Vamos praticar isso. Bloqueio o primeiro soco. – Ah. É só que eu. Percebo. Não da maneira como penso em beleza em geral. na verdade. paro o punho no ar e ergo as sobrancelhas. Ela ajeita o corpo. – A regra número um para não parecer um pervertido – diz ela – é anunciar a sua presença em um ambiente quando a outra pessoa não o viu entrar. mas. Ela para e enxuga a testa com as costas da mão. – Que dicas? Listo as coisas que notei. – Sabe. e noto satisfeito que seus joelhos estão levemente dobrados. Não estou acostumado a usar gírias da Audácia. talvez eu aprendesse a minha lição se você me atingisse de verdade – diz ela. Sei por que não me parece um jogo. – Sei me proteger. e o suor brilha na sua testa. Mas. meia hora depois.

Confiro o meu relógio. – Ah. ela me agradece e. A cadeira está reclinada. mas ele ainda não fez isso. Eric está sentado o mais longe possível de mim. com naturalidade. a caminho do dormitório. – Somos amigos? – pergunto. Eu trabalhava sob a supervisão de uma mulher da Erudição chamada Katherine. mas ela ri ao ver como fico tenso com isso. ocorreu-me que Eric talvez conte a todos que sou filho de Marcus Eaton apenas para se vingar de mim por tê-lo derrotado. até um corredor sinistro com uma porta pesada no final. é melhor eu manter o máximo de distância dele. Shauna vai lutar a qualquer minuto. Quando saímos da sala de treinamento. até consertando os computadores quando eles quebravam. cala a boca – diz ela. que não me permitirei aprender. era o que eu encarava ao acordar até a hora de dormir. Aqui. meio brincando. Será que está apenas esperando a hora certa. soando nervosa. O recinto é escuro e sujo. Quando eu era mais novo. – Vamos de novo. não me sinto nervoso. É apenas um abraço rápido. Ninguém responde. como a do teste de aptidão. +++ Na manhã seguinte. depois desaparece atrás da porta sem falar nada. – O que você acha que há lá dentro? – pergunta Mia. – Como Ser Um Membro da Audácia: Aula Introdutória – diz ela.muito tempo. que é gostar de causar dor a alguém. Não há nada atrás daquela porta capaz de me machucar. – Primeira Lição: aqui. trabalhava como voluntário na sala de computadores da escola. aprendi a me defender. ou será que está se segurando por outro motivo? De qualquer forma. mas há algo que não aprendi. A tela do computador é bastante brilhante. aprendi a ser mais forte. às vezes. – Está bem – diz ela. farei isso da minha maneira. quando Amah volta para o corredor e chama o meu nome primeiro. Por isso. coloca um braço ao redor do meu corpo. e essa distância me agrada. não olho para os outros iniciandos com um olhar de desespero. Se vou me tornar um membro da Audácia. esta foi a minha realidade. e lá dentro há somente uma cadeira e um computador. Ele pede que nos sentemos encostados à parede. fazendo a manutenção das instalações e. Na noite seguinte à minha luta com ele. Continuamos praticando até que ela domina a técnica do gancho. Por alguma razão. depois corre pelo corredor. mesmo significando que parte de mim continuará sendo Careta. e ela me ensinou muito mais do que . e quase perdemos a hora do jantar. Os iniciandos nascidos na Audácia estão demorando mais do que nós para concluir a primeira etapa. passando direto pela sala de treinamento. a menina transferida da Amizade. porque estão em número maior. não há problema nenhum em abraçar um amigo. todos os iniciandos transferidos seguem Amah. e ele roda um programa que se resume a linhas de texto escuro sobre um fundo branco. Apenas sigo-o para o outro lado da porta.

– Quanto menos você souber. com olhos azul-escuros como os meus. outro chega do quarto dos meus pais. Você bem que poderia tentar mostrar algo novo. outro ainda se arrasta pelo chão. está sentado de frente para mim. há não muito tempo. olhando para aquele código. com seu filamento brilhando em um tom alaranjado. – Sabe. Por um milésimo de segundo. Deve ser uma simulação. Encolho-me contra a parede. Estou de preto porque sou da Audácia agora. sei. Um Marcus abre a porta do armário. saindo lá de dentro. No andar de cima. Eu me sento. com buracos no lugar dos olhos e uma boca enorme e vazia. – Uma simulação? – pergunto. a boca contraída numa expressão séria.precisava. levantando-a contra a luz para se certificar de que o frasco está posicionado no lugar certo. ele. Tento recobrar o equilíbrio no chão. prendendo-me lá dentro. já estou ficando meio entediado com eles. penso. lembro a mim mesmo. Por que estou vestindo preto e não cinza? Quando levanto a cabeça. Não há janelas. – Vamos ver qual dos seus medos aparece primeiro – diz ele. depois corro até a sala de estar. mas alguém a selou com blocos de concreto. que tipo de programa estou vendo. estendendo o braço para me pegar. caindo do banco. Então. Olho para o tecido preto cobrindo o meu joelho. Marcus. Subo a escada correndo. recosto-me na cadeira e apoio os braços nos descansos. tem navalhas presas nas pontas dos dedos. – Sente-se. A simulação me engole. com um prato vazio diante de mim. Procuro a porta da frente. . Eu contraio o rosto. um monstro retorcido. melhor – responde ele. De repente. e eu me jogo pra trás. Ele salta sobre a mesa com as mãos estendidas e. arfando. perto da parede. apertando o êmbolo. vindo do banheiro. tropeço e caio estatelado no chão de madeira do corredor. e ele se transforma no homem que sempre vejo na minha paisagem do medo. Todas as cortinas estão fechadas. +++ Estou sentado em um banco duro de madeira. em uma mesa de jantar da Abnegação. por que estou em uma casa da Abnegação. satisfeita em compartilhar seu conhecimento com alguém disposto a ouvir. embora não seja capaz de fazer muita coisa com ele. sentado diante do meu pai? Vejo o contorno da lâmpada refletido no meu prato vazio. – Vou dar o meu melhor. Ele tenta me golpear. Ele enfia a agulha no meu pescoço sem qualquer aviso. e a única luz vem da lâmpada pendurada sobre a mesa. em vez de unhas. Amah prepara uma seringa. Há outro Marcus lá. Por isso. a lâmpada acima de nós pisca. ele é exatamente como o homem que vi do outro lado do salão na Cerimônia de Escolha.

