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A REINVENÇÃO DA DOUTRINA MONROE Determinismo cultural e política externa de Estados Unidos pós-11/09

Luis Fernando Ayerbe 1

Professor do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais, do Departamento de Economia da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Coordenador do OREAL. e-mail: ayerbe@fclar.unesp.br

Resumo:

Para os governos de Estados Unidos eleitos após o fim da Guerra Fria, a emergência do país como única superpotência global tem como principal significado histórico a inauguração de um período inédito de paz e prosperidade, em favor do qual colocam em prática uma política externa concebida como ação afirmativa na promoção de princípios de convívio humanos considerados universais: a democracia liberal e a economia de mercado. Essa postura ganha forte nitidez a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Washington e Nova York, cujo desdobramento estratégico mais importante é a formulação de uma nova doutrina de segurança, em que a contenção e a dissuasão, que nortearam a política externa nas décadas da Guerra Fria, perdem centralidade para a prevenção, justificando ataques contra Estados e organizações suspeitos de planejarem atos hostis contra o país e os seus aliados. Conforme pretendemos analisar neste ensaio, baseado em pesquisa de fontes oficiais, as posições assumidas pelo governo de George W. Bush recuperam uma tradição inaugurada pela Doutrina Monroe, cujo alvo original foi o hemisfério ocidental, mas que a partir da invasão do Iraque passa a animar a ação internacional norte-americana. Nas duas seções que compõem o texto, procuramos recuperar os elementos que consideramos especialmente característicos do monroismo, mostrando sua vigência em diversos momentos da política de Estados Unidos para a América Latina e o Caribe, confluindo para uma reflexão sobre sua forte influência na cultura política da chamada Doutrina Bush.

Palavras-chave: Estados Unidos – América Latina, atualidade da Doutrina Monroe

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De Monroe à ALCA: América para os Americanos Durante o século XIX, a política externa de Estados Unidos se pauta pelo isolacionismo, evitando o envolvimento nas disputas entre as potências européias. A partir da doutrina formulada pelo presidente Monroe, em 1823, a defesa do isolamento em relação à Europa passa a ser estendida ao conjunto do hemisfério. Manifestando preocupação com as intenções da Espanha de reverter, com o apoio da Santa Aliança, o processo de independência latino-americano, os Estados Unidos decidem fixar limites à intervenção de potências européias no continente.

Afirmamos, como um princípio em que os direitos e interesses dos Estados Unidos estão involucrados, que os continentes americanos, a raiz de terem assumido e de

manter sua condição livre e independente, não devem ser considerados como sujeitos a

futuras colonizações por parte de qualquer potência européia

consideraríamos

qualquer tentativa de estender seu sistema a qualquer parte deste hemisfério como perigo para nossa paz e segurança. (Monroe, 1998: 202)

A Doutrina Monroe inaugura uma política externa cujos lineamentos principais estarão

