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Universidade Federal de Juiz de Fora Faculdade de Comunicação Social e Jornalismo

Roberta Oliveira

A Influência da Mídia na Construção da Imagem Corporal

Juiz de Fora

2011

2

Roberta Oliveira

A Influência da Mídia na Construção da Imagem Corporal

Artigo apresentado à disciplina Comunicação e Expressão Escrita II referente ao segundo período da faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito avaliativo.

Orientadora: Profª. Marise Pimentel Mendes

Juiz de Fora

2011

3

A Mídia como elemento (des)construtor da Imagem Corporal

O termo imagem corporal está relacionado a percepção e ao conceito acerca do

próprio corpo. Em sua concepção essencial a imagem corporal participa de uma esfera muito

subjetiva e individual da representação do indivíduo sobre si, todavia, tal percepção é

sensível às influências exercidas pelo meio cultural, onde o que é classificado como

“normal” é perpetuado através de sua assimilação e transmissão de uma geração a outra

(Alves et al, 2009) e isto é plausível partindo do pressuposto que

“o corpo se constitui a

partir de representações individuais e sociais” (Goetz etal, 2008). Contudo, as construções

de auto imagem passam a fator alarmante a partir do momento em que o sujeito não se

reconhece mais como indivíduo dotado de particularidades que o fazem único, mas como

um espelho que reflete os padrões impostos pela sociedade, mas que nem sempre se ajustam

a sua realidade. (Alves et al, 2009)

Variados fatores perpassam a construção da auto imagem corporal, tais como o

familiar, os grupos de amigos, as relações estabelecidas socialmente e a mídia, tal como

afirma Frois et al (2011)

a forma de apropriação da imagem corporal perpassa pelas

definições que se obtêm a partir dos outros e das mídias - rádio, televisão e, sobretudo, internet, e, embora as construções da imagem corporal não estejam submetidas apenas às imposições das mídias,

elas, assim como as demais experiências (

(

)

),

influem na sua formação.

Os padrões de beleza, assim como os alimentares, são construtos históricos e, como

tais, mudam ao longo do tempo (Teo, 2010) e, atualmente, a mídia vem se mostrando como

o

principal elemento criador e propagador de arquétipos de imagem, pois é capaz de invadir

o

cotidiano das pessoas, contribuindo inegavelmente para a disseminação de certos valores e

padrões de comportamento, ou mesmo, da compreensão de como se constituir como sujeito

4

(Silva et al., 2009). A mídia, desde seu advento, tornou-se um meio de intermediação entre

o mundo e a sociedade, transmitindo o que é conveniente e reforçando estereótipos. Knopp

(2008) identifica como “Indústria da Corpolatria” tudo aquilo que estimula o consumo de

produtos

e

serviços

destinados

ao

objetivo

de

tornar-se

belo

e

atraente

e

a

coliga

intimamente as estratégias de propaganda e publicidade engendradas pela mídia, que

influenciam o público exposto a tais opiniões, lançando uma busca desmedida ao corpo dito

perfeito. A referida idéia corrobora a opinião de diversos autores (Vasconcelos et al, 2004;

Rowe et al., 2011; Beiras at al., 2007; Castro, 2004; Maldonado 2006; Goetz et al., 2008;

Garrini, 2007; Cruz et al., 2007; Conti et al., 2005; Andrade & Bosi, 2003; Alvarenga et al.,

2010; Teo, 2010; Silva et al.,2009;

(2005) quando afirma que

Frois, 2011; Serra & Santos, 2003), tal como Russo

A indústria corporal através dos meios de comunicação encarrega-se de criar desejos e reforçar imagens, padronizando corpos. Corpos que se veem fora de medidas, sentem-se cobrados e insatisfeitos. O reforço dado pela mídia em mostrar corpos atraentes, faz com que uma parte de nossa sociedade se lance na busca de uma aparência física idealizada.

