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Clarice Lispector (Brasil)

Tempestade de almas

Ah, se eu sei, não nascia, ah, se eu sei, não nascia. A loucura é vizinha
da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente.
O anel que tu me deste era de vidro e se quebrou e o amor não acabou, mas
em lugar de, o ódio dos que amam. A cadeira me é um objeto. Inútil enquanto
a olho. Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou vivendo
nesta hora. A criatividade é desencadeada por um germe e eu não tenho hoje
esse germe mas tenho incipiente a loucura que em si mesma é criação válida.
Nada mais tenho a ver com a validez das coisas. Estou liberta ou perdida.
Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal. Nós mantemos esse segredo em
mutismo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada
instante mortal. O objeto cadeira sempre me interessou. Olho esta que é
antiga, comprada num antiquário, e estilo império; não se poderia imaginar
maior simplicidade de linhas, contrastando com o assento de feltro vermelho.
Amo os objetos à medida que eles não me amam. Mas se não compreendo o
que escrevo a culpa não é minha. Tenho que falar pois falar salva. Mas não
tenho uma só palavra a dizer. As palavras já ditas me amordaçaram a boca. O
que é que uma pessoa diz à outra? Fora "como vai?" Se desse a loucura da
franqueza, que diriam as pessoas às outras? E o pior é o que se diria uma
pessoa a si mesma, mas seria a salvação, embora a franqueza seja
determinada no nível consciente e o terror da franqueza vem da parte que tem
no vastíssimo inconsciente que me liga ao mundo e à criador inconsciência do
mundo. Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete esta
tarde triste que uma palavra humana salvaria.
Abro bem os olhos, e não adianta: apenas vejo. Mas o segredo, este não
vejo nem sinto. A eletrola está quebrada e não viver com música é trair a
condição humana que é cercada de música. Aliás, música é uma abstração do
pensamento, falo de Bach, de Vivaldi, de Haendel. Só posso escrever se estiver
livre, e livre de censura, senão sucumbo. Olho a cadeira estilo império e dessa
vez foi como se ela também me tivesse olhado e visto. O futuro é meu
enquanto eu viver. No futuro vai ter mais tempo de viver, e, de cambulhada
escrever. No futuro, se diz: se eu sei, eu não nascia. Marli de Oliveira, eu não
escrevo cartas pra você porque só sei ser íntima. Aliás eu só sei em todas as
circunstâncias ser íntima: por isso sou mais uma calada. Tudo o que nunca se
fez, far-se-á um dia? O futuro da tecnologia ameaça destruir tudo o que é
humano no homem, mas a tecnologia não atinge a loucura; e nela então o
humano do homem se refugia. Vejo as flores na jarra: são flores do campo,
nascidas sem se plantar, são lindas e amarelas. Mas minha cozinheira disse:
mas que flores feias. Só porque é difícil compreender e amar o que é
espontâneo e franciscano. Entender o difícil não é vantagem, mas amar o que
é fácil de se amar é uma grande subida na escala humana. Quantas mentiras
sou obrigada a dar. Mas comigo mesma é que eu queria não ser obrigada a
mentir. Senão, o que me resta? A verdade é o resíduo final de todas as coisas,
e no meu inconsciente está a verdade que é a mesma do mundo. A Lua é,
como diria Paul Éluard, éclatante de silence. Hoje não sei se vamos ter Lua
visível pois já se torna tarde e não a vejo no céu. Uma vez eu olhei de noite
para o céu circunscrevendo-o com a cabeça deitada para trás, e fiquei tonta de
tantas estrelas que se vêem no campo, pois, o céu do campo é limpo. Não há
lógica, se se for pensar um pouco, na ilogicidade perfeitamente equilibrada da

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natureza. Da natureza humana também. O que seria do mundo, do cosmos, se
o homem não existisse. Se eu pudesse escrever sempre assim como estou
escrevendo agora eu estaria em plena tempestade de cérebro que significa
brainstorm. Quem terá inventado a cadeira? Alguém com amor por si mesmo.
Inventou então um maior conforto para o seu corpo. Depois os séculos se
seguiram e nunca mais ninguém prestou realmente atenção a uma cadeira,
pois usá-la é apenas automático. É preciso ter coragem para fazer um
brainstorm: nunca se sabe o que pode vir a nos assustar. O monstro sagrado
morreu: em seu lugar nasceu uma menina que era sozinha. Bem sei que terei
de parar, não por causa de falta de palavras, mas porque essas coisas, e
sobretudo as que eu só pensei e não escrevi, não se usam publicar em jornais.

in "Onde estivestes de noite" - 7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro


- 1994

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