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SOFTWARE LIVRE, EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO DE PROFESSORES

João Batista Carvalho Nunes (Coordenador)


Universidade Estadual do Ceará

Resumo
O computador e, mais recentemente, a internet incorporaram-se de modo
permanente ao cotidiano da sociedade. Embora se esteja muito aquém de se
implantar laboratórios de Informática com acesso à internet em todas as
escolas públicas, há investimento crescente por parte dos Governos Federal,
Estaduais e Municipais. Reconhece-se que não se pode subtrair dos alunos
sua inclusão na era digital. Por outro lado, o Brasil tem se tornado referência
internacional na adoção de software livre por parte de distintas administrações
públicas e empresas privadas. Inclusive, vários sistemas educacionais estão
migrando seus computadores para a plataforma livre. Este painel procura
apresentar um conjunto de pesquisas que trazem em comum o olhar sobre o
software livre na educação. Foram investigações produzidas dentro do
Laboratório de Tecnologia Educacional e Software Livre (LATES) da
Universidade Estadual do Ceará (UECE), a partir da contribuição de
pesquisadores de diferentes instituições. O primeiro trabalho apresenta parte
de pesquisa cujo objetivo geral consistiu em analisar a formação e a prática,
em software livre, de professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental da
rede municipal de ensino de Fortaleza. No segundo, os autores trazem parte de
pesquisa que teve como um de seus objetivos analisar como está sendo
realizada a formação dos professores dos laboratórios de Informática Educativa
das escolas públicas municipais de Fortaleza para a utilização pedagógica do
software livre. No último texto, são apresentadas as etapas do desenvolvimento
de um software educativo livre para os anos iniciais do Ensino Fundamental,
denominado Letra Livre, e o resultado de sua avaliação. Esses estudos
utilizaram distintos métodos de pesquisa, instrumentos de coleta e estratégias
de análise de dados. Depreende-se que ainda há muito a se investigar no
campo do software livre na educação, a fim de se ampliar os softwares
existentes, melhorar a formação de professores e elevar a aprendizagem
discente.
Palavras-chave: Software Livre, Software Educativo Livre, Tecnologia
Educacional, Formação de Professores.

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FORMAÇÃO E PRÁTICA DOCENTE EM SOFTWARE LIVRE

Maria Auricélia da Silva – Prefeitura Municipal de Fortaleza


João Batista Carvalho Nunes – Universidade Estadual do Ceará
Karla Angélica Silva do Nascimento – Faculdade Grande Fortaleza

Resumo
As tecnologias, presentes em todos os tempos e construídas socialmente pela
humanidade são patrimônio coletivo e, portanto, devem estar a serviço da
sociedade. Nesse contexto, insere-se o movimento do software livre, visto que
sua utilização representa a possibilidade de inclusão digital de professores e
alunos, sobretudo das instituições públicas de educação. Este texto apresenta
parte de pesquisa cujo objetivo geral consistiu em analisar a formação e a
prática, em software livre, de professores dos anos iniciais do Ensino
Fundamental da rede municipal de ensino de Fortaleza. Deste resultaram os
objetivos específicos: conhecer a formação dos professores para a utilização
de softwares livres e analisar a prática dos docentes quanto ao uso desses
softwares. Os procedimentos metodológicos evidenciam a opção pelo
paradigma interpretativo, a fim de compreender a formação e a prática docente
no contexto em que elas ocorrem. Foi utilizado o método de estudo de casos
múltiplos, tendo como principais instrumentos de coleta de dados a entrevista
semiestruturada e a observação não-participante. Os resultados indicam que a
utilização do software livre nas escolas municipais de Fortaleza não explora
plenamente as possibilidades de trabalho pedagógico, tanto no que se refere
ao uso de softwares livres nas diversas áreas do conhecimento quanto no
tocante à diversificação das metodologias. Há, portanto, necessidade de
políticas de formação de professores para o uso do software livre que atendam
aos anseios e às necessidades formativas dos docentes, desde que
respeitadas suas limitações de tempo. Tais medidas podem promover a
inclusão digital de docentes e discentes, além de favorecer os processos de
ensino-aprendizagem.
Palavras-chave: Software Educativo Livre, Formação de Professores, Prática
Docente.

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Introdução

A inserção do computador nas atividades de ensino tem ocorrido


mediante a compreensão de que constitui ferramenta auxiliar, recurso
pedagógico rico de possibilidades e, em consequência, deve ser utilizado com
critério e compreensão de sua aplicabilidade. Como afirma Kenski (2003, p.
72), “a opção pelo ensino com o computador [...] exige alterações significativas
em toda a lógica que orienta o ensino e a ação docente em qualquer nível de
escolaridade”. A escola, como instituição social responsável pela formação
educacional, pode utilizar os recursos tecnológicos em prol da construção de
conhecimentos, mediante a utilização de novos recursos para inovadoras
práticas pedagógicas. As tecnologias auxiliam a operacionalização dos
processos pedagógicos como recurso, mas as posturas pessoais e
profissionais dos docentes são fundamentais para o gerenciamento do fazer
cotidiano, visto que interferem na forma de lidar com os alunos, com os
recursos, com as relações que se estabelecem entre professor-aluno, aluno-
aluno, aluno-tecnologias. Moran (2004, p. 27) chama a atenção para o fato de
que “as tecnologias nos ajudam a realizar o que desejamos. Se somos pessoas
abertas, elas nos ajudam a ampliar a nossa comunicação; se somos fechados,
ajudam a controlar mais. Se temos propostas inovadoras, facilitam a mudança”.
A compreensão das relações entre ensino-aprendizagem e tecnologias é
fundamental nos dias atuais, pois as crianças e adolescentes deste século
nasceram na era da informação e têm, portanto, mais facilidade do que o
professor no uso da máquina. Como assinala Sancho (2006, p.19), “os
cenários de socialização das crianças e jovens de hoje são muito diferentes
dos vividos pelos pais e professores. O computador [...] atrai de forma especial
a atenção dos mais jovens, que desenvolvem uma grande habilidade para
captar suas mensagens”. O trabalho com o computador e, especificamente,
com o software educativo na escola depende, essencialmente, do trabalho de
seus professores, pois a simples inserção da melhor tecnologia em sala de
aula não garante a qualidade da educação.
Compreende-se que, no contexto escolar, as tecnologias só viabilizam o
novo, se outras leituras de mundo forem feitas a serviço de novos ideais de
ensino; se o uso dos computadores não for tomado para burilar técnicas
tradicionais, a fim de tornar o ensino mais dinâmico. Kenski (2003, p. 93)
afirma, ainda, que “o ponto fundamental da nova lógica de ensinar [...] é a
redefinição do papel do professor”. Em razão dessa constatação, é necessário
que o professor esteja aberto ao novo e faça escolhas sobre o quê e como
utilizar os recursos disponíveis, a fim de que o binômio ensino-aprendizagem
seja efetivado.
Dada a importância da formação do professor, quer inicial ou continuada,
para o bom desempenho de suas atividades pedagógicas, faz-se importante
observar que tal formação deve incluir o uso dos recursos tecnológicos. A
utilização do computador e de softwares educativos envolve aspectos como
abordagem pedagógica, manuseio do computador e do software, além das
questões pertinentes à docência para o uso dos demais recursos didáticos. A
respeito desse processo de atualização docente, Libâneo (2001, p. 39),
enfatiza que o professor dos dias atuais deve “reconhecer o impacto das novas
tecnologias da comunicação e informação na sala de aula” como uma das
“novas atitudes docentes” (LIBÂNEO, 2001, p. 36) e, a partir desse

