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ANO 14 | Maio 2016 R$ 19,90 | 4,90 €

www.sciam.com.br

Cérebro

amentas de pedra ré-história moldou a inteligência da espécie humana

O

Crise econômica e explosão do turismo ameaçam santuário global da biodiversidade

O

O

Células projetadas sob medida vão diagnosticar doenças e reparar danos ambientais

O

Tempo de vida da partícula é chave para entender mistérios do Universo

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ISSN 1676-9791

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9

BRASIL

 

PSICOLOGIA COGNITIVA

BIOENGENHARIA

24

39

Computação vital

 

Contos de um neurocientista da Idade da Pedra

Ao afiar a habilidade de fazer macha- dos enquanto escaneiam os próprios cérebros, pesquisadores estudam como a cognição se desenvolveu. Dietrich Stout

Biólogos sintéticos estão perto de empregar células para fazer diagnósti- cos de doenças humanas e reparar danos ambientais. Timothy K. Lu e Oliver Purcell

ECOLOGIA

FÍSICA DE PARTÍCULAS

44

Debandada

32

O enigma do nêutron

em Galápagos

Dois experimentos de precisão discor- dam sobre quanto tempo os nêutrons sobrevivem antes de decair. A discre- pância reflete erros de medidas ou indica algum mistério mais profundo? Geoffrey L. Greene e Peter Geltenbort

Um aumento incessante no número de visitantes pode arruinar o famoso foco de biodiversidade em apenas alguns anos. Paul Tullis

MAIO 2016

ANO 14

ANO 14 | n o 168 R$ 1990 | 4 90 €

Cérebro

e

amentas de pedra ré-história moldou a inteligência da

espécie humana o debate sobre as origens do homem

GALÁPAGOS

Crise econôm ca e explosão do turismo ameaçam santuário global da biodiversidade

BIOINFORMÁTICA

Células projetadas sob medida vão diagnosticar doenças e reparar danos ambientais

Ma o 20 6

www ciam.com.br

NÊUTRON

Tempo de vida da partícula é chave para entender mistérios do Universo

NA CAPA

A fabricação de ferramentas cada vez mais Ilustração de Mark Ross.

9

12

20

BRASIL

SEÇÕES

5

Carta do editor

6

Cartas

CIÊNCIA EM PAUTA

7

Sobre o lixo nuclear

Trinta anos após Chernobyl, os EUA devem encarar seus desafios de segurança na área. Pelo Conselho de Editores da Scientific American

TECNOLOGIA

8

Design silencioso

Algumas pequenas mudanças poderiam facilitar o uso de mídias digitais. David Pogue

 

FÓRUM

9

Chernobyl não matou a energia nuclear

Acidente apenas contribuiu para torná-la uma opção polêmica contra as mudanças climáticas. Frank von Hippel

12

Avanços

Onde encontrar meteoritos em casa

Sete experiências de carona no maior foguete da Nasa

O

meteorologista responsável pelo Monte Everest

Uma tumba no Tibete revela um trecho antes desconhecido da Rota da Seda

CIÊNCIA DA SAÚDE

18

O paradoxo da medicina de precisão

As primeiras tentativas de individualizar tratamentos usando DNA obtiveram sucessos ambíguos, e levantam dúvidas sobre iniciativa que irá impulsionar pesquisas. Jeneen Interlandi

DESAFIOS DO COSMOS & CÈU DO MÊS

20

A controvérsia da superterra superquente

Dois times enxergaram realidades bem diferentes em 55 Cancri e.

21

Mercúrio transita pelo disco solar

Fenômeno, que exige cuidados especiais para ser observa- do, será visível no Brasil do começo ao fim. Salvador Nogueira

CIÊNCIA EM GRÁFICO

50

Viagens com o Zika

O vírus transmitido pelo mosquito migrou para os

Estados Unidos de várias partes do mundo. Mark Fischetti

GREGORY MILLER

Pablo Nogueira é editor da .

CARTA DO EDITOR

Novos formatos e uma polêmica pré-histórica

Olá! Como recém-chegado ao cargo de editor da edição brasileira de Scientific American, gostaria de começar me apresentando a vocês, leitores. Me chamo Pablo Nogueira, e desde 1998 atuo como jornalista na área de ciências. Trabalhei ou colaborei com diversos veículos, a maior parte deles, revistas: somando as temporadas em Veja, Galileu e Unesp Ciência foram quase 14 anos. Conto isso para deixar claro que, para mim, fazer revista é uma paixão. E fico especialmente contente em poder exercer essa paixão a bordo de uma publi- cacão com o perfil e a qualidade de nossa Sciam. Mi- nha missão aqui, leitor, é colaborar para que você possa mergulhar, com uma profundidade maior, no vasto oceano da produção científica contemporânea e, ao mesmo tempo, navegue este conteúdo com o máximo de facilidade e clareza. Não é por acaso que uso a palavra navegar aqui. Esta é a pri- meira edição da Sciam Brasil que será exclusivamente digital. A partir dela, vamos alternar, mês a mês, estes números digitais com as nossas edições de papel, que, aliás, desde o mês passado ganharam formato premium e passaram a ter 100 páginas. Para os assinantes nada muda: terão direito a ambas. E as edições de papel também poderão ser adquiridas em formato digital. Bas- ta ir ao nosso site e encontrar lá os caminhos para baixar nosso novo aplicativo. Convido vocês a explorar esses novos formatos para que constatem, por si mesmos, que a mudança é apenas de suporte: a qualidade editorial da Sciam permanece igual. Bem, uma vez feitas as apresentações, vamos à nossa capa do mês. O antropólogo Dietrich Stout, da Universidade Emory, nos EUA, recorreu às mais modernas técnicas de imageamento cerebral para analisar uma ideia que chegou a ser popular na pesquisa sobre

evolução humana, mas depois foi quase descartada: a de que a pro- dução de ferramentas de pedra teria contribuído decisivamente para o desenvolvimento cognitivo dos homininis, conjunto que in- clui a espécie humana e seus ancestrais extintos. Stout formulou novos argumentos para a antiga hipótese, ao de- monstrar experimentalmente, que, quanto mais complexa a ferra- menta lítica produzida, maior a capacidade cognitiva requerida. Ou seja: é possível que, já nas priscas eras do Paleolítico Superior, remontando a 2 milhões de anos, o desafio de aprimorar a tecnolo- gia de então tenha contribuído para nos tornar mais inteligentes. Quem sabe o que ocorrerá com os cérebros das criancinhas que hoje brincam com tablets e amanhã vão projetar computadores quânticos? Enfim, mais uma comprovação de que pensar com pro- fundidade é ótimo para o seu cérebro. E aqui na Sciam, sua ginás- tica mental é garantida. Continue com a gente!

ALGUNS COLABORADORES

 

professor emérito de relações

é

Jeneen Interlandi é

Paul Tullis é editor na

Peter Geltenbort é

Salvador Nogueira é

constrói biomateriais vivos.

David Pogue é colunista- âncora do Yahoo Tech.

Dietrich Stout é professor de antropologia na Universidade Emory. Seu foco de pesquisa sobre a fabricação de ferra- mentas de pedra no Paleolíti- co integra métodos experi- mentais de diversas disciplinas, variando da arqueologia à imagem cerebral.

Frank von Hippel é pesquisador sênior em física e

públicas e internacionais do Programa sobre Ciência e Segurança Global da Universidade de Princeton.

professor de física da Universidade do Tennessee e trabalha na Fonte de Espalação de Nêutrons do Laboratório Nacional de Oak Ridge. Ele estuda as proprie- dades dessas partículas há mais de 40 anos.

jornalista freelance especializada em assuntos ambientais e de saúde.

Oliver Purcell é associado de pós-doutorado no Grupo de Biologia Sintética do MIT. Sua pesquisa abrange muitas áreas da biologia sintética, da concepção de partes biológi- cas sintéticas a abordagens computacionais inovadoras para o design racional de sistemas biológicos.

TakePart, revista digital de notícias. Ele já escreveu para , e , entre outras.

cientista do Instituto Laue-Langevin, em Greno- -ble, França, onde utiliza uma das fontes de nêutrons mais intensas do mundo para pesquisar a natureza básica dessa partícula.

jornalista de ciência especializado em astronomia e astronáutica.

é professor de Biologia Sintética no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que integra circuitos computacio- nais e de memória em células vivas, aplica biologia sintética a importantes problemas médicos e industriais, e

Ele é ganhador de um prêmio Novo Inovador da Diretoria dos Institutos Nacionais de Saúde (National Institutes of Health Director’s New Innovator Award), entre outros. Em 2014, cofundou a empresa start-up de biologia sintética Synlogic.

Desenvolvido por Yasmim Reis

CARTAS

REDACAOSCIAM@EDITORASEGMENTO.COM.BR

A BUSCA PELO PLANETA X

"A busca pelo planeta X" e o texto sobre a busca pelas ondas gravitacio- nais são as duas melhores publicações desta edição

de março/2016 (nº 166). As ondas gravitacionais são mais uma fonte, além da luz, para descobrir os segre- dos do Universo, e a busca pelo Planeta X é mais um mistério da astronomia para ser revelado. Ambos os temas são parecidos, pois cada um é uma “perturbação” no imenso Cosmos.

EDIÇÃO 166

CORREÇÃO

Diferentemente do que foi informado em “A busca pelo planeta X” , o diâmetro do planetoide Sedna é de 1.000 km.

POR RESTRIÇÃO DE ESPAÇO, A REDAÇÃO TOMA A LIBERDADE DE ABREVIAR CARTAS MAIS EXTENSAS.

Brasil

PRESIDENTE Edimilson Cardial DIRETORIA Carolina Martinez, Marcio Cardial, Rita Martinez e Rubem Barros

ANO 14 – MAIO DE 2016 ISSN 1676979-1

Rubem Barros EDITOR Pablo Nogueira EDITOR DE ARTE João Marcelo Simões ESTAGIÁRIA Isabela Augusto (web) Luiz Roberto Malta e Maria Stella Valli (revisão); Aracy Mendes da Costa, Laura Knapp, Suzana Schindler (tradução)

PROCESSAMENTO DE IMAGEM Paulo Cesar Salgado PRODUÇÃO GRÁFICA Sidney Luiz dos Santos

COMUNICAÇÃO E EVENTOS GERENTE Almir Lopes almir@editorasegmento.com.br

ESCRITÓRIOS REGIONAIS:

Brasília – Sonia Brandão (61) 3321-4304/ 9973-4304 sonia@editorasegmento.com.br Paraná– Marisa Oliveira (41) 3027-8490/9267-2307 parana@editorasegmento.com.br

GERENTE Paulo Cordeiro Diego de Andrade

DIRETORA Carolina Martinez GERENTE Ana Carolina Madrid EVENTOS Lila Muniz

Jonatas Moraes Brito Lucas Carlos Lacerda e Lucas Alberto da Silva COORDENADOR DE CRIAÇÃO E DESIGNER Gabriel Andrade

ASSINATURAS Mariana Monné Cinthya Müller EVENTOSASSINATURAS Ana Lúcia Souza VENDAS GOVERNO Cláudia Santos Cleide Orlandoni

FINANCEIRO Cinthya Müller FATURAMENTO Weslley Patrik CONTAS A PAGAR Simone Melo

SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL é uma publicação mensal da Editora Segmento, sob licença de Scientific American, Inc. SCIENTIFIC AMERICAN INTERNATIONAL Mariette DiChristina Fred Guterl Ricki L. Rusting Mark Fischetti Josch Fischman, Seth Fletcher, Christine Gorman, Clara Moskowitz, Gary Stix, Kate Wong Michael Mrak Monica Bradley Steven Inchcoombe Michael Florek

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UM BRINDE À CIÊNCIA

Em 2016, o festival internacional de divulgação científica Pint of Science chega a sete cidades brasileiras

BeloHorizonte (MG), Campinas (SP), Dourados (MS) Ribeirão Preto (SP), Rio de Janeiro (RJ), São Carlos (SP) e SãoPaulo(SP)

Nos dias 23, 24 e 25 de maio você é nosso convidado especial para um brinde à ciência no Pint of Science Brasil

Confira a programação completa no site www.pintofscience.com.br

Sobre o lixo nuclear

Trinta anos após Chernobyl, os EUA devem

Dos editores

Abril marcou o 30º aniversário do pior desastre nuclear do mundo, o incêndio do reator da usina de Chernobyl, na Ucrânia, na antiga União Soviética. Mais de 300 mil pessoas tiveram de abandonar o local, e gerou-se uma área de dezenas de quilômetros de extensão onde os níveis de radiação permanecem altos até hoje. É pouco provável um grave acidente com um reator nuclear nos Estados Unidos e em outros países que utilizam instalações seguras. Mas enfrentamos outro perigo que é, talvez, mais ameaça- dor: o acúmulo de lixo radioativo. Os EUA têm hesitado sobre esse perigo claro que se arrasta há décadas, empurrando irresponsavel- mente o problema com a barriga sem um futuro definido. Os resíduos de combustível nuclear gerado pelas usinas emiti- rão radiação prejudicial por centenas de milhares — até milhões — de anos. Cerca de 70 mil toneladas de lixo nuclear estão armazena- das atualmente em 70 locais espalhados por 39 estados dos EUA. Um em cada três cidadãos do país num raio de 80 km de uma detas instalações. Os resíduos, quentes por causa do decaimento radioativo, ficam em piscinas profundas de água ou em “cascos secos” de concreto e aço assentados sobre plataformas reforçadas. Acidentes ou ataques terroristas poderão esvaziar as piscinas o quebrar os cascos, com o risco de que os rejeitos expostos se incen- deiam, espalhando fuligem radioativa e afetando a cadeia alimen-

CIÊNCIA EM PAUTA

OPINIÃO E ANÁLISE DO CONSELHO EDITORIAL DA SCIENTIFIC AMERICAN

tar, numa catástrofe semelhante à de Chernobyl. À medida que os anos passam e o lixo segue guardado em piscinas e plataformas abarrotadas, o risco só tende a aumentar. Uma solução satisfatória para essa situação inaceitável vem sendo discutida há mais de 30 anos. A lei sobre Políticas de Rejei- tos Nucleares de 1982 criou procedimentos para o descarte perma- nente de lixo nuclear do país, e levou à escolha, em 1987, da monta- nha Yucca, um pico estéril no deserto de Nevada, como sítio para um depósito geológico profundo a ser erguido e operado pelo Departamento de Energia dos EUA (DoE). Em Yucca, o combustível residual conservado em recipientes herméticos de aço seria selado dentro de túneis acima do lençol freático para minimizar a corrosão e possíveis vazamentos de material radioativo, mesmo por períodos geologicamente longos. Mas diante da oposição dos cidadãos de Nevada, bem como de incertezas científicas sobre a adequação geológica, o presidente Barack Obama suspendeu o debate em 2010. Hoje o destino do projeto segue no limbo. Além do perigo, a falta de um depósito traz dúvidas sobre a energia nuclear como ferramenta viável de baixa emissão de carbono para mitigar as mudanças climáticas. Caso o projeto Yucca Mountain seja desativado, o DoE buscou uma variada estratégia de manejo de lixo nuclear que inclui pla- nos para consolidar instalações de armazenamento provisório, testes de perfuração profunda como técnica de estocagem de lon- go prazo, e a criação de protocolos de seleção de locais “baseados em consenso” para obter apoio de prefeituras e estados. Mas com essas medidas não iremos muito mais longe. Especialistas concor- dam que um depósito geológico é a única solução viável de longo prazo para descarte do lixo nuclear comercial. Criar um depósito subterrâneo é possível, tanto política como cientificamente. A Finlândia mostrou isso ano passado ao aprovar a construção das instalações de Onkalo que deverá se tornar o pri- meiro depósito geológico para combustível usado quando come- çar a funcionar na década de 2020. E até nos Estados Unidos, a Usina Piloto de Isolamento de Resíduos Nucleares (WIPP) no Novo México, armazena atualmente resíduos da produção de armas nucleares. (O WIPP não foi planejado nem aprovado para armazenar combustível usado.) Logo outro presidente ocupará a Casa Branca e haverá nova chance de tratar do lixo nuclear. A decisão de encerrar o projeto da montanha Yucca precisa ser revista, e a escolha e caracterização de sítios alternativos precisam ser muito aceleradas. Nesse ínterim, mais resíduos de combustível devem ser levados de piscinas res- friadas para cascos secos, que oferecem melhor proteção. Se a busca de sítios baseada em consenso falhar, o governo pre- cisa exercer o seu poder para vencer a oposição local, em prol do bem comum, e criar um depósito geológico profundo. Quer o pró- ximo presidente ser a favor ou contra a energia nuclear, ele precisa agir com firmeza para evitar envenenar nosso futuro comum.

TECNOLOGIA

Design silencioso

David Pogue

Já tentou cancelar um serviço no site de uma empresa? Você procura por todo lado e não encontra a opção Cancelar. É como se tivesse sido escondida de propósito. Você acabou de sentir o poder do design da interface. E à medi- da que mais objetos do dia a dia tornam-se computadorizados — carros, elevadores, fogões, refrigeradores — os designs de interface bons ou maus (e ardilosos) serão cada vez mais importantes. A era dos smartphones tornou o desafio ainda maior. É extremamente difícil comprimir uma quantidade enorme de aplicativos no espa- ço limitado da tela. Milhões de pessoas se culpam, confundidas por designs de sof- twares terríveis. “Acho que sou tapado”, resmungam. “Devo ser uma espécie de ludista.” Mas se o controle não funciona como deveria, ou não fica onde deveria, é claro que não é culpa sua, mas dos designers. É hora de o design de interface adentrar o debate público, e ser visto como algo tão importante quanto os custos ou a assistência ao cliente. Às vezes, opções esquisitas do design são propositais. Não é por acaso que o botão Registrar-se (para novos clientes) costuma ser muito mais visível que o botão Login (para quem já é cliente).

8 Scientific American Brasil | Maio 2016

David Pogue é colunista-âncora do Yahoo Tech e apresentador das minisséries na rede pública de tevê PBS.

Mas, em muitos casos — mas muitos mesmo — parece que os designers de interfaces ruins simplesmente não raciocinaram. Por isso, na esperança de fazer essa discussão avançar, eu apresento algumas sugestões sutis para melhorar os designs de softwares. São conselhos para os designers, mas também para todos nós, para serem usados como parâmetro para avaliar a qualidade do trabalho que realizam. Ao preencher seu endereço num site, geralmente você é solicitado a escolher o nome de seu país num menu. Se você vive no Brasil, ótimo, letra B, mas se você vive nos Estados Unidos, é preciso antes rolar por centenas de países em ordem alfabética! A internet é uma aldeia global. Mas de longe, o maior número de visitantes on-line vive na China, Índia, e nos EUA. Os nomes desses países não deveriam estar logo no começo do menu? Melhor ainda: por que o campo País não sabe onde você está? (Como os anúncios na internet deixam claro, é trivial para um webdesigner descobrir isso.) Lembra-se do organizador de bolso PalmPilot? Naquela telinha, o aplicativo da agenda de endereços exibia um destacado botão Novo, e a opção Apagar esta- va escondida dentro de um menu. Um engenheiro da Palm me explicou por quê: é mais comum pessoas entrarem na sua vida do que saírem. Usamos a função Apagar só quando alguém morre, se muda ou nos exclui. Um clique é sempre mais fácil de aprender, e de lembrar, do que vários. Um exemplo clássico: se houver apenas duas ou três opções — digamos, Hibernar, Reini- ciar e Desligar — não devem ser colocadas num menu pop-up. Dei- xe-as visíveis na tela: há espaço. Em geral, menus pop-up, deve- riam ser o último recurso, pois ninguém sabe que opções ele contém até que se resolve a clicar. E esse já é outro passo. Geeks veteranos ainda riem da louca ambiguidade das velhas caixas de diálogo do antigo Windows que mostravam três botões: Abortar, Repetir e Falhar. Adivinha? Seus descendentes estão aí. Eu apostaria uma grana alta que muitos usuários do Windows ainda ficam confusos diante das opções OK ou Aplicar nas caixas de diálogo — qual é a diferença? As palavras também são importantes em outras situações: um desenho vale mais que mil palavras, mas não quando se trata de um ícone que mostra um rabisco críptico sem nenhuma legenda. Gente! Rotulem seus ícones com palavras. Muitos programadores são melhores em codificar do que em escrever, e tudo bem. Mas alguém que sabe escrever melhor do que codificar poderia dar uma boa olhada nisso, antes de se dar o software por terminado. Aqui estão quatro dicas para melhorar os designs de interface. Na próxima vez que se sentir frustrado diante de um aparato tecno- lógico lembre-se: fique fora disso. Pode não ser culpa sua.

