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QUAL O SIGNIFICADO QUE SUBSTITUI "QUESTÕES DE BIOÉTICA NA CONTEMPORANEIDADE?"

1 QUAL O SIGNIFICADO QUE SUBSTITUI "QUESTÕES DE BIOÉTICA NA CONTEMPORANEIDADE?" Mauricio Silva de Moura

Mauricio Silva de Moura

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QUESTÕES DE BIOÉTICA NA CONTEMPORANEIDADE

Mauricio Silva de Moura 1 *

RESUMO

Esta exposição descreve o significado do enunciado "Questões de bioética na contemporaneidade". Para este fim, analisa a situação do conteúdo semântico de cada um dos termos que constitui o referido enunciado. Parte da ideia de que os signos lingüísticos "questões", "de", "bioética", "na" e "contemporaneidade", adicionados à outros signos lingüísticos derivados do contexto semântico que envolve à análise do enunciado maior como "ética", "aborto" e "feto" expressam descrições que quando unidas revelam um significado mais amplo do enunciado "Questões de bioética na contemporaneidade". Deste modo, demonstra que a descrição de cada signo lingüístico, em particular, faz surgir uma paisagem que ao final, sobreposta às demais revela "o estado das coisas" sobre o que se investiga. O resultado surge através da "imagem" do quadro semântico do significado que substituiu o enunciado examinado. A análise se fundamenta, portanto, na ideia de que o estado das coisas aqui expressa, tão somente, o contexto semântico atual, indicando que este contexto não é fixo, nem imutável já que deriva das culturas humanas e estas estão em perpétuo estado de movimento.

Palavras-chave: questões. bioética. Contemporaneidade. Aborto. feto.

1. INTRODUÇÃO AO TEMA

Bom dia a todos, sou Mauricio Moura e vou falar sobre Questões de Bioética na

Contemporaneidade. A princípio quero agradecer à professora doutora Maria

Antonia Brandão de Andrade, pelo convite de participar deste importante evento

que, dentre seus objetivos, busca refletir para alcançar o entendimento sobre a

temática.

Esta breve exposição nasceu da pretensão de investigar sobre o enunciado

"Questões de Bioética na Contemporaneidade". Destarte, parte da suposição de que

há um vínculo entre as questões de bioética e a contemporaneidade. Com isso

estamos afirmando que existe um laço moral, uma conexão, uma ligação entre as

questões derivadas da bioética e a contemporaneidade. Assim, o conteúdo, desta

exposição, se constitui em efeito de meu esforço para produzir uma linha de

*1Licenciado em Filosofia pela UFBA e Mestre em Ensino, Filosofia e História das Ciências pela UFBA/UEFS.

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raciocínio correta que seja capaz de fornecer bases e provas que evidenciem a verdade do enunciado que declara que entre a contemporaneidade e as questões de bioética existe um nexo. Entretanto, entendo que para este empreendimento preciso avançar em aspectos essenciais, como por exemplo, as esferas conceituais que cercam o tema. Examinaremos, por isso, os significados que substituem os termos "bioética" e "contemporaneidade". Além de identificar questões derivadas da "bioética" e os significados que substituem as mesmas. Dentre estas, optamos por examinar o "aborto". Deste modo, a nossa exposição consiste em uma investigação semântica dos enunciados que foram construídos com o intuito de alcançar os fins expostos. Cada um deles, dá forma a uma paisagem que reflete uma das acepções do significado que se investiga. Quando unidas estas paisagens se sobrepõem e formam só uma realidade que expressa o quadro completo do estado de coisas do significado da temática. Neste sentido, o exame destes enunciados traz para nossa investigação, sobretudo, relações entre comunicação, pensamento, linguagem e realidade. Comunicação expressa o que é possuído em comum, portanto, o que é compartilhado. Neste contexto o som, a escrita e o gesto são exemplos de formas materiais da linguagem que podem ser compartilhadas. Exprimem pensamentos, volição e emoção. Na linguagem falada, a matéria das palavras é o som. Na linguagem escrita a matéria das palavras é a notação, ou seja o sistema de símbolos que constitui a grafia. Na linguagem gestual a matéria das palavras é o gesto. Nesse contexto, entendemos que cada traço da realidade pode ser representado à sua forma material e associado à signos lingüísticos e, por conseqüência, aos seus respectivos significados que os substituem. Assim, o "ser humano" comunica por intermédio de símbolos à realidade. Neste processo os enunciados lançam de si o estado das coisas do que se busca, por estes motivos, o método descritivo é o mais adequado aos nossos propósitos. Já que, ao empreendermos a descrição estrutural do enunciado de nosso tema produziremos sua interpretação semântica.

