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Uma nova feição para a jurisdição neoconstitucional

Segundo Humberto Theodoro Jr. (2011), a ampla aceitação e obediência à ordem jurídica pelos membros da coletividade se dão porque ela se estabeleceu fundamentada na garantia da paz social e do bem comum. O que autoriza ao Estado, diante de uma transgressão a essas garantias, a adoção de medidas de coação, tendo em vista a proteção do ordenamento e sua credibilidade.

Não obstante o entendimento das funções do Estado Moderno estar rigorosamente associado à célebre obra de Montesquieu (1997) O espírito das leis , pela qual o Estado seria representado pela separação dos poderes, hodiernamente, vem prevalecendo a ideia de que o poder, como expressão da soberania estatal, é, na verdade, uno e indivisível. Nesse sentido, na concepção da doutrina mais moderna, a clássica expressão ―separação de poderes‖ deve ser interpretada como uma divisão funcional de poderes. Convencionalmente chamada de funções do Estado, a divisão compreende, por conseguinte, as funções legislativa, administrativa e jurisdicional.

A Jurisdição e o Estado Contemporâneo

A partir dessa ideia, podemos identificar a jurisdição como sendo, simultaneamente, um poder ― capacidade de impor suas decisões imperativamente ―, uma função ― como encargo que o Estado assume de pacificar os conflitos sociais ―, e uma atividade. Vejamos as definições de dois importantes autores para esse termo:

Corroborando o exposto até então, Candido Rangel Dinamarco (2001) ressalta que a jurisdição não consiste em um poder, mas o próprio poder estatal que é uno. Segundo Giuseppe Chiovenda, jurisdição é a função estatal que tem por finalidade a atuação da vontade concreta da lei, substituindo a atividade do particular pela intervenção do Estado.

Em sendo a jurisdição uma atividade de substituição, há de existir algo a ser substituído para que se possa caracterizá- la. Esse entendimento segue a doutrina positivista e reduz drasticamente os poderes do juiz, pois a vontade do povo é expressada pela lei, a qual é o produto da atividade do legislador.

Teoria constitutiva ou unitarista

Em oposição, coloca-se a teoria constitutiva ou unitarista do ordenamento jurídico. Francesco Carnelutti, adepto da teoria, afirma que a jurisdição é a função do Estado que busca a justa composição da lide, caracterizada pela exigência de subordinação do interesse alheio ao interesse próprio, bem como pela resistência da outra parte.

Nessa visão, só haveria processo e jurisdição se houvesse lide. Em conclusão, não existiria um direito até que o Poder Judiciário ― e não o Poder Legislativo ― o conferisse, de modo que a jurisdição teria o intuito de resolver o litígio.

Há, contudo, alguns doutrinadores que acabaram por reunir os conceitos de ambas as escolas, por entenderem complementares e não excludentes, como Moacyr Amaral Santos (2007, p. 3), ao conceituar o processo como "o complexo de atos coordenados, tendentes à atuação da vontade da lei às lides ocorrentes, por meio dos órgãos jurisdicionais".

Conceito de lide

O conceito de lide de Carnelutti (1999, p. 80-81) desenvolve-se a partir da ideia de que, se a pretensão é a "subordinação de um interesse alheio ao interesse próprio", a resistência seria justamente a inconformidade dessa pretensão em frente ao interesse alheio.

Diante dessa afirmativa, formou-se o famoso conceito de lide, segundo o qual seu objeto seria o conflito de interesses formado pela contestação quanto à necessidade de subordinação de um interesse a outro.

Por fim, é necessário fazer referência à obra de Luiz Guilherme Marinoni, que vem retomando a ideia de um processo civil constitucionalizado, revendo os conceitos tradicionais de jurisdição apresentados pelos mestres italianos.

Conceito de lide

O autor sustenta que:

Diante da transformação da concepção de direito, não há mais como sustentar as antigas teorias da jurisdição, que reservavam ao juiz a função de declarar o direito ou de criar a norma individual, submetidas que eram ao princípio da supremacia da lei e ao positivismo acrítico. O Estado constitucional inverteu os papéis da lei e da Constituição, deixando claro que a legislação deve ser compreendida a partir dos princípios constitucionais de justiça e dos direitos fundamentais. Expressão concreta disso são os deveres de o juiz interpretar a lei de acordo com a Constituição, de controlar a constitucionalidade da lei, especialmente atribuindo-lhe novo sentido para evitar a declaração de inconstitucionalidade, e de suprir a omissão legal que impede a proteção de um direito fundamental. (MARINONI, 2005, p. 65)

Assim, facilmente apreende-se por todo o exposto que não é possível conceber nos dias atuais a atividade jurisdicional divorciada dos princípios constitucionais, em especial os princípios do acesso à justiça e da dignidade da pessoa humana.

