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UNIDADE II

LEGISLAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A EDUCAÇÃO DE SURDOS

Professora Dra Clélia Maria Ignatius Nogueira

Professora Esp. Beatriz Ignatius Nogueira

Professora Esp. Marília Ignatius Nogueira Carneiro

Objetivos de Aprendizagem

• Refletir sobre o percurso histórico da inclusão escolar dos surdos.

• Refletir sobre as lutas travadas pela comunidade surda e suas principais conquistas.

• Discutir a Legislação e as Políticas Públicas para a educação dos surdos brasileiros.

• Refletir sobre as propostas de inclusão da Língua Brasileira de Sinais nos cursos de Licenciatura.

Plano de Estudo

A seguir apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:

• A inclusão escolar do surdo brasileiro

• A Legislação brasileira referente à educação de surdos, começando pela Constituição Federal de 1988; até o Decreto 5626/2005, que estabelece a inclusão da Língua Brasileira de Sinais nos cursos de licenciatura e de fonoaudiologia, passando por, entre outras, a Lei Federal 10 098/2000, referente à Acessibilidade e a Lei 10 436/2002, que reconhece a Libras como língua oficial do Brasil

• A Educação de Surdos e as Políticas Públicas do Brasil: A Política Nacional de Educação Especial de 1994; O Plano Nacional de Educação – 2001; O Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos

INTRODUÇÃO

INTRODUÇÃO Atualmente, qualquer congresso, palestra, atividades de formação continuada ou grupo de estudos destinados

Atualmente, qualquer congresso, palestra, atividades de formação continuada ou grupo de estudos destinados

a professores da Educação Básica, direta ou indiretamente, fala-se de escola inclusiva. Embora a inclusão diga

respeito a qualquer estudante que encontra barreiras para aprender ou ter acesso ao que a escola oferece – em

qualquer momento da escolarização, de maneira geral, a maioria das pessoas envolvidas ou não com a educação

acredita que a escola inclusiva se destina apenas às crianças com necessidades educativas especiais. A principal

razão para isso é que nessas crianças, as diferenças são mais específicas e exigem ações pedagógicas igualmente

específicas, para quais os professores em geral julgam estar despreparados.

Numa escola inclusiva todos são considerados iguais e tem o mesmo valor. Assim, a escola que é inclusiva está

em contínuo processo de mudança para se adaptar aos diferentes alunos que recebe, pois a inclusão significa

muito mais do que a simples presença física da criança na sala de aula. Infelizmente, ainda não saímos do discurso

para a prática, uma vez que nossa escola pública continua excluindo os pobres, os culturalmente diferentes e,

principalmente, os que possuem necessidades educativas especiais.

Dentre os alunos com necessidades educativas especiais que encontram maiores dificuldades nesse processo de

inclusão estão os surdos, pois os processos de ensinar e de aprender ainda se sustentam quase que exclusivamente

na comunicação oral.

Como a comunicação oral é sensivelmente prejudicada, a educação de surdos apresenta dificuldades e limitações,

exigindo práticas pedagógicas diferenciadas que mudaram radicalmente ao longo dos anos, conforme vimos na

Unidade I.

Todavia, para que a educação de Surdos atingisse o patamar atual, com a inclusão se fortalecendo e com os

futuros professores aprendendo Libras, muita luta foi travada.

Nesta unidade, discutiremos brevemente a respeito do difícil caminho trilhado pelas pessoas com necessidades

especiais até o presente momento de propostas educacionais inclusivas no Brasil, destacando, evidentemente, as

pessoas surdas. Discutiremos as principais leis que regulamentam a Educação de Surdos e as Políticas Públicas

brasileiras para e Educação de Surdos.

Para orientar seus estudos, ao final da leitura de cada texto que compõem esta unidade:

1 - Elabore um texto de, no máximo 15 linhas, com um resumo do que foi lido, destacando o que você entendeu como o mais importante da leitura realizada.

2 - Destaque uma dúvida que surgiu na leitura e que você conseguiu resolver. Escreva a dúvida em forma de pergunta e, em seguida, responda-a.

3 - Anote uma dúvida que surgiu e você não encontrou a resposta nos textos apresentados para motivá-lo a pesquisar mais sobre o assunto.

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INCLUSÃO: O DIFÍCIL CAMINHO ATÉ AQUI Primeiro, vamos caracterizar a inclusão como princípio da Educação

INCLUSÃO: O DIFÍCIL CAMINHO ATÉ AQUI

Primeiro, vamos caracterizar a inclusão como princípio da Educação Especial. Para isso, apresentamos, primeiramente, os princípios de Normalização e de Integração, por serem os princípios anteriores e dos quais teve origem o princípio de inclusão.

O princípio de Normalização surgiu na Dinamarca, com uma Lei de 1959 que estabelecia: “É necessário criar

condições de vida para a pessoa retardada mental e semelhantes, tanto quanto possível, às condições normais

da sociedade em que vive”. O espírito da lei se referia a criar condições normais da sociedade e não do indivíduo.

Porém, a partir de diferentes interpretações, a maioria equivocadas, passou-se a considerar que o princípio da normalização se aplicava à pessoa com deficiência e, assim, a Educação Especial buscava tornar a criança especial o mais normal possível. No caso específico da surdez, isso significava que o surdo deveria aprender a falar e o oralismo passou a ser a principal metodologia de trabalho para com os surdos.

Apesar dessas interpretações equivocadas, o princípio da normalização foi muito importante para o desenvolvimento da Educação Especial. Novos estudos, realizados a partir do princípio da Normalização foram surgindo, fazendo com que as pessoas com deficiência, naquela época chamadas de excepcionais, fossem enxergadas com direitos

e deveres iguais e que passavam a “exigir” as mesmas condições de vida dos demais seres humanos.

Na década de 1970, passou-se a falar em Integração como um novo princípio, o que foi questionado pelos estudiosos. Para eles, a Normalização era o objetivo e a Integração era o processo, ou seja, era como se poderia alcançar a Normalização.

As crianças especiais passaram, a partir da proposta de Integração, a frequentarem, senão classes comuns, pelo menos classes especiais em escolas comuns, embora, na maioria das vezes, com horários de entrada e de saída diferentes dos demais alunos.

As classes especiais não ofereciam escolarização regular e era comum que estudantes, particularmente os surdos,

passassem anos em uma classe especial e quando deixavam a escola, depois de mais de dez anos de estudo, não recebiam nenhum certificado, pois não se sabia qual “série” haviam concluído.

Para se determinar o nível de escolaridade do aluno surdo, ele precisava se submeter a um exame classificatório realizado pelas Secretarias Estaduais, o que nem sempre acontecia e, quando acontecia, o surdo educado segundo

o oralismo e sem acesso a tratamentos fonoaudiológicos ou a uma prótese adequada, dificilmente conseguia

certificação além dos anos iniciais do Ensino Fundamental. A situação era tão desanimadora que se dizia que uma criança surda entrava na educação pela porta da classe especial e nunca mais saía.

Entretanto, a prática da Integração, com todas as suas dificuldades e problemas foi fator importante para fazer surgir novos estudos e pesquisas no campo da Educação Especial, tanto nos aspectos administrativos, quanto nos que se referem aos processos de ensino e de aprendizagem, que acabou dando origem ao princípio da Inclusão,

ou a proposta da escola inclusiva que estamos vivenciando atualmente.

De maneira bastante ampla, podemos dizer que quando se trata de inclusão, o que se preconiza é que a sociedade,

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de maneira geral, e a escola, de maneira particular, necessitam se modificar para receber a

de maneira geral, e a escola, de maneira particular, necessitam se modificar para receber a criança especial em

seu meio. No que se refere à surdez: garantia de currículo adaptado; critério diferenciado para a correção de

provas discursivas e de Língua Portuguesa; conhecimento de Libras para uma comunicação funcional por parte

dos professores e a presença do intérprete de Libras.

Apresentamos a seguir, as principais conquistas dos surdos brasileiros.

• 1977 - Criada no Rio de Janeiro a Federação Nacional de Educação e Integração dos Deficientes Auditivos, FENEIDA, com diretoria de ouvintes.

• Final da década de 70 - Indroduzida a Comunicação Total no Brasil sob a influência do Congresso Internacional de Gallaudet.

• 1981 - Início das pesquisas sistematizadas sobre a Língua de Sinais no Brasil.

• 1983 - Criação no Brasil da Comissão de Luta pelos Direitos dos Surdos.

• 1987 - Criação da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS), em 16/05/87, sob a direção de surdos.

• 1988 – Constituição Federal.

• 1994 - A Política Nacional de Educação Especial estabelece metas para a educação de Surdos.

• 1995 - Criado por surdos no Rio de Janeiro o Comitê Pró-Oficialização da Língua de Sinais.

• 1999- Em março, começam a ser instaladas em todo Brasil telessalas com o telecurso 2000 legendado.

• 1999 – Em dezembro, é assinado o decreto 3298, que institui a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência.

• 2000 – A Closed Caption, ou legenda oculta, transcreve o que é dito. Após três anos de funcionamento no Jornal Nacional, ela é disponibilizada aos surdos também nos programas Fantástico, Bom Dia Brasil, Jornal Hoje, Jornal da Globo e programa do Jô. É o fim da TV "muda".

