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5 Elasticidade e a sua aplicação

A elasticidade é uma medida de quanto os vendedores e compradores reagem a alterações


das condições de mercado, que nos permite analisar oferta e procura com maior precisão.

5.1 A Elasticidade de Procura


No capı́tulo 4 discutimos a procura de uma forma qualitativa. Isto é, discutimos a di-
recção das deslocações/alterações, mas não o tamanho das variações. Para medir quanto
a procura responde a variações nos seus determinantes, os economistas usam o conceito de
elasticidade.

Elasticidade
uma medida da sensibilidade da quantidade procurada ou oferecida a um dos
seus componentes.

5.1.1 A elasticidade-preço da procura e os seus determinantes

Elasticidade-preço da procura
uma medida de quanto a quantidade procurada de um bem responde a uma
variação no preço desse bem.

Formalmente,
∆Q
∆% na quantidade procurada Q ∆Q p
D
p = = ∆p
= , (1)
∆% no preço p
∆p Q

onde ∆% significa variação percentual.


A procura de um bem é elástica se a quantidade procurada varia substancialmente com
variações no preço.
A procura de um bem é inelástica se a quantidade procurada varia ligeiramente com
variações no preço.
O que é que determina a elasticidade-preço da procura? As preferências, que por sua
vez dependem de um conjunto de factores económicos, sociais e psicológicos. Contudo, em
termos gerais podemos seguir as seguintes regras de determinação da elasticadade-preço
procura:

1
1. Necessidades vs Luxos – Necessidades tendem a ter procuras inelásticas, enquanto
os luxos têm procuras elásticas. Ex. As procuras de pão, medicamentos são tipica-
mente pouco elásticas. Já as procuras por carros, espectáculos culturais e desportivos
são elásticas. Já tinhas pensado porque é que ir ao cinema à segunda-feira é mais
barato? Porque é que os comerciantes não fazem o mesmo com o pão?

2. Disponibilidade de Substitutos Próximos – Bens com substitutos (próximos)


tendem a ter uma procura mais elástica. Ex. Gasolina não tem um substituto óbvio
para condutores de veı́culos a gasolina. O substituto mais próximo talvez seja o
transporte público. Arroz e batata são substitutos, assim se aumentar o preço de um
deles é natural que a procura por esse bem diminua substancialmente.

3. Definição do Mercado – A elasticidade de procura em qualquer mercado depende


de como são definidas as fronteiras do mercado. Ex. Gasolina vs Gasóleo vs Gás (vs
Electricidade) torna a procura de gasolina mais elástica do que no caso acima, mas
já não estamos a falar do mercado de proprietários de veı́culos a gasolina.

4. Horizonte Temporal – Os bens tendem a ter uma procura mais elástica em ho-
rizontes temporais mais longos. Ex. Gasolina. Se o preço aumentar muito, nos
primeiros meses a procura pode não se alterar muito, mas à medida que os consumi-
dores ajustam os meios de locomoção (gasóleo, gás, carros com consumos inferiores)
a procura por gasolina pode cair substancialmente.

5. Montante Gasto – A procura tende a ser mais elástica quando os gastos do con-
sumidor no produto são substanciais (em valor nominal ou como uma fracção dos
gastos totais).

5.1.2 Calcular a elasticidade-preço de procura

Nota: No livro na referência o autor reporta sempre o valor absoluto da elasticidade. Nós
vamos (tentar) seguir essa regra.
Exemplo:
⇑ P Gas de 10% ⇒ ⇓ DGas de 20%. Em rigor a elasticidade, seria

∆Q ∆p
D
p = / = −20/10 = −2,
Q p

mas nós vamos dizer que a elasticidade é 2.


Assim, quanto maior for a elasticidade, mais sensı́vel é a quantidade procurada ao
preço.

2
5.1.3 O método do ponto médio

Dados os seguintes dois pontos de uma curva da procura

Ponto Preço Quantidade


A 4 120
B 6 80

se calculares a elasticidade:
∆P ∆Q |D
p |
De A para B (6-4)/4=0.5 (80-120)/120 = -0.33 0.66
De B para A (4-6)/6=-0.33 (120-80)/80 = 0.5 1.5

Uma forma de evitar este tipo de problema é usar o método do ponto médio. Formal-
mente,

∆Q Q2 −Q1
Q (Q2 +Q1 )/2
D
p = ∆p
= p2 −p1 . (2)
p (p2 +p1 )/2

No exemplo acima, os pontos médios são (6+4)/2 = 5 e (120+80)/2 = 100. Assim, a


elasticidade calculada por este método dá:

∆P/Pmedio ∆Q/Qmedio |D


p |
De A para B (6-4)/5=0.4 (80-120)/100 = -0.4 1
De B para A (4-6)/5=-0.4 (120-80)/100 = 0.4 1

Exactamente o mesmo valor!

