Fabio Rocha

ROMANCE DE COMEÇOS

2016

Copyright 2016
Fabio José Alfredo Santos da Rocha
fabiorochapoeta@gmail.com
Direitos Autorais Reservados

Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real
terá sido mera coincidência.

“A ideia de amor apaixonado, romântico, que emergiu no Ocidente durante o último milênio é
uma de nossas heranças culturais mais destrutivas.
Isso porque sua principal aspiração – a descoberta de uma alma gêmea – é praticamente inatingível.
Podemos passar anos à procura dessa pessoa elusiva que satisfará todas as nossas necessidades
emocionais e nossos desejos sexuais, que nos proporcionará amizade e autoconfiança, conforto e risos,
estimulará nossas mentes e compartilhará nossos sonhos. Imaginamos que existe alguém no éter

amoroso que é nossa outra metade perdida, e que nos fará sentir completos, bastando apenas que
possamos fundir nosso ser com o dele na sublime união do amor romântico.
Nossas esperanças são alimentadas por uma indústria de filmes românticos de Hollywood e um
excesso de ficção barata difundindo essa mitologia.”
— Roman Krznaric

A poesia sempre haverá. Mesmo que seja nos espaços em branco entre as mesmas desgraças dos mesmos
jornais.

*

meu avô começava suas frases bombásticas com “infelizmente”. as piores ainda ele iniciava com “eu
não queria falar não, mas...” assim ficou na memória coletiva da família. trazendo sorrisos, por mais que
sua intenção não fosse a de fazer sorrir. muitos achavam o convívio difícil com ele. um chato. eu não. eu
adorava as histórias que ele contava na varanda e essa mania de ser do contra devo ter herdado dele. essa
quase incapacidade social. essa intolerância ao que deveria ser feito, ao socialmente aceitável.
ele expunha a sua opinião e pronto. quando se chateava muito, ia pra um lugar na frente da casa,
perto do muro que dava pra rua. ficava sentado ali sozinho, olhando a ladeira, os carros, as pessoas. dava
um tempo até melhorar. sem terapia, sem análises profundas.
era um homem simples, quase sempre previsível, muito engraçado justamente por não querer ser
engraçado. me lembro da deliciosa sensação de intimidade e de liberdade ao ouvir um relato que era pra

ser sério e cair na gargalhada. e ele ria também, por baixo do bigode branco. o mais engraçado é que era
um homem doce.

*

Distrações boas à tentativa de leitura. Vozes dos pais na sala. Irvin D. Yalom diz que criatividade e
sensibilidade geram ansiedade. Assim, minha tontura de todo final de ano se acalma com uma causa. A
maciez do teclado onde crio chama sem queimar... E venho escrever detalhes sem relevância. O que é a
vida senão detalhes sem relevância?

*

A pessoa lava o carro no domingo. Sorrindo, feliz. Aperta a mangueira, o sabão, a esponja, a própria
mão. Molda o aço e reafirma a conquista. Mensura o tamanho do bem ao acarinhá-lo. Com ou sem som.
Com ou sem sol. Por breves instantes consegue não querer mais nada. Nem perder a barriga. Não há
finitude no metal bem cuidado, não há problema na vida com um carro segurado. Há o brilho no carro, o
rápido arco-íris da água respingando sobre a pintura negra. Então, secar acariciando as curvas do carro
fêmea. Lustrar a alma cheia de dentes no próprio suor contente. Até um pardal cagar no vidro.

*

Enquanto isso, no final da minha rua, o pastor semianalfabeto canta gritando como se narrasse uma
corrida de cavalos. Na garagem de sua casa que transformou em igreja, cheia de fiéis chorando de alegria,
louvando e doando seu dinheirinho.
Quando novo, eu costumava ver os meninos na rua sorrindo soltando pipas e pensava que deveriam
estar estudando como eu... Agora, vendo esta realidade e a inutilidade do conhecimento e da inteligência
em nossas organizações, queria eu ter soltado mais pipa. Queria mais ainda conseguir acreditar num deus
maiúsculo e cantar com meus irmãos na garagem pobre, feliz com o agora. Sem me deixar afetar pelas
faculdades-guetos que falam línguas que só elas mesmas entendem, sem criar nada, cheias de

fotocopiadoras copiando livros para falar mais difícil ainda para elas mesmas, as mesmas coisas. Sem
criar absolutamente nada.
Eu gostava de Física até fazer Engenharia. Gostava de Literatura até fazer Letras. Gostava do
Filosofia até fazer Filosofia. Tem algo de muito errado no nosso sistema de ensino (ou comigo, ou com
ambos). E sempre cursei faculdades públicas, na época em que, teoricamente, eram as melhores.
É desolador o fato de 99% das matérias de todas as malditas faculdades por que passei serem um
desestímulo total: herméticas, inúteis ou herméticas e inúteis. Mario Quintana já dizia que, em geral, se
você lê e relê um texto e nada entende o problema é com o autor dele e não contigo.

*

Vejo a história de Chopin no teatro. Tanto sofrimento com mulher. Talvez não pudesse ser de outra
forma. Nesta vida interminável, ao menos tive a sorte de ser visto por inteiro raras vezes. Muita gente
nem isso consegue. Sangue atrás da pele das palavras. Fogo dentro do sangue.

*

Mergulho em Clarice Lispector por três páginas e tenho que parar pra escrever e respirar. Pra não me
perder. A pintura sinuosa de sua palavra me brilha os olhos. Adianto fatos para não ter que percebê-los.
Amores resolvidos e vida conquistada. O eterno duelo com o definitivo que cisma de não existir. Escondo
minha ansiedade debaixo do tapete. “Elas” é uma palavra forte. “Ela”, pior ainda. Perdi o escudo da raiva
e jogo a leveza no mar sem água. Peixes mortos. Nada a fazer. Eu lavo as minhas mãos. Ela enxuga.
Embrulho palavras com papel laminado de dias. Noites não, que noites podem ser frias. Experimento a
liberdade da palavra viva. Da palavra mágica que corre aqui e acolá, faz piruetas e saltos na língua
imóvel, enorme, plana, estagnada a espera de algo. Sim, de certo que tenho fome, que é hora quase de
almoçar. Sim, eu gosto de comer conforme o relógio.

*

Escritório. Tudo com pressa. Hora extra. Empresa pequena. Suo. Está frio, mas suo. Escrevo com o
estômago apertado. Superman perdendo poderes. Superman querendo perder os poderes e começar a
viver. Escrevo pânico. Sinto raiva? Espero algo. Espero há tempos.
Estalo os dedos. Não estou calmo. Longe disso. Esta sala (cela, ato falho) cheia de silêncio e perfume
tenta me convencer de que ela é o problema. Escritório! Não é. Sou eu. Eu sou ou estou? Talvez seja a
hora de abandonar a psicanálise...
Ouço sons no corredor. O estômago se aperta ainda mais. Se tocar o telefone, acho que vou morrer...
Nada e silêncio e frio e chuva: manhã. Costuma tudo melhorar à tarde. Mas não me consola. É tarde...
Devo mesmo aprender piano e madrugar para fazer yoga pela manhã quando não quero nada, só
dormir? Seria possível passar vinte e quatro horas por dia dormindo ininterruptamente, todos os trezentos
e sessenta e cinco longos e intermináveis dias de todos os anos? Um sonho... É preciso sonhar.

*

Querido diário,
Contra o meu isolamento total do mundo (arduamente aprendido desde cedo), tentei escrever você,
ler, poetar, endeusar musas, cinema, gibis, religiões, me especializar com o Ryu no Street Fighter, tocar
violão, RPG, namorar, música clássica e new age, Simpsons, séries estadunidenses, seitas secretas com
anúncios em ônibus, 3 faculdades, 1 estágio, 2 empregos, casar, animes, loucamente me arriscar na
paixão, fantasiar... Tentei ufologia científica, esoterismo, tarô, i-ching, simbologia, psicanálise freudiana,
rock, psicanálise lacaniana, Nietzsche, Heráclito, terapia junguiana, caminhar, ioga... Tentei de tudo.
Mantive o poetar apenas... E continuei ansioso.

*

Pânico de noite. Noite toda. Última vez que a vi. Último dia em que nos falamos. 4:10 da manhã e
não durmo. Todas as pendências resolvidas exceto respirar. O pânico começou no shopping cheio, nos

botecos quentes, no barulho alto. Um suar estranho e um ver as mãos tremendo leve... Achei que era
fome. Não era. Cafeína do refrigerante? No carro, de novo. No carro, sozinho, um peso. Não ligo o rádio.
Se tocar qualquer música, romântica ou não, sinto que seja lá o que for vai piorar. Chego no apartamento
escuro lá pra meia-noite. Todos dormem. Todos dormem. Isso me agonia. Vou pro PC e mando logo o
último email de seis páginas que escrevo há dias. O último. O último. Uma nova esperança no MSN me
adia o sono, quando eu ainda tinha o sono... Então ela se vai (a esperança) e vou tentar dormir. Vou
dormir e desisto. Desisto. Pânico em neon, vozes quase falando no silêncio. Pior... Tá piorando. Pânico
parecido com o medo dos meus pais morrerem quando eu era pequeno... Com a solidão na casa de meu
avô, onde a noite era cheia de ventiladores e roncos no escuro. Medo um dia na casa de minha avó, de
dormir lá (primeira percepção de um inconsciente inexplicável?). Medo da solidão no apartamento da
Penha, de dormir na sala iluminada lendo e relendo títulos de livros... Todo o pior da infância brotando...
No meu peito. Meu pai lendo histórias e eu esticando o pé para senti-lo ali ainda, presente. Medos
infinitos passados. Hoje. Hoje. Hoje, medo de pedir para meus pais pararem um instante de ver a novela
para me abraçarem e me darem parabéns pela conquista poética... O livro chegou hoje de tarde, quando
voltei da caminhada, e solucei uivando no banho até o plexo solar doer, misturando, não necessariamente
nesta ordem: o nervosismo do encontro futuro (último), água, alegria pela vitória, dor por perceber não ter
com quem dividi-la, lágrima. Ninguém para contar nada. Isso é meu pânico. Dividir nada... De novo, a
infância: minha mãe estranhando eu não gostar de brincar nunca sozinho, de ver TV sozinho, de jogar
videogame sozinho... Nada, sozinho. Desde a infância, meu Deus, meu pânico é estar sozinho...
Escrevendo, percebo que finalmente algo adiantou para eu melhorar. 4:23 Meu problema é não ser visto.
Para que qualquer coisa se ninguém vê? Meu problema é a solidão, pior à noite. Meu problema, meu
maior problema, é viver. Maravilha. Percebo que entendi meu pânico. (Não é mais ansiedade, quasepânico, sub-pânico, é PÂNICO. No peito.) E ainda o sinto. Pausa para três Maracuginas (além das duas
que tomei à tarde). 4:28 Destranco a porta do quarto para o caso de eu ter uma síncope. Meus pais não
acordam por nada. Trocaria meu maravilhoso dom de escrever por uma noite normal, uma vida feliz, uma
mulher que não me abandonasse... Não sei se... Não. Melhor não. Vontade de colocar isso no blog.
Vontade de ser visto, mesmo que por qualquer um. Mosquitos. Me bato / os mato / no meio / do pânico /
que começa / a passar. Rio 2016, eu vou! 4:36 Finalmente entendo porque tantas pessoas desistem de
amor. 4:39 Não passou. Largo tudo, inclusive o pingo de orgulho que me resta, e vou pro quarto de meus
pais pedir para falarem comigo e ser abraçado aos trinta e três (diga trinta e três) anos. 5:25 Passou.
Choro. 5:28 Meu Deus, e se o medo infantil de não ter mais os pais for o mesmo medo de hoje de,
perdendo ela, não ter mais ninguém? Passou. 5:52 Piorou. E se algo em mim quer ficar doente para,
doente, na condição de doente, admitir mais facilmente o quanto preciso do outro? Nasce o sol.

*

Começo a perceber (finalmente fora das teorias frias – e inúteis – dos livros) a importância da falta
para a valorização da plenitude. Entendo melhor as viagens de Amyr Klink, a valorização da dor de
Nietzsche, a motivação dos alpinistas para escalar o Everest... Tudo isso serve para que a casa, o cotidiano
e tudo nele que está ao alcance, possível, acessível e constante mude da normalidade para a falta. Da
certeza para o medo. Do seguro para o perigo. Do mesmo para o novo. Olhar as mesmas coisas mas com
novos olhos, como Parmênides filosofou e agora sinto. Perder para ganhar. Sair para voltar e ser mais
feliz com o que já se era, com o que já se tinha.

*

Não. Não poderia reclamar da prisão, já que eu mesmo me pus lá. Estava tão acostumado a me fazer
de vítima que estranhava, agora isolado no apartamento, não ter a quem culpar.
Pelo menos o apartamento era meu, assim como a dor e todas as vantagens e desvantagens que têm as
raras pessoas que optam por tomar posse de suas próprias escolhas.
Habituado a ser sempre um robô guiado por entidades que agora não conseguia identificar,
estranhava a angústia das pequenas escolhas do dia a dia: escovar os dentes ou lavar a louça?
Quando os pensamentos inimigos se desviavam dessas questões aparentemente irrelevantes,
voltavam para o medo, provocado inicialmente por um estalo assustador na garrafa plástica de dois litros
de guaraná diet:
- E se essa cadeira meio bamba cair, quem me socorre? E se eu engasgar trancado aqui sozinho? Vou
morrer…
Mas também sentia que estava ganhando algo. Apesar de toda a dificuldade, estava me sentindo
orgulhoso de conseguir esquentar uma quentinha no fogão e sobreviver a um local sem TV nem internet...
De usar reticências sem me preocupar com estilo... E de escrever ouvindo música clássica, no micro
velho, sem ser interrompido, sem lavar a louça nem escovar os dentes, sentindo o nascimento de algo bom
no meio daquelas longas frases.

Caso existisse, Deus devia estar sozinho quando criou o universo.

*

Escritório. Sem arte. E eu respiro arte... O trabalho aqui se torna cada vez mais merda. Eu sou arte,
pensamento, sentir. Nada de números e vendas e análises…
Sons no corredor. Trânsito lá fora. Preguiça de escovar os dentes depois da barra de cereal (cara
demais, aliás, não compro mais). O corredor é que preocupa. Quem pode entrar? O que pode cobrar?
Tenho feito tão pouco aqui... Só pode vir um castigo. Já consigo ouvir meu inconsciente. Como se o
mundo fosse assim tão lógico: crime e castigo. Um bom título de livro.
Tá ficando abafado. Preguiça de levantar e ligar o ar-condicionado velho sem termostato (o máximo
ou o mínimo, tudo ou nada, inferno ou céu, a pílula azul ou a vermelha, como eu). Levanto e ligo.

