Você está na página 1de 7

Processo: 0491699-6

APELAÇÃO CÍVEL Nº 491.699-6, DA COMARCA DE PARANAVAÍ, 2ª VARA


CÍVEL
APELANTE: CESAR OKADA
APELADO: MUNICÍPIO DE PARANAVAÍ
RELATORA: JUÍZA CONVOCADA JOSÉLY DITTRICH RIBAS

ADMINISTRATIVO. APELAÇÃO CÍVEL. MANDADO DE SEGURANÇA.


SERVIDOR PÚBLICO MUNICIPAL. PROCESSO ADMINISTRATIVO
DISCIPLINAR. PORTARIA INAUGURAL E CITAÇÃO QUE NÃO DESCREVEM
DE FORMA MINUCIOSA OS FATOS. DESNECESSIDADE. AUSÊNCIA DE
INTIMAÇÃO DE DEFENSOR CONSTITUÍDO PARA ACOMPANHAR OITIVA
DE TESTEMUNHAS. DEPOIMENTOS QUE INFLUENCIARAM NA DECISÃO
QUE APLICOU A PENA DE DEMISSÃO. VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO DA
CONFIANÇA, COROLÁRIO DO PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA.
OFENSA REFLEXA AOS PRINCÍPIOS DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA
DEFESA. NULIDADE EXISTENTE. VIOLAÇÃO A DIREITO LÍQUIDO E
CERTO. RECURSO PROVIDO EM PARTE.

1. RELATÓRIO

Trata-se de apelação interposta por CESAR OKADA em face da sentença de


fls. 409/416, proferida nos autos de Mandado de Segurança nº 176/07,
impetrado contra ato do Prefeito Municipal de Paranavaí, que denegou a ordem
por entender ausente o direito líquido e certo do impetrante, condenando-o ao
pagamento das custas e despesas processuais.

Inconformado, CESAR OKADA interpôs o presente recurso de apelação (fls.


418/426) aduzindo, em síntese, que: estava eivado de nulidade o mandado de
citação que o convocou a comparecer perante a Comissão Processante, por
não informar a acusação da qual teria que se defender; também a Portaria
instauradora do Processo Administrativo Disciplinar (PAD) era nula por não
conter numeração e apresentar-se demasiadamente genérica, não
mencionando o fato ensejador da instauração do PAD, tampouco o nome do
impetrante; a Lei Municipal nº 2.391/03, em seus artigos 127 e 138, é contrária
ao artigo 5º, inciso LV, da CF ao vedar a presença do acusado na oitiva das
testemunhas de acusação e ao não consultar o acusado sobre a constituição
de novo procurador, antes de penalizá-lo com a nomeação de defensor dativo;
seu procurador só foi intimado para a audiência do dia 15.09.06, o que não
ocorreu em relação às demais, bem como o próprio apelante só foi intimado
das audiências dos dia 18.09.06 e 29.09.06, o que não ocorreu no tocante
àquelas realizadas nos dias 22.09.06, 26.09.06, 16.10.06, 20.10.06, 27.10.06 e
01.11.06.

O recurso foi recebido em seu efeito devolutivo às fls. 429.


O apelado apresentou suas contra-razões às fls. 431/437.

O Ministério Público de Primeiro Grau manifestou-se pelo desprovimento do


recurso, às fls. 438/439.

Nesta instância, a Procuradoria-Geral de Justiça opinou pelo não conhecimento


do recurso, sob o fundamento de ofensa ao princípio da dialeticidade, por
consistir a apelação interposta em mera repetição da exordial do mandamus
ou, alternativamente, pelo desprovimento do recurso (fls. 449/453).

É o relatório.

2. VOTO

2.1. CONHECIMENTO DO RECURSO

Inicialmente, no tocante à manifestação da Douta Procuradoria-Geral de


Justiça acerca da existência de afronta ao princípio da dialeticidade, pelo
recurso apresentado, entendo que não restou configurada tal ofensa.

É que o recurso interposto cumpre o princípio da dialeticidade, na medida em


que, apesar da similitude com os argumentos expostos na exordial, os motivos
pelos quais o apelante impugna os fundamentos postos na sentença não
deixaram de ser expostos, possibilitando ao Tribunal examinar aquelas razões
de decidir e confrontá-las com as razões recursais.

E, em recente decisão, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu preenchidos


os requisitos previstos no art. 514 do CPC, quando o recurso apresentar os
fundamentos de fato e de direito, bem como o pedido de nova decisão, ainda
que o recorrente tenha se limitado a copiar as razões expostas na inicial ou na
resposta.

