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Existe

o
Inferno?
Provas pedidasao bom senso

P. Lacroix

"Não quero quo se tenha uma


philosophia para as scisncias o ou-
tra para a religião.t'
PORTALIS
("Do uso e abuso do espirito
phiÌosophico")

2,' edíçãoaccurada

Taubate
Publieações S. C. J.
NÌHII/ OBSIA|I
S. Pauli, 24 Decembris 1929
Mons. M. Ladeiro
Censor

IMPR,IMAIUR
Mons. Pereíra Barros
Vigario Geral

REIMPR,IMI PO1IESI
Taubaté,15 outubrts 1937
P. P. Storms
Praep. BroY. brasil.
EXISTE
o .*

INFERNO?

PREFÃCIO

Existe o Inferno? - Eís ahi uma questão


graoe,grauissímalSi existe,o homem sensatodeve,
a todo momento, ter em conta essaespantosarea"
lidade e tomar as suasprecauções.
Como, porém, prouat que o inferno realmen-
":ï te existeou não existe?Para a legião dos homens
i.ì+Ì que não têm fé, não adianta o testemunhodesta.
Mas, como todos os que négam a existencia do
inferno appellam paru a nzão humana, afim de
pÍovar que essacÍença está em contradicçãocom
ella, e que portanto o inferno não existenem póde
existir, vale a pena fazermos uma revisão dessas
provas e estabelecer exactae extensamenteos prós e
os contras, de modo que quem se interessarpela
realidade dos factos possa examinal-a comnosco
e tirar as suasconclusões.
Veríficando, de facto, neste opusculo os prós
Prefaeio

sobre a existencia do infernq, níngumt tçá entre-


tanto motíuo de ficar mal ímpressionado corn o
s úgor da justíça díoina, como si elle fôsse excessr'L'o
ou ínjusro. ,{. leitura das paginas que tratam da
justiça de Deus não dispensa a das que tratam
das attenuantes. Quem 1êr os demais capitulos não
deve deixar de lêr igualmente a 9." pergunta, as-
sim como os capitulos VII, XI e XII. Por estes ;:
a
capitulos ficam os demais sufficientemente contra-
balançados. -
t1". "
O nosso paiz ê o paiz da excessivabondade e rt

Iiberdade, chegando-seaté â fraqueza e â indolen- l;


l,T
ji
cia, até ao abandono dos interessesmais legitimos i
t
e necessarios,até â indisciplina e a incriyeis de-
sordens. À indole nacional leça innumer3s pessôas
a suppôr tambem em Deus senaelhantesdefeiros,
a julgal-o bom dté â mollezâ, iaCulgente aré ás
'mais
absurdas transigencias. .Absolutansenre im-
mune está, porém, Deus de semelhantes faihas. e
J
I
por isto mesmo não quer nem póde abandocaÍ o I
mundo, em ultima instancia, á acção nefasra e
impune dos prevaricadores! Contra elles to6ou,
em ultima instancia, medidas efficazmen[e riqoro,
sas.
E' finalidade deste opusculo pôr elo ordem
pensamentos e sentimentos, corrigindo erroneos ì
I
Prefacio õ

conceitosque tantos f.azemde Deus. Com uma só


pinceladanâo é,possivelfazer um quadÍo, nem tão
pouco dat ídéa clara e peúeïta sobre assumptotão
complexo e contradito.No quadro a pintar,,está
visto que nos deviamospreoccuparmuito mais com
a sombra do que com a luz. Nem por ísto, entrer
tanto, estafalta paÍa completal-o,como o attestam
os capitulos assignalados.
A eternidadedo inferno permanecerósempre
um mgstedo tenebrosoe profundo, Só podemos
tentar comprehendel-a um pouco, eÍn facede outra
realidadenão menos ímmensuravel,â luz de ttm
céu de gloria e de felicidadeque devemosconquis-
tar emquanto estivermos neste mundo. Só pode-
reÍnos tompreh'ender melhor [a immensidade da
vindicta de Deus, avaliando devidamentea im-
mensidadedos beneficiosque Elle largamentenos
prodigaliza nesta vida, para conquistarmos o céu
e evitarmos o inferno; avaliando devidamentea
rcalidadeestupendade um Deus crucificado, eu€,
na sua infinita misericordia,se nos entregou no
SantíssimoSacramento,e que nos legou sua pro-
pria Mã e, para ser nossa mãe e advogada,nosso
perpetuo soccorro.Nestas uerdadestodas, estupen-
'das
e mognífícas, ancóts-se diuínamente a êterní-
dade do ínferno!
6 Prefacio

à considercçãode todas essasrealidadesdeve


afugentar-nosdo espirito não só a falsa seguran-
gã, como tambem todo desesperoe desanimo, e
ffumar nelle uma médía admíravel de temor, con-
fíança e amor de Deus, juntamente com toda bôa
vontade para Íazermosos sacrificíosrequeridospara
e v i t a to m a l e f a z e r o b e m .
Oxalá encontreo leitor na leitura desteopus-
culo o freio salutar contra o mal do peccado,e e
estimulo precisopara obsewar os mandamentosde
Deusl Melhor resultadonão podemosesperarnem
ambicionar.
O auroR
TNDICE
INDICE . . . 7
PREFACIO 3
r - TNTRODUCçÃO 9
II _ NOÇÕES PRELIMINARES l9
III - l.' PROVA: A) A e*istencin d,o ãnferno ë
imprescindiael para garantir ao tnund,oa boa'
ofdem....r 32
1.' PERGUNTA: Como se concilia a liber-
dade com o constranginrento moral ? 44
2.' PERGUNTA: Constitue a existencia do
inferno offensa ao brio de alguem? 46
3.' PERGUNTA: O motivo de interessetem
ou não valor moral? . . . . . . . 50
4." PERGUNTA: O motivo de medo do in-
ferno tem ou não imPortancia moral ? 53
B) O inferno correspond,eperfeitamente aos
castigos ila iustiça humana 63
5.' PERGUNTA: Como é que a justiça hu-
mana se pa.rece e concorda com a divina ? ()6
6.' PERGUNTA: Com o justiça humana
ainda é precisa a divina para manter a ordem
no mundo? . 7r
lV - 2.' PROVA z O inferno é nccessario Púra'
garantir a Deus o seu soberana ilominio 80
7.' PERGUNTA" E' ou não o hometn res-
pousavcl pelas condições da sua intelligencia
e vontade? . 87
V - 3." PROVA : A natureza do peccado gyave
reclamo o inf erno 10,{
8." PERGUNTA: A culpa do peccadotor-
na-se leve pela circumstanciade não se co-
'
nhecer a Deus a Íundo? n4
9." PERGUNTA: Si o inferno é o castigo
por uns actos tão fugitivos de paixão, não
carece de proporção? 115
10." PERGUNTA: Será injusto castigar
com castigos desconhecidos ? 135
11." PERGUNTA: Acaba com a morte a
provação ou a possibilidadede se converter
ou melhorar? . 139
VI -4." PROVA: O inferno é necessarioporque
o peccado:grüae repugna absoïutamèn,teá, in-
finita santidad,e e iusti,ça d,e Deus 15C
VII - Concilioção da Justiça de Deus com sua ht-
fi,nita miserícordia . t64
12.' PERGUNTA: Com a existencia do
inferno Deus pode ainda ser infinitamente
r bom e misericordioso?. . 164
VIII -- O uolor das proins . . 184
IX - Uniaorsalidade da crença, no ínferno 188
X-O
.;
christianiyno e o inferno 19ó
XI - Quaes sõo'oi homens euc trílham o rartinho
d,o infern,o?
XII - As causas frofundos da d,escrença.
Conclusão pratica . 2rr
EXISTE O INFERNOP
o QUE DrZ À SÃ RAZÃO

J. - fntroducção

SUMMARTO:
Qual o officio d.a razã"ono terreno da religião (p.'9).
Appellos indébitos do racionalismo para desacre-
ditar a religião e o inferno (p. 10). Os que re-
clamam contra o inferno e porque o fazom (p.
13). Varios motivos que levaram o autor a tratar
do assumpto (B. 14).

E' singular que os inimigos da relígião cos-


I
tumem inuocar a rozão em faoor da sua írreligíão
e impiedade, como si ella estivessedo seu lado.
Procuram, sinão substituir a fé pela razáo, pelo
menos sujeital-a índevidamentea ella.
Não ha duvida que, na exposiçãodas verda-
des da fé, se deve emprcgar a nzâo. Os proprios
motivos de credibilidade,os motivos por que se
deve ter religião e tal religião, são do dominio
da nzão, devem ser Ilor ellr verifiçados cotrÌo le-
10 Fe e razão

gitimos. Por isto S. Paulo afffuma (Rom., IZ, l)


que a nossafé é,rucíonal.Cada um deveriasabero
porque dessafé, afím de poder defendel-a(I petr.,
III, 5).
A fé encontra-se com a rczão no mesmoter-
reno. Às primeiras grandesverdadesda rclígiâo jâ
se acham gravadasna sã razão, de modo que são
de possecommum. Constitúem,em seu conjuncto,
o que se chama "religião natural", €Ín opposição
â "rcligião positíva revelada".
Póde-see deve-seusar tambem a sã tazão para
explanar os artigos de fê, documental-os,provar
uns pelosoutros; provar a sua derivação,successão,
concordancía,etc. Porém o que não é direito nem
Iicito é substituir a fê pela razão, ou ainda sujei-
tal-a ou adaptal-a a ella, experimentar a fê, pela
razão, de modo a acceitar.ou rejeitar o que lhe
parccer convenienteou não. E' ultrapassar os li-
mítes e o alcanceda tazão e enttat num terreno
desconhecido, onde ella não póde ter ceftezaalguma
para affírmar si uma vetdadeexistir ou não.
Essa tentativa não é de hoje: é multisecular.
Existiu em todos os tempos, mesrno desdeo co-
meço do christianismo. Nos tempos mais recentes
essatentativa cresceuainda mais, e atése condensou
num systema scíentifico chamado rocionalismo,o
Fe e tazão 11

qual produziu mais tarde o modernismo.Em toda


essa tentativa sempre se verificou uma luta of-
fensiva contÍa a f.é, sem, nem de longe, ser uma
luta confoÍme â nzâo. Semprese alliaram e alliam
a essaluta individuos gtosseirose sem instrucção,
que aproveitam as affirmaçõesgratúitas dos mais
adiantados e pretenciosos, pata rcclamat contra a
religião e suas imposições,como si esta não estí-
vesseno seu direito ou até thes devesse muito'
Nãol Eíles é que muito devem â rclïgiáo, e
esta é que tem o direito sagradode ser ouvida, re-
conhecida e acatadapor todos. Àssiste-lhe o di-
reito de ameaçaros recalcitrantescom os castigos
de Deus, e atê com o inferno eterno. Revoltam-se
e enfurecem-seos inimigos da religião contra os
seuspreceitose contra os seusrepresentantes, que
exigem obedienciaem nome de Deus e sob se-
melhantesameaças.
Inuocam contta elles a tazõo, a sciencíae a
experiencia,recorrendo a toda sorte de motivos,
possiveise impossiveis,contra a religião, como si
assim se pudessempreservar do castigo futuro'
Desde logo protestam contra a possivel condem-
nação, accusandoa Deus de injusto e atê.de mal-
vado. Embaraçados,appellam ao menos para e
sua prop úa nzão, como si nella achassemmotí-
12 Fé e razã,o