Frank von Hippel é pesquisador sênior em física e professor emérito de relações públicas e internacionais do Programa sobre Ciência e Segurança Global da Universidade de Princeton.

Chernobyl não matou a energia nuclear

Frank von Hippel

À 1:24 h, de 26 de abril de 1986, explosões estouraram

a tampa e o teto da unidade 4 do reator nuclear

de Chernobyl, na Ucrânia, na ex-União Soviética, espalhando material radioativo na atmosfera. O fluxo, produzido por um incêndio dentro do núcleo do reator, se espalhou em todas as direções por mais de uma sema- na. No final, uma área de 3.110 km 2 estava contaminada por césio 137, num nível tão alto que exigiu evacuação. Superficialmente, parece razoável concluir que o medo gerado pelo desastre indis- pôs a opinião pública com a energia nuclear — com tan- to vigor que mesmo três décadas depois, há sérias dúvi- das se ela poderia ser uma opção importante aos combustíveis fósseis que ameaçam o clima. Nos 15 anos antes do acidente, 20 novos reatores, em média, começaram a funcionar

a cada ano. Cinco anos depois, a média caiu para quatro por ano. Mas a história é mais complexa. Os efeitos sobre a população, embora importantes, não foram devastadores. Para além da área evacuada, estima-se que a radiação causará dezenas de milhares de casos de câncer por toda a Europa por mais de 80 anos. Pode parecer muito, mas é apenas um acréscimo imperceptível na taxa geral de incidência de câncer. Com exceção do câncer de tireoide, causado pela ingestão de iodetos radioativos: houve epidemias perceptíveis (felizmente, com apenas de 1% a 2% de casos fatais) nas regiões mais afetadas da Bielorrússia, Rússia e Ucrânia. No entanto, apesar do número previsto de mortes por câncer após os desastres de Chernobyl e da usina de Daichi, em Fukushi- ma, em 2011, a energia nuclear ainda parece mais segura que o carvão, se vista pelo número médio de óbitos por unidade de ener-

FÓRUM

FRONTEIRAS DA CIÊNCIA COMENTADAS POR ESPECIALISTAS

gia elétrica gerada. Segundo um estudo de 2010 do Conselho Nacional de Pesquisa, se em 2005 os 140 reatores nucleares dos EUA à época tivessem sido substituídos por usinas a carvão, o aumento da poluição do ar teria causado milhares de mortes pre- maturas a mais, anualmente. Porém, as pessoas temem mais o impacto a longo prazo da radiação do que os efeitos da poluição do ar. Uma pesquisa sobre o bem-estar da população ucraniana, 20 anos após Chernobyl, mostrou que uma dose extra de radiação, equivalente a uma exposição ao background natural por um ano, associava-se a menor satisfação com a qualidade de vida, a mais diagnósticos de transtornos mentais e à redução na expectativa de vida subjetiva. Tais medos contribuíram para a queda na construção de novas usinas pós-Chernobyl, mas houve outras razões. Praticamente na mesma época do acidente houve uma freada no crescimento do consumo de eletricidade em países desenvolvidos, porque o preço se estabilizou. Em 1974, a Comissão de Energia Atômica dos EUA projetava para 2016 uma demanda equiva- lente à energia produzida por quase três mil grandes reatores. Hoje, apenas 500 dessas usinas ge- rariam toda eletricidade que con- sumimos em média, embora uma capacidade maior possa ser necessária nas horas de pico. Outra razão é que, ao contrário das alegações dos anos 1950 de que a energia nuclear seria “barata demais para ser medida”, ela é cara. Os custos dos com- bustíveis são baixos, mas os de construção, enormes. Em especial na América do Norte e na Europa: de US$ 6 bilhões a US$ 13 bilhões por reator. Essa despesa se deve, em par- te, à inclusão de padrões de segurança mais rigorosos, mas tam- bém ao fato de que, com menos usinas em construção, há menos tra-balhadores capazes de construí-las, levando a atrasos onerosos para corrigir erros. Hoje, o futuro está principalmente nas mãos da China. Cerca de metade dos reatores em construção desde 2008 ficam lá, e a indústria nuclear chinesa está propondo proje- tos em outros países. Contudo, a taxa de construção chinesa ainda está muito abaixo da dos EUA e da Europa Ocidental nos anos 1970, enquanto o consumo mundial de eletricidade triplicou. A Agência Internacional de Energia projeta que em 2040 o percen- tual nuclear na geração de eletricidade na China será apenas 10%. Logo, a energia nuclear tornou-se um ator útil, porém, relativa- mente pouco relevante, na escala necessária para que a humani- dade abandone combustíveis fósseis. Chernobyl prejudicou seus projetos, mas não foi a única razão para o declínio da tecnologia.

INFORME PUBLICITÁRIO

ED. 04 - MAIO 2016

Brasil quer estar no patamar de pesquisas de ponta contra Zika

O governo lançou, em março, as ações do eixo de

desenvolvimento tecnológico, educação e pesquisa

do Plano Nacional de Enfrentamento ao Aedes aegypti

e à Microcefalia, com recursos de quase R$ 1,2 bilhão.

Os recursos serão aplicados em cinco frentes: diagnóstico;

controle vetorial; vírus zika e relação com doenças e agravos, como microcefalia e síndrome de Guillain-Barré; desenvolvimento de vacinas e tratamentos, a exemplo de um contrato de R$ 200 milhões estabelecido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia

e Inovação (MCTI) e Ministério da Saúde (MS) com o Instituto

Butantan para imunização à dengue; e inovação em gestão de serviços de saúde, saneamento e políticas públicas.

Vinte editais para financiamento de pesquisas serão lançados. Estão previstos R$ 305,8 milhões para 2016, R$ 162,2 milhões para 2017 e R$ 136,2 milhões para 2018. Para os anos seguintes, o plano prevê R$ 44,9 milhões para custear toda a duração de bolsas de doutorado e pós-doutorado, por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCTI) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC).

Eixo de enfrentamento

As medidas começaram a ser discutidas no fim de 2015 no MCTI, em parceria com o MEC, MS, Casa Civil, BNDES, Capes, CNPq, Finep, institutos e pesquisadores. São parte de um projeto ímpar, que vai colocar o Brasil em um patamar de pesquisa de ponta, na área de combate à zika, à dengue, à chikungunya e seus vetores. Os resultados desse eixo de enfrentamento vão permitir ao governo brasileiro proteger, com mais eficácia, a saúde da nossa população.

INFORME PUBLICITÁRIO

INFORME PUBLICITÁRIO
INFORME PUBLICITÁRIO A lei que aumenta os percentuais de adição de biodiesel vegetal ao óleo diesel

A lei que aumenta os percentuais de adição de biodiesel vegetal ao óleo diesel fóssil, usado como combustível para vários tipos de veículos, foi sancionada pelo

governo. O índice da mistura passará dos atuais 7% para 8% até 2017, com o incremento de um ponto percentual a cada 12 meses.

Com isso, o índice passará para 9% até 2018 e para 10% até 2019, podendo chegar a até 15%, mediante testes. A medida representa uma garantia de demanda para o Brasil, segundo maior mercado consumidor de biodiesel do mundo.

Essa nova lei representa avanços importantes para o país em muitos setores como a agricultura familiar, a agricultura comercial, as usinas produtoras de biodiesel, o consumidor e o meio ambiente. A expectativa é que a flexibilidade de

combinação acarrete preços mais baratos para o combustível.

O Brasil assumiu compromissos ambiciosos na última

Conferência do Clima, a COP 21, em Paris, tanto para a redução

de

emissões quanto para a ampliação das energias renováveis

na

matriz energética nacional. A nova lei vai ajudar o país a

cumprir esses compromissos.

Biodiesel, combustível renovável e biodegradável

O biodiesel pode ser produzido a partir de plantas como o

pinhão-manso e a palma. Atualmente, a soja é uma fonte de energia renovável que produz menos danos ambientais. Ele também pode ser produzido a partir de gordura animal.

A previsão do tempo é uma ferramenta importante

para uma série de atividades. Seja para agricultores

planejarem plantios e colheitas de culturas, seja para

prevenir possíveis desastres naturais nos perímetros urbanos. Os meteorologistas buscam, então, fazer previsões cada vez mais precisas para dar subsídios exatos para a população. Para tanto, se valem de softwares e códigos computacionais complexos. Um deles é o Brazilian Developments on the Regional Atmospheric Modeling System (Brams), desenvolvido pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe/MCTI). Com a nova versão, recentemente disponibilizada, a Brams 5.2, é possível fazer previsões mais precisas em toda a extensão da América do Sul. O principal diferencial desse sistema, de acordo com o pesquisador do Cptec Saulo Freitas, é que ele unifica os modelos de previsão do tempo e da qualidade do ar que a instituição utiliza atualmente. Outro ponto é que o Brams 5.2 permite uma avaliação simultânea do impacto das queimadas no ciclo de carbono. Em resumo, a ferramenta contabiliza fatores físicos, químicos e o ciclo de carbono para prever o clima.

“Por incluir processos físicos e biogeoquímicos mais realisticamente representados e integrados consistentemente em um único sistema de modelagem, temos condições de fazer uma previsão climática mais precisa. Esse sistema unifica diversos módulos, trazendo um sistema de modelagem de processos na atmosfera totalmente consistente, incluindo retroalimentações entre a superfície, atmosfera e biogeoquímica. Por isso, chegamos ao estado da arte”, explicou Saulo Freitas. “Isso significa que o Brasil está no estágio mais avançado da previsão climática.” Do menor para o maior Segundo o pesquisador, o Brams 5.2 permite uma avaliação mais regionalmente localizada das condições climáticas. É possível fazer previsões para áreas de até cinco quilômetros com antecedência de um dia. Já as análises mais completas – que levam em conta os fatores biogeoquímicos – servem para áreas de resolução de 20 quilômetros para um período de mais de três dias de antecedência. Juntando todas essas informações, é possível montar um mosaico de previsão climática para toda a América do Sul. A questão da delimitação da área é fundamental para a previsão do tempo. Isso porque quanto maior a área, maior a possibilidade de variação de cenários.

a área, maior a possibilidade de variação de cenários. twitter.com/MCTI facebook.com/SintonizeMCTI www.mcti.gov.br

twitter.com/MCTI

facebook.com/SintonizeMCTI

www.mcti.gov.br

AVANÇOS

Os leões do Parque Nacional Serengeti são considerados a única grande população no Leste da África que não está em declínio.

12 Scientific American Brasil | Maio 2016

MICHAEL NICHOLS Getty Images

CONQUISTAS EM CIÊNCIA, TECNOLOGIA E MEDICINA

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• Uma tumba no Tibete revela um trecho antes desconhecido da Rota da Seda

CONSERVAÇÃO

Leões no limite

Em 2015, um único leão morto, Cecil, tomou conta do noticiário. A caça a troféus é sempre complicada, mas o Panthera leo enfrenta proble- mas ainda maiores do que caçadores ricos com grandes armas. Classificados como ameaçados, os leões sofrem com a perda do hábitat, diminuição de presas, matança retaliatória por perdas perce- bidas ou reais de vidas humanas e rebanhos, caça furtiva por remédios tradicionais, e outros pro- blemas. Na África, esses grandes felinos foram relegados a apenas 17% de sua população históri- ca, e apenas um grupo sobrevive em outro local, isolado na Índia. Nova pesquisa revela que, ape- sar de o estado dos leões africanos parecer terrí- vel, na realidade, em alguns locais eles estão pros- perando. Mas essas histórias de sucesso não são tão simples quanto parecem, e o bem-estar futuro dos leões africanos não sairá barato. Apesar de o rei da selva ser bem estudado, a maioria das pesquisas se concentrou em popula- ções individuais, e não na espécie inteira, reduzi- da talvez a apenas 20 mil indivíduos. Combinan- do esses dados, os pesquisadores agora têm uma visão continental do estado do predador mais icô- nico da África. No último estudo desse tipo, uma equipe liderada pelo zoólogo Hans Bauer, da Uni- versidade de Oxford, compilou levantamentos sobre 47 populações de leões feitos nos últimos 20 anos. Eles descobriram que cada uma das nove populações na África Ocidental, exceto uma, estão em declínio (e é possível que duas estejam local-

AVANÇOS

Se os gestores na África tivessem a mesma verba que o Parque Nacional Yellowstone, poderiam bancar populações médias de leões não cercados com dois terços de seu tamanho potencial, um passo à frente do status quo atual

mente extintas). Os leões também não vão bem no Leste da África; lá, a população do Serengeti é o único grande grupo para o qual há previsões otimistas. A estimativa conservadora é de 67% de chance de que a

população de leões do Oeste da África caia

à metade em 20 anos, e de 37% para o Les-

te da África. A análise também revelou um lampejo de esperança: a maioria dos leões na região sul está prosperando. Nessa parte do continente, “é bem provável que as populações sobrevivam”, diz Craig Packer, da Universidade de Minnesota, que orien- tou o estudo, recentemente publicado em Proceedings of the National Academy of Sciences USA. Por quê? Ou eles vivem em desertos tão inóspitos, onde humanos representam poucas ameaças, ou vivem em parques e reservas cercados. Mesmo pequenas reservas cercadas têm valor de conservação, segundo Peter

A. Lindsey, da organização de conserva- ção Panthera, que não participou do estu- do. “Qualquer área que conseguirmos colocar sob proteção pode contribuir para

a conservação. Quanto mais, melhor”, diz.

As cercas permitem aos leões e outros ani- mais selvagens sobreviver em fragmentos de terra nos quais, de outra maneira, seria impossível preservar grandes mamíferos, pois elas evitam conflitos com humanos, rebanhos e agricultura. Em vários luga- res, a única razão pelo qual as áreas de conservação podem servir para restaurar as populações de alguma forma é porque foi assegurado às comunidades locais que essas barreiras vão mantê-las seguras. Mas nem todos os biólogos creem que as cercas sejam a tábua de salvação. Leões

confinados fazem apenas “contribuições limitadas à funcionalidade do ecossiste- ma”, escreveram Bauer e seus colegas no estudo. Será que as cercas fazem da paisa-

14 Scientific American Brasil | Maio 2016

gem um tipo de zoológico embelezado, e dos leões, uma atração turística cara? Se a área cercada for grande — o Par- que Nacional Kruger, na África do Sul, cer- cado em sua maior parte, tem quase a área de Nova Jersey — então os leões ainda podem agir como predadores de topo e regular o ecossistema, controlando popu- lações de antílopes, búfalos e outros ungu- lados, o que ajuda a manter as comunida- des vegetais. Apesar de suas fronteiras artificiais, “ninguém duvida de que o Kru- ger seja um ecossistema real, com proces- sos reais de ecossistema nele”, diz Packer. A maioria das áreas cercadas é bem menor. “Se você restringe a vida selvagem em áreas pequenas, cercadas e abrigadas, precisa geri-las de forma intensiva, porque a dinâmica da população parece endoide- cer um pouco”, diz Lindsey. “E os motivos para isso não são bem entendidos.” A ges- tão intensiva pode incluir a implantação de contraceptivos hormonais nas fêmeas para evitar superpopulação, assim como a captura e a remoção de indivíduos para outras reservas, para reforçar a diversida- de genética. Se novos genes não forem inseridos com regularidade num grupo pequeno, ele corre o risco de endogamia, que pode causar colapso populacional. Esse envolvimento ajuda, mas não é uma panaceia. “A comunidade de leões como um todo precisa lidar, de forma rea- lista, com nossas prioridades e com as prioridades das comunidades locais”, diz Andrew Jacobson, pesquisador do Institu- to de Zoologia. Uma cerca seria inviável, por exemplo, em locais onde impedisse animais de migrar, como o gnu, que todos os anos segue as chuvas pelo Serengeti. Qualquer que seja o “lado da cerca” que escolham, a maioria dos pesquisado- res concorda que o futuro dos leões depen- de mais dos dólares do que de cercas. Mui-

tos parques e reservas africanos sofrem por falta de recursos. Segundo uma análi- se de Packer de 2013, é mais barato cuidar de leões em reservas cercadas, por cerca de US$ 500 por km 2 (sem contar o alto custo de instalar a cerca, em primeiro lugar), do que em áreas abertas, onde US$ 2 mil permitem apenas gerir uma popula- ção igual à metade de sua densidade potencial. Mas uma avaliação feita pelo pesquisador da Universidade Estadual de Montana, Scott Creel, descobriu que, dólar por dólar, gastar em áreas não cercadas ajuda mais leões individualmente. De fato, se os gestores na África tives- sem tanta verba quanto o Parque Nacional Yellowstone, cerca de US$ 4.100 por km 2 , poderiam bancar populações médias de leões não cercadas com quase dois terços de seu tamanho potencial, um passo à frente do status quo atual. Apesar da utili- dade do ecoturismo e da caça de leões para a conservação em geral, apenas uma fração dessa renda costuma ficar disponí- vel para gestores de vida selvagem. Nos locais onde a ecologia impede as cercas, o dinheiro é essencial para incenti- var os habitantes a tolerar os custos de coexistir com grandes carnívoros, tais como perder gado para leões famintos ou impedir o rebanho de pastar em terras protegidas. De fato, se suas presas são expulsas pelo pasto dos rebanhos, os leões não terão opção além de passar a gostar de bois. Isso levaria a mais matanças reta- liatórias, e os leões seriam pressionados por dois lados, já que sofrem tanto pelo conflito direto com humanos quanto por ter menos o que comer. Alguns ecossiste- mas se beneficiarão de cercas, enquanto outras populações precisarão de projetos de mitigação de conflitos, mas todos os esforços demandarão mais dinheiro. Os últimos insights indicam um cami- nho: leões ainda podem ter um lar na Áfri- ca, no futuro, se a comunidade internacio- nal estiver disposta a bancá-lo. “Caso se possa elevar o financiamento para áreas protegidas da África”, diz Lindsey, “não há razão para que elas não possam abrigar muito mais leões.” –Jason G. Goldman

CIÊNCIA DO CIDADÃO

Chuvas de abril trazem meteoritos de maio

pode encontrar um a cada km da superfície Jennifer Hackett

Ilustração de Thomas Fuchs

NUTRIÇÃO

Um toque no hambúrguer de cogumelo

pratos feitos só com carne por

impactos ambientais, mas Kirk Broders, professor da Universidade Estadual do

cas nas escolas americanas este ano

só de carne, os estudantes em mais de

300 distritos escolares em todo o país

Essa mistura tem suas raízes em uma

mais da metade ter favorecido misturas

rante nacionais, incluindo Pizza Hut e

ostentam menos calorias, menos sódio e cios nutricionais convenceram os distritos

Natalie Jacewicz

CORTESIA DE NASA MARSHALL SPACE FLIGHT CENTER (concepção artística)

AVANÇOS

FAZENDO NOTÍCIAS

Notas

rápidas

O governo francês anunciou que vai “pavimentar” Instaladas nos próximos cinco anos, as ruas high-tech poderão fornecer eletricidade a cerca de 8% da

A polícia nacional holandesa se associou a uma empresa de treinamento de aves de rapina a

O

país agora tem seu

isso, e o próximo ocorrerá

lago do país, quase secou como resultado de uma combinação entre seca, uso de água para agricultura e mineração, e as geleiras dos Andes, que servem como sua fonte, mas que estão

ESPAÇO

de telecomunicações

construídos – e lançados

Poucos indivíduos jamais alcançarão o Monte Everest, mas o estúdio Sólfar, de empresa vai lançar um software para fones de ouvido de realidade virtual que

Anunciados passageiros para o maior foguete da Nasa

CUSP (CUBESAT PARA ESTUDAR

recebida, na tentativa de compreender

PARTÍCULAS SOLARES)

NEAR-EARTH ASTEROID SCOUT

Projeto do Centro de Voo Espacial Mar- shall, da Nasa, e do Laboratório de Pro- pulsão a Jato da Nasa

BIOSENTINEL

Projeto do Centro de Voo Espacial Goddard

Projeto do Centro de Pesquisa Ames, da Nasa

da Nasa e do Instituto de Pesquisa do Sudoeste

LUNAR ICECUBE realizar o mais completo escaneamento do

16 Scientific American Brasil | Maio 2016

I

B

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I

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A

I

L

A

FONTE: “EARLIEST TEA AS EVIDENCE FOR ONE BRANCH OF THE SILK ROAD ACROSS THE TIBETAN PLATEAU”, POR HOUYUAN LU ET AL. EM SCIENTIFIC REPORTS, VOL 6, ARTIGO NÚMERO 18955. 7 DE JANEIRO DE 2016

ARQUEOLOGIA

A Rota da Seda se dirige às montanhas

um trecho previamente desconhecido

Tibete — um trecho antes desconhecido

Projeto da Universidade Estadual Morehead

CUBE QUEST CHALLENGE TOURNA- MENT WINNERS (VENCEDORES DO TORNEIO DE DESAFIOS CUBE QUEST) Jennifer Hackett

Mapa de Mapping Specalists

Kashi (Kashgar)

Dunhuang

Hotan (Khotan)

Ngari (Ali)

TIBETE

Cemitério de Gurgyam

Changan (Xi’an) Mausoléu de Han Yangling

CHINA

ÍNDIA

Sítio arqueológico Rota da Seda, caminho principal Ramo Possível ramo

publicadas na

Contatos iniciais como esse entre o

As descobertas foram recentemente

caracteres chineses wang hou

das montanhas na Ásia de cerca de

—Jane Qiu

www.sciam.com.br 17

CIÊNCIA

DA SAÚDE

O paradoxo da medicina de precisão

As primeiras tentativas de individualizar

Jeneen Interlandi

A medicina de precisão nos parece um bem incontestável. Ela começa com a observação de que a constituição genética das pes- soas é bastante variável, e logo as doenças e respostas aos trata- mentos também diferem. Ela busca descobrir o remédio certo, para o paciente certo, no momento certo. O conceito, é lógico, tem seus adeptos entre os especialistas clínicos. Mas para cada um des- tes, há em contrapartida alguém que crê que os esforços para che- gar à medicina de precisão são uma perda de tempo e de dinheiro. Com uma iniciativa de medicina de precisão multimilionária cus- teada pelo governo em andamento, intensificou-se o debate sobre se essa abordagem poderá mesmo, assim como promete, revolu- cionar a saúde pública.

