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WAUOD B nye & WoD 2 oO 2, = uo ot D> ° 3 = = e N ° a = Copyright © bj Cecilia Polacow Herzog, 2013, Direitos desta edigio reservados & -MAUAD Editora Lida, ‘Rua Joaquim Silva, 98, 5° andar Lapa — Rio de Janeiro — RJ —-CEP: 20241-110 ‘Tel: (21) 3479.7422 — Pax: 1) 3479.7400 wwo.mauad.com.br ‘em coedicio com INVERDE - Instituto de Pesquisas em Inraestrutura Verde ¢ Ecologia Urbana ‘wwwinverde.org Projeto Grif: Niicleo de Arte/Mavad Eaitora 2 Revit bbérbara Mavad Foor Cecilia Polacow Herzog (todas a8 nfo identificadas no livro) Fotos da cep ‘Sul, Montpellier, So Paulo (oro: Fernanda Danelon), Avignon e Freiburgo ato da rea ‘Alex Herzog, ‘autora agradece qualquer comentario sobre o liv, que poderé ser feito (Ce-Beasu_ CaratocnchonaFonre Spero Naciow pos Eoronss pe Livnos, Rl 408 Herzog, Ceca Poiacow, 1953- 1. Uanisme 2 Eolgla bana 3. naestrutira Verde 4, Sustentabidade. | Thu. 13-00238 con: §77 cou: 502.1 Para as minhas préximas geragdes: “André, Mauricio e Diana; Bela, Aninha e André: Valentina, Manuela e aos que ainda virdo. A: cidades oferecem uma tremenda ‘oportunidade de criagio de solu ‘gbes inovadores para o bem-estar dat pessoas, apesarda crise que hoje enfrenta- mos. Uma crise sistémica sem preceden- ‘2s, desde que nossa espécle se desenvol- ‘vou © a civilizacéo prosperou a partir da sua engenhosidade e da exploracio de recursos naturais e humanes. Cidades para todos ~ (reloprendendo o conviver com 6 ‘notureza mostra que estamos vivendo uma nova era, jé reconhecida como Antropo- eno, plas mudangas que causamos no planeta Terra, nosso lar comum. E desta- ‘eaqueas idades imum papel undamen- tal neste momento: 50 fontes de muitos dos malores impactos causados 20 10550 ‘use. apegada ecoldgica da humanidade ‘Além de expor os problemas e apontar 0h , a autora Cecilia Herzog rolacio- cemplos de virias cidades do mundo 6 explicita no sentido de que precisamos de natureza em nossas ides todos 08 dias. © que nio 6 uma opeio; é essoncial. E as cidades precisam e podem oferecer qual- dade de vida para que as pessoas sejam saudiveis-fsiea, mental espiritvalmen- te, Areas urbanas devem ser destinadas As pessoas, para serem lugares onde todos vivam seoguros e felizes. “Precisamos ter ‘mals estimulos para vver em comunidad, Irequentar espagos piblicos abertos € participar auvamence das decisées que afletar as nossas vidas e a de nossos des- ‘conden venfattza Coca. se um mundo melhor € posstvel com © de cidades para pessoas vivendo em prendi com cada um dos participantes cada um, de alguma forma, dew uma do deste livro. Destaco aqui 0s mais no Rosa, Gisela Santana, Alex Herzog, 1 Kussama, Anouck Barcat, Joanna dhaniel Chveid. A Associaggo dos Ami- “ijuca tem nos acolhido e dado suporte de Joao Alfredo Viegas ¢ de Danielle poderfamos ter realizado nossas ativi- ente, Herbert Hasselmann - da Escola _age~ tem apoiado nossos eventos, que Pierre-André Martin tem si , pesquisa e projetos de infraestrucura rigada a meus alunos pela participasio uum par- Alex Herzog, Fernanda Polacow, Anouck t pela leitura critica do livro ~ ou partes, 2Janeiro, 28 de fevereiro de 2013 Sumario Apresentacao Luiz Fernando Janot Prefacio — Cynthia Rosenzweig Prefacio Cynthia Rosenzweig Prefacio - Thomas Elmqvist Prefacio Thomas Elmqvist Introdugao 1 — Breve Historia Ecol6gica e Urbana Como comegamas — 99% da histéria humana ‘A primeira grande transigao ‘A Modernidade e a Revolugdo Industrial 2— Século XXI - Grandes Mudangas a Vista Ecologia e pensamento sistémico ‘A econosfera e a biosfera Pegada ecoldgica Sustentabilidade X desenvolvimento Servigos ecossistémicos Mudancas climaticas ¢ as cidades na era da incerteza 3 — Novo Paradigma para Cidades do Século XXL Cidades ecol6gicas ‘Como chegamos a “cidades celestiais"? Infraestrutura verde urbana Sistemas naturals (ecol6gicos) Sistemas antrépicos Integrando os seis sistemas em uma infraestrutura verde Tipologias (elementos) de infraestrutura verde para a escala local 4 —Afinal, Existem Cidades Ecolégicas? HOLANDA POLONIA ALEMANHA FRANCA SUEGIA ‘ARGENTINA noia JAPAO CHINA COREIA DO SUL Reflexdes Finais: (Re)Aprendendo a Conviver com a Natureza Notas Referéncias ‘Anexos Anexo 1: Sintese e recomendagoes para desenvolver INFRAESTRUTURA VERDE URBANA ‘Anexo 2: Quadro-sintese do desenvolvimento orintado pela rmobilidade de massa (do inglés Transit Oriented Development - TOD) ‘Anexo 8: Glossério ‘Anexo 4; Vulnerablidades das cidades brasieras as mudangas climaticas (as mais evidentes) Apresentagao Luiz Fernando Janot 'm uma época repeta de incertezas, & extremamente importante refletit so- bre os atuais modelos de desenvolvimento global tendo em vista as suas implicagdes na transformacdo dos ambientes naturais e urbanos. Essa re- flexao ajudaré, sem divida, a se estabelecerem novos parimetros de con- , cultural ¢, principalmente, econdmica, para tornar as cidades cfetivamente sustentiveis. Todavia, 0 conhecimento e a compreensio dos diversos condicionantes que atuam na dinmica transformadora das ci- dades nem sempre s2o facilmente assimilaveis pelo cidadio comum. Em consequéncia, é dificil a tarefa de propor e implantar solugdes mitigadoras, para as impactantes estruturas urbanas espalhadas pelo planeta. Nesse ponto se reconhece o esforgo despendido por Cecilia Herzog para compilar os seus estucos e pesquisas em um livro de contetido com- plexo, porém, de leitura facil. Antes de discorrer sobre os intimeros aspec- tos te6ricos e conceituais que permeiam o trabalho elaborado, Cecilia se dedicou a escrever ¢ introduzir uma breve histéria ecol6gica e urbana com {énfase no despertar da modemnidade ¢ da revolugao industrial dos séculos XVIII e XIX. A construcio dese embasamento histérico auxiliao leitor a fazer o percurso pelo conhecimento das especificidades tecnol6gicas que sfo apresentadas. O que se depreende dessa estrutura metodol6gica ¢ a cerveza de que a obra ird interessar nao apenas aos meios académicos e profissionais, mas, sobretudo, a0 leitor desejoso de compreender os meandros que configuram © ambiente urbano em que vivemos. A insercZo de imagens ilustrando os textos colabora para facilitar essa compreensio ¢ a absorcio de aspectos Novo Paradigma para Cidades do Século XX! “Uma completa prof cmpresnsS da nturera, delle dos cick de vids des pantas ede erimss prisinos ter 0 reformat profundonentea nossa roto do eden (Beetey, 2011, p15, tradugio da autre) Cidades ecoldgicas Nia ‘0m que fui maorebidtica, na década de 1980, comecei a perceber nossa conexio ancestral com a natureza através da produgdo e prepa- ragdo da comida. Muito do que somos se deve 4 nossa alimentagio. Vivi ‘em lugares diferentes e, estudando e pesquisando sobre as cidades, percebi como também somos fruto do ambiente fisico, social e cultural cotidiano: ‘em casa, no trabalho, no bairro e na cidade. Acredito que cada um de nds seja fortemente influenciado por essa relacio com os alimentos, com as pessoas e 0s espacos onde vivemos, com o modo como circulamos ¢ com as atividades que desenvolvemos nesses Ingares. O livro O jardin de granito, langado em 1984 pela paisagista Anne W. Spimn, foi um marco em minha compreensio de como a forma urbana influencia as pessoas que nela vi- ver. & um estudo detalhiado sobre a ecologia da cidade e as relagSes de sua forma com o ar, @ 4gua, 0 solo, a vida, a energia e a poluicao. 