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Grão-Chanceler

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U N I V E R S I D A D E C AT Ó L I C A D E G O I Á S

Estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 781-979, set./out. 2008.


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Universidade Federal de Uberlândia

Estudos – Vida e Saúde está indexada no Índice Bibliográfico Clase,


Citas Latinoamericanas en Ciencias Sociales y Humanidades,
Universidad Nacional Autónoma del México.
Publicação indexada em GeoDados: <http://www.geodados.uem.br>.

Estudos: Revista da Universidade Católica de Goiás. v. 1, n. 1 (1973) __ Goiânia : Ed.


da UCG, 1973 – .
Mensal
ISSN 0103-0876
CDU 001(05)“540.3”
S U M Á R I O

Editorial ................................................................................. 787

ARTIGOS

As Perigosas Curvas Placebo


Francisco Martins ................................................................. 793

Wittgenstein Psicólogo?
Joselí Bastos da Costa .......................................................... 817
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 785-786, set./out. 2008.

Entre a Rua e a Instituição: o olhar de crianças


e adolecentes que viviam nas ruas
Marina Wanderley Vilar de Carvalho,
Maria de Fátima de Souza Santos ........................................ 825

La Representation Sociale de L’apprentissage


Chez des Artisans du Batiment
Lucile Salesses ....................................................................... 847

Qualidade de Vida de Portadores de Hiv/Aids


Assistidos por uma Organização de Apoio
Cynthia Marques Ferraz da Maia,
Sebastião Benício da Costa Neto .......................................... 865

Moderno Narciso
Leandra Carrer
Denise Teles Freire Campos.................................................. 887 785
Sociabilidade Violenta: contemporaneidade
e os novos processos sociais
Silvia Pereira Guimarães,
Pedro Humberto Faria Campos ............................................ 901

As Vivências de Prazer-Sofrimento em Trabalhadores


de uma Organização Certificada pela SA8000
Kátia Barbosa Macedo, Elisabeth Zulmira Rossi,
Ana Magnólia Mendes, Evanúzia Luzia de Oliveira,
Vitor Barros Rego.................................................................. 915

Experiência com Atividades de Venda e Decodificação


de Expressões Faciais
Raquel Santana Schiavon Sanchez,
Francisco D. C. Mendes ........................................................ 933

A Prioridade do Indivíduo nos Programas de Desenvolvimento


Organizacional (D. O.)
Saturnino Pesquero Ramón ................................................... 951

O Sofrimento Psíquico na Condição Obesa


e a Influência da Cultura
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 785-786, set./out. 2008.
Thyago do Vale Rosa,
Denise Teles Freire Campos.................................................. 968

786
E D I T O R I A L

R
ecentemente fomos convidados a participar de uma
mesa-redonda, em um congresso organizado pelo
Conselho Regional de Psicologia sobre as políticas
públicas e, particularmente, uma mesa de debates sobre a
“saúde do trabalhador”. Na preparação nos deparamos com
um texto de Cristophe Dejours, no qual ele fala da
“banalização da injustiça” no trabalho. A reflexão não esta-
va muito distante daquelas sobre a “banalização da injusti-
ça” (Velho, 1996; Zaluar, 1996; Campos, Torres e Guimarães,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 787-792, set./out. 2008.

2004) na sociedade brasileira. Vejam, pois, as característi-


cas deste processo de “banalização” da injustiça, apontadas
por Dejours: o medo da incompetência, o fantasma de não
ser capaz, de não estar respondendo às exigências e pressões,
por incompetência; a pressão para trabalhar mal, para não
desenvolver a plenitude de suas competências; a absoluta
ausência de esperança de reconhecimento; e a racionaliza-
ção das vivências no trabalho, com a respectiva negação do
sofrimento que lhe é inerente. Vejamos por qual razão estas
reflexões aparecem no presente editorial.
Depois de um relativo período de “suspensão”, aqui nos
encontramos com mais um número especial da Revista Es-
tudos, Vida e Saúde, dedicado a pesquisas em psicologia
social e fronteiras. Para o bem da verdade, este número, as-
sim como seus congêneres anteriores, foram produtos de
esforços de construção de grupo. No mundo da pesquisa
científica e/ou acadêmica (como prefiram!) em Psicologia, 787
já se encontra decretado, por artes e ofícios da Capes, CNPq,
Anpepp (e demais instâncias e agências) o fim da figura do pes-
quisador solitário. Os “cowboys solitários” são uma ficção que
não corresponde à realidade da produção do conhecimento na
Psicologia: vivemos na era das “linhas de pesquisa”. Toda linha
de pesquisa que se preze comporta objetos claramente recortados,
uma certa tradição metodológica, um arcabouço de princípios e
fundamentos teóricos. Este é, ao mesmo tempo, um ideal e uma
ficção. Um ideal, posto que assim funcionam os grandes centros
de pesquisa no mundo: laboratórios, grupos de pesquisa, departa-
mentos de pesquisa das indústrias e de órgãos governamentais etc.
De outro lado, se olharmos o cenário nacional da Psicologia em
sua totalidade, após longos anos de crise e penúria nas universida-
des públicas (especialmente as federais) e de crise financeira, na
última década, das universidades privadas, envoltas em um cons-
tante questionamento sobre sua qualidade de ensino e seus inves-
timentos na pesquisa e na pós-graduação, então a noção de “linha
de pesquisa” parece mais ficção científica. Em maio de 2008,
realizou-se em Natal o XII Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio
Científico, organizado pela Associação Nacional de Pesquisado-
res em Pós-Graduação de Psicologia (ANPEPP). Durante este
período e no interior da reunião, dois eventos mostram a lógica
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 787-792, set./out. 2008.
perversa da avaliação das publicações e dos programas de pós-
graduação (que, no Brasil, constituem os nichos naturais das li-
nhas de pesquisa) em psicologia. No primeiro deles, nossos
representantes de área (psicologia) junto à Capes reuniram-se com
os editores de alguns dos principais periódicos para um anúncio:
mudança de critérios para qualificação dos periódicos no Qualis
da área. A justificativa apresentada pelo Conselho Técnico-Cien-
tífico (CTC) da Capes parece simples: os critérios atuais não dis-
criminam mais a qualidade dos periódicos de modo a permitir uma
classificação. Ou seja, busca-se um aperfeiçoamento dos critérios
para alcançar a melhoria das publicações, atingindo um patamar
de cientificidade mais rigoroso e permitindo uma classificação e
“seleção”. Em toda evidência, as explicações e justificativas não
escondem o fato constrangedor de que, segundo estimativas, ape-
nas uma das revistas brasileiras atinge, hoje, pelos novos critéri-
os, o chamado nível “A1” de qualidade. Estranha esta
788 “racionalidade” que, em um dia considera do mais elevado nível
uma publicação e, no dia seguinte, ela se encontra “desqualificada”.
Isso se deve ao fato de que os critérios são mais formais que de
essência (para não falar em “qualidade”) e que boa parte das re-
vistas conseguiu em pouco espaço de tempo atender a estes crité-
rios. Eles, portanto, – os critérios – perderam sua capacidade de
produzir uma classificação! Então, alteram-se os critérios, ainda
formais, de tal modo a permitir sempre uma classificação, salva-
guardando o esforco de seleção e hierarquia (e concorrência?). O
emprego de critérios formais foi e é importante para criar um dentre
os parâmetros possíveis que sinalizem a evolução, o crescimento
da produção. Contudo, diante da impossibilidade prática de criar
um sistema avaliativo que se dedique à análise da qualidade da
produção científica, tanto o sistema CAPES quanto as comissões
e programas de pós-graduação das áreas se jogaram em uma cor-
rida desenfreada pelo aumento da produção, lembrando cuidado-
samente que, depois de feitas as filtragens, são somente os artigos
em periódicos que contam como produção. Muitas questões ficam
em aberto, como, por exemplo, a meta da CAPES de pelo menos
um artigo por dissertação/tese ser legítima. No final de todos os
mestrados, os novos mestres estão interessados em publicar, em
seguir a carreira acadêmica (com o emprego em instituição de
ensino superior se tornando cada vez mais difícil!)? Por um acaso,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 787-792, set./out. 2008.

nas finalidades de todos os mestrados acadêmicos, não está des-


crita a missão ímpar de formar professores para o ensino superi-
or? E, para muito mais além, toda dissertação defendida
corresponde a um trabalho de pesquisa de qualidade e original que
justifique uma publicação em periódicos? Alguns não sustentam
que o mestrado é a “aplicação rigorosa do método”? Ou espera-se
que o orientador finde por redigir o artigo?
De um lado, a política de pós-graduação empurra o mestrando,
o pesquisador, o doutorando para a publicação obrigatória. Por
outro, esta mesma política utiliza critérios exclusivamente formais
– e questionáveis – de classificação dos periódicos e opera a des-
valorização de vários veículos. Em operação “complementar”, já
se encontram desvalorizados outros tipos de publicação: anais de
congressos, capítulos ou livros etc. O quadro tem seus contornos
finalizados pelo imperativo da criação de revistas on line dos pro-
gramas de pós-graduação. Todos os programas devem ter uma
revista, independente de estarem maduros ou dispostos ou com 789
recursos para tal. Obviamente a capacidade de produção de arti-
gos qualificados não é suficiente para atender tamanha demanda.
Dupla pressão, dupla mensagem: publiquem, publiquem
a todo vapor; porém e doravante, poucos periódicos brasileiros
serão avaliados e pontuados como publicações de alto valor. O
dilema é a herança recebida por programas, líderes de grupos e
linhas de pesquisa: como incentivar, fomentar, possibilitar que
jovens iniciantes (alunos de Iniciação Científica, mestrandos e
doutorandos) aprendam o desafio de publicar em periódicos, em
um contexto tão seletivo quanto a dos veículos? O traço perverso
deste sistema, que não é de fomento, é de pressão e seleção, mos-
tra-se muito mais profundo...
O segundo momento na reunião da ANPEPP que nos interessa
destacar foi o fórum de discussão sobre a produtividade. Coordena-
ram o fórum os professores Emanoel Tourinho, atual representante
da área de Psicologia junto à Capes e Mary Jane P. Spink. Esta
apresentou um inusitado material resultante de uma “pesquisa”
qualitativa. Ela havia colocado para doze docentes-pesquisadores
uma instigante tarefa, solicitando a cada um deles (os critérios de
seleção da “amostragem” foram: ser considerado muito produtivo
ou pouco produtivo, pelo atual sistema, e alguns “críticos ferrenhos”
do sistema) que fizessem um texto a partir da provocação “como eu
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 787-792, set./out. 2008.
(o entrevistado) avalio a minha contribuição para o avanço da área”.
Além de testemunhos vivos, alguns emocionados, e reflexões,
uma constatação geral: o trabalho de docência, de formação de
professores, de agentes comunitários, de jovens pesquisadores, de
formação de rede, de organização de núcleos ou laboratórios não
são contabilizados pelo atual sistema de avaliação dos programas.
Conseqüentemente também não são de grande valor na avaliação
dos indivíduos docentes-pesquisadores. Deste modo, recaímos no
dilema já posto, segundo o qual é preciso formar grupos e linhas
que venham dar vida aos laboratórios, aos cursos e programas; é
impreterível expandir a capacidade de produzir respostas de im-
pacto aos verdadeiros problemas de pesquisa. Produzir conheci-
mento normalmente tem o mesmo sentido, para nosso métier, de
“fazer pesquisa”, defender dissertações e teses, apresentar comu-
nicações em congressos, publicar. Essas tarefas deveriam ter o
mesmo sentido, porém se tornaram distantes uma vez que o foco
790 se deslocou da atividade científica para a atividade institucional
e a “cienciometria”. Reificação do produto, deslocamento e
obliteração da essência, ou seja, do conhecimento.
Tornou-se prática corrente da Psicologia, em alguns meios
universitários, a replicação, ou mais exatamente, dizer a re-apli-
cação de instrumentos, produzindo, de tal modo, para cada aplica-
ção um artigo diferente. Há setores da Psicologia vivendo de
estratégias competitivas, sem se perguntarem sobre a pertinência
dos problemas requentados ou sobre a contribuição, de fato, des-
ses grupos para o avanço de suas próprias áreas.
É justamente a face da Psicologia como ciência social que é
posta em repouso em favor das “psicologias aplicativas” e uma
desconcertante e abusiva naturalização dos fenômenos humanos.
O campo da saúde mental é um exemplo claro: as discussões (en-
tre psicólogos, entenda-se bem) sobre as políticas públicas e es-
tratégias de inserção comunitária se querem isentas de toda e
qualquer psicopatologia e clínicas. Quanto mais próximos da
semiologia médica ou, no caso, próximos dos sintomas definidos
pelos médicos, mais ajustáveis as condutas medicamentosas, mais
serão promovidas as “psicologias breves”. Talvez a expressão ideal
aqui seja “psicologias curtas”.
Em uma sociedade que promove a fetichização do sofrimen-
to psíquico e uma fetichização da própria existência, por qual razão
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 787-792, set./out. 2008.

o conhecimento (e seu derivativo que aqui nos interpela, a publi-


cação) não se tornaria, também ele, um fetiche?
Um dos temas de pesquisa que está na ordem do dia é a cha-
mada “subjetividade”. De fato, constitui-se um campo muito fru-
tífero e marca, de algum modo, o retorno do sujeito, depois de
grandes tentativas de naturalizar completamente o homem e de
“economicizar” a sociedade. Contudo, é salutar lembrar que o
termo solicita sempre uma precisão conceitual, dada sua possível
ancoragem em diferentes teorias e abordagens na Psicologia. In-
tuitivamente remete à identidade, termo que outrora ocupou um
espaço similar. Para Boaventura Santos, o termo subjetividade é
o equivalente pós-moderno da identidade e deve-se lembrar as
múltiplas circunstâncias pessoais e coletivas que a determinam.
É disto que trata este editorial da identidade de pesquisador
e alguns de nossos dilemas em face da publicação e do mundo real
do nosso trabalho. Neste ponto acho que podemos retomar o pon-
to de partida, com Dejours: 791
O segundo princípio das novas formas de organização do
trabalho, de gestão e de direção das empresas é a
individualização e o apelo à concorrência generalizada en-
tre as pessoas, entre as equipes e entre os serviços. [...] O
resultado destas práticas gerenciais é o isolamento de cada
indivíduo, a solidão e a desagregação do viver junto ou,
melhor ainda, a desolação no sentido que Hanna Arendt dá
ao termo (1951), isto é, o desabamento do solo, e que cons-
titui a razão pela qual os homens reconhecem entre si aquilo
que têm em comum, aquilo que compartilham e que se encon-
tra no alicerce da confiança dos homens uns nos outros
(DEJOURS, 2004, p. 34).

Prof. Dr. Pedro Humberto Faria Campos


Doutor em Psicologia Social pela Université de Provence,
Docente do Doutorado em Psicologia da UCG
e Editor deste número.

estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 787-792, set./out. 2008.

Referências
CAMPOS, P. H. F. et al. Sistemas de representação e mediação simbólica da violência
na escola. Educação e Cultura Contemporânea, 1, v. 2, p. 192-216, 2004.
DEJOURS, C. Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção, v. 14, n. 3, p.
27-34, 2004.
VELHO, G. Violência, reciprocidade e desigualdade: uma perspectiva
antropológica. In: VELHO, G.; ALVITO, M. Cidadania e violência. Rio de
Janeiro: Ed. da UFRJ/FGV, 1996. p. 10-24.
ZALUAR, A. A globalização do crime e os limites da explicação local. In: VELHO,
792 G.; ALVITO, M. Cidadania e violência. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ/FGV, 1996.
AS PERIGOSAS
CURVAS PLACEBO

FRANCISCO MARTINS

Resumo: propõe-se, neste trabalho, uma análise crítica de


três curvas esquemáticas de melhoria em terapia
(farmacológica, dessensibilização sistemática e o gráfico
teórico de Wolberg acerca de melhoria em psicoterapia) em
relação à análise do Efeito Placebo. Pergunta-se, a partir
da análise da literatura, se o Efeito Placebo, fazendo parte
do efeito terapêutico geral, não estaria correlacionado com
o efeito terapêutico psíquico em toda e qualquer terapia.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.

Entende-se que tanto o efeito Placebo quanto o efeito


psicoterapêutico estão presentes.

Palavras-chave: placebo, efeito placebo, processo terapêutico

O
Placebo é um fenômeno universal de toda e qualquer
teoria da clínica, tal como a transferência, a resis-
tência, a sugestão. Antes de a medicina e as demais
práticas terapêuticas adotarem o método científico, praticamen-
te toda a história da medicina foi a história do Efeito Placebo
no capítulo que diz respeito à terapêutica. Ao longo do século
XX, foi sendo instituída a utilização de grupos placebo para
controlar e avaliar com maior acuidade não somente drogas
que eram colocadas no mercado, mas também a prática clíni-
ca. Esse esforço tem a proposição de ser estendido a outras
práticas e efeitos terapêuticos. Analisaremos três curvas de 793
melhoria terapêutica com relação ao Efeito Placebo presente em três
modalidades diferentes de tratamento. O que é permanente é o fato
de que o Efeito Placebo se realiza a despeito do tipo de tratamento
realizado, o que nos propiciará interrogar de antemão se o Placebo
não é o próprio fundamento de toda e qualquer teoria geral de uma
terapêutica clínica.

A Curva 1 – PSICOFARMACOLÓGICA: CLORIDRATO DE


SERTRALINA COMO EXEMPLO DAS LIMITAÇÕES DO
TRATAMENTO ANTIDEPRESSIVO

Após a chamada década da mente e do cérebro, última década do


século XX, eis que encontramos os limites que existem nas promes-
sas de teorias de uma cura geral e irrestrita dos males humanos, sob
perspectivas neurobiológicas e farmacológicas somente. Na era Prozac
que vivemos, o Placebo, como convidado fiador da boa eficácia tera-
pêutica, passou a ser uma exigência, logo que se queira colocar uma
determinada molécula como medicamento para o público consumi-
dor. Os antidepressivos estão longe de liquidar totalmente o proble-
ma das depressões maiores ou menores, contudo constituem um
avanço substancial para minorar o sofrimento de muitos. Não obstante,
sabe-se das limitações da eficácia terapêutica quando num espectro
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.
total se constata que os antidepressivos fornecem uma taxa de melhoria
em torno de 65%, tal como vemos na curva apresentada em seguida.
70
percentual de melhora

60

50

40 D r og a
30 P la c ebo

20

10

0
0 1 2 3 4 5 6

Decorrer da Semana

Figura 1: Comparação entre a Melhora Ocorrida em Um Grupo que Recebeu


Droga e o Grupo que recebeu placebo.
Nota: o estudo ocorreu em seis semanas
Fonte: Figura presente de forma similar tanto na literatura sobre tratamento
794 antidepressivo quanto no sério trabalho de Keller (1998, p. 1664-1682).
O exame atentivo do Grupo Placebo e do Efeito Placebo, du-
rante todas as fases da pesquisa experimental acerca de drogas é
essencial e até obrigatório nos Estados Unidos da América. As exi-
gências da agência americana a este respeito (Food and Drug
Admnistration), no entanto, nem sempre tem sido seguida, mesmo
em pesquisas que anotamos ainda recentemente. Por exemplo, no
campo dos antidepressivos nem sempre o grupo controle Placebo é
considerado. Como determinar que o Efeito Placebo não está pre-
sente em um remédio que será colocado no mercado? É salutar
examinar a questão do Placebo no domínio das depressões, reco-
nhecida pela Organização Mundial de Saúde como uma das quatro
principais doenças incapacitantes do mundo (MURRAY, 1997).
Com é conhecido que a recorrência da depressão maior ou
melancolia é algo clássico, bom número de estudos farmacológicos
se dedica a mostrar a eficácia preventiva dos antidepressivos. E,
por incrível que pareça, por mais exigente que seja o design para
excluir o Efeito Placebo, ainda assim ele parece amplamente pre-
sente e, muitas vezes, mais efetivo do que se possa pensar. Em uma
revisão de pesquisas com antidepressivos, feitas no meio ameri-
cano, Kirsh (1998) credita quase todo o efeito dos antidepressivos
ao Placebo, chegando a apontar que pelo menos 50% do efeito de
melhoria pode ser atribuído a ele. Igualmente, podemos perguntar
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.

pelo Nocebo (Placebo que causa efeito nocivo), potencial exis-


tente em todo e qualquer tratamento e que se encontra abundante-
mente listado nas bulas de remédios como efeitos secundários
específicos de uma determinada molécula, mas que são também
potencialmente Nocebos, posto que não parecem existir ainda
critérios distintivos entre o último e os efeitos deletérios da subs-
tância propriamente dita. De toda maneira, parece existir uma
tendência para desconhecer, negar, ainda que de forma disfarçada,
a potente influência tanto do Placebo quanto do Nocebo.
Assim, a título de exemplo, tomemos uma pesquisa (KELLER
et al., 1998), largamente utilizada pela firma farmacêutica para a
venda do seu produto, que visava determinar, através de estudo
randomizado, duplo-cego, de grupos paralelos se o tratamento de
manutenção com cloridrato de Sertralina pode prevenir de forma
eficaz a recorrência da depressão no grupo de alto risco de pacien-
tes que apresentam depressão maior crônica. Observe-se que o es-
tudo é marcado pela questão da melhoria dos sintomas depressivos 795
mediante a avaliação de escalas de depressão para apreciação da
melhoria. Os resultados mostram que foi possível fazer uma
profilaxia significativamente maior contra as recorrências de depres-
são do que com o Placebo (5 casos [6%] dos 77 indivíduos do grupo
Sertralina versus 19 casos de recaída [23%] dos 84 pacientes do grupo
Placebo, p=0,002 para os testes log-rank das distribuições do tem-
po de recorrências). A apresentação dos resultados segue a idéia geral
de avaliação acerca da Sertralina que visa examinar a melhoria da
depressão dentro deste grupo. Existe uma retórica que envolve a
estatística e a avaliação. É acentuada, por exemplo, a profilaxia: não
recair em depressão. Caso escrevamos os resultados de uma outra
forma, acentuando os efeitos positivos alcançados, mostrando a
melhoria também no grupo Placebo, não somente com dupla nega-
ção que constitui o desenho da pesquisa: não sentir depressão e não
recair em depressão, veremos outros aspectos. Assim, a asserção
insinuada de que a Sertralina foi melhor que o Placebo pode ser
bastante relativizada. Senão, examinemos: 74% dos pacientes não
tiveram recaída quando utilizaram Sertralina e 50% dos pacientes
do Grupo Placebo não tiveram recaídas. Note-se, 50% é um número
bruto significativo, ainda mais se considerado o custo quase zero do
Placebo e a aparente falta de efeitos secundários teratogênicos, via
de regra já determinados por estudos em grupos animais. Outros-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.
sim, há um pressuposto de que o efeito terapêutico do Placebo ten-
de a ser inerte. Esta concepção cria graves dificuldades para o
trabalho, pois vemos os autores se surpreender com sua propalada
(mas errônea) falta de efeito terapêutico. Aparentemente, inexiste
qualificação do conceito de Nocebo. Falta também um grupo sem
tratamento, coisa impensável de um ponto de vista ético. Mesmo
que encontrado na população em geral, esta mesma população es-
tará cuidando de uma forma ou de outra das pessoas em depressão
e até dos potencialmente deprimidos. As psicoterapias, sejam elas
reconhecidas ou não, averbadas por diplomas acadêmicos ou por
práticas populares e culturais, também são um outro fator que deve-
ria ser controlado.
A honestidade dos autores e da revista, bem como qualquer
tendenciosidade voluntária e involuntária pode ser realmente com-
provada quando nos comentários é criado no artigo um item intei-
ro intitulado “Será que a Taxa de Recorrência de Depressão com
796 o Placebo foi incomumente baixa?”. Literalmente, existe quase
uma confissão de desconhecimento da força Placebo, e uma inge-
nuidade que fica patente caso apresentemos ao lado do resultado
positivo da Sertralina a potencialidade de complicações que exis-
te com uma droga antidepressiva: com freqüência, significativa-
mente maior em relação ao Placebo, ocorrem os seguintes sintomas
como boca seca, náuseas, diarréia, fezes amolecidas, disfunção
sexual masculina (principalmente retardo na ejaculação), tremor,
tontura, insônia, sonolência, sudorese e dispepsia.
“O reaparecimento de depressão nos pacientes tratados com
Placebo foi aproximadamente duas vezes maior do que o observa-
do nos pacientes tratados com Sertralina” [.....] (KELLER, et al.,
1998, p. 1666). Vemos nesta afirmação uma qualificação imensa
pró-sertralina e desqualificatória do efeito Placebo. Mas, a impor-
tância do Placebo é tão insofismável que os autores não resistem
e dizem no mesmo artigo:

É provavelmente digno de nota que quase 50% de uma amos-


tra de pacientes que entraram no estudo com uma média de
aproximadamente dez anos de depressão maior, ou 25 anos
de distimia, não tenham apresentado recorrências durante
18 meses de tratamento com Placebo. As consultas repetidas
do estudo e a duração do contato com os profissionais de saúde
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.

mental em cada consulta podem ter contribuído para a taxa


de recorrências relativamente baixa no grupo Placebo, mas
é possível que a cronicidade, se agressivamente tratada com
tratamento agudo e de continuação, seja simplesmente um
fator de risco menos importante de recorrências anteriores
(KELLER et al., 1998, p. 1671).

Para mitigar o efeito Placebo, os autores então dizem que a


recorrência é sempre maior nos grupos de pacientes que recebe-
ram Placebo (70-80%). Nada mais forte do que afirmar que, a longo
prazo, o Placebo funciona muito bem entre 20 a 30% dos casos,
chegando próximo da estatística clássica acerca do efeito positivo
do Placebo. Novamente uma estratégia de apresentação,
descontextualizando o Efeito Placebo da situação geral de trata-
mento bem como dos eventuais benefícios que ele pode trazer. Esta
é uma constante retórica no discurso farmacológico que não se
informou devidamente acerca do Placebo. 797
Ao contrário de fazer uma crítica cega aos métodos de inves-
tigação de melhoria de sintomas, estamos somente desejando uma
melhoria da qualificação do que seria um Placebo e também do
que seria tratar mais globalmente um paciente acometido de de-
pressão. Isto obrigou os pesquisadores mais modernos sobre a
eficácia de drogas antidepressivas a passar a controlar os chama-
dos Placebos respondentes. São aplicadas aos dois grupos Placebo
durante um certo período antes de iniciar o modelo típico. Eis que
o Placebo se introduziu como algo extemporâneo, relacionado à
reatividade prévia de certos sujeitos. Porém, é difícil encontrar
critérios para eliminar os Placebos respondentes dentro do grupo
que contêm a substância em exame.
Uma manobra metodológica tem sido utilizada no design
experimental. Usar o Placebo antes para detectar e excluir os que
são Placebos sensíveis. Isso realmente melhora bastante a porcen-
tagem de falsos positivos para a droga. Mas, de toda maneira, o
Efeito Placebo continua funcionando. (Notar que a percentagem
35% não é algo anódino). Existiria um potencial Placebo dentro
da própria reação ao medicamento Sertralina, já que o Grupo
Placebo melhorou em torno de 35% enquanto a Sertralina conse-
guiu índice em torno de 65%? Uma falsa questão poderia ser co-
locada: ainda que seja uma boa droga, devem ser descontados 35%
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.
de Efeito Placebo dos 65% totais de melhoria da prescrição da
Sertralina, tornando-se os 30% “efetivos” da Sertralina, então, um
efeito ainda bastante baixo comparado com remédios como insu-
lina, curarizantes, morfina? Essa questão é fraudulenta, pois não
existe meio de verifica-la, já que o efeito farmacológico e Placebo
imiscuem-se dentro do que chamamos medicamento. O uso de
estatística mais diferenciada, por exemplo análise de correlação e
regressão múltipla, não liquida a ocorrência do fenômeno, mes-
mo quando encontramos p< 0,01. O pesquisador deve responder
pelo viés do Grupo Placebo e do próprio Efeito Placebo do medi-
camento que esteja presente no experimento. A segunda conseqü-
ência para o design experimental continua sendo a falta de garantia
de que o Placebo não continuaria agindo e a necessidade de for-
mular uma teoria mais aprofundada de como se dão o efeito Placebo
e os processos gerais de cura. Uma teoria da cura terapêutica tor-
na-se aparentemente necessária e urgente ainda que seja para sus-
798 tentar o projeto de controle das teorias experimentais.
O mais inquietante para um caráter obsessivo que vise contro-
lar em absoluto todas as variáveis é a sempre incerta presença da
ação Placebo ao longo do tempo. Agora ele não está atuando, mas
quem garante que doravante ele não passe a atuar? Doravante pode
ser também de forma intermitente, contínua, excepcionalmente uma
vez, ou senão... Ninguém pode dar garantias absolutas sobre o fu-
turo e menos ainda sobre o resultado final de um tratamento qual-
quer. E agora que o paciente sofreu uma pequena melhoria, será que
a Natura medicatrix não está se ocupando de completar o restante
da melhoria? Acompanhar, então, uma melhoria súbita pode ser
essencial para o entendimento dos processos de cura entre os huma-
nos. Também, examinar as mais diversas possibilidades que este-
jam contribuindo direta ou indiretamente para melhoria, incluindo
o Efeito Placebo, parece o mínimo que um clínico possa exigir dos
projetos experimentais. Isso implica não cair em falsas pressuposi-
ções, tal como aquela que assevera que médicos, por conhecerem
melhor os remédios, não são Placebos respondentes. Paradoxalmen-
te, e contra uma certa racionalidade que nada tem a ver com a clí-
nica efetiva, a pressuposição mostra que médicos podem ser bons
Placebo respondentes. Diferentemente, a asserção de que as crian-
ças são bons Placebo respondentes pode ser falsificada em outra
situação e em outro problema. Não podemos realmente exigir dos
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.

médicos que, distribuindo saber para si mesmo e aos outros, se


curem por este meio. Eles precisam de objetos que os aliviem e
salvem, ainda que Placebos. Saber e curar são verbos diferentes e
perigosos de serem confundidos na clínica cotidiana. As crianças
sem conhecimento científico podem ser completamente intocáveis
por este mesmo objeto Placebo. Mas, tanto em um caso como
noutro, em um ser bem informado ou num desinformado de tudo,
eis que o Placebo pode (ou não) funcionar. Um princípio de incer-
teza se instala.
É gritante, porém, no artigo citado, a desconsideração do
fenômeno Placebo. Entendemos que a sua presença inequívoca,
como um fenômeno até matematizável, obriga a repensar os pro-
cessos de cura que estão presentes mais além da abordagem so-
mente farmacológica de um substância. Logo que esta passa a ser
um medicamento com um nome, prescrito por uma especialista
autorizado, no caso o médico, outras variáveis resistentes no la-
boratório experimental se fazem presentes. 799
A Curva 2 – TÉCNICA TERAPÊUTICA E PLACEBO: O
CASO DA DESSENSIBILIZAÇÃO SISTEMÁTICA E A
FALTA DE GRUPO PLACEBO

Placebo e psicoterapia são dois temas essenciais para a clíni-


ca psicológica. É importante trabalhar esses dois temas em con-
junto, evitando atribuir pejorativamente o sinônimo charlatanismo
à palavra Placebo. Este desprezo por um fenômeno inerente à
prática clínica vem desde as origens da psicoterapia e da sua
oficialização adquirida pela psicanálise principalmente. Placebo
e sugestão se tornaram freqüentemente fenômenos rejeitados por
toda e qualquer psicoterapia e ou técnica terapêutica oficial, em
maior ou menor medida. Para não parecer maçante e não dirigir a
questão somente do ponto de vista de teorias que não reivindicam
fortemente pressupostos de cientificidade, visando também que-
brar falsas ilusões cientificistas no campo da técnica terapêutica
psicológica, é suficiente analisarmos a dessensibilização sistemá-
tica. Essa técnica, proposta com base em experimentação ampla-
mente comprovada em laboratório (WOLPE, LAZARUS, 1996;
WOLPE, 1969), divulgada em textos de psicoterapia nas últimas
três décadas como sendo altamente confiável, ao ser comparada
por procedimentos Placebo em anos posteriores (KAZDIN,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.
WILCOXON, 1976; ZITRIN, KLEIN, WERNER, 1980), não
mostrou diferenças significativas no dia-a-dia da clínica, confor-
me está resumido na Figura 2. A falta de controle da eficácia de
uma técnica assumida como científica, posto que derivada da si-
tuação experimental clássica, foi um engano que deve ser corrigi-
do e que traz à tona a grande importância de uma teoria da clínica
e do Efeito Placebo inerente a esta atividade.
O grande médico árabe Avicena já advertia que a cura se faz
por meio de palavras, ervas e faca. Pensamos que esta seqüência
sábia deve ser resguardada. Uma vez que remédios e cirurgias são
raramente usados por psicólogos, entendemos que Avicena já ante-
cipava o fato de que é possível curar por meio de palavras. Deparamo-
nos de imediato com dois grandes fenômenos sistematicamente
descartados das apreciações na área de clínica psicológica que es-
tão intimamente ligadas com os atos de fala: a sugestão e o Placebo.
A sugestão tem sido trabalhada ao longo da história da psicanálise
800 e da psicologia, de forma persistente. Já o Placebo foi tratado espe-
cialmente por cientistas e clínicos relacionados com o positivismo
lógico, mais do que pelas teorias psicológicas difundidas. Assim,
tratar do Placebo nas suas relações com a psicoterapia abre pers-
pectivas novas e únicas como fenômeno efetivo.
10

9
avaliação

5
pré -te ste pós-te ste acompanhame nto
testes
cognitivo e spe cífico cognitivo ge ral
alta e spe ctati va placebo ontra-condici oname nto
se m tratamento controle

Figura 2: Grupos x Interação dos Testes para os Valores da Escala de Aproximação

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estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.

avaliação

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pré -te ste pós-te ste acompanhame nto
testes
cognitivo e spe cífico cognitivo ge ral
alta e spe ctati va placebo ontra-condici oname nto
se m tratamento controle

Figura 3: Avaliação de Melhoria em Diversos Grupos de Psicoterapia Cognitiva


e Comportamental

Examinemos, então, estudos sobre que tipos de fatores são


responsáveis pela efetividade (ou melhoria) psicoterapêutica.
Alguns defendem que existem fatores comuns a qualquer tipo de
terapia (os denominados fatores não-específicos), como expecta- 801
tivas do paciente, crenças no ritual de cura e relação terapeuta-
paciente, que são mais potentes para a promoção da melhora do
que fatores específicos, como as técnicas de diferentes tipos de
terapias (SHAPIRO, 1979; SRUPP, HADLEY, 1979). Outros es-
tudos, porém, defendem que tratamentos específicos obtêm bene-
fícios diferentes de acordo com a especificidade deles. Tais estudos
são mais recentes e são feitos com base na construção de uma
estratégia de pesquisa própria para o objeto de estudo, ou seja,
bastante específica. Alguns deles mostram que diferentes tipos de
desordens sexuais requerem diferentes intervenções (MASTERS;
JOHNSON, 1968) ou que técnicas comportamentais específicas
têm sido efetivas no aumento da atividade social e na redução de
sintomas negativos em esquizofrênicos (MAY, 1968; HARTLAGE,
1970). Frances, Sweeney and Clarkin (1985) criticaram reviews
defensoras dessas duas visões extremistas. Tais autores nos lem-
bram a dificuldade de fazer pesquisa em psicoterapia e afirmam
que tanto fatores não específicos como específicos são importan-
tes para a mudança na terapia. Encontrar resultados específicos
depende do uso de uma metodologia também específica, ou seja,
que é própria para um determinado tratamento de um tipo de pa-
ciente e que tem medidas específicas para ser avaliada. Logo, à
medida que isso for feito, será possível encontrar os efeitos espe-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.
cíficos de fatores considerados como não específicos. Esses auto-
res discutem, ao longo do artigo, formas de realizar estudos com
uma maior capacidade de isolar efeitos específicos. Entendemos
que este tipo de crítica é muito importante, mas revela uma crença
na capacidade de um dia ser possível controlar todas as variáveis.
Ao contrário, pensamos que uma teoria da clínica tomaria como
princípio a impossibilidade de tudo controlar e principalmente de
isolar experimentalmente todos os fenômenos. Fica desde já evi-
dente que em bom número de procedimentos ditos experimentais
ocorre uma desnaturação e violação da situação típica de
psicoterapia.
Tradicionalmente, psicoterapias e Placebos são considerados
como pertencentes a dois tipos distintos de classes de tratamentos.
As terapias têm sido pensadas como forma de tratamento com
mecanismos específicos, baseados em conceituação teórica, ao passo
que os Placebos têm sido vistos como fatores comuns à maioria das
802 terapias, e portanto, menos específicos. Para esclarecer a natureza
dos argumentos que dizem respeito ao uso de controle Placebo em
pesquisas de psicoterapia, é importante distinguir entre duas propo-
sições do delineamento de pesquisa: a investigação do que é efeti-
vamente terapêutico, e a investigação dos processos e mecanismos
terapêuticos. Numerosos estudos têm achado tratamentos Placebo
tão efetivos como terapias supostamente baseadas em mecanismos
específicos, como a dessensibilização sistemática (HOLROYD,
1976; KIRSCH, HENRY, 1977; KIRSCH et al., 1983;
MCREYNOLDS et al., 1973).
Para determinar o uso do tratamento Placebo em estudos de
psicoterapia, estudos de revisão bibliográfica, de forma crítica, nos
mostram-nos a presença do Efeito Placebo nas mais diversas situ-
ações objetiváveis de psicoterapia (HORVATH, 1988). Os critérios
de inclusão de terapia como Placebo foram: a condição ou grupo
considerado pelos autores ou o tratamento Placebo ou a “atenção
(cuidado)-Placebo” ou então como variáveis terapêuticas não-es-
pecíficas. Um total de 39 estudos foi selecionado por incluir o uso
do Grupo Placebo e foram categorizados em 6 tipos de grupos di-
ferentes. Os grupos foram definidos como medicamento Placebo,
Placebo teoricamente inerte, componente de controle Placebo, aten-
ção Placebo, grupo de aconselhamento e discussão Placebo e tera-
pias alternativas Placebo. O grupo de medicamento Placebo (20%
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.

da amostra), no qual foi usado o clássico uso de drogas inertes ou


tratamentos físicos se baseia em mecanismos fisiológicos embora
possam ter efeitos que influenciem no tratamento (ALETKY,
CARLIN, 1975; BARKELEY et al., 1984; CHAMPMAN,
KNOWLES, 1964). Conseqüentemente, as variáveis Placebo po-
dem não ser sempre semelhantemente distribuídas entre os grupos
contrastados. O grupo Placebo teoricamente inerte (18% da amos-
tra) apresenta o ponto de vista de que a teoria pode ser testada. Nesses
estudos os tratamentos e Placebos contêm poucos elementos espe-
cíficos e métodos que possibilitem a fácil replicabilidade. Nem
podem os Placebos ser considerados como formas alternativas de
tratamento. Esses Placebos continham componentes que estavam
presentes também em tratamentos contrastados.
O grupo componentes de controle Placebo (18% da amos-
tra), em contraste com o grupo de Placebo teoricamente inerte,
que contém poucos e específicos elementos inertes, é comple-
xo, com muitos elementos que podem ser terapeuticamente 803
ativos. Nestes estudos eles incluíram relaxamento, discussão
de problemas, sugestão de soluções, entre outros elementos.
Este tipo de Placebo pode conter um número de elementos que
podem não ser terapeuticamente ativos, de acordo com a teoria
psicoterápica investigada, mas pode conceber funções em con-
cordância com algumas terapias alternativas. De alguma ma-
neira, o controle Placebo pode ser considerado como forma
alternativa de psicoterapia e é, sem muita atenção, equiparado
à terapia e ao Placebo como elementos comuns. Estes estudos
representaram 44% da amostra e podem ser classificados em 3
tipos. O primeiro refere-se à atenção Placebo (26% da amos-
tra), nestes estudos de Steffen (1975) o grupo de tratamento
compromete-se em um feedback de relaxamento assistido, en-
quanto o grupo controle Placebo se compromete em contem-
plação. Embora a contemplação possa ser terapeuticamente
inerte, pode ter resultados semelhantes à medicação Placebo e
pode ser considerado como uma terapia alternativa. No grupo
de aconselhamento Placebo (5% da amostra), os sujeitos rece-
biam grupo suporte. Nenhum tipo particular de grupo
terapêutico foi utilizado. Os Placebos que formam terapias
alternativas (13% da amostra) podem freqüentemente incluir
múltiplos componentes. Em um estudo de dessensibilização de
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.
animais fóbicos, choques e falsos feedbacks, as melhoras ocor-
reram igualmente em grupos Placebo (LICK, 1975). Embora
este tratamento possa ser teoricamente inerte, os autores admi-
tem que o falso feedback pode ser considerado terapeuticamente
ativo, por estar de acordo com algumas alternativas teoricamen-
te legítimas. Já menos satisfatórias foram as condições não-
específicas de controle que envolviam múltiplos componentes
entre os quais estão a produção de desenhos na gestalt terapia,
lócus de controle, análise transacional e exames de razões
intrapsíquicas entre outras (BANDER et al., 1975). Estes ele-
mentos Placebo foram comparados com treinamento de papéis,
uso de incentivos, entre outros. Condições Placebo nestas ca-
tegorias são menos satisfatórias porque são formas ou contêm
componentes legitimamente terapêuticos e porque não existe
uma atenção da parte dos investigadores de equiparar a terapia
e os grupos Placebo a elementos comuns. A título de resumo
804 apresentamos os resultados gerais na Tabela 1.
Tabela 1: Freqüência do Controle Placebo por Tipos

Pode ser notada, de imediato, a inexistência de trabalho que


contemple procedimentos terapêuticos que julgamos mais com-
plexos, demorados, processuais. A classificação acima tem a ca-
racterística geral de serem os elementos fenômenos atomizáveis.
Com a ajuda de Wolberg (1972), poderíamos apontar que os tipos
de investigação acerca do Efeito Placebo em terapia envolvem
principalmente as terapias do tipo suporte e reeducativa. Terapias
chamadas por Wolberg de Reconstrutivas, em que é buscada a
reestruturação do sujeito, como em Psicanálise, Análise Existen-
cial, Terapia Jungiana e em outras citadas no clássico americano
de psicoterapia, estão virtualmente excluídas deste tipo de inves-
tigação. Entendemos, assim, na breve investigação prévia, que
tratamos Placebo e psicoterapia com a importância de tentar
elucidar as relações do Placebo no processo de cura e piora em
terapias do tipo reconstrutiva, em específico tomando a psicaná-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.

lise freudiana como corpus discursivo maior a ser analisado.

