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APELAÇÃO CÍVEL Nº 638092-1, DE TELÊMACO BORBA - VARA CÍVEL E

ANEXOS
APELANTE : DANIEL SILVEIRA MELO
APELADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ
RELATOR : DES. LUÍS CARLOS XAVIER

APELAÇÃO CÍVEL – AÇÃO CIVIL PÚBLICA POR ATO DE


IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA – PROCEDÊNCIA
PARCIAL.
APELO DO RÉU – DECRETAÇÃO DE REVELIA QUE NÃO
INDUZ À PROCEDÊNCIA DO PEDIDO – NULIDADE DA
SENTENÇA POR FALTA DE FUNDAMENTAÇÃO E
TRATAMENTO DIFERENCIADO DADO ÀS PARTES –
INOCORRÊNCIA – ALEGAÇÕES FINAIS –
INTEMPESTIVIDADE – IRRELEVÂNCIA – DECISÃO
BASEADA NO CONJUNTO PROBATÓRIO ACOSTADO
AOS AUTOS - CERCEAMENTO DE DEFESA –
INOCORRÊNCIA - PRELIMINARES AFASTADAS –
APLICABILIDADE DA LEI DE IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA AOS AGENTES POLÍTICOS - ATOS DE
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA FARTAMENTE
COMPROVADO NOS AUTOS – DANO AO ERÁRIO, DOLO
E MÁ-FÉ DEVIDAMENTE PROVADOS – RECURSO
DESPROVIDO.

1. O efeito da revelia não induz procedência do pedido e nem


afasta o exame de circunstâncias capazes de qualificar os
fatos fictamente comprovados. E, não é porque a réu tornou-
se revel que a ação necessariamente será julgada

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favoravelmente ao autor, vez que cabe ao juiz apreciar o


conjunto probatório acostado aos autos e julgar segundo seu
livre convencimento, que foi o que ocorreu no presente caso,
no qual o juiz analisando as provas trazidas aos autos decidiu
pela procedência parcial da ação.

2. Tendo a sentença bem fundamentado a intempestividade


das alegações finais apresentadas pelo apelante, e estando a
fundamentação baseada no conjunto probatório acostado aos
autos, não há que se falar em tratamento diferenciado e
privilegiado à outra parte.

3. A decisão não é nula por ausência de fundamentação, com


relação ao “fato 02”, pois verifica-se que a motivação do
pronunciamento judicial esta expressa de forma bem
detalhada, havendo inclusive citação de trechos de
depoimento de testemunha, não pode ser o mesmo reputado
como nulo, porque, suficiente à formação do convencimento
do Juízo monocrático.

4. No caso o processo devidamente instruído, tendo sido


produzidas inúmeras provas, tanto pelo autor, como pelo ora
apelante, de modo que o reconhecimento da intempestividade
de suas alegações finais não interferiu no resultado final da
lide, que, conforme já esclarecido, baseou-se no conjunto
probatório acostado aos autos e não nas razões apresentadas
pelo Ministério Público em suas alegações finais.

5. A disposição do artigo 2º da Lei de Improbidade


Administrativa não deixa qualquer dúvida quanto à
aplicabilidade da lei aos agentes políticos.

6. As condutas praticadas pelo apelante restaram fartamente


comprovada nos autos, tendo havido desrespeito aos
princípios da legalidade e moralidade administrativa, que

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caracterizam a prática do ato de improbidade administrativa


por parte do apelante, tendo em vista que este causou
prejuízo ao erário, agindo com dolo e má-fé.

VISTOS, relatados e discutidos estes autos de Apelação


Cível nº 638092-1, de Telêmaco Borba - Vara Cível e Anexos, em que é
apelante Daniel Silveira Melo e apelado Ministério Público do Estado do
Paraná.

O Ministério Público do Estado do Paraná ingressou com


ação civil pública em face de Daniel Silveira Melo e de Nezias Trindade da
Silva alegando que o requerido Daniel Silveira Melo, na qualidade de vereador
de Telêmaco Borba, praticou diversos atos de improbidade administrativa, sendo
um deles em conluio com o requerido Nezias Trindade da Silva, então
Presidente da Câmara dos Vereadores de Telêmaco Borba, os quais podem ser
resumidos da seguinte forma: a) fato 01 (praticado por Daniel Silveira Melo):
apropriação de combustíveis adquiridos com verbas públicas, para fins
particulares; b) fato 02 (praticado por Daniel Silveira Melo): aquisição de um Box
na rodoviária de Telêmaco Borba; c) fato 03 (praticado por Daniel Silveira Melo):
apropriação de verbas públicas referentes à reconstrução de um muro de sua
propriedade; d) fato 04 (praticado por Daniel Silveira Melo e Nezias Trindade da
Silva): uso de carros oficiais e combustíveis em proveito particular e
ressarcimentos irregulares de despesas.

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Em razão dos atos de improbidade administrativa


supracitados, formula os seguintes requerimentos: a) condenação dos requeridos
a ressarcirem o Erário, na seguinte monta, acrescidos de juros e correção
monetária: - Daniel Silveira Melo em R$ 11.053,14 (onze mil cinqüenta e três
reais e quatorze centavos); Daniel Silveira Melo e Nezias Trindade da Silva,
solidariamente, em R$ 4.081,33 (quatro mil e oitenta e um reais e trinta e três
centavos); b) a condenação dos réus nas sanções do artigo 12, incisos II e III, da
lei 8.429/92; c) a condenação dos réus nos ônus de sucumbência. Requereu
ainda, liminarmente, a quebra do sigilo bancário e fiscal do réu Daniel Silveira
Melo e a indisponibilidade dos bens de sua propriedade, além do seu
afastamento cautelar do cargo de vereador, sem prejuízo de seus vencimentos.
Juntou documentos, fls. 42/388.

O réu Daniel Silveira Melo compareceu espontaneamente


aos autos (fls. 390/395), para se opor ao pleito de afastamento do exercício do
mandato, alegando que o pedido é juridicamente impossível.

Em decisão de fls. 421/431, foram deferidas todas as


providencias preliminares formuladas pelo requerente.

O afastamento cautelar do requerido Daniel Silveira Melo foi


suspenso, em decisão monocrática no agravo de instrumento nº 158.863-6 (fls.
523).

Devidamente notificados (fls. 451/452), o requerido Nezias


apresentou defesa preliminar às fls. 528/534 e juntou documentos às fls. 535/558,
e o requerido Daniel às fls. 638/662.

O Ministério Público opinou pelo afastamento das


preliminares argüidas pelos requeridos (fls. 663/665).

A petição inicial foi recebida pela decisão de fls. 710/713.