*

Me pergunto por que suo e o que procuro... Não, nem me pergunto mais.
Nem me pergunto mais por que não posso ir ao cinema sozinho, ser feliz sozinho. Sei que não vou
nem sou.
Pronto, mal escrevi e perdeu o sentido. Releio. Mudar internamente algo ou mudar a vida, o trabalho,
a localização geográfica na pátria? Olho a cama. Lençol azul. Chão por lavar. Minhas meias pretas dentro
dos sapatos pretos. Cadê a luz?
De volta à angústia. Acho que perceber o que pode ser a causa não adiantou muito.

*

“Cabe a você decidir o que fazer com o tempo que lhe é dado.”

A frase de Gandalf ecoa em minha mente. Desde o primeiro trailer do Senhor dos Anéis que seu
efeito foi como o de um soco no meu estômago, um despertar bruto. Minha sensação de estar perdendo
tempo... Que só agora acho que compreendo melhor, lendo Schopenhauer. Ele, como Buda, teve que
decidir entre o conforto e a verdade em certo momento. Buda renunciou à vida de riquezas num castelo
para sair pelo mundo e descobrir a verdade. E percebo agora, independente de meu caos nos
relacionamentos, que não posso ser feliz trabalhando em um emprego padrão. Quero é ser, como
Schopenhauer (alma irmã que tive o prazer de descobrir), um erudito: ler, ensinar, escrever, aprender...
Ajudar a mostrar a verdade para outros se libertarem. Coisas que me façam achar que tive uma vida
quando estiver velho e sem sono.
Essa força interna que acendeu foi tão forte, junto com a leitura de Schopenhauer, que o fim de
semana foi bom pra caramba... Eu lendo e ouvindo música clássica e percebendo que não queria que meu
celular mudo tocasse, nem nada futuro, nem nada passado... Feliz. Muito feliz. Fazendo algo que eu
adoro: estar com gente inteligente. Passei o domingo com Schopenhauer.
Mas, aí veio o melhor, o sonho... Um dos melhores sonhos de minha vida. Eu flutuava num celeiro
ou cabana, à noite. As portas enormes abertas. Abaixo de mim, mais pra trás tinha gente que eu queria
defender, lutar junto... E lá fora, pelas portas, a noite negra. E olhos amarelos e vermelhos (muitos) se
abrindo e aproximando. Eu vi uma espada estranha, aberta, sobre mim, voei até ela, sem medo. Agarro a
espada aberta e junto suas pontas. Vira uma espada com duas lâminas. E bichos (ou homens?) começam a
pular das trevas para a luz da cabana-celeiro. E os corto... Sou o herói voador com um espada dupla...
Acordo sorrindo…

*

Era sábado. Sentei-me ao lado esquerdo dela. As luzes se apagaram. Fez frio. Senti que se iniciasse o
ritual de conquista com o ser sentado ao meu lado, eu morreria. Não me atraía tanto! Cantar uma mulher
meio mais ou menos sempre me dá um nó mental. A razão não entende por quê, enquanto a carência
pulsa todo o corpo. E algo parecido com a morte se aproxima quando me vejo tentando.
Eu ia morrer, então. Estava muito frio e eu não era eu. Não era mais eu. Eu estava morto. Meu peito
se abriu e muitos corvos saíram voando e atravessando as paredes. Ninguém notou: estava escuro (e frio).
Os pássaros saíram para anunciar a minha morte e pedir socorro. Ninguém ouviu: estava escuro (e frio).
Sorri levemente. Eu estava pronto, e comecei.

Ela não quis meu beijo, mas alisou a minha mão. Ao menos o filme era bom. Horas depois, gastei
mais dinheiro com comida e gás (sim, meu carro era à gás, pois tive que me adaptar ao meu baixo salário
da época) e subi em seu apartamento alugado num velho prédio de Copacabana. Fui pra varanda.
Nunca vi tantas pessoas solitárias nos prédios adiante. Que vidas vazias, abertas, expostas, frias,
duras, estranhas... Dava para ver até os seus olhos. Olhos secos que nem se importam mais em fechar as
cortinas. Olhos que pareciam meus, atrás dos vidros.
Lembrei de Henry Miller? Acho que eu nem conhecia Bukowski ainda. O que fazia eu ali? Estaria eu
tentando algo apenas porque era rico e sabia ler e filosofar? O que fazia eu ali?
Ela me chamou para ver TV na sua cama e não quis meu beijo. Comi pizza (a única coisa que ela
pagou nessa história) e fui logo embora. Não ia rolar nada, ela não facilitava... Se irritou porque eu comi
pizza e fui logo embora e me ligou noite afora. Queria que eu investisse nele muitos alisamentos de mão e
abraços até conquistar um beijo... E muitos calorosos beijos contidos até conquistar algo mais... E muito
algo mais até que o nosso lindo e divino amor com lantejoulas morresse, como sempre acontece. Achei o
caminho meio longo, sem paixão.
Mas talvez ela fosse romântica como eu um dia fui. Nem senti raiva.

*

Hoje vim pro trabalho e a sequência de músicas da MPB FM me fez, pela primeira vez, chorar no
trânsito, cantando bem alto a letra. Chão de Giz me toca absurdamente e nem sei porque.

*

Praça de alimentação cheia. Vontade de voltar. É da companhia desses seres humanos extremamente
humanos que preciso? Barulheira. Tudo cheio e sem mesa. Calor. Não. Vou voltar. Vou pra fila do Bob's
pedir qualquer lixo pra viagem. Não. Desisto do Bob's. Insisto em comer no caos. Comida a quilo cara do
Viena. Não há mesas. Dou duas voltas pela praça lotada. Nada. Noto um ou dois olhares de mulheres

interessantes. Cogito na hipótese de perguntar se uma delas está sozinha para sentar junto, mas, antes
mesmo de achar ridículo ou forçação de barra, minhas pernas já me fazem seguir andando. Acho uma
mesa. Sento. Como. Barulho. Quente. Esbarram em mim de quando em vez os passantes. Nota mental:
comer em casa até a morte quando estiver sozinho. Pedem cadeiras. Deixo levarem. E, para culminar a
furada, dois homens perguntam se eu estou sozinho. Digo que sim, sem opção. Sentam na mesa de 4
lugares. Noto que podia ter feito isso com as mulheres sozinhas nas mesas. Que não é tão estranho.
Queria ter comida de novo no prato para fazer, mas não tenho. Peço licença e levanto. Sou educado.
Lembro que um deles não pediu licença ao sentar. Mas eu sou educado. Deixo minha bandeja na mesa –
foda-se. Vontade de comer sorvete, mas não há no Bob's, o Mc Donald's fechou e o sorvete a quilo está
com filas monstruosas. Ando. Cara de perdido. Pena de mim mesmo. Olho pessoas, chão, vitrine, nada
que interesse muito. Casas Bahia. Penso que estou tão triste que não quero descontar isso consumindo.
Comprar não é ser feliz.

*

Volto pra casa, anoitecendo. Vou jantar pão e água em casa mesmo. Vejo uma gostosa famosa
gigante nos outdoors com a bunda empinada. Não é possível a um heterossexual não olhar. Será que não
pensam na quantidade de gente que deve morrer no trânsito com uns outdoors assim?

*

E agora, nesta silenciosa noite de domingo antes de trabalhar, ainda com uma calma estranha, como
que conformado com a morte inevitável na manhã seguinte, me pergunto, calmamente, que necessidade é
essa que tenho de escrever. Forte, muito forte.

*

Vi um documentário sobre John Lennon, que tinha um quarto em um de seus imóveis com
temperatura controlada para preservar seus casacos de pele. Pensei em Drummond, funcionário público
da ditadura e me acalmei quanto a trabalhar com Marketing para sobreviver.

*

Sensação de estar sempre na véspera do dia da educação física no colégio.

*

Sim, a família tende a cultivar carinhosamente os problemas, dar-lhes afeto e alimento... E viver
reclamando deles. Noto alguma semelhança deles para comigo, mas eu tenho a dádiva do rompante. Às
vezes, rompo com tudo e surpreendo até a mim mesmo.

*

Simplesmente não sei mais é ficar sozinho. No apartamento, me desespero procurando um filme, pois
só um filme me consegue tirar um pouco do quase pânico, da sensação de não gostar de estar ali, sozinho,
sem fazer algo que me dê um mínimo de prazer... Sem companhia. Até a leitura é complicada. E se o
filme não for muito bom também é complicado... Eu paro pelo meio, penso em lavar a louça. Não lavo.
Penso que deve ter coisa melhor em outro canal... Estranho não ter que ler nada por obrigação (sem mais
provas na faculdade de Filosofia)... Como biscoito doce. Pego o guaraná na geladeira. Mudo de canal.
Como. Escovo os dentes. Tento ler. Tempo não passa. Guardo o guaraná pra não esquentar. Acho um
filme que começará em meia hora. Como demora a passar meia hora... Tento resistir a comer um pouco
de biscoito salgado, para comer junto com o filme. Não resisto e como antes. Pego o guaraná na geladeira.
Não lavo a louça. Para talvez tentar tapar o vazio existencial de estar sozinho... Escovo os dentes de novo,
por não lembrar se já tinha escovado. O que me falta? O que me falta?

*

No caminho para o trabalho em Benfica, um ônibus escolar, com crianças de colégio público está
bem na minha frente. Um grupo me dá adeus. Temo estarem me sacaneando automaticamente (resquícios
do medo do ridículo). Mas dou tchau também. Elas sorriem, fazendo sinal de positivo. Faço também. Vou
seguindo o ônibus. A viagem parece mais curta. Um mínimo de interação com outro... Ainda tenho medo
de outros motoristas não entenderem nada. Uma menininha de boné rosa não para de sorrir e dar adeus e
parecer feliz com minha resposta. Na certa, a multidão de carros com tímidos não pode dar um tchau para
ela. Ela não para, aliás, com seu tchau sorrindo. Sinal vermelho longo... Bem longo. Começo a me
encolher, olhar pra outros lados... O sinal abre. Ultrapasso o ônibus, aliviado.

*

Acho a sala. Porta de vidro. Me aproximo. Algo em mim quer correr. Cavalos no peito. Porta de
vidro. Hora certinha (cheguei um pouco antes, até). Alguém lá dentro me olha. Empurro a porta. Trava.
Pergunto ao alguém se está trancada. Ela, sem muita firmeza, manda insistir. Empurro. Trava. Olho pra
ela. Cara de perdida também. Puxo. Abre. Algo me diz que ela não é a psicanalista. Digo que tenho hora
marcada. Mas, após 3 palavras, vejo que também não é secretária. Sento, esperando. Sala com cheiro de
tinta. Psicanalista atrasa? Algo em mim quer achar motivo para correr. Cavalos no peito. Rio de mim
mesmo. Ela diz que a psicanalista deve estar em sessão. Anota algo na agenda. Olho para as revistas ao
lado. Desinteresse total sobre o homossexualismo no exército. Penso em pegar outra delas, para ter para
onde olhar. Mas logo desisto. Acabo observando ela. Que diabos tanto anota na agenda? Ela oferece água.
Recuso. Algo está constantemente zunindo, zumbindo, baixinho... Acho que é a geladeirinha sob o galão
de água. Que apito infernal. É como se vibrasse no mesmo tom da minha tontura, que quase se mostra no
palco entre as minhas orelhas. Pensando bem, tem sempre algo elétrico zumbindo onde quer que
estejamos... Ela some por uma porta. Será que meu olhar e minha tontura zumbindo a espantaram? Sofá
meio de palha desconfortável. Cavalos no peito. Rio de mim mesmo tão desesperado por nada. Nada?
Aliás, desde sempre tenho vontade de rir de algo no mistério da psicanálise. O cheiro de tinta melhora. Ou
me acostumo. Mas algo em mim ainda quer correr. Oceanos que preferem estar abaixo da superfície.

*

Depois de um relacionamento longo, a noite em que mais aprendo é a de sexta-feira. Sempre traz o
frescor de novas experiências. Sempre. Vou pro antro de ônibus tentando não pensar em como voltar.

Sem limitar meu horário ao conforto do ônibus com ar-condicionado e maior segurança que para de
passar às dez. Na noite por vir, a Via Láctea sustenta a escuridão com uma promessa de luz. Sigo rindo de
mim mesmo no ônibus do trabalho. Gente nova, constantemente perto. Parecem amigos antigos já. Vou
conhecendo e criando um ser conhecido, um eu personagem das histórias que contam sobre mim. Mas tal
qual invento paixões e creio em cada uma delas, invento esse novo eu – um ser da noite – e talvez eu seja
mesmo ele. O ônibus para na porta da champanheria e caminho nas ruas, naturalmente, calmamente (eu
ou personagem?). Tudo é cinza e velho, mas continuamente me exponho e me movimento por essas ruas
do Rio de Janeiro a qualquer hora, com qualquer valor nos bolsos e não me atacam... Chego. Pego a
mesma mesa. Outros amigos aparecem. E mulheres. Situação inédita. Coleciono-as nas sextas. A
champanha que me oferecem e que bebo cada vez mais me parece cada vez menos ruim. Uma taça já
basta para eu dançar até doer os pés. Um velho com pelos brancos saltando pra fora da camisa semiaberta
verde vem chegando pra cima da mulher que está conosco em ritmo de esquindô esquindô. Ela se
esquiva, ele sai. Depois, ele volta. Ela solta as mãos dele da sua cintura, ele sai. Dá uma sambadinha solo,
e volta. Sempre sorrindo. Os pelos chacoalhando. Meu deus, somos solidões dançando com sorrisos
felizes. Apenas sorrisos felizes! Lá fora, a noite negra. Meu deus, meu deus, que eu não esteja assim que
nem esse velho babaca aos sessenta... Que eu vire monge budista ou cometa o suicídio de casar-me, mas
que não termine com essa camisa verde nesse papel ridículo, suando com os botões abertos saltando pelos
brancos, insistindo no impossível e suando feliz. Dançamos. Suamos. No mesmo papel do velho, me vejo,
um pouco. Ao menos, danço com ela, quando toca uma música péssima, mas dá pra dançar a dois. Dois
que dizem não saber dançar, se juntam e dançam sem dizer nada. Sem estrepolias ou fotografias, mas
dançam. Dançar pode ter perfume ou não, mas o toque das mãos sempre acalenta. Dançamos, rodamos,
champanha, felizes, felizes, champanha... Borbulhantes dançamos até passar o efeito do álcool e me dar
uma tristeza-cansaço. Sentei pra ver o velho tentando mais, agora não o atrapalho. Medo leve do velho
conseguir... Mas, sabe, qualquer derrota é vitória nessas sextas-feiras. Sempre que penso em dormir ou
lamentar, lembro rapidamente de como eu estava em casa e vejo a vitória. Sinto-a por todo o corpo,
mesmo no cansaço, celebro-a dançando, mesmo parado, mais ainda quando a champanha tira minhas
mãos dos bolsos. Saímos, tal qual eu de fora de mim mesmo, de quando em vez, me olhando impassível.
Saímos, então, sem medida ou cautela, dali. Ainda vejo o velho parecendo revoltado ao pagar a conta. A
rua agora parece bela e calma. A mesma rua. A mesma? Vai cada um pra um lado, eu vou pra casa. Nos
despedimos sobre a rosa dos ventos. Nova estreia na noite: a van. Um gordo gigantesco abre a porta. Toca
pagode, depois sertanejo. Fede, até chegar na beira do mar e o ar marinho levar todo o mal. Um cara sem
camisa diz pra mulher a seu lado que ela o irrita por não espancar seu filho. O pai que se ferre. A mãe tem
que impor respeito. Puta que pariu. Um bêbado pede para sair e comprar cerveja. Deixam. Ele volta, abre
e entorna metade na minha calça. Nem falo nada. Estava quente. A cada buraco nas ruas, minha coluna
mal acostumada reclama. A van avança, impreterivelmente. Entra um cara de Petrópolis e fica falando de
boates com o gordo gigante que abre a porta e grita nos pontos de ônibus. Depois volta a falar das boates

