Terceirização no serviço público: a panaceia para a crise

econômica do capitalismo

TERCEIRIZAÇÃO NO SERVIÇO PÚBLICO: A PANACEIA PARA A CRISE
ECONÔMICA DO CAPITALISMO
Crise Econômica e Soluções Jurídicas | num. 90/2016 | Fev / 2016
DTR\2016\202
Tiziano Mamede Chiarotti
Mestre em Gestão do Patrimônio Cultural (PUC-GO). Professor universitário (Faculdade do Instituto
Brasil - FIBRA) e servidor público estatutário em Anápolis, Goiás, exercendo a função de Diretor do
Museu Histórico de Anápolis "Alderico Borges de Carvalho". Especialista em Direito Administrativo
(AVM Faculdade Integrada), em Gestão Pública (FTC) e em História do Brasil (UFG). Advogado,
Historiador (UFG).
Área do Direito: Administrativo
Sumário:

O artigo tem o objetivo de entender o uso da terceirização no serviço público, sua maior incidência
na Administração Pública a partir da crise econômica por que passou o capitalismo, nos anos 1970,
e também saber mais sobre a responsabilidade dos encargos trabalhistas dos funcionários de
empresa terceirizada que presta serviço público. Em outras palavras, o texto busca a
contextualização daquela crise, do modelo administrativo adotado no Brasil para o seu
enfrentamento, e das especificidades que isso pode acarretar para os trabalhadores.
De acordo com Jorge Neto e Cavalcante (2011), a terceirização é um procedimento que pode ter
vários significados, como p. ex: um processo de descentralização das atividades da empresa, no
sentido de desconcentrá-las, para que sejam desempenhadas em conjunto por diversos centros de
prestação de serviços e não mais de modo unificado numa só instituição ou a valorização do setor
terciário da economia. No setor público, isso significa a possibilidade de contratar terceiros para a
realização de atividades que não constituem a finalidade essencial do órgão estatal, como aquelas
que não impliquem na edição de atos de caráter normativo, na decisão de recursos administrativos
ou nas matérias de competência exclusiva do órgão ou autoridade, nos termos dispostos na Lei n.
9.784/1999, precisamente em seu Art. 13 e incisos.
Em nível mais geral, tal perspectiva, apontada no parágrafo retrocitado, torna-se mais acentuada na
Administração Pública a partir dos anos 1970 com a chamada crise do petróleo. Segundo
estudiosos, entre outubro de 1973 e março de 1974, o preço do barril de petróleo aumentou 400%,
causando reflexos de grande monta nos Estados Unidos e na Europa e a consequente
desestabilização da economia por todo o mundo. O modelo administrativo daquela época era
pautado no "Estado do Bem-Estar Social" (Welfar State), cujas diretrizes teóricas nasceram com a
denominada "forma de regulação social keynesiana", que se caracterizava por uma intensa e
progressiva intervenção planejada da economia para evitar a desordem produzida pelo mercado.
Nesse sentido, conforme Castro (S/D), o Estado desempenha tarefa como financiador das
necessidades básicas da população, tais como educação, saúde, transporte, moradia, entre outras e
controlador de áreas estratégicas, como petróleo, energia, minérios e telecomunicações, além de
desenvolver um papel de suma importância como estimulador de determinados setores por
intermédio de subsídios fornecidos à produção.
Em sendo assim, para fazer frente à crise econômica do petróleo e criar um modelo administrativo
capaz de dar respostas à sociedade, surge a teoria político-econômica do neoliberalismo que, de
certa forma, se antagonizava com o keynesianismo. De acordo com Berutti (2003), a Teoria
Neoliberal vem direcionar o processo de mudança mundial do capitalismo, que foi originado nas
ideias do economista e filósofo austríaco Friedrich Hayek (1899-1992), que junto com diversos outros
seguidores começaram a pensar estratégias que conseguissem liberar o capitalismo de suas
amarras intervencionistas. Em linhas gerais, o neoliberalismo caracteriza-se como uma doutrina que
defende a absoluta liberdade de mercado e uma restrição à intervenção estatal sobre a economia, só
devendo esta ocorrer em setores imprescindíveis e ainda assim num grau mínimo.
Com arrimo em vários estudos, pode-se dizer que a crise do petróleo afetou e continua afetando