Os réus foram devidamente citados (fls. 716 v), tendo o réu

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Nezias apresentado contestação (fls. 717/721), na qual alegou que não pode ser
condenado pelo erro cometido pelos outros vereadores, bem como que não
autorizou a utilização dos veículos oficiais. Requereu a improcedência da ação,
bem como a produção de todas as provas em direito admitidas. O réu Daniel
apresentou contestação às fls. 726/732.

O Ministério Público impugnou as contestações (fls.


735/737), e pugnou pela realização de prova documental e oral, com o
depoimento pessoal de ambos os requeridos e oitiva das testemunhas que
arrolou naquela oportunidade.

Pela decisão de fls. 738/739, o processo foi saneado, sendo


declarada intempestiva a contestação apresentada pelo réu Daniel e deferida a
produção de prova testemunhal, bem como o depoimento pessoal dos réus.

Durante a instrução processual, foram tomados os


depoimentos pessoais dos réus (fls. 860/861) ouvidas 07 (sete) testemunhas
arroladas pelo Ministério Público (fls. 862/868), 04 (quatro) testemunhas
arroladas pela defesa do réu Nezias (fls. 913/918), e 01 (uma) testemunha do
juízo (fls. 974/976).

O réu Daniel requereu, às fls. 952/969, a inclusão de outras


pessoas no pólo passivo da demanda. Tal pleito foi indeferido pelo juízo (fls.
982), por não se vislumbrar hipótese de litisconsórcio necessário.

O Município de Telêmaco Borba apresentou informações, às


fls. 1121/1128, na forma requerida pelo Ministério Público, às fls. 1085/1086, e
deferida às fls. 1101.

O Ministério Público, em sede de alegações finais (fls.


1131/1144), sopesados o material probatório, propugnou pela procedência dos
pedidos.

Os réus deixaram transcorrer in albis o prazo para

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apresentação de alegações finais (certidão de fls. 1145 v).

A sentença (fls. 1183/1207) julgou parcialmente


procedentes os pedidos iniciais, não acolhendo apenas em relação à
condenação do requerido Nezias em ressarcimento dos valores referentes aos
combustíveis custeados pela Câmara de Vereadores, e via de conseqüência,
extinto o processo com resolução do mérito, nos termos do artigo 269, I do
Código de Processo Civil, para:

- condenar os réus Daniel Silveira Melo e Nezias Trindade da


Silva, a ressarcir o Erário Público da seguinte forma: 1) Daniel Silveira Melo: R$
6.772,77 (seis mil, setecentos e setenta e dois reais e setenta e sete centavos),
que representa a soma de R$ 588,00 (fato 01), R$ 5.975,69 (fato 03) e R$ 209,88
(parte do fato 4, referentes à utilização de combustíveis custeados pela Câmara
Municipal); 2) Daniel Silveira Melo e Nezias Trindade da Silva, solidariamente: R$
2.425,42 (dois mil, quatrocentos e vinte e cinco reais e quarenta e dois centavos),
concernente ao ressarcimento irregular de despesas (parte do fato 04). Os
montantes supracitados deverão ser corrigidos monetariamente, desde a data da
ocorrência do fato, nos termos do Enunciado da Súmula nº43 do STJ e
acrescidos de juros de mora, por igual, consoante o Enunciado da Súmula nº 54
do STJ.

- sem prejuízo do ressarcimento acima determinado,


condenou os réus, ainda, nas sanções do art.12, da Lei nº. 8.429-92, as quais
fixam a seguir, individualmente, respeitando os princípios da proporcionalidade e
razoabilidade com relação aos atos de improbidade cometidos:

a) Réu Nezias Trindade da Silva:

O réu Nezias cometeu atos de improbidade administrativa


em relação a um dos fatos narrados na petição inicial (fato 04), enquanto
presidente da Câmara Municipal, função que exige maior lisura de seu agente,
por representar não apenas seus eleitores, mas o Poder Legislativo Municipal

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como um todo. Além disso, embora os valores desviados não sejam vultosos, há
de ser considerada a realidade local (município do interior). Sopesadas tais
circunstâncias, decretou a perda de sua função pública; suspendendo seus
direitos políticos por 03 (três) anos; aplicando-lhe multa civil de duas vezes
o valor do acréscimo patrimonial obtido, entendido este como a somatória dos
valores que acima o réu foi condenado a ressarcir (integralmente, sem divisão
entre os demais réus, quando condenados solidariamente). Além disso, proibiu o
réu a contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos
fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de
pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de 03 (três) anos.

b) Réu Daniel Silveira Melo

O réu Daniel cometeu atos de improbidade em relação a


todos os quatros fatos narrados na petição inicial, enquanto vereador, função que
exige atuação dentro da legalidade e com honestidade por parte do agente, já
que representa seus eleitores. Além disso, embora os valores desviados não
sejam vultosos, há de ser considerada a realidade local (município do interior),
bem como a reiteração de condutas. Sopesadas tais circunstâncias, decretou a
perda de sua função pública; suspendendo seus direitos políticos por 05
(cinco) anos; aplicando-lhe multa civil de três vezes o valor do acréscimo
patrimonial obtido, entendido este como a somatória dos valores que acima o
réu foi condenado a ressarcir (integralmente, sem divisão entre os demais réus,
quando condenados solidariamente). Além disso, proibiu o réu de contratar
com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios,
direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja
sócio majoritário, pelo prazo de 05 (cinco) anos.

A perda da função pública e a suspensão dos direitos


políticos só se efetivarão com trânsito em julgado da sentença (art. 20 da Lei
8429/92)

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Tendo o autor decaído de parte mínima do pedido, condenou


os réus ao pagamento das custas, pro rata nos termos do artigo 21, parágrafo
único do Código de Processo Civil. Deixando de condenar os réus ao pagamento
de honorários advocatícios por entender que, “... em ação movida pelo Ministério
Público, em ato de seu ministério, a ele é vedado tal recebimento” (RT 729/202)

O apelante Daniel Silveira Melo (fls. 1236/1260)


inconformado com a decisão de primeiro grau interpôs recurso de apelação para
reforma da sentença monocrática, alegando que o fato de não ter apresentado
contestação dentro do prazo legal não faz com que a ação promovida pelo
apelado seja obrigatória e necessariamente julgada procedente, pois apesar da
revelia a demanda deve ser apreciada e julgada levando em consideração todos
os elementos de prova e informação constantes nos autos.

Em preliminar alega nulidade da sentença por falta de


fundamentação, pois ao considerar tempestiva as alegações finais apresentadas
pelo Ministério Público, no prazo de 34 (trinta e quatro) dias, quando o prazo era
de 10 (dez), deu a este tratamento diferenciado e privilegiado, sem justificativa.