O século XX, marcado como era de grandes transformações econômicas, sociais e

culturais e da legitimação do consumo como item inerente ao cotidiano, viu o conceito de

corpo tornar-se emblemático na medida em que se converteu em representação de códigos

da Indústria Cultural 1 , tornando-se sinônimo de sucesso, de beleza, de prazer, de estilo, de

elegância que lhe são atribuídos de maneira exterior, mesmo não lhe sendo próprios apesar

de apresentarem-se como tal, vez que o corpo, agora corpo-mídia, torna-se a representação

destes signos (Campos, 2005).

Logicamente, há interesses ocultos que propulsionam a

mídia e seus conglomerados a estimularem a estereotipagem de padrões fiscos, posto que

tais motivos são puramente financeiros e ligados diretamente a publicidade e seu poder de

persuasão de consumo.

1 Sobre este conceito ver Adorno, T. W.

5

Atualmente ao ligar a televisão ou folhear uma revista ou jornal, garotas perfeitas com curvas delineadas e garotões de porte atlético tentam vender um carro, um eletrodoméstico, um tênis, estabelecendo os padrões estéticos. Isto faz com que as pessoas tornem-se escravas de um ideal, ressaltando o narcisismo e impondo para si mesmas uma disciplina extremamente severa, por vezes dolorosa. (Russo, 2005)

A jornada em busca da beleza suprema revela em seu caminho os percalços a serem

ultrapassados. O desvio de percepção da imagem corporal causados pela assimilação dos

padrões de “perfeição” disseminados na sociedade induz ao autoflagelo conduzindo a

consequências que vão desde os distúrbios alimentares a mutilações.

O indivíduo tenta, à

custa de castigos e recompensas, se adaptar, até chegar o momento em que estes padrões de

comportamento são vistos como naturais. E assim para se aproximar do ideal de estética

corporal que é imposto pela sociedade, muitas pessoas se submetem a dietas rigorosas,

praticam exercícios físicos e realizam cirurgias plásticas (Rowe et al., 2011).

Em vista do preocupante panorama delineado contemporaneamente, este artigo

objetiva arrolar estudos que evidenciem os efeitos provocados pela influência da mídia sobre

os indivíduos em diferentes fases da vida quanto a sua imagem corporal e como isto

interfere em sua concepção de existir como pessoa. O método de pesquisa pelo qual tal

estudo será submetido consistirá na investigação e captura de fontes em portais como

CAPES, Scielo, PubMed, Lilacs, Google Acadêmico e publicações variadas.

O adolescente e o drama de ser aceito

A infância e a adolescência são as fases de formação do indivíduo. Geralmente, as

experiências a que os sujeitos são expostos durante a tenra idade influenciam em variados

âmbitos de sua vida, caracterizando-se como norteadores de sua constituição. Tal processo

está em constante modificação, posto que o ambiente social é dinâmico e conduz a

inesgotáveis readaptações (Frois et al, 2011).

Por ser uma etapa de modelagem da

6

personalidade

e

do

corpo

em desenvolvimento,

a adolescência

é mais

suscetível

as

informações, conceitos e valores disseminados na sociedade, convertendo-se em alvo fácil

para a mídia.

Serra & Santos (2003) empreenderam um estudo analisando as reportagens da

principal revista brasileira dirigida ao público adolescente, a revista Capricho, da Editora

Abril. A pesquisa ateve-se as reportagens publicadas em 1999 que abordavam o tema

“Obesidade”, totalizando 25 números. Tal recorte temporal foi priorizado, pois, de acordo

com as autoras, a década de 1990 caracterizou-se pela expansão da venda de produtos

dietéticos no Brasil. Segundo as pesquisadoras, o objetivo do estudo era “considerar os

debates acerca do tema, enfatizando as tensões e paradigmas que envolvem a mídia, os

profissionais de saúde e o receptor que pretende modificar uma situação estética que o

aflige”. O estudo concluiu que a revista usa de artifícios como linguagem fácil e visual

colorido; apelo aos estereótipos de imagem, como ser magro, sexy, bonito, sobejando,

mesmo que entre linhas, que conseguir um namorado(a) ou ser aceito e popular, depende de

possuir tais características; referência a artistas ícones de beleza e sucesso; entrevistas que

mostram adolescentes contando seus dramas e suas “vitórias”; respaldo de especialistas

médicos, educadores físicos e nutricionistas quando publicadas receitas para emagrecer. Tais

características revelam o modo como a mídia percebe as necessidades de determinado grupo

e cria um ambiente favorável a saciar tais lacunas.

