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O Discurso Acadêmico: Características (Vianey Mesquita)

O conhecimento científico deve ser buscado para a solução de problemas. Desde Guilherme Ockam [1270(?) 1347](?)], se consagrou como princípio orientador desta procura a preferência, entre duas soluções, pela mais simples. De fato Ockam tratou mesmo foi dos universais, conceito para ele desnecessário para compreensão da realidade. O que vemos é qualidade particular num objeto e não a universalidade do conceito. Vemos homens maus (particular) e não a maldade (universal). Esse princípio foi reafirmado por Johann Cristoph Clauberg (Alemanha, 1622 1665), em 1654, sob a denominação de Navalha de Ockan, da seguinte forma: Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem, isto é, em tradução livre, que não se multipliquem as coisas além do necessário. Portanto, corte-se tudo o que for demasiado. Ao longo do tempo, os cientistas uns mais, outros menos procuram orientar-se segundo este conceito. O resultado foi considerar como formulação científica mais apropriada para aquela que, além de correta, seja simples, clara, precisa e concisa. Se, na parte substantiva do esforço do pesquisador, tais características são recomendadas, segue-se a necessidade da sua presença na comunicação dos resultados, pois é aí que se concretiza e se objetiva o achado científico. Nossa preocupação principal, aqui explicitada diversas vezes e que, como um refrão, voltará a ser mencionada nos capítulos subseqüentes, é com o modo pelo qual, dentro da comunidade universitária, o português vem sendo praticado. Esperamos que aquilo até agora defendido tenha contribuído para tornar patente o primeiro mandamento do escritor de produto científico:

procurar obedecer à norma culta e dela se afastar o menos possível. É por isso que os cientistas mais cuidadosos com o vernáculo, antes de publicar seus trabalhos, os submetem a uma revisão por pessoa qualificada, visando a atingir a correção desejada. Além da correção, as outras características devem ser consideradas ao se escrever. Aqui, repetimos: quem elabora mensagens há que o fazer, pelo menos, de forma correta, simples, clara, precisa e concisa. Se estas características são desejáveis para qualquer literatura, se tornam quase ordenações para a academia. São dispensáveis, acerca da correção, comentários adicionais, pois, sendo o objetivo principal deste volume, implícito ou claramente, em todas as suas páginas, dela estaremos cuidando. Trataremos, em seguida, das outras.

Simplicidade

A simplicidade no estilo acadêmico se manifesta quando quem escreve faz de modo natural, sem floreios nem vocábulos cuja finalidade é quase sempre demonstrar erudição. O estilo simples é compreendido por todos que denominam uma língua especial. Se ocorre esta compreensão, podemos garantir a simplicidade do que se escreve ou fala. Se não vejamos:

O alcândor Conselho Especial da Justiça, na sua apostura irrepreensível, foi correto e acendrado em seu decisório. É certo que o Ministério Público tem o seu lambel largo no exercício do poder de denunciar. Mas, nenhum label o levaria a pouso cinério se houvesse acolitado o pronunciamento absolutório dos nobres alvarizes de primeira instância (Jornal do Brasil, 06/11/1976). Esse trecho da defesa de um advogado em um dos tribunais superiores do Brasil foi apresentado a um professor da Faculdade de Direito da UFC, com a solicitação de que o traduzisse para a língua que todo bom advogado entendesse e que, se assim o desejasse, comentasse o estilo do seu colega. Eis a resposta:

“O egrégio Conselho Especial de Justiça, numa postura irrepreensível, foi correto em sua decisão. É certo que o Ministério Público, nos limites de sua competência, dispõe de largo poder para oferecer denúncia. Mas, no caso, melhor teria sido o resultado de sua atuação se tivesse acompanhado o pronunciamento absolutório dos nobres julgadores de primeira instância. O texto divulgado pelo JB é, praticamente, ininteligível. De fato, com muita dificuldade, não obstante o uso de léxicos, consegue-se aprender alguma coisa do sentido desse amontoado de termos, aliás, em absoluto deduso. Não se trata assim de estilo antiquado ou pendante. Simplismente, aí, não se pode falar em estilo. Os operadores do direito, ou seja, juízes, advogados, membros do Ministério Público quando, realmente, são estudiosos da ciência jurídica, têm um estilo próprio, que se caracteriza pela linguagem simples, clara, direta e principalmente, pelo uso adequado da terminologia jurídica”.