vos sufficientespara recusaras imposiçõesda rc-


ligião. E' uma justificação especiosa e vã !
Realmente,sí a ruzão e a verdadeobjectiva
estivessemde accordo com elles, então elles esta-
ríam de parabens.Poderiam desculpar-se e ser jus-
tificados da sua desobediencia, da sua indignação
pretenciosa,da sua irreligiosidade e impiedade.
Porém tal não se dá!
"Não ha sabedoriacontra Deus" assim
proclamaa sagradaEscriptura (Prov., 21,30), de
accordocom a bôa philosophia. "Por acaso- per'
gunta o propheta (Pr. 93, 8) em nome de Deus
- quem fez as ouvidos não ouve e quem fez os
olhos não enxerga?"Isso bem quer dízeti por aca-
so aquelleque fez a razão tão clan e tão lucida,
'tão
a vontade rccta e o coraçãotão bom, não
teria uma razão, uma vontade e um coraçãoin-
fínitamente superíor a todos e melhor do que se
póde imaginar?
Não se faz mistér a theologia paÍ:aprovar
isso.São o bom senso,a sá ruzão e a bôa phitoso-
phía que o provam de commum accordo.Consul-
tando a respeitoa bõa philosophía,é de vêl-a em
peúeita harmonia com o bom senso,a ensinar a
noção fundamental de que Deus é o Sêr Supremo,
irifinítamente perfeito em todos os s€ntidos. Ã não
Fé e razão 13

ser assim, Deus deixaria de ser Deus,' e nada, ab-


solutamente nada, poderia existir.
E' pois a recta razáo, aguçada e elevada pela
sã philosophia, que proclama essas verdades ptí-
mordiaes e basicasda vida humana e christã. Quem
não as acceitarcolloca-se em flagrante contradição
com a sua naturcza íntima. Quem não as acceitar
com simplicidade de creança, pela evidencia da sã
nzáo e de bom coração, corra a assentar-senos ban-
cos de uma bôa academia de philosophia, como
as ha em cada paiz. Vâ aprender scientifica-
mente o que toda gente bôa admitte como evidente,
i. é, que não ha sabedoria,nem rectidão, nem bon-
dade, nem perf eïção alguma contra Deus, ou contra
o que ELle fez. Depois leia este livrinho, ponderan-
do as :.azóesgravissimas e apodicticas em favor da
existencia do inferno, confrotando-as corajosamen-
te com as razóes em contrario. Reconcíliat-se-â
então com a verdade, vivendo depois de accordo com
a sua convicção.
Sim, a existencia do inferno! Eis o artigo
de fê que a tantos incommóda, alarma e contraría,
que a tantos assusta, kúta e atê,enfurece; verdade
tremenda, €fl que tantos pouco acreditam ou não
querem acreditar. São, primeiro, os que não querem
saber da religião positiva e das suas imposiçóes.
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74 Quemnegaa exist. do inf.


Não admittindo tevelaçãoalguma, menosainda ad-
rnittem as proclamaçõesda Sagrada Escriptura a
respeito do inferno. São os materíalisfas,que não
gostam de incommodar-secom o serviçode Deus;
não querem saber da vida de além-tumulo, do céo
e do inferno eternos. O pensamentode um possi-
vel inferno é-lhes horrivel, insupportavel,e elles
o rejeitam com toda a rcligião positiva, como si
não houvessenz6es inteiramenteconvincentesda
necessidade' da sua existencia; tal como, si por
tapar os olhos com as mãos pal.a não vêr o sól,
deixasseestede existir.
São ainda os peccadore,s que se levantam e
clamam contra o inferno, no seu desejode que elle
não exista. E' comprehensivel:querem o peccado,
mas não querem o castigo.Querendocontinuar a
peccar,põem em duvida o ínferno, como tudo mais,
para poderem tranquillamente entregar-seao pec-
cado. Fazer o mal acreditando numa justiça ete?
na, no castigoterrivel e certo do inferno, seriain-
conscienciaimperdoavel,uma crueldadepara com-
sigo mesrio, verdadeíraloucura! Não querem in-
correr em tal inconsequenciae absurdo, porém
antes,irracionalmenteduvidar de tudo. Essaincon-
sequenciaexiste tambem nos que têm fé e leviana-
mente assim mesmo peccam,agarrando-sedepois
Intentos do autor 15

á misericordiade Deus para evitaÍ o supremo cas-


tigo.
São ainda os fracos na fê, como tambem
os ígnorantes,que duvidam da existenciado infer-
no. Não têm convicçãona sua fé. Não sabemo
que ella ê, nem o que devem acteditat ou não;
duvidam de tudo, e em particular da existenciado
inferno, que lhes é muito incommoda.Pa:.aelles,
não é uma realidadecom que devam contar.
São, finalúrente, pessóasmuí sensiueise ner-
uoscs, que julgam a relígião mais por sentimen-
tos do que pela sã nzío, e que dest'artenão querem'
ouvir falar de inferno. São, por ex., senhorasbôas
e devotasque não podem crêr que Deus seja capaz
de relegar pal.a o inferno o esposo, ou o filho
querido, tão bons para ellas e tâo amados!
A todos prouaremoEque temosde contar com
a realidade do ínferno, e que q alternqtiua é ine-
vitavel: ou prsticar a religiõo deoídomenteou cahir
para,sempteno ínferno,
O motíoo que nos leua a prestarestegtande
seroiçoé o mesmo que S. Paulo invocou para si:
"Ã caridadede Christo nos preme" (Z Cor., 5,
l4). Realmente,ao vêrmos tantos homens tri-
thando o caminho do inferno, todos ellesremidos
por Nosso Senhor, chamadosa uma eterna feli-
16 Intentos do autor

cidade,dóe-noso coração.Como S. Paulo, senti-


mo-nos devedor de todos, como a outros tantos
irmãos e amigos. Sentimo-nosimpellido a arran-
car-lhesa venda dos olhos, e mostrar-lheso abys-
mo em que sepodem precipítarpara sempre.E' por
caridade e amizade.
Para outros amigos temos mais um motívo q
que nos obriga a emprehender estetrabalho. Dizem
que "promessaé, divida" . Pois bem! Nas nossas
I
viagensencontrámoscom consideravelnumero de
pessoasque duvidam seriamenteda existenciado
inferno, tão sériamenteque nem padre, nem bispo,
nem pessôaalguma podia convencel-asdo con-
trario. São entretantopessôas bôas, distinctas
, e até
piedosas,ao menos tanto quanto se possaser com
a negaçãodo inferno.
Na impossibilidadede lhes resolverpormeno-
r'tzadamente,em breve visita, todas e tantas diffi-
culdades,promettemo-lhesofferecer-lhessobre o
assumptouma brochura em que melhor poderiam
ponderar as razõesem favor da existenciado in-
ferno.
Onde acharmos,porém, uma brochura apro-
priada para solver o nossocompromisso?Procurá-
mos nas bibliothecas e lívrarias ao nosso alcance,
e nellas apenasdois opusculospudemos acharsobre
Intentos do autor t7

o inferno: um de Mor. Ségur,pequenino, "O in-


ferno"; outro, do P. Schouppe,"O dogma do in-
ferno", ambos tratando do assumptoquasi exclusi-
vamente do ponto de visüa sobrenatural,o que
não convinha para pessôas quasi sem fé. Que fazer
pala remediar a falta? Appellámos pa:.a alguns
escriptorespedindo-lhesescrevessem um opusculo
mais completosobreo assumpto,provando a exis-
tenciado inferno pela sâ nzão. Fizemo-lhessentír
a grande necessidade de um opusculo dessanatu-
reza, porém não conseguimospromessaformal de
breve rcalização.
Movido ainda pela caridadede Christo, aba-
lançámo-nosentão a pôrmos nós proprio mãos
â obra, máo grado o pouco tempo que nos deixam
Iivre as nossasoccupações, mas confíante de que
Deus nos viria em auxilio. E Deus ajudou-nos a
publicar o presentetrabalho, que pomos á dispo-
siçãoe proveito dos amigos.Foi escriptopara con-
vencel-osda immensadesgraçado inferno que nos
ameaçaa todos. Foi escipto por caúdade,por ami-
zadee por compromisso.
Envidámos todos os esforços pata desem-
penhar-nosda nossa tarefa do melhor modo pos-
sivel. Oxalá possamosgrangeat,como premio, o
cumprimento de promessascomo esta, tantas ve-
18 Intentos do autor

zes ouvida: ".4.h, sr. padre, si V. Revma. conseguir


convencer-mede que ha inferno, hei de ficar-lhe
muito grato!"
Qoe todos, pois, se convençamde facto da
sua existenciae regulem a sua vida por essacon-
vicção, são os nossos.votose a nossamelhor re-
compensal
F

:.:
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IJ. _ Nogões preliminares

SIIMMAB,IO:
Os dótes da alma humana: intelligencia e llvre von-
tade. O porque da liberdade (p. 20). Destino do
homem: a Brimeira resBosta do catecismo (p. 22).
Cumprir os deveres é uma necessidade imBres-
cindivel. Não somos moralmente livres no sentl-
do de ser licito fazermos o que entendermos (B.
23). A cousciencia é o juiz que Deus nos collo-
cou no lntimo (p. Zg). Ella reconhece uma sanc-
ção para todas as leis de Deus 1p. 25).
THESE: Necessidado ou {egneçesstda{e dq
castigo eternq (p, 25). Prova-se, de prompto, a
necessidade do Ínferno pela sã tazã,o, .que se ex-
€-: prime, entre outros factores, pela opinião geral
dos mais cultos Bovos antigos (p. g6). Valor dos
motivos da Íé e d.a razã"opara o assumpto 1p. 27).
Razões pró e contra a existencia do inferno. Não
póde haver verdadeira contradição (B. 29). Re-
sumo geral e coordenação d,4s quatro provas (p.
29),

Creando-nos,a nós homens, creou-nosDeus


'd
sua ímageme semelhança,Cteou-noscom intelli-
r
*
20 Noções preliminares !

gencia e vontade. Deu-nos a íntelligencía para o


conhecermos, a Elle nosso Creador e soberano Se-
nhor; para comprehenderrnos as magnificencias e
maravilhas qúe operou no universo;' pa:o conhe-
cermos a sua suprema bondade e-o seu infinito
amor. Deu-nos a uontade, a faculdade de querer e
de amar, e dotou-a com um dom verdadeiramente
régio, com um privilegio quasi divino: a líberdqde.

Pela vontade livre podemos livremente es-


colher os bens que Deus creou para nosso uso e
gazo, Porém nessa escolha não devemos proceder
arbitraria e caprichosamente. Devemos nos guiar
pela rczão. À vontade por si só é cóga. A luz da
vontade é a íntelligencia. Em tudo quanto deter-
mínar, deve a vontade consultar a razão e por esta
dirigir-se, afim de fazer sempre o bem e evitar o
ma l .

