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Notas Sobre o Terceiro eich

por

Julius Evola

VERSILA

Universidade Aberta

São Paulo, 2014

N fitas Sibre o Terceiro R-- ich

por

Mus Evola

VERSILA

Universidade Aberta

Colecção:

Pensamento Político Volume 01

Título Original:

Note sul Terzo Reich

Esta Edição:

Notas Sobre o Terceiro Reich

Autor:

Julius Evola

Direitos Reservados:

Julius Evola, 1963 IAEG, 2013

Tradução:

António Rangel

Revisão:

Flávio Gonçalves

Revisão Científica:

Mimo George de Assis Matos

Impressão:

Sal da Terra

ÍNDICE

CAPITULO I

ESPÍRITO PRUSSIANO, CORRENTE VOLKISCH

E

"GERAÇÃO DA GUERRA"

9

CAPÍTULO II MITO VOLK E "ESTADO DO FÜHRER"

15

CAPÍTULO III INSTITUIÇÕES NAZISTAS, III REICH E CLASSE CAMPONESA

24

CAPÍTULO IV RAÇA, CONCEPÇÃO DO MUNDO E QUESTÃO JUDAICA

31

CAPITULO V

A

REVOLUÇÃO CULTURAL NAZISTA

E

O PROBLEMA RELIGIOSO

41

CAPÍTULO VI

O

"ESTADO DA ORDEM" E AS SS

47

CAPÍTULO VII NACIONALISMO, PANGERMANISMO, "EUROPEÍSMO"

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Notas Sobre o Terceiro Reich

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Nas notas que se seguem, o Nacional-Socialismo alemão será objeto de exame muito sucinto. Em primeiro lugar porque, no que concerne ao julgamento do ponto de vista da Direita àcerca

de certos aspectos desse movimento, deveríamos repetir o que

dissemos no ensaio anterior em que estudamos o Fascismo, onde tivemos ocasião de fazer referência às orientações do III Reich e

a algumas das suas iniciativas. Assim, pois, apenas nos deteremos

em alguns elementos em que o III Reich se mostrou diferente do Fascismo.

Devemos ter em conta o fato de que, no III Reich, se torna mais difícil localizar as forças concretas intrinsecamente válidas

e susceptíveis de se destacarem das contingências que no caso

do Fascismo, e isso por várias razões. Em primeiro lugar, os

elementos negativos que hoje se põem geralmente em primeiro lugar ao falar-se de nazismo — campos de concentração, perseguição de judeus, responsabilidade no desencadeamento da II Guerra, obstinação de Hitler etc. — devem ser separados do resto. Em segundo lugar, o papel central e esmagador que, segundo muitos observadores, teve na Alemanha, mais ainda que

na Itália, uma individualidade da categoria de Hitler — a ponto

de se falar de Führer-Staat, ou seja, de Estado do Führer —

relegou o resto para segundo plano. Em último lugar, no caso do

III Reich visto do estrangeiro e também na Alemanha atual, o

período que vai do fim da república de Weimar à II Guerra

Mundial é etiquetado de maneira expeditiva com o termo

"nazismo", como se fosse qualquer coisa homogênea e unitária.

As componentes que contribuíram para o nascimento e

construção do III Reich, a existência de tensões e divergências, por vezes importantes, atrás da estrutura totalitária, nem sequer são referidas.

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Antes de qualquer outro, é esse exame que iremos aqui fazer, detendo-nos em aspectos de importância especial nos objetivos deste estudo e pouco conhecidos na Itália. Entretanto, para o elaborar e lhe dar uma orientação geral, reportar-nos-emos aos antecedentes da Alemanha, à situação de conjunto, ideológica e política, antes da chegada de Hitler ao poder.

CAPÍTULO I

ESPÍRITO PRUSSIANO, CORRENTE VOLKISCH E "GERAÇÃO DA GUERRA"

Podemos abstrair-nos das forças políticas social-democratas e liberais da república de Weimar, forças cuja incompetência, fraqueza e inconstância foram cada vez mais manifestas, como manifesta foi a sua incapacidade de vencer o marasmo social, consequência fatal da derrota alemã e do colapso do regime anterior, das cláusulas funestas do tratado de Versalhes e do desemprego crescente. Só um clima assim permitiu ao marxismo e ao comunismo tomarem pé mais firmemente no pós-guerra que no passado. Tratou-se de um fenômeno de conjuntura que podia ter tido desenvolvimentos alarmantes se uma intervenção não tivesse mudado o curso das coisas no plano concreto, social. O fato do partido de "Hitler ter escolhido a denominação Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP), ou seja, literalmente Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, mostra o ponto em que a ação da propaganda de Hitler incidiu. Procurou atrair as massas operárias alemãs e arrancá-las ao marxismo internacional propondo-lhes uma solução nacional, alemã, dos problemas. Muitos autores consideram a reunião ou síntese (já examinada por Sorel) do nacional e do social (ou socialista) uma característica dos diferentes "fascismos" desse período. Pelo menos em parte, essa fórmula explica o sucesso desses "fascismos" e é com ela que Hitler passa a dispor de um grande partido de massas como força determinante. Entretanto, é supérfluo dizer que se reduzimos todos esses movimentos a isso, se negligenciam elementos que, a nosso ver, são os mais interessantes, E, em relação à Alemanha, devemos ser mais precisos. Com efeito, temos de chegar a acordo sobre o que Hitler entendia por nacional. Na Alemanha, o nacionalismo democrático de massas, de tipo moderno, não foi mais que uma aparição fugitiva. Foi precisamente

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Napoleão, "revolucionário imperial", quem, por contágio ou contra-golpe, induziu esse fenómeno, uma vez que nas guerras de libertação contra o invasor francês despertaram entre os alemães os sentimentos nacionalistas propriamente ditos, além das estruturas leais, dinásticas e tradicionais cujo centro de gravidade era o Estado e não o povo ou a nação. Visto deste ângulo, o nacionalismo, de fundo democrático, não foi mais longe que o fenómeno fugaz do parlamento de Frankfurt de 1848 relativamente aos movimentos revolucionários que nesse período cometeram atrocidades em toda a Europa (foi significativo o rei da Prússia, Frederico-Guilherme IV, ter recusado a oferta do parlamento de se pôr à frente de toda a Alemanha, já que, aceitando-a, teria aceitado igualmente o princípio democrático — o poder conferido por representação popular — renunciando assim ao seu direito legítimo, mesmo que circunscrito apenas à Prússia). Ao criar o II Reich, Bismarck não só não lhe exigiu absolutamente base nacional, como, pelo contrário, via na ideologia nacionalista a origem de desordens perigosas para as monarquias europeias. Os conservadores da Kreuzzeitung viam no nacionalismo um fenómeno naturalista e regressivo, estranho à mais alta concepção e à mais alta tradição do Estado. Todavia, é outra corrente, anteriormente confinada a grupos pouco

importantes, que temos de considerar. Tentemos precisar o significado da palavra nacional expresso pelo termo alemão volkisch usado nesses meios. Pode falar-se de nacionalismo étnico, já que Volk (e, daí, võlkisch

e Volksturm)

cuja identidade se manteve através dos séculos. Podemos relacioná-lo também com o conceito romântico de nação, de Volk, formulado por Fichte nos seus Discursos à Naçã'o Alemã, não alheio à luta de libertação. Depois de Fichte, Arndt, Jahn e Langel desenvolveram o mesmo tema, criou-se um Deutschbund (cerca de 1894) e uma Võlkische Bewegung, mas sem a ideia da nação-raça se limitar a "uso interno", antes adquirindo por vezes conotações pangermanistas. Em nome do Volk, houve tomadas de posição anti-semitas. De certo modo, é esta a origem do "racismo" alemão. Seja como for, o termo nacional nunca teve na Alemanha o mesmo sentido que no resto do Ocidente. É na conotação võlkisch que deve ver-

se entendeu como a entidade determinada pela raça comum,

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se o signo precursor que mais tarde iria ter um papel importante no hitlerismo. Hitler falou sempre de Volk. Volksgemeinschaft, a comunidade concebida em termos de Volk, de povo-raça, será a palavra de ordem do

III Reich, onde teve uma função bastante problemática como iremos ver. É assim que a ligação estabelecida por Hitler entre nacional e social

adquire um caráter próprio. Enquanto, por um lado, estigmatizava o

marxismo como um movimento anti-nacional, funesto para o Volksturm alemão, por outro lado apelava a uma espécie de orgulho nacional-racial alemão e proclamava um socialismo nacional que, como indica a designação do partido, tinha principalmente em vista as classes trabalhadoras. Foi esta, pois, a primeira componente do Nacional- Socialismo. De modo geral, a condição de desenraizamento e de alienação

do indivíduo e das massas foi rodeada de uma espécie de halo místico.

Consideremos, porém, outros elementos, outros antecedentes, diferentes no plano do espírito e das origens. Depois da I Guerra Mundial,

a situação na Alemanha era sensivelmente diferente da da Itália. Já

dissemos que Mussolini teve de criar a partir do nada, ou seja, que para combater a subversão vermelha e erguer o Estado, não podia referir-se a qualquer tradição no sentido mais elevado do termo. Em suma, o que estava ameaçado era o prolongamento da pequena Itália democrática e liberal do século XIX cuja herança se ressentia das ideologias da revolução

francesa e com uma monarquia sem articulações sociais sólidas que

reinava sem governar. Na Alemanha, não sucedia o mesmo. Mesmo depois

da derrota militar e da revolução de 1918, e não obstante o marasmo

social, continuaram a subsistir estruturas profundamente enraizadas no mundo hierárquico, por vezes quase feudal, centrado nos valores do Estado

e da sua autoridade que faziam parte da tradição anterior e do prussianismo

em particular, de uma tradição que, aos olhos das democracias ocidentais, aparecia como um "insuportável resíduo obscurantista". Com efeito, as ideias da revolução francesa não se implantaram na Europa central como nos outros países europeus. De resto, depois de 1918 e antes do advento de Hitler, houve intelectuais que a partir da herança tradicional tentaram promover um movimento de restauração e de renovação. Pensou-se também em

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revolução, não no sentido progressista e subversivo, mas para contenção

do negativo, do que estava esclerótico e que no regime anterior se ressentia

da chegada da nova idade industrial por ter perdido parte das possibilidades vitais originais. Daí, a fórmula de "revolução conservadora" usada muitas vezes. Não se tratava de retorno ao passado, já que o que

interessava conservar não eram certas formas históricas, mas o que tinha valor imperecível. Mõller van der Bruck (falecido em 1925), um dos principais representantes dessa corrente, escrevia que "ser conservador

não significa agarrar-se ao que foi, mas viver e agir partindo do que tem valor eterno". A orientação que prevalecia nesses círculos era espiritualista

o acento posto numa revolução sobretudo espiritual. O termo III Reich adotado por Hitler foi forjado precisamente por Mõller van der Bruck e é também o título do seu livro editado em 1923 (

e

o

título de outro livro, aparecido depois da sua morte, é Das ewige Reich,

O

Reich eterno, e é possível que alguns conceitos milenaristas de Hitler

tenham relação com essa obra). Nos mesmos grupos falava-se de uma "Alemanha secreta" (Geheimes Deutschland) mantida através das

contingências históricas e que procurava evocar-se. O primeiro Reich foi

o Sacro Império Romano, o segundo, o Império alemão fundado por

Bismarck em 1871 e continuado por Guilherme II até à I Guerra Mundial,

o terceiro Reich nasceu da superação de tudo o que existia de inautêntico

na época wilhelminiana. Com a república de Weimar considerada um simples interregno, o terreno estava virgem para a nova criação política. Tratava-se de exigências naturais, sobretudo nos meios intelectuais, consideradas como fazendo parte dos antecedentes do III Reich. Uma outra corrente apresentava aspectos fortemente existenciais cuja origem se deve procurar na chamada "geração da guerra". No pós- guerra imediato, a Alemanha conheceu um E. M. Remarque, autor do tristemente célebre livro derrotista Nada de novo no Front, mas também um anti-Remarque, relacionado com a profissão de fé dos combatentes que, na guerra como experiência, não tiveram quem os "quebrasse, mesmo quando as granadas os poupavam" (palavras de Remarque), mas uma prova que induziu nos melhores um processo de purificação e de

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libertação. Era a ideia de um Thomas Mann, de um Franz Schauwecker, de um H. Fischer, mas, sobretudo, de Ernst Jünger, combatente voluntário várias vezes condecorado e ferido antes de se tornar escritor. Para Jünger,

a Grande Guerra foi destruidora e nihilista relativamente ao que era

retórico, ao "idealismo" das grandes palavras hipócritas, à concepção

burguesa da existência. Para certa geração, porém, a guerra foi a origem do "realismo heróico", o crisol em que, "no meio das tempestades de aço", tomou forma o novo tipo humano descrito por Jünger, a quem, como acreditava, estavam prometidos os tempos vindouros. Com efeito,

o desenvolvimento de ideias análogas num quadro não limitado à guerra

mas abraçando toda a existência, foi fornecido por Jünger no seu livro Der Arbeiter, de grande ressonância na Alemanha antes do advento definitivo de Hitler 2 . Ainda que em termos diferentes e insistindo constantemente na necessidade de se chegar ao ponto zero de todos os valores do mundo burguês através do "nihilismo positivo", no fundo a perspectiva última era um novo Reich organizado com rigor, cuja coluna vertebral e força formadora seria o novo tipo humano. À parte as formulações teóricas, a "geração da frente não rompida" deu nascimento aos Freikorps, corpos de voluntários, que, a partir de 1918, combateram contra o bolchevismo nas regiões de fronteiras mal definidas orientais e balticas (uma das tropas mais famosas foi a brigada

do comandante H. Ehrardt), e também no interior, contribuindo para o esmagamento das tentativas de revolução comunista e "spartakista". Entretanto, num plano mais político, tiveram bastante importância outras forças: os antigos combatentes da Direita nacional reunidos no Stahlhelm (Capacetes de Aço) de Seldte e Düsterberg e o partido político dos nacionais-alemães (DNVP) de Hugenberg, com quem, naturalmente, se solidarizou a principal força tradicional e conservadora da época, a Reichswehr, o exército. Embora fiel ao governo legal da república de Weimar, no plano interno não aceitou o novo regime e manteve as ideias, os ideais e o ethos da tradição anterior que tinha formado o corpo de oficiais. Fiel ao espírito prussiano, a Reichswehr não se considerava uma simples força militar ao dispor do regime parlamentar burguês, mas a

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representante, acima de tudo, de certa concepção da vida e de certa ideia política. Graças a essa atitude, marcada por um rigoroso sentido de honra e disciplina, a Reichswehr manteve as suas características através das vicissitudes do III Reich. O presidente da república, Feldmarschall Paul von Hindenburg, era representante da Reichswehr. Entre esta e a nobreza, em especial os Junker, havia laços naturais e tradicionais (um dos principais centros da nobreza era o Herrenklub de Berlim) e uma boa parte dos diplomatas de carreira, da alta administração e da grande indústria tinham a mesma orientação de Direita.