Silva e colaboradores (2009) em estudo que contou com a participação de 70

adolescentes paraibanos, com média de idade em 15 anos, procuraram traçar as influências

que a mídia exercia sobre sua imagem corporal ideal. A pesquisa revelou que muitos deles

tinham como corpo ideal a silhueta esguia de modelos e o corpo musculoso e hipertrofiado

como figura masculina perfeita. Os autores registraram na conclusão de seu trabalho que

7

A influência desses modelos midiáticos para os jovens acaba gerando

compreensões sobre uma possível existência de um corpo perfeito, visto

que, tanto na percepção masculina como feminina, verifica-se a existência

de

protótipos de beleza que passam a ser almejados pelos jovens em busca

de

uma melhor aceitação social.

Em outro estudo que se utilizou de entrevistas, Conti et al (2010) contaram com a

participação de 121 jovens entre onze e dezoito anos.

Os resultados foram muito

semelhantes aos de Silva et al, somando-se o fato de que o estudo de Conti revela a

preocupação

dos

adolescentes

desenfreada por ser aceito.

com

os

transtornos

alimentares

advindos

da

busca

Embora seja perceptível que os adolescentes entrevistados em tais estudos detinham

consciência acerca dos riscos advindos da assimilação não crítica de modelos de beleza e da

deturpação da imagem, é necessário manter-se atento aos conteúdos a que os jovens são

expostos e as mínimas mudanças de comportamento.

A virilidade masculina e a mídia

A força, desde tempos remotos, é associada a masculinidade. Os músculos aparentes

denotam juventude, robustez e virilidade. Na Grécia antiga, mais precisamente em Esparta, o

corpo forte era reflexo do homem apto a guerra (Garrini, 2007). Hoje, tal como os Helenos,

o homem contemporâneo se vê pressionado a se ajustar a um fenótipo que transmita o seu

vigor, mas não para ir as batalhas, mas como forma de existir como indivíduo.

Um corpo musculoso, forte e viril (tirado de academias, imagens publicitárias e veículos de entretenimento) vem historicamente se tornando o referencial de corporeidade masculina, enquanto corpos que desviam deste padrão são comumente satirizados ou mesmo excluídos da mídia. (Beiras et al., 2007)

“O músculo hoje é um modo de vida” (Russo, 2005) e a indústria que se movimenta para

manter tal patamar de perfeição estética ganha bilhões a cada ano. “Homens e mulheres

investem cada vez mais tempo, energia e recursos financeiros no consumo de bens e

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serviços destinados à construção e manutenção do invólucro corporal” (Iriart et al, 2009). De

acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas 2 , a Indústria da Beleza

faturou no ano de 2004, somente no Brasil, cerca de 13 bilhões de reais, um aumento de 8,7%

em relação ao ano anterior. Em contrapartida, a insatisfação com o próprio corpo cresce na

mesma proporção, assim como o uso de substâncias anabolizantes ou androgênicas, as chamadas

“bombas”.

Iriart e sua equipe de pesquisadores desenvolveram um estudo que contou com a

participação de 50 usuários de academias da capital Salvador - BA, com idade variando entre 18

e 35 anos. Dos participantes envolvidos, 43 usam ou já fizeram uso de substâncias androgênicas

pelo menos uma vez. A maioria esmagadora dos entrevistados relata que iniciou o uso de tais

substâncias influenciados pelos apelos de imagem disseminados na sociedade e ratificados pela

mídia. Muitos deles se esconderam por detrás do “ 'discurso da saúde' que enaltece as

consequências positivas (

)

advindas da musculação. Este discurso perpassa as diferentes

camadas sociais e caracteriza-se também pela preocupação com o envelhecimento e o desejo

de manter-se eternamente jovem”.

