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9/3/2014

Folha de S.Paulo - Opinião - Administrar as diferenças - 09/03/2014

9/3/2014 Folha de S.Paulo - Opinião - Administrar as diferenças - 09/03/2014

Henrique Meirelles

Administrar as diferenças

Em viagem à África, fiquei impressionado com Botsuana, país organizado, próspero em termos regionais, democrático, com instituições relativamente estáveis e ausência de tensões étnicas e conflitos comuns no continente.

A explicação consensual é que as fronteiras de Botsuana foram estabelecidas de

forma autônoma em linhas étnicas e culturais, ao contrário do padrão imposto pelas

potências coloniais, que misturaram segundo seus interesses, etnias e culturas diferentes ou mesmo antagônicas. Essa difícil convivência cobra, até hoje, preço enorme em vidas, bem-estar e produção.

Há, normalmente, grande resistência ao separatismo. Dá-se grande valor à preservação das integridades territoriais dos países. Mas recente análise da história mostra que isso nem sempre é correto.

Na antiga Tchecoslováquia, tchecos e eslovacos se separaram pacificamente tão logo se tornaram senhores de seu destino. República Tcheca e Eslováquia são hoje nações prósperas e ativas no âmbito europeu. Já na Iugoslávia, outra criação artificial, a separação foi sangrenta. Mas, vencida a etapa brutal e desumana dos conflitos, Croácia, Bósnia, Macedônia, Montenegro, Eslovênia e Sérvia são hoje países estáveis.

Há também povos de culturas distintas vivendo bem juntos. Exemplo mais importante é

o da Suíça, onde alemães, franceses e italianos convivem num país próspero,

democrático e estável. Na Bélgica, grandes tensões políticas entre flamengos e franceses não minam a paz e a prosperidade nacional.

Já povos artificialmente separados tendem a se reagrupar, como no caso das Alemanhas Ocidental e Oriental, reunificadas assim que possível.

São exemplos europeus adequados à reflexão sobre a crise na Ucrânia e o separatismo na Crimeia. É preciso distinguir diferentes contextos. De um lado, a questão geopolítica da Rússia, que tem dificuldade em aceitar seu poder cadente e um histórico de truculência na preservação de territórios e áreas de influência --como fizeram muitas grandes potências no passado. Por outro lado, a Crimeia tem maioria de origem russa que pode preferir ser parte da Rússia que da Ucrânia.

Aliás, a Crimeia era parte da Rússia até 1954, quando foi anexada à Ucrânia por ordem do líder soviético Nikita Kruschev (1894-1971). Mas um referendo marcado por intimidação e suspeitas de frau- de pode não ser uma solução adequada.

O fundamental é levar em conta todos os fatores da complexa equação ucraniana. A

reação contra a truculência do presidente da Rússia, Vladimir Putin, é apropriada. Mas deve-se também respeitar os desejos e a tradição cultural dos russos da Crimeia.