NOTAS:

1 Antepassados do "movimento nacional" alemão. Johann Gottlieb Ficht (1762- 1814), discípulo de Kant e mestre de Schelling. Em 1808, os seus famosos Discursos à

Nação Alemã contribuíram para despertar o espírito prussiano. Ernst Moritz Arndt (1769- 1860), poeta alemão conhecido por cantos guerreiros que contribuíram em 1812 para sublevar a Alemanha contra Napoleão I. Friedrich Ludwig Jahn (1778-1852), publicou

em 1809-1810 em Lübeck a revista Deutsches Volksturm,

destacado nas lutas de libertação anti-napoleónicas. Promotor de uma educação fisica

destinada a preparar homens para a guerra de libertação, foi chamado Turnvater Jahn (pai da ginástica). Friedrich Lange (1828-1875) foi o defensor da concepção orgânica da cultura (N.T.) 2 A este propósito, veja-se Julius Evola, L'Operaio nel Pensiero di Ernst Jünger, Volpe, Roma, 1974. O ensaio de Jünger só recentemente foi traduzido para francês com

tendo desempenhado um papel

o título Le Travailleur,

Christian Bourgois, Paris, 1989 (N.T.)

CAPÍTULO II MITO VOLK E "ESTADO DO FÜHRER"

Na altura do aparecimento do Partido nacional-socialista, era esse o quadro de conjunto da Alemanha anti-marxista e anti-democrática. Se tivesse havido acordo entre as várias correntes e, sobretudo, se houvesse homens com estatura de chefes e à altura da situação, a "revolução conservadora" teria tido lugar logo depois do enterro da república de Weimar e da liquidação da social-democracia. As coisas tomaram outro rumo. A ação direta de Hitler sobre as massas ganhou cada vez mais terreno e, depois das eleições de 1930, tinha à sua disposição um partido e uma representação parlamentar (107 assentos no Reichstag). Assim se definiu uma conjuntura que, de certo modo, era inevitável. A conquista progressiva do poder por Hitler processou-se dentro de toda a legalidade e nem sequer foi necessária qualquer coisa parecida com a marcha fascista sobre Roma. As forças da Direita, ainda com posições sólidas, acharam que a melhor solução seria coligarem-se, embora na intenção de se servirem do Nacional-Socialismo, que, por sua vez, reconhecia não poder ir muito mais longe sem um acordo com os nacionais-alemães e com o Centro. Por proposta de Von Papen — representante da Direita — Hindenburg ofereceu a Chancelaria a Hitler, com Von Papen como vice- chanceler. Seldte, Düsterberg, Von Neurath, Von Schwerin-Krosigk, Von Blomberg e outros representantes da Direita foram nomeados ministros do Reich, com o que se supunha haver o suficiente para manter Hitler em respeito. Por outro lado, as principais evoluções que precipitaram a situação e deram nascença ao Reich nacional-socialista sobrevieram com Hindenburg à cabeça do Estado e, portanto, com a sua adesão e sanção. O fato é que a concentração nacional de forças, a eliminação da subversão e do grotesco parlamentarismo democrático eram também tarefas

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fundamentais para os homens da Direita, razão pela qual deixaram o caminho livre a Hitler. O primeiro passo foi dado em Fevereiro de 1933. Por ocasião do incêndio do Reichstag (atentado atribuído a um comunista sobre o qual nunca se fez verdadeira luz), foi promulgado um "decreto para a proteção da nação e do Estado" principalmente dirigido contra os comunistas, que comportava a suspensão de certos artigos da Constituição. O decreto, assinado por Hindenburg, tinha caráter legal. Já a ação concreta contra

os comunistas não teve o mesmo caráter, uma vez que não foi levada a

cabo apenas pela polícia, mas por iniciativa das SA e das SS hitlerianas, o que deu lugar a alguns excessos. No entanto, se devemos formular um juízo do ponto de vista geral da Direita, temos de dizer que, em determinadas circunstâncias, se impõem medidas do gênero em todo o

Estado digno desse nome. Justamente porque, para maior glória da sacrossanta democracia, nada disso se fez na Itália depois da guerra mundial, é que o câncer representado pelo comunismo e pelos seus companheiros de viagem tomou uma amplitude tão alarmante e lançou raízes cuja extirpação parece pouco provável sem uma guerra civil. Inversamente, a República federal alemã do pós-guerra (a de Bona) deu provas de alguma clarividência e espírito de decisão: de acordo com a própria democracia, de uma democracia talvez mais bem entendida, interditou sem dificuldades o partido comunista'. Depois da dissolução do Reichstag, foram fixadas novas eleições

e, a partir da segunda sessão do parlamento, pedida a aprovação da

Ermãchtigungsgesetz, lei que conferia plenos poderes a Hitler e ao seu

governo a expensas da "representação popular" no sentido demo-liberal.

A lei passou com 441 votos favoráveis contra 94 votos hostis. Tenhamos

em conta que, além dos deputados nacional-socialistas no Reichstag, havia

os deputados das várias Direitas e do centro, só não havendo deputados

comunistas e, em parte, socialistas. Mas, mesmo estando todos presentes, estes últimos teriam tido contra si a maioria requerida de dois terços para

aprovar a lei. Assim, Hitler ficou com as mãos livres para realizar o seu programa. Ainda com Hindenburg na chefia do Estado, assistiu-se à

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arbitrariedades "ditatoriais". A presença simultânea da autoridade supra- ordenada, como a encarnada por Hindenburg, parece ser uma condição indispensável. No período em que Hindenburg era ainda chefe de Estado, uma das iniciativas de Hitler teve carácter anti-tradicional: referimo-nos à Gleichschaltung dos Lãnder, ou seja, às diferentes unidades regionais que, com a sua autonomia e soberania parciais, correspondiam aos diferentes reinos, principados e cidades livres da federação do II Reich, com a Prússia em posição dominante. Uma após outra, as autonomias foram abolidas, as Lãnder foram integradas no governo central na forma de Gaue, circunscrições à frente das quais havia funcionários do governo central do Reich e não representantes das respectivas comunidades. A Prússia foi a primeira a sofrer essa sorte, com Von Papen, representante da Direita, a colaborar. Hindenburg nada teve a dizer também. O ato foi justificado pela necessidade de se organizarem totalmente todas as forças com vista a um máximo de eficácia, ao mesmo tempo que se punha em relevo o fato de, pela primeira vez na história, a Alemanha ser uma nação unificada (no sentido do nacionalismo moderno). Do nosso ponto de vista, é claro o aspecto negativo da iniciativa, já que o sistema anterior — autoridade central supra-ordenada associada a uma articulação de unidades políticas menores gozando de certa autonomia — tinha caráter orgânico e qualitativo, tradicional no sentido superior, e é justamente a Alemanha, entre todas as nações europeias modernas, que oferece um exemplo típico2. Há um episódio que mostra a dupla visão do hitlerismo nesse primeiro período, os acontecimentos de 30 de Junho de 1934. Nessa na noite, a chamada "noite das facas longas", foi eliminado de modo expeditivo pelas SS um certo número de personalidades, entre as quais vários elementos de orientação política contrária, como o ex-chanceler Von Schleichen, homens de Direita como Bõse, Von den Decken, Von Alvensleben e o secretário de Von Papen, Edgard Jung. Entre as SA, os Camisas Castanhas, cujo chefe era Ernst Rõhm, tinha-se difundido a ideia de uma "segunda revolução", ou de um segundo momento da revolução, que falava da existência de grupos reacionários da Direita no

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isto é, do

alinhamento geral das diferentes forças políticas alemãs numa única frente

nacional para a reconstrução da Alemanha. Em obediência à nova palavra de ordem da unificação, os Stahlhelm e a organização dos nacional- alemães foram suprimidos. Em 14 de Julho de 1933, outro decreto pôs formalmente fim ao regime de partidos e interditou a adesão a qualquer partido que não fosse o nacional-socialista. Assim, concebido como força política portadora e organizadora do Reich, surgiu o sistema de "partido único".

Já demos a nossa opinião sobre esse sistema ao referirmo-nos ao Fascismo. Entretanto, é de notar que, no caso da Alemanha, o fim do parlamento e dos partidos não se resolveu, como na Itália, na constituição de uma Câmara Corporativa ou de um organismo análogo. As pessoas e administrações privadas podiam representar eventualmente orientações diversas, mas a última instância era encarnada por Hitler, não havendo no plano institucional um órgão consultivo propriamente dito. A ideia segundo a qual o Reichstag se tornaria no futuro a expressão das várias correntes no interior do Partido, não foi além do voto piedoso. É verdade que houve no III Reich tensões que por vezes fizeram parecer milagrosas

a sua sinergia e unidade, por exemplo, as que surgiram entre Goering e

Goebbels, entre Ribbentrop e Himmler, entre Ley e alguns representantes

da indústria pesada, não falando da tensão entre a Reichswehr e as SA, tensão suprimida num primeiro tempo de maneira draconiana e de que falaremos mais adiante, mas confinaram-se sempre às altas esferas do Partido.

dissolução dos vários partidos no quadro da Gleichschaltung,

Quanto à lei que conferia a Hitler plenos poderes, esteve em vigor

até ao final, até 1945, não apenas durante os quatro anos reclamados para

a reconstrução nacional. Embora sem aderirmos ao fetichismo do "Estado

de direito" de inspiração liberal, houve ali um excesso: não se pode perpetuar e, em suma, institucionalizar, o que é legítimo em situações

temporárias especiais. Os laços éticos, necessariamente indeterminados

e elásticos, da responsabilidade direta, por um lado, da confiança e da

fidelidade, por outro, não devem suprir a legislação positiva que deve ser

levada em conta num Estado autoritário de Direita com o fim de prevenir

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seio do Reich e da conivência de Hitler com os "barões do exército e da indústria". O que se visava principalmente, era a Reichswehr e os seus altos comandos, as suas relações com a aristocracia e com os Junker Desejava opor-se à Reichswehr, herança do regime anterior, um novo "exército popular", um Volksheer revolucionário, alegadamente na linha nacional-socialista (na verdade, porém, qualquer coisa parecida com o exército da China maoísta) e suprimir o tipo "reacionário" do oficial em proveito do novo "soldado político" nacional-socialista. Em 30 de Junho de 1934, foram esmagados a corrente radical do partido e o complot. Rõhm, chefe das SA e antigo amigo de Hitler, e Gregor Strasser, organizador dos Camisas Castanhas de Berlim, perderam a vida. É significativo que Hindenburg, que não dera especial atenção ao aspecto da ação draconiana de Hitler — ação a que se seguiu o desarmamento das SA — agradeceu pessoalmente a Hitler a sua "intervenção corajosa contra as manobras dos traidores" que tentaram destruir a unidade do Reich. Goering recebeu uma mensagem de Hindenburg redigida em termos idênticos. Com a morte de Hindenburg (2 de Agosto de 1934), os acontecimentos precipitaram-se e chegou-se à mudança institucional e à instauração do Führer-Staat (Estado do Führer). Hitler reuniu na sua pessoa o cargo de Presidente do Reich (até então assumido por Hindenburg) e o que já possuía, o de Chanceler, continuando como chefe supremo do Partido nacional-socialista. Também aí, não faltou a sanção legal democrática. Um plebiscito nacional aprovou a mudança com uma maioria de 90% dos sufrágios (maioria que não pode ser explicada por qualquer tipo de coação, já que as percentagens não foram diferentes nas regiões ou cidades ainda sob controle estrangeiro). Hitler assumiu o comando das forças armadas e, nessa qualidade, foi-lhe prestado juramento de obediência incondicional, juramento que, em função do peso que lhe dá a tradição, viria a tornar-se depois uma pesada hipoteca. Assim, pois, o III Reich apresentou-se sob a forma de ditadura popular com o poder concentrado nas mãos de um homem que tirava do Volk e respectivo consenso a origem desse poder. É a essência do Führerprinzip. Com esse princípio, regressava-se à tradição do tempo

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dos germanos, à relação entre o chefe e seus seguidores, unidos por um laço de fidelidade. Mas esquecia-se por vezes, em primeiro lugar, que esse laço só se estabelecia em caso de necessidade ou à vista de objetivos militares determinados e que, a exemplo da ditadura do primeiro período romano, o Führer (Dwc ou Heretigo) não tinha carácter permanente. Em segundo lugar, que os partidários eram os diferentes chefes das linhagens, não a massa, o Volk. Em terceiro lugar, que na antiga constituição germânica, além do chefe excepcional que podia exigir obediência incondicional em determinadas circunstâncias — de modo exterior ao Dux ou Heretigo havia o Rex, de dignidade superior em virtude da sua origem. Recordamos isso ao falarmos da diarquia estabalecida no Fascismo com a presença da monarquia, diarquia a que atribuímos valor positivo. Hitler alimentava aversão pela monarquia e, como já referimos, a sua polêmica contra os Habsburg chegou a ser por vezes bastante vulgar. A sua legitimidade residia no Volk, que ele encabeçava e de quem era o representante direto, sem intermediários, e que o seguiu cegamente. Não havia outro princípio, nem ele o tolerava. Pode falar-se, pois, de uma ditadura populista consolidada graças ao instrumento do partido único e do mito Volk. As antigas tradições germânicas, o conceito de Reich e, como iremos ver, o de raça, foram traduzidos por Hitler no plano da massa, o que os podia deformar e degradar, mas, no mesmo quadro, tornaram-se instituições de grande eficácia. Uma das razões do sucesso de Hitler é ter sabido vivificar entre as massas, entre o Volk, ideias e símbolos superiores do patrimônio alemão que, apesar de tudo, conservavam uma força enorme no inconsciente coletivo. É evidente que sem esse suporte, à parte a contingência histórica, objetivamente não haveria demasiado a retirar do III Reich nazista. Tudo girava à volta de um homem de capacidades excepcionais que captava, transmitia, ativava e entusiasmava o povo até ao delírio, como se uma força superior agisse nele, concedendo-lhe lucidez e uma lógica implacáveis na ação, como que privando-o do sentido do limite. Traços de caráter que diferenciam profundamente Hitler de Mussolini, já que, neste último, sobressai mais claramente o homem que mantém as distâncias e o domínio absoluto de si mesmo. Naturalmente, num sistema

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que gravita dessa forma em torno do Führer, como sucedeu com o III Reich nazi, era inconcebível uma estabilidade futura. Na realidade, no caso de não haver derrota militar, ficaria um vazio depois da morte de Hitler, já que seria impossível surgirem a pedido e em série homens que reunissem qualidades tão excepcionais como as que lhe garantiam o poder

e faziam dele o centro de gravidade. Do Führer-Staat teria nascido, necessariamente, uma ordem diferente. Se Hitler vencesse a guerra e a fortuna o contemplasse, a sua força galvanizadora manteria o todo ligado

e daria lugar a performances incríveis até à última hora, mas, a total destruição ideológica da Alemanha depois de 1945 — de forma alguma comparável à que se seguiu à derrota na I Guerra — e a falta dessa tensão, provam que a ação magnética sobre a massa, a despeito da contrapartida dos mitos e da rigorosa organização totalitária, penetrou relativamente pouco.

