Você está na página 1de 178
LITERATURA BRASILEIRA Professora Me. Cláudia Vanessa Bergamini GRADUAÇÃO Unicesumar
LITERATURA BRASILEIRA Professora Me. Cláudia Vanessa Bergamini
LITERATURA
BRASILEIRA
Professora Me. Cláudia Vanessa Bergamini

GRADUAÇÃO

Unicesumar

C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância: Literatura Brasileira . Cláudia Vanessa
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância: Literatura Brasileira . Cláudia Vanessa
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância: Literatura Brasileira . Cláudia Vanessa
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância: Literatura Brasileira . Cláudia Vanessa

C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância:

Literatura Brasileira. Cláudia Vanessa Bergamini. Maringá - PR, 2014. 178 p. “Graduação - EaD”.

1. Literatura Brasileira. 2. História. 3. Tendências Literárias. 4. EaD. I. Título.

CDD - 22 ed. 869.909 CIP - NBR 12899 - AACR/2

Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828

pelo bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor

Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de EAD Willian Victor Kendrick de Matos Silva Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi

NEAD - Núcleo de Educação a Distância Direção de Operações Chrystiano Mincoff Direção de Mercado Hilton Pereira Direção de Relacionamento Alessandra Baron Direção Pedagógica Kátia Coelho Coordenação de Pós-Graduação, Extensão e Produção de Materiais Renato Dutra Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nalva Aparecida da Rosa Moura Design Educacional Camila Zaguini Silva Fernando Henrique Mendes Nádila de Almeida Toledo Rossana Costa Giani Projeto Gráfico Jaime de Marchi Junior José Jhonny Coelho Editoração Humberto Garcia da Silva Fernando Henrique Mendes Revisão Textual Jaquelina Kutsunugi Maria Fernanda Ilustração Priscila Silva Carvalho

Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos.
Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos.
Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos.
Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos.

Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos. A busca por tecnologia, informação, conhecimento de qualidade, novas habilidades para liderança e so- lução de problemas com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência no mundo do trabalho.

Cada um de nós tem uma grande responsabilida- de: as escolhas que fizermos por nós e pelos nos- sos fará grande diferença no futuro.

Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar – assume o compromisso de democratizar o conhe- cimento por meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos brasileiros.

No cumprimento de sua missão – “promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma

sociedade justa e solidária” –, o Centro Universi- tário Cesumar busca a integração do ensino-pes- quisa-extensão com as demandas institucionais

e sociais; a realização de uma prática acadêmica

que contribua para o desenvolvimento da consci- ência social e política e, por fim, a democratização do conhecimento acadêmico com a articulação e

a integração com a sociedade.

Diante disso, o Centro Universitário Cesumar al- meja ser reconhecida como uma instituição uni-

versitária de referência regional e nacional pela qualidade e compromisso do corpo docente; aquisição de competências institucionais para

o desenvolvimento de linhas de pesquisa; con-

solidação da extensão universitária; qualidade da oferta dos ensinos presencial e a distância; bem-estar e satisfação da comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica e administrati- va; compromisso social de inclusão; processos de cooperação e parceria com o mundo do trabalho, como também pelo compromisso e relaciona- mento permanente com os egressos, incentivan- do a educação continuada.

como também pelo compromisso e relaciona- mento permanente com os egressos, incentivan- do a educação continuada.
Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quan- do investimos
Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quan- do investimos

Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quan- do investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequente- mente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capa- zes de alcançar um nível de desenvolvimento compa- tível com os desafios que surgem no mundo contem- porâneo.

O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996):“Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”.

Os materiais produzidos oferecem linguagem dialó- gica e encontram-se integrados à proposta pedagó- gica, contribuindo no processo educacional, comple- mentando sua formação profissional, desenvolvendo competências e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inse- ri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproxi- mação entre você e o conteúdo”, desta forma possi- bilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a sua formação pes- soal e profissional.

Portanto, nossa distância nesse processo de cres- cimento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos peda- gógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possi- bilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e en- quetes, assista às aulas ao vivo e participe das discus- sões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui- lidade e segurança sua trajetória acadêmica.

em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui- lidade e segurança sua trajetória acadêmica.

AUTORES

Professora Me. Cláudia Vanessa Bergamini Mestre em Letras - Estudos Literários pela Universidade Estadual de

Professora Me. Cláudia Vanessa Bergamini

Mestre em Letras - Estudos Literários pela Universidade Estadual de Londrina (2010-2012), Especialista em Literatura Brasileira pela mesma instituição (2008) e graduada em Letras Hispano-Portuguesa também pela UEL. Professora de Literatura Brasileira, Literatura Infanto-Juvenil, Língua Portuguesa, Técnicas de Redação e Metodologia da Pesquisa. Palestrante na área de Ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Educação. Publicou Código Literário (2008), Nos passos da Literatura (2010), além de artigos sobre Língua Portuguesa e Literatura em revistas acadêmicas.

APRESENTAÇÃO

LITERATURA BRASILEIRA

SEJA BEM-VINDO(A)!

Caro(a) aluno(a), falar da Literatura é falar da cultura de um povo, é observar como o escritor lê a sociedade em que está inserido e transpõe em poemas, romances, contos, crônicas, dentre outros gêneros, os sentimentos e percepções que extraiu dessa socie- dade. Um texto literário está sempre dialogando com seu contexto de produção, seja para criticá-lo ou para corroborar as ideias e valores postos em cada tempo.

Ao longo dos mais de 500 anos de Brasil, observamos que a Literatura Brasileira passou por períodos em que os textos aqui produzidos eram na verdade cópia do que se fazia na Europa. Em outras épocas, o elemento nacional foi supervalorizado e serviu de maté- ria poética. Ainda podemos observar como muitos autores preferiram falar do homem, seus conflitos, suas tensões.

Fato é que a Literatura Brasileira ganhou nuance bem definida, sobretudo a partir do século XX. Porém, já no século XIX, podemos observar elementos nacionais sendo in- corporados à produção literária. Compreender os mecanismos pelos quais se valeram os autores em cada período faz parte da formação do profissional de Letras. Desse modo, este livro tem por objetivo levar você, professor(a) em formação, a uma viagem rumo à História da Literatura Brasileira. Por perpassarmos mais de 500 anos de história, valoriza- mos neste livro os autores mais significativos de cada período, porém, ao final de cada item há indicações de leitura cujo objetivo é o de permitir que você continue pesquisan- do sobre a Literatura Brasileira.

Para aguçar seu interesse, começamos com uma pergunta: o que significa Literatura? A palavra literatura deriva de littera, do latim letra. O vocábulo é empregado para se referir aos signos escritos, por meio dos quais compomos os textos. Como dentro da cultura de um país há também elementos orais, como cantigas, trovas, parlendas, o termo Lite- ratura Popular é empregado para se referir ao conjunto de textos de tradição oral. Cabe, porém, ressaltar que, se a palavra literatura se refere a textos escritos, então como pode ela ser empregada para textos orais? Desse modo, o termo sugerido pelos estudiosos do texto oral é Poesia Oral, justo porque melhor abarca o significado de uma cantiga popular de tradição oral.

O termo literatura é também comumente dirigido quando fazemos referência ao con- junto de escritos de uma determinada área, como por exemplo, literatura médica, litera- tura jurídica, literatura científica.

Todavia, quando sozinha em uma frase, a palavra literatura diz respeito ao texto como uma obra de arte. E mais, nesse caso, é empregada a letra maiúscula – Literatura – para marcar a diferença entre o conjunto de escritos de uma área do saber e a Literatura Artística.

Neste livro, vamos abordar a Literatura Brasileira, percorrendo desde os primeiros es- critos em terras nacionais até os textos do final do século XX e início do século XXI. À medida que ler, você vai perceber que não podemos compreender a Literatura se não buscarmos um entendimento acerca do contexto histórico em que o discurso literário

APRESENTAÇÃO

está inserido, isto é, os fatores externos que, muitas vezes, são observados em uma produção literária. Ademais do contexto, o estilo de cada época pode ser verificado por meio de recursos estilísticos que também dialogam com o contexto.

Para compreender todos esses elementos, buscamos respaldo nos escritos de auto- res que se debruçaram sobre a História da Literatura Brasileira, cujas reflexões são de grande valia para o entendimento da formação do sistema literário brasileiro, como por exemplo - somente para citar um nome basilar da crítica literária brasileira - os estudos de Antonio Candido. Estudos estes que permitiram, ao longo do século XX, um entendimento ímpar da formação do sistema literário no Brasil. Assim, unidos neste livro estão a teoria, necessária à formação do profissional de Letras, e os textos literários, sem os quais não podemos aplicar os conhecimentos teóricos adquiridos por meio da leitura de textos críticos.

Uma grande viagem, não é mesmo? É uma grande e deliciosa viagem que percor- rerá o caminho literário brasileiro, enfatizando os principais autores, o contexto em que cada um está inserido e os recursos estilísticos empregados em cada época literária.

Você, certamente, já observou que a leitura de uma obra literária não representa so-

mente a leitura em si, mas, antes, implica um processo de intelecção, ou seja, implica

a busca pelo entendimento do que foi lido. E, por meio desse processo, é possível

dar à obra significação. Além disso, a leitura permite a inserção do leitor em um universo muito especial: o da linguagem, a qual é composta por palavras que ex- pressam o mundo particular das personagens, seus sonhos, os fatos que marcaram suas vidas. As palavras, mensageiras de fios ideológicos que se unem para formar

o discurso, quando dentro de uma obra literária, tornam-se polissêmicas, ou seja, carregam em si múltiplos significados.

Dessa maneira, neste livro, vamos juntos percorrer a formação da Literatura no Brasil com o interesse de conduzir você, caro(a) aluno(a), ao caminho da interpretação, seja do significado dos poemas, seja do sentido implícito nos romances e contos ou ainda nos elementos textuais que estão presentes em cada estilo literário.

Assim, esperamos que os comentários tecidos acerca de cada escola literária e das obras mais significativas de cada período venham contribuir para a interpretação dos recursos estilísticos dos textos, bem como para a compreensão da constituição da Literatura Brasileira.

Boa leitura!

Prof.ª Me. Cláudia Vanessa Bergamini

8 - 9

SUMÁRIO

UNIDADE I

UNIDADE I

 

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

13

Introdução

13

Os Primeiros Escritos em Terras Brasileiras

24

Barroco – a Arte dos Contrastes

40

Considerações Finais

 

UNIDADE II

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

A

PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

47

Introdução

47

Romantismo

63

Século XIX – do Sentimento à Razão - Realismo

77

Parnasianismo

82

Simbolismo – o Decadentismo do Fim do Século

88

Considerações Finais

 

UNIDADE III

O INÍCIO DO SÉCULO XX – TENDÊNCIAS LITERÁRIAS

O

INÍCIO DO SÉCULO XX – TENDÊNCIAS LITERÁRIAS

95

Introdução

95

As Duas Primeiras Décadas do Século XX – Tendências Literárias

SUMÁRIO

UNIDADE IVSUMÁRIO O MODERNISMO NO BRASIL 125 Introdução 126 O Cubismo 126 O Futurismo 128 O

O MODERNISMO NO BRASIL

125

Introdução

126

O Cubismo

126

O Futurismo

128

O Expressionismo

128

O Dadaísmo

129

O Surrealismo

130

Semana de Arte Moderna

149

Considerações Finais

UNIDADE VSemana de Arte Moderna 149 Considerações Finais A LITERATURA CONTEMPORÂNEA 159 Introdução 160 A

A LITERATURA CONTEMPORÂNEA

159

Introdução

160

A Escrita Feminina

169

Considerações Finais

173

Conclusão

175

Referências

Introdução 160 A Escrita Feminina 169 Considerações Finais 173 Conclusão 175 Referências
I UNIDADE Professora Me. Claudia Vanessa Bergamini OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS Objetivos de
I UNIDADE
I
UNIDADE
I UNIDADE Professora Me. Claudia Vanessa Bergamini OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS Objetivos de Aprendizagem

Professora Me. Claudia Vanessa Bergamini

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Objetivos de Aprendizagem

Apresentar os primeiros escritos em terras brasileiras.

Ressaltar a primeira impressão dos europeus sobre a nova terra, o Brasil.

Destacar a produção barroca do século XVII, que teve grande penetração no Brasil.

Compreender os ideais que sustentaram, no século XVIII, o Arcadismo, escola que inaugurou novos horizontes intelectuais.

Plano de Estudo

A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:

Quinhentismo no Brasil

Barroco

Neoclassicismo ou Arcadismo

os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Quinhentismo no Brasil ■ Barroco ■ Neoclassicismo ou

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

INTRODUÇÃO

Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. INTRODUÇÃO 12 - 13 Caro(a) aluno(a),

12 - 13

Caro(a) aluno(a), somos um país relativamente jovem. Nossa formação tem pouco mais de 500 anos. Tempo pequeno se comparado com a cultura mile- nar asiática ou ainda com a História do continente europeu. Mas esses 500 anos foram um período bastante intenso no que se refere à formação da Literatura

Brasileira, mais ainda, no que se refere à formação da sociedade brasileira, seus vícios, costumes e cultura. Como tudo começou? Certamente você se lembra das aulas de História nas

quais se discutiam nosso processo de descoberta e, por conseguinte, de coloniza-

ção. Nesta unidade, vamos retomar muitas questões históricas dos séculos XVI,

XVII e XVIII, nosso objetivo, porém, será o de apresentar a você os primeiros

escritos em Língua Portuguesa em terras brasileiras. Em um primeiro momento, deparamo-nos com as narrativas de viagem

e as cartas dos cronistas, por meio das quais a natureza e as práticas culturais

indígenas eram descritas. Mais tarde com o teatro jesuítico, com seu tom didá- tico, a poesia de tom satírico de Gregório de Matos e a prosa argumentativa engenhosa de Antonio Vieira, que delinearam o esboço de nossa Literatura. No

século XVIII, temos um período em que os poetas seguem o modelo dos gran- des nomes da Literatura Clássica. Assim, vamos nesta unidade perpassar por três séculos para apresentar a você os primórdios de nossa Literatura. Bom estudo!

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Falar dos primeiros escritos em terras brasileiras significa falar, ainda que bre-

vemente, da História do Brasil. Isso ocorre porque não podemos compreender

o que motivou os primeiros textos aqui produzidos se não tivermos em mente alguns aspectos relacionados à época em que foram produzidos. Nesse sentido, ao falarmos do Quinhentismo no Brasil, destacado será o

Introdução

à época em que foram produzidos. Nesse sentido, ao falarmos do Quinhentismo no Brasil, destacado será

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I percurso dos

I

percurso dos portugueses em terras nacionais, isso porque os textos elaborados durante o século XVI – anos de 1500 –, daí o nome Quinhentismo, são históri- cos e não literários. Históricos e não literários? Não se assuste! A pergunta é fácil de ser respon- dida, pois ocorre que durante o século XVI os portugueses tinham necessidade de comunicar à Coroa Portuguesa tudo o que se passava nas terras brasileiras. Essa comunicação se dava por cartas e, assim, configuram-se os primeiros escri- tos em nossas terras. Em 1500 os portugueses chegaram ao Brasil. A frota de Cabral não tinha por objetivo somente a expansão de terras sob o domínio português, mas tam- bém concretizar o comércio já estabelecido por Vasco da Gama na Índia. Ao chegarem ao território brasileiro, então batizado de Ilha de Vera Cruz, os por- tugueses observaram que se tratava de território vasto e rico, o qual teria de ser defendido da cobiça e da pirataria de outros povos, como franceses e espanhóis.

Desembarque de Pedro Álvares Cabral Em 1530, Martin Afonso de Souza foi convocado para colonizar a nova terra, dando origem às capitanias hereditárias e à defesa do ter- ritório para evitar invasões estrangeiras. Dessas capita- nias surgiram as províncias, depois, os estados. Nessa mesma época, chegaram os primeiros africanos escravi- zados por portugueses. Em 1549, os jesuítas chegaram ao Brasil, iniciando-se, assim, o processo de catequização e educação dos índios e, por conseguinte, a cultura indígena foi sendo contaminada pela visão teocêntrica de mundo dos religiosos jesuítas. Em outras palavras, o índio foi aculturado, ou seja, houve o encontro de duas culturas diferentes, mas a cultura do homem branco colonizador se sobrepôs em relação

©wikimedia

a cultura do homem branco colonizador se sobrepôs em relação ©wikimedia OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS
a cultura do homem branco colonizador se sobrepôs em relação ©wikimedia OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 14 - 15

14 - 15

à cultura do índio, ocasionando em um quase apagamento da cultura indígena. Fato é que não tínhamos nos idos de 1500 uma sociedade mais ou menos organizada no Brasil, pois o que havia era a presença de portugueses, cujo intuito era o de desbravar o território que dominavam, extraindo as riquezas, como o Pau-Brasil, para serem comercializadas na Europa. Ademais, a presença dos jesuítas também era forte no período, seguida pela presença de viajantes que por aqui passavam. Essas três categorias – desbravadores, viajantes e jesuítas – são responsáveis pelas primeiras escrituras nacionais, como veremos a seguir.

LITERATURA DE INFORMAÇÃO

Você deve ter pensado no sentido que a locução adjetiva ‘de informação’ dá ao título deste item. Pois bem, o termo ‘de informação’ refere-se ao caráter dos textos produzidos pelos portugueses a partir de 1500. Eram cartas por meio das quais as informações sobre os aspectos referentes ao território, aos índios, às riquezas naturais tão abundantes eram transmitidas à Coroa Portuguesa. Daí, então, o termo Literatura de Informação, a qual abarca os relatos pro- duzidos pelos portugueses de 1500 a 1601. O primeiro deles foi a Carta de Pero Vaz de Caminha, a Carta de Achamento do Brasil de 1º de maio de 1500, que pode ser lida integralmente se você clicar no link: <http://www.culturabrasil.org/zip/carta.pdf>. Nela, Pero Vaz regis- trou sua impressão sobre a terra descoberta e seus habitantes, e sugeriu à Coroa Portuguesa algumas ações possíveis, a fim de marcar a dominação. Trata-se, na verdade, de um documento histórico, o primeiro do Brasil. Você deve ter se perguntado: se é histórico, por que estudá-lo dentro da Literatura? A resposta para essa questão é: a linguagem elevada, com que descreve os índios, vem revestida de elementos metafóricos que dão ao texto acabamento estético e, por isso, a conotação de uma escrita literária. Além do acabamento estético da linguagem, podemos ler a Carta do Achamento com olhar crítico, isto é, analisar passagens em que a malícia dos portugueses em relação aos índios e à dominação das terras recém-descobertas são evidentes. Vejamos o trecho que segue:

Os Primeiros Escritos em Terras Brasileiras

das terras recém-descobertas são evidentes. Vejamos o trecho que segue: Os Primeiros Escritos em Terras Brasileiras

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Um deles,

I

Um deles, porém, pôs olho no colar do capitão e começou d’acenar com a mão para a terra e despois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro. E também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como que havia também prata. Mostraram-lhe um papagaio pardo, que aqui o capitão traz, to- maram-no logo na mão e acenaram para a terra, como que os havia aí. (Disponível em: <http://www.culturabrasil.org/zip/carta.pdf>. Acesso em: 15 de set. 2013).

Ao ler o trecho, você deve ter observado a escrita da época, como a palavra ‘des- pois’. No que se refere ao conteúdo, o relato de que os índios acenaram para a terra, indicando que ali teria ouro, tal qual o colar do capitão, pode ser interpre- tado, por um lado, como a inocência do índio, que não tem consciência sobre o valor comercial do metal. Por outro lado, podemos interpretar como a malícia do colonizador, o qual informa à Coroa Portuguesa, de maneira sutil, tratar-se de território rico a ser explorado. No trecho abaixo, temos:

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos, pelas espáduas; e suas vergonhas tão altas e tão çarradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha (Disponível em: <http://www.culturabrasil.org/zip/carta.pdf>. Acesso em: 15 set.

2013).

Sabemos que o Brasil é um país miscigenado, pois a formação de nosso povo se deu pela mistura de povos indígenas, africanos e europeus que por aqui pas- saram. No trecho acima, o português relata o fato de as moças andarem nuas. Interessante é, porém, destacar a palavra vergonha, ou melhor dizendo, a falta de vergonha com a qual os portugueses olhavam as índias. Notamos que a des- crição é minuciosa, desde aspectos psicológicos: gentileza, limpeza dos cabelos, a aspectos físicos: cor dos cabelos, tamanho, detalhes das partes íntimas. A miscigenação começa logo no início da colonização portuguesa. O filme Caramuru - A invenção do Brasil, 2001, dirigido por Guel Arraes, retrata de modo cômico a relação amorosa entre a índia e o português, ao assisti-lo, tem-se uma visão crítica sobre os interesses do colonizador em explorar para além das ter- ras, pois também desejavam sexualmente as mulheres índias e, conforme trecho da carta, por elas tiveram afeição, simpatia. Ainda podemos destacar a preocupação com a religião, a língua, o modo de

Ainda podemos destacar a preocupação com a religião, a língua, o modo de OS PRIMEIROS ESCRITOS

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 16 - 17

16 - 17

vida dos índios, pois Caminha, referindo-se aos índios, assim escreveu:

E naquilo sempre mais me convenço que são como aves ou animais

montesinhos, aos quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que aos

mansos, porque os seus corpos são tão limpos, tão gordos e formosos,

a não mais poder. […] Parece-me gente de tal inocência que, se nós en-

tendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E, portanto,

se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e eles

a nossa, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza,

se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso

Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela sim- plicidade. E imprimir-se-á facilmente neles todo e qualquer cunho que lhes quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o fato de Ele nos haver até aqui trazido, creio que não o foi sem causa. E portanto, Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar à santa fé católica, deve cuidar da salvação de- les. E aprazerá Deus que com pouco trabalho seja assim. […] Eles não lavram nem criam. Não há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao convívio com o

homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos (Disponível em: <http://www.cultu- rabrasil.org/zip/carta.pdf>. Acesso em: 15 set. 2013).

Em relação à aparência dos índios, Caminha aponta a simpatia que a imagem deles lhe causou, descreve que são gordos, limpos e formosos, mas evidencia também a inocência. E é esse aspecto que nos interessa como elemento a ser destacado, pois na Carta há a indicação ao Rei D. Manuel de que, segundo as aparências, são fáceis se converterem ao cristianismo, pois não têm crença alguma. Notamos que é a impressão quem direciona o olhar de Caminha, mas, na verdade, sabe- mos que o índio tinha sim religião, cultura, língua, todos esses elementos foram, ao longo do século XVI, sufocados pela cultura portuguesa europeia. Também é destaque práticas alimentícias dos índios, os quais comiam ver- duras, raízes e, na visão do europeu, eram bem mais fortes e saudáveis que os portugueses que viviam de cereais e trigo. O fato de não criarem animais e nem cultivarem a terra também é mencionado. Assim, o que temos no relato de Caminha é o estranhamento deste em relação à cultura do índio e, por outro lado, a intenção de dominá-lo dadas a ingenuidade e a mansidão do nativo.

Os Primeiros Escritos em Terras Brasileiras

lado, a intenção de dominá-lo dadas a ingenuidade e a mansidão do nativo. Os Primeiros Escritos

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Muitos outros

I

do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Muitos outros aspectos

Muitos outros aspectos foram observados por pesquisadores ao se debruça- rem sobre a Carta de Caminha, assim como outras produzidas ao longo do século XVI no Brasil. Por ser a Carta de Caminha o documento mais expressi- vo, sugerimos que você continue a estudá-lo. No link abaixo, há o artigo da historiadora Vivian Maria de Oliveira, intitulado ‘O Mito da Colonização na Construção da História do Brasil’, (p. 109-121). Nele, a autora analisa a Carta de Caminha, apontando aspectos culturais, religiosos e linguísticos que con- duziram o processo de formação da sociedade brasileira.

Disponível em: <http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www. biblio.com.br/conteudo/perovazcaminha/carta.htm>. Acesso em: 25 jan. 2013.