,\hi justamente se acha o peügo da tão pre-


conizadu líberdade, €Írt podermos tambem abusar
dellq, empregando-a mal, servindo-nos della contra
Deus e contra o que elle ordena. Porque'foi, porém,
que Deus deixou d nossa uontude essefraco ter-
riuel, de poder querer e agir contra a rozão, e cen-
trq a uontade d'Elle? Porque e para que? E por-
que eEsauída é o prazo que Deus nos concedeu
Q porque da liberd, hum. 2l

parq a nosss ptotsação,, part merecermoE uma rc-


compensa etetna.
Emquanto vivermos, devemo-nos decidir pró
ou contra Deus. Elle jâ náo quiz um reino com
anjos sem vontade propria. Por ísso é que até os
anjos deviam seÍ provados. Muitos se deixaram
seduzir por LuciÍer, gritande; - "Não servirei!"
Contra essesexclamou S. Miguel com os bons
anjos "Quetn é como Detts?" - e precipitou
os anjos máos no inferno, transformando-se elles
em demonios amaldiçoados e sujeitos a soffrimen-
tos eternos.
A nossa provação leva mais tempo, por cefto,
porque a nossa intelligencia e vontade são mais
fracas e vicíadas pelas gerações.Emquanto viver-
mos estâÍemos em provação; teremos de pelejar
parc ganhar o premio da etetna bemaventurança,
fazendo o bem e evitando o mal, conformando-nos
em tudo com a vontade de Deus. Fazer o bem e
euítar o mal custa! Temos de peleiar, e de sacrífi-
cor ds inclinações e ínteressescontrqrios. Fazet o
mal, geralmente não requer esforço, vae a favor
da corrente das más inclinações; não encontra re-
sistencia, é ÍacíL,Si o bem não custassenada, tam-
bem nad a valeúa, Justamente por custar elle muito
é que os que o praticam adquirem meritos. Ã queÍn
22 Noçõespreliminares

fízer sacrificioDeus dará uma Íecompensa sem fim


na bemaventurançaeterna.
Ãntes de tudo o mais, qual é a nossa tarcfa
na vidal qual o nossoescopoproprio? qual o nosso
fim ultimo, p?tã sabermosnitidamenteo que temos
que fazer pala evitar uma eventual desgraça?
Tudo foi creadopor Deus e para Deus, para
sua glorificação e para o bem das creaturas.Deus
fez tudo para nós, e f.eza nós proprios especialmen-
te para Si, como corôa de toda a creação.Distin-
guíu-noscom intelligenciae vontadelivre, pa:.apo-
dermos,em nome de todas as creaturas,adoral-O,
louval-O e servil-O intelligentemente.
O escopoda nossa vida acha-seresumido na
respostaâ primeira pergunta do catecismo: F-.
"Para que nos creou Deus?u- "Deus nos creou
para podermosconhecel-O,amal-O, e servil-O, e
ganharmosassim a etetna bemaventurança".Eis,
em poucaspalavras,o summario de toda a sabedo-
ria humana, o resumo do santo Evangelho e de
toda a religião de Christo. À scienciahumana e a
philosophia ainda não conseguiramdescobrirfim
melhor e mais dignificante pan os homens.
Cumprir essenosso deoet é uma necessidade
absoluta, ímprescindiuel.Creando-nos, não podia
Deus deixar-pos completagrente livres, indepen-
a
:, I

A Consciencia 23

dentesd'Elle, da verdade,dã justiça, de tudo quan-


to é rczoavele recto. A nossaÚontade,natutalmen-
te, phgsicamentelíore, não é moralmente liure e
índependente, Não póde fazer o que quizet, agíndo
por si, sem rczáo ou por capricho, porque ê' de-
pendentede Deus, das suasleis e da sã tazáo, que
é a imagem da divindade.
Não estamosnas condiçõesdos irracionaes'
que se governam unicamentepelas leis physicas
inherentesá sua natvteza, e que cégamenteseguem
o caminho traçado por Deus. Nós, pelo conftario,
tÍazemos impressasn'alma as principaes leis mo-
Íaes, e ftazemol-asconscíentemente,, conhecendo-as
e até sentíndo-as como outras tantas direcftízes a
segube a cumprír. Dos seusdictames ninguem póde
fugir. E' a conscíenciagü0, portanto, fala como
voz de Deus e eÍn nome d'Elle, e se nos impõe
cem autoridade soberana. Collocou-a Deus em
nosso intimo como reflexo da sua intelligenciae
vontade, para, a cada passo, manifestar-nosnão
só a suavontade,mas tambema obrigaçãode abra-
çarmol-a e cumprirmol-a.
Estabelecea nossd tesponsabílídadeperante
Deus pela observanciada teí, porque um dia o
SoberanoJuíz nos chamatâ ao seu tribunal e nos
pedfuâcontas, Ao mesmo tempo ameaça-noscom
\

24 Noções preliminares

a sua justiça, caso não cumpramos fiélmente a lei.


Quanto â leí natural, tão profundamente gravada
na nossa alma, o uoz da consciencia é clara e de-
cisioq, mórmente em se tratando de casos graves.
Quanto á lei positiva revelada, a consciencia declara
nítidamente a séria obrigação de investigal-a, de
estudal-a, afim de cumpríl-a.
à proposito, convém notar que ás vezes ha
coriscienciasdoentias que se devem clrrar e rectificar,
como tambem conscienciasignorantes que se devem
formar. Ã conscienciarecta e bem formada não en-
gana, não dá uma cousa por outra; pronuncia-se
como juiz ímparcíal, cumprindo todas as funcções
como tal, Mostra a lei, agrada-se na observancia
della, e pÍomette a recompensa de Deus pelo cum-
primento della. lCorrelatamente, accusa a trans-
gressão da lei, fica inquieta neste caso como a bus-
sola fóra do rumo; remorde acerbamente o trans-
gressor; condemna e profere a sentença do castigo
merecido, garantindo o cumprimento futuro da
comminação e do castigo de Deus. Considera tam-
bem rigorosamente as circumstancias aggravantes
ou attenuantes, registando maior ou menor cul-
pabilidade, tal como a balança de precisão regista
maior ou menor peso de um dos lados. À cons-
ciencia não lisonjêa, não simúla, não esconde; não
Sancções 25

reprehende,não louva a quem o não mcrece,e


nem mais nem menos do que o merece;registano
seucanhendotodo o dessaccordo entre a intelligen-
cia, a vontade e a lei, com a exastidãodo proprio
juízo de Deus, E' por nossaconsciencia propria que
seremosum dia julgados; ella serâ o nosso juíz
pal: a eternasalvaçãoou condemnação.
Ora, a nossaconsciencia,ameaçandoírresisti-
velmente com a puníção correspondentede Deus
qualquer transgressão da lei, reconliececlaramente
nessapuniçãoa sancçãoda lei estabelecida por Deus,
Essasancçãoé a guarda das leis de Deus. B' abso-
Iutamente necessariapa:,a obrigar eÍficazmenteo
homem a observal-as.Dq contrario, tornar-se-iam
ellas irrisorias; a humanidade seria privada dos
seusindispensaveís beneficiose precipitadana maior
desordemmoral e social.
Da existenciade uma sancçãoninguem póde
nzaavelmenteduvidar. Trata'se porém de conhe-
cet a natarcza dessasancçãoe saber si, para todos
os casos,basta uma pena temporal, ou si é rnesmo
necessaria uma pena etetna.E' na necessidade ou
desnecessidade de um castigo eterno çlue repousa
porpriamente a razão ou a sem lazão do inferno.
Ninguem deuesuppôr que a existenciado ìn-
ferno seja só uma questão de fé. .A,bsolutamente
26 Noçõespreliminares

não! Tambem a rczão humana se pronuncia a


respeito,sendo uma questão de summo interesse
e de maxima importancía para todos. Os pouosde
todos os tempos tâín reconhecidoa existencíade
um lugar de castigo no outro mundo. E fôram
justamenteos povos mais adiantadose mais cultos
da antiguídadeque falaram atê de um castigoeter-
no. Assim, p. €x., os indo-chinezes(nos seuslivros
sagrados) ; os germanos,rrà Edda anterior); os
gregos (Platão, no Phadon) ; os romanos (Vir-
gilio, na Eneida, IV, 614, erc.). Cf. Escatologia,
de Oswaldo.
E não ha duvida que o ínferno dos antigos
significavatambem um lugar de supremadesgraça.
Já o celebreBalmes escreveunas suas "Cartas a
um sceptíco":"Virgilio nem era capuchínho,nem
sacerdote,nem catholico; nem tinha falta de bom
gosto; entretanto, é difficil pintar o inferno mais
terrivel do que o fez elle no 6.' Iivro de Eneida',.
Era, pois, uma verdadereconhecidapelosanti-
gos, a da existenciade um ínferno eterno. E esta
convicção,é a m&a affirmativâ, o méro testemu-
nho da consciencia,que confessao que interior-
mente sabe e sente, E' a expressãodo sensocom-
mum, que ern todos os tempos tem manifestado
a

Recursos ao bom senso 27

do mesmomodo o que vê e sente,o que se lhe rm-


põe na clarividenciada sua luz.
Pa:.aprovar a existenciado inferno, antesde
tudo é precisodeixar falar o sensocommum da hu-
manidade,q conscíencía e a sã razõo. Não é menos-
prezando os motiuos da fé que nestaspaginas se
pretende Íazer isso. Em matería de religião, são
essesque têm a ultima palawa. Onde a nzáo hv'
mana tantas vezesvacilla a respeito das grandes
verdades,são essesque decidema questão,ttazen'
do ao espirito o immenso beneficioda certezacom-
pleta, garantida.llssim, quanto á existenciado in-
ferno, a fé, diz a ultima palavra, assegurandocer-
teza absoluta. Para muítos, porém, que não têm
fé, ou a têm fraca e uacillante,QEprouas da fé per-
deram o Eeuuslor e a sua força probante.Por outro
lado, apoiando-sesó em si e na sua ruzáo táo falha,
tendo em conta quasi exclusivamente as razõesne-
gativas contra a existenciado inferno, as diffi-
culdades e objecçõesem sentido contrario, rão
querem, por isto mesmo, acteditar na rclígiáo. Ãf-
firmam que podem acreditar em tudo, menos no
inferno. Ãllegam tantas nzóes em contrario, tantos
motivos de coração o qual é mais impres-
síonavel do que justo - que, sem mais nada, se
\

28 Noções preliminares

julgam com pleno direito de recusar a cÍença no


inferno.
O unico meio de reduzil-os tÍ uerdade e cural-
os, é oppôr prouo e prooq, argumento a argumento,
obrigando-os a reflectir melhor, provando a ina-
nidade das suas allegaçõescontra o inferno. E, de
facto, levando tudo devidamente em conta, pondo
tambem na balança os motivos que militam em
favor da existencia do inferno, os motivos oppos-
tos perdem todo o seu peso e valor; desvanecem-
se como a fumaça ao vento, como a cercaçáo aos
raios da luz,
E assim ha de ser. Não póde haver sabedoria
contra Deus. Ha, sim, difficuldades contra as veÍ-
dades da fé, e ê precíso havel-as. Ãssim como ha
día e noite, luz e sombra, pata se contrastarem,
do mesmo modo a nossa fé e confiança em Deus
provam-se inabalaveis justamente rro meio das dif-
ficuldades e dos ataques que se lhes oppõem. Tam-
bem contra a existencia do inferno ha muitas. e
grandes difficuldades. E um mgsterío profundo,
e mAsterio permanecertí sempre. Ficará sempre com
a sua sombra, de modo que o homem de má vonta-
de poderâ enganar-se a si proprio a respeito delle,
até que um dia, â, lluz do fogo rcal do inferno,
tenha fim o seu somno culposo e o seu erro vo-
Conspectogeral das Provas 29

luntario. Os de bôa vontade e juizo recto resolve-


rão â luz da razâo, ,e ainda mais â laz da fé,
todas as difficuldadesem contrario, e á sua inteira
satisfação.Difficuldade insoluvel,que envolvacon-
tradição real, não ha e não póde haver contra o
inferno. Muito pelo contrario: ha tantas. :,az6es
em favor da sua existencia,não só razõesde sum-
ma conveniencia,mas até de grande necessidade,
que se/no inferno se perderiao equílíbrio do mun-
do; toda a ordem moral e socíal saíria f 6ra dos
eixos.Provando isto nas paginasa seguir,prova-se
exuberantemente que, longe de estarem contradição
com a razão, o mysterio do inferno estáde pleno
accordocom ella. Quer dizer que a existenciado
inferno é motivada, e sobejamente motivada,pela
natarcza das cousas; qae é uma consequenciana-
tural das condiçõesem que vivemos; que é indis-
pensavel;que é justa e mais que justa; e que, si
a alguemsucceder a desgraça de nelle cair,serápor
sua maxima culpa.
Ãs razõesque prouam a existencìado inferno
resumem-se do modo seguínte:o castigodo ínferno
é necessario por causado proprio peccadograve'
por seÍ este tamanha offensa a Deus e repugnar
tanto á suajustiçainfínica.- Ademais:o inferno
é necessario cgmo castigode transgressão gravt' da