presentes nas relações com a América Latina e o Caribe no decorrer do século XIX e boa parte do século XX. Três argumentos se destacam na posição assumida pelos Estados Unidos de guardião da segurança hemisférica: 1) a existência de ambições expansionistas na região por parte de potências extra-continentais; 2) a defesa de um modo de vida que expressa o maior grau de avanço conhecido pela civilização, na época representado pelo regime político republicano, a ser defendido das ambições colonialistas das monarquias européias; 3) a fragilidade das novas repúblicas latino-americanas para defenderem seus próprios interesses sem a ajuda dos Estados Unidos. A doutrina Monroe nunca foi formalmente abandonada pelos sucessivos governos norte-americanos, no entanto, sua invocação explícita se limita ao período de 1823 a 1904, em que são formulados seus cinco corolários. O primeiro, do Secretario de Estado Henry Clay, de 1825, veta a possibilidade de transferência de Cuba e Porto Rico, colônias de Espanha, a qualquer outra potência. Os alvos eram principalmente Inglaterra, México e Colômbia, no caso dos dois últimos, pelo fato de poderem estimular a independência de Cuba. O Segundo, formulado pelo presidente James K. Polk, em 1845, busca desestimular qualquer interesse, principalmente da Inglaterra, pelo Texas, que tinha se separado do México em 1936 e foi posteriormente incorporado à União Americana. Em 1871, o presidente Ulysses S. Grant, invoca a Doutrina Monroe com o objetivo de desestimular eventuais intenções de recolonização da República Dominicana por parte da Espanha, após a anexação de 1861 e sua posterior retirada em 1865. Em 1895, o secretário de Estado Richard Olney envia uma mensagem a Londres a raiz da disputa fronteiriza entre Venezuela e a Guiana Inglesa, propondo que Estados Unidos sejam mediadores do conflito de interesses, sob o argumento de que a Doutrina Monroe não estava sendo respeitada. O quinto, e mais conhecido, foi formulado por Theodore Roosevelt, em dezembro de 1904, cuja denominação mais comum é Big Stick. Sob o pretexto de defender o hemisfério das políticas imperiais de potências extracontinentais, a raiz de problemas surgidos com a insolvência da Venezuela no pagamento da sua dívida externa, que tem seus portos bloqueados por uma esquadra de barcos ingleses, alemães e italianos, os Estados Unidos se adjudicam o direito exclusivo de intervenção:

Nossos interesses e os dos nossos vizinhos do Sul são em realidade os mesmos. Eles possuem grandes riquezas naturais, e se dentro de seus limites o reino da lei e da justiça é alcançado, então é certo que a prosperidade virá junto. Enquanto obedecem assim às leis primárias da sociedade civilizada podem eles ficar tranqüilos e certos de que serão por nós tratados num clima de simpatia cordial e proveitosa. Eles só merecerão a nossa interferência em último caso, e então apenas se for constatado claramente que sua inabilidade ou fraqueza para executar a justiça em casa e no exterior tenha violado os direitos dos Estados Unidos ou incitado a agressão estrangeira em detrimento do conjunto das nações americanas.(Morris, 1956: 184-

185)

Após o governo de Theodore Roosevelt, e até o final da Guerra Fria, embora a Doutrina Monroe não tenha sido invocada como argumento de intervenções mais ativas na região, os três argumentos do intervencionismo apontados no início continuam presentes.

A partir dos anos 1930, durante a presidência de Franklin Roosevelt, conhecida nas

relações hemisféricas como período da boa vizinhança, não se verificam intervenções unilaterais. No entanto, no contexto da Segunda Guerra, há uma pressão para o envolvimento

da região com os aliados, impondo inclusive formas de ajuda econômica, como no caso da Bolívia, que vendeu seu estanho abaixo do preço de mercado. A proteção da região da influência das potências vinculadas ao eixo, seja pelo alinhamento de países com a política externa da Alemanha ou da adoção de sistemas políticos similares, levam os Estados Unidos a promoverem o isolamento regional de governos suspeitos de simpatias com o totalitarismo nazi-fascista, conforme aconteceu com a então ditadura militar Argentina. Durante a Guerra Fria, quando os Estados Unidos assumem o papel internacional de guardiões do chamado mundo livre contra o avanço do comunismo, a região passa a sofrer crescentes interferências sob o argumento do combate ao expansionismo soviético, que encontraria terreno favorável nas fragilidades do desenvolvimento da região, especialmente as que decorrem das fortes desigualdades sociais. O exemplo emblemático que sustenta este tipo de preocupação é a revolução cubana. A resposta se pautará pela combinação de pressões econômicas em favor da promoção da abertura dos mercados nacionais ao capital estrangeiro, e combate aos regimes nacional-populistas e de esquerda, que expressariam as escolhas “erradas” para lidar com os desafios do desenvolvimento. Como resultado, promoverá a disseminação de governos aliados (militares ou não) na agenda global contra o comunismo. Essa política obteve sucesso. Entre os anos 1960 - 1980, assistimos à derrota militar da esquerda armada, com desdobramentos na repressão a todas as formas de oposição, pacíficas ou não, e à paulatina substituição das políticas econômicas de cunho nacionalista pela implementação de uma agenda de liberalização econômica. Nos anos iniciais do pós-Guerra Fria, mudam as percepções sobre a região que, desde os primeiros anos da Doutrina Monroe, justificavam as políticas intervencionistas: um conjunto de países estruturalmente problemáticos, incapazes de definir um rumo estável na direção da liberdade política e econômica, cujas fragilidades tendem a gerar situações propícias às ambições hegemônicas de potencias extra-continentais. Num texto de 1993, Elliot Abrams, Subsecretario para relações inter-americanas do governo Reagan e atual assessor do Conselho de Segurança Nacional, argumenta nessa direção. Para ele, com o fim da Guerra Fria, o conceito de Hemisfério Ocidental deve ser atualizado.

