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CONCEITOS de MUSICOTERAPIA
Clarice Moura Costa
PALAVRAS-CHAVE: conceitos, visão crítica de autores de musicoterapia

Este artigo foi originalmente publicado no Boletim da Associação Portuguesa de Educação Musical, em
1990, com uma visão crítica dos diversos conceitos de musicoterapia. Revi, modifiquei e acrescentei algumas
idéias ao texto original que, espero, possam trazer alguns motivos de reflexão.

Jacques Arveiller (1980), em seu livro Des Musicothérapies, editado em 1980, faz um extenso
estudo dos livros e artigos publicados pelos musicoterapeutas e termina por colocar em causa a própria
existência da musicoterapia:
"existem práticas diversas, que apenas uma referência comum à música permite agrupar sob o nome de
musicoterapia. Existem práticos que se convencionou batizar de musicoterapeutas. A musicoterapia é uma
instituição"

Segundo o autor, para que estas práticas pudessem apoiar-se em métodos específicos, seria
necessário que a musicoterapia tivesse "uma coerência conceptual que não possui. Ela repousa sobre
uma afirmação: a música pode tratar"
Esta coerência de conceito era difícil de ser encontrada porque, até então, a maioria dos
musicoterapeutas refletia apenas sobre a prática da musicoterapia, procurando mostrar resultados
obtidos e estabelecer os métodos e procedimentos usados para atingir seus objetivos terapêuticos, não
se detendo muito sobre os fundamentos teóricos.
Uma definição típica deste momento inicial, em que a preocupação era demonstrar o uso
terapêutico da música, é a de Juliette Alvin (1967):
"A musicoterapia é o uso doseado da música em tratamento, reabilitação, educação e treinamento de
adultos e crianças que padecem de transtornos físicos, mentais ou emocionais. Já que é uma função da
música em que esta não é um fim em si mesma, o seu valor terapêutico não está necessariamente em relação
com sua qualidade nem com a perfeição das execuções. Seu efeito obedece em primeiro lugar à influência,
sobre o homem, dos sons, origem da música, cujo valor curativo, prejudicial ou negativo serão evidentes (...)
a música originou infinitas formas de relação. Estas formas constituem a pedra fundamental da
musicoterapia"

Há nesta definição uma série de ambigüidades. Por um lado a autora afirma que o efeito
terapêutico da música se deve à influência dos sons que possuem um valor curativo, prejudicial ou
negativo. Por outro aponta a relação estabelecida através da música como a pedra fundamental da
musicoterapia.
Não fica claro, também, se a música é terapêutica por ser música ou pelo valor curativo dos
sons. Sem dúvida os sons exercem influência sobre os seres humanos. Há epilepsias provocadas por
determinadas freqüências ou ritmos, os transes na Umbanda são provocados pelos atabaques e ainda há
inúmeros outros exemplos. Mas a música é muito mais do que um aglomerado de sons e o efeito que
ela nos provoca vai muito além daquele causado por cada sonoridade.
Apesar da ênfase colocada sobre o valor dos sons, Alvin termina por dizer que o fundamental na
musicoterapia são as relações estabelecidas através da música. Aponta uma série de transtornos físicos,
mentais ou emocionais como passíveis de tratamento pela musicoterapia, mas não define se o mais
importante é a música ou a relação terapêutica, ou mesmo se em alguns casos a música é o fator
preponderante e em outros é a relação.