provocando uma dor lancinante que faz meus olhos lacrimejarem. e me encara. mas a imagem deformada do meu pai tentando arrancar os meus olhos continua voltando à minha mente. às minhas pernas. estilhaçando-o. Levo as mãos ao pescoço. e chuto com o máximo de força possível. Não é real. No armário há uma janela por onde mal consigo passar. Não consigo me mover. certamente não é muito tempo. percebo. – O que foi? – pergunto. em pânico. e sinto um calor na lateral do meu pescoço quando o Marcus que está me enforcando aperta mais forte. assim como meus pensamentos. fazendo o meu batimento cardíaco acelerar. Sinto dor e o batimento forte do meu coração. ao olhar para eles. cortando-me. Ainda consigo sentir os cortes e o sangue derramando das minhas veias. – Está me fazendo entrar . com os dedos posicionados sobre os meus olhos. com as duas mãos ao redor do meu pescoço. Solto um grito e começo a me debater enquanto as lâminas se cravam nas minhas pálpebras. mas minha pele está ilesa. Talvez eu não tenha passado tanto tempo em pânico durante a simulação. O Marcus com as mãos no meu pescoço me empurra parede acima. procurando algum tipo de arma. espalhando-se por meu corpo. dou uma cotovelada no vidro. Imagino o meu sangue em chamas. É muito bom. Não consigo gritar. É exatamente como a paisagem do medo. Outro corre as unhas pelos meus braços. ligado à simulação. sem fôlego. De repente. Agora. Coloco os pés no chão e apoio a cabeça nas mãos. lembro a mim mesmo. sem acertá-lo. Eu a giro com força e caio dentro de outro armário. Enquanto eles me perseguem para dentro da escuridão. um dos Marcus para bem na minha frente. arfando. tudo o que vejo é um mar de lâminas. – Não. mais Marcus esperam abaixo de mim com as mãos estendidas. O ar fresco enche os meus pulmões. – O soro ainda está fazendo efeito? – pergunto. Tento enviar vida para todos os meus membros. mas uma maçaneta. É uma simulação. Meus membros estão inertes como os de uma boneca de pano. este lugar está cheio dele. Endireito-me na cadeira. procurando feridas que não estão lá. com os dentes cerrados. Engulo o ar. aliás. Bato com a mão na parede. – Você passou cinco minutos lá – diz Amah. – Ele franze a testa ao olhar para mim. e. aos meus braços. e agora os dedos do meu pé mal alcançam o chão. Minha respiração desacelera. Seus dedos tentam agarrar as minhas pernas. – Isso é muito tempo? – Não. Simulação.O lugar está cheio dele. Os Marcus me soltam. Minhas mãos não encontram uma arma. Este lugar. empurrando-me contra a parede. Amah está sentado diante do computador. Um dos Marcus estica o braço. Estou paralisado.

Eu não deveria temer que o monstro Marcus me ataque no escuro. recuando na direção da parede. meu pai me alertou sobre a consciência dentro da simulação. – Por isso. Quatro. – Ele se levanta e abre uma porta atrás da cadeira. e. O ar é gelado e úmido porque estamos no subterrâneo. e retraio o corpo para me afastar. Sinto uma pontada profunda de vergonha no estômago. Tudo o que precisei fazer foi me concentrar. Balanço a cabeça. Ouço o eco dos nossos passos e a minha própria respiração. Eu me contraio. que formigam como se estivessem ficando dormentes. elas são como o teste de aptidão. achando que ele vai perguntar sobre o meu pai. falando que eu deveria . digo a mim mesmo. – Posso perguntar uma coisa? – diz Amah. O rosto de Amah. – Ei. eles não saem tão rápido delas. ele deveria ter ficado inativo assim que você deixou a simulação – diz ele. antes do meu teste de aptidão. Encosto-me à parede de pedra e respiro fundo. – Por quê? Balanço as mãos. – É melhor eu acompanhá-lo de volta ao dormitório. – Não pedi a sua autorização. Mas. Acho que vejo algo. você criou uma porta do nada? – Sim – respondo. Concordo com a cabeça. mas ele não faz isso. julgando pelo que Amah disse. um movimento. e o calor invade o meu rosto. Eu deveria ser audaz. eles não são capazes de reconhecer que estão dentro de uma simulação – explica ele. dependendo do que você vê dentro dela – diz Amah. – Não. pousando as mãos nos meus ombros e me forçando a olhar para o seu rosto. fica sério. Controle-se. Sinto o meu batimento cardíaco na garganta.em pânico? – Não. – Vou ficar bem. – O quê? Por quê? – A maioria dos iniciandos não é capaz de fazer algo impossível acontecer nessas simulações. – Como você conseguiu sair daquele corredor? – Eu abri uma porta – respondo. – As simulações estão todas na nossa cabeça. – Havia uma porta atrás de você o tempo todo? Havia uma porta na sua antiga casa? Balanço a cabeça. Não percebi que essas simulações eram diferentes da paisagem do medo. a simulação causa um resquício de pânico. Pensei que todos tivessem consciência da simulação quando estavam dentro dela. Ele me encara com severidade. Minha mente criou uma porta para que eu pudesse sair. porque. Amah me detém. – Que estranho – diz ele. à minha esquerda. ao contrário das paisagens do medo. – Às vezes. Não foi real. – Então. depois por corredores de pedra que levam ao dormitório dos iniciandos transferidos. nada mais. que costuma ser amigável. – Balanço a cabeça. Sigo-o por um corredor curto e escuro. Esqueça.