Pela primeira vez na história dos E.U.A., não há nenhuma ameaça de intervenção externa nesta região. A questão-chave que permanece é se os Estados Unidos irão reconhecer que, junto com a completa dominação econômica, militar e política, vem a responsabilidade de ajudar a manter a estabilidade na região, mais com ações preventivas do que curativas. (1993, p. 55)

A vitória alcançada na América latina e Caribe contra os adversários do sistema, e a eficiência demonstrada pelas políticas exteriores dos Estados Unidos da segunda metade do século XX na condução da região para um caminho de “convergência” com o modo de vida vigente ao norte do hemisfério, tornam-se um exemplo encorajador das posturas missionárias adotadas a partir dos anos 1990, que buscam “aproximar o mundo em seu conjunto dos princípios básicos da democracia, mercados abertos, lei e compromisso com a paz”. (Albright, 1997: 6) Em sua intervenção na conferência Promoting Democracy, Human Rights, and Reintegration In Post-Conflict Societies, promovida pela Agência para o Desenvolvimento Internacional (USAID), em outubro de 1997, a Secretária de Estado do governo Clinton, Madeleine Albright divide o mundo em quatro categorias de países:

aqueles que participam como membros plenos do sistema internacional; aqueles que estão em transição e buscam participar mais plenamente; aqueles que rejeitam as regras sob as quais o sistema está baseado; e, finalmente, os Estados que estão

impossibilitados - por razões de subdesenvolvimento, catástrofe ou conflito - de desfrutar dos benefícios e travar conhecimento das responsabilidades que acarreta a participação plena no sistema. (2000: p. 22)

Nessa caracterização, a América Latina e o Caribe são percebidos como região em transição, em que a democracia política e a liberdade econômica despontam como tendências inquestionáveis. Em termos da consolidação dessa trajetória, conforme afirma Luis J. Lauredo, representante dos Estados Unidos na OEA, o problema está nos detalhes: “é nos detalhes da democracia, nos detalhes dos direitos humanos e nos detalhes de uma economia de mercado livre que todos nós temos que trabalhar para assegurar que o Hemisfério Ocidental não escorregue no precipício em direção à ditadura e, em última instância, à guerra”. (2000)

A preocupação com os detalhes do processo de transição conduz a uma redefinição

dos parâmetros que orientam as relações hemisféricas, levando à construção de uma nova arquitetura cujo palco principal são as Cúpulas das Américas, inauguradas pelo governo

Clinton em 1994.