3C Noçõespreliminares

lei de Deus, paru possibilitar e facilitar a Deus o


governo da humanidade, coÍno legislador infinita-
mente sábio e Supremo Senhor.
Dessasduas sériesde nz6es, as duas primeiras
são visivelmente intrínsecas,e as outras duas ex-
trinsecas.Na exposiçãodellas parccenecessariose-
guirmos a ordem logica, começandopelos motivos
intrinsecose passandoem seguidaaos extrinsecos.
De certo,poderiamosseguiressaordem natural, an-
tepondo as razõesintrinsecasás extrinsecas,mos- tt]

trando ao leitor, €rl primeiro lugar, como a ínti-


ma naturezado peccadoe a santidadee justiça de
Deus exigem absolutamentetal castigo,
Sendo, porém, essasconsiderações mais abs-
tractas,elevadase profundas,e portanto menosac-
cessiveisa tantas pessôas,achamospreferivelseguir
a ordem inversa,mas altamentepsychologica,col-
locando em primeiro lugar as nzóes extrinsecas,
mais simples e maip impressionantes,e que por
isso despertammais a attenção,curiosidade e ad-
miração. Querendodepoiso leitor sabermais, per-
guntará naturalmente a si mesmo si com as nz6es
extrinsecas não concordamtambem a intima natu-
rcza do peccadoe a de Deus.
Satisfeito, examinaút então por si proprio as
profundas razíes intrinsecasque intrasigentemen-
Provasphilosophieas 31

te exigem o inferno. Verificando a força dos ar-


gumentos, á vista da realidadee da verdade, fa-
cilmente se datâ por vencido, reconhecendofinal-
I mente a absoluta necessidadedas imposições de

r
h
tJ'
È-
Deus e o pleno accordodellascom a nossasâ nzão.
Dest'arte, bem prevenido,promptifi-car'se-â a f.a-
zer o possivel para evitar a summa desgraçado
inferno eterno.
Realmente,as provas da existenciado inferno
i não são brinquedosde criança.Formam um con-
junto de numerosasverdadesde alta philosophia,
destinadasaos espiritos fortes, que se julgam ca-
pazesde raciocinare argumentar,dado que se atte-
vem a negar a existenciado inferno, invocando a
nzão em seu favor. Ãs provas adduzidasnão são
de leitura facil e rapida: exigem rcflexâo, e rcfle'
xão prolongada.E' que, sendoo assumptode na-
tvrezaphilosophicae constituindoum conjunto de
provasphilosophicas,não póde deixar de ser arduo
e complicado.E' por isto que, para facilitar-lhes
a leitura e comprehensão, nos paÍeceuvantajosofa-
zer preceder os capitulos mais complicadosde um
resumomostrandoa connexãodas principaesidéas.
E' o que logo em seguida faremoscom a primeira
:
I
prova.
í
i


s-'
r: }f'
Ji

-:-
I.. PROVÃ.

m - A existencia do inferno é necessaria para


garantir ao mundo a indispensavel oonservação
da bôa ortlem. - Para esse fim, ó necessario
como unica rnedida eoercitiva efficaz.

SUMMAR,IO:
A) O lnferno 6 necessarig p,ara ga,rantlr ao mun{o a
bôa ordem (p. 33). Deus deve prover convenien-
temente á observancia das suas leis, annexando-
l h e s u m a s a n c ç ã os u f f i c i e n t e ( p . 3 5 ) . E s s a s a n c -
ção deve ser tão grande qüe todo homem recto
deva dizer: "Em vista della, devo obedecer" (p.
35).'Para attingir tal effeito, deve ella contraba-
lançar vigorosamente a má, vontade, os prazeres
da carne e do mundo (p. a0). Não é sutficiente
um castigo temporario, como seja o purgatorlo
(p. 41), mas só o inferno eterno (p. +Z). O in-
ferno nã,o tira a liberdade ao homem (p. 44).
nem o brio a quem quer que seJa, sendo do ho-
mem a culpa, si elle so deixa guiar só pelo medo
do inferno (p. 46). Quanto valem os motivos su-
periores de amor, de dsver e de interesse (p. 50).
Quanto vale o motivo de medo; qual o medo sem
A ordem do mundo reclama o inferno

ïalor; exemplos dos tres temores differentes. (p.


5 3 ) . Alto papel e valor do temor devido a Deus
(P. 6o).
B) O infernq correspondo perfeitamente gp casüigo
quo Ê Justiça humana aprplicq &os grandes cti4l.
ÌÌosos pa1ar a seu turno, garantir a bôa ordem no
mundo (p. 63). Parallelo entro a justiça huma-
na e a divina (p. 66). Ninguem protesta contra
a justiça humana, nem deve protestar contra a
divina (p. 0g). Refuta-se a objecção: Si a justi-
ça humana Brovê á ordem no mundo, a divina
não precisa do inferno para o mesmo fim (B. ?1).
A justiça humana e a divina assemelham-se muÍ-
to; a humana constitúe optimo meio para conhe-
cer a divina; serve de lição e prova (p.?B). A
justiça divina é o dique necessario erigido por
Deus contra a furia das paixõe,shumanas (p. ?4).
Os protestantes abriram bréchas nesse dique, em
consequencia do principio fundame,ntal da salva-
ção só pela fé (p. 75). O ,,livrg exame,' Ievou
a grande maioria da intellectualidade prote.stan_
t Ì l te a deserêr do inferno (p. 77). pela apostasia
E
delles o chrÍstianismo ficou muito eufraquecido
Ë (p. zg).
F
I
Ã) O ínferno é necessario
para garuntír a bôa
ordem no mundo.

Deus é o Deus da ordem, portanto coÍlser-


vador da bôa ordem, tanto na sociedadehumana
34 A ordem do mundo reclamao inferno

quanto na natureza inanimada. Nesta, Deus con-


seguea ordem e harmonia admiraveísdo universo
pelas leis physicas,que actúam com regularidade
absoluta.O mesmonão se dá com a sociedade hu-
mana. Deus estabeleceu uma ordem moral objec-
tiva, pelas leis a observat, gravadasna consciencia
de cadaum, as quaesmanda promulgar pelas au-
toridadeslegitimamenteconstituidas.
À observanciadessasleis moraes ê a condi-
ção de existenciada sociedadehumana, da manu-
tençãoda ordem e da paz no mundo. Isso porque Ê
a observanciaou a inobservancia das leis acarreta l

facilmente sériascons€quencias para os homens.As *


mais dasvezesreverteráem beneficioou em prejuizo È
3
5

delles.On, ê o homem livre quem deve observal- 1 '1

as, dirigir-se por ellas e pela sã nzão: entretanto, ,l

essehomem tem uma vontade tão voluvel, que fa- íì I


Í
cilmente se tornará victima das paixóes. *r'l
Eí Deus tiuesseabandonadoa obseruancíadas
Ì
suas leis ao símplescaprícho dos homense rísusur- I

paçõesdos maluados, teúa precípítado o mundo I


em completo anarchismo reuolucíonaúo. Seria a ts
I

ruina fatal da sociedade.Elle devia a si mesrno,


como á humanidadetoda, protegersufficientemente
os bons contra os máos, de modo a tornar a vida
humana moralmentepossivele digna de ser vivida.
-garantia
A sancçãoé a da lei 35

Proueu a essanecessídade absoíuta creando e


annexando a. cada Ieí uma força obrígatotia, suffí-
cíente para ínspirar respeito e obediencía, Éssa
f orça obrígatoria chama-se " Eencção" , e consiste
na ameaçade um castigo futuro, inevitavel, pro-
porcionado â falta e â violação da lei. Torna as-
sim esta objectivamenteinviolavel, o que é, de ú-
gorosa necessidade. Como a violação de qualquer
lei physica se vinga pelo pre juizo que occasiona,
fn
aa assimtambema violaçãode qualquerlei moral vin-
gar-se-á pela sancçãoannexa. Esta constitúe a
rcacçãoda ordem, a correcçãoimposta por Deus,
a repressãoda creaturainsubmissapela soberania
divina. Trata-se pois de determinú a gravidadeda
sancçãoa annexar ás leis divinas, e a impôr aos
homens para obrigal-os efÍicazmentea cumpril-as.
Sendo Deus um legislador ínfinitamente so-
bío, deisegorantir a obseruancíada sua leí por
uma sancçãoefficaz, i. é, tão grande e tão pesada
que cadahomem pensantee recto se síntaímpellido
a dizer' - "fip uísta destasancçãodeoo obedecet
custe o que custor!"
Para aoaliar deuídamentea grundezada sanc-
ção necessaríacomo gorantía da lei de Deus, é pre-
císoconsíderato que é que torna a obseroancíadif-
cil.E'preciso vêr o que do outro lado estáem jogo,
36 A ordem do mundo reelama o inferno

e avaliat a extensão da difficuldade em observar,


a extensão da facilidade em violar as leis, contra as
quaes a sancção deve fornecer o contrapeso neces-
sario para resguardar o equilibrio do mundo.
Ha tres fontes de obstaculos: uns provenien-
tes da alma, outros do corpo e na mór parte os do
mundo, servindo-se o demonio delles todos para
nos tentar.
O 1." obstaculo á obseruancía da lei de Deus
é a arbítrqríedode humanq, a md uontsde e o or-
gulho, E' a vontade humana contra a vontade di-
vina. E' a vontade humana resistindo ás in-
tençõesda vontade soberana de Deus. Quão grande,
forte e perigosa seja essavontade humana, é cousa
que salta aos olhos. Tendo os homens recebido
de Deus o incomparavel privilegio da liberdade,
nasceentão nelles o desejo ímmenso e extravagan-
te de aproveitar o mais possivel essa liberdade,
aproveitando-se o mais possivel de todos os bens
do mundo ao seu alcance.Sendo livres, querem sel-o
com completa índependenciade Deus e de qualquer
Iei, usando e abusando da sua liber dade, sem res-
tricção nem limite. Pretendem não se deixar pear
por qualquer imposição ciu autoridade que seja.
Não querem 'ser icommodados: querem viver e
gozar a seu talante; e isso ás vezes por méro or-
Obstaculos da lei de Deus 37

gulho, por não se queÍerem curvar ante a vontade


alheia, por mais legitima que seja; outras vezes
por mâ vontade e por paixões inconfessaveis,e bas-
tas vezes talvez por simples arbitraúedade, capú-
cho ou commodidade. Sem mais nem menos, res-
pondem elles como Lucifer â voz interior de Deus
que lhes reclama o cumprimento dos seus deveres:
"Não servirei!" Quu insania pretender domar,
domesticar esseanimal bravío a que o homem tan-
tas vezes semelha! Que pretenção exigir desseho-
mem livre que se ate e obrigue voluntariamente
a si mesmo, que se refrêe, que se domine, que se
sujeite a certas leis, que se civilise para ser homem
verdadeiramente, que se modifique para seÍ bom
filho de Deus! Entretanto, é esseo plano de Deus,
essaa pretensão do r\ltissimo!
O 2." obstaculo d obseruancía da leí de Deus
sô'o as solícítoções da cerne, que luta contra o es-
pirito e lhe difficulta essaobservancia.
à lei da carne é contraria â leí do espirito e
â sagrada lei de Deus. Os desejos da carne impõem
ao homem, querem dominar, ser satisfeitos, servi-
dos em tudo e por tudo. Elles é que ,querem to-
mar a direcção do homem. E quantas vezes este se
deixa determinar e dominar por elles! Comquanto
no composto humano o espirito seja a parte incom-
38 A ordem do mundo reclama o inferno

paravelmentesuperior, ctead,acom a incumbencia


de se goveÍnar pelasleis gravadasna consciencia, e
de conduzir o homem a um destino gloríoso, é
muitissimas vezeso contrario que succede.E' o
corpo, a catnecom os seusinstinctos animaes,que
prevalececontra o espírito. E' elle que domina, di-
zendo a primeira e ultima palavra em tudo e
mantendo a alma numa escravidãovergonhosa.
Quantos homensparecempura carne,porque pro-
cuÍam exclusivamente, ou ao menos principalmen-
te, os interesses e a satisfaçãoda carne!! Chegam
a só trabalhar pa:a ella, tudo sacrificandoer9 pro-
veíto della.
O 3," obstaculoá obseruancíada leí de Deus
é o mundo, com Eussottracções,seducções,Iuxo
e uaídade,que tantas occasiõesproporcionam de
satísfazeras paixões humanas, estimuladaso mais
possivel por sua yez pelo demonio com as suas '.-i'

tentações.E' o reínado dos setepeccadoscapitaes.