com o amigo instantâneo: “Aquela tal tá boa, só dá universitária”. “Naquela outra fizeram reforma. Ficou
bonzão. Vai muita novinha.” Tão iguais, todos nós... Metade do caminho ele vai pendurado na janela,
porta aberta, tudo errado. País sem lei. E nada mais certo. Esvazia a van e sigo mudo. Mudo pro banco de
trás, pé sobre a roda, me sentindo surfando por onde nunca antes naveguei... Onde nenhum homem jamais
esteve. Saltam e entram por todo lado, Ipanema, Rocinha etc. Sinto que algo bom vem. Presente pela
aventura. Até que, no Barra Shopping, senta direto do meu lado e já falando comigo uma menina. “Essa
música me deprime. Puta que pariu.” Eu converso e falo pra ela se concentrar na nossa conversa e
esquecer a música. Ela não fala do tempo ou do futebol. Fala de seus problemas. E ouve. Vidas inteiras
trocadas em palavras, em minutos, em quilômetros. Chego no supermercado onde larguei o carro, dou-lhe
um beijo no rosto sem prévias palavras. O mais leve que já dei em toda a minha vida. Descubro que o
supermercado 24 horas não fica aberto 24 horas. Meu carro preso por grades e cadeados. Isso proporciona
uma caminhada boa, mesmo com pés doendo, caminhada incrivelmente motivadora, até em casa. Taco
música boa no ouvido, pra variar. Secret Garden. E vou pelas ruas vazias, passos leves sem fantasmas.
Caminho. Tudo começou com o caminhar. O movimento mínimo empurrando para mais movimento.
Paro para quase tocar a capivara enorme tão perto, tão perto e tão calma, que ouço seu som. Calmo. Som
de ser sem pensar. Enquanto os cães ladram pela vizinhança... Enquanto todos dormem.

*

Estamos todos presos do lado de fora de um abraço, André Newmann... Nada mais certo. Por isso,
adentro novamente a noite dentro da noite, centro da vida e da busca. Som alto, fumaça. Não encontro
nada com a razão além de técnicas e placares. Além de conquista. Técnicas e placares. As placas de meus
molares estão tectônicas e querem sair desta merda quando percebem meu cansaço e meu fingimento para
mim mesmo: está divertidíssimo. Uhul. Mudamos os lugares, mudamos as pessoas, tudo rápido a tempo
de não ser. A tempo de não ver que merda é. Os sinos não dobram. Mas de alvos estava no auge, quando
saí. Soldado raso mirando sexo, mirando amor, mirando o que na fumaça? Saí como se deve sair do amor,
certo, OSHO? Amigos tortos, ao menos estão junto, presentes, dançarinos, quase uma constância até o
próximo táxi. Mas os alvos que se abrem perante a minha mira calculista querem resistência na
insistência. Estico minha irreconhecível mão até o limite de não ser eu. Pergunto para ouvir a resposta que
não me interessa. Consigo o primeiro passo e anoto mentalmente, mentalmente, mentalmente mais e mais
coisas de techné, passos e evoluções e conquistas como se esta porra fosse uma olimpíada, um programa
de computador a ser vencido ou um videogame a ser zerado. Só não sei o que se ganha, que boss se quer
derrotar. Não bebo. No fundo, algo até se orgulha, olhando os passos e pássaros de meu passado
extraterreno de timidez. Medos e limites, ao menos, superados. Mas, ao mesmo tempo, nada aprofunda ou

acolhe de verdade. Nada. Nem um beijo. Nenhum beijo. Estou taciturno. Nada, nada mesmo chega nem
perto da noite dentro de meu coração que nada. Mas não tenho pressa. Se o corpo cansa, a alma canta:
estou mais vivo do que nunca. Estou morto como nunca. Estamos todos presos do lado de fora de um
abraço, André Newmann...

*

Sentido! A noite me cai como um tijolo no peito. Mas vou. Vou e pretendo ir muito mais daqui pra
frente. Cair na noite sem pedir pra sair, no caos da noite mais barulhenta, lotada e suada, até que me seja
natural como respirar. O Coronel Trautman certa vez disse sobre John Rambo: “O que vocês chamam de
inferno, ele chama de lar.” Isso me inspirou. Não gosto e não preciso de bebida para ganhar coragem pra
batalha. E isso é uma boa vantagem competitiva (Não se engane, é uma guerra!). Preciso é aprumar o
foco, perceber melhor que alvo tem mais condição (ou dá mais condição) de morrer e ir na certeza.
Economizar munição. Preciso também aprender com os soldados que bebem a arte da insistência
contínua, que leva a conquista de mais territórios. Preciso é aperfeiçoar essa marcha ininterrupta, a arte de
seguir tentando, no limite da chatura, sem o álcool para ajudar... Porque se a falta da manguaça ajuda no
primeiro contato com hálito puro, atrapalha na insistência após o primeiro “não”. E o “não” é o
comportamento padrão dos alvos que recebem a primeira saraivada de tiros, mesmo que queiram dizer
“sim”. Isso é mais importante do que citar Nietzsche ou falar um poema virando cambalhotas. Ah, como
são perigosos os caminhos da boca ao pé do ouvido. Quão escuras podem ser as trilhas das batalhas. Mas
aprendi que há de tudo na noite, muito além de qualquer tentativa de padronizar (“bêbadas, fúteis, fáceis,
burras...”), tem de tudo. Tem até mesmo aquela mulher que se encaixa com os de alma desencaixada,
aprendiz eterno das artes da noite e do amor (ah, o amor, o mais importante da vida e não ensinam no
colégio...). O mais importante é simplesmente estar lá. E tentar curtir... Transformar o inferno em lar...
Ah, outro aprendizado: não há amigos no campo de batalha. Quando a vida (ou a vontade de vida de
Schopenhauer) está em jogo, não há amigos. Quando a comida pouca se apresenta perante a fome
múltipla, as estratégias coletivas de guerrilha vão por água abaixo e é cada um por si. Dispensados.

*

Ah, a inabilidade de deixar as coisas andarem por si só... Minha pressa é de nunca ou sempre, é de
tudo ou nada. No entanto, os rios fluem no seu ritmo, mudos e mutantes. Mornos. Meu racional

conclama: pressa pra quê, se o fim de tudo é a morte? O sentimental é surdo, porém. Eu crio, então... E eu
tendo a crer no que criei. E a repetir demais a palavra “eu”. E a deixar a minha criação me matar afogado
num dia de chuva, surpreendido pela falta de arrependimento.

*

Eu entrei na igreja. Não podia me confessar porque não fiz alguma estupidez dogmática na infância,
mas mesmo assim subi até onde estava o padre. Era um negro velho, com olhos assustados. Olhei pra ele
sorrindo malevolamente e pensando bem alto: “Sou o demônio”. Só pra ver se ele ouvia. Só pra ver o que
ele faria. Ele deu um passo pra trás e disse que não poderia me atender. Eu ia saindo automaticamente,
mas resolvi voltar e perguntar o porquê. Ele se aproximou e me falou meu maior pecado, em detalhes. O
calor do meu peito pulsando rápido e o barulho da minha própria mente se perguntando como ele sabia
aquilo me acordou.

*

uma coisa boa neste fim de semana foi que aparei as unhas inclusive a dos pés e cortei a barba o
relacionamento não pois nos abraçamos como se o calor do corpo do outro fosse necessário para a
sobrevivência na realidade fria e carinhosamente falamos palavras como navalhas cortando o resto de
futuro com sangue e dor e dor (um pouco de orgulho e raiva) e carinho no abraço gostoso que parecia
eterno até o outro corte em que mastiguei minhas bochechas cheias de aftas e ela foi pra casa e não me
importei se chegou ou morreu no caminho dormi tranquilo como um anjo revoltado o domingo quase me
deu gastrite e acordei quase tonto segunda-feira sem saber se ia ou vinha nem se a tinha ou não a tinha na
verdade não acredito em fim nem em mim mas está tudo definitivamente quase acabado mesmo sem
nenhum de nós dois acreditar ou saber o que quer talvez que vontade de ligar pra ela ou não quem sabe?

*

Provo a prosa. Desisto. Melhor deixar relaxadamente a poesia correr em flores de fevereiro. Recorro
o macarrão das mãos pelos teus poros fundos. Então encontro. O cheiro de teu vértice me move a

mandíbula. Quatro olhos enternecidos. Com tarântulas na úvula, ecoa no fundo da garganta o silêncio da
uva que Ivo nenhum jamais viu. Dançamos grudados em espasmos rítmicos futuros. Dançamos,
sobretudo. Eu desaparecendo e você quase toda luz, quase toda som, quase toda na minha boca, minha
língua perdida para sempre dentro do seu macio mais saboroso. Quase real. Me salvem se não for isso a
salvação!

*

tranco a porta pra não fugir de mim mesmo. tranco em cima e embaixo. como se alguém quisesse
entrar... medo sem motivo aparente. sinto que respiro mais rápido. ansiedade sem motivo aparente. o
espaço entre ações bobas tipo ler um livro, jogar videogame ou ver TV é o que mais oprime. eu sem
motivo aparente. internet. vejo as fotos dos antídotos possíveis, motivos imaginários fora daqui. antídotos
de mim onde vejo deus e cabelos compridos. leio suas letras. imagino seu perfume. resisto. vícios agora
lindos que depois serão desesperos, porque não curam a causa. não curam a causa! o peito estranha estar
de novo no mundo, no meio do mundo enorme. o peito que carrego comigo o dia todo, onde quer que eu
vá, de quando em vez aperta. principalmente no apartamento pronto onde me construo duramente como
lar, mãos de sonho em tijolos invisíveis com tanto por fazer ainda. o peito pede paz. o peito é viciado em
pedir. paz porra nenhuma! paz é no cemitério. estar no mundo, trocar com o mundo, respirar de novo, por
mais que seja rápido, que seja entrar e sair coisa de fora no que é de dentro. trocar. nem que seja ar. sofrer
faz parte! volto a minha infância, os avós dormindo, o barulho do ventilador e do ronco deles e eu
demorando a dormir. a noite imensa e apenas eu consciente. o tempo que não passa. depois chego ao
medo de morrer por falta de socorro, se tiver um ataque qualquer, trancado aqui sozinho. sôfrego e
inseguro, aceito a saga sem antídoto: calo. sinto. descrevo-a mentalmente. escrevo-a. e mergulho meu
corpo astral no fundo de minha pressa. e ela passa. e ela nem era. e sobrevivo mais um dia sozinho no
apartamento vazio, construindo minha cura.

*

. E de vez em quando eu também sinto uma dorzinha fina, incômoda e sem lugar, Clarice. No
entanto, talvez por puro prazer masoquista, talvez por pura vontade de mergulhar mais fundo, ao invés da
fuga habitual, puxo ainda mais forte os fios invisíveis da solidão. E todo o mundo parece melhor,
estranhamente. Silêncio. Deixo a vontade de entender um pouco de lado, e sigo parado.

*

o problema é o silêncio após o último som da noite. dói os ouvidos. durante o dia, é suportável. na
noite, após apressadamente distrair-se com algo ou alguém, quando tudo cala, o peito dispara. trêmulo,
vou ajeitar as coisas pro dia seguinte, aos tropeços, com pressa de deitar na cama e não dormir. o dia
seguinte sempre traz chaturas por fazer e horas cedo pra acordar, que pioram o estado ansioso em que
venho escrever para sobreviver. só deito depois de me acabar em letras. livrar-me da palavra plexo,
depois da letra p, depois sumir inteiro, pro corpo adormecer ao menos na linguagem. pro cérebro parar de
contabilizar perdas, de buscar sentido no escuro sem sentidos, de ter saudade dela ou de quando eu
meditava e tinha paz em estar comigo. agora a pressa apressa minha falta de ser, o escuro faz o vazio
brilhar e crescer, de formas que acendo uma luz, apenas para ver algo deformado fora de mim. mesmo
assim, só vejo cômodos vazios, cheio de incômodo. escrevendo, nino o menino eternamente sem ternura
que sou, querendo atenção. e, sozinho, escrevendo, conto pra muita gente que nunca soube fazer nada
sozinho. a igreja tem luz azul e sinos eletrônicos que não badalam na madrugada para salvar ninguém.
*
- VOZ ELETRÔNICA: Por favor, digite seu CPF.
- 123456789
- VOZ ELETRÔNICA: Por favor, digite o número de seu celular com DDD.
- 987654321
- VOZ ELETRÔNICA: Aguarde. Estamos transferindo sua ligação para a central de atendimento
específica para a sua cidade.
- Cirlene falando. Bom dia, senhor Antônio, em que posso ajudar?
- Meu nome é Joaquim. Bom di…

- Para mudar o seu nome cadastrado, o senhor terá que falar com a central de mudanças de dados
cadastrais, estou transferindo sua ligação.
- Espera! Não é sobre isso que...
(Entra a musiquinha... “Você é muito importante para nós, não desligue.” Uma voz sexy e a musiquinha
de novo e de novo…)
- VOZ ELETRÔNICA: Por favor, digite seu CPF.