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Por efeito, toda esta exposição consiste, tão somente na projeção de nossa intenção de descrever o significado que substitui o enunciado "Questões de Bioética na contemporaneidade".

2. SOBRE O SIGNIFICADO QUE SUBSTITUI A PALAVRA "BIOÉTICA"

Na primeira paisagem, do quadro maior que estamos produzindo, descreveremos o significado que substitui os signos "de bioética".

O signo "de" é um signo linguístico invariável que expressa relações existentes entre

outros signos de um determinado enunciado. Em "de bioética" expressa relação de posse. Assim, no enunciado "Questões de bioética na contemporaneidade" "de" exprime que existem "questões" que pertencem ao âmbito da "bioética".

O termo "bioética" é resultado da união da palavra "ética" e do prefixo "bio".

Portanto, neste caso específico, "bio" é um morfema, ou seja, uma unidade mínima

de significação da classe de afixos, que se agregou no início do vocábulo "ética".

Trata-se de um neologismo, a medida que é uma acepção nova, e neste caso mais restrita, de uma palavra mais antiga: a palavra "ética". Se "ética" é um substantivo, "bioética" tambem será. Já que o prefixo "bio" não fornece à unidade lexical uma mudança de categoria gramatical. Assim, "bio" é uma pequena partícula que se uniu à ética transformando-a em outra

palavra: bioética. O termo "bio" se originou na palavra grega "Bios" que significa vida. Então, "bio" exprime naturalmente relação com ser vivo e expressa ideia de vida.

O termo "ética" deriva do vocábulo ethos que significa modo de ser, caráter, conjunto

de costumes. "Ética" é parte da filosofia que analisa determinado conjunto de condutas com a finalidade de identificar quais dentre as mesmas produzem o "bem comum" em relação à determinada cultura humana. Neste contexto semântico, "bem comum" é resultado da prática de ações que produzem o bem estar e a felicidade em uma determinada cultura.

O significado que substitui a palavra "ética" inclui o exame de todas as condutas de

uma cultura. Ou seja, não exclui deste conjunto condutas relacionadas com as questões da vida, nem nenhuma outra. Este ponto que trazemos nesta primeira paisagem é o mais

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complexo e difícil de ser entendido pois atinge diretamente a necessidade ou não do uso do vocábulo "bioética". Examinemos, por exemplo, a definição existente no dicionário de la Real Academia Española que expressa que "bioética" é uma disciplina científica que estuda os aspectos éticos da medicina e da biologia em geral, assim como as relações do homem com outros seres vivos:

O Diccionário de la Real Academia Española, em sua vigésima edição, define bioética como disciplina científica que estuda os aspectos éticos da medicina e da biologia em geral, assim como as relações do homem com os outros seres vivos 2 .

O primeiro ponto, desta definição nos diz que é uma disciplina científica que estuda aspectos éticos. Assim, continua-se estudando "ética". Continua-se estudando as condutas humanas e seus efeitos na cultura humana. Restringir o estudo aos campos da biologia e medicina não altera esta realidade. Logo, tal definição não confere necessidade ao vocábulo "bioética", já que o torna redundante ao significado que substitui a palavra "ética". Donde se conclui que o significado de "ética" engloba a definição de "bioética" fornecida pelo Diccionário de la Real Academia Española. Vamos examinar outro trecho do livro "Bioética o que é como se faz" (2001), escrito por Lolas:

A tradição mais aceita atribui ao oncologista americano Van Rensselaer Potter a introdução do termo na literatura científica, por tê-lo empregado no título de um livro publicado em 1971, Bioethic:

Bridge for future. Por volta do mesmo ano, foi fundado na Universidade de Georgetown Washington, Estados Unidos, um instituto chamado The Joseph and Rose Kennedy Institute for the Study of Human Reproduction and Bioethics, que logo se transformaria no Kennedy Institute of Ethics. 3

Neste segundo trecho temos a informação histórica sobre como surgiu pela primeira vez o termo "bioética": como título de um livro. Contudo, o mais importante está no fato da mudança do nome do instituto que cambiou de The Joseph and Rose Kennedy Institute for the Study of Human Reproduction and Bioethics para Kennedy Institute of Ethics.