O Acesso à Justiça

Você lembra quando surgiram as questões e problemas relacionados ao acesso à justiça? Vamos relembrar essas

informações?

ao acesso à justiça? Vamos relembrar essas informações? Nesse ponto, Paulo Cezar Pinheiro Carneiro (1999), após

Nesse ponto, Paulo Cezar Pinheiro Carneiro (1999), após se propor a um estudo com o objetivo de aferir se as

reformas legislativas havidas em meio ao movimento de acesso à justiça foram fiéis às premissas iniciais, assevera que

o desenvolvimento dessa empreitada depende da apresentação de proposta que contenha os quatro grandes princípios que devem informar o real significado da expressão acesso à justiça.

Vamos, então, fazer uma breve análise desses princípios? Os princípios e o acesso à justiça

Primeiro princípio

A expressão desse princípio se dá por três elementos, quais sejam: o direito à informação enquanto conhecimento dos

direitos que se detém e da forma de utilizá-los; a garantia da escolha adequada dos legitimados para propositura das

demandas; e, por fim, a redução dos custos financeiros do processo de forma que estes não dificultem ou inibam o acesso à justiça.

Segundo princípio

O segundo princípio elencado pelo autor é o da operosidade, que se consubstancia no dever das pessoas que participam da atividade judicial ou extrajudicial de atuarem do modo mais produtivo e empenhado possível a fim de assegurar um efetivo acesso à justiça.

Tal princípio tem aplicação nos campos objetivo e subjetivo. No primeiro, concretiza-se a partir de uma atuação ética dos sujeitos envolvidos no processo incluindo os advogados e juízes que devem sempre colaborar com as atividades direcionadas à democratização do processo.

Já no campo objetivo, esse princípio indica a necessidade de utilização dos instrumentos e meios mais eficazes pelas

partes. Atuando eticamente para otimizar a produtividade, que se relaciona, em última instância, à perfeita conjugação do binômio celeridade-eficiência na constante busca pela verdade real e pela conciliação.

Terceiro princípio

O terceiro princípio é o da utilidade. Por utilidade entende-se que o processo deve assegurar ao vencedor tudo aquilo

que lhe é de direito, do modo mais rápido e proveitoso possível e com o menor sacrifício para a parte vencida.

Menciona o autor que ―a jurisdição ideal seria aquela que pudesse, no momento mesmo da violação, conceder, a quem tem razão, o direito material‖ (CARNEIRO, 1999, p. 79.)

Quarto princípio

O quarto e último princípio apontado pelo jurista é o da proporcionalidade. O referido princípio se consubstancia na

necessidade de escolha pelo julgador. Ele se vê constantemente diante de inúmeros dilemas, examinando as possíveis soluções que mais se harmonizem com os princípios informadores do direito, e com os fins a que determinado conjunto de regras visa a alcançar, privilegiando, ao final, o interesse mais valioso.

Os princípios e o acesso à justiça

Todos os princípios elencados por Carneiro, uma vez observados como pontos norteadores dos esforços para o aperfeiçoamento dos institutos e regras processuais, sem dúvida conduzirão à ampliação do efetivo acesso à justiça em nosso país.

Muitas das reformas que se almejam requerem apenas aperfeiçoamentos técnicos, outras dizem respeito ao melhoramento da tutela dos interesses difusos ou ao desafogamento dos tribunais nacionais.

O fato é que se deve ter em mente não só a necessidade de proceder às reformas do ponto de vista técnico-legislativo, mas também a necessidade de se adotar medidas que permitam colocar em prática as mudanças havidas no campo teórico.

Deve-se, ainda, compreender que o movimento em prol do efetivo acesso à ordem jurídica justa visa garantir nada menos do que um direito verdadeiramente fundamental de todos os jurisdicionados (cf. MARINONI, 2005), o qual já constitui o foco da ciência processual moderna (cf. CAPPELLETTI, 1988).

Evolução histórica, reformas na legislação processual e premissas do novo CPC

Evolução histórica do direito processual brasileiro Durante o período colonial, o Brasil era regido pelas leis processuais portuguesas, como não poderia deixar de ser, visto que Brasil e Portugal formavam um Estado único (cf. GRECO, 2009). Foi o período das Ordenações emanadas da Corte.

