Primeiras Estórias – Guimarães Rosa

Gilles Deleuze – “A literatura e a vida”
Os personagens: Claro, as personagens literárias são perfeitamente individuadas, e
não são nem vagas nem gerais; mas todos os seus traços individuais elevam-nas a
uma visão que as transporta para um indefinido, como um devir demasiado poderoso
para elas. (p.4)
O escritor: A literatura surge então como uma tarefa de saúde: não que o escritor
tenha forçosamente uma grande saúde (haveria aqui a mesma ambiguidade que no
atletismo), mas usufrui de uma irresistível pequena saúde que vem daquilo que viu e
escutou, das coisas demasiado grandes para ele, demasiado fortes para ele,
irrespiráveis, cuja passagem o esgota, e que lhe dá, no entanto, devires que uma
grande saúde dominante tornaria impossíveis. (p.5)
“Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes de minha vida, e, a
rigor, esta sucessão constitui um paradoxo. Como médico conheci o valor místico do
sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte...” (Diálogo de Gunter W. Lorenz com Guimarães Rosa)
http://www.elfikurten.com.br/2011/01/dialogo-com-guimaraes-rosa-entrevista.html
“Gostaria de ser como um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao
mundo como um magister (mestre) da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano,
um mar da sabedoria, [...]. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são fundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranquilos e escuros como os sofrimentos dos homens.
Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: a eternidade. Sim, rio é uma
palavra mágica para conjugar eternidade.” (Arte em Revista. SP 1979)
A língua: A literatura apresenta dois aspectos, na medida em que ela opera uma
decomposição ou uma destruição da língua materna, mas também opera a invenção
de uma nova língua na língua, por criação de sintaxe. “A única maneira de defender a
língua é atacá-la. Cada escritor é obrigado a fazer a sua língua” (Cf. André Dhôtel,
Terres de mémoire, Ed. Universitaires (sobre um devir-áster, em La Chronique
fabuleuse, p.225).
(...) Para escrever, talvez seja necessário que a língua materna seja odiosa, mas de
maneira tal que uma criação sintáctica trace aí uma espécie de língua estrangeira, e
que a linguagem toda inteira revele o seu lado de fora, para além de toda a sintaxe.
(p.8)

- “A ideia mais insistente nas obras de Guimarães Rosa parece ser a de que a vida só
vale a pena como oportunidade de nos fazermos a nós próprios [...] nós nascemos
para nos acabarmos a nós mesmos.” Óscar Lopes, critico português (in Ler e depois,
Porto, Editorial Inova, 1970)

embora tenha pouca idade. há um certo distanciamento desse narrador. teórica e fisicamente. por sua vez. Pai decide viver na canoa. dentro do rio 2) Ambos são guiados por algum tipo de devaneio: Nhinhinha inventava histórias absurdas vs. a princípio.” Embora ele não esteja mais perto. tem um comportamento que a caracterizaria como alguém que está alienada do lugar a que pertence sua família. O pai. não se pode falar de doideira Lugar O lugar (espaço. que foi por aí que ela começou a fazer milagres. Em contrapartida. o narrador. Quando toda a família vai embora da casa que viviam. .Pontos convergentes dos contos “A menina de lá” e “A terceira margem do rio” 1) Enredo se dá de acordo com algum acontecimento desenrolado p protagonistas: Nhinhinha podia fazer milagres vs. Não se pode falar de morte vs. talvez no intuito de ser destacada dos outros personagens. ou de conhecer a si mesmo. que transcende a natureza física. também poderia ser interpretada como o lugar de transcendência. parece observar a história bem de perto. parece ter sabedoria. o narrador é personagem. Conta os fatos como se estivesse vivendo junto com as personagens. Renúncia à vida por parte do pai 3) Atos e palavras são impregnados de simbologias: Nhinhinha. a narrativa é ela própria uma forma artesanal de comunicação. A menininha tem a pureza da criança. aparentemente. entretanto. Ninguém neste conto tem nome. Esta terceira margem. O conto é narrado majoritariamente na 1ª pessoa do plural e do singular. porém. parece destacar um lugar indefinido. o próprio título faz alusão a um lugar que. Trata-se do filho. Sei. local) parece ser algo indefinido nos dois contos. Apenas a menina tem nome. não é possível existir. Benjamin já dizia que as melhores narrativas escritas são “as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos” Para Benjamin. Há um diálogo entre o narrador e a menininha. continua a narrar os acontecimentos da garotinha e família. o “lá” como advérbio de lugar. A menininha. Em determinado momento. o pai permanece em silencio 4) Ambos os contos apresentam temática mística: A consciência tem total relevância nos dois contos. o narrador passa a falar “meu pai” e não mais “nosso pai”. Em “A menina de lá”. quase carregadas de certo lirismo vs. que diz “Nunca mais vi Nhinhinha. a começar pelo título. Em “A terceira margem do rio”. onde o narrador “deixa sua marca” na narrativa contada. Em “A terceira margem do Rio”. isola-se em busca de algum tipo de paz interior. Narradores Em “A menina de lá”. diz coisas de difícil compreensão. mas parece saber exatamente o que fazer em seu mundo.

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