No momento da afirmação do Führer-Staat depois da morte de Hindenburg, certos adeptos da "revolução conservadora" reconheceram claramente a oposição entre alguns dos seus ideais e o novo Estado e

pretenderam ver nisso uma contrafacção ou profanação, uma ruptura com

a tradição anterior. Alguns deixaram a Alemanha (como Hermann

Rauschning, antigo presidente do senado de Dantzig, que atacou violentamente o III Reich em 1936 num livro publicado no estrangeiro e

intitulado La Révolution du Nihilisme — Façade et Realité du Troisième Reich) 3. Os que ficaram, remeteram-se ao silêncio ou ocuparam-se de literatura (como Jünger e Von Salomon), outros sofreram perseguições.

Os que ficaram na cidadela tinham esperança numa retificação progressiva

e na acentuação no seio do III Reich do que, apesar de tudo, se ligava mais ou menos às suas ideias.

Com efeito, a tradição prussiana tinha por princípio agir pelo povo, embora mantendo-o à distância, não através do povo, como é típico no modelo jacobino. Esse princípio era o fundamento do chamado "socialismo prussiano" e na "monarquia social" dos Hohenzollern. Com

o Führer-Staat, com a autoridade que, sem se ater à ideologia, vinha da massa ou da coletividade Volk atrelada ao tandem Volk-Führer, revelou-

se uma orientação oposta àquela que deu nascimento à Prússia e que foi

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fundamental no H Reich. Com efeito, a Prússia foi criada por uma dinastia cuja coluna vertebral era a nobreza, o exército e a alta administração. Não a nação, não o Volk como elemento primário, mas o Estado, que, mais que terra ou ethnos, representava a base verdadeira e o princípio de unificação. No hitlerismo — pelo menos no plano da ideologia política geral — não sucedeu o mesmo. O Estado foi concebido como realidade secundária e como meio, como força formadora principal, força arrebatadora, do Volk e do seu representante e encarnação, o Führer, circunstância que marca a diferença entre a doutrina nacional-socialista e o Fascismo italiano. Este, não obstante a ausência de antecedentes comparáveis à tradição prussiana, mesmo que longinquamente, concedia — já o fizemos notar — a primazia ao Estado e não à nação e ao povo. Para certos autores nazis, cuja pretensão andava a par da ignorância da história do seu próprio país, esse aspecto do Fascismo terá sido um traço romano estranho à natureza alemã. Daí, igualmente, o ataque às estruturas estatais supra-nacionais como as apresentadas pelo Império dos Habsburg. Ein Reich, em n Volk, em n Führer — povo unido no Reich, que segue o seu Führer — foi a palavra de ordem fundamental nesse sistema. Palavra de ordem que, na ânsia de reunir todos os alemães que viviam fora das fronteiras do Estado, levou a uma aventura cuja conclusão iria ser a catástrofe depois da breve miragem da Gross Deutschland. Palavra de ordem, enfim, que viria a contradizer-se quando o III Reich — por via do renascimento mais ou menos pangermanista e hegemónico e da teoria expansionista do espaço vital —reafirma o poder em territórios situados além dos limites do Deutschtum, dessa germanidade étnica no interior da qual, teoricamente, devia ficar. Observando retrospectivamente esse período, um escritor que fez parte da brigada do comandante Ehrhardt e implicado também na morte de W. Rathenau, Ernst von Salomon, escreveu: "Compreendemos que a primeira tentativa séria e grande do movimento nacional de provocar uma viragem na situação alemã a partir do Estado [ou seja, mais ou menos no sentido desejado pelos representantes da "revolução conservadora"] falhou por causa desse homem, de AdolfHitler" 4. No entanto, ele e outros (como Armin Mohler, por exemplo), reconheceram que o revés se deveu

Notas Sobre o Terceiro Reich

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ao fato do método adotado por Hitler de ter as massas do seu lado não ter agradado aos meios da Direita (que, aliás, careciam de capacidade para tanto). Segundo estes, envolverem-se em movimentos de massas politizadas e fanatizadas pela propaganda desdenhando de escrúpulos, era contrário à sua mentalidade anti-demagógica, parecia "pouco limpo". Dai, a sua inferioridade em relação a Hitler, que, entretanto, conhecia perfeitamente a situação ligada à época. Em tal estado de coisas, os elementos defensores da tradição tiveram a ilusão de poderem manipular Hitler (exatamente da mesma maneira que o rei da Itália pensava poder fazer a revolução nacional através de Mussolini). Pelo menos em parte, sucedeu o contrário.

NOTAS:

1 Atitude bastante compreensível, tendo em conta as pavorosas e sangrentas

ações dos comunistas desencadeadas na Alemanha nos finais da guerra de que dão prova inúmeros documentos, relatos e testemunhos. Assim, é natural que a República federal

da Alemanha se acautelasse em legalizar o partido comunista que, aos olhos dos alemães, era, com toda a razão do mundo, a personificação do seu mais mortal inimigo (N.T.)

2 Relativamente à unificação nacional alemã realizada por Hitler, pode destacar-

se a oposição, análoga, entre o tipo de unificação da Itália e a realizada por Bismarck com a criação do II Reich. Neste caso concreto, a unificação teve carácter orgânico, superior, apoiou a tentativa dos soberanos dos vários países, graças aos quais e não graças ao povo, se manteve a estrutura tradicional. Pelo contrário, a Itália unificou-se no

Risorgimento sob a influência das ideologias importadas da revolução francesa e do "nacionalismo" daí derivado.

3 O livro foi reeditado em 1980 pela Gallimard, Paris, mas a seriedade de

Rauschning foi posta gravemente em causa logo depois da edição de Hitler m'a dit,

sustentar afirmações que, manifestamente, não correspondem à verdade (N.T.)

por

4 Exprimindo o parecer de outras personalidades de igual tendência, Von

Salomon acrescenta: "A tentativa de desviar o essencial do Estado para o povo, da autoridade para o coletivo, era considerada uma traição absurda e abjeta da verdadeira

finalidade do movimento nacional

entre a concepção do Estado e a concepção populista da essência da nação, camuflada numa circunstância desconcertante: a fórmula populista servia-se do mesmo vocabulário, mas argumentava tratar-se de um conceito renovador do Estado".

Do ponto de vista histórico, não podia haver vínculos

CAPÍTULO III

INSTITUIÇÕES NAZISTAS, III REICH E CLASSE CAMPONESA

Se é certo que a tradição prussiana do Estado foi abandonada, em troca foram retomados e utilizados pelo III Reich inúmeros traços fundamentais do caráter e do estilo prussianos da vida, os mesmos que se difundiram noutras partes da Alemanha quando a Prússia deixou de ser um reino independente. Assim, se pretendermos descobrir a fórmula última do sucesso do III Reich, teremos de reportar-nos à união de dois elementos. O primeiro, foi o entusiasmo do Volk, da massa, o culto do Führer, que algumas vezes atingiu graus próximos do delírio. Por exemplo, os que ouviram Hess, lugar-tenente do Führer, gritar no Dia do Partido em Nuremberg: "A Alemanha é Hitler! Hitler é a Alemanha!" e ser acolhido com aclamações frenéticas de centenas de milhares de pessoas, terão tido a impressão de um verdadeiro fenômeno de possessão. O segundo elemento, associado a manifestações de massa de uma grandeza sem igual, favoreceu justamente o patrimônio de certas disposições prussianas que, paralelamente, se procurou revitalizar na coletividade e nas formas do Partido. A Reichswehr continuava a ser a guardiã típica do espírito prussiano e mantinha a autonomia traduzida em certa distância, até Hitler retirar os postos de comando aos generais Von Blomberg e Von Fritsch e substituí-los'. A ação convergente desses dois fatores, que favoreceu prestações excepcionais, explica a coesão do Estado hitleriano. Pensar que esse Estado só existiu por força de um regime de terror e opressão, é disparate puro. Não era daí que podia nascer o impulso para tantas realizações, como, por exemplo, a que os Jogos Olímpicos de 1936 ofereceu à admiração sincera dos estrangeiros, nem as virtudes de toda a população e das forças armadas — a tal ponto, que foram necessários seis anos de guerra impiedosa e a coligação do mundo inteiro, ou quase, para abater militarmente o III Reich — graças às quais a Alemanha, no meio de

Notas Sobre o Terceiro Reich

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horrores indescritíveis, se manteve unida até ao fim sem um queixume e sem uma revolta, com sobressaltos miraculosos a seguir a cada destruição. Valeria a pena citar exemplos, como o da Juventude Hitleriana, mobilizada, não sob a ameaça das pistolas da Gestapo, evidentemente, a participar na defesa desesperada de Berlim e dando caça aos gigantescos blindados soviéticos T34. Essa Juventude Hitleriana que, apenas com um regimento, obrigou uma unidade blindada americana a retirar na floresta de Teutoburg depois de lhe infligir pesadas perdas, merece a Cruz de Ferro. Poderá haver quem goste de falar em fanatismo suscitado pelos métodos e fórmulas de um grande mago, mas, sem a contrapartida do amor pela disciplina, do espírito impessoal e heróico da devoção, da fidelidade — fator essencialmente diferente que deve ser reportado à segunda das componentes consideradas atrás — o conjunto não teria explicação. Naturalmente, também há quem acuse Hitler de ter abusado dos dons intrínsecos da Alemanha e de os utilizar no intuito de a arrastar

à via que a conduziu à ruína. Esses aspectos, porém, saem do quadro preciso dentro do qual queremos manter as nossas considerações. Falta agora estudar brevemente

e julgar certos aspectos concretos do III Reich e das suas instituições. Em matéria de assistência social em benefício das classes desfavorecidas, a Alemanha hitleriana, apenas com a Itália fascista ao seu lado, ficou à frente de todas as nações. Era um dos pontos da política de Hitler, que, tendo consigo a classe trabalhadora, lhe garantia o máximo

de bem-estar, apesar do insípido slogan "nobreza do trabalho" lhe conferir uma consciência especial. Chegou até a ultrapassar os objetivos, a ponto de ter impedido a invasão dessa plebe presunçosa economicamente bem instalada que, nos nossos dias, prolifera como a peste na sociedade de consumo. Os que viram as massas arianas de Volksgenossen (irmãos de raça, do Volk) do KdF (espécie de super-Dopolavoro ou Enal nazista2) e

o trabalhador berlinense desproletarizado e evoluído, não deixarão de ter

sentido um arrepio ante a perspectiva de uma Alemanha assim

desenvolvida3.

Apesar de haver quem pretenda terem sido espontâneas, algumas iniciativas nazistas a favor da solidariedade social e nacional tiveram por

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Julius Evola

vezes caráter obrigatório. De todas essas iniciativas, a menos louvável

foi a instituição do Arbeitdienst,

Junho de 1936 tornou obrigatório para os jovens de ambos os sexos. Na intenção de consolidar a Volksgemeinschaft, ou seja, a comunidade social sob o signo do Volk, fez-se do serviço de trabalho, de início voluntário, uma obrigação geral. Durante certo período, os jovens de ambos os sexos eram obrigados a um trabalho manual na companhia de outros jovens

procedentes das classes sociais mais díspares — assim, uma jovem da aristocracia podia ver-se obrigada a viver em comum numa quinta ou numa fábrica com uma camponesa ou uma proletária —. Naturalmente,

o efeito desse "instrumento de educação político-nacional" foi muitas

vezes oposto ao que se esperava. Não apenas por se tratar de invasão totalitária do domínio público no domínio privado, como a que já sublinhamos a propósito de certos aspectos do Fascismo e do seu conceito de Estado ético e pedagógico, da campanha demográfica, da obrigação do uso do voi4 na conversação. É inegável a presença de certa cambiante proletária no nazismo e até na pessoa de Hitler, que não exibia traços próprios do senhor de tipo aristocrático, "de raça". Esse aspecto vulgar do Nacional-Socialismo chegou a sentir-se especialmente na Áustria

depois do Anschluss e até mesmo na fase de entusiasmo nacional dos austríacos pela Grande Alemanha.

A Gleichschaltung, integração niveladora com vista à unificação, teve também efeitos negativos em alguns domínios. Levou, por exemplo,

à dissolução das corporações estudantis, que, com os seus costumes,

tradições de honra e espírito de corpo (especialmente entre os Korpsstudenten), eram lugares de formação do caráter da classe superior. Assim, toda a juventude estudantil foi enquadrada numa só organização controlada pelo Partido. No que respeita ao domínio econômico, Hitler afirmou desde muito antes que os problemas políticos, como os ligados a certa concepção da vida, tinham prioridade sobre os econômicos. Declarava que "o Estado nada tem a ver com determinados conceitos econômicos nem com determinado desenvolvimento da economia", que "o Estado é um organismo do Volk e não uma organização econômica". Muito cedo ainda,

serviço do trabalho, que a lei de 26 de

Notas Sobre o Terceiro Reich

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tinha pressentido que o sindicalismo podia tornar-se uma força política capaz de abrir caminho à conquista do Estado pelo marxismo. "O sindicato

nacional-socialista — escreveu — não é um instrumento de luta de classes,

é um órgão de representação profissional". Depois de chegado ao poder,

Hitler deu corajosamente o passo decisivo. O 1° de Maio foi solenemente transformado em "Festa Nacional do Trabalho" (iniciativa análoga à do Fascismo italiano) depois de uma manifestação que suscitou enorme entusiasmo. No dia seguinte, numa ação de surpresa, as sedes dos sindicatos foram ocupadas e numerosos dirigentes sindicalistas foram presos preventivamente. Os sindicatos "livres" foram dissolvidos e os seus bens confiscados pelo Estado. A nosso ver e apoiando-nos no que dissemos àcerca das instituições fascistas, consideramos essa medida extremamente positiva. De seguida, procedeu-se na Alemanha à reorganização do trabalho e da economia com a reconstrução "corporativa" das empresas. Não nos deteremos nesse aspecto da legislação do III Reich, uma vez que nos referimos ao assunto quando sublinhamos os defeitos do corporativismo estatal fascista. Lembramos somente que o espírito da reforma (cujos antecedentes passavam pelo estabelecimento do modelo das estruturas orgânico-corporativas medievais realizado por vários representantes da revolução nacional, que falavam também de "revolução corporativa" como fundamento da "terceira via", ou seja, da liquidação do capitalismo degenerado e do marxismo) era a superação do classismo e da luta de classes no interior

de cada empresa, onde devia entrar em vigor a solidariedade dos interesses

e dos deveres de todos os elementos. Também aqui se reafirmou o

Führerprinzip, isto é, a relação entre o chefe da empresa e a sua "equipe" (operários e empregados) numa fidelidade mútua. Para solucionar eventuais desacordos relacionados com o que tocava os interesses nacionais, certos membros do Partido foram nomeados "delegados do trabalho" e, na lei, foi inscrito um "tribunal de honra". Nos termos da lei de 20 de Janeiro de 1934, "na empresa, o empresário, chefe (Führer) dessa empresa, e os empregados e operários (Gefolgschaft), trabalharão concertadamente para atingirem os objetivos da empresa e para o bem comum da nação e do Estado". Ao mesmo tempo, as faltas cometidas