A Cúpula das Américas, que começou como um encontro informal de Líderes em

Miami em 1994, evoluiu para uma valiosa estrutura na qual os participantes solucionam assuntos políticos, econômicos e sociais comuns, num ambiente de respeito mútuo e cooperação. Em poucas palavras, ela incorpora o programa de

trabalho hemisférico dos nossos líderes para o futuro. É a nova arquitetura de relações hemisféricas baseadas em valores comuns de democracia, livre comércio, e na partilha

de responsabilidades em defender ativamente estes valores. (Lauredo, 2001)

As crises internacionais inauguradas pelo México em 1995, Coréia do Sul em 1997, Rússia em 1998 e Brasil em 1999, colocam em relevo as dificuldades para a consolidação e aprofundamento das reformas liberalizantes, ascendendo as preocupações com a governabilidade política e econômica. Os argumentos apresentados pelo diretor da USAID, Andrew Natsios, na justificativa de fundos solicitados para a América Latina e o Caribe no orçamento de 2002, sintetizam bem a percepção dos interesses nacionais de Estados Unidos e dos problemas colocados pelas fragilidades da região:

Dado que os países ajudados pela USAID na América Latina e Caribe (ALC) são os nossos vizinhos, seu desenvolvimento econômico, social e político têm uma extrema importância para a nossa própria segurança e bem-estar. A América se beneficia diretamente quando as economias em desenvolvimento dos paises da ALC se expandem y seus mercados se abrem. Desde 1990, o número de empregos nos Estados Unidos vinculados às exportações para a região aumentou 2,3 milhões. Mas quando as

nações nessa região enfrentam instabilidade política e falência econômica, os Estados Unidos sentem as conseqüências diretamente pelo aumento da imigração ilegal e do tráfico ilegal de narcóticos. Também não podemos ignorar a disseminação fronteiriça

de

doenças transmissíveis como TB e HIV/AIDS. Finalmente, a degradação ambiental

e

a poluição podem afetar diretamente os Estados na fronteira norte-americana e

também agravar a instabilidade regional e a migração, como também aumentar o risco

de morte e destruição por desastres na região. (op. cit.)

O pós-11 de setembro: globalização da Doutrina Monroe?

(Nos países) em que um governo consente com o terrorismo porque é demasiado débil para agir contra ele, ou onde o governo há entrado totalmente em colapso e não pode exercer sua autoridade – devemos tomar como nosso guia um presidente que viveu cem anos atrás:

Theodore Roosevelt

ele enunciou uma política que desde então é

conhecida como o Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe. Se acaso isso é possível, possui hoje mais importância do que no dia em que

Roosevelt a propôs. (Frum y Perle, 2003: p. 119) 2

Na seção anterior, buscamos estabelecer as principais linhas de continuidade e de mudança da política externa dos Estados Unidos para a América Latina desde o século XIX. Conforme apontamos, após o fim da Guerra Fria, a liberalização econômica e política assume destaque na agenda hemisférica, independentemente da origem republicana ou democrata do governo no poder. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, embora não se verifiquem inflexões nessa área, o tema da segurança passa a assumir o principal destaque, direcionando as principais atenções para a região de Oriente Médio.

A guerra declarada ao terrorismo por parte do governo de George W. Bush adquire

contornos bem amplos, tanto pelo número de países onde se considera que existem núcleos de apóio - 60 de acordo com as estimativas oficiais - como pela caracterização dos grupos terroristas, que vai muito além das organizações vinculadas com o fundamentalismo islâmico.

De acordo com o Secretário de Estado Colin Powell: “Qualquer organização que esteja interessada em operações terroristas para subverter os governos legítimos, democraticamente eleitos, ou governos que representam a vontade de seu povo, é uma ameaça”. (2001c).

Nesse novo tipo de guerra, não há uma clara definição do momento da vitória, o que lhe confere um caráter permanente: “Eu penso que nós podemos fazer um julgamento de que a guerra está sendo ganha ou foi ganha quando não vemos aquele tipo de incidente terrorista acontecendo em qualquer lugar. Agora, nós chegaremos lá algum dia? Eu não sei” (Powell, op. cit.).

A resposta dos governos latino-americanos aos atentados de 11 de setembro foi rápida.