2 LOLAS, F. Bioética: o que é, como se faz. São paulo: Loyola, 2001.

3 Ibid., p. 17.

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O instituto seja com o primeiro ou segundo nome sempre teve como fim estudar questões éticas, daí que a retirada do termo "bioética" quando ocorreu a alteração da nomenclatura do instituto não modificar em nada a finalidade e razão de ser do mesmo. Isto porque, como já explicado, "bioética" é, dentre outros, redundante ao significado que substitui a palavra "ética". Ademais, o fato histórico da criação do termo "bioética" é analogicamente semelhante a um indivíduo que atuasse em uma área de tecnologia e escrevesse um livro com o título "tecnoética". Logo, embora estas criações funcionem bem como jogada de marketing que produz, como uma das consequencias, o aumento de venda de livros não acrescenta, substancialmente, muita coisa para a esfera semantica. Com isso formamos a primeira paisagem do nosso quadro, representada pela

figura1.

Figura 1 representação da primeira paisagem do significado que substitui o enunciado "Questões de

Bioética na Contemporaneidade". 4

"Questões de Bioética na Contemporaneidade". 4 Fonte: Van Gogh Gallery. 4 As figuras na nossa

Fonte: Van Gogh Gallery.

4 As figuras na nossa exposição representam a formação gradual do quadro semântico geral do enunciado analisado, ou seja, a imagem do significado que substitui o signo lingüístico que estamos descrevendo. Contudo cada figura não é insubstituível. Na prática, embora nesta exposição um dos quadros de Vicent Van Gogh tenha materializado o referido quadro, esta função poderia ter sido exercida por outras imagens.

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3. SOBRE O SIGNIFICADO QUE SUBSTITUI A PALAVRA "QUESTÕES" E A EXPRESSÃO "NA CONTEMPORANEIDADE"

Na segunda paisagem do nosso quadro trazemos o significado que substitui "questões" e o significado que substitui "na contemporaneidade". O termo "questões" a medida que representa o plural de "questão" evidencia quantidade, a medida que expressa a existência de mais de um. Como "questão" é um substantivo variável o emprego do seu plural é possível e adequado. Não existe nenhum vocábulo que seja antônimo de "questão", contudo há antônimos da ação de questionar representados, por exemplo, por concordar, aceitar. Pode-se definir "questão" como uma pergunta ou indagação que se dirige à alguém com um propósito ou finalidade. Portanto "questões" são indagações ou perguntas dirigidas à alguém com determinado propósito ou finalidade. Tem como sinônimo "inquisição" na acepção de ato de inquirir, investigar, averiguar ou pesquisar. Destarte, no contexto desta exposição "questões" são perguntas, ou no âmbito do ato de pesquisar são "problemas atuais de bioética". Sendo que o tecido da própria exposição é feito das respostas à esta problemática central. Examinemos agora a expressão "na contemporaneidade". O signo "na" é o resultado da contração da preposição "de" com o artigo definido ou pronome demonstrativo "a". Tal signo aparece antes de uma palavra feminina. No contexto do nosso enunciado "Questões de bioética na contemporaneidade" aparece antes do substantivo feminino "contemporaneidade". A palavra "contemporaneidade" deriva do termo contemporâneo adicionado ao substantivo "idade" e representa o tempo transcorrido desde o nascimento. "Contemporaneidade" expressa uma propriedade daquilo que é contemporâneo. "Contemporâneo" deriva de "contemporaneus" e é algo que é evidenciado no tempo presente ou atual. Tem como antônimo o vocábulo "obsoleto" que representa o que não é inovador, o que é ultrapassado, o que não é recente, o que é sem uso, o que não é avançado, o que está distante da moda atual, o que não é contemporâneo.