5.1.4 A variedade de curvas da procura

Os economistas classificam as curvas da procura de acordo com as suas elasticidades.

1. Elásticas – D
p > 1

2. Inelásticas – D
p < 1

3. Elasticidade Unitária – D
p = 1

4. Perfeitamente Elásticas – D
p = ∞

5. Perfeitamente Inelásticas – D
p = 0

(Ver Figura 5.1 no livro).

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5.1.5 Receita total e a elasticidade-preço da procura

Uma variável de interesse quando estudamos mudanças na oferta e procura é a receita


(rendimento) total, P xQ.

Curva P P.Q
Inelástica D
p < 1 ↑ (↓) ↑ (↓)

Elástica D
p > 1 ↑ (↓) ↓ (↑)

Unitária D
p = 1 ↑ (↓) –

Tabela 1: Elasticidade vs. Receita Total

Quanto é que a receita varia quando nos movemos ao longo da curva da procura? A
resposta depende do valor da elasticidade-preço da procura! Na Tabela 1 para variações
no preço a diferentes nı́veis de elasticidade verificamos que os efeitos na receita total são
diferentes.
Matematicamente,

∆(P.Q) = P ∆Q + Q∆P
∆(P.Q) ∆Q
= P +Q (3)
∆P ∆P
∆(P.Q) ∆Q P
= +1
Q∆P ∆P Q
∆(P.Q)
= D
p +1
Q∆P

Assim, como sugerido na Tabela 1, confirmamos que as variações da receita total de-
pendem da elasticidade-preço procura. Em termos de implicações para a receita total, o
ponto de inversão é dado por D
p = −1.

5.1.6 Elasticidade e receita total ao longo de uma curva linear de procura

Embora a inclinação de uma curva de procura linear seja constante, a elasticidade não é.
A razão é que a inclinação é o rácio das variações de duas variáveis, enquanto a elasti-
cidade é o rácio de variações percentuais de duas variáveis.
A Figura 1 ilustra a variação da elasticidade ao longo de uma curva de procura linear.
A Tabela 2 complementa a informação gráfica.

4
P

7 D
p > 1
6

3 D
p < 1
2

0 Q
2 4 6 8 10 12 14

Figura 1: Curva da Procura Linear

P Q P xQ ∆%P ∆%Q D
p Tipo
7 0 0
15 200 13.0 Elástica
6 2 12
18 67 3.7 Elástica
5 4 20
22 40 1.8 Elástica
4 6 24
29 29 1.0 Unitária
3 8 24
40 22 0.6 Inelástica
2 10 20
67 18 0.3 Inelástica
1 12 12
200 15 0.1 Inelástica
0 14 0

Tabela 2: Curva de Procura Linear, Elasticidade e Receita

Case Study
Problemas financeiros num museu. O que fazer? Aumentar ou baixar o preço
de admissão? Reposta: Calcular a elasticidade; depois decidir a polı́tica de
preços. Como calcular a elasticidade na realidade? Com métodos estatı́sticos
que podem usar:(i) dados passados sobre as entradas a diferentes preços; (ii)
recolher dados junto de outros museus com preços diferentes. Nota: O método
estatı́stico teria que ter em conta outros factores, como, por exemplo, tempo,
tamanho da colecção.

5.1.7 Outras elasticidades de procura

Elasticidade-rendimento da procura
uma medida de quanto a quantidade procurada de um bem responde a uma
variação no rendimento dos consumidores.

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Formalmente,

∆Q/Q
D
y = . (4)
∆Y /Y

onde Y abrevia rendimento.


Os bens normais têm elasticidades-rendimento da procura positivas, i.e., aumenta a
procura quando aumenta o rendimento. Os bens inferiores têm elasticidades-rendimento
da procura negativas.
Entre os bens normais a elasticidade-rendimento da procura varia substancialmente.
Necessidades (primárias), por exemplo comida e roupa, tendem a ter elasticidades rendi-
mento baixas. Bens de luxo, por exemplo carros topo de gama, casacos de pele, tendem a
ter elasticidades-rendimento substanciais.