A Curva 3 – TERAPIAS RECONSTRUTIVAS E EXCLUSÃO


DISCURSIVA DO PLACEBO

O tratado clássico acerca da técnica de Psicoterapia de Lewis


Wolberg apresentou a grande qualidade de sublinhar a existência,
no campo das psicoterapias, do chamado Efeito Placebo que ele
acaba por chamar dúbiamente de influência Placebo. Antes de es-
clarecermos esta dubiedade, entendemos ser necessário apresentar
alguns dos principais pontos deste importante trabalho, asseguran-
do desde já que a concepção de Wolberg não é modificada. Wolberg
dizia que as pesquisas em psicoterapia ainda não alcançaram um
grau confiável quanto à aplicação de um controle experimental para
a análise da melhora psicoterapêutica. Entendemos que esta propo-
sição geral continua de pé neste início de século XXI. Apesar disso,
ele acreditava que já era possível, através de uma repleta literatura 805
que traz resultados expressivos, comprovar a eficácia da psicoterapia
e de suas contribuições para a melhora do paciente. Para tanto, já
entendia que toda a ajuda, aconselhamento e situação psicoterápica
abarcam elementos de cura automáticos, que são emanados durante
a relação paciente-terapeuta. Incluem-se aí variáveis como influên-
cia de Placebo, catarse emocional, relacionamento idealizado, su-
gestão e dinâmica grupal, em um primeiro tempo, seguida de outras
variáveis como Insight, Interpretação, Perlaboração em Processo,
Experiências reaprendidas corretamente e Resolução da dependên-
cia. Wolberg desenvolveu um gráfico que, apesar de não trazer dados
estatísticos, é muito interessante. Ele ilustra o curso das psicoterapias
e as várias mudanças que podem ocorrer com o sujeito no sentido
da “melhora”. O gráfico comporta todas as variáveis citadas acima,
conforme pode ser apreciado na Figura 4.
Pode ser percebido que nas fases iniciais ocorre uma melhora
imediata e abrupta, envolvendo tanto a remissão de sintomas quan-
to mudanças no comportamento, decorrente de variáveis tipo influ-
ência Placebo, catarse, idealização do terapeuta, sugestão e dinâmica
grupal. O gráfico ensina de forma excelente que as melhorias de
início de terapia são muito falaciosas, pois, se o tratamento é inter-
rompido nessa fase, o que se observa são apenas resultados signifi-
cativos quanto à remissão dos sintomas. Caso a terapia não seja
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.
interrompida nessa 1ª fase, a continuação delafaz emergir então os
processos de transferência e resistência, que acabam por reduzir a
melhora sintomática e as mudanças comportamentais. Esse movi-
mento corresponde à queda nas curvas do gráfico. Corresponde
também a uma qualificação da chamada influência placebo porque
estaria presente algo misturado com as outras variáveis citadas e, o
nosso ver, principalmente com o conceito e sugestão. Por fim, com
a continuação da terapia e com o manejo da transferência, a resis-
tência tende a diminuir, possibilitando novamente um aumento da
remissão dos sintomas e das mudanças comportamentais, acompa-
nhadas de uma significativa mudança de personalidade,
correspondendo a subida gradual encontrada no gráfico.
Apesar do esquema anterior não elucidar dados estatísticos,
Wolberg apresenta uma segunda tabela que pode mitigar a exigên-
cia positiva de tratar de forma estatística os resultados de uma
psicoterapia. Mostra a Tabela 2 uma estimativa de resultados
806 terapêuticos em diversas situações de ajuda.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.

Figura 4: Representação das Curvas de Melhora e Tratamento Dentro de Alguns


Modelos Psicoterápicos 807
Tabela 2: Estimativa dos Resultados Terapêuticos em Diversas
Situações de Ajuda

Notas: * Em caso de terapeutas não treinados por técnicas profundas, o quadro


aproxima-se de 20%.
**
O mesmo resultado é obtido com consultores e terapeutas não habili-
tados e despreparados.

A Tabela 2 traça uma comparação entre diversas situações de


ajuda terapêutica e o processo de melhora espontânea em relação
às diversas possibilidades de mudança: remissão dos sintomas,
mudanças de comportamento e personalidade. É interessante per-
ceber a relevância dos resultados encontrados relativos às terapi-
as efetivas em comparação com as outras formas de ajuda. Isso
demonstra a importância e seriedade desses procedimentos, já que,
quando é ineficaz, apresenta resultados menos expressivos do que
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.
os obtidos nas situações em que ocorre melhora espontânea.
Entendidos os termos dados numa vista panorâmica da curva
delineada por Wolberg, podemos nos voltar para o nosso objeto
principal que trata de Placebo. Essa curva Placebo é mostrada como
presente tão somente no início. A sugestão e a catarse que a acom-
panham são vistas como algo que não pode trazer cura permanen-
te. Essas dimensões não estariam teoricamente presentes em outras
fases de uma terapia reconstrutiva bem conduzida e feita por um
psicoterapeuta treinado. Trata-se evidentemente de uma fantasia
apolínea de Wolberg. Placebo, sugestão, catarse bem como dinâ-
mica grupal e aquisição de autoridade e desautorização do terapeuta
ocorrem ao longo de todo e qualquer processo de tratamento e,
mais ainda, em psicoterapia.
Não sejamos porém demasiado exigentes com Wolberg e
atenhamo-nos mais especificamente ao termo Placebo que foi
magnificamente citado como presente em todas as psicoterapias,
808 fato que por si só já mereceria o nosso reconhecimento. Wolberg
cita o Placebo associado com a palavra influência. Sugestão e
influência são quase sinônimos, historicamente: o entendimento
de Wolberg sobre Placebo é algo então mais alargado do que vi-
mos na primeira curva farmacológica e mais alargado e positivado,
ainda, como conceito, do que o conceito de placebo procedimen-
to, tal como vimos nas curvas de dessensibilização sistemática. O
termo “influência” foi escolhido em detrimento, por exemplo, do
termo “efeito” que tem conotação menos relacionada com suges-
tão, hipnose.
Assim, vemos poder existir um contínuo conceitual entre
sugestão e placebo, caso tentemos conceituar placebo e suas va-
riações dependentes do investigador. Em um sentido estrito, o
conceito “placebo” necessitaria da presença de uma substância
administrada como medicamento, mas que seria sem ação ou ina-
tiva de um ponto de vista do mecanismo de ação farmacológico.
Essa definição nos parece mais próxima das exigências dos
farmacologistas que pensam no Placebo como uma substância que
será introduzida no corpo, imitando uma outra que teria efeito. Ou
seja, o Placebo tem materialidade, resistência, pertence à res ex-
tensa, tal como pode notado na curva placebo número 1. Está assim
bem próximo da situação experimental em que passou a ser ava-
liado através do conceito de reação placebo “Um placebo usado
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.

como controle em estudos experimentais foi definido como uma


substância ou procedimento sem ação ou atividade específica para
a condição que está sendo avaliada” (SHERMAN ROSS;
BUCKALEW, 1983, p. 458). Vemos na curva de dessensibilização
sistemática que não se trata mais somente de uma substância, mas
de um procedimento. O termo que passa a ser privilegiado não é
reação, mas, sim, efeito placebo. A definição de Shapiro (1968)
amplifica o espectro do que ele chama de placebo mais além de
uma substância: passa a incluir procedimentos ou mesmo o termo
tratamento de forma ampla:

any therapy or component of treatment deliberately used for


its nonspecific psychological or psycho physiological effect
or used for its presumed specific effect on the a patient,
symptom, or illness though without specific activity for the
condition being treated (SHAPIRO, 1968, p. 659-95).
809
Evidentemente vemos duas definições advindas de meios bem
diferentes. A primeira é uma definição advinda mais do contexto
experimental, e a outra, do contexto cultural e da clínica. Certa-
mente Wolberg aceitaria a definição de Shapiro. Um exemplo
interessante na literatura psicanalítica internacional, a ser segui-
do, são os trabalhos de interligação da teoria psicanalítica clássi-
ca de Shapiro e Shapiro (1997) entre Placebo e psicanálise e a de
Ollinheimo e Vuorinen (1999), que aceitam amplamente a defini-
ção advinda mais do campo clínico através do termo efeito placebo.
A curva psicoterapêutica de Wolberg tem a qualidade de
reconhecer o Placebo como parte de toda e qualquer psicoterapia.
Implica, também, entender que psicoterapia não envolve somente
o uso da palavra. O mundo das psicoterapias envolve também
manipulações físicas, procedimentos, solicitação de produção de
sons (por exemplo, mantras), instrução que pode provocar relaxa-
mento muscular, pressão moral, enfim todo um universo de práti-
cas que promovem uma modificação na forma de reagir, processar
o que as pessoas sentem, pensam, como se comportam, submeti-
das a um código de ética profissional. Ao mesmo tempo, existe na
curva de Wolberg uma mistura entre Placebo e sugestão através
do uso do termo influência. A diferença entre Placebo e sugestão
não fica porém restrita às definições que demos antes, ela reper-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.
cute mais além. Explicitemos: ainda que exista um elemento físi-
co-material no placebo, que é introduzido na definição estrita, uma
possível sugestão sempre pode estar presente. Uma repercussão
importante é que as teorias experimentais de placebo (reação
placebo) se utilizam, via de regra, de teorias do estímulo, tal como
vemos na sua origem em Sherrington. Já as teorias de psicoterapia
e de sugestão se utilizam amplamente de teorias do símbolo e de
suas variações semânticas e são aparentadas tal como as teorias
do signo e do significante, entre outros termos. O Placebo na cur-
va de Wolberg está também situado entre as teorias do estímulo e
as teorias do símbolo.
De igual maneira, verificamos que, na psicanálise clássica
freudiana, em especial nas leituras e trabalhos que realizamos
acerca dos processos terapêuticos, o fenômeno Placebo parece se
imiscuir sem diferenciação do resultado final do processo. Em
outras palavras, o efeito dito Placebo aparece como parte do pró-
810 prio modo de fazer terapia ou senão, pura e simplesmente, não é
considerado. É importante para nós, no aprofundamento das pes-
quisas realizadas até o momento, esclarecer a questão do Placebo
dentro da teoria e prática psicanalítica como modelo para o enten-
dimento dos processos de cura psicoterapêutica.
Parece-nos essencial fazer uma articulação, aquela já feita por
Freud (1905, p. 306) quando falava da magia das palavras e que
temos estudado através das teorias dos atos de linguagem:

Agora, também começamos a compreender a ‘mágica’ das


palavras. As palavras são o mais importante meio pelo qual
um homem busca influenciar outro; as palavras são um bom
método de produzir mudanças mentais na pessoa a quem são
dirigidas. Nada mais existe de enigmático, portanto, na afir-
mativa de que a mágica das palavras pode eliminar os sinto-
mas de doenças, e especialmente daquelas que se fundam em
estados mentais.

A interrogação sobre como a magia das palavras pode operar


na cura do paciente, ou outras situações como esta, continua apa-
rentemente sendo um dos cernes da psicoterapia e de nossa inves-
tigação ao longo dos anos. Sendo mágicas, tal como um Placebo,
as palavras certamente têm um vínculo com a melhoria (Placebo)
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.

ou com a piora (Nocebo). Platão (Fedro) pôde recorrer aos dife-


rentes efeitos de sentido desse termo, seja o de “filtro”, “poção
mágica”, seja o de “remédio”, seja, ainda, o de “veneno. Quais
palavras pertencem a um efeito desta ordem? Tudo o que é
psicoterapia é essencialmente Placebo? Um Placebo pode ter um
efeito permanente? Esclarecer como essa magia se faz com base
no estudo da teoria psicanalítica nos parece de grande relevância
não somente para a psicanálise, mas para qualquer terapia em geral
que utilize a fala como elemento essencial”.

CONCLUSÃO

Temos uma proposição geral por detrás do questionamento


que fizemos sobre as três curvas placebo estudadas: Placebo, re-
ação placebo, efeito placebo. Ainda que seja apreciado por uma
curva de reação farmacológica, de efeito psicoterapêutico ou em
uma curva de influência psicoterapêutica, necessita de uma teoria 811
geral da clínica. Estudar as três curvas nos levou também a vis-
lumbrar o capotamento de toda e qualquer avaliação sobre a efi-
cácia e de teorias que se vangloriam de ser melhores que outras.
O Placebo, com suas perigosas curvas, cria problemas para certe-
zas e aparências em terapia. Parece com a burguesia que se van-
gloria nos salões, enquanto a realidade de quem realmente faz fica
relegada segundo plano. O Placebo, ainda que tomado como ralé,
emerge no mundo do fazer clínico como pertencente ao mundo de
todos, mesmo de linhagens e pretensões diferentes.

Notas
1
Gráfico presente de forma similar tanto na literatura acerca de tratamento
antidepressivo quanto no sério trabalho de Keller, M. et alli; “Maintenance
Phase Efficacy of Sertraline for Chronic Depression – A randomized Controlled
Trial” in The Journal of the American Medical Association, Novembro 18,
1998 – Volume 280, Número 19, pp. 1665-1672.
2
Murray C. J.; Lopez, A. D.; “Global mortality, disability, and the contribution
of risk factors: Global Burden of Disease Study” in Lancet, 349, pp. 1436 –
1442, 1997.
3
Irving Kirsh; Guy Saoirstein; “Listening to Prozac but hearing Placebo: a
metanalysis of antidepressant medication” in Prevention and treatement, 1,
junho 1998.
4
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Abstract: Placebo Effect has been banished along the positivist history
of clinical investigations, either pharmacological, psychological or
psychotherapeutic investigations. In this paper, it is proposed a critical
analysis of three schematic curves (pharmacological, systematic
dessensibilisation and Wolberg’s theoretical graph about
improvements in psychotherapy), which show the improvements in
psychotherapy related to the analysis of the Placebo Effect. By
analyzing the literatures, it is examined if the Placebo Effect, belonging
to the general therapeutic effect, would be correlated to the psychical
therapeutic effect of all and every therapy. It is understood that the
Placebo Effect and the Psychotherapeutic Effect are potentially
present. First, an example with Placebo Effect in treatments using
anti-depressives is examined. From the resulting 35% of Placebo
Effect, it is argued that it the Placebo Effect should not be unknown
or rejected by the use of rhetorical maneuvers or disqualifications of
anti-depressive treatments. A second examined example is about
systematic dessensibilisation which has its therapeutic effect evaluated
by the use of comparison with the Placebo procedure. Literature of
the last two decades shows that systematic dessensibilisation has not
proven to be a better efficacy compared to “Placebo
dessensibilitation”. More than a profitless critic to this important
technique, this paper seeks to join the clinical field and to point out
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 793-816, set./out. 2008.
the existence of common matters in all and every application of
psychotherapy. A third graph curve, showing improvement in
psychotherapy by Wolberg (as either support, enlightenment or
reconstructive), is examined. This wisely questions the presence of
Placebo Effect in all and every therapeutic act, which enables us to
point out the need to enlighten the relationship between words and its
specific therapeutic effect on future works.

Key words: placebo, placebo effect and therapeutic procedure

O presente trabalho contou com a ajuda do CNPq e pertence ao Grupo de Traba-


lho da ANPEPP acerca de Psicopatologia e Psicanálise.

FRANCISCO MARTINS
Professor no Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília. Psicólogo.
816 Psiquiatra. Psicanalista.
WITTGENSTEIN
PSICÓLOGO?

JOSELÍ BASTOS DA COSTA

Resumo: Wittgenstein critica a Psicologia de sua época,


particularmente o mentalismo formulado numa perspectiva
essencialista e o uso de uma linguagem fisicalista para des-
crever a vida mental. Wittgenstein acentua o caráter social
da significação das vivências subjetivas, enfatizando a com-
preensão da vida mental e da causalidade psíquica em fun-
ção do contexto social e da cultura, influenciando a
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 817-824, set./out. 2008.

renovação crítica da Psicologia.

Palavras-chave: Wittgenstein e Psicologia, linguagem e Psi-


cologia, linguagem e construtivismo social

L
udwig Wittgenstein encerra suas Investigações Filo-
sóficas – principal texto de sua filosofia madura e que
caracteriza o segundo Wittgenstein – com uma obser-
vação desencantada e irônica sobre a Psicologia, afirmando que
“Existem na Psicologia métodos experimentais e confusão
conceitual. (Como, noutro caso, confusão conceitual e métodos
de demonstração.)” (WITTGENSTEIN, 1979). Na verdade,
quase toda a sua obra está eivada de referências, sempre em tom
crítico, à Psicologia. Mas a que Psicologia, ou melhor dizendo,
a quais Psicologias ele se refere e por que as critica? 817
Comecemos pela Segunda Questão para Depois Passar
à Primeira

A principal estratégia do homem para lidar com o mundo é


representá-lo por meio de um comportamento simbólico, a fala e
de seu produto, as expressões lingüísticas. Mas o que faz os ho-
mens entenderem-se sobre suas representações do mundo? Exis-
tiria nos homens algum aspecto subjetivo anterior à linguagem que
lhes permitiria validar o seu conhecimento do mundo ou este co-
nhecimento resultaria de um acordo permanentemente renovado
entre eles quanto ao significado dos elementos usados para repre-
sentar o mundo?
A própria questão, assim formulada, já traz em si as possibi-
lidades de resposta. Numa perspectiva, o significado de uma pa-
lavra é dado a partir de elementos concretos ou abstratos exteriores
à linguagem, pertinentes ao mundo físico ou mental. As palavras
são então entendidas como definidas a partir de elementos que
existem independentemente da existência de expressões lingüís-
ticas que os identifiquem. O significado é dado mediante o esta-
belecimento de uma relação entre a palavra e um objeto ou
fenômeno qualquer, e a palavra seria uma “representação” desse
objeto ou fenômeno. Já numa outra perspectiva, não é possível
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 817-824, set./out. 2008.
entender palavras a partir de sua relação com coisas e fenômenos
do mundo físico ou mental, uma vez que as palavras só podem ser
definidas em seu significado pela maneira como se faz uso delas,
pelo modo como uma determinada comunidade lingüística as usa.
Ludwig Wittgenstein, em contraposição a seu Tractatus
Logico-philosophicus, que de certo modo se situava na primeira
posição, diz em suas Investigações Filosóficas que o significado
de uma expressão lingüística não decorre de sua vinculação a um
objeto e sim do seu uso específico por uma comunidade lingüís-
tica. Para ele, “… a significação de uma palavra é o seu uso na
linguagem”1. A linguagem é por ele concebida como uma institui-
ção, um produto social2.
O texto Investigações Filosóficas é na realidade, em grande
parte, dedicado ao combate à compreensão da linguagem em ter-
mos nominativos e de correspondência entre palavra e mundo. A
linguagem é nele concebida como um “jogo”, com suas regras e
818 fins evidentes nas combinações e efeitos das palavras. A atividade
lingüística é apenas um tipo de atividade humana, relacionada com
os outros tipos de atividades, num contexto determinado, sob certas
condições físicas específicas e exercido em função das necessida-
des humanas. O problema do significado das palavras é, então,
expresso em termos de sua adequação como resposta num sistema
de respostas integradas e em termos de suas funções na vida hu-
mana (POLE, 1966).
Para analisar o modo como a linguagem funciona e seus sig-
nificados, Wittgenstein desenvolveu o conceito de “jogos de lin-
guagem”, que é definido pelos modos de uso das palavras; ele faz
uso de exemplos simplificados de “jogos de linguagem”, mas estes
jogos podem ser complexificados indefinidamente pela anexação
de outros elementos3. Este conceito é aplicado a todo conjunto
integrado de usos de elementos lingüísticos que forme um com-
plexo dentro do corpo de uma linguagem natural. Decorre daí que
cada uso específico das palavras consiste num jogo de linguagem
específico, e, desse modo, uma linguagem, natural não é mais que
um nexo de “jogos de linguagem”. Fora dos jogos de linguagem
as palavras não podem possuir significado (POLE, 1966).
É neste sentido que o uso de uma palavra define o seu signi-
ficado. Enquanto articulação de jogos, a linguagem só pode ser
entendida como conjunto de regras estipuladas por convenções de
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 817-824, set./out. 2008.

uso que definem, delimitam e integram os seus diversos elemen-


tos lingüísticos. Mas o uso a que Wittgenstein se refere não é o
“uso fáctico” da palavra e, sim, o seu “uso correto”, entendido como
a concordância com as regras de uso da palavra estabelecidas e
praticadas por uma comunidade lingüística4. Uma palavra pode
ser usada, de fato, de diversas maneiras incompatíveis mas ape-
nas o seu uso correto, quando se cumprem certas condições deter-
minadas, relativas à sua aplicação a uma ou outra situação de uso
e a um ou outro objeto, é que permite uma delimitação adequada
de seu significado.
A adequação da palavra a essas condições implica na obser-
vância de uma série de elementos que delimitam o uso significa-
tivo da palavra, quais sejam gestos, expressões faciais, ou mesmo
circunstâncias de uso estabelecidas pela comunidade lingüística e
adquiridas através do treino e da experiência, enfim, toda a lógica
do modo como as palavras são usadas pela comunidade lingüísti-
ca. Wittgenstein chama a essa lógica de “ palavras, expressão que 819
se refere aos conjuntos de regras extralingüísticas, regras de uso
da linguagem para propósitos não-lingüísticos, vinculados às ne-
cessidades e à vida humana e expressas nos jogos de linguagem.
Para ele é essa “gramática” das palavras que explicita a ligação
entre linguagem e realidade (HINTIKKA; HINTIKKA, 1994).
Wittgenstein admite um vínculo associativo entre a palavra
e o objeto, dado no momento da ostensão enquanto técnica de
ensino da linguagem5 mas recusa o conceito de “definição os-
tensiva” (entendido como uma conexão conceitual entre signifi-
cado e objeto) e prefere o de “ensino ostensivo”6 (entendido como
uma conexão conceitual entre significado e uso). As ligações
entre a linguagem e o mundo são assim constituídas num con-
texto de uso convencionado da palavra por parte de uma comu-
nidade lingüística7, com ênfase na sua “gramática”, expressa
através dos “jogos de linguagem” os quais são adquiridos em
função do treinamento8.
A questão que se coloca então é a rejeição de uma correspon-
dência perfeita entre palavra e pensamento, entre signos e imagens
mentais, entre linguagem e significados mentais. É nesse sentido
que Wittgenstein propõe substituir a pergunta “o que é o significa-
do de uma palavra?” pela pergunta “o que é a explicação do signi-
ficado de uma palavra?”, uma vez que assim se remete não à procura
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 817-824, set./out. 2008.
de um objeto ou imagem mental a ela correspondente mas sim às
regras que regulam o uso dessa palavra (WITTGENSTEIN, 1958).
Uma das conseqüências que se pode derivar das idéias de
Wittgenstein sobre a linguagem é a impossibilidade do uso de
expressões lingüísticas para representar experiências privadas e
vivências subjetivas. Não se pode supor uma linguagem “priva-
da”, uma vez que linguagem é, por definição, um fenômeno de
natureza “pública”. Do modo como ele o entende – o uso da co-
munidade lingüística – não se pode falar de um “uso correto” das
palavras de uma linguagem “privada” e, conseqüentemente, uma
linguagem privada não poderia ser chamada de linguagem.
Ora, o que é isso se não uma dura e radical crítica ao conceito
de mente e ao mentalismo enquanto formulados numa perspectiva
essencialista? Uma crítica à própria possibilidade de uma ciência
da mente e da vida mental, uma Psicologia, como entendida à sua
época, uma ciência à procura das leis causais dos comportamentos
820 e sentimentos do homem nos processos e conteúdos da mente?
Entretanto essa postura crítica de Wittgenstein em relação ao
mentalismo não pode ser entendida como uma concordância com
a posição que, no âmbito da Psicologia de sua época, se propunha
antagonista das posições mentalistas, fenomenológicas e
essencialistas, o behaviorismo, particularmente a vertente do
behaviorismo lógico.
O problema tratado por Wittgenstein em seus argumentos
sobre a linguagem privada não é, em absoluto, a existência da mente
ou das vivências interiores; ele não nega, em absoluto, a existên-
cia de dados sensíveis e experiências interiores nem nega o cará-
ter privado dessas experiências e dados. Ele nega, sim, a
possibilidade de uso de uma linguagem privada através da qual se
possa fazer referência a vivências interiores e a dados sensíveis.
Wittgenstein não nega em seu argumento sobre a linguagem pri-
vada a existência da mente ou de fenômenos mentais, muito me-
nos a possibilidade de uma linguagem que os descreva; sua
preocupação é, a partir da negação da possibilidade lógica de uma
linguagem fenomenológica, afirmar a impossibilidade de falar
dessas vivências e da mente usando uma linguagem fisicalista. Sua
filosofia da linguagem não pode pois, em absoluto, ser considera-
da behaviorista (ZILHÃO, 1993; HINTIKKA, HINTIKKA, 1994).
Ao tratar desse problema, Wittgenstein afirma o uso social
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 817-824, set./out. 2008.

como possibilidade de significação no uso de uma linguagem que


descreva sensações ou vivências internas. Ele critica o modelo
“objeto x designação” que pressupõe a representação direta de
um elemento mental por um nome; para ele as relações entre a
vida mental e uma linguagem que a represente são mediadas por
jogos de linguagem, o que lhes dá um caráter público e não pri-
vado (HINTIKKA; HINTIKKA, 1994). Wittgenstein não nega a
existência das vivências privadas, mas acentua o caráter
interpessoal da significação dessas vivências; o significado de
uma linguagem das sensações é construído através de um esque-
ma interpessoal9.
O que Wittgenstein discute na verdade é a necessidade de um
jogo de linguagem público para que se possa falar de sensações e
de vida mental, o qual se constitui com base nas deduções de uma
lógica explicitada nas manifestações comportamentais e evidên-
cias externas dessas experiências e vida mental. As manifestações
públicas das vivências privadas, na medida em que compõem jogos 821
de linguagem, permitem, por sua natureza social, significar essas
vivências10 (HINTIKKA; HINTIKKA, 1994).
Mas a natureza pública de uma linguagem que expresse as
experiências internas e a vida mental não implica na impossibili-
dade da natureza privada dessa vida mental, do mesmo modo que
a necessidade de um esquema público para significar as sensações
e vivências internas não implica na necessidade de que estas sen-
sações e vivências sejam públicas e não privadas (HINTIKKA;
HINTIKKA, 1994). Sendo assim, as relações entre as vivências
privadas e suas manifestações públicas não são contingentes e sim
lógicas, e a discussão da linguagem privada é uma discussão se-
mântica e não epistemológica (HINTIKKA; HINTIKKA, 1994).
Do mesmo modo que critica uma linguagem fenomenológica,
Wittgenstein também critica o uso de uma linguagem fisicalista para
descrever a vida mental, principal característica do behaviorismo
lógico (ZILHÃO, 1993). Para ele, o behaviorismo lógico, do mes-
mo modo que o mentalismo, não passa de confusão conceitual.
Entretanto, sua postura em relação às principais correntes da
psicologia de sua época foi não apenas crítica mas principalmente
inovadora. Ao desenvolver o argumento do fundamento público da
linguagem e da sua dependência social, abriu as portas para uma
nova compreensão da vida mental e da causalidade psíquica, reme-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 817-824, set./out. 2008.
tendo-as ao contexto social e à cultura. Seu pensamento influenciou
a renovação crítica nas teorizações das vertentes cognitivistas da
Psicologia, o redirecionamento conceitual na abordagem
behaviorista, que hoje é majoritáriamente cognitivista, tendo aban-
donado por completo os postulados do behaviorismo lógico; influ-
enciou, principalmente, o surgimento de novas abordagens teóricas
centradas no valor explicativo do contexto social e da cultura para
o comportamento dos indivíduos, como é o caso do construtivismo
social (WILLIAMS, 1985; SCHATZKI, 1993; HOWIE, PETERS,
1996; VAN DER MERWE, VOESTERMANS, 1995).
Poder-se-ia então afirmar que, mesmo que para seu aparente
desgosto, Wittgenstein é um dos fundadores da Psicologia con-
temporânea.

Notas
1
Wittgestein (1979), I, seção 43.
2
822 Wittgestein (1979), I, seções 199, 202.
3
Wittgestein (1979), I, seções 2, 8.
4
Wittgestein (1979), I, seção 258.
5
Wittgestein (1979), I, seção 6.
6
Wittgestein (1979), I, seções 15, 26.
7
Wittgestein (1979), I, seção 37.
8
Wittgestein (1979), I, seções 197 a 199.
9
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10
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1995.

Abstract: Wittgenstein criticizes Psychology of his time,


specially mentalism as an essentialist perspective and the use
of fisicalist language to describe mental life. He accentuates
social character of subjective experiences emphasizing the
comprehension of mental life and psychological causality like
a result of social context and culture, influencing the critical
renovation of Psychology. 823
Key words: Wittgenstein and Psychology, language and
Psychology, language and social constructionist psychology

estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 817-824, set./out. 2008.

JOSELÍ BASTOS DA COSTA


Doutor em Psicologia Social. Docente do Programa de Pós-Graduação em
824 Psicologia da UFPB.
ENTRE A RUA
E A INSTITUIÇÃO:
O OLHAR DE CRIANÇAS
E ADOLESCENTES
QUE VIVIAM NAS RUAS

MARINA WANDERLEY VILAR DE CARVALHO


MARIA DE FÁTIMA DE SOUZA SANTOS

Resumo: realizou-se uma investigação com crianças e ado-


lescentes que viviam nas ruas da cidade do Recife e que são
atualmente assistidos por uma ONG de referência na cida-
de. Investigaram-se as Representações Sociais desses jovens
acerca da instituição, o que os motivou a sair das ruas, como
eles vêem o que lhes é oferecido e suas expectativas.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.

Palavras-chave: situação de rua, crianças, adolescentes,


organizações não-governamentais, representação social

A
questão sobre crianças e adolescentes em situação
de rua não é nova e tem sido objeto de estudo de
inúmeras pesquisas no Brasil e em todo o mundo. A
maioria delas preocupa-se em conhecer essa população e é
realizada no próprio contexto das ruas em que esses meninos
e meninas vivem. Esta pesquisa, no entanto, se realizou no
contexto de uma instituição que cuida desses jovens e procu-
rou dar voz a elas, não se limitando a traçar o seu perfil.
Entende-se que a problemática das crianças e adolescen-
tes que vivem nas ruas dos grandes centros urbanos parece
ser típica de países subdesenvolvidos, resultante das imen-
sas desigualdades sociais registradas nesses locais. Tendo em 825
vista essa realidade, observa-se nesses países um grande aumento
no número de instituições (em sua maioria, não-governamentais)
que se propõem a pesquisar e a cuidar dessas crianças. Mesmo
assim, essa questão está longe do fim.
Em 1986 foi realizado em Brasília o I Encontro Nacional de
Meninos e Meninas de Rua, no qual diversos jovens se reuniram
para discutir a situação brasileira com base nos temas: educação,
trabalho, família, violência, grupos de organização e saúde. Um
aspecto significante deste Encontro foi a abertura para ouvir o que
os próprios meninos e meninas pensavam sobre suas realidades1.
É nesse contexto que esta pesquisa se insere, procurando ouvir
as crianças e adolescentes que viviam nas ruas. Neste caso, bus-
cou-se saber as relações com a instituição que os acolhe. Antes de
discorrer detalhadamente sobre os objetivos, é necessário tecer um
histórico sobre o panorama dessas crianças, bem como citar al-
guns resultados de pesquisas anteriores.
De acordo com Ariès (1981), o Renascimento inaugura na
Europa a noção da separação entre o público e o privado. Até então
não havia delimitação precisa entre esses dois espaços; a rua tam-
bém fazia parte do contexto de socialização das crianças. Com o
Renascimento, passou-se a valorizar mais o viver em casa e a
desvalorizar o espaço da rua, o que contribuiu para a separação
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.
entre os espaços público e privado, o estreitamento dos laços fa-
miliares e a exclusão das pessoas que permaneciam nas ruas, tidas
como promíscuas. Aos poucos, a presença de crianças nas ruas
passa a ser motivo de assombro.
No Brasil, entre o final do século XIX e início do século XX
aumenta a presença de crianças realizando diferentes tipos de ativi-
dades na rua. Durante todo o período colonial brasileiro e ao longo
do 1° e 2° Império, não havia no país instituição pública direcionada
à infância. Inicialmente, o cuidado com essas crianças era desem-
penhado por instituições não-governamentais, como confrarias,
irmandades e Santas Casas de Misericórdia. Em 1927,
institucionaliza-se a obrigação do Estado nessa assistência, a partir
da criação do Código de Menores. Essa responsabilidade do Estado
se traduzia em um modelo de internato no qual se focalizavam as
medidas corretivas e adaptativas-repressivas. “Para essas crianças
e adolescentes, tal como para os loucos, a ordem era institucio-
826 nalização, segregação, exclusão do contexto marginalizador, ainda
que velada sob o nome de “educação modelar”, “re-socialização”,
“reinserção social”. [...] Ordem embrulhada por uma política social
de controle ou, na melhor das hipóteses, de assistencialismo”
(FERREIRA, 2001, p. 105). As questões ligadas à criança e ao
adolescente eram, naquele momento, baseadas na “Doutrina da
Situação Irregular”. É só a partir de 1990, quando entra em vigor o
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Federal 8.069/90), que
se passa a conceber a criança e o adolescente como sujeitos de di-
reito em condição peculiar de desenvolvimento. Rompe-se, então,
com a Doutrina da Situação Irregular e adota-se a Doutrina da Pro-
teção Integral.
Até a década de 1980, conforme a literatura consultada regis-
tra, os estudos voltados para essa população – os “menores” –
enxergavam-na apenas como um problema social, adjetivando
esses jovens como “abandonados”, “trombadinhas”, “delinqüen-
tes”. É em 1979, Ano Internacional da Criança, instituído pela
ONU, com a publicação de dois livros2, que a expressão “meninos
de rua”3 passa a ter seu uso mais geral, recebendo destaque naci-
onal e internacional – tanto a nomenclatura quanto esta situação
no país. Neste contexto, ganha importância a atuação das organi-
zações não-governamentais (ONGs) nacionais e internacionais e
organizações intergovernamentais, tais como Unicef e Unesco,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.

realizando estudos e propondo projetos (ROSEMBERG, 1994;


NEIVA-SILVA, KOLLER, 2002).
É a partir dos anos 1980, então, que os “meninos de rua”
passam a ganhar maior visibilidade social.

À medida que um fenômeno novo adquire uma certa dimen-


são e constância, passa a ser percebido com contornos muito
mais largos do que o que eles têm na realidade. E se além do
mais ele encerra um elemento qualquer de risco ou ameaça,
tomará no imaginário das pessoas proporções extraordiná-
rias. É este precisamente o caso dos ‘meninos de rua’
(MELLO, 1993, p. 58).

É também a partir desse momento que a tentativa de distin-


guir de forma mais clara essa população ganha importância cen-
tral nos debates sobre o tema. Para as Nações Unidas (1985), ela
se caracteriza por 827
qualquer menina ou menino... para quem a rua (no sentido
mais amplo da palavra, incluindo casas desabitadas, terre-
nos baldios, etc.) tornou-se sua morada habitual e/ou fonte
de sobrevivência; e que não têm proteção, supervisão ou
orientação adequada de um adulto responsável (MELLO,
1993, p. 60).

Em um encontro em Bogotá, em 1989, realizado pela UNICEF,


distinguem-se duas definições: meninos “de” rua e meninos “na”
rua. Dessa forma, crianças e adolescentes até 18 anos que habitam
em zonas urbanas, para os quais a rua se tornou seu local de mo-
radia – substituindo a família, com o qual têm vínculos bastante
debilitados –, que estão expostos a situações de riscos e que se
impõem determinados serviços são os “meninos de rua”. Por ou-
tro lado, crianças e adolescentes até 18 anos que passam grande
parte do dia nas ruas, desenvolvendo-se fora do núcleo familiar,
mas que com ele mantêm seus vínculos, que realizam atividades
(pequenos trabalhos, tais como venda de mercadorias ou distri-
buição de propagandas) para garantir seu sustento e/ou da família
e, que, muitas vezes, são explorados por adultos são os denomina-
dos “meninos na rua” (GREGORI, [1990]; CAMPOS, DEL
PRETTE, DEL PRETTE, 2000; MELLO, 1999).
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.
Essa distinção fez emergir uma discussão que chama a aten-
ção para a complexidade da vida nas ruas, entendida de maneira
mais dinâmica; não seria correto, portanto, estabelecer uma for-
ma rígida de observar essa população, colocando as característi-
cas acima citadas como estáveis. Assim, Rosemberg (1993) propõe
a utilização do termo “crianças em situação de rua”, enfatizando
a multiplicidade de formas de vivência nas ruas e a necessidade de
enxergar cada caso em sua especificidade. O estar nas ruas cons-
titui um fenômeno polissêmico, com distintas roupagens, de acor-
do com sua inserção temporal e espacial, e diferenciando também
“os tipos de indivíduos construídos por essa realidade, influenci-
ando o processo e o conteúdo do desenvolvimento de suas carac-
terísticas pessoais (modo de agir, pensar e sentir) e concepções de
mundo” (DEL PRETTE; DEL PRETTE (1995 apud CAMPOS,
DEL PRETTE, DEL PRETTE, 2000).
Observa-se que, além da polissemia do universo das crianças
828 em situação de rua, há também diferentes focalizações nos estu-
dos realizados no Brasil sobre essa população. Partindo de pes-
quisas de caráter mais sociodemográfico, nas quais o objetivo
principal era a contagem dos jovens e a denúncia das condições
em que eles viviam, mais ênfase foi dada, a partir de então, aos
aspectos psicossociais. Assim, muitas pesquisas atualmente evi-
denciam todo o universo no qual essas crianças estão inseridas,
enxergando-as como atores sociais.
Em Recife, o Centro Interuniversitário de Estudos da Améri-
ca Latina, África e Ásia (CIELA) realizou três pesquisas sobre a
população dos meninos em situação de rua (MELLO, 1993, 1999).
Em 1991, foram contados 168 crianças e adolescentes que dormi-
am ou se preparavam para dormir na rua; desses, 82,7% eram
meninos e 17,3%, meninas. Já em 1993, um estudo mais elabora-
do encontrou 219 pessoas (86,7% de meninos e 12,8% de meni-
nas), e em 1999 foram contados 460 jovens no período diurno (96
meninas) e 172 no noturno (51 meninas). Nos dois últimos estu-
dos, procedeu-se a uma maior investigação sobre o universo des-
ses meninos e meninas.
Em primeiro lugar, constatou-se nessas pesquisas o evidente
aumento do número de meninas vivendo nas ruas da cidade do
Recife. Quanto aos motivos que levavam esses jovens a viver neste
espaço, foram citados os conflitos familiares, a miséria da família
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.

e o “gostar”; é interessante notar que 50% dessas crianças dormi-


am em casa de vez em quando, e 41% disseram procurar a família
em determinadas situações, tais como doença ou prisão. Muitos
também falaram sobre o recebimento de convite por parte de
amigos ou irmãos, além da violência física e psicológica da qual
eram vítimas. Esses dados desmistificam a imagem feita pelas elites
urbanas brasileiras de que essas crianças vinham exclusivamente
de famílias desestruturadas, sem responsabilidade, e que a ruptu-
ra com a família era a única causa da ida para as ruas.
Outros dados colhidos em 1993 contribuem para a
desconstrução de certos estigmas, tais como o estereótipo de que
essa população é fruto essencialmente do êxodo rural. Verificou-
se que 56,6% eram de Recife, 8,2% da Região Metropolitana do
Recife, 16,7% da Zona da Mata, Agreste ou Sertão, e 10,5% vi-
nham de outros Estados, incluindo São Paulo.
No que diz respeito à escolaridade, 71,3% já freqüentaram a
escola; em contrapartida, 60,3% dos meninos e meninas não sabi- 829
am ler. Sobre o envolvimento com drogas, 52 disseram não fazer
uso; entre os outros, a maioria consome cola de sapateiro e maco-
nha. Dos 219 jovens, 70 nunca foram presos e 41 relataram que o
foram apenas uma vez. Quanto a suas estratégias de sobrevivên-
cia, foram citados pequenos trabalhos, a prestação de serviço, o
pedir e o furto.
Na última pesquisa, foram realizados grupos focais, nos quais
os jovens foram sobre a possibilidade de voltar para casa. As res-
postas se homogeneizaram de acordo com a faixa etária: enquanto
os meninos entre 14 e 16 anos afirmaram não querer voltar, os que
tinham entre 12 e 14 anos voltariam se os pais estivessem juntos
e trabalhando, e os mais novos (entre 8 e 12 anos) falaram sobre
a necessidade de estarem nas ruas para trabalhar e realizar sonhos,
tais como a reestruturação da família. É interessante ressaltar que
a construção do discurso desses jovens se dava no pretérito im-
perfeito, ou seja, numa ação não realizada: “queria”.
Para os meninos e meninas entrevistados em 1999, a rua era
apresentada por duas características antagônicas: a liberdade e a
violência. Esta última, atribuída aos outros, revela um grande
paradoxo em nossa sociedade. “Porque produtos da violência e
dela fazendo uso para sobreviver, os meninos em situação de rua
não se percebem como violentos, embora pratiquem a violência.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.
Mas, como diz um deles, ‘que sou criança, isso é jeito de falar com
criança’?!” (MELLO, 1999, p. 45).
Os dados dessas e de outras pesquisas apontam para a neces-
sidade de compreender a rua como contexto de socialização das
crianças e adolescentes que nela vivem. Observa-se que as crian-
ças geralmente começam a trabalhar muito cedo, muitas vezes se
envolvendo em atividades não legalizadas; essa situação “faz com
que ela, desde a sua mais tenra infância, seja inserida nessa terra
de ninguém, na qual nenhuma instituição, às vezes nem mesmo a
família, se responsabiliza pela criança em situação de rua” (NEIVA-
SILVA; KOLLER, 2002, p. 214).
Por outro lado, tais atividades possibilitam o desenvolvimen-
to de valores relacionados a limites, regras, papéis sociais,
autovalorização e identidade cidadã, garantindo, assim, sua con-
dição de produtor em uma sociedade que valoriza o trabalho
(NEIVA-SILVA; KOLLER, 2002). Essas considerações são im-
830 portantes, visto que, como assinala Mello (1999), esses jovens são
excluídos da sociedade de consumo, apesar de se integrarem à
ideologia de consumo.
Diante do exposto, a presente pesquisa teve o objetivo de
realizar uma investigação com crianças e adolescentes que vivi-
am nas ruas de Recife e que são atualmente assistidos pelo Grupo
Ruas e Praças, uma instituição de referência no atendimento a essa
população. Dessa forma, visou-se investigar as representações
desses jovens sobre a instituição, o que os motivou a sair das ruas,
quais são suas expectativas, como eles vêem o que lhes é ofereci-
do e as práticas realizadas pelos educadores. Esse trabalho se
baseou, portanto, no discurso dos próprios jovens.
Para alcançar esses objetivos, essa pesquisa se desenvolveu
à luz da Teoria das Representações Sociais, proposta por Serge
Moscovici (1961) que se dedica à inter-relação entre o indivíduo
e o social, em uma investigação acerca do conhecimento do senso
comum.
A representação social “é uma forma de conhecimento, soci-
almente elaborada e partilhada, com um objetivo prático, e que
contribui para a construção de uma realidade comum a um con-
junto social” (JODELET, 2001, p. 22). Esse conhecimento toma
forma com base numa realidade social e é produzido no intercâm-
bio das relações entre sujeito e objeto. Portanto, não existe repre-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.

sentação sem objeto.


