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O Movimento Cidades/Municípios Saudáveis:

ARTIGO ARTICLE
um compromisso com a qualidade de vida

The Healthy Cities Movement: a commitement


with quality of life

Márcia Faria Westphal 1

Abstract The Healthy Cities Movement has Resumo O Movimento Cidades/Municípios


been involving an increasing number of cities Saudáveis, desde a década de 1970, vem envol-
and actors in several countries of the world vendo cada vez maior número de cidades e ato-
since the 70’s, and has been divulging a practice res em vários países e divulgando uma prática
that represents a new form of thinking and que representa uma nova forma de pensar e fa-
working on health which aims at constructing a zer saúde. O movimento tem como objetivo um
social product – quality of life of the popula- produto social, a qualidade de vida da popula-
tion. This new proposal presupposes the exis- ção e pressupõe a existência de problemas con-
tence of people living in a territory with con- cretos de pessoas vivendo em um território. Re-
crete problem. It represents a new form of city presenta uma nova forma de gestão municipal,
administration based on intersectorial action baseada na ação intersetorial e exige, ao mes-
and demands the protagonism of the state, as mo tempo, um protagonismo do Estado e a par-
well as the participation of civil society in the ticipação da sociedade civil como parceira na
accomplishment of new objectives aiming at consecução dos objetivos. No Brasil há, até o
changing the city profile. In Brazil there are so momento, 19 municípios envolvidos com a pro-
far 19 municipal districts involved with posta, mas somente 13 estão com projetos ati-
Healthy Cities’ proposal but only 13 with active vos. Os resultados dos esforços estão começando
projects. The results of the efforts of these mu- a ser visualizados, trazendo novas perspectivas
nicipal districts are beginning to become visible em termos de desenvolvimento social e susten-
and to bring new perspectives in terms of social tado, bem como de melhoria das condições de
and sustained development and the improve- saúde e qualidade de vida.
ment of health conditions and quality of life. Palavras-chave Cidades/Municípios Saudá-
Key words Healthy Cities/Municipalities; In- veis; Intersetorialidade; Participação Social;
tersectorial Action; Social Participation; Quali- Qualidade de Vida
ty of Life
1 Departamento de
Prática de Saúde Pública,
Faculdade de Saúde
Pública da Universidade
de São Paulo, Av. dr.
Arnaldo, 715, Cerqueira
César, 01246-904, São
Paulo, SP, Brasil.
marciafw@usp.br
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Westphal, M. F.