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reconhecimento, adaptar sua didática às novas realidades presentes nos
contextos social e escolar.
No volume introdutório dos Parâmetros Curriculares Nacionais dos anos
iniciais do Ensino Fundamental, é estabelecida uma relação entre o
desempenho dos alunos nas provas de larga escala e a formação docente,
com a indicação que esses resultados acenam para a necessidade de oferta de
formação de professores (BRASIL, 2001). Em relação ao uso de recursos
tecnológicos, é reconhecida a necessidade da inserção do computador nas
atividades pedagógicas quando se discute a seleção de material para o
trabalho escolar. O referido documento enaltece a importância “do uso de
computadores pelos alunos como instrumento de aprendizagem escolar, para
que possam estar atualizados em relação às novas tecnologias da informação
e se instrumentalizarem para as demandas sociais presentes e futuras”
(BRASIL, 2001, p. 104). Observa-se a indicação tácita sobre o uso do
computador pelos professores, uma vez que é recomendada sua utilização
pelos alunos. Se, na referência anterior, há uma estreita relação entre o
desempenho dos alunos e a formação docente, depreende-se que esta
abrange o uso dos recursos tecnológicos.
Em se tratando do acesso às tecnologias, é conveniente a opção pelo
uso do software livre em razão da proposta filosófico-ideológica que o
fundamenta. Como bem salienta Silveira (2003, p. 41), “as duas vantagens
mais destacadas no uso do software livre para o desenvolvimento econômico e
social local são o código aberto e a inexistência do pagamento de royalties pelo
seu uso”. Além do aspecto econômico-financeiro, há que se considerar os
quatro tipos de liberdade dos quais usufruem os usuários do software livre,
quais sejam: liberdade de executar o programa para qualquer propósito;
liberdade de estudar como o programa funciona e adaptá-lo às suas
necessidades através do acesso ao código fonte; liberdade de redistribuir
cópias e contribuir para que outras pessoas tenham acesso aos recursos
tecnológicos; liberdade de aperfeiçoar o programa e socializar as melhorias, de
modo a beneficiar a comunidade. Tais aspectos são imprescindíveis à
educação pública, visto que o acesso a softwares educativos livres pode ser
otimizado e contar com a possibilidade de, após análise, serem realizadas
mudanças capazes de atender às necessidades e possibilidades do grupo
(professores e alunos), além de colocar os professores na posição de
coautores.
Sobre a adoção do software livre nas instituições públicas, Souza (2008)
informa que as vantagens da utilização do software livre são diversas, dada a
proibição do uso de softwares comerciais não licenciados. Todavia, Teixeira et
al (2006, p. 3) reiteram que “mais do que uma alternativa técnica e
economicamente viável, o software livre representa uma opção pela criação,
pela colaboração e pela independência tecnológica e cultural […]”. Assim,
órgãos públicos, empresas e organizações não-governamentais têm aderido à
plataforma livre.
Nesse contexto, insere-se a Prefeitura Municipal de Fortaleza – PMF, a
qual adotou o software livre em meados do ano 2005, implementando-o nas
escolas públicas municipais, em seus Laboratórios de Informática Educativa –
LIEs. Conforme estudos de Souza (2008), essa implementação tinha em mira
dirimir os problemas relativos à exclusão digital e à insuficiente formação dos
professores para o uso pedagógico do computador. O espaço destinado à

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formação continuada dos professores foi o Centro de Referência do Professor
– CRP, por meio do Núcleo de Tecnologia Educacional.
O Centro de Referência do Professor oferece cursos gratuitos na área
de Informática Educativa a professores da rede pública municipal de ensino de
Fortaleza, além de cursos diversos para os demais servidores. A partir de 2005,
vem acompanhando a transição do software proprietário para o software livre e
oferecendo cursos para subsidiar professores e funcionários na adaptação à
plataforma livre. A oferta de cursos é trimestral, divulgada no site da Secretaria
Municipal de Educação de Fortaleza e acessível a todos os servidores
municipais. A adesão é feita de forma espontânea, bastando uma comunicação
telefônica com informação sobre dados relativos à matrícula do servidor do
Município, desde que respeitada a oferta de vagas. Em alguns casos, os
cursos são oferecidos para um público definido, em caráter obrigatório, como,
por exemplo, professores de LIE, secretários escolares e agentes
administrativos, por se tratar de cursos necessários a determinado grupo de
servidores para o desempenho de suas funções.
A adesão espontânea representa, de um lado, a atenção aos interesses
de formação dos professores individualmente, permitindo que cada um defina
sua trajetória formativa conforme sua necessidade. Por outro lado, o sistema
municipal de ensino adotou o software livre como plataforma para os LIEs das
escolas públicas, eliminando de vários laboratórios os softwares proprietários
existentes. Isso exigiria, no mínimo, o desenho de ações formativas
direcionadas a sustentar essa implantação/migração não apenas para públicos
específicos na escola (professores responsáveis pelos laboratórios, agentes
administrativos etc.), mas abranger o coletivo de docentes da rede de ensino.
Estes deveriam saber o porquê da adoção da plataforma livre e como ela pode
ser útil à sua prática profissional. Como afirma Nóvoa (1995, p. 9), “não há
ensino de qualidade, nem reforma educativa, nem inovação pedagógica, sem
uma adequada formação de professores”.
Com base nas questões discutidas acima, surgiu a configuração desta
pesquisa, que procura responder o seguinte problema: como estão a formação
e prática, em softwares educativos livres, dos professores dos anos iniciais do
Ensino Fundamental da rede municipal de ensino de Fortaleza? A partir dessa
indagação, foi estabelecido como objetivo geral conhecer a formação e a
prática, em software livre, de professores dos anos iniciais do Ensino
Fundamental da rede pública municipal de ensino de Fortaleza. Do objetivo
geral resultaram os objetivos específicos, quais sejam conhecer a formação
dos professores para a utilização desses softwares e analisar a prática docente
quanto ao uso de softwares livres. Neste texto, apresentamos parte dessa
investigação.

Caminho Metodológico

O paradigma interpretativo, também denominado naturalista ou


construtivista, foi adotado como esteio para nossa pesquisa. Guba e Lincoln
(1994) salientam que o termo paradigma pode ser compreendido como um
conjunto básico de crenças que determinam os princípios fundamentais com os
quais se pretende trabalhar. Representa a visão de mundo que define, para o
pesquisador, a natureza e a extensão das possíveis relações entre o individual
e o coletivo, o todo e as partes. Assim, a partir do emprego do paradigma

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interpretativo, buscou-se compreender a formação e a prática docente para o
uso de softwares livres.
Adotou-se como método de pesquisa o estudo de casos múltiplos. O
estudo de caso é um tipo de pesquisa qualitativa que se destina a estudar um
caso particular ou diversos casos (estudo de casos múltiplos) que constituem
acontecimentos contemporâneos, com o intuito de analisar profundamente uma
experiência, avaliando a natureza do fenômeno observado e o suporte teórico
que o fundamenta. As características do estudo de caso são determinadas por
duas circunstâncias, a saber: a) natureza e abrangência da unidade; b)
suportes teóricos que orientam o trabalho do pesquisador (TRIVIÑOS, 1987).
Tais aspectos são de fundamental importância para a constituição de um
estudo, posto que a profundidade e o mergulho no caso que se está
investigando tendem a aumentar seu grau de complexidade, o qual requer a
inter-relação entre a teoria e o fenômeno analisado.
Os critérios estabelecidos para a seleção dos sujeitos foram os
seguintes: ser professor(a) da rede pública municipal de Fortaleza; estar
lotado(a) em salas de aula dos anos iniciais do Ensino Fundamental; ter
realizado cursos de formação em softwares educacionais ou educativos livres
no Centro de Referência do Professor – CRP. A primeira etapa da coleta de
dados ocorreu no CRP, com vistas a relacionar os professores aos cursos que
haviam realizado no referido Centro no período de 2005, quando a Prefeitura
de Fortaleza migrou para o software livre, até junho de 2008, recorte da
pesquisa. A segunda foi realizada na Secretaria Municipal de Educação de
Fortaleza – SME, objetivando conhecer a lotação dos professores para,
posteriormente, poder encontrá-los nas escolas em que estão lotados. Os
dados quantitativos coletados no CRP e na SME foram sistematizados em
planilha eletrônica do OpenOffice.org/BrOffice.org Calc, permitindo sua análise
estatística e o desenho de gráficos. Os cálculos proporcionais levaram à
Secretaria Executiva Regional I, que abrigava o maior percentual de
professores formados em software livre no Centro de Referência do Professor,
isto é, 3,47% do total de professores lotados. Para atender ao recorte desta
pesquisa, ou seja, professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental, foram
encontradas nove professoras que lecionavam do 1º ao 5º ano, sendo que uma
delas estava ausente da sala de aula, motivo pelo qual não participou do grupo
de sujeitos. Consequentemente, o trabalho foi realizado com oito professoras.
Para a coleta de dados nas escolas, foram utilizadas a entrevista
semiestruturada e a observação, com vistas à obtenção de informações
quantitativas e qualitativas. Os dados quantitativos foram organizados na
planilha eletrônica do OpenOffice.org/BrOffice.org Calc. Para a análise dos
dados qualitativos coletados nas questões abertas da entrevista foi utilizado o
programa NUD*IST, versão 4 - Non-numerical Unstructered Data* Indexing,
Search, Theorizing – que é um programa adequado à análise qualitativa de
dados, permite criar categorias e relatórios para facilitar a análise e a
triangulação de dados. Esse programa também permitiu a triangulação dos
dados e a percepção de relações entre as diversas informações coletadas
durante a observação da prática docente no LIE, mediante o acompanhamento
e os registros feitos no roteiro de observação, além de anotações feitas no
diário de campo por ocasião das visitas às escolas.