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É tambem algo que faz parte da mesma época. Daí o termo "coexistência" ser

associado com "contemporaneidade". Nesta conjuntura, dizer que algo "coexiste" na mesma época é expressar que algo é contemporâneo em relação à outros. Nesta acepção "coexistir" é ser contemporâneo "de". Neste contexto semântico, o enunciado "Questões de bioética na contemporaneidade" equivale ao enunciado "Questões de bioética no tempo atual" ou à "Questões de bioética no presente".

Ou melhor dizendo "Questões atuais de ética". Destarte construímos a segunda paisagem do nosso quadro semântico, simbolizada pela figura 2.

Figura 2 representação da segunda paisagem do significado que substitui a palavra "Questões" e o

enunciado "na Contemporaneidade"

e o enunciado "na Contemporaneidade" Fonte: Van Gogh Gallery. 4. SOBRE O SIGNIFICADO QUE

Fonte: Van Gogh Gallery.

4. SOBRE O SIGNIFICADO QUE SUBSTITUI A PALAVRA "ABORTO"

A terceira paisagem do nosso quadro é composta pelo significado que substitui o

termo "aborto". Examinando as acepções que cercam o termo nos aproximaremos

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da compreensão sobre o mesmo. Destarte, "compreensão representa o captar intuitivo dos princípios primeiros". 5 "Aborto" deriva de "abortu". Ocorre aborto quando há Interrupção provocada ou voluntária de uma gravidez. No processo o próprio "feto" é expelido ou é retirado antes do tempo normal de gestação que resultaria no nascimento de um "ser". Dentre as acepções da palavra "aborto" está "aborto legal". Há países onde o aborto é uma ação regulamentada por lei. "Uma ação é legal quando praticada sob a égide dos ditames da lei, podendo seu agente reivindicar até a tutela do Estado para o seu efetivo exercício" 6 . Ou seja, quando é regulado pela legislação de determinada cultura. No enunciado a palavra égide é empregada na expressão "égide dos ditames da lei" em um sentido figurado que expressa o amparo da lei. Originalmente, "égide" tem sua origem na mitologia grega. É um escudo usado por Palas Athena, deusa da sabedoria e da guerra. No universo da mitologia grega, tal deusa foi fruto da união de Métis, deusa da astúcia e prudência e Zeus, deus ordenador do cosmos. Desta forma, "égide" que enquanto escudo possui um traço concreto recebe na expressão "égide dos ditames da lei" um traço abstrato já que os ditames da lei não possuem concretamente um escudo. Deste modo o termo égide foi designado em lugar do termo proteção que seria suficiente para dar sentido ao enunciado. Com isso, a expressão "uma ação é legal quando praticada sob a égide dos ditames da lei" pode ser mais claramente expressa por "uma ação é legal quando praticada sob a proteção da lei". Em tal caso a legislação deve estabelecer em quais circunstancias a ação do aborto poderá ser praticada. Contudo, "ação legal" é uma expressão ambígua já que o vocábulo "legal" em determinada acepção é sinônimo de "coisa boa, divertida e interessante" e em outra acepção diz respeito à legislação.

5 JOSEPH, M. O trivium: as artes Liberais da lógica, da gramática e da retórica. São Paulo: É realizações,

2008.

6 FERNANDEZ, J. G. 10 palavras-chave em bioética. São Paulo: Paulinas, 2000.

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Neste contexto específico que envolve legislação devemos evitar a palavra "legal" eliminando assim possíveis ambigüidades semânticas. Deste modo, preferimos afirmar que "na Espanha, por exemplo, "o aborto é praticado sob o amparo da lei" do que declarar que "Na Espanha o aborto é legal", Já que "abortar" não é algo bom, divertido e interessante. Desta forma, deixamos claro que a legislação espanhola estabelece as circunstâncias em que a ação de abortar pode ser praticada. Tal legislação expressa que o aborto pode ser praticado para evitar grave risco à vida ou saúde física ou psíquica da gestante desde que haja um laudo expedido anteriormente. Contudo, em casos de urgência o laudo é dispensado. A legislação espanhola tambem permite a prática do aborto, nas doze primeiras semanas quando há violação sexual e a mesma tenha sido denunciada. Na lei española tambem há permissão do aborto quando há evidencias de que o "feto" nascerá com graves deficiências físicas ou psiquiátricas. Mas qual o significado que substitui "feto"? "Feto" é algo que pode nascer com graves deficiências físicas? Assim formamos a terceira paisagem do nosso quadro, representada pela figura 3.