São tantas paixõesno interior, e tantos attractivos
e occasiõesno exterior, que a vontade perde f.a-
cilmenteo equilibrio, e não olha mais para o alto,
parua sã razáo,para Deus,mas só para baixo. Com
todo o peso da materia,o homem é attrahido para
a tetta e a ella fica preso,
Contra todo essepeso que o solicita pa:a
Comoa sancçãogarantea lei 39

baixo e prende o homem â t'eua, é preciso haver


uma força extraordínaúa, sobrehumana e extÍa-
teftena capazde desprendel-oe leval-o para o alto.
O homem necessitade um contrapesoenoÍme para
contrabalançaressepeso e restabelecer nelle o equi-
librio, com o predominio da sí nzão' coÍn o di-
reito que esta tem de se pÍonunciar e de dirigir.
E justamentea sancçãoannexa a cada lei que deue
formar o contrupesocontta a paixão e coniutar o
perigo de não cumpril-o. Essa sancção deve ser
tanto maior quanto, não só deve neutralizat as
seducções e vantagensdo vicio, como tambem ser
capazde afastar o homem do mal, mesmo quando
collocando na alternativa de incorrer nessasanc-
ção ou de renunciar a todos os bens do mundo,
de supportartodasas calamidades e de sacriftcaraté,
a propria vida. Ora, qual é a sancçãocapaz de
produzir effeito tão assombroso? Taluez um gran-
de e terrioel castígo nestemundo, que o peccadot
teria de íncorrer e soffrer com toda certeza,e sem
a menor esperança de poder evital-o? Não ha du-
vida que tal castigo infalliuel produziria em mui'
ríssimos cdsosopt,imos resultados, O castigo cor-
poral inevitavel, nestemundo, é optimo meio pa:a
incutir medo aos malfeitores,e ê,tasto mais efficaz
guanto mais imminente, Quemr por €x., acceítatâ
40 , A ordem do mundo reclama o inferno

o desafio ou a prova de fogo, de que fala Mons.


Ségur "Garanto que, de mil ou dez mil ho-
mens que vívem afastados de Deus e trilhando o
caminho do inferno, não haveria um só que re-
sistisseâ "prova de fogo". Nenhum, poÍ mais tôlo
que fôsse, acceítariao seguinte ajuste: durante um
,anno poderás abandonar-te impunemente
a todos
os ptazetes, gozat todas as volúpias, satisfazer os
teus caprichos, com a unica condição de passares
um dia, ou mesmo uma hora, a ardet no fogo.
Repíto, amigo, ninguem acceítaria tal ajuste" .
Entretanto, Deus não quer governar a huma-
nidade pela força bruta, castigando os malfeitores
immediatamente, ou depois de curto prazo, aqui
mesmo no mundo. Estipulou esta vida inteira como
p:.azo de prova e o outro mundo como tempo
de retribuição, conforme cada um tiver merecído.
Deus ameaça os malfeitores só com o castigo fu-
turo do outro mundo. Tratq-se sgora de inuesti-
gar e saber que caEtígo do outro mundo seria suf-
ficiente pare, em todos os ccsos, obrígar efficazmen-
te os homens o euítarcm o mal e fazerem o bem,
gsrsntíndo porém sempre a necelsaria liberdqde; si
bqsta um castígo futuro temporario, ou sí é pre-
císo um costigo tremendo, et.etno,
Yerifiguemos a rcalidade, a experiencia da
Castigos temporarios insufficientes 4l

vida quotidiana. Embóra o purgatorio seja esse


castigo futuro e temporario, e posto que seja elle
igual em tudo ao inferno, menos na eternidadedas
penas, quem é que faz caso delle, quando na ten-
tação se trata de sacrificar uma satisfação illicita ?
Em genl, ninguem, nem mesmo entre os chris-
tãos regularmente bons. Diz-se: "Ainda que as
penas do purgatorio levem annos e seculos, afinal
acabarão". Assím, por fíndar um dia é que o
purgatorio perde toda a sua força r.efreadorasobre
o peccador. Certo, náo é como deveria ser. Porque,
reflectindo um pouco, vêr-se-á que qualquer dôr
corporal intensa de um só dia é muito mais peno-
sa e desagradavel do que é risonho e agradavel o
prazer tão breve do peccado; postos nas conchas
de uma balança, a dôr prevalece, e de muito.
Comtudo, quasi ninguem faz caso do puÍ-
gatorio, muito mais terrivel do que todas as dôres
imaginaveis da teffa. E porque? Propriamente, por-
que não se reflecte bem, comparando o curto
prazet presente ao castigo futuro relativamente
grande. E não se reflecte justamente por ser elle
temporario e passageiro; pelo que não impressiona,
e quasi não se faz caso delle. Comrnettem-se le-
vianamente muitissimos peccados, sem que o fu-
Íurg castigo transitorio seja empêço para isso.
42 A ordem do mundo reclama o inferno

E porque será que a atneaçade qualqueÍ cas-


tigo temporariodo outro mundo não impressiona?
E' porque qualquer castigofuturo temporario não
coÍrespondeás esperanças e receiosdo coraçãohu-
mano. O sentimento da sua immortalidade é ta-
manho, que mede tudo por essacondição do seu
sêr. O homem consideraque tudo quanto não é
eterno não é nada, conforme o axioma christão:
"Quidquid aternum non elt, níhil est". Nísto ha
uma verdadeprofunda. Por mais tempo que dure
um castigo, si este afinal findar, pa:a dar lugar
a uma eternidad e feliz, o tempo do castigocom-
parado com a eternidadefelíz é um simplesnada.
Tudo quanto é temporario, perececom o tempo.
Este, findando-se, redaz-sea uma simples lem-
brança ou a nada, O homem quer viver sem fim
e ser eternamentefeliz, O seu mal, propriamente,
consisteem querer antecipar a felicidade, e isto
por meios illicitos. Em vez de trabalhar e soffrer
primeiro para gozar depois, elle qver gozar desde
logo, a todo transee mesmo contra Deus, á custa
da sua felicidade etetna, convertendoesta em des-
graça infinda.
Verificado, pois, que qualquer castigofuturo
temporarío é insufficíente como contrapeEoás pai-
xõeshuglanas,insufficienteçomo sancçãopara neu-
Uma sancçãoabsolutaindispensavel 43

ttalizat as attracçõesdo seculo,impõe-sea seguinte


conclusão:só uma sancçãoabsoluta, só o csstigo
etetno do ínferno armará,ss leís sufficientemente
contta as paixões humanas, obrigando moralmente
todos a cumpril-as. O ultimo grande remedio ef-
ficaz contra a perpetraçãodo peccadonáo ê.sinão
a lembrança da realidade de horriveis penas eter-
nas, que serão a sorte inevitavel do peccadorin-
corrigivel, impenitente.Sendo Deus um legislador
infinitamente sabio, não podia deixar de impôr
o unico remedioef.ficazcontra as paixõeshumanas,
e q ultimo recursocontra a rebeldíahumana, para
obrigar moralmente todos a se sujeitaremás suas
leis. l\inda que parcçaduro, não podia elle deixar
de empregal-osem favor da ordem e da paz do
mundo. Si os homens não se incommódam com
qualquer castigofuturo temporario, ainda quando
seja um purgatorio terrivel e de muitos seculos,
mui diuersamenteha de succedercom o ínferno
eterno.
Cada qual se impressionaprofundamentepoÍ
ser o inferno um mal terrivel e irremediavel,de
fazer arcepïaros cabellos,e que obriga a reflectir
sériamente.A cada um fica logo claro, clarissimo,
sem longa rcflexão: não ha comparaçãopossivel
entre uma pena intensissimae sem f.rm, e qualquer
44 1." Objecção

prazer do mundo! Por agradavel que seja o pec-


cado, é menos do que um real comparado a cem
mil contos. Com esta reflexão, todo peccado,por
tentador e inebriante que se afígure, perde o seu
encanto, a sua attracção; o ptazet ftca colno que
envenenado, amargo, e não sómente desprezivel,
mas apparecendoaté como o maior mal do homem,
como o unico e verdadeiro mal, contra ô qual
não ha recurso, remedio ou consolo. Quem náo
fôr estúpido ou louco deverâ raciocinar assim: Ã'
luz do inferno, o peccado parece umq crueldade
comsígo proprio, umq uerdadeiru insania! Real-
mente, o pensamento da eternidade, especialmente
do castigo eterno do inferno, tem evitado nesre
mundo milhões de peccados,crimes e horrores. Só
a fê na realidade do inferno é, pois, verdadeiramen-
te efficaz pata, em todas as tentações, contraba-
lançar fortemente a fascínação do peccado, e as-
segurar á nossa barquinha o necessarjo peso e
equilibrio nas tempestades da alma.

1." PEBGUNTA: - ÇeÍ1s se concilia a llberdade com


o constrangimento moral?

Então, serdmesmo possiuelque, por trrís das


leís de Deus, estejaa força bruta para obrigar, e, s
F!a+'
F.

Liberdade e obrigação 45

rigor, quasí que forçar (í obseruancia dellas? Em


que fica então a nosEatão decqntada ííbevf,sf,sl -
Como jâ foí dito, sendo nós physicamente lívres,
moralmente não somos (completamente) livres
e independentes. Muito pelo conrario! Somos
dependentes da sã razáo, da verdade, da justiça,
dos direitos de Deus e das nossas obrigações. Nem
Deus nos póde dispensar das leis da nat:urcza e
da ordem das coisas. Temos de obedecero Elle e
rís suqs leis por obrígação imprescíndiue|. Esta ne-
cessidsdeé tão absolutq que por tds della estd re-
almente a força bruta, pala cas.tigarrigorosa e até
eternamente quem nâo quizer sujeitar-se e obede-
cer. E ninguem póde fugir â dwa alternativa: ou
sujeitar-se e obedecera Deus, ou sentir todo o peso
ì da divina c6len no inferno!
Moralmente nós somos pois sujeitos e obri-
gados, mas não forçados. Nem a nossa liberdade
fica por isso suspensaou diminuida. Absolutamen-
te não! Bem ao contrario do que occoneria si se
rcalízasse a exigencia dos descrentes. Só vendo o
inferno, pretendem elles, é que poderiam e que-
reriam acredítar nelle. Entretanto, si elles realmente
o vissem, sentir-se-iam tomados de tal horror, que
agiriam. então impulsionados só pelo medo, qual
um homem ameaçado de morte repentina, não re-
46 2." Objeeção
mota, poróm immediata. Perderiam o juízo e a
Iiberdadede agir de outro modo, cuidando {penas
de escaparpor todos os meios â desgraça.Seria
então mesmo a força bruta que intimidaúa e pre-
valeceria,o que Deus nâo quer. Vendo, porém,
o inferno só de longe e pelos olhos da fë, como
pela sã razão, conforme disposiçãode Deus, guar-
damos peúeita liberdade de acção,agindo como
quizermos ínteriormente.De f.acto, quem é que,
acredítandono inferno, se sente por isto forçado
a agfucoherentemente? Muitissimos que nella acre-
ditam, praticamentenão se importamlá muito com
elle! l\ssim, quem tíver de padecel-o. mais tarde,
devel-o-á a si proprio, â sua disposiçãoe reso-
lução.

g.a PERGIINTA: - Constitue a exlstencia do lnfer-


no offensa 4os brios de a.lguem?