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Julius Evola

pela grande empresa não se consideravam assunto privado, mas uma espécie de delito político. A inscrição das diferentes empresas na Frente do Trabalho como unidades autônomas não era obrigatória em princípio

e não comportava regulamentação supra-ordenada como no

corporativismo fascista. No programa do Partido, um dos objetivos era a Brechung der Zinksnechtschaft, expressão que pode traduzir-se como a eliminação da servidão exercida pelo capital especulativo e pelas taxas de juros. Por outras palavras, respeitava-se o capital produtivo, cuja autoridade, inclusive, se reforçava no plano moral e político, e repudiava- se o capitalismo financeiro "de tipo judaico", estranho ao processo de produção. Esta orientação vigorou ativamente no Nacional-Socialismo. De resto, no quadro das novas leis do III Reich, a economia privada desenvolveu-se com grande liberdade. Os grandes complexos industriais subsistiram e o sentido de solidariedade dos diferentes elementos, sentido que, no passado, tinha caracterizado esses complexos, reforçou-se, superando o marxismo e o sindicalismo. Não se procedeu a nacionalizações nem a socializações, foram até postos de parte certos artigos do programa do Partido (artigos 13 e 14). Aqui, o princípio da

"integração niveladora" chegou a limites salutares, a ponto de se ter falado em colisões entre Hitler e "os barões da indústria". Tratava-se, na realidade, de uma frente nacional em que cada um ocupava o seu lugar e em que tinha a liberdade fecunda e responsável de tomar iniciativas. No III Reich, esse sistema deu provas de enorme eficácia e superou até ao fim todas as provas. Relativamente ao desemprego, não só desapareceu rapidamente, como chegou a verificar-se várias vezes a falta de forças produtoras suficientes no quadro das tarefas confiadas pelo Estado para

a realização dos seus planos de reconstrução, de desenvolvimento e de grandeza nacional. No que respeita à política comercial e no sentido de garantir um

máximo de independência econômica, o III Reich seguiu de certo modo

o princípio da autarquia. A norma de Schacht, homem da Direita e

prestigioso restaurador da economia alemã, foi a seguinte: "Não se deve

comprar em países onde as mercadorias são mais caras, mas a países onde possam ser pagas, tanto quanto possível, com exportações".

Notas Sobre o Terceiro Reich

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Outro aspecto positivo do III Reich diz respeito às medidas a favor dos camponeses, mesmo sabendo-se que o agricultor da Europa central manteve sempre uma dignidade que o diferencia do dos países meridionais, onde o título de "lavrador" é quase sinônimo de miserável. Declarava-se com orgulho: "Pertenço a uma velha família de lavradores". Hitler seguiu as ideias de Walter Darré, futuro ministro da Agricultura do Reich, na sua fórmula "Sangue e Solo". Via-se no lavrador fiel à sua terra a fonte das forças mais sãs do sangue, da raça, do Volk. Darré escreveu um livro a esse respeito em que se referiu às antigas civilizações indo- europeias (arianas) e justificou essa ideia (outra das suas obras, mais tardia — aparecida em 1929— tinha por título A Nova Nobreza do Sangue e do Solo). Não faltavam na Alemanha percursores dessa corrente. Podemos recordar as ideias "anti-modernas" de W. H. Riehl, que via na classe camponesa a única camada social de nobreza "não desenraizada". Assim surgiu a palavra de ordem "a terra libertada do poder do dinheiro", que vários grupos traduziram de modo utópico com a criação de "colônias" (Siedelungen), esquematizadas de forma drástica no fim do século passado no conhecido romance de W. von Polenz intitulado Der Büttnerbauer Ali se descreve o drama de um velho agricultor cuja propriedade ancestral,

a pretexto de dívidas contraídas por si, foi vendida por um prestamista

judeu a um grupo de especuladores para construção de uma fábrica. À vista do espectáculo, o lavrador suicidou-se. Certo é que, no período da

república de Weimar, houve em certas regiões, como o Schleswig- Holstein, movimentos de revolta dos agricultores contra os sequestros e penhoras por dívidas e por pressão fiscal a que os seus bens estavam sujeitos.

Ainda que não se opondo à indústria, o III Reich preocupou-se em evitar energicamente o desenraizamento do agricultor (e, portanto, o seu êxodo urbano), protegendo não apenas a base natural da sua existência, as terras, de todo o tipo de expropriação ou especulação econômica, mas também o fracionamento e o endividamento. Essa política centrou-se no

conceito Erbhof, isto é, na propriedade hereditária inalienável, a transmitir

a um só herdeiro, ao mais qualificado (que, aliás, correspondia a um

costume secular), em manter através das gerações "a herança da linhagem

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nas mãos de agricultores livres". O Estado estava pronto a prestar ajuda se determinadas circunstâncias ameaçavam a existência e a integridade desse Erbhof As expropriações e partilhas de grandes propriedades de raiz não foram levadas a cabo senão em casos raros de incúria e má gestão. Com efeito, observou-se o principio de conservação da propriedade de raiz, que foi protegida sob certas condições. A base tradicional dos Junker era precisamente a propriedade de raiz, cujo pano de fundo era quase feudal. O III Reich aplicou o princípio que em 1748 levou Frederico, o Grande, a promulgar leis que interditavam o crescimento do Estado em detrimento das propriedades da nobreza e a sua alienação e comercialização em proveito da classe burguesa rica e especuladora. Desnecessário seria dizer que essas iniciativas do III Reich, marcadas por um espirito saudavelmente anti-moderno e em nada totalitário, foram, do nosso ponto de vista, altamente positivas. Considerando o estado desastroso em que a agricultura e o campo se encontram graças às liberdades democráticas, a Itália atual, apesar da inexistência de uma tradição do gênero, prova-o suficientemente.

NOTAS:

1 Um e outro viriam a participar no atentado perpetrado contra o Führer em Julho de 1944, quando outro general, Von Stauffenberg, colocou uma mala com explosivos debaixo da mesa da sala onde ia ter lugar uma reunião do Estado-Maior. Os autores morais e materiais foram julgados em conselho de guerra e executados por alta traição (N.T)

2 KdF são as iniciais de Kraft durch Freude (A Força pela Alegria), organização

de tempos livres, como agora se diz, que dependia da Frente de Trabalho nacional-

socialista. Opera Nazionale Dopolavoro era a organização de lazeres culturais e desportivos e de assistência social do regime fascista (N.T.)

3 No período nazi, circulava um dito humorístico com base num jogo de palavras.

Perguntava-se qual a diferença entre a Rússia e a Alemanha. Resposta: a Rússia é um

Proletarierstaat

(um Estado proletário), a Alemanha um Prolet-arierstaat (é a

mesma

palavra, mas, dividida assim, quer dizer "Estado de arianos proletários").

4 Vós, em lugar de Lei (terceira pessoa do singular), tornou-se a forma mais

usada na Itália (N.T.)

CAPÍTULO IV

RAÇA, CONCEPÇÃO DO MUNDO E QUESTÃO JUDAICA

Passemos agora a um breve estudo do que diz respeito à raça, à visão do mundo e à questão judaica no III Reich. Já aludimos ao fundo racial apresentado pelo conceito Volk, apropriado a criar uma espécie de nacionalismo étnico ou racial. O parágrafo 4 do programa do Partido Nacional-Socialista distinguia numa base biológico-racial o cidadão propriamente dito (Reichsbürger) do "sujeito do Estado" (Staats-angehõriger): "Consideram-se cidadãos de pleno direito os irmãos de raça (Volksgenosse) e, independentemente da sua confissão religiosa, só os de sangue alemão o são". Sujeito do Estado é um conceito jurídico. Designa todos os que, não sendo estrangeiros, estão ligados ao Estado por simples pertença formal. Hitler considerava escandaloso não se ter tido em conta durante muito tempo o fundamento étnico-racial da cidadania, que esta se "obtinha como a admissão num clube de automobilistas", e que "por decisão de um funcionário, um pedido fazia o que não era possível ao próprio Céu: com duas penadas, o zulu ou mongol tornava-se alemão". O nascimento em território alemão apenas conferia a qualidade de sujeito do Estado, o que, por si só, não dava direito a assumir cargos públicos ou a exercer atividades políticas. De acordo com o que Hitler expôs em Mein Kampf a passagem à qualidade de cidadão e verdadeiro membro do Reich, exigia uma validação suplementar com base na raça, na saúde física e na fidelidade solenemente afirmada e provada à Volksgemeinschaft, à comunidade racial. Só então haveria lugar a um "certificado de cidadania", algo "como um laço que une todas as classes e suplanta todos os abismos". Hitler chegou mesmo a afirmar que "ser varredor no Reich pode ser mais honroso que ser rei num Estado estrangeiro". Por estas e outras palavras, Hitler oferecia a todo o alemão não contaminado com sangue não-ariano a possibilidade de se elevar ao topo. Aliás, o ponto 6 do programa do Partido dizia que

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Julius Evola

"o direito de decidir na direção do Estado só pode ser reconhecido aos cidadãos irmãos de raça. Por consequência, fizemos com que todas as funções públicas no Reich, províncias e distritos, fossem ocupadas por cidadãos do Reich". Uma vez conquistado o poder, passou-se à realização do programa. Os funcionários aos quais não era aplicável a qualificação de "irmão de raça", foram passados à reforma (era indispensável estar isento de sangue judaico ou de qualquer outra raça não-ariana desde as três gerações anteriores). A mesma medida foi aplicada depois aos funcionários que, apesar de arianos, tinham casado ou iam casar com uma pessoa de raça não-ariana. Nos casos consumados, isto é, ao funcionário, ao oficial, ao professor, etc., casado com mulher não-ariana antes da promulgação dessas leis, dava-se a escolher entre o divórcio ou a perda do emprego. Foram feitas exceções aos combatentes ou aos parentes de combatentes condecorados e caídos durante a I Guerra Mundial, outras eram consideradas pelo ministério do Interior depois do parecer do serviço especializado que se ocupava dos funcionários destacados no estrangeiro. Outras exceções, estas ditadas por razões de Estado, contemplavam as pessoas de grande mérito, às quais se dava a curiosa denominação de Ehrenarier, ariano de honra, denominação que tinha como contrapartida a qualificação de Ehrenjude, "judeu de honra", "levantino de honra" etc., aplicada a numerosos indivíduos que, embora arianos no plano biológico, eram-no pouco no caráter, no comportamento e na mentalidade. Fora da esfera política e estatal propriamente dita, outras leis ditaram medidas análogas no domínio cultural, profissional e religioso. Àcerca deste último, a "cláusula ariana" deu lugar a conflitos nos meios católico e protestante já que, em virtude dessa cláusula, os religiosos das duas Igrejas com antepassados de sangue não-ariano nas três gerações anteriores eram impedidos de exercer funções no III Reich. Do ponto de vista cristão, que prega a igualdade de todas as criaturas e o caráter supra- racial do sacerdote estabelecido por sacramento no catolicismo, a medida era naturalmente inaceitável. Só os cristãos-alemães do campo protestante aceitaram a nova situação, votaram em certas leis e elegeram bispos dependentes do episcopado central do Reich que tinham prestado

Notas Sobre o Terceiro Reich

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juramento ao chefe de Estado, a Hitler, portanto. Na mesma perspectiva, alguns dirigentes chegaram a pensar na criação de uma "Igreja nacional alemã" (Rosenberg, Hauer, Bergmann etc.) A ideia racial influenciou de tal modo o plano político, que Hitler escreveu: "O Estado não é um fim, é um meio. É a condição 'necessária para a formação da civilização humana superior, embora sem ser o princípio que cria essa civilização. Esse princípio ou essa causa, é a presença de uma raça com aptidão para civilizar. Apesar de haver na terra centenas de Estados-modelo, se o homem ariano portador de civilização desaparecesse, nenhum teria a altura espiritual das nações

civilizadas de hoje

Estado, que é o continente, e a raça, que é o conteúdo. O continente só tem sentido se for capaz de conter e proteger o conteúdo. Caso contrário, não". O objetivo primordial do Estado é, pois, a defesa da raça e, daí, as "leis para a defesa do sangue e da honra alemães". Por um lado, a interdição de casamentos mistos e de uniões mistas sob pena de agravos, protegia a substância racial dos cidadãos do Reich contra as misturas que contaminam a raça e a alteram, por outro lado, as medidas de eugenia eram encaradas com o objetivo de impedir no próprio seio dos alemães arianos uma descendência hereditariamente pervertida. Vê-se claramente o papel que em tudo isso desempenharam o mito e a confusão da noção de raça com a de nação (o que, no fundo, democratizava e degradava a noção de raça). Por outro lado, não se definiu em termos positivos e espirituais a noção de arianismo. Deixava-se a cada alemão o direito de pensar que ele era um desses arianos a quem se deve a criação e a origem de todas as civilizações superiores, o que incitava, naturalmente, a uma arrogância mais que nacionalista (totalmente estranha à Direita tradicional), de incontestável eficácia na mobilização emocional das massas alemãs, certamente, mas também de consequências deletérias, como, por exemplo, na política seguida pela Alemanha nazista nos territórios ocupados, assunto ao qual voltaremos. Na realidade, quando os autores mais sérios falavam de "homem ariano", tinham em vista uma espécie bastante vasta na qual o alemão (ou germano) era um gênero particular. O próprio H. S. Chamberlain, tido em alta estima por Alfred

Devemos distinguir com o máximo de precisão o

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Rosenberg, principal ideólogo do Nacional-Socialismo, assimilava o ariano ao conjunto céltico-germano-eslavo. Na propaganda e na legislação nacional-socialistas, a noção de raça não tinha um conteúdo determinado, o que a levava a sofrer uma degradação coletivista. Menos oficialmente, porém, outra orientação, esta seletiva, viu no III Reich a luz do dia. O leitor pode reportar-se ao que dissemos sobre o sentido, sobre a finalidade e sobre os aspectos aceitáveis do "racismo" italiano. A questão racial foi o meio de reforçar a consciência nacional e, a esse respeito, a atitude não foi diferente da que a Inglaterra adotou no seu Império relativamente às outras raças. Uma vez que a doutrina moderna das raças não estuda somente as grandes divisões antropológicas mas também as "raças" como articulações no interior de cada divisão e no interior da própria raça branca ou ariana, há que reconhecer que a Alemanha não se apresentava como a expressão de uma raça única pura e homogênea, mas como uma mescla de várias raças (no sentido diferenciado que acabamos de indicar). Por isso se passou, digamos, a um racismo de segundo grau. O coletivismo do Volk e da Volksgemeinschaft ariano-alemã que era necessário delimitar, defender e utilizar de maneira totalitária a golpes de Gleichschaltung, era ultrapassado graças à ideia segundo a qual as componentes raciais do povo alemão não tinham o mesmo valor, que o elemento mais qualificado, superior, era a raça nórdica. Aliás, foi prevista no III Reich uma ação destinada a favorecer essa componente, a assegurar- lhe uma posição dominante. Além do elemento biológico, eram tidos em conta certos traços do caráter e uma cosmovisão muito precisa, daí o termo Aufnordung, ou seja, a "nordicização" do povo alemão. Para o melhorar, havia que dar-lhe um cunho essencialmente nórdico. Embora não instituída no III Reich a nível oficial propriamente dito, essa orientação foi vista com simpatia e cur -- i um papel importante em certas organizações, especialmente nas SS. Todavia, não faltavam razões ao homem alemão para certo tipo de ironias, já que, em matéria de raça, Hitler não era do tipo nórdico puro, e o mesmo acontecia com colaboradores seus, como Goebbels, Himmler, Ley, Bormann, etc. (diferentes eram os casos de Rosenberg, Heydrich e Von Schirach). Fisicamente, Hindenburg e Bismarck eram de