'Hé quase 30 anos, Spirn via dois caminhos para as cidades. O primeiro lo modemo de cidades do sécu- ". Nele 08 problemas seriam sta, com projetos isolados para lo XX, a que chamou de tratados de forma fragment Boziay moneog B960 | 3 cada situagéo, sem uma vis ica da complexidade de interacbes que ocorrem na paisager (Os custos desses cidades seriam ele- vvadissimos, com sclugées paliativas, temporirias, ocasionando problemas ‘em prazos mais longos. Seria como ficar enxugando gelo. Além disso, 08 vinculos das pessoas com as ruas acabariam sendo cortados, pela falta de cespaco para pedestres € convivio social cotidiano. ‘io seriam localidades sustentaveis ambiental, social, cultural e eco- nomicamente. O pior cenario delas seriam as “cidades infernais”: sem ar- vores, extremamente quentes, com custo de vida altissimo, com falta de cenergia constante, com surtos de doengas, onde 2 poluicio do ar, solos € Aguas é generalizada, Nessa hipétese, haveria hordas de pessoas sem es~ peranga, em raziio de condigSes de vida insustentiveis, com falta de 4gua, ‘comida, trabalho e até mesmo de meios para se reproduzirem. Elas se re- belariam, mas as cidades jé teriam se expandido tanto, que no teriam ‘mais para onde ir. Nos dltimos tempos, temos assistido a cenas que nos remetem 2 esse quaciro dramitico: cidades “doentes”, diversos movimen squecer os migrantes 2s, devido a seca fio sendo conside- tos sociais e revoltas contra o sistema vigente, {que correm atrés de uma vida melhor em vario ce falta de possibilidades de uma vida digna (muitos j rados “refugiados climéticos”). (© segundo caminho que Spirn via seria a “cidade celestial”, um lu- gar onde a natureza estaria presente e seria cultivada em toda parte, Um ugar onde os sistemas de transportes serviriam para deslocamentos de acordo com as necessidades, preservando os espagos urbancs para que as pessoas pudessem usufruf-los em areas com diversidade ve imal, com gus limpa c-visivel em fontes, areas alagadas (wetlands impos e com vida aquética. A cultura e a identidade locais seriam preser- ‘vadas. Nessa cidade, cada pessoa conheceria a hist6ria natural e urbana da evolugdo de sua paisagem, compreen rocessos naturais que nela ‘ocorrem. A informagao, a tecnologia cia possibilitariam conhe- ‘cer para planejar, administrar e gerar politicas e instrumentos que levariam bem-estar para todos, no presente e em prazos mais longos. Os espagos _urbanos seria multifuncionais, com biodiversidade em todos os lugares. ‘As Aguas das chuvas se infltrariam no local onde caer ou seriam detidas em dreas préximas para evitar enchentes. Parques e florestas guma forma, se transformando em realidade. Existem cidades com péssima qualidade de vida, transito caético, poluicdo general distanciamento das coisas boas da natureza. Entretanto, a forca da natu- reza é sempre sentida, mesmo que por meio de tragédias e desconfortos, 1osquitos que espalham doencas; tempestades que entos ¢ enxurradas que arrasam tudo pelo ca- que invadem ¢ destroem ruas, construgdes ¢ outros bens piblico: No caminho das tes mais aparentes: dades ou bairros ccolégi ir0s), com casos de revitalizacao de locals antes degradados. Esse conceito tem sido aplicado e testado em diversas ecaities (ecocidades) presentes em muitos pafses. O que elas tém em comum, além de buscar mitigar as emissées de GEE? Elas buscam novos modos de planejar e projetar de forma trans- disciplinar ~ fundamentada no conhecimento cientifico que considera os processos e fluxos naturais locais, com a biodiversidade inserida na malha urbana, em todos os lugares posstveis (pelo menos, na teoria), e menos necessidade de consumo para ser feliz. Como chegamos a “cidades celestiais”? Nas tiltimas décadas do século XX, o planejamento ecolégico da pai- sagem ganhou grande impulso quando o paisagista lan McHarg publicou Design with nature (Projetar com a natureza), em 1969. Nesse livro, ele sistematizou e deu grande destaque para a metodologia de planejamento ‘ecol6gico da paisagem com a técnica de sobreposicdo de camadas de ma- pas geoldgicos, hidrolégicos, topograficos e do uso e ocupacio do solo, em acetato transparente. McHarg nao foi o primeiro a utilizar essa técnica, ‘mas teve um papel importante na visibilidade que deu a necessidade de se ‘compreenderem os processos e fluxos naturais que ocorrem na paisagem de cada lugar e as formas de ocupacéo em harmonia com a natureza. Esse ‘embasamento técnico-cientifico ¢ fundamental para poder planejar e pro- jetar ecossistemas A partir dos nologias mais avancadas como o Sistema de Informacao Geografica permitiram conhecer ¢ analisar as paisagens em diversas escalas e com bastante precisio, Essa tecnologia impulsionou a ecologia de paisagens, ‘um campo de conhecimento que tem revolucionado o planejamento e 0 ToComore oe mana tl ems on | 2 soxmy nconeasion | projeto urbano e rural. Richard Forman € um dos personagens centrais esse campo: seus livros, suas publicagbes e conferéncias tém aberto novas possibilidades para se compreenderem as dindmicas que ocorrem entre os fragmentos (elementos naturais e antrépicos) que comp6er as paisagens ‘208 processos e fluxos abiéticos, bidticos e das pessoas que mantém o seu funcionamento. Em consondincia com o novo paradigma da incerteza, do nao equilibrio (0u equilibrio dinamico), agravado pelas mudangas climéticas, o planeja- mento € projeto de cidades demanda uma abordagem sistémica contem- porfinea em diversas escalas: regional, urbana, da bacia (ou sub-bacia) hi- drogrifica, do bairro ¢ local. Como vimos, qualquer sistema consiste em clementos, conexes ¢ fungSes. Uma mudanca nos elementos pode néo alterar a sua fungio, mas uma mudanca nas interconexdes pode alterar dramaticamente o funcionamento do sistema, ‘A ecologia da paisagem tem contribuido pare a compreensio de que a paisagem urbana é um sistema heterogéneo, suscetivel a mudancas constantes em situagio de nfo equilibrio, Sua estrutura (padrao) de- pende das interagdes (conexGes) entre os elementos abidticos, bidticos c humanos. Tanto os ecossistemas naturais quanto os humanos podem mudar de maneira inesperada, principalmente quando esto sujeitos @ alteragdes em seus processos ¢ fluxos. Grandes perturbagées poderéo causar uma troca de patamar e de padrio de funcionamento, alterando as fingées do sistema. Consequentemente, as paisagens apresentaréo sérias restrigdes a vida (como vimos no caso das lagoas da baixada de Jacarepagua — ver cap. 2, p. 78). A ecologia da paisagem tem uma visio sistémica sobre 0 mosaico da ppaisagem — no qual se encontram fragmentos trbanos, vegetados ¢ flores- tados (os elementos) ~ e sobre as conexSes ou rupturas (e.g. rios e ruas) ‘que existem nos fluxos e processos naturais determinando o funcionamen- to do ecossistema urbano. Ao observarmnos, por exemplo, 0 mosaico da ppaisagem carioca por meio de um mapa ou de uma ortofoto (fotos aéreas feitas em escala ¢ montadas com a correrio das distorgSes, para visio de territbrios como se eles fossem um mapa’), € posstvel ver que ele com- preende diferentes fragmentos/elementos, que so: macigas cobertos por florestas, areas verdes com coberturas vegetais diversas e éreas urbaniza- Esse mosaico apresenta bacias hidrograficas conduzindo que correm para os dois lados dos macigos em diteséo a0 mar e As baias de Guanabara e de Sepetiba. Também € todo recortado por vias que conduzem trafego de vefculos, onde muitos rios foram cana- 5 fluxos de lizados ou estio escondidos em galerias subterrancas ou outras areas im- permeabilizadas. Essas areas, urbanizadas ao longo do tempo, interferem ‘ou até mesmo barram os processos ¢ fluxos naturais das aguas e da biodi- versidadle. Por meio de um interdisciplinar tem a possi nfo sé oriente um planejamento sustentével de longo prazo, mas também possibilite projetar fucuras intervengdes que regenerem éreas sem vida que Interrompem fluxos e processes. Planejamentos sistémicos ¢ projetos in- tegrados, baseados em conhecimentos cientificos, so capazes de evitar € mitigar enchentes, deslizamentos, ilhas de calor e outros impactos previst- vveis ao se considerarem diversos cenarios futuros. compltamonieurbanizacas; as bacishidogrficas domarcadas em branc, que crrem para mar; 38 as bai: Gtarabera e Sopetita (crédito: Brasiano Vio Fico, SMAC). ‘A ecologia urbana ganhou forca nos ditimos anos, abrindo caminhos para que se compreenda melhor a interado entre a natureza € as pessoas. AAs cidades passaram 2 ser etendidas como