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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAíBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE IDSTÓRIA

UN IVERSIDADE FEDERA L DA PARAÍBA

CENT RO DE CIÊNCIAS HUMANAS , LETRAS E ARTES

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

Steculurn

Revista de História

10

J oão Pessoa-PB, Ja n/jul 2004

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

Reitor

<:

JÁDER NUNES DE OLIV EIRA

Vice-reitor

<:

MÚCIO ANTONIO SOBREIRA SOUTO

Composição e diagramação <: Manufatura

Capa <: Detalhe de A Persistência da Memória de Salvador Dalí

Saxuluin: revista de história - N°. 1O Jan/Jul. 2004- João Pessoa: Editora Universitária!UfP B. 2004.

BCIUFPB 93(05)

ISSN O104-8929

Impresso no Brasi l

Printed in Brazil

Stecufum- Revista de História N°. I O- Jan ./Jul. 2004

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES Diretora: Maria Yara Campos Matos Vice-Diretor: Marconi Pequeno

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

Chefe: .José Jonas Duarte da Costa Sub-Chefe: Regina Maria Rodrigues Behar

COMISSÃO DE EDITORAÇÃO

Carla Mary S. Oliveira Elio Chaves Flores Monique Cittadino Regina Célia Gonçalves Regina Maria Rodrigues Behar Ricardo Pinto de Medeiros

CONSELHO EDITORIAL

Antônio Paulo Resende (U~'PE) Carlos Fico (UFRJ) Durval Muniz de Albuquerque Júnior (UFCG) Erncsta Zamboni (UNICAMP) Gisafran Mota Jucá (UFCE) Joana Neves (UFPB)

· João Antonio de Paula (CEDEPLAR) João José Reis (UFBA) Jorge Ferreira (UFF) Leonardo Guimarães Neto (CEPLAN) Lúcia de Fátima Guerra Ferreira (UFPB) Maria de Lourdes .lanotti (USP) Martha M•· Falcão de Carvalho c Morais Santana (Ufi'PB) Mauro Guilherme Pinheiro Koury (UFPB) Pedro Paulo Funari (UNICAMP) Rosa Maria Godoy Silveira (UFPB) Sandra Jataby Pesavento (UFRS) Silvia Regina Ferraz Pete1·sen (UFRS) Teresa Negrão (UNB)

SUMÁRIO

ARTIGOS

Página

Considerações de

Nietzsche sobre a história

,

13

Robson Costa Cordeiro

Entr e Gramsci c Tocqueville - A historiografia francesa do século

35

XIX e o conceito de revolução passiva

i Jaldcs Reis de Meneses

"0 importante não é falar, mas ser ouvido": Meios e entremeios da

propaganda de Agamenon Magalhães em Pernambuco (1937- 45)

47

José Maria Neto

História política c imaginário de progresso em Campina Grande dos anos 50

,

65

Rosilene Dias Montenegro

Desenvolvimento sustentável: A história de um conceito

79

F láv io Lúcio R. Vieira

Trabalhadores e movimento negro: Negociação c conflito no sul do

113

Brasil

José Antônio dos Santos

De caboclo a brasileiro: Estado e nacionalidade no território federal

:

do

Amapá

:

141

Mauro Cezar Coelho

 

O

PCN de história e a ANPUH: embate acadêmico e político

163

Margarida Maria Dias de Oliveira

 

Pernambuco, anti-semitismo e espionagem alemã no Estado Novo

185

Susan Lewis

ARTIGOS

EDITORIAL.

~l~tk-r<.··.

:·_:)::_::·:.:~:· .

-.

:.:.·:.

t~~~~<·~~:~:

,

:

<··

:;i!~~;~: r:.:)i_:

_Com

Mi Plt ; , damos continuidade à sua trajetória , dentro da política editorial do

t{-~t)~partamento de História da UFPB, que vem se C()nsolidando como ;·iJ?~thlicação especiali2:r,Ida no âmbito nacional com a contribuição de é:~hist()riadorese pesquisadores das Ciências Humanas de diversas regiões <üúpaís. Neste número, . a· Saeculum pu.t>Jica textos de filosofia , t eoria d(l ;~'IÚ stóriae história contemporânea.

O artigo qlle:a,~re esta edição da revista, de autoria de Robson ·~c osta Cordeiro, discute às idéias de Nictsche e sua filosofia da história que problematiza a relação do pa~sado com o preseQte, da história com a vida. ·i$m seguida, o traballlÜ. de Jaldes Reis Meneses debate o conceito de _revolução passiva em Gramsci, a pa,rtix de su_a ;málise .sobre via italiana de

\'"<··. Sa:culu.m,Revista,.(ie.História, chega ao seu décimo

número.

.

><

Rev(){ução Burguesa.

. A edição traz,tarobé111, discussão sobre o governo de Agamenon Magalhães em Peniamb~<.lQ,contribuição de José Maria Neto, um texto de Susan Lewis sobre o anti~s~mitismo em Pernambuco, durante o Estado Novo, e um artig()SQbxeo;impacto d() projet() desenvolvirnentista de JK no imaginário d()S agentes 'i;\)Çi~isda cidade paraibana de Campina Grande' nos anos -50, de Ro~ilen~J\1otJjenegro, Outra contribuição original vem wm o artigo de Josl$ As~torü() Santos sobre () movhnent() negro 110 Rio ·

Grande .do -SuL -· Steculumpublica, ainda, o trabalho de Margarida Dias, uma análise das discussões e embates e~trea comissão governamental e a Associação Nacional de História - ANPl.JH, ao longo do processo de elaboração do PCN para os cursos de História. Traz, também, de Flávio Lúcio R. Vieira, um artigo sobre o conceit<tdedesenvolvimentosustentável ~,;textode Mauro Cezar Coelho no qual discute as idéias de nação e ilacionalidade e sua afirmação pelo Estado, no território federal do Amapá. Rapidamente apr~sentado o décimo número da Sa;culum, desejamos a iodos uma bpa leitura, ensejada pela diversidade dos temas que nos levam de norte a suldo Brasil, em busca de novos recortes, visões, interpretações c, principahmmte, novos espaços de diálogo acadêmico c divnlgação científica.

.

.

CQNSIDER_A.ÇÔES J)f!: NlETZSCHESOBR~:AHISTÓRIA

Robson Costa Çqrdeiro •

Noprefácio da sua "HConsideração Intempestiva; Da Utilidade e

cfps]nç()nvenienies c!a História para a Vicfa ", Nietzsche nos ·lança. um

pensarúento que desde muito o preocupava e atormentava, e que é o

ponto de partida desta nossa presente investigação acerca do sentido

nietZ;scheano de história: para ele a sua época vivia um momento de

glorificação da cultura histórica; e tal febre histórica, que acometia a hl1rf1anidade em sua época, era para ele um mal, uma doença da qual era

preciso tomar consciênci11e livrar-se. O sentido de história aqui presente é o de historiografia, de estudos históricos. É este o sentido semântico que atilbu ímos à palavra HistoriE!, prescrite no titulo do texto eril <llemão ''Vom N~ttzen undNachteil der Historiefür das Leben'\ procurando, com issQ, ~vitarpossíveisequívocos de interpretação. Para N ietzsche a história só vai nos servir se nos for útíipara a vicfa · e para a ação, .se for nc4;;cssáda cotn(l estímúlo para nossa atividade. No

prefácio, ele apresenta-nos oprpblemae coloca-tÍos diante da difícil tarefa

de tentar descobrir até que ponto a história pode ou não nos ser útil, ou

seja, até que ponto devemos ou não considerá~!a.

Estas reflex.õcs íniciais deNietzsche nos remetem para urna série de outros desdobramentos, pois podemos, pâftinôo desta relaçã.o entre história e vida, levantar uma $érie de outras rell:lç(:íes, que o próprío Nietzsche também desenvolve no seu texto, como por exemplo: a relação entre a história do pensamento e o próprio pensan1énto, ou ainda a relação entre a história da arte e a própria arte- Obviamente, nessas relaçõe~,e em inúmeras outms que poderíamos ÍJ11aginar, a qu~$tão é sempre a mesma: o difícil relacionE~melltQ .entre hist<)ríl:l e yid(:l, pu entre históría e ação, l:tistória e

criação. A partir de qualquer acQntecimento histórico, seja ele político, econômico, social, religioso, artístico, científico; filosófico podemos sempre

nos perguntar: quala importância de um tal acontecimento para a nossa ação presente'? A história da pplític<I, por exemplo, até .ql.le ponto é

' Prq( As!iistente do Qcpa,rtamento çlc filQsqj1a da l)fPB

Me~tre em Filosol1a pela UFPB.

SA-:CULUM NÚMERO 10

l3

iftip()rt~J1tepara a ação pol ítiça pt:~s~Ót~?Ou a história da filosofia, atéque

. para que se pQiiS<l pensar o presente , com suas novas

YP

Oilto

ela e

importante

·

:ç.~)nfigqrações e circunstâncias ?