Dessa forma, é evidente que cada indivíduo reconstituirá a
realidade de maneira diferente, criativa e autônoma e lhe atribuirá
um significado, dependendo do seu sistema de valores, da sua
história pessoal e do contexto social no qual está inserido; as re-
presentações integram, portanto, a pertença e a participação soci-
al do sujeito (JODELET, 2001). Há toda uma lógica atrelada a esse
tipo de conhecimento, e seu estudo permite compreender a con-
cepção dos indivíduos sobre o mundo e as relações sociais e, a
partir daí, como essa visão os influencia no modo de agir perante
o mundo e o outro.
De acordo com Abric (2000), as representações sociais apre-
sentam quatro funções essenciais: 1- “função de saber”. diz res-
peito à possibilidade de compreender e explicar a realidade, assim
como de definir o sistema de referência do indivíduo; 2- “função
identitária”: revela a adaptação do indivíduo no campo social; 3-
“função de orientação”: permite guiar as condutas de acordo com 831
o que é aceitável em um determinado contexto social; 4- “função
justificadora”: intervém na avaliação da conduta, permitindo sua
justificativa.
O processo de formação das representações pode ser compre-
endido através da objetivação e da ancoragem. A primeira é a
concretização do que é abstrato, a transformação em objeto. Já a
segunda constitui propriamente as representações e as torna
enraizadas, pois está ligada à incorporação do novo, à orientação
dos comportamentos e à interpretação da realidade, à medida que
revela o modo como os elementos expressam as relações sociais.
As representações sociais apresentam uma íntima relação com
as práticas sociais. Sobre isso, Abric (1994) propõe a existência
de uma influência recíproca entre práticas e representações. Des-
sa forma, é importante ressaltar que não é somente a submissão a
uma prática que irá influenciar na representação, é preciso reco-
nhecer como suas e compartilhar tais práticas de acordo com o
sistema de normas e valores do indivíduo os quais, por sua vez,
são constituintes das representações sociais.
Há situações nas quais as práticas sociais vão de encontro ao
sistema de normas e valores do indivíduo. Nesses casos, as práti-
cas irão determinar as representações, à medida que os atores
sociais buscarão meios de diminuir tal dissonância, elaborando –
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.
ou modificando – representações que estejam de acordo com as
práticas. Para Abric (1994, p. 230), na verdade “não se pode
dissociar a representação, o discurso e a prática”, sendo a relação
entre elas caracterizada como mutuamente engendrada.
Rouquette diverge de Abric quanto à qualidade das relações
entre representações e práticas sociais. Para ele, “convém tomar
as representações como uma condição das práticas, e as práticas
como um agente de transformação das representações”
(ROUQUETTE, 2000, p. 43). Segundo este autor, a influência das
representações sobre as práticas se caracterizaria pela “condição
de coerção variável” (p. 42), já que existe uma gama de possibi-
lidades de escolhas de pensamentos e ações dispostas ao indiví-
duo; dependendo das escolhas que ele realiza, ocorre uma
identificação, uma apropriação das representações e uma conse-
qüente persuasão de que destas representações derivam seus atos.
Por outro lado, ainda segundo Rouquette (2000), as ações não
832 são resultado de uma escolha forçada, mas as conseqüências das
condutas acabam se impondo por pressões sociais, mais especifi-
camente por instituições que obrigam o indivíduo a agir de uma
determinada maneira. Ocorre, desse modo, um redirecionamento
da representação “depois da ação, depois da experiência da reali-
dade, depois do corte” (ROUQUETTE, 2000, p. 43), caracterizan-
do a influência das práticas sobre as representações como
“determinações objetivas” (p. 43). Nesta visão, “são as práticas
que os sujeitos aceitam realizar na sua existência cotidiana que
modelam, determinam seu sistema de representação ou sua ideo-
logia” (ABRIC, 1994, p. 219).
As representações sociais contribuem, portanto, para a cons-
trução de uma visão consensual a respeito da realidade para um
determinado grupo. Tal visão servirá de guia para as condutas e para
a transmissão através da comunicação, expressas nas práticas soci-
ais. Entre essas práticas, podem-se destacar as práticas educativas
que exercem um direcionamento para um comportamento conside-
rado adequado aos valores e papéis sociais e, por outro lado, a
extinção de comportamentos considerados inadequados.
No contexto da presente pesquisa, foi um dos objetos de es-
tudo a representação social que os jovens têm das práticas
educativas realizadas pelos profissionais da instituição que os
acolhe. Entende-se que a forma como eles representam essas prá-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.

ticas, bem como a instituição como um todo, pode ter relação com
as práticas dos próprios jovens.

O GRUPO RUAS E PRAÇAS

O Grupo Ruas e Praças é uma ONG que surgiu em 1987 com


a intenção de trabalhar com crianças e adolescentes em situação
de risco social. Desde 1990, o trabalho desse grupo se direcionou
para crianças e adolescentes em situação de rua, através de um
processo educativo que visa a organização desses jovens, especi-
almente no que diz respeito à luta por seus direitos, na perspectiva
de serem sujeitos de sua história, bem como agentes de mudança
da sociedade. Atualmente, esta é uma das instituições de referên-
cia na cidade do Recife no atendimento a esta população.
A linha de ação desse grupo consiste em um trabalho de edu-
cação de rua com o qual eles propõem atividades lúdicas e cultu-
rais no próprio ambiente em que os jovens vivem. A intenção é 833
conhecer a história de vida de cada um deles. Com a sistematiza-
ção destas atividades, iniciam-se os processos de encaminhamen-
to, seja para a família, para a escola, para outros serviços públicos,
seja para o Centro Educacional Vida Nova – Capim de Cheiro.
O Centro Educacional é um espaço rural de moradia que se
associa a um processo educativo mais intenso, com oficinas e
assistência terapêutica, e que propicia a inclusão em uma escola
pública. O encaminhamento a este sítio é feito de forma gradual:
inicialmente os jovens devem participar de algumas reuniões na
sede da instituição em Recife; em seguida, realizam algumas ex-
perimentações durante dois dias e depois, durante cinco dias no
sítio (denominados, respectivamente, de processo de dois e pro-
cesso de cinco dias); por fim, eles passam a ser moradores do Centro
Educacional.
Há, ainda, um importante trabalho sociofamiliar no qual se
estimula a reintegração dos jovens às suas famílias. Junto a estas,
são realizados grupos operativos de trocas de experiência, bem
como são viabilizadas informações e encaminhamentos necessá-
rios com o propósito de garantir seus direitos.

METODOLOGIA

estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.


Sujeitos
Foram realizadas entrevistas com doze jovens entre sete e
dezesseis anos. Dez moradores eram do Centro Educacional Vida
Nova, em Capim de Cheiro-PB, e dois estavam inseridos no “pro-
cesso de cinco dias”. Desses, 9 eram meninos e 3 meninas.

Material
Papel ofício, lápis de cor, canetas hidrocor, giz de cera, pa-
péis 40 kg, lápis preto, borrachas, apontadores, câmera filmadora,
fita 8mm, gravador e fitas K-7.

Procedimento
Inicialmente, foram acompanhados alguns trabalhos de edu-
cação na rua, a primeira etapa de atuação da ONG com crianças e
adolescentes em situação de rua. Por três vezes a pesquisadora
esteve, junto com a equipe de educadores e assistentes sociais, no
834 Forte das Cinco Pontas, na cidade do Recife, onde vivem duas
famílias. Nesses momentos, foram propostas atividades tais como
fazer colares de miçanga, praticar jogos de tabuleiro, pular corda,
tocar pandeiro, agogô.
Tendo em vista a época do ano (dezembro), algumas ativida-
des cotidianas da ONG foram suspensas para a promoção de ava-
liações nas quais participaram as crianças e os adolescentes
residentes no Recife, bem como os moradores do Centro Educa-
cional Vida Nova. A pesquisadora participou de alguns desses
momentos, com o objetivo de desenvolver uma familiaridade com
os moradores do local e com os jovens e para conseguir, uma maior
confiança com esses jovens. Houve também uma confraterniza-
ção entre crianças e adolescentes, com a participação da maioria
dos profissionais da instituição, os voluntários, bem como com
outras pessoas, de alguma forma ligadas ao grupo. Nessa ocasião,
ocorreram apresentações de dança, teatro e de percussão.
Após estes contatos, foram agendadas visitas ao Centro Educa-
cional para propor a realização de algumas atividades, no intuito de
investigar os objetivos da presente pesquisa. Na primeira visita, os
meninos e meninas foram divididos em dois grupos, de acordo com
suas idades, e pediu-se a eles que desenhassem como era sua vida antes
de conhecer o Grupo Ruas e Praças. Posteriormente, cada um apre-
sentava seu desenho aos demais. Com o grupo dos mais velhos, foi
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.

possível propor uma segunda etapa, para que eles representassem,


juntos, em uma folha grande, a vida deles, hoje. Essa etapa não foi
feita com os mais novos, porque eles já estavam cansados e bastante
dispersos. Com a permissão de todos, essa visita foi filmada.
Finalmente, novas visitas foram programadas para a realiza-
ção de entrevistas individuais, que tinham o intuito de esclarecer
alguns pontos do objetivo dessa pesquisa. Essas entrevistas foram
realizadas em dois dias – uma manhã, com os mais velhos, e uma
tarde, com os mais novos – e foram gravadas, com a permissão de
cada um, para posteriores transcrições, visando facilitar, assim, o
trabalho de análise dos dados. Nesta visita, estavam também pre-
sentes no sítio alguns jovens participantes do processo de cinco
dias; dois deles aceitaram ser entrevistados.

Análise dos Dados


É importante destacar que somente as atividades realizadas
no Centro Educacional e propostas pela pesquisadora serão aqui 835
analisadas. Os outros momentos, anteriormente descritos, servi-
ram para um melhor conhecimento, por parte da pesquisadora,
sobre o trabalho realizado pela instituição e, um pouco, sobre os
jovens que seriam ouvidos. As observações resultantes dessa eta-
pa preliminar constituem, portanto, auxílio para uma melhor com-
preensão da realidade dos entrevistados.
A análise dos dados foi realizada com base no conteúdo
temático. Foram analisados os conteúdos dos desenhos e das en-
trevistas nas quais eles justificavam e explicavam o desenho.
Optou-se, portanto, por uma disposição dos dados em função dos
temas que emergiram das entrevistas e desenhos e que são rele-
vantes para os objetivos da presente pesquisa.

APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

A Casa
A produção gráfica dos 8 meninos e das 2 meninas moradores
do Centro Educacional Vida Nova, em resposta ao pedido de de-
senhar como eram suas vidas antes de conhecer o sítio, revelou
uma grande predominância da figura da casa. Em suas explica-
ções, essa casa ora representava o lugar em que moravam em Recife
– ou em que atualmente mora sua família – ora o sítio, onde eles
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.
estão morando. Apenas três meninos não desenharam uma casa:
os dois mais novos fizeram uma Kombi em uma estrada, repre-
sentando o caminho entre Recife e o sítio; o terceiro menino de-
senhou vários prédios e casas juntos, além de uma rua com algumas
pessoas que eram ele e seus amigos quando moravam nas ruas da
cidade do Recife. Percebe-se, assim, que a casa constitui, para esses
jovens, um lugar de referência.
Chama a atenção o fato de todas as casas estarem pintadas de
forma bastante colorida. Apenas o desenho da cidade do Recife
ficou em preto e branco. Compreendendo-se o desenho a partir de
uma perspectiva projetiva, ou seja, entendendo-se que o desenho
de uma casa é fruto da projeção do sujeito sobre um objeto, pode-
se pensar no significado do colorido presente nesse objeto. Segundo
Van Kolck (1981), o colorido representa a manifestação da
afetividade, ou seja, os afetos, as emoções e os sentimentos po-
dem ser demonstrados, através dos desenhos, pela utilização das
836 cores. No caso desses jovens, a quem foi proposta a atividade, é
possível pensar no resgate emocional, no retorno de um colorido
afetivo, proporcionado, provavelmente, pela saída deles da rua para
um lugar acolhedor, em que há trocas de afetos e no qual eles podem
projetar o seu futuro.

A Rua
A representação da rua nos discursos dos jovens entrevista-
dos apresenta elementos aparentemente contraditórios. Por um
lado, a rua é concebida em seus aspectos positivos: as brincadei-
ras, a liberdade. Estes elementos justificam o ingresso e/ou a
manutenção dos jovens na rua.
Por outro lado, a rua também é representada de forma bas-
tante negativa: é ruim, violenta, perigosa, um lugar de ameaça,
com brigas, drogas, onde não há perspectiva de futuro. Esses ele-
mentos justificam o movimento de saída das ruas e são, portan-
to, elementos preponderantes no discurso dos jovens que
freqüentam a instituição. Ao englobar elementos positivos e
negativos do viver na rua, as representações sociais cumprem a
sua função justificadora possibilitando assim o processo de
mudança.

É bom porque a pessoa está brincando, está junto com os


estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.

colegas, assim, conversando, vai para um bocado de canto.


O ruim é porque a pessoa apanha muito e dá-lhe também, e
tem drogas.

O cara só aprende negócio ruim, não muda de vida na rua. O


cara fica cheirando cola, dorme na rua, sente frio, pode ar-
riscar de uma pessoa matar a gente, matar os outros. E a rua
não é bom. É melhor ficar em casa, mesmo, porque a rua é
ruim. A rua o cara não aprende nada.

A rua é ruim. Tem violência, tem morte, tem gente que quer
mudar, sair da rua, vai para casa, toma os conselhos da mãe;
mas tem gente que quer ficar na pior, acha que a rua é melhor
do que a casa da pessoa, mas não é não, a casa é melhor: tem
alimento na hora certa, tem estudo na hora certa, tem dormi-
da, tem comida.
837
A Ida para o Sítio
Os jovens assistidos pela ONG têm a característica diferen-
ciada de quererem sair das ruas e mudar de vida. Alguns são
motivados a partir do contato com os educadores, ao passo que
outros já se apresentam a eles expressando sua vontade de conhe-
cer o sítio. A instituição resgata essa autonomia: durante todo o
processo para ser morador, eles têm liberdade de poder se colocar
– tanto no que diz respeito aos seus desejos quanto sobre seus medos
–, refletir e decidir permanecer.

[Conheci o Grupo] “através dos educadores que iam lá no


Recife e falavam com a gente. Aí eu peguei e me interessei
para vir pra cá, para mudar de vida”.

A mulher do grupo mandou eu ir lá para eu vir no processo


de dois dias e eu fiquei vindo, eu aprendi vir. Eu fiquei e passei
para a moradia.

O Sítio
Em contraposição à rua, o sítio é representado exclusiva e
unanimemente de forma positiva, em especial por proporcionar o
(re)encontro com a família, diversas aprendizagens (atividades
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.
oferecidas, escola) e a construção, bem como o alcance de alguns
sonhos. Todos falam das modificações em sua vida ao deixarem
as ruas e da conseqüente grande mudança ao saírem do sítio: vol-
tar para casa, trabalhar, não voltar para as ruas, “ser alguém na
vida”. Esta mudança, contudo, não será agora, mas no momento
em que eles se sentirem preparados para esse retorno. Especifica-
mente o estudo é colocado como o maior propulsor dessa mudan-
ça, uma vez que, a partir dele, é possível trabalhar e reinserir-se na
sociedade como uma “pessoa de bem”. Esses aspectos parecem
encenar um amadurecimento reflexivo, fruto da ênfase dada pela
instituição às conversas e à participação do jovem em todo o pro-
cesso de decisão.
Mais uma vez, reafirmando o que foi colocado a partir dos
desenhos, o sítio parece configurar-se como uma nova referência
de casa, por ser o lugar que os acolhe, que os faz sentir-se bem,
que os ensina, que os prepara para a vida. O estar no sítio já sig-
838 nifica diversas mudanças em relação à vida que eles levavam; além
disso, dá a possibilidade de sonhar, de pensar no futuro, de recons-
truir sua história de vida.

Tem a escola, tem passeios, a pessoa aprende a ter direito e


aprende a viver também.

O que mudou na minha vida é que eu não estou na rua mais,


usando drogas, não estou roubando, não estou apanhando,
estou indo para o colégio, na rua eu não estava indo.

A reunião também é boa: explica ao cara quando o cara for


embora para casa ter a consciência de boa, de ir para casa,
de não voltar mais para a rua, deixar as drogas.

Porque eu quero estudar muito para ver se eu vou ser alguém


na vida, né?!

Meu sonho é sair daqui, estudar, trabalhar e ajudar minha


família.

Os Educadores
Sobre a relação com os educadores, a maioria os avalia de
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.

forma positiva, dando extrema importância ao trabalho desses


profissionais. Há algumas desavenças pessoais, mas, de forma
geral, eles gostam da maneira como são tratados pelos educadores
e do que eles fazem para todos. Os educadores tornam-se, assim,
uma figura adulta de referência para esses jovens.

Gosto [dos educadores]. Porque se não fosse por eles eu ain-


da estava na rua.

Eles dão uma força para a gente,está com a gente aqui, cui-
dando da gente. Eu gosto deles. [...] Eles brincam com a gente
de vez em quando, leva a gente para passeio, para Caporã.

A Família
Parece existir uma grande importância dada à família, à
reinserção do jovem nesse ambiente. Isto é destacado tanto no
momento presente, nas possibilidades de visita, quanto no futuro, 839
nos seus sonhos de voltar a morar em casa, e ajudar seus famili-
ares. É certo que nem todos falaram sobre este assunto e alguns
disseram que determinados problemas familiares os atiraram para
a rua. Mesmo assim, é possível pensar que esse locus é de suma
importância em sua vida, pois a relação simbólica com a família
nunca foi rompida. A família ideal (ou idealizada) parece se cons-
tituir num valor moral que motiva o jovem em seu processo de
reinserção social.

Ela está feliz porque eu estou aqui. [...] A minha mãe fica
alegre quando eu chego em casa, ela pergunta como eu to
indo bem por aqui.

Quando a pessoa tiver preparada pra ir pra casa aí fica de


vez lá na casa da pessoa.

O Discurso
Chama a atenção o modo como são construídos os dis-
cursos de alguns jovens entrevistados. A grande maioria das ques-
tões colocadas pela entrevistadora foi direcionada a eles,
especificamente para conhecer seus sentimentos. Contudo, alguns
formulam suas respostas de modo impessoal, como pode ser visto
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.
nos exemplos que se seguem:

É diferente. A pessoa está na rua, a pessoa está usando dro-


ga, a pessoa está doidão, vai perturbar, vai roubar, acaba o
que: morte ou cadeia. Apanha na rua.

Eu quero ficar aqui... é melhor a pessoa ficar aqui do que na


rua.

Estes exemplos permitem algumas indagações interpretativas


desse tipo de discurso. Parece haver uma dificuldade em se colo-
car ou, mais especificamente, em se colocar de maneira singular;
o artifício utilizado é, pois, a impessoalidade, com a descrição de
um grupo de pessoas que apresenta características semelhantes,
mas do qual ele também faz (ou fez) parte. É preciso ressaltar que
esta forma de construção de discurso parece ser bastante comum
840 em nossa sociedade quando se fala de uma pessoa que representa
as características específicas de um grupo, mas sem denominar
quem é ela.
É possível também pensar, na perspectiva das diversas mu-
danças pelas quais esses jovens estão passando, no processo de
reconstrução de sua identidade. Mesclando a utilização do prono-
me pessoal “eu” com sujeitos de conotação impessoal, eles pare-
cem estar demonstrando uma fase de transição: afastando-se das
ruas – e, portanto, não mais se identificando com um jovem em
situação de rua –, reconstruindo sua identidade, se pensando de
forma diferente no futuro.
Há um caso particular de um adolescente que responde usan-
do, na maioria das vezes, como sujeito “os outros”. Neste caso,
parece ser mais nítida a dificuldade de se colocar, tendo em vista
que o grupo específico do qual ele fez ou faz parte é caracterizado
como diferente, distante dele. Isto também contribui para reafir-
mar que a identidade dele está em processo de reconstrução; pode
ser uma forma de ele se ver ou de ele se demonstrar para a
entrevistadora (que, de alguma forma, é associada à instituição).

Me faz feliz. É melhor do que os outros tá na rua, é melhor os


outros estar aqui mesmo do que estar na rua.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

... A ponte não é de concreto, não é de ferro, não é de cimento,


a ponte é até onde vai o seu pensamento.
A ponte não é para ir nem para voltar,
a ponte é somente para atravessar,
caminhar sobre as águas desse momento...
(Lenine)

As crianças e adolescentes acompanhados nessa pesquisa são


uma pequena parcela de uma enorme população que parece pro-
liferar a cada dia nos grandes centros urbanos brasileiros. Suas
histórias refletem a realidade do país: pobreza, desigualdade,
descaso, violência. Por outro lado, conhecê-los hoje, fora das ruas
e sonhando com seu futuro, demonstra a importância do trabalho
de organizações não-governamentais nas mudanças sociais que se
fazem necessárias. 841
A participação de grupos não ligados ao Estado, que vêm
muitas vezes suprir atuações que caberiam ao governo, ganhou
destaque desde a década de 1980, rompendo com o modelo tradi-
cional baseado na institucionalização e na segregação dos jovens.
Hoje, com muitos frutos já colhidos, é notório o sucesso da atua-
ção de algumas ONGs e a necessidade de sua continuação.
A vivência nas ruas é um fenômeno polissêmico que apresenta
diferenças temporais, espaciais e individuais. Há, por um lado, uma
singularidade construída com base nessa realidade; por outro lado,
há aspectos grupais que refletem uma realidade comum, comparti-
lhada. Dar voz a esses jovens constitui-se na possibilidade de conhe-
cer suas realidades, suas histórias de vida, seus sonhos, no que diz
respeito aos planos individual e grupal. A presente pesquisa enfatizou
os aspectos grupais, à luz da Teoria das Representações Sociais, bus-
cando conhecer alguns pensamentos compartilhados pela população
de crianças e adolescentes que viviam em situação de rua.
Neste sentido, pode-se destacar a representação da rua como
um lugar ruim, perigoso e violento, porém espaço de liberdade,
em contraposição à representação do sítio, que é percebido como
o lugar em que eles recebem afeto, ensino, ou seja, uma nova casa.
É mister destacar que a população entrevistada se caracteriza como
diferenciada, já que optaram por sair da rua e buscar mudanças de
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.
vida; são crianças e adolescentes que conheceram a realidade da
rua, mas hoje se encontram em uma diferente situação – por eles
adjetivada como melhor. Entende-se, assim, que este é o olhar de
quem já não está mais na rua e prefere a vida do sítio.
Mudança parece estar entre os pontos centrais a ser destaca-
da com base nos discursos dos jovens entrevistados: de casa para
as ruas, das ruas para o sítio, do sítio para casa novamente, para
uma vida melhor. A saída de casa parece ser a mudança mais brus-
ca, ao passo que as outras ocorrem segundo um processo lento e
gradual. O modo como os jovens vivenciam e representam essas
mudanças ecoa nos discursos auto-reflexivos quando eles falam
da importância de perceber o momento adequado de passar a morar
no sítio, bem como de sair deste de volta para casa. Esta capaci-
dade autocrítica parece ter sido resgatada após o contato com a
instituição, fruto das diversas reuniões de que eles participam.
O estar no sítio também significa uma mudança de compor-
842 tamento. As diversas situações de violência fazem da rua um
ambiente hostil: nele os jovens devem lutar para sua sobrevivên-
cia. O sítio apresenta-se como outra realidade, para a qual deter-
minados comportamentos, especificamente os adquiridos na rua,
devem ser modificados.
Há, ainda, certos aspectos que parecem ter sido resgatados
com base na vivência desses processos de mudanças: a afetividade,
percebida na relação dos jovens com os educadores e com a pes-
quisadora e expressa na grande presença do colorido em seus
desenhos; a valorização do estar com a família, presente em seus
discursos e refletida também nos desenhos; a possibilidade de
sonhar, de pensar o futuro de maneira positiva, fruto das diversas
aprendizagens que foram a eles mostradas.
Também é possível refletir sobre o modo como os educado-
res são representados pelos jovens: as práticas educativas são vistas
como bastante positivas e essenciais, pois aprendem e mudam de
idéia. Esta representação parece estar sendo guia para o modo como
os jovens agem em relação aos educadores (com respeito, com
admiração, por exemplo) e em relação à ONG, de forma geral,
(atribuindo-lhe uma grande parcela de responsabilidade por todas
as mudanças que ocorreram em sua vida).
Nos diversos pontos específicos aqui ressaltados e quanto a
um olhar mais global, a vivência de estar no sítio parece, assim,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.

configurar-se como uma “ponte”. Mais do que no sentido físico,


é uma ponte subjetiva. Nos aspectos mais concretos, é o estar se
afastando das ruas e se aproximando de um retorno a sua casa, é
o processo de mudança de determinados comportamentos; nos
aspectos mais simbólicos, é o resgate paulatino da afetividade, é
a via de acesso aos sonhos, é a possibilidade de se ver do outro
lado, de uma outra forma.

Notas
1
Maiores informações sobre o resultado destas discussões, ver: Resultados...
(1986, p. 67-80).
2
Meninos de rua e a marginalidade urbana em Belém (GONÇALVES, 1979)
e Meninos da rua: valores, expectativas de menores marginalizados em São
Paulo (FERREIRA, 1979).
3
O termo “criança de rua” foi introduzido pelo escritor Henry Mayhew, em
1851.
843
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VAN KOLCK, O. L. Interpretação psicológica de desenho: três estudos. 2.
ed. rev. São Paulo: Pioneira, 1981.
844
Abstract: since the 1980s, non-governamental and inter-
governmental organisations have been intensifying the role they play
in Brazil with the population living in the streets, aiming to know
these people’s reality and to propose ways of dealing with their
situation. This research worked with 12 chidren and teenagers, who
used to live in Recife’s streets. Now, they are been assisted by a NGO.
Within a qualitative perspective, drawings and interviews were done
in order to verify the Social Representation the group had on the
Institution which was assisting them. Besides this, the reasons they
had to leave the streets and their expectations for the future.
Considering their answers, stands out the representation of the street
as a bad and dangerous place in contrast to the place where they
live now: a place where they are cared for, where they study and
learn. In fact, a new home. This change seems to mean a bridge that
makes them to leave the streets and to approach a new home. A way
to reach their dreams and to see themselves differently in the future.

Key words: streets, children, teenagers, non-governamental


organisations, social representation
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 825-845, set./out. 2008.

MARINA WANDERLEY VILAR DE CARVALHO


Mestranda em Psicologia n Universidade Federal Fluminense. Graduada em
Psicologia pela UFPE. E-mail: mawvilar@yahoo.com.br

MARIA DE FÁTIMA DE SOUZA SANTOS


Professora na graduação e Pós-Graduação em Psicologia da UFPE. Pesquisado-
ra II do CNPq. E-mail: mfsantos@ufpe.br 845
LA REPRESENTATION SOCIALE
DE L’APPRENTISSAGE
CHEZ DES ARTISANS
DU BATIMENT

LUCILE SALESSES

Resumo: em um contexto de diminuição contínua do setor


artesanal na França, constata-se que os artesãos recusam
cada vez mais o emprego de aprendizes, o que pode gerar o
desaparecimento da atividade. O trabalho buscou compre-
ender o efeito da percepção de reversibilidade/
irreversibilidade na representação social da aprendizagem
em artesãos. Os resultados mostram que a representação
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.

social do futuro exerce um efeito sobre a aprendizagem.

Palavras-chave: representação social da aprendizagem,


artesãos, reversibilidade

L
e secteur artisanal français fait l’objet d’une nette
désaffection pour l’apprentissage. Ce constat est
inquiétant dans la mesure où l’artisanat ne peut
perdurer qu’à la condition de conserver ce mode de
transmission des savoirs. Les conséquences à long terme d’un
tel comportement sont donc gravissimes. En effet, une telle
évolution conduira dans le meilleur des cas, à un remaniement
en profondeur des caractéristiques économiques, sociales et
psychologiques de ce secteur et au pire, à une quasi disparition.
En conséquence, il paraît indispensable de se préoccuper
des raisons pour lesquelles les artisans refusent de plus en 847
plus de prendre des apprentis. Et plus précisément de s’interroger
sur ce qui conduit des individus historiquement et personnellement
attachés à un objet à s’en détacher.
Notre questionnement s’inscrit donc dans le cadre d’une
articulation entre identité sociale, pratiques sociales et
représentations. En effet, l’apprentissage est une pratique fortement
ancrée dans l’identité sociale des artisans. Et l’on sait par ailleurs
que l’élaboration de l’identité sociale trouve sa source dans les
représentations sociales (ABRIC, 1994a). En conséquence de quoi,
cette recherche se situe dans le champ d’étude des représentations
sociales, et plus précisément dans le cadre de la théorie du noyau
central initiée par Abric (1976) qui accorde une place privilégiée
à l’identification des croyances consensuelles constitutives du
système central.

PROBLEMATIQUE

La théorie du noyau central énonce que les changements de


représentation induisent des changements de comportements
(ABRIC, 1976). Toutefois, dans certains cas, pour Abric (1994c,
1994d, 1996, 1998b, 2001) et Flament (1994, 1996, 2003)
lorsqu’en particulier, la situation est perçue comme irréversible,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.
la conduite est susceptible de transformer une représentation.
Plus précisément, l’hypothèse d’Abric dans laquelle il affirme
que “dans les situations à forte contrainte – sociale ou matérielle
–, les pratiques sociales et les représentations sont en interaction”
et que “dans ces situations, la mise en œuvre de certaines prati-
ques est susceptible d’entraîner des transformations complètes des
représentations” (ABRIC, 1994c, p 234) semble susceptible de
d’éclairer notre problématique.
En effet, les artisans évoluent dans un environnement
socio-économique mouvant, chaotique, difficile, connaissant
de fréquentes transformations, mais surtout de plus en plus
contraignant. Aussi, il est vraisemblable que certains d’entre
eux s’engagent dans des pratiques qui vont à l’encontre de
celles que leur dicterait leur système de normes et de valeurs.
On peut donc faire ici l’hypothèse, en accord avec Abric
(1994c) que dans ce cas, les pratiques sont susceptibles de
848 déterminer les représentations.
Il nous semble dès lors intéressant de vérifier l’éventualité
d’une possible relativisation de cette hypothèse si, comme l’écrit
Abric, en se référant aux travaux de Flament (1994), des acteurs
impliqués dans une situation peuvent considérer qu’elle est
réversible ou irréversible, avec pour conséquence un effet différent
sur la modification de la représentation.
Selon Flament en effet, dans le cas d’une situation pressentie
comme réversible, les pratiques développées auront peu d’effet
sur la représentation, en effet “la réversibilité perçue ralentira le
processus de transformation de la représentation sociale, et
notamment interdira tout changement au niveau du noyau central”
(FLAMENT, 1994, p. 52). Au contraire, lorsque la situation est
perçue comme irréversible, les pratiques nouvelles sont
susceptibles d’induire un processus de rétablissement cognitif de
l’individu, se traduisant par une modification de système central
et générant ainsi une transformation de la représentation. En ce
sens, l’irréversibilité de la situation constituerait une condition
nécessaire à une modification de la structure représentationnelle.
Pour résumer, la réversibilité perçue ne devrait concerner que
le système périphérique et entraîner un changement relativement
superficiel de la représentation, alors que l’irréversibilité de la
situation engendrera une modification du système central de la
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.

représentation.
Dans le cadre de notre recherche, la situation sera considérée
comme irréversible par les sujets qui n’ont pas ou n’ont plus
d’apprentis et qui souhaitent continuer à ne plus en prendre et
comme réversible par les individus des mêmes sous-échantillons
et qui souhaitent en prendre à l’avenir.
Dès lors, on peut supposer que les artisans qui aujourd’hui
forment des apprentis, ont une représentation: R1.
Ceux qui n’ont pas d’apprenti, ont eu des apprentis et envisagent
d’en reprendre, devraient avoir une représentation: R’1 égale à R1
dans la mesure où la situation est perçue par eux, comme réversible.
Ceux qui avaient des apprentis, qui n’en ont plus et qui
n’envisagent pas d’en reprendre, devraient avoir une
représentation: R2 différente de R1 (effet de pratique perçue
comme irréversible).
Quant à ceux qui n’en ont jamais eu et qui n’envisagent pas
d’en avoir, ils ont une représentation : R3 différente de R1 et R2, 849
puisque quelle que soit leur intention, leur pratique de l’objet est
totalement différente de celle des autres.
Par ailleurs, en nous référant à des travaux (Mardellat, 1994)
qui montrent que les artisans commercialement dynamiques ont une
vision optimiste de l’avenir de leur métier alors que les artisans non
dynamiques en ont une perception négative, nous posons qu’il exis-
te vraisemblablement une relation du même ordre entre les artisans
qui ont une pratique d’apprentissage et les autres. Plus précisément,
nous faisons l’hypothèse, que la représentation de l’avenir du métier
a de fortes chances d’être corrélée avec les pratiques en matière de
recours ou non à l’apprentissage, dans la mesure où la nature même
de l’apprentissage est un pari sur l’avenir.
En conséquence, on peut s’attendre à l’existence d’une relation
entre les pratiques en matière d’apprentissage et le contenu du noyau
central de la représentation des objets apprentissage et avenir et donc
d’un lien étroit entre ces deux représentations sociales.

HYPOTHESES

Au regard des éléments précédents nous pouvons formuler


les hypothèses suivantes.

estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.


Hypothèse 1 - Effet de Pratique
Il existe une relation entre le comportement relatif à l’objet
apprentissage et la représentation de cet objet. Celle-ci doit être
caractérisée par des différences de contenu du noyau central.

H 1- Plus précisément,
• les artisans qui ont des apprentis et souhaitent continuer à
en prendre (population A1), perçoivent la situation comme
irréversible,
• les artisans qui ont eu des apprentis, n’en ont plus et déclarent
ne plus en vouloir (population A2), perçoivent la situation
comme irréversible,
• A1 et A2 ont pour facteur commun : l’irréversibilité perçue
de la situation, mais ils ont une pratique différente de
l’apprentissage,
• en conséquence, A1 et A2 devraient avoir une représentation
850 différente des objets apprentissage et avenir
H’ 1 - Corrélativement,
• les artisans qui ont des apprentis et souhaitent continuer à
en prendre (population A1), perçoivent la situation comme
irréversible,
• les artisans qui n’ont pas d’apprentis, en ont déjà eu et
envisagent d’en reprendre (population A3), perçoivent la
situation comme réversible,
• A1 a une pratique différente de celle de A3 , mais A3 a une
pratique perçue comme provisoire,
• en conséquence, le noyau central de A3 ne devrait pas être
modifié et A1 et A3 devraient avoir une représentation
identique des objets apprentissage et avenir.

Au regard de la théorie des représentations sociales, et compte


tenu des différentes sous-populations, l’hypothèse 1 peut donc se
décliner en H1 et H’1, à savoir :

H1 : R (A1) # R (A2)
H’1 : R (A1) = R (A3)

Variables
Variable indépendante : la pratique stabilisée en matière
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.

d’apprentissage, avec trois modalités : populations A1 (ont des


apprentis et souhaitent continuer à en prendre), A2 (ont eu des
apprentis, n’en ont plus et déclarent ne plus en vouloir) et A3 (n’ont
pas d’apprentis, en ont déjà eu et envisagent d’en reprendre).
Variable dépendante : le contenu du noyau central.

Mode de traitement de H1
• Répartition des individus en deux sous-populations : A1 et
A2.
• Etude du contenu du noyau central des représentations
sociales étudiées.
Mode de traitement de H’1
• Répartition des individus en deux sous-populations :A1 et
A3.
• Etude du contenu du noyau central des représentations
sociales étudiées.
851
Hypothèse 2 - Effet de réversibilité/irréversibilité perçue
Lorsque le renoncement à l’apprentissage est présenté comme
provisoire par les artisans, c’est-à-dire perçu comme réversible
(populations A3), le noyau central devrait être modifié par rapport
à une population qui, n’ayant plus recours à l’apprentissage, perçoit
la situation comme irréversible (A2).

Variables
Variable indépendante : réversibilité/irréversibilité perçue de
la situation, à deux modalités : population A2 et A3.
Variable dépendante : le contenu du noyau central.

Mode de traitement
• Répartition des individus en deux sous-populations : A2
(irréversibilité perçue) et A3 (réversibilité perçue).
• Etude du contenu du noyau central des représentations
sociales étudiées.
• Comparaison des résultats entre A3 et A2.

POPULATION ET METHODE

Les résultats portent sur 360 questionnaires renseignés en face


estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.
à face par des artisans du bâtiment. Chaque sous-population est
constituée de 120 sujets. Les analyses ont été réalisées sur des
données recueillies à partir d’une question d’association sur les
mots inducteurs apprentissage et avenir. Plus précisément, nous
avons procédé en tout premier lieu à une analyse prototypique et
catégorielle (VERGES, 1992, 1994, 1999 ; ABRIC, 1994b, 2003)
des évocations. Cette technique a pour objectif d’étudier la façon
dont s’organisent des associations libres et partant de repérer les
éléments susceptibles de relever du noyau ou de la périphérie. Le
corpus est analysé en recourant au croisement de la fréquence
d’occurrence et du rang moyen de réponse permettant de définir
une répartition par statut des éléments de la représentation. Un
tableau à quatre cases est produit, dans lequel chaque évocation
est localisée dans un des quatre quadrants. Le premier quadrant
constitué des éléments ayant une forte fréquence et un rang moyen
d’apparition peu élevé (il s’agit de notions rapidement énoncées
852 dans le discours), correspond à la zone du noyau central. Dans la
deuxième case (fréquence forte, rang lointain d’apparition dans le
discours), on trouve les éléments de première périphérie. La case
trois (fréquence faible, rang peu élevé) est composée d’éléments
contrastés (ABRIC, 2003) ou d’informations contradictoires
(Vergès, 1994). Enfin, le quatrième quadrant (fréquence faible, rang
lointain) constitue la deuxième périphérie. Cette méthode peut être
appliquée sur le vocabulaire donné par les sujets sans aucun
retraitement ou bien après avoir procédé à des regroupements en
catégories sémantiques.
Les résultats présentés ici n’ont pas été retraités afin de ne
pas prendre le risque, inhérent à tout regroupement, d’interpréter
les données de manière projective. Par ailleurs, pour la clarté de
notre exposé, nous présentons ici uniquement les éléments
constitutifs de la zone du noyau central.

RESULTATS

Représentation de L’apprentissage et Effet de Pratique (H1)

Le contenu du noyau central de la représentation de


l’apprentissage des artisans qui ont des apprentis et souhaitent
continuer (A1)
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.

Les mots qui appartiennent au noyau central sont définis par


la fréquence - cités 24 fois et plus - et par le rang moyen d’apparition
- rang moyen inférieur à 2.50 -.
Nous trouvons dans cette position un groupe de 4 mots.

IMPORTANCE liée au rang d’apparition GRANDE


Rang < 2.50

Nombre total d’évocations : 375


Moyenne générale (rangs) : 3.12
Figure 1: Analyse des associations libres relatives au mot inducteur
apprentissage, évoquées par les artisans qui ont des apprentis et
souhaitent continuer (A1), (N=120) 853
La représentation de l’apprentissage est organisée autour d’un
noyau central constitué de quatre éléments principaux :
• le métier, évoqué par 57% de la population,
• la formation, évoqué par 43% de la population,
• les jeunes, évoqué par 48% de la population,
• la transmission, évoqué par 38% de la population.

Le contenu du noyau central de la représentation de


l’apprentissage des artisans qui n’ont plus d’apprentis et
n’envisagent pas d’en avoir (A2)

Les mots qui appartiennent au noyau central sont définis par


la fréquence - cités 24 fois et plus - et par le rang moyen d’apparition
- rang moyen inférieur à 2.50 -.
Nous trouvons dans cette position un groupe de 4 mots.

IMPORTANCE liée au rang d’apparition GRANDE


Rang < 2.50

estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.


Nombre total d’évocations : 423
Moyenne générale (rangs) : 3.52
Figure 2: Analyse des associations libres relatives au mot inducteur
apprentissage, évoquées par les artisans qui ont eu des apprentis mais
n’en veulent définitivement plus (A2), (N=120)

La représentation de l’apprentissage est organisée autour d’un


noyau central constitué de quatre éléments principaux :
• apprendre, évoqué par 52% de la population,
• transmission, évoqué par 43% de la population,
• les jeunes, évoqué par 47% de la population,
• formation, évoqué par 28% de la population.

L’analyse des évocations

Les résultats (cf. tableaux 1 & 2) donnent les informations


854 suivantes:
• pour le groupe A1, les éléments : formation, jeunes, métier
et transmission font partie de la zone centrale ;
• pour le groupe A2, on remarque que les éléments saillants sont
les suivants : apprendre, transmission, jeunes et formation.

On constate donc une grande proximité entre A1 et A2,


toutefois, le noyau central de A2 n’inclut pas le métier, ce qui nous
paraît fondamental. En effet, cette absence signifie, d’une part que
la notion d’insertion n’est pas liée à l’apprentissage chez les
artisans du groupe A2, d’autre part, que les éléments apprendre,
transmission et jeunes, s’ils figurent bien dans le noyau central de
A2, sont en quelque sorte, déconnectés du métier.
En conséquence, on peut dire que le contenu de la représentation
de l’objet apprentissage du groupe A1 est sensiblement différent de
celui de la représentation du groupe A2. En effet, la dimension insertion
est relevée uniquement chez A1. L’hypothèse H1 est donc vérifiée.

Représentation de L’apprentissage et Effet de Pratique (H’1)

Le contenu du noyau central de la représentation de


l’apprentissage des artisans qui n’ont plus d’apprentis mais
souhaitent en avoir (A3)
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.

Les mots qui appartiennent au noyau central sont définis par


la fréquence - cités 24 fois et plus - et par le rang moyen d’apparition
- rang moyen inférieur à 2.50 -.
Nous trouvons dans cette position un groupe de 4 mots.

IMPORTANCE liée au rang d’apparition GRANDE


Rang < 2.50

Nombre total d’évocations : 343


Moyenne générale (rangs) : 2.86
Figure 3 : Analyse des associations libres relatives au mot inducteur
apprentissage, évoquées par les artisans qui n’ont plus d’apprentis
mais souhaitent en reprendre (A3), (N=120) 855
La représentation de l’apprentissage est organisée autour d’un
noyau central constitué de quatre éléments principaux :
• la transmission, évoqué par 51% de la population,
• formation, évoqué par 35% de la population,
• le métier, évoqué par 58% de la population,
• les jeunes, évoqué par 38% de la population.

L’analyse des évocations


Les résultats montrent que les éléments contenus dans le noyau
central de la représentation des groupes A1 et A3 est strictement
identique (Figure 1,3).
En conclusion, l’hypothèse H’1 est totalement vérifiée pour
la représentation sociale de l’apprentissage.

Discussion
On remarque à la lecture des résultats ci-dessus, que tout se passe
comme si, malgré les problèmes occasionnés par l’apprentissage,
les artisans du groupe A1, continuaient à prendre des apprentis, alors
qu’éventuellement, à cause de ces mêmes problèmes, les artisans
du groupe A2, refusent de continuer.
Plus précisément, les problèmes liés à l’apprentissage, tout
en étant présents pour A1, sont relativisés par l’engagement dans
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.
la transmission. Le déclencheur premier des artisans qui veulent
continuer à prendre des apprentis, semble donc être extrêmement
lié à l’idée de transmettre et de pérenniser le métier. Alors que
pour A2, malgré la présence de la notion de transmission, les
problèmes sont vécus comme trop forts pour être dépassés.
On a donc, deux représentations (celle de A1 et celle de A2) qui
bien que différentes, sont extrêmement proches, ce qui signifie que le
poids ressenti des problèmes n’est pas le même dans les deux groupes.
Par ailleurs, les résultats obtenus montrent que les artisans
qui ont eu des apprentis et envisagent d’en reprendre n’ont pas
modifié leur représentation de l’apprentissage par rapport à ceux
qui continuent cette pratique.

Représentation de L’avenir et Effet de Pratique (H1)

Le contenu de la représentation de l’avenir, des artisans qui


856 ont des apprentis et souhaitent continuer (A1)
Les éléments qui appartiennent au noyau central sont définis
par la fréquence - cités 24 fois et plus - et par le rang moyen
d’apparition - rang moyen inférieur à 2.50 -.
Nous trouvons dans cette position un groupe de 3 mots.

IMPORTANCE liée au rang d’apparition GRANDE


Rang < 2.50

Nombre total d’évocations : 403


Moyenne générale (rangs) : 3.36
Figure 4: Analyse des associations libres relatives au mot inducteur avenir,
évoquées par les artisans qui ont des apprentis et souhaitent continuer
(A1), (N=120)

La représentation de l’avenir est organisée autour d’un noyau


central constitué de trois éléments principaux :
• difficile, évoqué par 57% des personnes du groupe,
• beau-métier, évoqué par 49% des personnes du groupe,
• concurrence, évoqué par 38% des personnes du groupe.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.

Le contenu de la représentation de l’avenir des artisans qui


n’ont plus d’apprentis et n’envisagent pas d’en avoir (A2)

Les mots qui appartiennent au noyau central sont définis par


la fréquence - cités 24 fois et plus - et par le rang moyen d’apparition
- rang moyen inférieur à 2.50 – sont les suivants :

IMPORTANCE liée au rang d’apparition GRANDE


Rang < 2.50

Nombre total d’évocations : 301


Moyenne générale (rangs) : 2.51
Figure 5 : Analyse des associations libres relatives au mot inducteur avenir,
évoquées par les artisans qui ont eu des apprentis mais n’en veulent
définitivement plus (A2), (N=120) 857
La représentation de l’avenir est organisée autour d’un noyau
central constitué de trois éléments principaux:
• pas d’avenir, évoqué par 53%,
• disparition, évoqué par 49%,
• concurrence, évoqué par 47%.