complexos sistemas socioe- col6gicos nos quais a natureza existe nos lugares que menos imaginamos, ‘mas nos influencia 0 tempo todo. Na verdade, somos parte dela, e nossa qualidade de vida depende da qualidade dessa relagio, de como percebe- ‘mos a sua importancia, de como convivemos com ela A ecologia urbana esté dividida em dois ramos: (a) ecologia NAS ci- dades — estuda os padres © os processos ecolégicos que ocorrem em am- bientes urbanos, compara esses padrées com outros ambientes e verifica de que modo a urbanizagio interfere na ecologia das espécies animais SonsaH moaeiog eM19@9 | Z vvegetais; (b) ecologia DAS cidades — procura compreender como ocorrem of sistemas sociais e ecolégicas, de modo a poder pro- por planos e projetos que mantenham as fungSes vitais sociais e ecol6gicas para um ecossistema urbano saudével. No atual cenirio, de imensas incertezas © com variagées constantes, as cidades serio cada vez mais impactacas pelos desafios das mudancas climéticas. Por isso, devemos planejar e projetar para preservar as inter- conexées que asseguram a funcionalidade d smas urbanos. O objetivo é manter os processos fluxos abiét socioecol6gicos. Nesse sentido, os servicos biodiversidade urbana sio essenciais para m x6es ¢ fluxos, proporcionando a estrutura para uma paisagem urbana sus- tentavele resiliente, Estou falando em uma infraestrutura ecoldgica que dé suporte & nossa vida e as nossas atividades, fechando os ciclos como faz a natureza. Isso é chamado de biomimetizagao, um novo ramo de pesquisas cientificas qu ta tecnologia. * Afinal, a natureza, depois de Bilhdes de anos, desenvolveu a diversidade da vida e dos ecossistemas de forma espetacular: temos muito a aprender com ela! Intraestrutura verde urbana “Procure soligdes com mits uss. As melores ideas resovem mals de um problema a mesmo tego.” (arko atanoc, Mtoe Victories, 2007, wadugéo da ara) Existem muitas correntes que procuram tornar as cidades mais sus- tentveis e resilientes, com menor pegada ecol6gica e com metabolismo circular, procurando fechar 0s ciclos de entradas e safdas de energia e ma- téria, Sob a influéncia de trabalhos que remontam ao século XIX, mas es- quecidos em grande parte do XX, diversos movimentos nasceram os problemas das cidades modernas da fim de criar ambientes melhores para se viver. ‘McMahon langaram o livro Green infrastructure (In- fraestratura verde), que tem tido uma repercussio enorme, concribuindo para que a natureza seja incorporada, de fato, as cidades. Na verdade, a transformacio ~ ou retrofit ~ de dreas impermeabilizada especificas (quase sempre sto monofuncionais) em érea: ‘que mantém o equilibrio dinamico, sustentavel eresiliente do ecossistema cies mineralizadas (concreto, asfalto, cimento, cerdmicas, etc.). O objetivo é reintroduzir ou incrementar a biodiversidade urbana, para que seja possivel ter seus servicos ecossist#micos onde as pessoas vvivem, citculam, trabalham e se divertem: nas cidades, A infraestrutura verde, também chamada de infraestrutura ecol6gica, € sagem e da ecologia urbana. Compreende a cidade como um sistema socio- ecol6gico, por meio de uma visdo holistica, sistémica, Consiste em plane~ Jar, projetar e manejar construgées e infraestruturas novas ¢ existentes, de modo a transformé-las em espagos multifuncionais ~ que fazem parte de uma rede interligada de fragmentos vegetados ou permedveis, conectados por corredores verdes e azuis, nos quais a biodiversidade protege e melho- ra qualidade das 4guas, objetivando reestruturar 0 mosaico da paisagem em miltiplas escalas. Corredores verdes e azuis so as interconexées ne- ide da paisager, as quais mantém dade vegetal e animal, e das aguas tanto dos rios e canais renaturalizados quanto de ruas densamente arbo- rizadas, com canteros ricos em espécies de plantas e permedveis. bisica ¢ mimetizar o que ocorre nas paisagens naturais, aprender com 2 natureza fazendo “edificios como drvores e cidades como florestas”.’ A infraestrutura verde é uma rede ecolégica urbana que reestrutura a paisagem, rmimetiza os processos naturais de modo a manter ou restaurar as fungSes do ecossistema urbano, oferecendo servicos ecossistémicos no local. Alguns desses servicos so: reducdo das emissdes de GEE: prevencio de enchentes dealizamentos; amenizagao das ilhas de calor; redugo no consumo de ener- sia: producto de alimentos; melhoria da satide fisica, mental e espirivual das ‘pessoas; aumento e melhoria da biodiversidade nativa, dentre intimeros ou- ‘tos. Esse tipo de infraestrutura tem como meta tornar os ambientes urbanos ‘mais sustentéveis ¢ reslientes por meio da interacao cotidiana das pessoas ‘com a naturezalem espacos onde ambas tenham total prioridade. ‘A infraestrutura verde é multidisciplinar e, para efeito metodolégico de levantamento, ands ediagnéstico, baseia-se em seis sistemas que se super social, circulat6rio € met carar 0 desafio de integré-los, ‘que atendam as necessidades das pessoas e mantenham oxconrs sng et eubpery on | 8 Boxe} mosetod #11999 nnaturais em planos e projetos que deem suporte para a sustentabilidade ere- siligncia urbana, com potencial para enftentar 0s desafios do terceiro milénio, © enfoque da infraestrutura ecoldgica esta na funcionalidade ¢ néo apenas nos elementos que compdem a paisagem urbana, dependendo da escala do plano ou projeto. A abordagem é sistémica. Como exemplo, duas questées urgentes: (a) como consegui mobilidade com 0 uso de a sua funcéo (de possibilitar e incentivar a circulagio mo modo de transporte urbano limpo - em vez de \émetros de ciclovias, que podem no atender as reais 0 evitar enchentes e melhorar a qualidade das Aguas ojetar a construcéo de elementos de um macrossistema de drenagem, que pode nao der vazio ao volume e impacto imprevisivel de guas pluviais no presente, e considerando que serd agravado no futuro. ‘Sistemas naturais (acolégicos) (@ Sistema geolégico sfera, Ela €0 nosso suporte planeta sob a acdo de movi- , dos vuledes, de impactos de asteroides, (internperismo). Esses processos deter- minaram as formas do terreno, sua geomorfologia e as qualidades do solo ~fertilidade, grau de permesbilidade, capacidade de erosio, etc. A geologia sobre o qual moram nossas vidas, mesmo que no tenhames consciéncia disso. O sistema geol6gico é um fator que influencia @ maneira como 0s padrées @ 08 processes ocorrem nas paisagens urbanas ¢ o modo como eles se de- senwolveram ao longo de sua historia. As estruturas e as formas geol6gicas desempenham diversas funges como base da ocupacio urbana. A geologia local constitui um fator fundamental da estabilidade do terreno, poden¢o li- O solo é vivo. & fruto da erosio formagio geolégica e da matétia orginica gerada por sua cobertura vegetal Contém micro-organismos ¢ nutrientes essenciais que dio suporte a vida vegetal. Apresenta diferentes estruturas ¢ plasticidades, que determinam sua permeabilidade ¢ fertilidade. Ha tres categorias de solo, que nao séo rigidas: argila, silte e areia, Os dois extremos sao a argila ¢ a arcia. Quanto mais argiloso, mais impermeavel € 0 solo, pois suas particulas so muito f- ‘nas e facilmente carteadas pelas aguas. Normalmente, é encontrado em ére- a baixas, em linhas d4gua que receberam sedimentos escoados ao longo do tempo, e é também mais fértil. Ja 0 arenoso é permedvel, porém com pouca com consequente baixa fertilidade. Poreanto, ipo de solo para saber qual 2 sua voca¢ao. ‘A geomorfologia (forma da paisagem), o tipo de solo e a cobertura vege- tal local séo fatores que possibilitam determinar a susceptibilidade do terre- rentos, e também a alagamentos. As encostas podem. riegamentos de terra, € as dreas baixas, a inundagées. lagadigas, que margeiam corpos d'4gua, podem ser suscepti- lade quando aterrados, tendem a afundar e ocasionar severos ros com a alteraglo dos processos hidricos, podendo levar a indacSes frequentes, O levantamento, a andlise e o diagnésti- 0 dos fatores geolbgicos, através