• 2000 - A Lei Federal 10 098/2000, referente à Acessibilidade estabelece que o direito à comunicação também seja considerado acessibilidade e estabelece o direito ao intérprete de Libras.

• 2001 – O Plano Nacional de Educação que estabelece metas para a capacitação de profissionais para o atendimento aos educandos surdos.

• 2001 - O Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos – voltado à capacitação de instrutores surdos de Libras e de intérpretes de Libras.

• 2002 – Lei Federal nº 10 436/2002, que reconhece a Libras como língua oficial do Brasil.

• 2005 – Decreto nº 5626/2005, que estabelece a inclusão da Língua Brasileira de Sinais nos cursos de

Licenciatura e de Fonoaudiologia.

A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA ATUAL REFERENTE À EDUCAÇÃO DE SURDOS

Cada vez mais, os estudos na área da Educação Especial apontam a relevância da parceria família-profissional,

não só do ponto de vista da promoção do desenvolvimento da pessoa com necessidades especiais, mas também

como suporte social para todos os envolvidos, tendo em vista as estratégias de enfrentamento dos problemas

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decorrentes da condição de deficiência. Estes estudos apontam que a família tem se tornado, atualmente,

decorrentes da condição de deficiência.

Estes estudos apontam que a família tem se tornado, atualmente, uma parceira que é tanto beneficiária quanto prestadora de serviços de proteção e inclusão social, partilhando as responsabilidades do Estado, da sociedade civil e da iniciativa privada (CARVALHO, 2000).

Todavia, os mesmos estudos que apontam para a importância da parceria família-escola, apontam para a dificuldade de se conseguir o envolvimento ideal e, um dos principais motivos é a “distância” dos profissionais da Educação Especial em relação à família, distanciamento este, na maioria das vezes, inconsciente.

É comum ouvirmos queixas de profissionais e de professores acerca de uma “pretensa” omissão da família.

Depoimentos do tipo: “as mães simplesmente entregam os filhos para que a escola dê conta de tudo”; ou “é como se as famílias sentissem alívio em ter um local para deixar as crianças difíceis”, ou, ainda, “as mães se tornam tão superprotetoras que interferem no trabalho da escola; muitas têm dificuldade em deixar as crianças na escola e ficam ‘rondando’ o prédio, enquanto a criança fica na escola” etc.

Os profissionais de maneira geral e os professores, em particular, precisam ter clareza de que a participação da família é fundamental para o sucesso seu trabalho e ainda mais, precisam entender qual é o seu papel nesse processo.

A principal maneira de se conseguir a participação da família na educação da criança especial é firmando parceria

entre família, escola e sociedade. Essa não é uma tarefa fácil e cabe ao professor intermediar para que a família

se aproxime da escola e se sinta segura nessa aproximação.

De fato, o professor é o agente principal dessa parceria e deve ser capaz de orientar os pais sobre a deficiência de seu filho, sobre os programas de atendimento disponíveis, sejam eles educacionais, de saúde, psicologia ou assistência social. É de responsabilidade do professor, a orientação sobre a atuação da família em toda a vida do filho com necessidades especiais, daí a necessidade do professor conhecer a legislação e as políticas públicas que contemplam os surdos.

Outro fator fundamental para que os professores conheçam a legislação acerca dos direitos dos surdos é que, muitas vezes, são estes os únicos profissionais aos quais a família tem acesso e que, além de possuírem o conhecimento teórico-prático, estão de posse da serenidade emocional que as famílias demoram a conseguir, quando se deparam com o imprevisto da chegada de uma criança com necessidades especiais.

Só recentemente passamos a ter legislação destinada especificamente aos surdos. A maioria da legislação brasileira referente às garantias de direitos à educação, saúde, trabalho, acessibilidade etc. não contemplam diretamente os surdos, mas sim a totalidade das pessoas com deficiência, independentemente de suas particularidades, muitas vezes gerando tensão entre os diferentes segmentos que constituem esse conjunto de pessoas.

Apresentamos, a seguir, trechos ou comentários acerca da legislação educacional brasileira que contempla os direitos dos surdos, particularmente aquelas referentes à Educação, começando pela Constituição Federal de 1988, considerada um marco no que se refere aos direitos humanos no Brasil, até a discussão do Decreto 5.626,

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de 2005, responsável pela inclusão da disciplina de Libras nos currículos dos cursos de licenciatura.

de 2005, responsável pela inclusão da disciplina de Libras nos currículos dos cursos de licenciatura.

Constituição Federal de 1988

A Constituição Brasileira de 1988 é considerada uma das mais avançadas do mundo no que se refere aos Direitos

Humanos e “passou a ser considerada um instrumento eficaz na operacionalização de um conjunto de práticas que

procuram contemplar as especificidades referentes a gênero, raça/cor, idade e deficiência através de garantias de

direitos específicos e diferenciados” (KLEIN, 2004, p.87).

Os artigos da Constituição Federal que mais nos interessam são os 205 e 208.

Art. 205 – A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a

colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da

cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Art. 208: III – Atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede

regular de ensino;

IV – 1º - O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público e subjetivo.

V – Acesso aos níveis mais elevados de ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada

um.

Lei nº 7.853 de 1989

Nesta lei, há previsão de matrícula compulsória (obrigatória) em cursos regulares de estabelecimentos públicos e

particulares de pessoa portadora de deficiência capaz de se integrar no sistema regular de ensino, constituindo

crime recusar, suspender, adiar, cancelar ou fazer cessar, sem justa causa, a inscrição de aluno em estabelecimento

de ensino de qualquer curso ou grau, público ou privado, por motivos derivados da deficiência que este porta.

Lei 9.394 de 1996 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira

Esta lei define as diretrizes para educação nacional brasileira e, no que se refere aos educandos com necessidades

especiais, estabelece que o estado Brasileiro garanta:

Art. 4º - III – atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede

regular de ensino.

Art. 58: Entende-se por educação especial, para efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar oferecida

preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais.

Art. 59: Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais:

• currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos para atender às suas necessidades;

• terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino

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fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa

fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados;

• professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns;

• educação especial para o trabalho, visando sua efetiva integração na vida em sociedade, inclusive condições adequadas para os que não revelarem capacidade de inserção no mercado competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artística, intelectual ou psicomotora;

• acesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para o respectivo nível do

ensino regular.

Art. 60: Os órgãos normativos dos sistemas de ensino estabelecerão critérios de caracterização das instituições

privadas sem fins lucrativos, especializadas e com atuação exclusiva em educação especial, para fins de apoio

técnico e financeiro pelo Poder Público.

Parágrafo Único: O Poder Público adotará, como alternativa preferencial, a ampliação do atendimento aos

educandos com necessidades especiais na própria rede pública regular de ensino, independentemente do apoio

às instituições previstas neste artigo.

Declaração de Salamanca de 1994

Em junho de 1994, foi realizada na cidade de Salamanca uma Conferência Mundial sobre Necessidades Educativas

Especiais, na qual estiveram representados noventa e dois países e vinte e cinco Organizações Internacionais e,

ao final, foi elaborado um documento que ficou conhecido como Declaração de Salamanca, na qual se reafirmava

o compromisso em prol da Educação para Todos, reconhecendo a necessidade e a urgência de garantir a

educação para as crianças, jovens e adultos com necessidades educativas especiais no quadro do sistema regular

de educação. O Brasil, não assinou essa Declaração, mas segue muitos dos princípios, política e práticas na área

das necessidades educativas especiais nela estabelecidos.

Destacamos:

Nº 15: A educação integrada e a reabilitação apoiada pela comunidade representam dois métodos complementares

de ministrar o ensino a pessoas com necessidades educativas especiais. Ambas se baseiam no princípio da

integração e participação e representam modelos bem comprovados e muito eficazes em termos de custo para

fomentar a igualdade de acesso das pessoas com necessidades educativas especiais, que faz parte de uma

estratégia nacional cujo objetivo é conseguir a educação para todos.

Portaria MEC – nº 1.678/99

Dispõe sobre os requisitos de acessibilidade a pessoas portadoras de deficiência para instruir processos de

autorização e de reconhecimento de cursos e credenciamento de instituições de ensino superior. A partir dessa

portaria, para que uma Instituição de Ensino Superior pudesse ter autorização de funcionamento para qualquer

curso de graduação e mesmo o reconhecimento de cursos já autorizados, uma das condições a ser cumprida

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são as condições de acesso (concurso vestibular) e de permanência de pessoas com deficiência nos

são as condições de acesso (concurso vestibular) e de permanência de pessoas com deficiência nos cursos

superiores.

Lei Federal nº 10.098, de 2000.

Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de

deficiência ou com mobilidade reduzida, mediante a supressão de barreiras e de obstáculos nas vias e espaços

públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios e nos meios de transporte e de comunicação.

Entende-se por acessibilidade, a possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia,

dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos transportes e dos sistemas e meios de

comunicação, por pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida. A Constituição Federal assegura o

direito de integração social da pessoa portadora de deficiência e isso, significa também, o acesso às informações,

a possibilidade de locomoção e a eliminação de barreiras arquitetônicas.

Portanto, para esta Lei, acessibilidade não se refere apenas ao direito de ir e vir, mas, também, ao direito à

informação e comunicação. Ela é que garante as transcrições em Braille e o direito ao intérprete de Libras.