18 Scientific American Brasil | Maio 2016

Jeneen Interlandi é jornalista freelance especializada em assuntos ambientais e de saúde.

Peça aos cientistas favoráveis à medicina de precisão um exem- plo de sucesso e é provável que citem o ivacaftor, um novo fármaco que melhorou os sintomas de um grupo muito pequeno e específi- co de pacientes com fibrose cística. A patologia é causada por qual- quer uma de várias falhas possíveis na proteína que regula a entra- da e saída de moléculas de sal nas células. Um defeito impede que a proteína chegue até a superfície da célula para poder transportar

as moléculas de sal de um lado para outro. O ivacaftor corrige essa falha, que pode ser causada por uma série de mutações genéticas diferentes e é responsável por quase 5% dos casos do mal. Os testes genéticos revelam quem pode se candidatar ao tratamento.

A Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos

acelerou o desenvolvimento do ivacaftor há alguns anos, e o fár- maco tem sido aclamado como a essência da promessa da medici- na de precisão. De fato, quando o presidente Barack Obama anun- ciou o lançamento do programa de medicina de precisão financia- do pelo governo, em janeiro de 2015, ele também louvou o ivacaftor: “Em alguns pacientes com fibrose cística, essa aborda- gem reverteu a doença, até então considerada imbatível”. Depois,

Obama declarou que a medicina de precisão “traz oportunidades para avanços novos da medicina como poucas vezes vimos”.

Agora, peça aos críticos um exemplo que mostre por que a me- dicina de precisão está destinada ao fracasso, e eles, provavelmen- te, também citarão o ivacaftor. O fármaco levou décadas para ser desenvolvido, tem um custo anual de US$ 300 mil por paciente, e não funciona em 95% das pessoas com mutações diferentes da- quelas em que o efeito do ivacaftor é benéfico.

E um artigo recente do New England Journal of Medicine mos-

trou que, no caso do ivacaftor, os benefícios no tratamento de pa-

cientes-alvo comparavam-se aos de outros três tratamentos de tec- nologia muito inferior e muito aplicados: altas doses de ibuprofe- no, solução salina em aerossol e o antibiótico azitromicina. “Essas inovações fazem parte de pequenas melhorias incrementais no tratamento (de fibrose cística) que aumentaram de forma signifi- cativa as taxas de sobrevivência nas últimas duas décadas”, diz Ni- gel Paneth, pediatra e epidemiologista da Universidade do Estado de Michigan. “Custam uma fração dos medicamentos de alta tec- nologia, e funcionam em todos os pacientes.”

O mesmo paradoxo se aplica a quase todos os exemplos encon-

trados na medicina de precisão: para os clínicos, o uso do genótipo

do paciente para determinar a dose certa do fármaco anticoagu- lante varfarina foi considerado uma dádiva divina, até que estudos mostraram que a abordagem não era melhor do que o uso de me- didas clínicas em desuso como idade, peso e gênero. O fármaco Glivec foi aclamado como um símbolo da terapia alvo de câncer, por reduzir o tamanho de tumores em vários portadores de leuce- mia com uma mutação tumoral muito específica. Mas, depois, muitos tumores desenvolveram novas mutações que os tornaram resistentes à droga, e o câncer reincidiu. O resultado do Glivec

Ilustração por Lorenzo Gritti

CIÊNCIA

DA SAÚDE

para os pacientes foi apenas um pouco mais de sobrevida — al-

milhão de pessoas, acreditam que vão descobrir. “Garanto que, en-

guns meses aqui, um ano ali — mas não alterou o resultado final.

tre eles, haverá algumas dezenas de milhares de usuários (da var-

 

O

debate se fundamenta no Projeto Genoma Humano, um esfor-

farina)”, diz Francis Collins, diretor dos Institutos Nacionais de

ço de 13 anos, e US$ 3 bilhões (em valores de 1991) para sequenciar e

Saúde. “Com tantas pessoas, você poderá dizer, ‘bem, na verdade,

mapear todo o conjunto dos genes humanos. A partir desse traba-

parece que ajuda muito esse subgrupo, mas pode ser que ele tenha

lho, os cientistas criaram um atalho para associar variantes de genes

uma alimentação diferente’”. Além disso, observa, entenderemos

a

males específicos, usando o mínimo de sequenciamento possível.

melhor as sutilezas que fazem o tratamento funcionar ou não.

O

atalho, conhecido como Estudos de Associação Genômica Ampla

Adeptos e críticos concordam que os desafios serão imensos.

(GWAS, em inglês) envolveu o exame de trechos selecionados de todo o genoma para verificar quais eram sistematicamente diferen- tes em pessoas portadoras de certas patologias e em outras saudá-

Será necessário integrar terabytes de dados dispersos em bancos de dados com conteúdo e qualidade variáveis. E não é fácil estocar san- gue e de tecidos de um milhão de pessoas, em especial se as amos-

veis. Na esperança de tirar a sorte grande com novas drogas alvo, as empresas farmacêuticas investiram pesado no GWAS. Mas a abor- dagem mostrou ser incapaz de identificar as raízes genéticas dos males. Um estudo após outro revelava vários

grupos de variantes genéticos, sendo que qual- quer um poderia predispor a pessoa a uma do- ença. Na maioria dos casos, essas variantes, quando muito, pouco almentavam ou dimi- nuíam o risco. Os resultados lançaram uma pá de cal na possibilidade de estudar a variabili- dade genética para desenvolver terapias alvo em grande escala. Os defensores argumentam que o proble-

ma não está na exploração das diferenças ge- néticas em si, mas no escopo limitado do GWAS. Em vez de procu- rar alguns tipos de variantes de genes comuns associados à doen- ça, os pesquisadores devem examinar o genoma inteiro: seis bilhões de nucleotídeos. E precisam analisar esses dados junto com outras informações, desde o histórico familiar até os micró- bios que habitam o corpo (o microbioma) e as alterações químicas do DNA que afetam a atividade de genes individuais (o epigeno- ma). Comparando todos os dados do maior número possível de pessoas, poderão estabelecer uma correlação precisa entre os va-

riantes genéticos e as patologias associadas, definir a melhor for- ma de identificar os variantes e formular tratamentos.

A iniciativa de medicina de precisão que o presidente Obama

anunciou ano passado tem esse objetivo exato. Sua peça central é um exército de um milhão de pessoas, das quais todos os dados possíveis, incluindo genoma, microbioma e epigenoma, serão co- letados e inseridos numa base de dados gigantesca, a qual poderá ser acessada por cientistas para gerar estudos e análises em série. Para entender como se espera que esses dados ajudem os cien- tistas, veja-se o exemplo da varfarina. A velocidade de metaboliza- ção ou a capacidade de a pessoa metabolizar uma droga são parâ- metros que deveriam facilitar a prescrição da dose ideal para o in- divíduo e, portanto, deveria levar a melhores resultados. Por que isso não ocorreu? A alimentação ou outros fatores podem ter in- fluenciado? Os cientistas não sabem, mas com um exército de um

tras forem coletadas em intervalos regulares. Se a iniciativa for bem- -sucedida — se os cientistas encontrarem traços confiáveis de uma patologia e depois criarem tratamentos com base nesses indicado- res — os médicos ainda terão de se tornar

fluentes nessa nova linguagem. A maioria não sabe interpretar os testes genéticos existentes, nem há uma boa proposta para treiná-los. Em teoria, a medicina personalizada pode- ria agir como a Netflix ou a Amazon. Elas sa- bem de cada filme e livro que você comprou e com base nessas informações podem prever o que é provável que adquira na próxima vez. Se seus médicos dispusessem desse tipo de dado

— não sobre suas compras, mas como você vive, quais suas predisposições genéticas e que micróbios povoam sua pele e intestinos — então talvez a cura possa aparecer, tal como as sugestões de filmes. Parece justo dizer que vai demorar até que a ciência possa ofe-

recer tratamentos personalizados para as massas, se é que conse- guirá. A questão é: devemos tentar? Embora a medicina de preci- são possa fazer sentido para pessoas com males difíceis e caros de tratar, os críticos dizem que, em geral, as abordagens mais simples são melhores, porque mais baratas e benéficas para muito mais gente. “Digamos que se descubra um fármaco (com alvo bem defi- nido) que reduza o risco de diabetes em dois terços”, diz Peneth. “Custaria cerca de US$ 150 mil (por ano, por pessoa). Um progra- ma focado em alimentação e exercícios teria o mesmo efeito. A ex- pectativa de vida subiu uma década nos últimos 50 anos. E esse ganho não se deveu ao DNA. Foi o aprendizado sobre tabagismo, dieta e exercícios. Coisas fora de moda.” No final, esse projeto ambicioso pode fazer mais sentido como esforço de pesquisa do que como iniciativa de saúde pú- blica. A cada dia aprendemos mais sobre as interações de dife- rentes variantes genéticos que causam as doenças. E é natural e desejável que se comece a juntar essa informação de forma sis- temática. Mas a sociedade não deve esperar que esses esforços possam transformar de forma expressiva a medicina num futu- ro muito próximo.

Teoricamente, e a Amazon.

NASA/JPL-CALTECH

DESAFIOS DO COSMOS

A controvérsia da superterra superquente

Salvador Nogueira

Nem bem começou, a caracterização de exoplanetas – ou seja, o estudo das propriedades desses mundos distantes a orbi- tar outras estrelas que não o Sol – já está causando controvér- sias. O alvo em questão é o planeta mais interno a orbitar ao redor da estrela 55 Cancri A. Descoberto em 2004, esse planeta, que tem cerca de duas vezes o diâmetro da Terra e aproximadamente 8,5 vezes sua massa, completa uma volta em torno de sua estrela – que por sua vez é similar ao Sol, do tipo G – em apenas 18 horas. Por sua órbita curta, rasante, é certamente inabitável. Mas também é um ótimo alvo para estudos que tentem caracterizá-lo. Pois bem. Em 28 de novembro do ano passado, um grupo de pesquisadores encabeçado por Angelos Tsiaras, do University College, em Londres, submeteu um artigo ao Astrophysical Jour- nal em que alegava ter feito a primeira detecção da atmosfera dessa superterra, graças a observações colhidas pela câmera WFC3, instalada a bordo do telescópio espacial Hubble. Ao “encaixarem” as observações com uma série de modelos, os pesquisadores alegam ter identificado no planeta, conhecido

20 Scientific American Brasil | Maio 2016

Salvador Nogueira é jornalista de ciência especializado em astronomia e astronáutica. É autor de oito livros, dentre eles e .

Concepção artística do planeta 55 Cancri e, uma superterra com duas vezes o diâmetro do nosso planeta, a cerca de 40 anos-luz do Sistema Solar.

como 55 Cancri e (e recentemente nomeado Janssen pela União Astronômica Internacional), uma atmosfera em que predominam hidrogênio e hélio, similar à dos planetas gigan- tes do nosso Sistema Solar. Além disso, havia sugestão de uma pitada de cianeto de hidrogênio, ainda a ser confirmada. Seria a primeira observação espectroscópica de uma super- terra, não fosse por um detalhe: um estudo publicado subse- quentemente, feito por Brice-Olivier Demory, do Cavendish Laboratory, em Cambridge, e seus colegas, parece descartar por completo a detecção. Ele foi recebido pela revista Nature em 27 de agosto do ano passado, antes, portanto, do outro estudo britânico (embora tenha sido publicado depois, em 30 de março deste ano), e faz uso do telescópio espacial de infravermelho Spitzer. Os pesquisadores lançaram mão da instrumentação do satélite da NASA para produzir um mapa de temperaturas do planeta em seu lado iluminado pela estrela e em seu lado

escuro. (Por estar muito perto de seu sol, esse planeta certa- mente mantém sempre o mesmo hemisfério voltado para o astro central, do mesmo modo que a Lua mantém sempre a mesma face voltada para a Terra.)

O resultado indica que a temperatura no lado claro está em

torno dos 3.000 graus Celsius, enquanto o hemisfério escuro ca em torno dos 1.600 graus. O trabalho parece suportar medições anteriores que sugeriam a presença de vulcanismo intenso no planeta, mas parece refutar a hipótese de uma

atmosfera dominada por hidrogênio e hélio, pois se ela existisse haveria distribuição muito mais eficiente de calor entre os lados claro e escuro do planeta. Quem tem razão? Demory está apostando no seu trabalho, pelo simples fato de que ele não depende de modelagem para ser interpretado – trata-se de medições diretas. “Elas clara- mente nos dizem que o planeta é ineficiente na recirculação de calor do lado diurno para o noturno, o que descarta a presença de uma atmosfera grande.”

É a palavra final? Ainda não. Precisamos nos lembrar de que

esses são os primeiros passos efetivos na tentativa de caracteri- zar exoplanetas. Tanto Hubble como Spitzer estão trabalhando no limite de sua capacidade para gerar dados a partir dos quais os cientistas podem extrapolar suas conclusões. Apenas a próxima geração de telescópios espaciais e em ter- ra poderá dizer com alguma confiança quem tem razão. Em particular, o telescópio espacial James Webb, que a Nasa pre- tende lançar em 2018, poderá bater o martelo a respeito da natureza da atmosfera de 55 Cancri e.

RODRIGO GUILHERME CARVALHO MELO

ASTROFOTOGRAFIA

CÉU DO MÊS

MAIO

Mercúrio transita pelo disco solar

Observação celeste costuma ser algo que fazemos à noite. Mas

vamos subverter a regra geral no dia 9 deste mês, por uma oca- sião especial – o trânsito do planeta Mercúrio pelo disco solar. Para quem não está familiarizado com o fenômeno, é como se fosse um minieclipse, similar aos detectados pelos satélites caçadores de planetas em outras estrelas. Com duas diferenças importantes: este se dá em nosso próprio Sistema Solar e não resulta apenas numa medição da quantidade de luz da estrela que chega até nós – é possível observar um pequeno pontinho preto, Mercúrio, se deslocando à frente do Sol. Do ponto de vista da Terra, somente dois planetas podem transitar à frente do Sol: Mercúrio e Vênus. Entre os dois, o fenômeno mais raro é o do trânsito venusiano, vísivel somente um par de vezes a cada século. Já a passagem de Mercúrio pelo Sol acontecerá 14 vezes só no século 21. Duas já foram, em 2003 e 2006. A próxima será em 2019.

O fenômeno será visível de todo o território nacional, do iní-

cio até o fim. Ele começa às 8h12 (com diferença de mais ou menos dois minutos, de acordo com a localização de onde se observa) e termina às 15h42 (de novo, com variação de dois minutos para mais ou para menos). Observar um trânsito de Mercúrio é mais difícil que um de Vênus. Tenha em mente que estamos falando do menor planeta do Sistema Solar, com apenas 4.800 km de diâmetro, aproximada- mente. Por conta disso, é impossível acompanhar o fenômeno sem o auxílio de um instrumento ótico.

E aí entra um segundo drama: você

nunca, jamais, pode olhar para o Sol usando um binóculo, luneta ou telescópio, a não ser que ele esteja equi- pado com um filtro apropriado. Há risco sério de cegueira. Bem, então, o que fazer? Há duas possibilidades. Ou acoplar um filtro adequado no seu instrumento ótico, que permita a observação solar com

segurança, ou projetar a imagem do Sol produzida pelo binóculo ou telescópio num anteparo – um papelão branco,

por exemplo. Mercúrio deve aparecer como um pontinho escuro muito pequeno em meio ao disco solar, similar a uma das clássicas manchas do Sol. Além de Mercúrio, o mês também é muito bom para a obser- vação de Marte, que estará em oposição ao Sol, com relação à Terra, no dia 22 (é o momento em que o Planeta Vermelho se aproxima mais do nosso e se torna um alvo mais fácil para observações telescópicas). E, para quem gosta de chuva de meteoros, há uma boa em maio, com pico na virada do dia 5 para o dia 6. São os Eta- Aquarídeos, que têm seu radiante (local de onde parecem emanar os bólidos celestes) na constelação de Aquário. Essa chuva acontece anualmente quando a Terra cruza a órbita do cometa Halley e detritos deixados pelo astro queimam na atmosfera do planeta, proporcionando o espetáculo. Bons céus a todos! (S.N.)

O astrofotógrafo amador Cassiano Carromeu, que é neurocientista e trabalha em San Diego, na Califórnia, fez esse registro das Plêiades (M45), o famoso conjunto de estrelas azuis da constelação de Touro.

VISIBILIDADE DOS PLANETAS

MERCÚRIO

Visível no oeste, ao pôr do Sol na constelação de Áries. Próximo da Lua em 6. Em conjunção inferior e trânsito pelo disco solar em 9. Depois, passa a ser visto ao amanhecer. Em conjunção com Vênus em 13.

VÊNUS

Visível em Áries e depois em Touro ao amanhecer, na direção do nascer do Sol. Próximo da Lua em 6. Em conjunção com Vênus em 13.

MARTE

Visível durante toda a noite. Primeiro em Escorpião e depois em Libra. Em conjunção com Mercúrio em 21. Em oposição ao Sol em 22. Máxima aproximação com a Terra em 30.

JÚPITER

Em Leão. Visível na primeira metade da noite. Próximo da Lua em 15.

SATURNO

Ultrapassado pela Lua em 22.