L’analyse des évocations


Les résultats (cf. tableaux 4 & 5) révèlent que les éléments
saillants de la représentation de l’avenir du métier pour les
artisans qui ont des apprentis et veulent persister dans cette pra-
tique (A1), sont totalement différents de ceux de la représentation
des artisans qui ont eu des apprentis mais ont décidé de ne plus
en avoir (A2). En effet, alors que les premiers estiment que leur
métier est beau même s’il est difficile, les seconds pensent qu’ils
n’ont pas d’avenir. L’hypothèse H1 est donc à nouveau vérifiée
pour l’objet avenir.

Représentation de L’avenir et Effet de Pratique (H’1)

Le contenu de la représentation de l’avenir, des artisans qui


n’ont plus d’apprentis mais souhaitent en avoir (A3)

estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.


Les mots qui appartiennent au noyau central sont définis par
la fréquence - cités 24 fois et plus - et par le rang moyen d’apparition
- rang moyen inférieur à 2.50 -.
Nous trouvons dans cette position un groupe de 3 mots.

IMPORTANCE liée au rang d’apparition GRANDE


Rang < 2.50

Nombre total d’évocations : 305


Moyenne générale (rangs) : 2.54
Figure 6: Analyse des associations libres relatives au mot inducteur avenir,
évoquées par les artisans qui n’ont plus d’apprentis mais souhaitent
en reprendre (A3), (N=120)
858
La représentation de l’avenir est organisée autour d’un noyau
central constitué de trois éléments:
• difficile, évoqué par 52%,
• vieux, évoqué par 53%,
• beau métier, évoqué par 49%.

L’analyse des évocations


Les résultats (cf. tableaux 4 & 6) montrent une certaine
proximité entre les artisans du groupe A1 et A3. En effet, si pour
eux, l’avenir de leur métier est lié à la conjoncture, il n’est pas
pour autant en voie de disparition et il reste un beau métier. On
peut donc avancer, même si l’idée que le métier est “ vieux ” n’est
présente que chez les artisans qui n’ont plus d’apprentis mais
souhaitent en reprendre que l’hypothèse H’1 est quasiment vérifiée
dans la mesure ou le groupe A1 est nettement plus proche du groupe
A3 que du groupe A2.
Plus précisément, la lecture des résultats, on remarque que le
non avenir de l’artisanat est uniquement présent dans la
représentation de l’avenir du métier des artisans qui n’ont plus
d’apprentis et ont décidé de ne plus en avoir (irréversibilité). La
dimension “avenir négatif”, est par conséquent extrêmement
différenciatrice.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.

De plus, ce résultat valide l’hypothèse d’une relation entre la


représentation de l’avenir et le recours à l’apprentissage (H1).
D’autre part, à la lecture des résultats ci-dessus, on constate
que tout se passe comme si, les artisans des trois groupes avaient
une forte et même identité. Les uns, percevant celle-ci comme un
frein à leur évolution (A2), n’auraient pas recours à l’apprentissage
et les autres (A1 et A3), moyennant quelques ajustements, ne la
considérant pas comme un obstacle à leur avenir, prendraient alors
des apprentis.
En effet, pour les artisans qui ont des apprentis et souhaitent
poursuivre dans cette voie, les résultats mettent en évidence une
forte identité, un degré élevé de confiance dans leur avenir, la
reconnaissance de problèmes occasionnés par l’apprentissage,
mais la certitude qu’il existe des solutions. Dans le même temps,
les artisans appartenant à ce groupe (A1), semblent avoir une
conviction très forte que l’apprentissage est un moyen de
transmission de leur savoir et de pérennisation du métier. 859
En revanche, pour les artisans qui ont eu des apprentis mais
n’en veulent plus, les problèmes sont perçus comme particulièrement
lourds. De plus, pour eux, le métier n’a pas d’avenir et apprendre,
former, transmettre à des jeunes n’a pas de raison d’être, car comme
nous l’avons vu supra, le métier est absent du noyau central de leur
représentation de l’apprentissage.
Par conséquent, on a le sentiment à la lecture des résultats que
la représentation de l’avenir est plus explicative des pratiques que
la représentation de l’apprentissage. En effet, tout se passe comme
si pour les artisans du groupe A2, leur identité était vouée à
disparaître, leur faisant voir l’avenir de manière négative, les
dissuadant par conséquent, de prendre des apprentis. Au contraire
pour les sujets des groupes A1 et A3, leur propre identité apparaît
comme un facteur de “ vie ”. En effet, ils sont convaincus qu’ils
doivent transmettre, ils croient en l’avenir, ils ont des problèmes
mais ils ont le sentiment qu’il existe des solutions, ils prennent
donc des apprentis.

Représentation de L’apprentissage et Effet de Réversibilité/


Irréversibilité (H2)

L’hypothèse H2 postule que A3 doit être différent de A2.


estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.
Les résultats (cf. tableaux 2 & 3) montrent que les éléments
saillants de la représentation de l’apprentissage pour les artisans
qui ont eu des apprentis et n’en veulent plus (A2), sont légèrement
différents de ceux de la représentation des artisans qui ont eu des
apprentis mais ont décidé d’en avoir à nouveau (A3). En effet, l’idée
de métier est totalement absente des éléments saillants de la
représentation du groupe A2. L’hypothèse H2 est donc vérifiée.

Représentation de L’avenir et Effet de Réversibilité/


Irréversibilité (H2)

L’hypothèse H2 postule que A3 doit être différent de A2.


Les résultats (cf. tableaux 5 & 6) indiquent que les éléments
saillants de la représentation de l’avenir du métier pour les artisans
qui ont eu des apprentis et n’en veulent plus (A2), sont totalement
différents de ceux de la représentation des artisans qui ont eu des
860 apprentis et ont décidé d’en reprendre (A3). En effet, chez les
premiers, l’idée que leur métier puisse disparaître est totalement
absente des éléments saillants de la représentation. L’hypothèse
H2 est donc vérifiée.

Discussion Générale

A la lecture des résultats ci-dessus, il apparaît que les deux


hypothèses issues de la théorie des représentations sociales sont
vérifiées. En effet, pour les deux représentations étudiées, à savoir
l’apprentissage et l’avenir, l’effet de pratique postulé dans
l’hypothèse H1 est vérifié.
Les artisans qui ont une pratique de l’apprentissage perçue
comme définitive (A1), ont une représentation différente des objets
étudiés, des artisans qui ont une pratique différente perçue elle aussi
comme irréversible (A2). En effet, le contenu du noyau central
des représentations de l’avenir et de l’apprentissage du groupe A1
est différent de celui du groupe A2. On a donc bien un effet de
pratique dans le sens où ces deux sous-groupes ont une perception
irréversible de la situation mais sur la base de pratiques différentes.
Par ailleurs, les artisans du sous-groupe A3 qui ont une pratique
différente de A1, mais perçue comme provisoire ont la même
représentation des objets étudiés que celle du sous-groupe A1. Ici donc,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.

l’effet de pratique est gommé par l’intention de modifier celle-ci.


D’autre part, l’effet de réversibilité versus irréversibilité
postulé dans l’hypothèse 2, est également vérifié pour les deux
objets de représentation étudiés. En effet, le contenu du noyau
central des représentations de l’apprentissage et de l’avenir, sont
différents chez les artisans du sous-groupe A3 pour lequel le
renoncement à l’apprentissage est provisoire (réversibilité) et A2,
pour lequel il est présenté comme définitif (irréversible). On ob-
serve donc bien, que l’effet de réversibilité/irréversibilité postulé
dans l’hypothèse H2 est vérifié. En effet, les résultats montrent
bien, et conformément à la théorie, que dans le cas d’une situation
perçue comme réversible, les pratiques mises en oeuvre n’ont que
peu d’effet sur la représentation, alors que lorsque la situation est
pressentie comme irréversible, les pratiques se traduisent par une
modification du noyau central.
Plus précisément encore, l’étude de la représentation de
l’avenir, met en évidence un effet de pratique et de réversibilité/ 861
irréversibilité perçue de la situation. En effet, pour les artisans qui
ont des apprentis et ont décidé de continuer à en avoir, leur métier
est difficile et il y a de la concurrence mais c’est un beau métier et
l’apprentissage est la meilleure solution pour le transmettre ; c’est
de plus un devoir et une nécessité pour que l’artisanat survive. Pour
les artisans qui n’ont plus d’apprentis et ne souhaitent plus en avoir,
le métier n’a pas d’avenir et l’apprentissage représente donc une
contrainte, des tracasseries et un surcroît de travail. L’irréversibilité
perçue de la situation engendre donc une modification du système
central des deux champs représentationnels, celui de
l’apprentissage et celui de l’avenir.
En résumé, l’effet de pratique est donc vérifié dans la mesure
où les artisans qui ont une pratique de l’apprentissage différente
mais vécue comme irréversible, ont une représentation différente
de l’apprentissage et de l’avenir du métier. En revanche, ceux qui
ont une pratique différente mais perçue comme provisoire, ont la
même représentation de l’avenir et de l’apprentissage.
De plus, l’effet de réversibilité versus irréversibilité est
également validé, dans la mesure où le contenu du noyau central
de la représentation de l’avenir et de celle de l’apprentissage, sont
différents chez les artisans qui disent renoncer définitivement à
prendre des apprentis et chez ceux qui pensent n’y renoncer que
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.
provisoirement.

Références

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sociales. Communication présentée à la 3 Conférence sur les Représentations
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en psychologie économique. In: DANS, C.; ROLAND-LEVY, P. A. (Eds.).
Psychologie Economique Paris: Economica, 1999.

Abstract: in a context of permanent decrease of the artisanal sector


in France, it is verified that the artisans refuse even more the role 863
of apprentice, this fact might lead to the evanishment of these
métiers. The study aimed to understand the outcome of reversibility/
irreversibility perception in learning artisans´ social
representation. The results indicate that social representations of
the futures exerts an effect in learning’ social representation.

Key words: social representations, artisans, learning, reversibility

estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 847-864, set./out. 2008.

LUCILE SALESSES
Docteur en Psychologie Sociale, enseignante à l’Université de la Méditerranée -
Aix-en-Provence, France et membre permanent du Laboratoire de psychologie
864 sociale de l’Université de Provence - Aix-en-Provence, France
QUALIDADE DE VIDA
DE PORTADORES DE HIV/AIDS
ASSISTIDOS POR UMA
ORGANIZAÇÃO DE APOIO

CYNTHIA MARQUES FERRAZ DA MAIA


SEBASTIÃO BENÍCIO DA COSTA NETO

Resumo: esta pesquisa tem com objetivo identificar, des-


crever e analisar a Qualidade de Vida (QV) dos portadores de
HIV/Aids, no centro-oeste brasileiro. Trata-se de um estudo
transversal, quantitativo, qualitativo e exploratório, realiza-
do na Casa de Apoio ao Doente de Aids (CADA). Foram apli-
cados o WHOQOL-100 da Organização Mundial de Saúde,
uma entrevista semi-estruturada e uma ficha sociodemográfica
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.

e clínica. O método de coping mais utilizado foi o de fuga ou


evitamento. Percebeu-se a presença de sinais de depressão,
de discriminação, de fantasias relacionadas a perdas e de
comportamento social restrito. Essas perdas foram ameniza-
das pelo apoio recebido pelo CADA. Sugere-se às casas de
apoio o desenvolvimento de oficinas terapêuticas e de produ-
ção, para ampliar a auto-estima, a capacidade para o traba-
lho, o nível de autonomia e a QV dos portadores de HIV/Aids.

Palavras-chave: qualidade de vida, HIV/Aids, suporte social

C
ada vez mais se reconhece uma tendência em vários
países, inclusive nos em desenvolvimento, de uma
mudança no perfil de morbi-mortalidade, que indica o
aumento da prevalência das doenças crônico-degenerativas. Os
avanços no tratamento e as possibilidades efetivas de controle 865
dessas enfermidades têm acarretado o aumento da sobrevida das
pessoas acometidas por esses agravos (SEIDL; ZANNON, 2004).
As doenças crônicas são a principal causa de incapacidade, a
maior razão para a demanda de serviços de saúde e respondem por
parte considerável dos gastos efetuados no setor da saúde. Por
exemplo, analisando os gastos em saúde efetuados pelas organi-
zações administradoras de saúde norte-americanas, os portadores
de doenças crônicas, embora correspondessem a cerca de 20% dos
clientes, consumiam 80% dos recursos (ALMEIDA et al. 2002).
O acesso ao sistema de saúde e fatores psicossociais compõem
uma equação que pode estar associada à percepção de risco e à busca
de assistência em saúde. Assim, faz-se necessário o estudo das en-
fermidades crônicas e, principalmente, das condições psicológicas
dos portadores dessas enfermidades, sendo a Aids uma das mais
presentes no mundo atual (BAYÉS, 1995; CANINI et al., 2004).
São tantas as adversidades que um portador de HIV/Aids pode
encontrar ao longo da evolução de sua doença que fatalmente estará
sujeito a alterações significativas na forma que utiliza o sistema
de saúde pública ou entidades sociais de apoio e em sua qualidade
de vida. Assim, torna-se importante o conhecimento dos aspectos
relacionados às diversas dimensões de vida do portador do HIV/
Aids, de forma que isto possa, posteriormente, subsidiar as inter-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.
venções da equipe de saúde e de profissionais que sustentam as
atividades das Organizações Não-Governamentais (ONG’s).
Segundo periodização de Galvão (2000), entre 1985 e 1991,
foram criadas as primeiras organizações dedicadas exclusivamente
à Aids. Esta fase consolidou um padrão de intervenção da socie-
dade civil, que foi responsável, em boa medida, pela história da
doença no Brasil. Entre 1985 e 1989, foram criadas três organiza-
ções paradigmáticas das ações que se multiplicam nos anos se-
guintes: Gapa, Abia e Pela Vidda.
Parece não haver dúvida de que, no caso da epidemia de Aids,
as ONG’s desempenharam papel importante para o desenvolvi-
mento de políticas de prevenção e assistência. Assim, a presença
acentuada da sociedade civil no contexto das respostas à epide-
mia contribuiu decisivamente para a construção do que alguns
analistas chamam a especificidade da história da Aids brasileira
(DANIEL, PARKER, 1990; GALVÃO, 2000). Também fica cla-
866 ro que essa participação se deu, em grande medida, dentro do
paradigma típico das organizações não-governamentais e das ca-
racterísticas de especialização, competência técnica,
profissionalização da militância, tendência à proliferação de ini-
ciativas e de articulações internacionais.
Fica evidente a contribuição do surgimento das ONG’s para
a construção da história da Aids, pois elas intervêm para que ocor-
ra a diminuição da contaminação e uma melhora significativa na
qualidade de vida dos portadores dessa enfermidade.
O conceito de qualidade de vida é um termo utilizado, ao
menos, em duas vertentes: na linguagem cotidiana, por pessoas da
população em geral, e no contexto da pesquisa científica. Na área
da saúde, o interesse pelo conceito de qualidade de vida vem dos
anos 1970. Assim, informações sobre qualidade de vida têm sido
incluídas como indicadores da avaliação do impacto e da eficácia
de tratamentos em portadores de várias enfermidades, até em
portadores de HIV/Aids. Durante a última década, os instrumen-
tos de medida de qualidade de vida evoluíram muito. A maioria
deles surgiu em decorrência da reformulação de instrumentos
anteriores, reelaborados com base mais no ponto de vista dos in-
vestigadores do que das características da população a ser avali-
ada (COSTA NETO, 2002).
Os estudos da qualidade de vida em pacientes portadores de
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.

HIV/Aids têm utilizado instrumentos genéricos ou elaborados para


avaliar outras doenças crônicas, como, por exemplo, o câncer
(GALVÃO et al., 2004). Para esses autores, os instrumentos que
foram adaptados para HIV/Aids não observam questões impor-
tantes específicas, relacionadas a essa enfermidade, como o dra-
ma social, a sexualidade e o relacionamento interpessoal.
Nos estudos dos aspectos específicos das condições de vida
de pessoas enfermas, a multidimensionalidade sugere que Quali-
dade de Vida não se restringe somente ao que ocorre no estado do
corpo ou nos bens materiais (STEPKE apud por COSTA NETO;
ARAÚJO, 2003). Esse é, portanto, um conceito que incorpora
também as relações com outras pessoas, a intimidade da fantasia,
a forma de vida da comunidade e as crenças religiosas.
Nas últimas décadas, o termo Qualidade de Vida (QV) tem
sido muito utilizado em vários contextos. Quase todos os autores
concordam em afirmar que este termo apareceu na década de 1970
e teve sua expansão através dos anos de 1980, envolvido por con- 867
ceitos tais como os de bem-estar, saúde e felicidade. Contudo, para
Seild e Zannon (2004), o termo qualidade de vida surgiu pela
primeira vez na literatura médica na década de 1930.
De acordo com Grau (1998), desde a década de 1980, o termo
QV vem sendo cada vez mais utilizado, tornando-se objetivo da
atenção médica, pois o avanço da medicina vem permitindo um
aumento considerável na sobrevida de pacientes com enfermida-
des crônicas.
Para a Organização Mundial de Saúde (OMS) (1998), a QV
pode ser definida em função da maneira como o indivíduo perce-
be o lugar que ocupa na sua cultura e no sistema de valores em que
vive, assim como em relação a seus objetivos, expectativas, crité-
rios e preocupações. A qualidade de vida deve basear-se em uma
ampla série de critérios e não somente em um aspecto.
Para Cianciarullo (2002), a QV é definida como um constructo
multidimensional, caracterizando-se pela abstração, significados
diferenciados por contextos e condições muito específicas. Den-
tre as dimensões que dão significado a QV, é possível destacar bem-
estar físico, capacidade funcional, estado emocional, interação
social, realização e desenvolvimento pessoal.
Segundo Elliott et al. (2002), vários estudos têm demonstra-
do os efeitos da infecção pelo HIV nos relatos de QV e a ocorrên-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.
cia de uma significativa melhora nesses relatos com efetiva terapia
anti-retroviral. Um sintoma que é muito observado, conjuntamen-
te com a infecção pelo HIV, é a depressão; então, segundo estes
mesmos autores, o efetivo manejo da depressão é importante para
uma maior aderência dos portadores à terapia anti-retroviral.
Em outro estudo, Cruz (2005) buscou caracterizar as estraté-
gias de enfrentamento (coping), o apoio social e a QV das famí-
lias que vivem com HIV/Aids, em Campo Grande – Mato Grosso
do Sul. Participaram do estudo 50 famílias. Foram aplicados o
questionário de características sociodemográficas, a Escala de
Coping de Billings e Moos, o questionário de avaliação do Apoio
Social e o Medical Outcomes Study 36-Item Short-Form Health
Survey (SF-36), a fim de verificarem o perfil sociodemográfico
das famílias participantes e de relacionar a capacidade de
enfrentamento e o apoio social recebido com a QV percebida pelos
entrevistados. Os resultados obtidos mostraram que o método de
868 coping mais utilizado pelas famílias e/ou portadores foi o cognitivo
(64%), com foco no problema (30%); porém, 62% não utilizavam
nenhuma categoria de coping específica. Os participantes consi-
deraram importante o apoio material (50%) e o emocional (44%),
mas utilizaram muito o apoio material, proveniente do governo e
da igreja, e o emocional, por meio das relações interpessoais. Os
participantes da investigação perceberam uma QV melhor quan-
do relacionada aos aspectos sociais, capacidade funcional, saúde
mental, estado geral de saúde e vitalidade, e uma QV inferior com
relação à dor, aos aspectos emocionais e aspectos físicos. Não
houve diferença significativa na QV percebida, considerando-se
as estratégias de coping e o apoio social recebido.
Considerando-se a limitação de estudos sobre QV de porta-
dores de HIV/Aids assistidos por ONG’s, na Região Centro-Oes-
te, buscou-se desenvolver a presente investigação questionando-se:
como têm os portadores de HIV/Aids avaliado sua QV relaciona-
da à saúde? Que dimensões de QV mais têm sido alteradas? Que
estratégias de enfrentamento psicológico mais têm sido utilizadas?
Desta forma, estabeleceu-se como objetivo geral do estudo
analisar a qualidade de vida dos portadores de HIV/Aids atendi-
dos por uma organização não-governamental de apoio, no Cen-
tro-Oeste brasileiro.
Os objetivos específicos são descrever e analisar: as dimen-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.

sões da qualidade de vida do portador de HIV/Aids (física, psico-


lógica, nível de independência, relações sociais e ambientais, e
aspectos espirituais/religião e crenças pessoais), considerando-se
os aspectos sociodemográficos e clínicos; as categorias temáticas
indicadoras da qualidade de vida dos portadores de HIV/Aids; e
as estratégias de enfrentamento psicológico adotadas entre porta-
dores de HIV/Aids.

MÉTODO

ASPECTOS ÉTICOS DA INVESTIGAÇÃO: comprometido


com a Resolução MS 196/96, o projeto foi aprovado no Comitê de
Ética em Pesquisa Médica, Humana e Animal do Hospital das
Clínicas da Universidade Federal de Goiás (CEPMHA/HC/UFG),
com autorização da coordenação da Casa de Apoio ao Doente de
Aids (CADA) para sua realização. O estudo foi realizado entre
fevereiro e junho de 2005. 869
CARACTERIZAÇAO DA PESQUISA: Transversal, quali-
tativa, quantitativa e exploratória.
LOCAL DO ESTUDO: Casa de Apoio ao Doente de Aids
(CADA), em Aparecida de Goiânia – Goiás. Trata-se de uma en-
tidade não-governamental e sem fins lucrativos.
PARTICIPANTES: 18 portadores de HIV/Aids, de ambos os
sexos, com idade entre 18 e 60 anos atendidos pelo CADA; 77,8%
são do interior de Goiás e 22,2% naturais de outros estados. Ma-
terial: foram utilizados 18 protocolos de fichas de identificação
pessoal e clínica; 36 exemplares do Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido; 18 exemplares do questionário de qualidade de vida
da Organização Mundial de Saúde – WHOQOL 100; Roteiro de
Entrevista Semi-Estruturada.
ESCOLHA DOS INSTRUMENTOS: O WHOQOL 100 foi
validado para o Brasil (Fleck et al., 1999; Fleck, 2000) e avalia as
dimensões: física, psicológica, nível de independência, relações
sociais e ambientais, aspectos espirituais e religião e crenças pes-
soais; o Roteiro de Entrevista Semi-estruturada foi construído com
base na revisão da literatura internacional sobre QV e HIV/Aids
e na experiência clínica com enfermos crônicos.
PROCEDIMENTO: Concomitante com a aprovação do pro-
jeto no CEPMHA/HC/UFG, foi realizado um contato pessoal com
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.
a direção do CADA que autorizou a coleta de dados. Os pacientes
que chegavam ao CADA, para se alojar, recebiam informações
sobre a pesquisa e eram convidados a participar da investigação.
Uma vez que a pessoa concordava, era assinado o Termo de Con-
sentimento Livre e Esclarecido e, de acordo com a disponibilida-
de do(a) participante, iniciava-se a entrevista para a coleta de dados.
Caso não houvesse disponibilidade, era marcado outro encontro.
No início da entrevista, foram colhidos os dados sociodemográficos
e foi aplicado o WHOQOL 100 e, ainda no mesmo encontro, o
Roteiro de Entrevista Semi-estruturada de Qualidade de Vida.
Apesar de estar previsto, não se observou o suporte psicológico
ao longo da coleta de dados.

RESULTADOS

Quanto aos dados sociodemográficos, na Tabela 1 observa-


870 se o predomínio do sexo masculino (61%), idade entre 35 e 45 anos
(45%), solteiros (56%), com ensino fundamental (72,3%), católi-
cos (56%) e com renda familiar de 1 a 3 salários mínimos (50%).
Cerca de 44% dos participantes tinham um segundo portador de
HIV/Aids na família. A grande maioria (83%) era procedente do
meio urbano.

Tabela 1: Dados SocioDemográficos dos Portadores de HIV/Aids


(N=18), Submetidos à Avaliação da Qualidade de Vida
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.

871
Na Tabela 2 encontram-se os dados clínicos, segundo os quais
27,8% dos participantes têm HIV, e 72,2% têm Aids, sendo que
destes 69% têm doenças oportunistas. Os dados obtidos mais re-
levantes foram os seguintes: 83,3% fazem tratamento anti-
retroviral e 72,2% não têm acompanhamento multiprofissional.

Tabela 2: Dados Clínicos dos Portadores de HIV/Aids (N=18),


Submetidos à Avaliação da Qualidade de Vida

Quanto aos dados qualitativos, as entrevistas, obtidas por meio


de um roteiro semi-estruturado, que também abarcou dados de
coping, foram transcritas literalmente e submetidas à análise de
conteúdo, segundo a técnica de Bardin (1994). A análise das cate-
gorias temáticas passou pela revisão de dois juízes pesquisadores
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.
de qualidade de vida e treinados na técnica de Análise de Conteúdo.
Os dados qualitativos foram organizados em sete categorias
temáticas (Tabela 3). Dentre essas, pode ser destacada a categoria
Percepção do Estado da Saúde Geral, da Forma de Contaminação
e do Prognóstico, que teve como subcategoria mais significativa
a Percepção Insatisfatória do Estado de Saúde Geral no momento
atual, com 9,2%. Outras categorias relevantes foram: Efeitos
Colaterais dos Medicamentos (8,0%) e Adesão ao Tratamento
Médico (8%). Ressalte-se que nessa categoria foram somados os
comportamentos de adesão e os de não-adesão; o comportamento
de adesão representou 4,9%, e a não-adesão, 3,1%.
Das subcategorias relacionadas aos Aspectos Psicológicos
(Tabela 3), destaca-se a Percepção do Próprio Temperamento
(8,0%). Em relação à categoria Estratégias Psicológicas de
Enfrentamento, a subcategoria mais significativa foi a Fuga ou
Esquiva (5,0%). Na categoria Vida Profissional, a subcategoria
872 que se destacou foi Perda do Status Profissional (5,5%).
Tabela 3: Freqüência das Categorias e Sub-Categorias Temáticas
de Qualidade de Vida de Portadores de HIV/Aids
(N=18)
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.

Os dados relativos ao WHOQOL-100 foram analisados por meio


de estatística descritiva (média e desvio padrão) das dimensões de
Qualidade de Vida e da freqüência das variáveis sociodemográficas 873
e clínicas (sexo, idade, escolaridade, estado civil, religião, renda fa-
miliar, dependentes, existência de outro portador na família, proce-
dência, estado clínico médico objetivo, tratamento clínico atual e
acompanhamento multiprofissional atual).

Tabela 4: Média e Desvio Padrão das Facetas e Domínios do


WHOQOL-100, Obtidos junto a Portadores de HIV/
Aids (N=18)

estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.

Como pode ser observado na Tabela 4, são apresentadas as


médias e os desvios padrão de cada uma das facetas e dos domí-
nios avaliados pelo WHOQOL-100. Observa-se que, para o cál-
culo das médias, foram consideradas as questões invertidas.
Desta forma, conforme a Tabela 4, observa-se que entre as
874 facetas indicadoras de qualidade de vida, 63% apresentaram-se
acima da média (estado de saúde, otimismo em relação à vida,
concentração, outras), 29% abaixo da média (sono, satisfação com
a rede de suporte social, lazer, outras) e 8% na média (capacidade
para o trabalho e ambiente físico), considerando-se a escala de 1
a 5 pontos. Segundo Fleck et al. (1999), a cada ponto
corresponderia a manutenção de cerca de 20% em qualidade de
vida, ou seja, o ponto 1 da escala corresponde a 0% de qualidade
de vida, e o ponto 5, a 100% na qualidade de vida, considerando-
se o item específico avaliado.
Quanto aos domínios (Tabela 4), todos se encontram acima
da média, destacando-se o da Espiritualidade/Religiosidade e
Crenças que chega à média de 4,2.

DISCUSSÃO

Não há como negar que portar o HIV/Aids tem um impacto


sobre a percepção da qualidade de vida (QV). Ainda que pese o
fato da qualidade de sua avaliação estar relacionada às proprieda-
des dos instrumentos – portanto, urgindo a necessidade de esco-
lha de instrumentos de avaliação que sejam robustos em suas
propriedades psicométricas e/ou em conteúdos que possam abar-
car as principais áreas já apontadas pela literatura internacional
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.

sobre o assunto –, é preciso considerar, também, as características


próprias da enfermidade, que envolvem um conjunto de fatores
adversos que pressupõem alguma perda e convivência com adver-
sidades. Outro fator relevante é a avaliação da QV sendo realiza-
da pelo próprio indivíduo, pois é ele quem vivencia sua
enfermidade e as adversidades dela decorrentes. Esse fato demons-
tra, de acordo com Grau (1998), que a QV envolve aspectos sub-
jetivos e objetivos pertencentes ao indivíduo e experienciados de
maneiras diferentes por cada um.
Características sociodemográficas, que se destacam pela di-
ferença de gênero, pauperização, pouca instrução educacional e
pouca compreensão de questões afins ao binômio saúde-doença,
entre outras, podem compor um cenário desprivilegiado que se
agrava na presença do diagnóstico de HIV e/ou Aids. Especifica-
mente, nesta investigação, observou-se uma realidade
sociodemográfica e de condições de saúde que causou impacto
negativo na percepção da qualidade de vida dos participantes. 875
Em relação ao sexo dos participantes da amostra, 61,1% eram
masculinos e 38,9%, femininos. Esses dados estão em acordo com
a epidemiologia do HIV/Aids brasileira (BRASIL, 2005). Consi-
derando que quase 40% da amostra é do sexo feminino e que essas
mulheres são é carentes de recursos financeiros, além de possuirem
pouca escolaridade, esse dado pode demonstrar falta de informa-
ção delas em relação à prevenção do HIV/Aids e em relação às co-
morbidades. Observou-se que a maioria dos relatos nas entrevistas
demonstrou dificuldade das mulheres para discutir com o parcei-
ro o uso do preservativo.
Com relação à idade, a maioria dos participantes encontra-
va–se na faixa etária de 35 a 45 anos, fato que corrobora os dados
nacionais (BRASIL, 2003) em que os casos de Aids, no sexo
masculino, diagnosticados entre 1980 e 2003, totalizam 220.783,
em todas as faixas etárias; a idade mais acometida é a de 25 a 49
anos e nessa faixa predominam os homens com 79% dos casos.
Essa constatação demonstra que o HIV/Aids está acometen-
do uma parcela muito jovem da população, dado que se converte
em preocupação, diante da disponibilidade de informações, por
ser essa faixa etária, entre 35 a 45 anos, a sexualmente mais ativa.
Considerando-se uma média de dez anos para a manifestação dos
primeiros sintomas do HIV/Aids, em razão do período de latência
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.
da doença, é de supor que a maioria dos participantes tenha sido
contaminada pelo HIV na fase de adolescência e/ou no início da
fase adulta. Essa situação alerta para a necessidade de prevenção
primária, ou seja, para uma maior divulgação de informações e de
elaboração de programas de prevenção voltados para os adoles-
centes que estão iniciando a vida sexual.
Em relação ao estado civil, percebe-se que a maioria dos
participantes relata viver sozinha (55,6%). Esse dado sugere uma
fragilidade do suporte social, fato que pode estar relacionado com
o estudo de Dias (1993). A autora relata que o diagnóstico de HIV+
provoca a eclosão de conflitos internos muito profundos e anteri-
ores e que agora, além de toda a carga de angústia que mobilizam
por si só, são expostos e carregados de julgamentos, de valoriza-
ções públicas, sociais e morais. O paciente se depara com uma
situação de discriminação, com tendência a se isolar.
O estudo feito por Cruz (2005) mostrou que a família deixou
876 de ser aquele núcleo constituído unicamente por casamento for-
mal; as unidades familiares são diversificadas quanto a sua for-
mação. No que se refere aos dados dos portadores entrevistados
nesta investigação, percebe-se que, na maioria das vezes, os sujei-
tos constituem-se como família, ainda que nem sempre com situ-
ação formalizada (registrada). Nesse aspecto, observa-se, também,
que um portador é o suporte social do outro (44,4%), fato que pode
acarretar uma aproximação do suporte social, pela identificação,
por viverem a mesma condição clínica e, em outros casos, pela
dificuldade econômica.
Com relação à escolaridade, a incidência de Aids vem aumen-
tando tanto em homens quanto em mulheres com até oito anos de
estudo (BRASIL, 2003; FONSECA et al., 2000). A investigação
mostra que os participantes, na porcentagem de 55,6%, tiveram
escola até a oitava série. O estudo realizado por Cruz (2005)
mostrou também que a epidemia segue em direção de segmentos
menos favorecidos desfavorecidos da população. O baixo nível
educacional dos participantes, ligado à carência econômica, pode
gerar um cenário de dificuldades por eles percebido. Suas adver-
sidades no meio social são inúmeras: não conseguem trabalho e,
quando o têm, muitas vezes se sentem discriminados, por serem
portadores do HIV/Aids.
Todos os participantes desta investigação ainda, confessaram
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.

alguma crença religiosa que pode ter existido independente da


doença. Assim, sugere-se que a religião é uma variável importan-
te para a definição de qualidade de vida das pessoas em geral. Ainda
que haja uma nítida definição do campo de ação dos psicólogos da
saúde em relação ao trabalho com a população portadora de doen-
ças crônico-degenerativas, cada vez mais se espera que haja, por
parte daqueles profissionais, uma maior reflexão sobre o papel da
espiritualidade de cada um (nas suas diversas expressões), relaci-
onada à percepção de uma vida mais ou menos saudável e mais ou
menos com sentido.
Em muitos relatos, a religião se mostrou como uma forma de
enfrentamento da realidade que auxilia de maneira satisfatória na
redução de ansiedade. Muitos participantes relatam que, após a
contaminação, ficaram mais religiosos, demonstrando a utiliza-
ção do coping religioso.
Quanto à renda familiar, a maioria dos participantes (cerca de
80%) vive com menos de três salários mínimos. Considerando que 877
mais da metade dos portadores mantém um ou mais dependentes
que vivem da mesma renda e considerando que 44,4% dos parti-
cipantes têm um segundo portador de HIV/Aids na família, su-
põe-se supor que estas pessoas necessitem de um fortalecimento
na sua rede de suporte social, que pode ser realizado pelas casas
de apoio, que atuam na prevenção e no controle da infecção pelo
HIV/Aids. Mas o que se percebe, atualmente, é que muitas casas
de apoio têm dificuldades de atuar na prevenção do HIV/Aids, pois
as pessoas que as procuram, na maioria dos casos, já se encontram
infectadas. Essas casas acabam atuando, sobretudo, para contro-
lar a infecção, com a divulgação de informações aos portadores
do HIV, dando-lhes apoio material, social e emocional.
Neste estudo, percebeu-se a importante função desempenha-
da por essas casas na melhoria da qualidade de vida dos portado-
res. Para muitos, as ONG’s representam o único suporte social,
material e emocional. Servem como elemento de apoio mais ade-
quado. Esse fator pode, ao longo do tempo, minimizar as circuns-
tâncias indesejáveis para viver mais e melhor e pode levar a uma
melhoria na qualidade de vida.
Finalmente, no que se refere aos dados sociodemográficos,
observa-se que 83,3% dos participantes vieram do meio urbano,
e 16,7%, do meio rural. A porcentagem representativa do meio
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.
urbano é de portadores procedentes de cidades do interior do es-
tado e até mesmo de outros estados, o que corrobora o fenômeno
da interiorização e da “ruralização” da epidemia, já descrita na
literatura.
É relevante ressaltar que os participantes, por serem prove-
nientes do interior do estado e da zona rural, têm dificuldades de
realizar um acompanhamento multiprofissional adequado. Mui-
tos deles não fazem uso de uma dieta adequada, pela carência
econômica, e, ainda, não fazem uso de preservativos nas rela-
ções sexuais, aumentando, assim, a vulnerabilidade orgânica e
transmitindo o HIV para outros. Assim, para compensar em par-
te, a falta de um acompanhamento multiprofissional no local de
origem, eles podem ter nas casas de apoio um suporte para su-
prir tal necessidade.
Em relação à estratégia de enfrentamento, os resultados da
pesquisa demonstraram que a mais utilizada pelos participantes
878 foi a da fuga ou esquiva (5,0%), seguida do coping comportamental
(2,5%), omissão de informações a terceiros (2,5%), otimismo
irrealista (1,2%), resolução de problemas (1,2%), coping religio-
so (0,6%), focalização no positivo (1,2%) e controle de emoções
(0,6%). De acordo com esses dados, pode-se afirmar que os par-
ticipantes utilizam mais de uma estratégia de enfrentamento, o que
impossibilita classificá-los em uma só categoria. Tal fato também
sugere uma plasticidade no uso das estratégias diante de cada
momento de estresse ao longo do desenvolvimento da doença e/
ou da assistência de saúde.
Segundo Billings e Moos (1981), o coping de evitamento
refere-se às tentativas de evitar um confronto ativo com o proble-
ma ou, ainda, de reduzir indiretamente a tensão emocional com
atitudes comportamentais benéficas. Então, percebe-se que os
participantes da pesquisa preferem não pensar que estão doentes,
como forma de reduzir o estresse.
As formas de estresse se devem à percepção do portador de
HIV/Aids de possíveis discriminações. Por meio dos relatos apre-
sentados em relação a (alo)discriminação (5,5%), percebe-se que
os participantes, para evitar esse tipo de preconceito, preferem não
comentar sua condição atual de saúde com terceiros. Eles contro-
lam informações relativas à sua condição, estabelecendo critérios
para que elas não sejam socializadas.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.

Os portadores que utilizam o coping de evitamento podem


transmitir o HIV para outras pessoas, pois eles preferem não pen-
sar que estão infectados. Eles preferem substituir esse pensamen-
to ou se esquivar de situações que lembrem as adversidades da
enfermidade. Com isso, não realizam a prevenção terciária, ou seja,
podem difundir a epidemia, transmitir o HIV para outros, e au-
mentar até a vulnerabilidade do próprio organismo, quando tem
relações sexuais com outros portadores.
A maioria dos participantes percebeu o estado de saúde geral,
a forma de contaminação e o prognóstico atual como insatisfa-
tórios. Apesar das apreciações negativas dos efeitos colaterais
dos medicamentos sobre o domínio físico, percebe-se também
que os portadores relatam que, depois da terapia anti-retroviral,
houve uma melhora significativa neste mesmo domínio, atingin-
do, com isso, a outros. Supõe-se, assim, que a QV estava condi-
cionada por outros domínios o que, possivelmente, amenizou a
percepção geral de perdas. 879
A adesão ao tratamento médico não é influenciada necessari-
amente, pelo estado de saúde geral e pelos efeitos colaterais. Pela
análise realizada, observou-se que os participantes nem sempre
observam e alteram, por conta própria, as prescrições relativas tanto
ao uso de medicações e/ou dietas, quanto aos hábitos de vida, numa
atitude de sujeito mais intra-ativo do que passivo.
Percebeu-se, ainda, que os participantes que avaliavam a as-
sistência médica e social como positiva apresentavam uma maior
adesão ao tratamento indicado. Pode-se dizer, também, que a ade-
são ao tratamento médico é influenciada pelas suas conseqüênci-
as, ou seja, se a terapia anti-retroviral apresenta resultados
satisfatórios, melhorando assim a QV, a adesão acontece de uma
forma satisfatória. Quando a terapia anti-retroviral provoca efei-
tos adversos, a tendência é não aderir ao tratamento ou não aderir
a ele de maneira satisfatória.
Sentimentos de depressão podem ser associados à quantida-
de de dependentes que o portador de HIV/Aids possui. Esse fato
deve-se à carência financeira apresentada pela amostra. Os parti-
cipantes têm dificuldades para sustentar seus filhos, além de apre-
sentarem preocupações constantes com o estado de saúde e com
o prognóstico da doença. A incerteza do prognóstico pode levar a
intensas preocupações com o cuidado dos dependentes. Por outro
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.
lado, quando esse portador sente que recebe serviços de saúde de
qualidade, demonstra maior tranqüilidade e confiança quanto ao
bem-estar geral de um familiar, que, muitas vezes, é também por-
tador do HIV/Aids, ocorrendo uma avaliação positiva da QV.
Os participantes que apresentam relatos de otimismo em re-
lação a sua enfermidade avaliam a QV de forma positiva. Perce-
bem o estado de saúde de forma satisfatória, apresentam estratégias
de enfrentamento adaptativas e um nível de independência maior
em relação aos outros. De acordo com Moreno-Jiménez et al.
(2005), as pessoas otimistas desenvolvem mais habilidades de
enfrentamento do que as pessimistas, influenciando, assim, a
melhora no estado de saúde. O estado de saúde é percebido de
maneira satisfatória quando o otimismo faz parte da condição
psicológica do indivíduo.
Outro conteúdo expresso ao longo da entrevista foi a discri-
minação, que pode estar relacionada à categoria de perda do status
880 profissional. A relação entre a discriminação e a perda do status
profissional pode ser analisada pela ocupação profissional; per-
cebe-se que os participantes, antes da contaminação, possuíam
ocupação profissional e, após a contaminação, a natureza do tra-
balho se modificou, passando para atividades que exigem me-
nos esforços e pouca exposição social. Essa constatação vem
confirmar a posição de Dias (1993), segundo a qual a sociedade
sempre lidou com as doenças contagiosas num modelo de exclu-
são e isolamento.
De uma forma geral, os dados qualitativos mostram que a QV
deste grupo de portadores de HIV/Aids é mediada por aspectos
físicos, na maioria tratada como insatisfatórios, e aspectos psico-
lógicos. Nestes, em geral, percebe-se a presença de indicadores
de sentimentos de depressão, de fantasias relacionadas a perdas e
de comportamento social restrito.
Percebe-se, também, um comprometimento significativo na
QV da amostra, em razão das dificuldades econômicas e sociais
que influenciaram outros domínios da QV. Os aspectos físicos e o
nível de independência foram influenciados pela falta de recursos
disponíveis para suprir necessidades básicas (alimentação, meios
de transporte, lazer e outros), enquanto, os aspectos psicológicos
sofreram influência das adversidades encontradas no manejo com
a enfermidade, de se sentirem impotentes, sem condições adequa-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.

das para ter uma vida com conforto. Um domínio que amenizou o
impacto negativo das carências enfrentadas pela amostra foi o da
religiosidade, que se mostrou muito presente na maioria dos rela-
tos. Os dados do WHOQOL-100 também revelam a perda expres-
siva de QV nos domínios estudados.
Com base nos escores do WHOQOL 100, conforme sugerem
os dados da Tabela 4, sobretudo quando se atém aos Domínios de
QV, houve, pelo menos, 20% de perda mínima em importantes di-
mensões da vida, e em geral, os domínios Físico, Psicológico, Nível
de Independência/dependência, Relações Sociais e Meio Ambiente
apresentaram perdas similares, mas eles não sugeriram necessaria-
mente o comprometimento ou a inviabilidade da vida dos avalia-
dos. Por outro lado, o menor impacto pôde ser constatado no Domínio
da Espiritualidade, da Religiosidade e das Crenças.
A literatura (GRAU, 1998; COSTA NETO, 2002; COSTA
NETO, ARAÚJO, 2003), desde os anos de 1970, tem destacado
a presença dos denominados “mediadores de qualidade de vida”, 881
ou seja, fatores, circunstâncias ou processos que, quando pre-
sentes e dependendo de sua característica, podem amenizar o
impacto de uma adversidade, na percepção de cada um, sobre a
própria qualidade de vida. Assim, por exemplo, no grupo estu-
dado (N=18), mesmo que a satisfação com a Rede de Suporte
Social quase tenha atingido a média (M=2,7; DP=1,09), supõe-
se que o Otimismo em Relação à Vida (M=3,3; DP=0,98) e a Auto-
Estima (M=3,8; DP=0,81) ou outros fatores podem indicar a
existência de estratégias de enfrentamento psicológico
adaptativas. Tal presença, possivelmente, minimiza o impacto
de uma insatisfação com o suporte social, e este domínio é apon-
tado pela literatura como importante.
Quanto ao papel das ONG’s, reconhece-se que é polêmica a
questão do paternalismo institucional e que, talvez, só com o de-
correr dos anos, se poderá ter uma apreciação correta desse im-
pacto. Por outro lado, em diversas realidades, muitas vezes, o
suporte social familiar de um portador de HIV/Aids estará enfra-
quecido, conforme também foi demonstrado nos estudos de Cruz
(2005). Sendo assim, supõe-se que, ainda que se busque aumentar
níveis de consciência entre a população atingida pelo HIV/Aids,
a realidade impõe necessidades que justificam a presença e a aju-
da das ONG’s e de outros movimentos sociais e/ou religiosos
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.
organizados.