Si a ameaçado inferno não nos tfua a liber-


dade, dízem outros, ao rhenos pareceuma offensa
aos nossosbrios, ficando a nossavontade,nas suas
determinações,rcdazida e atada.Disse-nosum dia
alguem que ainda não comprehendiaa razão do
inferno, e que sejulgava muito sensatonegando-o:
F
f
t.

t
InÍerno e brio humano

"Pata evitar o mal e fazet o bem, nada vale pa:a


mim nem o motivo de medo, nem o de interesse.
47

t
Para mim só tem valor o motivo de dever,do di-
Ë reito, do bem, por si mesmo,por serbem e direito".
E - Q671yratudo fsso, prouar-se-áque, si o inferno
fôr contra os nossos bríos, não é por culpa de
r Deus.
Si não houvesseoutro motivo paru evitar
o mal e servir a Deus sinão o do inferno, de facto
seria quasi reduzir-n.osá condição de escravosde
Deus. E ainda nestecasonão teriamosde que nos
queixarmos,por sermosentão o que realmenteso-
mos. Deus teria deixado a nossacondiçãohumana
apenasmais humilde e menos honrosa; comtudo,
sempre corÍespondenteâ rcalídade do nosso sêr.-
Porém Deus não quíz para nós, homens, a con-
diçao de escrauos,mes a de amigos,e até a de filhos.
Fez-nossaberpor seuFilho, Nosso Senhor (João,
15, 15): "Não vos chamei servos, porque o
servo não sabedos negociosdo- amo. Chamei-vos
amigos!" Mandou-nos chamar-lhe"par", e como
tal invocal-o no Padre-Nosso.E' porque quer sin-
ceramenteconsíderartodos os homenscomo filhos,
e ser para elleso melhor dos paeb, si elles fôrem
para Elle verdadeirosfilhos. E quanto Deus quer
48 2.' Objecção

eleval-ose vêl-os na condição nobilissima de seus

r
ï
bons fílhos! Não tem então motivo de se queixar
e de castigal-ossi elleso não fôrem? e não têm
ellesmotivo de temer e de assustar-se?Oh! si Deus
fôsseservidocomo os paescujos filhos são sempre
respeitadores e obedientes,que nunca precisamde
$
$
reprehensões, e muito menos de castigo,como Elle ïj
fícaría satisfeito! Porém talvez que essesmesmos
filhos, respeitosos e obedíentespara com seuspaes
carnaes,jâ não o sejam tanto para com Deus, seu
pae do céo, o melhor dos paes. E essesproprios
paescujos filhos são bons, provavelmentenão são
tão bons filhos de Deus quanto seusproprios filhos I
são bons par:acom elles. Embóra tenha feito as
ì
maiores promessasde premios eternos, nem por
isso Deus é bem servido por muitissimosl Muitis- ' l

aJ

simos não se incommódamcom Elle, nem querem ì


saber das suas leis. Não querem fícar com Elle,
viver na sua intimidade, cumprir,lhe os desejose
servil-O. Ã serembons filhos de Deus, preferem
ser escravosdo mundo, das suaspaíxõese do de-
monio! Foi pa:.a rcduzir essestaes â razão, ao
respeitodas leís e da bôa ordem, que Deus creou o
inferno, ameaçando-oscom essecastigo caso não
obedeçam.Ãssim, si elles absolutamentenão que-
rem render-sea Deus e aos direitos e imperativos

Ì1'

i'i:
..1ú1
r
F

sr
Éi
F.
fr
Inferno e brio humano 49

da sã razão, ceÍto a culpa não é de Deus, mas toda


delles.
:
i Sem duvída, entre o amor e o temor de Dèus
ainda hq outros motiuos íntermediarios que podem
tt, e devem levar o homem ao cumprimento da lei
de Deus: são os motiuos do deoer e do legitímo
* interesse de cads um. - O motiuo de .deuer con-
Ë
siste em evitar o mal do peccado pela propria ma-
licia deste, e em fazer o bem porque é bem; em
cumprir o dever porque é. dever, em obedecerpor-
que a obedienciaé conforme â razão e á justiça, em
praticar a virtude pelo proprio valor desta, por
ser bella e dignificante. Escusadoé dízer o quanto
Deus quereria guiar assim todos pelos dictames da
sã nzão na senda da verdade e da justiça, da vir-
tude e da caúdade. Quanto quereria que todos pra-
ticassem o bem pelo proprio bem, como sendo o
"ii que absolutamente nos convém e é exigido pela
a-
verdade e pela justiça ! Quanto quereria que evitas-
Fl,
t : sem o mal por ser máo e'abominavel! Não ha du-
F
fi
t' vida que o motivo de dever é forte e nobre, sobre
r_; ser legitimo. Não ha duvida que haja no mundo
È.Ì:
l+ì
pessôashonradas, que tenham consciencíaprofun-
si
íÌ
Fr da dos seus deverese grande empenho em cumpril-
t:

os. Quão pouços são porém os que habitualmente
Êq

se deixam inspirar pelo puÍo motivo do dever!



L.:È
:Ès.
{È{
ffi
ffi
ì .f
t

50 3.' Obiecção

Muito mais vezesdeixar-se-ãoprovavelmenteim- ï


j
pellir pelo motivo da propria obrigação,para cum- I
prirem os deverespaÍa com a familia e pal.acom a 1
sociedade;quão raras vezes,porém, se deixarão I
impellir por essemesmomotivo para cumprirem os
í1
seus deveresreligiosos com exactidão e pontuali-
dade!

8." PARGIUNTA: - O motlvo de interesso tem ou uõo


valor moral?

O mesmo,mais ou menos,se dá com o grande


motíuo de ínteresse.Dizer q'ue elle não tem valor,
para evitar o mal e fazer o bem, e que só o mo-
tivo de dever é que tem valor, é inexacto e revéla
desconhecimentocompleto da ÍLatutezahumana e
da realidade da vida. Por natareza o homem ê
interesseiro,procura o bem estar corporal e es-
piritual, temporal e atê,eterno. O desejo de bem
estare de felicidadeê,-lheinnato. Elle absolutamen-
te não póde prescindir delle. E como a felicidade
de cada individuo se confunde com a da propria
familia, em tudo quanto faz elle procura habitu-
almenteum proveito, um lucro, uma vantagempaÍa
si e para sua familia. Si perguntarmosao nego- I
?
\_
È
*
f
,t
-,$
5

Ë
Valor do motivo u. ,ìr*resse 51
ciante que está o dia todo por trás do balcão, ou
ao roceíro que trabalha tanto na sua roça, si é
por motivo de dever ou de lucro que assim tra-
balham, elles responderão,inevitavelmente,que é
pelo de lucro. Si cada um procurasseos seusinte-
resseslegitimos,os verdadeirose não os apparentes,
os espirituaesantes dos corporaes,os eteÍnos de
preferenciaaos temporaes,tal como a bôa ordem e
a ptimazia das cousaso exigem, sería optímo, e
não haveriao que reprehender.Cuidariam então os
homens de cumprir tambem zelosamenteos seus
deveresrelígiosos,e de gatantir, antes de tudo, o
negocioda sua salvaçãoeterna.Assim, porém, não
costumam ellesf.azet.Invertem a ordem das cou-
sas. Procuram os bens materiaesde preferencíaaos
espirituaes,os interessesda carne antes dos da
alma, os temporaesantesdos eternos.Na luta pela
vida e pelo dinheiro, esquecem-se até completa-
mente de Deus, da rclígião, dos interessesda alma
e da eternidade,dos interessese deveresmais ne-
cessariose imprescindiveis.
Qo. podia e devia Deus fazer pal,a reduzír
os homens á sã razão, pàtã obrigal-os a cumprir
as suas santasleis, os deverespata com Elle? Foi
o que fez cteando o inferno e ameaçandoos ho-
mens com um castigo tão grande e tâo pesado,
rs

52 3.. Objecção

que cada homem reflectido e recto devesse dizer:


"Em vista de tal sancção, devo obedecer a Deus,
custe o que custar". Não querendo oE homens
uíuer no regime de amor e como bons filhos, nem
querendo cumprír os seus deoeres pot motíuo de
obrigação e em espírito de obedíencio, nem pelo
legitimo motiuo do interesse proprío bem com-
prehendido, uiu-se Deus no neceEEidade de collocal-
os na dura alternatius: ou se sujeitarem a cumprir
os Eeus deoeres, ou Eerem eteínamente reprouqdos
e punidos no inferno. Era o ultimo rccurEo que
Deus tinha á sua disposição para obrigar os ho-
mens efficazmente a cumprirem os seus deveres, e
não podia deíxar de lançar mão delle. - pe1g21-
to, si urn homem não se deixa subjugar e gover-
nar por outro motivo mais nobre, sinão só pelo
do inferno, a culpa não ë de Deus. Da mesma
sorte, emquanto o medo do castigo ferir os bríos
de alguem, a culpa serâ de quem só se deixar ins-
pftar e guiar por elle. Da parte de Deus, a ameaça
do inferno não póde constituír offensa aos nossos
bricjs, visto que não é uma imposição brutal e ir-
racional, porém uma necessidadeimposta pela jus-
tiça e santidade de Deus em face da revolta humana.
Valor do motivo de medo 53

4." PERGUNIIA: - O motivo do medo tlo inferno


tem ou não imPortancia moral?

Ã.demais,dizer que o motioo de medo do in-


ferno nadq oale, é completamenteeffado e até ab-
surdo, E isto porque o medo do inferno é innato
ao homem, como o medo do maior castigoimagi-
navel, e se p(ende ao intimo e vital interesseque
cadaum tem pelo seuproprio bem estaÍ pÍesentee
futuro, e tanto mais quanto essadesgraçafutura
ê, nessecaso, eterna. Naturalmente cadaum pfo-
cura afinal garantir-secontta a miseria,a fome, a
sêde,o frio e o fogo, contra qualquerdôr, ao menos
contÍa uma summadesgraça moÍal e physica'Quem
se deixar levar ao ponto de acceitarum prazer
futíl em vista de um castigo eterno, é simples-
mente um louco.
Àlém disso, como é que na vida espíritual a
sujeíçãopor temor não haveria de ter valor, si na
sociedadehumana tem tanta efficacíae tanta in-
,fluencia?! Ha innumeras pessôasverdadeiramente
dominadaspelo medo dos homens.A sujeição,quer
a devida quer a indevida, obedeceno mundo mui-
tissimasvezesexclusivamente ao motivo de temor.
Falando das classesinferiores, chama-sesimples-
5

54 4." Objecção

mente "Ínedo"; em se tratando de gentemais illus-


ttada, chama-semuitas vezes "respeitohumano".
Nas classesinferioresr eue servem, tem-se medo
de um castigo,de uma perda de emprego,de uma
reprehensãojusta ou injusta; nas classespor as-
sim dízer superiorestem-se frequentementemedo
de tudo e de todos, menosde Deus. Tem-se medo
de uma crítica, da falta á moda, até de um sorriso
zombeteiro.O motivo de temor confunde-semuitas
vezesno mundo com o motivo de interessee de
complacencia,e ctêaentão tantos escrayosdo mun-
do, escravosmiseraveise ridiculos, qae fazem dó
e deviam envergonhar-sede si propríos. Essa es-
cravidãojá é consagrada,O medo dos homenspa-
recelicito e natural, e assumetaes proporçõesque
grande pafte dos homens, sem maís nem menos,
se lhe sujeita cégamente.