Q~ -Ahjstóría da arte, até que ponto serve

que ponto a história serve à vida,

::ração ~ à criação? Se observarmos com atenção os animais, nos diz

(:)ara a criação artística? Em

··

·

}Jiçtzsche, verificaremos

felicidade é fruto do seu

presente, sem atormentar-

-'? ' 1)~>'_l':.t~:;J~f1' J:?\"i~-~a.n:va · ou apr eensões com relação

lheintel'rogara

pa;~;; al~Y'

;:,

animal vive apenas o instante,

resulta a sua suposta paz e

do animal, gostaria de

,

,

.,

,.,.,.,,.•.,."'"''Jl.uau,_

aa ,.J11lf~J~Jt~} f ~ .~~ } QP m esse feito

penoaat:~>l.m +P?JJÇ,qaÇJ·e. ·; o animal, porsua vez, gostaria

d_ç lberesponder:· yi~·~[JJ~~~~i~~~;:~~~~~~::~a~~q,uiloque queria. dizer.

JtétneSntO esta ·rv•:nnx:.f'!

e C{J]a~se" 1 .

Para ser

ser não histórico. Mas tal é .aforma C()JTI() ele dá

~?~;:;~~~~<./\ história é. portamo . necessária e impre s cindí>,. ·el para ô homem ,

'~j)~qJs:\;onstitu i a própriH comliç ào de sua humanidade. No entanto , NictL.Schc

h5h!~erva que M um grau e:-;ce!-;sivo de insôni~1, d e ruminaç?o, de sentido

agir c criar.

$_1:~l.l<Í a cnnstataçãode que.precisamos da hi:;túria, tamhí!m ha.í;l constatação

(lç-quc o excesso de história inibe c impede a ação c a.cfÍ<\Çâ~)do hpm crn,

qtte, atrelado em dema~içr~q$eP Pl:l~s~tclo,Pã{} cpnsegtt~c:n tocarem ~tç;ãoas

suas forças criativas. Encontrar ess.e lim.ite entre {) esquecimento e a lembrança, saber dctcrm iuar até que ponto é necessário ou não o esquecimento, o abandono de tudo aquilo que éhistóriço,vaí constituíraqui lo queNietzsche irá chamar

ck/(lrçcrplústicá d~ um hom_çm,

de - uma .nação ou de t un. a civi liz ação . E o

rJüstóricQ, qucpn:!judié(l c -paralisa o homem~ impedindo-o de

princípio que ele anuncia, como sendo fundamental para a anâlíse da importância do scntidohlstór.íco -é o seguinte: "o sentido hislórím.e a sua

negaçüo sâo i~ualm en/e n e cess(Jrios ~i 5aúde ç/t> JfiiJ in~fivíduq, d(! . tJJita

naçüo e de wnncirilizuçlio

,

Paraque pn~sa haver grandes feitQs egr(lndes nções tàz~senecessário

o esquecimento. Como seria iss<.1 possível com mn c~ccssivo apego à

mGmórüt

àJeml)fança,.à

reminiscência. à ruminação do que pas:mu e .que

sempre voJta, a esta terrível insônia que ntmca nos pcrnülc esquecer? Mas~

a p esard.a necessi da de do.·.~squedmento , uma coisa Kietzsche constata: ·''a

vida tem _rrecéssjd{g/e .d~~ s.er ;~ervklapda hl.'ilúrü;''~:De acordo com a

forma como vai se dar essa relação enlre.históría e vida,ele vai classificar

a hi stória em lréslipos: história t110lll!l11Cnlal. própria

do <homcm ativo C

amhicioso: história tradicionalista, própria elo homem que tem prazer em

venerar c conscrvf!C hist.ória.crítica, própria daqueles que têm necessidade .

d~êlibertação.

·

A vida. apesar da necessidade de ser !>crvida pela história. pn:;cisa também de uma atn}qsiera J)ân-histót:ica na qu;~J pos s a prolife rar. uma espécie de nebulosa que coyofvn o homem, poi s ·-~um excesso de hislóriG

desfrái ohol!/(!111 .('. efe ·nào .wriu ccnneçado, ncmsequerousmhJ com(\'l11' a

pensar sem e.~/~ nebulosa qu e e 1;rolve ü l '/d!J, WJfes da hislcíria "·' . Estes

trés tip~)Sde história súi rão ser úteis à vida para aqueles que saibam dosar

o sc ut.J SO. o u scja.para aquclcstjltC saibatnçonsic!çrá:-!~ls;;ó a té opo .rlt OC!ll

• lhid

p.

I 09.

'

.

lhid ., p . U

ll

l hilL

p.

7.

O.

.'VECULU.M N{!MERO 10

rs

. ··.<·:-·.: ··•·· · · J iyªovão busc:~~:si~s~~

.u~ -!-•·L :<~·'' '~· -

·· . · , · iniciativas presentes. pawmostrar ao homem,_

ç~ .qç~$)~ f~ :~i9 *~~~ ~J~~l!i-~~~~~~~õ~~s (:los antepassados, o ideal

de gt<tndeza da h!lnl<l,ntq(l<~<;J

A relação

do passado com a vida vai

consistir na crença q~ l<;J :.\ü?/q ;g~:f!t!(//#:?pz pq·ss.l1dafoi possível ao . menos

uma vez, sê,.[o,.ásem

aos grandes feitos do . a reduz a um conjunto

isoladas de fatos, escolhidos

como modelos ou futura dos grandes homens; aproximações inexatas pa~;saoo ,s eos .•pt}~§ -9:1) "' ' ' -" -· · · "'""'"se o _passado pudesse repetir,. en•ortl1.e.•arvf~·r·:·"S"I('m'"(J'e'·' das circunstâncias e das causas, da diversidade das causas,

de evento:> específic;g~,.

'' 6 Mas, ao limitara história

efeitos, o que Nietzsche irá

dZ ·•H<><· t,.nnumental, segundoN ietzsche, são eindo lentes. E le nos rnostr~por em apreciarem a arte que aioda .· ·que revela a sua incapacidade de de dar-Ih~ o qeviclo valor. O que

de que a história monumental

maiores ainda para os exemplo, a -incapacidade de; n.ão é monumental ,

compreend~r o que ainda

nos revela que ··a vida éotravestiquedissimula

grandesedospoderososdotempo

presente, fazendo-se passarpe/q (.t(,lnúraçào satisfeita dos 'grandes e dos

poderosos do tempo passadq ''' i )}qr_isso,Nietzsche adverte que a divisa

·. > i

,, lbid

7 1bid,p.l24

p. 120.

16

KEVIS1:A D.EJUSI'ÓlliA

I(.W (lç> ªi:>~!~Q_;a,q:'in~bltPs ~. <:. ;.<J•.s.tt.lm.eslocais, .o apego às normas

 

.

.

•• •••

·.

· o ~gr~d<Íy~lbem"esta,rde pertencer a uma comunidade, a

búsc;,t p~lósentimento de .estabilldade,

···.·

·

·.·

i

· . · .·. ·· .·

· ç~lt~r~- :·Q homem precisa Sentir-se como parte de um

Neste sentido ~leprecisa da história e é este o verdadeiro

 

·

COmQ l.lrUst;fJJUC fa,z: parte dt! algo maiOr, do qualele é apenas

···

··.·

.

.

.

·

(:ja coP:C.t!pção tra(.}icio.nalista. "Al imentar com mão

. ··•.·· ·. ··.·.

emproveitodqqu~les.quehão-de vir .depoís, o que~semprefoi, as

.·.

· ern qz(e~ds.ii.eii é á seu modo de servir avida" 9

··•··. ·

•·.·

v;,tlores pass(lc:Ios, Çvrt~~dos e

· .·· ·. lHtrtudo de espor:rtâ.neo,de novo, i!i6 prese11te. Assim, ·

·

•.•.• •

>

.

·

··

·

·

··

·

·:. • Mas, deiMUI(jo de s~r-ànimada pelíi vida, a concepção tradicionalista · · pod~termiria6p.C,(1evar o homem a uma espécie . de exumação

glorificados a ponto tal que chegam a de criador que possa ameaçar despontar

.

··.

··· .·

:·:

:.

-Q~:akctoo espírito de uma nação endurece a este ponto, ql.!a~4<HLhistória s~ põe ao serviço da vida passada a

·.

::p~~tit .· de minar p que

pretende sobreviver e,

:n()~in(:;adamen~e~ a vida superior, quando o sentido

···lü~tÇri(:o,longe de ?lúnentar ~vida,a mumifica, a árvore

enyelhê~ede modo .@ormal, a partir do cimo na direção

•.•Citi.s.i~í:z~se, .a maior parte das ve?-es, a própri(l rai:l: acap<l

·

·· t®il)é1U pormorrer 10

·

··.

.

Desse modo, a~xcessivabuscapela CQ!lservação da vida podein ibir

o florescimento Jl}.esh1;:i, pois, segundo o próprio .N iertzsche " quem tem .

a vid.a?1J.aisbela éaq~iii .qif~~nãose agarra à vida " .