está bem? Apenas encare o seu medo de maneira lógica. de como sua voz soou tensa e de como ele agarrou o meu braço um pouco forte demais. mas nunca sussurrou alertas nos meus ouvidos ou me ensinou como evitar passos em falso antes. bem-humorado. – Bem. Na época. – Certo. de um modo que sempre faça sentido para você. Quero pedir que ele não fale mais nada. Concordo com a cabeça. Ele me dava broncas o tempo todo por envergonhá-lo na frente de membros da Abnegação. – A Audácia busca a conformidade. – Você está bem agora. que proteja seus próprios segredos. – Tudo bem. ouço algo no final do corredor pelo qual acabamos de passar. pensei que ele nunca falaria comigo daquele jeito se não estivesse preocupado comigo. Ele estava apenas sendo paranoico. não está? Consegue voltar para o dormitório sozinho? Quero dizer que. nunca precisei da ajuda dele para chegar lá. até eu prometer fazer o que ele disse. algo como pegadas silenciosas e apressadas. com os olhos arregalados. Ajeito o corpo. depois volta para a sala de simulação. É estranho saber que ele provavelmente estava tentando me proteger. Como se ele não fosse bem o monstro que imagino. como se esperasse algo de mim. assim como ele nunca havia me encarado. Mas pensava que era o único. Ele bate com a mão no meu ombro. – Eu conseguia mudar as simulações. Mas apenas assinto de novo. movendo-se na direção oposta. +++ . – Ele não soa convencido. com seus sorrisos de lábios apertados e suas casas arrumadinhas e idênticas. assim como qualquer outra facção. Preocupado com a minha segurança. Mas as pessoas da Audácia não ligam para segredos da mesma forma que as da Abnegação. provavelmente serei mais normal. na próxima vez. – Deve ser só uma falha – digo. desde o começo. ansioso. Na próxima vez. Quando volto a caminhar em direção ao dormitório. – Não consegui fazer a mesma coisa no meu teste de aptidão. desconfortável. Amah está me olhando de uma maneira estranha. Ainda me lembro de como ele foi insistente. apesar de isso não parecer tão óbvio aqui. ou será que é perigoso estar consciente durante as simulações? – Eu era como você – diz Amah baixinho. tente não fazer nada impossível. que vejo nos meus piores pesadelos. Não consigo deixar de pensar que meu pai não teria me alertado a não exibir a minha consciência na simulação apenas por normas de facção.escondê-la. eu poderia ter conseguido voltar ao dormitório sozinho. quer esteja consciente ou não. – Provavelmente não é algo do qual você deve se gabar – diz ele.

Sua boca. se suaviza. ouvindo a conversa e as risadas dos outros. Fico surpreso com o quanto isso me satisfaz. Abro um sorriso. sentada em uma das outras mesas com o rosto ainda inchado. Todos parabenizam Shauna por sua vitória. – Muito bem – elogio. e. não tenho a menor ideia de como devo agir. depois descobriria em qual projeto ela trabalha como voluntária e daria um jeito de ingressar nele também. jantaria na casa de sua família. ensinar uma pessoa a fazer uma coisa e depois descobrir que funcionou. Decido não permitir que isso me distraia. para as mulheres da Erudição. – Os resultados da sua simulação do medo foram um pouco anormais. Eu a encaro quando ela se afasta. Na Audácia. Ocorre-me que meu problema não é ser um Careta. Continuo furando o bolo com o garfo. Amah pede que eu me aproxime. Não é fácil silenciar os membros da Audácia. Eles têm uma conversa tensa entre as mesas. Há um inchaço logo abaixo do seu olho direito. as conversas aos poucos recomeçam. Foi incrível. – Fiz o que você disse. mas não saber o que esses gestos de afetividade significam na Audácia. – Olho sobre os ombros dele. pelo menos não agora. ou de como descobrir se realmente gosto dela dessa maneira. Até mim.. Abandono a minha bandeja quase vazia. percebo que uma . apontando para a garota que ela derrotou. enquanto cutuco um pedaço de bolo de chocolate com o garfo. – Eu não teria conseguido sem a sua ajuda. – Avaliação? – pergunto.Shauna corre até mim no refeitório durante o jantar e acerta um soco forte no meu braço. eu a espanquei. Nossas amigas da Erudição ali atrás. sempre sorridente. – Seu sorriso muda. Ela fica na ponta dos pés e beija a minha bochecha. mas. – Eu venci! – anuncia ela. Vai ficar roxo mais tarde.. e sua voz animada soa monótona. Não participo delas. O sorriso estampado em seu rosto é tão largo que dá a impressão de que vai cortar suas bochechas. Ela ainda acertou o meu olho porque baixei a guarda. Surpreso. como o som distante de pessoas correndo. Ao final da refeição. Ela está com o nariz sangrando. se eu estivesse interessado nela. assistindo. agora é uma linha reta. Shauna ri e me arrasta até a mesa onde Zeke e alguns dos outros iniciandos nascidos na Audácia estão sentados. na Abnegação. Nem a chegada repentina das mulheres da Erudição os silencia completamente: a sala continua repleta de murmúrios. Max abre um pequeno sorriso para mim. Pego um prato de comida e sento para comer. Acertei-a bem na mandíbula nos primeiros sessenta segundos e a deixei completamente desequilibrada. depois começam a andar na minha direção. – Você e eu fomos chamados para uma avaliação – diz Amah. Max se levanta e se aproxima de Amah. fica menos entusiasmado e mais sincero. duas mulheres da Erudição entram no refeitório. depois disso. Shauna é bonita e engraçada. Mas. quando as mulheres da Erudição se sentam com Max e nada mais acontece.