Clareza

Em qualquer comunicação, o que se pretende é a alta fidelidade, ou seja, a ausência de ruídos que comprometem a qualidade da mensagem recebida. Os ruídos, nas mais das vezes, ocorrem por inadequação da estrutura

da mensagem por parte da fonte, no caso, o produtor de textos didático- científicos. Sem pretender esgotar os fatores relacionados com este desajustamento, é importante ressaltar pelo menos dois:

a) falta de preparo para escrever. O ditado fazendo é que se aprende se aplica, com toda propriedade, ao escrito da língua especial. As pessoas, durante a escolarização, lendo pouco e escrevendo muito menos; quando o fazem, não recebem dos professores as correções e os comentários que possibilitem a melhoria do que se produziu. O resultado percebemos quando da análise de artigos, dissertações e assemelhados: períodos demasiadamente longos, utilização inadequada dos conectivos, anacolutos, exagerado ou uso de orações reduzidas, solecismos; tudo isso impede a clareza das idéias.

b) Escolha do vocabulário. Palavras podem ter significados diversos. Para que se obtenha a clareza desejada, devem ser selecionados termos que indiquem com a maior exatidão possível aquilo que se deseja comunicar (16: p. 195). Quando não for viável, devemos definir exatamente o que queremos expressar com a unidade vocabular utilizada. Dessa maneira, poderemos evitar a ambigüidade, outro ruído, bastante presente e de responsabilidade da fonte. A falta de preparo para escrever é manifesta no excerto retirado de monografia de especialização, analisando a experiência pedagógica de escolas mantidas por cooperativas privadas, surgida nos primeiros anos das década de noventa, em razão do custo elevado do ensino privado. No trecho, substituimos o nome da manetedora por cooperativa e o do colégio por escola, para dificultar a identificação.

O que pretendo com este estudo de caso?

Compreender a origem da Cooperativa atrelada às circunstâncias financeiras dos cooperados, analisando as contradições no processo da microgestão colegiada no processo de ação pedagógica da escola.

O projeto pedagógico da escola é uma extensão dos interesses coletivos da Cooperativa? Até que ponto ela, ao expressar esses interesses está condizente com aspirações pedagógicas dos seus cooperados?

Procurando dar conta dessas questões no decorrer dessa pesquisa faço uma reflexão sobre a proposta da gestão colegiada na construção dessa experiência educacional em Fortaleza, comparando esse processo democrático, que é esboçado, nos documentos formais; o projeto pedagógico e o regimento escolar, em comparação com a prática dessa construção na relação cotidiana entre a Cooperativa e a Escola. Esse texto perde em clareza exatamente pela dificuldade da autora em estruturar o pensamento. Não está claro se as contradições que serão objeto de análise são as encontradas na microgestão colegiada e na ação pedagógica, ou se aquelas existentes entre a microgestão colegiada e a ação pedagógica da Escola. Há, também, defeitos de pontuação e construção frasal que dificultam saber o que está sendo comparado com que. Consideremos agora a afirmação de docente do ensino superior:

resta-nos uma INDEFINIDA expectativa, notadamente com os quadros científicos da Universidade, cada vez mais RESTRITOS e IMPONDERÁVEIS. O professor comprometeu a clareza da sua idéia com a escolha dos três vocábulos por nós realçados. Nossas expectativas, mesmo quando definidas, nem sempre são claras. Também não é cristalino o entendimento do significado de restrito e imponderável, que adjetivam quadro científico. Restrito em relação à quantidade ou à qualidade? Que característica do cientista está sendo avaliada para se poder afirmá-la imponderável? Não se conclua do exposto que, para se obter nitidez na mensagem, se tenha de empregar vocabulário rasteiro ou coloquial. Escreve-se utilizando os léxicos da língua especial do autor. Portanto, como diz VIVALDI, não se deve confundir clareza com superficial e obscuro ( 27: p. 397). Se, como esperamos, o desejo de todo cientista é submeter suas descobertas e teorias à consideração crítica da sua comunidade, é indiscutível a necessidade da clareza na exposição do seu pensamento. Para isto é aconselhável que solicite a um ou mais colegas leiam seu escrito antes da divulgação. Seus comentários ajudarão, sem dúvida, a avaliar alimpidez do texto produzido.