Por iniciativa do Brasil, convocou-se reunião da OEA para discutir a aplicação do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), que considera a agressão a qualquer Estado- membro uma agressão coletiva. Como resultado da reunião, são acordadas medidas concretas de combate ao terrorismo no hemisfério, sinalizando para a necessidade de ampliação dos mecanismos de atuação conjunta, em consonância com os lineamentos definidos nas Cúpulas

das Américas. O ponto 4 da resolução Fortalecimento da Cooperação Hemisférica para Prevenir, Combater e Eliminar o Terrorismo, exorta

todos os Estados a reforçar a cooperação, nos planos regional e internacional, para buscar, capturar, processar, punir e, quando pertinente, acelerar a extradição dos perpetradores, organizadores e patrocinadores de atos terroristas, bem como para fortalecer a cooperação judicial recíproca e o intercâmbio oportuno de informações. (OEA, 2001)

Estas recomendações são ratificadas em junho de 2002, na 32 a Assembléia Geral

realizada em Barbados, que aprova a Convenção Interamericana contra o Terrorismo, saudada por Colin Powell como primeiro tratado internacional sobre o tema assinado após os atentados de 11 de setembro.

A despeito do apoio internacional recebido pelos Estados Unidos na guerra contra o

Afeganistão - cujo governo foi responsabilizado, junto com a rede Al Qaeda, pela autoria dos ataques ao território americano - a rápida vitória militar contribui para fortalecer as posições unilateralistas no interior do governo do país. No discurso anual ao Congresso sobre o Estado da União em janeiro de 2002, o Presidente Bush incorpora uma nova categoria às definições

utilizadas para classificar os países de acordo com seu alinhamento internacional, acusando a Coréia do Norte, o Irã e o Iraque de constituírem o “Eixo do Mal”, fonte de sustentação do terrorismo e ameaças para a paz mundial, portanto, sujeitos a ações militares. No relatório Patterns of global terrorism 2001, apresentado em maio de 2002, o unilateralismo assume feições mais explícitas, com a ampliação do número de Estados na mira do governo, critérios de inclusão e sanções previstas. O documento acusa Cuba, Irã, Iraque, Líbia, Coréia do Norte, Síria, e Sudão de serem patrocinadores do terrorismo. Para esses e futuros freqüentadores da lista, as modalidades de retaliação incluem, entre as principais, a proibição de exportações e vendas relacionadas com armas, controle de exportações de bens e serviços que possam fortalecer sua capacidade militar, proibição de assistência econômica e imposição de restrições a empréstimos junto aos organismos financeiros internacionais. (U.S.D.S., 2002) Como ocorre com toda abordagem do conflito pautada por critérios referenciados numa das partes interessadas, os argumentos esgrimidos para a elaboração da lista do Departamento de Estado carregam uma forte dose de subjetividade. No caso de Cuba, único país da América Latina e Caribe incluído entre os “Estados fora-da-lei”, o documento reconhece que seu governo condenou os atentados de 11 de setembro, subscreveu as 12 convenções das Nações Unidas e a declaração da Cúpula Ibero-americana de 2001 contra o terrorismo, e não se opôs à transferência dos prisioneiros da guerra de Afeganistão para a base de Guantánamo, situada no seu próprio território. No entanto, a condena do país apóia-se nas históricas simpatias de Fidel Castro com a revolução armada, equiparada ao terror pelo Departamento de Estado, junto a acusações de cobertura a militantes da organização separatista basca ETA, do Exército Republicano Irlandês, das FARC e ELN Colombianos, da Frente Patriótica Manuel Rodrigues do Chile, e fugitivos da justiça dos Estados Unidos que, segundo o documento, teriam transito livre em Cuba. Em conferência proferida na Heritage Foundation, John Bolton, subsecretário do Departamento de Estado para o Controle de Armas e Segurança Internacional durante o primeiro mandato de Bush, vai mais longe nas acusações contra Cuba, colocando sob suspeita - embora reconhecendo a ausência de provas consistentes - a indústria biomédica do país, que estaria sendo fonte de desenvolvimento de armas biológicas.