É importante destacar o capítulo VII, artigos 17, 18 e 19, que trata especificamente da acessibilidade nos sistemas

de comunicação e sinalização, e aborda o direito à informação das pessoas surdas.

Lei Federal nº 10 436, de 24 de abril de 2002.

Esta lei oficializou a Língua Brasileira de Sinais – Libras. A partir dessa lei, não mais se escreve a palavra Libras

com todas as letras maiúsculas como se fazia anteriormente, quando ela representava uma sigla: LIngua BRAsileira

de Sinais – LIBRAS.

A essência das disposições federais contidas nessa lei está distribuída em quatro artigos:

- Art. 1º: É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais – Libras e outros recursos de expressão a ela associados.

- Parágrafo único. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais - Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.

- Art. 2º Deve ser garantido, por parte do poder público em geral e empresas, concessionárias de serviços públicos, formas institucionalizadas de apoiar o uso e difusão da Língua Brasileira de Sinais - Libras como meio de comunicação objetiva e de utilização corrente das comunidades surdas do Brasil.

- Art. 3º As instituições públicas e empresas concessionárias de serviços públicos de assistência à saúde devem garantir atendimento e tratamento adequado aos portadores de deficiência auditiva, de acordo com as normas legais em vigor.

- Art. 4º O sistema educacional federal e os sistemas educacionais estaduais, municipais e do Distrito Federal devem garantir a inclusão nos cursos de formação de educação Especial, de Fonoaudiologia e de Magistério, em seus níveis médio e superior, do ensino da Língua Brasileira de Sinais - Libras, como parte integrante dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs, conforme legislação vigente.

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- Parágrafo único. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) não poderá substituir a modalidade escrita

- Parágrafo único. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) não poderá substituir a modalidade escrita da língua

portuguesa.

A Lei nº. 10.436/2002 marca o início de uma nova e promissora era no que diz respeito à pessoa surda, sua

capacidade, identidade e formação. Essa lei reconhece não somente que a Libras é uma Língua e que como tal

deve ser respeitada, mas que a comunidade surda, sua cultura e sua identidade também devem ser respeitadas.

As leis da acessibilidade, de 2000, e a da Libras, de 2002 foram regulamentadas pelo Decreto nº 5.626 de 2005.

Decreto Federal nº 5.626 de 2005

Para os fins deste Decreto, considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage

com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua

Brasileira de Sinais - Libras.

O Decreto 5.626 estabelece o que é preciso fazer para que a abordagem bilíngue seja adotada nas escolas

públicas e particulares do país. O Decreto define que escola ou classe bilíngue são aquelas em que a Libras e a

modalidade escrita da Língua Portuguesa sejam as línguas utilizadas no ensino. Também é este Decreto que torna

obrigatório o ensino de Libras para os futuros professores e para os fonoaudiólogos. Destacamos, a seguir, de

forma resumida, a essência das disposições contidas no Decreto 5.626.

• A Libras deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino, públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

• Todos os cursos de licenciatura, nas diferentes áreas do conhecimento, o curso Normal de nível médio, o curso Normal Superior, o curso de Pedagogia e o curso de Educação Especial são considerados cursos de formação de professores e profissionais da educação para o exercício do magistério.

• A Libras constituir-se-á em disciplina curricular optativa nos demais cursos de educação superior e na educação profissional, a partir de um ano da publicação deste Decreto.

Nos próximos dez anos, a partir da publicação deste Decreto, caso não haja docente com título de pós-graduação

ou de graduação em Libras para o ensino dessa disciplina em cursos de educação superior, ela poderá ser

ministrada por profissionais que apresentem pelo menos um dos seguintes perfis:

• professor de Libras, usuário dessa língua com curso de pós-graduação ou com formação superior e certificado de proficiência em Libras, obtido por meio de exame promovido pelo Ministério da Educação;

• instrutor de Libras, usuário dessa língua com formação de nível médio e com certificado obtido por meio de exame de proficiência em Libras, promovido pelo Ministério da Educação;

• professor ouvinte bilíngue: Libras-Língua Portuguesa, com pós-graduação ou formação superior e com

certificado obtido por meio de exame de proficiência em Libras, promovido pelo Ministério da Educação.

Nos casos previstos acima, as pessoas surdas terão prioridade para ministrar a disciplina de Libras.

A partir de um ano da publicação deste Decreto, os sistemas e as instituições de ensino da educação básica e as

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de educação superior devem incluir o professor de Libras em seu quadro do magistério. O

de

educação superior devem incluir o professor de Libras em seu quadro do magistério.

O

exame de proficiência em Libras, referido no art. 7º, deve avaliar a fluência no uso, o conhecimento e a

competência para o ensino dessa língua.

O exame de proficiência em Libras deve ser promovido, anualmente, pelo Ministério da Educação e instituições de

educação superior credenciadas para essa finalidade. A certificação de proficiência em Libras habilitará o instrutor

ou o professor para a função docente.

O exame de proficiência em Libras deve ser realizado por banca examinadora de amplo conhecimento em Libras,

constituída por docentes surdos e linguistas de instituições de educação superior.

O Decreto 5626 também estabelece que o ProLibras tenha caráter temporário, com duração máxima de 10 anos,

para ter professores de Libras até que os cursos de licenciatura em Libras comecem a formar profissionais.

A partir da publicação deste Decreto, as instituições de ensino médio que oferecem cursos de formação para o

magistério na modalidade normal e as instituições de educação superior que oferecem cursos de Fonoaudiologia

ou de formação de professores devem incluir Libras como disciplina curricular, nos seguintes prazos e percentuais

mínimos:

até três anos, em vinte por cento dos cursos da instituição;

até cinco anos, em sessenta por cento dos cursos da instituição;

até sete anos, em oitenta por cento dos cursos da instituição; e

dez anos, em cem por cento dos cursos da instituição.

O

processo de inclusão da Libras como disciplina curricular deve iniciar-se nos cursos de Educação Especial,

Fonoaudiologia, Pedagogia e Letras, ampliando-se, progressivamente, para as demais licenciaturas.

O ensino da modalidade escrita da Língua Portuguesa, como segunda língua para pessoas surdas, deve ser

incluído como disciplina curricular nos cursos de formação de professores para a educação infantil e para os anos

iniciais do ensino fundamental, de nível médio e superior, bem como nos cursos de licenciatura em Letras com habilitação em Língua Portuguesa.

O tema sobre a modalidade escrita da língua portuguesa para surdos deve ser incluído como conteúdo nos cursos

de Fonoaudiologia.

Para dar condições de cumprir as exigências contidas no Decreto nº 5626, o MEC criou os cursos de Licenciatura em Libras, na modalidade a Distância em Universidades Públicas. Foram criados, inicialmente em 2006, nove polos, que em 2008 foram ampliados, totalizando hoje 16 cursos de Licenciatura em Libras em todo Brasil. Nesses cursos, ministrados totalmente em Libras, os estudantes surdos têm prioridade nos concursos vestibulares, ou seja, só são abertas vagas para ouvintes quando não existirem candidatos surdos aprovados nos concursos vestibulares.

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O Decreto nº 5.262 estabelece ainda que as instituições federais de ensino devem garantir, obrigatoriamente,

O Decreto nº 5.262 estabelece ainda que as instituições federais de ensino devem garantir, obrigatoriamente, às

pessoas surdas, acesso à comunicação, informação e educação nos processos seletivos, atividades e conteúdos

curriculares desenvolvidos em todos os níveis, etapas e modalidades de educação, desde a educação infantil até

à superior.

Devem ainda garantir o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos surdos, desde a educação

infantil, nas salas de aula e, também, em salas de recursos, em turno contrário ao da escolarização; apoiar, na

comunidade escolar, o uso e a difusão de Libras entre professores, alunos, funcionários, direção da escola e

familiares, inclusive por meio da oferta de cursos; adotar mecanismos de avaliação coerentes com aprendizado de

segunda língua, na correção das provas escritas, valorizando o aspecto semântico e reconhecendo a singularidade

linguística manifestada no aspecto formal da Língua Portuguesa; desenvolver e adotar mecanismos alternativos

para a avaliação de conhecimentos expressos em Libras, desde que devidamente registrados em vídeo ou em

outros meios eletrônicos e tecnológicos; disponibilizar equipamentos, acesso às novas tecnologias de informação e

comunicação, bem como recursos didáticos para apoiar a educação de alunos surdos ou com deficiência auditiva.

As instituições federais de ensino responsáveis pela educação básica devem garantir a inclusão de alunos surdos

ou com deficiência auditiva, por meio da organização de:

• escolas e classes de educação bilíngue, abertas a alunos surdos e ouvintes, com professores bilíngues, na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental;

• escolas bilíngues ou escolas comuns da rede regular de ensino, abertas a alunos surdos e ouvintes, para os anos finais do ensino fundamental, ensino médio ou educação profissional, com docentes das diferentes áreas do conhecimento, cientes da singularidade linguística dos alunos surdos, bem como com a presença de

tradutores e intérpretes de Libras - Língua Portuguesa.