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Resultados

Inicialmente, houve a preocupação de conhecer a formação inicial das


professoras participantes desta pesquisa e saber se tal formação contemplava
o uso do computador como recurso pedagógico. Todas elas responderam que
não estudaram o uso pedagógico do computador, quer no curso Normal ou na
graduação em Pedagogia. Duas professoras tiveram a referida formação em
cursos de Especialização em Informática Educativa.
Quanto à participação em eventos na área de Informática Educativa, 3
(três) professoras responderam que nunca participaram de nenhum evento
nessa área, 4 (quatro) participaram de, no máximo, 5 (cinco) eventos e
somente 1 (uma) participou de mais de 5 (cinco) eventos. A Professora P2 foi
quem participou de mais eventos porque trabalhou em outra instituição (que
não da rede pública municipal de ensino de Fortaleza), a qual oferecia
seminários e congressos sobre o assunto.
Sobre as necessidades e expectativas em relação à formação
continuada para o uso do computador como ferramenta pedagógica, observou-
se que as professoras desejam saber mais, entretanto citaram as limitações de
tempo e a quantidade de tarefas a realizar, em razão dos afazeres profissionais
e pessoais.
Em termos de quantidade de cursos em software livre para professores,
a oferta foi a seguinte: em 2005, ofertados 3 (três) cursos; em 2006, esse
número mais que triplicou, tendo sido ofertados 10 (dez) cursos; em 2007,
houve uma queda em relação ao ano anterior, sendo que 7 (sete) cursos foram
oferecidos; em 2008, de janeiro a junho, foram ministrados somente 2 (dois)
cursos. Convém observar que houve número diferente de turmas em cada
curso.
O número de professores atendidos variou conforme a oferta de cursos
em software livre, como segue: em 2005, foram formados 129 professores; em
2006, esse número aumentou para 274; no ano de 2007, a formação atingiu
152 docentes; de janeiro a junho de 2008, foram 29 professores formados.
Pode-se verificar que, em 2006, foi registrada a maior oferta e a consequente
procura por cursos, o que pode estar atrelado a uma necessidade de formação
em virtude das novas exigências da prática docente, visto que o município de
Fortaleza avançava no uso do software livre.
Quanto à natureza dos cursos ministrados, pode-se afirmar que: 45%
foram sobre programas de apresentação, arte e tratamento de imagem,
explorando softwares como Gimp e os do pacote de escritório
OpenOffice.org/BrOffice.org (Writer, Draw e Impress); 27,3% versaram sobre
confecção de atividades e material didático com utilização da planilha
OpenOffice.org/BrOffice.org Calc; 13,6% trataram do sistema operacional, da
distribuição Kurumin e Linux Educacional; 9,1% voltaram-se para o ensino de
Matemática, mais especificamente Geometria, fazendo uso do software livre
Geogebra; 4,5% exploraram jogos educativos no Linux.
Convém destacar que, dessa oferta, o curso ofertado nos quatro anos,
de 2005 a junho de 2008, foi “Confecção de atividades e material pedagógico
na planilha Calc”, seguido por “Arte no OpenOffice”, este oferecido de 2005 a
2007. Os demais foram oferecidos em um ou em dois anos desse período.
A formação oferecida esteve voltada prioritariamente ao uso do pacote

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de escritório OpenOffice.org/BrOffice.org e do sistema operacional Linux. Não
foi registrada a oferta de cursos sobre softwares educativos livres nas diversas
áreas do conhecimento, exceto o Geogebra na área da Matemática.
A observação da prática docente no Laboratório de Informática
Educativa - LIE foi realizada após a entrevista, em data marcada pelas
professoras, conforme o planejamento de cada escola. O conteúdo das aulas
variou entre as áreas de Matemática, Ciências e Arte. Conforme exposto no
tópico anterior, as professoras disseram, durante as entrevistas, que usavam
mais o LIE em Português e Matemática; em segundo lugar, apareceu Ciências.
A Professora P3 informou que o utilizava, geralmente, em aulas de Português.
Na aula observada, ela trabalhou conteúdos de Matemática. No caso da
Professora P8, houve coerência entre o que afirmou na entrevista e o que
realizou no LIE, pois informou que priorizava as aulas de Ciências em razão do
caráter experimental, e sua aula versou sobre conteúdo de Ciências.
Os softwares livres utilizados nas aulas foram, basicamente, Impress e
Tux Paint, sendo que o Impress não favoreceu o trabalho discente, mas apoiou
a exposição dialogada, no caso da Professora P4. O Tux Paint foi utilizado
pelos alunos para a criação e confecção de cartões natalinos, sendo que o
Impress também foi utilizado para exposição dos trabalhos desses alunos. Nas
demais aulas, foram utilizados sites, o que demonstra que o software educativo
livre foi muito pouco usado nas aulas, à exceção do Tux Paint. No caso do
software educacional livre empregado, o Impress, não houve trabalho discente,
mas apenas apoio ao trabalho docente, contrariando as orientações de Oliveira
et al (2001), sobre o uso pedagógico do software educacional.
A liderança das aulas foi exercida pelos professores de LIE, exceto na
aula da Professora P4, que é professora regente de sala no turno vespertino e
professora de LIE no turno matutino. De modo geral, as professoras regentes
não conduziram as aulas, mas auxiliaram os professores de LIE na condução
das aulas, procedimento que não está previsto nas Diretrizes para a Educação
Básica da Rede Pública Municipal e Lotação de Professores (FORTALEZA,
2006). Tais Diretrizes expressam as atribuições do professor de LIE e,
especificamente quanto às aulas, determinam que esse professor deve
planejar juntamente com o professor regente as atividades pedagógicas a
serem desenvolvidas no LIE e assessorá-lo em suas aulas realizadas nesse
ambiente.
A ação das professoras foi de acompanhamento aos alunos durante as
atividades, incentivando-os ao acerto, elogiando-os, instigando-os a buscar
soluções. Foram observadas duas posturas docentes: incentivo ao acerto, à
rapidez na resolução das situações propostas com foco na contagem de pontos
e no resultado, como as Professoras P4 e P8, evidenciando a perspectiva
instrucionista; incentivo à reflexão, à retomada da atividade e à busca de
soluções, observados na prática das Professoras P1, P3 e P7, o que
demonstra a postura do professor construcionista.
Tais observações evidenciam que há um longo caminho a percorrer, a
fim de que haja maiores aproximações entre a formação e a prática docente
para o uso do computador como recurso pedagógico.

Conclusões

O número de professores que realizaram cursos em SL no CRP é ínfimo,

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se comparado ao total de professores da rede municipal de ensino de
Fortaleza. A alegativa dada pelas professoras para a não realização de cursos
é a falta de tempo, visto que sua carga horária é, geralmente, de 240 horas,
portanto dois turnos, podendo chegar a 360 horas, isto é, três turnos de
trabalho. Assim, não sobra tempo nem disposição para a formação continuada.
Os cursos realizados pelas professoras no referido Centro não tratam de
conteúdos específicos para as diversas áreas de ensino. Em uma das escolas
visitadas, foi constatada a utilização do sistema operacional proprietário, em
contradição com a política municipal de adoção do software livre.
O software livre foi utilizado na prática pedagógica em duas situações:
Impress (software educacional) para a exposição dialogada de uma professora
e Tux Paint (software educativo), usado pelos alunos para confecção de
cartões natalinos. De fato, não foram utilizados softwares livres para o trabalho
com o conteúdo das diversas áreas de estudo, lacuna também percebida na
oferta de cursos pelo CRP. Pode-se afirmar, com base nas entrevistas
realizadas e nas aulas observadas, que sites educativos foram mais usados
que softwares livres.
Observou-se, também, que as aulas no LIE foram ministradas,
prioritariamente, pelo(a) professor(a) do laboratório, mesmo na presença das
professoras acompanhadas nesta pesquisa, ficando as referidas docentes
como auxiliares e coadjuvantes no processo, contrariando a orientação da SME
quanto aos procedimentos relativos ao uso do LIE.
A partir dessas contribuições, novas pesquisas podem ser realizadas no
sentido de acompanhar a implementação de políticas de formação docente
mais abrangentes, capazes de atender ao contingente de educadores da rede
municipal de ensino quanto ao uso do computador e do software livre em todas
as áreas de estudo. Também será possível analisar se a formação docente,
nessa perspectiva de política pública de educação e de ampliação da oferta de
cursos, interfere no desempenho de professores e, por conseguinte, nos
resultados obtidos pelos alunos.

Referências

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POLÍTICAS DE FORMAÇÃO DOS PROFESSORES DOS LABORATÓRIOS
DE INFORMÁTICA EDUCATIVA DAS ESCOLAS PÚBLICAS MUNICIPAIS DE
FORTALEZA PARA A UTILIZAÇÃO PEDAGÓGICA DO SOFTWARE LIVRE.

Gláucia Mirian de Oliveira Souza – Prefeitura Municipal de Maracanaú


João Batista Carvalho Nunes – Universidade Estadual do Ceará
Raimunda Olímpia de Aguiar Gomes – Instituto Federal do Ceará
Renata Rosa Russo Pinheiro Costa Ribeiro – Universidade Estadual do Ceará

Resumo
Políticas públicas de migração para o software livre têm sido desenvolvidas no
Brasil e no mundo. Percebemos a existência de iniciativas de formação de
professores para a utilização de equipamentos tecnológicos; porém, é mister
que haja uma redefinição nesses modelos de formação, para que acompanhem
o novo modelo de software que está sendo implementado. O Município de
Fortaleza adotou, em 2005, o software livre para a rede pública de ensino.
Neste trabalho, apresentamos parte de pesquisa que teve como um de seus
objetivos analisar como está sendo realizada a formação dos professores dos
laboratórios de Informática Educativa das escolas públicas municipais de
Fortaleza para a utilização pedagógica do software livre. Como aporte
metodológico, optou-se pelo modelo misto de pesquisa (mixed model
research), empregando procedimentos qualitativos, mediante a análise
documental dos textos estruturadores da política de adoção do software livre
nas escolas públicas municipais de Fortaleza; e quantitativos, por meio da
realização de survey interseccional com amostra de 119 professores. Foi
empregado como instrumento de coleta um questionário com questões abertas
e fechadas. Na análise dos dados, fez-se uso dos softwares NUD*IST e da
planilha eletrônica Calc. Os resultados evidenciam que a formação continuada
para utilização do software livre privilegiou aspectos básicos do uso da
tecnologia/computador, prioritariamente o sistema operacional Linux e o pacote
de escritório OpenOffice.org/BrOffice.org. Não há formação voltada para o uso
pedagógico de softwares educativos livres. Essa situação nos faz refletir acerca
do próprio conceito de Informática Educativa subjacente aos cursos oferecidos.
É necessário que prevaleça a dimensão pedagógica sobre a técnica,
envolvendo o professor, para que ele possa utilizar na sua área esses
recursos, associando-os ao projeto pedagógico da escola.
Palavras-chave: Formação de Professores, Política Educacional, Informática
Educativa, Software Livre.