Figura 3 representação da terceira paisagem do significado que substitui a palavra "Aborto"

– representação da terceira paisagem do significado que substitui a palavra "Aborto" Fonte: Van Gogh Gallery.

Fonte: Van Gogh Gallery.

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5. SOBRE O SIGNIFICADO QUE SUBSTITUI A PALAVRA "FETO"

A última paisagem que trazemos traz o significado que substitui a palavra "feto". Este é o ponto mais importante da minha exposição, pois atinge, essencialmente, o significado que substitui "aborto". E é a fonte das maiores polêmicas que envolvem as discussões e os debates acalorados sobre o tema. A palavra "feto" deriva do termo filictum e possui uma definição pouco precisa em relação à ser ou não um "ser humano". Ademais, sobre isso há outra questão temporal imprecisa que confere ou não, ao "feto", o status de ser "humano". Estas referidas imprecisões são o manancial das grandes polêmicas que envolvem o significado do vocábulo "aborto". Portanto, trata-se, essencialmente, de polêmicas vinculadas diretamente à semântica. Mais precisamente ao significado que substitui o signo lingüístico "feto". Ainda que muitos debatedores não percebam este importante detalhe é neste ponto que está a raiz das principais discussões sobre "aborto" . A chave para compreender o enigma passa pelo vocábulo "embrião". Como sinônimo de "feto" temos a palavra "embrião". Embrião é uma palavra que deriva do vocábulo "émbryon". Embrião é, antes de tudo, um organismo que não atingiu seu desenvolvimento completo. Por vezes "feto" é definido como algo que está em desenvolvimento no útero e que após o terceiro mês de gestação, origina um ser humano. Este algo ou alguma coisa não é expresso semanticamente como sendo um "ser humano". Mas, como alguma coisa que após o terceiro mês de gestação dá origem a um "ser humano". Em "Embrião que está em desenvolvimento no útero e que após o terceiro mês de gestação, origina um ser humano" o aborto eliminaria um "embrião" e não assassinaria um "ser humano". Analogicamente podemos justificar esta conclusão através de premissas que expressam o nexo existente entre "sementes" e "árvores". Eliminar "sementes" não é desmatar uma floresta ou cortar árvores. Semanticamente são ações diferentes. Ademais, com exceção de sinônimos, um conceito não pode ser traduzido por outro, sem prejuízo semântico. Não há unidade de medida comum entre conceitos que não são sinônimos. Portanto, estes conceitos são incomensuráveis e intraduzíveis.

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Nesta perspectiva, tanto os conceitos de "semente" e "árvore", quanto os conceitos de "feto" e "ser humano" não são sinônimos, logo não são traduzíveis, nem substituíveis entre si. Sem compreender este sutil aspecto, que cerca os conceitos, não entenderemos o papel crucial e as implicações que a semântica possui na análise do ato de "abortar" e do próprio "aborto". Mas tudo muda, se ao invés da palavra "feto" tivéssemos a expressão "Ser Humano" teríamos "Ser humano, que desde o princípio da gestação, encontra-se em desenvolvimento no útero". Esta mudança semântica afetaria tanto o significado, quanto as implicações éticas da palavra "aborto". Em "Ser humano, que desde o princípio da gestação, encontra-se em desenvolvimento no útero" temos na ação de "abortar" finalmente o ato de assassinar um "ser humano" indefeso. Desta forma criamos a última paisagem do nosso quadro semântico, representada pela figura 4.