URANO

Em Peixes, visível a leste antes do nascer do Sol. Ultrapassado pela Lua em 4.

NETUNO

Em Aquário, visível a leste antes do nascer do Sol. Ultrapassado pela Lua em 2 e 29.

DESTAQUES DO MÊS

Máximo da chuva de meteoros Eta-aquarídeos.

Mercúrio em conjunção inferior. Trânsito de Mercúrio pelo disco solar.

O

Oposição de Marte (máxima aproximação com a Terra).

CHUVA DE ETA-AQUARÍDEOS

CALENDÁRIO LUNAR

22 Scientific American Brasil | Maio 2016

N

S

Mapa mostra céu visível às 22h00 de 1º de maio, às 21h00 de 15 de maio e às 20h00 de 30 de maio a partir da latitude de 23°27’ Sul (Trópico de Capricórnio).

Áries de 19/04/2016 a 14/05/2016

Touro de 14/05/2016 a 21/06/2016

* O limite das constelações foi estabelecido pela União Astronômica Internacional em 1930, o que permite estabelecer, com grande precisão, os instantes de entrada e de saída do Sol em cada uma das 13 constelações que são atravessadas pela sua trajetória anual aparente, a eclíptica.

DIA

HORA

EVENTO

2

08h39

Lua passa a 2°N do planeta Netuno.

3

02h52

Melhor ocasião para visualizar o brilho lua minguante falcada (luz cinérea). O horário refere-se ao nascer da Lua em São Paulo.

4

23h33

Lua passa a 2°S de Urano.

6

00h19

Lua passa a 2,5°S de Vênus.

6

00h25

Lua no perigeu, mínima distância da Terra (357.909 km). Diâmetro angular aparente 32,8’.

6

Máximo da chuva de meteoros Eta-Aqua- rídeos (cometa 1P/Halley). Taxa de avista- mento de cerca de 70 meteoros por hora.

6

16h30

Lua nova.

6

21h54

Lua passa a 4,9°S de Mercúrio.

9

12h06

Mercúrio em conjunção inferior. Trânsito através do disco solar visível do Brasil.

9

17h34

Melhor ocasião para visualizar o brilho crescente falcada (luz cinérea). O horário refere-se ao pôr do Sol em São Paulo.

9

19h41

Júpiter estacionário.

12

08h47

Lua passa a 4,4°S do aglomerado estelar de Praesepe (Messier 44), na constelação de Câncer.

13

04h54

Lua passa a 2,1°S da estrela Regulus (alfa de Leão).

13

14h03

Lua em quarto crescente.

13

17h38

Mercúrio a 0,4°S de Vênus (Conjunção).

15

06h53

Lua passa a 1,8°S de Júpiter.

18

10h42

Lua passa a 5,6°N da estrela Spica (alfa de Virgem).

18

18h54

Lua no apogeu, máxima distância da Terra (405.955 km). Diâmetro angular aparente 29,7’.

21

16h01

Lua passa a 6,6°N de Marte.

21

18h15

Lua cheia

21

19h02

Mercúrio estacionário.

22

03h58

Marte em oposição ao Sol (a Terra entre o planeta e o Sol)

22

17h10

Lua passa a 3,7°N de Saturno.

22

21h37

Marte atinge seu máximo brilho: -2,1 magnitudes.

29

09h13

Lua em quarto minguante.

29

16h54

Lua passa a 2°N de Netuno.

30

18h36

Marte atinge sua menor distância com a Terra, 75,28 milhões de quilômetros.

FERRAMENTEIRO: O professor de

antropologia Dietrich Stout trabalha em uma ferramenta de pedra no Laboratório de Tecnologia Paleolítica na Universidade Emory

PSICOLOGIA COGNITIVA

CONTOS DE UM NEUROCIENTISTA DA IDADE DA PEDRA

Ao afiar a habilidade de fazer machados enquanto escaneiam os próprios cérebros, pesquisadores estudam como a cognição se desenvolveu

Dietrich Stout

Dietrich Stout é professor de antropologia na Universidade Emory. Seu foco de pesquisa sobre a fabricação de ferramentas pedra no Paleolítico integra métodos experimentais de diversa disciplinas, variando da arqueologia à imagem cerebral.

disciplinas, variando da arqueologia à imagem cerebral. A INDA TENHO O PRIMEIRO MACHADO DE MÃO DE

A INDA TENHO O PRIMEIRO MACHADO DE MÃO DE PEDRA QUE FIZ. TRATA-SE DE UM espécime bastante ruim, cruamente lascado de um pedaço de pedra fra- turado pela geada que catei em um passeio pelas terras de um fazendeiro em West Sussex, na Inglaterra. Não teria impressionado os ancentrais humanos conhecidos por nós como Homo heidelbergensis. Esses primos do Homo sapiens de 500 mil anos atrás deixaram machados de mão mui- to melhores em um sítio arqueológico nas vizinhanças, em Boxgrove.

Mesmo assim, trabalhei duro para fazer essa simples ferramen- ta de corte e tenho orgulho dela. O que importa, no entanto, não é que eu esteja explorando um novo hobby. O que importa é que mi- nha exploração tinha a intenção de provar questões chave acerca da evolução humana e do surgimento da linguagem e da cultura que são o selo de nossa espécie. Reproduzir as habilidade de povos pré-históricos a fim de com- preender as origens humanas já foi feito antes: arqueólogos fazem isso há décadas. Nos últimos 15 anos, contudo, levamos essa abor- dagem para novas e empolgantes direções. Trabalhando em conjunto, arqueólogos e neurocientistas usa- ram máquinas de escaneamento cerebral para observar o que acontece por baixo do crânio quando um ferramenteiro moderno lasca com paciência uma pedra, moldando-a para se transformar em um machado de mão. Com essa visão sobre o cérebro, espera- mos identificar quais as regiões que evoluíram ali dentro, a fim de ajudar os povos do Paleolítico a escavar um machado ou uma faca bem trabalhados a partir de um naco de pedra sem forma. Essas colaborações entre arqueólogos e neurocientistas revive- ram uma ideia amplamente desacreditada: fazer ferramentas foi um fator importante na evolução dos humanos. O antropólogo britânico Kenneth Oakley assegurou há 70 anos, no seu influente livro Man, the Tool-maker (Homem, o fazedor de ferramentas) que fabricar apetrechos líticos foi “a principal característica biológica” da humanidade, algo que direcionou a evolução de nossos “pode- res de coordenação mental e corporal”. A ideia deixou de agradar quando cientistas comportamentais documentaram o uso, e até mesmo a confecção de ferramentas, em espécies não humanas como macacos, corvos, golfinhos e pol- vos. Como lembrou o paleontólogo Louis Leakey em sua agora fa-

mosa resposta de 1960 ao primeiro relatório histórico feito por Jane Goodall acerca do uso de ferramentas por chipanzés: “Agora precisamos redefinir ferramenta, redefinir o Homem, ou aceitar que chipanzés são humanos”. Para muitos cientistas, relaciona- mentos sociais complexos substituíram a fabricação de ferramen-

tas como o fator central na evolução cerebral de primatas. Nas dé-

cadas de 1980 e 1990, as hipóteses influentes “inteligência maquia- vélica” e “cérebro social” sustentavam que o maior desafio mental que os primatas enfrentam é ludibriar outros membros da sua es- pécie, não dominar seu ambiente. Tais hipóteses ganharam apoio empírico a partir da observação de que espécies de primatas que formam grandes grupos sociais tendem a ter cérebros grandes. Mas trabalhos mais recentes, incluindo nosso próprio, mostra- ram que a abordagem “Homem, o fazedor de ferramentas” não está morta (apesar de a linguagem de Oakley estar claramente desatualizada). A fabricação de ferramentas não precisa ser exclusivade humana para ter sido importante em nossa evolução.

O que importa é o tipo de ferramenta que fazemos e como

aprendemos a fazê-las. Entre primatas, os humanos na verdade sobressaem em sua habilidade de aprender um com o outro. Somos peritos em imitar o que outra pessoa faz. A imitação é um pré-requisito para aprender habilidades complexas e acredita-se que sirva como base para a incrível capacidade humana de acu- mular conhecimento de maneira que outros primatas não conse- guem. Portanto, parece prematuro abandonar a ideia de que anti- gos utensílios de pedra possam fornecer informações importantes acerca da nossa evolução cognitiva. Ensinar e aprender a fabricar ferramentas cada vez mais complexas pode até ter representado um desafio formidável para nossos ancestrais, estimulando a evo- lução da linguagem. De fato, neurocientistas acreditam que as ca-

Um meio de responder perguntas acerca

da evolução humana e, em particular, do desenvolvimento da linguagem e da cultura implica reproduzir as habilidades usadas pelos povos pré-históricos. Uma versão de

EM SÍNTESE

alta tecnologia dessa abordagem usa má- quinas de escaneamento do cérebro para observar quais as regiões neurais que se tornam ativas quando um ferramenteiro lasca uma pedra para ter o formato de um

machado de mão.

entre arqueólogos e neurocientistas revive- ram a ideia desacreditada de que a fabrica- ção de ferramentas foi um dos principais motores da evolução humana. Ensinar e

aprender o modo de produzir ferramentas nossos ancestrais, a ponto de impulsionar a evolução da linguagem humana.

26 Scientific American Brasil | Maio 2016

acima, extrema direita direita

pacidades linguísticas e as manuais se baseiam em algumas das mesmas estruturas cerebrais. Para testar essas ideias, tivemos de analisar com cuidado como as ferramentas milenares eram feitas, e comparar as descobertas com evidências sobre a evolução dos sistemas cerebrais relevan- tes. Ao estudar essas questões, logo caímos em dificuldades, por- que nem cérebros nem comportamento aparecem no registro fós- seil. Dada a escassez de evidências, nosso único recurso foi estimu- lar, em ambiente de laboratório, os tipos de habilidade que passavam entre gerações, milênios atrás. Por isso, meus alunos, co- laboradores e eu passamos muitos anos tentando imitar as habili- dades dos ferramenteiros do Paleolítico.

ARQUEOLOGIA EXPERIMENTAL

Usar modernas técnicas de escaneamento cerebral para estu- dar algumas das tecnologias mais antigas da humanidade pode parecer estranho. Algumas pessoas nos lançaram olhares descon- certados quando começamos a empurrar carrinhos com pedras para dentro de um laboratório de neuroimageamento de última geração. Mas não há nada incomum em arqueólogos fazerem ex- periências. Faz tempo que estudar o presente é um dos métodos mais importantes para entender o passado. Cientistas concebe- ram experimentos para replicar técnicas ancestrais de fundição (arqueometalurgia) e para observar a decadência implacável de carcaças animais (tafonomia), para entender melhor a fossiliza- ção. Experiências casuais na fabricação de ferramentas – talha- mento, como os arqueólogos o chamam – datam do século 19, e ex-

periências mais controladas agora estão bem estabelecidas no es- tudo da tecnologia lítica. O escopo dessas experiências aumentou nos últimos anos. Meus conselheiros de graduação — Nicholas Toth e Kathy Schick, ambos hoje na Universidade de Indiana em Bloomington e no Ins- tituto da Idade da Pedra — propuseram, em 1990, usar uma técni- ca de imagem então nova para investigar o que se passa no cérebro quando alguém constrói uma ferramenta lítica. Nos últimos 15 anos, seguindo essa ideia, transformei em um dos principais in- tentos de minha pesquisa descobrir o que acontece no cérebro quando a pessoa talha um pedaço de rocha. Hoje meu laboratório funciona quase como um programa de aprendizagem em fabricação de ferramentas de pedra. Enquanto escrevo, consigo ouvir o ruído de talhadores iniciantes acrescen- tando ainda mais pedacinhos a uma pilha de pedra quebrada na área de trabalho do lado de fora de meu escritório na Universidade Emory. No ano passado, essa pilha ultrapassou 3 metros de com- primento, com quase 13 centímetros de altura e contendo mais de

1.360 quilos de pedra lascada. Observo através de uma janela en- quanto a pesquisadora de pós-doutorado Nada Khreisheh dá con- selhos a um estudante frustrado. Atualmente Khreisheh gasta cerca de 20 h por semana treinan- do 20 alunos (cada um recebe 100 h de aula) na arte milenar de fa- bricar machados de mão. Até agora, este é nosso projeto mais am- bicioso. Cada sessão de treinamento é gravada em vídeo para que possamos analisar mais tarde quais técnicas de aprendizado fun- cionam melhor. Coletamos e medimos cada artefato a fim de ras- trear o desenvolvimento de habilidades. Os estudantes precisam passar por repetidos imageamentos por ressonância magnética a fim de examinar a função e a estrutura do cérebro em modificação, assim como passar por testes psicológicos para ver se capacidades particulares, como planejamento ou memória de curto prazo, po-

uma tecnologia percussiva tão exigente que um pequeno erro pode comprometer a peça inteira.

le necessário através de uma prática longa e meticulosa. Nossos ancestrais enfrentaram os mesmos desafios quando aprenderam a fazer ferramentas de pedra, e suas vidas provavel- mente dependiam de serem bem-sucedidos. As exigências da pro- dução de ferramentas, aliadas a interações sociais complexas para ensinar essas habilidades, podem ter se tornado a força motora da evolução cognitiva humana. Classificamos essa reinicialização moderna da hipótese do “Homem, o fazedor de ferramentas” de Oakley como Homo artifex – a palavra latim artifex significa “ha- bilidade, criatividade e destreza.”

FERRAMENTAS NO CÉREBRO

Ensinar aos alunos como trabalhar a pedra não é o único desafio técnico em aprendermos sobre práticas pré-históricas. As imagens cerebrais padrão não se adaptam a alguns aspectos do es- tudo de produção de ferramentas de pedra. Se alguém já entrou em um equipamento de ressonância magnética, provavelmente se lembra que lhe foi dito, enfaticamente, para não se mexer, porque isso estragaria a imagem. Infe- lizmente, ficar imóvel dentro de um tipo de tubo de 60 cm de diâmetro não conduz a lascar pedras, apesar de ficar- mos tentados a dormir. Em nossas primeiras experiências, driblamos esse

problema ao usar uma técnica de imagem cerebral co- nhecida como FDG-PET (tomografia de emissão de pó-

sitrons por fluoro-deoxiglicose). A linha intravenosa para fornecer a molécula radioativa usada no PET a fim obter ima- gens da atividade cerebral precisa ser injetada no pé para permitir que os lascadores usem as mãos, um procedimento um tanto quanto doloroso. O sujeito do teste pode então bater livremente no pedaço de pedra a ele destinado para se tornar um machado ou faca, enquanto o marcador é levado por tecidos metabolicamente ativos para o cérebro. Depois que o sujeito tiver terminado, faze- mos uma imagem a fim de determinar o local onde o agente quí- mico se acumulou no cérebro. Utilizando essa técnica, parti para investigar duas tecnologias da Idade da Pedra – Olduvaiense e Acheulense antigo – que agru- pam o começo e o final do Paleolítico Inferior, um período evolu- cionário crítico, de 2,6 milhões a 200 mil anos atrás, quando o cé- rebro de hominins (humanos e seus ancestrais extintos) quase tri- plicou em tamanho. A questão que queríamos explorar em meu laboratório era se o desenvolvimento dessas tecnologias significou novas exigências para o cérebro que, com o passar dos milênios, poderia haver levado, através da seleção natural, à sua expansão. A produção de ferramentas Olduvaiense (denominada assim por causa do desfiladeiro Olduvai, da Tânzania, onde foi descrita pela primeira vez em meados do século 20 pela equipe de paleoan- tropólogos-arqueólogos de Louis e Mary Leakey) envolve tirar las- cas afiadas de fragmentos da pedra. Essas simples lascas de pedra se tornaram as primeiras “facas” da humanidade. Conceitualmen- te, é a forma mais simples de fazer ferramentas. Mas os dados ini- ciais de PET confirmaram que o processo real de talhar é uma ta- refa exigente, que vai além de bater uma pedra na outra.

No estudo, deixamos que os alunos exercitassem a tarefa duran- te 4 h sem nenhuma instrução. Depois de familiarizados, aprende-

dem estar relacionadas à aptidão para fazer ferramentas. Trata-se de uma quantidade imensa de trabalho, mas essencial para com- preender as sutilezas dessa tecnologia pré-histórica. No mínimo, o esforço nos ensinou que fabricar essas ferramen- tas é difícil, Mas o que queremos saber é por que é tão difícil. Oakley e outros proponentes do argumento “Homem, o fazedor de ferramentas” achavam que a chave da fabricação de ferramentas era uma capacidade “exclusivamente humana” de pensamento abstrato - isto é, a capacidade de imaginar tipos diferentes de fer- ramentas como um tipo de modelo mental a ser reproduzido. Res- peitosamente, discordo. Como qualquer artesão experiente pode nos contar, saber o que queremos fazer não é a parte difícil. A difi- culdade está em realmente fazê-lo. Talhar um machado de mão exige que o artesão neófito domine uma tecnologia de percussão que envolve o uso de um “martelo” por- tátil de pedra, osso ou chifre, para tirar lascas de uma pedra, moldan- do-a numa ferramenta útil. O trabalho requer golpes poderosos da- dos com precisão de milímetros e rápidos demais para permitir cor- reção enquanto são executados. Como numa escultura de mármore, cada golpe remove algo que não pode ser colocado de volta. Mesmo pequenos erros podem comprometer a peça por completo. Usando um sistema de controle de movimentos, a cientista de movimentos Blandine Brill e seus colegas da Faculdade de Estudos Avançados em Ciências Sociais, de Paris, mostraram que, ao contrário dos novatos, os lascadores experientes ajus- tam a força de seus golpes a fim de produzir lascas de tama- nhos diferentes. Combinar uma série de golpes como esse para chegar a um objetivo de desenho abstrato, como um ma- chado de mão, somente é possível depois de adquirir o contro-

28 Scientific American Brasil | Maio 2016

COURTESY OF THIERRY CHAMINADE Institute of Neurosciences of Timone, Aix-Marseille University

ram a identificar e prestar atenção às caracterís- ticas particulares do núcleo, concentrando-se, por exemplo, em áreas que sobressaíam e seriam mais fáceis de quebrar. O aprendizado na verda- de se reflete em diferentes padrões de atividade no córtex visual, na parte posterior do cérebro, antes e depois da prática. Mas 4 h de prática não

é muito, tempo, mesmo para a primeira tecnolo-

gia da humanidade. Em talhadores bem experientes, que che- gam perto das habilidades documentadas de ferramenteiros reais Olduvaienses, algo dife- rente é visto. Como mostrado por Bril e seus co- legas, eles se distinguem pela capacidade de controlar a quantidade de força aplicada num golpe percussivo, para destacar lascas do núcleo de forma eficiente. No cérebro dos experientes, essa habilidade estimulou o aumento de ativi- dade no giro supramarginal no lobo parietal, que está envolvido na consciência da localiza- ção do corpo no seu ambiente espacial. Há cerca de 1,7 milhão de anos, a tecnolo- gia Olduvaiense baseada em lascas começou a

ser substituída pelo tecnologia Acheulense (que deve o nome a Saint-Acheul , na França), que envolvia a fabricação de peças mais sofisticadas, como ma- chados de mão em forma de gota. Alguns machados do período Acheulense antigo – aqueles do sitio inglês de Boxgrove, que datam de 500 mil anos, por exemplo – eram modelados de for-

ma delicada, com cortes transversais finos, simetria tridimen- sional e pontas afiadas e regulares, todos indicativos de um alto nível de habilidade de talhar. Talhadores modernos sabem que essa técnica exige não somen- te controle preciso, mas um planejamento fundamentado. Como um golfista que opta pelo taco certo, talhadores usam diversos martelos “duros” (pedra) e “moles” (chifre/osso) quando traba- lham em sequências de lascas planejadas, para que extremidades

e superfícies fraturem-se no padrão desejado. Precisam alternar-se

sem cessar entre diversas subtarefas enquanto mantêm a mente firme no objetivo geral de um machado terminado, resistindo à tentação de tomar atalhos. Sei, por amarga experiência, que não é possível enganar a física de fracionamento de pedras. É melhor parar por um dia quando se está cansado ou frustrado. As exigências para se produzir uma ferramenta no estilo do pe- ríodo Acheulense tardio também produzem um traço característi- co no escaneamento cerebral. Algumas das mesmas áreas estão envolvidas tanto no modo de talhar do período Oduvaiense quan- to no do período Acheulense. Mas nossos dados de PET do Acheu- lense também mostram uma ativação que se estende para uma re- gião específica do córtex pré-frontal, chamada de giro frontal inte- rior direito. Décadas de pesquisa feitas por neurocientistas como Adam Aron, da Universidade da Califórnia em San Diego, já liga- ram essa região ao controle cognitivo necessário para se alternar entre tarefas diferentes, e para não dar respostas inapropriadas. Desde então corroboramos os resultados do PET usando MRI,

IMAGEM

Expansão do processamento cerebral

Hemisfério

esquerdo

Hemisfério

direito

que fornece imagens de resolução mais alta. Para isso, tivemos de achar um modo de manter os sujeitos imóveis. Trabalhando com o neurocientista social Thierry Chaminade, agora na Universidade Aix-Marseille, na França, pedi que ficassem parados no escâner e assistissem a vídeos de talhamento, ao invés de fazer ferramentas reais. Essa técnica funciona porque, como Chaminade e outros mostraram, usamos muitos dos mesmos sistemas cerebrais tanto para entender ações que observamos quanto para executá-las. Apesar das diferentes metodologias, descobrimos que as mesmas reações ocorriam nas áreas viso-motoras, tanto no método de talhar Olduvaiense quanto no Acheulense: maior atividade no giro frontal inferior direito quando se assistia à produção de ferramen- tas do Acheulense superior. Concluímos que a capacidade de aprender habilidades físicas exigentes teria sido importante nos estágios iniciais Olduvaienses da evolução tecnológica humana, mas que os métodos Acheulen- ses exigiam um nível maior de controle cognitivo, fornecido pelo córtex pré-frontal. Na verdade, essa observação concordou com a evidência fóssil, que mostra que, nos últimos dois milhões de anos, alguns dos incrementos mais velozes no tamanho do cérebro ocor- reram no Acheulense superior. Mas essa descoberta não mostrou qual evento foi a causa e qual foi a consequência. Será que a produção de ferramentas realmente direcionou a evolução do cérebro no H. artifex, ou apenas entrou de carona? A fim de res- ponder essa pergunta, precisávamos levar ainda mais sério o estu- do de como o cérebro aprende a fazer ferramentas.

