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I FÓRUM BRASILEIRO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM


CIÊNCIA POLÍTICA
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
21 A 23 DE OUTUBRO DE 2009

A ECONOMIZAÇÃO DA POLÍTICA EXTERNA RUSSA

Autor: Gabriel Pessin Adam


Instituição: UFRGS
Titulação: Doutorando
Email: Gabriel.pessin@gmail.com
2

A ECONOMIZAÇÃO DA POLÍTICA EXTERNA RUSSA

O desmembramento da União Soviética, ocorrido em dezembro de 1991, está


prestes a completar duas décadas. Neste período de tempo relativamente curto, a
Federação Russa foi impactada por relevantes transformações. Nos anos 1990, a
imediata perda de metade de seu território e de grande parte de sua população com o fim
do estado comunista foi seguida por crises institucionais, políticas, econômicas, sociais
e até mesmo identitárias. No plano externo, de superpotência1 em uma ordem bipolar, a
Rússia se viu reduzida a um papel claramente secundário no jogo de forças global. A
entrada no século XXI trouxe novas mudanças ao país, menos profundas, é verdade,
mas igualmente significativas. Internamente, as reformas econômicas e políticas
liberalizantes do Governo Yeltsin foram freadas e, em alguma medida, revertidas. No
tocante à posição da Rússia na arena internacional, o país conseguiu recuperar parte do
prestígio perdido, sedimentando sua posição de grande potência e de líder no espaço
pós-soviético (região formada pelos países que um dia pertenceram à URSS).
Não obstante ser inegável a magnitude e a intensidade do processo vivido pela
Rússia como um todo, o presente trabalho centrará o seu foco na política externa do
Governo Putin (2000 a 2008), mais precisamente na estratégia adotada no período, a
qual pode ser denominada de “economização da política externa russa”. A razão do
recorte realizado reside no caráter inédito do caminho escolhido pelo Kremlin para que
a Rússia conseguisse retomar um papel de destaque no cenário global, bem como nos
resultados atingidos. A análise acerca da diretriz da política externa russa referida gera
alguns questionamentos, tais como: por que ela foi adotada pelo Governo Putin? Quais
os objetivos russos nos âmbitos doméstico e sistêmico? Os seus resultados foram os
almejados? As respostas a questões (ainda que eventualmente incompletas e parciais)
constituem o objetivo a ser alcançado.

1
O conceito de superpotência utilizado é este: Estado que possui exército de ponta, liderança política e
uma economia que financie a ambos. Seus interesses são globais. Grande potência: Estado que não reúne
todas as condições de uma superpotência, mas que ainda assim possui ou um exército ou uma economia
forte que lhe garanta certo poder político. Seus interesses saem das fronteiras da região em que está
estabelecido, mas não são globais. O Estado precisa enxergar a si e ser visto pelos outros como grande
potência (BUZAN e WAEVER, 2003,p. 34)
3

Na medida em que o conceito de economização da política externa russa não é


de uso amplamente difundido, impende que a primeira parte do trabalho seja destinada à
clarificação da estratégia em voga, ou seja, sobre que bases ela foi imaginada e quais
eram as suas metas. Cumpre destacar que nesta seção será possível estabelecer diálogo
com os trabalhos de Giovanni Arrighi e Ellen Wood.
Demonstrado o que se entende por economização da política externa russa,
será verificado o contexto (nacional e internacional) no qual ela foi fomentada. A
hipótese com a qual se trabalha é a de que nos anos que antecederam a eleição de Putin
à presidência russa houve uma mescla de condicionantes internos e externos que
contribuíram para que a economização referida ocorresse, assim como a justificaram à
sociedade e ao próprio Kremlin. Na seção posterior, serão apontadas algumas medidas
adotadas pelo governo russo, para então ingressar-se no debate sobre os resultados da
economização aludida. Cabe, por ora, adiantar que eles não foram completamente
atingidos, em especial no plano interno. Esta derradeira seção avança sobre o Governo
de Dmitri Medvedev, presidente russo eleito em março de 2008, portanto no cargo
durante a crise financeira mundial ocorrida no mesmo ano.

1. A ESTRATÉGIA DE ECONOMIZAÇÃO DA POLÍTICA EXTERNA


E OS OBJETIVOS RUSSOS

Como asseverado anteriormente, a economização foi uma estratégia de política


externa empregada pela Rússia durante o governo de Vladimir Putin. Sendo uma
estratégia, ela nada mais é do que um meio para se alcançar um fim, no caso os
objetivos da Federação Russa perante o sistema internacional e a sua própria sociedade.
Por certo, a sua adoção estava lastreada em uma determinada compreensão por parte dos
governantes acerca das capacidades e fraqueza do país, das metas que deviam ser
almejadas pela Rússia e da leitura que fizeram da conformação do cenário internacional
em dado momento. O que se pretende demonstrar a seguir é justamente como tais
percepções justificaram e embalaram a política externa russa no Governo Putin.
Antes de adentrar no cerne do debate sobre a economização empreendida pelo
Kremlin, cabe trazer a tona alguns conceitos trabalhados por Giovanni Arrighi e Ellen
Wood. Na sua obra “O Longo Século XX”, Arrighi estabelece uma teoria dos ciclos
4

sistêmicos de acumulação capitalista para tentar entender as hegemonias do sistema


mundial. Ao procurar explicar a natureza evolutiva do sistema mundial e a contradição
entre a acumulação de capital e a existência de organizações estáveis do espaço político,
o autor estabelece duas categorias relevantes. São elas: lógica de poder capitalista e
lógica de poder territorialista. A primeira, segundo Arrighi, é vislumbrada em Estados
que “identificam o poder com a extensão e a densidade populacional de seus domínios,
concebendo a riqueza/o capital como um meio ou subproduto da busca de expansão
territorial” (ARRIGHI, 2003, p. 33). Por seu turno, a lógica de poder capitalista está
presente em Estados que “identificam o poder com a extensão de seu controle sobre os
recursos escassos, e consideram as conquistas territoriais um meio e um subproduto da
acumulação de capital” (ARRIGHI, 2003, p. 33). Há uma diferença quanto aos
objetivos dos Estados pertencentes a uma e outra categoria. De acordo com o autor, “na
estratégia territorialista, o controle do território e da população é o objetivo da gestão do
Estado e da guerra, enquanto o controle do capital circulante é o meio. Na estratégia
capitalista, a relação entre meios e fins se inverte: o controle do capital circulante é o
objetivo, enquanto o controle do território e da população é o meio” (ARRIGHI, 2003,
p. 34). É possível estabelecer uma ligação entre o trabalho de Arrighi e o Ellen Wood no
ponto em que esta aborda a diferença entre o imperialismo baseado no capital e o
imperialismo colonial. Wood sustenta que no último tipo ocorre a dominação física do
território por parte dos Estados imperialistas, que para tanto utilizam principalmente
métodos de coerção extra-econômicos. Já no imperialismo baseado no capital, a
dominação é exercida por meios econômicos, sendo utilizada a “arma” da dívida
interestatal. Para a autora, a hegemonia econômica do capital pode alargar muito mais
os limites da dominação política direta (WOOD, 2005, p. 12). No período soviético (e
nos impérios czaristas), claramente a Rússia possuía uma lógica territorialista e o cerne
a dominação exercida balizava-se principalmente em meios extra-econômicos, cabendo
investigar, então, qual lógica guiou o país após o fim da URSS.
Vladimir Putin foi eleito presidente da Federação Russa no mês de março de
2000. Anteriormente, em agosto de 1999, havia sido nomeado primeiro-ministro, e
quando da renúncia de Yeltsin, em 31 de dezembro de 1999, passou a ocupar
temporariamente o cargo de presidente, até a realização das eleições. Ex-agente da FSB,
5