Figura 4 representação da última paisagem do significado que substitui a palavra "Feto" que completa o

quadro semântico geral que, por fim, substitui o enunciado "Questões de bioética na

contemporaneidade".

geral que, por fim, substitui o enunciado "Questões de bioética na contemporaneidade". Fonte: Van Gogh Gallery.

Fonte: Van Gogh Gallery.

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CONCLUSÃO

Destarte, diante desta breve exposição, podemos concluir que parte dos problemas éticos,

existentes nas culturas humanas, tem seu manancial na falta de entendimento dos

significados que substituem os signos lingüísticos. Tal fato exprime o quanto útil é a

descrição analítica da linguagem pela filosofia, para que sejamos capazes de entender

melhor a realidade.

O próprio signo "bioética" quando usado sem entendimento apesar de impulsionar a

vendagem de exemplares de livros, periódicos ou revistas, impossibilita a compreensão

léxica do termo. O mau uso do signo "bioética" tem semelhanças com o uso que se deu ao

termo paradigma, apresentado por Kuhn em "A estrutura das revoluções científicas (2001)".

No caso do signo paradigma, definido por Kuhn em uma acepção que restringe seu uso ao

âmbito científico, houve um modismo indiscriminado que resultou, especialmente, no uso da

palavra em áreas onde os paradigmas científicos inexistem. No caso do vocábulo "bioética"

há o uso do mesmo como um termo independente do significado que substitui o signo

"ética". A expressão "disciplina científica" existente na definição de "bioética" tambem é inútil

e torna mais turva a água do entendimento que cerca o signo "bioética".

O não entendimento que cerca os signos lingüísticos ocorre tambem, freqüentemente, com

a semântica que cerca as "deontologias". Estas são os códigos de ética de ofícios como

psicologia, medicina, direito, gestão de empresas, dentre outros. Em cursos técnicos, de

graduação e pós-graduação, muitos professores e estudantes não entendem que estão

lidando, essencialmente, com os fundamentos e princípios refletidos por Platão, Aristóteles e

muitos outros. Este equívoco faz que enxerguem o signo "deontologia" como algo a parte do

significado que substitui "ética".

Esta percepção oriunda do não entendimento semântico é um dos males que persistem na

"contemporaneidade". Talvez os maiores prejuízos cerquem esferas que examinam e lidam

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diariamente com questões éticas como "aborto", onde a não compreensão do significado

que substitui o signo "aborto" gera debates perpétuos e desgastantes sobre o tema.

Deste modo, devemos compreender a linguagem. Isto inclui, compreender a forma como

lançamos de nós próprios os significados que substituem os signos lingüísticos para que

progressivamente tenhamos no mundo uma maioria de indivíduos que entendam o que

ouvem e o que falam, o que escrevem e o que lêem. Assim, aprimora-se de forma geral a

humanidade. Esta hoje composta, em maior parte de pessoas que aprenderam a fazer mas,

não entendem o que fazem. Para reverter isso devemos desobstruir, antes de tudo, a via

mais importante. E para esta desobstrução devemos compreender que a linguagem possui

formas materiais detectáveis na realidade como o som e a notação e que cada signo

lingüístico substitui um objeto real designado por nossa cultura por meio de uma palavra,

enunciado, dentre outros. Resolvendo este enigma finalmente um indivíduo será capaz de

entender que a filosofia da linguagem aborda, antes de tudo, signos que dão sentido à

realidade em que vivemos. Obrigado.

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REFERÊNCIAS

COPI, MARMER IRVING. Introdução à lógica. São Paulo: Editora Mestre Jou,

1979.

LOLAS, F. Bioética: o que é, como se faz. São paulo: Loyola, 2001.

FERNANDEZ, J. G. 10 palavras-chave em bioética. São Paulo: Paulinas, 2000.

JOSEPH, M. O trivium: as artes Liberais da lógica, da gramática e da retórica. São Paulo: É realizações, 2008.

CONCEITO DE. Disponível em: < http://conceito.de>. Acesso em: 22 jun. 2015.

VAN GOGH GALLERY. Disponível em: < http://www.vangoghgallery.com>. Acesso em: 16 jun. 2015.

STEWART, JAMES. Cálculo: volume I. São Paulo: Cengage Learning, 2012.