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Introdução

A formação de professores é um tema discutido desde os anos 1980 e,


de modo mais veemente, dos anos 1990 em diante. Desde então, foi crescente
o número de estudos e pesquisas relacionados a essa temática. As
concepções em torno dessa questão, contudo, não se organizam como área
independente de conhecimento; mas, do contrário, dependem do conceito que
determinada sociedade em seu tempo adota de escola, ensino, aprendizagem,
currículo, papel do professor etc (LEITE, 2000).
O conceito tradicional predominante sobre prática e formação docente,
durante décadas, pressupunha a “racionalidade técnica”. Essa expressão foi
cunhada por Schön (2005) e apresenta como característica a aplicação da
ciência à prática docente: estabelecem-se relações hierárquicas entre quem
pensa (formula teorias) e quem faz (põe em prática as teorias), vinculando-se a
uma concepção centralizadora da gestão escolar (LEITE, 2000). Várias foram
as críticas a esse modelo de formação, sobretudo pela complexidade da
realidade social e educacional, que não se permitem submeter ou reduzir a
aspectos instrumentais (GOMEZ, 1992).
Esse modelo tradicional de formação docente vem dando espaço a
novos princípios norteadores na educação. Não é intuito deste trabalho refletir
sobre esses princípios, mas elucidar o conceito que adotamos sobre formação
continuada, para, logo depois, falarmos sobre a formação continuada para o
uso das tecnologias, em geral, e do software livre, em específico. Para tanto,
intuímos a idéia de que a revolução tecnológica representa um “esforço
transformador do homem sobre a natureza, mudando o mundo, nossa relação
com ele, nossa forma de pensar e agir, e, nossas interações com os outros”
(FREITAS, 2001, p. 10).
A subjetividade do ser humano está marcada atualmente pelas
interações do ciberespaço e da cibercultura (LEVY, 1999). Interações que têm
provocado mudanças e incertezas no espaço social e educacional. Imbernón
(2002) afirma que esse contexto de mudanças se evidencia tanto na instituição
educativa como na docência, bem como na formação, que assume novos
papéis. A formação, por exemplo, deve ir além do “ensino que pretende uma
mera atualização científica, pedagógica e didática” e se transformar na
“possibilidade de criar espaços de participação, reflexão e formação para que
as pessoas aprendam e se adaptem para poder conviver com a mudança e a
incerteza” (IMBÉRNON, 2002, p. 18).
A formação continuada, como política pública, a gestão democrática e a
cultura globalizada estão imbricadas (FERREIRA, 2003). Por isso se faz tão
importante perceber a formação continuada como responsabilidade não só do
professor; mas também dos governos, com vistas não somente a planejar,
como também a operacionalizar medidas que possibilite ao professor
decididamente se postar nessa cultura global.
Para atender as mudanças impressas pelas novas exigências à
formação de professores, esta deve ser compreendida como um moto-
contínuo. É pela formação continuada do professor que o conhecimento das
tecnologias vai se adequando à prática pedagógica: ao refletir, analisar,
comparar possibilidades, atender as necessidades e os interesses de
professores e alunos (NASCIMENTO, 2007).

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Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, Belo Horizonte, 2010 12
Uma alternativa para o uso da tecnologia advém do SOFTWARE LIVRE,
por nos permitir ser sujeitos no fenômeno de criação. Ensina Paulo Freire
(2002, p. 77) que, “é nessa relação dialética que educadores e educandos se
fazem sujeitos do seu processo, devendo encontrar as práticas pedagógicas
desejáveis para uma escola transformadora”. Não se trata apenas de detalhes
técnicos, em vantagens econômicas, mas principalmente em uma atitude
comprometida com a responsabilidade social de inclusão digital, uma prática
pedagógica fundamentada em um discurso epistemológico que legitima o
direito humano.
A adoção do software livre é fato consumado. Políticas públicas de
migração para o software livre têm sido desenvolvidas no Brasil e no mundo.
Percebemos a existência de iniciativas de formação de professores para a
utilização de equipamentos tecnológicos; porém, é mister que haja uma
redefinição nesses modelos de formação, para que acompanhem o novo
modelo de software que está sendo implementado.
Ao adotar o software livre, o Governo Federal, o Ministério de Educação
e a Secretaria de Educação a Distância estão redimensionando as
possibilidades de acesso às tecnologias de informação e comunicação (TICs),
sobretudo o computador e a internet, para aqueles que se encontram excluídos
da era digital.
Os desafios da inclusão digital, principalmente nas escolas públicas, não
se restringem à falta de acesso e de formação para os professores,
compreendem também a falta infraestrutura física (computadores, impressora,
bancadas, rede elétrica, conexão à internet etc.), e softwares (sistema
operacional e aplicativos básicos e educativos) instalados nas máquinas que
possam contribuir para o processo de ensino e aprendizagem.
A proposta do software livre coincide com princípios e objetivos da
inclusão digital: prover a liberdade de acesso à sociedade informacional,
disponibilizar conteúdo e contribuir para a formação de uma sociedade em
rede. Essa proposta se caracteriza na verdade como possibilidade de levar
máquinas e softwares para as escolas e lares que antes não tinham condições
estruturais e financeiras para obtê-los. A assunção de padrões abertos
aumenta a probabilidade de uma formação de professores para o uso das
tecnologias, visto que permite que estas cheguem às escolas. Garante, ou pelo
menos deveria assegurar, que o dinheiro economizado com a compra de
softwares possa ser utilizado na expansão dos laboratórios de Informática e na
formação docente; pois, embora software livre não signifique software gratuito;
ele pode ser obtido gratuitamente.
Essa vantagem deve sempre ser posta em segundo lugar, pois o lado
mais pertinente da moeda do software livre como política de inclusão, além da
redução de custos e suas conseqüências, é o fato de ele propiciar a condição
de instigar o conhecimento do indivíduo com base na necessidade de “pensar”
e não somente “teclar”. Traz um senso de comunidade, pois o que é produzido
isolado ou em grupo deve ser distribuído a toda a comunidade, para que ela
possa aproveitar o conhecimento adquirido (MICHELAZZO, 2003).
É nesse sentido que articulamos a filosofia do software livre à formação
do professor para o uso das tecnologias, visto que se configura como uma
política de inclusão digital contra-hegemônica (SILVEIRA, 2003), originando-se
na tentativa de conferir uma dimensão ética à utilização das tecnologias,
sobretudo os computadores e seus programas.

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Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, Belo Horizonte, 2010 13
Neste texto, apresentamos parte de pesquisa que teve como um de seus
objetivos analisar como está sendo realizada a formação dos professores dos
LIEs das escolas públicas municipais de Fortaleza para a utilização pedagógica
do software livre.

Metodologia

Adotamos um modelo misto de pesquisa (mixed model research),


porquanto procuramos integrar procedimentos quantitativos e qualitativos
dentro e ao longo dos momentos da investigação (JOHNSON; CHISTENSEN,
2003 apud NUNES 2005).

Segundo JOHNSON e CHRISTENSEN (2003), há dois tipos de


modelos mistos de pesquisa: dentro dos estádios da pesquisa
(within-stage), mediante a combinação de abordagens quantitativas e
qualitativas dentro de um ou mais estádios da investigação (por
exemplo, quando se usa um questionário com perguntas abertas e
fechadas); ou ao longo dos estádios da pesquisa (across-stage),
quando abordagens quantitativas e qualitativas são misturadas ao
longo de, no mínimo, dois estádios da investigação (por exemplo, ao
se usar objetivos de natureza qualitativa e procedimentos de coleta
de dados quantitativos) (p. 08).