Putin era relativamente desconhecido na Rússia e seu nome nunca chegara a ser
fortemente cogitado para assumir o cargo de primeiro-ministro.
Quando ainda não estava ligado diretamente ao poder federal do país, Putin
escreveu sua tese de doutorado, a qual mais tarde virou um artigo publicado na revista
do St. Petesburg Mining Institute, denominado “Os Recursos Naturais Minerais na
Estratégia para o Desenvolvimento da Economia Russa”2. A idéia principal do artigo de
Putin é a de que os recursos minerais russos, dadas as condições do país, constituíam o
mais importante fator de desenvolvimento do Estado no seu futuro próximo.
Desenvolvimento este que permitiria à Rússia sair da grave crise na qual se encontrava
(com reestruturação de sua economia), bem como restaurar o seu poder em bases
qualitativamente novas (PUTIN, 2006, p. 54) 3. Contudo, o plano de para recondicionar
os ramos de extração e transporte de recursos minerais possuía limitações, como a falta
de investimento em infra-estrutura e o desgaste dos dutos usados para transporte de
petróleo e gás natural4, carências não solucionadas pela iniciativa privada russa. A
solução apontada pelo futuro presidente era a intervenção estatal, tanto para ajudar os
empresários detentores de parte significativa das empresas do setor energético a
chegarem a um compromisso com a sociedade e promover o bem-estar coletivo, quanto
para fomentar o surgimento de “fortes corporações financeiro-industriais estatais”, que
atuariam com força no mercado doméstico e reunissem condições de competir em
termos iguais com as corporações transnacionais do ocidente (PUTIN, 2006, p. 51).
Ainda que não se possa dizer que os rumos da política externa russa foram
unilateralmente determinados por um Vladimir Putin imbuído de uma espécie de ideia
messiânica sobre seu país e o mundo, pois a Rússia, tal qual seus pares, possui grupos
de poder e conflitos na sua elite política, não se pode ignorar que as diretrizes da
economização da política externa empregada podem ser apreendidas no artigo citado.
O elemento central da economização da política externa russa (e do artigo) é a
relação entre o governo russo, os recursos energéticos do país (considerados como
fatores econômicos) e o uso destes no cenário internacional e no âmbito doméstico.

2
Após a nomeação de Putin como Primeiro-Ministro, o acesso à sua tese foi bloqueado. Somente em
2006 foi permitido à revista Problems of Post-Communism publicar a versão em inglês do artigo de Putin,
(BALZER, 2006, p. 48).
3
Putin apresenta os seguintes dados em seu trabalho: o complexo industrial de recursos minerais
representava 50% do PIB russo e 70% das receitas com exportações e serviços.
4
Putin mencionou que 60% dos gasodutos do país já estavam em uso há 20 anos, sendo que a regra é de
que sejam usados durante 33 anos, em média (PUTIN, 2006, p. 51).
6

Quanto ao papel do governo, o Estado deveria ter uma forte participação na economia
russa, especialmente no lucrativo ramo energético. Apenas desta forma seria evitada a
drenagem dos recursos russos para empresários do setor privado, e as distorções sociais
e econômicas dos anos 1990 poderiam ser debeladas.
A proeminência do gás natural e do petróleo na estratégia russa é
compreensível dada a capacidade do país de assumir a condição de superpotência
energética. Senão vejamos: a Rússia detém 26,6% das reservas comprovadas de gás
natural do mundo5, tendo sido calculadas em 47,7 trilhões de metros cúbicos (tmc³) no
ano de 2005, volume que representa quase o dobro das reservas do segundo colocado, o
Irã6. A produção russa em 2005 foi de 640 bilhões de metros cúbicos (bmc³)7, número
que representou um avanço em relação a 2004, quando a produção russa foi de 634
bmc³8. No concernente ao petróleo, os números não são tão expressivos quanto os do
gás natural, mas ainda assim impressionam. A Rússia possui por volta de 10,9 bilhões
de toneladas de reservas comprovadas de petróleo (a maior reserva depois dos países da
OPEP). No ranking dos países exportadores, reassumiu o primeiro lugar em 20079,
ultrapassando a Arábia Saudita, ao produzir, em média, 9,86 milhões de barris de
petróleo por dia10. Afora a tendência russa de ser exportadora de energia, cumpre
lembrar que naquele momento histórico o petróleo e o gás natural eram os principais
produtos russos herdados da URSS que possuíam forte demanda internacional
(WALLANDER, 2004, p. 74).
Todavia, como sinaliza Putin, a comercialização de energia não constituía um
fim em si mesmo. Ela deveria servir a dois objetivos, um voltado para o plano interno,
qual seja, a implementação de reformas econômicas necessárias para que o país se
desenvolvesse de modo efetivo e assim não ficasse refém de suas matérias primas e do
instável mercado mundial de commodities; e outro direcionado ao plano internacional:
retomar o poder perdido após o fim da Guerra Fria.

5
Segundo o Ministério da Energia Russo, suas reservas do produto correspondem a 1/3 do total mundial.
Fonte: Sumário da Estratégia Energética para a Rússia depois de 2020.
6
Fonte: Gazprom. Endereço eletrônico: http://www.gazprom.com/eng/articles/article20150.shtml.
7
Fonte: Gazprom. Endereço eletrônico: http://www.gazprom.com/eng/articles/article24063.shtml.
8
Fonte: Tabela criada com base em dados do Serviço Russo de Estatísticas (STERN, 2005, p. 28).
9
A Rússia havia sido a maior exportadora mundial entre 1898 e 1901 e a URSS entre 1975 e 1991
(GOLDMAN, 2008, p. 11).
10
Fonte: Ria Novosti. Endereço eletrônico: http://en.rian.ru/business/20071217/92281512.html. Último
acesso em 17/12/2007.
7

Vale analisar mais detidamente o vetor externo do uso do petróleo e do gás


natural. A meta de retomar da influência russa no sistema internacional, a fim de que o
país voltasse a ser encarado como uma grande potência e fosse considerado o líder do
espaço pós-soviético está relacionada com a recorrência histórica de um sentimento de
grandeza que grassa na população e nas lideranças russas, sintetizado no termo
derzhavnost, que tem origem na palavra russa para “poder” e não possui tradução
imediata nas línguas ocidentais. Em breves palavras, derzhavnost pode ser traduzido
para “direito” natural russo para desempenhar o papel e exercer a influência de uma
grande potência, correlato com uma preocupação permanente com o declínio do país na
arena internacional (LEGVOLD, 2007, p. 114)11. Portanto, o desejo de retomada do
prestígio internacional, declarado por Putin e sustentado por seu grupo político, estava
em completa consonância com o pensamento profundo do povo russo.
Contudo, se a ambição de poder não era novidade, a forma sugerida para que
ela fosse saciada, ou seja, as “bases qualitativamente novas”, foi, de certo modo,
inovadora. Putin e seu grupo visualizavam no futuro da Rússia a transformação em uma
“grande potência normal”, o que, segundo Bobo Lo, na visão do Kremlin, é um Estado
que compreende a mudança do poder no século XXI e está preparado para conquistá-lo
e exercê-lo. Se, antes, o poderio de um país se media em função de suas capacidades
militares e políticas, no mundo atual, o poderio econômico, tecnológico e cultural é
igualmente fundamental (LO, 2005, p. 59)12. No século XX o conflito soviético-
americano da Guerra Fria estava fortemente calcado na corrida armamentista, na
dissuasão nuclear e na noção de balança de poder. Contudo, nos primeiros anos do
século XXI, Moscou percebeu que na conformação das relações internacionais da época
era impossível a um Estado se tornar uma nova potência sem dispor de uma economia
competitiva, posto que um processo sustentado de acumulação de poder necessita estar
apoiado em uma economia dinâmica, expansiva e ganhadora (FIORI, 2004, p. 50).