CONCLUSÃO

É preciso evidenciar que os resultados encontrados não per-


mitem generalizar sobre a qualidade de vida de todos os porta-
dores de HIV/Aids atendidos por instituições não-
governamentais de ajuda. Ainda que a metodologia escolhida
tenha sido a da triangulação metodológica, ou seja, a combina-
ção de instrumentos qualitativo e quantitativo, o número limita-
do de participantes requer parcimônia em qualquer exercício de
generalização.
Este estudo pode ser classificado como transversal. Neste
sentido, é necessário observar que a qualidade de vida dos parti-
cipantes pode estar relacionada a tantos fatores e os dados colhi-
dos não representam necessariamente,aquilo que é mais constante
882 e regular na vida dos portadores de HIV/Aids estudados. Em ou-
tros termos, é possível que, numa segunda avaliação, haja mudan-
ça do perfil do grupo investigado. Contudo, há de se recordar o
que Grau (1998) apreciou sobre a instabilidade natural do
constructo da qualidade de vida: ao longo da evolução de uma
patologia, seu portador poderá experienciar distintas percepções
de sua própria qualidade de vida, o que comprova sua condição,
mais processual e menos de produto.
Em relação aos instrumentos utilizados nesta investigação,
destaca-se que eles conseguiram atender aos objetivos propostos
com algumas ressalvas. O WHOQOL-100 proporcionou resulta-
dos significativos, referentes aos domínios da QV dos participan-
tes, mas a extensão sua dificultou sua aplicação, em função,
também, da debilidade orgânica de alguns participantes que não
conseguiram completar todo instrumento no mesmo encontro. Por
outro lado, a entrevista semi-estruturada conseguiu fornecer da-
dos qualitativos suficientes para a formatação de um quadro
indicativo da percepção de cada sujeito, de sua própria qualidade
de vida.
Com base neste estudo, sugere-se às equipes de assistência
ao portador de HIV/Aids a criação de um espaço para oficinas
terapêuticas, nas quais os portadores e familiares possam discutir
e refletir sobre suas dificuldades e experiências com o preconcei-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.

to, a sexualidade e suas limitações, a morte e a própria qualidade


de suas vidas. Supõe-se que isto seja importante para promover
a auto-estima, o otimismo em relação à capacidade laboral e o nível
de autonomia do sujeito.
Com a adoção de estratégias sistematizadas e planejadas,
podem ocorrer modificações no suposto paternalismo das casas
de apoio, que podem ser transformadas em casas de apoio social,
emocional e político.
Sugere-se, também, que novos estudos de desenhos longitu-
dinais sejam realizados, para que se possa avaliar a QV dos par-
ticipantes por um espaço maior de tempo, descrevendo e
entendendo as mudanças da avaliação pessoal que cada um faz
acerca das dimensões que qualificam sua própria vida. Colocar o
sujeito-enfermo no centro dessa discussão e valorizar o conheci-
mento que produz ao apreciar sua própria qualidade de vida é, de
certa forma, redimensionar a sua condição de sujeito pensante,
autodeterminado e intra-ativo. 883
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59-76.

Abstract: the objectives of this research were to identify, to describe


and to analyze the Quality of Life (QoL) of persons living with HIV/
AIDS, at the Brazilian center-west. It is an exploratory qualitative
and quantitative cross-sectional study, which was carried at the
Casa de Apoio ao Doente de AIDS (CADA). Participants answered 885
the Whoqol-100 questionnaire from the World Health
Organization, a semi-structured interview and a social-
demographic and clinical information sheet. The sample consisted
of 18 persons, with predominance of males, age 35 to 45 year old,
family income of one to three minimum wages, and schooling until
the second year of junior high. The method of coping most used
was escape or avoidance. It was perceived the presence of stories
indicating depression; discrimination; fantasies related to losses
and restricted social behavior. These losses had been minimized
by the support received from CADA. The data from the Whoqol-
100 showed that there was a 20% minimum loss of important
domains in the quality of life, however the domain of the spirituality
suffered the lesser impact. It is suggested that the support houses
should develop therapeutical and production workshops, to
develop self-esteem, the capacity for professional work, the level
of autonomy and the QoL of the persons living with HIV/AIDS.

Key words: quality of life, HIV/AIDS, social support

estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 865-886, set./out. 2008.

SEBASTIÃO BENÍCIO DA COSTA NETO


Pós-doutor em Psicologia pela UFRGS. Professor nos Programas de Graduação
e Pós-Graduação da Universidade Católica de Goiás (UCG). Psicólogo Clínico-
Hospitalar do HC/UFG. E-mail: sbcneto@ih.com.br

CYNTHIA MARQUES FERRAZ DA MAIA


Mestre em Psicologia pela (UCG). Psicóloga Clínico-Hospitalar. E-mail:
886 cycypsique@hotmail.com
MODERNO
NARCISO

LEANDRA CARRER
DENISE TELES FREIRE CAMPOS

Resumo: a modernidade traz algumas características e


mudanças na dimensão social que contribuem para a cons-
trução de uma nova subjetividade psíquica do indivíduo. A
finalidade do presente estudo é tentar analisar o processo
de ser sujeito na modernidade. Com esse intuito iremos pro-
por uma reflexão sobre algumas idéias a respeito de civili-
zação, da modernidade e da construção do psiquismo.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 887-899, set./out. 2008.

Palavras-chave: subjetividade, psicanálise, modernidade,


mal-estar

S
egundo Freud (1930, p. 125), “A civilização constitui
um processo a serviço de Eros, cujo propósito é com
binar indivíduos humanos isolados, depois famílias e,
depois ainda, raças, povos e nações numa única grande uni-
dade humana”. Observam-se os esforços dos homens para se
elevar de sua condição animal e instintiva, construindo, para
isso, projetos civilizatórios nos quais o espírito gregário se-
ria o mediador das relações humanas.
No entanto, existe um preço para construir uma civiliza-
ção. Segundo as idéias de Freud (1927), a civilização é um
processo que ocorre pela repressão dos desejos, dos instin-
tos. Muitos esforços foram e ainda estão sendo utilizados no
intuito de conter os instintos humanos, especialmente os 887
agressivos, para que esse projeto possa se edificar. O elemento
civilizatório é a repressão do desejo. Para consegui-lo, o homem
abre mão dos ideais individuais e abraça os ideais coletivos. Esta
é a base de uma civilização.
Reportando-nos aos aspectos da civilização moderna, de
maneira geral, assistimos a um verdadeiro regresso na construção
dos ideais gregários, genéricos, coletivos. Observa-se que os im-
pulsos, ao invés de reprimidos (condição necessária para a cons-
tituição da civilização) estão sendo estimulados. O cenário atual
nos mostra um contexto que contribui para o desenvolvimento de
indivíduos caracterizados como narcísicos, visto que há grande
investimento e valorização do eu, do individualismo.
Juntamente com esta questão, outras se apresentam, como
fazer do corpo, do prazer e do sexo objetos de troca, exploração
e controle, transformando-os em mercadorias para o consumo.
Segundo Roudinesco (2003, p. 9), “o sexo nunca foi tão estudado,
codificado, medicalizado, exibido, avaliado”. Nossa época dedi-
ca extremo interesse a diferentes formas de pornografia.
A modernidade se configura como uma sociedade do espetá-
culo, marcada pela solidão, pelo isolamento físico e emocional.
Estas características contribuem para a estruturação de um sujeito
imaturo, que adere à lógica do mercado consumidor e não suporta
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 887-899, set./out. 2008.
as pressões de consumir objetos para ser o que se fantasia ser. A
dificuldade em estabelecer e perceber os limites torna-se uma
modalidade de se relacionar com o mundo. O sujeito acaba por se
tornar dependente e carente, até mesmo desamparado, e possui sua
subjetividade sustentada pelo outro, o que o fragiliza diante de
rejeições e da falta.
Vivemos uma economia, o capitalismo, que procura cada vez
mais reduzir o homem a uma mercadoria. Possui um grande “lema”
que permeia todo o sistema: obter lucros. O interesse gira em tor-
no de aumentar o número de consumidores, produzir necessida-
des e fazer dinheiro. Para isso, a grande massa de trabalhadores
foi educada para se comportar como seres humanos que vivem em
um mundo de produção maciça, em uma cultura do consumo. A
publicidade, a mídia, os meios de comunicação, enfim a indústria
cultural se tornou o grande aliado nessa empreitada.
A indústria cultural sustenta uma promessa para todos os
888 indivíduos de que pode satisfazer a todas as necessidades e prega
que o prazer, a felicidade e a completude podem ser alcançadas.
Para isso, ela apresenta à massa consumidora mercadorias e mo-
delos que devem ser adquiridos, pois somente assim se pode obter
a plena felicidade.
A todo o momento, a cultura do consumo cria o desejo na
população de melhores coisas, ataca ideologias baseada no adia-
mento das gratificações, promove as identificações com celebri-
dades, estrelas e o ódio pelo “rebanho” comum, tornando cada vez
mais difícil aceitar a banalidade da existência cotidiana.
A propaganda tornou insuportável o fracasso e a perda. De
acordo com Lasch, publica-se a capacidade de uma mercadoria
para conferir prestígio, prosperidade e bem-estar. Estimula o con-
sumo como resposta à solidão, fadiga, ao vazio, às insatisfações
etc. A mídia

lisonjeia e exalta a juventude, na esperança de elevar o pes-


soal jovem ao status de consumidores desenvolvidos por di-
reito próprio. Cada qual com um telefone, um aparelho de
televisão e um aparelho de som em seu próprio quarto
(LASCH, 1983, p. 104).

Segundo o mesmo autor, “a publicidade joga sedutoramente


estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 887-899, set./out. 2008.

com o mal-estar da civilização industrial” (LASCH, 1983, p. 103).


Para entender esta idéia, reporta-se aos escritos de Freud (1930)
nos quais ele nos diz sobre o mal-estar da civilização, ou seja, por
mais que o indivíduo se esforce ele nunca conseguirá alcançar a
completude , a plena felicidade. A condição humana é ser incom-
pleta; a condição da sociedade é ser incompleta. O ser humano
deve tentar ser feliz na incompletude, porque o mal-estar não irá
desaparecer. Seria perder a ilusão de felicidade plena e negociar
com a realidade.
A razão pela qual a publicidade joga sedutoramente com o
mal-estar da civilização se configura na apresentação de merca-
dorias que carregam a promessa de felicidade, de completude, a
partir do momento em que o indivíduo as consome. Seria um pa-
liativo ilusório que fornece ao ego a realização de primitivos de-
sejos de onipotência, com grande nível de fruição narcísica.
Observa-se que, atualmente, as pessoas não conseguem abrir
mão da ilusão narcísica de que possam ser completas, de que o 889
outro seja projeção de seu desejo. Vivemos um momento de in-
tensa presença da questão narcísica, no qual seus mecanismos
funcionam muito bem e são valorizados pela sociedade. Segundo
Lasch (1983, p. 76),

as condições sociais predominantes tendem a fazer aflorar


os traços narcisistas presentes, em vários graus, em todos
nós. Estas condições também transformaram a família que,
por sua vez, modela a estrutura subjacente da personali-
dade.

Para melhor compreender a questão narcísica do psiquismo e


como a modernidade alimenta suas ilusões, reportar-nos-emos à
psicanálise para balizar a discussão.
Iniciando com Freud (1914), ele postula a existência de um
narcisismo primário em todos, bem como sua progressão para o
narcisismo secundário, sendo que não se pode afirmar a presença
deste último em todas as pessoas. O narcisismo primário caracte-
riza-se como o primeiro modo de satisfação da libido, sendo este
auto-erótico, ou seja, os objetos investidos pelas pulsões são as
próprias partes do corpo. A posição dos pais também é muito
importante nesta análise. De acordo com Freud, o amor dos pais
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 887-899, set./out. 2008.
pelos filhos equivale a seu narcisismo recém-renascido. Os pais
delegam aos filhos todas as perfeições, projetando neles todos os
seus sonhos, ocultando e esquecendo todas as deficiências. A cri-
ança terá mais divertimentos que seus pais; a doença, a morte, a
frustração não farão parte de sua vida. “Sua majestade o Bebê”
(FREUD, 1914, p. 98) caracteriza como o narcisismo primário
representa “uma espécie de onipotência que se cria no encontro
entre o narcisismo nascente do bebê e o narcisismo renascente dos
pais” (NASIO, 1995, p. 49).
A progressão para o narcisismo secundário ocorre quando o
investimento libidinal retorna para o eu, abandonando a modali-
dade auto-erótica. Isso se processa quando a criança é confronta-
da com um ideal que se formou fora dela, que também possui toda
a perfeição de valor. Aos poucos, o filho percebe que a mãe busca
outras pessoas que deseja fora dele. Neste momento se instala a
ferida do narcisismo primário, pois a criança percebe que ela não
890 é tudo para a mãe. Segundo Nasio (1995, p. 51),
a partir daí, o objetivo consistirá em fazer-se amar pelo ou-
tro, em agradá-lo para reconquistar seu amor; mas isso só
pode ser feito através da satisfação de certas exigências, as
do ideal do eu.

De acordo com Freud (1914), o ideal do eu, ou ideal do ego,


é o substituto do narcisismo primário perdido, no qual ele era seu
próprio ideal. O ideal do ego impõe condições à satisfação da li-
bido por meio de objetos. Possui uma importância na compreen-
são do aspecto social do sujeito, pois carrega não só o ideal familiar,
mas o da sociedade, da cultura, da nação. A não realização desse
ideal mobiliza sentimentos de frustração, culpa e temor de perder
o amor dos pais, sendo que estes serão, progressivamente, substi-
tuídos por outras pessoas.
Para Freud, o desenvolvimento do eu consiste na entrada do
indivíduo no narcisismo secundário, o que ocorre, principalmen-
te, pelo complexo de castração. A partir de então, só será possível
experimentar-se através do outro. Instala-se o reconhecimento de
uma incompletude que desperta o desejo de recuperar a perfeição
narcísica. De acordo com Nasio (1995, p. 55),

o narcisismo secundário se define como o investimento


estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 887-899, set./out. 2008.

libidinal da imagem do eu, sendo essa imagem constituída


pelas identificações do eu com as imagens dos objetos,

Na teoria psicanalítica, o conceito de castração refere-se a uma


experiência psíquica inconsciente decisiva para a construção da
identidade sexual do indivíduo. Esta experiência é constantemen-
te renovada ao longo da vida. Pellegrino diz que a castração marca
o segundo nascimento humano, ou seja, introduz a criança no
universo do simbólico, na sociedade dos homens. Segundo Nasio
(1995, p.13), a castração é colocada em jogo no trabalho analíti-
co, no sentido de reativar, na vida adulta, essa experiência que
atravessamos na infância e “admitir com dor que os limites do corpo
são mais estreitos do que os limites do desejo”. A criança é capaz
de assumir sua falta e produzir seu próprio limite. Segundo Freud
(1924, p. 196), “as catexias de objeto são abandonadas e substitu-
ídas por identificações. A autoridade do pai ou dos pais é introjetada
no ego e aí forma o núcleo do superego”. 891
Para Lacan, o que fundamenta o complexo de castração é a
separação entre mãe e criança. Seria interessante reportar as eta-
pas de estruturação edípica, segundo este mesmo autor, que se
estende dos 6 aos 18 meses de vida.
A primeira etapa configura-se no estágio do espelho, no qual
o bebê encontra-se fusionado com a mãe. Nesta fusão, a criança
acredita ser aquilo que a mãe lhe transmite, como se o seu olhar
fosse o espelho da criança. Ela se identifica com algo que ela ain-
da não é. Em relação ao investimento libidinal, o bebê investe esta
energia no outro (mãe ou substituta) e esta volta para ele de forma
narcísica, como se suprisse todas as necessidades.
Em um determinado momento, o bebê se dá conta de que o
outro investe sua energia em outros pontos anunciando sua falha,
sua busca em outro lugar da satisfação do que lhe falta. Este ob-
jeto “completo” não é perfeito, ele desvia seu desejo para outro
lugar que não o próprio bebê. A partir desta percepção, o bebê tenta
se identificar com esse ponto. O bebê busca, então, ocupar o lugar
do desejo da mãe, o falo materno, se identificando com o mesmo.
Nas palavras de Lacan (1958, p. 271), “se o desejo da mãe é o falo,
a criança quer ser o falo para satisfazê-la”. Estes acontecimentos
caracterizam a segunda etapa da estruturação edípica.
Dessa forma, a imagem do outro, perfeito e completo, é perdi-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 887-899, set./out. 2008.
da para sempre. Vale ressaltar que a base da castração é a perda do
outro perfeito. É o corte do vínculo narcísico entre a mãe e o bebê.
Na terceira etapa, o bebê é frustrado em sua tentativa de se
identificar com o falo materno pela percepção de que o pai é quem
ocupa este lugar. O pai entra na relação representando a lei. Dessa
forma, a castração incide não somente na criança, mas também na
mãe. A mãe é castrada na crença de ter o falo (filho), evitando a
utilização do filho como uma extensão narcisística dela própria, e
o filho é castrado na crença de ser o falo. A aceitação da castração,
ou seja, a perda do paraíso simbiótico, constitui o ingresso no tri-
ângulo edípico. Para Zimerman (1999, p. 400), a castração “re-
presenta o grande desafio às ilusões narcisistas que foram forjadas
no registro imaginário da etapa do espelho”, e estas podem ser
atenuadas ou modificadas, dependendo da situação.
Com a imposição da lei, o indivíduo se instaura como sujeito
em falta. Esta falta é insuportável, existindo uma única maneira
892 de suportá-la: simbolizando, ou seja, buscando símbolos substitu-
tos, significantes que representem o falo. Pela simbolização, quais-
quer objetos podem ser equivalentes. De acordo com Nasio, “é na
proporção de uma certa renúncia ao falo que o sujeito entra em
posse da pluralidade de objetos que caracterizam o mundo huma-
no”. (1995, p. 41).
Pode-se perceber como a castração constitui o núcleo
estruturante da subjetividade, pois desencadeia um processo em
que o indivíduo se percebe imperfeito, incompleto, que precisa do
outro, ou seja, busca no outro aquilo que lhe falta. Para ser sujeito,
o indivíduo tem que se reconhecer em falta.
De acordo com Zimerman (1999, p. 404), “é necessário que
morra Narciso para que ele possa se transformar em Édipo”. Dois
fatores são essenciais nessa transformação: a presença de um pai
forte que se interponha na díade e promova a castração, e a capa-
cidade da criança em poder discriminar e separar-se do objeto,
adquirindo autonomia e reconhecendo o terceiro real, o pai, na
relação. “Assim, a criança sai da díade fusional e confusional
própria do narcisismo e ingressa num socialismo, representado pelo
triângulo edípico” (ZIMERMAN, 1999, p.404). Toda situação
edípica, independente da forma como se estruture, terá como sub-
sídio a posição narcisíca.
O enrijecimento da posição narcisista ocorre quando o eixo
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 887-899, set./out. 2008.

relacional do indivíduo estiver completamente fusionado e bem


distante da triangulação. Nestes casos, pode-se perceber algumas
características, segundo Zimerman (1999), tais como: condição
de indiferenciação; estado de ilusão em busca de uma completude;
escolha de pessoas reforçadoras da ilusão narcisista; negação das
diferenças e busca de fetiches.
A condição de indiferenciação caracterizaria o estado em que
o indivíduo continuaria fixado ou regredido na etapa fusional, não
existindo a diferenciação com o outro. Nesta fase, o bebê acredita
que todas as respostas de sua mãe são obras de seu desejo e prova
sua onipotência. O sofrimento decorrente do reconhecimento da
incompletude faz com que o indivíduo crie e mantenha uma estru-
tura ilusória de onipotência. Sempre estão em busca de algo ou de
alguém que confirme esta ilusão, que endossem seu ego ideal. A
negação é utilizada tanto para negar as diferenças entre ele e os
demais, como em relação a todos os aspectos que afrontem sua
ilusória completude. 893
E por fim, para fugir da ferida narcísica, o indivíduo tenta
encontrar valores e atributos que preencham os vazios dessa ima-
ginária completude. Pode-se perceber que as mercadorias se tor-
nam fetiches. Pela propriedade de coisas e pessoas, o indivíduo
tenta se sentir completo.

Quando os referidos valores e atributos ficam supervalorizados,


eles exercem a função de fazer o sujeito parecer ser aquilo que,
de fato, ele ainda não é e, portanto, nesses casos, esse tipo de
valores constituem-se como fetiches, os quais o sujeito vai
procurar em si próprio (sob a forma de beleza, inteligência,
riqueza, prestígio ou poder) ou fora dele, em uma outra pes-
soa, em uma instituição, em uma ideologia, em uma outra
paixão (ZIMERMAN, 1999, p.160).

Observa-se a importância de uma evolução “normal” de Nar-


ciso a Édipo, pois, somente assim, o solo estará fértil para que se
possa desenvolver um sujeito que possua as bases necessárias para
a estruturação de uma personalidade balizada pela triangulação e
socialização. Também se pode perceber como defasagens nos
períodos inicias, especialmente relacionada ao complexo de cas-
tração, prejudicam o desenvolvimento dessa subjetividade, con-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 887-899, set./out. 2008.
tribuindo para a estagnação na posição narcisista.
Diante dessa reflexão, ao analisarmos a cultura vigente na
modernidade, constatamos que suas características contribuem, e
muito, para a estagnação dita anteriormente. Concomitantemente
a este cenário, ocorreram mudanças significativas no âmbito fa-
miliar. Desde as lutas femininas pela emancipação e direitos da
mulher, o mercado de trabalho configurou-se em uma de suas
conquistas. Atualmente, pais e mães disputam este mercado. No
entanto, com esta conquista, uma lacuna se abre: quem vai se ocupar
da educação dos filhos? Muitos apareceram para ocupar essa fun-
ção. Surgem vários especialistas, alguns graduados cientificamen-
te, outros sob a forma de babás eletrônicas: televisão, vídeo-game
e computador, a escola e demais agentes de instrução de massas.
Muitos pais não conseguem mais criar os filhos sem o auxílio
desses especialistas. Para não repetir os “erros” de seus próprios
pais, os pais modernos repudiaram as práticas úteis do passado e
894 abraçaram as “verdades” dos especialistas como se fossem leis.
Tudo o que se refere ao passado, como atitudes e valores, é tido
como ultrapassado.
Tudo isso contribui para confirmar a impotência dos pais em
educar seus filhos. Vivemos uma desvalorização da paternidade.

O colapso da autoridade parental reflete o colapso de anti-


gos controles de impulso e a mudança de uma sociedade na
qual os valores do superego estavam em ascensão, para uma
sociedade na qual se dava cada vez mais reconhecimento aos
valores do id (LASCH, 1983, p. 219).

As mudanças na vida familiar são inseparáveis do desenvol-


vimento da indústria moderna. A configuração econômica tira de
casa não só o pai, mas também a mãe e diminui o papel que eles
representam na vida do filho. Cada vez mais, o trabalho exige que
as pessoas disponham de tempo integral, o que acaba por subtrair
o tempo da família e dos filhos.
Torna-se cada vez mais difícil para os filhos estruturar iden-
tificações consistentes com aqueles que são responsáveis pelo seu
desenvolvimento, caracterizando um grande distanciamento
afetivo. Em contrapartida, modelos fortes, presentes e sedutores,
ocuparam o lugar dos pais e, conseqüentemente, das identifica-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 887-899, set./out. 2008.

ções: os produtos da indústria cultural. Os filhos buscam um ideal


de ego e figuras de autoridade fora da família. Buscam identidade
nas roupas, carros, viagens, objetos e em várias mercadorias que
prometem fazer, de quem as adquire, um ser especial. No entanto,
como esta promessa é falsa, sempre os jovens consomem mais e
mais, na esperança de modelos diferentes e mais avançados serem
mais eficazes na ilusão de completude. Isto porque o indivíduo
narcísico não suporta a ausência de promessas.
Na sociedade moderna do consumo e do espetáculo,
visualizamos pais ausentes, não apenas fisicamente, mas em es-
pecial afetivamente, em busca de “melhores condições de vida”
para sua família. Talvez, grande parte desse ideal venha da mídia,
“ter coisas para ser feliz”. Os modelos de identificação da criança
tornam-se as babás eletrônicas que, como vimos anteriormente,
transmitem também o ter para ser. A falta de referência é tão gran-
de que a criança admite como realidade tudo o que a indústria
cultural transmite. Segundo Lasch (1986, p. 75). 895
a nossa cultura cerca a criança com um imaginário, procura por
todas as formas poupar-lhe a experiência do fracasso ou da
humilhação. Parte da idéia de que é possível ser o que se quer
ser; promete sucesso e recompensa com um mínimo de esforço.

Todas estas transformações contribuíram para a criação de um


novo tipo de indivíduo social, que não se configura nas neuroses
clássicas, em que o impulso infantil é reprimido pela autoridade
patriarcal. Pelo contrário, o impulso é estimulado. De acordo com
Lasch (1983), o que a histeria e as neuroses obsessivas foram para
Freud, as desordens narcísicas são para os atuais analistas. Isto,
porque toda sociedade reproduz sua cultura. A socialização reali-
zada pela família, pela escola e por outros agentes atua na perso-
nalidade de modo que esta se sujeite as normas sociais.
E neste contexto, pode-se imaginar como se desenvolvem os
Complexos de Castração e Complexo de Édipo? O que se pode
perceber é uma construção de fortes traços narcísicos em um pro-
cesso psíquico de entrada no Complexo de Édipo, mas de não-
aceitação da castração. Podemos falar de um Narcisismo Objetal,
no qual o indivíduo é faltoso, mas extremamente relutante em
reconhecer sua falta. A criança cresce acreditando ainda nas ilu-
sões narcísicas, crendo ser aquilo que a mãe (e também substitu-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 887-899, set./out. 2008.
tas eletrônicas) lhe transmite como sendo ela, caracterizando uma
relação fusional.
A criança desenvolve-se deixando de perceber a falha no obje-
to, não há o rompimento do vínculo narcísico mãe-bebê. Não existe
uma presença suficientemente forte do pai, que não se interpõe na
díade para executar a castração. A criança não tem a capacidade de
poder discriminar e separar-se do objeto, até porque a mãe também
não possui esta capacidade. Os pais alimentam o sentimento de
completude e onipotência dos filhos compensando, com atitudes
facilitadoras, suas ausências. Gratificam constantemente para não
entrar em conflito com as demandas afetivas dos filhos. As babás
eletrônicas transmitem às crianças uma imagem que retrata que tudo
elas podem; o prazer tem que ser imediato, deve-se ter (mercadori-
as) para ser (especial, poderoso, onipotente), cultivando a necessi-
dade de ser uma celebridade, mas para isso existem vários requisitos
que, vejam só, encontram-se todos no mercado! Basta adquiri-los!
896 Percebe-se que tudo é coisificado.
O outro entra nessa história apenas como um veículo de satis-
fação. O narcisista depende do outro para validar sua auto-estima.
Não consegue viver sem uma audiência que o admire. Nutrem fan-
tasias de onipotência e uma forte crença em seu direito de explorar
os outros e de ser gratificado. “O narcisista não consegue identifi-
car-se com alguém sem ver o outro como uma extensão de si mes-
mo, sem obliterar a identidade do outro” (LASCH, 1983, p. 117).
A cena contemporânea nos oferece novas formas de subjeti-
vidade. Pode-se falar do narcisismo como fenômeno social. “O
narcisismo significa uma perda da individualidade e não a auto-
afirmação; refere-se a um eu ameaçado com a desintegração e por
um sentido de vazio interior” (LASCH, 1986, p. 47).

Referido sempre a seu próprio umbigo e sem poder enxergar


um palmo além do próprio nariz, o sujeito da cultura do es-
petáculo encara o outro apenas como um objeto para seu
usufruto, o sujeito vive permanentemente em um registro
especular, em que o que lhe interessa é o engrandecimento
grotesco da própria imagem. O outro lhe serve apenas como
instrumento para o incremento da auto-imagem, podendo ser
eliminado como um objeto quando não mais servir para essa
função abjeta (BIRMAN, 2001, p. 25).
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 887-899, set./out. 2008.

Ainda de acordo com este autor,

saquear o outro, naquilo que este tem de essencial e


inalienável, se transforma quase no credo nosso de cada dia.
A eliminação do outro, se este resiste e faz obstáculo ao gozo
do sujeito, nos dias atuais se impõe como uma banalidade
(BIRMAN, 2001, p. 25).

Os pais não ensinam a criança a ser genérico, mas a ser indi-


vidual. Defender valores coletivos é coisa do passado.
A partir de toda a exposição, pode-se compreender a razão
pela qual a aderência à barbárie passou a ser algo rotineiro e apa-
rentemente “normal”. A ausência de referência interna de uma
figura de autoridade abre espaço para a barbárie.
As individualidades foram transformadas em objetos descartáveis.
A modernidade silencia a alteridade e a intersubjetividade. Deixar de 897
ser indivíduo e tornar-se sujeito... algo que está fora de moda no presen-
te momento ...

Referências

BIRMAN, J. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de


subjetivação. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
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estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 887-899, set./out. 2008.


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ROUDINESCO, E.; PLON, M. Por que a Psicanálise? São Paulo: Cia das
Letras, 2003.
ZIMERMAN, D. E. Fundamentos psicanalíticos: teoria técnica e clínica: uma
abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999.

Abstract: the modernity brings some features and changes in the


social dimension to contributing for the construction of a new
psychological subjectivity of the individual. The purpose of this
study is to analyze the process of being subject in the modernity.
Finally we will propose a reflection on some ideas about
civilization, of modernity and the construction of the psyche.

Key words: subjectivity, psychoanalysis, modernity, malaise


estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 887-899, set./out. 2008.

LEANDRA CARRER
Psicóloga e Mestra em Psicologia pela Universidade Católica de Goiás (UCG).

DENISE TELES FREIRE CAMPOS


Doutora em Psicopatologia Clínica pela Universidade de Provence, França.
Professora do Programa de Pós-graduação em Psicologia na UCG. 899
SOCIABILIDADE VIOLENTA:
CONTEMPORANEIDADE
E OS NOVOS PROCESSOS
SOCIAIS

SILVIA PEREIRA GUIMARÃES


PEDRO HUMBERTO FARIA CAMPOS

Resumo: o trabalho discute as várias facetas e concep-


ções da violência como fenômeno, abordando os temas da
banalização da violência, do espaço do sujeito face à vio-
lência, do excesso do irracional e de sua inserção nas dinâ-
micas de poder. Em particular o trabalho interroga a
naturalização da violência na sociedade brasileira e a emer-
gência de uma norma social que a valoriza, associada a
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 901-913, set./out. 2008.

processos de sociabilidade violenta.

Palavras-chave: representações sociais, violência,


banalização, norma social

A
violência configura-se na atualidade como um pro-
blema social grave cuja complexidade constitui um
desafio para estudiosos preocupados em aprofundar
as discussões e teorizações sobre este tema. Em suas múltiplas
formas de manifestação, a violência tornou-se um fenômeno
presente em diferentes situações da sociedade brasileira, ocu-
pa um lugar significativo na vida cotidiana das pessoas e con-
traria as expectativas de civilidade e solidariedade.
Sem dúvida alguma, a violência é um fenômeno com-
plexo e difícil de equacionar, tornando-se quase impossível
apontar uma origem única diante da multiplicidade de moti- 901
vos e formas como ele se manifesta. Antes disso, a gravidade e a
urgência das situações brasileira e mundial indicam que essa ge-
neralização da violência é sintomática. Ela se caracteriza como
um tipo de linguagem, que é a expressão dos conflitos de poder,
da cultura individualista, da subjetividade instrumental, e do so-
frimento psíquico e social experimentado pelas sociedades oci-
dentais modernas (PEREIRA et al., 2000).
Diante disso nota-se a necessidade de lançar um olhar crítico
sobre a violência, percebendo-a para além da esteticização e na-
turalização que a acompanha, reconhecendo-a como tal, despida
de quaisquer atributos que a desconfigurem. Trata-se da tentativa
de fugir de análises massificadas pelos dados estatísticos e buscar
compreender os fatores que permeiam a configuração adquirida
pelo fenômeno da violência na atualidade.
Apesar do grande destaque adquirido no final do último sécu-
lo, a violência não pode ser considerada uma problemática recente
ou presente em contextos isolados. Trata-se de um fenômeno recor-
rente e sistemático, com origem em tempos remotos, cujas primei-
ras manifestações documentadas no Brasil remetem à época colonial,
a partir do genocídio indígena e da escravidão, e que vem assumin-
do configurações específicas conforme o período histórico. Pode-
se dizer que, de uma forma geral, a violência tem acompanhado o
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 901-913, set./out. 2008.
desenvolvimento das sociedades e a história da humanidade.
Em suas múltiplas formas de manifestação, a violência deve
ser compreendida sempre como um fenômeno social (CAMPOS,
TORRES, GUIMARÃES, 2004; MOSER, 1991; VELHO, 2000).
Ela existe num determinado contexto e se efetiva na relação com
o outro. Trata-se de uma “interação” entre indivíduos situados em
uma dada estrutura social que ocupam papéis sociais e orientados
por valores que definem e modelam as possibilidades dessa
interação. Daí parte a perspectiva de análise da violência enquan-
to dado cultural e societário, cujas manifestações variam de acor-
do com o contexto sociocultural e são dotadas de valores complexos
e diversificados. Apesar das dificuldades de delimitação conceitual,
parece consensual entre os pesquisadores (MICHAUD, 2001;
VELHO, 2000; WIEVIORKA, 1997) a concepção de violência
como fenômeno multifacetado que assume formas e sentidos va-
riados, em conformidade com o momento histórico e a cultura em
902 que ele é produzido.
Em suas reflexões sobre a violência, Tavares dos Santos (2004)
busca compreendê-la nos diferentes conjuntos relacionais, toman-
do-a como “um ato de excesso, qualitativamente distinto, que se
verifica no exercício de cada relação de poder presente nas rela-
ções sociais”. A força, a coerção e o dano são percebidos como
formas de violência enquanto ato de excesso presente tanto nas
estratégias de dominação do poder soberano quanto nas redes de
micropoder entre grupos sociais.
A violência não se encontra necessariamente articulada com
o uso de instrumentos de força bruta e não há uma fronteira que
desassocie a violência física, a qual se impõe pelo excesso de força
corporal ou armada, e a violência simbólica, a qual exclui e domi-
na por meio da linguagem. Desse modo, a violência pode ser con-
siderada

[...] como um dispositivo de excesso de poder, uma prática


disciplinar que produz um dano social, atuando em um dia-
grama espaço-temporal, a qual se instaura com uma justifi-
cativa racional, desde a prescrição de estigmas até a exclusão,
efetiva ou simbólica. Essa relação de excesso de poder con-
figura, entretanto, uma relação social inegociável porque
atinge, no limite, a condição de sobrevivência, material ou
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 901-913, set./out. 2008.

simbólica, daqueles que são atingidos pelo agente da violên-


cia (TAVARES DOS SANTOS et al., 1998, apud ZALUAR;
LEAL, 2001, p. 148).

A noção de violência cobre, portanto, uma vasta gama de


eventos e fenômenos nos quais o ato violento é a expressão da
imposição das necessidades, expectativas e vontades de um ator
social sobre as necessidades, expectativas e vontades de outro ator.
Nesse sentido, diversos autores (TAVARES DOS SANTOS, 1999;
2004; SAWAIA, 2004; VELHO, 2000; WIERVIORKA, 1997;
ZALUAR; LEAL, 2001) reconhecem a violência como a expres-
são de um conflito no interior de uma dinâmica de poder.
Considerando a configuração própria adquirida pela violên-
cia nas sociedades ocidentais contemporâneas, alguns aspectos têm
merecido destaque entre os pesquisadores desta temática, dentre
os quais pode-se destacar a banalização da violência e o grande
envolvimento de jovens. 903
Com a atual mudança cultural e as transformações do sistema
de valores e das relações sociais, observa-se que as tensões soci-
ais que, anteriormente, apresentavam desfechos em que tendiam
a predominar acordos e negociações, atualmente, encontram na
violência física ou verbal uma tendência predominante. Essa ten-
dência à banalização da violência tem merecido a atenção de di-
versos autores (CAMPOS, TORRES, GUIMARÃES, 2004;
DIMENSTEIN, 1995; VELHO, 2000; ZALUAR, 2000) que
enfatizam a existência de uma disposição cultural de considerar
fenômenos de violência explícita (atos agressivos) como, além de
freqüentes, “comuns”, “naturais”, “corriqueiros”, “banais”, des-
tituindo a violência do lugar da excepcionalidade para exigi-la uma
marca do cotidiano.
A idéia de que só a força resolve os conflitos tem se genera-
lizado no nível cotidiano a ponto de verificarmos uma rotinização
da violência física. A noção de banalização da violência diz res-
peito a essa legitimação do uso da agressão (física ou simbólica)
como forma de regulação/resolução de conflitos de interesses, seja
entre pessoas ou grupos. Um reflexo desta disposição pode ser
observado tanto nos jornais televisivos, que mostram assassina-
tos e brutalidades por motivos cada vez mais banais e que não mais
chocam os telespectadores, como também nos discursos do coti-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 901-913, set./out. 2008.
diano em que agressões consideradas “leves” não são caracteriza-
das como violências.
Essa percepção denuncia uma outra face da banalização da
violência. Trata-se de uma tendência verificada especialmente em
estudos com adolescentes (CAMPOS; GUIMARÃES, 2003), em
que o reconhecimento da violência acontece somente nas situa-
ções marcadas pela existência da violência física, ou seja, uma
assimilação da noção ou representação da violência ao ato agres-
sivo e, prioritariamente, ao ato agressivo resultante em morte.
A tendência à banalização tem merecido grande destaque nos
estudos sobre a representação social da violência. Uma natura-
lização e normatização do fenômeno são apontadas por estudos
específicos sobre a violência doméstica dirigida contra mulhe-
res (SANTOS, 2004), contra crianças (GONÇALVES, 2003),
sobre a violência envolvendo gangues (ABRAMOVAY et al.,
2004) e sobre a violência nas escolas (ABRAMOVAY; RUA,
904 2002). Diante destas informações, sugere-se que uma represen-
tação social da violência como forma “natural” de solucionar
conflitos encontra-se presente nos mais diversos segmentos da
sociedade.
Pode-se notar que o fenômeno da violência apresenta diver-
sas faces e estas acompanham a dinâmica social em questão. Em
função disso, há uma grande variedade de abordagens e concep-
ções que buscam contemplar a violência, cada uma com sua quota
de contribuição e com limites mais ou menos abrangentes, contu-
do, sua compreensão depende de um olhar voltado para aspectos
sociohistórico-culturais que permeiam o fenômeno.
Um aspecto interessante acerca dos atuais estudos sobre a
violência refere-se a um dado comum entre todos eles: o valor
negativo da violência. É possível notar que a tomada da violência
como objeto de valor positivo, quando inscrito na lógica marxista
como objeto legítimo e essencial da luta de classes, tem sido pro-
gressivamente abandonada no espaço intelectual e político. No
início do século, uma violência purificadora e libertadora do pro-
letariado foi festejada por Sorel (1992), para quem ela desempe-
nha um papel criativo fundamental capaz de possibilitar uma
fragilização da burguesia e a criação de um novo tipo de socieda-
de. Se antes a violência podia ser justificada, compreendida,
teorizada ou sustentada dentro de uma tradição revolucionária,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 901-913, set./out. 2008.

anarquista ou marxista-leninista, como instrumento de luta e de


resposta aos abusos e atrocidades cometidas pelo poder ditatorial
ou autoritário (WIEVIORKA, 1997), atualmente “o fenômeno é
necessariamente a marca do que é preciso recusar, e o consenso é
muito grande” (SOREL, 1992, p. 8).
A violência (especialmente a política), antes detentora de um
sentido, com o enfraquecimento político dos ideais marxistas passa
a ser condenada antes e independentemente de uma tentativa de
apreender sua lógica. Questionando essa visão, Gonçalves (2003)
critica a apreensão da violência como mero ato destrutivo e a
concebe como ato de produção de sentido. Assim a violência

[...] equivaleria a um discurso por intermédio do qual, e


malgrado a validade dos meios que usa, produz ou ao menos
visa produzir uma transformação sobre o meio em que se
inscreve, ou mesmo uma recuperação da continuidade rom-
pida nas sociedades complexas (GONÇALVES, 2003, p.50). 905
Segundo a autora, os sentidos da violência não se esgotam na
representação dominante de valoração negativa. Essa restrição de
sentido à irracionalidade e ao ato de destruição pouco contribui para
a compreensão do fenômeno e para tentativas de gerenciamento,
servindo apenas como justificativa para a exclusão de seus autores.
Assim, apresenta-se de fundamental importância buscar compre-
ender as demandas que motivam os atos violentos e que alimentam
novas formas de manifestação.
Na tentativa de melhor compreender a presença da violên-
cia no contexto atual, torna-se necessário lançar um olhar crí-
tico sobre a contemporaneidade. Trata-se de abordar as
mudanças no estilo de vida, na organização política, econômi-
ca, social e cultural vivenciadas pelas sociedades ocidentais,
buscando compreender como se dá a inscrição do fenômeno da
violência neste contexto. Assim, a partir de uma exploração da
organização da sociedade capitalista diante das transformações
recentes, pode-se compreender o “lugar” da violência na reali-
dade cotidiana.
Em suas reflexões acerca da contemporaneidade, Giddens
(1991) afirma que a sensação de estarmos vivendo um período de
transição, um período que ultrapassa a já conhecida modernidade,
surge a partir das várias “descontinuidades” que marcam a histó-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 901-913, set./out. 2008.
ria da humanidade. O grande diferencial no atual momento histó-
rico seria a extensibilidade (no sentido de estabelecer formas de
interconexão social que cobrem o globo) e a intencionalidade (no
sentido de provocar alterações nas mais íntimas e pessoais carac-
terísticas da existência cotidiana) das transformações.
Assim, a realidade que vivenciamos hoje resulta de um pro-
cesso de transformação socioeconômico-político-social das soci-
edades capitalistas ocidentais, que deixou marcas profundas nas
vidas cotidianas dos indivíduos. As modificações experimentadas
pelas sociedades contemporâneas, marcadas pela expansão da
economia de mercado, pela incorporação do conhecimento cien-
tífico e tecnológico à produção industrial, pelos acordos de
integração econômica supranacionais e regionais, pelo crescimento
da imigração, pelo florescimento de uma cultura de massa etc.
devem ser consideradas como um processo complexo que atua de
maneira contraditória, produzindo conflitos e disfunções, e que
906 incide tanto sobre os sistemas sociais em grande escala como tam-
bém sobre contextos locais e dos grupos situados em diferentes
regiões do planeta (TAVARES DOS SANTOS, 1999).
Fazendo uma explanação de como as grandes transformações
do mundo contemporâneo têm marcado o campo da subjetividade
humana, Birman nos fala do mal-estar na atualidade. As promessas
do início da modernização embutidas na ideologia do progresso e
da razão cientificista não foram cumpridas e o sujeito contemporâ-
neo “não consegue mais acreditar, como anteriormente, que pode
transformar a si mesmo e ao mundo com seu desejo, de maneira a
poder reinventar a si mesmo e a ordem social” (BIRMAN, 1999, p.
82). Trata-se de um sujeito tomado pelo desamparo advindo da
própria estrutura de organização da sociedade.
No contexto contemporâneo, a ideologia individualista, o
imediatismo e o projeto de vida hedonista ganharam espaço. Aos
poucos, com o enfraquecimento da tradicional família burgue-
sa, os indivíduos passaram a buscar fora do ambiente familiar os
referenciais necessários para a definição do bom e do mau, do
certo e do errado. Houve, assim, uma conversão da família bur-
guesa às ideologias do bem-estar do corpo, do sexo e do
psiquismo, típicas das sociedades de consumo. Na visão de Costa
(2003, p. 157), “é como se o “penso, logo existo” tivesse sido
substituído pelo “gozo, logo sou”.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 901-913, set./out. 2008.