Cidades Saudáveis e seu interesse nada mais foi feito para resolver o problema
para a Saúde Coletiva da desigualdade social. Isso significa que o go-
verno, com seu modelo monetarista de desen-
No momento, quando se aproxima o final do volvimento, não tem sido capaz de dar conta
século, o cenário mundial se apresenta como das demandas por qualidade de vida da popu-
um movimento dinâmico de globalização no lação em geral e em especial da carente. Um
qual surgem, além de novas fronteiras econô- modelo mais humanista, em vez do adotado
micas, sociais e geográficas, crescentes confli- pelo governo – ou complementar a ele –, pre-
tos culturais, religiosos e humanos. cisa ser pensado para que o desenvolvimento
A situação mundial assume contornos di- brasileiro se torne sustentável e o país mais
ferenciados conforme o país e a região do mun- saudável.
do, havendo grandes desigualdades entre paí- Apesar de estarmos vivendo em um mun-
ses desenvolvidos e em desenvolvimento. do globalizado, as cidades que concentram
Na década de 1990 o Brasil continua sen- grandes contingentes de população vêm ga-
do um caso clássico de desenvolvimento desi- nhando, nos últimos anos, uma importância
gual. Um pequeno segmento da população tem significativa como espaço de intervenção e de
acesso a uma parcela substancial da crescente mobilização em torno de projetos comuns e
produção de bens e serviços, enquanto uma de interesses coletivos. Esses projetos necessi-
proporção muito grande é forçada a sobrevi- tam, para seu desenvolvimento, da solidarie-
ver com o restante. A minoria mais rica ado- dade social e da integração das políticas pú-
ta hábitos de consumo dos países desenvolvi- blicas urbanas.
dos e lança no ecossistema resíduos e dejetos Considerando os problemas urbanos con-
semelhantes aos das sociedades ricas. Entre- temporâneos e as possibilidades que a cidade
tanto, os pobres, com baixo nível de escolari- oferece para a realização de projetos sociais, a
dade, privados de água tratada e de condições Organização Mundial de Saúde (OMS) e suas
dignas de habitação, têm mais probabilidade agências regionais, como a Organização Pan-
de adotar um comportamento destrutivo em Americana da Saúde (OPAS), iniciaram o Mo-
relação ao meio ambiente e de degradá-lo com vimento Cidades Saudáveis, com o intuito de
um fluxo nocivo de dejetos. motivar governos e sociedade civil a desenvol-
Uma conseqüência imediata desse mode- ver estratégias, em diversos setores das políti-
lo de desenvolvimento adotado e da desigual- cas sociais, com a implementação de projetos
dade dele decorrente tem sido o grande im- interinstitucionais e intersetoriais, visando
pacto sobre as condições ambientais e as con- realizar ações de melhoria das condições de vi-
dições de saúde da população. A desnutrição da e saúde da população urbana e, portanto,
é ainda um obstáculo sério à saúde e ao desen- de sua qualidade de vida.
volvimento de recursos humanos, algumas Este artigo vai apresentar o projeto Cida-
doenças infecciosas reapareceram ou avança- des Saudáveis, conforme concebido pela OMS,
ram e a violência, o uso de drogas e a Aids vêm suas adaptações à realidade brasileira, as pos-
se tornando o maior desafio à manutenção da sibilidades e desafios que tem trazido para téc-
vida e da qualidade de vida nas cidades. nicos, acadêmicos, políticos e aos cidadãos de
Para resolver os problemas da inflação que nossas cidades, tendo em vista a melhoria da
pareciam ser responsáveis pela desigualdade qualidade de vida.
e exclusão social, foi criado o Plano Real. Res-
taurou-se a confiança no Estado, o que acar-
retou uma relativa estabilidade econômica. A Contexto histórico
inflação caiu de 40-50% ao mês, na primeira
metade do ano de 1994, para 2% na segunda Os principais pressupostos do Movimento Ci-
metade, continuando estabilizada até o fim do dades Saudáveis podem ser relacionados a an-
ano de 1998, quando a moeda brasileira foi tigas preocupações do movimento sanitário
desvalorizada em relação ao dólar (Roque & europeu do século XIX, que já reconhecia os
Correa, 1998). Independente da interpretação governos locais das cidades e as associações
que seja aceita do agravamento da desigual- comunitárias como importantes agentes no
dade, como mostram os dados da ONU recen- equacionamento dos problemas de saúde.
temente publicados, o fato é que, nos últimos Por volta de 1840, iniciou-se o processo de
quatro anos, além da estabilização da moeda, urbanização na Europa. Com a sua ampliação,
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ocorreu uma deterioração das condições de Lalonde (1996), chamado de “Novas perspec-
vida das populações carentes que foram se tor- tivas de saúde dos canadenses”, questionaram
nando vulneráveis a epidemias por doenças o poder da medicina para resolver sozinha os
infectocontagiosas. Como os governos resis- problemas de saúde. O impacto causado foi
tiam a introduzir reformas, a Associação pela tal que se pode dizer que deram início a uma
Saúde das Cidades, criada na Inglaterra, reuniu nova era de interesse social e político pela saú-
pessoas que se organizaram para pressionar as de pública (Ashton, 1992).
autoridades. Propunham mudanças nas leis A nova saúde pública surge então do reco-
com o objetivo de melhorar as condições de nhecimento de que tudo que existe é produto
saúde e estabeleceram o que chamaríamos ho- da ação humana – salvo o que se poderia cha-
je, utilizando a terminologia da OMS, uma mar de natureza intocada – em contraposição
coalizão intersetorial para a saúde. Sua ban- à hegemonia da terapêutica, como solução pa-
deira de luta foi a melhoria da situação física ra todos os males que poderiam atingir o cor-
das cidades representada por mudança nos pa- po do homem. A saúde de um indivíduo, de
drões de habitação, regulações higiênicas, pa- um grupo de indivíduos ou de uma comuni-
vimentação das ruas, sistema de abastecimen- dade depende também de coisas que o homem
to de água e de eliminação de dejetos, uma vez criou e faz, das interações dos grupos sociais,
que já se reconhecia que saúde estava (e está) das políticas adotadas pelo governo, inclusive
intimamente relacionada às condições satis- dos próprios mecanismos de atenção à doen-
fatórias de vida. ça, do ensino da medicina, da enfermagem, da
O movimento sanitarista, com seu conteú- educação, das intervenções sobre o meio am-
do ambientalista, continuou exercendo gran- biente (Santos & Westphal, 1999).
de influência nas políticas públicas dos países A partir desse momento, uma série de ini-
desenvolvidos até o fim do século XIX, por ciativas da OMS, começando pela Declaração
meio de legislação e grandes obras de engenha- de Alma-Ata sobre Atenção Primária à Saúde
ria. No início do século XX, começou a era bac- em 1977 e culminando com o projeto Cidades
teriológica, a partir da descoberta dos germens. Saudáveis em 1986, estabelece os contornos
Esse movimento perdeu a força porque a ênfa- do novo movimento.
se das ações de saúde passou a ser dada à pre- Os elementos principais de todas essas ini-
venção pessoal. Até aquele momento, segun- ciativas, segundo Ashton (1992), foram o in-
do Ashton (1992), não existiam ainda fárma- teresse pela pobreza, necessidade de reorien-
cos de eficiência comprovada, mas à medida tação dos serviços de saúde, a importância da
que se descobriu a insulina e as sulfamidas, nos participação comunitária e o desenvolvimen-
anos 30, iniciou-se a ‘era terapêutica’. Até o to de coalizões entre o setor público, setor pri-
princípio dos anos 70, as políticas públicas pa- vado e o voluntariado. O conceito de promo-
ra a saúde, tanto nos países desenvolvidos co- ção de saúde, que reforça a importância da ação
mo em desenvolvimento, estiveram domina- ambiental e da ação política, bem como a mu-
das por essa orientação, concentrando as ações dança do estilo de vida, foram muito impor-
de saúde em grandes hospitais, com superespe- tantes como referências para o movimento.
cialistas. Entende-se, então, a prática sanitá- Entende-se promoção de saúde como um pro-
ria como a busca da cura dos indivíduos que cesso através do qual a população se capacita e
manifestaram alguma doença (Ashton, 1992). busca os meios para conseguir controlar os fa-
No início da década de 1970, na maioria tores que favorecem seu bem-estar e o da comu-
dos países, iniciou-se uma crise no setor saú- nidade ou que a podem estar pondo em risco,
de, devida aos altos custos da medicina cura- tornando-a vulnerável ao adoecimento e preju-
tiva que utilizava alta tecnologia, bem como dicando sua qualidade de vida (Ministério da
aos resultados das pesquisas evidenciando que Saúde, 1996). Nessa perspectiva, saúde deixa
os gastos em saúde não estavam tendo reflexos de ser um objetivo a ser alcançado, tornando-
equivalentes na qualidade de vida da popula- se um recurso para o desenvolvimento da vida.
ção. Essa crise foi gradativamente acarretando (Pilon, 1990, 1992; Russel, 1995)
novas estratégias baseadas em novos conceitos Nesse cenário aconteceu em Toronto, em
que deram início ao que se tem chamado a “no- 1984, o congresso denominado Para Além da
va saúde pública” (Santos & Westphal, 1999). Assistência à Saúde, para avaliar os progres-
Algumas pesquisas, entre as quais a de sos após dez anos da publicação do Informe
Mckeown (1982), na Inglaterra, e o Informe Lalonde. Não é surpreendente que essa discus-
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Westphal, M. F.