terapeuta e/ou grupo" Do mesmo modo que Alvin. quando se observa o cenário internacional. a estrutura das sessões um bom número de musicoterapeutas e escolas de musicoterapia. como psicoterapia. Cada uma destas orientações teóricas irá modificar os objetivos e os procedimentos adotados. em que descreve e analisa os métodos baseados na técnica de improvisação. Entretanto. diz que. Tomando por base seu estudo. a maioria dos musicoterapeutas encara a musicoterapia como uma profissão de tratamento na qual o terapeuta usa a música para promover as mudanças necessárias ao paciente. Diz ainda que a musicoterapia improvisacional baseia-se. manter ou recuperar o bem-estar do cliente. De acordo com Kenneth Bruscia (1987): "Musicoterapia é um processo dirigido a um objetivo no qual o terapeuta ajuda o cliente a melhorar. diz Bruscia que alguns casos são abordados diretamente através da música e outros através das relações interpessoais desenvolvidas. Mostra os objetivos. na atualidade. Even Ruud (1990). usando experiências musicais e os relacionamentos que se desenvolvem através delas como forças dinâmicas de mudança. Diferente de Alvin. emocionais e sociais. havendo outras menos freqüentes. tratamento e avaliação. manter ou recuperar um estado de bem-estar. a relação estabelecida vai ser facilitadora dos resultados. notamos que a musicoterapia parece continuar a se apoiar no aforisma denunciado por Arveiller a música pode tratar. existe uma grande preocupação com a busca da fundamentação. Sua eficácia não depende dos poderes da música. Mas em todos os casos. O terapeuta ajuda o cliente através de procedimentos de aferição. como nos primeiros escritos. em teorias psicoterápicas. Realmente existem numerosas definições. estes problemas ou necessidades são abordados diretamente através da música. pelas diferenças entre os diversos modelos musicoterápicos.2 Acredito que no tratamento de certos distúrbios. Diversos musicoterapeutas procuram apontar os suportes teóricos para sua prática e métodos de tratamento. físicas. na sua maior parte frisando o aspecto terapêutico do uso da música. em obra mais recente. que utiliza a música como um recurso que pode desempenhar alguma função terapêutica ou servir como um facilitador do estabelecimento de relações terapêuticas. terapia da palavra. fisioterapia. Segundo o autor. No entanto. Na maioria das vezes parte-se do princípio de que a musicoterapia é um método de tratamento. os procedimentos. mas informativa. talvez das mais importantes da musicoterapia. No entanto não especifica porque eleger a musicoterapia entre as diversas terapias que poderiam ser utilizadas no caso. Uma das questões freqüentemente apresentadas aos musicoterapeutas por médicos. a música em si pode ser preponderante. terapia ocupacional. Vamos tentar examinar a visão atual de alguns autores internacionalmente reputados. principalmente nas escolas psicodinâmica. em outros são tratados através das relações interpessoais que se desenvolvem entre cliente. Bruscia apresenta um campo muito vasto de indicação da musicoterapia: todos os casos em que a música (ou os relacionamentos propiciados por ela) pode melhorar. ajustado a alguma teoria pré-existente psicoterápica ou em outras formas de terapia. as abordagens atuais não são impregnadas da noção meio mágica do poder curativo dos sons e da música. como no caso de dificuldades motoras e outros. sendo responsável. existencial/humanista e gestáltica. A intenção de Bruscia não é crítica. os referenciais teóricos. Bruscia tem uma obra de peso. os fundamentos teóricos da musicoterapia podem vir de diferentes áreas de conhecimento. mas de uma aplicação profissional. psiquiatras e outros profissionais é o da indicação preferencial deste tratamento. as formas de avaliação dos resultados. Segundo Ruud. de acordo com o autor. Os aspectos de bem-estar do cliente que podem ser tratados pela musicoterapia incluem uma ampla variedade de problemas ou necessidades mentais. parece haver quase tantas definições de musicoterapia quanto o número de musicoterapeutas. entre outras. . na maior parte das vezes. metodológica ou sistemática da mesma. Em algumas instâncias.