e desvio o olhar. – É claro que está. Os outros se conectam à simulação. Ela para de caminhar. e fico parado . eletrodos e peças de computador.. Amah empurra um carrinho para dentro da sala. – Consigo entender isso. Como qualquer outra pessoa da Abnegação. Amah abre a porta para que entremos. Por que não o conhecem como ‘Tobias’ aqui? Jeanine já sabe quem eu sou. se assistiu a uma das minhas simulações do medo. também conhece algumas das minhas partes mais sombrias. Fico arrepiado com o tom da sua voz quando a encaro. sento-me na cadeira reclinável e apoio os braços nos descansos. conhece o meu pai e. no entanto. Sinto os dedos do meu pai agarrando o meu braço. e um par de óculos pende do seu pescoço preso por uma corrente. desabando sobre si mesmas.delas é Jeanine Matthews. – Achei isso intrigante. mas sei que não pode ser nada de bom. Tenho a sensação de formigamento nas palmas das mãos. Sei que Jeanine Matthews nunca viria aqui só para observar minha simulação se não houvesse algo muito errado comigo. – Estou bem – digo com frieza. – Eu queria recomeçar do zero – respondo. A mulher da Erudição que me ensinou a desmontar um computador quando eu trabalhava como voluntário na sala de computadores da escola não era gananciosa ou vaidosa. então apenas olho para Max. – Você foi registrado no sistema como ‘Quatro’ – diz Jeanine depois de alguns segundos. Ela acena com a cabeça. – Já volto. Caminhamos até a sala de simulação do medo sem trocar uma única palavra. Ela veste um terno azul elegante. Não consigo falar. Jeanine caminha pela sala com uma expressão pensativa. – Ela abre um pequeno sorriso. o sinal de que estou prestes a entrar em pânico. Ao olhar para ela. e faço que sim com a cabeça. e não confio nela. não é mesmo? Parece que minhas entranhas estão murchando. depois para Amah. Ela sabe de tudo. um símbolo tão exagerado da vaidade da Erudição que chega a ser ilógico. a representante da Erudição. fui treinado para desconfiar da vaidade e da ganância da Erudição. talvez Jeanine Matthews também não seja. Seus olhos límpidos e quase úmidos encontram os meus. ouço a sua voz sibilante alertando-me a não fazer nada de estranho na simulação do meu teste de aptidão. Amah levará todos vocês à sala de simulação do medo agora. para se certificarem de que o resultado anormal não foi um erro no programa. Sei o que devo fazer. Ela soa quase. ocorre-me que o que me ensinaram talvez não seja verdade. Ele carrega mais fios. É claro que sabe. Não sei o que isso significa. cruzando os braços na frente do corpo. Especialmente depois das experiências pelas quais você passou. gentil. – Vou buscar um equipamento extra para que vocês possam observar – diz Amah. – Elas observarão outra simulação. estar consciente durante uma simulação. enquanto Jeanine e a mulher que imagino ser sua assistente conversam baixinho atrás de nós. Amah se aproxima de mim com uma agulha.. Jeanine sabe o meu nome.

com o vento assobiando nos meus ouvidos. Não posso fazer uma ferramenta surgir para me ajudar a atravessar a porta. e me inclino para trás. E mais outra. Abaixo. tentando abri-la enquanto bolo uma estratégia. Sei que isso não é real. Pisco para afastar as lágrimas. até ficar pendurado da beirada pelas pontas dos dedos. cerrando os dentes com tanta força que eles rangem. seco e frio. mas ela não cede. seria escalar a lateral do edifício. centenas delas. enquanto apoio o corpo sobre as pontas dos meus pés. +++ Quando abro os olhos. Mas outra pessoa nunca faria isso nesta simulação. simplesmente odeio. Meu corpo se inclina para trás. depois viro de cara para o edifício e começo a descer. culpando mentalmente o vento por elas. uma porta e o céu. procuro o topo da janela com uma das mãos e faço força para cima. Preciso fazer isso outra vez. Avalio minhas opções. A maneira mais rápida de descer. e solto outro grito. Com o coração batendo muito rápido. O vento me atinge de todos os lados. Apoio o rosto nas mãos. vejo a calçada dura. pendurado no espaço vazio. Sinto a aspereza do concreto sob as minhas mãos e ouço o som dos cascalhos espalhados ao redor dos meus sapatos. estou em pé no telhado de um edifício extremamente alto. chutando a porta com força. mas não há nenhuma ferramenta para me ajudar a fazer isso aqui. a maneira mais apropriada para alguém da Audácia. Posso tentar abrir a porta. segurando a parte de cima da janela com uma das mãos e a parte de baixo com a . e o mundo se desfaz. muito perto da beirada. caindo de costas no telhado de cascalho. O pânico borbulha dentro de mim. jogo o corpo contra a porta do telhado. um pé de cada vez. Ao encontrá-lo. Normalmente. Eu odeio alturas. vendo este céu vasto e vazio ao meu redor. e tento achar o parapeito mais próximo com as pontas dos pés. outra pessoa encontraria uma forma segura de descer. Coloco uma perna para fora da beirada. eu encararia este medo saltando da beirada do prédio. as ruas vazias. Fecho os olhos. tremendo. ninguém que possa me ajudar a descer. mas parece real. olho para o próprio edifício. porque este é exatamente o tipo de manipulação de simulação que Jeanine deve estar procurando. o que me faz lembrar de que estou no ponto mais alto da cidade. Inclino o corpo. E mais outra. Meu Deus. Há janelas com parapeitos. apenas um telhado de cascalho. Em vez de olhar completamente para baixo. porque sei que é apenas uma simulação e que não vou morrer de verdade. caminho até a beirada outra vez.enquanto ele espeta o meu pescoço. Não gosto nem de estar aqui em cima. para as calçadas minúsculas. Recordo-me de que Jeanine Matthews está assistindo. Afasto-me. para manter o equilíbrio. e solto um grito entre dentes cerrados.