11
Dmitri Trenin faz a relação da história com auto-visão russa: “por séculos, a Rússia viu a si mesma
como um mundo em si mesmo, uma Terceira Roma, um universo auto-sustentado. Políticas territoriais,
desde a expansão geográfica até o controle irrestrito de fronteiras eram a chave tanto da vangloriada Idéia
Russa (a qual era basicamente a de um universo imperial), quanto da percepção de uma missão russa no
mundo, bem como da organização política e econômica do Estado russo” (TRENIN, 2001, p. 18).
12
Dmitri Trenin também adota a denominação de Grande Potência Moderna para se referir à Rússia
idealizada por Putin. Segundo o autor, uma potência desta espécie seria “economicamente viável,
tecnologicamente competente, social e culturalmente atrativa e militarmente forte. [...] Uma grande
potência no século XXI deve ser capaz de atuar como uma unidade autônoma num mundo onde há vários
pólos principais de atração” (TRENIN, 2005, p. 06).
8

Retomam-se aqui as ideias de Ellen Wood, posto que seria a utilização de fatores
econômicos que conferiria à Rússia maior capacidade de obter poder e prestígio em
comparação com os meios extra-econômicos, largamente utilizados na história russa.
Ressalte-se que para Moscou a ligação entre economia e expansão de poder é muito
clara, ou seja, o país continua guiado por determinantes geopolíticas muito fortes, o que
mudou foi o método de consecução dos objetivos traçados.
Portanto, a partir do exposto, é possível delinear as principais características da
economização da política externa russa. Seu principal elemento é a utilização de
capacidades econômicas (em especial os recursos energéticos) para angariar poder na
dinâmica interestatal, ao mesmo tempo em que aufere lucros os quais possibilitarão a
reestruturação da economia russa, fato acrescerá ainda mais a sua influência russa no
cenário global, em um ciclo que se retroalimenta. Vale lembrar que a implementação de
tal estratégia exigia uma atuação decisiva do Kremlin na economia, notadamente no seu
ramo energético.
Delineados os objetivos russos perante o sistema internacional no Governo
Putin e as bases da economização da política externa do país, cabe verificar quais eram
os cenários doméstico e internacional que antecederam a eleição de Putin. Com isto, é
possível identificar a realidade fática sobre a qual poderia (ou não) se apoiar a estratégia
do Kremlin. Este é o assunto que será debatido a seguir.

2. ANTECEDENTES: A DÉCADA DE 1990

Conforme já assinalado, eventos ocorridos na sociedade russa, conjugados a


fatos vislumbrados no nível sistêmico, acabaram por fortalecer a estratégia de política
externa adotada a partir dos anos 2000. Entre os fatores internos podem ser citados estão
a crise econômica; as medidas adotadas pelo primeiro-ministro Yevgeni Primakov; a
condução errática das políticas interna e externa por Boris Yeltsin; os conflitos na
Chechênia; além dos próprios recursos energéticos russos. Quanto aos elementos
externos, as atitudes da superpotência remanescente no sistema internacional (Estados
Unidos) e da OTAN; os conflitos nos Balcãs; e ainda a perda de poder militar e
diplomático da Rússia no sistema internacional. Tendo em vista que em muitos
9

episódios envolvendo a Federação Russa houve uma interconexão estreita entre eventos
domésticos e exteriores, cumpre apresentá-los conjuntamente.

2.1. O Governo Boris Yeltsin

O período de Boris Yeltsin na presidência da Federação Russa (1991 a 1999,


quando se afastou voluntariamente do cargo) constitui exemplo da mescla de fatores
sistêmicos e domésticos que permitiram que a faceta centralizadora da política externa
russa do Governo Putin tomasse corpo.
No âmbito internacional, a primeira diretriz de política externa russa, levada a
cabo pelo Ministro das Relações Exteriores Andrei Kosyrev, foi a aproximação com as
potências ocidentais. Acordos foram firmados com antigos rivais (como os países da
Europa Ocidental e os Estados Unidos) com o intuito de integrar a Rússia ao mercado e
à ordem política internacional e de receber ajuda financeira para debelar a crise na qual
se encontrava. Ao longo da década, contudo, o relacionamento russo com os países do
ocidente foi pontuado por rusgas e estranhamentos. Alguns eventos servem para
exemplificar os desentendimentos havidos.
O primeiro deles é a turbulência nos Bálcãs. Em 1992 eclodiu a Guerra da
Bósnia. Enquanto os russos são tradicionais aliados dos sérvios por questões de
identidade cultural e religiosa, os países ocidentais, majoritariamente, apoiaram os
muçulmanos bósnios. O Kremlin não detinha poder para controlar o governo sérvio e
impedir que ele cometesse atrocidades contra seus inimigos. Esta incapacidade refletiu
em outra debilidade: a Rússia não conseguiu impedir os contra-ataques da OTAN.
Mesmo que não tenha se colocado frontalmente contra a aliança dos países ocidentais, é
inegável que ao ser o único Estado que procurava observar os interesses de Belgrado, a
Rússia sofreu certo isolamento. A situação se repetiu em 1999, quando a província do
Kosovo procurou se separar da então Sérvia e Montenegro e recebeu apoio das nações
européias e da OTAN. Novamente, a diplomacia russa enfraquecida não pôde evitar os
ataques da OTAN, muito menos controlar o ímpeto destruidor do presidente sérvio
Slobodan Milosevic, o que afastou Moscou da resolução efetiva do confronto.
Outro fato que desagradou muito à Rússia e a colocou em rota de colisão com
os Estados Unidos e alguns de seus aliados foi o alargamento da OTAN em direção aos
10

países antes signatários do Pacto de Varsóvia (Polônia, Hungria e República Checa).