*

Despertou quase lembrando de um sonho estranho. Algo a ver com um livro numa livraria, com capa
bege, que amigos haviam recomendado e que parecia realmente bom pela contra-capa. Justamente essa
história contada na contra-capa é que ele não conseguia lembrar agora desperto. Parecia tão boa e simples.
Queria fazer dela seu romance. Baseado em sonhos reais. Mas não lembrava. De qualquer forma, foi
escrever:
A cidade era bege. O tempo era incerto. As janelas fechadas escondiam o clima. Acordou. Não
precisava de despertador. O primeiro pensamento foi o de organizar seu dia. Fez planos detalhados,
levando em conta as três refeições e o dinheiro que carregaria com ele, já pensando nas probabilidades de
assalto nas áreas que percorreria e os horários mais vazios para pegar o metrô. Parou de escovar os dentes
e percebeu não haver água. Cuspiu e teve que suportar aquele gosto de pasta de dente persistente na boca.
E ver aquele cuspe branco pegajoso vencendo a gravidade e o brilho de sua pia tão limpa. Não suportou.
Com papel higiênico, limpou a pia. Até brilhar novamente. Foi se vestir, sem ter que escolher sua roupa,
pois, para isso mesmo, ele só tinha o mesmo modelo e cor de camisas e calças. Para não perder tempo
escolhendo. Ao tentar abrir o armário, a maçaneta fica na sua mão. Não abre. Seu coração dispara. Sente
uma presença maligna no quarto, ao notar tanta coisa saindo de seu controle. Calor. Destrava uma janela.
Não abre. Suor. A porta. As quatro trancas da porta. Pingos no chão limpo. Destranca todas as trancas.
Vira a maçaneta. Mas a porta, magicamente, não abre. Fica como que presa pelo lado de fora. Estaria a
casa soterrada? A caixa de ferramentas. Treme. Derruba a metodicamente arrumada caixa de ferramentas
em cima da cama. Chave de fenda. “Dá-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo.”
Alavanca na porta. Escapole. Dedo cortado. Dor. Medo. Sangue. Não abre. Força. Chão mais sujo ainda.
Vontade. Reza ao Deus de sua avó. Calor. Insistência. Abre. Um passo pra fora, de cueca. Respiração
tentando se acalmar. Luz estranha, bege. Sombra estranha em torno. Olho pra cima. Um piano me mata.

*

a Matrix. sinal verde ou vermelho? a certeza de um marco. qual a cor da pílula que me cabe? estou
perdendo ou ganhando segurando lentamente cavalos, testando os limites da casa, alicerçando um sonho
mais real fora do agora. nado entre vozes lidas não minhas. como não ser o cego do Perfume de Mulher?
estou em Pasárgada e cada olhar brilha sim… tanta teoria… nenhuma delas ajuda se o caminho é seu.
arrepio com o sinal enorme. Morfeu e eu. vermelho. azul. tango. tanto sim numa cidade em que nem
pergunto… reforço a escolha. vêm mais provas que não provo. o amor é o que mais a vida gosta de testar.
e de crucificar. acolho a paz. perder é ganho. só por hoje. só por hoje. só por hoje. sempre gostei de
vermelho. sinal. pílula. agora não preciso mais testar limites. confio em ser mais que o mundo. só por
hoje. o cavalo viu a chance, cheirou o céu, viu todos os homens apontando seu crepúsculo… mas não
pulou no abismo. só por hoje. nem no do dia seguinte. só por hoje não basta. coincidência absurda. eu
surdo com o tom do rock ao vivo. eu vivo… a certeza do sonho ao alcance da mão e um japonês louco
dublando Like a Virgin. vou é dormir. o amor é o que mais a vida gosta de testar. e de crucificar. todo dia
é hoje. seguimos agora, eu e meus cavalos, asas reais, no voo mais raro, compreendendo e sendo
compreendido em Verdade, sendo herói e salvo, encontrando anjos e paz além do hoje, que todo dia é
hoje.

*

palavras lavram larvas latas de feijão de desenhos animados de épocas em que eu era mais animado
se é que existe o passado e por falar nisso o presente pode ser chat se não há futuro mas isso seria uma
contradição ou uma dança na contramão e na verdade talvez seja melhor não saber que não há verdade

*

Já sou como um estrangeiro na minha própria terra. A ideia de morar fora do país nunca nem me
passou pela cabeça. Mas admiro os que têm essa coragem. Na verdade, se eu conseguisse me mudar pra
Copacabana eu já me sentiria vitorioso. Copacabana é literário, poético, bairro com gente andando sem

carro, cheio de evento cultural, biblioteca, padaria, velhinho, esquina, amigo morando perto, bossa nova,
escritor... Porém, sempre que lembro do ano novo lá desisto. Qualquer evento (e tem sempre algum
evento) deixa tudo uma baderna, nem dormir se consegue com tanto barulho, mijo, bêbados, assaltos,
gringos, putas, velhinhos, tudo lotado demais, tudo com muito de tudo. Aí fico feliz com a Barra da
Tijuca e seu excesso de céu.

*

A linha ensanguentada do crepúsculo onde se deitava a lesma dourada cada vez mais fina é agora
violáceo-triste. A criança ri da pantera cor de rosa e quero ter filhos. Chora nas curvas do céu e não quero
mais. O pescoço ainda dói. O desmaio nunca sai. E, mais uma vez, não morro. Sigo. Seguimos. Para
onde?

*

é preciso não perder um olhar de reconhecer milagres no ínfimo. e atirar a mão queimada ao fogo
novamente! e atirar a mão queimada ao fogo novamente. e atirar a mão queimada ao fogo novamente? é
preciso o impossível…

*

olho o casal de velhinhos no cinema. ela jogando paciência no celular e ele, um jogo de corrida.
depois de trocentos anos juntos, nenhum silêncio é desconforto. não há mais necessidade de conversar o
tempo todo. há um equilíbrio em cada um jogando seu joguinho, lado a lado, no escuro. paz. depois de
um tempo, ele para e ajuda ela pacientemente com a paciência. cuidado. me vêm, então, a dúvida de
sempre: quando a menina-deliciosa-de-19-anos quis mostrar sua foto de biquíni fio-dental, ele resistiu?
ela perdoou? descobriram uma forma de ele não ter que resistir para ela não ter que perdoar? porque
depois de tantos anos juntos, com certeza houve pelo menos uma menina-deliciosa-de-19-anos para cada
um dos dois… mas qual a importância dela em relação a importância deles? um filme começa e acaba só
para trazer mais dúvidas: “Apenas uma noite” lembra que há relações que não acabam só porque

queremos que acabem. não acabam com distância, tempo ou cisma. seguem, assim, sem ser o que eram e
sem deixar ser o futuro em paz. um meio do caminho. isto talvez tenha muito mais importância do que
uma menina-deliciosa-de-19-anos. algo inacabado, inacabável, inabalável. será que os velhinhos saíram
de mãos dadas no escuro?

*

tenho pressa para que a vida deixe de ser como pasta de soja: saudável, segura e sem graça. amo a
mulher que passa, pra não perder a rima. no apartamento em cima de mim um casal hoje não briga mais. é
cedo demais. lá fora: frio, sol e bruma. rio da espuma do mar que ouço e dessas rimas.

*

Lia passou a infância no interior, a adolescência devorando conhecimento na cidade grande e agora
tenta ser adulta, mas não sabe como ou onde. O campo entedia, a cidade angustia. Tudo que ela comeu
lendo, precisa vomitar. Mas é mais fácil achar distrações do que a sua própria voz, o seu estilo próprio na
escrita. Distrações nos salvam sem termos que atravessar a agonia de criar. Assim foi seu esposo, Odilon.
Ela gostou do que não conhecia nele, no início. Depois, conforme foi conhecendo, não gostava de
nada. Sua coleção de abotoaduras, sua implicância com empregadas, sua necessidade de ordem, seu
planejamento exacerbado de tudo. O sexo era sinônimo de rotina. O hábito a fazia ficar. As amigas sem
marido a faziam ficar. Ela ficou. Para criar, não havia tempo.
Passou a vida tensa por não criar. Mas com a paz de um marido estável. Talvez seja melhor assim:
sem riscos. Se separaram quando ele se apaixonou por uma mais jovem. Ela voltou a escrever.
Quando a conheci, nem tentei nada. Gostei só de ouvir sua história.

*

Vivi uns anos com Anita. Dessa época, achei o texto abaixo numa gaveta, esquecido:
Agora o quarto está claro. Luz branca, como uma cozinha. É bom estar num lugar claro numa noite
tão fria. A luz parece afastar qualquer ausência. Lá fora, o som da chuva batendo nas folhas é um convite
à introspecção. Leve. Calmo. É hora de começar um livro.
Escolhi o caminho errado em algum ponto... Ou vários. Mas estava disposto a achar o certo, custasse
o que custasse. Anita me falava o dia todo sobre coisas que não me interessavam minimamente. Cor de
cabelo, o filho do artista que não era dele, uma bolsa que ela queria comprar mas estava cara... E eu sabia
que ela queria que eu dissesse “Não faz mal, compra.”, mas não dizia. Fingia não saber. Olhava o tempo
todo a sopa de ervilhas, que comia lentamente. Silêncio. Agora eu sabia, mesmo sem olhar o rosto de
Anita, que ela estava se emputecendo. Em breve viria alguma reação disfarçada por parte dela. E eu
fingiria não notar também, para evitar piores brigas. Mais alguns minutos de silêncio. A sopa estava boa.
Ainda quente. Coloquei um pouco mais de azeite. Anita é que bancava a sopa, o azeite, a casa, tudo, mas
mesmo assim queria uma aprovação para comprar a maldita bolsa, que eu – mesmo assim – não dava.
Tentava entender porque não dizia logo o que ela queria ouvir, mas não dizia. Saboreava o silêncio e a
sopa. Ela interrompeu:
- Você que acabou com o sorvete de morango?
- Anita, quem mais poderia ter sido?
- Pablo, aquele sorvete era para a Rosineide! Ela adora sorvete de morango!
Era assim que ela tentava me diminuir, lembrando que sou um escritor fodido que não tem grana nem
pra comprar sorvete de morango... E tenho que me sentar ali com meu amor morto e ouvir que o sorvete
era para a empregada.
Não respondi. Minha vingança foi chupar a colher cheia de sopa ruidosamente. Anita foi pro quarto e
se trancou. Ergui os olhos para a janela da cozinha. A lua devia estar sobre o mar em Copacabana, linda
mesmo. Mas tudo o que eu via era a parede descascada do prédio vizinho, e ouvia os cães latindo na noite
do subúrbio carioca.
Teria que trabalhar em algo que não gostava, pois o que gostava era ler, escrever e filosofar. Mas não
conseguia sobreviver disso, nem aturar Anita, meu sustento.

Sim, eu sempre soube que o trabalho fora uma invenção católica, para cansar o corpo e livrá-lo dos
“pecados da carne”, posteriormente reforçada pelo Protestantismo, com seus dogmas do tipo “mente
vazia, morada do demônio”. Sem falar na praga lançada sobre Adão, quando expulso do Paraíso. Praga
que agora parecia se abater sobre mim... Grandes portões se fechavam às minhas costas, enquanto a sopa
esfriava a minha frente.
Sempre soube que a imensa maioria das pessoas trabalhava explorada por não ter outra opção de
sobrevivência, e a minoria privilegiada o fazia para fugir de si, pelo status, pela necessidade consumista
de comprar mais e mais... Raríssimas exceções viviam fazendo o que gostavam. Eu mesmo não
consegui…
Sempre soube que as máquinas cada vez mais tiram emprego de trabalhadores com funções braçais.
E, paradoxalmente, o nosso ensino (público e privado) cada vez mais prepara pior os futuros
trabalhadores que, sem empregos braçais e despreparados para empregos mais “intelectuais”, aumentam
as estatísticas de desemprego.
Eu sabia demais. Pra quê saber tanto, meu Deus? Houve um tempo em que pensei em ser professor
para revolucionar esse sistema educacional de alguma forma extraordinária, ou pelo menos para dividir
essa sabedoria com alguém. Mas não passei nem na prova para o Mestrado, com questões absurdas sobre
termos herméticos. E, sem um título, não se pode fazer nada por aqui. Por mais que não se aprenda nada
de útil numa graduação ou numa pós-graduação. Por mais que a grande atividade nesses locais seja a das
máquinas de xerox.
Ah, leitor... Esse Pablo que sempre valorizava o ócio, a contemplação... Que criticava o uso atual da
expressão utilizada nos campos de concentração nazista “O trabalho liberta”... Queria se libertar. E teria
que se libertar pelo trabalho nazista, pelo trabalho alienado, pelo trabalho sem paixão, pelo trabalho em
troca apenas de um maldito salário.
Anita, em seu quarto, organizava os armários, lotados de roupas em excesso. Após isso passaria uns
dez cremes e tomaria uns quinze remédios para evitar a velhice inevitável.
Rosineide chorava com sua novelinha, e dormia, exausta, com a TV ligada.
Eu pensava sobre os males do mundo, filosofava longamente olhando e janela, deixava os
pensamentos fluírem, se misturarem... No entanto, sempre voltavam a Rosineide. Raiva. Era raiva. Como
a que senti no dia em que ela interrompeu minha meditação transcendental com risadas. Devia achar a