LITERATURA DE VIAGEM

Mais uma vez a locução adjetiva integra o título da nossa subunidade. ‘De via- gem’ é nome pelo qual comumente são chamados os textos produzidos ao longo

do século XVI no Brasil. Diferentes das cartas que vimos no item anterior, por meio das quais o rei era informado sobre a terra distante que estava em seu domí- nio, as cartas de viagem ou crônicas de viagem são textos escritos por europeus que pelo Brasil passaram como viajantes. Dentre os textos do período, podem ser destacados: Diário de Navegação (1530), do português Pero Lopes de Souza, Duas Viagens ao Brasil, do alemão Hans Staden. Este último nos interessa em especial, pois na Europa seus escri- tos tiveram significativa repercussão, pois apresentam o Brasil com exotismo.

O alemão esteve duas vezes no Brasil, participou de combates nas capitanias de

Pernambuco e São Vicente. Pouco mais sabemos sobre ele, somente que viajou pela costa brasileira, passando pela região onde hoje estão as cidades litorâneas Ubatuba e Bertioga. Sabemos também que nem todas as tribos indígenas eram cordiais como a que Caminha descreveu em sua carta. Com uma dessas tribos

se deparou Staden, caindo prisioneiro dos Tupinambás, por um período de nove

meses, conseguindo a liberdade em 1554. Do período em que esteve preso, Staden retira o conteúdo de seus relatos. Narra toda a violência que sofreu quando esteve entre os nativos, sobretudo as ameaças de ser morto e devorado, ressalta Staden, em seus relatos, que ganhou

ameaças de ser morto e devorado, ressalta Staden, em seus relatos, que ganhou OS PRIMEIROS ESCRITOS

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 18 - 19

18 - 19

a liberdade porque era um homem inteligente, de têmpera e, em especial, por

ter fé inabalável em Deus. Também podem ser destacados nos relatos os rituais antropofágicos das tribos, que foram determinantes para os europeus, já que a influência de tais relatos no meio culto da época ajudou a construir, no imaginário europeu qui- nhentista, a ideia da terra brasílica como o país dos canibais, por conta das ilustrações com cenas de antropofagia. Os poetas modernistas de 1922, como Oswald de Andrade e Raul Bopp, valeram-se das ideias de antropofagia para criar a Revista da Antropofagia, que veremos com detalhes na unidade sobre o Modernismo Brasileiro. Hans Staden contribuiu para difundir a imagem do Brasil na Europa durante

o século XVI, mas não podemos deixar de abordar o fato de que os relatos do

alemão criaram a imagem de um país de canibais, de rituais antropofágicos cru- éis, o que, por sua vez, acarretou na ideia da dualidade civilização X barbárie. A Europa seria o espaço da civilização, de pessoas cristãs, cultas e que jamais pra- ticariam rituais antropofágicos, ou seja, de devorar a carne humana por prazer, ou nas palavras de Staden (1974, p. 176): “fazem isto, não para matar a fome, mas por hostilidade, por grande ódio”. Por outro lado, o Brasil seria o espaço da barbárie, onde os brancos europeus eram presos, as tribos sem religião cultuavam a deuses e a morte do branco era tida como prêmio. Assim, em que pese o fato de serem os relatos basilares para o entendimento da cultura indígena do século XVI, não podemos deixar de olhá- -los como documento que contribuiu para a ideia de nação exótica brasileira.

LITERATURA DE FORMAÇÃO

Além da prosa informativa que vimos, em especial com a Carta de Caminha,

e a prosa com os relatos dos viajantes, como Hans Staden, a chegada dos jesuí-

tas trouxe ao século XVI uma nova configuração textual, acrescentando textos dramáticos (teatrais), diálogos e poemas, os quais foram escritos sempre com a finalidade de catequizar o índio. Ao conjunto de textos produzidos pelos jesuí- tas chamamos de Literatura de Formação.

Os Primeiros Escritos em Terras Brasileiras

de textos produzidos pelos jesuí- tas chamamos de Literatura de Formação. Os Primeiros Escritos em Terras
I Antropofagia Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de

I

I Antropofagia Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro
Antropofagia Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro
Antropofagia
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Em sua acepção original, “antropofagia” designa as práticas sacrificiais co-
muns em algumas sociedades tribais – algumas sociedades indígenas do
Brasil, por exemplo – que consistiam na ingestão da carne dos inimigos apri-
sionados em combate, com o objetivo de apoderar-se de sua força e de suas
energias. A expressão foi utilizada metaforicamente por uma das correntes
do modernismo brasileiro, querendo significar uma atitude estético-cultural
de “devoração” e assimilação crítica dos valores culturais estrangeiros trans-
plantados para o Brasil, bem como realçar elementos e valores culturais in-
ternos que foram reprimidos pelo processo de colonização.
Disponível em: <http://tropicalia.com.br/ruidos-pulsativos/geleia-geral/an-
tropofagia>. Acesso em: 18 dez. 2013.
Em artigo intitulado Imagens de índios do Brasil: o século XVI, a pesquisado-
ra Manoela Carneiro da Cunha explica sobre os rituais indígenas relatados
nas crônicas de viagem. Distingue a diferença entre tribos canibais e tribos
antropofágicas, comentando a visão dos jesuítas, dos cronistas de viagem e
de Caminha.
Disponívelem:<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-401419900003
00005&script=sci_arttext&tlng=es>. Acesso em: 17 set. 2013.

Dentre os padres jesuítas mais expressivos estão José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, os quais, embora tenham vindo ao Brasil com o propósito de evan- gelizar os índios e convertê-los ao catolicismo, desenvolveram, com sensibilidade, o humanismo e o didatismo. Em relação ao padre Manuel da Nóbrega, sua principal obra é o Diálogo sobre a conversação do gentio (1557), texto em que se levanta um leque de ques- tões práticas sobre o método de evangelização do colonizador. Afirmamos isso porque, ainda que saibamos e reconheçamos a relevância dos jesuítas para a for- mação educacional brasileira, não podemos deixar de mencionar o fato de que a visão de Nóbrega, expressa em Diálogo sobre a conversação do gentio, é a de que

Nóbrega, expressa em Diálogo sobre a conversação do gentio , é a de que OS PRIMEIROS

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 20 - 21

20 - 21

o índio é o ser sem religião, sem lei e que, portanto, catequizá-lo é uma forma de suprir essa carência espiritual. De acordo com Araújo (2005), em relação à humanidade do índio, o padre Manuel da Nóbrega parte mais para o convencimento dos missionários, cujas razões não destoam das mesmas razões a serem usadas para a conversão dos gentios do Brasil. Os missionários devem praticar a boa ação da evangelização para salvar a sua alma e atrair os gentios pelo bom exemplo. Devem, em suma, praticar a boa ação com fervor, amor e diligência. Ainda à luz do que nos ensina Araújo (2005), observamos que Nóbrega supera a questão da alma nos índios – a qual se pensava inexistente e o compor- tamento selvagem atestava isso – comparando-os aos judeus, romanos e gregos, que em antigas gerações também procediam de forma bestial, com a adoração de pedras, bois, vacas, bezerro de metal, “ratos e outras inmundicias”. É nesse sentido que podemos afirmar que o olhar dos jesuítas foi carregado de humanismo, o índio é visto não como um canibal representante da barbá- rie, mas sim como alguém com alma e esta, por sua vez, só pode ser salva por meio do catolicismo. José de Anchieta é outro jesuíta que merece destaque quando falamos da Literatura de Formação. Dentre os gêneros literários produzidos por ele, o teatro, gênero dramático, é o que mais se destacou. No Auto de São Lourenço, Anchieta visa difundir a fé católica, valendo-se de preceitos de moralidade e discussões em que o bem e o mal são postos em pauta, sempre com ênfase no bem. Os personagens de Anchieta são conceitos personificados, ou seja, valores morais como o bem e o mal se tornam personagens. Nesse sentido, não pode- mos deixar de mencionar a influência do teatro português humanista, cujo maior representante é Gil Vicente, pois Vicente também personificou concei- tos em seus autos. Além disso, a presença do gênero dramático na Igreja data desde a Idade Média, período em que hagiografias (histórias da vida dos santos) e autos eram encenados com a finalidade de difundir conceitos morais religiosos. No Auto de São Lourenço, identificamos a visão de que o índio carece do Deus cristão, uma vez que o mal vem de fora e pode destruir a alma. No caso do índio, o mal vem do fumo alucinógeno, do caium – bebida indígena – e do ato

Os Primeiros Escritos em Terras Brasileiras

o mal vem do fumo alucinógeno, do caium – bebida indígena – e do ato Os

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I mais cruel

I

mais cruel que é o de devorar a carne do inimigo. O trecho abaixo é a parte da fala do demônio Guaixará e ilustra bem a ideia, além de ridicularizar a figura do indígena.

Boa medida é beber cauim até vomitar. Isto é jeito de gozar

a vida, e se recomenda

a quem queira aproveitar.

Que bom costume é bailar! Adornar-se, andar pintado, tingir pernas, empenado fumar e curandeirar, andar de negro pintado.

Andar matando de fúria, Amancebar-se, comer um ao outro, e ainda ser espião, prender Tapuia, desonesto a honra perder (ANCHIETA, 1997, p.48).

Bosi (1992), embora reconheça toda a importância do teatro de Anchieta, bem como a ação dos jesuítas na formação da sociedade brasileira, enfatiza que não podemos esquecer que Anchieta é discípulo de Inácio de Loyola, padre funda- dor da Companhia de Jesus, fato que, por sua vez, justifica o desejo de incutir na alma do fiel, no caso do índio, o horror ao pecado, com visões, no mínimo, aterradores do além.

do índio, o horror ao pecado, com visões, no mínimo, aterradores do além. OS PRIMEIROS ESCRITOS

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

22 - 23 Em artigo intitulado O Auto de São Lourenço, a pesquisadora Glacy Magda

22 - 23

22 - 23 Em artigo intitulado O Auto de São Lourenço, a pesquisadora Glacy Magda de
Em artigo intitulado O Auto de São Lourenço, a pesquisadora Glacy Magda de Souza Machado
Em artigo intitulado O Auto de São Lourenço, a pesquisadora Glacy Magda de
Souza Machado aborda esse auto, assim como outros textos do período, a
partir do caráter moralizador desses textos, cujo objetivo era o de difundir a
fé católica por terras brasileiras. A autora destaca ainda trechos nos quais as
práticas culturais indígenas são ridicularizadas pela ótica de Anchieta.
Disponívelem:<http://www.revistaeutomia.com.br/volumes/Ano1-Volume1/
literatura-artigos/Glacy-Magda-Souza-Machado-%20UFGO.pdf>. Acesso em:
17 set. 2013.
Para nos referirmos à imposição da cultura do branco europeu em relação à
cultura do indígena, empregamos o termo aculturamento. Trata-se de con-
ceito da sociologia inerente à perda de aspectos culturais, tais como: língua,
religião, hábitos, costumes locais. No caso dos indígenas, notamos que eles
perderam todos esses aspectos que modulavam a identidade indígena. O
aculturamento está ligado à sobreposição de uma cultura à outra. Observa-
mos que, em países colonizados, o processo de aculturamento foi agressivo,
por meio do qual a língua do colonizador é imposta, depois a religião e,
por fim, modificam-se os hábitos e costumes locais. O colonizado perde sua
identidade local e adota a identidade e hábitos do outro.
Fonte: elaborado pela autora.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Todo brasileiro, mesmo

Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena e/ou do negro. Há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica pelo Brasil – a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro. No litoral, do Ma- ranhão ao Rio Grande do Sul, e em Minas Gerais, principalmente do negro. A influência direta, ou vaga e remota, do africano (FREYRE, 1933, p.367).

Barroco – a Arte dos Contrastes

do negro. A influência direta, ou vaga e remota, do africano (FREYRE, 1933, p.367). Barroco –

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I BARROCO –

I

BARROCO – A ARTE DOS CONTRASTES

Enquanto o século XVI foi um período em que os textos produzidos eram escri- tos por portugueses ou europeus que por aqui passaram, o período que veremos nesta unidade tem como grande representante um brasileiro. O termo barroco foi o nome escolhido pelos poetas seiscentistas para se refe- rirem à produção literária. A palavra deriva de Broatki, região da Índia, da qual se origina uma pérola muito especial de superfície áspera, bastante irregular e de coloração que mescla o claro e o escuro. Tais pedras eram muito solicitadas à época pelos europeus, por causa das características acima descritas. Porém, essas características foram levadas à arte barroca em função da ten- são que se estabeleceu na Europa, dada a veemência com que a Igreja Católica tratou a produção intelectual no período. O Tribunal de Inquisição impunha regras e temáticas religiosas para as produções e quem fugisse aos dogmas, cer- tamente, seria punido. São os longos anos de caça às bruxas e a poetas indisciplinados que não aceitavam a imposição Teocêntrica da Igreja, a qual agia assim como forma de conter a Reforma Protestante. Nesse sentido, ou se está ao lado da Igreja ou se está contra ela, daí a perseguição. Desse modo, para a compreensão do período Barroco, temos antes que fazer uma incursão pelo cenário histórico europeu, porque foi de lá que os ideais da arte barroca se difundiram e desembocaram no Brasil.

O CONTEXTO HISTÓRICO EUROPEU E O DESENVOLVIMENTO DO BARROCO BRASILEIRO

Na Europa, os movimentos que conduziram à Reforma Católica, reação da igreja ao avanço que a Reforma Protestante propiciou, permitiram que novas mani- festações artísticas emergissem. Os ideais antropocêntricos do Renascimento começam a ser combatidos, dando lugar a uma arte que espelha o dogmatismo da Igreja Medieval. Além disso, a ascensão burguesa, o mercantilismo e o para- doxo estabelecidos pelo antropocentrismo e teocentrismo contribuíram para

doxo estabelecidos pelo antropocentrismo e teocentrismo contribuíram para OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 24 - 25

24 - 25

Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 24 - 25 ©wikipedia que o

©wikipedia

que o Barroco se configurasse como

a escola artístico-literária do século

XVII, ou Seiscentismo, como em geral

denominado esse momento literário. Assim, as composições barro- cas expressam a visão pessimista do homem do século XVII, visão esta que nasce da certeza de que a Inquisição Católica era arbitrária aos intelectu- ais e artistas. Vejamos a tela de Rembrandt, pintor barroco holandês que se valeu das temáticas religiosas como expres- são de sua arte. Você deve ter achado escura a tela, certo? Por que será? Na verdade, existe um motivo para que o fundo escuro tenha sido aplicado? Vamos analisar a imagem para respondermos a essa questão. Notamos na tela que há uma história sendo contada, por isso, podemos dizer que a imagem tem características narrativas. Há um jovem com vestes em con-

é

dições bastante precárias, ele está prostrado diante de um senhor, cujas vestes demonstram se tratar de um homem com boas condições. O senhor está arcado, mostrando que recebe o jovem de braços abertos. A cena é uma paráfrase do texto bíblico, em que o pai recebe o filho de volta, sem ressentimentos. A narrativa revela, ainda, a intenção do autor em colocar

a luz no que mais ele desejou enfatizar, a saber: o gesto de humildade do filho,

que, ajoelhado, reconhece que errou, e o gesto de amor do pai, pois recebe com alegria e amor o filho pródigo. Ainda é possível destacar o rosto do irmão mais velho, que se encontra em pé, assistindo à cena. Sua atitude de altivez aponta para o descontentamento com o retorno do irmão. No restante da tela, notamos a incidência de pontos mais escuros, a revelar que o pintor não desejou enfatizar tais partes e personagens. Voltemos à tela de Rembrandt para perceber os sentidos dos signos nela presentes: a luz, as vestes maltrapilhas, as vestes elegantes, os pés descalços. Notamos que estes signos nos

Barroco – a Arte dos Contrastes

maltrapilhas, as vestes elegantes, os pés descalços. Notamos que estes signos nos Barroco – a Arte

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I auxiliam a

I

auxiliam a perceber o sentido da tela. Cada um deles representa um tema que o autor desejou tratar. Só para lembrar, os temas se referem aos elementos abstra- tos dentro de um texto, por exemplo, a posição ajoelhada em que se encontra o jovem representa a humildade (conceito abstrato). As vestes maltrapilhas repre- sentam a humildade e a situação de pobreza e miséria em que se encontrava o jovem. As vestes mais elegantes revelam o status e a boa condição financeira da família. A luz no rosto do irmão reforça o intuito do pintor em transferir para a tela a soberba, a dureza de coração, pois o irmão mais velho não se mostra feliz com o retorno do irmão mais jovem. Pelo contrário, em seu rosto, é possível vis- lumbrar o descontentamento. Há, por meio do jogo de luzes e de temas tratados, a presença de dualismo, ou seja, claro X escuro, bem X mal. Esse dualismo é uma característica mar- cante da arte e da literatura barrocas e vem mostrar os sentimentos que tomavam os poetas e artistas no contexto em que o barroco se desenvolveu, pois como vimos, eram anos de imposição. O Barroco brasileiro surgiu também em um cenário de imposição porque, embora nosso contexto seja diferente do europeu em termos econômicos, polí- ticos e culturais, o fato de sermos dominados pelo colonizador europeu fez com que o Tribunal de Inquisição Católico também agisse em terras brasileiras. Tal panorama expressou todo o contraste desse período: a espiritualidade e o teo- centrismo retomados da Idade Média com o racionalismo e antropocentrismo do Renascimento. Desse modo, é mister considerar que o Barroco brasileiro foi diretamente influenciado pelo Barroco europeu, mas assumiu, com o tempo, características próprias. Como, por exemplo, a linguagem popular com que Gregório de Matos marcou muitos de seus poemas, aproximando-se, inclusive, da oralidade. No Brasil, a publicação de Prosopopeia (1601), de Bento Teixeira, repre- sentou o marco inicial do Barroco. No entanto, cabe destacar que há entre os teóricos da Literatura divergência sobre ser esse período considerado a primeira Escola Literária brasileira. Antonio Candido, sociólogo cujos estudos voltaram -se para a análise e a formação da Literatura Brasileira, entende que o Barroco, embora importante movimento artístico-literário nacional, não se configura como Escola, haja vista o fato de não se ter um número representativo de poetas

Escola, haja vista o fato de não se ter um número representativo de poetas OS PRIMEIROS

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 26 - 27

26 - 27

e porque as produções eram esparsas, isoladas, não conseguindo formar uma tradição. Além disso, não havia leitores para que o barroco pudesse se efetivar como sistema literário. Da época, temos o nome de Gregório de Matos como o mais expressivo do período, que sobretudo se desenvolvera na Bahia, estado natal do poeta e polo cultural brasileiro graças à solidificação da economia açucareira. Concordamos com Antonio Candido em relação ao barroco não ser a pri- meira escola literária brasileira, pois somente no Arcadismo, produção literária do século XVIII, passamos a considerar a produção literária como inserida em uma Escola, conforme veremos na seção posterior. Em relação aos escritos de Gregório de Matos Guerra, poeta mais expressivo do período, entendemos que ele conseguiu captar a essência da dualidade bar- roca, em que a oposição, o contraste e o choque eram representados, conforme você viu na tela de Rembrandt. Considerando que o Brasil vivia o período de extração do ouro em Minas Gerais e ainda havia a economia açucareira na Bahia e em Pernambuco, o Barroco brasileiro tem duas vertentes: o Barroco do Ouro, em que Aleijadinho é o prin- cipal representante e as Artes Plásticas são postas em evidência, e o Barroco do Açúcar, em que a Literatura se destaca como principal atividade artística, tendo Gregório de Matos Guerra como representante na poesia e Pe. Antonio Vieira, na prosa.

GREGÓRIO DE MATOS

Gregório de Matos voltou seu olhar, de modo crítico, às questões políticas e sociais. Em seus poemas, é possível perceber a expressão de uma ideologia social, ou seja, a denúncia de uma sociedade imperfeita, corrupta. Em Poesias Selecionadas, expõe sua educação ibérico-jesuítica oposta ao caráter explanado em obras agressivas e rancorosas; mas há poemas ricos em sátiras, retratando a Bahia com bastante irreverência, ou seja, além desse tom satírico, há a presença de metáforas, de antíteses e paradoxos para representar poeticamente sentimen- tos do eu-lírico.

Barroco – a Arte dos Contrastes

de antíteses e paradoxos para representar poeticamente sentimen- tos do eu-lírico. Barroco – a Arte dos

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Em Gregório

I

Em Gregório de Matos vamos encontrar uma das singularidades mais expressivas da formação literária na colônia. O simples fato de sua obra servir de motivo a tantas controvérsias e despertar ainda tão grande in- teresse para a pesquisa, apesar de seus fracos atrativos, assinala aquela singularidade (SODRE, 1964, p. 85).

Portanto, podemos afirmar que o poeta teve grande capacidade em fixar num lampejo os vícios, os ridículos, os desmandos do poder local, valendo-se para isso do engenho artificioso que caracteriza o estilo da época. Os poemas do autor podem ser divididos conforme a temática: poesia sacra (religiosa); poesia lírica e poesia satírica. Nessa abordagem, em sua obra Poesias Selecionadas, é possível identificar a poesia sacra, a poesia satírica e a poesia lírica.

Gregório de Matos

A poesia sacra do autor ilustra a culpa e o arre- pendimento. Sendo assim, a cosmovisão barroca é expressa pela insignificância do homem perante Deus, a consciência clara do pecado e a busca pelo perdão. O tema religioso atrelado a momen- tos verdadeiros de arrependimento é empregado meramente como pretexto para o exercício poé- tico. Ao mesmo tempo em que se opõem, a ideia de Deus e do pecado são complementares. Muito embora Deus detenha o poder da condenação da alma, Ele (Deus) está sempre disposto a perdoar por sua misericórdia e bondade. Essa temática abrange desde os poemas em celebração a festas de santos até os poemas de contrição e de reflexão moral. Essas características são demarcadas e podem ser observadas no seguinte trecho da poesia “A Cristo N. S. Crucificado”:

seguinte trecho da poesia “A Cristo N. S. Crucificado”: ©wikipedia Meu Deus, que estais pendente em

©wikipedia

Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,

Em cuja lei protesto de viver,

Em cuja santa lei hei de morrer,

Animoso, constante, firme e inteiro (GUERRA, 1993).

santa lei hei de morrer, Animoso, constante, firme e inteiro (GUERRA, 1993). OS PRIMEIROS ESCRITOS EM

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 28 - 29

28 - 29

O poeta expressa a compunção religiosa, a crença e a devoção no amor infinito de Cristo, para exprimir, no final, a confiança do perdão. A poesia correspon- dente disfarça uma formulação silogística, ou seja, uma conclusiva, como pode ser observado neste outro trecho:

Esta razão me obriga a confiar, Que, por mais que pequei, neste conflito Espero em vosso amor de me salvar (GUERRA, 1993).

Na poesia “Buscando A Cristo”, é possível perceber a construção de um sistema de metonímias que relaciona as partes de Cristo (“braços”, “olhos”, “pés”, “san- gue”, “cabeça”, “cravos”), suprindo todo o Cristo crucificado. Como pode ser observado em versos como:

A vós, pregados pés, por não deixar-me;

A vós, sangue vertido, para ungir-me;

A vós, cabeça baixa p’ra chamar-me (GUERRA, 1993).