com o objetivo de integrá-lo na sociedade. muitos dos novos autores se preocupem mais em desenvolver. Este complexo compreende os elementos capazes de produzir sonoridades. Barcellos mais adiante afirma: “(. podem ter na música uma forma de comunicação e expressão. com elementos pré-verbais. Do ponto de vista terapêutico "a musicoterapia é uma disciplina paramédica que utiliza o som. cabendo ao terapeuta o papel de facilitador deste desenvolvimento. aperfeiçoar e descrever os processos de aplicação da música enquanto tratamento do que em procurar argumentos sólidos para levantar hipóteses sobre o porquê do seu uso. em musicoterapia esteja ´comprometido` na experiência musical. Por isto mesmo sua definição merece uma análise mais profunda. A definição de Benenzón compreende duas partes distintas. A ação de fazer música vai levar o paciente a desenvolver diversos aspectos. como por dificuldade de estabelecer relação (autismo ou.como objeto intermediário de uma relação terapêutica 2 . por ativar áreas cerebrais. procurando abordar a musicoterapia enquanto disciplina teórico-científica e não apenas como profissão de tratamento. na utilização de técnicas de improvisação musical. o que a leva a afirmar que cada pessoa é detentora de vivências únicas e traz dentro de si a capacidade de se desenvolver. seja por condições de fala (afasias). toda a gama de estímulos sonoros (incluindo o silêncio) e suas leis físicas. pela primeira vez. 1 . Um autor que inova. Uma das primeiras tentativas de levantar hipóteses teóricas sobre o porquê da música em terapia é de Lia Rejane Mendes Barcellos (1985). como também ativar áreas cerebrais e levá-lo a desenvolver processos cognitivos”. Por ser uma forma de comunicação. mesmo no caso de pacientes com graves problemas de linguagem. que ele participe ativamente do processo de ´fazer música`. Vemos. é Rolando Benenzón (1985). facilitador de uma comunicação que vai possibilitar o estabelecimento de uma relação terapêutica”. vai possibilitar a comunicação terapeuta/paciente.. primordialmente..) é importante que o paciente. "A musicoterapia é uma especialização científica que se ocupa do estudo e investigação do complexo som/ser humano.como objeto que possibilita o desenvolvimento dos aspectos bio-psico-sociais de um indivíduo. a música e o movimento para produzir efeitos regressivos e abrir canais de comunicação. a musicoterapia é apresentada como detentora de um objeto de estudo científico especificamente seu. É um dos primeiros escritos da musicoterapia a se preocupar com o porquê da utilização da música enquanto terapia. sobre o qual se deve basear sua aplicação terapêutica. A primeira parte caracteriza a musicoterapia como uma disciplina teórica que pretende estudar o que ele chama de complexo som/ser humano..Pacientes com problemas de comunicação. que em 1985 já dizia: “Musicoterapia é a utilização da música e/ou seus elementos constitutivos”.) a importância da música como elemento pré-verbal.. que a autora apresenta dois aspectos pelos quais se deve usar a música. E ainda: "(. inclusive processos cognitivos.3 Talvez pela perda desta crença nos poderes musicais ou pela dificuldade de justificar o seu emprego. isto é. portanto. Descreve ainda seu método de trabalho que consiste. Isto vai não só envolvê-lo de forma psicológica. os órgãos receptores desses estímulos. seja o som musical ou não. Barcellos baseia-se na teoria existencial-humanista. por não terem condições de se expressar através da linguagem (deficiência mental grave). com o objetivo de empreender através deles o processo de treinamento e recuperação do paciente para a sociedade". tendente a buscar os elementos diagnósticos e os métodos terapêuticos do mesmo". (grifos meus) O interessante nesta definição é que. sua . ainda. enquadrando-se no que Bruscia chama de musicoterapia improvisacional.