Confira-se:

"PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. APELAÇÃO. OBSERVÂNCIA


DOS REQUISITOS PREVISTOS NO ART. 514 DO CPC. NÃO-
CONHECIMENTO DO RECURSO QUE IMPLICA RIGOR EXCESSIVO E
INJUSTIFICADO. (...)
1. Havendo impugnação específica dos fundamentos que motivaram a
sentença, contendo a apelação os nomes e a qualificação das partes, os
fundamentos de fato e de direito e o pedido de nova decisão, ficam
preenchidos os requisitos previstos no art. 514 do CPC. Na hipótese, o não-
conhecimento do recurso, sob o fundamento de que houve "mera reprodução"
da inicial, constitui rigor excessivo e injustificado.
Neste sentido: REsp 1.024.291/PR, 1ª Turma, Rel. Min. José Delgado, DJ de
24,4.2008; REsp 179.822/ES, 3ª Turma, Rel. Min. Antônio de Pádua Ribeiro,
DJ de 11.3.2002; REsp 842.289/PR, 1ª Turma, Rel. Min. Francisco Falcão, DJ
de 2.10.2006.
2. (...)
3. Recurso especial provido."1

Por outro lado, há que se ressaltar que, embora o preparo tenha sido efetuado
em data posterior (fls. 427/428) à de interposição do recurso de apelação (fls.
418), não restou configurada sua deserção.

No caso, o recurso foi protocolado depois do fechamento da agência bancária.


Em tal hipótese, conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça, o
prazo para recolhimento do preparo fica prorrogado para o primeiro dia útil
seguinte, ainda que não se seja o último do prazo.

Nesse sentido:

"PROCESSUAL - PREPARO - APELAÇÃO - ART. 511 DO CPC - NÃO


INCIDÊNCIA - DESERÇÃO - EXPEDIENTE BANCÁRIO.
- Interposto o recurso após o expediente bancário, o prazo para o recolhimento
do preparo ficará prorrogado para o primeiro dia útil seguinte,
independentemente, de ser o último dia do prazo.
- A anacrônica instituição do preparo pode acarretar o perecimento de
portentosos direitos. Bem por isso, qualquer dúvida fundada em torno da
deserção, impõe-se afastá-la, para evitar que o processo transforme-se naquilo
a que o eminente Ministro Eduardo Ribeiro denominou "Campo Minado".2

Assim, observados os pressupostos de admissibilidade, o recurso de apelação


merece ser conhecido.

2.2. MÉRITO

O apelante impetrou mandado de segurança visando a anulação do Decreto


Municipal nº 9.569/2006, por meio do qual lhe foi aplicada a pena de demissão
do emprego público de Médico da Família junto à Secretaria de Saúde do
Município de Paranavaí, assim como do respectivo processo administrativo.

Inicialmente, não há como prosperar o pleito do apelante para que seja


reconhecida a nulidade da Portaria instauradora do Processo Administrativo
Disciplinar (fls. 59) e do mandado citatório.

Consoante o pacífico entendimento do Superior Tribunal de Justiça, eventual


nulidade de ato praticado no processo administrativo disciplinar somente é
passível de ser reconhecida se demonstrada a existência de prejuízo, diante do
princípio pas de nullité sans grief.

Confira-se:
"RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. PROCESSO
ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR. OITIVA DE TESTEMUNHAS E
INTERROGATÓRIO DO ACUSADO.
INVERSÃO. PRAZO PARA CONCLUSÃO. EXTRAPOLAÇÃO. AUSÊNCIA DE
PREJUÍZO.
NULIDADE DESCARACTERIZADA.
I- A inversão da ordem de oitiva de testemunhas e interrogatório do acusado,
bem como a extrapolação do prazo para conclusão do processo administrativo
disciplinar não acarretam a sua nulidade, se, em razão disso, não houve
qualquer prejuízo para a defesa do acusado.
Aplicação do princípio pas de nullité sans grief.
II - Na espécie, o recorrente compareceu a todos os depoimentos das
testemunhas, algumas por ele arroladas, tendo tido a possibilidade de reinquiri-
las ou contraditá-las; ofereceu defesa escrita através de advogado constituído;
postulou pela produção de provas; juntou os documentos que achava
pertinentes, além de ter requerido a dispensa do depoimento de uma das
testemunhas.
(...)
Recurso ordinário desprovido."3

Da análise da defesa prévia apresentada pelo apelante, dessume-se que a


ausência de descrição pormenorizada dos fatos na aludida Portaria e da
indicação do nome das testemunhas no mandado de citação não acarretou
qualquer prejuízo ao apelante, uma vez que demonstrou, naquela
oportunidade, ter ciência dos fatos que ensejaram a instauração daquele
processo (fls. 71/72) e em nenhum momento alegou a existência de prejuízo
por não ter tido ciência do rol de testemunhas a serem ouvidas.

Por outro lado, assiste razão ao apelante, no tocante à violação dos princípios
do contraditório e da ampla defesa, por não ter sido o seu procurador intimado
para acompanhar a oitiva de todas as testemunhas de acusação.

De acordo com a Súmula Vinculante nº 5, "a falta de defesa técnica por


advogado no processo administrativo disciplinar não ofende a Constituição."

Entretanto, em que pese o referido enunciado vinculante ter firmado


entendimento no sentido de ser uma faculdade do servidor o acompanhamento
do PAD através de advogado, ao lhe ser oportunizada tal prerrogativa, impõe-
se à Administração, em obediência ao princípio da confiança, garantir a efetiva
assistência pelo defensor durante todo o desenvolvimento do processo
administrativo disciplinar.