Neles, constrói-se a supressão do verbo que aparecera no 1º verso - “correndo vou”; ocorre, então, o artifício estilístico denominado zeugma (elipse de uma palavra ou expressão próxima no contexto). Desse modo, nos versos mencio- nados, deve-se ler: A vós (correndo vou), pregados pés; e assim sucessivamente. Outro recurso utilizado são as anáforas (repetição de palavra(s) no começo de dois ou mais versos), como pode ser constatado na repetição de “a vós”. Ao passo que no trecho anterior o jogo de ideias é predominante (tendência conceptista), neste, o mais claro é o jogo de palavras por meio das figuras de linguagem (ten- dência cultista). Você deve ter se perguntado que termos são estes: cultismo e conceptismo. Pois bem, são conceitos bastante simples. O cultismo é um recurso comumente empregado na poesia barroca e consiste em promover um cruzamento entre a parte fônica das palavras e a parte colorida (cromática) delas. O cultismo pres- supõe a construção de versos que sugerem imagens por meio de palavras que quando empregadas formam metáforas, sinestesias e outras figuras. Já o conceptismo é a capacidade do escritor em argumentar, em envolver o leitor por meio de palavras que expressam um ponto de vista. Na poesia acima,

Barroco – a Arte dos Contrastes

envolver o leitor por meio de palavras que expressam um ponto de vista. Na poesia acima,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Gregório de

I

Gregório de Matos argumenta acerca de correr para os braços de Cristo, daí o caráter conceptista dos versos. Além de poesia sacra, o poeta dedicou-se à poesia satírica, que são a essência do escritor e lhe renderam o exílio na África, face ao conteúdo crí- tico dos textos. Neles, registrou uma coragem invulgar em caracterizar a crise do homem pós-renascentista, haja vista que tal registro desvela o mecanismo da grande repressão religiosa e política advinda da contrarreforma. A sátira de Gregório de Matos é considerada a primeira voz dos trópicos a focalizar os desmandos e a corrupção em todos os escalões da Bahia seiscentista, mar- cando o início de uma linha de protesto e de consciência crítica na Literatura Brasileira. Assim, sua sátira diagnostica os males do Brasil, acusando os por- tugueses que exploravam barbaramente a colônia, mas sem poupar os nativos impiedosamente criticados pelo seu olhar metropolitano. Logo, em suas sátiras, observam-se a ridicularização e o ataque violento ao clero e a toda a socie- dade baiana da época, descrevendo uma verdadeira crônica da vida colonial brasileira do séc. XVII. A contundência e insistência de suas críticas presentes em suas sátiras lhe renderam o título “Boca de Inferno”, pois alguns desses poemas caracterizavam sentido erótico e pornográfico. Além de zombar de determinadas personalida-

des, Matos critica de maneira geral os vícios da sociedade. Sua extensa galeria de tipos humanos colabora à construção de sua maior e principal personagem

– a Bahia:

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante Estás e estou do nosso antigo estado! Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, Rica te vi eu já, tu a mi abundante (GUERRA, 1993).

Nesse trecho, é possível inferir que o autor identifica-se com a cidade de forma

a compará-la à decadência em que ambos vivem. O poema abandona o tom de

zombaria para expor quase um lamento. Depreende-se desse trecho, extraído de sua obra Poesias Selecionadas, que as sátiras de Matos aborreciam a muita gente; daí ele defender seu direito de escrevê-las. As características descritas e presen-

tes em suas sátiras podem ser observadas também nesses versos:

e presen- tes em suas sátiras podem ser observadas também nesses versos: OS PRIMEIROS ESCRITOS EM

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 30 - 31

30 - 31

Em cada porta um bem frequente olheiro,

Que a vida do vizinho e da vizinha

Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,

Para o levar à praça e ao terreiro (GUERRA, 1993).

A denúncia do poeta nos versos se refere ao cuidar da vida alheia, a análise da

conduta social baiana o levou a criticar as pessoas que se preocupam mais com a vida dos outros do que com a própria vida. Ressalta-se que a escrita ácida do poeta incomodou, e muito, as pessoas da sociedade. Daí a alcunha “Boca do Inferno”. Para Candido (1964, p. 85):

Vamos encontrar em Gregório de Matos uma das singularidades mais expressivas da formação literária na colônia. O simples fato de sua obra servir de motivo a tantas controvérsias e despertar ainda tão grande interesse para a pesquisa, apesar de seus fracos atrativos assinala aquela singularidade. É que, como em todos os repentistas, Gregório foi um misto de homem de letras e de cantador popular; ao mesmo tempo que se esmerava em indicar a posse de cultura ampla, que parece não ter re- almente dominado, buscava aproximar-se dos motivos trivais, rolando para o nível da vulgaridade mais simplória.

As palavras de Candido destacam a importância do autor, em especial pelo fato

do acabamento estético dos textos, não por se valerem de uma linguagem ele- vada, altaneira, mas sim por se valerem do falar popular, de vocabulário simples, sobretudo nos textos satíricos, expressando um lado que Vieira não explorou,

já que preferiu somente a linguagem culta. Em Matos, o elemento popular já é

observado. Também enfatiza a questão da apropriação da linguagem popular

Sodré (1964, p. 88), para o qual:

não menos interessante é o estudo da contribuição de Gregório de Matos para a aproximação entre a linguagem literária e a linguagem popular, pela maneira como introduziu em suas composições não só palavras até então proibidas ou vedadas ou mal-aceitas como expres- sões de uso comum.

Gregório de Matos notabilizou-se pelo aspecto lírico de seus poemas, nos quais

discorre sobre amor e religião. A forma como o poeta abordou estes temas denota

os grandes conflitos do homem do século XVII. Mas o poeta foi além, pois, com

Barroco – a Arte dos Contrastes

denota os grandes conflitos do homem do século XVII. Mas o poeta foi além, pois, com

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I o olhar

I

o olhar de um cronista, ele atacou os poderosos: a elite açucareira, o governo, a

Câmara, a justiça, denunciando seus vícios e a hipocrisia social. Ele foi o poeta capaz de ser mais do que uma figura, ser um “autor porque retrata, sob muitos aspectos, e tipifica, em quase toda a sua obra, o meio e o tempo” (SODRE, 1964, p. 86) de que fala em seus poemas.

PE. ANTONIO VIEIRA

Você deve ter imaginado que a produção de um padre, em um período em que a Igreja impunha regras e dogmas, deve ter sido norteada pela temática religiosa. Porém nos enganamos quando pensamos que a escrita de Vieira era neutra e

cerceada pela religião, na verdade, a crítica dele tem caráter moral, denunciando

a escravidão, a prostituição e a hipocrisia social.

Padre Antonio Vieira

Embora seja português, Padre Antonio Vieira viveu dois terços de sua vida no Brasil. Sua estreia no púlpito se deu em 1633, quando, em

Salvador, ele pregou dirigindo-se aos senhores de engenho, censurando-os por explorarem os escravos. Seus sermões eram escritos em prosa argu- mentativa, valendo-se da estética conceptista para compô-los. Ou seja, desenvolvia um racio- cínio e buscava desenvolvê-lo com argumentos,

a fim de convencer seu público. Por conta de

sua prosa argumentativa, Vieira é considerado

o mestre da oratória em Língua Portuguesa. Mas não nos esqueçamos que em Portugal a Língua Portuguesa também é falada – afinal nós

é que somos o país colonizado – e, como Vieira era português, encontramos seu

nome como representante do Barroco Português. Sodré (1964, p. 84) destaca que:

do Barroco Português. Sodré (1964, p. 84) destaca que: ©wikimedia OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

©wikimedia

do Barroco Português. Sodré (1964, p. 84) destaca que: ©wikimedia OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 32 - 33

32 - 33

a propósito de Vieira, a questão controversa é a de incorporá-lo ou não

à literatura brasileira. Parece que a contenda carece de fundamento.

Não existia literatura brasileira ao tempo em que o jesuíta insigne fazia ouvir sua voz. Era tudo literatura portuguesa, aquela feita na metrópole

e aquela elaborada na colônia.

Notamos que as palavras de Sodré apontam para o fato de que nossa dependência econômica em relação a Portugal fazem com que as composições aqui produzi- das, que eram poucas, aliás, fossem concebidas como literatura portuguesa. Esse sentido, somado ao fato de que não havia no período um grupo consistente de escritores, tampouco de leitores, irá afirmar que o Barroco não se constitui como escola literária, sendo somente uma manifestação. Em relação às características de Vieira, em seus sermões, podem ser citadas:

a presença de trechos bíblicos citados em latim, os quais servem como argumen- tos de autoridade para os argumentos; a capacidade de argumentação engenhosa, por meio de jogo de palavras em que faz analogia entre uma ideia e outra; pre- sença da crítica a favor da moral e dos bons costumes da sociedade. Vejamos um trecho de um dos sermões de Pe. Antonio Vieira, o Sermão dos Peixes.

Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que

faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de

) Enfim, que

havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar o Pregador, que é serem gente os

peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já

)

com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no pri- meiro louvar-vos-ei as vossas atitudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios (BESSELAAR, 1981).

pelo costume quase se não sente (

Suposto isto, para que procedamos

sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? (

No texto, observamos que Vieira usa a imagem dos peixes como analogia para criticar os vícios dos colonos portugueses em escravizar os índios e sujeitá-los

a seu poder. Também observamos que o discurso é construído pelo argumento

de autoridade bíblico, pois logo no início lembra que o homem é ou deveria ser

o sal da terra, mas como não é, precisa ser repreendido.

Barroco – a Arte dos Contrastes

que o homem é ou deveria ser o sal da terra, mas como não é, precisa

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Por tratar

I

Por tratar de temas tão afins a nossa sociedade, como o abuso de poder, a decadência dos preceitos morais e hipocrisia social, Pe. Antonio Vieira tornou -se um autor cuja atualidade não pode ser questionada. Portanto, os sermões da segunda metade do século XVI ainda continuam servindo a nossa sociedade.

do século XVI ainda continuam servindo a nossa sociedade. Face à contribuição que Gregório de Matos

Face à contribuição que Gregório de Matos e Pe. Antonio Vieira nos ofere- cem por meio de seus textos em relação aos problemas inseridos na Bahia, sugerimos que o artigo intitulado António Vieira e Gregório de Matos, per- sonagens de romance da ‘triste Bahia’ colonial, da pesquisadora do CNPq – Conselho Nacional de Pesquisa, Maria Theresa Abelha Alves, seja lido. A autora enfatiza a sátira e a crítica dos dois autores, analisando textos e apon- tando os vícios denunciados por eles.

Disponível em: <http://www.uefs.br/nep/labirintos/edicoes/02_2010/01_ dossie_maria_theresa_abelha_alves.pdf>. Acesso em: 20 set. 2013.

ARCADISMO

Acesso em: 20 set. 2013. ARCADISMO ©wikipedia OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS
Acesso em: 20 set. 2013. ARCADISMO ©wikipedia OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

©wikipedia

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Vamos começar esta seção com uma pergunta: você sabe o que é bucolismo? Trata-se do termo empregado para se referir à integração serena entre o homem e a paisagem natural. Ao obser- var a tela ao lado, pintada pelo francês Watteau, podemos reconhecer o con- ceito de bucolismo. Mulheres e homens aproveitam o sossego que a natureza oferece, nota- mos também que a tela traz, ao fundo, elementos que retomam conceitos clás- sicos, como a estátua da mulher sobre o muro e a peça em forma de taça.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 34 - 35

34 - 35

Enquanto a vida na cidade é agitada, no campo, a harmonia e a tranquilidade estão presentes, e a tela do francês Watteau aponta para essa ideia. Mas o que poderia ter motivado a pintores e a poetas a produção de uma arte que valoriza a natureza, o meio natural, a vida em harmonia? Durante o século XVIII, a Europa assistiu à elevação da burguesia. Ainda que

o regime Absolutista, juntamente com a Igreja Católica, desse à nobreza o con-

trole da sociedade, já não era possível controlar a influência da burguesia, que

tingiu a Arte e a Literatura de novas tonalidades. Os valores barrocos estavam superados, pois na concepção do homem do século XVIII, era necessário compor uma obra literária que retomasse os padrões clássicos artísticos do Renascimento, deixando de lado a dualidade barroca que expressava o homem em conflito. O Século das Luzes! É assim que o século XVIII é concebido, momento em que a força da Inquisição Católica vai perdendo espaço para a retomada do saber, para uma arte leve, cujos valores de imitação da natureza, presença da mitologia grega e dos valores que remetem ao equilíbrio do homem estão em alta. É nesse contexto europeu que se desenvolveu uma nova estética literária, a saber: o Arcadismo. O termo refere-se a uma região lendária da Grécia chamada Arcádia, morada do deus Pan. No Brasil, o século XVIII marcou a entrada de escritores enquanto grupo, fundaram-se à época várias sociedades literárias. Na visão de Candido (1964), o Arcadismo brasileiro constitui o primeiro esforço conjunto de criação de uma Literatura nacional, embora estivesse ainda ligada

e dependente do que se fazia na Europa. Sobre o contexto cultural em que se desenvolvem os valores árcades, sabe- mos que a economia mineradora fez de Minas Gerais importante polo cultural

e econômico do país, além disso, Rio de Janeiro e, ainda que em menor escala,

São Paulo, passaram a ser povoadas e saíram do estado de isolamento em rela- ção a Minas, Pernambuco e Bahia. Os ideais do Iluminismo – Igualdade, Liberdade e Fraternidade – que enchiam

a vida europeia, sobretudo a França, lugar em que a burguesia já preparava a

tomada do poder, a qual veio a ocorrer em 1789, com a Queda da Bastilha, tam- bém são nutridos no Brasil e, em Minas Gerais, a Inconfidência Mineira também visava tirar do poder a Coroa Portuguesa, fazendo com que o estado se tor- nasse independente. Daí o fato de, na bandeira de Minas Gerais, encontrarmos

Barroco – a Arte dos Contrastes

se tor- nasse independente. Daí o fato de, na bandeira de Minas Gerais, encontrarmos Barroco –

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I os versos

I

os versos do Virgílio: Libertas quae será tamen, que poderia ser traduzida por ‘liberdade ainda que tarde’.

CARACTERÍSTICAS DA LITERATURA ÁRCADE

É muito comum ouvirmos o termo ‘Poesia da Natureza’ para se referir ao Arcadismo, ou ainda o termo Neoclassicismo, já que o período retoma os valores clássicos. Em relação ao termo ‘Poesia da Natureza’, ele se justifica porque nas com-

posições árcades é posta em evidência a exaltação da natureza, do homem em

contato com o meio natural em busca de equilíbrio e tranquilidade. A natureza

é o lugar que permite a reflexão, a busca pela razão. Além disso, o Arcadismo

faz referência ao bucolismo, e está disposto a fazer valer a simplicidade e o equi- líbrio perdidos no Barroco. Os poetas árcades, em busca de retomar os valores da Literatura clássica, ele- geram alguns termos em latim que, nos poemas, eram referenciados por meio de elementos que exaltavam a ideia neles contidas.

Fugereurbem (fuga da cidade).

Locusamoenus (lugar aprazível, ameno).

Aurea Mediocritas (mediocridade áurea - simboliza a valorização das coisas cotidianas focalizadas pela razão).

Inutiliatruncat (cortar o inútil - eliminar o rebuscamento barroco).

Carpe diem (aproveite o dia).

Além desses termos, a adoção de pseudônimos latinos também era um recurso empregado pelos poetas, o qual permitia aos poetas não serem identificados e

como a Igreja ainda exercia certa influência sobre as produções literárias, podendo até proibi-las, o pseudônimo era uma forma de manter neutra a identidade do poeta, que pertencia à alta sociedade brasileira. Vejamos os versos de Claudio Manoel da Costa, extraídos de Poemas Escolhidos,

e observemos de que modo são referenciados os elementos latinos.

Escolhidos , e observemos de que modo são referenciados os elementos latinos. OS PRIMEIROS ESCRITOS EM

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Quem deixa o trato pastoril amado Pela ingrata, civil correspondência Ou desconhece o rosto da violência, Ou do retiro a paz não tem provado (COSTA, s/d, p. 07).

Ou do retiro a paz não tem provado (COSTA, s/d, p. 07). 36 - 37 Nos

36 - 37

Nos versos, o eu-lírico, isto é, a voz que se manifesta no poema, chama a atenção ao que se distancia do pastoril amado, ou seja, do campo, para viver na cidade, pois o que assim age, não conhece a violência da cidade ou nunca provou da paz que a vida retirada do meio urbano oferece. Assim, temos o fugere urbem sendo expresso, assim como a valorização do lócus amoenus, ou lugar tranquilo.

TOMÁS ANTONIO DE GONZAGA

amoenus , ou lugar tranquilo. TOMÁS ANTONIO DE GONZAGA Embora filho de pai brasileiro, Gonzaga nasceu

Embora filho de pai brasileiro, Gonzaga nasceu e viveu em Portugal até os 7 anos de idade, momento em que seu pai foi nomeado ouvidor-geral em Recife e a família para lá se mudou. Ele, no entanto, foi enviado, pouco tempo depois, para a Bahia, onde estudou no colégio jesu- íta de Salvador.

Tomás Antônio Gonzaga Formou-se em Direito em Coimbra em 1768 e, em 1782, já de volta ao Brasil, assumiu o posto de ouvidor-geral em Vila Rica. Um ano depois, Gonzaga publicou Cartas Chilenas, livros nos quais ridiculariza o prepotente governador de Minas, Luís da Cunha Menezes. Também neste ano conhece Maria Joaquina Doroteia de Seixas, a qual viria a se tornar musa de seus poemas. Suas obras mais significativas são: Marília de Dirceu e Cartas Chilenas. Na primeira, o poeta compôs versos que demonstram a paixão de um homem

©wikimedia

Barroco – a Arte dos Contrastes

. Na primeira, o poeta compôs versos que demonstram a paixão de um homem ©wikimedia Barroco

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I maduro por

I

maduro por uma jovem de 17 anos. Os aspectos latinos mencionados anterior- mente estão presentes, por meio deles, o eu-lírico coloca-se como pastor que deseja estar com a amada em ambientes campesinos, tranquilos para que, jun-

tos, possam ser felizes. A primeira parte do livro, dividida em 23 liras, ou seja, os poemas, caracterizam-se pelo amor de Dirceu a Marília, sua musa. Notamos que Dirceu é o pseudônimo latino escolhido por Gonzaga, e Marília é a própria Maria Doroteia, a jovem por quem Gonzaga era apaixonado, ficou noivo, mas quando preso, foi proibido e impedido de com ela ficar. Já a segunda parte do livro, contendo 32 liras, foi escrita durante os três anos em que Gonzaga esteve preso, acusado de participar da Conjuração Mineira, ou seja, no Movimento de Inconfidência cujo objetivo era que Minas se tor- nasse independente da Coroa Portuguesa. Os versos que compõem a segunda parte não trazem mais a leveza e a felicidade de amar, mas sim o drama político vivido pelo poeta. Assim, enquanto as liras da primeira parte valorizam a aurea mediocritas e o lócus amoenus, com versos que trazem o equilíbrio existencial e

a natureza como espaço da paz e serenidade, na segunda parte o lócus horren- dus aponta para o desequilíbrio emocional do poeta. Ao observar as liras abaixo, você perceberá como essa mudança de estado do eu-lírico é percebida. Trecho da primeira parte de Marília de Dirceu:

Ornemos nossas testas com as flores,

e façamos de feno um brando leito;

prendamo-nos, Marília, em laço estreito, gozemos do prazer de sãos amores. Sobre as nossas cabeças, Sem que o possam deter, o tempo corre;

e para nós o tempo que se passa também, Marília, morre (GONZAGA, s/d, p. 19).

Observamos que o eu-lírico convida a amada para que façam um leito de amor com feno, cubram de flores a testa e vivam o amor, pois o tempo passa rápido

e impossível é detê-lo. Assim, os ideais de carpe diem, e de lócus amoenus estão

é detê-lo. Assim, os ideais de carpe diem , e de lócus amoenus estão OS PRIMEIROS

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 38 - 39

38 - 39

presentes, pois é de modo simples que Dirceu deseja viver com Marília e, como

o tempo é rápido, é preciso aproveitar a vida. Trecho da segunda parte de Marília de Dirceu.

Estou no inferno, estou Marília bela;

e uma coisa só é mais humana

a minha dura estrela;

uns não podem mover do inferno os passos;

eu pretendo voar e voar cedo

à glória dos teus braços.

Notamos que a palavra inferno já aponta para os sentimentos de mal-estar, de tris- teza e dor que envolvem o eu-lírico. O lócus horrendus, ou seja, o lugar horrível, sem tranquilidade e paz, é marcado. Além dos elementos latinos, que marcam a produção árcade, notamos nos versos a influência clássica na composição. Veja, por exemplo, que, na estrofe da primeira parte, há rimas intercaladas (corre 6º verso com morre 8º verso), rimas aparelhadas (leito 2º verso e estreito 3º verso). Outro aspecto diz respeito ao ritmo do texto, notamos que os versos são decas- sílabos, isto é, têm dez sílabas poéticas cada, mas no 5º e no 8º versos a métrica

é de seis sílabas poéticas. Essa preocupação com a forma do texto é típica da

escola clássica, os poetas árcades valem-se desses preceitos em suas composições. Antonio Candido, no célebre livro Na sala de aula (1995), brinda-nos com uma bela análise dos versos de Gonzaga, destacando os elementos sonoros, ima- géticos e poéticos do texto. A leitura desse livro é instrumento necessário ao professor que deseja apurar seu olhar para a leitura analítica de poemas.

Sodré (1964, p. 115) enfatiza que:

existia em Gonzaga, fora de qualquer dúvida, o verdadeiro talento, a capacidade de traduzir em versos os seus sentimentos. Mesmo des- crevendo cenas a que a escola obrigava, as campestres, por exemplo, existia em Gonzaga o sentimento íntimo e a naturalidade de expressão capazes de neutralizar aquela subordinação, que não deixava de estar presente e que, por isso mesmo, transparece em todos os seus versos.

Assim, observamos que o crítico destaca o fato de Gonzaga ter produzido poe- mas que vão além da reprodução das características do Arcadismo, como os

Barroco – a Arte dos Contrastes

poe- mas que vão além da reprodução das características do Arcadismo, como os Barroco – a

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I latinismos, por

I

latinismos, por exemplo. Esse é, pois, o motivo que deu a Gonzaga destaque den- tre tantos outros poetas árcades. Em Gonzaga, temos versos que demonstraram ter sido o poeta de expres- sividade capaz de romper com os limites do Arcadismo, afirmamos isso porque na segunda parte de Marília de Dirceu, nos deparamos com elementos que já apontam para a tristeza e a melancolia presentes na poesia romântica.

a tristeza e a melancolia presentes na poesia romântica. Antonio Candido (1959), ao analisar as produções

Antonio Candido (1959), ao analisar as produções literárias do período árca- de brasileiro, enfatiza que o fato de os poetas terem preferido a poesia pas- toral pode ser justificado ao desenvolvimento urbano. Assim, a Literatura Ár- cade opõe as linhas artificiais da cidade à paisagem natural, a exaltação do campo transforma este em um bem perdido, que o homem citadino já não alcança. Desse modo, as manifestações da natureza na poesia árcade apon- tam uma forma do homem elevar seus sentimentos de amor, libertar-se dos valores corrompidos pelo progresso e pelas imposições da vida urbana.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por meio das discussões suscitadas nesta unidade, foi possível perceber que a Literatura Brasileira, em seus primórdios, caminhou juntamente com a História e em muito seguiu o que acontecia na Europa. Você também observou que os séculos XVI e XVII tiveram composições poéticas marcadas pela influência da Igreja, seja a presença da Literatura Jesuíta ou o impacto que a Inquisição causou nas composições barrocas. Ademais, buscamos em cada período demonstrar, com os trechos das obras comentadas, que o estilo de uma época é marcado pela presença de recursos estilísticos incorporados ao texto poético, por exemplo, os latinismos árcades, a dualidade barroca, ou o teatro religioso dos jesuítas. Esta unidade aguçou, certamente, seu desejo de saber mais, de ler sobre nossa formação literária e buscar obras dos períodos comentados, a fim de refinar seu

literária e buscar obras dos períodos comentados, a fim de refinar seu OS PRIMEIROS ESCRITOS EM

OS PRIMEIROS ESCRITOS EM TERRAS BRASILEIRAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 40 - 41

40 - 41

olhar como leitor(a) e, sobretudo, como professor(a) em formação. Por isso, as atividades que seguem visam auxiliá-lo(a) na compreensão dos textos, resolva-as com atenção e continue lendo sempre, pois conhecimento sempre é bem-vindo.

Considerações Finais

textos, resolva-as com atenção e continue lendo sempre, pois conhecimento sempre é bem-vindo. Considerações Finais
1. A estrofe do Auto de São Lourenço traz a ideia de aculturação pela qual

1. A estrofe do Auto de São Lourenço traz a ideia de aculturação pela qual passaram os índios, no texto, os rituais do pajé são mencionados com certo descaso. Analise os versos e escreva sua interpretação deles, indicando os elementos que contri- buem para a visão de que os rituais indígenas não têm valor ou têm pouco valor.

Dos vícios já desligados

nos pajés não crendo mais,

nem suas danças rituais, nem seus mágicos cuidados.