A história crítiêa 'Vâjs!Jrgir como um terceiro modo .de conceber a relação entre.a históriae ~v!dà.Vai surgir como um complemento necessário

aos dois outros modÓs,.qÚetil1bam por caracterí$tica a consideração pelo

passado, seja como-~xemploa :;er seguido- o que era próprio dos que

consideram a históría .eàl SUl:l t9rma monumentl;l!

H

Ibid .,

'!Jbid.,

p. 124.

125 .

p,

10 lbid., p. 128.

s&CULUM NÚMERO 10

,.-- seja atrav~s do

17

·

,,9,<.-.1.vu4u_

·

âqueles que

sta. O homem crítico,

vaijulga.r e condynar a

·

···

.

.

.

'-'L""'-'11'-'.· em suaSegtmçiaÇonsiqt)ração

nrc~cts:.a.e penetrante arespeito da paraa vida. -Paraele,Nktzsche

espécies de histoá()gr(;tfia: ·a monumental, a antiquáriae a rttn'; no enu-.zmo, de-monstrar. explicitamente; a neç;essidade(i~ssa

de sua unidade ''ll, Heidegger .está CQTtt)to, -no falta no texto de Nietzsche uma. demonstntção

da fundamentação da unidade .dessas três ysp~çies de

·•• 1 ·'"'"''" ~ 01 "' 1 "

_w, ,,_,"·'"'·r~·rque

. .·

. No entanto , será que não poderíamos partir9P,pf~~~~'P9~to

· implícita entre elas? Essa uni~iadeJiã().J?()<ferJaser

·.·

ctj~ntás~>ei1110Svislumbrar que, através do reiàdonai'I}êt1tO (.làtre

UULo;:;lJ.LUI CtradiCÍ011alista C0 ffiQ<:IOÇfÍtiCO, s4ú?J(i~~lj{stqfi~, ·· .· . a do relacionamento entre a consi<lél"Mã9~(;1p'iji~t9tic()e

··

·. ·. · condenação do histórico? As fonnas his~6Hc~~;i~th·é;as e tradicionalista, poderiam, sema presi~Ça.#iitêrêeira

· · ·

.

.

~ çrítica, fazer

surgir o novo, o bi$t6riÇ_ô? := Ç ~âs:q i_Jl.ão,

serem julgadas e condenadasatrayés'cJa19'ririAprítica,

""'"cc.,.csurgir. Teríamos comisso{) hisípfitq~ijrgincio

it ltílo,.,_llts1:onco. Oquç P<!reçe çoncordar.ç()D1 as~gúih.#iâ.fihi1~1ção

 

,,

"'.

-

~:-.--. :-.:_:>-.<

.

·.·

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.•·•

· ·

. Vê-se

modo

claramente até que po.nto . o h~~~~' ~~ll~d~ do

monumental ou ··tract.icion(lJisi .~ i:l_é: c -c)p s iMr 11 !- .o

passado, tem freqüentemente .·necess i4<~cle cl9 urn terceiro

modo o modo crítico e isso no interesse da vii.Ül:Predsa · qe ter força e de usá~la porvez;e.s, d~ q!Aeb.r<l.r<f. cliss!)lver

· um fragmento do passado, p .ara pqd~f\iiv.~f 9§rise/5Pe,~o · fazendo co1nparecer esse passado Per~11t~9s~ptfib~üal,

' ·

,

.

:.

.

·:

·

:.

:·.-.·-···

·:·.:·:····.<-:>··-:::.·:.

·

·

.

.

submetendo~~ a i.lm inquéritQ rigo(QS() ?} 'i~>

.condenandoco ~,

fij-n,

.:':::.:

: '} ,·:

··:.··~:·:

·<::·.: ·.'

·

< ~-<~::·,

-.

.;~

a suprema injustiça da vida, o fato de quetl,ld().ilj~fece

·

. · · · que o novo : oão possa mais s~r

P1?f!$ ~i -~ ::~l~e

. ·.,

:·.·-

·.:>.-·· :·-.

···-

·.

• · q , Ser e tempo. Trad . de Márcia Cávalcante

/7~:;;:.-:.\.1~/L,, § 76, p. 203.

[~~ -_i~tzsche observa ser ''preciso muita força para poder viver e esquecer [;!~jj~§que ponto viver (! ser injusto são o mesmo " 13 Temos aqui a dura

@' b ónstatação da morte e do esquecimento de tudo o que é histórico, para que !-(,;; novo sempre possa \r_oltar a surgir. Embora viver e ser injusto sejam / considerados o mesmo, ohpm~mJortee de ação sabe que não ·Setrata aqui <.le justiça ou injustiça, mas sim da decisão da vida, que se manifesta destruindo e criando, a criação implicando a destruição. Esta colocação de Nietzsche talvez não seja suficiente para tornar explícita a existência de uma unidade entre os três tipos de historiografia. Mas, talvez seja possível vislumbrar uma suposta unidade implícita. Que tal unidade, do modo como

a co Inçamos, permaneça então como uma

Através da história crítica, para retomar a nossa investigação,

Nietzsche mostra que "implantaremos em nós um novo hábito, um novo instinto, umq segunda-nat:u,reza, que farão morrer a noss4 primeira

natureza " 11 O que representa um risco, pois, ao condenar o passado, o homem crítico está cond~nando a sua prirn.eira natureza e, portanto, a si prqprio, visto que todos nós somos frutos dos desvios~das paixões e dos erros das nossas gerações passadas, Ao in1plantar em si nmnovo hábitoj uma ncw~;~,força propulsor<! PC ação , uma ~egunda natureza , o homem crítico entra em conflito com a su~nat11.reza hen:t<tda. E esta segunda naturez11, ao

tornaHe vitoriosa, tqput,~se,concoJ]1itantemente,:segu11do Nietz:sche, un~a

prim~ira natureza,

Por isso .·~ que p<trece sex irtcqntestáve} a utilid a de da história para a vida, pois() homem sempre estáa se relacionarcotn a sua primeira natureza. Mas esterçlacionamento não é de pu1.'a c()nteinplação, poisj do modo como é compreendida por Nietzsche, ahi~tóriat)ão deve ser yist(;l.como um qu(ldro que é apreciado num museu; ela nfio deve ter um fim meramente contemplativo; não devemos vislumbndasó como puro saber, corno um

Os três tipos de

hipótese.

·

- ·

-

·

·

·

··

.

·

-

·

liyro ~preencheras

estantes do nosso orgulho intelectual.

historiografia vistos acima. visam inostra,r, justameüte, de que ma,neiras ,o histórico pode ser útil à. vida e à aç&o, procurando evitar a passividade do

homem ante o seu

atmosfera própria, um.~orízonte de l imitado

uso se torna excessivo ou degenera. Por isso;

passado. Cada ,um desses

três tipos ele h istóriaJern uma de atuação, fora do qualo seu

"

l-lfbid., p. 130.

p. 130.

lbid

·•:~t:i~;Fir~,;çlescoisas precisa

···

·.

.•

.

.

.

.

·

·

.

Ao contrário, quem

 

<

··•••··••···•··••••••·•··• •··· •••

··

·

·

··•••·

é :n~~~~:;i~;~~~r:~::~i:~~:~:;

··•••·•· · ••.••

•• •

•·•. •. ·

clu~'é<J.paohado pela necessidade presente e que

•>•Y··?!'.o;:i•·"········.'········································•·.····.•i.~~~3h::~fJ,~:l4~ej~Js;::=~~,~~~!~:.á;~:~;~:~~~~i~

Ünpr4dél]te.c.l~,s~as cliversas espécies é fonte de muitas

. desgl"aÇas>Q~l-ítícosem necessidade, o antiquário sem

que

· piéçlat;i_~,op~ritq sem

poder cria~or são plantas

qegêneràr<1!j}i'j)·or tere01

sido arranc~dasao seu terreno 15

.

·

·

,

·-.::.'.:-:<:::::.

:;:;:.;:•::'K i'f;;'k;~ ;;·;: ~llt~Ção irilpr\:!Qyiit~ :·~esses três tipos de histódi par11 um

·.

:

::

.·.

.·.

. l!enão lhe são>prgprios, leva à sua degener:esçê 0 çia, pois

.

.

.

.

.

'

.

ex:cessivamente, a p Janta d::t })istória degenerl!, po_rq u~ per <:I e .~

cornll vi<ia. ·

·

·

·

···

·

·

··

.

Ao lançar um ol})an~obrea sua época, Nietzsche vai constatar que 2 não'SerelacioÚavacom a, vida; ao contrário,eonstataqueelacausava )!Úl parali$íasobre a 111esma, tomando-a inerte ç imóve LA vida girava éJitão em tomo do poderoso astro da ciência histórica, girp.va como insetc :ào redor da sua esplendorosa~luz . A história transformou-se em ciência de devir do homem, orientando os seus atos e dcterm.inando as suas ações . Assim, a vida passou 11gi.rm: em torno da história, e não a história em torno da vida. Esta relação erttre dência histórica evida revela-se de particular interesse para a çompreensão nietzscheana .de história., .pqis, segul')QO t<tl

,

compreens~o,.