que pensou que conseguiria descer pela parede de um prédio. você já pode ir embora. Sacudo os braços. Lanço o tronco bruscamente para a frente. mesmo assim. ressoando em cada parte do meu corpo. assim como o de Tobias – diz Jeanine. gritando. Mas. ao saltar para o outro parapeito. desabo. – Nunca me canso de ver o interior da mente das pessoas. – Você foi bem – diz Amah. Quando consigo agarrar bem. não seguro forte o bastante. você saiu da simulação bem rápido. e não consigo ouvir nada. mesmo encostando a . deixando a porta um pouco aberta. na verdade. mas sei que é uma coisa boa. parece que o resultado anormal do seu teste foi uma falha do programa. – Minhas? Por que as minhas? O sorriso meigo de Jeanine não muda. para poder ficar e ouvir o que está acontecendo. – Sua técnica de escalada ainda precisa melhorar um pouco. Tobias. arrasto a ponta do pé pela lateral do edifício. Olho para Amah. Permito-me desabar. você parecia bastante familiar com ele. Ele sorri para mim. – Suas informações – diz Amah. Eu poderia criar uma rede sob mim. eu poderia criar uma corda no ar para me salvar. mas. Sou apenas mais um imprudente da Audácia. a assistente de Jeanine bate a porta. Eu gostaria de assistir a uma das suas simulações do medo. Agora. depois me penduro outra vez. e saio da sala. gostaria de saber se essa familiaridade vem da experiência. Meu corpo treme. mas falhou.outra. – Agora. Obrigada por sua cooperação. assim que entro no corredor. ouvindo o som do meu tênis raspando a pedra. e meu corpo pende para trás. criada pela minha própria mente. ainda vacilante. – Informações de onde? – Um iniciando nos procurou para expressar a sua preocupação pelo seu bem-estar. Permito-me morrer. É melhor eu não criar nada. mas não adianta nada. porque ele não parece mais preocupado. Ele acena de leve com a cabeça. ainda trêmulas. Jogo as pernas. Acordo sentindo dor. Meus pés escapam do parapeito. Cada detalhe sugere tantas coisas. e os meus olhos estão embaçados pelas lágrimas e pelo terror. Amah. se você não se importar. Aceno com a cabeça. – Nossas informações sugerem que você não se surpreendeu com o resultado anormal de Tobias e que. para fora da cadeira e pouso os pés no chão. como da última vez. roçando o prédio de concreto com as pontas dos dedos. mas não. Levanto-me. Provará para elas que não sou especial. mas mal consigo ouvir sua voz por trás do som da minha própria respiração. Devo ter conseguido agir de forma normal. Precisaremos investigar o programa de simulação para encontrar a falha – diz Jeanine. – Gostaria de respeitar a privacidade dele. ou eles saberão o que sou capaz de fazer. – Interessante – diz Jeanine. sem fôlego. – Bem. Portanto. derramando da minha garganta. sinto-me envergonhado em agir assim com esta plateia. e outro grito cresce dentro de mim.

– Eles acabaram de identificá-lo. desta vez. Temo enlouquecer antes do fim da iniciação. quando eu costumava desaparecer com tanta facilidade. Isso me faz sentir um pouquinho mais forte. tenho consciência de que não é a reação apropriada. ele morreu? – pergunto. que eu me lembro se chamar Uriah. – Ou caído. perto da Pira. hoje cedo – diz Uriah. Um iniciando os procurou para expressar a sua preocupação. mas. depois me obrigo a terminar a comida. passam por simulações do medo diariamente. tanto os nascidos na Audácia quanto os transferidos. Cerro os dentes. um pouco ofegante. Sempre acordo em um estado de semidelírio. apenas parece atordoado. um pouquinho mais estável. – Amah morreu. parece que a visita de Jeanine não vai dar em nada. – Amah – diz ele. e minhas mãos ficam dormentes do nada. O único de nós que antes era da Erudição: Eric. – O quê? Como assim. Geralmente. Caminho em direção às passagens que sobem as paredes do Fosso. ele deve ter.. Distanciando-me. Zeke e eu entregamos as nossas bandejas.. apesar de tudo estar sem gosto nos últimos tempos. – Ele balança a cabeça. mas não desta vez. ele aparenta estar sempre prestes a contar uma piada. sorrindo. dá pra ver – diz Zeke.. violência em espaços confinados. enchendo meu sono de pesadelos e minhas horas acordadas de tremedeiras e paranoias. certo dia. – Uma mulher da Audácia encontrou um corpo no chão. Passo por ... e eu sempre me permito ser consumido pelos meus próprios medos: alturas. violência. também sou aquele que não consegue se livrar deles depois que a simulação acaba. Sinto que estou enlouquecendo. tremendo. – Você parece. eles se misturam: Marcus no topo de edifícios altos. eu sei – respondo. sabia? – É. – É. mesmo sendo o iniciando que tem apenas quatro medos. Geralmente. Ele já é mais alto do que Zeke e tem um curativo atrás da orelha cobrindo uma nova tatuagem. – Você está bem? – pergunta Zeke no café da manhã.. – Não tem problema não estar bem. +++ Durante uma semana. exausto. envergonhado porque. e tenho certeza de quem foi. É estranho ocupar tanto espaço apenas existindo. Marcus. – Pulado? – diz Zeke. Às vezes. mas não consigo me conter. ninguém sabe – diz Uriah. mas pelo menos tenho ganhado peso. Agora. Solto uma pequena risada. principalmente em músculos. Era Amah.. confinamento. um pouco mais áspero do que esperava. No caminho para o Fosso. – Amah. – Estou bem – respondo.orelha nela. corre até nós. Todos os iniciandos.. o irmão mais novo de Zeke. nem penso no que há embaixo. Eles me surpreendem quando menos espero. assusto-me com qualquer barulho. quase me encosto à parede ao fazer isso. com medo da altura. Ele.