Moscou manifestou sua oposição e fez duras críticas à organização militar. Entretanto,
sem forças para reagir geopoliticamente, em 1997 firmou pacto com a OTAN que criava
um Conselho para discutir as questões de segurança da Europa. Isto não impediu um
avanço maior da aliança militar, que, por intermédio da Secretária de Estado dos EUA,
Madeleine Albrigth, prometeu aos países bálticos futuro acesso à organização. A
possibilidade de a OTAN chegar as suas fronteiras foi percebido pela Rússia como uma
ameaça a sua segurança e prova de que a Nova Ordem Mundial propagada pelos EUA
era um mundo unipolar comandado pelos próprios norte-americanos.
Em linhas gerais, pode-se dizer que a política externa russa no Governo Yeltsin
teve três momentos. O primeiro, de 1991 a 1993, já foi referido. Entre 1993 e 1996,
ainda com Kosyrev, a política externa russa foi guiada por orientações ocidentalistas e
eurasianistas, sem que houvesse uma base sólida sobre a qual se definissem os
interesses nacionais ou uma estratégia coerente (WALLANDER, 2004, p. 69). No ano
de 1996, Yeltsin procurou alterar a linha de sua política externa, nomeando Yevgeni
Primakov como Ministro das Relações Exteriores. Oriundo da KGB, Primakov pregava
o afastamento dos Estados ocidentais e a formação de alianças com potência orientais;
China, Índia e Irã, destacadamente. Quanto aos países do espaço pós-soviético, seu
objetivo era manter a Rússia como o ator hegemônico na região. Nos três períodos
citados, a política externa russa voltou-se cada vez mais para as questões de segurança e
as preocupações geopolíticas. Ao contrario do que ocorreu no Governo Putin, em
nenhum momento Yeltsin intentou utilizar os fatores econômicos como arma política.
Os reveses internacionais refletiam na política doméstica russa. Em função dos
eventos ocorridos na Bósnia, o partido de Yeltsin perdeu as eleições parlamentares de
1993 para a “coalizão marrom-vermelha”, formada pelo Partido Comunista e pelo
Partido Democrático Liberal, chefiado por Vladimir Zhirinovski, um radical que
pregava a reconstrução do império soviético mediante o uso da força, caso fosse preciso
(NOGEE e DONALDSON, 2005, p. 127). A partir de então, Yeltsin precisou conviver
com a oposição dos comunistas, que acusavam-no de ser muito servil aos interesses do
ocidente, crítica que ecoava na população, para quem a sensação de diminuição do país
perante as nações ocidentais era muito desagradável. A ferrenha oposição fez com que
com o passar do tempo, Yeltsin se tornasse cada vez mais refém político dos oligarcas,
11

grupo que conseguiu o controle sobre as maiores empresas do país (sobretudo as


energéticas) no processo de privatização e que lucrava muito com os rumos da
macroeconomia russa13. A obrigação de atender aos interesses dos oligarcas e de suas
companhias, de satisfazer os organismos internacionais e o temor de perder o apoio
popular fizeram com que o governo de Yeltsin se tornasse errático, com normas
diversas sendo emanadas a toda hora a fim de favorecer novos e velhos aliados14.
Outro fator de enfraquecimento de Yeltsin foi a I Guerra da Chechênia (1994 a
1996). O fracasso de Moscou no conflito contra os chechenos (povo do Cáucaso do
Norte de longa tradição irredentista perante o domínio russo), com direito à humilhação
sofrida pelo Exército Vermelho, obrigou o Kremlin a negociar acordo que prorrogava a
definição do status da República da Chechênia para o futuro. As constantes violações
dos direitos humanos por parte dos russos ocasionaram críticas por parte da comunidade
internacional, aumentando os problemas do governo federal também no plano interno.
A II Guerra da Chechênia (1999 a 2000), por sua vez, teve um resultado diverso.
Lançando mão de oitenta e três mil soldados (o dobro do efetivo da incursão anterior), o
então primeiro-ministro Vladimir Putin iniciou a campanha que terminou em vitória
russa em fevereiro de 2000, quando finalmente o Exército Vermelho tomou a capital
chechena, Grozny (WOOD, 2007, p. 100). As críticas comunidade internacional à
conduta das formas armadas russas se repetiram, mas desta feita os resultados internos
da campanha foram diversos. Putin foi visto pela população russa como o líder que o
país precisava para retomar a sua grandeza e evitar humilhações tanto em solo russo
quando no trato com as grandes potências.

13
Angelo Segrillo lembra que os oligarcas (Vladimir Potanin, Boris Berezovsky, Vladimir Guzinsky,
Mikhail Khodorkovski, Petr Aven, Vladimir Vidogranov e Alexandr Smolenski) começaram a ganhar
destaque ainda no governo Gorbachev. Eles eram todos ex-burocratas do período soviético ou
empresários que começaram suas carreiras quando da abertura econômica soviética. Sua proximidade
com o governo de Yeltsin e com as novas lideranças econômicas do governo garantiu que adquirissem,
mediante métodos legais, influência e práticas escusas as melhores companhias estatais russas a baixos
preços (SEGRILLO, 2000, p. 101). No setor energético, por exemplo, ocorreu o esquema de empréstimo
por ações. O capital que o governo precisava era emprestado pelos bancos dos oligarcas em troca de
ações de estatais ligadas è energia. Como o governo não tinha capacidade de pagar o valor emprestado no
prazo acordado, os bancos se tornavam proprietários das empresas (SEGRILLO, 2000b, p. 104).
14
Lilia Shevtsova atenta para o fato de no Governo Yeltsin houve uma diluição do poder federal. Ao
constatar que não dispunha dos instrumentos necessários para uma regulagem vertical de seu poder, o
presidente passou a realizar constantes trocas e negócios nas quais a distribuição de poder constituía o
meio de sobrevivência do regime. Esses negócios deram início a um processo de transferência de poder
do centro para as regiões, onde começaram-se a formar regimes semifeudais, geridos pelos poderosos
locais, cuja carta de imunidade era a lealdade à autoridade federal (SHEVTSOVA, 2004, p. 127).
12

Os eventos ocorridos na década de 1990 levaram os russos a associar os


valores da democracia e do liberalismo com os descalabros do Governo Yeltsin
(dispersão do poder, corrupção, influência dos oligarcas), o que pavimentou a estrada
para um tipo de presidente que fortalecesse as instituições federais com isto devolvesse
a Rússia ao patamar ao qual pertencia. Este presidente acabou sendo Putin.

2.2. A Crise Econômica e a Resposta de Yevgeni Primakov

A transição do modo de produção comunista para o capitalismo levou a Rússia


a uma acentuada instabilidade econômica, cujo ápice foi a crise cambial de 1998,
quando a fuga em massa de capital estrangeiro mergulhou a economia do país em
severas dificuldades.
Com o fim da URSS houve o rompimento da cadeia produtiva construída
durante décadas pelos governos comunistas, o que foi catastrófico, tendo em vista que a
economia soviética era muito integrada, com cada república socialista sendo
especializada em determinado tipo de produto. Ainda que possuísse a economia mais
diversificada entre todas as partes da União Soviética, a Rússia sentiu os efeitos da
impossibilidade momentânea de recebimento de diversos artigos de consumo. O
desabastecimento crônico experimentado no fim de 1991 levou Yeltsin a promover a
liberalização dos preços em janeiro de 1992. Vários produtos voltaram às prateleiras,
mas seus preços eram constantemente remarcados, fruto da inflação, que naquele ano
foi de 2.580%.
Nos primeiros anos do governo independente russo, as rédeas da economia
ficaram a cargo de jovens economistas que preconizavam que somente um choque de
mercado poderia levar a Rússia ao capitalismo e à bonança por este prometida. O
governo russo buscou ajuda dos países industrializados do ocidente e dos organismos
internacionais como o FMI. À semelhança do verificado no Brasil na década de 1990, o
mercado russo foi aberto para produtos estrangeiros, o rublo foi valorizado em relação
ao dólar e os juros foram elevados como forma de atrair capital especulativo. Em
virtude de tal política, a indústria nacional foi bastante prejudicada, posto que não
conseguia crédito interno e concorria com produtos vindos de fora e de qualidade
superior. Os resultados para a sociedade eram muito ruins, pois houve aumento da
13