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a norma legal citada. dos Estados.10. Porém.06. Assim. da CF/88.1998. mediante os dispositivos legais Decreto-Lei n. adequando o Estado brasileiro com os novos tempos proporcionados pela crise do capitalismo. com a criação do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP). vez que procura. os gestores públicos passaram a utilizar-se cada vez mais do instrumento neoliberal da terceirização nos serviços públicos. Essa eficiência no serviço público. Para Zanardini (2006). paralelamente ao aumento dessas terceirizações. por sua vez. publicidade e eficiência. que no caso da terceirização são identificadas pela Súmula 331 do TST. Art. cujo pano de fundo principal é o acesso ao petróleo e. o que se percebe é que a nossa Constituição Federal privilegia o keynesianismo. segundo defensores desse modelo. regulam a terceirização no serviço público. Mas. que tem como escopo o que já foi discutido no início do texto: contratar terceiros para a realização de atividades que não constituem a finalidade essencial do órgão estatal. essa concepção se coaduna na denominada substituição do modelo estatal racional-legal ou burocrático para um modelo estatal de administração pública gerencial. em que muitos entendem que tal modelo seria uma solução para a crise do Estado e que nortearia a Administração Pública para aquilo que se denominou Princípio da Eficiência. dispondo que a administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União. porque tal crise terá desdobramentos nas suas respectivas economias nos anos posteriores. caput. por meio de intensa e progressiva intervenção planejada da economia. devido às especificidades de nossa história recente. essa perspectiva só vai tomar corpo efetivamente nos anos 1990. a mudança de perspectiva voltada para o neoliberalismo começa a ter os seus primeiros ensaios ainda no período militar (1964-1985). do financiamento das necessidades básicas da população.Terceirização no serviço público: a panaceia para a crise econômica do capitalismo muitos países. Apesar disso. os ideais apontados por aquela teoria político-econômica. Desse modo. 200/1967 e Decreto-Lei n. pode-se dizer. 71. nos salários. particularmente com o início da Guerra do Golfo (1990-1991). a Administração Pública brasileira segue uma lógica estatal mais baseada no primeiro. que apontava a direção que deveriam tomar a reforma do Estado e da economia. após esse breve panorama mundial alhures mostrado. cuja prova inconteste é a Carta Magna promulgada em 5. em atendimento à função distributiva do Estado ou do controle de áreas estratégicas para o desenvolvimento econômico nacional. impessoalidade. 900/1969.666/1993 e ADC n. Com base nisso. por exemplo. §1º da Lei n. acarretando um novo surto de crise. procura inserir mecanismos ligados ao neoliberalismo. de 04. a partir da presidência de Fernando Collor de Mello (1990-1992). em especial com a redução dos custos. Contudo. quando foram criados mecanismos dispondo sobre a organização da Administração Federal e o estabelecimento de diretrizes para a Reforma Administrativa. tendo em vista os aspectos positivos que isso traria como a modernização da administração. que o neoliberalismo no Brasil prevê um maior enxugamento do aparelho estatal. uma questão passou a ter maior preocupação diante dessas transformações: quem tem a responsabilidade pelos encargos trabalhistas dos trabalhadores das empresas terceirizadas que prestam serviço público? Página 2 . identificados na promoção. textualmente. como a redução dos seus direitos globais. 37. No ordenamento jurídico pátrio. No entanto.16 promovida pelo pretório excelso. moralidade. na fixação na empresa e nas vantagens decorrentes de convenções e acordos coletivos. no qual se definem os modelos administrativos do keynesianismo e do neoliberalismo. do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios da legalidade. de acordo com Abreu e Silva (2008). então. a inserção da eficiência como princípio da Administração Pública ocorre no Art. tal processo possui aspectos negativos do ponto de vista dos direitos arduamente alcançados pelos trabalhadores. ao mesmo tempo. De lá para cá. mais recentemente. dentre vários dispositivos constitucionais. aumento da produtividade e com a criação de novos métodos de gerenciamento. é justificada por conta de que o Estado teria maior agilidade para atender as demandas do cidadão. 8. apesar dos avanços que a terceirização pode trazer particularmente no tocante ao atendimento do Princípio da eficiência. Com efeito.1988. a jurisprudência sumulada e a decisão no controle de constitucionalidade. com movimentos especulativos de escala global que fizeram o preço do barril de petróleo subir mais de 100% nos primeiros meses de 2008. de certa forma. 19 do STF. cuja redação foi dada pela Emenda Constitucional n.