APRENDIZADO E EVOLUÇÃO

Precisei de cerca de 300 h de prática para igualar a perícia dos ferramenteiros do Acheulense superior em Boxgrove. A aprendiza-

gem talvez pudesse ter sido mais rápida se tivesse um professor, ou fosse parte de um grupo de ferramenteiros. Mas realmente não te- nho certeza. Apesar de décadas de talha experimental, quase não foram feitos estudos sistemáticos sobre o processo de aprendiza- gem. Em 2008, Bruce Bradley, professor de arqueologia da Univer- sidade de Exeter, na Inglaterra, e um talhador de longa data, me convidou a achar uma resposta para esse lapso em nosso conheci- mento. Bradley queria treinar a nova geração de talhadores acadê- micos britânicos, e achou que eu gostaria de coletar dados de ima- gens neurológicas no processo, a fim de ter uma visão melhor so- bre o processo de aprendizagem. Ele estava certo, e eu fiz isso. Uma coisa que me animei a tentar foi uma técnica relativamen- te nova chamada imagem por tensor de difusão (DTI), uma forma de MRI que permite mapear as faixas de fibra de substância bran- ca, que servem como a “fiação” do cérebro. Em 2004, um grupo li- derado por Bogdan Draganski, então na Universidade de Regens- burg, na Alemanha, usou o DTI para mostrar mudanças estrutu- rais nos cérebro de pessoas aprendendo a fazer malabarismo, o que desafiou a visão tradicional, de que a estrutura do cérebro adulto é relativamente imóvel. Suspeitávamos que aprender a talhar também exigiria algum nível de religação neural. Se assim fosse, queríamos saber quais circuitos eram afetados. Se nossa ideia estivesse correta, esperáva- mos vislumbrar se a fabricação de ferramentas pode, de fato, cau- sar em um indivíduo, ainda que em pequena escala, o mesmo tipo de alterações ocorridas durante a evolução humana. No final, a resposta foi um retumbante sim: a prática em talhar elevou os traços de substância branca conectando as mesmas re- -giões frontal e parietal identificadas em nossos estudos com PET e MRI, incluindo o giro frontal inferior direito do córtex pré-fron- tal, uma região essencial para o controle cognitivo. A extensão des- sas mudanças podia ser prevista a partir do número real de horas de treino de cada indivíduo: quanto mais uma pessoa treinava, mais sua substância branca mudava. Mudancas no cérebro – o que os cientistas chamam de “plasti- cidade” – trazem material bruto para modificações evolutivas, efei-

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Um ferramenteiro novato habilidades motoras e de plane

to conhecido como acomo- dação fenotípica. A plastici- dade dá flexibilidade às espécies para que ensaiem novos hábitos, e testem os limites da adaptação atual. Caso se descubra um bom truque, ele se integra ao re- pertório comportamental e a corrida evolucionária segue: a sele- ção natural favorecerá quaisquer variações que gerem mais facili- dade, eficiência ou confiabilidade através do aprendizado desse novo truque. Logo, nosso resultado gerou evidência importante de que a ideia do H. artifax era viável, e que a produção de ferramen- tas poderia realmente ter guiado mudanças cerebrais através de mecanismos evolutivos conhecidos. Tendo essa informação, precisávamos saber, a seguir, se as res- postas anatômicas observadas equivaliam a desenvolvimentos evolutivos específicos no cérebro humano. Crânios fósseis não tra- zem dados sobre as mudanças nas estruturas cerebrais internas, então optamos pela segunda melhor opção: a comparação direta com um de nossos parentes vivos mais próximos, o chipanzé. Felizmente, eu já havia pedido auxílio a Erin Hecht, agora na Universidade Estadual da Geórgia, para colaborar na análise do DTI. A dissertação de Hecht, comparando a neuroanatomia de chipanzés com humanos, havia lhe dado acesso aos dados e a ex- pertise necessários. O resultado, publicado em 2015, foi uma disse- cação virtual, baseada em DTI, de traços de substância branca nas duas espécies, que identificaria quaisquer diferenças nos circuitos cerebrais relevantes. Ele confirmou nossas suspeitas: os circuitos para produzir ferramentas vistos em nossos estudos com PET, MRI e DTI eram, na realidade, mais extensos em humanos do que em chipanzés, sobretudo em conexões com o giro frontal inferior direito. Esse achado se tornou a ligação final em uma cadeia de in- ferências de artefatos antigos com evolução cerebral, comporta- mento e cognição que eu reunia desde estudante de pós-gradua- ção. Ela fornece um poderoso novo apoio para a velha ideia de que a fabricação de ferramentas no Paleolítico ajudou a formar a men- te moderna. No entanto, isso ainda está longe do final da história.

PELO BURACO DA FECHADURA

Adoro ferramentas de pedra, mas elas dão apenas a visão mais estreita, como que pelo vão da porta, acerca da complexa vida de nossos ancestrais. Como um geólogo com um sismógrafo, o tru- que é transformar tais bits de saber sobre a neurociência de talhar

ferramentas num modelo rico acerca da vida na Idade da Pedra. Embora os dados obtidos por esses apetrechos sejam limitados, poderíamos ter nos saído pior. Aprender a fazer essas peças leva tanto tempo quando muitas habilidades acadêmicas: uma matéria típica de universidade nos Estados Unidos exige cerca de 150 h de

trabalho. No estudo com Bradley, os alunoss registaram uma mé- dia de 167 h de prática, e no final ainda lutavam para fazer macha- dos de mãos Acheulenses. Talvez eu não devesse me sentir tão mal sobre as 300 h de que precisei. Mas um regime de exercícios tão entediante e frustrante exige motivação e autocontrole, atributos fascinantes numa visão evolutiva.

A motivação pode vir de fora, de um professor, ou de dentro, da

antecipação de uma recompensa futura. Muitos pesquisadores

creem que ensinar é a característica que define a cultura humana, ao passo que antecipar o futuro é vital para tudo, de relações so- ciais à solução de problemas técnicos.

É óbvio que a motivação sem o autocontrole nós leva

só até certo ponto. O autocontrole, a inibição de impul- sos contraprodutivos, é essencial para vários tipos de habilidades cognitivas. Na verdade, um estudo recente dirigido por Evan MacLean, da Universidade Duke, des- cobriu que autocontrole e planejamento futuro estão correlacionados com maior tamanho de cérebro em 36 espécies de pássaros e mamíferos. Nosso trabalho agora

resultou no acúmulo de evidências que ligam a produ- ção bem-sucedida de machados de mão a sistemas cerebrais de autocontrole e planejamento, fornecendo uma ligação direta com essa evidência comparativa da evolução do tamanho do cérebro entre as espécies. Além de motivação e autocontrole, o ferramenteiro deve com-

preender em detalhes as caraterísticas da pedra trabalhada, o que

é muito difícil pelo autoensino. A curva de aprendizagem do talha-

mento segue um padrão em forma de escada: na maior parte do tempo exercitamos e consolidamos habilidades, mas, de vez em quando, alguns conselhos nos levam ao próximo nível. Apesar de algumas vezes ser possível descobrir truques sozinho, existe uma vantagem real em aprender com os demais. Um bom jeito de aprender é apenas observar. Embora chamar alguém de “bom imitador” possa ser ofensivo, psicólogos compa- rativos veem a cópia fiel como um pilar da nossa cultura. O traba-

lho de Andrew Whiten, da Universidade de St Andrews, na Escó- cia, assim como o de outros, mostrou que primatas têm certa des- treza em imitar, mas não chegam perto da habilidade para copiar, compulsiva e de alta fidelidade, que possuem humanos.

A imitação basta? Alguém pode descobrir como funciona o

xadrez ao prestar atenção a vários jogos, mas seria mais fácil se outra pessoa explicasse as nuances de estratégia e tática. O que queremos saber é se isso também vale para talhar ferramentas

e outras habilidades pré-históricas. Thomas Morgan, da Uni-

versidade da Califórnia em Berkeley, e colegas há pouco realiza-

ram uma experiência com a produção de ferramentas de pedra, para avaliar como o saber passa de uma pessoa a outra. Eles mostraram que há um maior aprendizado quando o ensino en- volve a linguagem, ao invés de apenas demonstrações. Pesqui- sas adicionais seguindo essa linha podem um dia ajudar a res-

ponder os grandes mistérios acerca de quando e por que a lin- guagem humana evoluiu. O ensino não é a única conexão possível entre a produção de ferramentas e a linguagem. Os neurocientistas reconhecem que a maioria das regiões do cérebro desempenha computações básicas ligadas a vários comportamentos diferentes. Tomemos, por exem- plo, a área de “fala” clássica, no giro frontal inferior esquerdo, des- crita pelo antropólogo do século 19, Paul Broca. Desde a década de 1990, novas pesquisas mostraram que a área de Broca contribui não só para a linguagem, mas também para a música, a matemática e a compreensão de ações manuais comple- xas. Essa observação reforçou a ideia consagrada de que a produ- ção de ferramentas, ao lado da propensão humana de se comuni- car através de gestos, podem ter servido como precursores evoluti- vos fundamentais da linguagem. Essa ideia foi desenvolvida de

Estudos com imagens indicam que circuitos neurais usados na produção de ferramentas foram escolhidos pelo cérebro em formas primitivas de comunicação.

forma mais completa por Michael A. Arbib, da Universidade do Sul da Califórnia, por exemplo, em seu livro de 2012 How the Brain Got Language (Como o cérebro gerou a linguagem). Os achados de nossos estudos nos levaram a propor, há pouco, que os circuitos neurais, incluindo o giro frontal inferior, passa- ram por mudanças a fim de se adaptar às demandas da produção de ferramentas do Paleolítico, e daí foram cooptados a apoiar for- mas primitivas de comunicação, usando gestos e, talvez, vocaliza- ções. Essa comunicação protolinguística teria sido então sujeitada à seleção, produzindo no final as adaptações específicas que dão suporte à linguagem humana moderna. Nossas experiências con- tínuas, além de criar um monte maciço de lascas quebradas, vão nos permitir testar essa hipótese.

PARA CONHECER MAIS

Dietrich Stout e Nada Khreisheh em Cambridge Archaeological Journal, Vol. 25, Número. 4, págs 867–875; Novembro de 2015. Experimental Evidence for the Co-evolution of Hominin Tool-Making Teaching and T. J.H. Morgan et al. em Nature Communications, Vol. 6, Artigo 6029; 13 de janeiro de 2015. Organizado por Colin Renfrew, Chris Frith e Lambros Malafouris. Oxford University Press, 2009. Publicações de Dietrich Stout:

DE NOSSOS ARQUIVOS

Heather Pringle; abril de 2013.

F ÍS ICA DE PART ÍCULAS

enig m a do

t ron

Dois experimentos de precisão discordam sobre quanto tempo os nêutrons sobrevivem antes de decair. A discrepância reflete erros de medidas ou indica algum mistério mais profundo?

Geoffrey L. Greene e Peter Geltenbort

EM SÍNTESE

Os melhores experimentos do planeta não concordam sobre a duração do tempo de vida dos nêutrons antes de decaírem em outras partículas. Dois tipos principais de experimentos estão em andamento: a garrafa que aprisiona e conta o número de

nêutrons que sobrevivem depois de vários intervalos de tempo, e os experimentos do feixe, que procuram partículas que resul- tam do decaimento dos nêutrons. Resolver a discrepância é es- sencial responder a várias questões sobre o Universo.

é professor de física da Universidade do Tennessee e trabalha na Fonte de Espalação de Nêutrons do Laboratório Nacional de Oak Ridge. Ele estuda as propriedades dessas partículas há mais de 40 anos.

Peter Geltenbort é cientista do Instituto Laue- Langevin, em Grenoble, França, onde utiliza uma d fontes de nêutrons mais intensas do mundo para pesquisar a natureza básica dessa partícula.

mundo para pesquisar a natureza básica dessa partícula. F ELIZMENTE PARA A VIDA NA TERRA, A

F ELIZMENTE PARA A VIDA NA TERRA, A MAIOR PARTE DA MATÉRIA NÃO É RADIOATIVA. ISSO É inquestionável, mas é, na verdade, bastante surpreendente porque o nêutron, um dos dois componentes do núcleo atômico (o outro é o próton), está sujeito a decai- mento radioativo. No interior do núcleo, um nêutron típico sobrevive por muito

tempo e pode nunca decair, mas se estiver livre, se transformará em outra partícula em mais ou menos 15 minutos. As palavras “mais ou menos” preenchem uma lacuna perturbadora na compreensão física dessa partícula. Por mais que tentemos, não

conseguimos medir com precisão suficiente a vida média do nêutron.

O “enigma da vida média do nêutron” não é uma situação

embaraçosa apenas para nós, físicos experimentais. Sua solução

é vital para a compreensão sobre o Universo. O processo de

decaimento do nêutron é um dos exemplos mais simples de interação nuclear “fraca” — uma das quatro forças fundamen- tais da natureza. Para entender bem a força fraca, precisamos saber quanto tempo vivem os nêutrons. Além disso, esse tempo de sobrevivência determinou como se formaram os primeiros elementos químicos mais leves depois do Big Bang. Para os cosmólogos seria interessante calcular as abundâncias esperadas dos elementos e compará-las com medidas astrofísi-

cas: se concordassem, confirmariam nosso cenário teórico, e, se divergissem, poderiam indicar que fenômenos desconhecidos afetaram o processo. Para fazer essa comparação, no entanto, precisamos saber qual o valor da vida média do nêutron. Há mais de dez anos, dois grupos experimentais, uma equi- pe na França, liderada por um pesquisador russo e outra nos Estados Unidos, tentaram separadamente medir com precisão

a vida média do nêutron. Um de nós (Geltenbort) era membro

do primeiro grupo, e o outro (Greene), do segundo. Junto com nossos colegas, ficamos surpresos e um pouco intrigados ao descobrir que nossos resultados discordavam consideravel-

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mente. Alguns teóricos sugeriram que a diferença se devia à física exótica — durante o experimento, alguns nêutrons podem ter se transformado em partículas nunca antes detectadas, que, por sua vez, podem ter afetado os dois experimentos de formas divergentes. No entanto, suspeitamos de uma razão mais banal — talvez um dos grupos ou até os dois, tenha só cometido um engano, ou mais provavelmente, tenha superestimado a pre- cisão do experimento. A equipe dos EUA completou, recente- mente, um longo e meticuloso projeto para determinar qual a principal fonte de incerteza de seu experimento, na expectativa de resolver a discrepância. Mas em vez de clarear a situação, esse esforço confirmou nosso resultado anterior. De forma si milar, outros pesquisadores confirmaram depois as descober- tas da equipe de Geltenbort. Essa discrepância nos deixou ain- da mais perplexos. Mas não estamos desistindo — os dois gru- pos e outros continuam a procurar respostas.

MEDINDO O TEMPO DE NÊUTRONS

Em princípio, medir a vida média de nêutrons deveria ser um processo direto. A física envolvida no decaimento nuclear é bem conhecida, e dispomos de técnicas sofisticadas para estudá-lo. Sabemos, por exemplo, que se uma partícula tiver a

possibilidade de se transformar em outra ou outras de massa menor e, ao mesmo tempo, de manter suas características como carga e momento angular de spin, ela o fará. Os nêutrons livres mostram essa instabilidade. Num processo chamado decaimento beta, um nêutron se rompe, dando origem a um próton, um elétron e um antineutrino (a contrapartida de anti- matéria do neutrino). No entanto, a soma das massas dessas partículas é ligeira- mente menor, apesar de terem a mesma carga total, momento angular e outras pro- priedades. Entre as propriedades que se conservam está a “massa-energia”, o que significa que as partículas resultantes guardam essa diferença de massa na forma

de energia cinética. Não podemos prever com exatidão quando um determinado nêutron decairá porque o processo é um fenômeno quânti- co basicamente aleatório — só dizer quan- to tempo os nêutrons vivem, em média. Por isso, para medir a vida média dessas partículas precisamos estudar o decaimento de uma grande quantidade delas. Os pesquisadores utilizaram dois métodos experimentais — um chamado técnica da “garrafa” e o outro, técnica do “feixe”. O primeiro consiste em confinar os nêutrons num recipiente e contar quantos restam depois de um dado inter- valo de tempo. O método do feixe, ao contrário, não foca no sumiço de nêutrons, mas no aparecimento de partículas nas quais eles decaem. A abordagem da garrafa é em particular desafiadora porque os nêutrons podem atravessar com facilidade a matéria e, con- sequentemente, também as paredes da maioria dos recipientes. Seguindo a sugestão apresentada de modo explícito, pela pri- meira vez, pelo russo Yuri Zel’dovich, os físicos experimentais que utilizam a abordagem da garrafa — como Geltenbort e seus colegas na França — contornam o problema aprisionando nêutrons muito frios (ou seja, com energia cinética muito baixa) dentro de um recipiente com paredes muito lisas (ver quadro na pág 36). Se os nêutrons forem suficientemente lentos e a garrafa lisa o bastante, eles são refletidos pelas paredes e, assim, permane- cem no frasco. Para produzir esse efeito, os nêutrons precisam se deslocar a velocidades da ordem de metros por segundo, ao contrário dos cerca de dez milhões de metros por segundo que costumam viajar quando são emitidos durante o processo de fissão nuclear, por exemplo. Esses nêutrons “ultrafrios” são tão lentos que você pode ultrapassá-los correndo. Até hoje, o exper- imento da garrafa mais preciso foi realizado no Instituto Laue- Langevin (ILL), em Grenoble, França. Infelizmente, não há garrafa perfeita. Se os nêutrons por acaso escaparem, atribuiremos a perda ao decaimento beta e obteremos um valor inexato para a vida média. É preciso então

FUNDAMENTOS

Como o nêutron decai

spin das partículas

FUNDAMENTOS Como o nêutron decai spin das partículas Carga = Momento a de spin = +

Carga = Momento a de spin = + ½

Carga = –1 Elétron Momento angular de spin = +½ Carga = +1 n Momento
Carga =
–1
Elétron
Momento angular
de spin = +½
Carga =
+1
n
Momento angular
de spin = +½
Carga =
0
Momento angular
de spin = -½

Carga

Momento angular de spin = + ½

= 0

corrigir os cálculos para termos certeza de estarmos contando somente partículas que de fato sofreram decaimento beta. Para realizar essa correção, usamos uma técnica engenhosa.

