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Pai do Serviço Nacional de Saúde


António Arnaut: "Há quem espere receber o cadáver do
SNS, mas este vai sobreviver"

30.05.2008 - 15h46 Lusa

O antigo ministro socialista e "pai" do Serviço Nacional de Saúde, António Arnaut,


manifestou-se hoje convicto de que o SNS sobreviverá apesar de "haver muita gente à
espera de receber o seu cadáver".

Falando num encontro da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, o antigo ministro


dos Assuntos Sociais, que criou o Serviço Nacional de Saúde (SNS), manifestou-se
preocupado "com os ataques" de que é alvo o sistema público de saúde, mas
esperançado de que os cidadãos não abrirão mão de um direito adquirido e essencial
para o exercício de uma cidadania plena.

"Se os grandes grupos económicos estão a investir na saúde é porque sabem que dentro
de pouco tempo está tudo desmantelado, e o Serviço Nacional de Saúde ficará para os
coitadinhos. Estou muito preocupado com o avanço do neoliberalismo e com a
capacidade de intervenção das grandes companhias majestáticas, como nunca antes",
observou.

António Arnaut recordou que "há 20 anos o SNS cobria 90 por cento da população, e o
resto era a ADSE e pouco mais", acrescentando que hoje "há cerca de dois milhões de
apólices de seguros, porque as empresas obrigam os seus trabalhadores a fazê-las".

"Há uma fuga dos recursos humanos do SNS para o sector privado", referiu, acusando o
antigo ministro da Saúde, Correia de Campos, da "destruição das carreiras médicas",
possibilitando os contratos individuais.

Na sua perspectiva, tem havido "medidas que visam destruir o SNS para o deixar de
forma residual para os coitadinhos".

"O Serviço Nacional de Saúde é uma conquista de Abril, um serviço universal, geral e
gratuito" ou tendencialmente gratuito, recordou.

Para António Arnaut, este princípio, além da força ética que comporta, tem uma força
jurídico-constitucional muito grande, pois será necessária uma concertação de dois terços
dos deputados da Assembleia para o retirar da Constituição da República Portuguesa
pela revisão do artigo 64º.

"No dia em que o PS o faça eu saio do Partido Socialista, do qual sou um dos
fundadores", prometeu, embora tenha a esperança de que isso não irá acontecer porque
o SNS sobreviverá.

Essa esperança radica, quer na reacção do primeiro-ministro ao substituir Correia de


Campos como ministro da Saúde porque os cidadãos "tinham perdido a confiança no
SNS", quer pela "sublevação popular", que constituíram as reacções às medidas que
estavam a ser introduzidas.

"Há hoje uma consciência cívica que pode impedir o Governo de restringir os direitos
conquistados. Por isso estou optimista. É difícil que um direito conquistado seja retirado",
sublinhou, frisando que numa sociedade em que a pobreza aumenta só o Estado poderá
garantir a igualdade de acesso à saúde, um direito que radica na ideia de dignidade da
pessoa humana.

A intervenção de António Arnaut enquadrou-se num encontro realizado durante o dia de


hoje pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, intitulado "Gerir em Tempos de
Mudança".

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