de mapeamentos, permitem identificar as ‘reas mais vulnerdveis que devem ser protegidas, os locais mais adequados ocupagio humana e os mais recomendados para o plantio de alimentos, além dos espagos que devem ser reflorestados. A formac3o geolégica pode ser também um fator estético que define a identidade da cidade. A cidade de Nova York é exemplo de como o sistema geolégico local foi determinante para sua forma: os altissimos arranha-céus sio possiveis em deverminadas partes da ilha de Manhattan em rario de a composicao da rocha mattiz suportar esse tipo de edificagio. © Rio de Janciro é um caso interessante, pois a sua formagdo geol6gica € extremamente importante na criagao de sua identidade, com suas praias, lagoas € 0 perfil de seus macigos reconhecidos mundialmente, principal- ‘mente Copacabana, Ipanema, Lagoa Rodrigo de Freitas, Corcovado e Pio de Acticar. Essa paisagem estupenda foi eleita PatrimOnio Cultural da Hu- manidade Mundial pela Unesco em julho de 2012. Por outro lado, essa ‘mesma formagdo geoldgica é de extrema vul ‘ingremes cercadas, em grande parte, por lagoa As baixadas sio éreas de acomodagio das Aguas que escoam por suas bacias hidrogrificas. O sistema geol6gico local tanto é atraente quanto frégil e vulneravel & ocupagao (figura 3.2). a tone op ong ead wees oy | = 2104 nooeog wH9%9 | Fgura 3.2 A galsegem de eeade da Pio de Jana est stuade sod um sista geoliico de imansa beleza » grande winaraiiacedovid & sua ocupado te nterlerido nos recess @ xO rata, com aera dea costars eomidas, canal () Sistema hidrolégico ia a agua do planeta, se encontra em apenas trés esta- vempre em movimento ¢ em transformacio no ciclo ido e gasoso. Por se tratar de um ciclo (que, por ramos considerar sua ocorréncia a partir das chuvas incfpio, ¢ continu ‘ou nevascas ~o que se chama precipitagio. Quando a chuva cai, ela pode se 10 solo; percolar até o lengol subterraneo; escoar subsuperficial- yente em diregoa um canal de drenagem; escoaz 5 pavimento i erm 1 tios até o local onde ficari estocada: lagos, lagoas; ou drenar em canais ou rios ars ‘mares — ou, ainda, em reas urbanizadas im ‘A égua evapora por meio da transpiragao que ocorre com o calor © {dio dos processos vitais da vegetagdo: evapotranspiracio. Essa evaporagao vai formar as nuvens, que vo, em algum momento, se trans~ former em chuvas em gum lat O sistema hidolégico no nivel global fechado, porque contém toda a 4gua do planeta, que muda de estado fisico e se desloca no espaco geografico terrestre. No entanto, localmente, é um sistema aberto, pois a chuvas que precipita em um lugar so origindrias de dguas evaporadas em outras regides. A qualidade das aguas das chuvas depende da qualidade da atmosfera e das particulas concentradas, podendo ser extremamente danosa, como as chuvas cidas causadas por poluicio. ‘A Agua & um bem comum que esta sob a ameaca real de escassez, por »; impermeabilizagio dos solos invigaso para agricultura, podendo ser contaminada por agrotéxicos e per- ‘colar até 0s lenis subterraneos — dentre outras causas. As éguas potivels hoje estdo custando mais caro do que muitos produtos, como se pode atestar através dos precos pagos pela égua engarrafada~ mais cara que a gasolinal A gua é 0 bem mais precioso. Cientes disso, algumas empresas internacionais compraram os direitos de exploracio de fontes de Sguas potiveis em muitos paises, inclusive no Brasil (basta verificar quais so as empresas responsé- vveis pelo suprimento de éguas industrializadas oferecidas no mercado). Grande parte das cidades se desenvolveu no entomo de tios e mares, por causa da facilidade de transporte e comunicagio. As 4guas fazem parte das paisagens naturais e culturais a0 longo da historia, com papel relevante em projetos desde a Antiguidade, Elas transmitem um sentimento de calma ede ‘tranquilidade, além de proporcionar areas para recreagéo e lazer, em muitos casos com potencial para desenvolvimento econémico local e regional. Sua presenga nos espagos urbanos pode contribuir para amenizar as ilhas de ca~ lor resultantes da concentracio de ireas construidas e pavimentadas. Areas urbanas degracadas, préximas as Aguas, tm sido renovadas com a implantagio de corredores verdes multifuncionais (greenways) ou de novos bairros. Alguns exemplos sio: Hammarby, novo ecobairro em Estocolmo (ver cap. 4, p.212); 0 Las Olas Riverwalk, parque ecol6gico com equipamentos culturais, comerciais e de servigos 20 longo do rio Las Olas, em Fort Lauderdale, no sul da Flérida~ esse corredor verde multifuncional eu infcio a revitalizacio de toda a érea central da cidade, ativando a sta ‘economia a partir da década de 1990. sistema hidrol6gico de grande parte das cidades foi tremendamente alterado, a0 longo da ocupagdo da paisagem, para dar lugar a urbanizagzo. Um bom exemplo do tratamento que as Aguas tecebiam no final do século XIX ¢ no comego do XX esté no coracio da cidade do Rio de Janeiro, em uma das suas paisagens mais espetaculares: a Lagoa Rodrigo de Freitas. Atualmente, ela possui a metade de seu tamanho original. Foi aterrada para urbanizagio e recebeu um anel virio em seu entorno. Entretanto, poderia ter sido muito pior. No final do século XIX, a Lagoa era vista como origem de inimeros problemas causados pelas Aguas estagnadas e, por isso, trés propostas de aterro total foram apresentadas para suprimi-la da sem (uma delas da autoria de Osvaldo Cruz). Atualmente, seu espe- Tho d’égua é tombatio.s © crescimento urbano, estruturado pela cultura do uso de vetculos automotores ¢ pela valorizagao do solo urbano (especulagao imobi aliado a falta de planejamento ecol6gico de ocupacio da paisagem, levou as i : sou meogoseni | sentar alto percentual de 4reas impermedveis. Elas alteram sistema hidrolégico natural, com iniimeras consequéncias las e devastadoras que ocorrem que o ciclo hidrolégico de ga~ d’4gua, atualmente quase todos sem vida. ‘As aguas urbanas esto sujeltas a polui¢do por fontes pontuais ou difusa. ‘A pontual pode ser detectada ¢ controlada localmente, como esgotos domés- ticos eefluentes industrials; adifusa (ow ndo pontual) vem de fontes difusas ¢ deve ter tratamento difuso. A poluiggo nao pontual é a mais problemdtica nas lo. Cerca de 90% da poluiczo difusa é carreada pelo escoamento superficial, principalmente nos primeiros minutos das chuvas (25mm) risco de contaminacao a0 Tengo davis Dutra, onde estio localizades os 3 sexes nsoncgenoy | reservatérios, & enorme devido & poluigéo difusa que escoa da estrada a ‘cada chuva, Se houver um acidente com o derrame de algum liquido téxico no asfalto, este poder escoar e atingir as aguas que abastecem as cida- des ajusante. Os dois casos colocam as populagbes das duas megacidades em situacio de alta vulnerabilidade & contaminagéo por fontes difusas € pontuais, além de alto potencial de ruptura no abastecimento em eventos extremos. (0 sistema de drenagem urbano consiste num sistema hibrido, que combina a drenagem nacutal ~ por meio dos corpos d'égua remanescentes (ios, alagados, etc.) ~¢ a rede de drenagem construida ~ com as éreas de acumulagao e estoque de aguas. Para se planejare projetar a infraestrutura verde, todos os fluxos de Agua existentes devem ser mapeatos, a fim de {que se possa analisar por onde eles circulam e como se acumulam na pai- sagem em diferentes escalas. 'E importante também conhecer 0 historico e os mapas das chuvas. As dguas so determinantes na sustentabilidade das paisagens, pois podem ‘ocasionar episédios de extrema gravidade em éreas com ocupario humana. [Em todas as escalas, a infraestrutura verde objetiva mimetizar a paisa- ‘gem natural, para que 08 fluxos hfaricos sejam reconectados por meio: da “renaturaliza¢ao” dos corpos d’4gua canalizados e escondidos; de biovale- tas; e da criagdo de dreas naturalizadas - de acumulagao de éguas pluviais. 