são tenha sido levada a efeito em Toronto, pois bitam ocupam um espaço simbiótico e se or-
lá já havia iniciativas que caracterizavam a ci- ganizam sob um poder político como socie-
dade como inserida no Movimento Cidades dade civil. Ocupam também um espaço sim-
Saudáveis (Hancock, 1990). Participaram da bólico, que integra seus habitantes cultural-
reunião profissionais da área de saúde e de ou- mente, possibilitando a formação de uma
tras áreas, bem como políticos. Ao final, Duhl identidade coletiva, que dinamiza as relações,
(1986) discute o ideário de Cidades Saudáveis convertendo a cidade ainda em um espaço que
como uma utopia a ser alcançada. responde a objetivos econômicos, políticos e
O assunto interessou muito aos presentes, culturais da nossa época. Em função dessas
principalmente à representante do escritório concepções de cidade é que surge a proposta
europeu da OMS, que o assumiu como um de Cidades Saudáveis.
projeto estruturante do novo paradigma, ini- A proposta tem sido compreendida de vá-
ciando a sua divulgação nos países europeus. rias maneiras. Daí a importância de tentar res-
Em 1985, a OMS/Escritório Europeu elaborou ponder à seguinte questão: ao se mencionar
uma proposta de projeto de Promoção de Saú- cidades saudáveis está-se falando de uma for-
de, para ser desenvolvido em quatro ou seis ci- ma de avaliação, de um projeto ou de um mo-
dades européias, denominado Projeto Cida- vimento?
des Saudáveis. O começo oficial do projeto, Muitos técnicos, e até mesmo representan-
que deveria durar cinco anos, ocorreu em Lis- tes da população, acreditam que seja uma for-
boa em março de 1986. As primeiras 11 cida- ma de avaliação da cidade que vai permitir
des selecionadas adotaram os princípios defi- destacá-la para receber prêmios ou selos de
nidos na proposta de Saúde para Todos da Or- qualidade. Na verdade, esta não é a conotação
ganização Mundial de Saúde e os adaptaram que assume para a OMS e para os acadêmicos
às necessidades das cidades envolvidas, trans- defensores da proposta. De acordo com Han-
formando-os em programas locais de saúde e cock & Duhl (WHO/EURO/HCPO, 1988), ci-
desenvolvimento urbano. Cada cidade promo- dade saudável não é somente uma cidade com
veu a articulação entre setor público, setor pri- alto nível de saúde, medido pelos indicadores
vado e o voluntariado, para enfrentar, com de mortalidade e morbidade, mas é uma cida-
uma base mais ampla, os problemas de saúde de comprometida com os objetivos de saúde
urbana. Atualmente o projeto europeu cons- de seus cidadãos e envolvida em um trabalho
titui-se de 36 projetos localizados em 23 países. contínuo para atingi-los.
Existem também projetos em desenvolvimen- Cidades Saudáveis é o nome que se dá a um
to em todas as regiões do mundo, alguns bas- projeto de desenvolvimento social, que tem a
tante solidificados, e outros ainda fragilizados saúde e suas múltiplas determinações como
por diversas razões que comentaremos poste- centro de atenções. É também um movimen-
riormente (Goumans, 1997). to de luta por um estilo de desenvolvimento
No Canadá (Toronto) foi desenvolvida na sustentável, que satisfaça as necessidades das
mesma ocasião iniciativa semelhante. Em gerações atuais sem comprometer a capacidade
1987, após um seminário de avaliação do pro- das futuras de satisfazer suas próprias necessi-
jeto, mais 14 cidades aderiram ao programa. dades (Guimarães, 1999).
Como já foi dito, quando se discutiu o con-
ceito histórico de cidades saudáveis, sua con-
Conceito de Cidades Saudáveis cepção esteve ligada ao ideário da nova Saúde
Pública, ou melhor da ‘produção social da
A cidade, segundo Duhl (1963), pode ser en- saúde’, tendo surgido como evolução natural
tendida como uma estrutura geográfica na do movimento internacional de Promoção de
qual se vive e se trabalha. Pode também ser Saúde, apoiado pela OMS, que resumidamente
vista como uma entidade administrativa, ou a define como aquela na qual as políticas públi-
como uma estrutura social e comunitária. Ne- cas são favoráveis à saúde (Ashton et al., 1986).
la diferentes sistemas interagem, buscando o O objetivo estratégico dos postulantes da
equilíbrio urbano em meio a conflitos de po- proposta era motivar governos e sociedades
der e de relações. para a melhoria das condições de vida e saú-
Para Castells & Borja (1996) cada vez mais de da população urbana. Para isso precisavam
as cidades vêm assumindo o papel de atores desenvolver metodologias, em diversos seto-
sociais, uma vez que os cidadãos que nela ha- res de políticas sociais, com a implementação
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de projetos estratégicos interinstitucionais e • criar ações de interesse da saúde;
intersetoriais e realizar ações em diferentes • estabelecer alianças e parcerias (interna-
ambientes, como escola, indústria, espaços de cionais, nacionais e locais) para o desenvolvi-
lazer. mento urbano;
Um corolário deste objetivo é o de trans- • facilitar o desenvolvimento de redes de co-
formar as relações excludentes, conciliando ao municação;
mesmo tempo os interesses econômicos e o • possibilitar a troca de conhecimento, ex-
bem-estar social, que são as condições indis- periência e conhecimento técnico.
pensáveis para obter saúde e desenvolvimento Existem, ainda, requisitos que se referem
para as cidades, os estados e o país (Westphal, à estrutura e organização do projeto, que se-
1997). rão descritos quando especificarmos as estra-
O Movimento Cidades Saudáveis focaliza tégias básicas propostas pelos seus teóricos e
também a participação popular como forma incentivadores.
de mobilização e de democratização e busca
mudanças na forma de gestão dos diferentes
níveis de governo, sobretudo o local. Mendes O objeto de estudo e de ação
(1992) o conceitua como aquele em que todos do Movimento Cidades/Municípios
os atores sociais em situação de governo, orga- Saudáveis
nizações não-governamentais, famílias e indi-
víduos orientam suas ações no sentido de trans- Alguns defendem que seu objeto de estudo e
formar a cidade em um espaço de produção so- de práticas é a cidade, porque é o espaço de
cial da saúde, construindo uma rede de solida- vida de um povo, seu espaço cultural, o espa-
riedade no sentido da qualidade de vida da po- ço do cidadão, de onde devem ser equaciona-
pulação. dos problemas, planejadas e desenvolvidas
A OMS adota a conceituação de Hancock ações compartilhadas para a melhoria da qua-
& Duhl (WHO/EURO/HCPO, 1988). Cidade lidade de vida. Nesse sentido, enfatizam a de-
saudável é aquela que está continuamente cri- nominação cidade saudável porque é a partir
ando e modificando seu ambiente físico e so- dos direitos e necessidades dos cidadãos que
cial e expandindo seus recursos para que as vivem em um determinado contexto socio-
pessoas se capacitem a apoiar umas às outras, cultural que a sociedade e o Estado irão de-
para que todos desempenhem a contento to- bater a questão os mínimos sociais para uma
das as funções da vida e desenvolvam ao máxi- condição de vida humana. A questão crucial
mo seu potencial. é a cidade, os cidadãos que vivem nela, o cres-
Desse modo, pode-se afirmar que o signi- cimento populacional das áreas urbanas e os
ficado de cidade saudável depende das percep- problemas dele decorrentes. Enfatizam o sujei-
ções de seus habitantes, e cada projeto é único. to do processo e não a forma de operação
Apesar dessa diversidade, um projeto ou o mo- (Castells & Borja, 1996; Duhl, 1986).
vimento, para ser considerado dentro deste Na América Latina e no Brasil, em parti-
marco conceitual, deve atender, segundo Tsou- cular, defende-se a denominação município
ros (1995), aos seguintes objetivos: saudável, pois o movimento se refere a uma
• estabelecer redes de projetos para que se- forma de atuação em saúde e nas questões re-
ja possível à OMS garantir apoio técnico e pos- lacionadas com o desenvolvimento econômi-
sibilitar o apoio mútuo e troca de experiên- co e social do município como região admi-
cias entre projetos; nistrativa, englobando áreas urbanas (cada vez
• dar destaque à saúde na agenda política lo- mais inchadas) e áreas rurais (cada vez mais
cal; abandonadas). Os seus defensores chamam a
• introduzir o componente saúde com sua atenção para o outro lado da questão, que seria
ampla determinação, nas preocupações de pla- a prática de atuação. Em função dos princípios
nejamento dos outros setores, tais como o edu- de descentralização administrativa brasileira,
cacional, econômico, cultural, enfim, na vida municipalização, participação comunitária e
da cidade; controle social, o espaço do município é, atual-
• desenvolver políticas públicas saudáveis; mente, um lugar privilegiado para a implemen-
• incentivar o desenvolvimento de ambien- tação de estratégias de Promoção de Saúde.
tes de apoio (físicos e sociais) para a produ- Seja considerando o espaço da cidade ou
ção social da saúde; do município, a eqüidade e a qualidade de vi-
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Westphal, M. F.