Os alunos surdos têm direito à escolarização em um turno diferenciado ao do atendimento educacional especializado

para o desenvolvimento de complementação curricular, com utilização de equipamentos e tecnologias de

informação. Isso deve ser garantido também para os alunos não usuários da Libras.

As instituições federais de ensino, de educação básica e superior, devem proporcionar aos alunos surdos os

serviços de tradutor e intérprete de Libras - Língua Portuguesa em sala de aula e em outros espaços educacionais,

bem como equipamentos e tecnologias que viabilizem o acesso à comunicação, informação e educação.

Deve ser proporcionado aos professores acesso à literatura e informações sobre a especificidade linguística do

aluno surdo.

As instituições privadas e as públicas dos sistemas de ensino federal, estadual, municipal e do Distrito Federal

buscarão pôr em prática as medidas referidas nesse artigo como meio de assegurar aos alunos surdos ou com

deficiência auditiva o acesso à comunicação, à informação e à educação.

A programação visual dos cursos de nível médio e superior, preferencialmente os de formação de professores, na

modalidade de educação a distância, deve dispor de sistemas de acesso à informação como janela com tradutor

e intérprete de Libras - Língua Portuguesa e subtitulação por meio do sistema de legenda oculta, de modo a

reproduzir as mensagens veiculadas às pessoas surdas.

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Finalmente, o resumo da legislação aqui apresentado teve a intenção de informar o futuro professor

Finalmente, o resumo da legislação aqui apresentado teve a intenção de informar o futuro professor e de destacar que, atualmente, são muitas as ações governamentais que buscam melhorar a educação dos surdos e, por isso, já podemos imaginar, em um futuro não muito distante, um mundo onde a diferença linguística não seja mais considerada uma deficiência, mas como particularidade que não diminui a pessoa surda.

mas como particularidade que não diminui a pessoa surda. O texto a seguir foi extraído da

O texto a seguir foi extraído da Revista Arqueiro nº13, publicada em novembro de 2006, pelo Instituto Nacional de Educação

de Surdos. Trata-se de uma entrevista realizada pela revista, com um professor surdo e dois estudantes universitários, um surdo e um ouvinte, em que discutem acerca do Decreto 5.626. Leia com atenção e faça um comentário por escrito da mesma. Discuta seu comentário com seus colegas e com seus monitores e mediadores.

O professor surdo é Marcus Vinícius Freitas Pinheiro, pedagogo e professor de Libras; o aluno surdo é João Lázaro,

cursando, na época da entrevista, o 4 º período de Desenho Industrial; Rafael Iebra, aluno ouvinte, cursando na época o 6º

período de Desenho Industrial, com a interpretação de Vanessa Bartolo.

Industrial, com a interpretação de Vanessa Bartolo. ENTREVISTA Professor Surdo e Alunos Universitários (um

ENTREVISTA

Professor Surdo e Alunos Universitários (um surdo e um ouvinte)

João Lázaro

Marcus Vinicius Freitas Pinheiro

Rafael Iebra

Vanessa Bartolo

Há, no Brasil, 5.750.809 pessoas com problemas relacionados à surdez. São 519.460 com idade até 17 anos e 276.884 entre 18 e 24 anos, segundo o Censo Demográfico de 2000 do IBGE. Estavam matriculados na Educação Básica apenas 56.024 surdos, sendo 2.041 (3,6%) no Ensino Médio, segundo o Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas – INEP/MEC, de 2003.

Com o Decreto nº 5.626, de 22/12/2005, a disciplina de Libras será obrigatória nos cursos de licenciatura, Pedagogia, Fonoaudiologia, e opcional nos demais. Após um ano de vigência, as instituições deverão ter em seus quadros um tradutor e intérprete de Libras, para atuarem nos processos seletivos e nas salas de aula. Do mesmo modo, o Sistema Único de Saúde – SUS e os órgãos públicos federais terão que reservar 5% de suas vagas para servidores e funcionários tradutores ou intérpretes de Libras.

Neste número da revista Arqueiro, convidamos um professor surdo, um aluno surdo universitário e um aluno ouvinte, colega de classe do segundo, para se manifestarem a respeito desse acontecimento que, a partir dessa data, reescreve a história da educação de surdos no país.

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1) Queremos, primeiramente, parabenizá-los por esta grande conquista e saber que mudanças poderão vir a

1) Queremos, primeiramente, parabenizá-los por esta grande conquista e saber que mudanças poderão vir a ocorrer com este Decreto?

Professor surdo: São muitas as mudanças, a começar pelas vantagens e benefícios que os indivíduos surdos receberão, tendo uma aceitação maior, por parte da sociedade, da Língua de Sinais, uma vez que a maioria dos surdos de nosso país se comunica por meio da Libras. Além do mais, creio que haverá maior acessibilidade para todos nós nos diversos serviços públicos oferecidos em nosso país.

2) Pelo que rege o Decreto, escolas e universidades terão que contratar intérpretes e/ou monitores para os alunos surdos. A difusão da Libras é agora uma realidade a ser respeitada e mantida. Como você vê a preparação e capacitação de pessoal para este fim?

Professor surdo: Vejo que ainda não estamos preparados devidamente para colocarmos intérpretes nas instituições, pois há controvérsias nas interpretações de alguns. Acredito que, com as universidades criando cursos de graduação e pós-graduação para esta área, talvez futuramente tenhamos intérpretes fiéis ao que os surdos dizem. Não tenho nada contra os atuais, mas sei que são poucos os intérpretes em que os surdos realmente confiam e que compreendem o que dizem fielmente. A maior parte dos que interpretam, atualmente, são oriundos de igrejas e têm pouco conhecimento dos aspectos educacionais que englobam a tradução e interpretação dentro de uma instituição de ensino. No início, ficam perdidos e, aos poucos, vão se adaptando; mas, pelas experiências que os alunos do curso de pré-vestibular do INES me passaram, ainda faltam mais adequações aos intérpretes.

Quanto aos monitores, aqui conhecidos como Assistentes Educacionais, o INES é o pioneiro neste trabalho de formação. Temos diversos alunos e ex-alunos já formados, mas que não atuam neste trabalho, por falta de interesse e/ou informação das instituições de ensino que trabalham com alunos surdos. Para isso, basta a instituição entrar em contato com a DIEPRO e verá uma relação de nomes de monitores surdos capacitados para atuarem nas escolas, com vistas a ajudar o desenvolvimento da educação dos alunos surdos.

3) Sabemos que muitos universitários surdos contratam intérpretes para que tenham um maior entendimento do que lhes é transmitido nas universidades, visto que algumas delas ainda não contrataram esse tipo de profissional. Agora isso deverá mudar. O que mais será necessário para que se efetive uma mudança significativa no que diz respeito ao acesso pleno das pessoas surdas à educação universitária?

Professor surdo: Esta questão é constantemente discutida nos corredores universitários. Como professor da Universidade Salgado de Oliveira – UNIVERSO, que contratava intérpretes, houve problemas devido a alguns desses profissionais quererem escolher para quem interpretar e uns surdos brigarem com outros pelo intérprete que queriam. Por causa dessa discussão, a instituição resolveu parar de contratar intérpretes, deixando a cargo de cada aluno a sua contratação por conta própria. Também há outro problema: muitos tentam ganhar um salário maior ou igual ao de um professor universitário, o que grande parte das instituições de ensino não aceita. Além do mais, eles têm que compreender que não são contratados apenas para interpretar, mas para ajudar no que for necessário e muitos não aceitam. Aí surge o problema: se o aluno falta, o intérprete não faz nada; se o aluno mata a aula, o intérprete não faz nada; se o aluno não tiver aula naquele dia, o intérprete não vai ou comparece apenas para ficar sentado sem fazer nada. Prefiro parar por aí, já que os questionamentos são muitos. Há ainda o fator

58 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS | Educação a Distância

de que numa turma que tenha dois ou mais surdos e se um passa e

de que numa turma que tenha dois ou mais surdos e se um passa e o(s) outro(s) perde(m) a matéria do período, o intérprete vai ficar com quem?

Não sou favorável à contratação de intérpretes que apresentem algum problema de saúde, uma vez que interpretar envolve muito desgaste físico e mental daquele que exerce essa função. Também é preciso que o profissional saiba que quem estuda é o aluno e não o intérprete. Já houve casos em que o intérprete pegou o texto destinado ao aluno e o levou para casa para ler, deixando o aluno sem saber o conteúdo da aula – é uma grande quebra da

ética. Bastaria solicitar ao aluno a cópia do texto e estava resolvido o problema. Mas a questão maior não está aí e sim na aula, pois os professores universitários utilizam linguagens científicas que muitos intérpretes desconhecem;

o ideal seria que o intérprete fosse alguém que conhecesse a área que irá interpretar.

Aluno surdo: O professor, em sala de aula precisa conhecer o universo do surdo, preparar aulas que integrem surdos e ouvintes. Professores e alunos precisam entender e respeitar a cultura dos surdos.

4) Como você encara a proposta de provimento das escolas com professores e/ ou instrutores de Libras, tradutor e intérprete – Libras / Língua Portuguesa e professor regente de classe com conhecimento das singularidades linguísticas dos surdos neste imenso território nacional?

Aluno ouvinte: É muito importante. De fato, é um novo caráter que tem que ser inserido, por necessidade no avanço da linguística no Brasil.