Os procedimentos qualitativos foram empregados na pesquisa


documental e análise de conteúdo dos documentos estruturadores da política
de adoção do software livre nas escolas públicas municipais de Fortaleza e das
perguntas abertas do questionário que foi aplicado com os professores.
A pesquisa documental, segundo Gil (1991) é a análise de indicativos
que ainda não receberam tratamento analítico, ou que ainda podem ser
reelaborados de acordo com os objetivos da pesquisa. Nesse intuito, coletamos
documentos na Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza (SME –
anteriormente denominava-se Secretaria de Educação e Assistência Social -
SEDAS), cujos registros continham intenções e ações para a implementação
da política de adoção do software livre nas escolas. Os documentos foram
aparecendo na medida em que fomos imergindo na pesquisa de campo, e são
analisados concomitantemente aos dados coletados com os professores.
Os procedimentos quantitativos foram obtidos em survey interseccional
com professores. O survey é uma ferramenta de pesquisa, empregada por
pesquisadores sociais, que examina uma amostra da população, permitindo a
verificação empírica de determinado fenômeno (BABBIE, 1999). Optamos pelo
survey interseccional, que nos permitiu selecionar uma amostra em momento
específico e descrever relações entre as variáveis estudadas (BABBIE, 1999).
Nossa amostragem é do tipo probabilística, pois nossa intenção foi
estudar a amostra para fazer estimativas estatísticas sobre a natureza da
população total. Babbie (1999, p. 120) ressalta que “um princípio básico da
amostragem probabilística é: uma amostra será representativa da população
da qual foi selecionada se todos os membros da população tiverem
oportunidade igual de serem selecionados para a amostra”.
A população pesquisada no nosso estudo é constituída pela agregação
dos professores que trabalham nos laboratórios de Informática Educativa (LIEs)
das escolas públicas municipais de Fortaleza. Os elementos são os
professores dos laboratórios. A estratificação da amostra levou em conta a

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Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, Belo Horizonte, 2010 14
localização dos professores pelas Secretarias Executivas Regionais e o sexo
dos professores. Para calcular nossa amostra, baseamo-nos na listagem total
do professores que atuavam nos LIEs, o que compôs a moldura de nossa
amostragem. Depois, organizamos por localização geográfica dos laboratórios
e por sexo dos professores, para se garantir que a amostra selecionada tivesse
representatividade por gênero e região.
Para efeito do cálculo da amostra, consideramos a população de
professores credenciados até 11 de setembro de 2007 (172 professores: 140
mulheres e 32 homens), distribuídos em 165 escolas municipais com
Laboratórios de Informática Educativa. Utilizamos no cálculo da amostra um
intervalo de confiança de 95%, estimativa de proporção populacional de 0,5 e
erro amostral de 0,05. O resultado do cálculo da amostra resultou em 119
desses professores; destes, 81% era do sexo feminino e 19% era do sexo
masculino. Para abordarmos esses professores utilizamos um questionário
semiestruturado, com questões objetivas e subjetivas (fechadas e abertas).

Resultados revelados

A Prefeitura Municipal de Fortaleza conta com o Centro de Referencia do


Professor (CRP) que, por meio da Biblioteca Virtual Moreira Campos (BV),
possui como objetivo capacitar os professores da rede municipal para o uso da
tecnologia como instrumento educativo. O documento intitulado Minuta do
Centro de Referência do Professor (FORTALEZA, 2005a) registra a intenção da
SEDAS quanto à política de formação de professores para o uso da Informática
Educativa, o que também se aplica à formação para o uso do software livre:
(...) a formação se dará através de uma grade de cursos ofertados
pela BV e cursos de extensão realizados mediante convênio com as
instituições públicas de Ensino de Fortaleza (UFC, UECE e CEFET).
Os cursos serão oferecidos a partir das demandas do sistema de
ensino e terão sua carga horária dividida em atividades teóricas,
práticas no computador e práticas-didáticas nos laboratórios (estágio
em Informática Educativa). Nesse último caso, a equipe do CRP-BV
realizará o acompanhamento dos professores nos laboratórios como
uma atividade de formação dos professores. A estrutura do CRP
permitirá também que seja realizada a formação de professores
através dos recursos tecnológicos nas modalidades semi-presencial e
a distância. (p. 5).

Ao assumir o software livre, a Prefeitura Municipal de Fortaleza realizou


formação continuada voltada para a utilização desse novo padrão de software
nos LIEs, segundo 92,4% dos professores entrevistados. Contudo, percentual
menor de 89,1% participou dessa formação.
Para a realização da referida formação, foi firmado “convênio com a
Universidade Federal do Ceará, sendo um curso semipresencial, ministrado por
monitores da UFC e CRP”, segundo comentou o professor P07. As aulas a
distância foram realizadas no ambiente virtual de aprendizagem SOLAR e as
aulas presenciais aconteceram no CRP.
Alguns professores (6,7%), ao destacar a metodologia utilizada na
formação continuada, se posicionaram acerca da estrutura dos cursos
realizados, informando que tiveram uma parte teórica e outra prática.
Enfatizaram ainda esse caráter contínuo da formação (21,8%). Percentual de

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Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, Belo Horizonte, 2010 15
7,6% dos entrevistados não manifestou nenhum posicionamento nesse sentido.
O CRP foi a resposta mais indicada (90,7%) no que se refere ao local da
formação continuada. Isso enseja concordância com o dado registrado sobre
os níveis de formação para o uso da Informática e do software livre, no qual os
entrevistados indicaram que os conhecimentos acerca dessa temática foram
obtidos através de iniciativa da SEDAS/SME.
No geral, os professores responderam que a formação continuada no
uso do software livre durou cerca de dois a três meses (71,2%) e contabilizou
uma carga horária total de 80h/a. Quanto à distribuição abordada na formação,
96,1% dos professores explicitaram que foi utilizada a distribuição Kurumim.
Os professores destacaram que foram privilegiados na formação os
seguintes conteúdos: sistema operacional Linux (91,6%) e pacote de escritório
OpenOffice.org/BrOffice.org (88,2%).
Em se tratando dos aplicativos utilizados na formação, os entrevistados
deram destaque para o editor de texto OpenOffice.org/BrOffice.org Writer
(91,6%), a planilha eletrônica OpenOffice.org/BrOffice.org Calc (88,2%) e o
programa de apresentação OpenOffice.org/BrOffice.org Impress (86,5%). Esse
dado reflete no conhecimento/habilidade dos professores para o uso dos
aplicativos e para o emprego pedagógico dos softwares, pois ao responderem
sobre esses conhecimentos, os entrevistados dizem ter maior domínio nos
conteúdos trabalhados na formação.
A utilização de tecnologias na escola envolve questões bem complexas,
pois não é simplesmente o professor desvendar o computador nem a
disponibilidade dos equipamentos que garantirão o seu pleno uso nas salas de
aula. Devem ser consideradas a abordagem pedagógica e a necessidade de
formação continuada do professor para que este possa escolher criticamente
entre as possibilidades que se apresentam. As respostas dos professores
registram a subutilização do laboratório até por eles mesmos. O computador
destina-se não somente à utilização de um “pacote” de escritório, pois, além de
outros aplicativos, existem diversos softwares destinados especificamente ao
uso educacional.
No que diz respeito ao conhecimento e conseqüente utilização desses
softwares, contudo, os números mostram resultados estarrecedores. Mais da
metade dos entrevistados não tem “nenhum” conhecimento/habilidade para o
uso dos softwares educativos elencados (GCompris, Dr. Geo, KNagram,
KPercentege, KBruch), e os demais, quando o têm, esse
conhecimento/habilidade é considerado “pouco” ou razoável”. Esses resultados
demonstram que a formação continuada foi deficitária ou privilegiou apenas o
uso de aplicativos do OpenOffice.org/BrOffice.org.
Os professores também reuniram sugestões para o uso do software livre
nas escolas: mais cursos/treinamentos/capacitações/aperfeiçoamento (19,3%),
em especial para o uso do software educativo livre (8,4%), incluindo todos os
professores (13,4%) e, se possível, realizados na própria escola (19,3%).
Ao imprimirem em suas falas a reivindicação de que sejam realizados
mais cursos, e que estes aconteçam na própria escola, os participantes da
pesquisa destacam que essa ação facilita a participação, não somente dos
professores de laboratório, mas também dos demais professores da escola.

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Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, Belo Horizonte, 2010 16
Considerações Finais

O Município de Fortaleza se preocupou em oferecer subsídios aos


professores para lidar com o software livre. A existência do Centro de
Referência do Professor bem como a disponibilidade de cursos oferecidos
nessa instituição revelam essa preocupação.
Os dados apontam que a formação continuada para o uso pedagógico
do software livre aconteceu e continua acontecendo. Verificamos, contudo, pelo
conhecimento/habilidade dos professores para o uso de certos aplicativos e
softwares, que essa formação privilegiou aspectos básicos do uso da
tecnologia/computador, prioritariamente o sistema operacional Linux e o pacote
de escritório OpenOffice.org/BrOffice.org. Não há formação voltada para o uso
pedagógico de softwares educativos livres.
Haja vista que a utilização do computador transcende o uso de certos
dispositivos, esse achado evidencia subutilização desse recurso pelos
professores de LIE. Esse elemento nos faz refletir acerca do próprio conceito
de Informática Educativa subjacente aos cursos oferecidos a professores.
Utilizar o computador apenas para digitar textos, fazer apresentações ou
planilhas de cálculos é, sim, subutilizá-lo. O objetivo da Informática Educativa
não é este. Seu foco é fazer com que essas ferramentas e equipamentos
sirvam de instrumentos mediadores do ato de ensinar e aprender; não como a
panacéia para os problemas da educação, mas como mais um recurso que
poderá colaborar na melhoria do ensino e aprendizagem. É necessário que
prevaleça a dimensão pedagógica sobre a técnica, envolvendo o professor,
para que ele possa utilizar na sua área esses recursos, associando-os ao
projeto pedagógico da escola.