Ou seja. por si só. Ocorre que. diante dos argumentos acima elencados. §1º da Lei n.Terceirização no serviço público: a panaceia para a crise econômica do capitalismo Na legislação administrativa. 71. §1º da Lei n. 8. as demandas apresentadas na justiça trabalhista que tinham como causa de pedir o descumprimento dos encargos trabalhistas por parte de empresa terceirizada no serviço público. 8. com a nova redação do item IV e inserção dos itens V e VI. que começou a partir de 1970 e que tem seus desdobramentos ainda nos dias atuais. o legislador pretendeu dar maiores garantias ao Poder Público. devendo estar evidenciada pelas instâncias ordinárias a conduta culposa do ente público no cumprimento das obrigações da Lei n. Todavia. o bom senso prevalece em função da Súmula n. itens IV.666/1993 regulamenta a perspectiva da terceirização no serviço público no sentido de fazer com que.666/1993.16. 71.666/1993. para finalizar. de 24.2010. Ao legislar dessa forma. implica na responsabilidade subsidiária do tomador de serviços quanto àquelas obrigações.666/1993 é constitucional na ADC n. De modo que o TST. para dar um mínimo de segurança aos trabalhadores terceirizados na relação contratual estabelecida. Também é evidenciado que a responsabilidade pelos encargos trabalhistas é da empresa contratada e não da Administração Pública. 8. 71. desde que fique evidenciada a sua conduta culposa. em função da decisão do egrégio Supremo Tribunal. podemos ver que o Art. por não decorrer de mero inadimplemento das obrigações trabalhistas assumidas pela empresa regularmente contratada. principalmente em relação ao pagamento de possíveis responsabilizações. porque tais itens determinam que o inadimplemento das obrigações trabalhistas. resta evidenciado que a terceirização no serviço público é uma decorrência da inserção do Princípio da Eficiência em nosso ordenamento jurídico por conta da crise econômica do capitalismo. não se pode entender a terceirização no serviço público como uma panaceia da crise econômica do capitalismo. no sentido de que tal instrumento. não pode remediar vários ou todos os males advindos disso para o Estado brasileiro. passaram a contar com uma segurança que antes não era dada. Página 3 .666/1993. com o objetivo de esquivar-se do cumprimento das obrigações laborais. caso ocorra o inadimplemento do contratado perante direitos dos trabalhadores. especialmente na fiscalização do cumprimento das obrigações contratuais e legais da prestadora de serviço como empregadora. decidiu-se afastar a responsabilidade subsidiária da Administração Pública. por parte do empregador. 8. a Administração Pública não será responsabilizada ao cumprimento desses encargos. V e VI. no que se refere à legalidade do Art. desde que esta cumpra com o seu mister fiscalizatório ínsitos na Lei n. Portanto.11. 8. 331 do TST. §1º da Lei n. E isso decorre do entendimento firmado pelo STF estabelecendo que o Art.

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