Alega ainda, em preliminar nulidade da sentença por falta de


fundamentação, com relação ao “fato 02”, pois entendeu que o recorrido, por ter
adquirido um “Box” junto à Rodoviária de Telêmaco Borba através de interposta
pessoa, deveria ser condenado por ato de improbidade administrativa, sem no
entanto, apresentar qualquer fundamentação acerca do enquadramento de tal
conduta nos termos da Lei de Improbidade Administrativa.

Afirma também em preliminar, nulidade da sentença por


cerceamento de defesa, por ofensa aos princípios constitucionais da paridade de
armas e igualdade, tendo em vista ter aceitado as alegações finais intempestivas
apresentadas pelo Ministério Público, e não aceitando as alegações finais do ora
apelante, por considerá-las intempestivas.

Requer sejam acolhidas as preliminares.

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No mérito afirma a inaplicabilidade da Lei 8.429/92 ao caso


em tela, pois tal lei não se aplica a agentes políticos, a exemplo de Prefeitos e
Vereadores, aplicando-se a eles o Decreto-Lei nº 201/67, devendo a sentença
ser reformada, com a extinção da lide, sem julgamento do mérito, ante a
impossibilidade jurídica do pedido, na forma do artigo 267, VI do Código de
Processo Civil.

Sustenta que os documentos que a sentença utilizou como


prova e fundamento para acolhimento da acusação nº 01, não existem, pois os
vale-combustíveis, noticiados pelo Ministério Público, não existem, ou seja, são
falsos.

Afirma que a sentença deveria ter explicitado e


fundamentado o porque a aquisição do “Box” junto à Rodoviária Municipal
acarretaria ato de improbidade administrativa. Assim, no mérito a acusação do
“Fato nº 02” também não possui sustentação, pois se eventualmente a
condenação do requerido se deu por conta de um suposto contrato firmado com
o Município de Telêmaco Borba, restou demonstrado nos autos que o ora
apelante jamais firmou qualquer contrato com qualquer pessoa de direito público,
muito menos com o Município de Telêmaco Borba. Nem ele próprio, nem através
de ‘interposta’ pessoa, e este fato foi confirmado por escrito pela Prefeitura
Municipal de Telêmaco Borba.

Requer o provimento do presente recurso para reformar a


sentença, neste aspecto (Fato nº 02).

Aduz que a condenação do apelado em relação ao “Fato nº


03”, revela-se sem nenhum fundamento, pois restou comprovado através do
Processo Administrativo nº 426/2001 da Prefeitura Municipal de Telêmaco Borba,
que foi este o causador dos danos no muro da propriedade do apelante. E, se
restou comprovado que os danos causados ao apelante são de responsabilidade
do município, onde é que está o ato ilícito e ímprobo do apelante.

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Argumenta que com relação ao “fato nº 04” não houve prova


efetiva de que os ressarcimentos e combustíveis foram utilizados para fins
particulares do apelante.

Requer seja conhecido e provido o recurso, a fim de


reconhecendo as nulidades narradas nas preliminares, determinar a anulação da
sentença, seja com objetivo de conhecer das alegações finais apresentadas pelo
apelante e realizar novo julgamento. Caso superadas as preliminares, requer seja
dado provimento à apelação para o fim de reformar a sentença, seja para
reconhecer e determinar a inaplicabilidade da Lei 8.429/92 ao caso em tela, seja
para julgar improcedente a demanda intentada contra o apelante, afastando-se
todas as condenações que lhe foram impostas na sentença, face a
improcedência ou inconsistência das acusações e condenações.

O apelado Ministério Público do Estado do Paraná


apresentou contrarrazões (fls. 1264/1297), postulando o provimento do recurso.

A douta Procuradoria Geral de Justiça apresentou parecer


(fls. 1310/1330) pelo conhecimento e desprovimento do recurso de apelação.

No presente feito não houve a interposição de recurso de


apelação adesivo e nem de agravo retido.

É o relatório.

VOTO

Presentes os pressupostos de admissibilidade, é de se


conhecer o recurso.

Trata-se de recurso de apelação interposto contra sentença


que julgou parcialmente procedente a ação.

O recurso não merece provimento, devendo ser confirmada a


sentença pelos seus próprios e jurídicos fundamentos.

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Da revelia

Alega que o fato de não ter apresentado contestação dentro


do prazo legal não faz com que a ação promovida pelo apelado seja obrigatória e
necessariamente julgada procedente, pois apesar da revelia a demanda deve ser
apreciada e julgada levando em consideração todos os elementos de prova e
informação constantes nos autos.

Tal alegação não procede.

Apesar de ter sido decretada a revelia do apelante ainda


assim, o juiz deve analisar o pedido do autor e deferi-lo, se juridicamente
possível, bem como indeferi-lo.

Com efeito:

"Se o réu não contestar a ação, devem ser reputados


verdadeiros os fatos afirmados pelo autor.

Todavia, o juiz, apreciando as provas dos autos, poderá


mitigar a aplicação do art. 319 do Código de Processo Civil,
julgando a causa de acordo com o seu livre convencimento".
(RF 293/244) (in, Theotonio Negrão e José Roberto F. Gouvêa,
Código de Processo Civil, 37ª Edição, nota 6 do art. 319, pág. 422)

Ainda:

"O efeito da revelia não induz procedência do pedido e nem


afasta o exame de circunstâncias capazes de qualificar os
fatos fictamente comprovados". (RSTJ 53/335). (in, Theotonio
Negrão e José Roberto F. Gouvêa, Código de Processo Civil, 37ª
Edição, nota 6 do art. 319, pág. 422)

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"A presunção de veracidade dos fatos alegados pelo autor em


face à revelia do réu é relativa, podendo ceder a outras
circunstâncias constantes dos autos, de acordo com o livre
convencimento do juiz" (RSTJ 20/252, não conheceram maioria)
(in, Theotonio Negrão e José Roberto F. Gouvêa, Código de
Processo Civil, 37ª Edição, nota 6 do art. 319, pág. 422)

Assim, verifica-se que não é porque a réu tornou-se revel


que a ação necessariamente será julgada favoravelmente ao autor, vez que cabe
ao juiz apreciar o conjunto probatório acostado aos autos e julgar segundo seu
livre convencimento, que foi o que ocorreu no presente caso, no qual o juiz
analisando as provas trazidas aos autos decidiu pela procedência parcial da
ação.

Neste sentido é a jurisprudência:

"RESCISÃO DE CONTRATO CUMULADA COM PERDAS E


DANOS - INADIMPLÊNCIA DO ADQUIRENTE - REVELIA -
DEFERIMENTO PARCIAL DO PEDIDO.