pobreza e do desemprego, fatores que geravam ainda mais instabilidade política. A


fraqueza do poder central o levava a perder comando sobre as regiões do país e o
impedia de recolher tributos de forma ordenada. Sem receber dinheiro de impostos para
saldar suas dívidas, o Kremlin era obrigado a cada vez mais a emitir títulos da dívida
pública com juros altíssimos e com curto prazo de pagamento para atrair investidores
estrangeiros.
Apesar das dificuldades, em 1997 a economia russa cresceu positivamente pela
primeira vez na década (0,8%). Todavia, no final daquele ano, em função da crise das
bolsas, houve fuga de capitais, o que significava a impossibilidade de pagamento das
dívidas governamentais assumidas e do cumprimento do orçamento previsto. A crise
russa estourou em agosto de 1998. Suas conseqüências foram graves. O rublo se
desvalorizou em um terço, o governo declarou moratória de 90 dias quanto ao
pagamento de credores estrangeiros e filas de pessoas tentando resgatar suas economias
se formaram na frente dos bancos (SEGRILLO, 2000b, p. 113).
Em meio ao temporal, Yeltsin nomeou como Primeiro-Ministro Yevgeny
Primakov, o qual promoveu o fortalecimento dos setores produtivos da economia, em
detrimento do volátil capital financeiro. Com isto, a Duma (parlamento russo),
dominada pelos comunistas, ganhou força, enquanto os oligarcas começavam a perder
sua influência política. A desvalorização do rublo permitiu a retomada da indústria
nacional, que, incentivada pelo governo, passou a substituir os produtos que antes eram
importados. O PIB russo em 1999 cresceu 6,4%, e no ano seguinte o seu crescimento
atingiu 10% (ver tabela 1). As complicações econômicas dos anos 1990 geraram na
população russa descrédito quanto ao liberalismo econômico em sua forma mais pura.
Associados a isto, o relativo sucesso das reformas iniciadas por Primakov abriu
caminho para o intervencionismo estatal que seria implementado por Putin na década
seguinte.

2.3. Os Recursos Energéticos

Os impressionantes dados referentes ao setor energético russo foram


apresentados anteriormente. Ocorre que a turbulência dos anos 1990 também afetou a
produção de energia da Rússia. Somente a partir de 1995, a produção de petróleo se
estabilizou em 6 milhões de barris ao dia, o que era pouco em comparação com os
14

tempos soviéticos, mas era um avanço em relação à crise do começo da década. Neste
período, aconteceu grande parte das privatizações das empresas ligadas ao setor
energético15, as quais passaram para o controle dos oligarcas por meio do esquema de
empréstimos por ações (ver nota 09). Os preços domésticos não podiam ser majorados
imediatamente pela simples razão que isto geraria ainda mais prejuízos a uma indústria
encolhida e a uma população empobrecida que vivia em um país gélido. O relativo lucro
das empresas vinha do mercado internacional, mesmo que o preço do petróleo não fosse
alto16. No ano de 1999, pela primeira vez desde 1992, as empresas experimentaram
lucro na exploração do petróleo (GRACE, 2005, p. 82). Entretanto, a grande virada do
setor energético russo ocorreu no ano seguinte, quando o aumento significativo do preço
do petróleo cru no mercado mundial gerou lucros fabulosos à indústria petroleira17
O viés de alta do preço do petróleo (e conseqüentemente do gás natural)
aumentou a insatisfação de setores políticos e da população diante do quadro de grande
potencial energético, mas com a produção estagnada por estar nas mãos de poucos
bilionários que não investiam no país os lucros que recebiam com a venda dos recursos
russos. Tal situação, por certo, facilitava a adoção de medidas governamentais que
devolvessem ao Estado o controle sobre as reservas de petróleo e gás natural.

3. A RETOMADA DO CONTROLE SOBRE O SETOR ENERGÉTICO

Quando Putin assumiu a presidência, as medidas de Primakov de valorização


das empresas nacionais e a alta dos preços do petróleo (a qual puxava a alta dos preços
do gás natural) eram indicativos de que sua estratégia de balizar o crescimento da
economia russa nos recursos minerais estava correta. Porém, faltava colocar em prática
a ação incisiva do governo no mercado doméstico, ainda desregulado e sob o controle
dos poderosos oligarcas. Desde o seu primeiro mandato, Putin deixou claro que as
concessões quanto à exploração do petróleo e do gás natural russo seriam
prioritariamente fornecidas às empresas estatais. As companhias privadas e estrangeiras

15
A participação geral das companhias estatais na produção de petróleo na Rússia caiu de 80% em 1995
para 38% em 1996. Fonte: Russian Analitical Digest nº 01, p. 08.
16
Entre 1991 e 1998, o preço do petróleo cru não ultrapassou a marca de 20,67 dólares por barril, atingida
em 1996. Fonte: British Petroleum.
17
O preço do petróleo cru em 2000 foi de 28,50 U$/barril. Em 1999 o preço tinha sido de 17,97 U$/barril
e em 1998 de 12,72 U$/barril. Em 2006, o preço era de U$ 65,14. Fonte: BP.
15

que pretendiam manter suas operações na Rússia deveriam seguir a cartilha do Kremlin,
sob pena de retaliações e limitações diversas18.
Uma questão vital para o governo era a retomada do controle majoritário da
Gazprom. Além de ser a principal detentora de reservas e produtora de gás natural
russo, e de exercer o monopólio da exportação do produto (por intermédio da
subsidiária Gazpromexport), a empresa era a que maior potencial tinha de assumir a
condição de carro-chefe do plano de Putin de criar mega-corporações estatais com
atuação destacada no mercado internacional19. Na época da retomada dos preços dos
recursos energéticos, a iniciativa privada detinha 61,63% das ações da Gazprom.
Embora o Estado fosse o maior acionista individual, isto não lhe garantia o controle
almejado, posto que, em tese, nada impedia que uma empresa estrangeira adquirisse
ações ao ponto de se tornar a principal acionista. Somente no ano de 2005 o Kremlin
conseguiu seu objetivo. Com a compra de 10,74% de ações pela estatal do petróleo
Rosneft e mais algumas ações individuais, o Estado passou a controlar 50,002% das
ações da Gazprom (GOLDMAN, 2008, p. 83)20.
No mercado interno de petróleo, o Kremlin não detém uma empresa do porte da
Gazprom. Todavia, após o desmantelamento da Yukos, a empresa estatal Rosneft, que
ficou com os campos e reservas da ex-produtora de Mikhail Khodorkovski, se tornou a
maior produtora de petróleo do país. O crescimento da Rosneft gerou o aumento da
participação do Estado russo na produção de petróleo, que passou de 13% em 2004 para
34% no ano seguinte21 e no final de 2007 girava em torno de 50%. A posição do