vou embora. – Você está bem. Quatro? – pergunta ele. levá-lo para um lugar onde não o encontrarei novamente. Acotovelo as pessoas para abrir caminho. Há uma multidão reunida no saguão da Pira. e falo a verdade. e Max para ao meu lado. sinto apenas raiva. mas quase não noto. – Sim – respondo. – É. Estou bem. Reunimo-nos perto do abismo. Aceno com a cabeça e ouço o ronco do abismo. Ao final. os membros da Erudição. na maior parte do tempo. encarando o copo vazio. Mas. Do lado de fora. Jeanine Matthews pareceu aceitar que os meus resultados anormais foram apenas uma falha do programa. Encaro o filete por bastante tempo. como foi atrás de Amah? Tento afastar o pensamento. e por pessoas entrando e saindo das lojas. e um filete vermelho-escuro se espalha sobre a calçada. balanço o corpo um pouco e devolvo o copo vazio para ele. E isso significa que o que quer que tenha acontecido também é culpa do Eric. e ainda não estou enrolando a língua. Algumas delas me xingam ou me acotovelam de volta. Uma cerimônia em memória a ele é organizada pela Audácia naquela noite. Uma mão escura e cheia de cicatrizes pousa no meu ombro. ou de acordar no meio da noite com o rosto úmido de lágrimas. Depois. +++ Não conhecia Amah bem o bastante para ficar de luto. porque ele ouviu a nossa conversa e a relatou à líder de sua antiga facção. Eles assassinaram Amah. Sua morte teve alguma coisa a ver com Jeanine Matthews e a avaliação da simulação do medo. como ele me protegeu quando ainda nem me conhecia. Estou bem porque ainda estou de pé. sangue do seu corpo que se chocou com o chão. Alcanço o canto do recinto. Subo a escada suspensa do teto de vidro. mas e se ela estivesse apenas fingindo? E se ela vier atrás de mim. É algo que alguém da Audácia faria. e Zeke me passa um copo com um líquido escuro. Eu o engulo sem pensar. todos estão bêbados. Mas todos acham que ele pulou ou caiu. – Vou buscar mais. . Não carrego a perda de Amah dessa maneira. as paredes de vidro com vista para as ruas que cercam o complexo da Audácia. tenho certeza. Enquanto a tranquilidade líquida derrama dentro de mim. quando me lembro de como ele me batizou.crianças que correm e gritam. O luto é o que senti depois da morte da minha mãe: um peso que me impedia de me mover todos os dias. acho que é uma boa – diz Zeke. Surpreendo-me sentindo a sua falta de vez em quando. ou pelo menos não da maneira que aprendi a entender esse sentimento. até começar a compreender que ele é composto do sangue de Amah. Lembro-me de parar no meio de tarefas simples para descansar e depois me esquecer de retomá-las. uma área foi isolada por uma fita.

Amah. Cravo a agulha no meu próprio pescoço e deixo a realidade desaparecer. – Não foi exatamente isso que eu quis dizer – responde Max. Eles gritam o nome dele tantas vezes que ele perde o sentido. como se nada tivesse acontecido. – Mas aqui na Audácia encorajamos nossos membros a escolher seus próprios caminhos na vida.– Sei que Amah tinha um interesse especial por você. então não tenho nada a esconder. E. Amah.. eles se parecem mais com meu pai do que antes. Será que ele está tentando me recrutar? Para quê? Zeke volta com dois copos. – Ele pousa a mão no meu ombro outra vez. Paro em algum lugar no meio do grupo de iniciandos e. Encontro-me no topo de um edifício alto e salto correndo da beirada. todos bebemos. – Ele era um pouco perturbado. sem pensar duas vezes. Tudo bem. Você é. repetitivo e esgotante.. – Acho que a perda dos avós o abalou muito. Desta vez. Já fiz isso várias vezes. Está bem. de modo impossível. melhor para ele. entre eles Max. é administrado por Tori e observado pelos líderes da Audácia. +++ Meu exame final. ou por que está falando isso aqui. Pego uma arma e disparo. Fico trancado dentro de uma caixa e entro em pânico por um breve instante. Se foi isso que ele escolheu. agora um homem sem rosto vestindo o preto da Audácia. quando levantam os braços . Talvez ele esteja melhor assim. sobre como Amah era corajoso o bastante para explorar o desconhecido. embora seus olhos ainda sejam cavidades vazias.. Um dos amigos de Amah sobe em uma cadeira e grita algo sem sentido. – Melhor morto? – pergunto. Todos levantam seus copos e gritam o nome dele. se transformando em um som inexorável. todos ficam conscientes durante a simulação. Na paisagem do medo. nós dois precisaremos conversar sobre o futuro que você gostaria de ter aqui na Audácia. apesar do seu histórico. Sua boca é uma boca. É assim que a Audácia pranteia os seus mortos: expulsando a tristeza até o esquecimento alcoólico e deixando-a lá. quebrando a madeira com o impacto. – Dependendo de como você se sair no seu exame final amanhã. Acho que ele via muito potencial em você. Eu também consigo expulsar a tristeza. contra a cabeça de uma pessoa inocente. nosso iniciando mais promissor. antes de lançar o ombro contra a parede à direita. Era diferente dos outros iniciandos da turma em que entrou – diz Max. – Eu não o conhecia muito bem. um pouco desequilibrado. Eu apenas continuo a encará-lo. pela primeira vez. e Max se mistura à multidão. Ou talvez o problema fosse mais profundo. na cerimônia em memória de Amah. – Max abre um pequeno sorriso. quando os Marcus me cercam. minha paisagem do medo. Depois. olhando para ele com raiva. de longe. Amah. não me sinto nem um pouco nervoso. Não sei.. Não entendo o que ele está falando.