Em pesquisa realizada com 102 estudantes de Educação Física de uma cidade do

interior paulista, Russo (2005) constatou que muitas das características relacionadas a

Síndrome de Distorção da Imagem 3 estavam presentes naquele grupo, como preocupação

com detalhes mínimos da aparência, beliscar o próprio corpo avaliando nível de gordura

corporal ou evitando certas tipos de roupas ou a nudez com medo de parecer gordo. A autora

ressalta a atual insatisfação que acomete as pessoas em relação ao próprio corpo e detecta

entre os participantes de sua pesquisa um mal que ataca principalmente o sexo masculino, a

2 Disponível em http://www.abevd.org.br/htdocs/index.php?noticia_id=568&secao=noticias

3 É um transtorno psicológico caracterizado pela preocupação obsessiva com algum defeito inexistente ou mínimo na aparência física.

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Vigorexia “que se caracteriza por uma preocupação excessiva em ficar forte a todo custo”,

não obstante tenham a aparência máscula, considerando-se magros e fracos.

Mais do que uma questão de vaidade extremista, o desvio de imagem e suas

consequências e a vulgarização do uso de anabólicos tornou-se uma questão de saúde

pública, merecendo atenção dos serviços de saúde quanto a necessidade de campanhas de

conscientização que valorizem os variados biotipos e a beleza de cada indivíduo.

A mulher e o corpo magro

Desde muito existe o assentimento coletivo que nenhum outro ser é mais inclinado

aos apelos da vaidade como a mulher. A pressão sobre o público feminino quanto a

necessidade de manter, apesar da passagem dos anos, o frescor da juventude é secular.

No século XIX, não por acaso, o padrão estético feminino exaltava formas arredondadas em uma época em que a culinária se caracterizava por preparações altamente calóricas e em um momento em que a ciência não conhecia ou se não ocupava das consequências desses modelos – alimentar e corporal – para a saúde. (Teo, 2010)

Atualmente, prioriza-se uma silhueta menos delgada e mais retilínea alcançada

através do consumo de alimentos saudáveis, light e diet, e de rotinas de exercícios regulares,

seguindo uma tendência cada vez mais evidente de manter-se jovem. “Principalmente no

sexo feminino, a cultura que impera, tem transmitido como valor desejável a obtenção de um

corpo magro” (Garrini, 2007). Quando tal hábito respeita as limitações do corpo e o

indivíduo aceita a inexorabilidade da passagem do tempo não há prejuízos a saúde. Todavia,

a corrida contra os anos incentivada pelos parâmetros de beleza semeados na sociedade pela

mídia desvirtua o caráter benéfico da prática.

A gama de publicações no mercado que abordam o tema beleza é extensa. “Essas

revistas agem como espelhos do comportamento feminino e também como incentivadoras

10

de mudanças de comportamento” (Teixeira & Valério, 2008).

Teo (2010) em um estudo

que avaliava o conteúdo da revista Boa Forma quanto aos conselhos de hábitos ideais de

alimentação para a manutenção de um corpo bonito e saudável, constatou a partir da análise

dos 12 números publicados no ano de 2007 “um discurso carregado de ambiguidade entre

beleza

e

saúde,

com

forte

apelo

à

sensualidade

e

ao

culto

do

corpo

perfeito,

predominantemente divergente do saber científico na área da nutrição.” A autora conclui

“que as estratégias discursivas adotadas pelo veículo midiático analisado contribuem para a

formação de um saber comum sobre práticas alimentares que é frágil e não habilita os

sujeitos para escolhas autônomas e saudáveis”, ou seja, é propagado um discurso que

populariza e admoesta o público a seguir perpetuando estereótipos de comportamento para

que se alcance o objetivo almejado “supostamente” por todos: um corpo magro, sensual, que

transmite a mensagem de sucesso e bem-estar.

Entretanto, tais publicações não trazem a luz os males advindos da busca sem limites

por um padrão estético, entre eles os Transtornos Alimentares, sendo a Anorexia 4 e a

Bulimia 5 os mais comuns entre o sexo feminino (Maldonado, 2006; Alvarenga et al., 2010;).

Souto e Ferro-Bucher (2006) entrevistaram 7 mulheres com idade variando entre 13 e 52

anos, sendo que três delas eram portadoras de Anorexia Nervosa, duas portadoras de

Bulimia Nervosa e duas portadoras de Transtorno de Comer Compulsivo 6 . As autoras

constataram ao final do estudo, que dentre outros fatores, a mídia também influenciou no

processo que levou as entrevistadas a iniciarem dietas drásticas na busca do corpo

idealizado, transportando-as a situação patológica que hoje se encontram.