dentro desta concepção. psicologia. uma vez que suas propriedades é que vão mostrar os transtornos que pretendemos curar e ainda os métodos para conseguir esta cura. as regressões são estados psicológicos e não orgânicos ou fisiológicos e os métodos terapêuticos que induzem a estes estados devem ser. métodos que atuem sobre o psiquismo humano. Neste momento são abandonadas as correntes organicistas e esquecida a aplicação da musicoterapia às áreas de reabilitação motora. Se o som. Sem sombra de dúvida. de problemas de ordem emocional e comunicacional... as correntes psicológicas e organicistas. com práticas tão diversas que não permitem um discurso unificado. Com efeito. duas coisas se podem depreender: 1. motora. Este saber enciclopédico era possível na Idade Média ou na Renascença. Pelo contrário. etc. não precisando ser obtidos a partir de outras áreas de conhecimento. A música passa a ter valor em si mesma. Para exercer sua profissão. com um objeto próprio de estudo (o complexo som/ser humano). etc. dentro de uma única concepção musicoterápica. a contribuição de Benenzon é bastante valiosa. com profundidade suficiente para ser capaz de buscar elementos diagnósticos e terapêuticos. suas aplicações nas áreas de reabilitação motora. necessariamente. O primeiro impacto da definição de Benenzon é um pouco assustador. Assim. de delimitar o campo de atuação e estudo de cada técnico ou profissional.. a definição de Benenzon é muito bem formulada. física. o sistema auditivo. a música e o movimento são usados para produzir estados regressivos. de um leque imenso de áreas do saber. que pode ser motora. Neste sentido. sensitiva orgânica. reduz drasticamente o campo de ação do musicoterapeuta. etc. Se sua aplicação vai restringir-se a aspectos psicológicos. Está subjacente a idéia de que se apoia em referenciais psicodinâmicos. ou seja. orgânica de conduta ou de comunicação. a partir do qual serão estabelecidos seus princípios teóricos e sua forma própria de atuação: os elementos diagnósticos e os métodos terapêuticos são-lhe inerentes. fisiologia. A musicoterapia tem sua ação no campo psicológico 2. detendo-nos mais na sua concepção de musicoterapia enquanto ciência. de deficiências sensoriais e mesmo de deficiências mentais. para que produzir estados regressivos em pacientes que por algum acidente se tornaram paraplégicos ou hemiplégicos. Aparentemente exige do musicoterapeuta o conhecimento. cujo conceito abriga todas as correntes musicoterápicas e todas as suas áreas de aplicação prática. mas admite especialistas que se dedicarão a seus diversos campos de aplicação. A sua definição apresenta a musicoterapia como uma disciplina autônoma. ou aqueles que são cegos ou surdos? Será necessária a estes pacientes uma regressão que propicie a abertura de canais de comunicação para que se possa empreender o processo de treinamento e recuperação para a sociedade? Seria o caso de nos perguntarmos porque propõe que a ciência musicoterápica se ocupe de aspectos tão diversificados como o percurso das vibrações com suas leis físicas. Deste modo ele invalida a crítica de Arveiller. limitando-se sua aplicação à psiquiatria e aos problemas de ordem emocional. a musicoterapia tem sua existência assegurada como uma única ciência. segundo o qual não existe musicoterapia mas musicoterapias. Na atualidade.o som. o sistema tátil e o sistema visual e respostas de conduta. o musicoterapeuta deveria conhecer. de deficiências sensoriais. a repercussão psicobiológica e a elaboração da resposta. também. Numa segunda leitura.4 percepção e impressão no sistema nervoso. com o enorme desenvolvimento dos conhecimentos científicos. sensitiva. Na segunda parte da definição. É verdade que existem formas de agir sobre o psicológico que não são em . vemos que não nos é exigido este saber enciclopédico que fôramos induzidos a crer. dando ao musicoterapeuta uma maior independência e autoconfiança. em relação ao que se propunha quando se referia à musicoterapia enquanto ciência.. o sistema de percepção interna. Benenzon focaliza a prática da musicoterapia . a música e o movimento são usados para produzir efeitos regressivos e abrir canais de comunicação. criou-se a necessidade de especialização. A definição de Benenzon reúne. quando não o domínio. A partir do instante em que apresenta os objetivos da musicoterapia enquanto tratamento. disciplinas tão diversas como neurologia. É uma definição abrangente.

