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DOMINGO, 30 DE MAIO DE 2010

O ESTADO DE S. PAULO

2010 O E S T A D O D E S . P A U L

ARREMATE

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Conservador, vença quem vencer

Os colombianos vão às urnas neste domingo para eleger um novo presidente. Praticamente empatados, lideram as pesquisas o verde Antanas Mockus e o governista Juan Manuel Santos. Ambos são de direita e pregam a continuidade do governo de Álvaro Uribe.

SEXTA, 28DE MAIO
SEXTA, 28DE MAIO

TV CARACOL/DIVULGAÇÃO

de Álvaro Uribe. SEXTA, 28DE MAIO TV CARACOL/DIVULGAÇÃO O preço da fama. Nos coquetéis da alta

O preço da fama. Nos coquetéis da alta roda de Bogotá, Flávia dos Santos agora tem que aturar gente se gabando de ‘nem precisar tomar Viagra

Orgasmos verbais

Graças a eles, a ex-embaixatriz brasileira virou celebridade falando de sexo na TV colombiana

para que as suas orientações e interpreta- ções das questões sexuais sejam colocadas de maneira menos científica e mais palatá- vel para o público-alvo, as senhoras colom- bianas. “Flávia se tornou a principal perso- nagem do meu programa. Como ela aborda temas picantes, cuido para que não venha a se vulgarizar”, afirma a diretora, com um claro caráter superprotetor. Os temas campeões entre as 200 cartas queFlávia recebe diariamente sãoaejacula- ção precoce, a ausência de orgasmo femini- no, ainfidelidade – de maridos emulheres – e o homossexualismo. A própria direção da TV Caracol cuida de limitar os orgasmos verbaisdaapresentadora,comomeio deevi- tar protestos semelhantes aos que Marta Suplicy e a Rede Globo sofriam das Senho- ras de Santana toda vez que a palavra “vagi- na” era pronunciada no TV Mulher. A suges- tão de Flávia de montar um quadro exclusi- vo sobre o sexo oral,outra questão recorren- te nas cartas, acabou indeferida. A carta da mulher casada de 33 anos, duas filhas, desesperada para desvencilhar-se do amante que mantinha havia 11 anos, rece- beu um comentário ponderado de Flávia. “Essa relação não faz mais sentido como antes. É como um conto de fadas: vocês não convivem, como acontece no dia a dia do casamento, no bom e no ruim”, diagnosti- cou.“Você tem de romperesse círculovicio- so. Se ama seu marido, deve investir no seu casamento, que é a relação real”, orientou. Um rapaz, em outra carta, queixou-se da noiva, que desistia aos prantos de consu- mar a primeira relação sexual a cada tentativa.

A sexóloga recomen-

dou paciência com a “virgem chorona”. “Ela ainda vê o sexo comculpa,como seper- der a virgindade fosse um pecado”, explicou.

Para a mulher que que-

ria fazer sexo demanei-

ras diferentes, mas te- mia que o marido a considerasse experien- te demais no assunto, Flávia lembrou que não chega a serincomum o homem preocu- par-secom o próprio prazer sem dar-se con- ta da satisfação da companheira.Masadver- tiu a senhora frustrada que os problemas de casal começam quando os desejos são escondidos um do outro: “Que bobagem, que perda de tempo você não falar com ele. Você não deveria entrar nesse jogo de es- conder sua verdadeira natureza, seu verda- deiro instinto”. Em outro caso abordado por Flávia, um

DENISE CHRISPIM MARIN

BOGOTÁ

U m tornado passa to- das as manhãs pela Colômbia. Atende pelo nome de Flá- viados Santos,é ca- rioca, 37 anos,mes- tre em psicologia, mãe de dois adoles- centes e ex-embai- xatriz do Brasil em

Bogotá. Com um inconfundível “bom-dia”, em português, acompanhado por um largo sorriso, o furacão Fláviaingressa no final da madrugada nos estúdios da TV Caracol, a principal emissora do país, para a gravação do programa matutino Día a Día. Depois da invariável bênção do padreAlberto Lineroe das previsões do astrólogo Salomón, a brasi- leira escancara os problemas sexuais dos colombianos em uma atitude que denomi- na de “orgasmos verbais”. O quadro Flávia Habla sobre Sexo está no ar há quase dois anos, desde que a sexóloga encantou os produtores pela franqueza