Referências

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1999.
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FREIRE, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam.
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Fortaleza, 2005(a).
_________. Projeto de acompanhamento técnico pedagógico e suporte
técnico dos equipamentos de informática utilizados no processo
educativo. Fortaleza, 2005(b).
_________. Prefeitura reafirma compromisso em manter laboratórios de

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Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, Belo Horizonte, 2010 17
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época; v. 77).
LEITE, S. A. da S. Desenvolvimento profissional do professor: desafios
institucionais. In: AZZI, Roberta Gurgel; BATISTA, Sylvia Helena Souza da
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professores do 5º ano: contribuição de um software educativo livre para o
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Universidade Estadual do Ceara, Centro de Educação. 2007.
NOVOA, A. Formação de professores e profissão docente. In. NOVOA, A.
(Coord.). Os professores e a sua formação. 2 ed. Porto: Porto Editora, 1995.
NUNES, João Batista Carvalho. Software livre e educação. Projeto de
pesquisa apresentado a Universidade Estadual do Ceara como requisito para a
obtenção de bolsas de iniciação cientifica do CNPq e da FUNCAP. Fortaleza,
2005.
SILVEIRA, Sergio Amadeu da. Inclusão digital, software livre e globalização
contra-hegemonica. In: SILVEIRA, Sergio Amadeu da; CASSINO, João.
Software livre e inclusão digital. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2003.

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Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, Belo Horizonte, 2010 18
DESENVOLVIMENTO E AVALIAÇÃO DO SOFTWARE EDUCATIVO LETRA
LIVRE

João Batista Carvalho Nunes – Universidade Estadual do Ceará


Dennys Leite Maia – Prefeitura Municipal de Fortaleza
Joserlene Lima Pinheiro – Universidade Estadual do Ceará

Resumo
O Laboratório de Tecnologia Educacional e Software Livre (LATES) foi criado
com o propósito de realizar pesquisas que relacionassem software livre e
educação. Ao realizar o levantamento de softwares educativos livres (SELs)
existentes, foi possível encontrar 81 SELs. Desses, foi identificada
predominância de softwares nas áreas de matemática, língua estrangeira e
língua materna. Motivado pela pouca opção de SELs para o ensino de Língua
Portuguesa, mais especificamente para a área de letramento, o LATES
resolveu investir no desenvolvimento de um aplicativo que colaborasse para
uma mudança nesse quadro. Ademais, a escolha pela disciplina de Língua
Portuguesa se deveu pelo baixo rendimento dos alunos naquela área. Neste
trabalho, serão apresentadas as etapas que permearam o desenvolvimento de
um SEL em português do Brasil (pt-br) para os anos iniciais do ensino
fundamental, denominado Letra Livre. Adotou-se como norteador do processo
de desenvolvimento a metodologia recursiva. Tratando-se de um modelo com
fundamentação teórica de natureza interacionista e construtivista, implicou na
necessária integração entre os membros da equipe de desenvolvimento e no
contínuo registro e avaliação do processo de construção, a fim de se buscar o
aprimoramento do produto. Após a delimitação da abordagem proposta para o
software, foi pensada a lógica que ele obedeceria, as palavras utilizadas, a
interface gráfica e as figuras que compunham as atividades. Terminada a
construção do software, foi providenciada uma avaliação pelos usuários finais
com o intuito de contemplar tanto critérios objetivos como formativos. Ao fim do
processo, face à boa aceitação do Letra Livre, espera-se que essa experiência
de desenvolvimento de um software sirva de estímulo para que novos SELs
sejam implementados.
Palavras-chave: Desenvolvimento de Software Educativo, Avaliação de
Software Educativo Livre, Software livre, Ensino de Língua Portuguesa.

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Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, Belo Horizonte, 2010 19
Introdução
Na atual sociedade, observa-se acelerado desenvolvimento científico e
tecnológico, com reflexos diretos no modus vivendi das pessoas. As
tecnologias invadem lares, locais de trabalho e de lazer, permitindo a satisfação
de velhas necessidades e a geração de outras novas. Para o sociólogo
espanhol Manuel Castells (2003), diversos setores da sociedade absorveram
os recursos tecnológicos em suas atividades, configurando uma nova
revolução tecnológica que tem a informação como matéria principal.
A educação insere-se nesse processo através da formação de cidadãos
que compõem a sociedade tecnologizada do presente e comporão a do futuro.
Nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), esse alerta é previsto ao
afirmar que
trata-se de ter em vista a formação dos estudantes em termos de sua
capacitação para a aquisição e o desenvolvimento de novas
competências, em função de novos saberes que se produzem e
demandam um novo tipo de profissional, preparado para poder lidar
com novas tecnologias e linguagens, capaz de responder a novos
ritmos e processos. (BRASIL, 1997a, p. 28).

Cabe aos sistemas educacionais e às escolas buscar formas para incluir


seus alunos nessa sociedade; do contrário, estarão fomentando uma categoria
de excluídos, que já começou a se expandir e deve ser contida: os excluídos
digitais. Por outro lado, a inclusão digital, conforme Nunes (2007), não pode se
limitar ao acesso; ela deve efetivar-se a partir de dois elementos inter-
relacionados: acesso a tecnologias digitais (computador, software, internet) e
domínio do conhecimento sobre as tecnologias digitais nos âmbitos declarativo,
procedimental e valorativo.
Investimento desse porte, que possui custo considerável, pode ser
minimizado ao se adotar em sua operacionalização softwares livres (SLs), que,
segundo a definição criada pela Free Software Foundation (FSF), são
programas de computador que podem ser usados, copiados, estudados,
modificados e redistribuídos sem nenhuma restrição.
Programas regidos sob a licença GNU/GPL estão disponíveis, em sua
maioria, sem a exigência de se pagar taxas pela licença de uso, gerando a
possibilidade de reverter essa economia para a aquisição de novos
computadores, formação de professores e demais prioridades de cunho
pedagógico.
Além do acesso às tecnologias, pode-se adequar o software educativo
livre às necessidades e realidade dos alunos, tornando-se o professor um
coautor do recurso tecnológico com vistas ao aprimoramento de sua prática
pedagógica, através da terceira liberdade inerente ao software livre (alterar e
aperfeiçoar).
Segundo Valente (1993, p. 1), “o computador pode provocar uma
mudança de paradigma pedagógico”. Para isso, a ação do professor deve
dirigir esse processo, a depender de sua prática naquele ambiente.
O uso da informática na educação exige em especial um esforço dos
educadores para transformar a simples utilização do computador
numa abordagem educacional que favoreça efetivamente o processo
de conhecimento do aluno. (OLIVEIRA, COSTA, MOREIRA, 2001, p.
62).

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Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, Belo Horizonte, 2010 20
Considerando essas e outras questões sobre o uso do computador e do
software livre na educação, foi realizado pelo grupo de pesquisa Laboratório de
Tecnologia Educacional e Software Livre (LATES), um levantamento dos
softwares livres, educativos e educacionais.
Ao final da pesquisa, foi possível encontrar 81 (oitenta e um) softwares
educativos livres (SELs). Desses, foi identificada predominância de softwares
nas áreas de matemática (30,9%), língua estrangeira (27,2%) e língua materna
(13,6%) (NUNES; SILVA; SILVA; SOUZA; BARRETO, 2008). Motivado pela
pouca opção de SELs para o ensino de Língua Portuguesa, mais
especificamente para a área de letramento, o LATES resolveu investir no
desenvolvimento de aplicativo que colaborasse para uma mudança desse
quadro.
Denominado Letra Livre, por trabalhar o letramento e estar inserido na
filosofia do software livre, o aplicativo procura aproximar-se de uma abordagem
pedagógica construcionista para softwares educativos (PAPERT, 1994).
Procura tratar o erro como processo não descartável do aprendizado discente
e, a partir dele, favorecer no aluno a construção de seu conhecimento com o
auxílio do computador.
O software foi pensado para trabalhar as competências exigidas nos
anos iniciais do Ensino Fundamental na disciplina de Língua Portuguesa,
auxiliando o aluno na escrita de palavras. Ademais, procura pôr em prática o
que se defende nos PCNs de Língua Portuguesa para os anos iniciais do
Ensino Fundamental, ou seja, que o ensino de ortografia favoreça:
a inferência dos princípios de geração da escrita convencional, a
partir da explicitação das regularidades do sistema ortográfico (isso é
possível utilizando como ponto de partida a exploração ativa e a
observação dessas regularidades: é preciso fazer com que os alunos
explicitem suas suposições de como escrevem as palavras, reflitam
sobre possíveis alternativas de grafia, comparem com a escrita
convencional e tomem progressivamente consciência do
funcionamento da ortografia). (BRASIL, 1997b, p. 85).