atuariam sobre o cérebro. Surge então a possibilidade de Benenzon estar se referindo ao uso das propriedades e parâmetros físicos dos sons como elementos psicotrópicos . os transtornos motores. ECT alteram comportamentos. então. que a tornam o inverso das psicoterapias: 1. que promovem a comunicação entre os seres humanos. mas não sobre o físico. calcada em princípios psicodinâmicos. uma vez que estes núcleos de sofrimento virão à tona através da música. É discutível ainda a necessidade de produzir estados regressivos em todos os pacientes psiquiátricos. pela própria doença.. a musicoterapia é uma disciplina paramédica que utiliza o som... os métodos de atuação e os objetivos pertinentes a este campo. É necessário distinguirmos com clareza aquilo que constitui uma ciência e o que é sua aplicação. A musicoterapia transforma-se. Quando se fala em comunicação. refere-se ao fato de se basear na explicação psicanalítica para o entendimento do que seja regressão. aumentando a auto-estima. A música é uma forma de linguagem cuja entrada se dá pelo lado sensório-motor-emocional. sentimentos. a adoção de alguma teoria psicológica para a leitura das vivências saudáveis ou conflituosas da pessoa. Afinal. provocando estes estados regressivos. No âmbito da aplicação é que se delimita o campo de estudo. A redução do campo. O som. no desenvolvimento posterior. No entanto. por suas formas de onda ou alguma outra propriedade. pictórica. exatamente. O próprio Benenzon. Neste momento parece não haver mais nenhuma margem de dúvida sobre o conceito de musicoterapia expresso pelo autor. melhorando ao problemas emocionais o que pode levar a pessoa a aceitar suas limitações e até mesmo a diminui-las. musical. Não estamos nos referindo apenas à linguagem verbal. a não ser de forma indireta. em dois outros pontos. A especificidade da musicoterapia reside. a música e o movimento para produzir estados regressivos. observada na segunda parte da definição não é uma falha. o desenho da musicoterapia vai ficando cada vez mais delimitado. A definição de Benenzon sobre o processo terapêutico estaria melhor formulada caso fosse iniciada pelas palavras: na área psiquiátrica ou no campo emocional. . o estudo do complexo som/ser humano não dispensa. privações de diversas ordens). a segunda parte da definição contradiz o caráter geral da primeira. incluindo-se aí a área psiquiátrica. determinar o objeto de estudo de uma ciência e seus propósitos gerais. numa disciplina ligada a problemas psicológicos ou emocionais. não só no uso da música mas. A palavra linguagem está sendo usada no sentido de codificação de elementos que permitem a transmissão de informações. estando portanto abrandados pelo prazer da atividade musical. pelo menos por enquanto. continuando a analisar a definição de Benenzon. a meu ver. A comunicação terapêutica pode atuar sobre o psiquismo. Se a música vai ser usada como uma linguagem para estabelecer a comunicação que permitirá a recuperação do paciente. seja ela escrita ou falada. o que não significa que a musicoterapia seja uma psicoterapia combinada com música..).5 si mesmas métodos psicoterápicos ..substâncias químicas. Seria conveniente acrescentar à definição "para produzir estados regressivos" ou ir ao encontro do estado de regressão dos pacientes. Resolução dos núcleos doentes pela valorização dos aspectos sadios e não pela discussão do problema do paciente. 2. Sua ênfase é na saúde e não na doença. etc. uma vez que muitos deles já se encontram regredidos. emoções (sem falar em torturas. que podem ser resolvidos ou melhorados através do uso da linguagem. Na área psiquiátrica. evidentemente. A idéia de que seja necessário produzir regressões para recuperar o paciente é. mas que atinge posteriormente o racional ou intelectual.as alturas ou intensidades. sensoriais e qualquer espécie de problema orgânico não podem ser resolvidos pela comunicação. mas também a todos os gêneros de linguagem não-verbal (gestual. única maneira conhecida de comunicar-se. fome.. fala-se em linguagem. a música e o movimento abrem canais de comunicação que vão permitir o início do processo de recuperação do paciente. nem mesmo pela comunicação terapêutica. Uma definição deve.