da são o objeto e a finalidade do projeto. O outras pessoas, formar identidades sociais, sen-
projeto europeu original considera os pré-re- tir-se integrado socialmente e em harmonia
quisitos da Carta de Ottawa como parâmetros com a natureza. Alguns autores expressaram
de qualidade de vida. Os pré-requisitos, esta- posições radicalizadas relacionadas à valori-
belecidos na I Conferência Internacional de zação de um dos dois fatores.
Promoção de Saúde, realizada em Ottawa (Ca- Atualmente verifica-se uma tendência pre-
nadá) e referendada nas subseqüentes, foram: ponderante de considerar os dois tipos de fa-
paz; posse de uma habitação que atenda à ne- tores na constituição de um conceito que com-
cessidade básica de abrigo, adequada em ter- preenda aspectos humanos e ambientais e ain-
mos de dimensões por habitante, condições da que tenha um componente que possa ser
de conforto térmico e outras; acesso a um sis- expresso monetariamente e cotejado com o
tema educacional eficiente, em condições que Produto Interno Bruto (PIB).
favoreçam a democratização da informação e Com base nessa comparação, podemos
formação dos cidadãos; disponibilidade de ali- afirmar que os pré-requisitos da Carta de Ot-
mentos em quantidade suficiente para o aten- tawa enfatizam os dois aspectos e incluem ren-
dimento das necessidades biológicas; promo- da como um componente que pode ser expres-
ção do crescimento e desenvolvimento das so monetariamente.
crianças e adolescentes e reposição da força de Importa ainda comparar com o conceito
trabalho; renda suficiente para o atendimen- muito em uso ultimamente e que tem servido
to às necessidades básicas e pré-requisitos an- para chamar a atenção dos administradores
teriores; recursos renováveis garantidos por para a desigualdade social: o Índice de Desen-
uma política agrária e industrial voltada para volvimento Humano (IDH), de autoria de
as necessidades da população e o mercado in- Nussbaum e Sen. Os autores, influenciados pe-
terno – não somente para exportação e impor- los conceitos de ética de Aristóteles e pelos con-
tação – e ecossistema preservado e manejado ceitos de Marx, elaboraram uma concepção da
de forma sustentável. Estes pré-requisitos pre- existência e do florescimento humano e a par-
cisam ser garantidos por políticas educacio- tir daí propuseram a forma atual de desenvol-
nais, agrícolas, ambientais, de transporte ur- vimento do IDH (Crocker, 1993). Dentro des-
bano voltadas para o objetivo amplo de saú- ta perspectiva da ética do desenvolvimento,
de, qualidade de vida e desenvolvimento hu- definem qualidade de vida a partir de dois con-
mano orientado por valores democráticos de ceitos: capacidade, que representa as possíveis
justiça e eqüidade (OPAS, 1996; Strozzi & Gia- combinações de potencialidades e situações
comini, 1996). que uma pessoa está apta a ser ou fazer; e fun-
A discriminação destes pré-requisitos, nes- cionalidade, que representa partes do estado
ta perspectiva ampliada da saúde, não permi- de uma pessoa – as várias coisas que ela faz ou
te mais que fique restrita ao setor saúde a res- é. Para Nussbaum e Sen, então, qualidade de
ponsabilidade pelas ações relacionadas às ques- vida pode ser avaliada em termos de capacita-
tões da qualidade de vida. Clama as diferen- ção para alcançar funcionalidades elementa-
tes instituições e os diferentes atores sociais a res (alimentar-se, ter abrigo, saúde) e as que
verificar como a sociedade está satisfazendo as envolvem auto-respeito e integração social (to-
necessidades básicas da população, a distribui- mar parte na vida da comunidade). A capaci-
ção de bens e serviços, as carências decorrentes tação dependerá de muitos fatores e condi-
de iniqüidades. Exige do Estado a garantia dos ções, inclusive da personalidade do indivíduo,
direitos humanos básicos. mas principalmente de acordos sociais. Com
Vários autores, especialmente aqueles li- este enfoque, os autores privilegiam a análise
gados às ciências sociais e à filosofia, vêm dis- política e social das privações, valorizando as
cutindo formas de conceituar qualidade de vi- oportunidades reais que as pessoas têm a seu
da (Berlinguer, 1983; Coimbra, 1979; Crocker, favor. Segundo Herculano (1998) qualidade de
1993; Herculano, 1998). A leitura destes auto- vida não deve ser entendida como um conjun-
res permitiu observar uma tensão constante to de bens, confortos e serviços, mas através
entre o fato de qualidade de vida ser determi- destes, das oportunidades efetivas das quais as
nada por fatores objetivos, tais como as con- pessoas dispõem para ser, realizações passadas
dições materiais necessárias a uma sobrevi- e presentes. Nessa perspectiva o bem-estar, ou
vência livre da miséria, ou por fatores subje- melhor, a qualidade de vida, tem como com-