Professor surdo: É uma boa proposta, desde que seja posta em prática, respeitando as identidades de cada indivíduo e suas reais necessidades. No entanto, é preciso que os professores saibam que eles também precisam saber utilizar a Libras como forma de comunicação e expressão, senão aquela relação professor-aluno nunca existirá na sala de aula. O que não pode existir sempre é a relação: professor – intérprete – aluno ou professor – monitor – aluno. O professor precisa conhecer e dialogar também com seus alunos surdos.

5) Qual é a sua expectativa quanto ao cumprimento do Decreto?

Aluno surdo: Infelizmente, acho que vai demorar para que as pessoas cumpram o decreto, mas tenho esperança de que isso possa acontecer logo.

6) Como você vê a inclusão da Libras no currículo universitário e como é assistir a aulas com um intérprete de Libras na sala de aula?

Aluno ouvinte: Vejo a inclusão de Libras como uma nova possibilidade de comunicação e avanço na consolidação da cidadania. O Intérprete é um auxiliar de comunicação do professor com o aluno e até mesmo com outros alunos;

é claro que não atrapalha a aula, pois o interesse de comunicação é de ambos.

7) Você acredita que, com a regulamentação da Libras e sua obrigatoriedade nos Cursos Normais e de Licenciatura, as barreiras de comunicação serão eliminadas?

Professor surdo: Isso dependerá da aceitação por parte de nossa sociedade. Gostaria que este decreto fosse estendido também para os médicos otorrinolaringologistas, pois muitos aconselham as famílias de surdos a não

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deixá-los aprender a Língua de Sinais, o que muitas famílias seguem à risca. Mas creio

deixá-los aprender a Língua de Sinais, o que muitas famílias seguem à risca. Mas creio que já será um grande passo para as comunidades surdas, uma vez que poderemos apresentar para a sociedade que a nossa língua não

é uma barreira intransitável e que ela pode ajudar – e em muito – na quebra de preconceitos e também para nossa aceitação e respeito por parte da sociedade brasileira.

Aluno surdo: Depende de como serão as aulas. Se a Libras for ensinada de modo superficial, dificilmente essas barreiras acabarão. E também para que a barreira da comunicação seja eliminada, é preciso que todos saibam Libras, não só alguns.

A EDUCAÇÃO DE SURDOS E AS POLÍTICAS PÚBLICAS DO BRASIL

Um dos discursos educacionais atuais é o da inclusão e uma das discussões mais presentes quando se fala de atitudes “politicamente corretas” são as que abordam a diversidade cultural e social de indivíduos e grupos. Respeitar as diferenças se tornou mais do que um objetivo a ser alcançado, passou a ser estratégia nas políticas públicas educacionais brasileiras.

Se conhecer a Legislação acerca da educação de surdos no Brasil é fundamental para que o professor possa orientar seus alunos e familiares, conhecer as políticas públicas educacionais para o surdo brasileiro cumpre também esta função, mas aqui, este conhecimento é importante para que o professor possa reivindicar melhores condições de trabalho.

Da mesma forma do que acontece com a legislação, muitas dessas políticas não se referem diretamente aos surdos, respondendo ao conjunto dos denominados Portadores de Deficiência.

A primeira política pública para a educação dos surdos em nosso país pode ser considerada a Decisão Imperial

de 26 de setembro de 1857, quando o governo de D. Pedro II cria o Instituto Nacional de Surdos-Mudos no Rio de Janeiro, atual Instituto Nacional de Educação do Surdo (INES), que adotava a língua de sinais. Essa escola foi fundada por Ernest Huet – professor surdo francês que chegou ao Brasil com o objetivo de aqui iniciar a educação dos surdos. Porém, seguindo a tendência determinada pelo Congresso de Milão (1880), em 1911, o INES estabeleceu o oralismo como método de educação dos surdos. Atualmente, a filosofia educacional adotada pelo INES é o bilinguismo.

Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, na qual, em diferentes artigos, são garantidos os direitos das pessoas com deficiência, foram propostas políticas para que a atuação dos diferentes órgãos governamentais pudesse estar em conformidade com os dispositivos constitucionais.

As Constituições Federal e Estaduais garantem à criança e ao adolescente com deficiência atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino.

Vamos destacar aqui, a exemplo do que fizemos no texto anterior, em relação à legislação, apenas o que de mais relevante foi formulado a partir da Constituição Federal de 1988.

60 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS | Educação a Distância

Decreto 914 de 1993

Decreto 914 de 1993 Este Decreto estabelece as diretrizes da Política Nacional para a Integração da

Este Decreto estabelece as diretrizes da Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência,

a saber:

Art. 5º - III incluir a pessoa portadora de deficiência, respeitadas as suas peculiaridades, em todas as iniciativas

governamentais relacionadas à educação, saúde, trabalho, edificação pública, previdência social, assistência

social, transporte, habitação, cultura, esporte e lazer.

Política Nacional de Educação Especial de 1994

Nesse documento, aparecem, pela primeira vez de forma explícita, propostas de apoio à “utilização da Língua

Brasileira de Sinais (Libras), na educação de alunos surdos” e “incentivo à oficialização da Libras”.

Atualmente, como orientação para o encaminhamento do trabalho educacional no país, é estabelecida, na Política

Nacional de Educação, a importância do ensino da Libras para crianças surdas, e o início da construção de uma

proposta bilíngue.

Lei nº 10.172/01 – Plano Nacional de Educação

O Plano Nacional de Educação estabelece vinte e sete objetivos e metas para a educação das pessoas com

necessidades educativas especiais. Sinteticamente, essas metas tratam:

Do desenvolvimento de programas educacionais em todos os municípios – inclusive em parceria com as áreas de saúde e assistência – visando à ampliação da oferta de atendimento desde a educação infantil até a qualificação profissional dos alunos.

Das ações preventivas na área visual e auditiva, até a generalização do atendimento aos alunos na educação infantil e no ensino fundamental.

Do atendimento extraordinário em classes e escolas especiais ao atendimento preferencial na rede regular de ensino.

Da educação continuada dos professores que estão em exercício à formação em instituições de ensino superior.

O

Plano Nacional de Educação de 2001 indica como meta, ainda, capacitar pessoas para dar atendimento aos

educandos especiais e como meta nº 11: Implantar, em cinco anos, e generalizar, em dez, o ensino da Língua

Brasileira de Sinais para alunos surdos e, sempre que possível, para seus familiares e para o pessoal da unidade

escola, mediante um programa de formação de monitores, em parcerias com organizações não governamentais.

Programa Nacional de Apoio à Educação de Surdos - 2001

No cenário de reformas e propostas educacionais, temos o Programa Nacional de Apoio à Educação de Surdos,

que foi o resultado de uma proposição da SEESP/MEC - Secretaria de Educação Especial do Ministério da

Educação e Secretarias de Estado da Educação e Secretarias Municipais de Educação (das capitais) visando à

melhoria da educação de alunos surdos matriculados no Ensino Fundamental. Um de seus focos de trabalho foi a

formação de professores ouvintes para o uso da Libras.

LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS | Educação a Distância

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O Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos buscava atender aos 50 mil estudantes

O Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos buscava atender aos 50 mil estudantes surdos matriculados

no Ensino Fundamental naquele momento, composto de 3 metas:

1.

organizar cursos de capacitação para profissionais da educação – subdividida em 3 etapas; a primeira, a ser realizada em Brasília, consistia no curso de instrutores surdos); a segunda, a ser realizada nos estados, consistia no curso de língua de sinais para professores da rede pública e no curso de língua de sinais para novos instrutores e a terceira, a ser realizada no INES, em curso de intérprete de línguas de sinais para professores da rede pública (a curto prazo);

2.

implantar o centro de apoio à capacitação dos profissionais e à educação de surdos CAP a ser cumprida em médio prazo;

3.

modernizar as salas de recursos para atendimento dos surdos (a médio prazo).

Como resultado material deste Programa, foi produzido pelo MEC, em conjunto com pesquisadores e com a

FENEIS – Federação Nacional de Escolas e Instituições de Surdos, o material didático “Libras em Contexto”,

composto de livro do aluno, livro do professor e fitas de vídeo. Foi o primeiro material de características oficiais

para o ensino de Libras do Brasil.

Junto com o Programa de Apoio o MEC enviou um documento denominado “Diretrizes para a Educação de

Surdos”, datado de 20/3/2001, contendo alguns conceitos como os de surdo, surdez e educação de surdos, como

subsídios para a adoção do bilinguismo.

A lei de Acessibilidade (Lei Federal nº 10.098) também acompanhava o Programa Nacional de Apoio à Educação

de Surdos

O Estado do Paraná

A política educacional do Estado do Paraná no que se refere aos surdos, atualmente, adota o bilinguismo como

princípio e programa ações no sentido de fortalecer a proposta inclusiva, como formação de intérpretes de Libras,

capacitação de docentes, em Libras etc.

Essas ações são muito importantes porque, no processo de escolarização, o ensino em Libras e que considere os

elementos da cultura surda é o único caminho para garantir o acesso do surdo sinalizador, não pertencente à elite

econômica, aos conteúdos curriculares que devem ser proporcionados a todos os alunos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A adoção da língua de sinais constitui, sem dúvida, um avanço importante na medida em que se elimina um grande

obstáculo à aprendizagem do surdo. Mas não é suficiente para garantir o desenvolvimento das operações formais

sem a defasagem encontrada em relação ao ouvinte.