mudando sua visão do mundo. a não ser mostrar-se agradável ou desagradável. na maior parte dos escritos são privilegiados os aspectos psicológicos. enfim participavam ativamente da sessão. os sentimentos e emoções são provocados pela mensagem musical. vai contribuir para que a saúde do paciente possa vir à superfície. por ter trabalhado com uma orientação psicodinâmica.. A música. então. que busca a satisfação (o bom. por atuar sobre seu estado psicológico. um papel bem mais relevante no processo terapêutico do que servir apenas de intermediadora do relacionamento terapeuta/paciente. antes de dirigir-se à razão. ou seja de algum outro sentido atribuído pela racionalidade . A musicoterapia. As propriedades da música em si impelem os pacientes à ação. tocar instrumentos..6 A música desempenha. Enquanto atividade lúdica. Minha experiência em Portugal com pacientes de terceira idade demenciadas e com deficientes mentais me fez repensar e concordar com Lia Rejane Barcellos sobre o fato da música em si desenvolver aspectos bio-psico-sociais do paciente. mas levantar hipóteses que possam levar à reflexão sobre a musicoterapia. No entanto admite a projeção de outros significados. enquanto campo de conhecimento. dirige-se ao processo primário. com o terapeuta (e o grupo. para fundamentar a hipótese de que a música é uma linguagem cujo sentido pode ser compreendido e previsto. mas pelo fato de ser música. o agradável) e quando não a encontra tem a noção do mau. que é de um universo de sofrimento. ou de pisar forte ou leve. se for o caso) e consigo mesmo seja substancialmente melhorada. talvez pela tradição de considerar-se apenas a área psicológica. O paciente tem vivências de prazer. a música.boa/má . o método GIM (Guided Imagery and Music) considera a possibilidade de identificar algumas direções de atribuição de sentido a partir da análise das estruturas musicais. propiciando que sua relação com o mundo que o rodeia. mas são ainda pouco divulgadas. Quais são os mecanismos pelos quais a música induz ao movimento? O ritmo influi na tonicidade? Até mesmo. por exemplo. A riqueza das idéias não consiste em oferecer certezas. Há dez anos atrás. ou pelo timbre e outras combinações de elementos musicais agindo sobre a estrutura cerebral? Segundo Barcellos e Santos (1996).significações primárias. nestes dois aspectos. Senhoras absolutamente inativas começavam a cantar. Acho importante. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS . Considero inestimáveis as contribuições de todos os autores citados. também. Apesar do esforço dos musicoterapeutas em apresentar a musicoterapia como um processo a ser aplicado a um vasto espectro de situações. de acordo com a intensidade. do desagradável. Enquanto forma de linguagem sem significados definidos a priori.processo secundário. mas de investigação. compreendida enquanto sentido ou significação. etc. como forma de crescer profissionalmente e enriquecer a musicoterapia. não deve apoiar-se em um sistema de crenças. emocionais e relacionais. perceber os acertos e as falhas teóricas de novas hipóteses. É importante que os musicoterapeutas procurem estudar e analisar estas estruturas musicais. não sendo obtidas modificações nos pacientes pelos efeitos do som ou da música sobre seu organismo ou seu sistema neurológico. chegando posteriormente ao processo secundário. rever as próprias idéias. fazer e aceitar críticas. Precisamos tomar conhecimento do que existe. Pesquisas vem sendo feitas na área de neurologia. não apenas suspeitado. dirige-se diretamente ao processo primário. até mesmo dançar. motor. só possui dois significados . O grupo de deficientes era capaz de correr ou andar. ajudando os pacientes detentores de qualquer tipo de problema. que sejam feitos estudos sobre os mecanismos pelos quais a música induz a ação. sensorial. mesmo o que diverge de nossas convicções. não pelo sentido da música. acreditava que na musicoterapia como uma disciplina ligada à área de saúde mental. incluindo problemas de ordem motora e sensorial. que proporciona uma satisfação imediata (necessidade do primário). de acordo com o ritmo. sempre com psicóticos. Usando a terminologia freudiana.

R. de Vedia). Buenos Aires. . . J. . 1990 (trad."A Natureza Polissêmica Da Música e a Musicoterapia". São Paulo. São João del Rei. BENENZON. M. 2º Encontro Nacional de Pesquisa em Música. K. 1980."A Música Utilizada como Elemento Terapêutico". 1967 (version E. Revista Brasileira de Musicoterapia. J. V. BARCELLOS.Rio de Janeiro. Springfield. ARVEILLER. L.M. C. L. 1987.7 ALVIN. Issy-les-Moulineux. M.Manual de Musicoterapia. – Musicoterapia. Nº 1. e SANTOS. R. Illinois. Wrobel) . BARCELLOS. Thomas Publisher. 1996. M. Summus Editorial. 1985 (trad.Caminhos da Musicoterapia. . .Improvisational Models of Music Therapy. . Charles C . 1985. Editions Scientifiques et Psychologiques. Nastari) BRUSCIA. Editorial Paidos.Des Musicothérapies. R. RUUD. ª C. Ano 1. E. Enelivros.