18
O caso da Yukos e de seu proprietário, Mikhail Khodorkovski, foi um exemplo claro da política do
presidente. De imediato, Khodorkovski não concordou com as decisões de Putin e decidiu enfrentá-lo
investindo grandes somas nas eleições parlamentares russas de 2003 (OLCOTT, 2004, p. 13). Além das
ambições políticas de Khodorkovski, o Kremlin não apreciava as parcerias da Yukos com empresas
petrolíferas internacionais, as quais poderiam diminuir o poder do governo sobre o setor energético russo
(OLCOTT, 2004, p. 14). Putin venceu a batalha, cujo golpe final ocorreu em 2003: Khodorkovski foi
condenado a prisão na Sibéria por oito anos e teve cassados seus direitos políticos, sob a acusação de
realizar operações ilegais por intermédio de seu banco, Menatep, em 1996. A prisão foi fortemente
criticada pela mídia internacional, que acusou o presidente russo de gerenciar um governo autoritário que
pretendia controlar o petróleo do país utilizando meios escusos e obscuros típicos do período soviético.
19
As reservas de gás natural da Gazprom são estimadas em 29,10 tmc³, o que equivale a 60% do total das
reservas provadas em solo russo. 19. Sozinha, a produção da Gazprom abarca 20% do total de gás natural
produzido no mundo e 85% da produção de gás da Rússia. Fonte: Gazprom. Endereço eletrônico:
http://www.gazprom.com/eng/articles/article20151.shtml .
20
Os demais acionistas são: instituições e empresas russas (29,482%); indivíduos russos (13.068%) e
companhias, grupos e indivíduos não residentes na Rússia (7,4485) (GOLDMAN, 2008, p. 83).
21
Russian Analitical Digest nº 01, p. 08.
16

governo russa ainda é fortalecida pelo fato de que a estatal Transneft detém o
monopólio da distribuição de petróleo via oleodutos.
Os dados referentes aos ramos do petróleo e do gás natural deixam claro que a
estratégia traçada por Putin de transformar o Estado no ator primordial do setor
energético da economia russa foi bem sucedida, sendo ela boa ou não a longo prazo.
Enquanto a Gazprom é a maior produtora de gás natural do mundo, a Rosneft já é a
mais importante produtora de petróleo do país.
O controle de boa parte dos recursos energéticos russos pelo Kremlin permitiu
que os lucros advindos da exploração e comercialização destes produtos fossem
ampliados. O aumento dos preços do petróleo durante os oito anos do Governo Putin e a
crescente demanda externa fomentaram o crescimento russo no período. Um bom da
relação entre o setor energético e a economia russa é a evolução do balanço de
pagamentos do país nos últimos quinze anos e sua comparação com o PIB.

Tabela 1 – Balanço de Pagamentos e PIB da Rússia - 1994 e 2008


Ano Balanço de Bens e Bens Bens PIB
Pagamentos Serviços Exportados relacionados à Russo
(em milhões Exportados (em milhões Energia (% em
U$) (em milhões U$) Exportados relação ao
U$) (em milhões ano
U$) anterior)
1994 7,844 75,802 67,379 25,206 -12,60
1995 6,963 92,987 82,419 30,471 -4,1
1996 10,847 102,966 89,685 38,094 -3,5
1997 - 80 100,975 86,895 38,474 0,8
1998 219 86,816 74,444 27,938 -4,8
1999 24,616 84,618 75,551 30,957 6,4
2000 46,839 114,598 105,033 52,835 10,00
2001 33,395 113,326 101,884 52,135 5,1
2002 29,116 120,912 107,301 56,264 4,7
2003 35,410 152,158 135,929 73,720 7,3
2004 59,514 203,802 183,207 100,167 7,2
2005 84,443 268,768 243,798 148,915 6,4
2006 94,367 334,652 303,550 190,761 7,4
2007 78,309 393,817 354,401 218,568 8,1
17

2008 179,742 522,909 471,603 310,139 5,6


Fonte: Banco Central da Federação Russa

Conforme se pode constatar, no ano de 2000, combustíveis e produtos derivados


de recursos energéticos representaram 50,30% dos produtos exportados pela Rússia e
46,10% do total das exportações do país. No ano seguinte, eles representaram 51,17%
dos produtos exportados e 46,00% do total exportado. Já nos dois últimos anos do
Governo Putin, os recursos energéticos responderam por 61,67% (em 2007) e 65,76%
(em 2008) do volume de bens exportados e 55,50% (em 2007) e 59,31% (em 2008) do
total das exportações russas. Logo, tanto a parcela proporcional quanto o valor nominal
dos recursos energéticos russos nas exportações russas têm aumentado ano após ano
Cruzando tais dados com o PIB russo é possível verificar que o crescimento constante
do PIB russo está conectado com a venda de recursos energéticos no mercado
internacional22. Pelo exposto, observa-se que o Kremlin conseguiu retomar as rédeas do
setor energético e com isto gerar crescimento econômico. Cumpre, então, analisar se os
objetivos traçados por Moscou em relação ao sistema internacional e a reestruturação da
economia russa foram atingidos.

4. RESULTADOS

Como visto, durante a década de 1990 a Rússia perdeu uma parcela considerável
de sua capacidade de influência e do respeito advindo das grandes potências ocidentais.
Todavia, nos primeiros anos do século XXI esta situação começou a ser alterada. De
Estado com uma diplomacia débil e enfraquecida, a Rússia passou a participar de
negociações internacionais sobre temas polêmicos e delicados, como os programas
nucleares da Coréia do Norte e do Irã. Inclusive, neste último caso, Moscou foi voz
solitária na defesa da natureza pacífica das instalações de usinas nucleares iranianas,
sendo, desta feita, ouvida. No campo econômico, de país suplicante por empréstimos, a

22
A alta dos preços do petróleo é um fator importante para a correlação entre o PIB e a comercialização
de energia russa. Segundo o Ministro das Finanças da Rússia, Alexei Kudrin, o aumento do valor do
barril de petróleo verificado entre o ano 2000 (por volta de U$ 20,00), e o começo de 2008 (superior a U$
100,00) significou aos cofres russos um rendimento extra de U$ 475 bilhões, o qual permitiu que as
reservas internacionais russas atingissem a marca de U$ 500 bilhões. Fonte:
http://en.rian.ru/russia/20080401/102669349.html. Acesso em: 01/04/2008.
18