tivos, como a necessidade de se relacionar com ponentes básicos: a questão política e a possi-
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bilidade de influenciar nas decisões que dizem dáveis serão colocadas à margem dos proces-
respeito à coletividade e participar na vida co- sos decisórios.
munitária e a possibilidade de ser influencia-
do com ações passadas e presentes da coleti-
vidade. Teoricamente os pré-requisitos expres- Por que o Brasil e outros países
sos na Carta de Ottawa e esses conceitos se da América Latina têm se interessado
aproximam bastante. pelo Movimento Cidades Saudáveis?
O Índice de Desenvolvimento Humano, o
IDH (Crocker, 1993), mensura a qualidade de Nos últimos anos, em vários países da Améri-
vida obtida a partir de vários modelos. Apura ca Latina tem-se discutido a proposta de cida-
não só o desenvolvimento da produção com des saudáveis. As causas deste interesse são vá-
base nos dados do PIB per capita, mas também rias.
verifica a expectativa de vida ao nascer que As mudanças no perfil demográfico em
afere as possibilidades de adoecimento na po- função dos avanços da ciência médica têm ti-
pulação e a alfabetização que contabiliza o do efeitos profundos na situação de saúde dos
acesso a escolarização. Contudo, falha segun- países em desenvolvimento. Crianças que po-
do o ponto de vista de muitos autores e os pré- deriam ter morrido sobreviveram, adultos têm
requisitos da Carta de Ottawa, por não incor- a expectativa média de vida prolongada. Exis-
porar a dimensão ambiental, o que possibilita- tem cada vez mais idosos nos países da Améri-
ria a percepção sobre o estado do ecossistema, ca Latina, registram-se mais doenças crônico-
muito importante, especialmente nos dias de degenerativas como causa de morbidade e
hoje, com a urbanização e a industrialização mortalidade e também mais pessoas fora do
degradando a qualidade de saúde e vida nas ci- mercado de trabalho – os mais jovens, os mais
dades. velhos, os incapacitados. Há necessidade de
No contrafluxo desta e de outras propos- novas propostas para o equacionamento des-
tas apresentadas, muitos indicadores propos- sas questões articulando os outros setores ao
tos e mensurações feitas sobre melhoria de setor saúde, para que se possa agir integral-
qualidade de vida diante de um modelo de de- mente na solução dos problemas.
senvolvimento configuraram a mesma como O índice de urbanização cresceu de manei-
padrão de consumo (Herculano, 1998). Esta ra vertiginosa nestes últimos cinqüenta anos,
concepção de qualidade de vida é enganosa e isto é, depois da II Guerra Mundial. Cerca de
colabora para manter alienada a população, 80% da população brasileira vive e trabalha
que muitas vezes sente os problemas, mas não no contexto urbano, ainda que a concentra-
tem consciência deles. O conceito de qualida- ção populacional nas cidades não esteja ocor-
de de vida deve dar conta da complexidade que rendo tão rapidamente como antecipada pelos
ele representa e refletir a organização social e teóricos (Santos, 1996; UNCHS, 1996; WHO,
sua dinâmica. Precisa integrar tantas dimen- 1996). O índice de urbanização no Brasil era
sões quantas forem necessárias para que pos- de 26,35% na década de 1950 e de 77,13% em
sa vir a ser empregado como substrato de uma 1991. Até mesmo a população agrícola vem se
crítica em profundidade a um estilo de desen- deslocando gradativamente para a área urba-
volvimento vigente, identificando distorções na. As regiões metropolitanas, que eram três
existentes e propondo uma via alternativa de ou quatro, estão aumentando em número,
desenvolvimento. Deve ser objetivo suficien- contribuindo para o aumento da população
te para que seja capaz, ao ser transformado em urbana (Santos, 1996). Embora a cidade atraia
indicador, de subsidiar sugestões para imple- pelas possibilidades culturais, educativas e de
mentar políticas que garantam uma ordem so- emprego, também cria muitos problemas, es-
cial mais eqüitativa de distribuição de riqueza. pecialmente quando a aglomeração de popu-
Enfim, conceituar qualidade vida, tentando lação cresce a tal ponto que os recursos tor-
resgatar o princípio ético da vida, como o fi- nam-se insuficientes para o atendimento das
zeram os participantes da Conferência de Ot- necessidades. As contradições urbanas se evi-
tawa, é fundamental, como também será im- denciam, passando a agredir o contingente po-
portante participar do jogo de construção de pulacional com problemas como violência, po-
indicadores e mensuração a partir do concei- luição do ar, solo e água (Nunes, 1989).
to. Caso não seja feito este esforço, propostas O estilo de vida da população, diante dos
como o Movimento Cidades/Municípios Sau- avanços tecnológicos, também vem ameaçan-
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Westphal, M. F.