entre eles Max. Não aguento mais. Talvez eu não entenda a afetividade da Audácia. Satisfeita? – Ele a atinge no ombro com o travesseiro. blá. ou em ir bem. Recebo alguns golpes. permitindo que eu veja as pessoas lá dentro. bem na cara. e ele agarra seu pulso. – Mas a Shauna enfrentou alguns medos novos. mas ele sempre quis que eu me saísse bem. – Eu mandei muito bem – diz ela. entre eles Eric. depois me lanço contra o Marcus mais próximo. Mas o sinal de positivo de Tori me enche de orgulho. Não posso dizer que fiz isso por ele. Ele não gostará nada disso. Zeke e Shauna soltam um grito de comemoração quando entro. só porque é melhor nelas do que eu. Ele o arranca das mãos dela. É verdade. – Certo. nem por mim mesmo. Soco violentamente seu rosto. e a violência me causa um breve momento de satisfação antes de eu acordar. Shauna se solta e dá um peteleco na orelha dele. A máscara dela cai. você mandou muito bem. dando de ombros. – Consegui lidar com eles – diz Shauna com um tom exagerado de indiferença. Ela o empurra. e todos balançam afirmativamente com a cabeça e sorriem. não fiz por ninguém. – ‘Você viu aquele golpe que eu dei bem no começo?’ Blá. Há duas fileiras de iniciandos à espera. blá. até os nascidos na Audácia. – Tudo bem – respondo. não uma corda farpada ou qualquer outra arma capaz de me despedaçar. Na verdade. Sentados na frente deles. e eu me sento na beirada da cama. e ela abre um sorriso. um por um. Dou uma risadinha. – Só estou me vingando pelo tanto que você se gabou durante o treinamento de combate – retruca ela. Tori faz um sinal de positivo para mim com o polegar. Comecei o exame pensando que não me importava mais. Shauna o atinge com o travesseiro. Mas pelo menos não o envergonhei. Todos os iniciandos que já terminaram o exame final esperam pelos resultados no dormitório dos transferidos. Ela pôs um travesseiro que pertence a Eric entre os joelhos. não que . – O que você quer que eu diga? É verdade. agarrando sua garganta. mas acho que sei reconhecer quando as pessoas estão flertando. agachado no chão da sala da paisagem do medo. você é a melhor integrante da Audácia da história. eles seguram um cinto. – Como foi? – pergunta Zeke. certo – diz Zeke. Amah pode estar morto. Acho que isso resolve a minha questão com Shauna. e permito-me sorrir um pouco ao deixar a sala. ou em entrar para a Audácia. – Ela não para de se gabar desde que começamos as simulações do medo. Não me importava mais em passar. – Sem grandes surpresas. mas sobrevivi – diz ele. e os dois riem e lutam. encontram-se três líderes da Audácia. E o de vocês? – Foi horrível.para me agredir. que agora tem tantos piercings no lábio que às vezes me pego imaginando como seria arrancar todos. As luzes da sala ao lado se acendem.

Tento manter os olhos fixos nos rostos das pessoas enquanto atravesso a multidão apertada de corpos. Espero até que todos tenham saído antes de caminhar até a porta. Os cheiros de bolo. Tomara que eles não nos façam esperar demais. caóticos. Paro. Alguns parecem nervosos. – Não sei do que você está falando – diz ele. Os outros se levantam e passam pelo garoto. e meus pensamentos estão frenéticos. fico surpreso com a minha força. Depois. e você não vai se safar dessa. Quando chego à minha mesa de costume. outros estão convencidos e seguros. Eu sei. – Chegou a hora de anunciarem os resultados – diz ele. +++ O refeitório está abarrotado de pessoas que vestem suas melhores roupas da Audácia – piercings exagerados combinando com anéis mais chamativos e todas as tatuagens à mostra. pedindo silêncio. apenas olhos de peixe morto. procurando alguma coisa. Permanecemos sentados por mais uma hora enquanto os outros terminam os exames finais e entram no dormitório. Careta? – zomba Eric com uma risadinha debochada. – Ele morreu por sua causa. Eu o empurro com força contra a porta. mas nenhum de nós consegue gritar alto o bastante para ser ouvido com o barulho ao redor. Minhas mãos têm espasmos. Zeke e Shauna tentam falar comigo. roubo um pão do prato de Zeke quando ele não está olhando e fico parado junto com os outros. saindo do dormitório. e alguns continuam conversando e fazendo piadas como . mas não passo por ela. – Ele morreu por sua causa. com ar convencido. qualquer coisa. Max sobe em uma das mesas e levanta as mãos. – Acertaram a sua cabeça durante o exame. Meu corpo treme de raiva. então nos contentamos em esperar em silêncio. que fica parado na porta. – Sei que foi você – repito. carne cozida e pão enchem o ambiente. um por um. cruzando os braços. Isso provavelmente já era a resposta em si. – Tem algo a dizer? – pergunta ele. me dando água na boca.estivesse me incomodando tanto assim. Eu me esqueci de almoçar. mas nem ele é capaz de silenciar a Audácia por completo. Sinto como se estivesse segurando uma cerca elétrica. Por um instante. Quase consegue. – Você não está falando coisa com coisa. Não vejo nada. aguardando os resultados. O último a entrar é Eric. em seus olhos pretos. e meu rosto esquenta. – Fico surpreso com a rapidez com que sou tomado pela ira. seguro-o com um braço. – Sei que foi você – respondo. aproximando-me do rosto dele. – Você dedurou o Amah para a Erudição. e encaro Eric por alguns segundos. Eu o solto e desço o corredor em direção ao refeitório. mesmo que isso signifique ficar sem roupa. impenetráveis. mas é óbvio que sabe. Inclino-me para a frente.