posição de ioga ridícula, ou eu ridículo na tal posição. E agora, eu teria que guardar sorvete para aquela
imbecil.
Aliás, ela vivia rindo. Com motivo ou sem. Onde achava felicidade, meu Deus? Uma anta sem visão
de mundo, que não sabia anotar um recado quando atendia o telefone. Uma mula de carga que passava
mais de oito horas por dia limpando, cozinhando, passando roupa, fazendo tudo para os outros. Que se
tivesse meio neurônio já tinha se matado ou entrado para o tráfico de drogas. Que não tinha casa, que não
tinha um amante, um amor, nada. De onde saíam aquelas infindáveis risadas de hiena?
Percebi que minhas mãos estavam espremendo as bordas da mesa, como que buscando o pescoço
gordo de Rosineide. A imagem da desgraçada morrendo em minhas mãos me deu prazer. Poder.
E ainda tinha um radinho. Um maldito radinho de som péssimo, que eu era obrigado a ouvir quando
ela limpava a casa. Quantos walkmans já dei para esta criatura? Perdi a conta. Ela não usava. Agradecia,
guardava ou vendia, mas não usava. E a casa não sendo minha, o salário dela não sendo pago por mim,
como exigir qualquer coisa?
Fui dormir no sofá, com uma pressão no peito. Morna. Não dormiria nem tão cedo.
Pela manhã, saí pela cidade. Desci a ladeira da maldita rua de Anita e vi a vizinha manca subindo.
Senti tanta pena dela subindo sozinha que não a cumprimentei. Seu marido, Parmênides, tinha morrido. A
vida é assim mesmo, cruel. Por onde andaria agora o companheiro da vizinha, seu apoio nas ladeiras da
vida? O cara vivia na janela do primeiro andar do prédio vizinho, fumando e escarrando no quintal da
casa da Anita. E, sempre que estava ali, naqueles poéticos instantes, procurava desesperadamente alguém
para puxar assunto. Eu saía meio abaixado, fingindo uma concentração que não tinha, se pudesse, saía de
casa invisível quando ouvia sua tosse ou sentia sua presença ali na janela. Era um pigarro que queria dizer
“Estou aqui, fale comigo!”. Eu fingia não ouvir. Mesmo assim, muitas vezes ele começava a falar. Falava
do tempo, ou temas semelhantes e metade eu não entendia. Era meio grulha. Eu não compreendia e
concordava e dizia ter pressa e saía. De quando em vez ele trazia uns aipins que tinha colhido num sítio,
não lembro onde. Anita agradecia, Rosineide cozinhava e eu, Pablo, comia.
Não sei mesmo o nome da vizinha manca que sobe a ladeira com dificuldade, viúva, sozinha nesse
frio ferrado que está fazendo ultimamente.
A cidade do Rio de Janeiro acordava. As padarias abertas, com trabalhadores se preparando para
mais um dia, tomando café com leite em copos de vidro. Um borracheiro espantando pombos batendo
com uma chave inglesa numa placa de proibido estacionar. Um vizinho do borracheiro reclamando pelo

barulho, que havia lhe acordado. Ainda estava frio. Frio não combina com esta cidade maravilhosa que é
o Rio de Janeiro, mas estava bem frio.
Caminhei pelas ruas sem destino certo, mas não consegui escapar da minha dúvida: será que terei que
me juntar aos das padarias? Ou será que meu romance – este romance – me salvará? Pensava num título
para ele... Num título que atraia o leitor. Tem que ser forte e universal. Talvez algo como “COMO FICAR
RICO, TER AMOR DE SOBRA E SER FELIZ EM POUCAS PÁGINAS”. Foi quando encontrei com tio
Sávio. Quase nos esbarramos. Ele seguia curvado, ombros preocupados, pasta cheia de obrigações sem
sentido.
- Pablo? Saiu um concurso público pra prefeitura de Nova Iguaçu, você viu?
Este era o “tudo bem?” do tio Sávio. Ele era funcionário público, odiava seu emprego e cismou que
eu deveria também ser funcionário público, que teria mais garantias... Eu era “bem preparado, inteligente,
tinha uma faculdade e passaria fácil em algum”, insistia. Mesmo sabendo que eu já tentara vários e não
conseguira. Depois disso, ele sempre falava que tava tudo bem, mesmo seguindo no emprego dele sem
muito sentido. Era sempre um papo bom, ele era aberto, presente e da família. Tio Sávio começou a
aconselhar e ouvi. Uma parte orgulhosa de mim, porém, sentiu um desconforto só por ouvir conselhos e
desconversei, inventei um compromisso e ele foi encarar o seu metrô superlotado diário. Gostei de falar
com ele, como sempre, mas concurso público seria uma solução pra minha vida? Não desisti de tentar.
Ele acabou me convencendo. A coisa mais bizarra da vida do Tio Sávio foi quando ele atropelou um
bêbado e, por medo de terem anotado a placa, socorreu o cara, levando-o no banco de trás no carro para a
casa da sua mãe (minha avó), todo ensanguentado e gemendo. Ao saber do ocorrido, o instinto materno de
vovó falou mais alto e, pensando primeiramente no bem-estar do tio Sávio, ela disse: “Joga ele na
primeira sarjeta!” Porém - mais por medo do que por compaixão – meu tio acabou levando pro hospital o
bebum, que sobreviveu.
Dei outra olhada pra padaria, onde já havia um cara bêbado àquela hora da manhã, tropeçando e
xingando alguém imaginário, com plenitude de gestos. Possivelmente falava para o vazio tudo que não
podia falar para seu chefe, aquele capitalista que lhe explorava. A imagem de Anita me pareceu menos
sombria, sua casa mais agradável e sua empregada apenas uma pobre companheira que não se alimentou
bem na infância, que estudou mal nesse ensino miserável e não teve oportunidades melhores para evoluir
como espírito de Deus. Coitada.

*

Estou namorando!

*

Pago 200 reais na terapia pra continuar sem conseguir decidir nada, ficar em casa tentando criar para
não pirar, não gostando de estar sozinho, mas estando. Tentando isso de escrever pra não pirar e pirando
há 20 anos, mais ou menos. 20 anos.
Mas não largo a terapia. Vou sobrevivendo. Cansado todo dia do emprego que não largo (trabalho
inútil, estúpido, idiota, mas que paga minha comida – que me dá energia pra trabalhar mais), chego em
casa sem forças pra vir aqui escrever esta merda, com a namorada longe que não vem mais nos dias úteis
(e não largo) e a pia cheia de louça suja.
A namorada longe sempre puta com algo que fiz, faço ou hei de fazer, e, no entanto, namorada ainda.
Pelo medo de ser só? De estar só nesse apartamento que não é vivo mas depende de mim, da empregada
quinzenal que tira tudo do lugar (e não largo), de vários personagens para seguir sendo? Sendo esta
merda. Voltamos agora ao problema com a solidão que custa 200 reais por semana. E não resolvo nem
largo.
Mas eu não comprarei nem gato nem cachorro. Aviso logo a mim mesmo, no meio da noite escura
que nem assusta tanto. Não comprarei esta merda ridícula. A analista pode falar a vida toda, que não
compro. Eu já sou um cachorro de mim mesmo, escrevendo infeliz aqui sozinho. Gato escaldado.
Acho que brevemente o namoro acaba sem eu ter que decidir.

*

Acabou o namoro. Larguei a psicóloga. Passei num concurso.

*

ah, de volta ao apartamento vazio, esse fracasso íntimo que celebro tonto, ansioso, suando e
escrevendo. deixo Mozart tocando no Youtube. uma aranha cruza a tela justo depois da empregada ter
passado o dia – teoricamente – limpando esta merda. abro o Facebook só pra não responder ninguém.
o trabalho. olho todos os dias um monte de gente burra se esforçando por algo estúpido que faço
fácil, mas odeio fazer. e eles pensam que é importante o trabalho. parecem mesmo pensar... só que não
babo ovo. logo: não ganho cargos. mas foda-se. sinto a inveja deles. em breve serão meus chefes.
juntando dinheiro e tendo filhos. como se ter filhos fosse uma grande coisa. num planeta superpovoado,
onde acabamos com os recursos todos, as espécies todas e vivemos como escravos, como gafanhotos,
consumindo e destruindo tudo para manter uma sobrevivência de neuróticos, infelizes, ansiosos,
doentes…
no trabalho, não conto nem metade do que faço. o que existencialmente faço melhor e com mais
prazer: poemas. que atraem mulheres. que atraem mais prazer.
amaldiçoo e agradeço meu apartamento vazio enquanto escrevo. e a porra da aranha sumiu.

*

Adriana sempre dá bom dia quando vem limpar o escritório. Hoje, resolvi puxar um papo, feliz com
o recesso de ano novo se aproximando. Ela falou que teria uma semaninha, já dava pra descansar. A partir
daí, me abriu sua vida. Ouvi, olhando em seus olhos que não fugiam, notando seu sotaque nordestino e
sua necessidade de conversar com alguém.
Ela contou que a empresa revista a bolsa de todas as que trabalham na limpeza na entrada e na saída.
Disse que nunca passou por isso em outros lugares onde trabalhou. Outro dia, um cara comeu biscoito
sobre a mesa que Adriana tinha acabado de limpar e ligou pra reclamar ao chefe dela, dizendo que ela não
tinha limpado. Desde então, Adriana sorri menos. Pensou em largar o emprego e tudo. Uma amiga foi
acusada de roubar um porta-retratos e chorou dois dias. E o que ela faria com um porta-retratos?

Adriana tem dois filhos, mas pegou uma menina de três meses pra criar também. Ela já está com um
ano, e chama Adriana de mamãe. É muito apegada. Que nem a filha da juíza pra quem Adriana trabalha
como babá nos finais de semana. Adriana também trabalha com limpeza em vários outros lugares além
daqui. A juíza disse que ela tem sorte, mas Adriana perguntou por que e a juíza calou.
Com tantos empregos, pelo menos conseguiu comprar uma casa própria e parar de pagar aluguel. Os
filhos de Adriana são muito bem-educados e inteligentes, vão bem no colégio. O mais velho ficou gago
por três anos ao presenciar uma das brigas do pai embriagado com Adriana. O pai tem problema com a
bebida. O menino costumava ir rezar no quarto durante as gritarias. (Contar isso marejou os olhos firmes
de Adriana.)
Esse mesmo garoto também faz retratos de pessoas com perfeição. Ele só fazia desenhar o dia todo,
desenhava por muito tempo mesmo e Adriana achou que era ruim, mas a psicóloga disse pra deixar. Ele
também adora ler. E escreve coisas que ele mesmo cria…
Nesse momento, apareceu uma burocracia inútil pra ser resolvida e Adriana se foi sem dizer adeus.
*
Debussy. Estado de êxtase depois de Clarice. Estar no lugar certo, fazendo o que sei, posso e devo
fazer. Escrever. Estado de felicidade leve e sem motivos explicáveis. Felicidade inteira no que já é. Cada
coisa em seu lugar. Sentimento maior que pensar. Paz extrema bem ao lado do mais louco penar. Alguém
me entende no mundo quando leio Clarice. Quando não adio escrever Clarice. Flores infinitas, flores
impossíveis em todos os lugares. Câmera lenta. Meu apartamento me abraça branco. Dentes rindo.
*
Ser ateu é negar o Deus padrão. OK. Mas isso é o mesmo que permanecer preso a Deus, como um
escravo liberto que vive a vida ainda da medida da prisão, retendo o cárcere consigo. Parte-se de Deus
para negá-lo, como uma vingança inútil. Certo, Nietzsche?
Para minha vida prática, filosofando sobre isso, me veio instantaneamente a questão do trabalho. Será
que é por isso que minha ansiedade permanece, mesmo após eu parar de trabalhar? (Menor, mas
presente.) Estar ou não trabalhando gera ansiedade da mesma forma, por estar eu, escravo, vivendo para
negar as grades do labor e desse sistema onde dinheiro é sinônimo de segurança? E, assim estando, me
mantenho preso a esse modo de vida (e de vista)? O ócio ainda quase agoniento seria uma negação ao

trabalho? Precisaria primeiro do trabalho, para depois ser negado, se mantendo assim, preso ao trabalho?
Devo eu tentar considerar a criação artística como trabalho e me acalmar? (Acho que isso eu já tento...
Veja o leitor este livro, por exemplo.)
Ou talvez precise mudar a perspectiva: mudar para um ócio primeiro (não no sentido temporal, mas
ontológico). Um ócio que seja por si só. Ócio não como contraposição vingativa ao fazer do trabalho. Mas
um ócio além da visão utilitarista da vida... Um ócio que não seja necessariamente ócio e nem meça se
estou ou não em atividade.
Do mesmo modo, um anticonsumismo contra o bombardeio do marketing talvez não seja a resposta.
Mas algo originário... E original. Sem o ranço de vingança.
Será que existem filósofos contemporâneos (filósofos mesmo – e não professores de história da
filosofia) em algum canto escondido do mundo que produzem pensamentos próprios em vez de comentar
os dos outros? E por quanto tempo repetiremos reclamações na esperança de que outros mudem o mundo,
nos colocando de forma tão passiva e distante do que nos cerca como realidade?

*

Às vezes, amo tão rápido que não dá tempo da história acontecer. Já estou criando ternuras e
pensamentos do ser imaginário amado antes que a realidade coloque seu peito no meu. Deveria esperar
até haver harmonia nas batidas. Deveria. Mas tenho pressa. Não sou assim, de esperar. Afasto-me da
realidade, pois nela a finitude é quem sempre ri por último.

*

Sou ateu mas creio no chupacabras.
*
Vim ainda em êxtase tomar café no mercadinho careiro vizinho ao meu prédio. A pé. Passei por
gente e pensei: são humanos. Só querem ser felizes. Que nem eu, que nem a menina no ponto de ônibus

ontem de madrugada, a quem ofereci ajuda. Jogaram ovos nela de dentro de um carro em alta velocidade.
Apenas por terem ovos e um carro e ela não. Apenas por terem sido criados por mães ausentes e babás
negras como ela. Lembrando disso, me forcei a dar bom dia pra uma velhinha desconhecida no caminho
bonito pro mercado, como se fosse normal falar com estranhos na cidade grande. Tudo perfeito até a
moça do mercadinho – sem retribuir meu sorriso – dizer não ser possível trocar o café com leite da
promoção por chocolate quente, pelo mesmo preço, coisa que faço há anos... Olhei de novo o cardápio: o
mesmo preço! Lembrei do cego mascando chiclete de Clarice. Lembrei do seu rato enorme e ruivo,
acelerando a pulsação como em mim, naquele momento. Lembrei da impossibilidade do amor fati de
Nietzsche, de como é impossível alumas vezes aceitar o destino exatamente como ele vier... Sorri de
novo. Principalmente com os caninos, dessa vez. “Chama o gerente?”

*

Dias totalmente novos. Meus melhores dias, melhores textos, piores taquicardias. Parece que vou
morrer mas não morro. “Você não morre, José”. Parece que vou cansar mas não canso. Deito de noite no
escuro e durmo. E no dia inédito seguinte eu me estico novamente em direção ao impossível, com ombros
tensos e cada vez mais textos. E cada vez mais musas. Cada vez mais, tudo possível. Permito-me querer
cada vez mais. Ansioso mas conseguindo. Sem sono. Seguindo.

*

Mahler. Nenhuma borboleta tem mais peso. Eu queria ter conhecido Bukowski, sabe? Só pra ouvir a
voz dele dizendo “empregos de merda”. Quem escreve sabe: os pêssegos realmente falam. O maior
novelo de barbante do mundo fica nos Estados Unidos e não é à toa. Isso diz muito. Todo o livro dos
recordes diz muito. Bukowski beber muito diz muito. Sensação estranha de que no mundo inteiro,
basicamente ninguém tem muito a dizer.