do a saúde. Sedentarismo, alimentação inade- car outras alternativas como as indicadas pe-
quada, uso de tabaco e drogas vêm provocan- lo Movimento Cidades Saudáveis.
do mudanças nos padrões de mortalidade, fa-
zendo com que convivam a mortalidade e
morbidade por doenças infecciosas e crônico- Estratégias utilizadas pelos projetos
degenerativas. A busca de soluções ou a pre- Cidades/Municípios Saudáveis
venção de novos fatores de risco têm direcio-
nado a solução das doenças para o componen- As metas dos projetos Cidades Saudáveis não
te psicossocial da questão saúde-doença, agre- podem ser definidas em termos de situações
gando-o como causalidade aos tradicionais ideais, abstratas, ou de futuro. As estratégias
componentes orgânicos (Ministério da Saú- devem ser formas de atuar no cotidiano.
de, 1996). A opção de um prefeito por inserir seu mu-
O modelo econômico de desenvolvimen- nicípio no Movimento Cidades/Municípios
to, apesar de eficiente em aumentar o PIB, por Saudáveis, por exemplo, envolve outra opção:
exemplo, tem sido bastante excludente, sendo a de se dispor a mudar gradativamente a for-
responsável pelo aumento das desigualdades ma de administrar, tornando-se gestor social
sociais, aumento da violência e uso de drogas. do processo (Mendes, 1992).
A concepção de Estado liberal mínimo, que Esse novo papel pressupõe um compro-
parece estar sendo adotada por nossos gover- misso formal do administrador com a adoção
nantes, vem retirando dos Estados latino-ame- de políticas públicas saudáveis que possam mi-
ricanos, esfacelados pela dívida externa, as nimizar as desigualdades através de ações so-
obrigações sociais em relação a saúde e edu- bre os determinantes dos problemas de saú-
cação. O modelo de privatização do público da de, nos múltiplos setores em que se localizam.
esfera pública já foi assumido por alguns paí- Pressupõe, também, a existência de um plano
ses de nosso continente, inclusive o nosso, nos de governo baseado na resolução dos proble-
colocando frente a frente com a necessidade mas identificados, com base em indicadores
de discutir a ética desse processo (Habermas, de qualidade de vida. Este plano deve ter me-
1984). O Projeto Cidades Saudáveis acena pa- tas explícitas e objetivar a resolução de ques-
ra a necessidade de ampliação de parceiros en- tões relacionadas à eqüidade e desenvolvimen-
volvidos no diagnóstico e solução dos proble- to sustentado e ainda estabelecer mecanismos
mas e o estabelecimento de alianças, sem exi- para promover a responsabilidade e o contro-
mir o Estado de sua responsabilidade social. le social.
Os gastos com saúde, muito menores do O planejamento e a gestão devem ser in-
que os dos países desenvolvidos, não têm cor- tersetoriais e intersistêmicos, representando a
respondido ao aumento da esperança de vida. união do setor saúde com os demais. A inter-
A maior parte da população (cerca de 70%) setorialidade é a articulação de saberes e de ex-
depende do sistema público de saúde, embora periências na identificação participativa de
os recursos de saúde tenham se concentrado problemas coletivos, nas decisões integradas
em instituições centralizadas, privadas, espe- sobre políticas e investimentos, com o objeti-
cializadas em atividades curativas, empregan- vo de obter retorno social, com efeitos sinérgi-
do alta tecnologia, com altos custos. Esse in- cos, no desenvolvimento econômico-social e
vestimento em atividades curativas não tem na superação da exclusão social (Junqueira,
tido resultados correspondentes em termos de 1998; Inojosa, 1998). Representa uma mudan-
melhoria dos níveis de saúde. Tal constatação ça de atitude que deve predispor políticos, aca-
corresponde à análise da esperança de vida e dêmicos e técnicos para a interação e integra-
dos gastos com saúde em vários países, realiza- ção de saberes entre si e destes com a popula-
da pelo Banco Mundial, que demonstra que ção. Justifica-se pela própria complexidade da
os sistemas de saúde que se dedicam a ações realidade.
de Promoção de Saúde são avaliados como O deslocamento do conceito de desenvol-
mais efetivos pelas populações assistidas. vimento social do eixo de pobreza para a de-
A prática dos profissionais de saúde, em sigualdade exige a superação de propostas se-
experiências desenvolvidas em cidades e mu- torizadas, assistenciais, compensatórias, vol-
nicípios a partir do setor saúde, tem demons- tadas para o alívio de problemas decorrentes
trado claramente os limites da ação setorial da pobreza, por outras intersetoriais, de supe-
para resolver os problemas e os tem feito bus- ração destes problemas. Se os problemas de-
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correm das interconexões entre fatores e dos somente medidas de efeito imediato e eleitorei-
sistemas entre si, sua análise não pode ser fei- ro (Offe, 1984).
ta isoladamente, sem verificação das intercone- A população deve participar de todo o pro-
xões com outros fatores, de outras áreas ou se- cesso, através de seus grupos organizados e da
tores, com o risco de, através de uma análise sociedade civil, pois é ela que vive e sente os
fragmentada e incompleta, cometer erros de problemas no seu cotidiano. Muitas vezes as
avaliação e dar soluções parciais, desarticula- soluções racionalmente decididas não são ade-
das e incompletas. Dada a interconexão entre quadas à realidade da comunidade. Se a dis-
sistemas, análises parciais podem gerar ações cussão for aberta, as soluções serão mais reais
de conseqüências imprevistas e, às vezes, de- e efetivas e a sociedade, a protagonista da pró-
sagradáveis. É útil ter recortes de um problema pria mudança. A proposta Cidades/Municí-
para equacioná-lo em uma multiplicidade de pios Saudáveis recomenda a participação da
níveis, ter diferentes profissionais trabalhan- população em conselhos municipais, distritais
do para os mesmos objetivos de diferentes ma- e locais que possibilitem a incorporação das
neiras e de modo complementar. Essa tarefa, informações e necessidades aos diagnósticos
entretanto, é difícil de ser viabilizada, mas pos- de situação, que permitam fortalecer o poder
sível dentro de uma perspectiva processual e popular e a participação nas decisões, cons-
gradativa (Westphal, 1999). truindo, junto com os técnicos, uma socieda-
A criação de um Conselho Intersetorial de mais justa e igualitária. As sociedades de
Central para coordenar a elaboração e contro- amigos de bairros, as organizações não-gover-
le do plano da cidade é de suma importância. namentais, os sindicatos de trabalhadores, as
Dele devem participar cidadãos que represen- associações setoriais, com seu conhecimento
tem os diferentes grupos de poder e de inte- empírico, poderão contribuir com os técnicos,
resse da cidade, para que o plano possa repre- ao mesmo tempo em que a população poderá
sentar as necessidades de diferentes grupos, compartilhar dos avanços do conhecimento
ter um caráter intersetorial, ser exeqüível e ter científico, visualizando aspectos técnicos dos
sustentabilidade. problemas em questão (Tones, 1994).
Se a cidade decidisse pertencer ao Movi- Para que isso possa ocorrer, alguns objeti-
mento Cidades Saudáveis, seus poderes exe- vos fundamentais dos projetos Cidades/Mu-
cutivo e legislativo, como já dissemos, deve- nicípios Saudáveis precisam ser considerados:
riam adotar políticas públicas que solucionas- o fortalecimento das organizações comunitá-
sem os problemas apontados por um diagnós- rias, a redistribuição de recursos e de infor-
tico de situação, de forma integrada e interse- mações e a capacitação para a tomada de de-
torial, para que as medidas fossem interrela- cisões dos setores marginalizados. Por outro
cionadas e efetivas. De qualquer forma, nas lado, é também necessário formar grupos de
modernas democracias, as políticas nem sem- pressão para abertura do aparato estatal ao
pre são selecionadas, elaboradas e adotadas ra- controle do cidadão e para o fomento da dis-
cionalmente. Sempre ocorre uma mediação cussão da reforma política, com a revisão dos
no processo de interação e negociação entre critérios para formação de partidos políticos
os atores que acompanham a definição de po- e dos processos eleitorais.
líticas. Esses atores estabelecem seu foco de O último aspecto da estratégia é a reorien-
atuação a partir de argumentação, críticas, tação dos serviços de saúde no sentido de am-
idéias preconcebidas, negociações e interes- pliar o acesso eqüitativo aos serviços e progra-
ses. Há sempre um conflito latente entre os mas, incrementando atividades preventivas e
que são oposição e os que são ‘situação’ no go- promocionais. Esse é um problema sério e
verno, interferindo até mesmo na elaboração complexo que faz parte desta discussão, mas
da agenda de assuntos a discutir e na criação que optamos por não aprofundar aqui (Wes-
de políticas para atendê-los. Há necessidade tphal, 1997).
de buscar aliados – governo, partidos políti-
cos ou outros atores – para as propostas que
envolvem interesses relativos à saúde (Gou- Avaliação de projetos
mans, 1997). O apoio dos outros níveis do go- Cidades/Municípios Saudáveis
verno é também fundamental, para que haja
um reforço para garantir uma certa raciona- A experiência européia e canadense de acom-
lidade do processo e para que não se tomem panhamento e avaliação dos projetos de Cida-
48
Westphal, M. F.