"1. O efeito da revelia não induz procedência do pedido e nem


afasta o exame de circunstâncias capazes de qualificar os
fatos fictamente comprovados, competindo ao juiz julgar a
causa de acordo com o seu livre convencimento.

2. Recurso que se nega provimento". (TAPR, Apelação Civil nº


0260738-1, 1ª Câmara Cível, Rel. Des. Antônio de Sa Ravagnani,
publ. 10.09.2004)

Afasta-se esta alegação.

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PRELIMINARES

Da falta de fundamentação

Alega nulidade da sentença por falta de fundamentação, pois


ao considerar tempestivas as alegações finais apresentadas pelo Ministério
Público, no prazo de 34 (trinta e quatro) dias, quando o prazo era de 10 (dez),
deu a este tratamento diferenciado e privilegiado, sem justificativa.

Tal preliminar deve ser rejeitada porque manifestamente


irrelevante, quer do ponto de vista processual, quer do ponto de vista material.

De fato. Da leitura das alegações finais apresentadas pelo


ora apelante, verifica-se não haver qualquer novo argumento nestas, que já não
constem nos autos, derivando o convencimento do magistrado do conjunto
probatório.

Outrossim, é de se ressaltar que a sentença bem


fundamentou a intempestividade das alegações finais apresentadas pelo
apelante (fls. 1187/1188), e da leitura da sentença, verifica-se que esta se
baseou unicamente no conjunto probatório acostado aos autos, para fundamentar
sua decisão, não havendo que se falar em tratamento diferenciado e privilegiado
à outra parte.

Este ponto foi devidamente esclarecido pela d. Procuradoria


Geral de Justiça em seu parecer:

“Verifica-se à f. 1187, de maneira assaz cristalina, o motivo pelo


qual as alegações finais do ora apelante não foram recebidas, qual seja, o
então réu deixou transcorrer in albis o prazo para a sua apresentação.
Conforme certidão à fls. 1145-v, tal prazo se iniciou em 17 de março de 2009,
sendo que as alegações finais formam efetivamente apresentadas no dia 15
de abril de 2009 (Vide alegações finais do ora apelante às f. 1146/1176), 28

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dias após sua intimação, portanto, intempestivamente.” (fls. 1313)

Da falta de fundamentação – fato 02

Alega nulidade da sentença por falta de fundamentação, com


relação ao “fato 02”, pois entendeu que o recorrido, por ter adquirido um “Box”
junto à Rodoviária de Telêmaco Borba através de interposta pessoa, foi
condenado por ato de improbidade administrativa, sem, no entanto, apresentar
qualquer fundamentação acerca do enquadramento de tal conduta nos termos da
Lei de Improbidade Administrativa.

Tal alegação não procede.

Ao contrário do alegado, a r. decisão não é nula por ausência


de fundamentação, com relação ao “fato 02”, pois verifica-se que a motivação do
pronunciamento judicial esta expressa de forma bem detalhada, havendo
inclusive citação de trechos de depoimento de testemunha, não pode ser o
mesmo reputado como nulo, porque, suficiente à formação do convencimento do
Juízo monocrático.

Com efeito, da leitura de fls. 1192/1195 é possível extrair


claramente os fundamentos, que motivaram o reconhecimento da prática do ato
ímprobo (fato 02) pelo ora apelante.

A lei processual permite que em determinadas hipóteses as


decisões possam ser concisas, não significando dizer ausentes de
fundamentação, o que ensejaria a nulidade da sentença ou do acórdão, mas,
sim, no sentido de que ela seja externada de forma sucinta.

A nulidade é gerada pela falta de fundamentação, pela


decisão arbitrária, e não pela falta de análise específica de um ou outro
argumento do apelante.

Neste sentido, é da jurisprudência:

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Apelação Cível nº 638.092-1 fls. 15

“AGRAVO DE INSTRUMENTO - EMBARGOS À EXECUÇÃO -


DECISÃO QUE RECEBE OS EMBARGOS E INDEFERE A
CONCESSÃO DE EFEITO SUSPENSIVO - NULIDADE -
AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO - INOCORRÊNCIA -
FUNDAMENTAÇÃO SUCINTA PORÉM SUFICIENTE - NEGA
PROVIMENTO.
1. A fundamentação sucinta da sentença não importa na sua
nulidade, desde que a matéria tenha sido apreciada
integralmente.” (TJPR, Agravo de Instrumento nº 0497360-4, 13ª
Câmara Cível, Rel. Des. Luís Carlos Xavier, publ. 24.10.2008)

Theotonio Negrão, em sua obra "Código de Processo Civil e


Legislação Processual em vigor", 37ª ed., comentando o artigo 458, cita:

"O juiz não está obrigado a responder todas as alegações das


partes, quando já tenha encontrado motivo suficiente para
fundar a decisão, nem se obriga a ater-se aos fundamentos
indicados por elas e tampouco responder um a um todos os
seus argumentos" (JTJ 259/14). (sem grifos no original).

"A Constituição não exige que a decisão seja extensamente


fundamentada. O que se exige é que o juiz ou tribunal dê as
razões de seu convencimento" (STF-2ª Turma, AI 162.089-8-
DF-AgRg, rel. Min. Carlos Velloso, j. 12.12.95, negaram
provimento, v.u., DJU 15.3.96, p. 7.209).

Desta forma, não merece guarida a alegação de que a


decisão é nula por falta de fundamentação.

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Apelação Cível nº 638.092-1 fls. 16

Do cerceamento de defesa

Afirma haver nulidade da sentença por cerceamento de


defesa, por ofensa aos princípios constitucionais da paridade de armas e
igualdade, tendo em vista ter aceitado as alegações finais intempestivas
apresentadas pelo Ministério Público, e não aceitando as alegações finais do ora
apelante, por considerá-las intempestivas.

Tal alegação não procede, pois consoante esclarecido


quando da apreciação do tópico “Da falta de fundamentação” o processo está
devidamente instruído, tendo sido produzidas inúmeras provas, tanto pelo autor,
como pelo ora apelante, de modo que o reconhecimento da intempestividade de
suas alegações finais não interferiu no resultado final da lide, que, conforme já
esclarecido, baseou-se no conjunto probatório acostado aos autos e não nas
razões apresentadas pelo Ministério Público em suas alegações finais.

Afasta-se esta alegação.

MÉRITO

Da inaplicabilidade da Lei 8.429/92

Afirma a inaplicabilidade da Lei 8.429/92 ao caso em tela,


pois tal lei não se aplica a agentes políticos, a exemplo de Prefeitos e
Vereadores, aplicando-se a eles o Decreto-Lei nº 201/67, devendo a sentença
ser reformada, com a extinção da lide, sem julgamento do mérito, ante a
impossibilidade jurídica do pedido, na forma do artigo 267, VI do Código de
Processo Civil.