2. Considere as afirmativas sobre Barroco e o Arcadismo:

a. Simplificação da língua literária, imitação dos antigos gre- gos e romanos.

b. Valorização dos sentidos – imaginação exaltada – emprego dos vocábulos raros.

c. Vida campestre idealizada como verdadeiro estado de poe- sia-clareza-harmonia.

d. Emprego frequente de trocadilhos e de perífrases – malaba- rismos verbais – oratória.

e. Sugestões de luz, cor e som – antítese entre a vida e a morte – espírito cristão antiterreno.

Cada uma dessas informações está relacionada ou ao Arcadismo, ou ao Barroco, leia-as com atenção, descreva e explique a que período se referem, justificando sua resposta.

MATERIAL COMPLEMENTAR

42 - 43
42 - 43
Filme: Hans Staden Diretor: Luiz Alberto Pereira Ano: 1999 Sinopse: Na imagem ao lado, temos
Filme: Hans Staden
Diretor: Luiz Alberto Pereira
Ano: 1999
Sinopse: Na imagem ao lado, temos o cartaz do filme Hans Staden,
que vale a pena assistir justo porque, tanto no relato do alemão
quanto no filme, há aspectos antropológicos, culturais e sociológicos
dos índios em destaque. O cineasta Luiz Alberto Pereira ganhou
prêmios no Brasil e nos Estados Unidos com o filme. Nele, o trabalho
com a linguagem é explicitado, pois todos os atores valem-se, em
grande parte das cenas, da língua Tupi.
Fonte: <http://www.dw.de/1576-morre-hans-staden-autor-de-
relato-de-viagem-sobre-brasil/a-3241936>.Acesso em: 17 set. 2013.
Boca do Inferno Ana Miranda Editora: Companhia das Letras Sinopse: Ana Miranda, escritora contemporânea brasileira
Boca do Inferno
Ana Miranda
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: Ana Miranda, escritora contemporânea brasileira que
costuma escrever romances históricos, publicou Boca do Inferno,
pela Companhia das Letras. A história se passa no Brasil colônia, um
crime movimenta a cidade que viria a ser Salvador na Bahia. Muito
da narração acontece em torno do poeta Gregório de Matos e o seu
envolvimento com a desavença entre as partes. O livro permite-nos
uma visão acerca de nossa herança malograda de corrupção.
Na Sala de Aula Antonio Candido Editora: Ática Sinopse: Ao longo do século XX, Antonio
Na Sala de Aula
Antonio Candido
Editora: Ática
Sinopse: Ao longo do século XX, Antonio Candido foi o pesquisador
que mais contribuiu para o entendimento da formação do sistema
literário brasileiro. Para ele, o Arcadismo é o início de nossa literatura
porque nos apresenta autores diversos e um público de leitores,
formados pela elite nacional, receptivos às obras aqui produzidas.
No livro Na sala de aula, disponível integralmente no link abaixo,
podemos compartilhar da capacidade interpretativa de Candido e
com ele aprender mais sobre o Arcadismo brasileiro.
Disponível em: <http://www.slideshare.net/suhwindflower/
antonio--na-sala-de-aula>. Acesso em: 24 set. 2013.
Material Complementar
II UNIDADE Professora Me. Claudia Vanessa Bergamini A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA
II UNIDADE
II
UNIDADE
II UNIDADE Professora Me. Claudia Vanessa Bergamini A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA

Professora Me. Claudia Vanessa Bergamini

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Objetivos de Aprendizagem

Apresentar os aspectos essenciais à formação da prosa literária brasileira.

Compreender a importância do Romantismo para a construção de uma identidade nacional.

Destacar os elementos científicos que influenciaram a produção literária do século XIX.

Perceber a prosa de Machado de Assis como principal marco de um amadurecimento literário em nossa Literatura.

Conhecer a poesia parnasiana e simbolista e os elementos de que são constituídas.

Plano de Estudo

A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:

Romantismo no Brasil

Realismo e Realismo-Naturalismo

Parnasianismo

Simbolismo

estudará nesta unidade: ■ Romantismo no Brasil ■ Realismo e Realismo-Naturalismo ■ Parnasianismo ■ Simbolismo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

INTRODUÇÃO

Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. INTRODUÇÃO 46 - 47 Passado o

46 - 47

Passado o século XVIII, um novo contexto social se formou. A Europa vive o momento de grande desenvolvimento industrial e conta com a burguesia no poder. Junto ao acelerado processo de industrialização europeu, surgem ques- tões de ordem social, como a má distribuição de renda, o lugar do proletariado

e

da burguesia na sociedade. Todo esse contexto irá influenciar o fazer artístico

e

literário, não somente na Europa, mas também no Brasil.

Nas primeiras décadas do século XIX, deparamo-nos com o Romantismo, escola literária que valorizava sobremaneira o modo de vida burguês, seus hábitos

e costumes. Mas, à medida que os problemas sociais saltam aos olhos, um novo

olhar sobre a sociedade e suas configurações fez com que os autores produzis-

sem textos que mais se assemelhassem com a realidade vivida naquele período. Falamos do surgimento de uma escola literária denominada Realismo, por meio da qual a realidade passa a ser tematizada pela Literatura e a crítica social tor- na-se presente nos enredos. Nesta unidade, vamos estudar as produções literárias do século XIX. Você irá perceber que a Literatura Brasileira ganha matizes bastante realistas neste período, além de muitas obras buscarem exaltar as coisas do Brasil. Nomes como Alencar e Machado de Assis são lembrados como muito representativos no desenvolvimento da Literatura do século XIX, contribuindo, inclusive, para

o amadurecimento de nosso sistema literário. Boa leitura e bom estudo a você!

ROMANTISMO

Certamente você já empregou o termo romântico para se referir a uma situação em que o amor envolvia duas pessoas ou, então, percebeu alguém ser taxado de romântico só porque escreve poemas de amor ou gosta de enviar flores. Essa apropriação do termo romântico, para se referir a situações como as descritas

Introdução

de enviar flores. Essa apropriação do termo romântico, para se referir a situações como as descritas

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II acima, não

II

acima, não está equivocada. Porém, o Romantismo, enquanto escola literária, tem muito mais a ser discutido do que somente atitudes de escritas de textos e poema. Na verdade, trata-se de uma escola literária que aflorou na Europa no momento em que os burgueses tomavam a Bastilha, derrubando o poder abso- luto do Rei. Isso aconteceu em 1789, quando os ideais Iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade foram motivadores para a Revolução Francesa. Conforme destacou Sodré (1964), no Brasil, no âmbito político, os movimen- tos que propiciaram a Revolução Francesa são observados por meio do processo de independência em relação a Portugal, que acontecera em 1822. No âmbito econômico, ocorreu a abertura dos portos, em 1808, o que permitiu o comércio livre entre Estados Unidos, Inglaterra e Portugal, com mercadorias saindo do Brasil. Já no âmbito literário, a Revolução Francesa permitiu o clarear de uma nova concepção estética, o Romantismo, o qual se consolidou como a arte de expressão da burguesia, agora dona do poder. Como característica dessa nova

expressão artística, temos a valorização do sonho e da fantasia, das forças cria- tivas do indivíduo e da imaginação popular. Tais características podem ser vistas no interesse dos românticos europeus em figuras como Drácula, Don Juan, cuja conotação diabólica remete à ima- ginação e à fantasia populares, além de valorizar o sonho. Ou ainda pode ser destacado o enredo amoroso dos livros que trazem como marca do romantismo

o amor impossível, incapaz de ser concretizado. A valorização do sonho e da fantasia coloca os poetas românticos em condição

de oposição em relação aos poetas árcades. Assim, podemos dizer que o Romantismo

é a escola da emoção, enquanto o Arcadismo pendia para a Razão. Para os român-

ticos, importa a subjetividade, a inspiração baseada nos momentos fortes da vida,

no sonho, na fé, na saudade, no sentimento e na força das lendas nacionais. Enquanto o Arcadismo preferiu versos como expressão literária, o Romantismo preferiu a prosa. Na verdade, temos muitos poetas românticos, pois o verso não

é abolido, porém, é na prosa que o Romantismo ganha expressividade, com os romances românticos.

O primado do romance, tornado o gênero literário por excelência, pro- porciona a melhor ponte, o caminho natural para os espíritos; genera- liza o gosto da leitura, incorpora novas e amplas camadas de interesse

da leitura, incorpora novas e amplas camadas de interesse A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX –

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 48 - 49

48 - 49

literário, permite celebridade, sucesso variado ao romancista, tornan- do-o um instrumento fácil e flexível, capaz de interpretar a sociedade a seu modo, apto a aceitar, defender e difundir o primado da classe que atinge a plenitude do seu poder ao mesmo tempo em que geram os fatores que concorrerão para a sua ruína, porque ela oferece liberdade reproporciona uma disfarçada escravidão, que é imprescindível disfar- çar sempre mais.

O romance é, então, o modo de expressão da burguesia, sua forma livre pressupõe

a liberdade, o subjetivismo nele presente pressupõe a exposição dos sentimen-

tos do eu, desprendido dos convencionalismos sociais. Cabe destacar que o romance é o gênero literário que se refere a grandes nar- rativas em prosa, nas quais as histórias dos personagens se entrelaçam. Porém, não podemos nos prender a essa classificação, pois, conforme apontam os teóricos que se voltaram ao estudo do gênero, desde a sua ascensão e consolidação com

o Romantismo, o gênero romance é heterogêneo, modificável, exemplo disso é a

capacidade de mesclar à narrativa trechos poéticos, como Alencar fez no romance

Iracema. Desse modo, conceituar romance como gênero definido e imutável tor- na-se difícil na Literatura, mas o importante é saber que se trata de um gênero que se firmou para atender aos interesses da burguesia dominante do século XIX.

O ROMANTISMO NO BRASIL

No ano de 1836, Gonçalves de Magalhães publicou, na França, o livro Suspiros Poéticos e Saudades, trata-se do livro que marca o início do Romantismo no Brasil. Vivíamos os anos posteriores da Independência em relação a Portugal, e

o Romantismo brasileiro se desenvolve nesse contexto em que a independência

política exige apego e valorização daquilo que é nacional. Autores como Gonçalves Dias, nos versos, e José de Alencar, na prosa, contri- buíram sobremaneira para a construção de uma Literatura que, embora tenha como base o modelo europeu e as ideias advindas do velho continente, conseguiu colocar em evidência elementos genuínos de nossa nação, inclusive problematizando-os. Em célebre artigo intitulado ‘Notícias da atual Literatura Brasileira’, dispo- nível em <http://www.ufrgs.br/cdrom/assis/massis.pdf> (Acesso 30 set. 2013),

Romantismo

Brasileira’, dispo- nível em <http://www.ufrgs.br/cdrom/assis/massis.pdf> (Acesso 30 set. 2013), Romantismo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Machado de

II

Machado de Assis destaca a qualidade com que escritores como Alencar descre-

vem os elementos de nossa fauna e flora, dando ao texto literário ‘cor local’. Para Machado de Assis, os romances românticos de autores como Bernardo Guimarães

e José de Alencar apoderaram-se de todos os elementos da natureza americana

cuja magnificência e esplendor naturalmente desafiam a poetas e prosadores de invenção. Ainda complementa Machado que:

Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como

primeiro traço, certo instinto de nacionalidade. Poesia, romance, todas

as formas literárias do pensamento buscam vestir-se com as cores do

país (Disponível em: <http://www.ufrgs.br/cdrom/assis/massis.pdf>. Acesso em: 30 set. 2013).

Outra contribuição teórica para entendermos a importância dada pelos român- ticos aos elementos nacionais vem de Antonio Candido, para o qual:

O Romantismo brasileiro foi inicialmente (e continuou sendo em parte

até o fim) sobretudo nacionalismo. E nacionalismo foi antes de mais nada escrever sobre coisas locais. Daí a importância da narrativa ficcio- nal em prosa, maneira mais acessível e atual de apresentar a realidade (2002, p. 39).

Conforme observamos, a partir da fala de Candido e Machado, o Romantismo foi uma escola literária desprovida de crítica social, mas serviu para que os escri- tores brasileiros, ainda que embasados em uma visão europeia, já que os ideais românticos nascem na Europa, valorizassem elementos nacionais, de nossa cul- tura e de nossa realidade local. Didaticamente, o Romantismo brasileiro apresenta uma divisão clássica em três períodos: a primeira fase retrata um romantismo com valorização do nacional,

a segunda aponta um romantismo individualista, subjetivo ou ultrarromântico

– caracterizado pelo “mal do século” – e a terceira e última fase é aquela em que se apresenta um romantismo político-social, no qual aparecem reflexões e ques- tionamentos sobre, por exemplo, a questão da escravatura. Na realidade, esta divisão não se aplica de modo sistemático, pois pode- mos encontrar livros que destoam dessa classificação, mas em termos didáticos, ela se torna importante para compreensão de muitos textos produzidos dentro dessa escola literária.

de muitos textos produzidos dentro dessa escola literária. A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 50 - 51

50 - 51

Vejamos o poema de Gonçalves Dias, ‘Canção do Exílio’. Certamente você

já se deparou com os versos do poeta maranhense. Sugerimos que acesse o link

<http://www.youtube.com/watch?v=UFV50WmPX4M> (Acesso em: 04 out. 2013) e ouça a bela declamação do poema, por meio do qual a pátria é exaltada,

e Portugal, lugar onde o poeta estava enquanto cursava Direito, é o lugar des-

crito como sem a natureza exeburante e bela que nos oferece o Brasil. Notamos

que os dêiticos ‘aqui’ e ‘lá’ contribuem para a ideia de que onde ele está não tem

o que o ‘lá’, ou seja, o Brasil, onde ele gostaria de estar, oferece. Outro poema bastante significativo de Gonçalves Dias que merece ser comen- tado é Marabá, cujas primeiras estrofes são descritas abaixo.

Eu vivo sozinha, ninguém me procura!

Acaso feitura

Não sou de Tupá!

Se algum dentre os homens de mim não se esconde:

— “Tu és”, me responde,

“Tu és Marabá!”

— Meus olhos são garços, são cor das safiras,

— Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;

— Imitam as nuvens de um céu anilado,

— As cores imitam das vagas do mar!

(Disponível em: <http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/goncal- ves-dias/maraba.php>. Acesso em: 05 out. 2013).

A discussão proposta pelo poeta será ampliada por Alencar em Iracema e pelos

poetas modernistas em 1922. Trata-se do lugar do índio na sociedade brasileira.

O índio é tomado como herói pelos poetas românticos, por ser ele o represen-

tante genuíno de nossas terras. Porém, sabemos que a idealização do índio ocorre

somente na Literatura, pois na verdade, ele nunca foi tratado como herói, tam- pouco teve sua imagem idealizada pela sociedade. A índia que, sendo fruto da miscigenação, questiona qual é o seu lugar, pois não é reconhecida pelo branco, uma vez que tem sangue indígena e, por outro

Romantismo

qual é o seu lugar, pois não é reconhecida pelo branco, uma vez que tem sangue

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II lado, seus

II

lado, seus traços europeus, como os olhos verdes, cor da safira, fizeram com que a tribo não a reconhecesse como integrante. Desse modo, ela pergunta aos poucos que dela não se escondem se é ou não pertencente à tribo dos Marabás. Com esse poema, Gonçalves Dias demonstra ter compreensão dos proble- mas inerentes à população de países miscigenados, como o Brasil. Verificamos que até hoje o lugar do mulato, do índio e do negro é discutido em nosso meio. Desse modo, a preocupação romântica em apresentar a “cor local” focaliza

o índio como elemento central que representa a brasilidade, ou seja, representa

as “coisas do Brasil”. Nosso índio figura como o representante da cultura nacio- nal, mas teve como paralelo formador uma relação unilateral com o europeu civilizado. Em I-Juca Pirama, por exemplo, poema épico romântico, Gonçalves Dias após enaltecer o caráter honrado da figura indígena a coloca às voltas com

a Antiguidade grega, na tentativa de enaltecer sua linhagem, denunciando o que

poderíamos chamar de máscara externa na matriz nacionalista. Longe do teor dessas discussões, Álvares de Azevedo dá ao Romantismo brasileiro outra nuance. Influenciado por Lord Byron, Goethe, dentre outros românticos europeus, ele foge da discussão de Gonçalves Dias e propõe a uni- versalização de nossa Literatura, ou seja, que não foque temas nacionais, como fizeram Alencar e Dias, mas sim universais. Sua poesia é lírica sentimental e, em alguns poemas, notamos um ar irô- nico, nesse caso, o sentimento também é tematizado, mas a partir de uma visão jocosa. Álvares de Azevedo (1900), demonstrando, na verdade, extrema lucidez, questiona essa tendência ao observar que nossos poetas “falam nos gemidos da

noite no sertão, nas tradições das raças perdidas das florestas, nas torrentes das ”

(p. 243). Azevedo

serranias, como se lá tivessem dormido ao menos uma noite

deixa transparecer que o “embelezamento” da natureza brasileira revela o false-

amento das verdadeiras particularidades de nossa jovem nação, prejudicando, com isso, o ímpeto original desejado pelos românticos. Candido, ainda que reconheça todo o esforço romântico para exaltar nossa nação, afirma que:

o indianismo dos românticos preocupou-se sobremaneira em equipa-

rá-lo qualitativamente ao conquistador, realçando ou inventando as- pectos do seu comportamento que pudessem fazê-lo ombrear com este

– no cavalheirismo, na generosidade, na poesia (1969, p. 21).

no cavalheirismo, na generosidade, na poesia (1969, p. 21). A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX –

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 52 - 53

52 - 53

Desse modo, observamos uma dualidade no Romantismo, por um lado, temos o caráter nacionalista e indianista sendo exaltado, mas por outro, Azevedo e Candido apontam para o falseamento dessa valorização. Como seguidor de Byron, seus poemas são ultrarromânticos, isto é, há a pre- dominância da fantasia, do subjetivismo e da autocontemplação. A mulher está sempre presente, mas não como presença física, o poeta prefere imagens fanta- siosas, de virgens, mortas, envoltas em nevoas de sonhos e ondas de perfume. Para conhecer um pouco do que escreveu esse poeta, leiamos o poema abaixo:

Se eu morresse amanhã

Se eu morresse amanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã;

Minha mãe de saudades morreria

Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!

Que aurora de porvir e que manhã!

Eu perdera chorando essas coroas

Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva

Acorda a natureza mais louçã!

Não me batera tanto amor no peito

Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora

A ânsia de glória, o dolorido afã

Romantismo

amor no peito Se eu morresse amanhã! Mas essa dor da vida que devora A ânsia

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

©wikimedia

Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. ©wikimedia II A dor no peito

II

A dor no peito emudecera ao menos

Se eu morresse amanhã!

(Disponível em: <http://www.jornaldepoesia.jor.br/avz7.html#- seeumorresse>. Acesso em: 10 out. 2013).

O

texto apresenta um singelo conjunto das tendências do lirismo sentimental

de

Azevedo. A morte é tratada como se fosse a possibilidade do dia seguinte, é

evidente que qualquer pessoa pode morrer amanhã, mas na ótica romântica ela é um prêmio e sobre ela se reflete sem medo, sem ponderação. Quanto ao plano formal do poema, notamos que todos os versos são decassí- labos, mas o último verso de cada estrofe, ‘Se eu morresse amanhã’, é hexassílabo, ou seja, tem seis sílabas poéticas, incutindo um ritmo diferente ao texto e funcio- nam tais versos como refrão. Outro aspecto é a liberdade em relação às rimas, há semelhanças fonéticas entre as finalizações dos versos, como em ‘afã’ com ‘louçã’, mas as rimas não ocorrem de modo regular, o que aponta para a liberdade for- mal desejada pelos poetas românticos, em especial Azevedo. Para Sodré (1964, p. 221):

O melhor de Álvares de Azevedo, aquilo que atravessará o tempo, está, sem dúvida, nos versos de tristeza e de prematura saudade, nos pres- ságios da morte, em tudo o que a sua apurada sensibilidade deixou transparecer e a que emprestou, além da técnica da métrica, o calor da participação.

Castro Alves

da métrica, o calor da participação. Castro Alves Castro Alves, nome que também está inserido como

Castro Alves, nome que também está inserido como represen- tante do Romantismo Brasileiro, dedicou textos à morte, ao amor idealizado, tal qual fez Álvares de Azevedo. Porém, são os textos que discutem a situação do escravo no Brasil Imperial que deram a Castro Alves o reconhecimento maior de sua poesia. Conhecido como Poeta dos Escravos, a poesia libertá- ria ou condoreira de Castro Alves discute os maus-tratos

ria ou condoreira de Castro Alves discute os maus-tratos A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX –

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 54 - 55

54 - 55

e a violência com que eram tratados os negros quando vinham de África, como vemos nos versos de Navio Negreiro.

Era um sonho dantesco

Que das luzernas avermelha o brilho. Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros

Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a dançar

o tombadilho

estalar de açoite

Negras mulheres, suspendendo às tetas Magras crianças, cujas bocas pretas Rega o sangue das mães:

Outras moças, mas nuas e espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas, Em ânsia e mágoa vãs!

E

ri-se a orquestra irônica, estridente

E

da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais

Se o velho arqueja, se no chão resvala,

Ouvem-se gritos

E voam mais e mais

o chicote estala.

Presa nos elos de uma só cadeia,

A

multidão faminta cambaleia,

E

chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece, Outro, que martírios embrutece,

Romantismo

cambaleia, E chora e dança ali! Um de raiva delira, outro enlouquece, Outro, que martírios embrutece,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Cantando, geme

II

Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,

E após fitando o céu que se desdobra,

Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei-os mais dançar!

E

ri-se a orquestra irônica,

E

da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais

Qual um sonho dantesco as sombras voam!

Gritos, ais, maldições, preces ressoam!

E ri-se Satanás!

(Disponível em: <https://docs.google.com/a/colegiolondrinense.com.

br/document/d/1JhybP7NGRYDtiQgl8BcBPRXRmh4pyALUldJ-

7gy6pVps/edit?hl=pt_BR&pli=1>. Acesso em: 10 out. 2013).

Notamos que o adjetivo dantesco se refere ao inferno que a viagem rumo ao Brasil significa para aqueles homens escravizados. As imagens construídas pelo poeta apontam o açoite que estala nos corpos e estes, por sua vez, dançam a dança dolorida da punição. Os marinheiros riem enquanto a multidão de homens, mulheres e crianças sofrem. Imagens sinestésicas, ou seja, aquelas em que sen- tidos são aguçados, comovem o leitor desses versos, que revelam o olhar crítico de Castro Alves sobre os problemas que permeiam sua sociedade. Sodré (1964, p. 177), em relação ao contexto em que se desenvolveu o Romantismo, aponta o fato de que se trata de período no qual se nota “um desen- volvimento e uma difusão maior na atividade comercial”. Porém, o tom crítico de Castro Alves pode ser justificado, uma vez que a escravidão continuava no país, ainda que este respirasse ares políticos que pretendiam ser diferentes, pois

ares políticos que pretendiam ser diferentes, pois A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 56 - 57

56 - 57

à época já se discutia a derrubada do regime imperial em prol do regime presi- dencialista. Sodré (1964, p. 177) coloca que:

O que aconteceu, e nem podia acontecer, foi a radical mudança que alguns intérpretes superficiais supõem. Não existiu nenhuma alteração na posição relativa das classes; nem mesmo o instituto servil ficaria abalado, pelo menos na aparência. Está claro que as transformações então ocorridas contribuiriam, ao longo do tempo, para enfraquecê-lo; a independência não correspondeu a um fortalecimento do regime de trabalho escravo. Mas deixou-o intacto e só muito adiante denunciaria ele a presença dos sinais inequívocos do declínio.

Conforme as palavras de Sodré, politicamente, os ideais que sustentaram o pro- cesso de independência não modificaram a organização política e econômica da sociedade brasileira. Em relação ao sistema escravocrata, por exemplo, o autor denuncia o fato de ter sido tal sistema vigente durante os primeiros anos da independência, seu fim culmina com o fim do regime imperialista, pois temos

a Abolição em 1888 e a República, em 1889. Daí, o fato de Castro Alves ter se

valido do tema com maestria para denunciar a escravidão. Assim, para concluir esta seção, podemos dizer que em cada poeta comentado, temos um representante do que se convencionou chamar, por puro didatismo, de fases do Romantismo. Gonçalves Dias dedicou-se mais a poemas de tom nacio-

nalista e indianista; Álvares de Azevedo preferiu o subjetivismo, tematizando a morte, o amor impossível e as mulheres idealizadas; já Castro Alves escreveu poemas assertivos que discutiram questões sociais, como a escravatura, defen- dendo a libertação dos escravos. Cabe, porém, ressaltar que não podemos limitar os poetas a uma fase, pois também encontramos em Castro Alves poemas em que a morte, o amor impos- sível e a mulher idealizada são temas, caso dos versos de Espumas Flutuantes. Do mesmo modo, Gonçalves Dias, em sua peça Leonor de Mendonça, tema- tiza o amor impossível e a morte. Desse modo, é importante olhar para o texto

e buscar as características românticas nele presentes, sem prender-se a uma

fase, mas sim deixando que o texto direcione o nosso olhar rumo a uma lei-

tura reflexiva.