Um traço marcante a ser observado é a forma pela qual se


estrutura a vida mental do sujeito moderno, particularmente no que
concerne às formas de construção da subjetividade em que eu se
encontra situado em posição privilegiada. Segundo Birman, o
autocentramento do sujeito atingiu limiares impressionantes e
espetaculares, se comparado com a história do mundo ocidental.
Para o autor, o autocentramento se apresenta inicialmente sob a
forma da estetização da existência. Trata-se de uma exaltação
gloriosa do próprio eu, baseada principalmente na aparência, de
modo que o sujeito vale aquilo que parece ser.
O autocentramento pode ser considerado o traço fundamen-
tal da chamada cultura do narcisismo. Utilizando o narcisismo
como metáfora da condição humana, Lasch afirma que existem
conexões entre o tipo de personalidade narcisista e certos padrões
característicos da cultura contemporânea, tais como “o temor in-
tenso da velhice e da morte, o senso de tempo alterado, o fascínio
pela celebridade, o medo da competição, o declínio do espírito 907
lúdico, as relações deterioradas entre homens e mulheres”
(LASCH, 1983, p. 57).
O autor afirma que a construção da organização social vigen-
te exigiu novas formas de personalidade, novos modos de socia-
lização e novos modos de organizar a experiência. Diante disso, o
padrão narcisista de personalidade, ao mesmo tempo que é incen-
tivado pelos atuais padrões sociais, parece representar também a
melhor maneira de lutar em igualdade de condições com as ten-
sões e ansiedades da vida moderna. Trata-se de uma busca da fe-
licidade através de estratégias narcísicas de sobrevivência que
reproduzem os piores aspectos da crise geral da cultura ocidental.
Em um artigo sobre a violência urbana, Costa busca explorar
a relação existente entre o modo de vida da sociedade e Estado
contemporâneo e a violência no contexto cotidiano. A autora ob-
serva a prevalência de atos violentos desarticulados de conexão
com as lutas de interesses mais amplos (lutas de classe, de interes-
se social), o aumento no número de homicídios e crimes violentos
praticados não por pobres ou excluídos, mas por pessoas de clas-
ses mais abastadas e a grande incidência de atos violentos promo-
vidos pelos diversos tipos de gangues e amotinados, aparentemente
desprovidos de motivação etc. A partir disso, surgem inúmeros
questionamentos acerca dos elementos motivadores desses novos
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 901-913, set./out. 2008.
tipos de articulações da violência, os quais encontram respostas
no modo de organização da sociedade moderna.
Segundo Costa (1999), essa violência, percebida como gra-
tuita, praticada pelo simples prazer da violência, encontra respal-
do no atual modo de vida das sociedades capitalistas, na ideologia
do lucro fácil e da busca da satisfação imediata do desejo de con-
sumir. Assim, a não-aceitação de limites para a satisfação de qual-
quer tipo de prazer e o desejo de consumir levam a condutas que,
em última instância, visam à destruição do outro. Trata-se de uma
real possibilidade de eliminação do outro se este resiste e faz
obstáculo ao gozo do sujeito.
Obviamente a tentativa de desvelamento da “ideologia” ca-
pitalista vigente nas sociedades ocidentais não deve intencionar
uma explicação completa das causas da violência no Brasil, uma
vez que existem inúmeras particularidades e fragmentações locais
que são determinantes na emergência do fenômeno. Todavia, é
908 necessário atentar-se à sutileza e à força dos argumentos do capi-
talismo moderno, tão entranhados em nossa sociedade que muitas
vezes se tornam imperceptíveis.
Reconhecendo a importância da mídia na contemporaneidade
e que, atrás dela, se produz visibilidade e se constroem os sentidos
de algumas práticas culturais, Pereira et al. destacam o modo como
a violência se apresenta enquanto produto cultural em circulação
no sistema midiático.

Ao ser estilizada, na sua absorção pelos meios de comunica-


ção, a violência representada passa por um processo de tradu-
ção que favorece e estimula seu consumo por um público mais
amplo. Este procedimento se apóia no poder de fascinação da
violência, que é potencializado por sua espetacularização,
podendo alterar os sentidos iniciais das manifestações, bem
como tornar os indivíduos menos sensíveis às diferentes rea-
lidades expostas (PEREIRA et al., 2000, p. 18).

Assim, o episódio violento da vida real cotidiana transforma-


se em um espetáculo produzido pelos meios de comunicação em
massa. O fenômeno da violência é, portanto, transformado em um
produto com grande poder de venda no mercado da informação e
em objeto de consumo, que passa a fazer parte do dia-a-dia de
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 901-913, set./out. 2008.

grande parte da população, mesmo daqueles que nunca tiveram


experiência de contato direto com o objeto (PORTO, 2002).
Obviamente, não se trata de tentar estabelecer uma relação
direta simplista entre a mídia e a violência. Contudo, na concep-
ção de Porto (2002), se a mídia não pode ser responsabilizada pelo
aumento da violência ela é, sem dúvida, um meio que favorece e
fortalece sociabilidades estruturadas na e pela violência. Não são
raras as oportunidades em que a violência, é apresentada como
um comportamento valorizado e tratada como um recurso cuja
utilização passa a ser uma questão de eficácia, oportunidade, afir-
mação de identidade, explosão de raiva, frustração, entre outras
possibilidades. Nesse sentido, o excesso na difusão de manifesta-
ções de violência na mídia, por um lado, contribui para uma
estigmatização de agentes e grupos envolvidos em tais práticas,
reforçando um quadro de exclusão social e, por outro lado, legi-
tima a instauração de modelos de sociabilidade e de construções
identitárias pautadas pela violência. 909
Afirmando que as transformações verificadas na contempora-
neidade têm produzido uma nova morfologia dos processos soci-
ais, Tavares dos Santos (1999; 2004) sugere que uma nova forma
de sociabilidade está se desenhando no contexto moderno, defini-
da por estilos violentos de sociabilidade, que invertem as expec-
tativas do processo civilizatório.

As relações de sociabilidade passam por uma nova mutação,


mediante processos simultâneos de integração comunitária e
de fragmentação social, de massificação e de individualização,
de ocidentalização e de desterritorialização. Como efeito dos
processos de exclusão social e econômica, inserem-se as prá-
ticas de violência como norma social particular de amplos
grupos da sociedade, presentes em múltiplas dimensões da
violência social e política contemporânea (TAVARES DOS
SANTOS, 1999, p. 20).

Assim, na visão do autor, afigura-se nas sociedades do século


XXI o fenômeno da violência difusa, cujas raízes se localizam nos
processos de fragmentação social. Nesse sentido, as instituições
socializadoras, tais como a família, a escola, a religião, as fábricas
etc., estariam vivendo um processo de crise e desinstitucionali-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 901-913, set./out. 2008.
zação. Se antes as relações de sociabilidade construídas nessas ins-
tituições eram marcadas prioritariamente pela afetividade e pela
solidariedade, hoje reaparecem como preferencialmente
conflitivas, como demonstram, por exemplo, os fenômenos da
violência doméstica e da violência na escola.
A violência difusa seria, portanto, um novo modelo de soci-
abilidade verificado na atualidade e que perpassaria os diferentes
contextos de interação social. Ao que parece, as mudanças no
cenário mundial promoveram a fragmentação social e a fragilização
dos laços sociais, o incremento de processos de exclusão e a
“desfiliação” de algumas categorias, tais como a juventude. Fo-
ram esses processos que possibilitaram a emergência do que seria
um novo modo de interação social em que a conflitualidade en-
contraria espaço privilegiado.
Esboçando a noção de sociabilidade violenta, com base numa
análise da natureza e do sentido da radical transformação de qua-
910 lidade das relações sociais e das práticas de criminosos comuns,
Silva (2004) diz que os padrões de sociabilidade convencionais,
regulados no âmbito do Estado, em determinados contextos e sob
certas condições, perdem a validade e são substituídos por um
complexo de práticas estruturadas na relação de forças.
Segundo o autor, a representação da violência urbana tem
como característica central a expressão de uma ordem social, isto
é, um complexo orgânico de práticas, mais do que um conjunto de
comportamentos isolados. Ao considerar a existência desse mo-
delo de ordem social, o autor sugere que o uso da força como
princípio de regulação das relações sociais convive com o modelo
de sociabilidade regulada pelo Estado. Assim, “não há luta, mas
convivência de referências, conscientes ou pelo menos claramen-
te ‘monitoradas’, a códigos normativos distintos e igualmente
legitimados, que implicam a adoção de cursos de ação divergen-
tes” (SILVA, 2004, p. 73). Nesse sentido, os atores sociais articu-
lam suas práticas cotidianas com essa dupla inserção: como
participantes da ordem estatal e, paralelamente, da sociabilidade
violenta.
Buscar uma apreensão da violência com base nos novos pro-
cessos sociais que se configuram na atualidade não é uma tarefa
simples. A noção de sociabilidade violenta tenta captar a natureza
e o sentido da radical transformação na qualidade das relações
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 901-913, set./out. 2008.

sociais como uma possibilidade de compreensão da violência


enquanto questão social global. Assim, trata-se de uma perspecti-
va que não pretende respostas conclusivas, mas que fornece um
caminho de reflexão com base nas formas de organização social
das relações de força.

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Abstract: the present work discusses many conceptions about


violence, arguing the phenomenon like an excess in power
relations. It had the objective to study the social representation of
the violence and the symbolic management. The notion of
banalization is analyzed. Finally, this paper points to the
recognition of the social value of force and to the existence of a
model of violent sociability.

Key words: social representations, violence, banalization, social


norms

O presente texto constitui parte da dissertação de mestrado do primeiro autor,


estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 901-913, set./out. 2008.

orientado pelo segundo e contou com o apoio financeiro da Capes.

SILVIA PEREIRA GUIMARÃES


Mestra em Psicologia pela Universidade Católica de Goiás (UCG). Professora
da Universidade Federal de Goiás. Psicóloga.

PEDRO HUMBERTO FARIA CAMPOS


Doutor em Psicologia Social pela Université de Provence. Docente do Doutora-
do em Psicologia da UCG. 913
AS VIVÊNCIAS
DE PRAZER-SOFRIMENTO
EM TRABALHADORES
DE UMA ORGANIZAÇÃO
CERTIFICADA PELA SA8000

KÁTIA BARBOSA MACEDO


ELISABETH ZULMIRA ROSSI
ANA MAGNÓLIA MENDES
EVANÚZIA LUZIA DE OLIVEIRA
VITOR BARROS REGO

Resumo: o artigo apresenta uma pesquisa realizada num hotel


certificado pela SA8000. A pesquisa objetivou descrever as
vivências de prazer-sofrimento dos trabalhadores. A base te-
órica utilizada foi a abordagem da psicodinâmica do traba-
lho. Participaram da pesquisa oitenta trabalhadores,
escolhidos aleatoriamente, que responderam a Escala Indi-
cadores de Prazer e Sofrimento no Trabalho (EIPST), de Men-
des (1999). Os dados da escala foram submetidos a análises
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.

estatísticas descritivas, com o SPSS 10.0. Também foram ana-


lisados documentos relativos ao programa de Responsabili-
dade Social, utilizando-se a análise de conteúdo. A análise
documental revela tratamento diferenciado em relação ao con-
trato de trabalho, falta de envolvimento pessoal, falta de par-
ticipação da cúpula nos projetos e corte no investimento. Essas
limitações comprometeram os resultados.

Palavras-chave: organizações, responsabilidade social, pra-


zer-sofrimento no trabalho

onforme Schommer (2000), proliferam publicações,

C debates, reportagens, prêmios e entidades dedicadas


à promoção do investimento das organizações na área
social. Termos como filantropia, cidadania empresarial, éti-
ca e responsabilidade social nos negócios, passaram a fazer
parte do discurso empresarial brasileiro. Há aqueles que, de- 915
fendem que, pagando impostos e obedecendo às leis, as organiza-
ções cumprem suficientemente sua função social, devendo dedi-
car-se a suas atividades fins. Outros entendem que a organização
tem responsabilidade com seu entorno.
De acordo com Borger (2001), o debate sobre responsabili-
dade social empresarial pode ser considerado quase tão antigo
quanto as próprias noções de organização e tem assumido aspec-
tos diferentes. Em seus primórdios, a própria instalação de uma
grande empresa numa determinada localidade já era considerada
uma ação que trazia, em seu bojo, o cumprimento de uma respon-
sabilidade social,
Nesse sentido, os movimentos sindicais e trabalhistas, no
século XX, ganharam vulto e passaram praticamente a definir as
condições de trabalho. Aspectos da influência da atividade indus-
trial passaram a ser questionados, como o cuidado com o meio
ambiente em que a indústria atua, os benefícios trabalhistas que a
organização se dispõe a conceder espontaneamente de modo a
melhorar a qualidade de vida de seus trabalhadores, eventuais
apoios que a organização se disponha a dar a projetos locais, de
modo a contribuir para a educação, saúde etc.
Nos anos de 1990, houve uma maior participação de autores
abordando a responsabilidade social, pois nessa década apresen-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.
tou-se a discussão sobre as questões éticas e morais nas organiza-
ções, o que contribuiu de modo significativo para a definição do
papel das organizações. Entre as novas concepções, pode-se citar
a idéia de que a atuação das organizações orientadas para a Res-
ponsabilidade Social Empresarial não implica que a gestão
organizacional abandone os seus objetivos econômicos e deixe de
atender aos interesses de seus proprietários e acionistas. A gestão
das organizações é responsável pelos efeitos de suas operações e
atividades na sociedade.
Em 1998, na Holanda, o Conselho Empresarial Mundial para
o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD) lançou a base do con-
ceito de responsabilidade social corporativa:

responsabilidade social corporativa é o comprometimento


permanente dos empresários de adotar um comportamento
ético e contribuir para o desenvolvimento econômico, melho-
916 rando simultaneamente a qualidade de vida de seus empre-
gados e de suas famílias, da comunidade local e da socieda-
de como um todo (ALMEIDA,1999, p. A-2).

Vários autores concordam com alguns aspectos do conceito de


responsabilidade social. Entre eles podem-se citar Froes e Mello
(1999), Grajew (2000), Morales e Orchis (2001), Kanitz (2000) e
Rizzi (2001). Para eles, responsabilidade social empresarial é uma
relação ética e socialmente responsável da organização em todas as
suas ações, suas políticas, suas práticas e suas relações. Isso signi-
fica responsabilidade social da organização com a comunidade, os
trabalhadores, os fornecedores, o meio ambiente, o governo, o po-
der público, os consumidores, o mercado e os acionistas; é uma
filosofia de gestão das organizações. Assim, pode-se entender como
ética da responsabilidade social a capacidade de avaliar conseqü-
ências para a sociedade, referente aos atos e decisões que são toma-
das visando a objetivos e metas próprios das organizações.
Para Froes (1999), existem dois tipos de responsabilidade
social. A primeira focaliza o público interno da organização, seus
trabalhadores e seus dependentes. O objetivo é motivá-los para
um desempenho ótimo, criar um ambiente agradável de trabalho
e contribuir para o seu bem-estar. Com isso, a organização ganha
a sua dedicação, o seu empenho, a sua lealdade e, por decorrência,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.

há aumento dos ganhos com a produtividade. A outra, responsabi-


lidade social externa, tem como foco a comunidade mais próxima
da organização ou o local onde ela está situada. Atuando nas duas
frentes, as organizações exercem a sua cidadania empresarial e
adquirem o status de ‘empresa-cidadã’.
Para o Instituto Ethos, e também Fritzen (1999), Froes e Neto
(1999), os valores e princípios éticos formam a base da cultura de
uma organização, orientando suas normas e procedimentos e fun-
damentando sua missão social. A ação social deve gerar benefí-
cios para a sociedade, propiciar a realização profissional dos
trabalhadores, promover benefícios para os parceiros e para o meio
ambiente e gerar retorno para os investidores. Dentre os indicado-
res de responsabilidade social, tem-se:
• Auto-regulação de normas e procedimentos das organiza-
ções, visando compromissos éticos e fortalecimento da
cultura organizacional.
• Relações transparentes com a sociedade, com diálogo com 917
partes interessadas (stakeholders), com a concorrência e a
divulgação do balanço social.
• Relações com o público interno visando investir no desen-
volvimento pessoal e profissional de seus trabalhadores,
bem como na melhoria das condições de trabalho e no
estreitamento de suas relações com os trabalhadores, deven-
do ainda estar atenta para o respeito às culturas locais. O
relacionamento entre organização e sociedade deve incluir
participação, boas relações com sindicatos, gestão
participativa, participação nos resultados e bonificação,
respeito ao indivíduo com compromisso com o futuro das
crianças e valorização da diversidade, respeito ao trabalha-
dor , tendo postura diferenciada frente a demissões, com-
promisso com o desenvolvimento profissional e a
empregabilidade, cuidado com saúde, segurança e condi-
ções de trabalho e preparação para aposentadoria.
• Em relação ao meio ambiente, deve incluir um
gerenciamento do impacto ambiental, minimização de
entradas e saídas de materiais na organização, responsabi-
lidade sobre o ciclo de vida dos produtos e serviços, res-
ponsabilidade frente às gerações futuras com
comprometimento da organização com a causa ambiental e
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.
educação ambiental.
• Em relação aos fornecedores, critérios para sua seleção
devem excluir trabalho infantil na cadeia produtiva, rela-
ções com trabalhadores terceirizados , apoio ao desenvol-
vimento dos fornecedores.
• Em relação aos clientes e consumidores, ter uma política de
marketing e comunicação, prestar excelência no atendimen-
to, e conhecer e divulgar os danos potenciais dos produtos
e serviços.
• Em relação à comunidade, deve gerenciar o impacto da
organização junto à comunidade, além de desenvolver re-
lações éticas e participativas com outras organizações atu-
antes na comunidade;
• Em relação à filantropia e investimentos sociais, desenvol-
ver mecanismos de apoio a projetos sociais, estratégias de
atuação na área social, trabalho voluntário, reconhecimen-
918 to e apoio ao trabalho voluntário dos trabalhadores.
• Em relação ao governo e à sociedade, ter transparência
política no que se refere a contribuições para campanhas
políticas e se posicionar contra corrupção e propina, além
de buscar uma liderança e influência social ética por meio
da participação em projetos sociais governamentais.

Segundo Borger (2001), as normas BS 8000 e a SA 80900 que


certificam, respectivamente, as organizações que dão garantias adequa-
das para a segurança e a saúde do trabalhador e as que respeitam os
direitos humanos e trabalhistas surgiram recentemente e, também, já
são apontadas como fortes indicadores de Responsabilidade Social.
A norma SA8000 foi desenvolvida com base nos princípios
da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU e dos
diversos convênios da Organização Internacional do Trabalho
(OIT). Seus principais indicadores de avaliação do desempenho
social das organizações são os seguintes: erradicação do trabalho
infantil; redução do constrangimento no trabalho; promoção de
saúde e segurança, liberdade de associação e direito à negociação
coletiva; combate à discriminação; implantação de jornada de
trabalho, remuneração e administração justa dos recursos. O pro-
cesso de certificação social tem como objetivo avaliar três áreas
distintas: o processo produtivo, as relações com a comunidade e
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.

as relações com os trabalhadores e seus dependentes.


Uma outra certificação que, apesar de estar ligada à gestão
ambiental, também pode ser considerada de responsabilidade
social, já que a organização investe recursos e desenvolve ações
que visem preservar o meio ambiente, o que gera melhoria e reduz
impactos e cujos beneficiários são todos os da comunidade, é a
ISO14000, que existe no Brasil desde 1996 e que até julho de 2000
149 empresas já tinham recebido.
É importante enfatizar que o fato de uma organização estar
certificada significa que se ocupa dos problemas e desenvolve um
conjunto de medidas para solucioná-los, adotando programas de
gestão ambiental e ações de responsabilidade social, como forma
de prevenção dos problemas. Ainda assim, é de esperar que a or-
ganização regida pelos princípios da responsabilidade social (o
que se formaliza pelo recebimento das certificações necessárias)
faça um investimento no bem-estar e qualidade de vida dos seus
trabalhadores. 919
Tal investimento pode se converter num contexto de trabalho
favorável à realização profissional e à liberdade, bem como a
evitação do desgaste e da insegurança. Desse modo, pretende-se
com essa pesquisa o estudo das vivências de prazer e de sofrimen-
to de trabalhadores inseridos em uma organização certificada como
socialmente responsável.
Para fundamentar teoricamente as vivências de prazer-sofri-
mento, são considerados os estudos realizados à luz do referencial
da psicodinâmica do trabalho, com base em Dejours (2001;
1994;1992), e Mendes (2004).
Para os autores acima, o trabalho promove a saúde e a doença
– sendo o prazer e o sofrimento indicadores do processo de saúde
ou adoecimento. O trabalho causa no corpo e nas relações com as
pessoas qualidades de bem ou de mal – características que se
manifestam por meio da realização e liberdade ou pela desvalori-
zação e desgaste no trabalho. Eles consideram que o trabalho pro-
voca um sofrimento que não é patológico, mas é um sinal de alerta
– a dor avisa sobre as doenças ocupacionais; ela pode ser masca-
rada e/ou ressignificada por meio de estratégias de mediação. Por
fim, afirmam ser as vivências de prazer e de sofrimento resultados
de uma intersubjetividade, que é a construção do sentido compar-
tilhado dado ao trabalho em função das inter-relações, na maior
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.
parte das vezes marcada por contradições entre desejos e necessi-
dades do trabalhador e as condições de organização e relações de
trabalho particulares em determinado contexto de produção de bens
ou serviços, no qual eles estão inseridos.
Entende-se por contexto de produção de bens e serviços, o
locus material, organizacional e social onde a dinâmica do traba-
lho acontece, no qual se encontram diferentes sujeitos envolvidos
em um processo de interação, implicando uma dinâmica própria
como lugar de produção de significações psíquicas e de constru-
ção de relações sociais.
Para Dejours (2001; 1992) e Ferreira e Mendes (2003), o
sofrimento é definido como uma vivência, às vezes inconsciente,
individual e/ou compartilhada por um grupo de trabalhadores, de
experiências dolorosas, como a angústia, medo e insegurança,
provenientes de conflitos e de contradições originados do confronto
entre desejo e necessidades do trabalhador e as características do
920 contexto de produção. O prazer é uma vivência individual e/ou
compartilhada por um grupo de trabalhadores de experiências de
gratificação provenientes da satisfação dos desejos e de necessi-
dades do trabalhador, quando da mediação bem sucedida dos con-
flitos e contradições gerados em determinado contexto de
produção.
Quando o sofrimento é vivenciado, ele é freqüentemente
enfrentado. Tal enfrentamento ocorre quando os trabalhadores
constroem estratégias de mediação, que podem ser do tipo defen-
sivas, individuais e coletivas, que levam à eufemização da percep-
ção da realidade que os faz sofrer, e de mobilização coletiva, que
leva à ressignificação do sofrimento pela transformação do con-
texto de produção em uma fonte de prazer.
De acordo com Dejours (2001; 1992), as estratégias defensi-
vas são mecanismos individuais ou compartilhados, utilizados
pelos trabalhadores, de negação ou racionalização dos riscos, dos
perigos e dos conflitos presentes no trabalho que lhes causam
sofrimento. A negação é expressa pela negação do próprio sofri-
mento e do sofrimento alheio.
A racionalização é representada pela evitação e eufemização
da angústia, do medo e da insegurança vivenciados no trabalho.
Ela se manifesta pela utilização de justificativas racionais diante
das situações desconfortáveis, dolorosas que podem gerar risco,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.

acelerar ritmo, altos índices de desempenho e produtividade.


Ainda para Dejours (2001; 1992), as estratégias de
mobilização coletiva são modos de agir em conjunto dos trabalha-
dores que atuam sobre a percepção da realidade para sua
eufemização. Para tanto, utilizam o espaço público de discussão
e a cooperação, visando ressignificar o sofrimento, gerir as con-
tradições, diminuir o custo humano negativo do trabalho e trans-
formar o contexto de produção para obtenção de prazer.
Assim sendo, com base nos pressupostos teóricos aqui abor-
dados, será feita a análise e a leitura dos dados obtidos na pesqui-
sa sobre as vivências de prazer-sofrimento em uma organização
certificada como socialmente responsável.

DELINEAMENTO METODOLÓGICO DA PESQUISA

Na data da coleta de dados, que aconteceu no período de


novembro de 2003 a fevereiro de 2004, a organização já havia 921
recebido as certificações de ISO9001, ISO14000 e SA8000 e atu-
ava na área de hotelaria, com sede no interior do Estado de Goiás.
A organização contava com 1683 trabalhadores no seu qua-
dro, divididos em quatro grupos: 413 terceiros, 144 cooperados,
23 estagiários e 1103 associados. Os terceiros são prestadores de
serviços, autônomos; os cooperados possuem vínculos com uma
cooperativa; os estagiários são os estudantes universitários que
desenvolvem trabalhos com fins acadêmicos e os associados são
os funcionários1.
Participaram do estudo uma ‘amostra’ aleatória composta por
oitenta trabalhadores (questionários devolvidos) do total de 1.103
contratados da empresa, com as seguintes características
sociodemográficas.
Dos sujeitos, 45%, do sexo masculino e 55% do sexo femini-
no; 25% dos participantes tinha idade até 26 anos, 56% tinham
idade ente 27 a 33 anos, 13% tinham idade entre 34 e 40 anos e,
finalmente, 6%, idade superior a 41 anos. No que se refere ao
Estado Civil, 19% dos participantes eram casados, 75% eram
solteiros e 6% eram divorciados. No que se refere à escolaridade,
6% tinham o primeiro grau completo; 56% tinham o segundo grau
completo e 37%, o curso superior completo. Quanto ao nível hi-
erárquico, 6% ocupavam o cargo de gerência; 25%, o cargo de
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.
analistas; 44%, a maioria dos entrevistados, se encontravam na
função administrativa que inclui recepção, portaria e atendente e,
por fim, 25%, em função operacional.
Como instrumentos para coleta de dados, utilizou-se a análi-
se de documentos organizacionais e a escala de Indicadores de
Prazer-Sofrimento no Trabalho (EIPST), validada por Mendes
(2003). Na escala, o prazer é representado pelos fatores realiza-
ção e liberdade. O fator realização é definido como sentimento de
gratificação, orgulho e identificação com um trabalho que atende
às necessidades profissionais. O fator liberdade é definido como
sentimento de estar livre para pensar, organizar e falar sobre o
trabalho; o sofrimento apresenta como indicadores os fatores
desgaste e desvalorização. O desgaste é definido como sentimen-
to de que o trabalho causa estresse, sobrecarga, tensão emocional,
cansaço, ansiedade, desânimo e frustração. A desvalorização é o
sentimento de incompetência diante das pressões para atender as
922 exigências de desempenho e produtividade.
Os participantes responderam à EIPST em situações coleti-
vas, em local adequado; não foi cronometrado o tempo utilizado
para o preenchimento. Todos os procedimentos éticos foram to-
mados para resguardar a identificação dos participantes.
Após a aplicação, a escala foi submetida a análises estatísti-
cas descritivas o obtiveram-se desse processo metodológico as
médias e o desvio padrão para cada um dos fatores da EIPST uti-
lizando o software estatístico SPSS 10.0.

RESULTADOS

De acordo com o Manual de Integração, a organização ini-


ciou o processo de certificações em dezembro de 1996. Em de-
zembro de 1998, a organização recebeu a certificação ISO 9002.
Em setembro de 2000, recebeu a certificação ISO 14000. Em maio
de 2003, a organização foi recertificada pela ISO9002 e pela
ISO14000. Em dezembro de 2003, a organização foi certificada
pela SA 8000, que é uma certificação de Responsabilidade Social.
De acordo com um dos gestores do programa, a CIA é a primeira
empresa de hotelaria e turismo do mundo a possuir as três
certificações.
O departamento diretamente responsável pela gestão
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.

ambiental foi implantado em 1996. O Departamento de Gestão de


Planejamento e Processos, quando na data desta coleta de dados,
estava diretamente ligado ao comitê executivo e contava com
quinze pessoas.
De acordo com os relatórios dos Gestores, a implantação do
programa foi uma iniciativa da alta administração e surgiu do
comitê executivo. Os relatórios foram feitos por uma consultoria
terceirizada que, ao realizar o projeto básico ambiental, realizou
um levantamento dos impactos. Com base nos impactos aponta-
dos no projeto, a organização deveria tomar as devidas providên-
cias para que tal impacto não tornasse negativo ou prejudicial ao
meio ambiente.
De acordo com as informações colhidas, toda a CIA era cer-
tificada pela ISO 9001/2000, ISO 14 000 e SA 8000. O órgão
certificador foi o BVQI. A opção por este órgão se deu por ele
possuir um contrato com o grupo BVQI. “A CIA tem um contrato
com a BVQI segundo o qual todas as empresas do grupo seriam 923
certificadas por elas, o que torna uma negociação mais flexível”
SG2. “A empresa optou por esse órgão pela credibilidade e
tradição.”SG1
De acordo com relatórios do programa, a manutenção do SGI
era realizada pela engenheira ambiental, e não existia uma perio-
dicidade definida, podendo ocorrer também após análise crítica,
realizada pela alta administração.
Em janeiro de 2004, o Departamento Gestão de Planejamen-
to e Processos (GPP) foi desativado. A partir de então, a coorde-
nadora do GPP foi transferida para a gerência de hotelaria.
Os resultados da escala (tabela 1) indicam que havia uma
vivência moderada de ‘prazer-sofrimento’, visto que não havia uma
diferença marcante entre as médias dos 4 fatores da Escala: gra-
tificação (M=3,88), liberdade (M=3,46), desgaste (M=2,8l) e
insegurança (M=2,41).

Tabela 1: Escores Médios e Desvio Padrão (DP) da Escala de


Indicadores de Prazer-Sofrimento

estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.

De acordo com os estudos teóricos já descritos e levando-se


em consideração a Escala Likert, quando os resultados se apresen-
tam moderados nos quatro fatores, sugere-se que há estratégias de
enfrentamento do sofrimento pelos trabalhadores. Em razão desse
resultado moderado das médias, foi feita uma análise item por item
dos fatores em que se escolheram os dois indicadores com as mai-
ores pontuações e os dois com as menores pontuações (tabela 2).
Como se pode perceber, os índices de gratificação foram os
maiores obtidos. Por se tratar de uma organização socialmente
responsável, a gratificação de seus trabalhadores deve ser tida como
um objetivo a ser atingido. No entanto, o que se percebe é que os
maiores indicadores de gratificação estão relacionados à profis-
924 são em si mesma (M=4,42) e (M=4,35). Os indicadores menores
estão direcionados às relações com chefias e colegas. Cabe, aqui,
uma maior investigação sobre a gratificação advinda dessa rela-
ção com as chefias (M=3,26) – a menor média dos indicadores –
visto que é um dos itens estudados quando se titular uma organi-
zação socialmente responsável. Seria esta gratificação decorrente
de benefícios oferecidos pela organização, tais como plano de
saúde, vale-refeição, vale-transporte, políticas de gestão de Re-
cursos Humanos, programas de desenvolvimento pessoal e pro-
fissional, participação nos lucros e outros?

Tabela 2: Médias e Desvio Padrão (DP) dos indicadores de cada


fator da EIPST.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.

No que se refere à liberdade no ambiente de trabalho, a maior


média está relacionada à opinião dos trabalhadores sobre o traba-
lho que executam. Porém, no que diz respeito à organização do
trabalho, há uma certa dificuldade para o uso do estilo pessoal.
Isso pode estar relacionado a uma certa rigidez da organização,
em que o trabalhador apenas cumpre regras e normas. Uma outra
observação a acrescentar nessa análise está relacionada à pontu- 925
ação relativamente alta dos indicadores de desgaste no trabalho,
representados pelas médias dos itens cansaço (M= 3,37) e traba-
lho desgastante (M=3,21).
A análise dos documentos referentes às certificações, manu-
ais, relatórios e avaliações dos gerentes dos programas indicou
alguns dados que devem ser salientados: em apenas quatro anos
de existência, o departamento responsável por gerenciar todos os
programas para implantação e certificação obteve as três
certificações, tempo relativamente curto para mudanças tão pro-
fundas como as exigidas para as certificações; houve relatos da
falta de envolvimento pessoal dos membros da diretoria e corte no
investimento financeiro para os referidos projetos. A equipe res-
ponsável pela certificação tinha prazos exatos, poucas pessoas
treinadas e pouca verba. Diante dessa realidade, os gestores do
projeto delimitaram a participação de alguns funcionários nos
programas e limitaram a divulgação dos projetos entre os funcio-
nários. Percebe-se que todos esses ajustes comprometeram o re-
sultado final do trabalho.

DISCUSSÃO

Como ficou evidenciado nas análises estatísticas, as médias


estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.
apresentam pontuação moderada, indicando que os trabalhadores
tinham vivências de prazer e de sofrimento no trabalho, sugerindo
a existência do uso de estratégias de enfrentamento – de defesa ou
de mobilização coletiva – dos conflitos e das contradições entre
as necessidades e desejos desses trabalhadores e o contexto de
trabalho. Assim sendo, essas defesas eram eficazes e evitavam o
surgimento de doenças relacionadas ao trabalho.
Em razão das especificidades das tarefas executadas – servi-
ços de hotelaria – os trabalhadores seguiam uma prescrição rígida
das tarefas, evidenciando uma organização de trabalho rígida.
Percebe-se isso pela alta pontuação do fator desgaste (M=3,37).
Porém, as ações e os investimentos no desenvolvimento do bem-
estar dos trabalhadores certamente atenuavam a rigidez dos ele-
mentos prescritos na organização do trabalho.
Esses resultados também se explicam por se tratar de uma
organização certificada como “socialmente responsável”, o que
926 pressupõe comprometimento permanente com a qualidade de vida
de seus trabalhadores, como também investimento em ações que
beneficiem a comunidade local e a sociedade como um todo. In-
vestimento em ambiente saudável que, além de promover uma
comunicação transparente, assegura a sinergia com seus parcei-
ros e a satisfação dos trabalhadores e clientes externos.
Porém, uma contradição está posta. Os resultados da análise
documental permitem a descrição e discussão de alguns aspectos
importantes que complementam os resultados quantitativos. De
acordo com esses documentos, ficam evidenciados diferentes re-
lações de trabalho em relação ao contrato de trabalho, acesso aos
benefícios, participação em treinamentos e eventos. Assim, nem
todos os trabalhadores eram contratados pelo regime da CLT, nem
todos recebiam treinamento, nem todos tinham acesso a treina-
mentos, benefícios nem mesmo recebiam informações acerca dos
programas desenvolvidos pela organização.
O resultado do estudo documental e o resultado quantitativo
indicam uma contradição. Embora a empresa em estudo tivesse as
certificações SA8000 e ISO14000 (cujos indicadores preconizam
que a organização certificada cuida da redução do constrangimento
do trabalho, combate a discriminação, promove a saúde e a segu-
rança, promove liberdade de direitos, viabiliza a implantação de
uma jornada justa de trabalho e de remuneração), os resultados
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.

apontam para uma precarização do trabalho.


Nesse sentido, os resultados quantitativos revelaram que o
fator “desgaste”, o indicador “meu trabalho é cansativo”, recebeu
a maior pontuação.(M - 3,37). No fator “insegurança” os indica-
dores referentes a ‘meu trabalho me causa ansiedade’ recebeu
pontuação (M-2,78) e “sinto-me inseguro quando não correspondo
às expectativas da empresa” ´(M-2,65). Essas pontuações também
confirmaram a análise documental em relação ao tratamento dife-
renciado e à precarização do trabalho.
Outra consideração importante diz respeito às certificações.
Para uma organização receber certificações – seja a ISO9000,
ISO14000 ou a SA8000 – ela deve demonstrar para um avaliador
externo e habilitado, pertencente a um órgão certificador compe-
tente, que foi capaz de desenvolver os manuais, ou seja, aplicar as
normas que constam dos manuais. Assim, deve ficar comprovado
que ela desenvolveu ações que denotavam seu investimento em
ações sociais, que deveriam enfocar o público interno e o externo. 927
Geralmente, as ações voltadas para o público interno se refle-
tem em políticas de pessoal que promovem qualidade de vida no
trabalho, priorizam benefícios que se estendem aos trabalhadores
e seus dependentes. Espera-se que haja uma política de pessoal
formalmente descrita e divulgada a todos os envolvidos com a
organização.
Pode-se afirmar que na empresa pesquisada há uma distância
entre o que está prescrito no manual de certificação e o que é pra-
ticado. Se os resultados dos indicadores de prazer no trabalho
estavam em um grau moderado, indicava que os empregados es-
tavam fazendo uso de estratégias de enfrentamento do sofrimento
no trabalho. Desse modo, como eeram as ações para o estabeleci-
mento da qualidade de vida no trabalho? Se os trabalhadores ti-
nham seu trabalho precarizado em razão da sazonalidade do hotel,
como fica a responsabilidade social no que tange ao público inter-
no e externo? Essa é realmente uma empresa cidadã?
Embora tenha sido encontrada referência expressa nos ma-
nuais a uma política que privilegiasse a relação com os trabalha-
dores, que deveria ser pautada na transparência, ética e promoção
de qualidade de vida no trabalho e responsabilidade social, perce-
beu-se que isso não ocorria na prática. O próprio fato de os traba-
lhadores estarem separados em quatro grupos com contrato de
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.
trabalho deixa claro o tratamento desigual dispensado a cada gru-
po. Apesar de haver nos manuais referências expressas à divulga-
ção, participação e envolvimento dos trabalhadores e disseminação
de informações sobre gestão ambiental, qualidade, qualidade de
vida e responsabilidade social, percebe-se que, na prática, foram
desenvolvidas poucas ações de divulgação, e houve poucos even-
tos, com escopo reduzido, o que não permitiu o acesso da maioria
dos trabalhadores. A própria divulgação e envolvimento dos tra-
balhadores no programa e sua pouca adesão e participação refor-
çam o caráter parcial em que as ações desenvolvidas deram acesso
para os trabalhadores participarem.
Apesar de haver nos manuais políticas de desenvolvimento
de ações para a promoção de responsabilidade social voltadas tanto
para o público interno quanto para o externo, percebe-se que fo-
ram realizadas apenas algumas palestras, e foi iniciada a coleta
seletiva de lixo, por um período curto, imediatamente antes das
928 visitas dos avaliadores externos dos órgãos certificadores.
Assim, percebe-se um caráter instrumental da organização ao
buscar as certificações, provavelmente, muito mais por causa de
um caráter ligado ao marketing institucional do que por um real
comprometimento da diretoria e envolvimento dos trabalhadores
com a responsabilidade social.

CONCLUSÃO

Após a apresentação e discussão da pesquisa realizada, fica


evidente que o fato de uma organização possuir certificações de
qualidade, de responsabilidade social ou de gestão ambiental não
significa necessariamente que seus trabalhadores tenham mais
vivências de prazer que de sofrimento no trabalho. Há uma distân-
cia entre o que os manuais prevêem e as práticas cotidianas.
Esperava-se que uma organização certificada pela SA8000
investisse periodicamente em ações que beneficiassem, conjunta-
mente, o público interno, os trabalhadores e o público externo, os
clientes fornecedores e a comunidade. Essa expectativa não foi
verificada pelas práticas, pois, apesar da organização possuir tan-
tas certificações, há indicações de vivências de sofrimento nos
trabalhadores, e talvez isso se deva ao caráter instrumental que a
organização fazia das certificações para criação e divulgação de
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.

uma imagem institucional que, não necessariamente, condiz com


a realidade de seu cotidiano, mas que seguramente influencia em
seus resultados financeiros.
Diante desses achados, é conveniente que novos estudos se-
jam realizados para que se possa aprofundar e encontrar um sen-
tido para esse fenômeno.

Nota
1
Cf. Manual de Integração, p. 7 e 8.

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estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.


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MACÊDO, K. B. et al. Programas de Qualidade de Vida no Trabalho em
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MANUAL DE INTEGRAÇÃO DA EMPRESA X, documento restrito, interno
da organização, que está no site da empresa, mas que não será divulgado devido
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MENDES, A. M. Cultura organizacional e prazer-sofrimento no trabalho: uma
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SCHOMMER, M. Investimento social das empresas: cooperação organizacional
num espaço compartilhado. In: 24 ENCONTRO NACIONAL DA
ASSOCIAÇÃO NACIONAL E PÓS-GRADUAÇÃO EM PESQUISA EM
ADMINISTRAÇÃO. Anais... Florianópolis, 2000.

Abstract: this article presents a research into a hotel certified by


SA8000. It is aimed to describe workers’ pleasure-suffering
experiences according to the psychodynamic theory on work, based
on Dejours’ and Mendes’ works. 80 workers had participated in the
research, and the Scale of Pleasure and Suffering Indicators at the
Work and documental analysis were undertaken. They were submitted,
respectively, to descriptive statistical and qualitative analyses. The
documental analysis reveals treatment differentiated in relation to
labor agreement, there was not personnel involvement, participation
by the directors and the finantial support to improve the process.

Key words: organizations, social responsiveness, pleasure-


suffering experiences in work
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.

KÁTIA BARBOSA MACEDO


Doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Mestre em Educação pela Universidade Federal de Goiás. Especialista em psi-
cologia pela Universidade Católica de Goiás 9UCG). Especialista em Dinámica
de Grupos pela Universidad de Comillas-Espanha. Master em Psicología Apli-
cada a las Organizaciones pela EAE-Barcelona. Graduada em Psicologia. Pes-
quisadora e professora na UCG. E-mail: katia.macedo@cultura.com.br

ANA MAGNÓLIA MENDES


Doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB). Professora no De-
partamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília.
Pesquisadora do CNPq. Psicóloga. E-mail: anamag@unb.br 931
EVANÚZIA LUZIA DE OLIVEIRA
Mestre em Psicologia Social pela UCG. Pós-graduada em Gestão de Pessoas e
Organizações, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Graduada em Psico-
logia pela UCG. Professora na UCG. Analista de Recursos Humanos, em uma
distribuidora.

ELISABETH ZULMIRA ROSSI


Doutoranda em Psicologia na UnB. Mestre em Psicologia pela UCG. Graduada
em Pedagogia. Professora na Universidade Estadual de Goiás. E-mail:
ezrossi@unb.br

VITOR BARROS REGO


Graduando em psicologia na UnB. E-mail: barrosx@yahoo.com.br

estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 915-932, set./out. 2008.

932
EXPERIÊNCIA COM
ATIVIDADES DE VENDA
E DECODIFICAÇÃO
DE EXPRESSÕES FACIAIS

RAQUEL SANTANA SCHIAVON SANCHEZ


FRANCISCO D. C. MENDES

Resumo: este estudo é uma investigação sobre a influência da


comunicação não-verbal para a eficiência de vender, através
de uma análise da facilidade com que diferentes sujeitos per-
cebem/reconhecem expressões faciais de emoções universais.
Participaram deste experimento 15 vendedores de empresa
varejista e de serviço e 100 alunos do curso de graduação em
administração de uma universidade em Goiânia (GO). Foi
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.

aplicado um questionário e o teste Lendo Faces de Ekman


(2003), que consiste em 14 fotos do rosto de um mesmo sujeito
com as expressões de emoções faciais de tristeza, nojo, ale-
gria, raiva, medo e desdenho. Não foi confirmada a hipótese
de que quanto mais se sabe interpretar as expressões faciais
de emoção, mais sucesso se tem em resultados de vendas, como
é dito na literatura, embora todos os vendedores tendam a fazer
uso da interpretação da comunicação não-verbal nas suas
atividades diárias, como ficou demonstrado na pesquisa.