des/Municípios Saudáveis e a experiência so- A experiência brasileira:


litária dos municípios latino-americanos que possibilidades e desafios
estão desenvolvendo suas propostas têm de-
monstrado a necessidade de desenvolver me- No Brasil, o Movimento Cidades Saudáveis co-
todologias e instrumentos que permitam evi- meça a ter visibilidade a partir do final da dé-
denciar os resultados obtidos e a troca de re- cada de 1980, e principalmente na universi-
sultados e experiências. dade, ou melhor, nas escolas de Saúde Pública
Vários grupos têm se reunido no Brasil e do Brasil, a partir de meados da década de
nos demais países da América Latina para dis- 1990.
cutir referenciais teóricos para avaliação e en- Os municípios têm sido o lugar privilegia-
caminhamentos da questão. A idéia é construir do para a implementação de estratégias de saú-
uma concepção ampla, clara e compartilhada de e isso foi oficialmente reconhecido na lei
de Promoção de Saúde e de Cidades/Municí- 8.080 que regulamentou o Sistema Único de
pios Saudáveis, assim como um processo par- Saúde (SUS) e pelo movimento dos secretá-
ticipativo de avaliação. rios municipais de saúde.
O primeiro passo é assumir um marco con- A expressão pública do interesse da socie-
ceitual do que seja qualidade de vida, confor- dade representativa dos secretários munici-
me já discutimos anteriormente, e que seja pais de Saúde (Conasems) pela proposta de
passível de mensuração. Cidades/Municípios Saudáveis foi o encontro
Para que se possa conceber avaliação co- de Fortaleza, em 1995, quando, ao final, ela-
mo um processo formativo dos municípios e borou-se uma carta de intenções – a Carta de
de seus atores é necessário assumir a exigên- Fortaleza. Os governos locais, municipais, fo-
cia e a complexidade do trabalho participati- ram designados como responsáveis pela gera-
vo, de construção coletiva e definição conjun- ção de qualidade de vida para os povos das
ta de variáveis e indicadores a utilizar (OPAS, Américas, baseados em um novo enfoque na
1999). É preciso também considerar os aspec- produção social da saúde e na construção da
tos tradicionais de uma avaliação de projetos, cidadania. Mencionaram, no documento, as
a modificação e obtenção de estruturas nos di- experiências canadenses de cidades saudáveis,
ferentes setores para o funcionamento do pro- lembrando que é possível deslocar progressi-
jeto, o processo que foi ou tem sido desenvol- vamente a ênfase na doença para integrar a
vido para a obtenção de resultados relaciona- importância da qualidade de vida, onde o
dos às políticas públicas saudáveis, participa- principal ator é o cidadão inserido em seu
ção social, intersetorialidade, criação de am- ecossistema e que a municipalização da saúde
bientes saudáveis e sustentabilidade. pode caminhar a partir de sua experiência in-
Em termos metodológicos, é necessário que tegradora, participativa e criativa para a cons-
se integrem enfoques qualitativos e quantita- trução da Cidade/Município Saudável (Carta
tivos para dar conta da subjetividade do con- de Fortaleza, 1995).
ceito de qualidade de vida já mencionado e de Desde então, várias propostas dentro do
seus aspectos objetivos, expressos muito deles referencial de cidades saudáveis começaram a
em termos monetários. Embora reconhecen- ser incentivadas pela OPAS e colocadas em
do a complexidade da avaliação, não se deve prática em vários estados, com apoio dos se-
medir esforços para simplificá-la, para torná- cretários municipais envolvidos na elabora-
la acessível a todos os tipos de municípios e a ção da Carta: Paraná, São Paulo, Rio Grande
todas as camadas da população que desejam do Sul, Minas Gerais e Alagoas.
se envolver no processo, para que se apropriem A partir de 1997, vêm se articulando a
dele e de seus resultados. OPAS, a Universidade de São Paulo, a Secre-
Várias reuniões têm sido realizadas para taria de Políticas do Ministério da Saúde e o
discutir esse aspecto fundamental para os Conselho Estadual de Secretários Municipais
avanços do movimento em toda a América La- de Saúde e foram promovidos, em conjunto,
tina. O Brasil tem participado decisivamente, fóruns de sensibilização para prefeitos. O ob-
divulgando o resultado dos estudos realizados jetivo dos fóruns tem sido o de sensibilizar os
sobre suas experiências (OPAS, 1999). dirigentes municipais para reorientar o mo-
delo de desenvolvimento e de gestão, com ba-
se no conceito de Cidades/Municípios Saudá-
veis, Agenda 21 e outros semelhantes, para for-
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Ciência & Saúde Coletiva, 5(1):39-51, 2000