··· la l:llstÇ>ria sólo puede ser salvadora, salutífer~ bajo el poder de una nueva corriente de la vida, como elemento, ··.por ejemplo, .de una civilización naciente. Y entoncest~)das

. las perspectivas resultan invertidas, porque en la medida

que.se p<me alseryiçio de la vida, la historiapasa a estar

·. subordín<:~da a una fuerza no-histórica (no-científica,

·· it11pura), y, por esta misma . subordi@ción, re~igna el

e~tiit1.1to.de,c iene ia pura 1 ?. · ·

·

···

·.

,

Com isso, Nietz~clw preteode negar o caráter de objetividade, de cientificidade que a histórjapareci11 ter adquirido em sua época. De acordo com esse espírito objetivo da história, a vida torna~se.incapaz de frear o passado. O vassacio toma-se ciência que determina o devír. Tornando-se dom inado pelo espírito histórico, o homem torna~se um ser de conteúdo, mas um ser cujo conteúdo é superficial, porque não autêntico, não próprio. Por outro lado a história, do modo como é coilcebida porNíetzsche, só é

salutar ao homem se estiver ao seryi9o de.umaforç11não-históric~ porta(l~o

17 PELLEJERO. Eduardo. Nietzscbe, Foucaull, Deleuze: de la utilídad y de los inconvenientes de los estudios históricos para la vida. 1p : Nietzsche e Delcuze- Que pode o corpo. Rio de Jane iro: RelumeDumará. 2002, . p. 112. " A história pode s c::r salvadora, saudável, so b o poder de lima nova corrente da vida, como elemento, ·por exemplo, de uma civilização nascente. E então todas as perspectivas resultam invertida~;porque, na medida em que se põe ao serviço da vida, a história passa a estar subordinada a uma força não-histórica (não-

científica, impura} e. por esta mesma subordina.ção. renuncia ao estatuto de ciência pura"

(tradução do autor deste texto).

nãq-pbjetiva, não-científica. PqrJ:anto, a história, enquanto saber científico,

s~m vincu.lação cqm a vida; C()Ústitui-se em mera erudição. E a chamada

',<;ú lt~clra moderna que , segunqo Nietzsche, tornou,.se sinônimo de . cultura :jiistÓdca, ''não é uma cultura 44fént{ca, mas uma espécie de conhecimento fl() q~~~é Uma CUltura "l,Y, pOÍ,S, ~~q~Q:ÇãOà qua[se pode atribuir Uma CUltura '~/Jf!ves~ruma urtidade vivq , 6?(J2h!al enãosepode dividir lamentavelmente '/iüb~'de.ntro ' e num 'fora', n~~àformae num conteúdo ~>.1 9

··. ····· ·· .QI:tQrnemn10dernQ, ~~gllndqele, inquieta-se ao recepcionar em sua óriao .acíunqlo :crescente,(f~-fàtose acontecimentos, e desespera-se poder dar a devida at~qÇão-a todos, sendo obrigado a fechar as

· .e deix~r muitos de [tir~::êomo um glutão, ele se empanturra de

. ·

··

·

. ·

considerar oq~~ -:~;'<)ti não conveniente para a vi da, e para sua

Devido àsna

força plástica, não consegue moldar

.• .•,.~ •,.,, ••.•.,.,~ 0 ~,,.discemir lucidamente atÇ_que ponto

:;" \'~ .c' :~<:•X ·~ '•} ''·':'." •"'·" ·'·•,_,.,,~,,

, , ., , a :

n•.~"''~.!C •'.<l:•.".i'~ " · · Se encher dps . CÇ)StU meS; da ,~ :~pocas ,

ciência dos poYO$ - ' ·~·.· · · ·

· hornem

de couteúdq, • ···c1·· e

ln1t~PiO[:Içl;l,<le,

l'i(~tt.schepa:ra mostrar como b excesso de históri~pode ser hostil à vida 1/J/JJ{úi outrarazã,o por ele indicada é a seguinte: ''( o excesso .de ci.êncü

)

t!Jà~~tôrica leva Uf71a é poça a imaginar queposs'ui em mais alto grau do qu! )/uqlquer outra a m()i;:,:rwa das virtudes, a justiça " 21

· ··· Serj u~tosignifica, segundo a qual i fi cação moderna, aval iar o pê:tssad(

··

de.acçrdo çqmasopiniõespresentes, significa possuir a c,onfiança de qu~

'~q sÍtq : éppcatemrazão em todos os seus modos populares de pensar, e dt

é ser justo " 12 .Estaria Nietzschf

que e.sc;rever de acordo cQm .asua época

eD~ão sendo injusto ao escrever as suas considerações intempestivas também traduzidas por consideraçõ.es extemporâneas, inatu.ai5 (Unzeitgemãsse Betrachtunge11) 23 ? Nos parece que não, pois isso é uma atitude própria da filosofia. ''Épor isso que a filoso.fiatem com o tempc

uma relação essencial: sempre contra o seu tempo, crítico do mundo actual, o filósofo forma conceitos que não são nem eternos nem históricos, mas

intempestivos e inactuais '' 24 . Paraa modernidade, de acordo com Nietzsche, este modo de encarar o passado segundo as ppiniões então vigentes também é chamado de objetividade; do mesmo modo, também é chamado de objetividade o estado qe espírito ~egunqoo qual as causas e cqnseqüências de um acontecimento não sejam capazes de.prpduzir sobre o historiador nenhum efeito, ou seja, o estaqo de espírito que !eva.o.historiadora avaliar imparcialmente os dados que llw-são apresentados. Serobjetivo, pqrtanto, segundo essa concepção moderna, significa .o mesmo que ser justo; e ser justo significa estar de ac;oydo co _m a, sua ép()ca, avaliªr ·impl'lrcialmente de ac:ordo·com o presente. A objeti_vidade torna-se lema distintivo da história que se pretende Científica. A 1ntrincada articulação dos fenômenos, das suas causas e.efeitos reflete uma necessidade universal, objetiva, ou é apenas o produto da imaginação do historiador?Vejamos corno N ietzsche úos mostra a posição de Sçbiller a respeito do historiador: '!Dsjenómenps, ~m1 gpó,s oulf'o,

.

.

.

21

ll

lbíd .,

lbid .,

P- 143 _ p. 155.

23 A palavra alemà Unzeitgemãsse sign ifica inoportuno, inatual, o que a e~tes escritos de Nietz.sçhe{no total ele escreveu quatro considerações intempestiva), das qt.J(lis esta é a

segunda) o caráter de escritos !]Ue levantam objeções às opiniõ.es vigentes em sua época.

24 DELEUZLGilles . Nietzsch~ e .a filosofia . Trad. de Antonio M- .Ma gal hãe s, Porto : r,:q,

Rés, s

d.,

p. 16L

-"''A + --:<e.~H:·'·"'""" ' '~~r~ , 1 .,~• .•., _,

,

,, ~uc;rc1w"'~ -•- SC:tm lei.

Y J.\'T V ·- nnlfnt:IO'Irlllf~{;r() dQ

_e Vêm, _ :como C!rticu1açã_o de um COf!.junto coerente ·

historiador"] ~. De a _cordo

a teia dos fenômenos revela

,., n ~omteiTh:<liStli~r.c~apactdade de ''introduzir a unidad<?

·etivo então, na perspectiva que

•>h,.·n-•·r~i-.,r"artisticamente''os fatos,

força, e não a uma espécie de

l'-'~-·-~~·,,~, ,~e

·~"'i-'-.l!.V '- "'" '"-" ·~· -~ -·"'' -''"''~ -"~'-au.a; c ,QJ'tti:ni~ <>sJ<ttCI$desse . IUodq contemplados

ue passivamente diante deles

·•''~'~'"'"m'" · Ora" taLobjetivi<:lade,seg{ln~q

ele nos fala ser --

mais, uma podero~·a facUldade

,

,,.,,au.:cll

_de

platJacporcimadoreal , ·de

119$ . claclo.s: ~mpíricps;:de criar

_es (;OI1l tipos.<lados; { neçes sário ~Iª tçm qe posiHvQ, porque

a opjetiviclade é _apenas uma,

{:(·:::·:~

C >

É lrnportante destacar .quejustiça para Nietzsche não é produto do

úi{)nhecimentonemde umaf<tçuldade intelectual ou volitiva do homem;já

âítJe, de acordo com ele, :'hápoucos queserwm verdadeiramenteaw;rc(ade, jJprque são poucos o.~· que têm yontade de serem integralmentejustos e também são poucos, entre eles, os que têm afor.ça çie ser justos " 19 . Mais

_: rio que o conhecimentp ou vonti;:tde é a . força que vai d,~terminar quem >poderá ser ou não justo.Ajustiça, como Ni.etzsc:hc a compl·eende, então uma espécie de instinto, qtie aproxima ns grandes e os raros das diversas

feitos e ações

dos qut:: lhe antecedemm. Não basta, portanto, o desejo de ser justo.· Ser justo é reflexo de umafor~a~ não de uma escolha deliberada. Significa, na

perspectiva nietzscheana, uma desconsideração da força paralisante da

história; porti'JJito, urna injusti9a com o passado, mas, no entanto~ uma justiça

épocas, pemütindo q~1e wn<} época posterior compreenda os

com a vida,

.