Aqui está aquilo que sabemos agora: os Estados Unidos acreditam que Cuba tem, pelo menos, um limitado trabalho de pesquisa e desenvolvimento em armas biológicas ofensivas. Cuba proporcionou tecnologia de uso dual a outros Estados fora-da-lei. Nos estamos cientes de que essa tecnologia pode dar suporte a programas de armas biológicas nesses Estados”. (2002) 3

No mês de junho, em discurso aos graduados de West Point, o presidente dos Estados Unidos apresenta de forma mais sistemática os novos direcionamentos da política externa, delineando as premissas da que passará a ser denominada “Doutrina Bush”. De acordo com a nova perspectiva, a contenção e a dissuação, que nortearam a política externa durante o período da Guerra Fria, embora continuem válidas para algumas situações, não dão conta satisfatoriamente das novas ameaças.

Dissuação - a promessa de retaliação maciça contra nações - não significa nada contra as sombrias redes terroristas sem nações ou cidadãos a defender. A contenção não é possível quando ditadores desequilibrados com armas de destruição em massa podem enviar aquelas armas na forma de mísseis ou fornecê-las secretamente aos aliados

A defesa da terra natal e a defesa contra mísseis são parte de uma

segurança mais forte, e são prioridades essenciais para a América. Contudo, a guerra

terroristas

contra o terror não será ganha na defensiva. Nós devemos dar batalha ao inimigo, destruir seus planos, e confrontar as piores ameaças antes de que surjam. (Bush: 2002)

Em decorrência dessa mudança de abordagem, o desencadeamento de ações não terá como alvos apenas agressores reais do país ou dos seus aliados, mas incluirá ataques preventivos contra inimigos considerados potenciais, bastando apenas suspeitas sobre a posse de armas de destruição em massa e suporte ao terrorismo. Como fundamento cultural das posições assumidas, Bush coloca em relevo a necessidade de defender valores considerados universais:

O século XX terminou com um único modelo sobrevivente de progresso humano,

baseado em demandas não negociáveis de dignidade humana, império da lei, limites ao poder do Estado, respeito às mulheres, à propriedade privada, à liberdade de expressão, justiça igual e tolerância religiosa. América não pode impor esta visão - contudo nós podemos apoiar e recompensar governos que fazem as escolhas corretas para seus próprios povos. (op. cit.)

Na perspectiva do governo Bush, reconhece-se a existência de diferenças entre nações, mas a competição, embora inevitável no campo econômico, não deve atingir o plano militar. Desta forma, o país assume o papel de guardião das fronteiras do conflito: “América tem, e pretende manter, forças militares ali onde esteja o desafio, tornando sem sentido a desestabilização por corridas armamentistas ou outras ações, e limitando as rivalidades ao comércio e demais atividades pacíficas” (op. cit.). Os lineamentos apresentados no discurso de West Point serão formalizados no documento The National Security Strategy of the United States of América, dado a conhecer pela Casa Branca no mês de setembro, num contexto fortemente influenciado pela necessidade de apresentar justificativas para atacar o Iraque. Na caracterização dos novos inimigos, o documento oferece uma demarcação esclarecedora dos desafios que orientaram a formulação das estratégias do pós-Segunda Guerra (Doutrina Truman) e do pós-Guerra Fria (Doutrina Bush):

As visões militantes de classe, nação, e raça, que prometeram a utopia e entregaram a miséria, foram derrotadas e desacreditadas. A América é agora ameaçada menos por estados conquistadores do que por estados falidos. Nós somos ameaçados menos por frotas e por exércitos do que por tecnologias catastróficas nas mãos de uns poucos ressentidos. Nós devemos derrotar estas ameaças à nossa nação, aliados, e amigos. (National Security Council: 2002, p. 1)