Ou seja, ao facultar ao apelante a possibilidade de fazer-se assistir por


advogado e, tendo o recorrente se manifestado no sentido de que faria uso de
tal prerrogativa, conforme a procuração de fls. 64, razoável que surgisse para o
apelante a expectativa de que a Administração cientificaria o procurador por ele
constituído de todos os atos do processo, tal como ocorreu para indicar o
endereço das testemunhas arroladas em defesa preliminar.
O princípio da confiança, entendido por muitos doutrinadores como sendo a
vertente subjetiva do princípio constitucional da segurança jurídica, concerne à
proteção da confiança das pessoas no que pertine aos atos, procedimentos e
condutas do Estado, nos mais diferentes aspectos de sua atuação.

Na lição de Canotilho:

"O homem necessita de segurança para conduzir, planificar e conformar


autônoma e responsavelmente a sua vida. Por isso, desde cedo se
consideravam os princípios da segurança jurídica e da proteção à confiança
como elementos constitutivos do Estado de direito. Estes dois princípios -
segurança jurídica e proteção da confiança - andam estreitamente associados,
a ponto de alguns autores considerarem o princípio da proteção da confiança
como um subprincípio ou como uma dimensão específica da segurança
jurídica. Em geral, considera-se que a segurança jurídica está conexionada
com elementos objetivos da ordem jurídica - garantia de estabilidade jurídica,
segurança de orientação e realização do direito - enquanto a proteção da
confiança se prende mais com as componentes subjectivas da segurança,
designadamente a calculabilidade e previsibilidade dos indivíduos em relação
aos efeitos jurídicos dos acto".4

Mas referido princípio não foi observado no caso em análise, como se infere
dos termos de interrogatório de fls. 88/102, de cuja análise se extrai que foi
necessária a nomeação de defensor dativo, em razão da falta de intimação do
procurador constituído pelo processado.

Não cabe aqui a alegação de que se trataria de mera irregularidade, sanada


ante a regularização da intimação do procurador do apelante e seu
comparecimento para os demais atos do procedimento então em voga, ou de
que a intimação do impetrante é suficiente, pois é flagrante o prejuízo imposto
ao apelante.

É que, da leitura do relatório final elaborado pela Comissão Permanente de


Disciplina, que concluiu pela procedência das denúncias feitas e opinou pela
aplicação da pena de demissão por justa causa (fls. 174/180), bem como da
manifestação da Procuradoria Jurídica do Município pela improcedência do
recurso administrativo interposto pelo apelante (fls. 189/191) e da decisão de
desprovimento do recurso e aplicação da pena de demissão, proferida pelo
Prefeito Municipal (fls. 192/195), extrai-se que foram eles elaborados com base
nos depoimentos prestados justamente na audiência para a qual o defensor do
apelante não havia sido intimado, realizada em 18.09.06.

Dessa forma, patente o prejuízo causado ao apelante, que teve a pena de


demissão aplicada com base em depoimentos de testemunhas prestados sem
a presença de seu procurador constituído, o qual não foi intimado para o ato.

Verifica-se, igualmente, ofensa aos princípios do contraditório e ampla defesa,


diante da ausência de intimação do apelante para acompanhar a audiência em
que foi ouvida a testemunha Josué Baena Júnior, realizada no dia 27 de
outubro.
Nessa hipótese, o prejuízo causado à defesa também decorre do fato de ter
sido tal depoimento servido de fundamento para aplicação da pena. Quanto às
demais, uma vez que os depoimentos não influenciaram no julgamento, não há
como se reconhecer a existência de prejuízo.

Por fim, a dispensa do apelante para acompanhar a inquirição das


testemunhas ouvidas no dia 26 de setembro, não se afigura ilegal. Isso porque
o seu defensor encontrava-se presente no ato. Ademais, trata-se de medida
necessária para evitar constrangimentos, como no caso, em que os
depoimentos foram prestados por colegas de profissão do impetrante.

Assim, é imperioso o provimento parcial do recurso, para o fim de anular a


decisão proferida no processo administrativo mencionado na inicial e, por
conseguinte, o decreto de demissão, bem como das audiências realizadas nos
dias 18 e 27 de setembro.

ACORDAM os Desembargadores integrantes da Quarta Câmara Cível do


Tribunal de Justiça do Paraná, por unanimidade de votos, em dar provimento
parcial ao recurso, nos termos do voto da Relatora.

Participaram do julgamento a Excelentíssima Senhora Desembargadora Maria


Aparecida Blanco de Lima, Presidente com voto, e o Excelentíssimo Senhor
Juiz Substituto Eduardo Sarrão.

Curitiba, 03 de fevereiro de 2009.

JOSÉLY DITTRICH RIBAS


Juíza Convocada

1STJ - Resp 842008/PR - Rel. Min. Denise Arruda - 1ª Turma - DJ em


20.08.2008.

2STJ - AgRg no REsp nº 711.929/DF - Rel. Min. Humberto Gomes de Barros -


3ª Turma - DJ em 16.04.2007.

3RMS 21.633/RN, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em


24/04/2007, DJ 04/06/2007 p. 382.

4 CANOTILHO, J.J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição.


Almedina: Coimbra, 2000, p. 256.
Não vale como certidão ou intimação.