*

Muros baixos com grades normais, sem espetos. Limo. Crianças pedem uma pipa vermelha que caiu
no quintal do vizinho. Ele devolve e sorri. Minha felicidade mora no subúrbio. Meu passado e meu futuro.
No presente, vejo isso tudo de dentro de um aquário. Ônibus do trabalho, com cheiro de plástico. Pega na
porta de casa e deixa na porta do apartamento de vizinhos desconhecidos e cortinas. Bolha depois de
bolha. Ônibus fretado pela empresa. As mesmas pessoas, no mesmo horário. Quase sempre, nos mesmos
lugares. Quase ninguém se falando. Não sei se agradeço ou fico triste por este fato. Escrevo palavras nas
janelas, no vidro do aquário sobre rodas. Respiro pelas palavras. Em alta velocidade.

*

tem um indizível que – em total silêncio – ilumina seu pensar em algumas situações de tal modo que
você sabe que aquilo ficaria bem, ficaria genial, escrito. mas ilumina de leve apenas as palavras no etéreo.
no percurso até a mão, até o papel, toda vez se perde algo. mas acho que escritores loucos como o
Bukowski viviam a vida que viviam por saberem que não era só a vida deles. não era mais a vida deles,
mas a eternidade. o eterno retorno nietzscheano cada vez que alguém vive de novo, lendo o que
escreveram. muito além de uma teoria morta.

*

Enquanto isso, lá fora, novas pessoas conhecem pessoas novas para as mesmas coisas velhas.

*

Gosto de lembrar aos amigos que no final da vida a gente morre. Como a fagulha que adentra a casa
cheia de caixas e planos. Então sorrio pianos em chamas. Sem teclas pretas a adiar.

*

Venta no alto do prédio. Daqui, vê-se o mar de prédios. São 3 da tarde e o crepúsculo rasga nuvens
em rosa e dourado: o final dos tempos. Assisto feliz, pois venta. O universo se desvenda no corpo de uma
mulher de branco celeste. Não sei pra quem quero contar minha loucura persistente. Silencio sem
assobiar. Djavan ao longe. Durmo acordado. E conto para mim mesmo o espetáculo: escrevo.

*

Passar por Cascadura à noite me lembra a sensação de desamparo que senti umas vezes quando saí
dirigindo sozinho do trabalho em Benfica para ir pro apartamento vazio em Pilares.
A casa da minha infância na Penha, com gente, som, cachorros, e comida pronta me esperando não
mais havia.

*

talvez eu já esteja cansado desta merda. eu amava ela. ela me amava. e nos conhecíamos. ninguém
precisa de nada além disso numa relação. esse fascínio por mulheres novas é um amor idiota. paixão
idiota, sei lá. por algo que você não conhece. só porque não conhece. se conhecer, morre. talvez seja
difícil recomeçar do zero se não acabou o que eu tinha com a ex mais recente. talvez por isso seja tão
doloroso lembrar. talvez por isso eu esteja comendo mais mulheres do que nunca, para recomeçar. mas é
foda: a foda talvez não ajude. você não sai desse ciclo nem fodendo.

*

Sábado estranho. O sono não veio. Leio Caio Fernando Abreu e chove fraco. Tenho a certeza clara
como um ovo apunhalado de que nunca mais estarei pronto. (A dúvida é se isso é bom ou ruim...) Venha
o que vier, seja o que for. Minha condição agora é pendular, entre aceitar e explodir. Porque não estarei
pronto. Nunca mais. Talvez, no máximo, tonto de tanta vida em tão pouco tempo. Tonto de novo algum
dia, como quando eu não vivia. Condição pendular entre todos e ninguém, vitória e derrota, prosa e
poesia. Balançando num relógio de parede hipnótico. Tic tac. Tudo é um. Tudo é o mesmo, geminiano. O
diferente é uma ilusão causada pelo tempo. Tic tac. Ao mesmo tempo, esses sutis encontros, essas

coincidências que agora vejo como sincronicidades, como uma teia invisível por trás dos fatos e molhada
de chuva, que só sentimos na pele, no toque da esperança e de sentido como de uma aranha sagrada... A
menina linda do restaurante que talvez nunca tenha recebido meu cartão, que me olhou tanto, que não me
deixa dormir. Encontro. Esperança. Ah, a impossibilidade do presente...

*

Aceitar. Às vezes me parece o verbo mais lindo e pacífico... Mas o verbo criar, em mim enamorado
do viver, tem algo visceralmente próximo do romper.

*

tem pessoas que cruzam sua vida pra te tirar das certezas e dos caminhos repetidos. quando uma
louca assim aparecer na sua vida, corra. para abraçá-la. a partir de então, se surpreenderá com a alvorada
de um sorriso infantil nas horas de silêncio mais leves.

*

mudo de área, de empresa, de tudo e estou sempre fazendo algo que um macaco bem treinado
conseguiria fazer. talvez fizesse até melhor do que eu, mais motivado. 5 anos de bacharelado, trocentas
mil horas em cursos chatos, certificados de tudo, primeiro lugar nos concursos... pra nada. área pública ou
privada. quase igual.
os chefes, em geral, tem um facilidade, uma tendência, um dom para babar ovos. isso, em geral, é
inversamente proporcional à sua inteligência. assim, sem capacidade de planejar nada estrategicamente,
sobram pra pessoas com essa capacidade inútil na prática – como eu – esse tipo de serviço estúpido. fodase. assim é a vida. assim é a administração de empresas. resta aceitar... que porra funciona neste mundo,
afinal?

saio desta merda, deste desperdício de alma, desta embromação, destas 8 horas diárias (fora o
trânsito) sempre querendo comer mulher e bater nos porteiros que não dão boa noite. mas não faço
nenhuma das duas coisas. venho escrever.

*

agora estou com mais essa neura. justamente quando vem um novo amor pro apartamento, me agonia
a foto da ex-namorada no armário. lembro de todos os detalhes dela. eu sorrindo triste, ela sorrindo feliz.
logo dela, que tanto tento esquecer. lembro da agonia infinda de quando nós éramos nós, brigando, como
sempre, por liberdade dos nós que éramos um pro outro. lembro de colocá-la na gaveta a toda hora e de
tirá-la da mesma maldita gaveta pra sala milhares de vezes. mas agora ela é mais forte, no fundo do
armário. deixo ela lá, pra não olhá-la. é como se a minha alma quisesse ser triste... justamente nas horas
em que eu poderia ser feliz de novo. como se ela fosse incurável. sempre tive a impressão de que o
presente dela – aquela foto – era pra me aprisionar de alguma forma. bem, ela conseguiu.

*

Larguei o emprego. O ventilador joga silêncio em minha pele, enquanto as persianas esperam – sem
ansiedade – o crepúsculo. Passam pedaços retangulares de céu pela janela da cozinha. O tempo me sobra
e não tenho pressa ou meta distante. Sensação boa de já ter chegado. Disputa e medo acenam de longe.
Reaprendi a ler.

*

sempre fui bom em abrir o peito sem mais delongas. agora tentei essa coisa de abrir a casa como
quem abre um pacote de biscoitos. de abrir a mão amante de ajudar em vez de pedir. consegui. e
sobrevivi. o mais difícil não foi isso. foi não esperar nada em troca.
(o desafio maior é matar a esperança, não o medo.)

*

o trem passou no início do filme. coloco o sorvete gelado sobre o coração e paro. pause. não a
conhecia. nunca a conheci. cagou-se tudo a tempo de não conhecê-la. o mais chato agora é esse fim
prolongado, esbarrar em foto, em site, em música, em sombra de vontade. tinha tudo pra dar errado
mesmo, mas deu certo por um feriado. ao menos o mar continua lá, logo ali do lado.

*

saímos do facebook, abrimos o skype. ela ainda tem o mesmo sorriso. eu quero amanhecer no ventre
de sua branca maciez, mas calo meu desejo absurdo. ela pega o violão sempre afinado e canta o canto
mais lindo já cantado. sem exagero. escolhe músicas para enfrentar a madrugada, muito mais antigas do
que seus dezoito anos bem vividos. legião. adriana. zélia. elis. raul. cazuza. cássia. falo do meu calor,
tímido. ela pede para eu pedir. peço. ela mostra - devagar - a felicidade. digita rápido. tem frente e verso.
mostra e esconde, tudo rosa, tudo branco, se inclina e rima. dança, solta. assim, atravessamos a noite
longa. depois do gozo, sobe a calcinha branca e liga caetano. ela quer um cigarro. não há. o indizível
começa a tomar corpo em meus poemas nascentes. meus olhos fatigados percebem a perfeição fugaz do
instante. ela boceja, filosofando sobre autoconhecimento, desconfiando que eu não estou aqui e ela não
está lá... talvez com alguma culpa pelas três horas loucas que passamos. mas foi tudo virtual. pede para eu
escrever sobre ela, sobre nós. sorrio. sempre queremos algo além, sempre há algo a ser construído que
depois será destruído. vamos dormir junto, separados, com um carinho enorme nos olhos. escrevo o que
ela queria. 18 anos.

*

Odeio dirigir.
Mas quando vou bem rápido, passando dos cento e vinte, se há uma música perfeita tocando, e estou
sintonizado no momento presente, tendo a esticar os braços e me imaginar num voo de verdade, num voo
de vontade. Acontece mais à noite. Talvez eu morra, mas morro feliz.

*

Gabriela foi de uma banca na faculdade que julgou uns poemas meus num concurso idiota lá, quando
eu participava de concursos idiotas. Anos depois, também na UERJ trabalhamos juntos e me apaixonei
perdidamente por ela, mas ela não quis nada comigo. Anos depois, esbarrei com ela na mesma faculdade
e ela me arrastou pro meu carro do nada, na chuva, e me deu o melhor beijo da minha vida. Então, saiu do
carro, na chuva, pra nunca mais.

*

às vezes, acho que não mudo nada.
às vezes, acho que um escritor que não mude de mundo não pode mudar o mundo.
às vezes, acho que o melhor caminho pra quem quer mudar o mundo não pode ser de casa pro
escritório e do escritório pra casa.
sempre foi mais fácil mudar o mundo do que mudar a si mesmo.
às vezes, acho que não mudo nada.

*

minha musa é uma menina descalça e assustada. respirando rápido. com olhos enormes de passarinho
tentando não ser pego. verdes. quase roendo as unhas. olhando os tênis no chão, mortos. quase me
matando. sorri. quase correndo pra longe do absurdo que já somos.
*

Agora me vejo esperando no carro a música acabar, com a porta aberta e um sorriso solto. Depois
saio cantarolando e escrevendo em prosa como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se tivesse
finalmente chegando em casa.
*

eu, que continuo com essa mania suicida de amar escritoras.
elas nunca se encaixam no mundo seco e descrevem a chuva mais bonita do que a chuva é. e eu, eu,
extremamente eu, que não sinto quase nada na pele quando chove na literalidade. mas as letras delas
pingando os baldes, enchendo as noites pelos tetos rasgados. um silêncio enorme dormindo tudo no peito.
estrelas que nem vemos, mas que nos abraçam pelo alto. a casa inconstruível toda molhada e nossa.
morando dentro de nossos nós sobre os chacras cardíacos aterrorizados.
talvez estraguemos tudo nos encontrando e comendo pipoca de boca aberta. mas sempre nos
encontramos, mesmo assim. eu faço a barba e coloco perfume. ela passa batom e sobe num sapato novo.
talvez seja a cumplicidade de não querer nem ver a árvore de natal da lagoa ou a incapacidade mútua de
falar sobre dinheiro, mesmo nas festas mais longas. talvez seja isso de expurgar pro papel em vez de
tomar rivotril. só sei que não tem jeito não: nos encontramos sempre – eu e ela. só queria de presente não
ter a dor futura.

*

um outro amigo louco me ligou à uma da manhã. me acordou. pra nada. não consegui dormir de
novo. era 11 de setembro. fui ver um seriado, já que não dormia. às 3 da manhã, tocaram a campainha. era
uma mulher! parecia bonita pelo olho mágico. perguntei o que queria.
- não consigo entrar em casa.
- mas você não mora aqui…

- eu sei, estou no apartamento 808, na casa de minha tia, mas ela não me ouve e não tenho chave.
voltei de uma festa e…
abri a porta. era gata. foda-se o risco de golpe ou assalto ou sei lá. ela pediu ajuda, eu perguntei como
poderia ajudar. estávamos os dois com sono, meio lerdos. ofereci meu celular pra ela ligar, mas ela não
sabia de cor o número da tia e seu celular estava sem bateria. a tia surda não ouvia ela batendo na porta.
ofereci meu sofá pra ver seriado comigo ou dormir. não quis. pediu água. dei. ela bebeu um pingo. ofereci
comida. ela já tinha comido pizza. ela resolveu dormir no chão do hall dos elevadores do prédio. queria
oferecer casamento... não ofereci. eu ofereci cama, sofá, tudo para ela não ir dormir naquele chão público,
duro e gelado, mas acho que ela teve medo de mim, de dormir sozinha comigo no meu apartamento.
cismou em esperar o tio sair pra trabalhar lá no chão. perguntei seu nome. ela disse e eu fui dormir.
esqueci seu nome. não conseguia dormir na minha cama quentinha pensando nela lá fora. levei um lençol,
um travesseiro e um livro de minhas poesias com um recado a lápis: “me ligue quando acordar”. cobri seu
corpo delicioso de shortinho e cheio de tatuagens, insistindo para que ela dormisse no sofá, sem sucesso.
ela negava, meio dormindo, com aquela luz branca nos olhos lindos. coloquei o travesseiro sob sua
cabeça e fiz um carinho em seu cabelo. vontade absurda de deitar ao lado dela e dormir ali, encostado a
ela, dois perdidos numa madrugada louca... num mundo vasto e louco demais. mas não tive coragem.
quando fui trabalhar ela ainda estava na mesma posição, com meu livro ao lado. fiquei uns segundos
olhando. depois parti, tentando não acordá-la. me sentindo como um marido saindo de casa no maior
silêncio possível, pra não acordar a esposa. o peito cheio de ternura... e ela nunca ligou depois. nem
devolveu nada (tive que pegar de volta os travesseiros na vizinha). nunca mais lembrei seu nome.

*

Almocei com meus amigos do trabalho, percebendo que são – na prática – com quem eu
efetivamente converso. Todo dia, inclusive. O almoço tornou-se um prazer constante na inutilidade dos
dias úteis de funcionário público.
Mesmo eu comendo desconhecidas nos finais de semana com as quais sempre me decepciono no
longo prazo (sem dar tempo de virar uma relação), estranho a vida de ansiedade sem a figura de uma
namorada ao lado, onde sempre concentro demais meu afeto e esperança e tudo mais. Eis minha pouca
capacidade de relação real (não imaginária). Mas meus almoços no trabalho eram bons e reais.