'A Agua deve ser infiltrada no local, com a desconexo das areas imper- ‘medveis, detencio temporiria do escoamento superficial ou retengéo em prazos mais longos. © objetivo é evitar 0 escoamento superficial, retar- dando ao méximo sua entrada no sistema de macrodrenagem para nao sobrecarregé-lo e evitar enchentes. ‘Sao “cinco dguas” que circulam na paisagem urbana que podem se be- neficiar com a introdugio de infraestrutura verde (ver quadro). Além da drenagem, a infraestrutura ecolégica objetiva proceger os mananciais ¢ os, ambientes aquiticos urbanos, também proporcionando alternativas ¢co- logicas para tratar as aguas cinza e negras. As guas urbanas oferecem também fungées de lazer, recreacio, contemplacdo. Projetos que deem vi- sibilidade a seus fluxos ¢ processos sio vitais para a educacao ambiental © ecolégica. (© Sistema biol6gico As plantas aquéticas ¢ terrestres so a base de toda a vida no planeta Por meio da fotossintese, produzem o oxigénio que respiramos e a comida que comemos. As florestas protegem as bacias hidrogréficas, regulam os fluxos © a qualidade das aguas dos rios e cérregos, ¢ o estoque de dgua nos IengGis subterréneos e nos aquiferos. O ciclo hidralégico depende significa- ‘tivamente das florestas para manter sua dinimica: a evapotranspiracio das plantas retorna a umidade para a atmosfera; a estruturafisica das drvores eva 0s Impactos diretos das gotas das chuvas no solo, prevenindo a com- [Pactacio a Agua escoa lentamente pelos galhos e troncos até ser conduzida ao subsolo pelas suas rales — que contribuem em grande medida para a es- do solo nas encostas e nas margens de rios e cdrregos, ajudandoa prevenir erosio, deslizamentos e assoreamentos dos rios e de outros corpos gua. Nas florestas, as folhas que caem formam a serrapilheira, que funcio- pacomo una ciroiacie retém as guas das chuvas e as libera lentamente, tanto para o subsolo quanto para a atmosfera, através da evs Canad de scp o iba doe enn quel as folhas e os demais organismos mortos,transformando-os na camada or- sinice que sustentaabiodiversidade do ecossistema, As plantas dio suporte aos habitats de grande parte dos seres vivos. i i i : f g cS 8 210} modeIog BII909 Figura 83 — Eoologa da palsayort proidace espacial da dltibugso de ‘fagmentos vegeta para plnejar 0 uso do eo numeragdo em ord de arid), (Adaptado de Forman, 1996) Figura 2.4 ~ Diagrama representando as aeasndcleo, 6 amorterimenta’ ‘rani de condo eros iagmertos. conceto poe ser zolcado em ivrsasoscalas. (Adapiado de Nos Har, 1988, Noss, 1982) A biodiversidade, em escala regional ou local, 6 definida pelo ntime- ro de espécies animais ¢ vegetais que compte os ecossistemas. As flo- restas tropicals abrigam a maior quantidade de espécies de fauna e flo- 13, por possuirem uma grande variedade de nichos ecol6gicos, ou seja, ambientes diferenciados onde as espécies se desenvolveram. Nessa rede de vida, todos os elementos tém fungdes essenciais para o funciona- mento do sistema. Mesmo 0 mais microscépico elemento vivo cumpre uma determinada fungdo, que pode ser de vital importincia para manter a dinamica de um ecossistema, Nas cidades, os fragmentos de vegetacao devem ser interconectados para que o sistema bioldgico mantenha sua funcionalidade; por essa razdo, os corredores verdes urbanos possuem uma importéncia enorme na manutengao da troca génica entre as man- cchas de vegetacio, com zonas de amortecimento que protejam as areas “core”, ou centrais (figuras 3.3 e 3.4) Um dos exemplos mais importantes e preocupantes de ameaga de extingdo na atualidade 6 0 caso das abelhas ~ Apis mellifera. Elas esto desaparecendo em massa, misteriosamente. Simplesmente nao voltam ara as colmelas. Que fatores as esto levando 4 ameaga de extingo em 4reas agricolas? Existem indfcios de que 0 uso de agrotéxicos, a extin- so de espécies floriferas, as ondas magnéticas, as diferentes formas de Poluicdo e outros impactos causados pelas acbes humanas estejam de- sequilibrando o sistema, levando & falta de fecundidade da abelha-rai- mha ¢ a doengas mortais e epidémicas. Aproximadamente um terco da Producio mundial de alimentos depende das abelhas, O valor estimado em 2008 ca polinizasio feita por insetos é da ordem de 153 bilhdes de euros. Estamos falando de servigos ecossistémicos que a natureza nos oferece e dos quais dependemos para viver, mas que néo entram nas contes dos produtos consumidos! Na infraestrutura verde, o sistema biolégico consiste nos hil que abrigam a biodiversidade em determinada regiéo. E bom frisar que no s6 dependemos da biodiversidade, mas também fazemos parte des- ‘sa intrincada rede que fornece servigos ecossistémicos essenciais & nos- sa qualidade de vida. © que acontece na escala da biosfera é o somatério do que ocorre na escala local em todo o planeta. Portanto, para contri- buir com uma melhoria global, intervengées ecolégicas locais sio muito importantes. Além disso, 0 que ocorre nessa escala é compativel com a percepgio da escala humana, com as tomadas de decisio com vistas & ‘transformacio a partir do lugar e do manejo do ambiente fisico. Na maioria das cidades brasileiras, a natureza tem sido sistematica- mente eliminada, com perdia de tem ocasionado a redusio (ou até mesmo a supressio) da bicciversidade autéctone e de seus servicos ecossistémicos. Houve uma “homogeneiza- 0” das paisagens urbanas com a criagio de ambientes “verdes” globaliza- toro op mecca wanina cao | 5S 8 8 oy dos, com uma estética euro-americana importada que independe de sua localiza¢do geogréfica, totalmente desconectada do contexto ambiental, vegetagio das areas verdes piiblicas e privadas tem wente cosmética. Atualmente, 05 espagos externos si0 parte importante do produto a ser comercializado pelo mercado imobili- {rio de todo o pais. Imagens com gramados, palmeiras, florezinhas (para dar um toque de cor) e areas pavimentadas com desenhos coloridos do- minam jardins de empreendimentos imobilidrios de norte a sul do pats, muitas vezes com @ erradicacio da biodiversidade existente. Isso nio privilégio brasileiro, pois ocorre em muitos lugares. A interven¢io ou projeto embelezador que lan¢a méo de poucas espécies de plantas orna- mentais exéticas (muitas vezes invasoras) em detrimento da biodiver- sidade nativa, néo contempla o potencial que os espacos livres péblicos € privados tém para oferecer em servigas ecossistémicos no local. Em ‘muitos lugares de diversos pafses, uma nova estética mais n ecolégica, com biodiversidade autéctone, tem orientado projeto: vvengdes urbanas. “Atualmente, para que as cidad. portancia crucial n cidade constitui a floresta urbana, ¢ sua presenca sadia nas ruas, pragas € arques oferece servigos ecossistémicos insubs suas fung6es ecolégicas, contribu sensivelmente: para manter ¢ melhorar 1 qualidade do as, com a captura de GEE e de outras particulas poluentes; para reduzir 0 consumo de energia; ¢ para melhorar a qualidade das aguas € prevenir enchentes e deslizamentos. Outros beneficios que a presenca das Arvores traz so menos evidentes contabilizéveis, Cada uma delas constitui um ecossistema: abriga uma infinidade de espécies que dela dependem para viver, como bromélias, or- quideas, insetos e péssaros. A luz do sol é absorvida e filtrada pelas suas copas, e sua sombra re transformando ambientes abe tomé-los mais frescos e apraz quente como 0 Brasil. Portanto, para cidades sustentiveis. & importante ressaltar que palmeiras ndo so érvores! Atualmente, as- sistimos a uma “palmeirizagio” das cidades por conveniéncias momenté- reas, As palmeiras estado substituindo de frvores em ruas, par- Fiqua 8. 