Romantismo

sem prender-se a uma fase, mas sim deixando que o texto direcione o nosso olhar rumo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II É denominada

II

do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II É denominada métrica

É denominada métrica a medida do verso de uma poesia. Ao estudo da me-

dida de cada verso é dado o nome de metrificação, e a prática das contagem das sílabas poéticas é chamada de escansão, que ocorre de forma auditiva, diferente do sistema praticado na escrita gráfica, onde impera a contagem simples das sílabas.

A contagem das sílabas poéticas é um processo que torna as palavras liga-

das mais intimamente umas às outras, dando ao texto o ritmo desejado e a melodia pretendida pelo poeta.

Disponível em: <http://www.autores.com.br/2009112526421/literatura/di-

cas-para-novos-autores/a-metrica-no-poema-e-como-metrificar-os-versos-

de-um-poema.html>. Acesso em: 17 dez. 2013.

ROMANCES COMO EXPRESSÃO DO TERRITÓRIO NACIONAL

Conforme mencionamos no item anterior, Alencar foi o mais representativo nome do Romantismo Brasileiro no que se refere à prosa. Nos romances de Alencar, encontramos três cenários. O primeiro deles é aquele cujo enredo tem por cenário a natureza brasileira e, por herói, o índio. Em Iracema, o indianismo de Alencar se revela com linguagem poética, para que a história do amor impos- sível entre a índia Iracema e o colonizador Martin seja contada. Além da presença de enredo amoroso, a narrativa também se reveste de elementos históricos, como a lenda de formação do estado do Ceará, a qual é contada. Outra questão é o processo de miscigenação, pois do amor de Iracema

e Martin nascerá Moacir, fruto da mistura da índia e do branco colonizador, mas

a criança terá seu lugar com brancos questionado e, da mesma forma, a tribo

colocará em dúvida sua filiação indígena. Esse é, pois, um tema muito caro aos românticos, ou seja, qual é o lugar do homem miscigenado em um país cuja população é fruto da miscigenação?

Explica-nos Sodré (1964, p. 279) que o Romantismo, por meio de sua ver- tente indianista,

Deu um considerável impulso à literatura brasileira. Fez mais: popu- larizou-a, segundo as afinidades que estabeleceu com o público. Esta- beleceu a ponte entre as manifestações literárias despertadas pelo ro-

entre as manifestações literárias despertadas pelo ro- A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 58 - 59

58 - 59

mantismo, em que se enquadrou, e a fase posterior, em que a reação anti-romântica teve lugar.

Vejamos um trecho do início do romance indianista Iracema, no qual o narra- dor descreve a protagonista Iracema.

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.

O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia

no bosque como seu hálito perfumado.

Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e

as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação

tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banha- va-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.

Iracema saiu do banho: o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.

(Disponível em: <http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http:// www.biblio.com.br/conteudo/Josedealencar/iracema.htm>. Acesso em: 05 out. 2013).

O elemento que chama a atenção são as comparações com as quais o narrador descreve Iracema. Notamos que as qualidades da beleza da jovem são exaltadas por meio de elementos da natureza, é como se a beleza natural do Brasil estivesse amalgamada com a beleza de seu habitante genuíno. Quanto à escolha lexical, ocorre a primazia por palavras que remetem à natureza ou à fauna, como oiticica, plumas, gará, sabiá, matas, jati. Por meio desses elementos, o cenário naciona- lista vai sendo composto. Porém, Alencar também tomou o meio urbano como espaço de suas tramas. Em Senhora, por exemplo, a cidade do Rio de Janeiro e os costumes típicos da

Romantismo

como espaço de suas tramas. Em Senhora , por exemplo, a cidade do Rio de Janeiro

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II sociedade da

II

sociedade da época são mencionados, como as festas nos salões, frequentados

pela burguesia em formação. No enredo desse romance, a jovem Aurélia se apai- xona por Seixas que, embora goste dela, prefere se casar com outra moça com melhores condições financeiras. Porém, Aurélia recebe uma herança inesperada

e decide comprar Seixas, sem que ele saiba de quem virá o dote. Ganancioso, o

rapaz aceita a proposta e, somente no altar, descobre se tratar de Aurélia. Com

o orgulho ferido, ele devolverá o dinheiro à Aurélia, depois de onze meses, per- doará a moça e viverão felizes juntos. Notamos que o enredo é açucarado, o amor, embora com ares de impos- sível, acaba em final feliz. No entanto, com esse romance, Alencar toca em questões profundas da sociedade brasileira para no mínimo gerar uma reflexão

sobre elas. A primeira se refere ao casamento por interesse, pois Seixas somente aceita a proposta para se casar com uma pessoa que não sabia quem era porque

o dote oferecido era alto. Outra questão é a moral, já que depois do casamento

ele se esforça para pagar à Aurélia o valor do dote. Observamos que essa atitude

é uma hipocrisia, pois por um lado ele se sujeita a um casamento por interesse,

por outro, quer limpar sua honra. Também nos romances urbanos temos a des- crição e exaltação do modelo de vida burguês, Aurélia participa de bailes, entra com majestoso poder em cada um dos salões. O narrador descreve com pompa essas festas, assim como a influência de Aurélia nos salões fluminenses, como vemos no trecho que segue.

Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela. Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi proclamada a rainha dos salões. Tornou-se a Deusa dos bailes; a musa dos poetar e o ídolo dos noivos em disponibilidade. Era Rica e Famosa. Com duas opulên- cias, que se realçam como a flor em vaso de alabastro; dois esplendores que se refletem, como o raio de sol no prisma do diamante.Quem não se recorda de Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslum- bramento que produzira o seu fulgor? (Disponível em: <http://intervox. nce.ufrj.br/~clodo/jose_de_alencar.htm>. Acesso em: 06 out. 2013).

Observamos que os adjetivos são excessivamente empregados para contribuir com a imagem de mulher poderosa por meio da qual Aurélia será apresentada ao leitor.

por meio da qual Aurélia será apresentada ao leitor. A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX –

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. José de Alencar

José de Alencar

A capacidade de Alencar para construir obras

romanescas pode ainda ser verificada em roman-

ces regionalistas, os quais, como o próprio nome sugere, são aqueles em que uma região do país serve de cenário; além de Alencar, Visconde de Taunay também contribuiu para a constituição

de uma imagem de regiões brasileiras a partir de

seus romances. É de Taunay o romance Inocência, no qual temos a história do amor impossível de Inocência e Cirino. O enredo se passa no Mato Grosso. Inocência, filha de Pereira, é prometida a Manecão, Cirino é um moço que viaja pelo Brasil passando -se por boticário, embora não tivesse concluído sua formação. O impasse amoroso é evidente, já que a moça deve se casar com Manecão, a quem escolheu o pai, mas se apaixona por Cirino. Diante da recusa da filha em se casar com o escolhido paterno, Pereira pede a Manecão que mate Cirino, triste e inconformada com o assassinato do jovem por quem se apaixonara, Inocência adoece e morre. Um tempo depois, um cientista alemão que pela região realizava pesquisas com espécies de borbo- leta, descobre uma espécie rara e batiza de Inocência em homenagem à moça que morrera de amor. Do enredo podemos dizer que se trata de típica história de amor impossível, mas Taunay fez um trabalho de construção de costumes e aspectos linguísticos típicos da região retratada que permitem ao leitor conhecer essa parte do Brasil. Além disso, os detalhes da vegetação, da geografia do Mato Grosso, permitem que o livro seja quase um documento geográfico ou mesmo sociológico do ser- tão matogrossense que no livro é chamado de sertão bruto. No trecho abaixo podemos verificar esse caráter descritivo do livro.

É tudo aquilo o sertanejo com olhar carregado de sono. Caem-lhe pesadas as pálpebras; bem se lembra de que por ali podem rastejar venenosas alimárias, mas é fatalista; confia no destino e, sem mais

ali podem rastejar venenosas alimárias, mas é fatalista; confia no destino e, sem mais ©wikipedia Romantismo

©wikipedia

Romantismo

ali podem rastejar venenosas alimárias, mas é fatalista; confia no destino e, sem mais ©wikipedia Romantismo

60 - 61

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II preocupação, adormece

II

preocupação, adormece com serenidade.

Correm as horas vem o sol descambando; refresca a brisa, e sopra rijo

o vento. Não ciciam mais os buritis; gemem, e convulsamente agitam as flabeladas palmas.

É a tarde que chega.

Desperta então o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente os braços; boceja; bebe um pouco d’água; fica uns instantes sentado, a olhar de um lado para outro, e corre afinal a buscar o animal, que de pronto encilha e cavalga.

Uma vez montado, lá vai ele a passo ou a trote, bem disposto de corpo

e de espírito, por aqueles caminhos além, em demanda de qualquer pouso onde pernoite.

Quanta melancolia baixa à terra com o cair da tarde!

Parece que a solidão alarga os seus limites para se tornar acabrunhado- ra. Enegrece o solo; formam os matagais sombrios, maciços, e ao lon- ge se desdobra tênue véu de um roxo uniforme e desmaiado, no qual, como linhas a meio apagadas, ressaltam os troncos de uma ou outra palmeira mais alterosa.

É a hora, em que se aperta de inexplicável receio o coração. Qualquer

ruído nos causa sobressalto; ora o grito aflito da zabelê nas matas, ora as plangentes notas do bacurau a cruzar os ares. Freqüente é também

amiudarem-se os pios angustiados de alguma perdiz, chamando ao ninho o companheiro extraviado, antes que a escuridão de todo lhe impossibilite a volta.

(Disponível em: <http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http:// www.biblio.com.br/conteudo/ViscondedeTaunay/inocencia.htm>. Acesso em: 06 out. 2013).

A natureza da região, a figura do sertanejo, o modo como ele se sente, o modo como a natureza se comporta, tudo isso é registrado no romance, por meio do qual o interior do Brasil do século XIX pode ser conhecido. Como um viajante, Taunay saiu pelo Brasil, observou várias regiões e sobre elas escreveu. Seus livros, assim como os de Alencar que comentamos acima, são registros culturais, sociais e antropológicos que, até hoje, permitem o entendimento de partes e fatos tão distantes de nossa sociedade contemporânea. O Romantismo no Brasil foi epi- sódio do grande processo de tomada de consciência nacional, constituindo um

processo de tomada de consciência nacional, constituindo um A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 62 - 63

62 - 63

aspecto do movimento de independência (CANDIDO, 1981, p. 303). Temos, porém, caro(a) aluno(a), que ter em mente que o Romantismo foi

a forma pela qual a burguesia expressou seus hábitos, sua forma de conceber o

mundo, por esse motivo, verificamos nos romances “o distanciamento da reali- dade” (SODRE, 1964, p. 301), o qual se trata de uma

tendência espontânea e natural, da parte da classe que tinha o seu des- tino dependente de forças econômicas externas e que tinha todo inte- resse em manter a situação existente no país e em disfarçar tudo aquilo que representasse a verdadeira face do Brasil (SODRE, 1964, p. 301).

Nesse sentido, o Romantismo, por meio de suas possibilidades amplas de eva- são, seja com a morte, seja com romances de amores impossíveis, contribuiu para aguçar a fantasia no imaginário de seus leitores, vendando-lhes os olhos quanto a questões de caráter político, econômico e sociais, as quais serão toma- das e discutidas pela escola posterior, o Realismo.

toma- das e discutidas pela escola posterior, o Realismo. O período romântico brasileiro aponta a consciência

O período romântico brasileiro aponta a consciência de escritores como Alencar quanto à missão específica do artista, isto é, a missão do intelectual de que por meio da literatura é possível valer-se da linguagem para cons- truir um sentimento de patriotismo, de língua, de povo, enfim, daquilo que realmente é nacional.

SÉCULO XIX – DO SENTIMENTO À RAZÃO - REALISMO

Ao longo da primeira metade do século XIX, os autores românticos europeus, assim como os pintores, perceberam que os ideais iluministas de igualdade, liber- dade e fraternidade, que motivaram o Romantismo e valorizaram a burguesia

e seu modo de vida, estavam fracassados e já não cabiam mais na representa-

ção artística. O sistema capitalista trouxe problemas de ordem econômica para a Europa, como a má distribuição de renda e divisão entre a classe operária e a burguesia,

Século XIX – do Sentimento à Razão - Realismo

de renda e divisão entre a classe operária e a burguesia, Século XIX – do Sentimento

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II por exemplo.

II

por exemplo. A classe dominante, ou seja, a burguesia, uma vez no poder, passou

a agir com a mesma imposição com que a nobreza e a Igreja agiram em outros

tempos. Teorias surgiram, as quais refutavam as ideias e ideais burgueses, como

o Socialismo de Marx e Engels, por exemplo, por meio do qual os autores colo-

cam em pauta a discussão sobre a necessidade de uma nova configuração social

e fazem apologia à classe operária, incitando-a à tomada de poder. Aliado a isso, o século XIX foi um período de grandes transformações tec- nológicas, grandes descobertas: energia elétrica, locomotiva a vapor, máquina fotográfica, carro, dinamite, geladeira, telégrafo, telefone, dentre outras que faci- litavam a vida social daqueles, claro, que podiam desfrutar de tal conforto. Diante desse cenário, em que a ciência está em destaque, novas correntes filosóficas entram em vigor, como o Positivismo do francês Auguste Comte, teoria por meio da qual se deve buscar explicar os assuntos práticos da vida do homem, sobretudo de seu cotidiano. O Determinismo é uma corrente filosó- fica que busca explicar os fenômenos a partir de três elementos: meio, raça e história. A influência dessa corrente para a Literatura Realista-Naturalista será enfatizada quando comentarmos a referida estética. A Teoria do Evolucionismo de Darwin também marca o pensamento científico do século XIX, além do mar- xismo já abordado acima. Em relação à influência que os ‘ismos’ europeus exercem sobre a produção literária brasileira, assim como sobre a política nacional, Sodré (1964, p. 346) destaca que “a apropriação de instrumentos externos por parte da inteligência brasileira não correspondia apenas à mecânica cópia ou imitação de padrões estranhos ao meio”. Diante desse contexto de grande explosão do pensamento e de novos para- digmas sendo postos em discussão, a Literatura romântica perde seu sentido, sobretudo, pelo fato de valorizar o modelo de vida burguês. Escritores franceses como Èmile Zola e Gustave Flaubert serão expressivos den- tro da estética Realista e, no caso de Zola, dentro da estética Realista-Naturalista. Por meio de seus romances denunciaram a hipocrisia social, a falsidade, a explo- ração da classe operária pela burguesia, o adultério de senhoras burguesas, o casamento por interesse, o enriquecimento ilícito, enfim, os problemas de ordem social e moral que estavam arraigados na sociedade burguesa do século XIX e até

arraigados na sociedade burguesa do século XIX e até A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX –

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 64 - 65

64 - 65

hoje, por assim dizer, estendem-se na sociedade como um todo. Desse período, podemos destacar como características a busca pela represen- tação da realidade observada, o escritor se coloca como um observador, aquele que observa e depois transpõe para o texto literário a realidade observada. “A representação artística da realidade foi sempre a meta dos grandes escri- tores e a medida de sua grandeza foi proporcional em todos os tempos ao esforço em reconstituir a realidade íntegra e total” (SODRE, 1964, p. 382). Para os rea-

listas, a realidade é o objeto de observação do escritor, é dela que ele extrai os elementos necessários à elaboração da obra literária. O narrador busca ser impar- cial, ou seja, manter-se distante do fato narrado, por isso é comum os romances trazerem narrador-observador em 3ª pessoa, o qual já pressupõe certo distancia- mento em relação ao fato narrado, diferente do narrador em 1ª pessoa que tende

a carregar o texto de subjetividade, de sentimentos ao narrar. Outra caracterís-

tica dos romances realistas é a presença de personagens que são figuras humanas comuns, não há idealização, como acontecia com as personagens do Romantismo que eram mulheres inalcançáveis, idealizadas. Também são postas em evidência

a condição social e cultural das personagens, a linguagem é de fácil entendi-

mento, privilegiam-se os aspectos reais da vida, seja da riqueza ou da miséria. A tela a seguir, do francês Gustave Coubert, Um enterro em Ornans, de 1849, representa a arte realista.

Um enterro em Ornans , de 1849, representa a arte realista. ©wikimedia Século XIX – do

©wikimedia

Século XIX – do Sentimento à Razão - Realismo

Um enterro em Ornans , de 1849, representa a arte realista. ©wikimedia Século XIX – do

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Observamos que

II

Observamos que a cena busca a verossimilhança com o cotidiano, ou seja, busca representar de forma mais real e próxima possível o cotidiano, sem exa- geros e sem sentimentos. Essa é, pois, a intenção da arte realista: representar a realidade e colocá-la em discussão por meio da Arte, por em evidência as ques- tões sociais, denunciando-as.

O REALISMO NO BRASIL

Você já deve ter observado que a Literatura Brasileira caminha sempre em con- sonância com a Literatura europeia, feito que pode ser compreendido a partir de nossa dependência cultural, ou seja, tornamo-nos independentes políticos somente em 1822, mas seguimos ao longo do século XIX e em muitos aspectos ao longo do século XX dependentes culturalmente da Europa. Por isso, as esté- ticas literárias acontecem lá e, depois, chegam ao Brasil.

Nesse sentido, quando o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, e O mulato, de Aluísio de Azevedo (1881), foram publicados,

a Europa, em especial a França, já estava tomada pela estética realista. Tais obras são o marco do início do Realismo no Brasil, movimento que se desenvolve em um contexto de revoluções de ordem política, econômica e social. Em relação à política, à época, já havia um grupo de republicanos cujas ideias eram tirar o Imperador do poder, fato que se efetivou em 1889 com a Proclamação da República. No âmbito econômico, o país vivia sob protestos para que, defi- nitivamente, ocorresse a abolição da escravatura, feito que se concretizou em 1888. A abolição gerou problemas de ordem financeira, pois o trabalho, antes não remunerado, agora precisava ser. Em busca de solucionar essa questão, em finais do século XIX começam a chegar os imigrantes europeus, que trabalham nas fazendas de café em situações bem precárias, contando com má remunera- ção. Muitos imigrantes viviam nas grandes cidades, em especial o Rio de Janeiro,

e recebiam baixos salários também.

Deste modo, na segunda metade do século XIX, ao mesmo tempo que se acentuava o antagonismo econômico entre os tradicionais burgueses proprietários de terra – que governavam o país como se governassem

de terra – que governavam o país como se governassem A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 66 - 67

66 - 67

suas fazendas – e os representantes de novos interesses, acentuava-se também a simpatia pelas idéias novas que as transformações havidas desde os primórdios do século haviam posto em circulação (SODRE, 1964, p. 343).

Dentro desse cenário de mudanças, o Realismo encontrou espaço para desenvol- ver aqui as questões que na Europa já eram tratadas há muito. Em texto basilar da Crítica Brasileira, Robert Schwartz discorre sobre essa estética no Brasil.

Cada um a seu modo, estes autores refletem a disparidade entre a socie- dade brasileira, escravista, e as idéias do liberalismo europeu. Envergo- nhando a uns, irritando a outros, que insistem na sua hipocrisia, estas idéias – em que gregos e troianos não reconhecem o Brasil – são refe- rências para todos. Sumariamente está montada uma comédia ideoló- gica, diferente da européia. É claro que a liberdade do trabalho, a igual- dade perante a lei e, de modo geral, o universalismo eram ideologia na Europa também; mas lá correspondiam às aparências, encobrindo o essencial a exploração do trabalho. Entre nós, as mesmas idéias seriam falsas num sentido diverso, por assim dizer, original. A Declaração dos Direitos do Homem, por exemplo, transcrita em parte na Constituição Brasileira de 1824, não só não escondia nada, como tornava mais abjeto o instituto da escravidão. A mesma coisa para a professada universali- dade dos princípios, que transformava em escândalo a prática geral do favor. Que valiam, nestas circunstâncias, as grandes abstrações burgue- sas que usávamos tanto? Não descreviam a existência – mas nem só disso vivem as idéias. Refletindo em direção parecida, Sérgio Buarque observa: “Trazendo de países distantes nossas formas de vida, nossas instituições e

nossa visão do mundo e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitasvezes desfavorável e hostil, somos uns desterrados em nossa ter- ra”. Essaimpropriedade de nosso pensamento, que não é acaso, como se verá, foi de fato uma presença assídua, atravessando e desequilibran- do, até no detalhe, a vida ideológica do Segundo Reinado. Freqüente- mente inflada, ou rasteira, ridícula, ou crua, e só raramente justa no tom, a prosa literária do tempo é uma das muitas testemunhas disso (SCHWARZ, 2000, p. 11).

Observe que o crítico enfatiza o modo como cada autor olhou para a realidade brasileira e a transpôs para os enredos dos romances realistas, estética que mos- tra um amadurecimento de nossos autores em relação ao olhar romântico da estética anterior, pois não temos índio sendo idealizado como herói, mas sim a realidade sendo retratada de forma enfática.

Século XIX – do Sentimento à Razão - Realismo

como herói, mas sim a realidade sendo retratada de forma enfática. Século XIX – do Sentimento

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II ALUÍSIO DE

II

ALUÍSIO DE AZEVEDO E SEU O CORTIÇO

Embora O mulato tenha sido a obra inaugural de Aluísio de Azevedo e do

Realismo, escolhemos O Cortiço (1890), sua mais expressiva obra, para ser comen- tada. Aluísio de Azevedo é um seguidor do estilo do francês Zola. Assim como

o francês, Azevedo escreveu romances que eram, na verdade verdadeiros tra-

tados científicos, os quais, para serem concebidos, passaram por um processo de observação, de experienciação da realidade retratada. É o que ocorre em O Cortiço, livro que foi escrito a partir do empirismo do autor, ou seja, ele convi- veu com moradores de cortiços cariocas, a fim de escrever seu romance.

Aluísio de Azevedo

O título faz referência aos cortiços ou cabeças-de-porco, tão comuns no Rio de Janeiro no final do século XIX. Trata-se de moradias coletivas que abrigavam muitos tipos de pessoas, a saber: imigrantes portugueses, escravos já com carta de alforria ou fugitivos, famílias pobres que não poderiam viver em uma casa familiar. Assim, o cortiço é uma habitação coletiva, na qual espaços como cozinha e banheiro são compartilhados entre os moradores. No enredo, temos como cenário o cortiço, nele conhe- cemos João Romão, imigrante português que funciona no romance como uma metáfora do capitalismo selvagem, pois ele faz de tudo para enriquecer. Sua ambição faz com que não meça esforços para conseguir seu objetivo, até mesmo passar por carestia de comida, comia as piores verduras de sua horta para vender as melhores, con- forme nos conta o narrador:

possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco estopa cheio de palha (Disponível em: <http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/ livros/analises_completas/o/o_cortico> . Acesso em: 16 out. 2013).