Palavras-chave: vendas, comunicação não-verbal, expressão


facial

O
ser humano é um animal com imenso poder de co-
municação. Além da linguagem simbólica, restrita à
nossa espécie, utilizamos também uma forma bas-
tante antiga de interagir com outros membros de nossa espé- 933
cie: a comunicação não-verbal. Nosso repertório de sinais não-
verbais é bastante extenso e flexível quando comparado à maioria
dos outros animais e pode envolver diferentes canais: o visual
(posturas, movimentos, expressões), o auditivo (timbre e tom de
voz, entonações), o químico (cheiros e sabores) e o tátil (toques,
abraços, agressões físicas) (MENDES; CARDOSO, no prelo).
Embora a linguagem simbólica seja ímpar em seu potencial
de informação (PINKER, 2002), os sinais não-verbais parecem
fundamentais para a comunicação eficiente entre humanos.
Birdwhistell (1970) concluiu, através de filmes de interações
humanas rodados em câmara lenta, que a comunicação humana se
passa em grande parte “abaixo da consciência”, em que a relevân-
cia das palavras é apenas indireta. Estudos mais recentes (revisa-
dos em Knapp et al., 1999) demonstram que as relações
interpessoais são influenciadas simultaneamente por diversos
canais de comunicação não-verbais. Desta forma, os sinais não-
verbais de comunicação são utilizados para compreender o que
está sendo comunicado em qualquer interação social, seja ela
mediada ou não por comportamentos verbais (CORAZE, 1982).
A face humana é extremamente complexa em termos de sua
estrutura e número de elementos, pode apresentar um número
considerável de configurações através de movimentos muscula-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.
res (DAVIS, 1979), e talvez represente a parte de nosso corpo mais
usada durante a comunicação (ROSENTHAL et al., 1978; KNAP,
HALL, 1999; EKMAN, 2003). As pessoas utilizam a face para
facilitar e inibir as reações nas interações sociais; para abrir e fechar
canais de comunicação; para complementar ou qualificar respos-
tas verbais/ou não-verbais e para substituir o discurso. A face pode
também incitar comentários do ouvinte, ou demonstrar empatia
na forma de mimetismo (DAVIS, 1979). No caso dos sinais rápi-
dos, como as expressões faciais, o tônus facial, o tamanho da pupila
e a posição da cabeça, a face pode também informar sobre o esta-
do emocional do emissor, sobre seus comportamentos futuros e,
indiretamente, sobre as condições ambientais que geraram essas
emoções (KRAUT, 1982).
A relação entre sinais rápidos e estado emocional do emissor
foi sugerida por Charles Darwin, em seu estudo pioneiro sobre
expressões das emoções em humanos e animais (DARWIN, 2000).
934 Para Darwin, o reconhecimento do estado emocional de outros
indivíduos seria uma habilidade adaptativa, necessária para as
interações entre membros da mesma espécie. Desta forma, huma-
nos teriam herdado de seus ancestrais e compartilhariam entre si
um repertório básico de expressões de emoções relacionadas à
sobrevivência e reprodução dentro de grupos sociais. Suas con-
clusões foram baseadas em observações próprias de primatas ca-
tivos numa série de relatórios sobre como pessoas em diferentes
partes do mundo expressam suas emoções.
As considerações e métodos de Darwin só foram retomados na
segunda metade do século passado. Vários trabalhos demonstraram
que algumas expressões faciais são universalmente produzidas e
decodificadas como emoções a elas subjacentes (BERENBAUM,
ROTTER, 1992; EKMAN, FRIESEN, 1975; EKMAN, FRIESEN,
ELLSWORTH,1982; GASPAR, 1989; IZARD, 1971). Para Ekman
(1984), as emoções transmitidas pelas expressões universais seri-
am “emoções básicas”, cuja expressão não precisa ser aprendida, e
que estão presentes em todas as culturas humanas (medo, raiva,
tristeza, nojo, alegria e surpresa, desdenho). Os movimentos mus-
culares da face, associados a estas emoções, são comuns a todas as
pessoas, independente de sexo, idade ou etnia. Um Programa Facial
Inato governaria a configuração das contrações dos 52 músculos do
rosto humano de acordo com a emoção experimentada (DAVIS,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.

1979). Esse programa inato explicaria não apenas a universalidade


das expressões em diferentes culturas, mas também o porquê de as
encontrarmos tanto em pessoas cegas de nascimento como nas que
enxergam (OTTA, 1993).
Emoções básicas puras são incomuns – geralmente experimen-
tamos misturas de emoções, como, por exemplo, raiva e surpresa ao
ver algo inesperado que nos desagrada. Para lidar com a flexibilida-
de das expressões, Ekman e Friesen (1979) desenvolveram, com base
em estudos anatômicos e observação direta, um Sistema de
Codificação da Ação Facial (SCAF) ou Facial Action Coding System
(FACS). Os pesquisadores estudaram as faces de pessoas que havi-
am aprendido a controlar músculos específicos e relataram que
movimentos um observador podia distinguir com certeza. Por con-
seguinte, um observador treinado pode identificar quais músculos
específicos estão se mexendo (EKMAN; ROSENBERG, 2005). Às
vezes, uma unidade de ação move mais de um músculo, se aqueles
músculos sempre funcionam em série ou se um observador não 935
consegue ver diferenças em pequenas mudanças de um subconjunto
de músculos. No total, sete músculos diferentes podem influenciar
uma região da face. O FACS permite aos pesquisadores da emoção
classificar um rosto quando está expressando uma ou mais emoções
(por meio da reunião dos juízos observadores) e então descrever,
objetivamente, o que a face “representa”.
O caráter inato e universal das expressões faciais das emo-
ções básicas não significa que a comunicação não-verbal não possa
ser modificada pela experiência. Por exemplo, algumas emoções,
como nojo e surpresa, são emitidas desde cedo no desenvolvimento
do indivíduo, mas são mais difíceis de serem decodificadas por
crianças de 8 anos de idade do que outras emoções (MARKHAN;
ADAMS, 1992). Borke (1973) demonstrou que crianças de 3 anos
de idade reconhecem mais facilmente alegria e tristeza do que medo
e raiva. Além disso, misturas de emoções são mais difíceis de
decodificar por crianças e adultos do que emoções puras, e, tal-
vez, sua decodificação seja mais susceptível ao treino. Finalmen-
te, o comportamento “inato” de expressar emoções é influenciado
por “Regras Demonstrativas” que definem, em cada cultura, quais
expressões são adequadas a quais situações (DAVIS, 1979).
Pouco se sabe sobre a inter-relação entre fatores inatos e pro-
cessos de aprendizagem da comunicação não-verbal. Por exem-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.
plo, vários autores (ALPER, 1991; MESQUITA, 1997; HOLLEY,
2002; EKMAN, 2004) dizem que a experiência e treinamento em
comunicação não-verbal são fatores fundamentais para o sucesso
de profissionais que interagem com pessoas no seu dia-a-dia, como
vendedores, advogados, políticos, policiais e terapeutas. No livro
Decifrar Pessoas uma das consultoras de júri mais respeitada dos
Estados Unidos, Dimitrius e Mazzarella (2000), diz que a percep-
ção da face pode ser melhorada com treino e com a experiência
vivida no dia-a-dia das pessoas. Ela utiliza suas habilidades para
analisar o comportamento não-verbal das pessoas, com previsão
das atitudes dos jurados, advogados, testemunhas e juizes.
Entre as atividades humanas mais antigas e que envolvem
freqüentes interações face a face estão as atividades de vendas no
varejo. O comércio livre permeia e influencia as atividades
socioeconômicas desde a antiguidade (GATAZI, 1985) e ocupa
atualmente um grande número de profissionais. Segundo Kotler e
936 Keller (2006), aproximadamente 12% dos norte-americanos tra-
balham com vendas ou ocupações relacionadas, mobilizando mais
de 1 trilhão de dólares a cada ano.
Nos cursos para vendedores e na literatura mais recente so-
bre vendas e treinamento para vendedores (COBRA, 1997; MES-
QUITA, 1997; FURTRELL, 2003; URBANIAK, 2005; KOTLER,
KELLER, 2006), comumente se aborda a importância da comuni-
cação não-verbal, especialmente das expressões faciais, para o
sucesso profissional dos vendedores. Saber se expressar e saber
decodificar corretamente os sinais não-verbais emitidos por
prospects ajudaria, desta forma, não só o vendedor a efetuar ven-
das e, conseqüentemente, sua empresa, como também ajudaria o
vendedor a atender às demandas e necessidades dos compradores
(FURTRELL, 2003).
A relação entre comunicação e sucesso profissional também
é sugerida por psicólogos. Ekman (2003) desenvolveu um méto-
do de ensino baseado em fotos da face, demonstrando como testa,
sobrancelha, olhos, nariz, bochechas, boca e queixo “reagem” a
diferentes emoções. Este método, denominado Facial Affect
Scoring Technique (FAST), é utilizado para treinar as pessoas e
profissionais, como vendedores, policiais, e advogados, a reco-
nhecer melhor as expressões de emoções faciais e, assim, ajudá-
los no sucesso das suas tarefas diárias (DAVIS, 1979).
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.

Apesar da relevância socioeconômica das atividades de ven-


da e da aparente influência da comunicação não-verbal na efici-
ência das vendas, poucos estudos trazem dados empíricos sobre
esta relação. Ekman (2003) prevê que em poucos anos algumas
respostas fundamentais sobre o estudo da comunicação não-ver-
bal estarão disponíveis. Mesmo assim, assume-se que ela exista,
ainda que não se saiba ao certo quais aspectos da comunicação
estão relacionados à eficiência de venda, e quais destes aspectos
seriam mais passíveis de treinamento. Por exemplo, alguns auto-
res enfatizam a importância da emissão de sinais não-verbais
adequados, incluindo a aparência, vestuário, aspectos físicos e
carisma (OKUMA, 1990). Outros apontam como fundamental a
capacidade de decodificar os sinais emitidos pelos compradores e
de não apenas ouvir o cliente, mas também de “sentir” e interpre-
tar suas necessidades (COBRA, 1997; FURTRELL, 2003).
Neste trabalho, abordamos de forma empírica duas perguntas
específicas sobre a relação entre experiência em atividades de ven- 937
da e capacidade de decodificar expressões faciais: as constantes
interações face a face tornam os vendedores melhores no reconhe-
cimento das expressões de emoções da face humana do que outros
sujeitos não vendedores? A capacidade de decodificar bem as ex-
pressões de emoções da face de outros indivíduos está correlacionada
com o desempenho do vendedor, ou seja, bons reconhecedores de
expressões de emoções faciais costumam vender mais?

MÉTODOS

Coleta dos Dados


A coleta de dados foi conduzida na cidade de Goiânia, com
dois conjuntos de sujeitos: 15 vendedores de produtos e serviços
e 100 estudantes universitários matriculados em um curso de
Administração. Trinta e três destes alunos não possuíam nenhu-
ma experiência em vendas; os demais 67 estudantes relataram
experiências variadas em vendas.
Todos os sujeitos responderam, em questionário impresso,
perguntas sobre sexo, idade, e sua experiência prévia com vendas,
medida de forma categórica (até 6 meses; de 6 meses a 1 ano; de
1 a 2 anos; de 2 a 4 anos; 4 a 6 anos; com mais de 6 anos) . No caso
dos vendedores, o questionário também continha itens sobre o grau
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.
de importância que atribuem a aspectos da comunicação não-ver-
bal dos compradores (aparência geral, as expressões do rosto, os
gestos, o tom e timbre de voz, o vestuário e a distância física que
o comprador mantém do vendedor). A importância atribuída a cada
item foi medida de forma ordinal (1 para nunca se aplica; 5 para
sempre se aplica). A eficiência de cada vendedor foi medida por
dados pertinentes a valores de vendas individuais por trimestre,
obtidos na administração da empresa.
Após o preenchimento do questionário, os vendedores pro-
fissionais e os alunos de administração foram submetidos ao teste
Lendo Faces, desenvolvido por Ekman (2003). O teste consiste na
apresentação de 14 fotos de uma mesma mulher expressando
emoções básicas (Figura 1): duas fotos para tristeza, duas fotos
para nojo, uma foto para alegria, cinco fotos para raiva, três fotos
para medo e uma foto que demonstrava expressão de desdenho.
Conforme recomendações de Ekman (2003), cada sujeito re-
938 cebia uma folha de papel pautado com linhas numeradas de 1 a 14.
Na parte de cima do papel, as seguintes palavras estavam escritas:
raiva, medo, tristeza, nojo, desdenho, surpresa e alegria. Estas eram
as possíveis escolhas para as expressões em cada uma das 14 fotos
apresentadas. A face mostrada na foto tinha que ser do mesmo ta-
manho que o real. Para isto, cada foto era posicionada a 60cm de
distância dos olhos do sujeito, garantindo ao entrevistado a mesma
margem de distância na sua retina como se uma outra pessoa esti-
vesse sentada na sua frente. Cada foto era apresentada por um tem-
po médio aproximado de 2 segundos e seguida de um período em
que o sujeito podia decidir quais das 7 palavras escritas no topo da
página melhor correspondia à expressão daquela foto.
É importante reconhecer que a comunicação não-verbal en-
volve muito mais do que expressões faciais de emoções básicas
puras ou mistas. Apesar disto, o instrumento desenhado por Ekman
(2003) nos pareceu adequado por três motivos. Primeiro, porque
é um instrumento testado e validado em pesquisas com outros
sujeitos. Segundo, a leitura correta de expressões universais são
mais susceptíveis ao treino do que sua emissão. Finalmente, nos
parece razoável considerar que bons decodificadores de sinais não-
verbais como um todo também sejam bons decodificadores destes
sinais faciais mais básicos e específicos.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.

Figura 1: Teste de Percepção


Nota: Exemplo das fotos utilizadas no teste de percepção com os sujeitos da
pesquisa com expressões de (da direita para a esquerda): raiva, medo, raiva,
desdenho.
Fonte: Ekman (2003)

Análise dos Dados


Técnicas exploratórias foram inicialmente usadas para descre-
ver a amostra e analisar a distribuição das variáveis de controle (sexo
e idade) nos 3 grupos de estudo (vendedores, alunos com experiên- 939
cia em vendas, alunos sem experiência) e sua possível influência na
variável de interesse (“número de acertos” durante o teste de reco-
nhecimento de faces). Verificamos ainda, através de testes não
paramétricos de associação (Qui-quadrado), se as proporções de
acertos relativos a diferentes expressões diferiram nos 3 grupos, entre
sujeitos do sexo masculino e feminino e entre sujeitos de diferentes
faixas etárias. No caso referente à faixa etária, retiramos da análise
os dois sujeitos que não declararam sua idade.
Os resultados da análise exploratória (ver abaixo) permitiram
testar a hipótese de que os três grupos apresentariam diferentes
capacidades de decodificação das expressões universais, ou seja,
diferentes médias na variável “número de acertos”, sem termos
que considerar os efeitos das variáveis de controle. O teste de
Kolmogorov-Smirnov foi usado para medir a aderência da distri-
buição dos números de acertos e a distribuição normal. Apesar da
pouca aderência no caso de alunos com experiência (Z=1,373;
p=0,046), as distribuições dos valores de “ número de acertos” no
grupo de vendedores (Z=0,865; p=0,443) e no grupo de alunos sem
experiência (Z=0,866; p=0,441) não mostraram diferenças signi-
ficativas em relação à distribuição normal. Por este motivo, opta-
mos pelo uso do teste paramétrico de análise de variância (Anova
– SPSS v. 13.0).
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.
Para testar a hipótese de que uma capacidade de decodificação
das faces auxilia o vendedor a ser mais eficiente, efetuamos uma
análise não paramétrica de correlação entre as variáveis “volume
de vendas” e “número de acertos” para o grupo de vendedores
(n=15). Realizamos também uma análise de regressão múltipla,
com o volume de vendas de cada vendedor como variável depen-
dente e 4 variáveis ordinais como variáveis independentes: “nú-
mero de acertos” na decodificação das expressões, “conhecimento
dos produtos” à venda, “grau de ambição” do vendedor, e seu
“tempo de experiência” em atividades de venda. Todos os pares
de variáveis independentes apresentaram correlação fraca e não
significativa entre si, o que permitiu uma análise das contribui-
ções individuais de cada variável independente, inclusive o “nú-
mero de acertos”, na variância do volume de vendas (método
“enter” no procedimento de regressão múltipla do SPSS).
Finalmente, avaliamos a relação entre o “volume de vendas”
940 e o reparo do vendedor nos diferentes tipos de comunicação não-
verbal do comprador. Para isso, realizamos testes não paramétricos
de correlação entre a variável contínua do volume de vendas e as
variáveis ordinais medidas no questionário: aparência geral do
comprador, expressões do rosto, gestos, tom e timbre de voz, ves-
tuário, distância do vendedor.

RESULTADOS

Análise Exploratória
A tabela 1 resume a distribuição de sujeitos de diferentes sexo
e idade nos 3 grupos que compuseram nossa amostra (sujeitos). O
grupo composto por vendedores apresentou mais sujeitos do sexo
masculino (73,33%) do que o grupo de alunos com experiência
(42,42%), e o grupo de alunos sem experiência (43,28%). Apesar
da alta porcentagem de vendedores homens poder representar um
viés no caso de vendedores, a distribuição de sujeitos masculinos
e femininos não apresentou diferença significativa entre os 3 gru-
pos (x2= 4,824; gl= 12; p= 0,567) e foi bastante semelhante entre
os dois grupos de alunos.
A distribuição de sujeitos de diferentes faixas etárias foi ain-
da mais homogênea entre os 3 grupos, aproximando-se do acaso
(x2= 3,648; gl=12; p= 0,98). Por exemplo, sujeitos entre 18 e 25
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.

anos de idade representaram 60,0% de toda a amostra e 60,0%,


58,21% e 63,64% de cada grupo de sujeitos. As maiores diferen-
ças foram encontradas nos sujeitos de 26 a 35 anos, com predomi-
nância maior entre os vendedores (33,33% contra 26,86% e 24,24%
de alunos com e sem experiência respectivamente), e nos sujeitos
de 36 a 45 anos, mais predominantes entre os alunos com experi-
ência em atividades de venda (13,43% contra 6,67% e 3,03% de
vendedores e alunos sem experiência).
Os sujeitos de diferentes sexos (x2=2,853; gl=12; p=0,98)
e de diferentes faixas etárias (x2= 3,532; gl=24; p=0,97) apre-
sentaram proporções semelhantes de acertos nos 6 tipos de ex-
pressões. Estas semelhanças permanecem quando indivíduos de
sexo e idade iguais são comparados entre si em função do grupo
aos quais pertencem (vendedor, aluno com e sem experiência).
Todas as subdivisões da amostra geraram distribuições extrema-
mente semelhantes nos tipos de acertos. No geral, as expressões
faciais mais facilmente reconhecidas pelos sujeitos foram as de 941
alegria e tristeza, e as menos reconhecidas foram as de nojo e
desdenho.

Tabela 1: Distribuição dos Sujeitos dos Três Grupos de Estudo


em Relação às Variáveis de Controle Sexo e Idade

Diferenças Entre Grupos


Os resultados acima justificam o teste da hipótese de que
vendedores seriam melhores decodificadores de expressões, sem
a utilização das variáveis sexo e idade como controle (covariáveis).
O resultado da Anova univariada não indicou diferenças signifi-
cativas entre os 3 grupos (F=1,037; gl=2; p=0,358), ou seja, não
podemos descartar as hipóteses como nulas de que vendedores não
são melhores decodificadores do que não-vendedores, e de que
alunos com experiência em atividades de vendas não seriam me-
lhores do que aqueles sem esta experiência. Além disso, os resul-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.
tados mostraram uma direção diferente na relação entre a variável
independente e a variável dependente, ou seja, o grupo de vende-
dores foi aquele com pior desempenho no teste de Ekman, segui-
do dos alunos com experiência de vendas; alunos sem experiência
de vendas obtiveram o melhor desempenho entre os 3 grupos (i.e.,
número máximo e médio de acertos; Tabela 2).

Tabela 2: Resultados da Análise Descritiva da Variável ‘Número


de Acertos’ nos Três Grupos de Estudo

942
Volume de Vendas, Número de Acertos e Atenção
à Comunicação Não-Verbal

O resultado da Anova indicou, portanto, que os sujeitos ven-


dedores não apresentaram maior eficiência na decodificação das
expressões faciais do que os demais sujeitos. Por outro lado, tanto
o número de acertos como o volume trimestral de vendas dos
sujeitos vendedores variou consideravelmente. Poder-se-ía argu-
mentar que nossa amostra teve, inadvertidamente, a tendência de
testar vendedores ineficientes na tarefa de decodificar faces, mas
que ainda assim haveria uma relação entre a capacidade de
decodificação das expressões e a eficiência nas vendas. Esta hi-
pótese também não foi confirmada. O teste não-paramétrico de
Spearman revelou uma correlação fraca e não significativa entre
as duas variáveis para nossa amostra. Além disso, a direção da
relação foi inversa à esperada (rho= -0,222; p= 0,213), indicando
que os vendedores com maior volume de vendas tenderam a apre-
sentar menos acertos na decodificação de faces do que os que
apresentaram menor volume de vendas.
A equação da regressão múltipla (0,911 + 1,918 * tempo de
experiência + 1,781 * conhecimento dos produtos + 0,788 * am-
bição – 0,427 * número de acertos), utilizando o método “enter”,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.

mostrou que nenhuma variável sozinha explicou de forma signi-


ficativa a variância na variável dependente “volume de vendas”
(F= 1,947; gl=4; p= 0,179). Apesar disto, juntas as 4 variáveis
explicaram 43,80 % da variância. A variável “número de acertos”
no teste das fotografias foi a que menos contribuiu no modelo,
explicando menos do que 2% da variância do volume de vendas
(R2= 0,019). Em contraposição, “tempo de experiência em ven-
das”, “conhecimento do produto”, e “grau de ambição” relatado
pelo vendedor explicaram juntas mais de 40% da variância total
(R2= 0,194, 0,141 e 0,080 respectivamente). Em outras palavras,
pelo menos em nossa amostra, a capacidade de decodificar expres-
sões faciais universais foi bem menos relevante para o sucesso do
vendedor do que outras qualidades suas.
Finalmente, a eficiência nas vendas poderia estar sendo in-
fluenciada por outros tipos de comunicação não-verbal e não ape-
nas pela decodificação de expressões faciais universais. Mais uma
vez nossos dados apontam o contrário. A tabela 3 mostra o resul- 943
tado das correlações entre volume de vendas e a importância dada
pelo vendedor aos diferentes aspectos da comunicação não-ver-
bal do comprador. Nenhum coeficiente de correlação deu suporte
à hipótese de trabalho, e a maioria deles apresentou correlações
negativas: quanto mais importância o vendedor atribuiu ao quesi-
to, menor seu volume de vendas. Curiosamente, “expressões do
rosto” foi o aspecto que apresentou o maior coeficiente negativo
de correlação com o volume de vendas do vendedor (rho = -0,200).

Tabela 3: Coeficientes de Correlação Não Paramétrica entre p


Volume de Vendas Trimestral e o Grau de Atenção
Relatada por Cada Vendedor para Diferentes Aspectos
da Comunicação Não-Verbal do Comprador

estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.

CONCLUSÃO E DISCUSSÃO

Os resultados apresentados acima não demonstraram uma rela-


ção positiva entre a capacidade de decodificar sinais não-verbais e a
experiência com atividades de vendas. Na verdade, os dados indica-
944 ram uma relação negativa entre estas variáveis. Embora esta relação
tenha sido fraca e não significativa, os sujeitos vendedores foram os
que obtiveram pior desempenho no teste “lendo faces” de Ekman
(2003). Entre os sujeitos não-vendedores (alunos), aqueles que não
relataram nenhuma experiência em atividades de vendas apresenta-
ram em média um melhor desempenho que aqueles com experiência.
A relação negativa persistiu quando analisamos o grupo de
sujeitos vendedores separadamente. Entre estes sujeitos, encon-
tramos uma correlação negativa entre o volume de vendas trimes-
tral e o desempenho no teste “lendo faces”, e entre o volume de
vendas e o grau de atenção relatado nos diferentes aspectos da
comunicação não-verbal do comprador. Finalmente, a análise de
regressão logística indicou que outros atributos do vendedor, como,
por exemplo, o tempo de experiência em atividades de venda, seu
conhecimento dos produtos vendidos e seu grau de ambição po-
dem ser mais relevantes para seu sucesso do que sua capacidade
de decodificar expressões universais de emoções.
Os resultados encontrados não parecem ser artefato de uma
amostra mal distribuída ou da inadequação do instrumento (teste
de Ekman) para os sujeitos brasileiros. A faixa etária e o sexo dos
sujeitos foram distribuídos de forma similar entre os 3 grupos de
estudo. Segundo Ekman, em média, das 14 fotos das expressões
faciais de emoção, as pessoas acertam 5 fotos e, se bem treinadas,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.

passam a acertar 10 fotos em média. Nossos sujeitos tiveram um


desempenho inferior aos 5 acertos, em média, indicado por Ekman.
Por outro lado, a distribuição de acertos por sexo, idade e grupo
de pesquisa foram consistentes entre si e com o esperado, com base
em trabalhos prévios: maior porcentagem de acertos para alegria
e tristeza, menor para nojo e desdenho (WALDEN; FIELD, 1982).
Apesar da consistência dos resultados, precisa-se de cautela
para interpretá-los. A literatura, os cursos sobre vendas e as publi-
cações científicas indicam uma relação entre comunicação não-
verbal e sucesso profissional que parece bastante razoável do ponto
de vista lógico. Há até trabalhos que corroboram de certa forma
esta relação. Por exemplo, Peterson (2005) realizou uma pesquisa
com estudantes de um curso de vendas e trabalhou o desenvolvi-
mento de uma linguagem não-verbal mais adequada para o aten-
dimento do cliente. Os vendedores que foram treinados nesta
postura não-verbal mais assertiva obtiveram um resultado melhor
nas vendas do que os que não receberam treinamento. 945
Além disso, “comunicação não-verbal” é um termo bastante
amplo cuja complexidade é muitas vezes subestimada. Em
contraposição à linguagem simbólica, ícone da capacidade
cognitiva humana, a comunicação não-verbal foi por muito tempo
considerada um exemplo de comportamentos mais simples que
herdamos de nossos ancestrais e mediada por processos
motivacionais mais simples e inflexíveis (SNOWDON, 2004;
MENDES, CARDOSO, no prelo). Talvez por isso pensa-se nela
como algo menos complexo e diversificado do que ela realmente
é. Estudos com humanos (ver revisão em KNAPP; HALL,1999)
e com animais (PARTAN; MARLER, 2005) mostram que a co-
municação não-verbal muitas vezes envolve múltipos interagentes
que emitem simultaneamente vários sinais oriundos de diferentes
canais. Ou seja, nem mesmo no caso de insetos e outros
invertebrados (HEBETS; PAPAJ, 2005), a emissão e decodificação
de sinais é uma tarefa simples e unidimensional.
Quando se pensa na comunicação entre comprador e vende-
dor, necessariamente se pensa em um processo bastante dinâmico
e complexo. Tanto comprador(es) como vendedor(es) emitem si-
multaneamente uma série de sinais visuais e sonoros e, menos
freqüentemente, sinais táteis e químicos, e o fazem enquanto con-
versam. É bastante razoável acreditar que bons comunicadores te-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.
nham sucesso não só para vender produtos como também para
realizar compras de forma satisfatória. Esta relação pode se dar de
muitas formas distintas, e não há embasamento empírico para as
inúmeras considerações a respeito. Que tipos de sinais emitidos pelos
vendedores aumentam suas chances de vender: Que sinais do com-
prador o ajudam a efetuar uma compra satisfatória e que sinais,
quando bem decodificados, auxiliam o vendedor a melhorar sua
estratégia de venda? A decodificação destes sinais é feita de forma
multicanal? Quanto e como o conteúdo semântico da fala altera a
eficiência da comunicação não-verbal? Como e quanto se pode
aprender a ser um bom comunicador não-verbal? Perguntas como
estas são essenciais, mas carecem de mais dados quantitativos.
O termo “eficiência do vendedor” (volume trimestral de ven-
das, por exemplo) talvez seja mais facilmente operacionalizado do
que “comunicação não-verbal”, mas é certamente uma variável
influenciada por inúmeros fatores, como, por exemplo, o tipo de
946 produto vendido, a localização do estabelecimento, o momento da
economia local, entre outros. Tentamos eliminar o efeito de alguns
desses fatores ao comparar vendedores dos mesmos produtos de um
único estabelecimento. Esta restrição e a necessidade de dados sobre
o volume de vendas de cada sujeito ilustram a dificuldade de obten-
ção de amostras grandes de vendedores. Mesmo assim, é difícil
avaliar o quanto variáveis intervenientes podem alterar o desempe-
nho de um número relativamente reduzido de vendedores (n=15).
Pesquisas como as de Peterson (2005), com desenho experimental
entre sujeitos (testes pareados), parecem de grande valia.
Resumindo, por mais lógica e simples que pareça, a relação entre
comunicação não-verbal e as atividades profissionais que envolvem
interações sociais freqüentes pode ser bem mais ampla e
diversificada. Estudos empíricos com hipóteses mais precisas so-
bre como aspectos específicos da comunicação e da atividade pro-
fissional se influenciam mutuamente são extremamente importantes.
No caso das atividades profissionais de vendas, dados empíricos mais
específicos podem embasar estratégias que beneficiem tanto ven-
dedores como comparadores (FURTRELL, 2003). Nossos resulta-
dos indicam que a capacidade de decodificar expressões faciais
universais tem pouco a ver com a experiência em atividades de
vendas, e que esta capacidade não contribui de forma significativa
para a eficiência do vendedor. Por outro lado, decodificar expres-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.

sões faciais universais é apenas um aspecto bastante específico da


face humana, que é apenas um dos muitos veículos da comunicação
visual, que é um de 4 canais de um fenômeno bastante complexo:
a comunicação não-verbal humana. Entender de forma mais empírica
essas relações tem relevância prática para empresas e profissionais
de vendas. Ao tratar de um comportamento humano com história
filogenética bastante antiga, estudos sobre sinais não-verbais são
também ótimos objetos para o estudo de como a experiência de vida
e regras socioculturais influenciam pré-disposições inatas e, por-
tanto, a flexibilidade comportamental humana.

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Abstract: this study investigates the influence of non-verbal


communication on the efficiency of salespersons, through an analysis
of how well different subjects can perceive/recognize universal facial
expressions of emotions. Our subjects were 15 salespeople employed
by a retail and service company and 100 graduate business students
of a university in Goiânia. A questionnaire and the ‘reading faces’
test (Ekman (2003) were applied to each subject. The test consists
of 14 photographs of the face of a same person with facial expressions
of sadness, disgust, happiness, anger, fear and disdain. The
hypthesis, that the more one knows how to interpret emotional facial
expressions, the more successful persons are in their sales results
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 933-950, set./out. 2008.
(as presented in the literature), was not confirmed, although it was
demonstrated in the study that all the salespeople tend to make use
of non-verbal communication in their daily activities.

Key words: sale, nonverbal communication, facial expression

RAQUEL SANTANA SCHIAVON SANCHEZ


Mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Goiás (UCG). Especialista
em Comércio Exterior pela UNIP. Graduada em Administração pela UCG. Pro-
fessora na graduação e pós-graduação na Universidade Salgado de Oliveira, no
Senai e na Faculdade Ávila.

FRANCISCO D.C. MENDES


Doutor em Psicologia Experimental pela USP. Graduado em Antropologia Físi-
ca pela San Diego State University. Professor Titular da UCG. Pesquisador e
orientador de trabalhos sobre Etologia e Psicologia Evolucionista no Programa
950 de Pós-graduação em Psicologia da UCG.
A PRIORIDADE DO INDIVÍDUO
NOS PROGRAMAS
DE DESENVOLVIMENTO
ORGANIZACIONAL (D. O.)

SATURNINO PESQUERO RAMÓN

Resumo: este artigo apresenta a fundamentação filosófico-


psicológica da dimensão humana da tecnologia que susten-
ta a moderna Teoria das Relações Humanas nos programas
de Desenvolvimento Organizacional (DO), a partir da dé-
cada dos 1930, e que supera e enriquece a clássica Teoria
da Administração Científica, com seus postulados apenas
pragmático-econômico-produtivos. Nessa perspectiva, des-
taca o trabalho dos professores brasileiros: Fela Moscovici
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.

e Idalberto Chiavenato.

Palavras-chave: desenvolvimento organizacional, relações


humanas, tecnologia, razão instrumental, abordagem
holística

Pagarei mais pela habilidade de lidar


com pessoas do que por qualquer outra
no mundo. (John D. Rockefeller )

A
partir da década de 1930 e graças a obras como The
human problems of an industrial civilization (1933),
de Elton Mayo, e Management and the worker (1939),
de Fritz J. Roethlisberger e W. Dickson, publicadas pela Uni-
versidade de Harvard, cuja temática é o impacto
despersonalizador da organização industrial, calcada no dese- 951
nho da Administração Científica de Taylor, Gilbreth e Gantt, surge
a necessidade de superar esse modelo organizacional e substituí-lo
por outro que vise, nas organizações empresariais, não apenas o de-
senvolvimento tecnológico, no seu aspecto produtivo, senão tam-
bém o desenvolvimento humano, que o próprio desenvolvimento
tecnológico exige e propicia (HERSEY/BLANCHARD, 1986). De
fato, essa teoria organizacional clássica do início do século XX tem
como ponto de partida uma concepção do ser humano apenas
utilitarista e materialista.Nela, permeia a concepção do chamado
Homo oeconomicus, para o qual as únicas motivações e aspirações
existenciais seriam as da ganância e do consumo, ilustradas pela
expressão “the struggle for gold” (a luta pelo ouro) dos que cultuam
o mítico rei Midas.Tal abordagem alicerça-se, fundamentalmente,
em dois princípios básicos: primeiro, o do controle da tarefa; se-
gundo, o da procura do método produtivo mais econômico e funci-
onal, visando o máximo de lucro para enriquecimento de todos e
assim criar uma sociedade de produção e consumo. Nesse modelo
organizacional, os funcionários são tratados apenas como recursos
de produção e valorizados pelas aptidões e habilidades que possu-
em para o exercício de uma determinada função. A dimensão pes-
soal do indivíduo com suas necessidades de auto-realização humana
são postas de lado. O filme Tempos modernos de Charles Chaplin
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.
é uma paródia mordaz a este modelo de civilização industrial, que
robotiza o ser humano. Outros filmes, também famosos, em que a
temática da relação homem-técnica é explorada (Doze homens sem
piedade, de Sidney Lumet; Cidadão Kane,de Orson Welles, e
Germinal, de Claude Berri) ilustram a importância do tema.
Os psicólogos citados, junto com outros, como, por exemplo,
Lewin não se limitaram a constatar apenas os efeitos negativos
desse modelo mecanicista, racionalista e desumanizador da teoria
organizacional, inventada pelos engenheiros da referida Teoria da
Administração Científica.No campo da prática, como ilustração,
é de todos conhecida a eficácia da técnica da Análise e Campo de
Forças de Lewin para alcançar, em qualquer tipo de organização,
uma “verdadeira integração”dos objetivos, no caso, produtivos da
empresa e dos objetivos pessoais dos subordinados (HERSEY/
BLANCHARD, 1986, p.144).
Esse novo modelo organizacional almeja substituir a concep-
952 ção do Homo oeconomicus pela do Homo socialis, cuja motiva-
ções básicas não são apenas a ganância, merecida pelo trabalho
suado, a satisfação de suas necessidades de consumo, senão tam-
bém as oriundas do imperativo da própria auto-realização huma-
no-existencial, principalmente, na situação do trabalho, que
consome a maior e melhor parte da sua vida e lhe possibilita de-
senvolver as capacidades de relacionamento interpessoais e cria-
tivas. Por esse motivo, os defensores da Teoria das Relações
Humanas norteiam todo seu esforço teórico e prático a partir des-
ses dois objetivos básicos: alcançar que o homem seja um agente
criativo no processo produtivo e não apenas uma peça na engre-
nagem da máquina empresarial; cultivar, com todos os meios de
treinamento possivel e de organização laboral, seu desenvolvimen-
to interpessoal e intrapessoal, tendo em vistas sua saúde física e
mental, assim como seu ajustamento e realização pessoal e social.
Por outro lado, essa nova teoria organizacional, de caráter
humanista, visa resgatar a verdadeira função da tecnologia a ser-
viço do homem e não a de uma tecnologia que o suplanta e escra-
viza e pode, até, destruí-lo. O problema de como o homem lida
com o poder da tecnologia que ele mesmo cria mostra-se com maior
crudeza em nosso tempo depois dos resultados nefastos das duas
últimas guerras mundiais, quando os avanços tecnológicos servi-
ram grandes parcelas da humanidade e ameaçam aniquilá-la. Hoje
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.

questiona-se a velha concepção dos pensadores ilustrados que


colocaram no pedestal a técnica como motor do desenvolvimento
da humanidade sem apontar os riscos de tal endeusamento.
A resposta dada a esse problema pela teoria das Relações
Humanas parte do pressuposto antropológico milenar de que o
homem é um ser dotado da chamada razão instrumental, facul-
dade que lhe possibilita criar ferramentas (tecnologia) e símbo-
los (a linguagem como instrumento de comunicação e interação
sociais), e, de posse de tais recursos,o homem pode ter domínio
de si mesmo e da Natureza. Conforme a moderna tese
wygotskiana sobre o desenvolvimento humano, a atividade que
desenvolve os processos mentais superiores “é uma atividade
mediada socialmente significativa”, cuja fonte de mediação
podem ser “uma ferramente material, um sistema de símbolos
ou a conduta de outro homem” (KOZULIN, 1994, p. 115). Sobe-
ja sublinhar que todos esses “mediadores” pertencem ao reino
da citada razão instrumental humana. 953
Para entender melhor o alcance dos pressupostos filosófico-
antropológicos subjacentes à Teoria das Relações Humanas e seus
programas de Desenvolvimento Organizacional (DO), faz-se ne-
cessário mostrar o caminho aberto pelo pensamento de alguns
filósofos sobre dois temas complementares entre si: a faculdade
criativo-teconológica como traço constitutivo e distintivo da es-
pécie humana e o caráter humanizador ou subjetivante do exercí-
cio dessa mesma polifacetada faculdade.
Na Antigüidade, dois pensadores sobressaem-se: Platão e
Aristóteles. O primeiro, numa perspectiva mitológica originária que
transpassa os limites do tempo, sustenta a tese de que a especificidade
do ser humano reside nesta ímpar dupla faculdade humana: a inte-
ligência somada à capacidade técnica que dela deriva. Ambos os
poderes foram roubados por Prometeu no ateliê dos deuses, Hefesto
e Atená, unidos eternamente pelas energias intelectuais e artísticas
ou tecnológicas que encarnam (BRANDÃO, 1987).
De Hefesto, o deus coxo e considerado o ferreiro e ourives
divino, foi roubado o fogo, que personifica seu amor-paixão pelo
mister técnico, a philotekhnia. De Atená foi roubada a inteligên-
cia ou saber criativo, a philosophia.
Eis uma síntese de como Platão, num dos trechos do diálogo:
Protágoras ou dos sofistas, ao estilo do Gênesis bíblico, relata o
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.
mito da criação do homem e seus singulares atributos. Os deuses,
depois da Criação, encomendaram a Epimeteu que provesse a cada
uma das espécies animais das qualidades necessárias para sua so-
brevivência. Assim: “deu a uns a força sem velocidade, a outros,
velocidade sem força”, dotando a todos dos meios necessários para
poder sobreviver. Prometeu veio examinar o trabalho de seu irmão
e ficou surpreso ao constatar que ele tinha esquecido alguma coisa:
o homem – ao contrário de todas as outras espécies criadas, devida-
mente equipadas para sobreviver – “estava nu, sem calçado nem veste
nem armas”. Então, Prometeu, sem saber o que fazer para salvar o
homem dessa situação, decidiu-se por “roubar a sabedoria artística
[ou tecnológica] de Hefesto e Atená e, ao mesmo tempo, o fogo –
suposto que sem fogo era impossível que essa sabedoria fosse ad-
quirida por alguém ou que fosse útil para qualquer serviço”. Feito
isso, entregou o fruto de seu roubo ao homem que assim passou a ter
“posse das artes [tecnologias,recursos] úteis para a vida” (PLATÃO,
954 1990, p.168).
Por sua vez, Aristóteles, numa perspectiva epistemológica, ao
refletir sobre os modos de saber humanos, associa o saber
tecnológico (tékhne) ao saber da ciência (epistéme), junto com o
saber da prudência ou eticidade ( frónesis). Dessa forma, alcança
as duas dimensões do saber técnologico: inteligente-criativo e ético
humanizador. Na Metafísica explica o caráter inteligente-criativo
do saber tecnológico. Em sua explanação, parte desse axioma
básico: “O homem chega ao saber da ciência e da tecnologia atra-
vés da experiência (empeiria) (ARISTÓTELES, 1990, p. 4, 481a).
Zubiri (1980) resume a doutrina aristotélica sobre as caracte-
rísticas do saber tecnológico com estas proposições: o saber
tecnológico é superior ao saber merante empírico, suposto que
conhece as causas dos fenômenos; o saber empírico é apenas par-
ticular enquanto o saber tecnológico é universal; o saber
tecnológico é comunicável ou transmisível; o saber tecnológico
pressupõe um conhecimento (sophos) dos fenômenos que se tra-
duz em obras criativas [poéticas] e não apenas repetitivas.
Na Ética Nicomáquea, Aritóteles explica o caráter ético ou
humanizador do saber tecnológico à luz de sua doutrina sobre o
saber da prudência ou eticidade (frónesis) que deve acompanhá-
lo sempre e ditar-lhe sua verdadeira finalidade. A esse respeito,
didático, partindo do exemplo de Péricles (o deus grego que per-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.

sonifica os atributos de uma sociedade – polis – ideal) e de “outras


pessoas do mesmo gênero que souberam determinar aquilo que é
vantajoso para elas mesmas e para os homens em geral”, explica
que a finalidade da tecnologia não se reduz à da produção.Ela deve
ter como objetivo primordial o bem do homem e da socidade. Assim
ele se expressa: “Faz-se necessário, dessa maneira, que a prudên-
cia (frónesis) seja uma disposição [conduta ética] acompanhada
de razão verdadeira [sábia inteligência] dirigida à ação e com
referência a distinguir aquilo que é bom ou nocivo para o homem”
(ARISTÓTELES, 1991, p. 407, 1140b).
Na época contemporânea, desponta a figura do pensador Martin
Heidegger, que, numa perspectiva ético-existencial, reflete sobre os
significados da tecnologia. Seu pensamento, a esse respeito, está
exposto, principalmente, nos ensaios: Construir, Habitar, Pensar”
(1951); ...Poeticamente o Homem Habita... (1951); A Questão da
Técnica (1953); Ciência e Pensamento (1953), reunidos entre ou-
tros, na obra Ensaios e conferências (2001). Nos dois primeiros 955
ensaios, Heidegger expõe as proposições básicas de sua reflexão
sobre estes três temas correlatos: ciência, técnica e arte. Como pon-
to de partida, tece um comentário hermenêutico acerca destas pala-
vras extraídas de um poema tardio de Holderlin (apud HEIDEGGER,
2001, p. 168): “Cheio de méritos, mas poeticamente, o homem habita
esta terra”. Esse pensamento gravita ao redor de um postulado éti-
co-existencial básico: “somente em sendo capazes de habitar
(wohnen) [no sentido de tornar-nos humanos, pela condição do ser-
aí sobre a terra] é que podemos construir (bauen) [ou seja, usar a
tecnologia]” (HEIDEGGER, 2001, p. 139). Ou, dito em outras
palavras: ao homem somente é permitido desenvolver e exercitar
sua faculdade da razão instrumental no caso de usá-la para seu pró-
prio desenvolvimento humano e, o de toda a Humanidade, passan-
do ela a ser, dessa forma, a principal ferramenta para cumprir seu
desígnio divino de ser co-autor na finalização da obra da Criação do
Universo.
Mas, afinal, pergunta-se Heidegger (2001. p. 125): “o que é
habitar? e em que medida pertence ao habitar um construir?”. À
primeira pergunta responde que nós, os humanos, de fato habita-
mos a Terra somente quando

resguardamos e respeitamos e estamos inseridos ativamente


estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.
na estrutura inteira ou holística do Universo, chamada pelo
autor de ‘quadratura’ por abranger as quatro regiões onde o
homem se auto-realiza ou auto-individualiza criativamente,
pelas experiências propiciadas pela relação com essas regi-
ões. São elas: a Terra, o espaço sideral, a divindade e a
intersubjetividade. Lacônico explica: ‘Salvando a Terra,
acolhendo o céu, aguardando os deuses, conduzindo os mor-
tais, é assim que acontece propriamente um habitar’
(HEIDEGGER, 2001, p.130).