Rússia conseguiu saldar boa parte de seus débitos, alguns inclusive com antecedência,
como no caso dos pagamentos feitos ao Clube de Paris. Em suma, sob o Governo Putin,
a Rússia voltou a se considerar uma grande potência e agir como tal, da mesma forma
que passou a ser considerada como um ator maior no sistema internacional pelas demais
potências.
O motivo principal desta mudança não foi o imenso arsenal nuclear herdado da
URSS, nem mesmo a posição geopolítica russa, ainda que os fatores em voga sejam
sempre relevantes quando se trata de Rússia. Nos anos 1990 Moscou já possuía tais
predicados e isto não impediu de que colecionasse derrotas no campo diplomático. Os
ataques de 11 de setembro de 2001 igualmente não podem ser considerados como causa,
tendo em vista que o (bom) uso que a Rússia fez do evento, ensaiando aproximação
com os EUA (e justificando suas atitudes na Chechênia), teve curta duração, pois a
Invasão do Iraque em 2003 colocou novamente Moscou e Washington em campos
antagônicos.
Assim sendo, pode-se dizer que o fator preponderante da recuperação de
prestígio da Rússia no cenário mundial é o recobramento de seu papel de superpotência
energética. Na conjuntura vislumbrada nos anos do Governo Putin, os recursos
energéticos tiveram sua perene importância ainda mais acrescida no mercado mundial.
As sucessivas crises no Oriente Médio transformaram em verdadeiras incógnitas as
possibilidades de alguns dos países da região de continuarem sendo fornecedores
confiáveis de tais produtos. Além disto, houve um aumento na demanda por energia,
advindo principalmente da China e da Índia. O crescimento econômico destes dois
países de enormes populações criou uma nova situação de mercado sem precedentes, o
que acentuou a disputa por fontes de energia confiáveis23. A União Europeia é um caso
especial neste contexto, uma vez que o petróleo e o gás natural russos estão no centro
das relações entre Moscou e Bruxelas. Segundo o Green Paper (documento elaborado
pela Comissão Europeia), no ano de 2006, a Europa dos 27 importou 53,8% da energia
que consumiu, sendo a Rússia a sua maior fornecedora (33% do petróleo e 40% do gás
natural). A perspectiva é de que nos próximos 20 ou 30 anos a Europa importará 70%

23
Entre 2001 e 2006 o consumo de energia chinês cresceu 11,4% ao ano. Analistas chineses prevêem que
até 2030 o consumo triplicará, e o país importará 500 milhões de toneladas anuais de petróleo. Quanto à
Índia, hoje ela importa 2/3 da energia que consome. O crescimento econômico levará ao aumento do
consumo de energia, aumentando sua dependência de fornecedores (GOLDMAN, 2008, p. 78).
19

da energia que consumirá (e 80% do gás natural), o que, tendo em vista a crescente
competição por fornecedores, permite prever que a importação de energia russa
aumentará em proporção igual ou superior. Há, portanto, uma dependência energética
do bloco regional perante a Rússia, a qual é contrabalançada pela necessidade atual
desta de vender gás e petróleo no pujante mercado europeu e, assim, continuar sua
estratégia de economização da política externa. Se no campo estritamente energético
vislumbra-se uma interdependência, é inegável que ao abrirmos o foco, tal realidade
concedeu um ganho de poder relativo da Rússia perante a União Europeia nos primeiros
anos do século XXI; situação que indiretamente melhora a capacidade russa de
enfrentamento perante os EUA Dois exemplos da mudança do teor das relações russo-
europeias e, conseqüentemente, das relações da Rússia com os demais atores do sistema
podem ser citados.
O primeiro deles é a nova tentativa de alargamento da OTAN, desta vez para
abarcar Geórgia e Ucrânia. Em janeiro de 2008, Kiev e Tblisi solicitaram formalmente o
ingresso do país no Plano de Filiação (Membership Action Plan) da OTAN24. A
penetração dos EUA via OTAN nestes países seria um abalo substancial na capacidade
russa de manter o domínio sobre o espaço pós-soviético que tanto preza. Por este
motivo, na última entrevista coletiva anual como presidente russo (em fevereiro de
2008), Vladimir Putin verbalizou contundente reação russa à hipótese de a Ucrânia se
tornar membro da OTAN, afirmando que se forem estabelecidas bases e mísseis de
defesa em solo ucraniano, “nós (os russos) seremos obrigados a mirar nossos mísseis
para esses lugares, os quais consideraremos uma ameaça a nossa segurança nacional
(PUTIN, 2008). O tom desta declaração seria impensável na década de 1990. Mais
inimaginável ainda foi o desfecho provisório da situação. No encontro da OTAN de
abril de 2008 foi dito que no futuro, eventualmente, ucranianos e georgianos poderão se
tornar membros da organização. A declaração oficial vaga, a despeito do forte apoio
norte-americano à proposta, é reveladora do peso adquirido pela Rússia junto à União
Europeia (e como isto por vezes contraria os EUA), eis que as fontes da negação dos
pedidos de Kiev e Tblisi foram França e Alemanha, duas potências que claramente

24
Cabe esclarecer que a aceitação no Plano de Filiação não indica imediato acesso à OTAN. Calcula-se
um prazo de ao menos quatro anos entre eventual aceite da Ucrânia no MAP e o ingresso definitivo na
Aliança Atlântica (FEDYASHIN, 2008).
20

demonstraram receio em contrariar tão diretamente os interesses russos, manifestados


de forma clara e veemente por Vladimir Putin.
O outro exemplo que pode ser mencionado é o conflito ocorrido no Cáucaso do
Sul em 2008. Nalgum momento entre os dias 07 de 08 de agosto daquele ano, as tropas
da Geórgia invadiram as províncias autônomas da Abecásia e da Ossétia do Sul, as
quais gozavam de relativa autonomia desde 1992 e almejavam independência de Tblisi.
A resposta da Rússia (já sob a presidência de Dmitri Medvedev) foi quase imediata,
com o seu exército invadindo o território das repúblicas e expulsando os georgianos,
manobra duramente criticada pela mídia ocidental. Alguns dias depois, o governo russo
reconheceu a Abecásia e a Ossétia do Sul como Estados independentes. Os EUA
bateram na tecla do imperialismo russo e clamaram por severas punições a Moscou. A
União Europeia condenou o reconhecimento unilateral de independência das duas
repúblicas, mas ao invés de proferir palavras duras e solicitar punições aos russos,
procurou negociar um armistício entre as partes e investigar a culpa de cada um dos
contendores. Aqui vale comparar a atitude pacificadora europeia de 2008 com as
críticas e condenações dirigidas à Rússia quando dos conflitos na Chechênia, ocasiões
em que sequer houve invasão de território alheio, como ocorrido no Cáucaso do Sul. A
atitude ponderada da União Europeia (sob a presidência rotativa a cargo da França)
pode ser entendida como receio do bloco regional de bater de frente com Moscou.
No tocante ao espaço pós-soviético, a economização da política externa
igualmente rendeu frutos a Moscou. Aos poucos, o crescimento do PIB russo
restabeleceu as cadeias produtivas existentes na URSS, além de tornar o mercado da
Rússia atraente para os produtos dos países da região, bens que carecem de
competitividade no ocidente. Com isto, foi verificado um aumento do volume de
negócios realizado com os membros da CEI25. Tais elementos possibilitaram à Rússia
utilizar o poderio de sua economia (em relação às economias dos demais Estados que a
circundam) com o objetivo de ganhos políticos, o que vai ao encontro das palavras de
Ellen Wood acerca do poder gerado pela dominação balizada em meios econômicos.