Vigoravam, nessa época:

das Ordenações emanadas da Corte. Vigoravam, nessa época: o direito romano, no direito canônico e nas

o direito romano, no direito canônico e nas leis gerais elaboradas a partir do reinado de Afonso II, vigorando à época do Descobrimento;

promulgadas em 1603.
promulgadas em 1603.

O CPC/73 e as Reformas Processuais

Chegamos, assim, ao segundo Código de Processo Civil, introduzido em nosso ordenamento jurídico pela Lei n.

5.869, de 11 de janeiro de 1973, e baseado no anteprojeto de autoria de Alfredo Buzaid.

Inaugurou-se a Fase Instrumental, pela qual o processo não seria um fim em si mesmo, mas um instrumento para assegurar direitos. Com isso, surgiu a relativização das nulidades e a liberdade das formas para maior efetividade da decisão judicial.

Para Buzaid, mais fácil se afigurava a criação de um novo Código processual civil que a correção do já existente. Devido não só à pluralidade e diversidade de leis processuais então vigentes, mas também à necessidade de serem supridas diversas lacunas e falhas do Código de 1939, que o impediam de funcionar como instrumento de fácil manejo no auxílio à administração da Justiça.

Essa dúvida entre reformar o antigo Código ou elaborar um novo é exposta pelo próprio Alfredo Buzaid no primeiro capítulo da Exposição de Motivos do Código de Processo Civil de 1973.

O CPC de 1973 sofreu inúmeras alterações, sobretudo a partir do início da década de 1990. Teve início aí a chamada Reforma Processual, processo fragmentado em dezenas de pequenas leis que se destinam a fazer mudanças pontuais e ajustes ―cirúrgicos‖.

Dentro dessas premissas, passamos a analisar o movimento do legislador brasileiro em prol das reformas processuais, sobretudo a partir da Emenda n. 45/04.

O Código de Processo Civil de 2015

O P.L. n. 8.046/2010, que almejava a edição de um novo Código de Processo Civil, foi elaborado por uma Comissão composta por diversos juristas, que concluiu, em dezembro de 2009, a primeira fase de seus trabalhos. Depois, submeteu a proposta elaborada a oito audiências públicas, que resultaram na análise de mais de mil sugestões e, finalmente, ao processo legislativo.

 

Vejamos:

2010

O relatório da Comissão do Senado, no dia 24 de novembro de 2010, veio com a apresentação de um projeto

substitutivo, o PLS n. 166/2010, do Senador Valter Pereira, que foi, após algumas mudanças no texto do projeto

substitutivo, aprovado no Senado, no dia 15 de dezembro de 2010.

2011

O projeto foi, então, para a Câmara dos Deputados, como PL n. 8.046/2010, seguindo, no dia 5 de janeiro de 2011,

para a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados. No dia 3 de fevereiro de 2011, o projeto estava na Coordenação de

Comissões Permanentes e, no dia 4 de maio de 2011, em plenário, foi requerida a nomeação de comissão especial, para analisar o projeto para um novo Código de Processo Civil.

Em 5 de julho, já na Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, o Requerimento n. 1.560/2011, de criação de comissão especial para análise do projeto de lei, é julgado prejudicado, tendo em vista a determinação de instalação da Comissão Especial.

2013

Já no ano de 2013, foram apresentadas duas novas versões, uma em janeiro e outra em junho. Em julho, o texto foi

aprovado pela Comissão Especial e remetido ao pleno. Em dezembro de 2013 e março de 2014, foram apresentados e votados Destaques. Finalmente, em 25 de março, foi votada e aprovada a versão final, que já foi devolvida ao Senado

2014

O Senado reconvocou sua Comissão original, promoveu diversas alterações no texto e aperfeiçoou a redação. A

versão final foi votada em dezembro de 2014, em dois dias.

No primeiro, o texto-base, e, no segundo, os destaques (matérias mais polêmicas, sobre as quais não havia consenso). Aprovado o texto final, a partir do Substitutivo apresentado pelo Sen. Vital do Rego, foi feita uma profunda revisão para evitar equívocos nas remissões ou antinomias no texto.

2015

Finalmente, foi enviado à sanção Presidencial em fevereiro de 2015. O texto foi sancionado com sete vetos no dia 16

de março e publicado no DO, no dia 17: Lei n° 13.105/15 Instituiu o novo Código de Processo Civil brasileiro.