jar um pacto social que ofereça suporte às al- ciedade civil, onde a participação dos cidadãos
ternativas de solução à crise de sustentabili- e de suas representações coletivas são conce-
dade (Guimarães, 1999). A focalização multi- bidas como fundamentais (Souto,1995).
fatorial dos problemas de saúde, conforme a Entretanto, cabe ressaltar a fragilidade des-
essência da proposta, bem como o comprome- sas experiências, como outras que tentam ino-
timento do governo local são centrais para es- var a relação Estado/sociedade civil, como as
te tipo de projeto. de implementação da Agenda 21, orçamento
Outras reuniões nacionais ocorreram, em participativo e outras. Elas têm tido dificul-
Sobral (CE) em 1998, e em São Paulo, em 1999, dade de assimilar um novo modelo de desen-
com o objetivo de discutir com os prefeitos volvimento, mais participativo e intersetorial.
envolvidos em projetos desta natureza a opor- Há uma contradição básica entre a integrali-
tunidade da formação da Rede Brasileira de dade pretendida e a fragmentação imposta pe-
Municípios Saudáveis, estimulando a troca de la lógica das administrações municipalizadas,
experiências e o apoio mútuo entre os respon- centralizadas e setorizadas, apesar da certa do-
sáveis, com o intuito de colocar saúde na agen- se de reforma do Estado, já mencionada, que
da dos governos locais e no processo de toma- tem levado a efeito, a partir do processo ini-
da de decisões, para que sejam atingidos os de- ciado. Sofrem permanente descontinuidade
terminantes sociais, ambientais e econômicos por falta de vontade política dos governos lo-
dos problemas de saúde (Westphal, Motta & cais e da pequena mobilização popular em re-
Bogus, 1998; Carta de Sobral, 1998). lação a esse projeto coletivo, que implica uma
Dezenove municípios já estiveram discu- nova lógica de trabalho no aparato de um go-
tindo e tentando desenvolver a experiência; verno municipal, estadual e federal. (Motta &
atualmente estão em funcionamento treze Westphal, 1998)
projetos em treze municípios de diferentes re- O mais difícil é que se exige ainda um rom-
giões do país. Hoje, no Brasil, apesar da situa- pimento com a tradição, com a cultura polí-
ção difícil em função do processo de descen- tica clientelista, com uma já determinada es-
tralização e democratização do processo de trutura de poder, em favor da mudança das
gestão, está-se formando uma nova cultura condições de vida da cidade e do cidadão que
política, e é inegável a contribuição das expe- nela habita. Esses processos de mudança na
riências de gestão municipal (Motta & Wes- cultura política, que envolvem a criação de
tphal, 1998). múltiplos mecanismos de participação, reque-
Há uma diversidade de ações que estão rem tempo e novas condições para se desen-
sendo realizadas em algumas cidades, com ca- volver. Temos vivido o autoritarismo e o clien-
racterísticas bastante inovadoras. Muitas das telismo há quinhentos anos e não será em um,
experiências procuram desenvolver progra- dois ou quatro que conseguiremos mudar es-
mas em parceria com a sociedade civil, em que ta realidade. São necessários outros mecanis-
o foco não está exclusivamente na área de saú- mos, além de criar espaços de negociação, pa-
de, mas na promoção de saúde como um con- ra garantir uma relação viva e dinâmica do po-
junto de ações intersetoriais. der público com a sociedade civil, tais como a
Ainda que as experiências sejam limitadas informação e a capacitação da sociedade civil
a um pequeno número de municípios, elas para elaborar diagnósticos críticos, para for-
chamam a atenção pelas inovações e estão mular propostas e para aumentar gradativa-
construindo um novo paradigma sobre a arte mente seu poder de negociação.
de governar. Têm, mesmo que de forma limi- A questão de recursos também é impor-
tada, construído esferas públicas não-estatais, tante, e uma das formas de promover a redis-
espaços de negociação em que se tornam pú- tribuição da renda é envolver toda a sociedade
blicas as propostas, os atores e os interesses civil na resolução dos problemas, incluindo a
que disputam os recursos municipais e o aten- participação das empresas, das organizações
dimento de suas necessidades e objetivos. É não-governamentais para a construção do pro-
possível reconhecer que, através desses proje- jeto. Existe ainda na população e no próprio
tos, está ocorrendo um tipo de reforma de Es- Estado, representado pelos poderes munici-
tado nos municípios, que opõe à centraliza- pais, a idéia arraigada de que todos os recur-
ção do poder, em mãos do prefeito, ao segredo sos devem vir do Estado. Não há ainda um sen-
burocrático, o discurso da competência técni- timento de responsabilidade coletiva pelos
ca como condição para a participação da so- problemas e de estabelecimento de parcerias
50
Westphal, M. F.

e alianças entre os diferentes setores e segmen- pectiva de Cidades Saudáveis e têm tido resul-
tos da sociedade. O medo da cooptação, o con- tados relevantes.
flito capital-trabalho, tão incorporado pelos Para metrópoles como São Paulo, progra-
dois segmentos, burguesia e proletariado, tem mas com ações de ‘larga escala’ e de desenvol-
dificultado a busca da solidariedade para a vimento local são necessários. Tóquio, no Ja-
produção social da saúde. pão, que está longe de ser saudável, já está se
Outro aspecto que as avaliações têm de- preparando para enfrentar os problemas do
monstrado é que os projetos Cidade/Municí- terceiro milênio com armas mais eficientes. A
pios Saudáveis são estratégias efetivas, mas a estratégia de Cidades Saudáveis já está em cur-
longo prazo. A racionalização dos recursos e so na região metropolitana da capital daquele
a escolha adequada das medidas, assim como país. A questão da poluição ainda não está re-
o trabalho intersetorial, têm efeito sinérgico solvida, nem mesmo a do transporte coletivo,
na resolução de problemas. As experiências ca- mas o processo já está iniciado e os problemas
nadense, européia, de alguns países da Amé- aos poucos se resolvendo, com a participação
rica Latina, e agora também em algumas cida- da sociedade civil (Sanderson, 1996).
des do Paraná e São Paulo, têm demonstrado É importante lembrar, ainda mais uma vez,
que a proposta de Cidades Saudáveis é possí- que o fundamento político da sustentabilida-
vel, eficiente, mas que só é viável politicamen- de encontra-se estreitamente vinculado ao
te, com dirigentes estatais comprometidos com processo de fortalecimento da democracia e
a causa social, com a qualidade de vida da po- da construção da cidadania. Isso significa a in-
pulação (Strozzi & Giacomini, 1996). corporação plena dos indivíduos no processo
Muitos problemas relacionados à poluição de desenvolvimento, que se resume, no nível
do ar, recuperação do meio ambiente e trans- micro, à democratização da sociedade civil, e
porte urbano têm sido objeto de ações na pers- no nível macro, à democratização do Estado.

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