25
Durante o Governo Putin, o volume de trocas comerciais realizadas entre a Rússia e os países da CEI
cresceu ano a ano. Em 2008, as exportações russas para tais Estados atingiram US$ 71,1 bilhões
(acréscimo de 17,3 bilhões em relação a 2007). Já as importações dos países da CEI somaram 38,8
bilhões (crescimento de 7 bilhões em relação a 2007). Fonte:
http://www.gks.ru/bgd/regl/b09_12/IssWWW.exe/stg/d02/26-02.htm. Acessado em 20/08/2009.
21

A retomada de prestígio no sistema internacional e a reafirmação de sua


posição de proeminência no espaço pós-soviético permitem concluir que os objetivos
sistêmicos traçados por Moscou foram atingidos durante o Governo Putin a partir da
adoção da estratégia referida. Entretanto, no pertinente ao objetivo voltado para a
própria economia russa, não se pode dizer o mesmo.
A diversificação econômica da Rússia não foi implementada a contento. É
necessário ponderar que uma transformação deste porte não ocorre imediatamente,
entretanto, os dados da tabela 1 indicam que os recursos energéticos se tornaram cada
vez mais centrais na economia russa nos últimos anos. A Rússia chegou a criar um
fundo governamental no qual era depositada parte dos lucros obtidos com o comércio de
energia durante os últimos dez anos. Uma parcela do montante foi destinada à
reestruturação econômica, por intermédio da concessão de crédito à população e ao
setor produtivo, realizada por bancos estatais. No entanto, não havia um projeto claro de
investimentos governamentais voltados especificamente ao fomento de setores da
economia que alterassem o padrão da economia russa de modo efetivo. Com resultado,
a partir de 2005 o único setor que recebia auxílio e investimentos constantes era
justamente o energético. A situação piorou com a crise econômica mundial de 2008,
pois o Kremlin se viu obrigado a utilizar o fundo constituído para ajudar na recuperação
econômica, a fim de não precisar tomar empréstimos internacionais26. Como houve uma
redução acentuada dos preços do petróleo em 2008 (o pico de preço do barril de
petróleo em 2008 foi U$ 145,00, sendo que no mesmo ano caiu para U$ 35,00), o
governo não pôde repor o dinheiro gasto. Via de conseqüência, o volume de crédito
ofertado diminuiu, o que estancou a tênue diversificação econômica empreendida. A
fragilidade da economia russa diante do mercado internacional pode ser medida pelo
impacto que a crise gerou no país. A última previsão do PIB russo de 2009 estabelece
uma queda de 8,0%, a primeira desde 1999. Nos sete primeiros meses de 2009 os
investimentos no país em 2009 caíram 20%, o volume de trocas com o exterior
despencou 45,9%, ao passo que a produção industrial encolheu 12,4%.
A repetição das dificuldades econômicas enfrentadas pela Federação Russa
levou o presidente Medvedev a fazer duras críticas à manutenção da dependência da
economia russa da exportação de commodities em artigo que publicou na mídia russa no
26
Putin declarou que somente em 2009 o governo gastaria 90 bilhões de dólares para combater os efeitos
da crise.
22

dia 10 de setembro último. Disse o presidente: “deve uma economia primitiva baseada
em matérias primas e corrupção endêmica acompanhar-nos no futuro?” Ainda: “vinte
anos de mudanças tumultuosas não afastou nosso país de sua humilhante dependência
de suas matérias primas”. Por fim: “com algumas exceções, o mercado doméstico não
inventou nem criou os produtos e a tecnologias indispensáveis que o povo precisa. Nós
vendemos coisas que não produzimos, matérias primas e bens importados”
(MEDVEDEV, 2009).
As palavras do presidente russo indicam que se no campo internacional a
economização da política externa devolveu à Rússia o status de grande potência, no
plano doméstico, sua economia continua dependente do petróleo e do gás natural.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As considerações finais deste trabalho devem começar com uma ressalva. A


condição da Federação Russa de superpotência energética não foi a única causa do
renascimento do seu poderio no sistema internacional. Conforme assinalado
anteriormente, quando se fala em Rússia é necessário lembrar do seu arsenal nuclear e
do seu exército, que apesar de passar por uma grande reformulação, ainda é respeitável
e nos últimos anos acresceu sensivelmente a venda de armamentos que produz. Todavia,
não se pode olvidar que os ganhos relativos de poder da Federação Russa no começo do
século XXI estiveram balizados na exploração de seus recursos energéticos.
Conforme referido antes, se o desejo de ser uma grande potência e a
necessidade de manter uma zona de influência composta pelos países do espaço pós-
soviético acompanha a Rússia desde os tempos dos czares, o meio de satisfazer estas
ambições foi inovador durante o Governo Putin. A aplicação de uma lógica capitalista
de poder (de acordo com Arrighi) em relação aos outros países constituiu a novidade da
política externa do Kremlin nos últimos anos. Neste ponto é curioso observar que o
capitalismo existente hoje na Rússia guarda parentesco com o passado do país. Ou seja,
Estado continua com um papel forte na economia, sendo que durante o período de Putin
foi trabalhada a figura do líder centralizador que comanda o país rumo ao seu destino
edificante. Por certo, em outros países a máquina estatal intervém na economia, mas o
personalismo e os amplos poderes do Poder Executivo que permanecem vigentes na
23

Rússia são singulares. Surge daí a impressão de que as atuais lideranças russas não
abraçaram o capitalismo de corpo e alma, mas o adotaram diante da falta corrente de
alternativa e do fracasso do estado soviético. Tais fatos fazem pensar se a lógica
capitalista da política externa aparentemente aplicada pelo Kremlin nos anos Putin não
serve de verniz sob o qual repousa em hibernação a lógica territorialista de dominação
física de espaço. Tal questionamento pode parecer absurdo, mas a forma como se
desenrolou o conflito com a Geórgia em torno da Abecásia e da Ossétia do Sul
inegavelmente lembrou a visão russa de encarar seus vizinhos como “domínios” em
potencial. Portanto, ao retomar a pergunta feita no começo do trabalho, podemos dizer
que a Rússia de Putin majoritariamente agiu de acordo com uma lógica capitalista. Mas
disto advém outra questão: será esta a sua conduta no futuro? É cedo para que se
ofereçam respostas abalizadas, contudo afastar o territorialismo do pensamento em
russo em prol de uma lógica capitalista perene talvez seja precipitado.
Outra questão cuja resposta é ainda pendente diz respeito ao futuro da
influência russa no sistema internacional diante da sua contínua dependência de seus
recursos energéticos. Durante o período Putin, a falta de planejamento econômico
voltado para a diversidade não representou um problema maior, pois o preço
estratosférico do petróleo compensava qualquer debilidade econômica do país. Todavia,
o tombo levado pela Rússia em meados de 2008 foi impactante, como visto. Na medida
em que os planos russos não são modestos, e que a possibilidade de se voltar a ser uma
superpotência com uma economia baseada na exportação de commodities (por mais que
estes produtos tenham demanda constante crescente) é diminuta no pós-Guerra Fria,
Moscou não pode ficar refém dos humores do mercado mundial (especialmente o de
matérias primas) e das crises periódicas do capitalismo. Logo, tendo em vista a ambição
russa, a reforma estrutural de sua economia é necessária. As palavras de Medvedev
antes reproduzidas foram de uma sinceridade e aspereza pouco comuns a um chefe de
Estado. A questão que se coloca é se a Rússia, após se recuperar do baque sofrido,
efetivamente irá proceder às transformações econômicas das quais precisa ou se mais
uma vez adiará tal resolução. Diante do crescimento da China e da Índia, e de eventual
recuperação norte-americana, talvez no futuro o preço cobrado seja mais caro para a
Federação Russa em caso de nova postergação.
24

BIBLIOGRAFIA

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Ria Novosti: http://en.rian.ru/
Russia Analitical Digest: http://www. res.ethz.ch
Website do Presidente da Federação Russa: http://kremlin.ru/eng/