O número de nêutrons perdidos que atravessam as paredes da

garrafa depende da taxa com que eles rebotam nas paredes. Se forem mais lentos ou a garrafa maior, a taxa de rebotes e por- tanto a taxa de perdas diminuirá. Variando tanto o tamanho da garrafa como a energia (velocidade) dos nêutrons em sucessi- vos ensaios, podemos extrapolar até chegar a uma garrafa hipo- tética onde não haverá colisões e, portanto, nenhuma perda nas paredes. Obviamente, essa extrapolação não é perfeita, mas fazemos o possível para levar em conta qualquer erro que essa técnica possa introduzir. No método do feixe — usado por Greene e outros no Centro de Pesquisas de Nêutrons do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia (Nist, na sigla em inglês) — enviamos um feixe de nêutrons frios ao longo do campo magnético no interior de um anel formado por eletrodos de alta tensão que aprisionam partículas de carga positiva (ver quadro na pág. 37). Como os nêutrons não têm carga, eles atravessam a armadi-

lha sem sofrer desvio. Se, no entanto, um deles decair dentro da armadilha, gerará um próton, que por ter carga positiva ficará “preso”. Periodicamente “abrimos” a armadilha, descarregamos

e contamos os prótons. Em princípio, o aprisionamento e a

detecção de prótons são quase perfeitos, e são necessárias ape- nas correções muito pequenas, na eventualidade de termos per- dido algum decaimento.

ONDE PODE ESTAR O ERRO?

Para uma medida ser confiável, é preciso que ela seja acompanhada de uma estimativa confiável de sua precisão: a medida da altura de uma pessoa, por exemplo, com uma incerteza de um metro, é muito menos significativa que a

Vida média do nêutron (segundos)

EXPERIMENTOS

Técnicas diferentes, resultados diferentes

dentro das barras de erro calculadas, o mesmo acontecendo com as

Medidas da vida média do nêutron

900

895

890

885

880

875

870

1990

Média do método do feixe* (zona azul):

888,0 + 2,1 segundos

Incerteza

Média do método da garrafa (zona verde):

879,6 + 0,6 segundos

1995

2000

2005

Ano do experimento

Método do feixe

Método da garrafa

Discrepância

2010

2015

*A média do método do feixe não inclui a medida de 2005, que foi substituída pelo estudo do feixe de 2013.

mesma medida com uma precisão de um milímetro. Por essa razão, ao fazer medidas precisas é sempre importante mencionar a incerteza experimental. Uma incerteza de um segundo, por exemplo, significa que nossa medida tem uma alta probabilidade de não ser mais de um segundo menor ou maior que seu valor verdadeiro. Em geral, qualquer medida tem duas fontes de incerteza. Os erros estatísticos decorrem de só podermos medir experimentalmente uma amostra finita — no nosso caso, um número finito de decaimentos de nêutrons. Quanto maior a amostra, mais confiável a medida e menor o erro estatístico. A segunda fonte de incerteza — erro sistemático — é muito mais difícil de ser estimada porque decorre de imperfeições no processo de medida. Essas falhas podem ser simples, como uma trena mal graduada usada para medir a altura de uma pessoa. Ou podem ser mais sutis, como um viés de amostragem — uma pes- quisa por telefone, por exemplo, poderia se basear mais em chama- das de telefones fixos que de telefones celulares e assim não ser uma amostra verdadeiramente representativa de uma população. Os físicos experimentais se esforçam muito para minimizar esses erros sistemáticos, mas é impossível eliminá-los por completo. O melhor que se pode fazer é analisar em detalhes todas as fontes imagináveis de erro e depois estimar a contribuição residual de

36 Scientific American Brasil | Maio 2016

Cheio com

nêutrons

Contagem #1

#1

Número de

nêutrons

observados

Tempo

Contagem #2

#2

Contagem #3

#3

Método da garrafa

que aparecem na curva que representa o decaimento do nêutron ao longo do ocasionalmente, escapar pelas paredes da garrafa, os cientistas variam o tamanho da garrafa e a energia dos nêutrons — os dois parâmetros afetam o número de

cada uma no resultado final. Então somamos os erros sistemático

e estatístico para obter a melhor estimativa de confiabilidade geral

da medida. Em outras palavras, nos esforçamos muito em estimar

“incógnitas conhecidas”. Obviamente, nosso maior medo é ignorar uma “incógnita conhecida” — um efeito sistemático de alguma coisa que sequer sabemos que não sabemos — que pode estar camuflada no

procedimento experimental. Embora façamos o possível para calcular todas as incertezas possíveis, a única forma de superar esse erro adicional com total confiança é realizar outra medida, completamente independente, usando um método experimen- tal diferente que não esteja sujeito aos mesmos efeitos sistemáticos. Se as duas medidas independentes concordarem dentro do intervalo de erro, então poderemos ter confiança nos dois resultados. Se por outro lado elas divergirem, teremos um sério problema. Atualmente, dispomos de dois métodos independentes para medir a vida média do nêutron. São eles o feixe e a gar- rafa. No mais recente experimento com o feixe, realizado no Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, o valor obtido para

a vida média do nêutron foi de 887,7 segundos. O erro

estatístico estimado foi de 1,2 segundo e o erro sistemático

de 1,9 segundo. Quando se combinam os dois erros estatisti-

Método do feixe

dentro da armadilha, os prótons resultantes, com carga positiva, serão prótons que estão dentro da armadilha, eles conseguem medir o número de

Feixe de nêutrons (de intensidade conhecida) atravessa o ane

Eletrodos

Próton

+–+

Armadilha Conta-se o número de decaimentos num dado intervalo de tempo

Número de

nêutrons que

atravessa a

armadilha

Tempo

Inclinação

medida

camente, obtemos uma incerteza total de 2,2 segundos. Isso significa que existe uma probabilidade de 68% de que o valor da vida média do nêutron esteja 2,2 segundos acima ou abaixo do valor medido. Por outro lado, o experimento da garrafa realizado no ILL resultou num valor de 878,5 segundos para a vida média do nêutron, com uma incerteza estatística de 0,7 segundos, um erro sistemático de 0,3 segundo e uma incerteza total de 0,8 segundo. Esses são os dois experimentos mais precisos para calcular a vida média de nêutrons no mundo, mas suas medidas diferem em cerca de nove segundos. Essa diferença pode não parecer muito grande, mas é significativamente maior que as incertezas calculadas nos dois experimentos — a probabilidade de se obter uma diferença dessa magnitude devida apenas ao acaso é menos de uma parte em 10 mil. Precisamos então pensar com seriedade na possibilidade de que a discordância resulta de uma incógnita conhecida — e que alguma coisa importante pode ter sido ignorada.

FÍSICA EXÓTICA

Uma explicação atraente para a diferença é que ela reflete um fenômeno físico exótico, ainda não descoberto. Uma razão para acreditar nisso é que, embora os métodos sejam discre_

pantes, outras pesquisas feitas com o feixe mostram bom acor- do entre si, e o mesmo acontece com estudos usando a garrafa. Suponha, por exemplo, que além do decaimento beta nor- mal, os nêutrons decaíssem por meio de um processo até ago- ra desconhecido que não gera os prótons que procuramos no experimento do feixe. Os experimentos da garrafa onde o número total de nêutrons “perdidos” é contado, contariam tanto os nêutrons que desapareceram via decaimento beta como aqueles que sofreram esse segundo processo desconhe- cido. Poderíamos concluir então que a vida média do nêutron seria mais curta que a de um decaimento beta “normal”. Enquanto os experimentos do feixe registrariam apenas o decaimento beta, que religiosamente produz prótons, resul- tando numa vida média mais longa. Até o momento, como vimos, os experimentos feitos com o feixe de fato fornecem um valor da vida média pouco mais longo que os realizados pelo método da garrafa. Alguns teóricos levaram essa ideia a sério. Zurab Berezhi- ani, da Universidade de L’Aquila, na Itália, e colegas sugeriram um processo secundário: eles propuseram que um nêutron livre, às vezes, pode se transformar num “nêutron espelho” hipotético que não interage mais com a matéria normal e, assim, parece sumir. Essa “matéria espelho” poderia contribuir para a quantidade total de matéria escura do Universo. Embora essa ideia seja bastante atraente, ela continua sen- do altamente especulativa. É preciso ter uma confirmação definitiva sobre a discrepância entre os métodos da garrafa e do feixe para medir a vida média do nêutron antes que a maio- ria dos físicos aceite um conceito tão radical. É bem provável que um dos experimentos (ou talvez até os dois) tenha subesti- mado ou ignorado um efeito sistemático. Quando se trabalha com montagens experimentais tão delicadas e sensíveis, essa possibilidade nunca está descartada.

IMPORTÂNCIA DA VIDA MÉDIA DO NÊUTRON

Descobrir o que pode ter sido ignorado obviamente pode trazer paz de espírito aos físicos experimentais. Mas há uma questão talvez mais importante: se chegarmos ao fundo desse enigma e medirmos com precisão a vida média do nêutron, se- remos capazes de responder várias questões fundamentais sobre o Universo que perduram há muito tempo. Antes de tudo, uma avaliação precisa da vida média do nêutron nos ajudará a entender como a força fraca funciona em outras partículas. Ela envolve quase todos os decaimentos radioativos e comanda a fusão nuclear que ocorre no interior do Sol. O decaimento beta do nêutron é um dos exemplos mais simples e genuínos de interação da força fraca. Para calcular os detalhes de outros processos nucleares mais complexos envolvendo a força fraca, precisamos antes entender perfeitamente como ela funciona no decaimento do nêutron. Entender a taxa exata de decaimento do nêutron também ajudará a testar a teoria do Big Bang no início da evolução do Cosmos. Nessa teoria, no primeiro segundo de vida o Univer- so era formado por uma mistura densa e quente de partículas, incluindo prótons, nêutrons, elétrons e outros. Nesse momen-

to, sua temperatura era de cerca de dez bilhões de graus — tão quente que essas partículas eram energéticas demais para se unirem e formar os núcleos e átomos. Depois de cerca de três minutos o Universo expandiu e esfriou até uma temperatura em que prótons e nêutrons puderam se ligar para formar o núcleo atômico mais simples: o deutério, que é um isótopo mais pesado do hidrogênio.

A partir daí, outros núcleos simples conseguiram se formar

— o deutério conseguiu capturar um próton para formar um isótopo do hélio, dois núcleos de deutério se uniram para for- mar um elemento mais pesado, o hélio, e pequenos números de núcleos mais pesados também se formaram, até chegar ao lítio (acredita-se que todos os outros elementos mais pesados foram produzidos em estrelas vários milhões de anos depois). Esse processo é conhecido como nucleossíntese do Big Bang. Se, enquanto o Cosmos estava se resfriando, os nêutrons tives- sem decaído a uma taxa muito mais rápida do que a taxa pela qual o Universo perdia calor, o resultado seria que não haveria

mente, se eles discordarem, esse modelo terá de ser modificado. Certas discrepâncias poderão indicar, por exemplo, a existência de novas partículas exóticas no Universo, como um tipo dife- rente de neutrino, que pode ter interferido no processo de nucleossíntese. Uma forma de resolver a diferença entre os resultados da garrafa e do feixe é realizar mais experimentos usando métodos com precisão comparável que não estejam sujeitos aos mesmos erros sistemáticos que comprometem os resultados. Além de continuar com os projetos da garrafa e do feixe, cientistas de vários outros grupos do mundo estão trabalhando em métodos alternativos para medir a vida média do nêutron. Um grupo do Complexo de Pesquisa do Acelerador de Pró- tons do Japão (J-PARC), em Tokai, está desenvolvendo um novo experimento com um feixe capaz de detectar os elétrons, e não os prótons gerados no decaimento dos nêutrons. Outro desen- volvimento muito interessante está sendo projetado por grupos do ILL, o Instituto de Física Nuclear de São Petersburgo, na

O equilíbrio entre a duração média da vida de um nêutron e a taxa de resfriamento do Universo foi fundamental para a formacão dos elementos que constituem nosso planeta, e tudo o mais que existe por aqui

nêutrons disponíveis quando o Universo atingiu a temperatura adequada para formar os núcleos. Somente os prótons teriam restado, e todo o Cosmos seria formado quase que inteiramente de hidrogênio. Por outro lado, se a vida média do nêutron fosse muito maior que o tempo necessário para o Cosmos esfriar o suficiente para possibilitar a nucleossíntese do Big Bang, teria ocorrido uma superabundância de hélio. Esta por sua vez, teria afetado a formação dos elementos mais pesados envolvidos na

evolução de estrelas e finalmente na criação da vida. Por isso, o equilíbrio entre a taxa de resfriamento do Universo e a vida média do nêutron foi fundamental para a formação dos ele- mentos que constituem nosso planeta e tudo o que nele existe.

A partir de dados astronômicos podemos medir a razão cós-

mica do hélio em relação ao hidrogênio, bem como as quanti- dades de deutério e outros elementos leves que se encontram no Universo. Gostaríamos de ver se essas medidas concordam com os números previstos pela teoria do Big Bang. A previsão teórica, no entanto, depende do valor preciso da vida média do nêutron. Sem um valor confiável, nossa capacidade de fazer essa comparação é limitada. Se a vida média do nêutron for conhecida com mais precisão, podemos comparar a razão observada a partir de experimentos astrofísicos com o valor teórico previsto. Se eles concordarem, nosso cenário padrão do Big Bang sobre a evolução do Universo será ainda mais confiável. Obvia-

38 Scientific American Brasil | Maio 2016

Rússia, o Laboratório Nacional de Los Alamos, a Universidade Técnica de Munique e a Universidade Johannes Gutenberg, em Mainz, na Alemanha. Eles planejam usar garrafas para confi- nar nêutrons ultrafrios com campos magnéticos em vez de paredes materiais. Isso é possível porque essa partícula, embo- ra não tenha carga elétrica, se comporta como um pequeno ímã. O número de nêutrons perdidos acidentalmente nas late- rais dessas garrafas deverá ser bem diferente das perdas em medidas anteriores, e por isso devem produzir incertezas sistemáticas bem diferentes. Esperamos com fervor que, jun- tas, a continuidade de experimentos com garrafas e feixes e essa nova geração de medidas possam enfim resolver o enigma da vida média do nêutron.

PARA CONHECER MAIS

A. T. Yue et al. em Physical Review Letters , vol. 111, n o 22, artigo no 222501; 27 de novembro de 2013. Reviews of Modern Phys- ics , vol. 83, n o 4, artigo n o 1173; outubro—dezembro de 2011. - A. Serebrov et al., em Physics Letters B , vol. 605, n o 1—2, págs. 72-78; 6 de janeiro de 2005.

DE NOSSOS ARQUIVOS

Jan C. Bernauer e Randolf Pohl; n o 142, março de 2014.

VITAL Biólogos sintéticos estão perto de empregar células para fazer diagnósticos de doenças humanas e

VITAL

Biólogos sintéticos estão perto de empregar células para fazer diagnósticos de doenças humanas e reparar danos ambientais

Timothy K. Lu e Oliver Purcell

OS PRIMEIROS COMPUTADORES eram biológicos: ti-

nham dois braços, duas pernas e 10 dedos. “Computador” era a de- signação de uma profissão, não de uma máquina. A ocupação de- sapareceu depois que máquinas de calcular programáveis, elétri- cas, surgiram no final da década de 1940. Desde então, pensamos em computadores como dispositivos eletrônicos. No entanto, nos últimos 15 anos, a biologia tem passado por uma espécie de renascimento no campo da computação. Cientis- tas em universidades e empresas start-up creem estar perto de promover os primeiros biocomputadores de meros objetos de pes- quisa a ferramentas do mundo real. Esses sistemas, construídos com genes, proteínas e células, incluem elementos básicos da lógi- ca computacional: testes do tipo IF/THEN, operações AND e OR, e até simples operações aritméticas. Alguns incluem memórias digi- tais primitivas. Se recebem os inputs biológicos certos, esses com- putadores vivos costumam gerar resultados outputs previsíveis. Nos próximos cinco anos, mais ou menos, os primeiros compu- tadores biológicos poderão ser usados como meios sensíveis e pre-

cisos de diagnóstico e terapia para patologias como câncer, doen- ças inflamatórias e disfunções metabólicas raras. Nós e outros que projetamos sistemas celulares lógicos vislumbramos um futuro, não tão distante, em que eles serão seguros e inteligentes o bastan- te para tratar e identificar distúrbios. A tecnologia possibilitará novas formas, mais rápidas e baratas, de produzir substâncias quí- micas complexas, como biocombustíveis e produtos farmacêuti- cos. Ela pode nos permitir responder a vazamentos de poluentes ao permearmos ecossistemas contaminados com organismos con- cebidos para monitorar e degradar toxinas. Isso não quer dizer que a tecnologia da bioinformática agora esteja avançada. O campo está em sua infância. Não pense iPho- ne, pense Colossus. Colossus foi um dos primeiros computadores eletrônicos programáveis. Se você tivesse entrado em Bletchley Park, no centro ultrassecreto de decriptação, ou quebra de códi- gos, ao norte de Londres, onde Colossus começou a operar em 1944, ainda durante a Segunda Guerra Mundial, você o teria vis- to zumbindo sem parar, fitas de papel fluindo sobre polias, com

seus 1.600 tubos de vácuo zunindo perfeitamente afinados. Pelos padrões de hoje, Colossus era demasiado primitivo. Ele ocupava toda uma sala, daí o nome. Ele só conseguia executar alguns pou- cos tipos de cálculos e não podia armazenar seu próprio progra- ma. Levava dias ou semanas para desenvolver, carregar e testar um novo programa. Operadores tinham de religar a máquina fi- sicamente toda vez. Apesar de suas limitações, Colossus quebrou a criptografia que os nazistas usavam para codificar suas mensagens mais importan- tes. Esse desajeitado computador, que mal havia começado a “en- gatinhar” no mundo da informática, ajudou a vencer uma guerra mundial. Seus descendentes catapultaram a civilização, décadas mais tarde, da era industrial para a era da informação. Os computadores celulares mais impressionantes feitos até agora na realidade são muito mais simples, lentos e menos capa- zes que o Colossus. Como os primeiros computadores eletrônicos, nem sempre funcionam; executam apenas os programas mais simples e não são reprogramáveis fora do laboratório. Mas vemos nesta tecnologia um pouco do mesmo potencial transformador que a eletrônica digital tinha em seus anos iniciais. Mesmo um pingo de inteligência, aplicada de forma engenhosa, pode criar re- sultados quase mágicos em um sistema vivo. É provável que computadores celulares nunca substituam as variedades eletrônica e óptica. A biologia não ganhará nenhuma corrida contra a física do estado sólido. Mas a química da vida tem um poder inerente único e pode interagir com o mundo natural — grande parte do qual, afinal, funciona com base em biologia — de maneiras que sistemas eletrônicos não podem.