nunca mais. animado demais para ficar parado. e o seu farol dianteiro pisca à medida que ele se aproxima de mim. deixei meu pão cair. +++ De noite. Shauna Instantaneamente. – Ele faz uma pausa para as risadas. que é frio e refrescante. A ordem na qual fomos qualificados ainda determinará o tipo de emprego que poderemos escolher dentro da Audácia. Eric Shauna solta um grito. Solto uma risada e levanto os braços para devolver o gesto. Procuro automaticamente os nomes deles na lista: 6. em meio ao caos. parte da minha tensão se dissipa. Meu nome. 1. que passou a ser apenas “Quatro”. pela primeira . grande o bastante para que até as pessoas no fundo do refeitório vejam. eis os doze novos membros da Audácia! Os nomes dos iniciandos aparecem em um enorme monitor atrás dele. escapo da comemoração e subo o caminho que leva ao topo do Fosso. um grupo de iniciandos esquálidos e assustados deixou seu sangue nos carvões e deu o grande salto para dentro da Audácia – diz Max. não mais. um membro da Audácia. – Sem mais delongas – diz Max. que realmente ocorrem. Ele passa. Zeke coloca o braço nos ombros de Shauna e a aperta. Zeke 7. Mesmo assim. Não sou Tobias Eaton. Sou um membro da Audácia. consigo ouvir o discurso.se nada tivesse acontecido. Mas então eu o vejo. De repente. poderoso e cheio de energia. – Há algumas semanas. diferente do ar quente e estagnado do refeitório. pensei que nenhum deles conseguiria sobreviver ao primeiro dia. sinto uma pontada de pânico quando não encontro o meu nome. batendo nos meus ombros. Todas as suspeitas sobre as minhas origens foram esquecidas agora que sou um deles. Atravesso a porta e respiro fundo o ar noturno. quase me derrubando no chão. até o saguão da Pira. Inclino-me mais para perto dele. por um segundo. até as que nem conheço. – Para ser sincero. bem no topo. Quatro 2. ruidoso como trovão nos meus ouvidos. apesar de a piada não ter sido tão boa assim. Apesar da certeza de que não serão cortados. Sigo até o topo da lista e. Então. Caminho em direção aos trilhos. Eu o esmago sob o calcanhar e sorrio enquanto as pessoas me cercam. – Sei que nossos iniciandos estão com o coração quase saindo pela boca. Zeke e Shauna trocam olhares nervosos. e ela e Zeke me apertam em um abraço desajeitado. Há um trem chegando. Brasa 8. De alguma forma. embriagado de animação e tão bem-alimentado que mal consigo andar. sorrindo e dizendo o meu nome. – Mas estou satisfeito em anunciar que este ano todos os nossos iniciandos atingiram a pontuação necessária para entrar para a Audácia! Todos comemoram. sinto-me sozinho novamente. saboreando.

Por um único segundo. vejo algo escuro. junto com o trem. segurando uma das barras. É uma mulher alta. vejo um cabelo escuro e encaracolado e um nariz curvado. parecido com uma figura humana. ela se vai. De repente. quando o borrão do trem passa por mim.vez. . a empolgação do medo no meu estômago. Depois. inclinada para fora do vagão. de estar tão perto de algo tão perigoso. Ela quase parece a minha mãe. em um dos últimos vagões.

: (21) 3525-2000 – Fax: (21) 3525-2001 rocco@rocco. 231 – 8º andar 20030-021 – Rio de Janeiro – RJ Tel. Presidente Wilson.br www.Título Original THE INITIATE: A Divergent Story Copyright © 2014 by Veronica Roth Edição brasileira publicada mediante acordo com HarperCollins Children's Books. uma divisão da HarperCollins Publishers Direitos desta edição reservados à EDITORA ROCCO LTDA.rocco.com.com. 2014 .br Preparação de originais FLORA PINHEIRO Coordenação Digital LÚCIA REIS Assistente de Produção Digital JOANA DE CONTI Edição Digital: outubro. Av.

Lucas. Veronica Quatro [recurso eletrônico] : A Iniciação : uma história da série Divergente / Veronica Roth . Título.5 CDU: 087. I. RJ R854q Roth. Livros eletrônicos.Rio de Janeiro : Rocco Digital. 14-16011 CDD: 028. . 2014. Sindicato Nacional dos Editores de Livros. . II. . Ficção infantojuvenil americana. 2. ed.5 O texto deste livro obedece às normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. tradução Lucas Peterson.1. Catalogação na Publicação.CIP-Brasil. Peterson. recurso digital Tradução de: Four : The Initiate : a Divergent story ISBN 978-85-8122-471-8 (recurso eletrônico) 1.

Divergente. Atualmente. nos Estados Unidos. . alcançou o primeiro lugar dos mais vendidos do New York Times. ela mora em Chicago. o primeiro título de sua trilogia de estreia.A AUTORA Veronica Roth é uma autora de sucesso internacional. com seu marido.

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