Além de reforçar os argumentos apresentados no discurso de West Point, justificando ataques preventivos contra Estados e organizações suspeitos de prepararem atos hostis contra o país e os seus aliados, o documento explicita como objetivo nacional permanente a manutenção da supremacia militar. Na área das relações hemisféricas, mantêm-se os eixos na promoção da democracia e o livre mercado através de ações que têm como parâmetro as Cúpulas das Américas. No campo das relações bilaterais, são definidos cinco países prioritários, México, Brasil, Canadá, Chile e Colômbia. Neste último caso, a atenção se dirige fundamentalmente à luta contra o terrorismo associado às drogas e ao extremismo político.

A adoção prática da doutrina de ação preventiva terá como primeiro alvo o regime de

Sadham Hussein no Iraque, deposto após o ataque decretado unilateralmente pela coalizão militar anglo-americana, baseado em suspeitas de fabricação de armas de destruição massiva. Após a derrubada do regime iraquiano e a decorrente ocupação do país, Estados Unidos

assumem uma posição de força no Oriente Médio, buscando encaminhar suas próprias soluções para os conflitos da região. Em discurso proferido em novembro de 2003 no National Endowment for Democracy, o presidente Bush avança na definição das metas estratégicas na região, vinculadas à ação global em favor da democracia:

Cada nação ha aprendido, ou deveria ter aprendido, uma lição importante: Vale a pena lutar pela liberdade, morrer por ela e defendê-la – e a promoção da liberdade leva à paz. E agora devemos aplicar essa lição à nossa época. Temos cegado a outro ponto decisivo – e a determinação que mostramos determinará a próxima etapa do movimento democrático mundial. Nosso compromisso com a democracia é posto à prova em países como Cuba, Birmânia, Coréia do Norte e Zimbábue - bases da opressão em nosso mundo mundo…. Nosso compromisso com a democracia é posto à prova na China. Essa nação agora tem um pedacinho, um fragmento de liberdade…Nosso compromisso com a democracia também é posto à prova no Oriente Médio, que é meu foco de atenção atual, e deve ser o foco de atenção da política estadunidense durante os decênios vindouros. …Estados Unidos ha adotado uma nova política, uma estratégia avançada de liberdade em Oriente Médio. Essa estratégia requer a mesma persistência, energia e idealismo que temos mostrado anteriormente. E produzirá os mesmos resultados. Como na Europa, como na Ásia, como em todas as regiões do mundo, a promoção da liberdade leva à paz. (Bush, 2003)

A exacerbação do unilateralismo por parte do governo Bush, como resposta aos desafios colocados pela agenda de combate ao terrorismo, revela uma opção pelo endurecimento que busca tornar mais explícitas as fronteiras políticas, econômicas e culturais da ordem mundial proposta pelos Estados Unidos. Em termos históricos, os lineamentos da nova Doutrina recriam os três elementos que destacamos na caracterização da trajetória iniciada por Monroe: o terrorismo como nova ameaça global ao “mundo livre”, encontrando nas fragilidades enfrentadas pelos países em transição e em desenvolvimento um campo fértil para a desestabilização dos esforços norte-americanos em favor da disseminação dos valores da democracia, do bom governo e da livre iniciativa, justificando sua intervenção direta na defesa da “civilização” contra a “barbárie”.

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1 A versão em español deste texto foi publicada no Anuário de Integración Latinoamericana y Caribeña, La Habana: REDIALC, 2004.

2 Os dois autores desempenharam funções na primeira administração de George W. Bush, David Frum foi Assistente Especial do presidente e Richard Perle Diretor do Conselho Político de Defesa.

3 Bolton apresenta novamente essas acusações em junho de 2003, em discurso no Comitê de Relações Exteriores do Congresso dos Estados Unidos. (wwwa.house.gov/international_relations/108/)