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CARIOLOGIA – MICROBIOTA ORAL

INTRODUÇÃO

A boca não é um sítio ecológico único, mais apresenta vários sítios ecológicos, cada qual com suas características ambientais próprias e com sua microbiota peculiar. Por exemplo:

Microbiotas

Superfícies mucosas lisas

Mucosa do dorso lingual não lisa

Superfície dental sadia

Superfície dental cariada

Sulco gengival sadio

Bolsa periodontal

Analisando como um todo, a microbiota bucal é a mais complexa de todo o nosso corpo, pois é muito extensa e apresenta grande número de espécies. Uma visão panorâmica dos microorganismos encontrados na cavidade bucal é de grande importância para perceber que há relações ecológicas ocorrendo em todo momento na cavidade bucal. De acordo com Jorge (2012), a cavidade bucal pode servir como um reservatório potencial para quatro grupos: bactérias, fungos, vírus e Archae, sendo as bactérias cariogênicas o foco principal do presente trabalho.

CARIOLOGIA – MICROBIOTA ORAL INTRODUÇÃO A boca não é um sítio ecológico único, mais apresenta vários

CARIOLOGIA – MICROBIOLOGIA ORAL Processo aquisição crescimento e multiplicação A aquisição dessa microbiota residente ocorre no nascimento e é um processo natural. A diversidade da microbiota oral aumenta durante os primeiros meses de vida. Os colonizadores de um local são instituídos “espécies pioneiras” e são os estreptococos. Com o tempo, anaeróbios gran-nativos aparecem, incluindo Prevotella Malaninogenica, Fustobacterium Nucleatum e Veiollonella sp. A erupção da dentição

cria novos habitats para a colonização microbiana porque os dentes provêem as únicas superfícies do corpo que não se renova no qual a microbiota residente pode normalmente se aderir. Isso resulta em acumulo não perturbado de uma grande massa de bactérias especialmente em locais de estagnação. A placa bacteriana é um exemplo de biofilme microbiano, a descamação assegura que a carga microbiana sobre a superfície mucosa seja relativamente baixa embora acúmulos e substancias de bactérias possam desenvolver sobre a língua. A microbiota oral continua a aumentar em diversidade até, eventualmente, ser alcançada uma situação estável, denominada comunidade clímax essa comunidade permanece estável no decorrer do tempo, apesar da existência de perturbações menores no ambiente local devido à dieta, níveis hormonais higiene bucal, etc. A esta é denominada “homeostase microbiana”, no entanto, essa não é uma resposta passiva do organismo, e sim os refluxos de um equilíbrio altamente dinâmico entre a microbiota residente e as condições ambientais locais naquele lugar especificam do hospedeiro. Uma mudança maior no habitat pode levar ao desequilíbrio entre as espécies que compreendem a microbiota residente, e como consequência disso pode haver aumento da predisposição à doença. O reconhecimento e a aceitação dessa relação ecológica podem levar identificação de novos métodos de controle da carie dentaria.

Formação do biofilme ou placa dental

As bactérias hidrolisam a sacarose que gera glicose e frutose. Em seguida as sintetases polimerizam a glicose em mucopolissacarídeo glicano e a frutose num polissacarídeo levano ou fructosano. O mucopolissacarídeo glicano é ramificado e tem alta taxa proteica, formando uma película gelatinosa de alta viscosidade que se adere firmemente à superfície do esmalte, protegendo os microorganismos no seu interior. A glicose e a frutose livres entram na via glicolítica dos microorganismos gerando produtos ácidos. Ao mesmo tempo, o metabolismo de lipídeos e proteínas ocorre na placa dental originando ainda mais ácidos. A formação ocorre por processos de aderência, sendo elas: aderência inicial a superfície da película adquirida e subsequente proliferação, e a agressão das bactérias as células já aderidas permitindo o acúmulo de placa. Ocorrem interações durante a aderência inicial entre as bactérias específicas e a película. Na fase subsequente da formação da placa estão envolvidos bactérias, produtos bacterianos, matriz Inter microbianas, hospedeiros e fatores dietéticos. A colonização inicial da superfície dental é constituída por Streptococcus sanguis; Streptocuccus oralis e Streptococcus mitis biotipo I; São encontradas também Actinomyces e bactérias gram-negativas. Apenas 2% ou menos da microbiota inicial de estreptococos, independentemente da exposição do indivíduo à sacarose pertence aos estreptococos do grupo mutans.

Microorganismos cariogênicos

Os principais microorganismos causadores da cárie são os estreptococos do grupo mutans, especialmente o Streptococcus mutans e o Streptococcus sobrinus. Esses patógenos são capazes de colonizar a superfície do dente e produzir ácidos em velocidade superior à capacidade de neutralização do biofilme em ambiente abaixo do pH crítico (menor que 5,5), permitindo a dissolução do esmalte. O principal reservatório dos estreptococos do grupo mutans é a cavidade oral, e a infecção da criança depende do nível de infecção da mãe ou da pessoa que mais tiver contato com ela.

Outros microorganismos envolvidos, como os lactobacilos, encontram-se

associados à progressão de uma lesão já instalada, e não à iniciação da cárie propriamente dita.

Dieta cariogênica

A sacarose é o alimento cariogênico mais importante e mais amplamente utilizado pelo homem. Tem o poder de transformar alimentos não-cariogênicos e anticariogênicos em cariogênicos. Outros açúcares envolvidos na cariogênese são a glicose e a frutose, encontrados no mel e nas frutas. Uma simples exposição aos

alimentos cariogênicos não é fator de risco para cárie, e sim o frequente e prolongado contato desses substratos com os dentes.