Existem outros fatores que precisam ser compreendidos no desenvolvimento cognitivo do surdo.

Os surdos adultos não se diferenciam significativamente, em termos cognitivos, dos adultos ouvintes. Isso significa

62 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS | Educação a Distância

que, de alguma forma, a defasagem cognitiva encontrada na idade escolar não permanece para sempre

que, de alguma forma, a defasagem cognitiva encontrada na idade escolar não permanece para sempre no desenvolvimento do surdo. Mas, isso quer dizer também que a escola, no geral, não está colaborando para a mudança dessa situação.

A língua de sinais possibilita aos surdos uma comunicação mais efetiva com seus pares. Isso é uma condição

fundamental para o desenvolvimento cognitivo, não porque a língua seja a única responsável pelo desenvolvimento cognitivo do surdo, mas porque permite a interação com o outro e, principalmente, a interação com seus iguais, no sentido dos interesses comuns próprios de cada fase de desenvolvimento.

Qual o papel da escola nesse sentido? Dar cada vez mais qualidade a essa interação sem impor à criança ideias prontas ou soluções baseadas na autoridade. O professor deve ser, antes de tudo, aquele que coloca as perguntas certas, organiza situações adequadas, e não aquele que oferece as respostas certas.

Apesar de ser imprescindível que os surdos aprendam, o mais cedo possível, a língua de sinais, a sua educação necessita ainda de um cuidado especial.

A escola não deve se limitar apenas a “traduzir”, para a língua de sinais, metodologias, estratégias e procedimentos

da escola comum, mas deve continuar a se preocupar em organizar atividades que proporcionem o salto qualitativo no pensamento dos surdos.

O que não se pode deixar de considerar é que o surdo não ficará livre das restrições impostas pela surdez apenas

com a aceitação da sua peculiaridade linguística e cultural.

É preciso continuar investindo na ampliação das possibilidades de experiência do surdo. Mais do que o ouvinte, o surdo precisa de um “método ativo” de educação para compensar a ausência de um canal importante de contato com o mundo.

Além disso, é importante que os surdos sejam ouvidos em relação ao processo de inclusão. É preciso que nossas autoridades procurem conhecer o que querem os surdos, afinal, tudo o que acabamos de descrever, são requisitos necessários para que se tenha uma escola inclusiva. No entanto, essa realidade está muito longe de ser alcançada.

A escola pública brasileira atualmente não oferece ensino de qualidade sequer para os ouvintes que nela estudam.

Como então esperar que ela atenda satisfatoriamente aos requisitos de uma escola inclusiva para surdos? Essa é

a indagação da comunidade surda, temendo ver desaparecer as escolas especializadas que oferecem educação

regular, nas quais tanto a comunidade como o governo muito investiram e que oferecem ensino de qualidade, confirmada pelo aumento expressivo de surdos frequentando e concluindo cursos superiores.

É preciso que tanto os órgãos governamentais, com suas propostas inclusivistas, quanto a comunidade surda

dialoguem, debatam e trabalhem de maneira integrada para traçar um caminho para a escolarização adequada e viável ao aluno surdo brasileiro.

A inclusão incipiente, como praticada atualmente em grande parte do Brasil, na qual o surdo, que apenas conhece

os sinais domésticos ou mesmo o sinalizador, tem sido inserido, nas séries iniciais ou a partir da 5ª série, na sala comum, sem a presença de intérpretes ou de professores fluentes em Libras, reflete o desconhecimento das

LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS | Educação a Distância

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condições necessárias para a escolarização de grande parte dos surdos e acaba resultando em uma

condições necessárias para a escolarização de grande parte dos surdos e acaba resultando em uma imposição do poder do segmento ouvinte no sistema educacional brasileiro.

A escola que atende a surdos sinalizadores e que não reconhece a cultura surda e a Libras como a primeira língua

desses alunos, como proposta pela comunidade surda, bem como sua oficialização, ou seja, que não incorporou esses elementos a seu cotidiano, não está procedendo às reformas necessárias ao processo de inclusão. Essa escola está deixando de criar as condições mínimas para grande parte de alunos surdos atingirem terminalidade educacional equiparada à dos ouvintes.

Em síntese, se a escola que pretende ser inclusiva desconsiderar as necessidades de reconhecimento de identidade e de comunicação desses alunos, estará construindo a deficiência, a incapacidade, a incompetência e

a marginalização dos surdos, ou, em outras palavras, sua exclusão escolar e social.

ou, em outras palavras, sua exclusão escolar e social. O artigo que reproduzimos a seguir é

O artigo que reproduzimos a seguir é de autoria de uma pesquisadora surda, uma das pioneiras no estudo da Língua Brasileira de Sinais e que é integrante do Grupo de Estudos Surdos e Educação da Faculdade de Educação da Unicamp

e foi originalmente publicado na revista ETD - Educação Temática Digital, Campinas, v.7, n.2, pp. 279-289, jun. 2006. O

objetivo é que você reflita, tendo como apoio o discurso de uma importante representante da comunidade surda, sobre toda

a luta travada por essa comunidade para o reconhecimento de sua língua e sobre as preocupações dos surdos com o seu futuro educacional, considerando a proposta inclusiva.

o seu futuro educacional, considerando a proposta inclusiva. HISTÓRIA DOS MOVIMENTOS DOS SURDOS E O RECONHECIMENTO

HISTÓRIA DOS MOVIMENTOS DOS SURDOS E O RECONHECIMENTO DA LIBRAS NO BRASIL

Myrna Salerno Monteiro

A tarefa de escrever sobre a história dos movimentos dos Surdos e dos intérpretes de Libras, de um lado, e o

reconhecimento da Libras (Lei n° 10.436 de 24 de abril de 2002), de outro, é muito difícil e complexa.

Essa tarefa deve refletir um pouco da sociedade brasileira como um todo e como os movimentos sociais e políticos emergiram das organizações dos Surdos. Em igual complexidade, destacamos os movimentos dos intérpretes de Libras, paralelamente ao movimento dos Surdos, em prol do reconhecimento da Libras.

Para começar, acredito que devemos mencionar alguns dados estatísticos para que possamos ter uma visão mais clara do tamanho da população surda no Brasil. Um dos órgãos oficiais que elaboram o censo demográfico é o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e este órgão ainda não conseguiu informar, por uma série de dificuldades, o número real de surdos brasileiros. Uma das dificuldades para especificar este número é porque a pesquisa solicita o n° geral de “pessoas portadoras de deficiências”.

Apesar dessas dificuldades, dados recentes do IBGE apontam que o número total de Surdos brasileiros é de 5,7

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milhões (surdos profundos e deficientes auditivos). Os números também apontam que somente no estado de

milhões (surdos profundos e deficientes auditivos). Os números também apontam que somente no estado de São Paulo há 480.000 e que na capital este n° é de 150.000 Surdos e Deficientes Auditivos.

Diante deste quadro gigantesco de pessoas surdas, era de se esperar que, de uma forma ou de outra, houvesse um movimento social e político para o resgate dos Surdos da marginalização linguístico-educacional.

O presente trabalho fará algumas reflexões do ponto de vista histórico dos movimentos dos Surdos e dos Intérpretes

da Libras no Brasil e o reconhecimento da Libras no Brasil, com ênfase especial para os acontecimentos em São

Paulo e no Rio de Janeiro.

Há pessoas surdas em toda a parte do Brasil. Porém, muitos surdos são invisíveis à Sociedade, vivendo

isoladamente:

a) Nos Lugares Comuns ( praças, bares, cinemas, clubes etc. ).

b) Nas Associações de Surdos

c) Nas Escolas e Universidades

d) Nas Clínicas

e) Nas Igrejas

HISTÓRICO

Em décadas passadas, existiam famílias ouvintes que “escondiam” os filhos surdos pela “vergonha” de ter concebido uma criança fora dos padrões considerados normais; e por isso os surdos quase não saíam de casa ou sempre ficavam acompanhados dos pais.

A comunicação dos pais com os filhos surdos era muito complexa, pois esses não sabiam a Língua de Sinais e

também não a aceitavam; achavam que era “feio” fazer “gesto” ou “mímica” (não Língua de Sinais) como forma de comunicação com sua criança e, consequentemente, não aceitavam a língua de sinais como a primeira língua dos surdos.

Os filhos Surdos, por sua vez, sentiam-se “isolados” e sem comunicação alguma. Deste modo, muitas vezes criavam “complexos” e/ou ficavam “nervosos”.

Por muitos anos, os próprios surdos não compreenderam a importância da comunicação através da Língua de Sinais para o processo de construção de sua Identidade Cultural, bem como para o desenvolvimento de sua cognição e linguagem. Consequentemente, o bloqueio no desenvolvimento da Língua de Sinais causou problemas sociais, emocionais e intelectuais na aquisição da linguagem nos surdos.

Além disso, esses indivíduos também não conseguiam alcançar suas metas e seus objetivos devido ao preconceito

e a marginalização existente na Sociedade, em relação à Língua de Sinais e à construção da Identidade e Cultura

Surda Brasileira. A sociedade ignorava as comunidades surdas brasileiras que eram “isoladas” e “discriminadas”.

LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS | Educação a Distância

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Ultimamente, observa-se um processo de mudança significativa do olhar da sociedade em relação à questão

Ultimamente, observa-se um processo de mudança significativa do olhar da sociedade em relação à questão do Surdo, sua língua e cultura. Entretanto, esse é ainda um processo muito lento dentro das políticas educacionais da sociedade brasileira. Há poucos anos atrás a Língua de Sinais Brasileira era ainda vista como “tabu”, pois não havia sido atribuída a língua de sinais o status de língua. Essa era apenas considerada como “Linguagem” e não “Língua”.

Hoje, as Associações de Surdos estão vivendo um momento de “crise” na sociedade, onde ainda lutam para garantir os direitos dos Surdos já previstos nas leis, mas os resultados dessa luta ainda não são suficientemente fortes para promover mudanças favoráveis em suas vidas.

Neste sentido, vale ressaltar a importância do trabalho de preservação das associações de surdos que são seu

maior tesouro, pois foram essas as principais responsáveis pela resistência e a sobrevivência da Língua de Sinais. Graças a elas, os Surdos usuários da Língua de Sinais continuam garantindo o uso da língua de sinais em sua forma natural e pura. A “preservação” da Língua de Sinais e da Identidade Cultural Surda são condições necessárias para

a garantia da autoestima e para a manutenção da energia pela luta por direitos em uma sociedade preconceituosa

e excludente. Por isso, os surdos brasileiros não param de lutar pela divulgação do status de língua finalmente reconhecido para a Língua de Sinais e pelos seus direitos e metas.

Hoje, com a LEI DA LIBRAS (refiro-me, aqui, à lei n° 10.436 de 24 de abril de 2002) e o decreto n° 5626 de 22 de dezembro de 2005 que a regulamenta, os surdos já podem proclamar uma grande vitória. Entretanto, esses ainda continuam preocupados com o processo dos movimentos sociais e políticos Surdos promovidos pelas associações de Surdos dentro na sociedade brasileira, já que na lei, não há nem um item que estabeleça normas e regras de funcionamento que regularizem e valorizem as associações de Surdos. Assim, a luta continuará até que sejam alcançados e cumpridos todos os seus direitos previstos na lei.

Mesmo com a regulamentação da lei que estabelece os direitos dos Surdos, ainda existe muita disputa e polêmica entre as pessoas ouvintes e as pessoas Surdas na sociedade com relação ao mercado profissional. Também ainda há muito caminho a ser percorrido até que os Surdos consigam o direito de ter profissionais capacitados entre os professores Surdos e professores ouvintes e entre os intérpretes de Libras, que possam garantir-lhes o acesso pleno aos conhecimentos socialmente compartilhados. Além disso, sabe-se que a discussão sobre inclusão nas escolas inclusivas e nas universidades e um tópico ainda a ser bastante explorado.

Assim, podemos concluir que os surdos brasileiros ainda não viram definido algo que promova “mudanças favoráveis” significativas para suas vidas no que se refere a “preservação das associações de surdos e da identidade cultural dos mesmos”, em relação à qualidade dos intérpretes de Libras e dos professores ouvintes que trabalham para os Surdos e à falha na formação dos professores Surdos e professores ouvintes que atuam nas escolas inclusivas e universidades.

66 LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS | Educação a Distância

HISTÓRICO DOS MOVIMENTOS DOS SURDOS NAS ESCOLAS O Rio de Janeiro, provavelmente devido à existência

HISTÓRICO DOS MOVIMENTOS DOS SURDOS NAS ESCOLAS

O Rio de Janeiro, provavelmente devido à existência do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) e pelo

fato de ter sido a capital do país durante muitos anos, conta com uma comunidade surda mais ou menos articulada

politicamente, o que lhes tem garantido alguns privilégios em comparação com os surdos de outras cidades.

Em 1856, chegou ao Brasil o professor Ernest Huet, surdo francês que trouxe o alfabeto manual francês e alguns sinais para o Brasil. Os surdos brasileiros, que deviam usar algum sistema de sinais próprio, em contato com

a Língua de Sinais Francesa (LSF), produziram a Língua de Sinais Brasileira. No ano seguinte, no dia 26 de

setembro de 1857, foi fundado o Instituto dos Surdos-Mudos do Rio de Janeiro, e denominado o atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES).

Antigamente, os surdos vindos de outras cidades do Brasil, dormiam na escola que era um internato, ou seja, um pensionato para os surdos.

O papel dos surdos que viviam no INES – e que se desenvolviam por meio da comunicação da Língua de Sinais

Francesa e da Língua de Sinais Brasileira antiga - foi importante, pois de lá partiram os líderes Surdos que vêm divulgando durante muitos anos a Língua de Sinais em todo o país.

Em 1873, foi feita a iconografia dos sinais, lançado pelo diretor do Instituto dos Surdos- Mudos, de autoria do aluno surdo Flausino José de Gama.

Em 1881, a história narra o fato de Língua de Sinais ter sido proibida no INES e em todo o Brasil. Como consequência dessa proibição, em 1895, teve o declínio do número de professores Surdos (22%) nas escolas para Surdos e aumentaram os professores ouvintes.

Atualmente, os surdos continuam estudando no INES, porém, com outra realidade, que não é mais internato. Hoje o ensino se dá em três períodos: manhã, tarde e noite. Além disso, recentemente, foi aberto um curso superior no INES, com oferta na área de pedagogia e que prevê a inclusão de alunos ouvintes, misturados aos alunos Surdos. Agora em 2006 estão abertas as vagas para inscrições para o curso de Letras.

Então eu pergunto: de que adianta abrir essa faculdade para surdos se vão incluir os alunos ouvintes? Porque já

há cursos de pedagogia em universidades no Brasil organizadas por e para ouvintes. Então para que incluir alunos

ouvintes no INES?

Outra escola, que foi importante na história dos Surdos, é o Instituto Santa Terezinha em São Paulo; fundado em 1925, dedicado à educação de moças surdas, sendo que algumas se tornavam freiras. As surdas se comunicavam somente fora das salas de aulas. Também sofreu a influência da Língua de Sinais Francesa (LSF), porque os educadores eram religiosos franceses católicos, além da influência do “oralismo”.

Atualmente, o Instituto Santa Terezinha está num momento muito difícil, o que deixou muito triste a Comunidade Surda. Ali, as turmas de surdos do 2° grau foram fechadas e os alunos transferidos para as escolas inclusivas.

Não somente essas duas, mas outras escolas para surdos vêm sendo fechadas.

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HISTÓRICO DA FUNDAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES DE SURDOS Os ex-estudantes do Grêmio do INES no Rio

HISTÓRICO DA FUNDAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES DE SURDOS

Os ex-estudantes do Grêmio do INES no Rio de Janeiro organizavam várias modalidades esportivas e competiam com várias escolas ouvintes. Essa foi a primeira Associação Brasileira de Surdos-Mudos, fundada em 1930 com um pequeno número de surdos, ex-estudantes no INES, hoje desativada e que não possuía estatuto.

Uma associação foi fundada no dia 16 de maio de 1953 com a ajuda de uma professora de Surdos, Dona Ivete Vasconcelos. Era composta por um grupo de Surdos da Congregação de Surdos do Rio de Janeiro (Alvorada). Dona Ivete emprestava a sala do pátio de seu prédio para as reuniões com o presidente da associação - Vicente Burnier. Este foi substituído pelo novo presidente Alymar Antunes Bousquat, que juntou essa fundação com os ex-estudantes do INES para desenvolver as competições esportivas e lazer.

Os ex-estudantes voltavam para suas cidades de origem de cada Estado do Brasil e assim surgiu a segunda Associação de Surdos-Mudos de São Paulo, fundada no dia 19 de março de 1954.

Em 1956, foi fundado a terceira Associação de Surdos de Belo Horizonte em Minas Gerais.

Hoje existe no Brasil uma Confederação, oito Federações e noventa e cinco Associações de Surdos espalhadas pelos estados, porém, algumas já fecharam devido à precariedade da situação financeira. Outras associações vivem no momento em crise e dificuldades para conseguir verbas que permitam o atendimento aos sócios dessas comunidades surdas e sua participação em atividades de esportes, lazer. Essas competições esportivas, festas comemorativas e outras atividades lazer permitem aos surdos usuários da Língua de Sinais a possibilidade de encontros frequentes nas associações de Surdos. Esses encontros acabam contribuindo para a preservação da Língua de Sinais da Identidade Cultural Surda e consequentemente para o fortalecimento da luta pelos direitos dos Surdos.

A Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (FENEIS), fundada no dia 16 de maio de 1987, e a Confederação Brasileira de Surdos (CBS), fundada em 2004, possuem uma representatividade mais ampla. São organizações filantrópicas sem fins lucrativos que desenvolvem atividades políticas e educacionais, lutando pelos direitos culturais, linguísticos, educacionais e sociais dos surdos do Brasil. São entidades preocupadas com a integração entre os surdos.