l\ essetemor dos homensNossoSenhorJesús-


Christo contrapõeo temor de Deus, dizendo (Lu-
cas, 12, 4): - "À vós, meus amigos,eu digo:
Não temaesaquellesque matam o corpo e que,
depois de mortos, não pódem fazer mais nada.
Mostrar-vos-ei a quem deveis temer: temei âquel-
Ie gu€, depois de mortos, tem o poder de vos
lançar no inferno. Ãssim eu vos digo, ê a esse
Valor do motivo de medo 55

que deveistemer". O unico que tem tal poder é


Deus. Devemos pois temer a Deus e o summo
castigoque Elle impõe, e isso mais do que tudo,
mesmo mais do que a perda da vida corporal e
çluaesqueroutros soffrimentos. - [Vfss isÍo não
quer dizer que todo temor de Deus seiautíl e agrct'
dü)el a Deus, Entra absolutamenteno quadro deste
trabalho, não só salientar as pÍovas da existencia
do inferno, como tambem elucidar e determinar
qual o temor de Deus e do inferno que tem valor
moral. Para completar isso, é preciso legítimat
como ruzoaoele recto, como util e ptecioso,o oe?
dadeírotemor de Deus.- O principe dos philóso-
phos e theólogos,S. Thomaz de Ã,quino, tratan-
do na IIa IIae, 19, 5, da differençaentre o temor
Iegitimo e o illegitimo, distingue no peccadoo mal
da culpa do mal da pena. O mal da culpa estáem
que o peccadograve offende a Deus gravementee
separad'Elle o peccador.O mal da pena consiste
no castigo merecidopelo peccado,castigo que no
caso é o inferno. O mal da culpa é a propria im-
moralidadeque se contrahepeccando,âo passoque
o mal do castigoê a consequëncia da culpa para o
peccador;é,o effeito do peccado;é uma exigencia
rigorosa da justiça.
tLrtepender-sedo peccadguníca e exclusioa-
trl

5íì 4." Objecção

mente por temor do castigo e não pelo mal da


culpa, pela immoralidode ínherente ao peccado e
pela offensa a Deus, não adíanta. Tal atrependi-
mento não ê acceito por Deusr por ser insufficiente
e, considerando bem tudo, até immoral. Funda-se
no egoismo, encara só o bem estar pessoal, a que
se oppõe o castigo, e reduz-se simplesmente ao se-
guinte: eu quizen não ter conmettido o acto pec-
caminoso, não poÍ ser elle máo e offender a Deus,
porém só por câusa do castigo.que implica. Si não
fosse o castigo, não me arÍependeria delle. Não sou
contra o peccado como tal, muito peLo contrario!
O que me contraría e abottece, o que eu quero evi-
tar é só o castigo. . . Isto é só fugir do castigo me-
recido, do effeito e da exigencia da justiça. E' bem
licito evitar o justo castigo, mas pelo unico meio
acceitavele acceito por Deus, i. é, pelo arrependi-
,mento sincero do proprio mal que se commetteu,
da offensa a Deus. O castigo é o producto, o effeíto
máo do peccado, uma consequencia fatal que recáe
sobre o peccador; é um mal grande, terrivel ! Porém
outro mal ainda maior é o mal do proprio peccado,
a culpa contrahida pela offensa a Deus. Para que o
arrepeirdimento seja verdadeiro e acceito por Deus,
é indisirensavel detestar esse mal principal (IIa.
IIa., ibid.). E' preciso depapprovar, revogar e re-
\

Valor do motivo de medo 57

pel,lír o proprio ma| moral do peccado, e não sím-


plesmente o mal phgsíco, ínseparavelmenteannexo
áquelle, ou seja o castigo. Não ha duvida que se
deve temer o castigo; o arcependímentopóde muito
bem ter inicio nessetemor; mas deve ir atê a de-
t.ttar o mal moral commettido. Deve indispensa-
velmente referir-se a Deus, ter a este em mira, e
fundar-se principalmente na offensa feita a Elte.
Por essesdados resoloem-se facilmente os cq-
sos c seguír. - Si alguem dissessecomsigo
"Eu quiz era nâo ter commettido tal peccado sim-
plesmente paÍa não ser castigadot pàtv não ter que
soffrer eternamente. Pouco me importa que o pec-
cado tenha sido uma offensa a Deus". Esse arrepen-
dimento de nada valeria, porque o seu fundamento
está expressae exclusivamente no temor do castigo.
- Si alguem formulár o seu arrependimento do
modo seguinte: "Àrrependo-me de ter feito isso
por causa do inferno, poÍ causa desse immenso
castigo infligido por Deus", esse arrependimento
jâ seria evidentemente bom e legitimo ? Não. E'
preciso determinal-o melhor, distínguindo do modo
seguinte: Si se qaizer dízer: "Arrependo-me só
por causa do castigo merecido", o arrependimento
não tem valor. Mas, si se quízer exprimir pelo
sentimento intimo do coração: "Detesto tambem
,t1

58 4." Objecção

absolutamenteo mal moral do peccado,a offensa


e separaçãode Deus", então o arÍependimentoé
valido. Como seria, porém, si alguem, pelo
sentimentointimo, dissésse:"Oh! si não existisse
o castigo do inferno, de certo eu faría isto ou
aquillo, sem fazer tanto casodos reclamosda mi-
nha consciencia.Commetteria tal peccado facil e
gostosamente, já que não haveúa táo gravescon-
sequencias.Mas jât que Deus me ameaçacom o
formidavel castigo do inferno, deve ser cousa rcal-
mente má, como a propria conscienciatambem pro-
clama; assim,não quero mais fazel-o"? Taes sen-
timentos intímos, ainda que denotem a corrupção
da nossa íaüJteza, pelo modo por que se resolvem
não são reprovaveisou peccaminosos, porém bons
e legitimos,visto exterior e interiormenteafastarem
efficazmentedo mal. O legitimo interesseproprio
prevaleceu.
A respeito do arrependimento dístinguem-se
uaríos temoreE,que se denominam differentemente.
O temor daquelleque se arrependede um peccado
só por causa do castigo do inferno, é chamado
por S. Thomaz o temor propríamente seroil. Os
theólogosposterioreschegarama chamal-o temor
seruílmenteseruí|, para distingil-o do temor pu(a-
mente servil, que é bom e legitimo, como mesmo
Valor do motivo de medo 59

impropriamente seroil" por Eer ennobrecido pelo


arrependimento da culpa, Ha um terceiro temor,
mais alto e mais nobre, chamadopelos theólogos
temor fílíat ou reuerencial,o qual acompanha o
amor de Deus. Consisteem temer a Deus reveren-
cialmente,como ao pae revestidode summa auto-
ridade e majestade.Quem tiver essetemor, quasi
não olha ao castigo, nem mesmo pensa nelle; o
bom filho só se preoccupae só cuida delicadamen-
te de não irrítar e não desgostaro pae, nem síquer
contristal-o de leve. /Va uída quotidiana temos o
exemplo da differença entre os trcs temores: no
temor do escrquoparu com o dono, no do seroo
ou criado parq com o emo, e finalmente no do
tílho pqra com o pae. O escravo,como tal, não
ama seu dono, que lhe parcceurn tyranno. Muíto
pelo contrario: odeia-o e quereria até,matal-o; só
cumpre o seu dever forçado, com medo do açoite.
Tal serviço Deus absolutamentenão quer. Não
adiantaservir a Deus só exteriormente,conservando
no interior toda a malvadez,todo amor e propen-
são ao mal. Deus não quer escravos,.mas fiéis
servidorese filhos amados. - O criado, para ser
bom, póde e deve receiarcontrariar o amo e me-
recer-lhecastigo;entretanto,além dissodeveamal-
o ao menos um pouco, deve gostar do seu serviço
60 4." Obiecção

e queÍer agradaúhe. Semelhante temor e serviço


jâ ê agradavel a Deus. ,4.ssim, dizem os theólogos,
o temor servil, pata set acceito por Deus, deve vir
acompanhado ao menos por um começo de amor.
No temor filial prevalece o amor. Elle faz
cvitar o peccado pelo receio de offender o bom
pae. Este nos convém summamente, por sernros
chamados a ser bons filhos de Deus.
Quonto é poís errodq e absurda a accusoção
de que o medo do inferno não uale nadal Sim, ha
um temoÍ que não tem valor, que é reprovado por
Deus, é o temor do escravo, o temor servilmente
servil. Porém o temor uerdadeiro e legitímo, o te-
mor sefi)íl e especialmenteo filíal, uale muito mais
do que o medo e respeito humono, que constitúe
uma verdadeira escravidão. Salta aos olhos quão
mais honrosa é a condição de servo e especialmente
de filho de Deus, do que a condição de escravo
do mundo e das suas paixões. Não póde haver
nada meihor do que o que Deus quer de nós. Não
póde haver nada rnais digno nem mais nobre,
mais brilhante nem mais glorioso. Quanto jâ não
vale, por si só, o temor servil de Deus, o temor
do inferno! Pqrq milhões de'pessôal,o pensqmento
do ínferno foí o ínicío do sqbedoria e da saluação.
O pensamento do inferno fêl-as reflectir e retroce-
Valor do motivo de medo 61

der no caminho do mal, levou-asa servir a Deus


com zelo e amoÍ. Deus, o melhor educadorda
humanidade, creandoo inferno sabia bem quanto
elle era indíspensavelpara a conservaçãoda bôa
ordem no mundo e para a mantençados homens
no caminho da honra e da virtude. Por essasrazóes
a SagradaEscripturaenaltecetantas vezeso temor
'Eis,
de Deus por estase semelhantespalavras:
o temor de Deus é a propria sabedoria.. .: e evi-
tar o mal ê,ser intelligente" (Job 28, 29),
Comtudo, estávisto que o motivo do inferno
não é,para todos da mesmanecessidade. Ha outros
motivos superiores,pelos quaesmuitos se deixam
habitualmenteinspirar: o amor do bem, do di-
reito, do dever,e, acimade tudo, o amor de Deus,
servindo-Lhe nós como bons filhos a seus paes.
Porém tambem a essesé summamenteutil e ne-
cessqríoum bom fundo de temor de Deus e de
medo do inferno, perq lhes preoeníras leuíandades,
para firmal-os no bem e na fidelídqde.Porém a um
sem numero de pessôas,mórmente nas tentações,
não impressionao amor de Deus e do dever.Fa-
lhondo estesdoísmotiuos superíores, fíca só o mo'
tiuo do inferno para afastal-osdo mal, motíuo esse
que então se confunde com o de estricto ínteresse.
E' a ultíma barreira contra a qual oem esbarrara
T

j
:

62 4." ObJecção

uíolencíada tentaçdo.Sf ella fícar firme, o homem


se saloa do naufragio do peccado.Si ellq nã.o resis-
tir, faz-se elte uictímw da propría pertsersídode.
à culpa é toda de quem não se deixa intimidar
por elle. O inferno eterno,com todos os seushor-
rores, constitúepor si só um motivo mais que suf-
ficiente para intimidar o mais ousado impio. Si
alguem pretender que lhe é melhor e mais con-
venientepermanecerescravodo mundo e das pai-
xões, do que servir a Deus, honra e vontade lhe
sejam feitas. Ã essa escravidão tercenasuccederá
a escravidãoeternaao poder do demonio, em meío
de torturas incommensuraveis. Mas, a quem tiver al-
guma bôa vontade para com Deus e para com a
propria salvação,o pensamentodo inferno ser-
lhe-â grandementeútil e prestimoso,desapegando-o
das creaturase grangeando-lhea verdadefta líber-
dade.O temor do inferno é, assim,verdadeiramen-
te o inicio da sabedoriae da salvação.Si alguem
perseverarnessabôa vont ade e nessetemor, a ne-
cessidade aospoucosse converter â em virtude. pau-
latinamente Deus fàrma a alma de bôa vontade,
purificando-a e elevando-agradualmenteaté â in-
tenção mais alta de puro amor a Elle. Ã. cefta
altura, o amor substitúe então o temor, creando
entre a alma e Deus a rclação intima de amizade
Analogiaentre a iustiça humana.edivina 63
e de confiançaillimitada, com a firme esperança
de
conseguira salvaçãoeterna.O temor terá cumprido
t o seuofficio, conduzindoao porto segurodo amor.
l
Portanto, quem afffumar que o medo do inferno
não é utilissimo conselheirona vida, e o unico
h
meio effícaz pa:a manter na linha do dever a
t maioria dos homens que desejamsalvar-se,desco-
F nhecepor completo a natureza humana e revéla-
,e falho inteiramenteno seu argumento.