. Acesso em: 16 out. 2013). ©wikimedia A ascensão desse imigrante não se dará

©wikimedia

A ascensão desse imigrante não se dará somente pela abstenção de conforto, mas

não se dará somente pela abstenção de conforto, mas A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX –

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 68 - 69

68 - 69

também pela exploração do próximo. João Romão aproveita-se de Bertoleza, uma escrava fugitiva que guarda dinheiro para sua carta de alforria. João toma o dinheiro dela, faz com que seja sua escrava sexual e empregada e mente dizendo que con- seguiu a carta, como ela não sabe ler, acredita em um papel que ele finge ler a ela. Na descrição de Bertoleza, Azevedo inseriu elementos do Naturalismo. Tal estética literária, que Azevedo herdou de Zola, consiste em um texto com marcas bem profundas das teorias cientificistas em voga no momento. A linguagem dos romances torna-se científica e o olhar do narrador para o personagem tende a ani- malizá-lo. É o que ocorre com Bertoleza, a escrava, que será retratada em muitos momentos como animal, como ‘burro de carga’ que muito trabalha. Além disso, a preferência por lugares degradados, como o cortiço coletivo, pensões e os gran- des desvios de comportamento são retratados nas obras de estética naturalista. Com o dinheiro de Bertoleza, João Romão investe em seus negócios, com- pra três casinhas que serão imediatamente alugadas e chegam a 99 ao final do livro, momento em que ele manda Bertoleza embora e ela sai sem dinheiro e sem sua carta de alforria. Vejamos um pequeno trecho em que o narrador em terceira pessoa fala de Bertoleza:

Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel tríplice de caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre; às quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias, aviando o café para os fregueses e depois preparando o almoço para os trabalha- dores de uma pedreira que havia para além de um grande capinzal aos fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia ao balcão na taver- na, quando o amigo andava ocupado lá por fora; fazia a sua quitanda

durante o dia no intervalo de outros serviços, e à noite passava-se para

a porta da venda, e, defronte de um fogareiro de barro, fritava fígado

e frigia sardinhas, que Romão ia pela manhã, em mangas de camisa, de tamancos e sem meias, comprar à praia do Peixe. E o demônio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e consertar, além da sua, a roupa do seu homem, que esta, valha a verdade, não era tanta (Dispo- nível em: <http://eremptm.files.wordpress.com/2011/10/o-cortic3a7o- -resumos.pdf>. Acesso em: 16 out. 2013).

Outros personagens também espelham a estética naturalista, Ritinha Baiana é a morena sensual, que encanta a todos, torna-se amante de Jerônimo, outro por- tuguês. Ela o enfeitiça e elementos como o sol e o calor são determinantes na libido do casal. Desse modo, observamos uma tendência Determinista, ou seja, o

Século XIX – do Sentimento à Razão - Realismo

casal. Desse modo, observamos uma tendência Determinista, ou seja, o Século XIX – do Sentimento à

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II meio influencia

II

meio influencia o sujeito. Em outras palavras, Jerônimo, que é europeu, modifica seus hábitos influenciado pelo calor, pelo sol e pela fascinação de Rita sobre ele. No trecho que segue, observamos toda a sensualidade de Rita Baiana sendo

descrita:

Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as

ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Rita

tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada;

aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante (Disponível em: <http://literaturaemcontagotas.wordpress. com/tag/trechos-de-o-cortico/>. Acesso em: 16 out. 2013).

] [

Outro aspecto tratado no romance é o lesbianismo, Pombinha é uma moça noiva

e virgem, Léonie, uma prostituta que é também madrinha de Pombinha, inicia

sexualmente a menina. O casamento não acontece, seria o matrimônio a única

forma de garantia de saída daquela vida pobre e podre, mas no final a menina se torna lésbica. Também há referência ao homossexualismo, pois Albino é descrito como de tendências homossexuais, e Machona, como mulher de pulso firme, que em muito se assemelha aos homens. É nesse contexto de degradação moral que Azevedo nos apresenta a vida peri- férica do Rio de Janeiro de finais do século XIX. O autor não enfatiza os aspectos psicológicos das personagens, essa é, pois, uma falha da estética realista-natura- lista. Mas não podemos deixar de mencionar o fato de que a representação do cortiço pode ser entendida como uma metáfora das vidas pobres que pelo Rio de Janeiro circulavam à época. Sodré (1964, p. 395), ao mencionar o Naturalismo, destaca que tal tendên- cia “não representa, no Brasil, senão um episódio”, do qual, dentre todas as obras escritas baixo as orientações dessa estética, destaca-se O Cortiço porque “é a única obra que alcança grandeza excepcional” (SODRE, 1964, p. 395), justo pela análise minuciosa do meio (o cortiço), das pessoas (personagens) nele inseri- das, análise esta que aponta a interpretação e compreensão do autor em relação

a nossa terra e a nossa gente.

do autor em relação a nossa terra e a nossa gente. A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 70 - 71

70 - 71

O MESTRE DO REALISMO BRASILEIRO – MACHADO DE ASSIS

A expressão ‘mestre do Realismo’, por certo, não é nova para você, pois é assim que

comumente é chamado o mais célebre escritor do Realismo Brasileiro. O rapaz

mulato, de origem humilde, nasceu no Rio de Janeiro, no Morro do Livramento em 1839. Autodidata, aos 15 anos já sabia francês e trabalhava no jornal Marmota Fluminense, onde publicou seu primeiro poema. Em 1855, passou a trabalhar para o jornal Imprensa Nacional e, aos 19 anos, enveredou pela prosa, publicando um livro de contos e, posteriormente, peças

e romances. Em 1896, juntamente com outros escritores, Machado fundou a Academia Brasileira de Letras, a qual presidiu até a morte em 1908.

Machado de Assis

a qual presidiu até a morte em 1908. Machado de Assis ©fotosimagens Falar de Machado de

©fotosimagens

Falar de Machado de Assis é falar de um intelectual a serviço do país. Escreveu crônicas, teatro, contos, romances e deixou obras escritas com novidades esti- lísticas que em muito adiantam as marcas comuns ao Modernismo Brasileiro. Diferente de Azevedo e outros escritores, cujo olhar voltou-se à descrição minuciosa dos proble- mas de nossa sociedade, Machado preferiu a análise psicológica, aquela em que o personagem tem suas ações analisadas, sua conduta, a relativização de seu caráter, enfim, seus vícios.

a relativização de seu caráter, enfim, seus vícios. Em comemoração ao centenário de sua morte, em

Em comemoração ao centenário de sua morte, em 2008, as obras de Macha- do foram integralmente digitalizadas e se encontram disponíveis no link:

<http://www.dominiopublico.gov.br> (Acesso em: 21 out. 2013).

Século XIX – do Sentimento à Razão - Realismo

<http://www.dominiopublico.gov.br> (Acesso em: 21 out. 2013). Século XIX – do Sentimento à Razão - Realismo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II CARACTERÍSTICAS DA

II

CARACTERÍSTICAS DA PROSA MACHADIANA

Devido ao grande número de obras deixado por Machado de Assis, torna-se difícil escolher uma para ser comentada. Desse modo, optamos por apresentar a você as principais características da prosa machadiana, as quais foram elenca- das a partir de estudos profundos de pesquisadores como Roberto Schwarz, cujo nome é referência quando se trata do estudo da obra machadiana. Como vimos anteriormente, a característica principal do Realismo é a busca pela representação da realidade. Nesse sentido, os romances traziam cenas em que a miséria social, a hipocrisia e outras mazelas sociais são postas em evidên- cia. No entanto, engana-se o leitor de Machado de Assis caso busque em seus livros a representação nua e crua da realidade. O universo machadiano é perme- ado pela percepção que o autor tinha da natureza humana e da vida. Essa percepção fez dele o mestre da ironia e do humor. Assim, não encontra- remos em suas obras a representação da realidade, mas sim um microuniverso psicológico, por meio do qual o mínimo revela-se fundamental. A ironia e o humor, em Machado, brotam da visão que o escritor tinha do homem, da sociedade e da vida. Por meio da ironia, Machado exterioriza seu desencanto com as vidas patéticas e que não percebem que as relações sociais são permeadas pela mentira, pelo jogo de interesses. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance que celebra o início do Realismo brasileiro em 1881, encontramos Brás Cubas, o narrador defunto que, depois de morto, decide escrever suas memórias, e temos a ironia como recurso muito expressivo. Vejamos a passagem transcrita abaixo:

Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis (Dis- ponível em: <http://literatura.uol.com.br/literatura/figuras-lingua- gem/37/artigo225099-1.asp>. Acesso em: 18 out. 2013).

Brás Cubas, rapaz rico que se orgulha de nunca ter precisado comer pão da fruto do suor de seu trabalho, conheceu na adolescência Marcela, uma prosti- tua por quem se apaixonou. Agora, Brás, já morto, consegue fazer um balanço de sua vida e perceber que o interesse de Marcela por ele teve data e hora para terminar, ou seja, ela o amou enquanto ele tinha dinheiro. Notamos que a iro- nia de Machado vem por meio de uma grande crítica ao jogo de interesses que

por meio de uma grande crítica ao jogo de interesses que A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 72 - 73

72 - 73

sustenta os relacionamentos. Marcela, tal qual um comerciante, só pode se rela- cionar com Brás se tiver vantagem sobre isso. É com tom de deboche, com um humor negro e uma ironia refinada que o narrador machadiano toca na ques- tão dos relacionamentos por interesse existentes na sociedade. Em trecho do romance Dom Casmurro, também narrado em primeira pes- soa por Bento Santiago, temos a ironia e o humor na descrição do personagem Tio Cosme.

Era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos. Uma das minhas recordações mais antigas era vê-lo montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao escritório.

O preto que a tinha ido buscar à cocheira, segurava o freio, enquanto

ele erguia o pé e pousava no estribo; a isto seguia-se um minuto de descanso ou reflexão. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpo ameaçava subir, mas não subia; segundo impulso, igual efeito. Enfim,

após alguns instantes largos, tio Cosme enfeixava todas as forças físicas

e morais, dava o último surto da terra, e desta vez caía em cima do se- lim. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que acabava

de receber o mundo. Tio Cosme acomodava as carnes, e a besta partia

a trote (Disponível em: <http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/docu- mentos/?action=download&id=6118>. Acesso em: 23 out. 2013).

Tio Cosme vive à custa da mãe do narrador Bento, notamos na descrição que ele tenta montar um animal, mas devido a seu sobrepeso, a dificuldade é grande. Observamos que a palavra ‘besta’ com a qual o narrador descreve o suposto cavalo ou jumento pode ser estendida para o próprio Cosme, em quem vemos atitu- des de uma pessoa tola, popularmente besta. Então, temos a ambiguidade no emprego da palavra. É nesse sentido que Machado constrói sua ironia e humor, valendo-se de uma visão reflexiva e crítica acerca da realidade. Outro ponto a ser discutido como característica machadiana é a figura do narrador. Enquanto os escritores realistas-naturalistas valeram-se do narrador observador em terceira pessoa, narrador este que pressupõe distanciamento do fato narrado, Machado preferiu o narrador em primeira pessoa. Assim, a pers- pectiva que o leitor tem da narrativa é oferecida pelo ponto de vista do narrador. Vejamos o trecho de Dom Casmurro:

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de

Século XIX – do Sentimento à Razão - Realismo

trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de Século

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II chapéu. Cumprimentou-me,

II

chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bol- so (Disponível em: <http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documen- tos/?action=download&id=6118>. Acesso em: 23 out. 2013).

Essa é a cena inicial do romance, em cujo primeiro capítulo temos a explicação didática do narrador acerca do apelido Casmurro pelo qual e conhecido. Observamos ainda quanto ao estilo narrativo outra marca, trata-se da digressão, recurso que consiste em não seguir a ordem cronológica. Brás Cubas, narrador-personagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas, já está morto e começa, pois, sua narrativa pelo fim, quer dizer, começa indicando já estar morto e, depois, passa a narrar fatos vividos no passado. Da mesma forma, Bento Santiago, narrador-personagem de Dom Casmurro, também se vale desse recurso. Notamos que é por meio da digressão que os narradores con- seguem uma reflexão profunda acerca da vida e do viver. Essa reflexão é fruto da maturidade da escrita do autor, que também dá maturidade a seus narra- dores para que percebam, na velhice e na reconstrução do vivido, aspectos que o olhar adolescente não poderia captar. É o que ocorre com Bento, quando, ao final da narrativa, concluiu que Capitu, sua esposa que, para ele, foi infiel, teria sido sempre dissimulada, falsa.

Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada. Mas não é este propriamente o resto do livro. O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Mata-cavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. I: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti”. Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca (Disponível em: <http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/docu- mentos/?action=download&id=6118>. Acesso em: 23 out. 2013).

Com a digressão, o narrador tem a possibilidade de analisar o passado a partir

narrador tem a possibilidade de analisar o passado a partir A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. da perspectiva de

da perspectiva de um adulto, do homem já experiente, como vemos no trecho acima. Assim, entendemos a digressão como um momento de reflexão sobre o passado, reflexão esta que permite o amadurecimento para concluir a partir de outra visão daquela que se tinha no passado. A intertextualidade é um recurso bastante latente em Machado, trata-se de um diálogo com obras, sobretudo estrangeiras, por meio do qual observa- mos a influência de certos autores sobre Machado de Assis. É o que ocorre com Shakespeare, escritor clássico inglês, de quem Machado se vale para compor seu Dom Casmurro. Ao ler a obra, observamos a semelhança com Otelo, drama de Shakespeare de 1622, no qual Otelo mata sua amada, Desdêmona, por ciúme, acusando-a de traição. Mas esta traição nunca existiu senão na mente detur- pada de Otelo. Dom Casmurro

Em Dom Casmurro, o ciúme também é o ponto-chave da trama, que tem em Bento, Escobar e Capitu o foco da narrativa. Não sabemos se Capitu realmente traiu Bento com Escobar, pois a perspectiva que nos é apresentada é a de Bento. O leitor, porém, ao final da narrativa, tende a ficar em dúvida se a traição existiu mesmo ou se é fruto da mente doentia de Bento. Também notamos a intertextualidade bíblica, nesse caso, os valores bíblicos são sempre invertidos, é o que ocorre em Esau e Jacó, romance de 1904. Segundo Bergamini

(2008, p. 97):

O romance Esaú e Jacó apresenta uma retomada intertextual com os

personagens bíblicos e, assim como os personagens do livro de Gene- sis, Pedro e Paulo são inimigos. No entanto, Machado opta por uma ruptura dessa história no momento em que coloca seus personagens

sempre como rivais, já que os personagens bíblicos reatam seus laços.

rivais, já que os personagens bíblicos reatam seus laços. 74 - 75 Já no romance, o

74 - 75

no romance, o conselheiro Aires, no último capítulo, assim fala sobre

os

gêmeos: “Mudar? Não mudaram em nada; são os mesmos”.

Assim, observamos que a intertextualidade bíblica caminha para a paródia, ou seja, para a inversão dos valores, pois os irmãos continuam brigando, nesse caso, Machado aponta para a percepção de que a alma humana é muito mais complexa

Século XIX – do Sentimento à Razão - Realismo

aponta para a percepção de que a alma humana é muito mais complexa Século XIX –

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II e não

II

e não se resolve uma briga simplesmente com um abraço ou aperto de mão. Dentre todas as marcas da prosa machadiana, o pessimismo é o recurso que mais chama a atenção.

Tal como Schopenhauer, Machado pôs em cena o grande drama da existência humana. Sistematizou no ‘Autor de si mesmo’ sua visão pes- simista da vida. Os seres humanos estão condenados à infelicidade, não só porque são títeres de uma força inconsciente e instintiva, mas por- que a estrutura inata do afeto impede de maneira inerente a aquisição da felicidade (DIAS, 2005, p. 392).

Não é um pessimismo triste, deprimente, mas fruto da visão desencantada com

o

homem e com a vida. Há no final de seus romances um tom satírico, ora triste

e

ora humorístico, como vemos nas palavras finais de Brás Cubas:

Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria. (Disponível em: <http://transcenlitera.wordpress.

com/2008/10/20/nao-tive-filhos-nao-transmiti-a-nenhuma-criatura-o-

-legado-de-nossa-miseria/>. Acesso em: 23 out. 2013).

Brás tem uma visão cética da vida, não ter tido filho é, para ele, um prêmio, já

que entende que a vida é a miséria humana. O olhar de Brás é satírico, viver não

é nada e tudo não passa de um grande circo social sustentado pelas aparências,

mas a visão que ele nos transmite é de alguém já experiente e, somente por meio dessa experiência, ele teve maturidade para entender a vida. O pessimismo é também companheiro de Bento Santiago, narrador de Dom Casmurro, personagem que necessitou reescrever suas memórias para atar as duas pontas da vida, ou seja, reescrever seu passado para tentar entender seu presente de solidão e melancolia.

para tentar entender seu presente de solidão e melancolia. Machado de Assis, em suas obras, diferente

Machado de Assis, em suas obras, diferente de Aluísio de Azevedo, preferiu narradores em primeira pessoa, mais subjetivos, irônicos, dotados de um humor refinado e mordaz. Os narradores machadianos são aqueles que cap- tam os vícios da sociedade e sobre eles reflete, sem que a crítica seja feita de modo direto, pelo contrário, o narrador é provocativo, coloca o leitor em uma narrativa duvidosa e complexa, mas deliciosa de ler.

em uma narrativa duvidosa e complexa, mas deliciosa de ler. A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 76 - 77

76 - 77

O realismo machadiano vai além da descrição de costumes ou da crítica

social. O olhar do autor captou os vícios da sociedade e os transcreveu para seus

romances de maneira sutil, de modo que cabe ao leito percebê-los, analisá-los e tirar suas próprias conclusões.

PARNASIANISMO

Você certamente já observou que certos poemas são tão rimados que ao serem lidos mais parecem uma música que soa em nossos ouvidos. Isso ocorre quando as palavras finais de cada verso possuem semelhanças fonéticas, ou ainda quando algumas palavras grafadas com as mesmas vogais ou as mesmas consoantes são empregadas, o que ocasiona algumas rimas internas. Esses recursos serão muito empregados pelos poetas parnasianos. Depois de quase um século de romances como maior forma de expressão literária, na França, na metade do século XIX, inicia-se um movimento que buscou, por meio da poesia, uma forma de resistir ao sentimentalismo romântico. Diferente do exame da realidade a que se propuseram os escritores realistas, os poetas parnasianos buscavam o retorno à poesia e, por meio dela, desejavam expressar a arte bela, a busca pelo equilíbrio e pela perfeição formal.

Se ao ler, você se lembrou de algumas características sobre as quais falamos

ao estudar o Arcadismo, parabéns! Você está certo(a), pois o Parnasianismo foi à contramão do Romantismo: preferiu o verso à prosa; preferiu a razão à emo- ção; a beleza à exposição de sentimentos. No Brasil, esta estética chegou já nas décadas finais do século XIX e encon- trou em Olavo Bilac, Raimundo Correa e Alberto de Oliveira seus grandes adeptos. Os três formam a tríade parnasiana, mas não podemos deixar de mencionar o nome de Francisca Júlia, cujas poesias também seguiram a ten- dência parnasiana.

Parnasianismo

deixar de mencionar o nome de Francisca Júlia, cujas poesias também seguiram a ten- dência parnasiana.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II CARACTERÍSTICAS DA

II

CARACTERÍSTICAS DA POESIA PARNASIANA

Embora seja uma expressão em versos, o Parnasianismo tem o mesmo rigor for- mal com que compunham os autores realistas, pois ambos buscavam uma arte mais racional que se pautasse na atitude de reflexão do homem diante do fazer artístico. Porém, enquanto o fazer artístico realista optou por refletir sobre as ques- tões sociais, os poetas parnasianos primaram por uma arte que expressasse a arte em si, a arte pela arte. Nesse sentido, não encontramos nos poemas parna- sianos aspectos inerentes à crítica social, pelo contrário, há certo distanciamento do poeta em relação aos problemas inseridos na sociedade. Assim, o lema “arte pela arte” acompanha o poeta parnasiano, que busca, por meio de sua arte, agir como um ourives, mas no lugar de lapidar o ouro, lapida a palavra. Vejamos os versos de Bilac, no poema ‘A um poeta’:

Longe do estéril turbilhão da rua,

Beneditino, escreve! No aconchego

Do claustro, na paciência e no sossego,

Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

(Disponível em: <http://www.universidadedasquebradas.pacc.ufrj.br/ wp-content/uploads/2012/11/os-poemas-modernos.pdf>. Acesso em:

25 out. 2013).

Notamos que o eu-lírico que se expressa no poema enfatiza o fato de que é longe do estéril turbilhão da rua, no aconchego do claustro que Beneditino consegue trabalhar e limar sua palavra, dando forma à poesia. Primeiro desejamos enfatizar o fato de que as ruas, à época do Parnasianismo, eram lugares de protestos; por um lado, os movimentos em prol da República, por outro, os protestos a favor da Abolição da escravatura, ainda é possível mencio- nar o contexto de movimentação da capital, Rio de Janeiro, por conta da chegada de imigrantes europeus. Todo esse movimento é inadequado para uma arte que pretende se fazer a partir da razão, por isso, a necessidade de que a escrita seja em silêncio, no aconchego do claustro. Daí se justifica o lema “arte pela arte”, ou

claustro. Daí se justifica o lema “arte pela arte”, ou A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 78 - 79

78 - 79

seja, não fazer arte para tecer crítica social, mas para que o leitor tenha diante de si um objeto estético a ser apreciado. Outra característica a ser destacada é o fato de o eu-lírico enfatizar que se trata de árduo trabalho, pois os verbos: trabalhar, limar, suar, teimar e sofrer são empregados para se referir justamente ao ato de compor. Assim, entendemos que o fazer poético é trabalhoso, é um ofício tal qual o ofício do ourives que, depois de muito trabalho, dá forma à pepita e a transforma em joia valiosa. O poeta dá forma à palavra e a transforma em poesia. Ainda com base nos versos de Bilac, temos a percepção de que as rimas e a métrica são marcas valorizadas pelos parnasianos. Observamos que os versos contam com métrica regular, cada verso tem dez sílabas poéticas contadas até a última sílaba tônica. Assim, o verso: Longe do estéril turbilhão da rua, dividido em sílabas métricas, seria: Lon-ge-do-es-té-ril-tur-bi-lhão-da-ru (a), contamos até a última sílaba tônica, no caso o ‘ru’. A preocupação com a métrica é muito grande dentro do parnasianismo, em geral, os poetas compunham versos de dez ou de doze sílabas poéticas. O primeiro é chamado de versos decassílabos ou clássicos, já o segundo são dodecassílabos ou alexandrinos. Em relação às rimas, em oposição à liberdade romântica, os parnasianos primavam por rimas ricas ou preciosas, ou seja, aquelas formadas por pala- vras que pertencem a classes gramaticais diferentes. Notamos nos versos que a palavra ‘rua’, que é um substantivo, rima com ‘sua’, do verbo suar. Mas o mesmo não ocorre com aconchego e sossego, pois ambas as palavras são substantivos. Ainda podemos observar outro recurso comum aos parnasianos, trata-se do enjambement, termo em francês que se refere à quebra sintática na concep- ção do verso. Observamos que em:

Longe do estéril turbilhão da rua, Beneditino, escreve! No aconchego Do claustro, na paciência e no sossego,

A pontuação aparece bem no meio do segundo verso, mas o termo ‘Beneditino’ refere-se ao verso anterior, do mesmo modo ‘do claustro’ vai para o terceiro verso, mas se refere ao segundo. Assim, temos que no segundo verso há palavras que só terão seu sentido completado se estiverem ligadas aos outros versos, o que provoca

Parnasianismo

há palavras que só terão seu sentido completado se estiverem ligadas aos outros versos, o que

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II sintaticamente um

II

sintaticamente um desencadeamento dos sentidos, a isso chamamos de enjambement. Ainda podemos notar a repetição da conjunção aditiva ‘e’ no último verso:

‘Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!’, notamos que essa repetição causa no texto musicalidade, ritmo, quando temos a repetição de uma conjunção com essa finalidade, estamos diante de um recurso de melopeia, ou seja, de uma poesia de caráter mais musical, já que o ritmo fica bem marcado pela repetição. Por fim, como recurso final dos versos, mas que também é comum a outros versos da estética parnasiana, temos a aliteração da consoante ‘m’ e ‘s’. A alitera- ção é um recurso empregado quando se deseja incutir ritmo nos versos, trata-se do emprego das mesmas consoantes, nesse caso, tais consoantes é que contri- buem para esse ritmo. Marca ainda a poesia parnasiana a presença de vocábulos preciosos, ou seja, emprego de vocabulário erudito, a preferência pelo soneto, forma fixa estrutu- rada em 14 versos, divididos em 2 quartetos (estrofes de 4 versos) e dois tercetos (estrofes de três versos), sempre rimados e com métrica regular. Cabe ressaltar que o soneto é a forma clássica por excelência, criada por Francesco Petrarca, poeta italiano do século XIV. Vejamos um soneto de Alberto de Oliveira, a fim de ressaltar, um pouco mais, as características parnasianas.