Notas Sobre o Terceiro Reich

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raça nórdica (da variante fálica), mas, na Prússia, o elemento nórdico tinha-se misturado muito fortemente ao elemento dinárico (eslavo). No corpo de oficiais, na aristocracia e em algumas linhagens rurais das províncias, o elemento nórdico era bastante mais reconhecível. Apreciando em conjunto a questão racial alemã, somos de opinião que houve uma aberração demagógica na pretensão germano-ariana de afirmar, como Hitler afirmou, que ser varredor no Reich podia ser maior honra que ser rei num país estrangeiro. Segundo o pensamento da Direita, entretanto, são salutares uma consciência racial equilibrada e a dignidade da raça, mais a mais se pensarmos naquilo a que hoje chegamos com a exaltação da negritude, da psicose anti-colonialista e do fanatismo da "integração", outros tantos fenômenos paralelos ao declínio da Europa e de todo o Ocidente. Em segundo lugar, reconhecêmo-lo quando nos referíamos ao Fascismo, seria legítimo propor o ideal de um novo tipo humano superior mediante um processo global de cristalização, de retificação e de formação da substância das nações sem dar demasiada importância ao aspecto biológico mas insistindo, sobretudo, na raça do espírito. No Nacional-Socialismo, o aspecto biológico foi essencial. Devido a uma deformação mental "científica", pensou-se ser suficiente proceder a uma profilaxia, erigir barreiras contra a mestiçagem e ter em conta medidas eugênicas para se recuperarem as virtudes desaparecidas e fazer reaparecer automaticamente o homem criador de civilizações superiores. Há povos que apesar de apresentarem hoje um elevado grau de pureza racial, nórdica, como o norueguês, o sueco e o holandês, estão interiormente mais ou menos extintos, espiritualmente abastardados, privados das virtudes que os caracterizavam noutros tempos. Um ponto que aqui devemos aprofundar adequadamente, é o anti- judaísmo nacional-socialista e o juízo que lhe deve ser feito. Segundo Hitler, o judeu é o inimigo mortal das raças arianas, especialmente do povo alemão. Hitler via-o como portador de uma força destruidora, subversiva e contaminadora no seio das civilizações e das sociedades, no seio das quais tenta ganhar poder e influência. Em Hitler, o anti-semitismo foi quase uma ideia fixa e é impossível descobrir totalmente as origens desse aspecto quase paranóico. Nos seus escritos e discursos, Hitler

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Julius Evola ,

atribuiu ao judeu a causa de todos os males. Acreditava seriamente que o judeu era o único obstáculo à realização da sociedade nacional alemã ideal e fez disso um dos ingredientes da propaganda. Além do marxismo, todas as formas de bolchevismo são criação e instrumentos do judaísmo,

e o mesmo acontece com a plutocracia capitalista ocidental e com a franco-

maçonaria. Cabe perguntar se, com essa "fixação", Hitler não terá sido vítima de uma das táticas da "guerra oculta" 1, que consiste em proceder de maneira que a atenção se concentre no setor onde atuam as forças a combater para que, isolando-a dos outros setores, a ação dessas forças prossiga tranquilamente. Não queremos dizer com isto que a questão judaica não exista, pelo contrário, iremos a seguir fazer-lhe referência, mas, como Hitler a professou, tendo como antecedentes posições próprias do chamado "Movimento Alemão", o anti-semitismo tomou formas algumas vezes exageradas, marca que é difícil de apagar no corpo do III Reich. Deve-se ao hitlerismo o erro de hoje se confundir racismo com anti-semitismo. A atitude de Hitler criou uma espécie de círculo vicioso. O fato das suas ideias sobre os judeus e a luta contra eles terem sido declaradas no primeiro programa do Partido, concentrou contra a Alemanha — e, à

medida que o Nacional-Socialismo ganhava terreno, cada vez mais — todo o judaísmo internacional que, entre outras coisas, controlava a maior parte das grandes agências de informação. Por seu turno, essa polarização reforçou o anti-semitismo de Hitler e justificou-o. Apesar de não haver na Alemanha simpatia pelos judeus e destes terem sido excluídos muitas vezes de diversas organizações, o povo em geral, contrariamente à Polônia

e à Rússia (sabe-se como estes países se distinguiram pelas perseguições

maciças e cruéis de judeus através dos pogroms), não alimentava contra eles uma aversão violenta. No III Reich, o anti-semitismo resumiu-se de

início ao boicote dos judeus e a direção tomada parecia uma espécie de apartheid. O judeu não era considerado membro da Volksgemeinschaft,

a comunidade étnico-nacional alemã, mas cidadão de raça não-ariana,

hóspede estrangeiro (para Hitler, os judeus não eram alemães pertencentes

a determinada confissão religiosa, mas um povo àparte). Desejava-se que fosse posto a viver separadamente e, embora com o seu comércio,

Notas Sobre o Terceiro Reich

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profissões, escolas etc., que se afastasse da sociedade ariana. Era necessário impedi-lo de atividades parasitárias, materialistas, prevaricadoras e escusas. Os judeus a quem a perspectiva no agradasse podiam abandonar o Reich, mas sem levarem os bens que tinham adquirido. O fato — geralmente silenciado — é que, para a maior parte das nações, os judeus eram elementos indesejáveis a quem só muito dificilmente se concediam vistos de entrada. Conhece-se, por exemplo, o drama de um cargueiro repleto de judeus alemães exilados metido a pique depois de detido no limite das águas territoriais dos Estados Unidos e, durante a guerra, o drama dos judeus húngaros ou refugiados na Hungria que teriam escapado a um destino funesto se depois das negociações favorecidas pelo próprio comando das SS, o governo britânico não tivesse recusado acolhê-los no Egito. Na generalidade, a solução final e ideal da questão judaica foi assim encarada pela Alemanha: livrar-se dos judeus dando-lhes uma terra, Madagascar, por exemplo, como chegou a ser falado. Sabe-se, aliás, que o Estado de Israel não assumiu a função do sionismo que propunha levar a cabo e os que hoje insistem na questão judaica — apesar das perseguições sofridas pelos judeus os terem convertido em seres intocáveis — são de opinião que os judeus mais perigosos não pensam em ficar limitados ao território palestino e a abandonar as suas posições nos países ocidentais onde estão radicados e onde têm as mãos livres e muitas outras possibilidades. No ifi Reich, as verdadeiras perseguições começaram com as represálias que se seguiram ao assassinato em 1938 do diplomata alemão da Embaixada de Paris, Von Rath, atentado perpetrado por um judeu com objetivos de propaganda, que ocasionou a promulgação de severas leis anti-judaicas, cujo efeito foi endurecer para além de todos os limites a campanha estrangeira contra o III Reich e, assim, juntar à espiral um círculo suplementar. A própria Itália, a Itália fascista amiga da Alemanha, estava implicada parcialmente já que, como dissemos, essa campanha foi uma das causas que levaram Mussolini a replicar com medidas anti- semitas, ainda que mais moderadas. A liquidação física de judeus deve ser reportada essencialmente ao período da guerra e aos territórios ocupados, uma vez que, segundo se calcula, depois do início das hostilidades não ficaram na Alemanha mais de 25.000 judeus.

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Julius Evola

A questão judaica apresenta um aspecto social e um aspecto

cultural. Quanto ao primeiro, só aparece num período relativamente recente, isto é, depois da revolução francesa e da emancipação dos judeus. Anteriormente, pode falar-se de anti-semitismo religioso, que nada tem a ver com anti-semitismo social e racial (para os modernos racialistas, o judeu convertido ao cristianismo continua a ser judeu e, portanto, deve ser tratado como tal). Segundo o ponto de vista da Direita, é a razão de não se poder fazer referência à atitude dos Estados antes da revolução francesa, já que era a lealdade à Coroa e não a origem étnica que estava em primeiro plano. A própria Prússia foi muito liberal com os judeus. Na Inglaterra, havia muitos judeus entre os conservadores e é a um judeu, Disraeli, que se deve em parte o Império britânico. No Império dos Habsburg, o judeu, ainda que não beneficiando de simpatias, teve sempre grande margem de liberdade. Segundo a tese do anti-semitismo social e nacional, o judeu emancipado aproveitou-se do espaço concedido para dominar desmedidamente as sociedades. O anti-semitismo surgiu então como uma reação provocada pelo fato dos judeus, estreitamente solidários, terem acabado por influir predominantemente na vida econômica, profissional e cultural em proporções que não têm a menor medida com

a percentagem numérica do grupo judaico em relação ao conjunto da

população ariana das diferentes nações. Na Alemanha, em cidades como Berlim, Frankfurt e Breslau, por exemplo, a proporção de advogados e médicos judeus chegou a atingir 50%. Na universidade de Berlim, a proporção de professores de Direito era de 15 judeus em cada 29, em medicina de 118 em cada 147. Em Viena e Bucareste, sucedia o mesmo. Eram muito numerosos no jornalismo e na edição, onde tinham grande influência. Finalmente, a presença de inúmeros judeus entre os dirigentes do marxismo e do comunismo alemães, é incontestável. Já Matternich tinha alertado para o número de judeus que sendo "revolucionários da primeira linha", ocupavam postos importantes como "escritores, filósofos, poetas, oradores, jornalistas e banqueiros", acrescentando que preparavam para a Alemanha um "futuro nefasto". Do ponto de vista do liberalismo democrático, nada há a censurar

a isso e qualquer limitação, o princípio do numero clausus, por exemplo,

Notas Sobre o Terceiro Reich

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é, para aquele, absurda e injusta. A irrupção da questão judaica ligava-se (e liga-se) ao nacionalismo étnico, precisamente, e à circunstância do judeu ser um corpo estranho na comunidade nacional. De modo mais geral, o problema consiste na atitude a ter face à "integração" não só dos judeus, mas de todos os elementos heterogêneos, como os negros, por exemplo. Então, cabe perguntar objetivamente se, admitindo que uma população não tem simpatia por certa raça em razão dos seus aspectos específicos, físicos e de caráter, deve ser imposta como homenagem à "liberdade democrática" a promiscuidade da "integração". Era o que devia perguntar-se hoje aos Estados Unidos. Se queremos ser imparciais e pondo de parte as reivindicações anti-semitas contra a invasão judaica de fato e a reação muitas vezes instintiva da população, falta demonstrar se além das proporções numéricas em postos-chave — consideradas injustas e perigosas — o fato de ser judeu dá um cunho especial, negativo, à atividade exercida. Em certas profissões, na medicina e nas ciências naturais, por exemplo, é difícil prová-lo. Não obstante, o judeu foi reconhecido em todas as épocas pela maneira de ser, pelo comportamento e pelo caráter singular e, chamar judeu a alguém, nunca foi elogio. A nível mais elevado, o anti-semitismo dirige-se contra as influências negativas nos domínios cultural, ético e político-cultural — e isto para citar apenas dois nomes, Karl Marx e Sigmund Freud — e é. nesse plano que a polêmica se desenvolve. Seria necessário então definir o judaísmo em termos gerais e espirituais (o que um judeu genial, Otto Weininger, fez, precisamente), destacando certos traços característicos, os únicos, aliás, que devem entrar em linha de conta), e isso para cada um saber de quem se deve defender e o que deve afastar. Podia tentar-se uma pesquisa desse tipo com os elementos que já indicámos noutra obra 2 . Quando um anti-semita de tendência conservadora do período wilhelmiano, como Adolf Stiicker, afirma no Reichstag que a questão judaica é um "problema ético", no fundo indica um ponto de referência para pôr a questão de maneira justa. Por outro lado, Paul de Lagarde, escritor muito apreciado nos meios nacionalistas alemães, distinguia o judeu fiel à sua tradição, pelo qual tinha algum respeito, do judeu moderno e secularizado. De fato, ao alegarem-se

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Julius Evola

motivos éticos, visava-se o judeu moderno. Era-lhe atribuída uma visão materialista da vida e idêntica prática, avidez por dinheiro, tendência para a especulação sem escrúpulos (Werner Sombart, o sério e ilustre sociólogo, chegou a estudar a relação íntima entre o espírito judaico e o capitalismo moderno), o racionalismo e o "modernismo" no seu aspecto mais corrosivo e anti-tradicional, a desonestidade da dupla moral no trato com não-judeus, enfim, tudo o que deriva, mesmo inconscientemente, da sua condição de homem desenraizado (e, por consequência, o cosmopolitismo e o internacionalismo, que o Volk considerava mortíferos), a sede de poder, eventualmente (como compensação do complexo de inferioridade criado pela condição imposta durante séculos ao "povo eleito").

De modo mais geral, o "racismo" nacional-socialista usou sempre na batalha cultural os termos arteigen (ou artgemãss) e artfremd, isto é, conforme ou estranho à natureza própria (do Volk). Mas, a esse respeito, faltou uma delimitação precisa e convincente, aliás difícil de definir. De fato, quanto aos valores e formas superiores, há toda uma série de aspectos intrinsecamente negativos na civilização e na cultura modernas. Refira- se ainda que se descobre a presença de judeus nas correntes intelectuais, ideológicas e artísticas modernas incontestavelmente subvertidas e desnaturadas, ação que nunca teria sido possível se o terreno não tivesse sido preparado há muito, não exclusivamente pelos judeus, mas pelos arianos, e muitas vezes sob formas irreversíveis 3.

NOTAS:

1 Cf J. Evola, Les Hommes au Milieu des Ruines,

Puiseaux, 1984.

Guy Trédaniel-Pardès, Paris-

2 Cf J. Evola, // Mito dei Sangue,

3 Cf J. Evola, Révolte contre le Monde Moderne,

Hoepli, Milão, 1942, caitulo IX.

L'Âge d'Homme, Lausanne-

Paris, 1991. Esta obra de Evola foi traduzida para português e publicada em Portugal e

no Brasil (N.T.)