Independentemente da versão a ser analisada, é possível dizer que a ideia norteadora do texto é a de conferir maior

celeridade à prestação da justiça, atentando à premissa de que há sempre bons materiais a serem aproveitados da legislação anterior, mas, também, firme na crença de que são necessários dispositivos inovadores e modernizantes.

O projeto, portanto, empenhou-se na criação de um ―novo Código‖, buscando instrumentos capazes de reduzir o número de demandas e recursos que tramitam pelo Poder Judiciário.

Trata-se de uma nova ideologia, de um novo jeito de compreender o processo civil. Pela leitura do texto, é possível perceber a preocupação em sintonizar as regras legais com os princípios constitucionais, revelando a feição neoconstitucional e póspositivista do trabalho.

Os institutos são revistos, o procedimento é abreviado, os recursos são reservados para os casos relevantes, os precedentes passam a ter maior prestígio, o processo eletrônico é viabilizado e a efetividade, finalmente, parece se tornar algo mais próximo e palpável.

Tendo como premissa essa meta, construiu-se:

A proposta de instituição de um incidente de resolução de demandas repetitivas, objetivando evitar a multiplicação das demandas, na medida em que o seu reconhecimento em uma causa representativa de milhares de outras idênticas imporá a suspensão de todas.

Outra previsão é a redução do número de recursos hoje existentes, como a abolição dos embargos infringentes e do agravo retido, como regra, adotando-se no primeiro grau de jurisdição uma única impugnação da sentença final. Nessa oportunidade, a parte poderá manifestar todas as suas discordâncias quanto aos atos decisórios proferidos no curso do processo, ressalvada a tutela de urgência impugnável de imediato por agravo de instrumento.

Saiba Mais

Prioriza-se a conciliação, incluindo-a como o primeiro ato de convocação do réu a juízo, uma vez que proporciona larga margem de eficiência em relação à prestação jurisdicional.

As mudanças pensadas pela Comissão de juristas quando da elaboração do novo texto são diversas e objetivam não enfrentar centenas de milhares de processos, mas, antes, desestimular a ocorrência do volume atual de demandas, com o que visa tornar efetivamente alcançável a duração razoável dos processos.

Atividade proposta

Afim de reforçarmos o que estudamos até aqui, vamos fazer uma atividade?

Helena e Marcílio pretendem se divorciar de forma consensual. São pais de 02 filhos menores, absolutamente incapazes, e, por isso, deverão promover a medida judicial para chancelar o acordo de vontades. Indaga-se:

a) A tutela reclamada em juízo é da jurisdição contenciosa ou não contenciosa (voluntária)? Justifique.

b) O ato judicial é uma decisão solucionando lide? Justifique.

ato judicial é uma decisão solucionando lide? Justifique. Evolução histórica do direito processual brasileiro

Evolução histórica do direito processual brasileiro

Dispunham as Ordenações Afonsinas, de forma quase completa, sobre a administração pública. O processo civil foi regulado em seu livro III, composto por 128 capítulos, abrangendo os procedimentos de cognição, execução, bem como os recursos.

A partir das Ordenações Manuelinas, promulgadas em 1521, poucas mudanças puderam ser verificadas em relação às Ordenações Afonsinas, tendo em vista que ambos os diplomas procuravam garantir o fortalecimento do Poder Real bem como os interesses da Nobreza.

No entanto, a análise das Ordenações Manuelinas demonstra que não havia separação entre os processos de conhecimento e de execução (cf. SILVA GOMES, 1997, p. 28).

Em 1603, foram promulgadas pelo rei de Portugal as Ordenações Filipinas, que permaneceram em vigor mesmo após a independência brasileira. De grande importância para o direito brasileiro e com uma estrutura bastante moderna, as Ordenações Filipinas eram compostas por 5 livros, dentre os quais o terceiro tratava da parte processual civil.

Apesar da vigência das Ordenações Filipinas, o Brasil também era regido, nessa época, pelas Cartas dos donatários, dos governadores e ouvidores e, ainda, pelo poder dos senhores de engenho, que faziam sua própria justiça ou influenciavam a Justiça oficial, ora pelo prestígio que ostentavam, ora pelo parentesco com os magistrados.