VASO GREGO

Esta de áureos relevos, trabalhada

De divas mãos, brilhante copa, um dia,

Já de aos deuses servir como cansada,

Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

Era o poeta de Teos que o suspendia

Então, e, ora repleta ora esvasada,

A taça amiga aos dedos seus tinia,

Toda de roxas pétalas colmada.

amiga aos dedos seus tinia, Toda de roxas pétalas colmada. A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Depois

Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas

Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,

Mas, o lavor da taça admira,

Ignota voz, qual se da antiga lira

Fosse a encantada música das cordas,

Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

música das cordas, Qual se essa voz de Anacreonte fosse. 80 - 81 ( Disponível em:

80 - 81

(Disponível em: <http://www.infoescola.com/escritores/alberto-de-o- liveira/>. Acesso em: 27 out. 2013).

Nesse soneto, temos perfeitamente reproduzido o estilo parnasiano, a começar pelas rimas ao final dos versos. Algumas são rimas comuns, isto é, são formadas por palavras da mesma classe gramatical, como ‘trabalhada’ e ‘cansada’, ambas as palavras são adjetivos. Porém, as rimas ricas também estão presentes, como ocorre em ‘dia’ e ‘servia’, um substantivo e um verbo, respectivamente. Notamos que nos tercetos os versos rimam entre si, ‘admira’, verbo que finaliza o primeiro verso do primeiro terceto, rima com ‘lira’, substantivo que finaliza o primeiro verso do segundo terceto, o mesmo ocorre com ‘doce’ e ‘fosse’, substantivo e verbo, respectivamente. Chamamos a atenção para outras marcas da estética parnasiana. Primeiro a preferência pela descrição de um objeto, no lugar de críticas ou marcas que remontem à realidade, o poeta prefere objetos descritos com objetividade e voca- bulário precioso. Em segundo, é preciso destacar a referência anacreonte, poeta lírico grego. Essa referência mostra que, na visão dos parnasianos, o modelo a ser seguido está no passado. Há ainda a impessoalidade do poeta que tenta, por meio de seus versos, um afastamento do mundo em que está inserido, daí o fato de terem sido os poe- tas parnasianos criticados por não se valerem da poesia para fazer crítica social. Afinal, o que buscavam era a arte pela arte.

Parnasianismo

por não se valerem da poesia para fazer crítica social. Afinal, o que buscavam era a

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II SIMBOLISMO –

II

SIMBOLISMO – O DECADENTISMO DO FIM DO SÉCULO

As últimas três décadas do século XIX marcaram a Europa por conta de uma crise mundial que causou grandes transformações. A segunda Revolução Industrial favoreceu grandes grupos financeiros, monopolizando a economia europeia e, por conseguinte, prejudicando a classe média, a qual tentava driblar as novas leis do mercado. Todo esse contexto acarretou problemas de ordem social e econômica, como fechamento de bancos, fábricas e falência de banqueiros. Na verdade, todo o desenvolvimento do século XIX culminou no surgimento da primeira grande depressão do Capitalismo. Diante desse cenário, o conceito de felicidade passa a ser questionado e, quando isso ocorre, uma das saídas que o ser humano encontra é justamente no metafísico, no transcendental. Foi o que ocorreu com um grupo de poetas no final do século XIX, os quais buscaram no transcendental as respostas que não eram possíveis por meio da razão. Duas vertentes filosóficas marcaram as produções literárias no período. De um lado, as ideias de Schopenhauer, para o qual o desejo era uma expressão consciente do querer, esse desejo manifesta-se como carência e gera, por sua vez, sofrimento. Para ele, o homem tem um desejo insaciável e, por isso, sofre. A segunda vertente é a de Nietzsche, para o qual Platão havia errado ao conside- rar a existência do bem e da perfeição para além da vida material humana. Para Nietzsche, Deus morreu e, por isso, o mundo está tomado por um pessimismo, pela ausência de sentido e pela negação total de tudo. É nesse contexto que o Simbolismo se desenvolveu na França e de lá se espa- lhou para outros contextos. Estética que manifesta o espírito decadente e a falta de horizontes que cerceavam a Europa no final do século XIX.

O SIMBOLISMO NO BRASIL

Você já deve ter observado que as escolas literárias possuem características que em alguns períodos são rejeitadas e em outros são retomadas. Nietzsche percebeu

rejeitadas e em outros são retomadas. Nietzsche percebeu A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 82 - 83

82 - 83

essa retomada de conteúdo e de características e fez uma divisão das escolas literárias seguindo o seguinte raciocínio. Chamou de ‘Apolínea’ as escolas lite- rárias que buscavam uma arte ligada à razão, aquela arte em que o sentimento

não se sobrepusesse à razão. Nesse caso, os poetas são racionais e o ato de com- posição literária passa pela reflexão e busca ao máximo não se influenciar por sentimentos. O nome ‘Apolínea’ veio de Apolo, deus da beleza e, por isso, repre- sentante da perfeição. Como exemplo dessa tradição apolínea, temos o Realismo,

o Naturalismo, o Parnasianismo, o Arcadismo, embora alguns poemas árcades remetam à emoção.

Já a outra Tradição, a Dionisíaca, está ligada ao deus Baco, o deus do vinho.

Assim, Nietzsche chamou de tradição Dionisíaca as escolas literárias nas quais

o conteúdo pende para o lado emocional, há a percepção, por meio dos versos ou dos romances, de que a emoção conduz à pena. São exemplos da Tradição Dionisíaca o Barroco, o Romantismo e o Simbolismo.

Notamos que muitos dos sentimentos que envolveram os poetas românti- cos são retomados pelos poetas simbolistas, como a valorização do inconsciente, assim, as fantasias românticas são inerentes também ao simbolismo. As angús- tias do mundo, bem como a tristeza que viver causa ao homem, levaram o poeta simbolista a mergulhar em si mesmo, a se tornar subjetivo e, sobretudo, bus- car expressar tudo o que sente por meio de símbolos. Daí o nome simbolismo.

A preferência pela sugestão toma o espaço da descrição, a qual era comum

aos parnasianos. Desse modo, o escritor simbolista usa a linguagem para sugerir

sensações, emoções, sentimentos. Os elementos transcendentais dão aos poe- mas um misto de religiosidade e misticismo, tornando a linguagem hermética, isto é, de difícil interpretação, porque o objetivo é, pois, sugerir.

O estado de solidão em que se encontra o ‘eu’ simbolista acentua ainda mais

a subjetividade dos versos, além de o poeta preferir imagens noturnas, cercea-

das pelo mistério e pela morte. Por certo você se lembrou do Romantismo, não é? Essas marcas simbolis- tas são mesmo muito próximas da estética simbolista, é como se o que houve no início do século em termos literários viesse à tona novamente para fechar o século XIX. Porém, podemos dizer que os recursos expressivos do texto poético estão

Simbolismo – o Decadentismo do Fim do Século

Porém, podemos dizer que os recursos expressivos do texto poético estão Simbolismo – o Decadentismo do

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II mais presentes

II

mais presentes nos simbolistas que nos românticos, justo porque os últimos desejavam um texto livre de certas convenções, como as rimas e a métrica, que se tornam mais soltas no período romântico. Já para os simbolistas, a lingua- gem sugestiva exige que os recursos sejam empregados sobremaneira, tais como:

a. Sinestesias: figura de linguagem que tem por objetivo aguçar os sentidos para extrair, por meio da linguagem, imagens de sons, cheiros, sabores, sensações.

b. Musicalidade dos versos: o desejo de aproximar a música da poesia fez com que os poetas simbolistas se valessem das rimas, das aliterações (repetição de uma mesma consoante em um verso), das assonâncias (repetição de uma mesma vogal em um verso), da reiteração (repetição de uma mesma palavra em um verso).

Todas essas características fizeram da estética simbolista uma forma única de expressão artística.

ANÁLISE DE UM POEMA SIMBOLISTA

Sobre Cruz e Sousa, maior representante da estética simbolista brasileira, Teixeira (1993, p. XXI) assim se pronunciou:

A confluência de procedimentos radicais envolvendo os três níveis de organização da linguagem faculta a Cruz e Souza uma verdadeira al- quimia verbal, rigorosamente singular em nossa poesia. Em suas expe- riências expressionais, nota-se o constante abandono da lógica aristo- télica em favor de uma lógica do absurdo, de feição onírica e freudiana, como meio de engendrar imagens que representassem lampejos do inconsciente.

Para compreender o comentário crítico de Teixeira, analisamos abaixo o poema Angelus, do qual procuramos destacar os elementos que confirmam os procedi- mentos estilísticos do poeta simbolista.

ÂNGELUS

Ah! Lilases de Ângelus harmoniosos,

Neblinas vesperais, crepusculares,

de Ângelus harmoniosos, Neblinas vesperais, crepusculares, A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Guslas gementes, bandolins saudosos, Plangências magoadíssimas dos ares

Serenidades eterais d’incensos, De salmos evangélicos, sagrados, Saltérios, harpas dos azuis imensos, Névoas de céus espiritualizados.

Ângelus fluidos, de luar dormente, Diafaneidades e melancolias Silêncio vago, bíblico, pungente De todas as profundas liturgias.

É nas horas dos Ângelus, nas horas Do claro-escuro emocional aéreo, Que surges, Flor do Sol, entre as sonoras Ondulações o brumas do mistério.

do Sol, entre as sonoras Ondulações o brumas do mistério. 84 - 85 O contato com

84 - 85

O contato com uma poesia implica um processo de intelecção, ou seja, é neces-

sário adentrarmos o universo formado pelas palavras para, assim, extrairmos o real significado implícito na linguagem. Linguagem esta representada de dife- rentes formas em cada período literário. Tomando, em particular, a literatura simbolista, deparamo-nos com uma forma indireta de utilização das palavras,

na qual o “eu” que se expressa intenta sugerir o inefável, isto é, aquilo que não

se

pode dizer. O simbolismo emerge nas últimas décadas do século XIX com as produções

de

poetas franceses como Baudelaire, Verlaine e Rimboud, conforme comentamos

no tópico que abriu esta seção. No Brasil, Cruz e Souza é o maior representante desta escola e “utilizará exatamente a combinação sinestésica de Baudelaire – som, cor e perfume” (MENEGAZZO, 1991, p.22).

No poema intitulado Ângelus de Cruz e Souza, deparamo-nos com a cons- trução de um jogo de palavras que dão originalidade e harmonia à composição

Simbolismo – o Decadentismo do Fim do Século

de um jogo de palavras que dão originalidade e harmonia à composição Simbolismo – o Decadentismo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II da linguagem,

II

da linguagem, embutindo um tom de religiosidade e misticismo na poesia. O título do poema, Ângelus, remete a uma espécie de prece em honra ao mis- tério da encarnação, assim como a representação do toque do sino que lembra, exatamente, a hora dessa prece. Nesse sentido, o de que a palavra é a representação do som, temos a construção da sinestesia, ou seja, a palavra está ali como meio de materialização de um som e esta representação fono-semântica atravessada pela linguagem poética “subsiste, assim, como processo fundante de toda linguagem poé- tica, a trama de imagem, pensamento e som” (D’ONODRIO apud BOSI, 1995, p.20). Na primeira estrofe, formada por quatro versos decassílabos como as demais que integram a poesia, observamos a construção de imagens táteis, a partir de sensações que, segundo Teixeira (1993, p. 21), representam “uma verdadeira alquimia verbal”. Ademais, o que se segue na primeira estrofe é a apresenta- ção de adjetivos e substantivos, que se intercalam dando ritmo e musicalidade ao poema, como, por exemplo, nas palavras “harmoniosos” e “bandolins”. Essa forma de construção é utilizada para dizer aquilo que não pode ser traduzido. Assim, “as gulas gementes, os bandolins saudosos” fazem parte do mundo cap- tado pelo poeta, exposto por meio de uma linguagem conotativa e refinada. Na segunda estrofe, a linguagem sugere o estado de alma do eu-lírico, que busca fugir do mundo terreno. Ocorre a combinação de elementos transcen- dentais, como, por exemplo, em “serenidades eteriais d’incensos”. Observamos que a palavra incenso remete a cheiro, serenidade, a algo calmo e, por fim, ete- riais refere-se ao que é eterno. Nesse sentido, há a representação das “experiências expressionais, notamos o constante abandono da lógica aristotélica em favor de uma lógica do absurdo, de feição onírica e freudiana, como meio de engendrar imagens que representassem lampejos do inconsciente” (TEIXEIRA, 1993, p. 21), isto é, a poesia está constitu- ída a partir do que reflete a consciência individual do sujeito-lírico. Salientamos, ainda, a mistura de signos que remetem à religião: salmos evangélicos, sagrados. Na terceira estrofe, o “eu” que se expressa retoma elementos religiosos e acrescenta um “silêncio vago” e um “luar dormente” que revelam uma aparente calma e tranquilidade capaz de transcender o eu-lírico a um ambiente que, na quarta estrofe, será “claro-escuro emocional aéreo”, ou seja, longe da realidade, entretanto próximo à Flor do Sol e das “brumas do mistério”.

próximo à Flor do Sol e das “brumas do mistério”. A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 86 - 87

86 - 87

A poesia Ângelus, assim como as demais de Cruz e Souza, retira grandes efeitos dos elementos musicais, tonais e rítmicos, além de uma supervaloriza-

ção da metáfora como geradora de uma função metalinguística no poema, ou seja, a análise de uma obra de caráter simbolista exige do leitor a decodifica- ção da mensagem ali posta, já que a linguagem volta-se para ela mesma, assim como na sugestão e no vago, no misterioso e no ilógico e na expressão indireta

e simbólica das coisas. Desse modo, percebemos que a análise de Ângelus nos permitiu a compreen-

são do universo simbolista e da linguagem que enfatiza a imaginação e a fantasia;

o místico e o sobrenatural por meio de um tom altamente poético. Finalizamos

com as palavras de Sodré (1964, p. 460) sobre Cruz e Sousa: “Alguns admiráveis versos, musicais, eloquentes, com aquela imprecisão de ideias, própria da escola, colocam Cruz e Sousa entre os excelentes poetas brasileiros, com um lugar que não admite dúvidas”, mas se consideradas apenas o aspecto do trabalho com a linguagem, em detrimento ao conteúdo hermético.

com a linguagem, em detrimento ao conteúdo hermético. No link abaixo, temos uma dissertação, defendida por

No link abaixo, temos uma dissertação, defendida por Célia Marília Silva, na qual a autora analisa diversos poemas de Cruz e Sousa, destacando elemen- tos que apontam para o riso e a ironia.

<http://bdtd.bczm.ufrn.br/tde_arquivos/20/TDE-2013-03-

19T053740Z-4919/Publico/CeliaMS_DISSERT.pdf>. Acesso em: 30 out. 2013.

Disponível

em:

Acesso em: 30 out. 2013. Disponível em: A experiência psicanalítica indica que nossas ideias são

A experiência psicanalítica indica que nossas ideias são simbolizadas a par- tir de fatores fundamentais de nossa existência real, ou seja, simbolizamos a morte, o amor, a paz, dentre outras possibilidades. Nesse sentido, a Literatura Simbolista buscou simbolizar sensações, valendo-se, para tanto, das palavras que, tal como nos sonhos, podem simbolizar uma gama de possibilidades.

Simbolismo – o Decadentismo do Fim do Século

que, tal como nos sonhos, podem simbolizar uma gama de possibilidades. Simbolismo – o Decadentismo do

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II CONSIDERAÇÕES FINAIS

II

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ufa! Foi uma longa unidade, por meio dela você conheceu o desenvolvimento da Literatura Brasileira ao longo do século XIX. Certamente percebeu que em 100 anos nossa Literatura passou por transformações bastante significativas, pois saí- mos de uma condição de país colonizado e passamos a ser independentes. Esse novo cenário propiciou o surgimento de movimentos literários que discutissem

o país, dando cor local aos textos, como vimos no Romantismo.

Com o Realismo, observamos que um novo olhar marcou a escrita literária, olhar este que mais do que sentimentos, procurou enfatizar as mazelas sociais, como fez Álvares de Azevedo, ou ainda, analisar secamente e de forma irônica

a conduta do homem do século XIX diante da sociedade, como fez Machado

de Assis. Por fim, as duas vertentes poéticas do fim do século afastaram-se da crítica

e priorizaram a experiência com a palavra, seja para torná-la hermética, como

fizeram os poetas simbolistas, seja para descrever objetos, como fizeram os poe- tas parnasianos.

descrever objetos, como fizeram os poe- tas parnasianos. A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA

A PRODUÇÃO LITERÁRIA DO SÉCULO XIX – DA POESIA À PROSA

8888 -- 8989 Os trechos abaixo foram extraídos de Dom Casmurro, de Machado de Assis.

8888 -- 8989

Os trechos abaixo foram extraídos de Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Trecho 1: Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela veros- similhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem à definição. Cantei um duo terníssimo, depois um trio, depois um quatuor

Trecho 2: Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as cousas que não achei nele. Quantas ideias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas lidas, todos me aparecem agora com as suas águas, as suas árvores, os seus altares, e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista. É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as mi- nhas.

(Disponível em: <http://www.comvest.unicamp.br/vest_anteriores/2013/downlo- ad/comentadas/portugues.pdf>. Acesso em: 30 out. 2013).

1. Como a narrativa de Bento Santiago pode ser relacionada com a afirmação de que a verossimilhança é “muita vez toda a verdade”?

2. Considerando essa relação, explicite o desafio que o segundo trecho propõe ao leitor.

3. A canção popular abaixo se opõe à estética romântica. Explique essa afirmativa, valendo-se de

3. A canção popular abaixo se opõe à estética romântica. Explique essa afirmativa, valendo-se de elementos que sustentem sua resposta e que estejam presentes na canção.

Tristeza

Beth Carvalho

Tristeza, por favor vá embora

Minha alma que chora está vendo o meu fim

Tristeza, por favor vá embora

Minha alma que chora está vendo o meu fim

Fez do meu coração a sua moradia

Já é demais o meu penar

Quero voltar àquela vida de alegria

Quero de novo cantar!

(Disponível em: <http://letras.mus.br/beth-carvalho/175043/>. Acesso em: 30 out. 2013).

MATERIAL COMPLEMENTAR

90 - 91
90 - 91
MATERIAL COMPLEMENTAR 90 - 91 Walnice Nogueira Galvão é um dos nomes mais expressivos da crítica

Walnice Nogueira Galvão é um dos nomes mais expressivos da crítica literária no Brasil, já publicou trabalho sobre autores diversos, como Guimarães Rosa e Euclides da Cunha. No artigo, cujo link segue abaixo, há um livro da autora, Anotações à margem do regionalismo, no qual ela discute a presença do regionalismo na Literatura Romântica, além de analisar o Romantismo de forma precisa.

Disponível em:<http://www.revistas.usp.br/ls/article/view/18327/20390>. Acesso em: 5 out. 2013.

O cortiço Diretor: Francisco Carvalho Jr Ano: 1977 Sinopse: Produzido em 1977, o filme O
O cortiço
Diretor: Francisco Carvalho Jr
Ano: 1977
Sinopse: Produzido em 1977, o filme O cortiço baseia-se no romance
de Aluísio Azevedo, o filme, à moda do livro, retrata a realidade da
sociedade do século XIX. Dirigido por Francisco Carvalho Jr., contou
com atores consagrados em seu elenco como Betty Faria, Mário Gomes
e Antônio Pompeu. Assista ao filme O cortiço, que está disponível
integralmente no link abaixo:
<http://www.youtube.com/watch?v=MuLRAz79-rc>.
Acesso em: 15 out. 2013.
integralmente no link abaixo: <http://www.youtube.com/watch?v=MuLRAz79-rc>. Acesso em: 15 out. 2013.

Roberto Schwarz é o maior pesquisador da obra de Machado de Assis, além de livros, há disponíveis muitos vídeos de palestras em que o crítico explana com veemência as principais características machadianas. Assista aos vídeos sobre machado de Assis:

<http://www.youtube.com/watch?v=CPw664mzGpk>.

<http://www.youtube.com/watch?v=BGIR1mfvEYU>.

Acesso em: 23 out. 2013.

Acesso em: 23 out. 2013. A sátira do Parnaso - Estudo da poesia satírica de Olavo
A sátira do Parnaso - Estudo da poesia satírica de Olavo Bilac Álvaro Santos Simões
A sátira do Parnaso - Estudo da poesia satírica de Olavo Bilac
Álvaro Santos Simões Junior
Editora: Unesp
Sinopse: Álvaro Santos Simões Junior é um dos maiores estudiosos da
estética parnasiana no Brasil. No livro A sátira do Parnaso - Estudo da
poesia satírica de Olavo Bilac, publicado em periódicos de 1894 a 1904, da
Editora da Unesp, o autor analisa a veia satírica de Bilac e investiga pontos
inerentes à obra e Bilac antes não estudados pela crítica literária brasileira.
Material Complementar
Professora Me. Claudia Vanessa Bergamini O INÍCIO DO SÉCULO XX – TENDÊNCIAS LITERÁRIAS III Objetivos
Professora Me. Claudia Vanessa Bergamini O INÍCIO DO SÉCULO XX – TENDÊNCIAS LITERÁRIAS III Objetivos
Professora Me. Claudia Vanessa Bergamini
O INÍCIO DO SÉCULO XX –
TENDÊNCIAS LITERÁRIAS
III
Objetivos de Aprendizagem
■ Apresentar os primeiros escritos do século XX.
■ Ressaltar as tendências literárias do início do século.
■ Enfatizar os principais autores, ressaltando as peculiaridades de cada
um.
UNIDADE

Plano de Estudo

A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:

O Pré-Modernismo no Brasil

Euclides da Cunha

Augusto dos Anjos

Lima Barreto

Monteiro Lobato

■ O Pré-Modernismo no Brasil ■ Euclides da Cunha ■ Augusto dos Anjos ■ Lima Barreto

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

INTRODUÇÃO

Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. INTRODUÇÃO 94 - 95 Caro(a) aluno(a),

94 - 95

Caro(a) aluno(a), nesta unidade, você irá estudar as tendências literárias que movimentaram o início do século XX. Motivados por ares de modernidade, assim como pelos temores que a iminência de uma guerra mundial impunha, os artistas buscaram novas formas de fazer arte e literatura, tentando ao máximo romper com a perspectiva tradicional clássica. Observamos que a modernidade invadiu as cidades e as formas artísticas, permitindo ao homem novas técnicas de representação da realidade. Na Europa, as Vanguardas Artísticas Europeias vão revolucionar o conceito de Arte e de Literatura, no Brasil, o período denominado Pré-Modernismo aponta o amadu- recimento de nossos escritores no que se refere à percepção de nossa realidade social, política e econômica. Assim, ao longo desta unidade, você ira perceber que a Literatura produ- zida no século XX vai além de uma simples denúncia social, haja vista o fato de marcar as mazelas e hipocrisias da sociedade com tom engenhoso. Boa leitura e bom estudo!

AS DUAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX – TENDÊNCIAS LITERÁRIAS

A virada do século trouxe para a Literatura Brasileira novos ares. Novos tempos sociais e novas perspectivas estéticas surgiram. A Europa vivia sob o ideal bélico, pois os países se preparavam para o que viria a ser logo no início da segunda década do século XX, a Primeira Guerra Mundial. O Brasil, por conta da guerra na Europa, teve acelerado seu processo de indus- trialização, já que com a guerra alguns países foram impossibilitados de fabricar certos produtos. Nesse contexto, o Brasil passou a produzi-los e a exportá-los. A fase de prosperidade do início do século XX foi alicerçada pelo café, pelo açú- car refinado e pela indústria têxtil.

Introdução

do início do século XX foi alicerçada pelo café, pelo açú- car refinado e pela indústria

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III Além do

III

Além do cenário econômico, fatores de ordem social modificaram a configu- ração de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, em especial a última, berço da industrialização brasileira. Trata-se da chegada em grande volume de imigran- tes europeus e asiáticos. Porém, a baixa remuneração desses imigrantes, aliada à baixa remuneração dos trabalhadores brasileiros, contribuiu para o surgimento de greves e reivindicações. Em 1922, o Partido Comunista foi fundado, com o intuito de ser a ‘voz’ dos trabalhadores.