À segunda questão, sobre como o ato do autêntico habitar


condiciona um construir humano, responde com o exemplo da
construção de uma casa componesa na Floresta Negra, que, se-
gundo ele, cumpriria todos os requisitos de uma construção hu-
mana determinada pelo imperativo do habitar humano propugnado.
Nela, pois, é resguardada a inteireza da “quadratura”, antes men-
956 cionada. Vejamos: construída, na encosta da montanha, serve de
abrigo para melhor cultivar a terra; deixar à vontade o calor do
sol, a força dos vendavais e das chuvas celestes; há ainda, “atrás
da mesa comensal” um espaço sagrado para o oratório; não falta
tampouco o espaço para vários quartos que prefiguram o respeito
ao outro nas “suas várias idades de uma vida, no curso do tempo”
(HEIDEGGER, 2001 p. 139).
O autor conclui suas reflexões sobre o sentido da
tecnologia a serviço da humanização e da obra inacabada da Cri-
ação, com o exemplo do com o problema premente, endêmico e
crônico da falta de moradia dos chamados “sem teto”. Explica que
o problema de não ter moradia material, em termos humanos, seria,
de certo modo, menos grave do que o problema da falta de cons-
ciência do “saber habitar” a Terra e, a partir daí, descobrir a falta
de uma tecnologia que crie moradias “habitáveis”no sentido exis-
tencial exposto. Escreve:

A crise propriamente dita de habitação é, além disso, mais


antiga do que as guerras mundiais e as destruições, mais
antiga também do que o crescimento populacional na Terra
e a situação do trabalhador industrial. A crise propriamente
dita do habitar consiste em que os mortais precisam sempre
de novo buscar a essência do habitar, consiste em que os
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.

mortais devem primeiro aprender a habitar (HEIDEGGER,


2001, p. 140).

Todas essas considerações preliminares antropológico-filo-


sóficas, como foi anunciado, têm a finalidade de fundamentar e
melhor explicar a dimensão humanista que norteia os programas
de mudança ou Desenvolvimento Organizacional (D.O.) objeto
do presente estudo. Vale dizer: tem como objetivo destacar a im-
portância dada ao desenvolvimento global do indivíduo nas cons-
tantes mudanças organizacionais que se fazem necessárias e se
operam em todas as instituições e, dessa forma, poder acompa-
nhar as rápidas transformações que acontecem no meio científi-
co, tecnológico, econômico, social, ético etc... Essas
transformações caracterizam a vitalidade da história hodierna O
pensamento de alguns profissionais dessa área traduzem, em al-
guma medida, os postulados antropológico-psicológicos acima
analisados, conforme ilustram os tópicos desenvolvidos a seguir. 957
AS POTENCIALIDADES DO HOMEM QUE FAZ E
FAZ-SE NA ORGANIZAÇÃO DO MUNDO LABORAL E
SOCIOCULTURAL

No prefácio da obra intitulada O Indivíduo na organização:


dimensões esquecidas, publicada no Brasil em 1996, que recebeu
o prêmio François-Albert Angers, instituído em 1991 pela HEC
Montreal, seu organizador, Chanlat (1996, p. 17), explica:

Tomando a iniciativa, em outubro de 1990, de criar na École


des Hautes Études Commerciales de Montréal (H. E. C.) o
Groupe Humanisme et Gestion, desejei institucionalizar práti-
cas de pesquisa, ensino e desenvolvimento internacional que
tivessem como denominador comum preocupações humanistas
e interesse em fazer contrapeso à hegemonia de valores exclu-
sivamente econômicos no domínio da gestão de negócios.

A obra pretende preencher uma lacuna existente no corpo das


teorias “heterogêneas e mesmo heteróclitas”

que estudam ocomportamento organizacional, deixando de


lado os mais recentes conhecimentos das ciências humanas bá-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.
sicas (AUDET; MAOUIN, 1986; DÉRY, 1988; WHITLEY, 1984)
[...] – Com esse objetivo seus autores tratam dessas dimensões
humanas esquecidas –: a dimensão cognitiva e a da lingua-
gem, a dimensão espaço-temporal, a dimensão psíquica e
afetiva, a dimensão simbólica, a dimensão da alteridade, a
dimensão psicopatológica (CHANLAT, 1996, p. 23).

Nessa perspectiva teórica, propugna uma teoria antropológi-


ca das organizações que resgate o poder humanizador da tecnologia
, como exercício da razão intrumental humana, em cinco níveis ou
ordens de atuação:
• O individual: nesse âmbito, tem-se operado uma mudança
de mentalidade, no sentido de que o homem já não é visto
como massacrado pelo coletivo e pelo trabalho e sim como
“um indivíduo que participa da construção e destruição da
realidade, de uma pessoa que é ao mesmo tempo sujeito em
958 ato e um ator de sua historicidade”, parafraseando estas
palavras de Coulon (1997, p. 45), na sua obra
L’Ethnométhologie :

Um membro não é apenas uma pessoa que respira e pensa, é


uma pessoa dotada de um conjunto de procedimentos, de mé-
todos, de atividades, de vivências [ os da razão instrumental]
que a torna capaz de inventar dispositivos de adaptação para
dar sentido ao mundo que a cerca (CHANLAT, 1996, p. 35-6).

• O interacional: trata-se da região da alteridade. As atividades


nesse campo são determinadas pelo postulado básico de o
homem construir e consubstanciar sua identidade e subjeti-
vidade com base na relação com o outro. A esse respeito, faz
suas as palavras de Lain (apud CHANLAT, 1996, p. 36):

Toda identidade requer a existência de um outro; de algum


outro com uma relação graças à qual se atualiza a identida-
de de si próprio. Nessa área, conforme sintetiza, citando os
principais teóricos implicados, distinguem-se três categori-
as ou formas de relações interpessoais: a da relação social
básica, chamada de relação face a face ou self / outro,objeto
de estudo, principalmente da psicologia social (HARRÉ,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.

1979; FISCHER, 1987); da microssociologia (GOFFMAN,


1973, 1974 e 1988); da etnometodologia (GARFINLEK,
1967; COULON, 1987); a da relação ego-massa e que deu
origem a sociologia (LE BOM, 1963; MOSCOVICI, 1981);
a da relação grupo-grupo, sendo objeto de estudo, de modo
particular, da sociologia (ROCHER, 1968; JAVEAU, 1976);
e, finalmente, a da antropologia social (EVANS-
PRITCHARD, 1969) .

• O organizacional: trata-se do âmbito social ou de trabalho


em que o homem exercita a razão instrumental. Esse qua-
dro social de referência pode ser dividido nesses dois
subsistemas: o estrutural e material e o simbólico. O pri-
meiro remete as “condições ecogeográficas, os meios ma-
teriais para assegurar a função de produção de bens ou de
serviços”. Já o segundo subsistema “remete ao universo das
representações individuais e coletivas que dão sentido às 959
ações, interpretam, organizam e legitimam as atividades e
as relações que os homens e mulheres mantêm entre si”
(CHANLAT, 1996, p. 40).
• O societário: é o nível da sociedade e da cultura em que cada
indivíduo se desenvolve humanamente conforme a tese
vigostskiana inicialmente exposta. Esse conceito está cla-
ramente sintetizado em Chanlat (1996, p. 42): “O nível da
sociedade engloba , penetra e irriga o universo dos indiví-
duos , das interações e da organização, pois a sociedade é
sentido, domínio e condição do sentido. Todo ser humano
é de fato o socializado de determinado meio”.

É no universo da cultura material e espiritual – assimilado pelo


indivíduo e, dialeticamente, enriquecido por esse mesmo indivíduo,
conforme a capacidade criativa – que a razão instrumental humana
revela-se dona e depositária de todos os logros histórico-culturais,
que caracterizam e diferenciam cada povo da Terra e guarda seus
silenciados poderes geradores infindáveis para novas conquistas.

• O mundial: nunca foi tão atual a previsão/constatação de


McLuhan sobre o mundo tornar-se, cada vez mais, “uma
aldeia global” e, em consequência, o homem tornar-se um
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.
cidadão do mundo. Chanlat (1996, p. 43-4), partindo dessa
constatação de que “em algum momento de sua história, toda
sociedade se insere em uma rede de relações econômicas,
sociais, políticas e culturais mais ampla”, explica que essa
múltipla ampliação de fronteiras, nas sociedades hodiernas,
tem três características próprias que a distinguem da confi-
gurada em outras épocas. A primeira diz respeito à
abrangência, hoje global e não apenas regional. A segunda
refere-se à lógica econômica dessa mundialização: hoje o
capitalismo clássico é substituído pelo capitalismo financei-
ro. A terceira relaciona-se ao surgimento, após a Segunda
Guerra Mundial, de organizações supranacionais, tais como
ONU, UNESCO, FMI etc, cuja finalidade manifesta seria a
tentativa de construção de uma nova ordem internacional.

Chanlat (1996, p. 44), como conclusão de sua proposta da


960 necessidade de uma antropologia das organizações para melhor
entender a dinâmica do indivíduo que as faz e faz-se nelas, es-
creve:

Os cinco níveis que mencionamos estão em constante


interação. O indivíduo constrói-se em sua relação com o outro,
mais frequentemente em um quadro de relações organizadas,
na relação que ele mantém com a sociedade e que essa últi-
ma mantém com outras sociedades.

O MODELO HOLÍSTICO DE DESENVOLVIMENTO


HUMANO E ORGANIZACIONAL

No Brasil, como exemplo de aplicação no campo do Desenvol-


vimento organizacional dos postulados filosófico-antropológicos
aqui apresentado, cabe destacar a obra da professora da Fundação
Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro, Fela Moscovici, com mais de 30
anos dedicados a escrever, pesquisar e ensinar sobre o desenvolvi-
mento educacional, pessoal, interpessoal e organizacional. Entre seus
numerosos escritos, alguns publicados no estrangeiro, destacam-se
estas duas obras: Desenvolvimento interpessoal-treinamento em
grupo (1975) e Renascença organizacional: a revalorização do
homem frente à tecnologia para o sucesso da nova empresa (1996).
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.

Esta última, cuja perspectiva existencial é o desenvolvimento hu-


mano integral está voltada para a finalidade prático-profissional de
formar executivos que dirigem empresas, uma vez que

a figura principal e decisiva na transformação


organizacional, é o gerente, em qualquer nível, como lider
de grupos funcionais e, portanto, elemento multiplicador de
influências mutantes na cultura da organização
(MOSCOVICI, 1996, p. 103).

A autora preconiza as vantagens do modelo holístico de de-


senvolvimento gerencial, argumentando que este “abre um espa-
ço promissor para recuperar a dimensão humana na organização
tecnológica e valorizar o homem além das máquinas”
(MOSCOVICI, 1996, p. 103).
De um lado, essa obra é uma reflexão crítica sobre o alcance
do problema da relação homem-tecnologia, com base na vivência 961
da autora em seu campo de atuação profissional: desenvolvimen-
to humano nas organizações empresariais. A trilha de seu pensar,
constrói-se de forma intuitiva e, diria, graças à lei junguiana da
sincronicidade. De fato, a autora não cita Heidegger,em seu estu-
do; no entanto, segue os passos do pensamento do filósofo ale-
mão. Este, como já foi comentado, com a metáfora holderliniana
do “habitar poeticamente a Terra”, afirma que o problema de conci-
liar, de forma potencializadora e criativa, o homem e a tecnologia
somente existem no caso de o homem não ter consciência do sen-
tido de “habitar” (aspecto humano) sem o qual lhe é vetado ou torna-
se nefasto seu “construir”(tecnologia). Quando isso acontece,
faz-se necessário que o homem “aprenda a habitar”, resguardan-
do, assim, as quatro regiões que compõem a inteireza da
“quadratura” holística, em que ele está existencialmente inserido
e se auto-realiza como co-autor da obra inacabada de Criação. Por
sua vez, Moscovici, partindo do fato histórico, desolante e
preocupante de uma tecnologia que desumaniza, pergunta-se: como
“resgatar o humano na tecnologia?” e a seguir responde que a
solução também consiste em aderir às exigências do modelo
holístico. Ou seja, tal como é preconizado no modelo da
“quadratura” do habitar heideggeriano, cabe aos humanos “resga-
tar o equilíbrio perdido da sua relação com a natureza [terra]; com
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.
o cosmo [céus]; recuperar a relação autêntica dos homens entre si,
do homem com seu semelhante [alteridade] (MOSCOVICI, 1996,
p. 2). Completa a “quadratura heideggeriana” de seu paradigma
holístico, ao preconizar, no final de seu escrito, a necessidade
humana de explorar “experiências místicas [deuses] que fazem
parte da vida, de forma espontânea ou provocada, conforme dis-
ponibilidade, motivação e orientação valorativa da pessoa”
(MOSCOVICI, 1996, p. 102).
De outro lado, a obra analisada constitui uma proposta de de-
senvolvimento organizacional com base nas duas iniciativas: desen-
volver holisticamente todas as potencialidades do homem no mundo
organizacional produtivo e implantar a organização holográfica. À
luz do novo paradigma epistemológico de caráter inclusivo, dinâ-
mico não-mecanicista, propugnado pela física quântica, do saber
milenar das religiões orientais, do pensar filosófico existencial e da
nova psicologia da intersubjetividade, sua autora tece sugestões para
962 implantação e execução das duas propostas assinaladas.
Sobre a importância, urgência e viabilidade da implantação de
um modelo holístico de desenvolvimento humano nas empresas,
escreve: “Um desempenho efetivo num ambiente crescentemente
complexo e competitivo requer do gerente o uso de todos os seus
recursos, energias e talentos. O amplo espectro dos recursos do
homem inclui os de ordem física, mental, emocional e espiritual”.
E, a propósito dessa inovadora abordagem, assinala que ela “está
començando a ser aplicada em algumas empresas pró-ativas, em
programas heterodoxos de Desenvolvimento Interpessoal e
Gerencial” (MOSCOVICI, 1996, p. 100).
E, a respeito do que deve ser entendido por uma organização
holográfica, esclarece:

Cabe afirmar que a organização holográfica não é um mode-


lo de estrutura organizacional na acepção técnica de teoria
administrativa. Ela é muito mais uma concepção filosófica
de funcionamento humano em integração natural [...] é uma
visão metafísica, um panorama de possibilidades e esperan-
ças, não um conjunto de regras (MOSCOVICI, 1996, p, 118).

O FATOR HUMANO E A TECNOLOGIA COMO


estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.

DETERMINANTES DA AUTO-RENOVAÇÃO
ORGANIZACIONAL

Idalberto Chiavenato, autor de mais de 20 livros, a maioria


publicada em espanhol, é figura de destaque nacional e internacional
na área de administração geral e de recursos humanos. Sobre o tema
de que trata o presente estudo, cabe destacar a edição compacta de
sua obra Recursos humanos (1998). Segundo Chiavenato, impõe-se
uma perspectiva pragmático-competitiva, exigida pelas circunstân-
cias de uma globalização dos negócios protegida sob a êgide das
palavras de ordem: “produtividade, qualidade e competitividade”. Em
face disso, propugna a necessidade de um modelo organizacional que
priorize o social ou humano e o tecnológico como determinantes
básicos de renovação e atualização. Nesse modelo ,

as pessoas deixam de ser o problema das organizações para


ser a solução de seu problema. As pessoas deixam de ser o 963
desafio para tornar-se a vantagem competitiva das organi-
zações que sabem lidar com elas. As pessoas deixam de ser
o recurso organizacional mais importante para se tornar o
principal parceiro no negócio (CHIAVENATO, 1998, p. 15).

De acordo com Chiavenato (1998, p. 40), nesse modelo, as


demandas tecnológicas das

exigências de tarefa, ambiente físico, equipamento disponível


exigem uma organização tecnológica (equipamentos e arran-
jos de processos) assim como uma organização de trabalho (en-
volvendo aqueles que desenvolvem as tarefas necessárias).

Vale dizer: sob o prisma filosófico- antropológico exposto,


isso significa que o exercício da razão instrumental humana não
se realiza apenas na construção de máquinas para controle da
natureza física, mas também na construção de processos e estru-
turas organizacionais que racionalizem e potencializem o mundo
da produção, tornando-as mais eficientes e humanas. Como exem-
plo assinala (CHIAVENATO, 1998, p, 39) o

modelo sociotécnico de Tavistock, idealizado, inicialmente


estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.
por psicólogos e sociólogos do Instituto de Tavistock, de
Londres, que, segundo seus criadores teria esse postulado
básico: ‘Toda organização consiste em uma combinação ad-
ministrada de tecnologias e pessoas, de tal forma que ambos
os lados se achem em inter-relação recíproca’.

No mesmo trecho assinala, todavia, que tal modelo está cons-


tituído por estes três subsistemas básicos:

• o sistema técnico ou de tarefas, que inclui o fluxo de traba-


lho, a tecnologia envolvida, os papeis requeridos pela tare-
fa e outras variáveis tecnológicas.
• o sistema gerencial, ou administrativo que inclui a estrutu-
ra organizacional, as políticas, os procedimentos e as regras,
o sistema de recompensas e punições, as maneiras pelas
quais as decisões são tomadas e outros elementos projetados
964 para facilitar os processos administrativos.
• o sistema social ou humano, que é relacionado com a cul-
tura organizacional, com os valores e as normas e com a sa-
tisfação das necessidades pessoais; também incluídos no
sistema social estão a organização informal, o nível
motivacional dos membros e suas atitudes individuais.

Essa nova filosofia, que defende um uso humanizador e cri-


ativo da tecnologia, está cada vez mais subjacente aos programas
de Desenvolvimento Organizacional das empresas produtivas e
também presente nas outras modalidades de organização huma-
na. Pelos exemplos expostos, não resta dúvida que há lugar ainda
para que se torne uma realidade a utopia holderliniana/
heideggeriana: “Cheio de méritos, mas poeticamente/ o homem
habita esta Terra”.

Referências

ARISTÓTELES. Metafísica. Madrid: Gredos, 1990.


ARISTÓTELES.Tratados ético-morales. Madrid: Aguilar, 1991.
BRANDÃO, J. Mitologia grega. Petrópolis: Vozes, 1987.
CHANLAT, J. P. (1996). O indivíduo na organização: dimensões esquecidas.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.

Tradução de A. Rodrigues et alii. São Paulo: Atlas. (Original publicado em


1990).
CHIAVENATO, I. Recursos humanos. São Paulo: Atlas, 1998.
HEIDEGGER, M. Ensaios e conferências. Tradução de Leão E. et alii.
Petrópolis: Vozes. 2002. (Original publicado em 1954).
HERSEY/BLANCHARD. Psicologia para administradores: a teoria e as
técnicas da liderança situacional. Tradução de Royer E. A. São Paulo: E.P.U.,
1986. (Original publicado em 1982).
KOZULIN, A. La psicología de Vygotski. Madrid: Alianza, 1994.
MOSCOVICI, F. Renascença organizacional: a revalorização do homem frente
a tecnologia para o sucesso da nova empresa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1996.
PLATÃO. Obras completas. Madrid: Aguilar, 1990.
ZUBIRI, X. Cinco lecciones de filosofia. Madrid: Alianza, 1980.

Abstract‘: what is being attempted in this article es to explain the


psychological and philosophical basis concernig human 965
dimensions of the technology that sustains the modern Theory of
Human Ralations in the Programs of Organizational Development
( from the 1930 p. on) which enriches and exceeds the classical
Theory of Cientific Administration and its, only, pragmatic,
economic and productive goals. On this matter, in Brasil, one point
to the work of the professors: Fela Moscovici and Idalberto
Chiavenato.

Key words: organizational development, human relations,


technology, thecnical intellect, holistic approach

estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 951-966, set./out. 2008.

SATURNINO PESQUERO RAMÓN


966 Doutor em Filosofia pela Universidade das Illes Baleares.
O SOFRIMENTO PSÍQUICO
NA CONDIÇÃO OBESA
E A INFLUÊNCIA
DA CULTURA

THYAGO DO VALE ROSA


DENISE TELES FREIRE CAMPOS

Resumo: à inserção da condição obesa no contexto


sociocultural. Em nossa cultura a condição obesa é tida
como uma espécie de “contra-indicação social”, sobretu-
do na forma da discriminação e legitimação do julgamen-
to social. Cada vez mais as mulheres acreditam ter defeitos
no próprio corpo, queixa que começa como uma insatisfa-
ção e pode caminhar para um distúrbio mais grave. Mes-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 967-979, set./out. 2008.

mo com o avanço das técnicas cirúrgicas gástricas, cada


vez mais eficientes, há importantes mudanças do ponto de
vista psicológico nesses pacientes. A cirurgia bariátrica
implica mudanças na relação do sujeito com seu corpo e
com os outros. As possíveis conseqüências insatisfatórias
podem ser apreciadas de forma bem diferente pelos paci-
entes, pois se trata de uma construção sobre o seu bem-estar
e não de uma constatação técnica de sucesso ou fracasso.
Tarefa angustiante e difícil de conciliação com si mesmo;
impossível se condicionada à mudança física, mas oportu-
na ao sujeito se ele constatar seus investimentos, seus de-
sejos. Que se trate de uma via simbólica, limitada, mas não
menos admissível para ele se questionar, se se confrontar
com sua falta, portanto, com sua própria história.

Palavras-chave: sofrimento psíquico, condição obesa, cirur-


gia bariátrica, discriminação e julgamento social 967
Meu corpo não é meu corpo,
é ilusão de outro ser.
Sabe a arte de esconder-se
e de tal modo sagaz
que a mim de mim ele oculta.
(Carlos Drummond de Andrade)

P
ara além do alarme internacional, o objetivo do presente tra-
balho é produzir uma reflexão sobre o sofrimento psíquico
quanto à inserção da “condição obesa” no contexto
sociocultural.
A definição da obesidade é algo muito recente. Há cerca de
trinta anos o fenômeno se alastrou por todo o planeta e conseqüen-
temente ganhou atenção médica. Há pouco mais de dez anos pas-
sou a ser encarado como o ‘grande desafio nutricional’ do século
XXI. Contudo, sabemos que o atual interesse pelo fenômeno se
deve muito mais aos gastos elevados com a saúde nos países, es-
pecialmente à associação da obesidade com as chamadas “doen-
ças do peso”, do que a uma atitude humanitária por parte das
autoridades.
A sua prevalência tem aumentado e esses números a aproxi-
mam de uma verdadeira pandemia (WHO, 2002) – ou, talvez, seria
o caso dizer, de uma “globesidade”, como indica Philip James,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 967-979, set./out. 2008.
presidente da Força Tarefa Internacional para o Estudo e Comba-
te de Obesidade (FTIO). Dessa forma faz-se necessário compre-
ender quais fatores estão levando ao aumento do excesso de peso
no mundo, bem como colocar em foco as vivências sociais e seu
impacto nas estruturas psíquicas e no próprio corpo dos sujeitos.
A condição obesa impõe severos prejuízos às pessoas. Do pon-
to de vista relacional, há importantes aspectos comportamentais e
sociais envolvidos na dificuldade em perder peso e mantê-lo (CAS-
TRO, MAIA, CHAVES, 2005). A presença de fatores emocionais
e culturais no tratamento afeta a motivação do paciente, e seu fra-
casso gera uma grande frustração. Assim as atuais práticas clínicas
e os diferentes tipos de controle do peso podem contribuir para o
sofrimento das pessoas obesas (RIBEIRO; ZORZETTO, 2004).
Especialmente, quando da ineficiência dos regimes e dietas (por
exemplo, o “efeito sanfona”) e pela não-participação dos familiares
durante o tratamento. Não é por acaso que entre as pessoas obesas
968 é comum uma intensa peregrinação aos mais variados especialistas
(gastroenterologistas, endocrinologistas, nutricionistas, psicólogos
etc.), e esse estado de coisas pode se constituir como um símbolo do
fracasso e da inadequação dessas pessoas.
O papel da cultura também é ressaltado, sobretudo na forma
da discriminação e da legitimação do julgamento social que há
contra as pessoas obesas. Cada vez mais as mulheres acreditam
ter “defeitos” no próprio corpo, queixa que começa como uma
insatisfação e pode caminhar para um distúrbio mais grave. O risco
maior é que essa impressão de inadequação ganha agora um res-
paldo sociocultural. Especialmente entre os jovens, a queixa de
descontentamento com o físico é geral, como aponta Almeida et
al. (2002). Nesse sentido, a cultura é um reforçador dessa insatis-
fação com o corpo, alimentada no último século pela exposição
contínua aos padrões de beleza estampados em jornais, revistas e
programas de televisão, ou mesmo em anúncios de medicamentos
e cosméticos.
Dito isso, a atual situação aponta para a importância de se
estudar os aspectos psicológicos referentes à obesidade, o seu
impacto no tratamento e sua relação com o os contextos sociais
múltiplos – família, amigos, escola, comunidade etc – a fim de
minimizar o impacto abusivo e nocivo do julgamento social e do
tratamento dispensado às pessoas obesas.
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 967-979, set./out. 2008.

SOFRIMENTO PSÍQUICO E “CONDIÇÃO OBESA”

O atual fenômeno da obesidade, intensamente divulgado e


estudado, parece indicar que o fato de estar acima do peso ideal,
ou seja, “a condição obesa” da pessoa, produz um intenso impac-
to na subjetividade. Ou seja, o diagnóstico de obesidade (sobretu-
do, as pessoas com obesidade mórbida) pode gerar muito
sofrimento e importantes impedimentos sociais. Evidentemente
que a questão não repousa sobre o diagnóstico, mas como as pes-
soas e a sociedade em geral lidam com o que optamos por chamar
aqui de “condição obesa”.
A obesidade mórbida é reconhecida como uma condição clíni-
ca segura para recomendação cirúrgica (SEGAL; FANDIÑO, 2002),
principalmente por sua associação às diversas comorbidades
(COUTINHO, 1998; HALPERN, 1998; HALPERN, MANCINI,
1999; 2000; 2002; PAIVA, SILVA, 1994) tais como as doenças 969
cardiovasculares, endócrinas, infertilidade, doenças
gastrointestinais, osteartrites, infecções e relacionada ao surgimento
de tumores. Em razão da associação com outras enfermidades, as
chamadas “doenças do peso” impõem severos prejuízos à saúde das
pessoas. O Nurse’s Health Study (NHS), juntamente com a American
Cancer Society´s Cancer Preventrion Study (ACSCPS) (PERES,
2005), indicam que altos valores de IMC estão relacionados a uma
taxa elevada de mortes por todas as causas, principalmente em re-
lação às doenças cardiovasculares. De acordo com o estudo, isso
também pode ser verificado na correlação negativa entre a expec-
tativa de vida em adultos e a obesidade.
De maneira geral, a chamada obesidade de grandes propor-
ções gera uma piora da qualidade de vida, com maior risco de morte
e freqüentemente está associada ao recorrente fracasso dos trata-
mentos mais conservadores baseados nas dietas, nos medicamen-
tos, na própria psicoterapia e nos exercícios físicos.
Mesmo com o avanço das técnicas cirúrgicas gástricas, cada
vez mais eficientes e com efeitos indesejáveis mais toleráveis
(GARRIDO JR., 2000), há importantes mudanças do ponto de vista
psicológico nesses pacientes. Essa condição impõe uma exigên-
cia ao sujeito, implica mudanças na relação com seu corpo e na
relação dos outros com o paciente. As possíveis conseqüências
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 967-979, set./out. 2008.
insatisfatórias de uma cirurgia de redução de estômago podem ser
apreciadas de forma bem diferente pelos pacientes, o que é um
grande inconveniente, pois se trata de uma construção pelos su-
jeitos sobre o seu “bem-estar” e não uma “constatação técnica” de
“sucesso” ou “fracasso”.
Reconhece-se a gravidade e a urgência de cuidados intensi-
vos com os pacientes que apresentam obesidade grau III (obesida-
de mórbida). A cirurgia é uma importante proposta de tratamento,
pode se constituir como a única forma de manter a pessoa viva,
contudo, deve-se ter a cautela e atenção quanto às complicações
clínicas e ao possível aumento da psicopatologia antes e no pós-
operatório. Como apontam Fandiño et al. (2004), observa-se um
aumento da psicopatologia em pacientes gravemente obesos que
procuram tratamento para emagrecer, apresentando-se principal-
mente na forma dos transtornos de humor e dos transtornos do
comportamento alimentar. E hoje se sabe que há um importante
970 aumento dos transtornos depressivos nas pessoas obesas que re-
correram à cirurgia de redução do estômago (Fandiño et al., 2004).
Esse fato parece estar associado aos comportamentos adictos, tais
como o abuso do álcool e drogas (SARGENTIM, 2005), o que
indica a necessidade de uma avaliação mais criteriosa e
interdisciplinar em pacientes obesos que buscam a cirurgia de
redução do estômago.
Nesse sentido, os estudos médicos têm um papel importante
na definição e compreensão do estudo da obesidade. Apesar de a
OMS dizer que o atual incremento do excesso de peso no planeta
se deve fundamentalmente às mudanças socioambientais, tais como
os hábitos alimentares e o aumento da inatividade física (que leva
ao balanço energético positivo), a obesidade não pode ser explicada
por uma única visão.
Como apontam Almeida e Ferreira (2005), a prevalência e
interpretação da obesidade no mundo têm variado ao longo do
tempo, em razão de valores culturais e científicos presentes em
cada sociedade. Segundo os autores, a obesidade praticamente
inexistiu nas sociedades antigas, sendo um fenômeno raro em razão
da intensa atividade física e da escassez de alimentos que acom-
panharam os seres humanos durante muitos séculos. Mas, para seu
surgimento, os autores argumentam que a própria seleção natural
se encarregou disso, selecionando indivíduos com mecanismos
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 967-979, set./out. 2008.

orgânicos de estocagem de nutrientes e de energia mais adaptados


que os outros. Aliado a isso, as profundas mudanças nos hábitos
de vida, inauguradas com a Revolução Industrial, parecem ter
contribuído para o incremento da obesidade no mundo.
Em geral a sua etiologia e história natural parecem indicar
uma pluralidade de fenômenos envolvidos cada qual com seu peso
específico (UEHARA; MARIOSA, 2005). O sobrepeso e a obe-
sidade podem se iniciar em qualquer idade, com importantes di-
ferenças entre os sexos e a condição socioeconômica. Nas crianças
com baixo peso, no nascimento, ou muito pequenas estão mais
sujeitas a desenvolver o excesso de peso e suas conseqüentes
comorbidades em comparação com as crianças que nasceram com
o peso normal. A amamentação também parece um fator impor-
tante. Crianças que não foram amamentadas ou que foram ama-
mentadas por um curto período de tempo apresentam um maior
risco de sobrepeso e obesidade do que crianças que foram ama-
mentadas. E, ainda, crianças que apresentam excesso de peso em 971
idades mais avançadas da infância, após os três anos de idade, por
exemplo, tendem a manter essa condição, ao contrário das crian-
ças que apresentam excesso de peso antes dos três anos de idade.
Com relação à adolescência, a maioria dos casos tende a se man-
ter na idade adulta. De forma geral, segundo os autores, o
surgimento da obesidade na infância e adolescência é um grande
preditor de obesidade na fase adulta.
As diferenças em relação ao sexo, de acordo com Uehara e
Mariosa (2005), parecem sofrer forte influência dos fatores
socioeconômicos. Por exemplo, a gravidez (como um evento exis-
tencial importante), os contraceptivos (apesar de não haver dados
clínicos relevantes) e a menopausa (as mudanças hormonais) pa-
recem estar associados ao surgimento da obesidade feminina na
idade adulta. Em relação aos homens, o principal fator para o in-
cremento do excesso de peso parece estar associado aos hábitos
de vida, já que eram ativos na adolescência e se tornaram mais
sedentários na fase adulta.
Um outro fator importante se refere à relação entre obesida-
de, trabalho e escolaridade (MONTEIRO, CONDE, CASTRO,
2003; UEHARA, MARIOSA, 2005). Até 1989, a obesidade era
proporcional ao nível de escolaridade, quanto maior o nível de
escolaridade maior o risco de obesidade. Segundo dados da Pes-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 967-979, set./out. 2008.
quisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN) realizada pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1997 a
situação mudou muito no Brasil (Monteiro, CONDE, CASTRO,
2003). Seguindo uma tendência comum, principalmente nos paí-
ses da América Latina, o aumento da obesidade apresentou uma
relação inversamente proporcional ao nível de escolaridade. Ou
seja, atualmente a população com baixa escolaridade e com uma
condição socioeconômica menos favorável está mais sujeita ao
excesso de peso que a população mais abastada economicamente
e com maior escolaridade.
As mulheres que estão desempregadas, por exemplo, formam
um grupo mais propenso ao excesso de peso (FERREIRA; MA-
GALHÃES, 2005). O impacto da obesidade na população femini-
na e de baixa renda no Brasil é notório. Dos 6,8 milhões de obesos
no Brasil levantados pelo PNSN, 70% eram de mulheres pobres.
Ao contrário, mulheres que ocupam cargos de destaque no traba-
972 lho apresentam menor risco de obesidade. Já nos homens, de acordo
com Filho (2005), nos desempregados ou em situação
socioeconômica menos favorável, o efeito é inverso, embora os
dados do Third National Health and Nutrition Examination Survey
Data (NHANES III/ 1989-1994), publicado no Centers for Disease
Control and Prevention (CDC) (1996), mostrem que o estilo de
vida e o tipo de dieta nutricional, baseada num balanço energético
positivo, sejam os principais responsáveis para o surgimento do
excesso de peso.
De modo geral, os estudos apontam para três características
importantes do predomínio da obesidade: a correlação entre o
estrato socioeconômico e a obesidade; as populações urbanas
apresentam um maior risco de excesso de peso em relação à popu-
lação rural; uma prevalência da obesidade em minorias étnicas,
em razão dos chamados hábitos de vida modernos e do balanço
energético positivo (ALMEIDA; FERREIRA, 2005).

OBESIDADE E CONTEXTO SOCIOCULTURAL

Ainda que seja quase evidente o impacto das mudanças dos


hábitos de vida e do comportamento alimentar no incremento da
obesidade no planeta, o aumento da prevalência de sintomas psi-
cológicos, tais como os sintomas depressivos, ansiosos e do com-
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 967-979, set./out. 2008.

portamento alimentar, não é algo evidente. Constitui mesmo uma


grande polêmica. Esses sintomas parecem estar relacionados com
o forte julgamento social enfrentado pelos obesos (FELIPPE et
al. 2004), já que são alvos de preconceito e discriminação (SEGAL;
FANDIÑO, 2002), sobretudo com a constatação da influência dos
meios de comunicação de massa, que dão destaque ao assunto. A
sua divulgação na mídia torna-se um problema porque a questão
do excesso de peso passou a ser tratada como algo a ser combati-
do, uma espécie de “mal moderno”. Essa atitude quase engajada
e intensa do controle do peso e da estética parece reforçar ainda
mais o consumo de produtos alimentícios para o emagrecimento
e para o controle do peso, bem como a valorização de um determi-
nado padrão estético-cultural (Felippe et al., 2004).
De certa forma a dinâmica social e familiar, da história ínti-
ma, particular, dá contornos próprios e específicos à obesidade.
Em nossa cultura, a obesidade é tida como uma espécie de “con-
tra-indicação” social. A mídia, por exemplo, tem um papel impor- 973
tante na apresentação e discussão do assunto. Contudo ela parece
ter uma posição ambivalente, pois ela pode estar contribuindo para
fomentar uma mudança nos hábitos alimentares de crianças e jo-
vens, quando da intensa propagação do “estilo de vida moderno”
e dos alimentos fast-food, instaurando uma nova “cultura alimen-
tar” (ALMEIDA, NASCIMENTO; QUAIOTI, 2002). E, ainda, a
ênfase no estereótipo de um ‘corpo ideal’, na idéia de um corpo
perfeito que se aproxima cada vez mais de um modelo esguio e
esbelto, na maioria dos casos, reforça a discriminação e o sofri-
mento das pessoas que não se ajustam a esses padrões (FELLIPE
et al., 2004; SERRA, SANTOS, 2003).
Os meios de comunicação e a atual ordem social reforçam a
idéia segunda a qual a obesidade se tornou algo vulgar. De certa
forma, ser gordo hoje é algo grosseiro. Interessante lembrar que o
radical da palavra grosso é Grossu, em latim, que significa de
grande diâmetro, de volume importante, corpulento.
Socialmente, a obesidade é condição de discriminação, e nesse
ponto estamos falando de uma discriminação explícita, aberta. É
comum nas entrevistas com pacientes obesos (ROSA, 2007) o
relato de ofensas e injúrias sobre sua condição física. Parece que
a “condição obesa” dessas pessoas é utilizada para o ataque moral
e pessoal. Essa atitude discriminatória é ainda mais “pesada”,
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 967-979, set./out. 2008.
sobretudo quando realizada pelos entes queridos. Alguns estudos
indicam que a obesidade se tornou um elemento de exclusão so-
cial (GOULART, 2005). Isso pode ser evidenciado pelo aumento
da obesidade em mulheres de nível socioeconômico mais baixo
em áreas urbanas.
Assim, para o estudo da subjetividade de pessoas obesas,
devemos levar em conta as vivências sociais e seu impacto na
constituição do sujeito. Apesar de se tratar de um problema físico,
de excesso de gordura corporal, não deixa de ser um fenômeno
multivariado, com significativa participação de fatores psíquicos
e sociais. Sua explicação, sua definição, não é algo simples, mes-
mo que seja multifacetado, pois a possibilidade de encontrar um
sinal, uma causa plausível, nem sempre é possível.
De certa forma, podemos dizer que a expressão do corpo, a
expressão das formas corporais, é a expressão de si mesmo. Nesse
sentido, a obesidade não pode ser reduzida a um sintoma, seja de
974 uma disfunção genética, seja de maus hábitos alimentares ou do
estilo de vida contemporâneo. Mas se constitui um sinal ainda
maior, ‘sinal do mundo interno e privado da própria pessoa que
faz do seu corpo um lugar privilegiado para expressão de seu ser’.
Daí a dimensão subjetiva implicada no fenômeno da obesidade.
Em nossa sociedade, a relação da pessoa com seu corpo
ganhou uma importância nunca antes vista. Muito mais que a
expressão de uma identidade social, da expressão de um modo de
vida, o corpo agora é a própria pessoa, é a expressão psíquica do
sujeito. Nesse sentido, há uma mudança no estatuto do corpo, o
corpo ganhou em importância, mas, também, tornou-se mais vul-
nerável, mais ameaçado, seja pela discriminação sofrida, seja pelo
sofrimento advindo da relação dos sujeitos com seus corpos, sen-
tidos como “inadequados”.
Com base nessas considerações, a obesidade se tornou uma
verdadeira ‘enfermidade social’ (ALMEIDA, NASCIMENTO;
QUAIOTI, 2002). Sem dúvida, as vivências sociais produzem um
impacto na constituição do sujeito. Nesse sentido, a cirurgia apa-
rece no contexto como um ganho, como uma mudança de vida.
Um corte, uma ruptura radical, um salto para uma outra vida, como
apresentado nas entrevistas com pacientes que se submeteram à
cirurgia de redução do estômago (ROSA, 2007). Os sujeitos bus-
cam mesmo construir uma nova história. Não se trata, como no
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 967-979, set./out. 2008.

caso da doença, de um sujeito doente que clama ao seu médico


que lhe restitua o estado de saúde anterior, mas de um pedido, de
um desejo de promover um novo “estado de coisas”, uma nova
vida, em alguns casos, uma nova identidade.
Contudo, nada disso impede que uma tal mudança fracasse
ou tenha resultados insuficientes, pois a modificação corporal tão
esperada não garante uma “vida nova”. Eis uma tarefa árdua e difícil
no tratamento de pessoas obesas, ou seja, ‘mobilizar os desejos
que agem nos sujeitos e que esperam por serem elaborados en-
quanto fala’, enquanto representação. O novo expediente impos-
to pela mudança corporal revela o drama em que essas mulheres
se encontram e, com efeito, o regime de que falam não é físico,
mas o de suas vidas, na forma de reger suas vidas, na “maneira de
viver” e construir suas próprias histórias.
Tarefa angustiante e sobre-humana, delegada ao outro (seja o
médico, o psicólogo, ou seja, ao discurso perito) para que faça uma
reconstrução de sua história pessoal, para que mude a vida e que, 975
nesse caso, seja da forma mais radical, que seja um verdadeiro
“corte em sua história”. É bem verdade que se trata de uma tenta-
tiva, repetitiva de “conciliação” frustrada consigo mesmo, impos-
sível se condicionada à mudança física, mas oportuna ao sujeito
se ele constatar seus investimentos, seus desejos. Que se trate de
uma via simbólica, limitada, mas não menos admissível para ele
se questionar, se confrontar com sua falta, portanto, com sua pró-
pria história.

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diseases: Thecnical Report Series, 916. Geneva: WHO, 2002.

Abstract: the aim of the present paper is to produce a reflexion


about the psychic suffering to insertion of the obese condition in
the sociocultural context. In our culture the obese condition is
considered as a specie of “social contra indication”, mainly in
the discriminationform and legitimation of the social judgment.
More and more women believe about imperfection in their own
body, complaint that starts as a unsatifaction and can evolve to
a more serious disturbance. In spite of the progress of the gastric
surgery technics, even more efficient, there are important changes
of the psychologic point of viewin these patients. The bariatric
sugery implies changes in the relation with his/her body and with
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 967-979, set./out. 2008.
each others and the possible unsatisfactory consequences can
be appreciated in a very different way, by patients, because refers
to a construction about their well being and nor about a technic
confirmation about success or failure. Anguishing and difficult
of conciliation task with himself/herself; impossible if
conditioned to the physics change but opportune to the subject
if he verifies his investments, his desires that deal with a symbolic
via, limited, but not less admissible to him to make questions,
confront with his fault, therefore, with his own history.

Key words: psychic suffering, obese condition, bariatric surgery,


discrimination and social judgment

Este artigo é uma versão sintetizada da dissertação de mestrado


e está inserido dentro do Programa de Pós-graduação Stricto
978 Sensu em Psicologia da Universidade Católica de Goiás e con-
tou com a orientação e colaboração da professora Dra. Denise
estudos, Goiânia, v. 35, n. 5, p. 967-979, set./out. 2008. Teles Freire Campos.

THYAGO DO VALE ROSA


Mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Goiás. Docente da Univer-
sidade Católica de Goiás.

DENISE TELES FREIRE CAMPOS


Doutora em Psicopatologia pela Université Aix-en-Provence – França. Docente
do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Psicologia da Universidade
Católica de Goiás. 979
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