5 - Campos dos Goytacazes: ‘Revialeaydo" de praca hist com grande vaor socal ‘cokigco, ois hava vores plantas no nico do século XX que fram eerinacas para da lgar a ontamio dos concets aus sustrtvls: rate Iso 05a eplceado ~ que, em 1, nto ofcare conigbes deus. A sora de palmar melodia demonstra sua ‘de parecerem timo! Hi que se considera anda qu ess pag erode sua oz. Neturalmere, az parte ca zona de apart, que, ceed sia ubariagio, dks ‘costs 20 fo, esconactando as pessoas da nator, 8 ‘Doc oinoas op sapeprg exed eusbpese, onan, tenons | Sistemas antrépicos “dato conexbes drs entra moloria para as a8 sbes para s2aleancar () Sistema social sistema social é formado pelos espacos urbanos onde as atividades humanas acontecem, portanto, deve ter a dimensao das pessoas. Consiste no conjunto de locais onde ocorrem as atividades sociais ~ recreativas e de lazer. Sio lugares abertos, nos quais podemos ter contato com a natureza, tomar sol, respirar ar puro, apreciar arte, ouvir misica, caminhar para fazer compras, sentar num café, encontrar amigos, enfim, uma multiplicidade de atividades que dio vida as cidades e transformam a qualidade de vida dos moradores e visitantes. ‘A cada dia existem mais exemplos de cidades que est escreve Jan Gehl em “vivas, seguras, sus serio saudiveis ¢ feli gente que vive e tran: ; As cidades sus devem ser compactas, com concentragio de usos diversos que permitam 0 pedestre ter acesso ficil, rapido e seguro por meio da articulacdo de espagos sociais vivos, em conta- ‘to com a natureza e seus processos € fluxes, Esse & um ponto importante, uma vez que ndo basta um sistema de espagos livres: & necessério que sejam ‘multifuncionais, cumprindo fungbes sociaise, ao mesmo tempo, ecolégicas. ‘Aléim disso, é preciso que oferegam servigos ecossistémicos a fim de garantir a qualidade de vida urbana, Precisam ser acessiveis a todos, com diversidade social, cultural, etria e ética, propiciando a convivéncia de pessoas de gru- ‘pos sociais ¢ econémicos diferentes, para que possa haver maior tolerancia, compreensio humanismo. Se houver humanismo, se dermos mais impor- tincia a todas as pessoas, nfo precisaremos mais de ajuda humanicéria, mento de lar, de pertencer ao lugar que pulsa com identidade pi 1H apenas 30 anos, era possivel brincar nas ruas,jogar bola, pula corda € subir em drvores. Atualmente, poucos ur0s pi oferecem esse privilégio. Precisamos resgatar essa qualidade de vida para nossos filhos e netos, Paris € uma das cidades mais visitadas do mundo, e nfo é toal & uma ‘cidade com forte identidade, com vida vibrando em seus parques, pragas € pracinhas densamente arborizados, cafés nas calcadas, exibicées de arte € iisica, Belos e bem projetados espacos publicos, os exteriores plenos de biodiversidade se espalham por todos os arrondissements (bairros), inclusive nas estagGes de trem ¢ dentro dos metrés. Um dos lugares pilblicos mais fre- tos expats plas ben planlads, que seam humanos na escal,sstetivs, saudivels,sequose vives." (Rogers. In: Gehl, 2010, peti, vadugto da autor) (0 sistema circulatério compreende os modos como as pessoas € 08 produtos circulam, ou seja, se movem na cidade. A qualidade do sis é dada pelo grau de mobilidade urbana ¢ pela quantidade de GEE , uma vez que uma das maiores fontes de emisso nas cidades € origina ria dos vefculos movides a combustiveis fsseis. No municfpio do Rio de Janeiro, por exemplo, 0 setor de transporte € responsivel por 38,7% do total de GEE da cidade." Portanto, é de capital importancia que seja dada « devida prioridade ao planejamento e projeto de alternativas de circulagio limpa, proporcionando melhoria da qualidade de vida urbana, Nesse con- texto, a forma da cidade & decisiva, pois aquelas expandidas com meios de transporte ineficazes - com acessos distantes, desconfortiveis, sob o sol © inseguros ~ induzem os moradores a preferirem 0 uso de vetculo particular. Estamos em um momento no qual as incertezas sio muitas, tanto eco- nomicas quanto ambientais e sociais. A questo dos carros é bastante com- plexa e urgente, pois a oferta de petréleo barato ndo voltaré a acontecer; 08 subsdios sfo’insustentaveis, tanto para o combustivel féssil quanto para © incentivo a venda de um meio de transporte do século XX que precisa ser revisto com urgencia. © petréleo restante na natureza est em Iu de dificil acesso, como no fundo dos oceanos ou nas areias betumin ro Canadé, onde sua extracdo elimina as florestas e dé lugar a vastas regi- im todos os casos, & preciso investir em alta tecnologia € processo de prospeccio e extragio. Os impactos que causam “externalidades” negativas nio sio contabilizados e precisam ser actescidos ao custo real da gasolina e do éleo diesel. A degradacio ambiental real e potencial se volta contra a prépria humanidade. O pico do petréleo muito provavelmente ocorreu em 2010, ¢ 0 aumento exponencial da venda de automéveis tem dias contados. Portanto, basear a economia fem incentivos 2 carros particulares é tentar manter o insustentavel, € 0 prego a ser pago no futuro préximo nao deverd ser pequeno. (© que vemos na maioria das cidades brasileiras, de varios tamanhos, 6a imobilidade urbana, com permanentes engarrafamentos causados pelo excesso de veiculos ¢ longas distancias percorridas em movimentos pen- dulares casa-trabalho-escola-lazer. Essa é uma forma de transferéncia de responsabilidade para o individuo daquilo que deveria ser atribuicio do Estado: prover sistemas de transporte multimodais, eficazes e néo poluen- tes, além de habitagdes sociais integradas no coracao das cidades, e néo em regides distantes e mal servidas de meio de transporte coletivo. Portanto, é urgente a mudanga de paradigma, com investimentos em planos € | ambiental ¢ socialmente compativeis com 0s desafios do terceiro, tempo de mudangas climaticas ¢ enormes ti Fontes alternativas de energia esto para reduzir as emissoes de GEE. Elas serao economicamente vidveis quan- do os precos dos combustiveis fésseis passarem a ser reais, com a retirada de subsidios a contabilizacdo de suas “externalidades”. Isso é especial- mente relevante para a mobilidade nas cidades: no caso de alta dos precos ou ruptura no abastecimento de gasolina e diesel, as mais preparedas para que priorize o pedestre e 0 ciclista como meio de mobilidade cotidiana, 0 transporte de massa sobre trlhos para distincias maiores — 0 qual, além de ser ambientalmente compativel, ainda é melhor socialmente por ser_mais democritico: permite que pessoas de todas as origens sociais e culturais pos- tan rooney nena | 3 sam conviver enquanto citculam pela cidade. O ideal é a multimodalidade, isto & a combinago e a articulagio de diferentes meios de transportes no poluentes e de baixo impacto na paisagem, com capacidade de movimentar volumes de pessoas de acordo com as demandas los Leves sobre Trilhos), énibus, BRT (com combu: forma ecolégica e socialmente correta, sem 2 emissio de Ci de parada e as estagGes de transporte de massa devem ser fécilacesso, com interconexéo entre os diversos modais. Além di concentra a oferta de comércio e servgos nas proximidades. O objetivo & is de conforto e seguranca, para que como meio de transporte em reas residéncias, comércio e servigos em espagos vivos e atraentes, sombreados ppor densa arborizagao. As calcadas devem ser amplas, arborizadas, conforté- vveis e seguras. As ciclovias devem ser separadas fisicamente do transito de ‘estimular o seu uso, com bicicletérios em pontos estratégicos. Nos cru- zamentos, pedestres e ciclistas devem ter prioridade sobre os velculos, por raz6es 6bvias: a lataria das miquinas protege seus ocupantes de impactes, cenquanto as pessoas expostas sio sempre vulneriveis a qualquer esbarrio. "Na Europa, é comum as pessoas safrem de casa, andarem a pé 500 metros ‘ou pedalarem de oito a der quilometros atéo meio de transporte de massa que os leva ao trabalho ou a rea de lazer. Na volta, fazem o trajeto inverso, Isso é ‘bom para as cidades e para as pessoas: ambos ficam mais saudaveis jéncia neste novo século é que ndo s6 0s sistemas de transporte nntem o planejamento € o projeto, mas também que sua implantacao ocorra antes do inici sfo necessirias novas ar trilhos no foram desat portes, B possivel sar todo © continente de mas de bondes ¢ os modernizaram, década de 1990, L4.0 metr6 é centenério e, tem papel central no sistema de mobilidade multimodal. Deu