Os emigrantes, de Antonio Rocco, 1910 Ademais do contexto mencionado, a

política interna do país patinava, pois foram conturbados os primeiros anos da República (1889-1894), momento em que

o país esteve sob o comando de Deodoro

da Fonseca e Marechal Floriano Peixoto, assim como houve tumultos durante o governo de Prudente de Moraes (1894- 1898), período que marca o início da

república do café-com-leite. Revoltas como

a da Armada e a Guerra de Canudos acen-

tuaram ainda mais a crise política. Nesse contexto, escritores como Lima Barreto, Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e Augusto dos Anjos produziram suas obras, nas quais verificamos um estilo distinto em cada autor. Por esse motivo, não podemos dizer que o período que vai aproximadamente de 1902 até 1922, ano da Semana de Arte Moderna, configurou-se uma Escola Literária. Desse modo, denominamos didaticamente de Pré-Modernismo os textos produzidos nesse espaço temporal. Não podemos falar em escola literária, como bem apontaram os críticos, por- que temos um ecletismo, pois, no que se refere ao estilo, os autores não seguem uma tendência que possa definir o período da mesma forma como verificamos no Romantismo ou Parnasianismo, momento em que há mais ou menos um equilíbrio quanto à forma e ao conteúdo das composições, salvo uma ou outra obra que destoa do que se entende estilo de época.

ou outra obra que destoa do que se entende estilo de época. ©italiaoggi O INÍCIO DO

©italiaoggi

outra obra que destoa do que se entende estilo de época. ©italiaoggi O INÍCIO DO SÉCULO

O INÍCIO DO SÉCULO XX – TENDÊNCIAS LITERÁRIAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 96 - 97

96 - 97

Nesse sentido, o termo pré-modernismo, proposto em 1939 por Tristão de Athayde (pseudônimo de Alceu Amoroso Lima, 1893-1983), passou a ser a nomenclatura para denominar o “momento de alvoroço intelectual, marcado pelo fim da grande guerra [1914-1918] e, entre nós, por toda uma ansiedade de renovação intelectual, que alguns anos mais tarde redundaria no movimento modernista” (ATHAYDE, 1939, p. 07). Dentre as obras que merecem destaque no período, encontram-se: o romance Canaã, de Graça Aranha, de 1902; Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto, de 1909; Eu, de Augusto dos Anjos, de 1012; Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, de 1918; Urupês, de 1918 e Cidades Mortas, de 1919, ambas de Monteiro Lobato. Por meio da leitura dessas obras, deparamo-nos com dois brasis. O primeiro deles denuncia a situação dos pobres, sobretudo enfatizando o interior do Brasil. Notamos que nesse aspecto, o pré-modernismo se diferencia de outras escolas, nas quais a crítica, quando existente, não rompia os limites da cidade do Rio de Janeiro e falava, em geral, da elite, Senhora, de Alencar, romance romântico, é exemplo dessa limitação quanto ao espaço social retratado. Outra característica presente nas obras do período se refere às marcas de ora- lidade. Em Inocência, Taunay já havia marcado a linguagem com um tom oral, incluindo palavras típicas da região do Mato Grosso, espaço do romance. Mas será no pré-modernismo que elementos orais serão incorporados de maneira enfática, Encontramos exemplos nas obras do carioca Lima Barreto e do gaú- cho Simões Lopes Neto. Todas essas características, aliadas ao contexto histórico conturbado por elementos políticos e sociais, resultaram em uma fragmentação estética, em expe- riências com a linguagem e maneiras não sistematizadas de se fazer Literatura. O momento que antecede o Modernismo Brasileiro é considerado por Bosi (1994, p. 307) a “negação de todo academicismo e ruptura com a Velha República, desenvolve a problemática daqueles, como o fará, ainda mais exemplarmente, a literatura dos anos de 30”. Nesse sentido, verificamos que se trata de período que merece ter suas obras estudadas “pelo que significam isoladamente e pelas rela- ções que guardam entre si e com o tempo em que foram concebidas” (LEITE, 1995, p. 169).

As Duas Primeiras Décadas do Século XX – Tendências Literárias

em que foram concebidas” (LEITE, 1995, p. 169). As Duas Primeiras Décadas do Século XX –

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III EUCLIDES DA

III

EUCLIDES DA CUNHA

Ao lado de Graça Aranha, Euclides da Cunha iniciou o Pré-Modernismo no Brasil. O engenheiro de formação, era republicano e liberal, além de ser adepto de correntes da época, como positivismo e determinismo, as quais comentamos na unidade anterior ao falar sobre o Realismo. Em que pese toda a rigidez inte- lectual de Euclides da Cunha, ele foi o grande responsável por um dos registros mais precisos da sociedade brasileira pós-monarquia. Em 1897, Euclides da Cunha foi enviado à Bahia como correspondente do jornal O Estado de São Paulo, para atuar como jornalista cobrindo a Guerra de Canudos. O convite teve como motivação o fato de que Euclides já havia escrito artigos sobre Antonio Conselheiro e seus comandados, tomando-os como ini- migos, uma vez que estavam contra a República. Havia a crença de que as pessoas que moravam em Canudos, no sertão da Bahia, eram perigosas. Daí a necessidade de que um confronto acontecesse. No entanto, quando lá chegou, Euclides se deparou com um contexto muito diferente e não viu nos homens liderados por Conselheiro nenhum motivo de preocupa- ção. Muito longe de representar uma ameaça à soberania nacional, pelo contrário, os sertanejos eram vítimas do grupo de monárquicos que, percebendo a inge- nuidade do grupo de Conselheiro, valeu-se disso para colocá-los, ainda que sem munição adequada ou mesmo entendimento ideológico do motivo da revolta, em confronto com os soldados republicanos. Durante os cinco anos em que esteve como correspondente, Euclides da Cunha escreveu Os sertões, publicado em 1902, tendo tendências de ensaio sociológico em forma de romance. Mas não se trata, pois, de romance em que se tem uma história de amor ou um conflito financeiro, trata-se de um livro de denúncia sobre o que realmente representou a Guerra de Canudos, fato verí- dico de nossa História. Dividida em três partes, Os sertões é uma obra que tem interessado a biólogos, geógrafos, historiadores, antropólogos e muitos outros intelectuais debruçados sobre o final do século XIX. A divisão em três partes indica a influência deter- minista, pois a primeira parte poderia ser entendida como o meio, a segunda, como a raça, e a terceira, como a história.

como o meio, a segunda, como a raça, e a terceira, como a história. O INÍCIO

O INÍCIO DO SÉCULO XX – TENDÊNCIAS LITERÁRIAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 98 - 99

98 - 99

A primeira parte da obra é denominada ‘A terra’, nela nos deparamos com uma descrição minuciosa de aspectos geográficos e climáticos da região de Canudos, palco da guerra. Na segunda parte, intitulada ‘O homem’, o autor descreve o sertanejo, mos- tra a vida sofrida desse tipo social esquecido pelo sistema, isolado pela distância física e pela visão de mundo atrasada, cultivando hábitos medievais, crenças e rezas que, para o olhar do homem letrado, como era Euclides, são marcas do atraso cultural do interior brasileiro. O narrador euclideano vê no sertanejo um forte, embora o descreva como feio, amarelo, de cabeça com formato achatado, o sertanejo é percebido como um Hércules-Quasímodo, como vemos no tre- cho que segue.

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo

dos mestiços neurastênicos do litoral.

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrá-

rio. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssi- ma das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a

passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico

os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo

mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira

conversa com um amigo, cai logo - cai é o termo - de cócoras, atraves- sando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo

o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre

os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.

É o homem permanentemente fatigado.

Refleteapreguiçainvencível,aatoniamuscularperene,emtudo:napalavra

remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência lan- gorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude. Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude. Nada é mais surpre-

As Duas Primeiras Décadas do Século XX – Tendências Literárias

aparência de cansaço ilude. Nada é mais surpre- As Duas Primeiras Décadas do Século XX –

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III endedor do

III

endedor do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormecidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, esta- deando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça

firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes aclarada pelo olhar desas- sombrado e forte; e corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar do tabaréu canhestro reponta, inesperadamente, o aspec- to dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias (Disponível em:

<http://gtvbocadoinferno.blogspot.com.br/2009/08/o-hercules-quasi-

modo-de-euclides-da.html>. Acesso em: 31 out. 2013).

Por fim, a terceira parte do livro tem como título ‘A luta’, nela o autor descreve o massacre que sofreram os sertanejos, que lutavam a favor da monarquia. Os soldados da República, um pelotão com 8 mil homens, bem preparados e bem munidos, destruíram Canudos e assassinaram, por assim dizer, mulheres e crian- ças inocentes. Sobre o aspecto regionalista de Euclides da Cunha, quando em Os sertões foca-se na figura do sertanejo, Sodré (1964, p. 408) enfatiza que: “Revelou o Brasil aos brasileiros, apesar de seus quadros pejados de natureza ou dos entraves da erudição verbalista que proporcionou em muitos casos. Procurou dar à cor local um sentido mais profundo do que o trazido pelo sertanismo”.

Os Sertões, de Euclides da Cunha Euclides da Cunha, por meio de Os sertões, denunciou os crimes de Canudos. Embora muitos acreditem que alguns episódios do livro não tenham realmente ocorrido, fato é que a obra permi- tiu compreender a relação do homem sertanejo com a natureza; a visão de mundo ultrapassada do sertanejo, a qual advém de seu isolamento em relação à capital, Rio de Janeiro e a São Paulo, os dois grandes centros e, sobretudo, permitiu penetrar mais fundo na realidade brasileira. Você deve ter observado como o olhar de Euclides da Cunha focalizou problemas da sociedade brasileira que antes não haviam sido mencionados pela Literatura. Com Lima Barreto não foi diferente. O autor

pela Literatura. Com Lima Barreto não foi diferente. O autor O INÍCIO DO SÉCULO XX –
pela Literatura. Com Lima Barreto não foi diferente. O autor O INÍCIO DO SÉCULO XX –

O INÍCIO DO SÉCULO XX – TENDÊNCIAS LITERÁRIAS

100 - 101 carioca soube retratar muito bem grandes problemas da sociedade brasileira do início

100 - 101

carioca soube retratar muito bem grandes problemas da sociedade brasileira do início do século XX. Os desmandos na Imprensa; a questão do negro que, embora livre do regime escravocrata, ainda não estava livre das amarras sociais que o colocavam em dis- sonância com outros seres humanos; a soberba e a hipocrisia sociais; o emprego de uma linguagem marcada por recursos da oralidade, tudo isso são elemen- tos que fizeram de Lima Barreto o grande nome do período que antecedeu o Modernismo no Brasil.

Lima Barreto ©wikimedia Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19
Lima Barreto
©wikimedia
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Alcoólatra, o escritor morreu jovem, com 41 anos, dei- xando uma obra com dezessete volumes, divididos entre crônicas, ensaios, contos, além de livros e crítica literá- ria e uma vasta correspondência. A maior parte de seus escritos foi publicada postumamente. Diante dessa vasta obra, escolhemos um conto para ser analisado. Trata-se de ‘A Nova Califórnia’, conto em que temos o despertar da cobiça e da ganância pairando sobre a pequena cidade. Por meio dele, observamos que, tal qual Machado de Assis, Lima Barreto também voltou seu olhar para a análise psicológica da alma humana. Não deixou de fazer crítica social, mas tampouco descuidou da análise das atitudes do homem em situações de controvérsia.

ANÁLISE DO CONTO A NOVA CALIFÓRNIA, DE LIMA BARRETO

Tubiacanga é uma daquelas cidades nas quais o tempo discorre lentamente. Sem grandes avanços e sem grandes novidades, tudo o que lá acontece tem como testemunha o olhar atento dos moradores. Assim, a chegada de um novo mora- dor não poderia passar despercebida, sobretudo se este escolher como modo de vida o sigilo, sem aderir ao bate-papo, a estreitar laço com os moradores, feito tão comum na pequena cidade.

As Duas Primeiras Décadas do Século XX – Tendências Literárias

com os moradores, feito tão comum na pequena cidade. As Duas Primeiras Décadas do Século XX

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III Aguçando a

III

Aguçando a curiosidade da população, Flamel, o novo morador, manteve -se isolado, não deixando que ninguém dele se aproximasse. Os moradores, no entanto, não resistindo à curiosidade de saber de quem se tratava, criaram meca- nismos para descobrir informações sobre o desconhecido.

Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do correio pudera apenas informar que acudia ao nome de Raimundo Flamel, pois assim será subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase dia- riamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço alentado de cartas vindas do mun- do inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes

1

Notamos que a curiosidade dos moradores fez com que observassem o volume da correspondência e descobrissem o nome do novo morador, também sabiam ser correspondência vinda do estrangeiro, pois o narrador se refere à “língua arreve- sada” nas cartas. A curiosidade se mostra aqui como tema, porque os moradores desejam saber sobre Flamel, mas não podem, pois este não permite tal aconte- cimento. Assim, ao espiarem a correspondência, os moradores buscam entrar em conjunção com o objeto valor, no caso, a vida do outro. Um dia, para espanto de todos, Flamel chama Fabrício, o pedreiro, para construir um forno em sua sala de jantar. A cidade se ocupa em tentar desco- brir o porquê da construção. Fabrício relatava a todos tudo o que vira na casa.

Fabrício pode contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos como os da farmácia – um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios de uma cozinha em que o próprio diabo cozinhasse. O alarme se fez na vila. Para uns, os mais adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o tinhoso.

Saber o que tinha na casa de Flamel permitiu aos moradores tirarem conclusões a respeito dele. Nesse caso, duas são as categorias de pessoas que aparecem no texto. Um grupo mais culto, que representa o lado intelectualizado da população, para o qual vidros, balões e facas são sinônimos de ciência. E outro grupo, que vê nos utensílios a presença do diabo, fazendo com que Chico da Tirana, ao passar pela casa, rezasse “um credo em voz baixa”, a fim de espantar os espíritos do mal.

1 Considerando que muitos serão os trechos retirados do conto A nova Califórnia, para serem comentados durante a análise, optamos por colocar a referência somente ao final.

a análise, optamos por colocar a referência somente ao final. O INÍCIO DO SÉCULO XX –

O INÍCIO DO SÉCULO XX – TENDÊNCIAS LITERÁRIAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 102 - 103

102 - 103

O farmacêutico, como representante do saber e desejoso de mostrar que era informado, conclui que Flamel “devia ser um sábio, um grande químico, refu- giado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos científicos”. A partir do momento em que Bastos, o farmacêutico, concluíra se tratar Flamel de uma celebridade do mundo da ciência, os moradores passaram a admirá-lo, ainda que sem conhecê-lo, e Tubiacanga passou a viver dias de tranquilidade, sem o medo de se tratar de um “indivíduo suspeito”. É nesse momento de calmaria que Flamel começa a pôr em prática seu plano de destruição da cidade, justo porque ele sabia que os moradores de Tubiacanga, em especial os líderes financeiros, precisavam somente de um motivo para deixar sua ganância à mostra. Todos os moradores admiravam o químico e tal admira- ção não era completa porque Capitão Pelino colocava em dúvida a honestidade de Flamel.

A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival para a fama de sábio de que gozava.

Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramá- tico. Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do Capitão Pelino, e mesmo quando se falava em algum notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas

escreve: ‘um outro’, ‘de resto’ golido alguma coisa amarga.

E contraía os lábios como se tivesse en-

Ao contrair os lábios, Pelino comprova o descaso que sente quando qualquer pessoa demonstra conhecimento. Pelino é o sujeito do conto que quer ser e na

cidade representa o poder pelo conhecimento e, num lugar de gente simples, ele

é o próprio conhecimento e não deseja que ninguém tome seu lugar. Nesse caso,

Flamel seria seu rival, o único em Tubiacanga capaz de lhe roubar, ainda que de modo inconsciente, o posto de sábio, pois “a chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo o seu esforço voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia tão inopinadamente”. Tentava combater o rival, mas sem sucesso, porque foram vãs as suas palavras

e a sua eloquência: não só Raimundo Flamel pagava em dias as suas contas, como era generoso – pai da pobreza – e o farmacêutico vira numa revista de específi- cos seu nome citado com químico de valor”. Assim, Pelino é um sujeito que quer, mas não pode, porque é Flamel quem ganha o reconhecimento e a admiração do

As Duas Primeiras Décadas do Século XX – Tendências Literárias

Flamel quem ganha o reconhecimento e a admiração do As Duas Primeiras Décadas do Século XX

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III povo. Pelino,

III

povo. Pelino, com medo de entrar em disjunção com seu objeto valor – o reco- nhecimento como sábio tenta, com palavras vãs, combater o oponente. No entanto, a honestidade do químico se revela na expressão: “pagava em dias as suas contas”, opondo-se às atitudes de Pelino que se valia da “eloquên- cia” para difamar o rival, sem sucesso. Até esse ponto do texto, é possível observar dois temas sendo dicursivizados:

o interesse pela vida alheia e o medo de perder o poder. Flamel fica no centro, pois é o alvo dos moradores que desejam saber sobre a sua vida e é também o alvo de Pelino, que teme perder o ‘posto’ de sábio.

Escrito em uma época em que o saber era sinônimo de vantagem, o conto discute como o conhecimento cria categorias de pessoas: a categoria das pessoas ignorantes e uma segunda, a parte mínima, que detém o conhecimento. Porém, de maneira irônica, tem-se a palavra ‘eloquência’ empregada, construindo Pelino como o sujeito que fala bem, valendo-se dessa arte para convencer os demais sobre sua verdade. Já Flamel se opõe, pois é o sujeito que age – “pagava em dias as suas contas”, “a profunda simpatia com que ele tratava as crianças” – reve- lando seu caráter. Num segundo plano, temos como tema a curiosidade, tentação humana perigosa, descrita por Santo Agostinho como uma doença capaz de conduzir as pessoas ao mal. Trata-se de uma tentação que vem disfarçada de conhecimento

o prazer corre atrás do belo, do harmonioso, do suave, do

e ciência, pois “(

saboroso, do brando; a curiosidade, porém, gosta às vezes de experimentar o contrário dessas sensações, não para se sujeitar a enfados dolorosos, mas para satisfazer a paixão de tudo examinar e conhecer” (AGOSTINHO, 1999, p. 297). Exatamente isso é o que ocorre com os moradores de Tubiacanga, com vistas a conhecer sobre a vida de Flamel, observam o percurso de sua correspondência, especulam sobre o conteúdo dela e intentam descobrir coisas sobre o forasteiro.

)

O DESPERTAR DA AMBIÇÃO

Ambição refere-se à paixão por querer fama, poder, dinheiro. Justamente este último é o que vai impulsionar a segunda parte do conto. Os acontecimentos

é o que vai impulsionar a segunda parte do conto. Os acontecimentos O INÍCIO DO SÉCULO

O INÍCIO DO SÉCULO XX – TENDÊNCIAS LITERÁRIAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. 104 - 105

104 - 105

que seguem confirmam a escolha do título: A nova Califórnia, o qual faz refe- rência ao estado norte-americano que, no século XIX, viveu a corrida do ouro e, por conta do nobre metal, recebeu pessoas de várias regiões que guerreavam para consegui-lo. Flamel decide despertar nos líderes da cidade a ambição. Assim, dirige-se à farmácia, num gesto inimaginável pelos moradores, dado o isolamento em que

vivia. Flamel se dirige a Bastos: “– Como o senhor deve saber, dedico-me à quí-

”. O discurso direto,

recurso usado pelo enunciador no momento em que o narrador dá voz às perso- nagens, traz a locução verbal ‘deve saber’, revelando que Flamel tem consciência

de que sua vida é conhecida pelo farmacêutico. Assim, a proposta que ele fará em seguida a Bastos faz parte de seu plano de aguçar a ambição dos donos do poder de Tubiacanga. Flamel pede a Bastos que seja testemunha de sua descoberta e que traga com ele mais duas pessoas para testemunharem uma experiência: ele iria transfor- mar ossos humanos em ouro. Ao ouvir a proposta, Bastos demonstra surpresa e ambição pela descoberta:

mica, tenho mesmo um nome respeitado no mundo sábio

“– Como? O quê? Fez Bastos, arregalando os olhos.”, a ambição se apresenta no conto por meio da descrição dos olhos arregalados de Bastos que, a partir desse momento, vai desejar entrar em conjunção com o objeto valor de Flamel, o saber para fazer ouro. Surpreso com a revelação, Bastos indica como espectador o coronel Bentes, “que é homem sério, rico e muito discreto”. Bastos cria um per-

fil psicológico positivo do coronel Bentes, a mesma atitude terá na descrição do outro espectador, o tenente Carvalhais, o coletor: “é um homem de confiança,

sério

Os adjetivos escolhidos pelo enunciador para traçar o perfil das perso-

nagens atestam a imagem positiva que se desejou construir. No entanto, ao longo dos acontecimentos, o leitor capta a ironia nessa descrição, já que essas persona- gens se tornarão pivô dos acontecimentos horrendos que seguirão.

Outro ponto que merece ser comentado é sobre a escolha das testemunhas da experiência. Flamel faz questão de perguntar se o indicado – o coronel Bentes – é

religioso: “- É religioso? Faço-lhe esta pergunta, acrescentou Flamel logo, porque

ao passo que Bastos

responde: “– Qual! É quase ateu

Acreditamos que essa fala vem reforçar o que

temos que lidar com ossos de defunto e só estes servem

”.

”,

”.

As Duas Primeiras Décadas do Século XX – Tendências Literárias

ossos de defunto e só estes servem ”. ”, ”. As Duas Primeiras Décadas do Século

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III se falou

III

se falou anteriormente: na cidade há duas categorias de pessoas, as ignorantes e as sábias. No entanto, mais uma vez o enunciador é irônico, pois a experiência é uma fraude, trata-se de ouro de tolo, pois se sabe que os experimentos da alqui- mia nunca avançaram (nunca se chegou à pedra filosofal: transformar em ouro uma outra matéria) e os ‘sábios’ e depois os ‘ignorantes’ da cidade irão acredi- tar nisso. Assim, a experiência de Flamel é um simulacro, pois enganou a todos:

sábios e ignorantes. Flamel e Bastos acordaram que, no domingo, Bastos mais o tenente Carvalhais

e o Coronel Bentes assistiriam à transformação de ossos humanos em ouro. Foi

o que aconteceu, mas Flamel desapareceu misteriosamente depois da experiên- cia, deixando a desordem instaurada na cidade que:

era uma pequena cidade de três ou quatro mil habitantes, muito pacífi-

ca [

to por ocasião das eleições municipais; mas, atendendo que o assassino era do partido do governo, e a vítima da oposição, o acontecimento em nada alterou os hábitos da cidade

O único crime notado em seu pobre cadastro fora um assassina-

]

Na descrição da cidade, notamos que, além da paz traduzida pela ausência de

crimes e assassinatos, denuncia-se, com ironia, a impunidade, pois o único crime não foi investigado, justo porque se tratava de um assassino aliado ao governo

e uma vítima aliada à oposição. Assim, a descrição pode ser entendida como

a figurativização da impunidade presente na cidade, revelando as relações de poder nela existentes. Ou seja, não houve punição porque o crime favoreceu aos poderosos da cidade. A paz de Tubiacanga será quebrada depois da fuga de Flamel, “que dias

depois, misteriosamente, ele desaparecia sem deixar vestígios ou explicação para

o seu desaparecimento” as três testemunhas do experimento passaram a violar

os túmulos para extrair os ossos e, com eles, tentar repetir o feito do químico.

Mas qual não foi a surpresa dos seus habitantes quando se veio a veri- ficar nela um dos repugnantes crimes de que se tem memória! Não se tratava de um esquartejamento ou parricídio: não era o assassinato de uma família inteira ou um assalto à coletoria; era coisa pior, sacrílega aos olhos de todas as religiões e consciências: violavam-se as sepulturas do “Sossego”, do seu cemitério, do seu campo-santo.

Por causa do saque aos túmulos, a cidade virou um caos:

campo-santo. Por causa do saque aos túmulos, a cidade virou um caos: O INÍCIO DO SÉCULO

O INÍCIO DO SÉCULO XX – TENDÊNCIAS LITERÁRIAS

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.