Elasticidade-cruzada de preços da procura


uma medida de quanto a quantidade procurada de um bem responde a uma
variação no preço de outro bem.

Formalmente,

A ∆QA /QA
D
PB = . (5)
∆PB /PB

Bens substitutos têm elasticidades-cruzadas positivas.


Bens complementares têm elasticidades-cruzadas negativas.

5.2 Elasticidade de Oferta

Elasticidade-preço da oferta
uma medida de quanto a quantidade oferecida de um bem responde a uma
variação no preço desse bem.

Formalmente,
∆Q
∆% na quantidade oferecida Q ∆Q p
Sp = = ∆p
= . (6)
∆% no preço p
∆p Q

A oferta de um bem é elástica se a quantidade oferecida varia substancialmente com


variações no preço.
A oferta de um bem é inelástica se a quantidade oferecida varia ligeiramente com
variações no preço.

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A elasticidade de oferta de um depende da flexibilidade dos vendedores para mudarem
a quantidade produzida. Ex. Visitas ao Empire State building; há um número pré-definido
de elevadores. Assim, a oferta é inelástica. Já as produções de livros, carros, cereais têm
ofertas elásticas.
Um determinante chave da elasticidade de oferta é o perı́odo de tempo considerado. A
oferta é tipicamente mais elástica no longo prazo.
Como no caso da procura, as curvas da oferta também são classificadas de acordo com
a elasticidade.

1. Elásticas – Sp > 1

2. Inelásticas – Sp < 1

3. Elasticidade Unitária – Sp = 1

4. Perfeitamente Elásticas – Sp = ∞

5. Perfeitamente Inelásticas – Sp = 0

Nalguns mercados a elasticidade de oferta não é constante, mas varia ao longo da curva.
Figure 2 ilustra um caso tı́pico de uma indústria composta por empresas com capacidade
limitada de produção.

P
15
Elasticidade < 1 
12

Elasticidade > 1
4 6

100 200 500 525 Q

Figura 2: Curva da Oferta Tı́pica

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5.3 Três Aplicações de Oferta, Procura e Elasticidade
Vamos agora aplicar a casos concretos os conceitos estudados até aqui. Deves procurar
fazer este tipo de análise para outros casos que nos rodeiam.

5.3.1 Podem boas notı́cias para a agricultura ser más notı́cias para os agri-
cultores?

Inovação tecnológica.

O que implica? Passos a seguir na análise:

1. Efeitos em termos de S e D;

2. Elasticidade? Elástica ou inelástica?

3. Efeitos na receita total.

4. Porque é que os agricultores não alteram o seu comportamento? Que tipo de mercado
é o agrı́cola?

5.3.2 Como é que a OPEC não manteve o preço do petróleo alto?

Factos históricos:

ˆ De 1973 para 1974 o preço do barril de petróleo aumentou +50%.

ˆ Em 1979 aumentou 14%.

ˆ Em 1980 aumentou 34% e em 1981 voltou a aumentar 34%.

ˆ De 1982 a 1985 caiu 10% ao ano.

ˆ Em 1986 caiu 45%.

ˆ Em 1990 o preço ajustado pela inflação estava ao nı́vel de 1970.

Análise do comportamento do preço do petróleo. O factor tempo desempenha um papel


primordial. Elasticidade de curto e longo prazo.

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5.3.3 A proibição de drogas aumenta ou diminui o crime relacionado com a
droga?

ˆ Governo americano gasta milhares de milhões de dólares por ano no combate à droga.

ˆ Suponhamos que aumenta o número de agentes federais nas ruas a combater o tráfico
de drogas.

ˆ Estudar efeitos no preço e quantidade de equilı́brio.

ˆ Efeitos na receita total (Depende da?).

ˆ Efeitos no crime relacionado com as drogas? Resposta depende da elasticidade.

ˆ Combate pelo lado da oferta. Se o combate for feito pelo lado da procura? Efeito no
crime?

ˆ Combate pelo lado da oferta, efeitos no longo prazo?

Referências
ˆ Mankiw, N. Gregory, 2002, “Principles of Economics”, Harcourt College Publishers,
2nd Edition.