CAPÍTULO V

A REVOLUÇÃO CULTURAL NAZISTA E O PROBLEMA RELIGIOSO

Há que reconhecer no Nacional-Socialismo o mérito de ter percebido a necessidade da "luta por uma visão do mundo". Para Hitler,

a visão do mundo era um fator de primeira importância, muito acima das ideologias e fórmulas do Partido. A revolução devia ser alargada ao domínio da visão do mundo, a Weltanschauung, apesar de não se ter

chegado a algo muito sólido e unitário na sua definição. Como é natural,

o mito e a mística do sangue desempenharam um papel essencial na

Weltanschauung. Assim sendo, não podemos deixar de abordar questões mais vastas. Pelo emprego do termo ariano e pela importância dada ao elemento nórdico, o que estava em causa era o estudo do que se pode definir de maneira mais geral e séria como a visão ariana ou nórdico- ariana da vida nos planos ético, religioso e espiritual. Era a maneira de se dar um conteúdo concreto e positivo às palavras de ordem da campanha racial e de ter um apoio fundamental na ação formadora, cujo valor já reconhecemos ao referirmo-nos ao Fascismo, na condição de ser posto de lado o racismo puramente biológico e científico. Mesmo que tudo tivesse ficado em grande parte no estado de exigência e apesar de não faltarem confusões e desvios no III Reich, o Nacional-Socialismo teve a coragem de pôr problemas num domínio do qual a Itália fascista de afastou — recorde-se o que dissemos à cerca da ausência de clarificação e de aprofundamento do conteúdo da verdadeira romanidade como visão do mundo.

Para podermos chegar a algumas conclusões, há que relevar desde

já a posição do Nacional-Socialismo face ao problema religioso. O Nacional-Socialismo combateu todas as formas de ateísmo. O ateísmo e

a concepção materialista da vida são aspectos do marxismo e do

comunismo postos claramente em relevo por essas ideologias subversivas, razão pela qual numerosos cristãos e católicos viram no Nacional-

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Julius Evoia

Socialismo um aliado. Na própria fórmula de juramento das SS invocava- se Deus e Himmler disse repetidamente que "o que não crê em Deus é presunçoso, megalômano e estúpido e não há lugar para ele entre nós" (ist überheblich, grüssenwahnsinnig und dumm; er ist für uns nicht geeignet). A vez do cristianismo iria chegar. Declarava-se oficialmente que "o Partido defende o ponto de vista de um cristianismo positivo", sem nunca se ter esclarecido a nível oficial o que eram cristianismo positivo e cristianismo negativo. Entre outras coisas, perguntava-se como podia o cristianismo ser qualificado de ariano e como escaparia à polêmica anti-semita. Uns, procuraram uma saída e tentaram arianizar o cristianismo subtraindo-lhe o Antigo Testamento — puramente judaico — e "purificando" o Novo Testamento das escórias semitas e da teologia do judeu Paulo (ao mesmo tempo, atribuía-se ao Evangelho de João um alto caráter ariano). No entanto, tratava-se de escapatórias e sofismas que não podiam ser aceites pelos cristãos, já que os ideólogos mais radicais (Rosenberg, Hauer, Reventlow, discípulos de Ludendorff), que não viam em tudo isso mais que um compromisso, afirmavam abertamente a incompatibilidade do cristianismo com a visão autenticamente ariana da vida, nórdica ou alemã, com a fé germânica. Chegou mesmo a esboçar-se um "Movimento da Fé Alemã", a Deutsche Glaubensbewegung. Nos escritos e discursos de Hitler, não se encontram contributos notáveis à problemática da visão do mundo no sentido superior. A sua paixão wagneriana é significativa — para si, como para Chamberlain, Richard Wagner é o "profeta do germanismo" — mesmo reconhecendo que, a parte a grandeza da sua arte romântica, Wagner deformou certas tradições e lendas nórdico-germânicas. Nos seus escritos e discursos, Hitler apela com frequência a Deus e à Providência, de quem se reclama enviado e executor, mas não se vê muito bem quem era essa Providência, já que, por um lado, como Darwin e Nietzsche, reconhece o direito do mais forte como lei suprema da vida e, por outro, exclui como superstição toda a intervenção de ordem sobrenatural, exalta a ciência e as "leis eternas da natureza". Orientação parecida tinha o principal ideólogo do movimento, Alfred Rosenberg, que via na ciência moderna "uma criação do mais puro espírito ariano", talvez sem dar conta que, se se devem à

Notas Sobre o Terceiro Reich

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ciência moderna as conquistas técnicas, também se lhe devem as devastações espirituais mais negativas e mais irreversíveis da época moderna e a dessacralização do universo. Paradoxalmente, parece coexistir em Hitler uma incompreensão tipicamente racionalista da mística do sangue derivada diretamente das Luzes para a religião. Rosenberg é mais explícito. Para ele, os ritos e sacramentos cristãos não passam de superstições, de criações de espíritos não-arianos. Pode compreender-se, pois, em que nível se colocou a luta pela visão do mundo ao tomar direções deste gênero. O limite principal foi um "naturalismo" negador da verdadeira transcendência. Por um lado, condena-se a distinção entre alma e corpo como própria da mentalidade "levantina", não ariana, por outro lado, tiram-se consequências lógicas, nega-se a imortalidade individual e concebe-se a "imortalidade segundo a raça". Vê-se como certas palavras de ordem violentam o que ressalta claramente do exame sério da tradição das civilizações arianas (indo- europeias), em que se reconhece a transcendência que serviu muitas vezes de ponto de referência às virtudes éticas que os ideólogos nacional- socialistas valorizaram no plano humano e naturalista (a este propósito, vejam-se as perspectivas do "heroísmo trágico"). O estudo das origens e o regresso às origens foram em certos meios nacional-socialistas, ou próximos do movimento, um fator altamente positivo. Tratava-se, na ocorrência, das origens germânicas e nórdicas, mas certas mentalidades e preconceitos foram um obstáculo para se atingir nesse domínio, onde alguns apóstolos do germanismo se tinham aventurado, algo de verdadeiramente positivo. Iremos aludir a algumas iniciativas quando falarmos das SS, mas, no quadro do Partido, não se foi muito além da exumação de alguns costumes antigos. Nas manifestações de massa, de caráter espetacular e sugestivo, havia a cerimônia ritual do fogo e o movimento da cruz gamada formada por grupos de homens, que levavam archotes ao estádio de Berlim no dia do Solstício de verão. Assim renasceram velhos signos germânicos, as runas, que serviram de símbolos a algumas organizações (às SS, por exemplo). No domínio dos símbolos — cuja relação com a visão tradicional do mundo é muito estreita — a incompreensão da dimensão transcendente

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Julius Evola

representou um handicapl inultrapassável. Com exceção das runas, a velha significação mágica foi ignorada em muitos casos. Aliás, nesse domínio, no que diz respeito à justa compreensão e utilização dos símbolos

das origens, poderia perguntar-se se, realmente, foi compreendido na

íntegra o sentido do símbolo central do Nacional-Socialismo, a cruz gamada, a Swastika. Para Hitler, era o símbolo da "missão de combate pela vitória do homem ariano, pelo triunfo da ideia do trabalho criador,

que foi e será sempre anti-semita" 2.

Se o Mein Kampf de Hitler foi a bíblia política e ideológica do Nacional-Socialismo, a obra principal de visão do mundo e de interpretação histórica no III Reich foi O Mito do Século )0C de Alfred Rosenberg. Em mais de um ponto, era citado na doutrinação das gerações jovens. No essencial, trata-se de uma compilação, mas a que têm de ser reconhecidas qualidades de síntese e interpretações magníficas. Entre outras coisas, são aí referidas as investigações de Herman Wirth sobre a

pré-história nórdico-atlântica e de Johann Bachofen 3 sobre a morfologia

das civilizações da antiguidade. Contudo, abstraindo das incompreensões

já assinaladas e de um anti-catolicismo que se diria inspirado nas Luzes, certos assuntos mais confusos do livro dão armas ao adversário e a situação piora à medida que Rosenberg se aproxima dos tempos modernos e precisa

cada vez mais a manipulação do conjunto num sentido unilateralmente alemão. Seja como for, O Mito do Século XXfoi no III Reich hitleriano a principal obra proposta, ainda que de maneira não abertamente oficial,

no quadro da luta pela visão do mundo 4. As reservas críticas que tivemos de fazer não impedem de reconhecer, porém, que, nesse domínio, muita coisa foi posta em marcha

no seio do III Reich, que novos horizontes foram corajosamente

explorados, apesar das diferentes correntes carecerem de pontos de referência adequados ou de existirem ideias preconcebidas ou desvios que as bloqueavam. É impossível dizer que a situação seria diferente se o

III

Reich tivesse uma vida mais longa e mais calma. Quanto à acusação

de

"paganismo" lançada a certas tendências nesse domínio, a nosso ver

não é censurável a crítica de certos aspectos da concepção cristã e católica

do sagrado, da sua visão da vida e da sua moral, e, nos casos em que teve

Notas Sobre o Terceiro Reich

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como contrapartida o reconhecimento dos conteúdos sagrados e transcendentes da herança não-cristã e pré-cristã, foi legítima e fecunda. Ao mesmo tempo, na exaltação da nova fé, havia o perigo da visão não- cristã da vida que se queria redescobrir e reaprender ser pagã no mau sentido que a apologética cristã atribui a tudo o que não é cristão, já que o que se apresentava em alguns meios como religião ou fé germânica tinha um fundo naturalista e panteísta que a colocava no nível espiritual inferior.

NOTAS:

1 Em francês no texto (N.T.)

2 Não passa de fantasia o que alguns autores sustentam à margem da sua

interpretação demonológica do hitlerismo quando afirmam que o movimento levógiro da cruz gamada é um signo involuntário, embora claro, do seu carácter demoníaco. É divagação pura e simples muito do que se afirmou depois da guerra sobre o pano de fundo oculto, iniciático ou contra-iniciático, do Nacional-Socialismo, e nós podemos dizê-lo com conhecimento de causa. Em 1918, um pequeno grupo criou a Thulegesellschaft e escolheu como símbolos a cruz gamada e o disco solar, cujo nível espiritual, a parte o germanismo, era semelhante ao do teosofismo anglo-saxônico. Houve outros grupos e outros autores, por exemplo Guido von List e Lanz von Liebenfels (este último chegou a criar uma Ordem) que anunciaram a vinda de Hitler e usaram a cruz gamada.

Du Règne

de la Mère au Patriarcat, L'Aire, Lausanne, 1980, obra esta que está esgotada. O grande

livro de Bachofen, Das Mutterrecht

3 Foram reeditados extratos de várias obras deste importante autor:

(1861) nunca foi traduzido para português (N.T.)

4 Um livro de ambições limitadas mas contendo certas interpretações mais

qualificadas relativamente à concepção superior do Estado, parcialmente retiradas de Hegel, o "filósofo do prussianismo", Das Reich und die Krankheit der europeiischen Kultur, de C. Steding (Hamburgo, 1938), além de não utilizado, foi ignorado pelos meios culturais nazis oficiais.

CAPÍTULO VII

O "ESTADO DA ORDEM" E AS SS

Consideremos agora algumas iniciativas especialmente

interessantes do III Reich em que agiram influências e exigências ligadas em parte às ideias da "revolução conservadora". Trata-se do que se relaciona com o conceito ou ideal do Ordenstaat, isto é, de um Estado dirigido por uma Ordem (em oposição parcial tácita à fórmula do Estado- partido) aciml das fórmulas coletivizantes da Volksgemeinschaft, coletividade r, tç ional-racial, e do Führer-Staat de base totalitária, populista e ditatot ial. De certo modo, retomou-se a tradição das origens prussianas. Sabe-se que o nó original da Prússia foi uma Ordem, a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, chamada em 1226 pelo duque polaco Konrad de Mazovie a defender as fronteiras do Leste. Os territórios conquistados e os dados em feudo formaram um Estado dirigido por essa Ordem e protegido pela Santa-Sé, da qual dependia no plano da disciplina, e pelo Sacro Império Romano. O Estado englobava a Prússia, o Brandeburgo e

a Pomerânia. Em 1415, voltou aos Hohenzollern. Em 1525, com a

Reforma, o Estado da Ordem "secularizou-se", emancipou-se de Roma,

mas, mesmo desaparecido o laço propriamente confessional da Ordem, manteve o seu fundamento ético, ascético e guerreiro. Assim se continuou

a tradição que deu forma ao Estado prussiano nos seus aspectos mais

característicos. Ao mesmo tempo que a Prússia se constituía em reino, criava-se em 1701 a Ordem da Águia Negra, ligada à nobreza hereditária, que tomou por divisa as origens e o princípio clássico da justiça: Suum cuique. Interessa notar que na formação prussiana do caráter, especialmente entre o corpo de oficiais, se faz referência explícita à retomada do estoicismo no sentido do domínio sobre si mesmo, à firmeza de alma e a um estilo de vida sóbrio e íntegro. Assim, por exemplo, no Corpus Júris Militaris, introduzido no século XVIII nas escolas militares,

Notas Sobre o Terceiro Reich

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recomendava-se aos oficiais o estudo das obras de Séneca, de Marco Aurélio, de Cícero e de Epiteto. Marco Aurélio foi uma das leituras preferidas de Frederico o Grande. Correlativamente, alimentava-se antipatia pelo intelectualismo e pelo mundo das letras (recorde-se a propósito a atitude sarcástica e drástica de Frederico-Guilherme I, o "rei dos soldados", que queria fazer de Berlim uma "Espada nórdica" 1. A fidelidade à Coroa (liberdade na obediência) e o princípio de serviço e de honra caracterizavam a classe política que dirigia o Estado prussiano, antigamente um Estado da Ordem, conferindo-lhe forma e poder. Falta indicar a influência que em período mais recente, durante a república de Weimar, a Bundesgedanke, o pensamento ou ideal do Bund, conducente ao esboço de formas organizativas, exerceu em certos meios. Bund significa geralmente liga ou associação. Neste caso específico, porém, a expressão tem um conteúdo próximo de Ordem e não deixa de ter relação com o que se designou em certas pesquisas etnológicas e sociológicas com o nome de Mãnnerbund, isto é, "sociedade de homens". Pensava-se numa elite definida por uma solidariedade viril e por uma espécie de auto-legitimidade. Na Alemanha, antes do Nacional Socialismo, apareceram diferentes Bünde que, embora modestos nos seus efetivos, tinham orientações variadas e de um Caráter quase sempre exclusivo. Quando os interesses que cultivavam interferiam no domínio político, tornavam-se partidários de um regime de elite, oposto aos regimes de massas. Em face de tais precedentes, a ideia que podia corrigir o hitlerismo era que o Estado devia ser dirigido, mais que por um partido único, por qualquer coisa semelhante a uma Ordem. Por consequência, uma das tarefas fundamentais do III Reich seria a criação de quadros qualificados mediante a formação sistemática de uma elite concebida como a encarnação típica da ideia do novo Estado e da visão do mundo que lhe correspondia. Com essa pequena diferença relativamente à tradição precedente, que não podemos deixar , aqui de considerar, além das qualidades de caráter e físicas, o fator raça — com particular referência ao tipo nórdico — eram valorados. Nesse sentido, o III Reich tomou, principalmente, duas iniciativas.