Foram sucedidas pela Lei de 18 de agosto de 1769. Com a proclamação da independência em 7 de setembro de 1822, tornou-se necessária uma reestruturação da ordem jurídica interna. O que foi alcançado por meio da Carta Constitucional de 1824, com a introdução em nosso ordenamento de inovações e princípios fundamentais, principalmente no campo criminal, em que a necessidade de mudanças se fazia mais evidente, tais como a abolição da tortura e de todas as penas cruéis. Por outro lado, verificou-se a consagração da divisão dos poderes e o estabelecimento da harmonia destes com o Poder Moderador, buscando garantir os direitos ditados pela Carta Magna, assim como a composição e a independência do Poder Judiciário. Estipulou-se, ainda, a necessidade e a obrigatoriedade de um juízo conciliatório prévio.

Todavia, apesar da nova ordem constitucional que surgiu nesse momento, as Ordenações Filipinas e demais normas jurídicas de origem portuguesa não perderam vigência. O Decreto de 20 de outubro de 1823, adotando-as como lei brasileira, determinou que só seriam revogadas as disposições contrárias à soberania nacional e ao regime brasileiro.

Vamos relembrar os arts. 161 e 162 da Constituição do Império? Eles estabeleciam, respectivamente, a tentativa prévia de conciliação como pressuposto de constituição válida do processo e a atribuição de competência ao juiz de paz para tentar promovê-la.

―Art. 161. Sem se fazer constar, que se tem intentado o meio da reconciliação, não se começará Processo algum. Art. 162. Para este fim haverá juízes de Paz, os quais serão eletivos pelo mesmo tempo, e maneira, por que se elegem os Vereadores das Câmaras. Suas atribuições, e Distritos serão regulados por Lei.‖

Assim, atendendo às exigências da Carta Constitucional, no campo processual penal, tivemos a promulgação do Código de Processo Criminal em 1832. Rompendo com a tradição portuguesa, inspirou-se nos modelos inglês (acusatório) e francês (inquisitório), fornecendo ao legislador brasileiro elementos para a elaboração de um sistema processual penal misto. Além disso, o novo Código também trazia, em um título único composto por 27 artigos, a ―disposição provisória acerca da administração da Justiça civil‖, simplificando o processo civil ainda regulado pelas Ordenações Filipinas.

Em 3 de dezembro de 1841, no entanto, entrou em vigor a Lei n. 261, posteriormente regulamentada na parte processual civil pelo Decreto n. 143, de 15 de março de 1842. Ela modificou a disposição provisória do Código de Processo Criminal através do cancelamento de algumas reformas. Em 1850, logo após a edição do Código Comercial, entraram em vigor os Regulamentos n. 737 (considerado o primeiro diploma processual brasileiro) e 738, que disciplinavam, respectivamente, o processo das causas comerciais e o funcionamento dos tribunais e juízes do comércio.

O direito processual civil, contudo, permaneceu regulado pelas disposições das Ordenações e suas posteriores

modificações. Isso levou o governo a promover, em 1876, uma Consolidação das Leis do Processo Civil, com força de lei, que ficou conhecida como Consolidação Ribas, em virtude de sua elaboração a cargo do Conselheiro Antônio Joaquim Ribas. Proclamada a República, o Regulamento 737 foi estendido às causas cíveis, mantendo-se a aplicação das Ordenações e suas modificações aos casos de jurisdição voluntária e de processos especiais.

Após o advento da Constituição de 1891, no entanto, conferiu-se aos Estados a possibilidade de legislar sobre matéria processual, aumentando o espectro de competência antes pertencente somente à União Federal, após o que várias leis foram promulgadas, regulamentando as mais diversas questões processuais. Em 1º de janeiro de 1916, foi editado o Código Civil Brasileiro, tratando não só das questões de direito material, mas também de algumas processuais. No Rio

de Janeiro, então Distrito Federal, veio à luz o Código Judiciário de 1919, promulgado pela Lei n. 1.580, de 20 de

janeiro, seguido pelo Código de Processo Civil do Distrito Federal, de 31 de dezembro de 1924, e devidamente promulgado pelo Decreto n. 16.751.

Finalmente, a Carta de 1934 consagrou a unificação processual, atribuindo novamente a competência para legislar em matéria processual exclusivamente à União, o que foi mantido pela Constituição de 1937, em seu art. 16, XVI,

possibilitando, assim, a edição do Código Brasileiro de Processo Civil, através do Decreto n. 1.608, de 18 de setembro

de 1939.

Todas as Constituições que se seguiram mantiveram essa unificação, inclusive a de 1988, de acordo com seu art. 22, I. Todavia, nossa atual Constituição, no art. 24, X e XI, estabelece a competência concorrente da União, Estados e Distrito Federal para legislar sobre ―criação, funcionamento e processo do juizado de pequenas causas‖ e ―procedimentos em matéria processual‖, criando, assim, duas exceções à regra geral do art. 22, I.