*

Corria. De tudo. Corria a caneta pelo papel. Sobre_tudo.

*

não, não diga nada. na distância eu te crio e te amo. e você é perfeita. isso me basta. você preenche
tudo o que me falta. por favor, pare de mandar emails também. nosso amor é lindo e perfeito e você está
criando confusão e me causando sofrimento ao se mostrar diferente. não, não diga nada. te bloqueei no
whatsapp. você insistiu dizendo coisas suas que atrapalhavam tudo o que já sei de ti. tive que te bloquear
também no facebook. não, não diga nada. desista dessa ideia de nos encontrarmos: eu jamais arriscaria o
que já temos nos encontrando. além disso, você vai falar ou fazer alguma coisa diferente do que imagino,
e nossa relação é perfeita assim como está, no presente, sem nunca termos nos visto ou beijado ou ficado.
não, não diga nada, meu amor. na união de nossos silêncios mora a paz da eternidade.

*

É mais fácil servir ao próximo do que ao chefe.

*

de alguma forma, associei o prazer do ato de cortar as unhas com a preparação para encontros
românticos. quando não há tais encontros, me desanimo a cortar e adio. mas hoje cortei. a barba está
abandonada e branca. tal qual minha vontade de encontros românticos.
programei o final da minha caminhada diária no calçadão da praia do recreio para coincidir
propositalmente com a apresentação do bloco local. se estivesse minimamente aprazível para mim (um
milagre), eu pararia ali um tempo.

parti sem dinheiro nem celular, só com as chaves de casa. sem protetor solar, já sabendo que não ia
durar mais de uma hora essa aventura…
em todo o trajeto, passei por duas camisinhas usadas, cheiro de cerveja, de vômito, de carnes de
vários bichos sendo queimadas (porco, boi, peixe...), umas duas ou três mulheres bonitas de fio dental, um
cara negro vestido de branca de neve, apenas umas três mulheres fantasiadas preguiçosamente (com
orelhas de bichos), dois mamãe eu quero e um pierrô apaixonado cuja letra me pareceu uma placa sonora
"eu já sabia" - e que me fez pensar em escrever isto, junto com o céu cinza.
o tal bloco eram uns quatro músicos velhos tentando animar as poucas pessoas fantasiadas com voz
desanimada. o discurso deve se repetir há séculos: "vamos animar, gente, já basta o ano inteiro de
tristezas no nosso país." mas não é no país: o sofrimento permeia toda a ilusão de existência nossa, meu
amigo... apenas uma velhinha dançava sozinha o mamãe eu quero. parti. um velhinho caiu na ciclovia e
outras pessoas foram mais rápidas do que eu para ajudar.
cheguei em casa, fiz ioga, relaxei, tomei um banho (com as unhas cortadas) e coloquei no youtube a
nona de beethoven para escrever isto.

*

São Paulo. A trabalho. Acordei contando minha história pra mim mesmo. O dia passa. Mulheres
passam. Como muita comida. E essa lua no espaço sobre a Paulista? Cheia de si... Por que essa lua, meu
Zeus? Para quê? Iluminando minha solidão sem silêncio ou paz. Descoberta, desmedida, provisória, fraca,
retirante. Nada parece começar. Tudo é cedo. Sem sentido. Forçado. Adio lutos sobre lutos. Reinvento a
vontade de “pra sempre” nas lentas músicas românticas. Almejo já sem nem pensar. O corpo se move
antes em direção ao impossível. Sempre o impossível. Metralhadora irreconhecível que se atira e se fere.
Mas nada começa, obviamente. No entanto, caminho. Não há mar nem amar. Mas caminho. Uma volta a
mais no quarteirão, lua mais que plena, noite alta. Caminho sem reconhecer a cidade ou eu. Cheio de bens
nos bolsos. Sei o preço de todas as putas. Sei o frio de todos os mendigos. Sei a solidão da lua alta e do
cachorro magro. O quarto deste hotel silencia a minha estupidez. Por favor, leitor, não venha me
perguntar o que eu quero... Quero o mar, que me falta água para sentar no chão acarpetado, ouvindo o arcondicionado e chorar.

*

não sei se a pressa de acabar compromete ou salva minha escrita

*

Tenho conhecido mais gente. Mais profundamente. Porque tenho estado em paz sozinho. Tenho ido
mais longe e mais alto. Porque adoro ficar em casa. Tenho diminuído o tempo com entretenimento e fuga.
Porque achei mais tempo para não fazer nada. Tenho estado mais feliz por me dedicar cada vez mais a
fazer outros felizes. Tenho planejado menos. E mudado cada vez mais os planos. Tenho amado cada vez
mais outras formas de amar. Asas me deixando ir aonde os pés jamais conseguiriam: fora de mim.

*

Querendo mudar de carreira, fazer sentido e ser bonzinho, pensei em fazer coaching, que tava na
moda e tinha a ver comigo. Me recomendaram só um site sério. Falava de universo e distorcia muita
baboseira new age usando termos em Inglês para estimular os seres pagantes a subir de vida sem culpa
usando os outros (networking etc.). Custo: quase dez mil reais. Corri. Em um dos PDFs cheios de erros de
Português que ainda li sem muita esperança perguntavam quais os três melhores momentos de minha vida
e os três piores. Lembrei logo dos três piores. E, com algum esforço, lembrei de três mulheres nos
melhores. Mulheres – meu falso refúgio sempre… Em resumo, não virei coach.

*

sensação de que nenhum poste é a lua. brancos ou amarelos. todas as mulheres não são ela. mas ela
quem? a salvação? será que ainda não deu pra perceber que não há salvação? não há porto seguro. há
barcos para caralho, todos meio fodidos e nenhum destino certo, tudo horizonte. se houver salvação é
dentro, não fora. Caio Fernando Abreu já escreveu isso século passado. eu racionalmente me repito mas
não mudo no sentir.

*

Na Niemeyer ouvindo o concerto número um de Tchaikovsky me pego sorrindo pro mar. Esqueço de
onde estou vindo e pra onde estou indo. Prolongo o instante mágico com letras de eterno retorno. Talvez
já esteja - desde sempre e para sempre - tudo em seu lugar.

*

“Fabíola, pega em adultério num motel”, foi um dos vídeos mais assistidos no youtube por 2 dias.
Note que o título do vídeo já mostra o machismo de nossa sociedade, pois o nome exposto é o da mulher,
não o do melhor amigo do marido com quem ela estava no motel.
Proponho um exercício de apurar o olhar. Mesmo sem saber se a história é real e exatamente assim,
podemos sair do lugar comum de julgar apenas Fabíola e nos colocar no lugar de cada uma das pessoas
do vídeo:
- A ESPOSA: Quantas vezes será que o cara insistiu, demonstrou algo que o marido já não
conseguia? Como seria sua relação com o marido? Será que ela sabia de alguma traição dele? Será que ele
a deixava segura, se sentindo amada? Quantas vezes fazemos algo errado, que racionalmente sabemos que
é errado, mas algo mais forte nos impulsiona sem controle?
- O MARIDO: Quantas vezes não perdemos a cabeça quando alguém age de forma que não
esperávamos? Como não sentir raiva quando duas pessoas te decepcionam ao mesmo tempo de uma das
piores formas possíveis, enquanto você cumpria todos os acordos estabelecidos? Como não expor isso no
youtube, como uma forma de poder gritar pro mundo toda a dor sofrida?
- O MELHOR AMIGO: Quantas vezes a mulher de alguém te fascinou de alguma forma? Quantas
vezes você questionou se poderia resistir, se ela também quisesse algo contigo? E se o tesão aumentou por
ser proibido? E se você estivesse vendo ela sofrendo há anos com um casamento ruim? E se fosse algo
muito maior do que apenas sexo nascendo pros dois, que tentaram resistir por anos?

- O CARA FILMANDO (aparentemente outro amigo do marido): Quantas vezes não nos pegamos
julgando algo exterior, sem olhar para nossos próprios defeitos? Não nos parece muitas vezes muito mais
fácil apontar o dedo (ou a câmera) pras falhas dos outros?

*

levar a vida com esperanças de felicidade nas coisas do mundo é igual a walking dead: nunca se
chega num lugar seguro definitivo e as companhias da jornada vão ficando pelo caminho.

*

Se você não foca sua busca em você mesmo, no seu silêncio, parado, não percebe o grau de
condicionamentos que te movem a operar. Sem essa lucidez, analisar o mundo, a política, o que for, é
missão quase impossível. Mais ainda se as informações que nos chegam vem por uma mídia
historicamente nada confiável em nosso país. Numa fase onde tudo aparentemente parece estar errado, o
maior perigo é acreditar nos aproveitadores que se colocam como salvadores da ordem. Em tempo de
caos aparente, os que apontam, cheios de certeza, a ordem e os inimigos da ordem, como se a culpa toda
de absolutamente tudo errado fosse de algo fora de nós mesmos, claro.
Um partido, uma pessoa... Criamos inimigos externos. Não paramos para analisar de fato nada, muito
menos o nosso caos interno. Amor? Dançamos sem controle sobre os nossos desejos autocentrados
construindo pessoas que não existem e se decepcionando quando não batem com o que criamos. E
automaticamente começando a criar a próxima tentativa, da mesma base errada. Temos muitos produtos
no mercado. Temos muitos aplicativos no celular. Temos pressa. Por isso é que nossas relações amorosas
estão cada vez mais líquidas. Porque se não temos paz sozinhos, como ter paz a dois?
Mas é sempre mais fácil apontar o problema no outro. O mesmo problema na política e no amor.

*

A paz é como um corpo que se molda líquido no seu. Tudo morno e redondo. Tudo tocando o eterno.

*

Ah, um novo encontro. Vários dias antes eu já sinto o encontro. Horas antes eu já sou todo ele... Já
deixei o velho para trás, rindo dos mesmos encontros previsíveis semanais sem tensão nem tesão ou
diários aos quais eu, compromissado e velho, quase me lamentava mas ia, morno quase frio... Hábito
seguro de onde o prazer se esvai como areia das mãos, visando futuros previsíveis e repetitivos de contos
de infância que nem assim se realizam, nem com todo esse esforço... Meu caro leitor, se, quando a “sua”
mulher te ligar, você não sentir a mais sincera celebração íntima, algo como uma dança ou um nascimento
de estrelas, está adiando algo que já acabou. Pode ter certeza. Se houver uma ponta de decepção – mesmo
que quase imperceptível – naqueles segundos em que o telefone toca e você vê que é ela, acabou. Ah, mas
hoje estou no hoje. E o hoje é novo. Sou novo. Tudo é o encontro e a preparação pro encontro. A manhã
estética, a tarde insone, a meditação impossível, a paz maluca do sábado preenchido... Um perfume de
mulher nas narinas e infinitos futuros possíveis brincando de existir... Tudo natural, sem forçar nada...
Nunca houve um encontro como esse. Nunca haverá outro igual. A vida, a cada instante, se mostra
deliciosamente nova. Vou puro e sedento, com minha melhor roupa, meu melhor relógio, meu melhor
perfume, minha melhor esperança, meu melhor eu. Vou sem nada afiado nas mãos e de peito aberto.
Tenho doze anos de novo.

*

tem algo se soltando aqui dentro, como um chocalho quebrado, tudo só de um lado ou tudo só do
outro. sem mais som. tudo eternamente inconstante, mais solto, mais cansado. sem cara para fazer um
poema. sem som. tudo claro e sem rumo e sem estilo. estou com a cor do nada com a janela emperrada. de
acordo e sem som e sem paciência para tentar de novo abri-la. sensações de luxo radioso escorrendo entre
dedos antigos. não gosto de dizer não. sem som. preciso dormir. só.

*

Muitas vezes lembro da casa no subúrbio. Até no meio de meditações. O som do vento e das
empregadas gritando e correndo para trancar portas e janelas... Mas eu sempre amei o vento e mais ainda
as tempestades. Que nem Clarice.

*

O ar-condicionado do escritório só funciona bem no inverno. Os amores, na distância.

*

estou tonto. a tontura força uma percepção maior do meu próprio estado mental e de relaxamento. de
alguma forma, minha tontura (sempre psicológica) expande minha lucidez.
cheguei no trabalho e fiquei vários minutos olhando longamente uma flor amarela linda no chão,
vencendo a dureza das pedras. flor de mato mesmo. simples e bonita, mas ninguém olha. depois, vi uma
libélula morta no chão preto com menos pressa do que o comum. do lado de fora da janela, percebi beleza
no balé em espiral de umas folhas mortas ao vento.
fui tomar café na mesma mesa com os mesmos caras de sempre. quando vejo já estou junto nas
brincadeiras para esconder a competitividade sempre presente. sempre comparando tudo: bens, idade com
que os filhos começam a falar, viagens, carros, eletrodomésticos, beleza, imóveis, roupas, maridos,
esposas, contas bancárias, tudo... isso só para quando começam a marcar algum churrasco ou festa ou
barzinho. nem percebem que a necessidade de celebração e de encher a cara é porque suas vidas também
não fazem sentido. nem tentam perceber. por isso, talvez, tanta ansiedade, depressão e pânico por aí. por
causa desse padrão, dessa “normalidade”. lembrei de um escritor que admiro, ao me perceber a pessoa
mais interessante da mesa: é hora de mudar de mesa. não é que eu me ache superior, um buda já livre
desses comportamentos. estou ali na mesma merda. porém, começo a notar, questionar e mudar alguns
modos de agir.
cheguei na sala e olhei com um olhar novo... quase uma epifania perante a enormidade do espaço.
percebi o absurdo que é um escritório, as baias tantas... tanta gente em tanta baia tão perto um do outro e

ao mesmo tempo tão distante. cada um com a obrigação (e culpa implícita) de trabalhar, e quase nunca
trabalhando em algo que ajude minimamente outra pessoa... empresa pública. pelo que conversei com os
mais sinceros, a ocupação real de seus tempos com trabalho nunca chega a 50%. no meu caso, não chega
a 5%. estou aqui há quase cinco anos e toda vez que chegou algum trabalho, era melhor não ter chegado.
porque é sempre algo estúpido, que não aproveita minimamente minhas capacidades nem contribui de
verdade pro mundo ou pros outros (exceto – com sorte – os chefes tentando manter suas posições
privilegiadas – apegados ao poder e aos salários mais altos).
quantos escritórios no mundo, meu deus. quantas empresas com mais poder do que países e só
pensando em lucro... quanta redução da vida, tão ampla. quantos se sujeitam a essa estupidez, apenas para
manter tudo como está: errado. destruindo a produção local, artesanal, natural.
a saída se mostra cada vez mais clara pra mim: largar isso e ficar em casa escrevendo, lendo,
meditando, amando, olhando libélulas e coisas pequenas, criando, cozinhando em casa, desenhando,
sendo... acho que só adio pela falta de uma mulher louca suficiente pra ir junto (porque ainda não cheguei
no nível espiritual de ir sozinho). juntei dinheiro a vida toda pra isso, largar essa porra. porque sempre
percebi e intuí o que agora estou aprofundando. no meu estágio atual, junto mais dinheiro ainda: cancelei
meu cartão de crédito que acumula mais milhas mas cobra anuidade. milhas para viajar e gastar mais! não
paguei nem os sete reais para comprarem salgados engordurados com animais mortos dentro e os líquidos
cheios de gás carbônico e açúcar que chamam de refrigerantes pra celebrar de uma só vez todos os
aniversários do mês. aniversários dos funcionários (em suas baias) que aguentaram. que sobreviveram a
outro ano desta merda.
outra coisa importante que percebi hoje é que não faz sentido as pessoas contribuírem pro meu site de
poesia e eu ficar gastando dinheiro com coisas idiotas, mesmo que seja o dinheiro do meu maldito salário.
estou tonto. preciso escrever um livro melhor também. preciso acabar este livro.