Precisão

Cada língua especial tem uma terminologia própria, que se caracteriza pela univocidade de significados. Quando o estatístico menciona termos ou expressões como média aritmética, moda, mediana, desvio padrão, por

exemplo, todos os seus pares sabem exatamente a que ele está se referindo. Os conceitos que tais unidades ou conjunto de idéias sugerem têm sua compreensão e extensão perfeitamente definidas. Dizemos, pois, que são precisos. O mesmo ocorre com multa convencional, subrogação, inventário, codicilo e de cujus, em direito; cotilédone, bainha, infrutescência, e pedúnculo, em botânica; ampère, trabalho, momento, onda, coulomb e joule, na física; todos têm significação bem definida e não permitem dupla interpretação dentro de sua respectiva língua especial. Há situações em que o mesmo léxico é comum a vários campos disciplinares, indicando uma mesma realidade. Silício, carbono, magnésio e enxofre são palavras utilizadas pela língua da química, física, físico-química, edafologia, geologia e geografia. Mas, nem tudo é tão simples como nos exemplos citados. Em alguns saberes que reinvidicam status na ciência, distinguimos, na sua língua, vocábulos ou combinações deles que exigem sempre de quem os emprega a delimitação de significado. E isto deve ser feito a eles atribuindo notas, istoé:

conotando-os. Quanto maior a conotação de um termo, menor sua denotação ou extensão. Conseqüentemente, maior sua precisão. Aprendizagem, motivação, disciplina, na área pedagógica, têm extensão muito ampla. Aprendizagem, motivação, disciplina, na área pedagógica, têm extensão muito ampla. Aprendizagem cognitiva, afetiva ou motora? Disciplina referindo-se ao comportamento do aluno no seu dia-a-dia escolar ou disciplina sinônima de conteúdo cognitivo dado (matéria)? Não existe entedimento único para estes exemplos, assim como para uma interminável lista de termos e expressões de uso freqüente em educação, psicologia e outras áreas do conhecimento. Daí a necessidade de cuidados especiais, por parte de quem escreve, com a precisão de sua língua.

Concisão

Escrever é cortar palavras. Este título de um comentário do jornalista Armando Nogueira, na coluna Na Grande área (25), sugere uma definição para esta característica necessária para quem escreve: ser conciso é usar apenas as palavras indispensáveis à transmissão de suas idéias.

A concisão não é qualidade exclusiva da fala acadêmica. É também

muito recomendada e elogiada na literatura. Moreira Campos, o maior contista cearence e um dos mais destacados da língua portuguesa, é sempre citado como exemplo de um autor que, além de dominar com maestria a técnica do conto,, cultivava a economia e a sobriedade com as palavras. Era capaz de numa simples frase resumir e transmitir a riqueza e complexidade de sentimentos das suas personagens.

No conto O preso, onde um homem simples e já idoso é detido por motivos banais e termina por se enforcar na cadeia, todo o estado psicológico do protagonista é sintetizado no apelo que faz às autoridades. Me soltem, que eu não tenho paciência de ser preso (7: p. 248). Para a produção didático-científica, a concisão está diretamente ligada à clareza. Quando as pessoas apresentam seus relatos em períodos com várias orações subordinadas, tendem a se tornar prolixos e, deste modo, prejudicam a compreensão. O iniciante deve expor suas idéias em frases simples e de poucas palavras. A presença dispensável de advérbios e adjetivos comprometem a sobriedade do escrito. Tanto um como outro devem aparecer com muita parcimônia . Algumas pessoas empregam, com muita freqüência, extremamente para reforçar e enfatizar o que dizem. Frases como estabelecer a educação como prioridade é extremamente importante são extremamente importante, nada o é.

A escolha dos adjetivos é também tarefa delicada. Há porém, uma

orientação que, se não resolve, pelo menos da idéia que se deseja transmitir foi preservado. Se isto ocorrer, é sinal de que o adjetivo era desnecessário. Não se multipliquem as coisas além do necessário nos aconselhava Ockam no século XIV. Escrever é cortar palavras adverte-nos sábio

desconhecido. São dois ditos preciosos que deveriam estar na mente de quem escreve, sobretudo no momento da revisão do que foi produzido. Sem dúvida ajudaram cada autor a se acercar mais do desejado num texto didático-científico:

correção, simplicidade, clareza, precisão e concisão.

² Alguns atribuem a recomendação ao escritor, crítico de arte e reformador social inglês John Ruskin (1819-1900), que num de seus contos faz o amigo, vencedor de peixes, prescindir do anúncio “hoje vendo peixes fresco”, pois desnecessário.

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