·

.

Uma outrarazão que~tornao excesso de história hosti I e perigoso à

vida é que, "por causa deste excesso, perturbarn-.-se os instim~snacionais

e o indivíduo e a comunidade não consegLiem ,~zcançar 1:1 inaturidade '!,lo .

Quando o saber histórico donúna uma nação ou uma geração, vemos que a atmosfera se enche de saber e de erudição, m<u~ que a Vida sufoca. Em tal situação deixa de haver vida própria; a vida presente torna~se o passacfo.

Tem que haver uma bre.cha, um espaÇó vazio nessa atmosfera histórica

para q.ue a vida volte a ·!'espirar, para que se torne presente, atuante. Para

tanto, faz~senecessário ser injtJsto çom o passado, para que haja criação e o indivíduo torne-se mad~tt:(). A maturaÇão precisa.de IJIUa atlnosfera própria ei ''qualquer nação, como tambén} qualqzJerindivíduo que .quer amadurecer, tem necessidade de um véu de ilusão , de uman.uve.n1 que opr.oteja e. envolV({, mas actyalmente tern~se horrw por gualquçr J1Ktturação lenta, porque se .respeita mais a

históriado que a vida "-' 1 .Ahístóría só serve à vida se desperta os instintos adormecidos do homem, se faz :do homem um ser criador, .cdador do l)el.l próprio tempo -e da:?Ua própria história Neste sentido, a história muito mais à1ic do que ciência, porque vinculadamuitomais aos instintos criadores

do qt1e ao conpec.imento.A Uusãovincula-se necessariamente ao aspecto

criador do sentido histórico. Como pod~riao h()mem construiro seLt futuro

·

·

·

·

·

.

.

1 " lbid ., p.

'"lbid., p

.

153.

.143.

ol [bid., p. 166 .

.• ,.,

todos os espaços, o futt~ro?O espaço

nCJcessario, o elemento ainda

e olhar o futuro. Sem a

,,

••.•

,,.,

,,não,

histórico,

e por isso

podemos observar r1a seguinte

nnuuwL;ro .historiográjíca não "'"'"m'"" do inesperado. Pois o ser compv 4CJO - · .

t

-

~

' .'l)

.

.

ao s~ transformar em ·

lOIJ:l.eno morre

Níet:zscf1e

I1lostra,

···'·"'""""'·"''·'"J·' ''aprerid.er conto .ele .

à luz de um tratamento

tem o poder de pensar o real em novas configurações . Cada sistema filosófico pretende apreeúder a totalidade do real~o ser do real. Mas esta apreensão é sempre parcial, .po r mais complexo que seja o pensamento, pois cpróprio do pensamento seretra.ir, deixarldo sempre uma parcela de mistério ao real, "pois retrair-se não é um nada puramente _negativà. Retraimento pertence à dinâmica do própl'io pensamento.(.) o que assim

St! retrai i o que nos arrasta. No arrastão do retrainJ?nto estamos na tração

do que, retraindo-se, nosptrai '·' 35 o que se retrai, no pensamento, eo que .

atrai

o pensar. É a atmosfem não~histórica, o mistério, o indeterminado

que,

retraindo-se, isto 6, furtanào~se à apreensão pela história, perfaz o

próprio pensamento. Se o futuro fosse totalmente computável, a partiq1os

dados históricos presentes, simplesmente não haveria futuro e, portanto, história, pois não haveria a presença do mistério, do inesperado, A densidade da atmosfera histórica não nos ·pei:mitiria ver o futuro e a inércia do pensamento seria tal que o não-pensado não poderia ser acordado. Portanto, na relação que mantémcmn a sua história, a filosofia necessita da presença da não-consciência , como uma espécie de retraimento que deve estar presente na própria consciência histórica, sob pena qe que 9 :histórj~o[lã,o pqssa surgir. As ações do homem que menos levam em consideração a história são, portanto , aquelas qu.t} provavelmente terão a maior repercussão

histórica, ou ainda, as que tornar-se~ão históricas. Através da força

seus instintos, da capacidade de sua força plástica, os grandes homens ousaram criar o que era impensado, e transformaram assim os seus atos em atos históricos, que marcaram pela inovação toda uma época. Desse modo,

o histórico surge a partir do não histórico, ou talvez

ainda melhor, su{ge da pouca consideração pelo que Çhistórico.

O excesso de consciência histórica também é ' 'o responsável p (!la

implantação sempre perniciosa da crença no envelhecimento da

humanidade, .da idéia de que viemos tarde, de que somos epígonos ''> 6

Acreditar no envelhecimento da humanidade é partir da suposição de que a humanidade evoluiu historicamente e de que a época atual atingiu o ~pice da evolução. Os homens da sua época, segundo Nietzsçhe, devjdo à sua excessiva cu Itu r a histórica, pare c; iam t~r na,sç ido yelbqs, com os ça ,belos

-

-

.

.

.

.

.

.

.

dos

segundo Nietzsche,

3 ; lbid .• p. 13 .

l" NI ETZSCilE . Fri edri c h W. Op. cíLp . 143

uma ·.· quando esse

.nu · <O '-' '"'

çfimda

,,.,.~

,

··~ . q ue , ~)O ~~lf~l~ ~~~t~;~.~2~f~~~

~

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-

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-

-. • . :~·x g :e, r ;, : ;;e,g t! QC!9 Ni etzsche ; um . a i ri fl u ê n c íá tleÜtsta

e

.

.

.

·.

.

.

a _ifttsão de que · a histórüí

· asociedadeb(:lrlinense r~presentava

o último estágio de sua marcha progres_siva. Nesta perspectiva, o presel)te

era sempre v isto como su p~riorao passado, como um estágio ma i$ ay;:mçado, frutodomovimento evolutivo .da idéia. No pensamento de Bege[, a história é o tomar consciência da Idéia de liberdade, que é a essência doprópdo Espírito ou da Raziío universal. O homem em sua ação individual, na manifestação dos seus -instintos e das suas paixões, visando à satisfação dos seus intenesses particulares, talvez esteja sendo apenas instwmento de um desígnio mais amplo, que ê a

compreensão dessa Idéia. Para Hegel, ''{,

) a .razão governa o mundo e,

conseqüentemente, governou a sua história: Tudo o mais estásubordinado, é subserviente.a esta Razãouniversale materjal e são osmeiosparq a sua

realização " 39 No transcorrer do movi merito histórico, essa Razão un iversai, esseEspírito, vai se revelando cada vez mais, sendo isto por um Jado "~ o

resultado do desenvolvimento interior da idéia e, por outro lado, da atividade dos indivíduos, que são os seus agentes e provocam a sua

realização '-'· 10 Ao interpretar esse pensamento, N ietzsche mostrou que o

Espírito, ''esseDev.s, dentrodos crâneoshegelianos, tomou-se transparente

a si mesmo e subiujádialeticamente todos Qs degraus dos eu

devir àté à revelação de si mf!smo ''-lf. E essa. r~veJaÇão,segunclo ele,

coincide com a existência berlinense del1.ege.l . · · ·

· Compreender a história através desse processo de evolução dialética

significa crer no envelhecimento da humanidade, o qtte vai prov.ocar, ironicamente, um estado tal em que o homem sente~secomo um hercleiro

que

não tenha afirmado isso, como nos .confírmaNietzsche. O hegeliani~mo, no entanto, de ac01·do com ele, vai levar a Europa a esse estado em que o excesso de história, a herança de todo D processo evolutivo, prejudica a vida, provocando em uma época a atitude de ironiaa.respeito de :;i mes111o, seguida de uma atitude ge. cinismo, mais perigosa ainda, ''e dentro do

não tem o que l~gar aos seus descendentes, embora o próprio J:legel

e inteligível

cinismo faz amadurecer graduabnente uma prática de egoísmo prudente, que paralisa e ücaba por destruir (JS ?nergias vitais"~ 2 Esta é quinta e

'~ HEOEL, G. W. F. A ~azão na história: uma introdu~;ãQ ~eratà fi(psofia çlal1ístória. Trad. de Beatriz Si dou , .SàQ Paulo.: .Ed. Morat:s, 1990,p. 7!.

4 " Ibid

41 NlETZSCHE. Friedri c h W. Op , c . it

' 2 lbid

p. 78.

p.

143 .

,

p

177.

&ECULUM NÚMERO 10

29 .