*

tava na rede num hotel fazenda. aniversário da avó. 90 anos. um grupo de crianças começou a se
balançar nas redes ao lado. comentaram como era bom terem se encontrado. estava divertido. desejaram
se encontrar de novo. até as crianças percebem que estamos sempre na véspera da separação. até elas têm

dificuldade em ficar totalmente focadas no que está bom no momento presente. até elas querem prolongar
o prazer pro futuro...

*

se um mosquito perceber ela, vai ser pelo gás carbônico exalado, antes de achar um melhor ponto em
sua pele branca para se deliciar de sangue. se a mãe dela lembra dela no meio de uma tarde entediante,
sente o antigo carinho por seu bebê e sente saudade. se uma leoa faminta sente o cheiro dela, mede sua
altura e calcula a forma mais segura de atacar. se eu olho pra ela penso em deus.

*

Larguei o emprego público. Chega de perder tempo ganhando dinheiro.

*

a noite se vai, assim: hora após hora, eu apagando teclas digitadas que não me dizem nada. agora
tento a sorte na prosa. eu queria ter alguma sabedoria pra dar um norte a quem vai buscar na vida. mas
não me sai nada além de um sorriso. também não consegui ainda acabar totalmente com a mania de
deixar a felicidade pra depois. mesmo sabendo que depois é a morte.

*

na filosofia perguntavam se uma árvore que cai num lugar longe, sem ninguém perceber, existe. acho
que nem eu existo. mas, pelo hábito de viver com outros seres inexistentes que compartilham as mesmas
ilusões de existência intrínseca e solidez nos enganamos, sólidos. mesmo quando a ciência, refúgio dos
materialistas, mostra que tudo é composto em sua maior parte de vazio. mesmo quando todo o nosso
excesso de racionalidade sabe que ao tocarmos uma mesa, sentimos apenas a ilusão de tocar a mesa, pois

os nossos elétrons não tocam os elétrons da mesa de verdade, apenas sentem a força repulsora uns dos
outros. mesmo assim a mesa nos parece sólida de uma forma visceral, completamente existente
independente de nós. tão sólida quanto o a ilusão de um eu com características fixas, gostos fixos,
máscara de previsibilidade que lutamos por manter estável. a ilusão da árvore que cai ao longe não está
separada da ilusão do eu que a imagina, sente ou percebe. da mesma forma, as palavras estão ligadas aos
sons dela na sua consciência que lê isso. consciência que não é só sua. você é mais do que aquilo que
chama de “eu” e tem a capacidade de perceber isso no silêncio entre as palavras.

*

deixo as aranhas nos cantos altos dos cômodos, esqueço épocas de céus mais limpos e desfaço as
malas do futuro feliz. traças se arrastam no chão com pó, sobem pelas paredes e armários. vivas ao
extremo. aqui é onde me sento no chão para nada fazer. exatamente aqui. exatamente assim. sagrado.

*

a falta desde sempre me move na direção da escrita. escrevi esse livro inteiro como um diário que não
se pode mostrar ao seu amor, porque ela já se foi. ela, que te entenderia. ela, que se fascinaria. ela, que te
conhece por inteiro e mesmo assim te admira.
com o tempo, fui percebendo que são várias elas, vários elos. e é melhor aproveitar a multiplicidade
da vida, deixando chegarem e partirem... racionalmente, percebi isso, mas não internalizei. ainda morro
em todo fim.

*

a noite transforma os prédios feios na vista de nova iorque. saí pra comprar pão mas não comi pão.
ouço a minha falta cantando em ludovico einaudi. ela quer culpar a vista, o vazio, o escuro, a louça suja,
qualquer coisa que não seja dentro. principalmente gostaria de vestir o casaco do amor romântico. mesmo
tão usado, tão surrado, tão desconfortável. eu sento no claro e no escuro e olho a falta. nada serve pra
falta. a falta gira em torno de palavras e racionalidades quebradas. eu sei que a falta seguiria por essa via,

independente de qualquer fator. no verão falta o inverno. no inverno, o verão. eu contemplo o meu
inferno, descrevo suas matizes, seus ângulos, sua virtualidade, sua falta de abraços, mas não me queimo
mais tanto. mantenho apenas o hábito das palavras escritas. maior que eu. todos os outros eu quebro. eu
quebro o eu quando desisto e silencio o agora diariamente. sem palavras. a única forma. a única saída.

*

Tenho mania de ir ver a seção de poesia nas livrarias. Por mais que seja escondida e eu não vá
comprar nada. Apenas pela alegria do encontro.

*

Já parou pra perceber o quanto é sua mente que cria as experiências? Da mesma forma que você olha
um tijolo e nem percebe que esse conceito – tijolo – surge no automático. Sem notar que ele é feito de
barro, a mesma matéria que compõe um vaso, por exemplo. Sem nem se perguntar o que faz daquele
barro um tijolo. Instantaneamente – a gente olha o vaso e vê vaso, olha o tijolo e vê tijolo. Não notamos
que nós é que construímos na mente os objetos instantaneamente através de nossos hábitos.
Se usarmos esta forma de perceber as coisas para aquela dorzinha no peito que aparece no dia dos
namorados, ou apenas por você estar sem ninguém, pode melhorar. Não fuja, Pablo, não se distraia.
Encare. Por que as relações passadas parecem derrotas por terem acabado? Temos que conseguir sair do
instantâneo, do automático, para perceber isso.
Não seria o mundo uma dança de inícios e fins, em tudo? Então por que isso dói? Por causa da
porcaria do mito do amor romântico eterno, sendo que – na prática – tudo acaba. Mas, como somos
programados desde cedo a entrar no padrão de relacionamento “felizes para sempre”, associamos cada
término a uma derrota pessoal. E aí dói.
Ao mesmo tempo, podemos notar que, associada a essa dor, há um apego ao ser que “perdemos”.
Novamente de forma automática podemos nos bombardear com pensamentos negativos do tipo cultuado
em músicas românticas: “será que você ainda pensa em mim”, “se um outro cabeludo aparecer em sua
vida”, “a falta que você me faz”, “é impossível ser feliz sozinho”, “eu quero só você”, e trocentas mil

formas de mimimis doloridos. Somos criados para ter esse apego e há uma vasta produção cultural
(filmes, músicas, livros…) que reforça e cultua isso ao longo de toda a nossa vida. Sem falar nas
propagandas na TV perto do dia dos namorados.
Para completar, tem os amigos namorando que parecem tão felizes no Facebook, expondo suas fotos,
suas festas, seus presentes e sorrisos, aparentemente alheios aos problemas filosóficos do consumismo e
do amor romântico. Porém, isso é Facebook… Não há uma festa real em nenhum lugar, mas a gente fica
se sentindo fora dela.
Se percebermos como são vazias essas construções que nós mesmo fazemos e que doem, podemos
sentir de outra forma. Podemos ver a beleza do que trocamos com as pessoas enquanto durou. Podemos
desejar que – como seres que buscam a felicidade – as ex e os ex sejam felizes. Mesmo ex-amigos.
Podemos ser agradecidos pelo tempo bom que passamos juntos. Podemos nos alegrar ao perceber que
tudo continua, que seguimos e que a felicidade verdadeira não depende de outra pessoa da forma como o
romantismo ensina. Basta parar um pouco e apurar o olhar.

*

estou de novo no carro com ela me levando pro aeroporto de lima. eu não falo espanhol tão bem. ela
não fala português tão bem. sabemos que nunca mais nos veremos. olhos marejados. céu crepuscular.
cansaço. silêncio pesado. no rádio, parece piada, mas começa a tocar la barca. momento eternizado sem
fotos, poses, selfies ou sorrisos falsos.

*

fazemos obras e mudanças. sempre. troca o chão, troca a parede, quebra pedra, pinta, lixa, serra. vai.
volta. sempre. carros, caminhões, aviões, luzes, informações. sempre. o sagrado é o que fica.

*

a parte mais importante de minha caminhada na praia é quando atravesso a rua fora do sinal. porque
ali posso ser atropelado e morrer. e me lembro de nossa condição no mundo, da temporariedade de todas
as nossas construções. posso infartar em casa sem caminhar, mas aí não lembro disso, do fracasso
previsto de quase todos os esforços. quase porque há algo aumentando constante e lentamente minha
certeza da ilusão que achamos ser, fazer e ter. algo muito maior do que os verbos. muito além de vida e
morte, de existência e não existência.

*

o sonho é uma estória que contamos para nós mesmos de olhos fechados.
a vida, de olhos abertos.

*

Me alimento de minha fome. Mal passada a vontade de amar por vingança da última mordida,
mastigo a vontade de amar para preencher o vazio. E a noite se aproxima com sortilégios, pressa e
destroços. Há uns vinte anos, a fome manda em mim. A primeira coisa em que penso toda manhã. Agora
olho para ela sem desviar os olhos. Parece-me continuamente mais saboroso não me mover em direção à
comida. Não esperar. Não tentar. Sair do automático.
Se vierem, que venham. Se partirem, que partam. Whatever works. Segurar o medo querendo
construir muros, congelar fatias, evitar sabores ruins... Contorno o prato nos lábios. Vejo os loucos no
hospício, trancados. E duas mãos bonitas escrevendo cadernos com letras femininas, arredondadas.
Contorno o pescoço com os lábios. Misturo nomes e rostos. Não minto. Cruzo a noite enorme com
orgulho de minha honra intacta e fluorescente, num mundo onde ninguém dá a mínima pra isso. Me vejo
no hospício. Complicaciones.
Por falar em honra, lembro do sonho do sexo com a de pele branca e inocência falsa. Pra variar,
melhor enquanto sonho. melhor mordidas imaginárias, luzes imaginárias, cabelos imaginários, cheiros
imaginários, detalhes imaginários... Pra variar, melhor o sonho, melhor a véspera, melhor a preparação da
festa. E faltava música, sempre faltava música e eu nunca lembrava de ligar. Sempre faltava música e nós

nem tínhamos a nossa música. Faltava vida, coração aberto, presença real, verdade... Troca. Faltava tudo,
em resumo, mas era o que eu achava que tinha. E, no final, isso tudo parece irrelevante, dado como foi o
final. Tal qual um cego explorando a borda da lua, ela tocava as costas nuas da palavra sua. Minha? O
pensamento que agora me faz suar. Invejo levemente Simone de Beauvoir. O verbo consagrado na
derrota: adiar. Como um texto pomposo que nada diz. Faltando verdade.
Se me movo, universitárias sabichonas ou estudantes da função quadrática se amontoam
semestralmente em torno de meu sexo sem futuro: masturbação mental e orgasmo difícil. Se me movo
minimamente em direção aos seios tenros enquanto falo de borboletas azuis em versos frágeis, do ovo do
tempo nasce apenas o coito, a duras penas. Coito cada vez menos mágico.
Escrevo imóvel. Não quero me mover sempre na direção errada. Não estalarei os dedos para mais
escombros. Ombros virão ou não virão. Ombros partirão. Eu partido me erguerei de novo sem precisar
disso. Sem precisar disso. Seios olham minha boca de perto. Salivo mas sei-os: não me movo. Fã é o
caralho. Toda admiração traz um ódio inconsciente, inveja, vontade de superar. e os escombros caem
sempre sobre dois. No mínimo, dois. prefiro escrever, já que não fumo. Prefiro escrever, já que não bebo.
Prefiro escrever, já que não tenho opção. O escritor não pode ter a paz de um assalariado burguês alienado
calculando lucros, com imóveis, carros e casamentos de luxo. Tudo bem, prefiro escrever e tentar
conservar o pingo de ser que me escorre como areia das mãos num mundo maluco. Num mundo de
escravos de telas, de telas, de escravos. Assoberbados de soluções para não olharmos o problema.
Restam-me as sobras que são melhores que os pratos. Relembro raridades mágicas na cama mole.
Uma cabeça perfeitamente encaixada no meu ombro. Dormir de conchinha e ser bom. Eu querendo
morrer entre duas mulheres só para eternizar a coisa. Um olhar mais longo. Uma mulher que me fazia
quase chorar no orgasmo. Outra mulher que gozava tão belo e tão rápido que eu quis engravidá-la. Mas a
maioria imensa era pior: demora pro orgasmo, o orgasmo em si e o tédio. Vontade de assédio no novo, na
noite, em qualquer outro lugar longe dali. Depois, o sono, numa cama pequena demais para dois. Uma
perda completa de tempo. Um pingo de paz no oceano do vindouro. Raríssimas oportunidades de
profundidade.
Não me movo para o novo. A quantidade de perdas parece ultrapassar qualquer ganho possível. Nada
vai sair do futuro diferente disso aí. Sensação de achar finalmente as palavras certas.
Estranho o peito calmo à meia-noite sem um relacionamento sério no facebook (mesmo sabendo da
vida sempre rir dos relacionamentos sérios), sem um encontro no sábado, sem esperança futura, sem sexo
há meses, sem mais ninguém no apartamento.

O texto está pronto. Agora basta não esperar. Tenho um livro pronto em algum lugar. e milhões de
pessoas que andam pelas praias chuvosas sem um raio de sol para mostrar um caminho melhor, sem nem
poder gritar luz.

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