Tal alegação não pode ser aceita.

Isto porque a disposição do artigo 2º da Lei de Improbidade


Administrativa não deixa qualquer dúvida quanto à aplicabilidade da lei aos
agentes políticos quando dispõe: “Art. 2º - Reputa-se agente público, para os
efeitos desta lei, todo aquele que exerce, ainda que transitoriamente ou sem

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Apelação Cível nº 638.092-1 fls. 17

remuneração, por eleição, nomeação, designação, contratação ou qualquer outra


forma de investidura ou vínculo, mandato, cargo, emprego ou função nas
entidades mencionadas no artigo anterior".

Assim, não há falar em inaplicabilidade da Lei nº 8.429/92


aos agentes políticos.

Neste sentido é a jurisprudência:

“(...) PRELIMINARES DE LITISPENDÊNCIA, DE


INAPLICABILIDADE DA LEI DE IMPROBIDADE A AGENTES
POLÍTICOS E DE AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO DA
SENTENÇA AFASTADAS (...). A Lei Federal n.º 8.429/92 aplica-
se aos agentes políticos em razão de a própria Constituição
Federal distinguir, por ter sido utilizada no § 4.º do seu art. 37
a expressão "sem prejuízo da ação penal correspondente",
crime de ato de improbidade administrativa, consagrando
expressamente a independência das instâncias penal e civil.
Aplicação a prefeitos e ex-prefeitos (Precedentes STJ). (...)”
(TJPR, Apelação Cível nº 433807-8, 4ª Câmara Cível, Rel. Fabio
Andre Santos Muniz, publ. 29.06.2009)

Neste sentido é o parecer da d. Procuradoria Geral de


Justiça:

“Com efeito, passados mais de 18 anos da vigência da Lei


8.429/1992, causa espécie o surgimento de tese para retirar de seu alcance
os agentes políticos. De norte a sul, pela clareza do texto legal, sua aplicação
vinha sendo efetivada sem turbulência, de modo que centenas de agentes
políticos foram processados e condenados por improbidade administrativa,
com repercussão altamente positiva no sentido de extirpar velhos hábitos de

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Apelação Cível nº 638.092-1 fls. 18

malversação do dinheiro público. Seu efeito pedagógico certamente propiciou


incalculável economia ao erário.

Repare-se que a Constituição Federal ao estabelecer a diretriz


moralizadora no seu artigo 37, § 4º, determina:

Art. 37. (...)

§ 4º. Os atos de improbidade administrativa importarão a


suspensão de direitos políticos, a perda da função pública, a
indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, na forma e
gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível.

O comando normativo, por sua clareza, destina-se a abarcar todos


os agentes públicos. Não há, no texto magno, nenhuma restrição isentando
os denominados agentes políticos. É elementar a regra de hermenêutica:
onde o legislador não restringe, não cabe ao intérprete fazê-lo.

E, a teor do disposto no artigo 2º da Lei nº 8.429/1992:

Art. 2º. Reputa-se agente público, para os efeitos desta lei, todo
aquele que exerce, ainda que transitoriamente ou sem
remuneração, por eleição, nomeação, designação, contratação ou
qualquer outra forma de investidura ou vínculo, mandato, cargo,
emprego ou função nas entidades mencionadas no artigo anterior.
(grifamos).

Além do mais, para reforçar a sua função redentora e


moralizadora, a norma constitucional em referência faz a clara ressalva
de que, independentemente de responder pelas sanções por ato de
improbidade, os agentes públicos responderão também, se for o caso,

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Apelação Cível nº 638.092-1 fls. 19

pela ação penal respectiva.

Resta claro e induvidoso que as sanções previstas na Lei nº


8.429/1992 não são de natureza penal. Podem coexistir as sanções de
natureza penal e política do Decreto-Lei 201/1967 e as de natureza
eminentemente civil da Lei 8.429/1992, previstas em seu artigo 12: perda dos
bens ou valores acrescidos ilicitamente ao patrimônio, ressarcimento integral
do dano, pagamento de multa civil, proibição de contratar com o Poder
Público ou receber benefícios fiscais ou creditícios, suspensão dos direitos
políticos e perda da função pública. Afora, esta última sanção, não há
coincidência entre as demais previstas na Lei 8.429/1992 e aquelas do
Decreto-Lei sob comento.

Acresce enfatizar também que o próprio artigo 15, incisos III e V,


da Constituição Federal, tratou de forma distinta a condenação penal e a
improbidade administrativa. Essa é, aliás, uma questão pacificada nos
Tribunais. Tratar-se-ia de questão até superada, desmerecendo maiores
digressões. A conclusão é clara e decorre do próprio texto constitucional.

A rigor, os regimes de responsabilidade da Lei 8.429 e do Decreto-


Lei 201 se complementam. Esse Decreto-Lei encarrega-se da
responsabilidade penal (penas de reclusão ou detenção - artigo 1º, § 1º) e
política (cassação do mandato – artigo 4º) dos Prefeitos, enquanto a LIA
cuida da responsabilidade eminentemente civil dos agentes públicos, de
cunho pecuniário, por intermédio das sanções de perda dos bens ou valores
acrescidos ilicitamente ao patrimônio, ressarcimento integral do dano, multa
civil e proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios
fiscais ou creditícios.

Cuida, ainda, a Lei 8.429/1992, da suspensão dos direitos políticos


e da perda da função pública, essa última, repita-se, a única que mantém
relação de contato e identidade com o Decreto-Lei 201, o que revela a
autonomia e complementaridade desses modelos de responsabilidade.

A prevalecer a tese argüida pelo recorrente, pergunta-se: somente

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os servidores públicos comuns é que poderiam ser processados por


improbidade administrativa? Essa seria a destinação nuclear da norma do
artigo 37, § 4º, da Constituição Federal?

Imagine-se por hipótese, que um Prefeito determine a um servidor


comissionado a efetivação de ato ilícito consistente no desvio de dinheiro
público em proveito do agente político. Seguindo a tese do apelante, o
Prefeito, mentor intelectual, beneficiário direto e superior hierárquico,
responderia somente nas esferas criminal e política (crime de
responsabilidade ou crime comum), enquanto o funcionário subordinado
responderia nas esferas criminal, administrativa e também por ato de
improbidade administrativa, de cunho civil.