tio certo que iniimeros novos bairros europeus passaram a usar essa metodelogia de planejamento urbano. As cidades de Freiburg (ecobairros de Vauban ¢ ), na Alemanha, e Estocolmo (ecobairro de Hammarby), na Sué- ia, sdo dois bons exemplos de implantacZo de VLT's antes da construglo de novos bairros (figura 3.7). Para uma real mudanga de meios de transporte, seré preciso tera visdo de que construir mais vias para carros s6 piora o problema da imobilidade outros insumos que podem gerar menos impact como as algas marinhas, Como os carros individuais ndo deverio desaparecer das cidades, William Mi do Massachusetts Institute of Technology (MIT), pro- pos a sua reinvengio: a transform: modelo predador do meio ambiente em um novo veiculo, com conceito totalmente diferente. Ele R 1x on198 0 sep re Eup voy | || I a s Bozs0H Mose 21199 | , associados & GM, desenvolveram um sistema de veiculos .grados a redes de internet com “novo DNA". Séo movidos rica © hidrogénio, dirigidos e controlados eletronicamen- igentes € interconectados por sistemas virtuais (softwares) em ‘So pequenos, ndo poluentes ¢ seguros, pois o sistema permite evitar colisdes. O seu projeto € dobrével, e 0 veiculo ocupa pequenos ‘espacos tanto para circular quanto para estacionar. Esse carrinho permite ‘uma total renovacdo na infraestrutura dos transportes urbanos, com mais cespaco para calgadas arborizadas e prioridade para pede cicletas € veicules de massa. ‘O conceito de bicicletas de aluguel répido em pontos estratégicos, que se espalha pelas cidades de todo 0 mundo, atualmente se estende para a mobilidade urbana “sob encomenda” (“mobility-system-on-demand”)."* Na verdade, 60 comego de uma mudanga de paradigma: em vez de possuir tum veiculo que seja usado para tudo, as pessoas passam a alugar de acordo ‘com a necessidade do momento. Isso jé acontece em alguns lugares, onde lugar um carro ~ por tempo limitado na hora em que precisar - e poder devolvé-lo onde preferir se tomnou tio simples © ripido como alugar uma bicicleta, O Zipcar,” por exemplo, atua em indmeras cidades americanas, canadenses e inglesas oferecendo carros para todas as necessidades € gos- 10s, J4 0 Autolib* oferece, em Paris, vefculos elétricos para duas pessoas, que podem ser pegos em um lugar e devolvidos em outro, de forma sim- ples e barata (figura 3.8). O car2got! tem o mesmo conceito ¢ nasceu ert San Diego, na Califérnia (EUA), mas jé esta ganhando novos mercados, como Vancouver?*(Canadé). Em Israel, 0 CAR2GO™ € um pouco dife- rente, mas mantém 0 10 de aluguel 4gil e convenient éuma realidade que dé flexibilidade e liberdade para as pessoas usarem 0 meio .sporte de que necessitam em determinado momento, sem precisar possuir um veiculo e incorrer nos custos ¢ aborrecimentos inerentes & propriedade. fq 3 8=00s cae osama a A mts. Not ePaper ‘um veiculo de baivo impacto e balxo custe, de forma rapida e convenente. oe =e Dessa forma, © mercado de consumo de carros se tomaria um mercado de prestacio de servicos, com imensos ganhos ambientais e qualidade de vida urbana. O conceto geral é 6 de modulagéo de oferta, que atende aos diferentes momentos e necessidades dos usuérios. Comesa pela bicicleta, passa pelo scooter (conhecido antigamente, no Brasil, como Lambretta ou Vespa), pelo carro elétrico para duas pessoas com pequeno bagageiro, até carros maiores para familias e grupos. Estudos comparativos entre 0 uso de bicicletas versus 0 de automéyeis itos e apontam enormes vantagens para a bicicleta, canto quanto para a cidade quem vai de bicicleta acaba chegando dos vefculos, presos em engarrafament que se construam novos estacionamet ras de pico, a velocidade média do trar em razio da imobilidade escassez de vagas, por mais sm Paris, por exemplo, nas ho- to de vefculos é de 16,6 km/hora, enquanto a velocidade média do ciclsta ¢ de 20 km/ora* Além disso, 0 ‘elisa nfo precisa procurar vaga para estacionat. Os custos de andar de bicicleta sio minimos: 0 valor de sua compra e dos equipamentos de se- ‘guranga necessdrios (capacete, luzes de seguranca, trava, etc.). Os custos dos carros sto petmanentes, pois demandam combustiveis, manutensio, toca de leo ¢ de pneus, estacionamentos pagos (que esto cada vez mai caros), pagamento de impostos e taxas ~como 0 IPVA e o segur rio anual -, sem falar em sua desvalorizacao na hora da venda. Alé # ‘ozsoH moaeI0 eNI980) cs carros sio altamente poluentes, uma das maiores fontes de emissio de CO? das cidades, o que se traduz no aumento de doencas respiratérias e do rias, sofrendo de tensio e = sem falar no nimero de A Holanda posst is que cobre todo © pais hd dé- ‘maior parte do ano. Copenhagen, 1e no que diz respeito a mudar 0 uso dos espagos de transporte na cidade. 2 inceressante observar que o Ameria way ta das paisagens a0 redor do mundo, no século XX. Em contraponto, ¢ apren~ dendo com os europeus, atualmente existe, nos Estados Unidos, um forte mo- ‘vimento para transformar as cdades em melhores lugares para se viver. Areas turbanas onde as pessoas podem fazer tudo a péou de bicicleta, com meios de transporte sobre trilhos, como VLT's e mett6s, sao mais procuradas e valem ‘0 mercado imobilirio percebea isco e tem investido nessa tendéncia Paises altamente dependentes de automéveis, como os Estados Unidos 12, esto vendo 0 Desenvolvimento Orientado pela Mobilida- como um meio de construir € semas urbanos para que sejam sustentaveis, O objetivo é 10s ~ residencial, comercial ¢ de servigos ~ a um sistema modal de baixo impacto, promovendo alta qualidade de vida e desenvolvimento econémico local (ver anexo 2, p. 303). tendéncia é uma realidade, principalmente a partir da crise de sm a explosio da bolha imobiliéria nos EUA. Foram varios os mo- se - um deles, a mudanga de perfil do comprador de iméveis ais daquele 5 tltimas décadas, apresentando uma nova configuracio demogréfica, com mais pessoas morando sozinhas, familias ‘menores e a preferéncia por lugares préximos ao trabalho, lazer, ativida- des culturais e éreas verdes. O alto custo para a manutengio de casas em grandes lotes é um fator importante na hora de escolher iméveis urbanos. ‘A nova realidade do setor imobilidrio americano se refiete em um in- dicador que ajuda a quem procura um local para morar com mais quali- dade de vida e menos dependéncia dos cartos no cotidiano. fo indice de walkability ~ quer das cidades que proporcionam mai sitio da intemet Walkscore ~ Driv ‘menos. Viva m: possivel verificar independente de veiculos. Muitas cidades possuem excelentes exemplos bem em seu coracio: iméveis localizados nas idades, onde se concentram as atividadles urbanas mais importantes, s40 mais procurados e mais valorizados do que ratando de locais com residéncias de alto stantes. Nova York, Paris © Londres sao al- more (Indicador de 1a quio “cami is que proporcionam vida Os empreendimentos imobiliérios com ruas sem saida ~ ou culde-sac ~ cada vez tém sido menos procurades, pois requerem alto custo de manu: tengo e obrigam seus moradores a enfrentar longas horas dentro dos ve- 9s, oferecenco menos possibilidades de socializagao e convivencia em ‘Além de tudo, ainda contribuem significativa- ‘mente para a insustentabilidade locale global. Cidades densas como Nova York € Londres possuem pegada ecol6gica muito menor do que cidades espraiadas como Los Angeles ou Atlanta, Esses casos devem se repetit em paises como o Brasil, onde a elevacao dos custos de mio de obra e manu- fe lugares abertos e publ de areas verdes -, vao atrair as pessoas em busca de uma vida urbana com ‘maior possibilidade de interacdo e coesio social. para que haja uma mudanga do comportamento enraizado pela cultura do aucomével, sera preciso que haja reais restricdes circula- fo de veiculos, com menos pistas para circulago, cobranga de impostos taxas cada vez mais restritivos, estacionamentos mais difices e caros, por exemple. Ao mesmo tempo, os transportes altemativos precisam ser da