As palavras elencadas, a priori, foram retiradas de livros didáticos


utilizados pelos alunos de escolas públicas do município de Fortaleza. Dessa
forma, as palavras não foram separadas de forma aleatória. A definição dos
níveis de dificuldade levaram em conta fatores como: número de sílabas,
presença de dígrafos, acentos, letras e/ou encontros consonantais com sons
parecidos, marcação nasal, dentre outros. Além disso, o Letra Livre
caracteriza-se também por ser um programa dentro da modalidade conhecida
como aplicações web ou WebApp, que caracterizam-se pelo acesso via
navegador web (web browser) sobre uma rede como a internet ou uma intranet.
Dessa forma, o programa não fica restrito a nenhum sistema operacional, ou
seja, a partir de qualquer computador com acesso à internet é possível fazer
uso do software. Para a escrita do código fonte do software foram adotadas as
linguagens de programação HTML (Hypertext Markup Language) e PHP (PHP:
Hypertext Preprocessor), combinadas com o banco de dados MySQL.
A proposta de funcionamento do Letra Livre é baseada no seguinte fluxo:
ao selecionar um grupo de palavras, o aluno/usuário é direcionado para uma
tela, onde escolhe uma das figuras que deseje nomear, representada por um
desenho. O software permite um exercício da grafia correta de cada uma das
ilustrações daquele grupo.
Nesse processo, não existe limite de tempo para o acerto, porém foi

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definido um número máximo de tentativas, inicialmente fixado em cinco. A
proposta do Letra Livre possibilita que o aluno realize o ciclo descrição-
execução-reflexão-depuração-descrição, de extrema importância na aquisição
de novos conhecimentos (VALENTE, 1999).

Metodologia
Corroborando com Lee e Owens (2004) e Oliveira, Costa e Moreira
(2001), para o desenvolvimento do software buscou-se criar uma equipe multi e
interdisciplinar, integrando membros do grupo de pesquisa. Envolveu-se um
número reduzido de profissionais, entre graduandos em Pedagogia,
mestrandos em educação e pedagogos, sob a liderança de um Doutor
especialista em Informática Educativa, para a criação do aplicativo em todas as
suas etapas. Os membros foram divididos em subáreas do projeto, de acordo
com suas afinidades e mantendo a inter-relação entre as subáreas.
Adotou-se como norteador do processo de desenvolvimento a
metodologia recursiva, proposta por Oliveira, Costa e Moreira (2001). Tratando-
se de um modelo com fundamentação teórica de natureza interacionista e
construtivista do conhecimento, caracteriza-se por “movimentos de avanço no
desenvolvimento do software por meio das diferentes atividades que o
constituem” (OLIVEIRA, COSTA, MOREIRA, 2001, p. 97).
Para o desenvolvimento dos elementos gráficos tomou-se como
referência o conceito de Oliveira, Costa e Moreira (2001, p.107), ao falar que
a definição das telas, quando realizada paralelamente à elaboração
do diagrama de fluxo, ajudará na visualização mais objetiva dos links
a serem criados entre as telas, e a visualização dos links, por sua
vez, servirá de base para a caracterização de cada tela. Pela
definição do público-alvo, o layout de cada tela levará em conta: a
linguagem, a estética, abrangendo evidentemente a distribuição
adequada dos textos, das imagens, das cores e dos efeitos visuais.

Dessa forma, foi possível idealizar um design para o software, bem


como telas e imagens que o comporiam. Ficou definido que o Letra Livre seria
formado, basicamente, por quatro telas, quais sejam: Inicial, dos Grupos de
Palavras, das Figuras e de Atividade. Além dessas, foram implementadas telas
referentes à documentação, como: O Projeto, Manual do Usuário e Créditos.

O Desenvolvimento do Letra Livre


Por se tratar de um software destinado, prioritariamente, a crianças na
faixa etária de 7 aos 11 anos de idade, as imagens que ilustram o software e
suas atividades foram elaboradas em sintonia com o imaginário desse público-
alvo. Essa ideia mostra-se bastante pertinente, pois a proposta é que o
aplicativo desperte interesse no aluno em virtude do seu conteúdo, não por
premiações (OLIVEIRA; COSTA; MOREIRA, 2001).
Como o reconhecimento da figura é determinante, também, para a
prática educativa que o Letra Livre propõe, as imagens foram postas em teste
de reconhecimento. Crianças entre 4 e 10 anos foram solicitadas a dizer que
objeto identificavam ao ver o desenho e, após essa testagem, as imagens que
apresentaram mais dificuldades no reconhecimento foram ora substituídas, ora
redesenhadas.
Para a formatação do layout do programa, procurou-se seguir o padrão
ocidental de leitura, ou padrão “Z”, onde a leitura das telas acontece da

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esquerda para a direita e de cima para baixo. Lee e Owens (2004) enfatizam
que, para a construção de softwares educativos, deve-se dar preferência a
esse padrão de tela.
Nos próximos parágrafos, serão explicitadas as telas do Letra Livre,
conforme aparecem no software: A tela inicial (FIG. 1), além de manter o
padrão de leitura de tela ocidental, pretende proporcionar fundamentalmente
uma interface amistosa e receptiva aos usuários.
A tela representa uma sala de aula, com uma estante de livros, onde se
tem acesso à documentação do software; um quadro negro, com um link, no
nome do programa, para o início da aplicação e uma figura do Gnu (animal que
vive em grandes comunidades, a fim de se proteger de predadores, adotado
como símbolo do movimento criado por Richard Stallman, fundador da FSF)
com acesso à licença GNU/GPL 2.0, sob a qual o software está regido; e, por
fim, uma porta, com uma placa “Iniciar o Letra Livre” como outra opção de
acesso às atividades do programa.
Na tela dos grupos (FIG. 2), o usuário seleciona, dentre os quatro ícones
que representam um agrupamento de palavras – que dão prosseguimento à
atividade propriamente dita – com o objetivo de deixar o aluno o mais
independente possível na construção de seu aprendizado.
Não devemos supor níveis de dificuldade que pudessem indicar uma
ordem a ser seguida. Esse foi um dos pontos levados em conta para que o
software tivesse uma aproximação maior com a abordagem construcionista.
Entretanto, isso não quer dizer que cada agrupamento tenha o mesmo grau de
dificuldade ou competências necessárias para a execução da atividade, mesmo
porque as palavras permaneceram como eram trabalhadas nos anos iniciais do
Ensino Fundamental.
Dessa forma, entende-se os alunos como sujeitos possuidores de um
aprendizado peculiar: cada um tem seu ritmo e forma de articular mentalmente
novos conhecimentos. Ademais, ao se deparar com um “novo conhecimento” o
aluno avança, através do processo de reflexão-depuração, para outros níveis
de aprendizado. Nesse sentido, o software pode atuar junto ao que Vygotsky
(1999) chamou de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP).
O espaço representado pelo desenho sugere um Laboratório de
Informática Educativa, onde estão presentes alunos diversificados e um
professor, identificado como ator importante nesse processo de ensino-
aprendizagem.
Em cada uma das telas das figuras (FIG. 3), foram dispostos os 16
(dezesseis) desenhos que a compõem. Representadas por miniaturas, as
imagens foram perfiladas em duas linhas ao lado esquerdo de cada figura, está
presente o botão de seleção, para que o aluno possa marcá-lo e clicar no botão
“Prosseguir”, alocado abaixo do agrupamento, dando início à tela de atividade
(figura 4).
Na tela de atividade (FIG. 4), consta a etapa mais criteriosa quanto às
indicações da literatura sobre avaliação e construção de software educativo.
Isso se justifica por ser nessa etapa em que a aplicação concentra seu
potencial pedagógico.
Aqui, o padrão de leitura ocidental está mais evidente. Primeiro, os olhos
fazem a leitura da figura, elemento importante para a execução da atividade;
depois, seguem para o banco de registro de tentativas, onde o software oferece
o elemento de feedback ao aluno; em seguida, aparece a caixa de texto onde

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deve ser digitado o nome da figura, outro elemento fundamental para a
execução da atividade, que pode, a partir do registro, mudar o direcionamento
da atividade; e, por último, o link para voltar, caso deseje mudar de figura antes
de fazer as tentativas ou, caso acerte a palavra, o link para voltar à tela das
figuras para a escolha de outra imagem.
Observou-se que o aluno deveria ter um retorno do software
confirmando o acerto e, consequentemente, diferenciando-o da resposta
incorreta. A ideia primeira era que a palavra, após ser digitada com a grafia
correta, fosse destacada com uma cor diferente e traduzisse o sentido de
prosseguimento. No entanto, foi levado em conta que a mudança na cor da
fonte da palavra pudesse gerar dificuldades para usuários portadores de
alguma deficiência, como o caso de pessoas daltônicas. A solução encontrada
foi proporcionar algum movimento àquela ação. Decidiu-se que as palavras
corretas apareceriam piscando em dois tons de verde.