Ou seja, todo o peso das sanções civis - perda dos bens ou


valores acrescidos ilicitamente ao patrimônio, ressarcimento integral do dano,
pagamento de multa civil e proibição de contratar com o Poder Público ou
receber benefícios fiscais ou creditícios –, recairia sobre o subordinado e não
sobre os ombros do mentor intelectual e beneficiário da improbidade lesiva ao
erário. Esse é o sistema formatado pelo nosso ordenamento jurídico?

Evidentemente que não.

A tese concernente à inaplicabilidade da Lei 8.429 aos agentes


políticos contém no plano normativo e no plano da realidade insuperáveis
defeitos. Partindo do exemplo acima proposto, apenas o servidor público
responderia pelas sanções de natureza civil da LIA, enquanto o agente
político ficaria imune delas, o que é um absurdo.

Cumpre acentuar que a tese da inaplicabilidade da Lei 8.429/1992


aos agentes políticos, em última análise, quebra com a igualdade de
tratamento imposta pela Constituição e viola o princípio republicano e enreda
exegese especiosa posto que não encontra seu vértice jurídico no sistema
constitucional vigente.

(...)

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Por todos esses argumentos, a sustentada inaplicabilidade da Lei


8.429/1992 aos agentes políticos deve ser peremptoriamente rechaçada.” (fls.
1315/1323)

Do fato nº 01

Sustenta que os documentos que a sentença utilizou como


prova e fundamento para acolhimento da acusação nº 01, não existem, pois os
vale-combustíveis, noticiados pelo Ministério Público, não existem, ou seja, são
falsos.

Tal alegação não procede.

Consoante se verifica da simples leitura dos autos, os


documentos apresentados pelo Ministério Público na inicial, que comprovam a
prática ilícita do ora apelante, de apropriação de combustíveis adquiridos com
verbas pública para fins particulares, são aqueles constantes das fls. 61, ou seja,
são fotocópias de “notinhas”, sem fins fiscais, que apenas demonstram o
consumo de combustível no Auto Posto Vitória por parte do ora apelante Daniel
Mello.

Ao passo que os documentos apresentados pela Câmara


Municipal de Telêmaco Borba, anexos ao Ofício 055/2007-GP são Notas de
Empenho e Notas Fiscais, nas quais estão discriminadas grandes quantidades de
combustível, pelo que se conclui que somando-se diversas “notinhas”
correspondentes ao abastecimento de diversos veículos da municipalidade, ao
final de um determinando período o posto emite uma única Nota Fiscal,
discriminando o total de combustíveis consumidos naquele período.

E o fato de a Câmara mencionar a inexistência dos


documentos mencionados na inicial, não significa de forma alguma que tais
documentos são falsos, pois consoante esclarecido acima, uma única nota fiscal

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Apelação Cível nº 638.092-1 fls. 22

era emitida pelo Auto Posto Vitória, ao final de um determinado período, pois não
seria razoável afirmar-se que, num único dia, por exemplo, 24.06.2003 (Nota
Fiscal de fls. 1000) tenha sido vendido um total de 2.785 litros de gasolina
comum e 2.500 litros de álcool à municipalidade.

Assim parece razoável que no final de um determinado


período o posto faça o somatório de várias “notinhas” emitindo uma única Nota
Fiscal, a qual é entregue para municipalidade, sendo então descartadas as
“notinhas” que deram origem à Nota Fiscal, pelo que aquelas, de fato, não
existem nos bancos de dados da Câmara Municipal, pois que esta apenas recebe
as Notas Fiscais para emissão da respectiva Nota de Empenho para pagamento.

Este ponto foi devidamente esclarecido pela sentença:

“Fato nº 01

Restou devidamente comprovada a prática ilícita, por Daniel


Silveira Melo, de apropriação de combustíveis adquiridos com verbas públicas
para fins particulares nos dias 09 de maio de 2003 e 24 de abril de 2003,
conforme os “cartões combustíveis” juntados no exemplar do Jornal “Correio
do Vale” de 30 de janeiro de 2004 (fls. 61), nos quais contêm a autorização do
Sr. Edson Mendes, então Presidente da Câmara dos Vereadores, bem como
as demais provas testemunhas colhidas nos autos.

O Sr. Luiz Mauro Biscaia, proprietário do Posto Vitória, confirmou,


quando ouvido em juízo (fls. 862), a utilização de combustível custeado pela
Câmara de Vereadores para fins particulares:

“Que é o proprietário do posto Vitória; que tal posto é responsável pelo


abastecimento dos carros oficiais da Câmara; que inúmeras vezes o
requerido Daniel abasteceu carros particulares mediante apresentação
de requisições continham a assinatura do presente da Câmara à época
vereador Edson Mendes; (...) que Mario assessor de Daniel Mello

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abastecia o carro particular do requerido Daniel utilizando-se de


requisição da Câmara e que o mesmo nunca ocorreu com relação à Pena
Branca; (...)”.

Neste sentido, também o depoimento do requerido NEZIAS


TRINDADE DA SILVA:

“(...) que com relação à acusação de uso de carro oficial e combustível


custeado pela Câmara, para fins particulares pelo vereador Daniel
Silveira Mello disse que teve ciência que tais irregularidades
aproximadamente um e meio depois do ocorrido e que a partir de tal
conhecimento houve por bem noticiar a irregularidade ao Ministério
Público” (trecho do depoimento pessoal do requerido NEZIAS TRINDADE
DA SILVA).

Indubitavelmente, a conduta praticada violou os princípios que


reagem a Administração Pública, principalmente os da legalidade e
moralidade, além de ter causado prejuízo ao Erário no valor de R$ 588,00
(quinhentos e oitenta e oito reais).

Ademais, tal conduta constitui ainda atos de improbidade


administrativa, eis que incidiu no artigo 9º “caput”, XI e XII (atos que importam
em enriquecimento ilícito), artigo 10 “caput” e I (atos que causam lesão ao
erário) e artigo 11, “caput” e I (atos que atentam contra os princípios da
administração pública), todos da Lei nº 8. 429/93.” (sentença, fls. 1190/1192)

Afasta-se esta alegação.

Do fato nº 02

Afirma que a sentença deveria ter explicitado e


fundamentado o porquê a aquisição do “Box” junto à Rodoviária Municipal

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acarretaria ato de improbidade administrativa. Assim, no mérito a acusação do


“Fato nº 02” também não possui sustentação, pois se eventualmente a
condenação do requerido se deu por conta de um suposto contrato firmado com
o Município de Telêmaco Borba, restou demonstrado nos autos que o ora
apelante jamais firmou qualquer contrato com qualquer pessoa de direito público,
muito menos com o Município de Telêmaco Borba. Nem ele próprio, nem através
de ‘interposta’ pessoa, e este fato foi confirmado por escrito pela Prefeitura
Municipal de Telêmaco Borba.