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Julius Evola

A primeira, foi a constituição pelo Partido de três Ordensburgen, castelos da Ordem. Eram complexos com edifícios cuja arquitetura se inspirava no velho estilo nórdico-germânico, com vastos terrenos anexos, bosques, prados e lagos, onde os jovens eram acolhidos depois de uma seleção prévia. Era-lhes dada formação militar, física, moral e intelectual, ensinada uma certa visão do mundo, e uma parte era especialmente consagrada a tudo o que dizia respeito a coragem e resolução, incluindo provas muito arriscadas. Entre outras coisas, reconstituíam-se pleitos com aspirantes, os Junker, que seguiam o seu desenrolar desempenhando o papel do público. Escolhiam-se processos em que a honra e outros valores éticos tinham especial destaque a fim de experimentar por meio de uma série de discussões a sensibilidade moral e as faculdades naturais de julgamento dos indivíduos. Rosenberg supervisava os Ordensburgen. As suas ideias serviam de base essencial à doutrinação, o que, dadas as reservas que fizemos, insinuava no conjunto um fator problemático. Os jovens saídos dos Ordensburgen, onde viviam uma vida em sociedade de homens sós isolados do resto do mundo, eram escolhidos para entrarem na posse de um título especial que lhes dava preferência no acesso a funções políticas e postos de responsabilidade no III Reich, ou, melhor ainda, no III Reich que havia de vir. As SS, porém, tinham muito mais importância. Com a conhecida propaganda do pós-guerra, a simples alusão às SS leva a maioria das pessoas a pensarem automaticamente na Gestapo, em campos de concentração, na missão de certas unidades SS na repressão ou em represálias durante a guerra, propaganda que não é mais que simplificação grosseira e tendenciosa. Não vamos aqui abordar o assunto, uma vez que não pretendemos ocupar-nos de contingências. Neste, como noutros casos, interessa-nos estudar os princípios e as ideias diretrizes, independentemente daquilo a que algumas das suas aplicações possam ter dado lugar. Devemos, pois, trazer à luz do dia certos aspectos das SS geralmente ignorados (e que se pretende manter ignorados). Na origem, as duas letras SS eram as iniciais de Saal-Schutz, designação de uma espécie de guarda pessoal de que Hitler dispunha no primeiro período da sua atividade para a proteção e o serviço de ordem

Notas Sobre o Terceiro Reich

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das reuniões políticas. Nessa altura, não passava de um grupo reduzido.

Mais tarde, os dois S passaram a significar Schutz-átaffeln

proteção, literalmente) e foram estilizados com duas linhas em ziguezage,

que reproduziam um velho signo nórdico-germânico, as runas da vitória

e também da força fulminante. Chegou-se à formação de um verdadeiro

corpo, agora para proteção do Estado — o Corpo Negro,

diferente dos

(grupo de

Camisas Castanhas, ou SA, de que Hitler e Goering se serviram em 30 de

Junho de 1934 para pôr fim, como vimos, às veleidades da "segunda revolução" radical no interior do Partido. Pelo seu desempenho nessa ação, as SS adquiriram estatuto e poderes especiais e passaram a ser a "guarda da revolução nacional-socialista". O organizador das SS foi Heinrich Himmler, mais tarde nomeado

Reichsführer SS, ou seja, chefe das SS em todo o Reich. Himmler era de origem bávara e de educação católica. Ainda estudante de agronomia, fez parte em 1919 dos corpos de voluntários que combateram contra o comunismo. Tinha tendências monárquicas e conservadoras de Direita transmitidas pelo pai, antigo preceptor do príncipe herdeiro Henrique da Baviera. O ideal de uma Ordem exerceu sobre ele um fascínio especial e os seus olhos voltaram-se para a antiga Ordem dos Cavaleiros Teutônicos

a que já nos referimos. Queria fazer das SS um corpo capaz de assumir

de forma nova a função de nó central do Estado, como tinha sucedido com a nobreza e com a sua lealdade à Coroa. A formação do homem SS visava a combinação do espírito espartano e da disciplina prussiana. Mas também se inspirou na Companhia de Jesus (Hitler dizia a gracejar que Himmler era o seu "Inácio de Loyola") no que se referia a certa despersonalização levada por vezes a limites sobre-humanos. Assim, por exemplo, dizia-se logo no início ao candidato SS que, pela sua fidelidade e obediência absoluta e em caso extremo, devia estar pronto a não poupar os próprios irmãos, que os pedidos de desculpa não se usavam nas SS, que a palavra dada era qualquer coisa de absoluto. Citando um exemplo tirado de um discurso de Himmler, podia pedir-se a um SS para não fumar. Era rejeitado se não prometesse fazê-lo, mas, caso tivesse prometido e fosse surpreendido a fumar, "restava-lhe a pistola", ou seja, o suicídio. Nos regimentos militares estavam previstas provas de coragem física:

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Julius Evola

numa dessas provas, o candidato SS devia aguardar calmamente na posição de sentido a explosão da granada colocada em cima do capacete de aço.

Outro aspecto particular, era a cláusula racial. Além do sangue ariano (ascendência ariana provada a partir de 1750, pelo menos) e de uma constituição física sã e robusta, dava-se grande importância ao tipo nórdico de estatura alta. Por outro lado, Himmler queria fazer das SS um Sippenorden, isto é, uma Ordem que, à diferença dos antigos cavaleiros, correspondesse no futuro a uma raça, a um sangue, a uma linhagem hereditária (Sippe). Por essa razão, a liberdade de escolha conjugal do SS era fortemente limitada. Não devia desposar uma rapariga qualquer (menos ainda, mulheres de outra raça), e era necessária a aprovação mediante ofício racial especializado. Não estando de acordo, restava-lhe sair da Ordem. No entanto, depois da sua admissão (a seguir a um período probatório), a cláusula era claramente explicada ao aspirante SS. Assim se reafirmava a questão biológica ligada a certa banalização do ideal feminino e o especial relevo dado ao aspecto mãe da mulher. Hitler desconfiava dos descendentes das velhas casas reinantes alemãs, mas Himmler, que tinha um fraco por eles, afirmava que as SS eram o único corpo do III Reich que convinha a príncipes. Com efeito, vários representantes da nobreza vieram a fazer parte desse corpo. O príncipe Waldeck-Pyrmont alistou-se em 1929 e, em 1933, os príncipes Mecklenburg, Hohenzollern-Sigmaringen, Lippe-Biesterfeld etc. O ipríncipe Philippe de Hesse era amigo de longa data de Himmler. Nos últimos anos, a aproximação entre a importante organização do III Reich e a nobreza alemã traduziu-se nas relações cordiais mantidas com o Herrenklub de Berlim e no discurso de Himmler à Deutsche Adelsgenossenschaft (corporação da nobreza alemã). As relações com o exército eram mais frias, menos por divergências de orientação que por questões de prestígio, ao serem criados regimentos armados e militarizados nas SS e, por fim, verdadeiras divisões, que tomaram o nome de Waffen- SS. Mas foi Paul Hausser, saído do exército com o posto de tenente- coronel para militar nas fileiras da "revolução conservadora" e do

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Stahlhelm de Seldte, que reorganizou em 1935 a academia SS e passou a supervisionar a escola de cadetes no Welfenschloss de Brunswick. Na sua evolução, as SS ramificaram-se em seções múltiplas, algumas das quais, pelo seu caráter específico, puseram em segundo plano os aspectos relativos à Ordem. Abstraiamo-nos aqui da SS Totenkopf, com funções paralelas às da polícia comum e da polícia do Estado (aliás, por decreto do ministério do Interior, Himmler foi nomeado comandante da polícia em 17 de Junho de 1936). Este setor das SS é o que é posto em questão por certos aspectos negativos do corpo, aspectos que viriam a ser largamente utilizados para tornar abominável a totalidade das SS. Pela nossa parte, referiremos somente a Verfügungstruppe SS, a força armada "de reserva", diretamente dependente do chefe do Reich. Em Julho de 1940, deu nascimento às Waffen-SS, isto é, a unidades militares de elite, cujas façanhas na II Guerra Mundial (tendo em conta a formação pessoal do homem SS) iriam impor ao inimigo respeito e admiração. A seção Rusha (iniciais de Rasse und Siedlungshauptamt), que se ocupava de questões raciais e da colonização interna, pode também ser posta de lado. Aqui, só terão interesse as iniciativas de ordem cultural das SS. A realização do ideal de Himmler deparou com uma espécie de handicap 2, já que, no seu sentido próprio, uma Ordem pressupõe um fundamento espiritual que, neste caso preciso, não podia referir-se ao catolicismo. Com efeito, a orientação anti-cristã, a ideia de que o cristianismo era inaceitável por tudo o que contém de não-ariano e de não-germânico, era muito corrente nas SS e, apesar da existência de tensões entre Himmler e Rosenberg, neste ponto havia uma indiscutível convergência de opiniões. Excluídos cristianismo e catolicismo, o problema da visão do mundo reportava-se em tudo ao que ia mais além da disciplina severa e da formação do caráter. As SS ambicionavam ser uma Weltanschauuliche Stosstruppe, isto é, uma força de choque no domínio, precisamente, da visão do mundo. No seio das SS tinha-se constituído há muito o S.D. (Sicherheitsdienst, serviço de segurança) que, em princípio, devia ter atividades culturais e o controle cultural (declaração de Himmler de 1937). Apesar do S.D. ter evoluído depois noutras direções, na contra-espionagem, por exemplo, o VII Gabinete

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Julius Evoia

manteve o seu caráter cultural e fizeram parte do mesmo notáveis cientistas

e professores. Aliás, o S.D. podia tornar-se um SS ad honorem

(Ehrendienst, serviço honorifico), possibilidade que contemplava as personalidades da cultura que haviam contribuído favoravelmente no sentido indicado. Pode citar-se, por exemplo, o Prof. Franz Altheim da Universidade de Halle, reconhecido historiador da Antiguidade e de Roma,

e o Prof. Menghin da Universidade de Viena, eminente especialista da

pré-história. A Ahnenerbe, instituição especial das SS, tinha por tarefa levar a cabo as investigações sobre a herança das origens, desde o domínio dos símbolos e das tradições ao domínio arqueológico. Com efeito, a atenção voltara-se para o que se podia retirar dessa herança em matéria de cosmogonia e, nesse campo, superou-se o exclusivismo nacionalista de certos meios. Assim, por exemplo, Himmler subvencionou o holandês Herman Wirth, autor de A Aurora da Humanidade, volumosa obra sobre as origens nórdico-atlânticas, e convidou como conferencista um autor italiano que, mantendo a maior reserva relativamente ao catolicismo e ao cristianismo e evitando certos desvios de Rosenberg e de outros autores 3, tinha também pesquisado nessa área e no mundo da tradição em geral. De tudo isto se deduz que as SS se inseriam num quadro mais complexo e muito diferente do que geralmente se supõe. Apesar de muitas das suas iniciativas terem ficado apenas no projeto, a circunstância de terem sido concebidas tem muitíssimo sentido. Por principio e segundo o parecer da Direita, o ideal de um Estado da Ordem, oposto ao Estado totalitário de massas e ao Estado-partido, só pode ser julgado positivamente. Aliás, já exprimimos a mesma opinião na crítica que fizemos à noção fascista do partido único. No caso especifico da Alemanha, tudo dependia da integração dos elementos da Direita e da retificação de alguns aspectos do III Reich que, para alguns representantes da "revolução conservadora" e do espirito prussiano, era uma contrafação usurpadora das suas ideias. Progressivamente, as SS ganharam importância política e chegou

a falar-se de um "Estado dentro do Estado" ou, mais abertamente, de um "Estado SS". De fato, havia células SS em numerosos postos-chave do

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Reich, na administração, na diplomacia etc. O conceito de um Estado da Ordem implicava realmente que os homens da Ordem fossem designados para os seus postos, como foi o caso da nobreza no passado. Finalmente, uma alusão às Waffen-SS. A partir de Julho de 1940, as formações SS que, originalmente e em tempo de paz, foram concebidas como "força de reserva", passaram a unidades militares e a divisões

blindadas e, não obstante a sua grande autonomia, bateram-se ao lado da Wehrmacht. É das Waffen-SS que nasce nos finais da II Guerra Mundial

o que veio a chamar-se "o primeiro exército europeu". Himmler aprovou

a ideia de Paul Hausser, mais tarde retomada por Gottlob Berger, de

constituir divisões das Waffen-SS com voluntários de todas as nações para lutar contra a Rússia comunista e defender a Europa e a sua civilização. Na prática, retomava-se a missão da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos como guarda do Leste e, simultaneamente, o espírito que tinha animado os Freikorps, voluntários que, por iniciativa própria, combateram os bolchevistas nas regiões orientais e nos países bálticos depois do fim da I Guerra Mundial. No total, mais de dezessete nações estavam representadas nas Waffen-SS com verdadeiras divisões: franceses, belgas, holandeses, escandinavos, ucranianos, espanhóis, suiços etc. 4 No conjunto, cerca de 800.000 homens, dos quais só uma parte procedia da zona germânica. Os voluntários não se preocuparam em serem acusados de traidores e colaboradores, mas, terminada a guerra, os sobreviventes foram ferozmente perseguidos nas suas pátrias 5. Num discurso pronunciado em Poznan em 4 de Outubro de 1943, Himmler falou abertamente das SS como uma Ordem armada que no futuro, eliminada a União Soviética, seria a guarda da Europa nos Urais contra "as hordas asiáticas". Foi uma mudança importante de perspectiva, na medida em que o arianismo deixou de se identificar exclusivamente com o germanismo. Combatia-se, não por um Nacional-Socialismo eventualmente expansionista e racialmente unilateral, não pelo pangermanismo, mas por uma ideia superior, pela Europa e por uma Ordem Nova europeia. A orientação ganhou terreno nas SS e exprimiu-se na declaração de Charlottenburg publicada pelo Gabinete Central das SS já perto do fim da guerra. O texto .era a resposta à declaração de S. Francisco

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feita pelos Aliados sobre os o.bjetivos da guerra, a "cruzada da democracia". A declaração de Charlottenburg tratava da concepção do homem e da vida própria ao III Reich e, sobretudo, da ideia da Ordem Nova, que não devia ser hegemônica, mas federalista e orgânica. Recordemos que se deve a Himmler uma tentativa de salvação in extremis (em que Hitler viu uma traição). Por mediação do conde Bernadotte, Himmler transmitiu aos Aliados ocidentais uma proposta de paz separada para poder continuar a guerra apenas contra a União Soviética e contra o comunismo. Sabe-se que a proposta — que, a ser aceite, teria garantido outro destino à Europa, evitaria a "guerra fria" e a passagem para o comunismo da Europa situada na "cortina de ferro" — foi brutalmente rejeitada em nome de um cego extremismo ideológico, exatamente como, pelas mesmas razões, foi rejeitada a oferta de paz que Hitler fez à Inglaterra em termos mais que razoáveis num discurso do verão de 1940 e num momento em que os alemães eram vencedores em todas as frentes.