4 É um Transtorno Alimentar, caracterizado pela recusa do indivíduo em manter o menor peso adequado para sua altura, medo intenso de ganhar peso e um distúrbio na percepção da forma e do tamanho do próprio corpo.

5 É caracterizada por episódios do comer compulsivo seguidos de métodos compensatórios e inadequados para evitar o ganho de peso (provocar vômito).

6 Caracteriza-se pelo consumo de grandes quantidades de alimentos e perda do controle, sem o comportamento compensador como a indução de vômitos ou abuso de laxantes, como é visto na bulimia nervosa, outro distúrbio alimentar.

11

As informantes se veem como vítimas da mídia que, no seu entendimento, influencia muitas adolescentes, divulgando e propagando um padrão de beleza, o qual determina que para ser bonita deve-se ter um corpo “saradão”, “sem um pingo de barriga”, ou seja, deve-se ser “seca”.

As autoras complementam

Artistas e modelos famosas, seja em propagandas de televisão ou em revistas especializadas, veiculam (…) o incentivo à adoção de práticas alimentares restritivas, associando suas imagens ao resultado de determinadas dietas e ao uso indiscriminado de produtos para emagrecimento. (…) Esse achado aponta um fenômeno coletivo propagado

pela mídia (

A sociedade parece incorporar esses padrões, ignorando o

sofrimento desencadeado, especialmente às portadoras de transtorno alimentar.

).

Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica mostram que no período de julho de

2007 a junho de 2008, quase 630 mil pessoas se submeteram,

no Brasil,

a

algum tipo de

procedimento estético invasivo, tal como as cirurgias plásticas. Os motivos estéticos angariaram

69% das cirurgias realizadas, enquanto 31% deveu-se a cirurgias reparatórias. A maioria absoluta

era formada por mulheres, 88%, e os homens somavam 12% (Rowe et al., 2011). Tais informações

revelam o perfil da banalização dos procedimentos cirúrgicos estéticos e refletem a insatisfação

crescente em relação ao próprio corpo.

A Terceira Idade e a máquina do tempo

Envelhecer é inevitável. Em muitas culturas, os cabelos brancos, a pele enrugada e o andar

curvado são sinais de sabedoria, respeito, erudição e beleza. Entretanto, em uma sociedade ocidental

capitalista, a palavra velhice equivale a outros sinônimos, que denigrem e marginalizam a pessoa

idosa. Possuir aparência jovial é mais válido do que ser jovem e daí advém a desenfreada

perseguição de modelos de beleza propagados socialmente. As mudanças na aparência e a

diminuição da competência física e mental, através da perda de força muscular e de

capacidade aeróbica,

a diminuição da memória, da atenção e da rapidez na tomada de

decisão (Damasceno et al.; 2006) destoam do perfil massificado pela mídia que exalta a

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eterna juventude fazendo com que “ o idoso, muitas vezes, viva em eterno conflito pelo que se

apresenta em seu corpo e por não alcançar o que se espera, pelas contingências inerentes ao processo

de envelhecimento.” (Menezes et al., 2009).

Matsuo e seus colaboradores (2007) avaliaram um grupo de 32 idosas, com idade entre 64

e 76 anos,

praticantes e não praticantes de atividade física regular. O estudo revelou, entre outros

resultados, que as idosas sedentárias quando questionadas a respeito da imagem corporal que

idealizavam para si, escolheram silhuetas bem mais magras e que não correspondiam a sua

realidade. As autoras conferem tal constatação a influência exercida pelos “ valores impostos pela

sociedade, que estão sendo veiculados pelos meios de comunicação (mídia) ” que privilegiam o

corpo magro e jovem.