A unificação processual se justificava pela necessidade de uma normatização uniforme ante o grande número de leis

existentes em cada Estado. Há muito, elas se faziam obsoletas e incapazes de satisfazer o objetivo primordial do processo civil, qual seja, o de tutelar efetivamente os direitos dos particulares. Não obstante, o art. 1º do Código deixou à apreciação de lei especial a regulamentação de algumas matérias específicas, tais como as desapropriações,

as

ações trabalhistas e os litígios entre empregados e empregadores.

O

Código de 1939 teve o mérito de se inspirar nas mais modernas doutrinas europeias da época. E introduziu

importantes inovações em nosso ordenamento processual, como o princípio da oralidade e a combinação do princípio dispositivo e do princípio do juiz ativo, permitindo uma maior agilidade nos procedimentos. O diploma era composto por 1.052 artigos, dispostos em dez livros; foi modificado por diversas leis extravagantes e se manteve em vigor até o último dia do ano de 1973.

Processo de conhecimento

O processo de conhecimento (ou declaratório em sentido amplo) provoca o juízo, em sentido mais restrito e próprio:

através de sua instauração, o órgão jurisdicional é chamado a julgar, declarando qual das partes tem razão. O objeto do processo de conhecimento é a pretensão ao provimento declaratório da sentença denominado sentença de mérito.

Essa sentença concluirá pela procedência, quando acolher a pretensão do autor; pela improcedência quando a rejeitar.

Processo de Execução

A função jurisdicional não se limita à emissão de sentença, através do processo de conhecimento, há também a

sentença condenatória em que alia-se a declaração à sanção, formando assim um título executivo necessário para que

esta possa ser concretamente atuada.

Assim, configura-se outra forma de tutela jurisdicional, através do processo que se denomina de execução. O processo de execução visa uma prestação jurisdicional que consiste em tornar efetiva a sanção mediante a prática dos atos próprios da execução forçada.

O pressuposto da execução é um título executivo, que normalmente é discutido no processo de conhecimento. É

possível, porém, que o processo de conhecimento seja suficiente à satisfação da obrigação, em necessidade de execução forçada;

Quando se tratar de títulos executivos extrajudiciais (que não surgiram por meio de sentença judicial) a execução pode ser promovida sem o processo de conhecimento.

No processo executivo é proposta uma ação (ação executiva), pela qual o credor pretende o provimento jurisdicional satisfativo (na execução por título judicial, uma vez já exaurida a ação cognitiva, a pretensão satisfativa, com o advento da Lei 11.232/2005, é apenas mais uma fase no processo de conhecimento).

A sentença penal condenatória, aplicando a sanção, constitui-se no título executivo necessário à efetivação do

comando que emerge da própria sentença; encerrado o processo penal de conhecimento e constituído o título, instaura-

se o processo de execução penal, que, apesar de peculiaridades e diferenças em confronto com a execução civil, não tem natureza diversa. Tais peculiaridades são:

A execução penal, ação penal condenatória e ate mesmo o processo civil na ação constitutiva necessária são sempre

forçadas.

A jurisdição não é inerte na execução penal, sendo o processo instaurado ex officio . Mas outros casos há de

jurisdição que se auto-movimenta, sem que se negue o caráter jurisdicional ao processo instaurado sem iniciativa do autor (execução trabalhista, recuperação judicial convolada em falência, etc.).

Processo cautelar

É acrescido ao conhecimento e à execução, sendo auxiliar e subsidiário, visando assegurar o êxito das primeiras

etapas: trata-se da atividade cautelar, desenvolvido através do processo que toma o mesmo nome. Seu resultado

específico é um provimento acautelatório. Visa proteger um bem ou direito que será discutido em ação principal (processo de conhecimento).

O provimento cautelar funda-se antecipadamente na hipótese de um futuro provimento jurisdicional favorável ao autor: verificando-se os pressupostos do fumus boni juris (aparência do bom direito) e do periculum in mora (perigo da demora), o provimento cautelar opera imediatamente, como instrumento provisório e antecipado do futuro provimento definitivo, para que este não seja frustrado em seus efeitos.

Pode ser requerido de forma autônoma, ou seja, antes da propositura da ação principal ou por via incidental, quando ocorrer no curso de processo já iniciado.