NOTAS:

1 Por associação de ideias, podemos aludir a certa aversão pelo tipo "intelectual"

no seio do Fascismo e, mais ainda, no Nacional-Socialismo. Com efeito, enquanto o Fascismo italiano respeitou os intelectuais e os homens de nomeada cultural sem se preocupar demasiado com a sua mentalidade efetiva e esperando a sua adesão formal ao

regime, o Nacional-Socialismo teve menos contemplações e, sem ter em conta

celebridades, permitiu-lhes, caso quisessem, partir para o estrangeiro. Entretanto, há que ter em conta o papel na Alemanha da pesada Kultur erudita agnóstica e de uma série de intelectuais burgueses de formação humanista e liberal. Refratários a toda a mística do Estado e da autoridade, tinham por dogma a antítese entre cultura e espírito, por um lado, e poder, política e virtudes militares e guerreiras, por outro (atribuem-se a Goebbels as palavras seguintes: "Quando os ouço falar de cultura, sinto vontade de levar a mão à pistola"). Do ponto de vista da Direita, é perfeitamente legítimo manter as distância em relação aos "intelectuais" e "homens de cultura", aos que, depois do triunfo da burguesia e da crise dos antigos regimes, pretendem ser os representantes verdadeiros dos valores espirituais.

2 Em francês no texto (N.T.)

3 No domínio das publicações, é pena ter-se permitido a um hebdomadário ter

como título Das Schwarz Korps, uma vez que esse jornal se empenhava em ataques

violentos contra o clero católico e num anti-semitismo não menos brutal.

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4 E ainda italianos, russos, letões, ingleses, portugueses e americanos (N.T.)

5 Infâmias sem nome foram cometidas pelos vencedores americanos quando já

tudo estava perdido, ao entregarem à União Soviética os regimentos de voluntários ucranianos que se tinham rendido a eles e só a eles e apesar de saberem perfeitamente que os enviavam para o matadouro. Note-se que na formação das novas unidades das Waffen-SS quase tudo se centrou no aspecto militar, sendo muitas vezes relegado para segunda instância o que se referia

ao ideal de uma Ordem. O comandante de uma divisão blindada da  SS, o general Steiner,

pretendeu depois da guerra que essas formações se

situavam no mesmo plano da Wehrmacht, que, portanto, deviam ser tratadas como tal, e

no seu livro Die geãchtete Armee,

que nada tinham a ver com as "fantasias românticas" de Himmler (da sua ideia das Waffen-SS como Ordem). A esse respeito, porém, o general Steiner pronunciou-se de maneira antipática e presunçosa.

CAPÍTULO VII

NACIONALISMO, PANGERMANISMO, "EUROPEÍSMO"

A parte a questão das SS e da sua corrente "europeísta", há que fazer uma apreciação sobre a ideologia que serviu de fundamento à política externa do III Reich e particularmente de Hitler, já que é aqui que entram em jogo muitas das causas essenciais da II Guerra Mundial e as perspectivas traçadas no que dizia respeito a uma Nova Ordem europeia no caso de um desfecho vitorioso da guerra. Em nosso entender, o aspecto mais negativo do hitlerismo foi o caráter extremo do seu nacionalismo étnico irredentista e o seu desempenho fundamental e funesto. Tratava-se de uma verdadeira ideia fixa que impulsionou Hitler a aventuras coroadas de êxito nos primeiros tempos mas que depois, por falta de sentido do limite e das possibilidades reais, iria conduzir à catástrofe. Todos os alemães iam ser reunidos num só Reich, no III Reich, com um só Führer. Hitler acreditava verdadeiramente que a missão lhe fora confiada pela Providência. A ideologia do Volk, porém, misturava-se aqui ao nacionalismo moderno anti-tradicional. Anti-tradicional com respeito à própria Alemanha, já que nem no I nem no II Reich se vê algo parecido. Não foi com base nisso que a Prússia e Frederico, o Grande conduziram as suas guerras. Já sublinhamos que, tal como o partido conservador, Bismarck estava longe do nacionalismo étnico irredentista. Aliás, nem havia o problema de populações de origem alemã fora das fronteiras do Reich. Também não era dado a fantasias pangermanistas (ao seu lado, Von Moltke teve vistas largas, próprias de uma orientação nitidamente europeia). Com a sua ideologia, Hitler difundiu um fermento de agitação entre os Volksdeutsche, as minorias que viviam fora do Reich (e entre a população austríaca), de onde surgiram situações e problemas que só podiam ser resolvidos pela força. De outra maneira, Dantzig não teria sido o ponto crucial de onde partiu a avalanche da II Guerra Mundial.

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Depois, em lugar de parar na integração étnico-nacional, procedeu-se na direção de um pangermanismo hegemônico que, à partida, prejudicava a ideia da Ordem Nova. Enfim, quando o Reich estendeu o seu poder a zonas não alemãs, reapareceu a ideia de supremacia. Foi instituído um sistema de protetorados e governos que não podia deixar de provocar reações e alimentar resistências até se criarem as premissas

para a constituição de uma unidade superior que deixasse às partes uma margem de independência. Aqui e ali reaparecia a arrogância do Herrenvolk, expressão que, em benefício de um arianismo monopolizado pelo elemento alemão, corria o risco de perder o sentido aristocrático de "povo de senhores" e passar ao odioso de "povo de patrões". De um arianismo que não tinha em conta o caso de outros povos, na realidade não menos arianos, considerados e tratados por vezes praticamente como sub-humanos. Foi o caso dos polacos, cuja pátria tinha um passado glorioso apesar de infortunado (entre outras coisas, esqueceu-se que foi um duque polaco a chamar a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos às terras onde a Prússia viria a nascer mais tarde). Hitler nem sempre entreviu uma linha política fecunda para a Europa oriental. Mais que Dantzig, por exemplo, teria sido importante apoiar-se no sentimento atavicamente anti- russo dos polacos para os ter como aliados na Drag nach Osten (marcha para o Leste). Além disso, importa denunciar os erros cometidos pela Alemanha nazista durante a campanha da Rússia e nos territórios soviéticos ocupados, que não podiam deixar de ter relação com o conceito de "espaço vital" do povo alemão, medida que teria de desembocar numa espécie de colonialismo inter-europeu. Se a palavra de ordem era a guerra contra o comunismo (e, em nossa opinião, o objetivo da política clarividente do

III Reich seria tentar obter por todos os meios possíveis a neutralidade

das nações ocidentais para ficar com as mãos livres no ataque destrutivo

contra a União Soviética exclusivamente — o que reclamava a habilidade

e o gênio de um Metternich) e a libertação da Rússia do jugo comunista, havia também a ideia de expansão nos territórios ocupados e de um regime

de subordinação das populações, perante as quais se manifestou muitas

vezes a pretensão alemã de povo sup-erior.

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Nos primeiros tempos, os alemães vitoriosos foram acolhidos entusiasticamente como libertadores em muitas regiões da Rússia, mas a atitude das populações mudou quando, em lugar da esperada libertação, comissários, comandantes, representantes sem escrúpulos da indústria e do comércio do Reich foram ocupar o lugar das autoridades soviéticas, dando a impressão que a uma opressão se tinha sucedido outra. Os

governos livres formados pelos russos nos territórios conquistados pela Wehrmacht foram dissolvidos e alguns patriotas anti-comunistas chegaram

a ser perseguidos. Foi o caso do general russo Andrei Vlassov, fundador

do Movimento da Rússia Livre, preso antes de lhe ser permitido organizar

um exército ucraniano anti-soviético para combater ao lado dos exércitos

alemãesl. Tudo isso foi muito negativo, levou as populações à indiferença

e à desconfiança e alimentou o movimento de resistência, circunstância

que ofereceu uma base preciosa à política de Stalin que, pondo de lado a

ideologia comunista original, pregou um novo nacionalismo russo e forjou

a palavra de ordem do "patriotismo soviético", mobilizando assim

importantes forças morais que foram decisivas na guerra contra os alemães. Vimos os aspectos problemáticos que macularam o projeto da Ordem Nova. No final do ensaio sobre o Fascismo, apontamos as vantagens incontestáveis que a vitória das potências do Eixo teriam no quadro mundial, mas é de condenar num sistema a manutenção de

tendências como as que estamos a comentar. O ideal de uma Ordem Nova

europeia só poderia encarnar através da coordenação orgânica, solidária

e sinergética de Estados e de comunidades cujas particularidades e

independência fossem respeitadas. É isso que pensam os voluntários das diferentes nações que integraram as divisões que combateram na Rússia como um verdadeiro exército europeu: esses homens bateram-se contra

o comunismo, por uma certa Europa, não pelo pangermanismo

expansionista. No entanto, graças a homens que mantiveram posições importantes no regime, a necessária retificação podia ter sido feita a tempo

e no momento oportuno. Para concluir, vejamos o que foi a oposição interna no III Reich. Repetimos: é absurdo pensar que a unidade de que a Alemanha deu prova,

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que o conjunto de iniciativas de que foi capaz e que fez dela uma grande potência mundial depois da derrocada que se seguiu à derrota na I Guerra Mundial e à república de Weimar, não foi mais que o resultado de um regime de terror e opressão. Os êxitos no plano de reconstrução nacional

e na política externa foram uma grande cartada de Hitler, uma vez que

não se podia ser contra o Nacional-Socialismo sem se ser anti-alemão. Relativamente à Alemanha e à Itália, só falsificando deliberadamente é

possível sustentar que as multidões dessa época não seguiam incondicional

e entusiasticamente os seus chefes. E isso, independentemente do recurso

ao populismo e à mitologia, mais que o prestígio da tradição superior,

poder dissolver essa adesão ao ser atingido o ponto de ruptura da tensão

a que as duas nações chegaram, justamente, depois de 1945. Abstração feita aos elementos de Direita que, começando pela Reichswehr, não se identificavam totalmente com o Nacional-Socialismo no plano ideológico e pondo de lado os intelectuais da "revolução

conservadora" retirados da cena, não se descobre qualquer oposição interna que, em nossa opinião, apresente algum interesse no plano das contrapartidas positivas. Os atentados, incluindo o de 20 de Julho de 1944, destinado a eliminar fisicamente Hitler, não podem ser tidos em conta, uma vez que as suas intenções eram essencialmente práticas: dada

a situação militar desesperada, procurava poupar-se à Alemanha um

destino ainda mais sombrio, supondo que sem Hitler e com um novo regime não nazista, seria possível um acordo com os Aliados em melhores bases. Pura ilusão. C) tratamento e as condições de paz impostas à Itália depois da queda de Mussolini e do seu regime, demonstram-no. É de rejeitar em absoluto a tese defendida por alguns — por exemplo, por Hans-Joachim Schoeps, historiador favorável à Prússia — segundo ã qual

o êxito da conjura e o atentado de 20 de Julho teriam marcado o despertar do espírito prussiano. Como se os representantes deste último não figurassem em número igual no campo oposto! Nos meios intelectuais da "resistência" e no círculo de Kreisau havia, além de um Von Moltke, sobrinho do Feldmarschall, imbuído de um espiritualismo pálido que o levou a fazer-se discípulo da Christian Science, muitos representantes marxistas e sindicatos operários, não

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falando do insípido "socialismo cristão". No momento do atentado e em

caso de êxito, não se tinha em vista para o lugar de Chanceler do novo governo Cari Goerdeler, homem com opiniões de Direira e monárquicas, mas Julius Leber, ex-deputado socialista, que se encarregara, com Adolf Reichwein, dos contatos com um grupo comunista clandestino de Berlim

e que o autor do atentado, coronel Von Stauffenberg, via com bons olhos.

Tratava-se, pois, de uma "resistência" mesclada e inconsistente no plano

ideológico. Não tendo unidade nem legitimidade superior, não era com ela que se chegaria a um III Reich no sentido profundo do termo e à eliminação de certos aspectos negativos do sistema nacional-socialista e das suas instituições, como chegou a preconizar-se antes do advento do hitlerismo.

* * *

Vamos concluir estas notas sumárias sobre a Alemanha de ontem. Em razão do próprio caráter do assunto, tivemos de dar mais destaque à parte histórica e documental que no caso do Fascismo. Assim, abstraindo dos juízos que no nosso estudo fizemos sobre este ou aquele aspecto particular, é o leitor quem deverá proceder a uma seleção, já que a nossa intenção — que distingue o presente ensaio de quase todos os estudos sobre o Nacional-Socialismo — consistiu em trazer à luz a multiplicidade

e até a heterogeneidade dos componentes. Se o hitlerismo prejudicou de

certo modo algumas tradições alemãs, é inegável que também retomou essas tradições e que manteve, apesar de tudo, procurando utilizá-los ou

adaptá-los, muitos elementos que não podem nem devem ser ignorados pelo fato de figurarem no III Reich e que, sistematicamente, são deformados. Não falando dos meios estrangeiros de esquerda e anti-fascistas,

a Alemanha do pós-guerra não tem feito outra coisa. Vítima de uma

democrática lavagem ao cérebro organizada inicialmente pelas potências

de ocupação, continuada e aperfeiçoada depois estupidamente por si mesma, a nova Alemanha (a Alemanha federal, já que é inútil falar da

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Alemanha comunista) esqueceu o princípio contido numa expressão da língua alemã segundo o qual "não se despeja a criança com a água do banho". Parece absolutamente incapaz de conceber uma "terceira via", de Direita, tão alheia ao totalitarismo e ao Führer-Staat nacional-socialista como à democracia e ao marxismo, de retomar ideias que atuaram no período precedente, de as retificar adequadamente e reconduzir às origens. Se assim fosse, se não tivesse sido pronunciada a condenação total das experiências anteriores, muito mais acrimoniosa que a pronunciada na Itália contra o Fascismo, se houvesse lugar a uma revisão geral de toda a história nacional (a fórmula é a Bewãltigung der Vergangenheit), a Alemanha atual, a parte o milagre da reconstrução e a nova prosperidade material e económica, não apareceria como um vazio no plano da ideologia e da visão do mundo, sobretudo no que respeita às gerações jovens, pelo contrário, continuaria a ser um dos elementos mais valiosos para um eventual bloco europeu.

NOTAS:

1 Vlassov, batizado pelo próprio Stalin com o nome de "salvador de Moscou", é feito prisioneiro em Julho de 1942 na frente de Leninegrado quando comandava o 2° exército soviético de assalto. Só depois muda de campo e corta laços com o passado. Apesar da desconfiança de Hitler, virá a comandar a 14° divisão das Waffen-SS à frente de 13.000 homens. Em Maio de 1945, o Exército Vermelho entra em Praga. A única divisão do exército russo de libertação em estado de se bater, acaba a travar combates contra as SS. A velha desconfiança de Hitler e de Himmler vêm-se bruscamente justificadas nas últimas horas da guerra com a traição de Vlassov (N.T.)