com que tratava questões em uma entrevis- ta e recebeu o convite para conduzir dois quadros no Día a Día. Nas terças e quintas- feiras, em uma tertúlia, o furacão discute com outros apresentadores célebres os te- mas do dia – em especial, os que envolvem sexo.De segunda a quinta-feira, Flávia tam- bém conduz uma espécie de consultório ao vivo, que muito recor-

da a atuação de Marta Suplicy no programa

Os altos índices de

audiência a liberam

para dizer ‘vagina’ mais vezes no ar, mas um quadro só sobre sexo

oral

aí era demais

TV Mulher, levado ao ar pela Rede Globo nas manhãs doinício dadé- cada de 80. Nesse , levado ao ar pela Rede Globo nas manhãs doinício dadé- cada de 80. Nesse qua- dro, a doutora Flávia respondeacartas de te-

lespectadores previa- mente selecionadas80. Nesse qua- dro, a doutora Flávia respondeacartas de te- com uma sinceridade e um improviso

com uma sinceridade e um improviso no uso do idioma espanholde te- lespectadores previa- mente selecionadas que, não raras vezes, enlouquecema direto- ra, Luz Marina

que, não raras vezes, enlouquecema direto- ra, Luz Marina Girardo.com uma sinceridade e um improviso no uso do idioma espanhol O quadro entra ao vivo

O quadro entra ao vivo no Día a Día , nos momentos em que a concorrência ganha pontos de audiência. Para Día a Día, nos momentos em que a concorrência ganha pontos de audiência. Para desespero de Luz Marina, não há como parar ou controlar o furacão. Vestida com roupas insinuantes, ainda que os seus decotes sejam diminuí-

dos por prendedores nas costas, e adornada

com pulseirase brincosvistosos, Flávia tor- nou-se a carta namanga dos produtores. Ao lado de Luz Marina, a protagonista cuida

DIDA SAMPAIO/AE

Ao lado de Luz Marina, a protagonista cuida DIDA SAMPAIO/AE homemconfessava ter contraído herpesge- nital, embora

homemconfessava ter contraído herpesge- nital, embora sua vida sexual não tivesse sido tão ativa. Na carta, ele amargava o me- do de envolver-se com outra pessoa porque poderia contagiá-la. “Esse é um erro básico. Contrair uma doença sexualmente trans- missível é algo que pode acontecer com qualquer um”, afirmou. “Não abandone sua vida sexual nem seu projeto de casar e ter filhos. Consulte um infectologista e use sempre a camisinha”, receitou.

Senhor Embaixador. O governo FHC despachou Gomes dos Santos a Roma na esperança de diluir um escândalo. Foi lá que Flávia se fez sexóloga

Lesbiana ou liviana? Em alguns momen-

tos, entretanto, a emissora praticamente vê seu controle desaparecer. A linguagem ex- pansiva e os desacertos no espanhol, mui- tasvezes pontuados pelasgíriase pelos pala- vrões que aprendeu com os filhos adoles- centes, fazem de Flávia uma vítima contu- maz de broncas das autoridades daTVCara- col. Os índices de audiência, entretanto, protegem seus orgasmos verbais de deci- sões mais ásperas. Divertida,Flávia recorda que,em um pro- grama, usou a palavra “lesbiana” quando queria dizer “liviana” (leve, em espanhol). Em outras ocasiões, as repreensões da dire- toria decorreram de expressões recorren- tes para uma sexóloga, como “introduzir el penis en la vagina”. A pior advertência do currículo de Flávia na TV Caracol surgiu quando ela abusou da dose de humor ao qualificar o religioso moderninho Linero de “pornopadre”, durante uma das tertú- lias. “Pedi desculpas no programa seguinte e dei uma caixa de bombons de presente