·.t:àÚril~ r~i~~ <~.prese~tà(là pm Níetz!)çhe para WQf.itrax os dapos caus(:ldos

pelo excesso de .con~ciêndah_í~túricaà

. A atitude inicial de . ironía{lo hof11em a respeito d~ si mesmo é seg11ida

por uma atitude qe cinismo, c_omo yma forma -<ie o hotri~mjustificar o processo <i e evolução unive.rsat q~e ç~racterizaasua,história , Essa atitude

de cinismo estáfunda,me.ntada~qpressuposto dane.çessi<.f&de? isto é, ela consiste em explicar o pr()çe.sso d~ e'\lo!ução hü~tÓricacom9 algo necessário, como algo iovioláveldo<J~al()homem não pode fttgic :Para Nietzsche,

essa é uma m<Ineir<J.<ie vivecbnillarmonia com .() seutempq, a,ceitando "o

abandono total dap~r.~P~ttlida)ff!:dqpmcessouniy~rsal" 43 . • Através disso,

o homem da s_u~ épÔç~ .p~~~~Ai~~~<llnpreender cpmo ()fim, . como a meta

do_ processo deevoluÇ~()~·Ç<?mo·l:l,prc,)pria perfeição .da Qatt!reza

·····'

:.

KEVJSJ:.4DE1JISTÓB.IA

O homem deve tomarem suas mãos o destino da sua história. O

modo como isso seráfeito deve passar; antes de mais, pela destruição da crença na necessidade dos-estudos históricos para a formação da socieqade, crença essa que, segundo Nietz.sche, é produto de um preconceito ocidental.

A história só é útiLse servir à v ida. Fora desse âmbito e dessaatmosfera,

ela é dariosa. Visando à preservação dessa atmosfera indí~pensávelà vida,

ele então nos apresenta, como contqt~venenos do historicismo, o não-

0 . super-hist(>ricismo. O não-historicismo consiste na

capacidade do esquecimento, o que encerra o. homem num horizonte limitado. Osuper-historicísmo é constiiuído por .'forças que ajà:;tam o

olhar do devir e o orientam para aquilo que confere ao devir um caráter de eternidade e de significação igual ao da çtrte e da religião ''- 16 Ç.omo a

ciência histórica coloca 'diante do homem um horizonte ilimitado de ac9ntecimentos e conhecirnentos, o olhar do homem acaba por se perder nesse mundo do devir. As torças super.,históricas, diante ~de um horizonte tão vasto, pcnnítem·ao homem perceber que há um caráter de eterno nesse mar do devir, e que esse eterno eum existente, é vida. Sem a presença desse etemo não haveria o devir, pois a vida$e estagnaria diante do imenso volume de fatos. O devirse aniquilaria a si mesmo. Com isso, surge a percepção de que a história ~um eterno devir, e que esse devir só é possivel

a partir de um clima e um: ªmbie11te propício à vida, pois só há devi r se houver vida. A ciência, portanto, que trata desse l:t(Jriz:ol1te itimitado de fatos, tem n{:cessidade de ser controlada pela vida. ·. -A autêntica cultura só nasce a part:ir da vida. Sem uma.vida autêntica não se pode ter uma cultura;·tnas tão somente informações e conhecimentos acerca do que é próprio qe uma cultura. É necessário, diz-nos N ietzschc, libertarajuventude dascaqeias e grilhões da história, a i:im de que .ahistória sirva a vida, e a vida assimJi})erta possa construir, sem imitar, uma autêntica

cultura, tal como fizeram os gregos, ''rejlectindo nas suas verdadeirçs necessidades e deixando morrer as suas necessidadesfactícias. Foi as_s im que tomaram nas mãos o .$eu d "' stino e d e i;;arqnt d t? S?.r os herdeiros e os epigonos instruídos do Oriente ·w .

Para a constru_ç:ão d~ uma verda.deira cultura , o requisito da força é fundamental ,já que Níetzsche chft!J111 a.atenyão para o fato dequ~ter VOIJtacf!!

historicis:mo e

"'' lbid ., lbid .,

47

p . 201 . P- 204 .

de criar não significa ter força para criar; portanto~não bastà sünple,smente romper com o passado e com atradição histórica, é necessário ter o instinto críativo, a força de poder criar, de fazer surgir o novo que não é totalmente novo, que traz também em si algo de comum coin o históríco, mas sem, contudo, subordínar-se a este. O novo tem de teralgo de comum com o velho, com o .histórico, pois se fosse totalmente novo não teríamos p<trâmetros para compreendê-lo. Sendo assim, ta1vez pudéssemos tentar resumir os pensamerttos de Nietzsche sobre a história através da seguínte sentença: quanto maisumaaçãodesconsidera, atr<tdição histórica e se volta para a plena satisfação dos .instintos vitais criativos do·homem, quanto mais força plástica possuir um homem,tanto mais provavelmente a suª ação se tornará histórica. Se por um lado necessitamos da memória, da: história, sem a qual não teríamos s~quer noção da nossa humanidade, por outro lado necessitamos do esquecimento, sem o qual o histórico não pode nascer. Estamos aqui diante do seguinte dilema: aci consídenírmos a históría,

tornamo, nqs"conscientes" da nossahumanid<tde; mas esgttecemo-nos do

vigor dos .nossos impulsos criativos; ao esquecermosa históri<t, colocamos em ação os nossos impulsos criativos, mas perdemos a nossa noção de

humanidade, deixamos de nos compreender como pa,rte <fe mrt todo histórico. Atmvés do seu conceito deforçaplásticç, Nietzsche pretende fornecer um instrumento .para·a correta dosagem entre esquecimento e memória, emboraele não esclareçade fonnaprecisa como devemos efetuar a medida entre o queéprecísoJembrar e o queépredso esquecer, ou seja,

como se deve efetuar explicitamente a medida entre os tipos históricos monumental e tradicionalista e a historiografia crítica.

nos :ficadaro é :1 percepção de queoexcesso<:le consdência

histórica impede o movimento, inibe o surgímento da própria história.

Níetzsche aqui, mais uma vez,nos alerta para a importância da força dos

O que

nossos instintos criativos, que se reveJam como o princípio

do movimento histól'ico. A consciência histórica, por si só, é incapaz de mover a história, sem a presençadasforças instintivas, que siio o principio $oha aparência de um movimento consciente, o movimento

muito mais cQmO fruto dosimpulsos ql!egqye(Qàm

funçl;:1mental

rçvela,

se

REFERÊNCIA.S.J,JJJ3LIQGRÁF'IÇA,$:

CARNBJRO-LE:ÃO, Ernrrl<!J1!le.L Qs pç11sadm~es()rigimíri()s. Petrópohs:

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··

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HEGEL, G. W. F. ARazãQ ;na história: uma introdução gera! à filos()fta da

história. Trad. de Beatriz Sidou,$ãoJ:Jaulo: Ed . Moraes, 1990.

'

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HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo.· Trad. de Márcia Sá Cavalcante

Schuback, Petr9polis: Vo:zes, 2()02. ··.

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NIETZSCHE, E W.U consideração intempestiva: da utilidade e dos

inconvenientes da históriap_am a. vida. Trad. de ~mPs cieAzeve<:IQ, Lisl:>oG~.:.

Editorial Presença, J976.

PELLEJERO,Eduardo. Nietzsche, Foucault, Deleuze: de la utilidad y de los inconvenientes de los estudios históricos para)a. vida. In; Nietzsche e Deleuze- que pode o corpo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

ENTRE GRAMSCI E·TOCQUEVU.LI~

A HISTORIOGRAIHAFRANCESA DOSÉCULO XIXEO

CONCEITOJJEREVOLUÇÃOPASSIVA*

·

.

.

Jaldes Reisde Meneses* *

· 1_

paúiva.

Introduçtio: C1pontamentos sobre o conceiw de revoluçiio

Onde e como Gramsci teve a inspiração ·do conceito de revolução passiva'? No labor intelectua:t no cárcere em que foi confinado pelo faqcismo

até morrer{1926ll937), Gramsci se apropriou e deu um novo conteúdo à

expressão revolução passiva, do historiador italiano Vicenzo Cuoco, vendo

na mesma uma tradução 1 c:- para usar um termo caro a Gramsci (l999

CCll V 1: 185-190) ~.com antecipação no tempo, do conceito de revolução-

restauração, da lavra do historiador francês Edgard ·Quínet. Gramsci não

tinha em mãos as obras de Çuoco nem Qu inet, ntas tomou contacto com a

problemAtka atr;:tvés de um livro de C roce,.,.- La rivoluzíone napoletana del

1799::, onde é comentado o conceito de revolução passiva,.

Os que conhecem a história:daformação do moderno Estado Nacional

italiano, no século XIX, sabem que Cuoco foi um publicista da ala radical

da pequena burguf')sia e partícipe ;:ttívo da çhamada Revolução Napolitana

de 1799, sobre a qual escreveu a obra comentada por Croce, intitulada

Saggio storico sullaRivoluzirmeNapoletarzq. Na obra de Çuoco, a prop()sito

da análise do frac;:~sso da Revolução Nappiitapa, encontramos o

"Trabalho apresentado no Grupo Temático Historiogrqfia e &crita da Hfstqria, d()XXll

Simpósi() Na<;ional de História dii ANPUH { .loão Pessoa, 2S/07/2003 ).