melhor qualidade e financeiramente compensatérios. € 08 velculos de servicos ~ como caminhées, ambulncias, cazros de policiamento e de bombeiros ~ sio importantes e de- ‘ver ser projetados para que poluam menos e possam circular parar de forma planejada, Precisam set incorporacios ao sistema circulatério para permiti real ‘mabilidade urbana. As vias construidas para o trénsito pesado precisam ser planejadas em sistema fundamentado em ecologia de estradas, para manter os processose fluxos naturals que ocorrem na paisagem (Bigura 3.8), 2 £ sommes | Four 8.9 Foto tad ce trem daa velocidad entre Fequm Taj, na Cina As as esto sero bascadas er estudos de ecologie de paisagens,convvendo com os processos @funns as Aguas e viodvesidae,Desse maco,possibltan a uizapao das areas sob as imensas ra lz, produgio oe alrnntase rooiidae de bebo impacto ~ pedestes Os impactos de aterros ¢ desmatamentos para a implantacio de vias podem ser imensos, com repercussdo, ao longo do tempo, nos outros sis- temas, Frequentemente ocasionam enchentes, redusio da biodiversidade, poluigio do ar, das aguas e dos solos, aumento de doencas, além de perdas ¢ danos ambientais, sociais ¢ econdmicos, muitas vezes incalculéveis CCidades com sistema circulatorio de baixo impacto sio mais saudiveis, 1m pegada ecolégica menor, oferecem melhor qualidade de vida as pes- soas: mais satide e menor custo em seguridade social ~ portanto, maior produtividade, Além de tomarem seus moradores mais felizes e menos estressados, ainda atraem mais empresas da nova economia e turistas. caso de Seul, na Coreia do Sul, é impressionante, pois era uma cidade igual a Sto Paulo e, em pouco tempo, fez a opcio pelas pessoas ¢ pela natureza, com a redugio de carros e a reintroducio de areas naturais. O nimero de ‘empresas de tecnologia e de visitantes cresceu de forma espetacular. Hoje, Seul é considerada modelo de cidade que estd em processo acelerado de ‘mudanga de paradigma, com foco nos fatores sociais, ambientais, culeurais ce econémicos. & um dos estudos de caso que apresento no préximo capt- tulo (ver cap. 4, p. 241) (© Sistema metabélico © ecossistema urbano € aberto, isto é depende da entrada de enorme quantidade de energia e matéria para manter seu funcionamen linear (ver cap. 2, p.94). Em consequéncia, gera saidas de residuos s uidos e gasosos, que, se ndo forem devidamente tratados, contamina lo e éguas. As cidades requerem imensa quantidade de energia, égua e alimentos, que, em geral, vem de fontes distantes. Os fluxos de energia e matéria s2o lineares quando se extraem recursos naturais para a produ¢ao de bens, que sio usados e descartados, acabando em lixdes ou nos corpos égua. Esse fluxo & conhecido como um proceso que vai do “berco ao tdmulo”, causando tremendos danos ambientais, como o estoque de gases, na atmosfera, a poluigo das aguas e, ainda, 2 necessidade de Areas para es- tocar 0 desperdicio: aterros sanitdrios, “lixdes” e, em muitos casos, encos- tas € rios. Além disso, nfo sfo aproveitados os recursos naturais contidos ‘nos produtos descartados. A infraestrutura verde busca o fechamento dos ciclos metabdlicos de forma circular, com a produsio local de energia, de alimentos e do aprovei- tamento e transformacao dos residuos sempre que possivel. Em geral, 0s, materiais descartados so recursos naturais que poderiam ser reutilizados no ciclo de produgio, com redugio da quantidade de efluentes e residuos sélidos, conforme a proposta “do bergo ao bergo” (Cradle-to-Cradle de ‘McDonough e Braungart, 2002) que, adaptada as cidades, Se traduz na ci- dade regenerativa, que fecha os ciclos de entradas e saidas localmente (ver cap. 2, p.95, figura 2.9 - Cidade regenerativa). ENERGIA ‘No Brasil, remos uma matriz energética considerada limpa, por ser gera- da, em grande parte, a partir do represamento dos rios. No entanto, as gran- des usinas se localizam distantes dos centros consumidores e dependem de extensas redes de transmissdo para chegar até o destino final. A vulne- rabilidade e a perda de energia nesse processo so consideriveis. £ comum acontecer tempestade que ocasione interrup¢io no fornecimento, deixando ‘idades e até mesmo regides inteiras sem energia, paralisadas por horas. S40 (8 conhecidos black-cuts ou apagies.”* ‘A geracéo de energia hicrelétrica tem sido questionada também por causa dos impactos gerados pelo represamento de rios (a comegar pelas areas inundadas para dar lugar as represas, que destroem florestas ou éreas, agriculturdveis, muitas vezes com impactos sociais e culturais imensos):® voc ones sepa eed euipes cron | FB 3 8 bonny eames nen | © alagamento de vegetagio acaba liberando gés metano, mais nocivo do que 0 CO®. Além disso, essas éreas alteram a ecologia regional e local, com reflexos na biodiversidade, na qualidade das éguas a jusante, nos fluxos mi- gratbrios reprodutivos dos peixes, e no clima ~ 36 para citar alguns impactos. Construida na década de 1970, a monumental represa Nasser, em Assud, no Egito, mudou completamente os ciclos responsiveis pela ma- nutengéo da fertilidade natural das margens ao longo do rio Nilo ~ por rmilénios, principal fonte de alimentos orginicos no pafs. A represa cau- sou ingmeros impactos e resultados bastante controversos. Atualmente, 0 Fgito depende de importacio para alimentar a sta populacio. A gigantesca hidrelétrica Trés Gargantas, na China, represow as Aguas do rio Yangtze"? e ficou pronta em 2006. ‘Acenergia gerada diretamemte pela natureza, como solar ¢ el sendo largamente empregada em diversos paises. Seu custo tem-se tor- nado mais acessivel, com o desenvolvimento de novas tecnologias” Na zona norte do Rio de Janeito, foram implantados painéis solares na sede da ‘ONG Verdejar, que atua na serra da Misericérdia, com baixo custo, dando maior sustentabilidade e resiligncia a suas operacdes. Os painéis fotovol- taicos podem ser combinados com tetos verdes, que coletam as dguas das chuvas para uso secundério. A cidade de Freiburg, na Alemanha, é reconhecidamente uma cidade verde, ou, como se autointitula, “Cidade Solar”, em grande medida pelos investimentos que foram feitos na geracio de energia por fontes renova- , principalmente a solar (ver cap. 4, p. 186). ‘A energia gerada no local aumenta a sustentabilidade ¢ a resliéncia urbana, pois nfo é vulnerével a eventos externos. Existe um enorme po- tencial na matéria organica descartada, que acaba por poluir corpos d’agua emitir GEE. Aterros sanitirios e biodigestores anaerdbicos,” usados em ‘esgotamento sanititio, podem ser fontes de biogas, fechando os ciclos no local. Além da produgéo de energia, os biodigestores oferecem enormes vantagens ao eliminarem a descarga de efluentes nos corpos d’égua, a0 tratarem os esgotos localmente, e, ainda, produzirem biofertilizantes. Mais uma vez, fecha o ciclo trabalha com @ natureza. Quando se fala em energia, nfo se deve pensar apenas no suprimento, ‘mas nia conservasio € redugao do consumo, ou seja, na eficiéncia ener- gética. Isso pode ser feito com a vedacio de janelas e portas, e melhor isolamento térmico das edificagSes, com tetos e paredes verdes. O planeja~ ‘mento da localizacio adequada e 0 projeto arquiteténico também so fato- res importantes para a melhoria climstica e redugdo do consumo de enes- esté sia em refrigeracdo e aquecimento. A otimizagao da ventilacao natural, a utilizagdo de materiais adequados a cada clima, o projeto de isolamento/ sombreamento de areas onde @ insolagéo € intensa, sfo alguns exemplos. A arborizacdo desempenha fungGes essenciais ao eficazmente reduzir as temperaturas ¢ o uso de climatizagio artificial, quando projetada de forma integrada com a arquitetura. A educagio e conscientizagZo dos moradores sobre as fontes de ener- sia —como sao geradas, de onde vém e quanto se economiza ao racionalizar © consumo — também sio fatores importantes na mudanca de comporta- mento necessiria para enfrentar as enormes incertezas que advém das mu-