OS MOVIMENTOS DOS SURDOS A PARTIR DE 1990

Em 1993, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) através do grupo de pesquisa “Estudo da Libras, Aquisição da Linguagem e Aplicação à Educação de Surdos”, coordenado pela professora Lucinda Ferreira, organizou o II Congresso Latino Americano de Bilinguismo (Língua de Sinais / Língua Oral) para Surdos, no período de 12 a 17 de setembro de 1993, no local Hotel Copa D´Or no Rio de Janeiro. Houve, durante o congresso, um minicurso com o professor Sueco Mats Jonsson sobre a metodologia de ensino de Língua de Sinais Sueca. Anterior a esse congresso, ocorreu no período de 17 de agosto a 10 de setembro de 1993, outro minicurso ministrado pelo professor Ken (surdo americano) e pela professora e intérprete Cherry (ouvinte).

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Durante uma semana foram abordados temas sobre a metodologia de ensino da American Sign Language

Durante uma semana foram abordados temas sobre a metodologia de ensino da American Sign Language (ASL) para os surdos brasileiros e sobre a interpretação da ASL para os intérpretes brasileiros.

Em 1999, a Pós Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em conjunto com o Núcleo de Pesquisas em Políticas Educacionais para Surdos e em parceria com

a FENEIS do Rio Grande do Sul organizou o V Congresso Latino Americano de Educação Bilíngue para Surdos,

de 21 a 24 de abril de 1999. Entretanto, antes desse congresso, vários grupos de trabalhos de pessoas surdas se

uniram no Pré-Congresso ao V Congresso de Educação Bilíngue para Surdos, de 20 a 21 de abril de 1999, para a discussão das propostas para a formação do professor Surdo e da formação do intérprete de Libras.

A primeira Conferencia dos Direitos e Cidadania dos Surdos do Estado de São Paulo (CONDISUR) foi realizada

no dia 21 de abril de 2001 e apresentou propostas na conquista de seus direitos e exercício pleno da cidadania relacionado à educação, cultura, família, saúde, esportes, direitos e deveres, trabalho, Língua de Sinais, comunicação, associações e movimento do surdo.

Movimentos importantes ocorrem na data em que se comemora o “dia do Surdo”. De fato, as comunidades surdas estabeleceram o dia 26 de setembro como uma forma de ser lembrada, anualmente, a história dos surdos. Nesse

dia, nas escolas fazem teatro, dança e palestras. As pessoas assistem por prazer e veem que os surdos existem

e são capazes de produzir cultura.

No dia 26 de setembro também ocorrem passeatas, igualmente importantes, porém, somente alguns Estados se realizam passeatas, porque existem surdos que não têm interesse em se envolver com as lutas políticas de seus pares.

Em minha opinião, hoje os movimentos dos Surdos são fracos, muito lentos e difíceis, pois alguns surdos querem continuar sendo “submissos” aos ouvintes, portanto, se eles fossem capacitados e fortes para participar, já teriam feito conquistas relevantes para todos os surdos há muito tempo.

O SURGIMENTO DA DECLARAÇÃO DE SALAMANCA NA ÉPOCA DO BILINGUISMO – ANO

2000:

POR QUE INCLUIR CRIANÇAS COM TODAS AS DEFICIÊNCIAS NAS ESCOLAS REGULARES?

Para muitos, a integração escolar de alunos com deficiência é um forte estímulo ao desenvolvimento do profissionalismo do professor.

A lógica da inclusão conforme a Lei da Declaração de Salamanca constitui a essência do ideal democrático fundado na lógica da igualdade consensual.

A Declaração de Salamanca (BRASIL, 1994) ganha força de implantação no ano de 2000.

Duas de suas determinações são importantes de serem destacadas:

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a) As escolas devem ajustar-se a todas as crianças, independentemente das suas condições físicas, sociais,

a) As escolas devem ajustar-se a todas as crianças, independentemente das suas condições físicas, sociais,

linguísticas e outras.

b) A escola deve incluir as crianças com deficiência e/ou superdotada, criança da rua ou crianças que trabalham,

crianças de populações imigradas ou nômades, crianças de minorias linguísticas, étnicas ou culturais e crianças

de áreas ou grupos desfavorecidos ou marginais.

Com essa difusão nas salas de TELECURSO 2000, houve um aumento das escolas inclusivas e uma diminuição das escolas para surdos, prejudicando a comunidade surda, que está sujeita à ameaça de perder a preservação da Língua de Sinais e sua Identidade Cultural.

PROGRAMA NACIONAL DE APOIO À EDUCAÇÃO DO SURDO – MEC/FENEIS-RJ

Em agosto de 2001, no Programa Nacional de Apoio à Educação do Surdo, a Federação Nacional de Educação

e Integração de Surdos (FENEIS-RJ) em parceria com o Ministério de Educação e Cultura (MEC), capacitou 80

Surdos no Brasil, para serem Instrutores de Libras e desenvolveu métodos de ensino e materiais didáticos que ofereceram aos alunos Surdos uma educação de qualidade.

Em setembro de 2001, no Programa Nacional de Apoio à Educação do Surdo, a FENEIS-RJ em parceria com o MEC e com o INES - capacitou 54 Professores/Intérpretes no Brasil para atuarem como professores nas escolas inclusivas e desenvolveu métodos de ensino e materiais didáticos para serem utilizados com os alunos surdos.

Este plano previu, para os próximos 10 anos, a aplicação da Lei n° 10.436 (essa é a LEI da Libras - que reconhece

a língua brasileira de sinais como língua de uso corrente e legítimo de uma grande parcela de surdos brasileiros),

a inserção de sua regulamentação nos currículos de Ensino Básico para Surdos e nas escolas inclusivas.

A Inclusão da Libras nos currículos de Ensino Básico para Surdos nas escolas de Surdos foi a realização de um

sonho esperado por vários anos de muita luta. Para se chegar à regulamentação da Libras em nível federal, o Presidente da República sancionou a Lei da Libras n° 10.436 no dia 24 de abril de 2002.

Nos dias 16 e 21 de março de 2005, houve reuniões técnicas para a consulta pública da Regulamentação da LEI da Libras na Secretaria de Educação Especial (SEESP/MEC) com a participação de Instituições e Universidades Públicas. As propostas de contribuição para a Regulamentação da LEI LIBRAS foram enviadas e aceitas até o dia 03 de abril à Casa Civil e essas foram finalmente aprovadas através do decreto lei de n° 5626 do dia 22 de dezembro de 2005.

Foi uma vitória difícil, mas a luta ainda não acabou. Recentemente, surgiram muitas polêmicas nas escolas inclusivas que não estão preparadas para receber os surdos, os professores e intérpretes de Libras e fazer cumprir

o que está determinado pela lei. O que os Surdos temem é que, na pior das hipóteses, tudo continue como estava.

Com a Lei 10.436, as escolas de Surdos que adotaram o Bilinguismo como metodologia de ensino puderam oferecer aos seus alunos melhores condições de acesso ao conhecimento do que as escolas inclusivas. Na

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verdade, eu acredito que um modelo de bilinguismo que realmente dê conta da necessidade linguística

verdade, eu acredito que um modelo de bilinguismo que realmente dê conta da necessidade linguística do sujeito

Surdo é aquele em que se respeite a língua de sinais como língua materna do Surdo e que o ensino de língua oral

seja ensinado como metodologia de segunda língua. A metodologia de ensino dessa língua na modalidade oral

inclusive não deve ser obrigatória. Deve ser oferecido ao Surdo o direito de optar pelo uso da modalidade oral ou

apenas da modalidade escrita dessa língua.

Então, pergunto: “Onde estão as escolas bilíngues que realmente contemplam as necessidades educacionais dos

Surdos e respeitam suas diferenças”?

Ainda não vimos nada que comprove os benefícios apregoados por aqueles que defendem um modelo de escola

inclusiva e provem que a inclusão está dando resultados positivos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente apresentação teve como objetivo reunir alguns aspectos da história da comunidade surda no Brasil,

incluindo fatos que construíram e ainda constroem sua trajetória de lutas pelos seus direitos políticos e educacionais.

Concluindo, foram os momentos mais difíceis até hoje. Espero que a sociedade brasileira reflita e respeite mais

as opiniões próprias da Comunidade Surda. Por outro lado, a Comunidade Surda deve vencer as barreiras da

“submissão” imposta pelos ouvintes.

Além disso, é preciso resistir a todo e qualquer termo inventado por ouvintes alheios à Identidade e à Cultura

Surda. Assim, evitaremos transtornos futuros na vida dos surdos.

ATIVIDADES DE AUTOESTUDO

Depois de uma primeira leitura, retome os textos e faça uma nova leitura, para responder as seguintes questões:

1.

Qual foi a principal conquista da comunidade surda até o presente momento? Justifique a resposta.

2.

O que você entende por inclusão? Porque este movimento está tão forte atualmente?

3.

Que fatores, além da Libras, devem ser considerados na educação de surdos?

4.

Analisando quais devem ser as atitudes do professor que atua com os alunos surdos, cite três que você considera mais importantes.

5.

Qual seria, em sua opinião, a maior dificuldade do trabalho com os surdos?

sua opinião, a maior dificuldade do trabalho com os surdos? Você pode discutir essa e outras

Você pode discutir essa e outras questões a respeito da educação de surdos em: <www.ensinodelibras.blogspot.com>

de surdos em: <www.ensinodelibras.blogspot.com> LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS | Educação a Distância 71

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