A Contribuição dos Educadores

Um dos fatores considerados na busca de proporcionar melhorias a um


software é a avaliação pelo usuário final. Ademais, por se tratar de um
programa com código fonte aberto, essa categoria mostra-se ainda mais
pertinente. Cabe lembrar que essa contribuição não se deve restringir apenas a
melhorias na lógica do programa, mas abranger outras categorias, tais como:
interface gráfica e conteúdo pedagógico, dentre outras.
Para o Letra Livre, foi seguida essa lógica. Ao término de seu
desenvolvimento, foram providenciados testes no software, a fim de identificar
limitações e levantar sugestões de aperfeiçoamento do programa. Para tanto,
foram sugeridas duas etapas: uma pré-testagem e, depois, uma prática numa
situação real de ensino e aprendizagem empregando-se o software.
A primeira etapa, a pré-testagem, foi realizada com alunos do último
semestre do curso de Pedagogia da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Foi solicitado aos participantes que registrassem opiniões acerca de
navegabilidade (aborda a usabilidade e interação do software a partir de seus
links, botões, fluxo etc), conteúdo, figuras, metodologia e manual do Letra
Livre, de acordo com um instrumental utilizado para avaliação de softwares
educativos. As alterações foram referentes a algumas figuras apontadas como
de difícil identificação, bem como links de retorno na tela de atividade.
A segunda etapa, aplicação do Letra Livre numa situação real de ensino
e aprendizagem, aconteceu em uma escola pública municipal, selecionada
conforme os seguintes critérios: oferta dos anos iniciais do Ensino
Fundamental, existência de LIE com computadores com acesso à internet e
disponibilidade de participação na pesquisa, manifestada por gestores e
professores.
O processo deu-se em dois momentos. No primeiro foi implementada
uma formação das professoras sobre o uso pedagógico do Letra Livre para que
pudessem utilizá-lo com seus alunos. No segundo, ocorreu a observação da
prática.
A avaliação de um software deve considerar aspectos objetivos e
formativos. Então, para validar o Letra Livre, foi realizada a avaliação da
qualidade do software por esse grupo de educadoras, complementando o
ponto de vista de quem participou da concepção do aplicativo com a opinião de

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quem o utilizou em sua prática pedagógica.

Avaliação do Letra Livre

Para o processo de avaliação do Letra Livre foi utilizado o modelo


proposto por Oliveira, Costa e Moreira (2001). No entanto, vale registrar que
esse modelo é proposto para softwares comerciais, enquanto a categoria
software livre traz consigo, pela sua forma de disponibilidade, outra maneira de
conceber a aquisição desses produtos. Assim, Oliveira, Costa e Moreira (2001)
consideram quatro categorias para classificar os critérios de produção e
avaliação de Software Educativo. A FIG. 5 apresenta o modelo proposto, que
terá seus critérios detalhados posteriormente.
Às professoras, foi submetido um instrumento que evidenciava as quatro
categorias. Entretanto, a categoria de programação apareceu apenas com o
aspecto do Manual, pois, sendo estas pedagogas ou licenciadas, observou-se
que elas não estariam aptas a avaliar os demais aspectos em virtude de sua
formação. No momento da submissão do instrumento de avaliação, das 8 (oito)
professoras que fizeram o curso de formação, 6 (seis) estavam presentes.

Interação Aluno-SE-Professor
É possível constatar que, para elas, o Letra Livre estaria a contento.
Importa observar o caráter lúdico que identificaram no software, mesmo ele não
tendo a pretensão de ser um jogo educativo. Outro aspecto também a ser
considerado é que parte delas concebe o software como um site, o que é
justificado pelo fato de ele funcionar em plataforma web. Registraram também
que o aplicativo mostrou-se com boa navegabilidade e atratividade.

Fundamentação Pedagógica
Quanto a esse aspecto, as professoras que buscaram trazer em suas
respostas a abordagem pedagógica encontrada no software, apontaram o
construcionismo. A partir dos registros, é possível evidenciar que pautaram
suas respostas a partir do tratamento do erro dado pelo Letra Livre ou pela
identificação da origem da abordagem, o construtivismo. Entretanto,
demonstram ainda muito forte a ideia de que um software educativo deve
conter elementos que instiguem a competição, ideia que remete a sistemas
instrucionistas que valorizam estímulos e respostas.

Conteúdo
As professoras salientaram, principalmente, a pertinência quanto às
imagens e ao conteúdo curricular explorado pelo Letra Livre. Uma das
professoras destacou a possibilidade de trabalhar conhecimentos prévios do
aluno, levando em consideração suas vivências extraescolares. Outro registro
que despertou atenção foi no que tange ao regionalismo, que garante também
facilidade de uso ao software.

Manual (Programação)
No tocante ao critério programação, como informado anteriormente, foi
limitada às professoras apenas uma análise do Manual do Usuário, bem como
a documentação do Letra Livre. Assim sendo, procurou-se verificar se o
software atendia a esse critério para os seus usuários, no caso, professores e

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alunos. Importa que educadores o aprovem por estar creditada à
documentação de softwares educativos parte das motivações de sua adoção
(OLIVEIRA; COSTA; MOREIRA, 2001). Para o Letra Livre, esse critério foi
aprovado pelas professoras, conforme ilustram os seguintes registros,
enfatizando a navegabilidade e a facilidade de entendimento.
O manual do Letra Livre foi bem desenvolvido, trazendo informações
e figuras atrativas, facilitando o uso e a navegação do usuário. (Profª
β)

O manual está bem adequado e elaborado de maneira que facilite o


manuseio do aluno. (Profª θ)

Sugestões
Esse é um dos critérios que diferencia softwares livres de proprietários.
Isso porque, como o primeiro visa à construção de forma colaborativa para
proporcionar um aprimoramento da ferramenta para o interesse coletivo, o
levantamento de sugestões contribui efetivamente para essa prática.
Para as professoras, esse critério se mostrou relevante, pois se sentiram
motivadas a contribuir de alguma maneira. Ademais, suas sugestões podem ter
surgido da necessidade que perceberam quando da utilização do software em
sua prática, como a proposta de implementação do som. Outro aspecto que
merece ser destacado é a sugestão para inclusão de outros conteúdos
gramaticais. Isso pode evidenciar uma dificuldade sentida por elas para o
trabalho com os alunos em alguns conteúdos e de sua percepção da
Informática Educativa como estratégia viável de apoio à docência.
Em síntese, o Letra Livre apresentou boa receptividade entre as
professoras e a aprovação delas como uma ferramenta apta para colaborar no
processo de letramento de seus alunos.

Considerações Finais
A utilização de softwares educativos livres é uma realidade em razão de
políticas de inserção da plataforma livre nas instituições públicas. Assim, o
desenvolvimento de SELs acena com grandes possibilidades de aceitação
devido a essa tendência.
Conforme o mapeamento de SEL referendado neste texto, há carência
de softwares para áreas específicas, sobretudo em Língua Portuguesa. O Letra
Livre surge como recurso oferecido a professores e alunos dos anos iniciais do
Ensino Fundamental para o processo de letramento, alfabetização e processos
posteriores de leitura e escrita.
A contribuição de professores, alunos e estudantes de Pedagogia para a
avaliação e aperfeiçoamento do Letra Livre confere ao software o caráter de
construção coletiva, posto que seu desenvolvimento só foi possível mediante a
formação de equipes multi e interdisciplinares.
Por outro lado, espera-se que essa experiência de desenvolvimento de
um software sirva de estímulo para que outros grupos de pesquisa e a
comunidade de SL possam implementar novos SELs, que venham contribuir
com a melhoria do processo de ensino-aprendizagem.

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Referências

BRASIL. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros


curriculares nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais.
Brasília: SEF, 1997a.
BRASIL. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros
curriculares nacionais: Língua Portuguesa. Brasília: SEF, 1997b.
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2003. v. 1.
LEE, W. W.; OWENS, D. L. Multimedia-based instructional design:
computer-based training, web-based training, distance broadcast training,
performance-based solutions.2nd ed. San Francisco: Pfeiffer, 2004.
NUNES, J. B. C. Software livre na educação: caminho para a inclusão digital?
In: PINTO, A. de C.; COSTA, C. J. de S. A.; HADDAD, L. (orgs.). Formação do
pesquisador em educação: questões contemporâneas. Maceió: EdUFAL,
2007. p. 293-314.
______, J. B. C., SILVA, M. L. R., SILVA, M. A., SOUZA, G. M. O., OLIVEIRA, L.
X., BARRETO, M. C. Levantamento de Softwares Educativos Livres:
contribuições à prática docente. In: XIV Encontro Nacional de Didática e Prática
de Ensino, 2008, Porto Alegre. Anais do XIV Encontro Nacional de Didática
e Prática de Ensino, 2008.
OLIVEIRA, C. C. de., COSTA, J. W. da., MOREIRA, M. Ambientes
informatizados de aprendizagem: produção e avaliação de software
educativo. Campinas, SP: Papirus, 2001 – (Série Prática Pedagógica).
PAPERT, S. A máquina das crianças: repensando a escola na Era da
Informática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
VALENTE, J. A. Por que o computador na educação. In: VALENTE, J. A. (org.).
Computadores e conhecimento: repensando a educação. Campinas, SP:
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VALENTE, J. A. et al. O computador na sociedade do conhecimento.
Brasília: MEC, 1999. (Coleção Informática para a Mudança na Educação).
VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes,
1999.

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ANEXO

Figura 1: Tela inicial do Letra Figura 2: Tela grupos


Livre

Figura 3: Tela das Figura 4: Tela de


figuras atividades

Figura 5: As quatro categorias utilizadas para classificar os


critérios de produção e avaliação de Software Educativo
Fonte: Oliveira, Costa, Moreira (2001, p. 126).

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