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A JUVENTUDE PRETA E UMA EDUCAÇÃO REVOLUCIONÁRIA: POR UM PROCESSO PAUTADO PELA OCUPAÇÃO DE ESPAÇOS

Abisogun Olatunji Oduduwa

Entendemos por juventude preta os jovens descendentes, em menor ou maior grau, dos africanos trazidos para as Américas durante os quase quatro séculos de tráficos transatlânticos. Esta mesma juventude que se encontra no centro de um debate/programa secular o qual tem como pauta principal o extermínio desta juventude, através de estruturas que os marginalizam, os assassinam brutalmente, quando não pela assimilação, forçada ou não, dos valores estéticos e culturais dos europeus e seus descendentes, fator este que resulta no branqueamento físico, psíquico e cultural. Mediante a estas constatações, acreditamos que uma das formas de frear ou minimizar tais extermínios seria a adoção de uma postura crítica, autoafirmativa e pan-africanista, dentro de uma perspectiva da esquerda revolucionária. Neste sentido, e dentro de uma perspectiva dialética, elaboramos e trabalhamos com a difusão de uma filosofia e uma educação libertária que possibilita a criação de ferramentas, as quais utilizadas diuturnamente, como estilo de vida, podem tirar os pretos, e em especial a juventude, da precária condição material e imaterial em que se encontram. Uma filosofia educacional que tem como objetivo final a ocupação dos mais variados espaços sociais que, historicamente, encontram-se “ocupados” pelos mesmos grupos beneficiados com o tráfico transatlântico de africanos e, consequentemente, a escravização dos mesmos. E se não bastasse, o grupo dominante ainda se beneficia, diretamente, do cruel racismo estrutural existente no Brasil. Realidade social esta que é enxergada por nós como sendo a principal barreira a ser superada.

Diferentemente do que se acreditava e, em muitos casos, ainda se acredita, não vivemos em uma democracia racial, muito pelo contrário, vivemos uma situação de colonialismo interno. Nesta situação, os colonizadores, no caso os brancos, possuem privilégios criados e mantidos pela força do nosso trabalho. Em detrimento disso, nós, os colonizados, somos privados até mesmo de nossa humanidade. Os racistas brancos, através de suas estruturas, utilizam-se de elementos repressivos e persuasivos perpetuando uma condição pré-estabelecida. Resgatar a nossa plena humanidade se faz imprescindível ao pensar qualquer possibilidade de mudança.

Certa vez, o poeta português Fernando Pessoa afirmou que “minha Pátria é minha língua”, negando a nacionalidade imposta e artificialmente constituída. Utilizaremos este referencial teórico, modificando-o, ao afirmar que a nossa Pátria é a nossa pele. Devemos ocupar, a priori, o nosso corpo, as nossas marcas étnicas – cabelo, pigmentação, nariz, boca, corpo, língua, religião, processo histórico e identidade social. Cada um, de nós, no continente mãe ou na diáspora, possuímos uma extensão da África dentro de nós. Devemos cuidar e alimentar este território com nutrientes e conhecimentos. Criar uma espécie de comunidade mental. Nosso corpo é nosso território. Somos desprovidos de terra, mas não de vida e possibilidades.

Este posicionamento deve se configurar em uma luta de guerrilhas, em que o avanço será processos de ocupações dos espaços sociais, como por exemplo, em coletivos, sindicatos, grêmios estudantis, movimentos sociais, igrejas, candomblés, clubes esportivos, escolas, universidades, nas ruas, nos salões, ambientes públicos e privados, partidos políticos, associações de bairros ou de condomínio, entre outros. Ocupar estes espaços e buscar direcionar as pautas, visando atender as nossas demandas e criar um referencial de liderança, sem autoritarismo e dentro de uma perspectiva humanista e igualitária, é uma das perspectivas a partir dos pressupostos. A concretização desta proposta de luta, com eficiência e sem cenas pitorescas ou distorcidas, sem imagens caricaturais, criará uma imagem positiva de um ser humano preto, com orgulho próprio. Lutando as nossas próprias batalhas, seremos vistos como um exemplo a ser seguido. A partir do impacto, o resultado é a criação de uma consciência negra.

A educação e a absorção do conhecimento acumulado na história da humanidade serão de grande

valia, pois temos que dominar o assunto abordado, a epistemologia do tema, a gênese, e não existe outro caminho que não seja o estudo sistemático, aplicado, como também a pesquisa. Ter uma profissão e cursar a universidade deve ser algo primordial. Não podemos dar nenhum passo atrás ou vacilante diante desta situação. Entrar na universidade, mas sem o simplismo ou o conservadorismo do self-made man ou da meritocracia burguesa e liberal, é parte fundamental deste processo. Buscando assim, melhor situar o nosso território no mundo, digo, o nosso corpo. Se o irmão estiver bem alimentado, bem vestido, profissionalmente qualificado, a possibilidade de avanço na luta libertária torna-se mais plausível. Avançar e não acomodar é o preço da liberdade, sempre com total vigilância. Não devemos ser conformistas ou integracionistas. Integracionista no sentido de se integrar por integrar a este modelo de sociedade pautado por uma lógica consumista e em grande medida catastrofista para os seres humanos e para o ambiente. A sociedade capitalista não possibilita uma igualdade plena, então, a partir de uma condição material favorável, uma consciência pan-africanista ativa, a organização coletiva criará mecanismos de superação e de rupturas rumo a uma sociedade igualitária.

É notório o racismo estrutural existente no Brasil, e em outros países com predominância ou não

de populações pretas. Os estigmas e estereótipos contra os pretos, africanos e seus valores culturais, a própria negrofobia, só serão abolidos quando os próprios pretos, conscientes de seu processo histórico e de seus vínculos pan-africanistas, controlarem os meios e modos de produção: terras, matérias-primas, indústria, tecnologia, infraestrutura, comércio, universidades e outros espaços de produção e difusão de

conhecimentos, mídias e outros veículos de comunicação, etc. Enquanto não controlarmos o Estado, com pautas próprias e novos significados sociais, econômicos e políticos, não poderemos exercer coletivamente todo o nosso potencial humano. Este controle deve ocorrer no plano coletivo e não no individual. Entretanto, uma questão que deve ser respondida: Como conquistar este controle? Enquanto não respondermos esta pergunta melhor, enquanto não colocarmos em curso os elementos constitutivos desta complexa resposta, nós devemos avançar e buscar mudanças em nossa realidade histórica e material, numa permanente perspectiva existencialista.