LIGA, DESLIGA

Toda célula em nosso corpo é, em certo sentido, um pequeno computador. Ela recebe inputs, muitas vezes na forma de molécu- las bioquímicas que se ligam à sua superfície, e os processa por meio de cascatas de interações moleculares. Às vezes, essas rea- ções afetam o nível de atividade de um ou mais genes no DNA da célula; ou seja, determinam o quanto um dado gene é “expressa- do” ao ser transcrito em RNA e depois traduzido em múltiplas có- pias da molécula proteica que o gene codifica. Essa computação química analógica gera outputs: um esguicho hormonal de uma célula glandular, um impulso elétrico de uma célula neural, uma corrente de anticorpos de uma célula imune, e assim por diante. Nossa meta é explorar as habilidades naturais que as células têm para processar informações e executar programas. Desejamos ir muito além da engenharia genética convencional que apenas si- lencia um gene, intensifica sua expressão, ou insere um ou dois ge- nes de uma espécie em células de outra. O objetivo é talharmos sob medida, de maneira rápida e confiável, o comportamento de muitas variedades de células como um engenheiro elétrico projeta uma placa de circuito: ao selecionar partes, ou componentes pa-

Sintética no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que integra circuitos computacionais e de memória em células vivas, aplic biologia sintética a importantes problemas médicos e industriais, e constrói biomateriais vivos. Ele é ganhador de um prêmio Novo Inovador da Diretoria dos Institutos Nacionais de Saúde (National Institutes of Health Director’s New Innovator Award), entre outros. Em 2014, cofundou a empresa start-up de biologia sintética Synlogic.

Oliver Purcell é associado de pós-doutorado no Grupo de Biologia Sintética do MIT. Sua pesquisa abrange muitas áreas da biologia sintética, da concepção de partes biológicas sintéticas a abordagens computacionais inovadoras para o design racional de sistemas biológicos.

dronizados de um catálogo e uni-los, ou interligá-los. Infelizmente,

a biologia difere da eletrônica de maneiras que frustram essa am-

bição; mais detalhes sobre isso mais adiante. O progresso tem sido lento, porém considerável. Os primeiros grandes avanços aconteceram em 2000. Naquele ano, James Collins e seus colegas da Universidade de Boston “costuraram” dois genes mutuamente interferentes para fazer um interruptor genético que pode ser alternado entre dois estados estáveis; uma memória digital de um bit. Além disso, um grupo liderado por Mi- chael Elowitz, então na Universidade de Princeton, inseriu um os- cilador rudimentar em uma cepa da bactéria Escherichia coli. O microrganismo piscava como uma luzinha de Natal quando um gene fluorescente ligava e desligava com regularidade. Em 2003, Ron Weiss, então em Princeton, tinha projetado um biocircuito que leva uma célula a se iluminar quando a concentra- ção de um composto ambiental está ideal: nem muito alta, nem muito baixa. Esse sistema ligava entre si quatro inversores, que mudam um sinal HIGH para outro LOW, e vice-versa. Anos depois, Adam Arkin e seus colegas da Universidade da Califórnia em Berkeley, criaram uma forma hereditária de memó-

ria que usa enzimas chamadas recombinases para cortar peque- nas seções do DNA, virá-las ao contrário e reinseri-las. O DNA mo- dificado passa de uma célula para suas filhas quando ela se divide — uma característica útil, considerando que muitas bactérias se reproduzem a cada uma ou duas horas. Elaborar partes destinadas a realizar uma única operação é uma coisa; juntar, ou agregar muitas partes para formar um siste- ma integrado é muito mais complicado, porém mais útil. Biólogos sintéticos criaram componentes genéticos para realizar todas as operações booleanas básicas da lógica digital (AND, OR, NOT, XOR, e assim por diante). Em 2011, dois grupos de pesquisadores tinham inserido portas lógicas individuais em células bacterianas

e programado-as para se comunicarem através de “fios” químicos,

criando em essência computadores multicelulares. Martin Fussenegger, Simon Ausländer e seus colegas do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça, em Zurique, montaram partes desse

criaram células capazes de contar, somar, armazenar dados na memória e fazer operações lógicas básicas.

EM SÍNTESE

Esses biocomputadores se comunicam via

sinais químicos, que são inerentemente ba-

dade para prever como se comportarão an- tes de serem construídos: não sabemos o

estão testando

aplicações, inclusive células ingeríveis, que tratam de distúrbiosmetabólicos.

40 Scientific American Brasil | Maio 2016

tipo para criar sistemas que podiam realizar operações aritméticas simples. Um de nós (Lu), junto com Collins, George Church, da Esco- la de Medicina de Harvard, e outros, combinou unidades hereditá- rias de memória em uma cascata para produzir uma cepa modifica- da de E. coli capaz de contar até três. O estado de memória permane- ce intacto de uma geração celular para a próxima. Essa característica crucial permite armazenar informações sobre eventos passados para serem recuperadas no futuro. Em princípio, o contador que criamos poderia ser aprimorado para alcançar números mais elevados e re- gistrar eventos importantes, divisão ou suicídio celular.

UM ESPIÃO NO ORGANISMO

A computação biológica começou a ir além de demonstrações

de provas de conceitos; potenciais aplicações do mundo real estão

à vista. Nos últimos anos, nós e outros descobrimos muitas manei-

ras de projetar sensores, operadores lógicos e componentes de me- mória em circuitos genéticos que podem desempenhar tarefas úteis em células vivas. Em 2011, um grupo criou um sistema de lógica genética capaz de forçar uma célula a se autodestruir se contiver uma assinatura cancerígena específica. O circuito genético monitora os níveis de seis sinais biológicos; nesse caso, pedaços de RNA chamados mi- croRNAs (miRNAs) que regulam a expressão gênica. Esses seis si- nais formam uma assinatura distinta de células cancerosas de ori- gem humana, conhecidas como células HeLa. Quando o circuito está numa célula HeLa, dispara um interruptor genético assassino

e produz uma proteína que instrui a célula a suicidar-se. Na célula

não HeLa, o circuito está inativo e não provoca o suicídio celular.

Outros grupos, inclusive o nosso, apresentaram circuitos que

realizam operações aritméticas básicas, calculam taxas ou logarit- mos, convertem sinais digitais de dois bits em níveis analógicos de output de uma proteína, e registram e transmitem os estados liga- do/desligado das portas lógicas da célula parental a seus filhos. No ano passado, nosso grupo e o de Christopher Voigt, ambos no MIT, criamos um microrganismo que age no intestino de um mamífero. Trabalhamos com camundongos, mas a espécie bacte- riana que modificamos, Bacteroides thetaiotaomicron, vive em ní- veis muito elevados no intestino de cerca de metade dos humanos adultos. Antes disso, Pamela Silver, da Escola de Medicina de Har- vard, e seus colegas modificaram genes de bactérias de E. coli para operar no intestino dos roedores.

O biocircuito faz da bactéria um espião. Enquanto está ociosa,

ela usa parte de seu DNA como um notebook para detectar se coli- diu com uma substância química selecionada. Adotamos como alvo compostos inócuos, mas poderia ser uma molécula tóxica ou um biomarcador presente só quando o hospedeiro tem certo mal. Depois de ingerir os compostos, os camundongos excretam as bactérias em suas fezes. Nos microrganismos expostos ao alvo, os circuitos desencadeiam a produção de luciferase, uma enzima que brilha no escuro. O brilho é tênue, mas visível ao microscópio. Não é difícil imaginar como esses sistemas poderiam ser úteis para pessoas que têm um problema intestinal, como a doença in- flamatória intestinal (IBD, na sigla em inglês) [ver box na próxima página]. Em breve, talvez possamos programar bactérias inócuas, que ocorrem naturalmente, para identificar e “relatar” sinais pre-

coces de câncer ou IBD. Os dispositivos poderiam mudar a cor das fezes, ou acrescer a elas uma substância química detectável em um kit barato, semelhante a um teste doméstico de gravidez.

AS PARTES DURAS DE WETWARE

Sentinelas celulares como as que acabamos de descrever não precisam de muito poder computacional para melhorar em muito os testes de diagnósticos já disponíveis. Um teste IF/THEN, algu- mas portas AND e OR, e um ou dois bits de memória persistente

são suficientes. Isso é uma sorte, porque engenheiros de bioinfor- mática têm à frente uma lista de desafios que engenheiros eletrô- nicos de computação nunca tiveram de enfrentar. Comparada às velocidades em giga-hertz dos circuitos eletrôni- cos, a biologia avança no ritmo de um caramujo. Quando aplica- mos inputs aos sistemas genéticos, costuma levar horas até que o output surja. Felizmente, vários eventos biológicos interessantes não operam em escalas de tempo muito curtas. Ainda assim, pes- quisadores buscam acelerar a computação em células vivas.

A comunicação é um problema à parte. Em computadores con-

vencionais, evitar cacofonia é fácil: basta ligar componentes por meio de fios. Quando muitos componentes compartilham um fio, pode-se dar a cada um uma janela de tempo para falar ou ouvir, ao sincronizar cada parte com um sinal de um relógio universal. Mas a biologia é wireless, e não existe um relógio mestre. A co- municação dentro das células, e entre elas, é barulhenta. Uma ra-

zão para o ruído é que partes biológicas usam substâncias quími- cas, em vez de fios físicos, para trocar sinais. Todos os componen- tes que usam qualquer “canal” químico podem se comunicar ao mesmo tempo. E pior: as reações químicas subjacentes, que en- viam e recebem sinais, são em si mesmas barulhentas; a bioquími- ca é um jogo de probabilidades. Projetar sistemas que calculem confiavelmente, apesar do ruído, é um desafio permanente. Essas questões afligem em especial sistemas de bioinformática que usam computação analógica, como muitos fazem, porque, como réguas de cálculo, dependem de valores (os níveis de proteí- nas ou RNAs) que podem variar quase todo o tempo. Sistemas di- gitais, em comparação, processam sinais que são HIGH ou LOW, TRUE ou FALSE. Embora isso torne a lógica digital mais robusta a ruídos, existem menos partes disponíveis que funcionam assim.

O maior problema é a imprevisibilidade. Engenheiros elétricos

têm modelos que preveem, com grande precisão, o que um novo design de circuito fará antes de o construírem. Biólogos não com- preendem bem o suficiente como células funcionam para fazer tais previsões. Tateamos o caminho, muito por tentativa e erro, e muitas vezes descobrimos que os sistemas agem só por algum

tempo. Depois colapsam. Muitas vezes não entendemos por que. Mas estamos aprendendo, e uma razão forte para construir computadores com células é que esse processo de construir, testar e “debugar” computadores biológicos pode revelar sutilezas da biologia celular e genética que ninguém havia notado antes.

NASCIMENTO DE UMA NOVA MÁQUINA

Superar esses desafios pode levar décadas; alguns, como a velo- cidade algo lenta de processamento, talvez sejam intratáveis. Pare- ce improvável que a bioinformática cresça em desempenho na

A P L I CAÇ Õ E S M É D I CA S

Diagnóstico por biocomputador

1

Bacteroides thetaiotaomicron (descritos à extrema direita)

2

3

4

42 Scientific American Brasil | Maio 2016

Ilustração de Bryan Christie

Como funciona

(output)

A

Porta AND

B

Gene repórter

C

Output

mesma trajetória exponencial da computação digital. Não esperamos que computadores biológicos sejam mais rápidos que os convencionais. No entanto, engenheiros de bioinformática se beneficiam de um au- mento cada vez mais acelerado da taxa com que conseguimos ler e sin- tetizar DNA bruto. Como a lei de Moore, isso reduz o tempo gasto para projetar, construir, testar e refinar circuitos gênicos todos os anos. Embora ainda seja cedo, aplicações de bioinformática comercial- mente viáveis estão chegando. Células podem navegar por tecido vivo, distinguir sinais químicos e estimular crescimento e cura de maneiras que nenhum microchip já conseguiu. Se os diagnósticos por biocompu- tadores funcionarem bem, o próximo passo é empregá-los para tratar de doenças, quando e onde eles as detectarem. Clínicas oncológicas já começaram a isolar células do sistema imune, chamadas células T, de pacientes com câncer sanguíneo, para inserir nelas genes que as instruem a matar o câncer, e depois as reinjetam no corpo. Pesquisadores trabalham para acrescer lógica ao pacote genético inserido nas células T, de forma que elas detectem várias assinaturas de câncer e estejam equipadas com interruptores de desligamento, aos quais médicos possam recorrer para controlá-las. Outros tipos de cân- cer poderiam ser tratáveis por esta abordagem. Em 2013, Collins, Lu e outros biólogos fundaram a Synlogic, uma empresa para comercializar medicamentos que utilizam bactérias pro- bióticas modificadas, que podem ser engolidas com segurança. Agora, a start-up aperfeiçoa biocomputadores para tratar fenilcetonúria e dis-

funções do ciclo de ureia, dois distúrbios raros, porém graves, que afe- tam pessoas desde o nascimento. Ensaios com animais já começaram, com resultados encorajadores.

À medida que entendemos mais como o microbioma afeta a saúde

humana, devemos descobrir que bactérias modificadas podem ser be- néficas para um conjunto crescente de males, incluindo distúrbios infla- matórios, metabólicos e cardiovasculares. Com mais experiência e uma biblioteca cada vez maior de biopartes, medicamentos “inteligentes” se tornarão mais comuns e poderosos. E é provável que a tecnologia alcan- ce outras áreas. No setor de energia, microrganismos inteligentes pode- rão produzir biocombustíveis. Em engenharia química e de materiais, biocomputadores podem ser úteis para sintetizar produtos hoje difíceis de fazer, ou exercer um controle pontual sobre a bioprodução, ou manu- fatura. Na conservação ambiental, poderiam monitorar locais remotos para detectar qualquer exposição cumulativa a substâncias tóxicas e en- tão realizar reparações necessárias.

O campo está, literalmente, evoluindo muito rápido. Quase com

certeza, as aplicações mais incríveis de bioinformática ainda têm de

ser concebidas.

PARA CONHECER MAIS

Programming a human commensal bacterium, Bacteroides thetaiotaomicron, to sense and Mark Mimee et al. em Cell Systems , vol. 1, nº 1, págs. 62–71; 29 de julho de 2015. Oliver Purcell e Timothy K. Lu em Current Opinion in Biotechnology, vol. 29, págs. 146–155; outubro de 2014. Zhen Xie et al. em Science, vol. 333, págs. 1307–1322; 2 de setembro de 2011.

DE NOSSOS ARQUIVOS

W. Wayt Gibbs; edição nº 25, junho de 2004.

acima marinha (topo à direita) (abaixo à direita).

ECOLOGIA

DEBANDADA EM

GALÁPAGOS

Um aumento incessante no número de visitantes pode arruinar o famoso foco de biodiversidade em apenas alguns anos – Paul Tullis

Na ponta sul da ilha de Santa Cruz em Galápagos, um

desafiladeiro conhecido como Las Grietas é o lar de uma espécie de peixe-papagaio: uma criatura de cores brilhantes de cerca de 46 cm de comprimento. O lago onde o peixe vive foi criado há muito tempo, quando ondas grandes se esparramavam por sobre a orla elevada da ilha e caíam em uma fenda profunda. Hoje em dia é refrescado por água da chuva que se infiltra pela rocha vulcânica

44 Scientific American Brasil | Maio 2016

porosa que forma o desfiladeiro íngreme. Em meio a isso tudo, a população do pequeno peixe-papagaio vem se desenvolvendo no lago, com água tão clara que é possível ver, através de quase 20 m, os vertebrados escondidos no fundo. Em agosto de 2014, programei para fazer uma caminhada ali com o naturalista Andrés Vergara. Nos encontramos no Hotel Finch Bay Eco e andamos cerca de 10 min por areia e terra irregu-

lar em um ritmo tranquilo. Então pegamos o trecho final da trilha sobre rochedos, depois para baixo pelas paredes de pedra do desfi- ladeiro, escalando feito caranguejo, até a borda do lago. Esse tre- cho era perigoso o suficiente para espantar o turista casual; só uns poucos aventureiros na verdade chegavam ao lago. É um local lin- do. Nas bordas da rocha, 9 m acima, há lugar a partir do qual um visitante com coragem pode pular para a água lá embaixo.

PÁGINAS ANTERIORES: ERIN KRUSZEWSKI Getty Images(leões-marinhos); MATT MOYER Getty Images (iguana); DOUG CHEESEMAN Getty Images (turistas)

Tivemos sorte de fazer a visita naquela época, porque logo depois Las Grietas foi fechada para que as trilhas fossem melhora- das. Reabriu em dezembro de 2014. Vergara, que trabalha como guia no Parque Nacional Galápagos, me ligou então e disse que agora o local tem calçadão sobre as rochas, uma escada sofisticada que leva até a água e uma plataforma de madeira para o pulo no lago. “Faz parte de um plano do Parque Nacional Galápagos de tor-

nar as coisas mais fáceis para a comunidade e para os visitantes”, disse. As melhorias elevaram dramaticamente o número de visi- tantes, que triplicou entre julho de 2014 e julho de 2015, quando 7.109 pessoas fizeram a caminhada.

O que todos esses humanos significam para a viabilidade dos

peixes-papagaio não está claro. Será que a quantidade maior de migalhas de sanduíche, protetor solar na água e as inevitáveis embalagens de plástico vão poluir seu hábitat único – e acabar arruinando o apelo turístico do lago? Desde que Charles Darwin visitou as ilhas em 1835 e as enxer- gou como um laboratório vivo de seleção natural, Galápagos se tornou globalmente conhecido como um dos melhores lugares para ver a vida selvagem. As ilhas contam com 14 espécies de saí- ras (conhecidas como tentilhão-dos-galápagos) e 12 espécies de tartaruga. Pinguins e flamingos vivem a alguns poucos quilôme- tros uns dos outros. Leões-marinhos são tão bem alimentados com peixes em abundância que nem se importam com os pinguins, que em outras partes do planeta caçam com rapidez. A lista de atra- ções selvagens, divulgada em panfletos jeitosos e em sites na web, é o motivo pelo qual alguns turistas aventureiros (e ricos) têm sido compelidos por décadas a fazer a longa viagem até o arquipélago. Nos últimos anos, no entanto, o número gotejante de turistas se transformou em uma enxurrada. No começo dos anos 1990, 41 mil pessoas visitavam Galápagos anualmente. Em 2013, o número ultrapassou 200 mil pela primeira vez. Mais de 224 mil visitantes vieram em 2015, outro recorde. Esse aumento é alimentado em parte por necessidade. O Equador está se debatendo em termos financeiros. O petróleo é responsável por 44% de sua renda com exportação. A fim de reforçar suas finanças e compensar a queda nos preços do petróleo, o governo se voltou para o turismo, permi- tindo que a indústria se desenvolva com mais facilidade nas ilhas e colaborando com projetos como o feito em Las Grietas. “O governo está trabalhando para aumentar de forma significa-

tiva o turismo em Galápagos; não há dúvida quanto a isso”, diz Swen Lorenz, que tem conhecimento em finanças e que, de 2011

até 2015, foi diretor-executivo da Fundação Charles Darwin, que aconselha o governo em relação a questões ecológicas.

É possível fazer turismo de forma a preservar áreas naturais,

beneficiar a população local e até financiar a conservação de hábitat e de espécies. Mas mesmo esse “ecoturismo” de responsa-

Paul Tullis é editor na TakePart, revista digital de notícias. Ele já escreveu para , e , entre outras.