para ele”, relatou Flávia, que tomou um se- nhor pito do diretor de entretenimento do canal, Juan Esteban Sampedro. Flávia tem certeza de que só é perdoada por falar sobre sexo na conservadora Co- lômbia, ainda mais com suas derrapadas, porque é estrangeira. Se não falasse espa- nhol com tanto sotaque e com tantos erros, além doinconfundível “carioquês”, não po- deria dizer as suas “barbaridades”. “Soaria muito vulgar”,elamesma avalia. A sexóloga encontrouo tomcorreto de abordar os dile- mas mais íntimos dos espectadores depois de vasculhar a sociedade colombiana nos seus aspectos menos aparentes e assistir a muita novela local. O conservadorismo, para ela, tornou-se um escudo para atitudes mais desinibidas – porém, secretas – dos colombianos. Sobre- tudo,no que diz respeitoàs conquistasamo- rosas e à tolerância das mulheres diante da infidelidade masculina. Como atestou, a troca de casais (ou swing) virou coquelu- che recente em Bogotá, pelo menos duas décadasdepois de contagiar os grandescen- tros da Europa e dos Estados Unidos. “Há um problema sério nessa sociedade, de hi- pocrisia. Todo mundo posa de missioná- rio”,afirma. “Mas, como em qualquerlugar, as pessoas complicam a questão do sexo sem nenhuma necessidade.” Flávia aprendeu a falar espanhol com a babá chilena que a acompanhou em Roma e Nova York para cuidar de seus filhos com o embaixador Júlio César Gomes dos Santos. Quando os dois se casaram, noRio de Janei- ro, ele tinha o dobro dos 21 anos dela. Flávia concluiu o curso de psicologia na Universi- dade de Brasília enquanto o marido chefia- va ocerimonial doentão presidente Fernan- do Henrique Cardoso e seguiu o embaixa- doraRoma, onde seespecializou no Institu- to de SexologiaClínica e concluiu omestra- do. Em Nova York, na condição de consule- sa e psicóloga, trabalhou com um médico especializado no atendimento amulheres e de casais e abriu uma franquia da loja de bijuterias Francesca Romana. Quando Go- mes dos Santos assumiu a Embaixada do Brasil em Bogotá, em 2005, pediu a Flávia quenão trabalhassecomo sexóloga.Elacon- cordou. “Eu tinha de sera embaixatriz”, dis- se, sem demonstrar rancores.

‘Cucarachos’. Hoje aposentado, Gomes dos Santos também já teve seus dias de tor- menta, quando esteve no centro do primei- ro escândalo do governo de Fernando Hen- riqueCardoso, em 1995. Ele chefiava oCeri- monial do Palácio do Planalto e foi acusado de favorecer a empresa Raytheon, dos Esta- dos Unidos, durante a licitação para a cons- trução do Sistema de Vigilância da Amazô- nia (Sivam). Pego em grampos telefônicos, Gomes dos Santos foi acusado pela Polícia Federal de exploração de prestígio. Na estratégia do governo para diluir o es- cândalo o embaixador foi despachado para Roma, onde assumiu a chefia da missão do Brasil na Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). De- pois,foiindicado pelo Itamaratypara oCon- sulado-Geral do Brasil em Nova York e dei- xou umamarcaindelével em sua despedida, em outubro de2005.Em uma recepção,Go- mesdos Santos sugeriu alíderes da comuni- dade brasileira que “não se misturassem com os cucarachos”. Em seguida, embarcou para seu último posto na diplomacia, a em- baixada brasileira em Bogotá, naColômbia, onde Flávia hablando sobre sexo é grande atração nacional. Em 2008, o embaixador recusou o convi- te para assumir a Subsecretaria de Assun- tos de América do Sul do Itamaraty – um dos postos mais prestigiados da Casa, em função da prioridade daatual políticaexter- na na aproximação do Brasil com o conti- nente americano. Preferiu antecipar sua aposentadoria em dois anos e fincar pé em Bogotá, onde criou o Centro de Estudos Brasileiros e assumiu a cátedra Brasil da Universidad del Rosario. Flávia, ao iniciar sua participação no pro- grama da TV Caracol, tornou-se celebrida- de local e passou a atrair atenções, apesar dos temores que podem inibir o diálogo com uma psicóloga especializada em sexo. “O sexólogo assusta. As pessoas acham que ele é capaz de despi-las somente com o olhar”,diz. Esse obstáculo,lamentavelmen- te para ela, acaba vencido em muitas oca- siões inusitadas. Com frequência, Flávia é abordada em coquetéis por convivas afoitos em revelar suasintimidades, como um homem que de- clarou gratuitamente que não precisava to- mar Viagra e outro que confessou ser “óti- mo na cama”. Mas ainda se surpreende a cada caso. No ano passado, Flávia dos Santos ouviu do ex-presidente Fernando Henrique a irô- nica advertência de que ainda acabaria pre- feita de Bogotá, numa referência à carreira política que Marta Suplicy abraçou depois da etapa TV Mulher. Flávia diverte-se com sua popularidade na Colômbia, mas ainda se mostra isenta de ambições políticas. “Já virei a rainha do supermercado.”