** profc$SorAdjunto doDcpart(lment.ode

Hístóría .da .

IJFPB.

-UF~

.

.Dputor em Polítka .Social · ·.

.

·

1 Precisemos a .notação detraduç(fo e tmdtttibilidade em Gramst::i. Para o pensador ital iano,

conforme dcmo.nst.ra principalmente ~.~m uma Se\:~o do Cgderno JJ

existe a possibilidade de as experiências histúricas importan.tes -~ pelo seu grau de

universalidade - . cncontrar .similares em outros . ambientes culturais. Dessa manei.ra, por

exemp Io, em Gramsci, hú sempre a P'!sSibilidade de Uma determinada linguagem vocabu I<Ir

e çultural e.nctmtrar uma tradução em outr~ ~ "'t:tliiJguqgem dapolf(icajh.JY!Cesq{.)

(VIl999: 185-190) ,

corresponde e pode ser traduzida na linguagem da filosofia clássica alemã" (GramscL

filosófica . de Kant e Hegel tinha uma

1999 CC! !VI: 185!!88). Ou seja. a revolução

reverberpçào na política

prática dQS revolttcíonáríos frances;:::s: citando um verso de .Ç;.Jrdu<_:ci,

SIECULUM NÚMEKO 10

35

}Ç{iscern i mento do conte(ido histórico da re vo I~çã.o burguesa em .paises çie ··· n\5rmação nacionat retardatárí(i, (;0!110 a Itália moderna

O que foi e por que fracassou a Revolução Napolitana (ou

_P~u:t~nopeana)?podemos entender{).fracasso do processo de revolução,

\úéssa província da It<,llia meríd.ion(il, no rastilho ·dos acontec.imentos da

L((;:yol~çãofrancesa e das campanhas militares napqleônicas. Em J798, a

q)ürguesia radical napolitana, .com ()ase no apoio militar das tropas de

Bourbm)s

·:Ô~Í •pação francesa, derrubou o rei Ferdinando T,dadinastia dos

' ~ :-c;le Çastel!i, pJot:h:nnando um regime republicano. Porém) ai ~.epública

<<

<Nztpolitana teve vida efêmera.

·

_{_( _;

<R\til"opa Oriental, no desfecho d1:1. Segunda Gl.lerra M!lndíal, a força

-Pe alguma rp.a:neira semelhante à ocupa<;ão das tropas soviéticas na

··

··

···· . ··

·

Tais são as raízes mais remotas do conceito de revolução passiva:

mais parecia uma força de ocupação, _desprovida de simbiose

.-

~ ··-·--.~~ .deexpansãomilitarnapoleôníca, le vando, afe:tToefogo,''na lei

'?, me$mo çorn t-ênues alianças internas junto às :populações

ocupados, a ' idéia e as instituições 4ª Revolução Burguesa.

nostc!Ttton

~olQQs:erv:ai.o•n.to. do Cárcere, escreve Gramsci(l999 CCJDVl: 291 -

·

·.

.

.

.

.

.

·.

·

)Deve-

à)ma ajórmulq crítiarde:Vincen;o .CU()Ç() sobre as 'revoluções quandofoifqrmuladç (após -a trágica experiência da · . · _ ·.· - 4el799) ,l inha um valor de advertência e deveria

.da saga hi~tó:riada revolução burguesa italiana: "(

:u .~·v•,~v .•·•.'-·'~ . · ·

···

·

··.

·. ·

·

nqçíonal de maior energia e de iniciativa revoluçionqri(l

,

· • ·

_, ·~ ----· ·.,

· ·

·

· . qtrav}s do cérebro e : dopâtúco social dos (

ouropeis retorícos

)

)

. numc,rçcmc;er,. ·c·· a:o po_i{tiyq, rt,um programa po/ífiço e numa moral

.escondia

· :qp~endi~r;l~jeÜicéiro 'e a intenção de abdicar e capitular

ircrwr1eaçq s_éria de uma revo/uçêjo_ itali(JfJaprojunçlçzmente

.··

pr_ojitnc/qnu?ntnzacíonal. "

·

·

···

··

.

.

.

~n<uu~"' .essa irqti_ução (revólução. francesa-fíiqsotia clássica alemã),

; ;ifct:;.;imilien Robespierre, o r ei " , Vale observar que da

problema - de ditkíl re~oluçào- , da tradutibilidade de

.Lm,>u.n~:~,,TUI>::.v,u<,;"L· c;íetltífiea em outra. O problema da tradutibilidacte

· .·· •. ~~~)a.través .de uma seotença de Lênin a propósito do ;<JP'J199.C!C!ÇI:t~e···ap<JS.ciaRevoluçãoSoviética~"Vililch (Lênin] escreveu

,

.•.,,,

,<,

·· ,·.,

Deus

. .

uu

" '" ' '' . ·· · -<-

,

'tra,duÚr ' nas línguas européias

n:t<l~ r_ecrüu·_ Em Gramsci . sempre üos depmamo s

a

nossa língua· ·.

'W!<!t(l;l1itit1a{)'e_:: a refonna protestante foi o ancesiTal rude

uniticadllfoí o pm·tador da filosofia

Revolução passiva, portanto, no pensamento dos ilustrados conservad()res, era program<~.político, enquanto para Grarnsci - e também Cuoco -,era um critério de interpretação histórica, visando advertir e instruir as forças popttlares clé todas as 0 pções estratégic:a,s e tMiqts possíwis no ··

curso das

No çaso d<l. elaboraçãp do conceito de revolução passiva, Gramsci pode ser considerado um brilhante legatário do método de análise política in nuce de acontecimentos históricos instaur<~.do por Marx- análise de

conjuntura com base no conceito de luta de classes e das relações de força entre elas - , nas obras primas :teóricas e literárias que são seus três livros sobre a história da França -A luta de classes na França,:018 Brumário de Luís Bonaparte; A GuerraCivilnaFrança(Marx, sd.). Gramscinão imitou simplesmente o Marx historiador e seu método de análise política: foi além do estudo de episódios históricos situados numa linha curta do tempo - as revoluções de 1848, o golpe de Luís BonapaJtc, a Comuna de Páris (os temas de Marx) _,, contribuindo indelevelmente para o desenvolvü:nento do que chamava losofia da práxi~{atrad ição marxista), Da analítica das relações de força de Marx, temos a renovada analítica de Gramsci, nílo mais restritasomente à interpretação (los acontecimentos innuçe, mas projetada num~duração mais longa. Abordar a complex,a problemática histórica condensada no hinôm io revolução-restauração (ou n<~,expressão revoluÇão.passiva) significa encarar, sob uma perspectiva de Jqpga duração, o desafio teórico-prático lançado pelo pensamento liberal-conservador sobre o verdadeiro conteúdo histórico da obra SQCÍetáÍ·ia das reyoJuções, pensamento esse donde sobresS!lCID autores da estirpe argumentativa de um Burke { 1997) e um Tocqueville (1989). Temos aqui, talvez, o principal mérito do pensamento político gramsciano: ele não só foi atento aos argumentos do pensamento liberal- conservador, como promoveu, através do conceito de revolução passiva,

dentro dosargumentos p() Iíticos, históricos e ideológicos

dessa corrente de pensamento, em démarche, 40 que sabemos, ~empar~lha ·

revoluções burgues<~.s.

um desmonte por

até hoje no âmbito da tradição marxista.

2. Quinete Michele( a decepção com t>s resultados das revoluções burguescrs.

Visando escavar as raízes historiográficas da démarché! gramsciana de revolução passiva, comecemos, tematizando Quinet, referência textual, embora na qualidade de fonte indireta, de Gramsci. No entender de um

.

. brasileiro qt•e sempr~ rnt~recc.atenção pela inteligên~ia e erudição,

.-.-."·-···

·

· ··.

,_

·or (1991: J29),-a. qqra :de Quinet foi

.- ·. ·.

.

.

.

''o mais sério trabalho

- · . ·. qrt()~::(além d~ ·'O antigo Reginie e a Revolução '

· '' . Çqnfirúl~•no.s o veredicto de Merquior, mas,

ui11~t11~Q t~tl!)a,um projeto político claro - oqlie .s ,obrava l

+H '~W .R<v,~r~mç,~, ~W'l:'95''Ít•(;)yi.ll~;-~ - ·

· .

.

.