Requer o provimento do presente recurso para reformar a


sentença, neste aspecto (Fato nº 02).

Tal alegação igualmente não procede.

Consoante devidamente esclarecido pela sentença verifica-


se que o ora apelante efetivamente adquiriu, através de interposta pessoa, o Sr.
Josué Lima Lara, seu futuro genro, um Box na rodoviária de Telêmaco Borba.

E, de acordo com as informações prestadas pelo município,


os boxes do Terminal Rodoviário são de propriedade pública, e podem ser
explorados comercialmente através de contrato de permissão e arrendamento
entre a municipalidade e o particular, sendo que no presente caso, quem adquiriu
o Box nº 20, foi o ora apelante, que à época era vereador, através de Josué, fato
que restou fartamente comprovado nos autos.

Neste sentido é o parecer da d. Procuradoria Geral de


Justiça:

“Cabe recordar que o fato nº 02 consiste na aquisição pelo


apelante, através de interposta pessoa, de um box junto à Rodoviária
Municipal, a qual é de propriedade do Município de Telêmaco Borba, não
passível de aquisição pelo recorrente, que exercia mandato de vereador

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Apelação Cível nº 638.092-1 fls. 25

municipal.

Convém observar que os boxes do terminal rodoviário são de


propriedade do Município de Telêmaco Borba, sendo que a municipalidade
cede tais espaços para terceiros, mediante contrato de permissão e
arrendamento. Um desses boxes foi cedido a Florindo Dias de Lima, que
possui direitos de exploração sobre o box nº 20 do Terminal Rodoviário de
Telêmaco Borba.

Na condição de permissionário/arrendatário, Florindo Dias de Lima


celebrou contrato de compra e venda com Josué Lima Lara, alienando o
ponto comercial e as benfeitorias de sua lanchonete, localizada no box nº 20
do referido terminal, restando consignado que adquirente se valeria do
mesmo contrato de permissão até regularizar a situação perante o município.

Ocorre que, nas investigações empreendidas pelo Ministério


Público e no curso da instrução processual, verificou-se que quem
efetivamente adquiriu o mencionado box foi Daniel Silveira Melo (ora
apelante), à época vereador municipal de Telêmaco Borba, tendo se valido,
para tanto, de pessoa interposta, qual seja, seu futuro genro, Josué Lima
Lara.

O ora recorrente admitiu que negociou com Florindo Dias de Lima


a aquisição do referido box. Entretanto, sustentou a versão de que o fez em
favor de seu futuro genro. Esta alegação, contudo, não se coaduna com as
demais provas coligidas nos presentes autos.

Josué Lima Lara, o genro do recorrente, em juízo declarou o


seguinte:

Que o requerido Daniel Melo efetivamente adquiriu um box na


rodoviária deste município; que não se lembra ao certo quando ocorreu
tal aquisição mas que provavelmente se deu há dois ou três anos atrás;
que o contrato de compra e venda foi celebrado em nome do depoente
como comprador; que o vendedor foi Florindo Dias de Lima; que não

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Apelação Cível nº 638.092-1 fls. 26

obstante a aquisição tenha sido feita pelo requerido Daniel este


solicitou ao depoente que figurasse no contrato como comprador
pelo fato de que o requerido ostentando a condição de vereador nele
não poderia figurar; que não sabe dizer o valor pago pelo box; que sabe
que na transação foi dado um carro em parte do pagamento além do
dinheiro; que o carro dado como parte do pagamento era um gol
pertencente à esposa do requerido Daniel; que foi coagido pelo
advogado do vereador Daniel Melo para dizer no depoimento
perante o Ministério Público que o depoente era o interessado na
compra; (...) que todo o lucro auferido era repassado à esposa do
requerido Daniel. (destacamos)

O permissionário do box, Sr. Florindo Dias de Lima, afirmou em


juízo o seguinte:

Que celebrou com o requerido Daniel Silveira Melo contrato de


compra e venda de uma lanchonete localizada na rodoviária; que
efetivamente o negócio foi efetuado pelo requerido Daniel Mello; que
à época o requerido Daniel disse que a lanchonete seria destinada a seu
genro; (...) que o valor da compra e venda foi de R$ 25.300,00 (vinte e
cinco mil e trezentos reais); que o pagamento se deu da seguinte forma:
ao depoente foi repassado um carro gol de propriedade do requerido
Daniel, além disso o requerido Daniel assumiu dívidas de aluguel do
próprio box e complementou o restante em dinheiro. (Vide depoimento
de Florindo Dias de Lima às f. 865) (destacamos)

Dessa forma, resta comprovado que o aludido box foi adquirido


pelo apelante, que se aproveitou de sua condição de vereador municipal para
auferir lucros próprios, violando os princípios da legalidade, a impessoalidade
e moralidade administrativa, fato que configura ato de improbidade
administrativa previsto no artigo 11, inciso I, da Lei 8.429/1992.” (Parecer, fls.
1325/1327)

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Do fato nº 03

Aduz que a condenação do apelado em relação ao “Fato nº


03”, revela-se sem nenhum fundamento, pois restou comprovado através do
Processo Administrativo nº 426/2001 da Prefeitura Municipal de Telêmaco Borba,
que foi este o causador dos danos no muro da propriedade do apelante. E, se
restou comprovado que os danos causados ao apelante são de responsabilidade
do município, onde é que está o ato ilícito e ímprobo do apelante.

Tal alegação não procede.

De fato, restou comprovado nos autos que o apelante teve


um muro de sua propriedade destruído em razão das águas das chuvas, e em
razão desta destruição, este obteve direito a uma indenização no valor de R$
5.975,69 (cinco mil, novecentos e setenta e cinco reais e sessenta e nove
centavos), reconhecido no processo administrativo nº 151/167.

Ocorre que a reconstrução deste muro deveria ter sido feita


pela empresa contratada Valter Mazzo ME, conforme nota de empenho nº
1.268/01 (fls. 93/96), e não por Maurílio Gonçalves de Souza, que foi quem
efetivamente executou a obra.