Pinta

Marchena Genovesa Ilhas Galápagos Enseada San Salvador de Tagus Bartolomé Seymour Baltra Fernandina Santa
Marchena
Genovesa
Ilhas
Galápagos
Enseada
San Salvador
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EQUADOR

bilidade causa impactos, e não é mais o único tipo de turismo que está sendo feito em Galápagos. A afluência de viajantes está em rota de colisão com aquilo que todos querem apreciar: a vida sel- vagem. De 20 espécies endêmicas criticamente ameaçadas, 16 vivem nas quatro ilhas habitadas que mais recebem visitas. Novas espécies invasoras, trazidas em grande parte pelos visitantes, estão dominando alguns nichos ecológicos. Uma iguana verde, que pode transmitir doenças do continente para espécies endêmicas, foi capturada em Puerto Ayora, em Santa Cruz, em agosto; ninguém sabe como ela chegou lá ou quantas podem ter vindo com ela. As Ilhas Galápagos não seriam o primeiro lugar sensível em termos ecológicos a ser danificado permanentemente por turistas. Visitantes desbastam corais em busca de suvenires na Grande Bar- reira de Corais. A frágil Antártida está sendo descoberta por navios de cruzeiro. Agora há uma loja Walmart em Teotihuacán, a mile- nar cidade mesoamericana no México, que foi exumada e restau- rada. O Equador, ao deixar que a indústria do turismo se desenvol- va de forma intensa, pode estar presidindo a destruição de uma joia da biodiversidade. Se isso acontecer, as ilhas também pode-

Um crescimento acentuado no número de turistas que

visitam as Ilhas Galápagos ameaça a própria biodiversidade que as pessoas vão para observar. O Equador encorajou o do Parque Nacional Galápagos, que foi demitido, assim

46 Scientific American Brasil | Maio 2016

EM SÍNTESE

como especialistas independentes de vida selvagem, dizem que o país precisa estabelecer um limite anual de visitantes ou as ilhas serão arruinadas. Os especialistas relatório, no início de 2014, recomendando um limite de 242 mil pessoas, mas dizem que a administração do presidente

Rafael Correa o ignorou. Nesse meio-tempo, a administra- ção do parque está construindo passarelas e outras in- fraestruturas para facilitar o acesso a locais ecologicamente e ilegais se expandiram para trazer ainda mais turistas.

Mapa de Mapping Specialists

JOEL SARTORE Getty Images

riam perder o interesse para os turis- tas e a renda que eles trazem. Em 2013, o Equador deu um pas- so para colocar Galápagos em uma trilha sustentá vel. O presidente Rafael Correa encomendou um estu- do sobre o impacto do turismo cres- cente nas ilhas. O relatório que vol- tou foi grave: caso não se estabele- cesse com rapidez um limite máximo em relação ao número de visitantes por ano, o desenvolvimento contí- nuo colocaria em perigo a biodiversi- dade do arquipélago e sua atrativida- de para os turistas. Mas, até agora, o governo de Correa não prestou aten- ção a essa advertência.

LIMITE POLÊMICO SOBRE TURISTAS

O movimento para avaliar o impac-

to do turismo começou no final do verão de 2013, quando Arturo Izurieta recebeu de surpresa um telefonema de Lorena Tapia, na época ministra do meio ambiente do Equador. Izurieta, nativo do Equador, que viveu mais de 25 anos em Galápa- gos, trabalhava como conservacionista na Austrália. Tapia lhe ofe- recia uma chance de voltar para casa, para o arquipélago, e um cargo que ocupara no começo dos anos 1990: diretor da Reserva Marinha e Parque Nacional Galápagos. Além disso Tapia queria que Izurieta assumisse o problema do desenvolvimento sustentável, de acordo com Izurieta. (Tapia, por

um porta-voz, rejeitou o pedido para ser entrevistada.) O presiden- te Correa, ela lhe disse, havia acabado de pedir um estudo sobre quantos turistas os Galápagos podiam acomodar. Quantos locais podiam ser abertos com segurança? Qual era o impacto geral da presença humana nas ilhas? O último item “era uma questão bas- tante empolgante”, lembra Izurieta. “Ela me perguntou: ‘Como vamos descobrir isso?’”. Correa queria a resposta em um ano. Izurieta começou em setembro. Logo reuniu uma comissão de especialistas, tais como Stephen J. Walsh, geógrafo que dirige o Centro para Estudos sobre Galápagos na Universidade da Carolina do Norte, e Carlos Mena, que, com Walsh, codirige o Centro de Ciência de Galápagos, que é gerido em conjunto pela Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill e pela equatoriana Universi- dade de San Francisco em Quito. Esse grupo incluía biólogos, geó- grafos e um professor de faculdade de administração.

A equipe decidiu definir cenários de crescimento do turismo e

deixar que o governo decidisse qual gostaria de atingir segundo seu objetivo, fosse a geração de renda, a conservação das ilhas, ou um equilíbrio entre os dois. “A escolha se baseia na quantidade de risco que se está disposto a correr”, diz Walsh, e no que o governo valoriza. Se o governo decide duplicar o número de turistas, por exemplo, deve aceitar um risco maior de que o hábitat seja piso- teado e ocorram mais vazamentos de diesel e mais poluição de barcos. “Toda vez que é tomada uma decisão sobre a dimensão

humana, ela afeta como Galápagos será no futuro”, diz Walsh. Walsh e Mena criaram modelos matemáticos dos ecossistemas das ilhas, a fim de determinar como diferentes níveis de cresci- mento, para diferentes perfis de turistas, afetariam diversos aspec- tos do meio ambiente. As 19 ilhas, e seus cerca de 145 locais prote- gidos, sofrem impactos diferentes dependendo se o turista está hospedado ali ou em um navio ancorado, por exemplo. Até a nacionalidade importa: a produção de lixo cresce mais rápido, por exemplo, quanto maior a porcentagem de turistas dos EUA. A equipe incorporou décadas de dados e os inseriu em algoritmos para entender como a mudança de um fator afetaria os outros. Quando Walsh e Mena elevaram o número de visitantes anuais, os modelos reveleram limites críticos — pontos nos quais os efei- tos negativos começaram a modificar o ambiente de forma dramá- tica, enviando algumas espécies para a ruína. Basicamente os modelos mostraram uma espiral de morte caso houvesse um cres- cimento descontrolado do turismo. As exigências para o desenvol- vimento privado, a fim de sustentar o crescimento, destruiriam hábitats, e vegetação e animais seriam extintos. Depois de uma década mais ou menos, o declínio das espécies se tornaria tão evi- dente que, como resultado, a indústria de viagens se reduziria. Programas financiados pelos turismo, para restabelecer as espé- cies em dificuldades, ficariam sem recursos. “Se continuarmos a crescer”, diz Izurieta, “logo atingiremos o ponto sem volta.” Quão logo? O relatório de Izurieta, conhecido por Cenários para a Sustentatibilidade, define essa data como 2017. O cresci- mento ilimitado traria mais renda nos próximos 10 anos do que outros cenários. Mas a renda do turismo atingiria um pico em 2027 e depois declinaria. “O número de visitas ficará abaixo do que temos agora”, diz Izurieta.

MANFRED GOTTSCHALK Getty Images

O cenário alternativo de estabilização, que limita-

ria o número de visitantes a 242 mil por ano, repre- sentaria menos renda entre hoje em dia e 2027, mas vir-tualmente garantiria renda anual contínua por

décadas. O limite, diz Izurieta, está baseado na capaci- dade de carga (total de visitas em certo período de tempo) de locais dentro das áreas protegidas. Ele reduziria o mercado dos hotéis gigantes e também diminuiria a procura por hotéis pequenos e ilegais, mas permitiria que o ecoturismo, de preço mais alto e pegada de carbono leve, que sustentou as ilhas por décadas, continuasse mais ou menos desimpedido.

O grupo de Izurieta apresentou seu relatório em

fevereiro de 2014. Durante a maior parte de 2014, de acordo com Izurieta e dois outros conservacionistas com quem conversei, Tapia discutiu o relatório com o atual ministro do Turismo, o diretor nacional de pla- nejamento, o dirigente do conselho de governança de Galápagos e o diretor dos parques nacionais. O grupo

“fez várias reuniões a fim de polir a apresentação que seria feita ao presidente Correa”, diz Izurieta. “Nessas reuniões, havia um consenso de que seria aconselhado o cenário de estabilidade.” No entanto, foi difícil conseguir que políticos nacionais se concentrassem na política ambientalista no começo de 2015. Os legisladores estavam muito ocupados com a revisão da Lei Especial de Galápagos de 1998, que determina coisas como o salário mínimo e o número de licenças para barcos. O grupo deci- diu adiar a apresentação até que uma nova lei fosse aprovada, o que aconteceu em junho de 2015. Dois meses antes, no entanto, o ministro do Meio Ambiente despediu Izurieta — sem explicação, ele diz. Tapia, por um porta- -voz, se recusou a comentar. Desde então, o relatório está esqueci- do em uma prateleira, de acordo com diversas fontes.

que no mar podem tornar Galápagos “um destino de férias como qualquer outro, com hotéis de spa e ruas cheias de lojas de camise- ta”, diz Lorenz, ex-diretor da Fundação Charles Darwin. O governo de Correa parece não estar tomando nenhuma medida para retardar o crescimento, apoiando, ao invés, mudan- ças na Lei Especial que espera que desencorajarão o turismo. Ao não fazer uma escolha, os líderes do Equador estão optando, por omissão, pelo crescimento descontrolado. Concedem às compa- nhias aéreas voos extras para o aeroporto Seymour, o maior das ilhas, na árida ilha de Baltra. Dão aos turistas licenças de entrada nos parques mesmo quando os requerentes não conseguem mos- trar que possuem reserva em um hotel legalizado, como é formal- mente exigido (há hotéis não licenciados em todo lugar). Funcio- nários do governo emitem as chamadas permissões de residência temporária sem data de expiração. Observadores próximos dizem que a limitação ao número de visitantes não está próxima, porque os conselheiros de Correa evi- tam dar a má notícia de que o turismo terá que ser reduzido. “Não acho que o limite será estabelecido”, diz Juan Carlos Garcia, dire- tor de conservação da filial equatoriana do World Wide Fund for Nature. “Todo mundo está com medo de dar qualquer número.” Duas modificações incluídas na Lei Especial revisada, que foram aceitas em abril, podem gerar mais problemas. Uma elimi- nou a exigência de que os residentes de Galápagos fossem majori- tários em qualquer investimento feito nas ilhas; agora, os locais devem apenas estar “envolvidos” no novo projeto, um termo passí- vel de várias leituras. A segunda permite mudar os limites do par- que. Tecnicamente, essas duas modificações poderiam possibilitar que os investidores estrangeiros corram para lá, desenvolvam o que já foi área de parque e deixem os habitantes com pouco ganho econômico pelas perdas no ecossistema. Sem um limite, é quase certo que o número de turistas com base em terra aumentará, diz Kareus, da Associação Internacio- nal de Operadores Turísticos do Arquipélago de Galápagos.

HOTÉIS ILEGAIS, VISITANTES ESTRANGEIROS

Izurieta está convicto de que é essencial limitar os turistas. “Galápagos é o destino turístico gerenciado com mais cuidado no mundo”, diz Matt Kareus, diretor executivo da Associação Interna- cional de Operadores Turísticos do Arquipélago de Galápagos. “Enquanto [Izurieta] estava no comando [do parque], não houve um impacto maior nos locais protegidos — nenhum. Estava muito bem administrado.” Mas qualquer número de turistas, não impor- ta quão “eco” eles sejam, acarreta riscos. O simples ato de trazer combustível para apoiar até mesmo viagens de baixo impacto aumenta os vazamentos, a emissão de carbono e a degradação da terra. Os ecoturistas podem, sem querer, trazer espécies invasoras para as ilhas, assim como qualquer outra pessoa. A mosca parasita que está exterminando o pássaro do mangue provavelmente foi introduzida na década de 1960, quando as visitas turísticas eram menos de um vinte avos do que são hoje. “Ainda temos tempo de estabilizar o número de turistas, mas precisamos começar já”, disse-me Izurieta por telefone em abril de 2015. “Se não, não sei o que vai acontecer.” É fácil ver como as praias de areia branca do arquipélago, a água do oceano a 27° C, as paisagens lindas e atividades como mergulho com snorkel e caia-

48 Scientific American Brasil | Maio 2016

Eles usam mais energia e deixam mais lixo do que os viajantes que passam as noites em navios. O Serviço Nacional de Parques dos Galápagos regula, pelo sistema de gerenciamento, as visitas de turistas a áreas sensíveis, como as ilhas de North Seymour, onde aves-de-fragata e patolas-de pés-azuis magníficas ani- nham e criam seus filhos, e a Baía de Tortuga, onde tartarugas marinhas enterram os ovos. Mas o sistema foi projetado para uma proporção de leitos nos navios em relação a camas nos hotéis entre 1:1 e 1:2. Hoje há quase cinco vezes mais camas em hotéis do que leitos em navios, de acordo com estatísticas citadas por Izurieta, que substituiu Lorenz como diretor da fundação Darwin. E elas não incluem muitos hotéis não licenciados em crescimento, especial- mente em Santa Cruz. Estipulou-se uma moratória na expansão e na construção de novos hotéis há cerca de uma década, mas nunca

foi aplicada, de acordo com Felipe Cruz, vice-diretor-executivo da fundação, que vive nas ilhas há 30 anos. Ele conta que uma casa em seu bairro ganhou mais dois andares, e ele se surpreendeu ao ver uma placa de “hotel” quando a construção foi finalizada. Muitas das construções, dizem Cruz e outros, são de instalações baratas que atendem universários mochileiros e pessoas da Amé- rica do Sul que vão para lá passar o fim de semana. Para a classe média em expansão da região, uma viagem aérea de US$ 300 de Santiago ou Buenos Aires para Baltra está ao alcance de mais gen-

te do que jamais esteve. Izurieta aplaudiu a abolição da moratória para hotéis porque

crê que levará a novas construções mais bem reguladas. Legalizar

o que ocorria de qualquer jeito colocará esses locais sob o olhar

das autoridades. Apesar de o Ministério do Turismo dizer que novos hotéis serão limitados a 35 quartos, será preciso resistir à pressão da indústria, diz ele. Lorenz me enviou documentos pro- duzidos por uma consultora financeira chamada Stock & Fund Managers, que assegurava que ela e um grupo de investimento

haviam “garantido dois locais privilegiados” para erguer 39 “vilas”

e dois hotéis totalizando 95 quartos, sendo que um dos projetos

oferecia “restaurantes, áreas de diversão, salas de reunião, spas e piscinas”. Lorenz diz que em 2014 o Kempinski Hotels, da Alema- nha, e o Waldorf Astoria Hotels & Resorts apresentaram planos de grandes empreendimentos para Correa. Os hoteleiros disseram não ter projetos confirmados nas ilhas, e o ministério do Turismo

não quis comentar, apesar de ter emitido um anúncio, em 9 de setembro de 2015, reconhecendo que a aprovação, pelo conselho de governança de Galápagos, de três projetos somando 36 quartos “reasseguram o banimento dos mega-hotéis dos Galápagos”.

VONTADE POLÍTICA

A conservação e o turismo em Galápagos não são incompatí- veis; a renda dos visitantes pode ajudar a proteger o hábitat e a vida selvagem. Visitei um berçário que trabalhava para recuperar uma espécie de tartaruga gigante que quase havia sido extinta por ratos que devoram seus ovos. Logo após, um estudo publicado na PLOS ONE relatou que um programa de reprodução cativa similar para a população de tartarugas gigantes na ilha de Española, somado a esforços de erradicação de cabras por lá, havia sido tão bem-sucedido que hoje sua população é considerada estável. A

bilheteria do parque financiou grande parte do trabalho, ao lado de fundos vindos de organizações ambientalistas. As condições da vida selvagem nas ilhas desabitadas, onde espécies invasoras como as cabras também já fizeram estragos, estão também melhorando graças a programas de conservação financiados pelo turismo. Eliécer Cruz, ex-diretor do Serviço Nacional do Parque Nacio- nal Galápagos, que o presidente Correa tornou presidente do con- selho de governança do arquipélago em abril de 2015, me contou, em outubro último, que estava trabalhando em modificações no sistema de imigração, a fim de limitar os número de visitantes. Também disse que ele e os ministros relevantes haviam conversa- do, no dia anterior, sobre finalmente apresentar Cenários para a Sustentabilidade para o presidente Correa. Segundo ele, um limite de 242 mil visitantes por ano, o número que o relatório diz ser sus- tentável, é “realmente importante”. Mas, em fevereiro, o atual che- fe do Sistema Nacional do Parque Galápagos, Walter Bustos, con- firmou que o relatório ainda não havia sido apresentado. Bustos me contou que o novo ministro do Meio Ambiente, Daniel Ortega, decidiu “atualizar os dados” do relatório de Izurie- ta. Perguntado sobre isso, Walsh disse por email que o pedido “não é para mudar os resultados do modelo usado”, mas para “observar de forma explícita a economia do turismo em Galápagos”. De todo modo, disse Bustos, “não é tão fácil” pôr o limite de 220 mil por ano, aduzindo que “acho que podemos alcançar 220 mil por outras políticas.” Ele disse que a restrição a 35 quartos para novos hotéis e a exigência de aprovação pelo conselho de Galápa- gos como modelos de medidas que vão “reduzir o ritmo de cresci- mento” do turismo nas ilhas. A questão é se isso pode ser feito antes de o patamar de 242 mil ser ultrapassado, o que no ritmo atual acontecerá na primeira metade de 2017. Quanto ao motivo pelo qual Izurieta foi demitido, ele não dará sua opinião de forma oficial. Dias depois de perder seu emprego em abril, ele escreveu que se tratava de uma “decisão política” e que”embora a respeite, não concordo necessariamente com ela”. Nesse meio-tempo, a construção turística continua em ritmo rápido. Um projeto de infraestrutura de US$ 2,5 milhões está em andamento. Parte dos recursos irá para a enseada Tagis, na ilha de Isabela, onde, em 29 setembro de 1835, Darwin se deparou com lagartos grandes e pretos, com entre 1 e 2 m de comprimento. Não fica claro em seu diário se ele chegou ali por barco ou fez a desa- fiante escalada para baixo a partir das montanhas ao redor, mas de qualquer modo é difícil chegar à enseada. A administração do par- que pretender construir escadas.

PARA CONHECER MAIS

Henry Nicholls. Basic Books, 2014. Carol Ann Bassett. National Geographic, 2009. Michael D’Orso. Harper, 2002. Jonathan Weiner. Knopf, 1994.

DE NOSSOS ARQUIVOS

Gary Stix; Fevereiro, 2009.

FONTE: CENTROS DE CONTROLE E PREVENÇÃO DE DOENÇAS DOS ESTADOS UNIDOS (PAÍSES COM TRANSMISSÃO EFETIVA)

CIÊNCIA EM GRÁFICO

Viagens com o Zika

O surto de Zika explodiu nos noticiários internacio- nais este ano, juntamente com alertas aos viajantes, ima- gens desoladoras de bebês afetados durante a gestação e uma ligação com uma doença autoimune que pode causar paralisia. A notificação do vírus nos Estados Unidos data de 2007, quando médicos voluntários americanos contraí- ram a doença num surto na Micronésia e apresentaram os sintomas depois de terem voltado para o Alasca. Desde então, mais 50 casos foram identificados nos Estados Uni- dos. Praticamente todos esses pacientes contraíram o ví- rus enquanto estavam no exterior, mas pelo menos duas infecções foram adquiridas por relações sexuais.

Como os Centros para Prevenção e Controle de Doen- ças dos Estados Unidos não fornecem uma análise deta- lhada dos casos de Zika estado por estado, a Scientific American reuniu e analisou informações das secretarias da saúde de 50 estados e do Distrito de Columbia e acom- panhou funcionários da saúde de alguns municípios e ci- dades. O resultado foi este mapa exclusivo que mostra as primeiras rotas que o vírus seguiu até chegar aos Estados Unidos. —Dina Fine Maron

Flórida

Texas

2007

Alasca

Colorado

2009

2010

2008

2011

2012

Califórnia

2013

chikungunya

Califórnia

 

Havaí

Oregon

 

Califórnia

Havaí

 

Nova

Jersey

Washington

Minnesota

D.C.

2014

2015

Nova York

Ilha

de Yap

Kiribati

Ilhas Cook

Polinésia

francesa

Haiti Porto Rico Guatemala El Salvador Venezuela Honduras Colômbia Brasil Ilha de Páscoa (Chile)
Haiti
Porto Rico
Guatemala
El Salvador
Venezuela
Honduras
Colômbia
Brasil
Ilha de Páscoa
(Chile)

Senegal

País com transmissão efetiva do vírus Zika (atualizado até 8 de fevereiro de 2016)

Illinois

Washington

D.C.

Virgínia

Arkansas

Massachussets

Minnesota

Geórgia

2016 (atualizado

8/fevereiro/2016)