•. binôrnióiiyoluçiio-restauração, nem poderia ser Quínet diferente situava-se para nas um

· ·.·

···

·

·

··

·

· · '"'u•" e republi . yano de Michelct (genial

. francês). Quinet escreveu da fase "parlamentar'' do regime

"-:·-'-'.''"'' "''··· ,~~ ''-J?cl"-'"'· '·" ·~·

intitulado La révolution(2000),

. quase um século de processo da sobrinho de Napoleão transfom1ado

~ !-!··'·•·~"' ~'J'~.-··s "-~-r~~=-'!0 .gr.-\fB -3k~~~c}t~~\}•.m ~ ~('· :~ : ~.-:- :~·~·, tanto · por Quinetcomo por Marx ,

·· das Revoluções Bw=guesas --:-, Qtlinet

·•••·-:·• :

,."''""'"'• ""'.,.,,.,, <

)

•···

•. ·.·· ···_·.·

•. de long~i~~~~~~-u~romantismoe

· histórica de. cânones teóricos rígidos

:- .··•• /

tinha l1I11 tíugírrtcnto especial: o · ···· 0979), tanto quanto pm~aQuinet, francesa, .os nrgan izadores moerg~nte''; um aparelho . Dessa

•.•

•··.

.•.

··. de uma cert;1 esquerdn francesíi da do XX, onde estão, além dos e SQrcL Acríúc;a de tod<)s esses inétaoslíbettários Proudhon e

•autores ~e'fendiama revolução,

. s e.xa.gerps, -ri:laste_rniamo poder

. ,

• •.•• ··.

disciplinada --- comó talvez os .

n~mciadoresco~temporâne~s-

··

. •ca ~; f{!yqhlçaolrestavrl!çno --:: ,

int~ligibilidade à coJnplexa

f~iendo uma periodização

<i '~h~~ _acia revolução é . tidp.

•·· l(9:Z, compreendido desde a te a instauração do regime

· .·.·· lvação Pública cpntra a

·. 792-1794) é o próprio Onde os

contemporâneos da revolução viram o aprofundamento da mesma, Quinet viu a destruição. Não há meio~termo: a obra histórica dos jacobinos foi a ressurreição do espírito. do absolutismo, que comprometeu, desde então,

em maior ou e;:n, metior grau, todo o processo da revolução. Em 1792,

depois do último arroubo·,

das Tuileries, queda do trono e convocação de uma Convenção eleita pelo voto univen>al ( 1Ode agosto de 1792) - , o povo francês saiu de cena e deu lugar ao aparelho administrativo do Estado, para nunca mais voltar

plenamente, a não ser em manifestações espasmódicas, geratrizes de ondas

qtimismo logo desfeüas . 2 Há uma sutil diferença analíticacntreQuinete Michelet, merecedora cmnentá,rio . No verediçto de Quinet, do qual Michelet se afasta, embora

tenha expropriado o clero, a Revolução Francesa não teve o seguimento numa reforma religiosa radical. Não houve um Lutero na Revolução Francesa. O c<:~.tolicismoresistiu,em que pese todas as forças contrárias: a tradição anti clerical iluminista <JeVoltaire e as tentativas anticatólic.~:sdos enragés e hebertistas. " Quinet procumu wsolver orn velho dilema do pensamento liberal ilustrado: como explicar o período jacobino? Como incluí-lo na saga de uma revolução liberal? A resposta era prender-se (!penas em· 1789,

de

popular em Paris, tomada do Palácio

,.insurreição

de

es<: 0 in1a.ndo) c;omo.n~gatiyo,o processa su!Jseqii.e.flte.

Talvez tenha cabido a Tocqueville ( 1989; 2000a; 2000b)/ um contraponto liberal e aristocrático à tradição de republicanismo radical (embora antijacobino) de 1JITI, por exemplo, Quinet, elaborar -.-também no seu recesso político em pleno imp~rio çleNapo!eão IU (laSl-1871), de

1 Não c~1sta recprdar · a periodizaçào mais corrente do

Revolução France$a, ~Otll.lmentesubvertida por Quinet: a chamadawvolução blJrguesa (1789- 1815), compreendida nos processos contraditórios da Tomada da Bastilha em 14 de julho de 1789 até a segunda derrocada de Napoleão I, ern Waterloo, e o exílio na Uha de Santa Helena: c a restauração (1815-J$30); compreendida peJo retorno dos Bourbons- Luís

binômio revolução~re5tauração na

XVlll e Carlos X (Conde D' Artois)

à antiga.ordem aristocrática, que o fez perder o trono através das lutas populares de 1830.

3 Devemos .à leitura de Werneck Vianiw (1997: 09-10; 89-121) u brilhante insight de classificar o pensamento de Tocqueville como uma tentativa de formulação de uma estratégia de revoluç.ão passiva. No presente artigo, porém. avançamos novas hipóteses em assuntos não apordados por Werneck Vianna.

as tentativas fracassadas do último em retomar

~,com

&ECULUM NÚ.MEKO 10

39

ql)Qm tinha sido Ministro qosN~góciosEstrangeiros, mas se opôs ao golpe

Çle Estado de 13 de de;z;empro de 1851 --, o arg4mento mais engenhoso e ··

~ótlsÜçado;:que deu viço ·a .Q1llll()VQtipo de pensame!lto conservador sobre •• âJt~YofuçãoFrancesa,paraa!éf!1das diatrihes defensivas do reacionarismo

·,!(Íli:séqujtq numeroso . ae :autores a~é díspares: Taine, . Renan , Dilthey,

.:Ç::t'tÓii(;o.De~çl~ _-~ntão, o argull1~nto fez fortuna e passo !,I _ a ser repetido por

'f~t!rckhardt,l-ordActon,Pàretq, Çroce, etc. ~expressÕesda a!ta cultura

~úr<?_péia no jin de si~c4t: XIX e n~ alvorada qo século XX :, ou Furet

ú979: 31)eArer:Ídt(l99ó:4~).~·

.

·

··••- :< •·. Qu~tafif1al, é .e~$é<.Ú:guf11ento? $ intetica~enteé o segui11te: observar

·· .·.· ··•· •.·

••·•·· p~o<iu?=i(h,ts,Pel~.ievoluçõesburguesas, à c11sta cje sangue,

.•• , , . ,-F.''"''"''' · ·.s.en;~~i~!i;7!~~teft!!~~:~:::~c~:!~i:i~:~~~~: ~~~~~~:~~

v

,. • ., . y:<

e<., •i •!--~••"'" •'1"-'! .-." '·' ~que tfn}!a]JUJ.S pssemb ias políticas

c.~tl~OJª~Iç}ga.tttt:~e?<to\:ad·a em N(lpÇJieão

III),

.oz{vi um orador

Isv·an~va.·'esta bela cat}ql!ista da Revolução

ny,ey?t::~!lfttfl.l/Qqlte. a céntrali:;Çtçiip é

uma

bela coi:w,

{lJ~l:ÍtJ~fp."qz{~ _l;r :l!,'J!,r~?Pi'J

f.lPs:dfJ!Ye.fgiJrta~

sustent() : que não : uma conquista

Wvq[iiÇ~iQ:•E, pt,l(i<7iJ;l~f4rtc,r,:r~rh1c1.corz,qu;ist·a•. #o ·Çtntigo regime, aliás, a

antigo 1"?_gime que sobreviveu â

lditn iiCtJ fit1e P'oaza <eJJ(;arxajr-"seno novo estado SQ<:ial

•·-••-:-•·•••o;<•,<o.•<••

1989:>77):

conduz à seguinte reflexão: não

'""'""v'~·dos san$~CU.h~ttes_, ·.enragés, ·de

Napoleão, deBabeuf~uni sacrifício

do.s

· ·

·•.<•P~5'"-'···paSSado, mas PQÔC.,.$C evitara repetição

tôJ}.IX:tÇ~qti~V:Jlte létnC •OU a :ienneiue da dúv'ida: ' amel!wr programática

, Ainda mais porque - e esse e o o e:~se:our·<)! argumento de Tocqueviile ( 1989) - , ·ou pela yja -iÍ1dolor,teríamos como profundas do absolutismo na d:iFtan.xa, amesmacentralizaçã,o

,."""''"

às antigas monarquias,

senll~IO.tcc>~consi

,_,,,_,,,·.·,· ·

·. ú, natotalídade , a obra da Revolução,

·

-h.ü'G"'''''"',.,;.

" ->'

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corno

''• '' ·

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··~ .)

oli~~raiismodo temeroso Burke

c

·'

·'

~

-

t~rempassado por cima das

dÓ 'Estado ·

· .

, ·.

,

-,

.,

nem viu nela

.

.

[irecisamente umdivisor de águas entre duas épocas históricas, mas lançou llo mercado das idéias, conforme.expressão de Hirschman (1995: 4 7)- um

fí110 c.:rítico deTocqueville -, a tese da "futilidade' ' da revolução.

Há ·mais um eleÚ1ento novo na tese.da futilidade, ausente em Burke:

a distância110 tempo. Atese da futilidade só pode aparecer como o vôo

noturno da coruja de Míperva: a razão inti;!rpretando,a post~riori,o trabalho realizado pelahistória.

··

No que intitulade "SegqndoJ.ivro" deOantigo regime e arevolução

(71 M 139), Tocquevi!le dedica~sea tentar destàzer o "mito' 1 das profundas