Este fato foi devidamente comprovado pela prova


documental e testemunhal acostada aos autos. Senão vejamos a testemunha
Valter Mazzo, assim afirmou às fls. 868:

“Que o requerido Daniel Silveira Melo, contratou os serviços da


empresa do depoente, no início do primeiro ano em que assumiu o mandato
de vereador, para construção de um muro; que na verdade faria a
reconstrução do muro que havia caído; que o requerido Daniel comunicou ao
depoente acerca do serviço e que todo acerto com relação a preço seria feito
com a prefeitura/ que o muro estava em propriedade do requerido Daniel

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Melo; que o custo da reconstrução do muro beirou R$ 6.000,00, incluindo


mão de obra e materiais; que a empresa do depoente não fez a construção
do muro e ao que sabe foi feito pelo pedreiro Maurílio; (...) que a empresa do
depoente emitiu nota fiscal; que foi apresentada tal nota a prefeitura; que
recebeu pagamento da prefeitura com cheque nominal a sua empresa e
efetuou depósito em conta corrente; que o dinheiro foi devolvido a Daniel
Melo tendo em vista que a empresa do depoente não efetuou a construção do
muro; que o próprio Daniel Melo pediu ao depoente que devolvesse o dinheiro
a ele (Daniel); (...) que Daniel Melo comunicou ao depoente que outra pessoa
iria fazer o muro dispensando-o então (...)”

No mesmo sentido foram as declarações prestadas em juízo


por Maurílio Gonçalves de Souza, que foi quem efetivamente realizou a obra:

“Que não possui relações com Daniel Silveira Mello, que


trabalhava com Josué Mello como pedreiro; que Josué Mello foi quem fez as
negociações com o depoente para a reconstrução do muro em propriedade
do vereador Daniel Mello, que somente forneceu mão-de-obra; que possuía
um carro que estava em oficina de Josué que faria a reconstrução do muro da
propriedade de Daniel Mello em troca do conserto do motor de seu carro
(...)”(depoimento, fls. 867)

Assim, verifica-se que mais esta conduta restou fartamente


comprovada nos autos, tendo havido desrespeito aos princípios da legalidade e
moralidade administrativa, que caracterizam a prática do ato de improbidade
administrativa por parte do apelante, tendo em vista que este causou prejuízo ao
erário no montante de 5.975,69 (cinco mil novecentos e setenta e cinco reais e
sessenta e nove centavos).

Afasta-se esta alegação.

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Apelação Cível nº 638.092-1 fls. 29

Do fato nº 04

Argumenta que com relação ao “fato nº 04” não houve prova


efetiva de que os ressarcimentos e combustíveis foram utilizados para fins
particulares do apelante.

Tal alegação não procede.

Como as demais condutas descritas na inicial, aquela


descrita no fato nº 04 também restou fartamente comprovada nos presentes
autos, seja durante o procedimento investigatório preliminar nº 02/2004, quanto
durante a instrução do feito.

Assim, tem-se de acordo com os documentos de fls.


173/175, que o apelante se deslocou durante os finais de semana com veículos
oficiais da Câmara Municipal de Telêmaco Borba, para cidades de Curitiba, Ibaiti
e Jandaia do Sul, nos dias 03.06.2001, 08.11.2001 e no período de 13 a 16 de
julho de 2001, utilizando consequentemente combustível custeado pela
municipalidade.

A sentença bem esclareceu esta questão:

“Fato 04

Em análise aos elementos probatórios contidos nos autos,


mormente aqueles integrantes do procedimento investigatório preliminar nº
02/2004, restou comprovado que os réus NEZIAS (este na época na
qualidade de Presidente da Câmara de Vereadores de Telêmaco Borba) e
DANIEL (na qualidade de vereador), de comum acordo, estabeleceram um
esquema de desvio de verbas públicas municipais, consistente na utilização
de carros e combustíveis oficiais para viagens particulares, bem como o
ressarcimento irregular das despesas ocorridas durante tais viagens.

De acordo com os documentos de fls.173/175, o requerido

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Apelação Cível nº 638.092-1 fls. 30

DANIEL SILVEIRA MELO se deslocou até as cidades de Curitiba, Ibaiti, e


Jandaia do Sul, nos dias 03 de junho de 2001, 08 de novembro de 2001 e no
período de 13 à 16 de julho de 2001, ou seja, nos fins-de-semana, com
veículo oficial da Câmara Municipal desta comarca de Telêmaco Borba, e
conseqüentemente, utilizando combustível custeado pelo erário.Ressalta-se
que não há provas nos autos que tais viagens foram autorizadas pelo
requerido NEZIAS TRINDADE DA SILVA, então Presidente da Câmara de
Vereadores.

Desta forma, condeno ainda apenas o requerido Daniel a ressarcir


o valor de R$ 209,08 (duzentos e nove reais e oito centavos).

Em contrapartida, o requerido Nezias autorizou, através das Notas


de Empenho nº 885/01 (R$ 525,75), nº 1.024/01 (R$ 820,23), nº 1.190/01 (R$
779,44) e nº 692/01 (R$ 300,00), conforme documentos de fls. 176, 180, 189
e 200, o ressarcimento das referidas importâncias em dinheiro, objetivando
cobrir supostas despesas realizadas em viagens e diárias. Ocorre, contudo,
que os valores ressarcidos pela Câmara são superiores aos valores contidos
nas notas fiscais juntadas, e se referem a despesas realizadas em fins-de-
semana, comprovando assim que tais ressarcimentos se deram em proveito
particular dos beneficiários.

Importante ressaltar que as provas colhidas durante a investigação


realizada pelo Ministério Público têm valor probatório relativo e só devem ser
afastadas quando há contraprova de hierarquia superior nos autos, ou seja,
aquela produzida sobre o crivo do contraditório, o que não ocorre no presente
caso, pois a prova produzida em juízo apenas corroborou as declarações
prestadas ao agente ministerial.

(...)

Diante das condutas praticadas, devem os requeridos Nezias e


Daniel ressarcirem, solidariamente, ao Poder Público, a quantia de R$
2.425,42 (dois mil, quatrocentos e vinte e cinco reais e quarenta e dois
centavos), referente à soma das notas de empenho supracitadas.

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Ademais, indubitavelmente, os requeridos violaram os princípios


que regem a Administração Pública, principalmente os da legalidade que
regem a Administração Pública, principalmente os da legalidade e
moralidade, bem como praticaram atos de improbidade administrativa
previstos no artigo 9º, “caput”, incisos XI e XII, artigo 10, “caput”, incisos I, II,
IX, XI, XII e XIII, e artigo 11, “caput” e inciso I da Lei 8.429/93.” (sentença, fls.
1199/1203)

Nestas condições, nega-se provimento ao recurso, tudo nos


termos da fundamentação.

ANTE DO EXPOSTO, acordam os Desembargadores da


Quarta Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, por
unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.

O julgamento foi presidido pelo Senhor Desembargador


Abraham Linclonn Calixto (com voto), e dele participou a Senhora Juíza
Substituta em Segundo Grau Astrid maranhão de Carvalhos Ruthes.

Curitiba, 04 de maio de 2010.

Des. Luís Carlos Xavier


Relator

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