A partir da década de 1990,

a imagem do idoso passou a ser desvinculada do sinônimo

negativo de doença e inércia. O mercado de consumo anteviu no idoso, principalmente por seu

crescimento demográfico, um novo público apto a adquirir produtos e hábitos de consumo. Bezerra

(2006) em estudo a respeito da construção de uma nova imagem do idoso pela mídia televisiva

pondera que

o velho é incitado a adquirir novos hábitos para manter o corpo saudável e um espírito jovem, com participação social e valores modernos. Para isso, um arsenal de produtos e serviços de rejuvenescimento, cosméticos, eletrodomésticos modernos, centros de lazer, agências específicas de turismo, serviços bancários, e outros produtos são criados e direcionados ao consumo desse gênero.

A autora reitera que o novo estereótipo veiculado pela mídia, do idoso ativo e de espírito

jovial, atende mais a uma lógica de mercado do que a uma tentativa de melhora da

qualidade de vida para a terceira idade.

Menezes et al. (2009) em estudo que objetivava compreender a percepção que o

idoso tem do próprio corpo em envelhecimento, analisaram 7 idosos baianos entre 75 e 83

anos de ambos os sexos. A pesquisa evidenciou que as mulheres se preocupavam mais com

a aparência e com as consequências que tal transformações poderiam causar em seu

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comportamento. A pesquisa também evidenciou a dificuldade de aceitação do corpo que

envelhece, principalmente pela busca constante do belo evidenciada pela mídia.

O tempo é implacável e atinge todo ser vivo. Envelhecer é natural, porém vem

sendo tratado como crime e um empecilho a ser superado objetivando alcançar a juventude

eterna. Posto que tal imortalidade não existe, batalhas contra os anos são empreendidas,

causando, consequentemente, um sentimento de fracasso e inutilidade.

Conclusão

A atual sociedade - moderna, globalizada, conectada, dinâmica – exige que os indivíduos

que a compõe compartilhem das mesmas peculiaridades, contudo, o ser humano não é igual entre si,

pois cada um traz consigo suas características, experiências, sonhos que o fazem único, inigualável.

Os padrões de beleza que hoje vigoram, nada mais fazem do que escravizar e adoecer àqueles que

estão dispostos a submeter-se a tal desvario de vaidade. A mídia e suas inúmeras formas de

comunicação propagam estereótipos de imagem que não possuem outro objetivo senão movimentar

a enorme e valiosa engrenagem do mercado consumidor da beleza.

A TV, presente em praticamente todas as residências, mostra sua “impressionante força

pedagógica” transformando-se no “veículo mais influente quando de trata de impor padrões

estéticos e influenciar a opinião da massa, repercutindo diretamente na configuração da

subjetividade contemporânea, sendo, portanto, uma fonte de modelos identificatórios.

Simular por imagens e palavras ofertadas de sedução é ofício da TV, o que significa apagar

a diferença entre real e imaginário, ser e aparência” (Pitanga, 2006) e viver em um mundo

de utopias superficiais.

Estar fora dos padrões oferecidos como ideais é sinal de preguiça e fracasso, pois tal

como afirma Garrini (2007)

“na sociedade atual, admite-se frequentemente que corpos bem-

construídos, com proporções equilibradas, devem ser obtidos por meio de muito esforço”, e

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aquele que não se encaixa é marginalizado, apelidado e considerado pária da sociedade. Porém,

o corpo saudável e natural é bonito tal como é.

É necessário que os profissionais de saúde: nutricionistas, educadores físicos, médicos;

os professores; a família e os amigos; as autoridades públicas; estejam atentos as mensagens

veiculadas

na

mídia

e

sintam-se

responsáveis

por

coibir

práticas

discriminatórias

e

estereotipações de imagem que tem poder suficiente para provocar estigmas no corpo e na alma.

O presente artigo conclui que os modelos de beleza são potencialmente perigosos na

medida em que podem causar distúrbios de imagem, transtornos alimentares, danos psicológicos

pelo

sentimento

de

fracasso

e

humilhação

provocados

por

práticas

como

o

bullying,

deformação do próprio corpo pelo abuso de cirurgias plásticas e esteroides anabolizantes e, no

mais extremo dos casos, morte por variados motivos, inclusive o suicídio. Entretanto, acredita-

se que o tema não foi completamente explorado, sendo imprescindível que mais estudos sejam

empreendidos acerca do assunto.

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