Hospedeiro suscetível

Os fatores de risco do hospedeiro para o desenvolvimento de cáries são: esmalte pós-eruptivo ainda imaturo; presença de defeitos no esmalte, caracterizados especialmente pelamorfologia e características genéticas do próprio dente (tamanho, superfície, profundidade de fossas e fissuras); e alinhamento dentário. Assim, a cárie começa com a infecção primária pelos estreptococos, seguida pelo acúmulo destes dentro do biofilme em concentrações patogênicas, secundária à exposição frequente e prolongada a uma dieta cariogênica. Por fim, a fermentação de açúcares pelos estreptococos no interior da placa dental causa a desmineralização do esmalte, resultando na cavitação das estruturas dentárias. Com o amadurecimento da microbiota ocorre uma troca de placa, anteriormente denominada Streptococcus para uma placa denominada por Actinomyces denominada sucessão microbiana a qual ocorre porque a bactéria pioneira cria um ambiente mais atrativo para os invasores secundários ou muito mais desfavoráveis para si mesma devido à falta de nutrientes ao acúmulo de metabólitos inibidores. O aumento da espessura dos depósitos microbianos ocorre uma diminuição da concentração de oxigênio, favorecendo uma troca progressiva de espécies principalmente aeróbias e anaeróbias facultativas para uma situação de predomínio de espécies anaeróbias facultativas e microrganismos anaeróbios.

Mecanismos de Aderência

Retenção Adesiva – possibilita que as bactérias tornem-se aderidas à superfície dos tecidos bucais:

  • a) Glicocálice bacteriano – conjunto de estrutura de natureza polissacarídeos, situadas nas externamente à parede celular bacteriana, a qual se conectaa superfície dentária.

  • b) Adesinas – moléculas que reconhecem receptores específicos da superfície dentária.

  • c) Camada de hidratação – cobertura ou camada muito próxima à superfície dentária com presença de íons livres que preenchem o espaço entre as cargas (+/-), podendo agir como fator de união.

  • d) Polissacarídeos extracelulares (PEC) – produzidos pelas células bacterianas possuem algumas funções importantes, entre elas adesão/coesão sobre as células bacterianas e reserva energética. Os PEC possuem propriedades importantes e têm considerável importância ecológica pelo desenvolvimento da placa bacteriana. Muitos são aderentes e insolúveis, o que os torna mais resistentes á degradação bacteriana bucal. Os PEC aglutinam células bacterianas, ou seja a ligação das células bacterianas às superfícies dentárias é mediada pelas proteínas da Película Adquirida e pelas adesinas na superfície bacteriana. A ligação subsequente envolve o acúmulo celular mediado pelos glucanos produzidos pelas bactérias.

  • e) Polissacarídeos intracelulares (PIC) – os polímeros intracelulares presentes em bactérias bucais são representados pelo glicogênio (ou amilopectina), que corresponde a um

polímero da glicose. O glicogênio e utilizado como reservatório de carbono e energia, sendo produzido quando ocorre excesso de substrato no meio.

  • f) Polissacáridos salivares – os constituintes salivares estão envolvidos na fixação inicial, bem como na acumulação de determinadas bactérias ao esmalte, (Ex. S. mutans, S. sanguis, S. mitior e A. viscosus–agregam-se quando incubada com saliva).

  • g) Aderência entre microorganismos – constituintes de superfície de uma espécie bacteriana, possuem capacidade de se ligarem a outros da mesma espécie ou espécies diferentes. g) Retenção não adesiva – retenção mecânica nas fossas, fissuras de dentes, lesões de cárie, sulco gengival ou bolsa periodontal. (Ex. lactobacilos, espiroquetas, fungos, etc.). Fatores primários – A cárie é considerada uma doença infecto-contagiosa, multifatorial, desencadeada por três fatores individuais primários: microorganismoscariogênicos, substrato cariogênico e hospedeiro (ou dente) suscetível. Esses fatores interagem num determinado período de tempo, levando a um desequilíbrio no processo de desmineralização e remineralização entre a superfície dentária e a placa (biofilme) adjacente. Fatores Secundários – A saliva tem como função limpar a cavidade bucal, eliminar substancias regular acidez, neutralizar enzimas bacterianas e manter a integridade dos dentes e dos tecidos moles. A aquisição da cárie em jovens não está associado á deficiência salivar, porém, em idosos é comum a associação, pois com baixa secreção salivar maior risco de cárie. A saliva estimulada tem maior efeito tamponante do que a não-estimulada. Os indivíduos que apresentam baixa atividade tamponante também possui baixo fluxo salivar. Com constante estimulo salivar apresenta maior velocidade de fluxo salivar, consequentemente, maior capacidade tamponante. Fatores Terciários – Idade, grau de escolaridade, nível socioeconômico, condições de saúde geral.

REFERÊNCIAS:

ARANHA, F. L. Bioquímica odontológica. São Paulo: Sarvier, 2ª ed., 2002.

DE LORENZO, J. L. – Microbiolgia para o estudante de odontologia. São

Paulo: Editora Atheneu, 2004. FEJERSKOV, O.; KIDD, E. Cárie dentária: a doença e seu tratamento clínico.

1ª ed. São Paulo: Santos, 2005. JORGE, A. O. C. - Microbiologia e imunologia oral. Rio de Janeiro: Editora

Elsevier, 2012. JORGE, A. O. C. – Microbiologia bucal. 2ª ed. São Paulo: Livraria Santos

Editora, 1998. KRIGER, L. ABOPREV – Promoção de Saúde Bucal. 3ª ed. São Paulo:

Editora Artes Médicas, 2003. Pereira A. C. Odontologia em saúde coletiva. Porto Alegre: Artmed; 2003.