B.) PROVÃ. TIR,Ã,DÃ DÃ, JUSTIÇÃ


HUMANr4,.

Quanto a grande sancção do ínferno é ne-


cessariaás leís de Deus e quão de accordo estócom
a noEla sõ rozão, proúa-o exuberantementeo ap-
parato do justiça humana no mundo, ãppÀt?lhada
destaforma pata manter a ordem civil e seght. -
à sociedade,vendo-seameaçadana sua existencia
?
I
pelas usurpaçõesdos desordeiros,e querendo de-
fender-see defender os bons cidadãos contra os
máos, procurou os meios mais aptos. Chegou a
üeat um apparelho judiciario muito parecido com
a justiça divina. Exerceo seu poder á vista de to-
dos, a bem da humanidade. Estabeleceum exem-
plo grandíoso em fauor da justíça diuina. Serve

.
-!:{
\

't

j
64 Analogia entre a justiça huinàna e divinà Í
t
t:
de prova visivel e lição, que deveria uma vez pata 'jI

sempre fazer calar todas as reclamações e recrimi- ì


ï
I
nações daquelles çlue ainda não chegaram a usar
da sua rccta razão p'ara raciocinar devidamente

sobre o assumpto que nos occupa. Não ha duvida 1 I
que a justiça humana, por ser auxiliar da justiça {
-:i

divina em manter a bõa ordem no mundo, é sanc-


cionada por Deus. Ã autoridade civil é encarrega-
da da divina emquanto mantiver a ordem civih
protegendo os bons contra os máos, cohibiìrdo e'
punindo os desordeirospela força material, de modc..
que não prevaleçam e convertam tudo em anat- *'
chia. Que não faríam do mundo os brutos crimi-
llosos, que não têm medo do inferno, si não en-
contrassemuma colligação e sancçãomtrndial con-
tra'elles? Conuertel-o-íum num antro de uíolencíqs,
a desafiar a humanidade e ao proprio Deus. Foi
por isso que se erigiu contra elles uma barrefta
de ferro e fogo. Ã sociedade defende-seem nome
de Deus, vigorosamente, contra os attentados e
crimes, estabelecendoleis e sancçõescorresponden-
.+
tes, instituindo tribunaes e jvízes,'pondc-lhes nas
ì
mãos os codigos civil e penal, e collocando-lhesao i.


4

lado, como auxiliar, a policia. Por melhores que .|


..t

sejam as leis, si não fôrem ga:.antidas por sanc-


,",
ï
ções efficazes e por uma justiça incorruptivel, não - l

. , :l
I
-.
. l

,:'1

J r l
Analogia entre a justiça humana e divina

adiantam; resultam inefficientese irrisorias. Quem


é que observariaas leis, si estasnão tivessemsanc-
çãol Quem, p. ex., pagariaimpostos,si a tal não
estivesseobrigado sob pena de multa ou prisão?
I
Talvez ninguern! Está visto lSão as sancções effi-
tk
?
cazese justas das leis que prodrrzem a segurança
publica,a bôa ordem no mundo, e não as leis por
I

F
a
É si só. E por isso que as sancçõesse tornam ef.fica-
1 l

t:
zes pelo poder executivoda policia, esta tambem
R
F é indispensavel, e deveestarâ altwa da sua missão.
F
li Nello encontram os desordeíros a força bruts.
r. Quem não quizer obedecerterâ que soffrer pena-
tÈ-

[,
F lidades. E então não adianta reclamar. Usando
I

do seu direito sagrado,a autorídad,eciuíl póde até


;\
i inflígír a pena capital. Como medico social, póde
amputar o membro pôdre e envenenado,póde elí-
mínal-o da sociedade,impedindo assim que pre-
judique os demais.E' por isto que a autoridade
civil recebeude Deus a.espada,para usar della com
toda justiça, a bem da communidadesocial.A pena
de morte ou a reclusãoperpetua,é o ultimo rccurso
da sociedadecontra os maluadosque attentam con-
tÍa a vida dos outros. E' praxe universal cohibír
assim as violenciasdos perversoscontra os bons.
A ameaçado devido castigo corporal ê o unico
freio effícazque ha no mundo e a ultima salva-
J*

66 5.' Objecção
I
'os I
guarda contra máos. E' atê optimo meio pata ì
i
incutir mais temor a Deus, que não deïxarâ de
a

castigaÍmuito maís o mesmo crime!

5.4 PERGUNTA: - Não haverá seme,lhAnça entre a


justiça humana e a divina?

Verificados na justiça humana o modo e a


racionalidade de punir os criminosos com a força
bruta e atê com a morte ou reclusão perpetua,
reEta-nos indagar de que modo a justiça humana
concorda assím com e díoína; de que modo os ccs-
tígos nella empregados justíficam a existencía do
inferno. E' isto que essencialmentenos interessa
saber neste momento Para corroborat a tazáo
de ser do inferno, temos de estabelecerum paral-
Ielo, considerando de um e d'outro lado o que
significam e representam os castigos em questão:
assím, notaremos surprehendente equivalencia en-
tre ambos, ao menos quanto á duração, sinão tanto
em relação â natureza e intensidade dos mesmos,
sendo os terrenos apenas uma paliida imagem dos
eternos.
Condemnando a justiça humana um crimino-
so a soffrer a pena capital, risca-o do livro de
A justiça hum. parecida á div. 67

vida como indigno de continaar a viver na socieda-


de humana. Não podendomais com elle, entrega-o
á justiça divina. Executando-sea sentença,o exe-
cutado padecea maior e mais affrontosa dôr do
mundo - a morte violenta por castígo,para sa-
tisfazer a justiça humana. Nesse momento perde
elle tudo quanto possuiano mundo: família, pa-
rentes,amigos, tíqueza,todos os bens terrenos,o
proprio corpo, atê a esperançade rehaver jámais
qualquer dos bens perdidos, e sem siquer deixar
bôa lembrançae saudades na terra; o proprio nome
fíca profanado e estigmatízadopela morte de scele-
rado. Pa:a elle não ha síquera rccordaçãopiedosa
que se vota aos fallecidosde morte commum! E'
uma desgraçaextrema que caiu irreparavelmente
sobre o infelí2.

O mesmo acontecea quem fôr condemnado


â eterna desgraçado inferno. No momento da
desastrosasentença,Deus risca o reprobo do livro
da vida eterna,onde são inscriptos os seus fiéis
servidores;retira-lhe a sua graça e amízade,quan-
do elle fôr surprehendidopela morte; perde elle
immediatamentetodos os bens destemundo, a que
tanto se apegava; perde corpo e alma, e f.ica para
sempresepultadono inferno, vivendo eternamente
t !

68 5.' Objecção

só para soffrer a todo momento e continuadamen-


te maioreshorroresdo que a propria morte de sup-
pliciado. A sua memoria é, a de um desgraçado,
ficando eternamenteexecradona lembrança dos
bons, e atê dos proprios companheirosde desgraça.
Quando condemnadoá prísãoperpetua,a sor-
te do crimínosonão accusamenos semelhançacom
a Eortedo reprobo. ,\ssim como o criminoso en-
carceradoficou excluido da sociedade humana, pti-
vado da convivenciacom os homenshonestos,e atê,
com a propria familia, assim tambem o reprobo
fica eternamenteeliminado da familia de Deus, da
sociedade de Deus e de todos os bons. tlm e outro
ficam relegadose reclusospara sempre: o crimi-
noso, emquanto estiver nas mãos da justiça hu-
mana, emquanto o corpo viver, até a morte; o
reprobo fícaút no seu carceredo inferno emquanto
a alma e Deus viverem, ou seja por toda a etetni- -
dade. O criminoso reclusoacha-setantas vezesnas
mais deshumanase miserascondições:acha-senão
só numa cella, com grade de ferro, como si fôra
uma f,êra,mas âs vezesaté preso com algemasem
mãos e pés, para nâo poder fugir nem matar-se;
âs vezesem subterraneosescurose immundos, co-
mendo comidapessimae bastantesó para não mor-
rerem de fome, sem nenhumacommodidade,antes
A iustiça hum. parecidaá div. 69

com todo incommodo, com o corpo alquebradoe


dolorido, por tantos suppliciose doenças;com a
alma roída de odios, Íemorsos e maldições dos
seusamigos de sentimentos,cumplicesdos seuscri-
mes, verdadeirosmonstros, mais parecidoscom os
demoniosdo que com os homens,e com os quaes
ninguem quereria conviver. Todos essessoffri-
mentossão muito peoresdo que a morte; são uma
morte lenta e continua, um pequeno inferno. E
si a morte tardassemil annos, teúa elle de con-
tinuar a soffrer os mesmoshorrores. Tudo isso
que a justiça humana dâ a soffrer aos criminosos
náo é, sinão a expressãoviva e verdadeira,aínda
que só em imagempallida, õo que os reprobostêm
de soffrer no inferno!
Onde estão os protestosdaquellestodos que
não concordamcom tamanhacrueldadepara com os
homens? Onde estd s líga de ptotecção aos encor-
cerados,que reclamecontra as torturas deshumanas
Como é que desdeo co-
e inúteís dos prisíoneíros?
meço do mundo não se formou nem uma só liga
para essefim, ao passo.que as ligas de protecção
aos animaes são frequentes?Ninguem se incom-
móda com os prisioneirosmaltratados,estando.to-
dos convictosde que ellespadecemsó as consequen-
cias dos seus crimes, de que talvez net1 soffram
70 5." Objecção

quanto merecem,e de que semelhantes sancções são


necessariaspara garantir á sociedadehumana a paz
e a ordem.
Porece, pois, que a força ínclementeeÍnpte-
gada pela justiça humana contra os críminosos,por
maíor e mais forte que seja, nõo excítq a índigna-
ção nem offende o bdo de ninguem. tLo menos
nínguem reclsmucontra as sancçõesdqs leis huma-
nsl, como sí fôssemcontía os óríos dos homens
briosos,e aínda menos daqueílesque o não são,
os pefi)ersoslLonge de reclamatcontra ellas,os ho-
mens do nosso paí2, por exemplo, reclamam
contra a demasiadaclemenciadas leis civis e as
injustiças que della resultam. Todos a lamentam
e a crítícamacerbamente, affirmando que, para vin-
gal-as,é mBsmonecessario o inferno. Só os crimi-
nosos reclamamcontra as sancções, querendosen-
tir-se desimpedidosnas suas violenciascontra os
outros. Os bons nunca se incommodam com pri-
sõese sancçõesinão lhes tocam nem os offendem,
porque não são feitas pata elles,como o nóta S.
Paulo (1 Thim., t, 9). São feitaspara os desor-
deiros que nellas incorrem por infracção das leis,
e que devemrealmentetemel-as.- Da mesmafor-
ma, devem temer o inferno os desordeirose impe-
nitentes, todos os que não ce incommoda$ com
A justiça hum. é insufic. 7I

leis, nem com sancções, nem com Deus; que que-


rem viver pelos seus caprichos e paixões, e não
pelasleis de Deus; que commetteminfracçõessem
lhes ligar importancia, e sem se arcependeremnem
corrígirem. Quem vivet como bom filho de Deus
não deve assustar-se com o inferno; deve ter te-
mor e respeito fílíal, obedienciae amor de filho,
para com seu pae celeste,e Deus por sva Yez o
tratarâ como fílho e não como escravodo inferno.

o.. PERGIIIYIIA: - Q66 a Justtçra humana atndal é


pqecisa e divina Bara mânter a ordem no mundo?

Ãntes de proseguírmos,serájusto e opportu-


no levantar contra o primeiro grande argumento
em favor do inferno, indispensavelpa:.aganntir ao
mundo a bôa ordem, a seguínteobjecção: si a
justiça humana já perseguee castiga os crimes e
mantém a bôa ordem, não parecedesnecessaria uma
sancçãoextra-tertenae o inferno para mantel-al
Respondemoscomo segue.

Por mais perfeito que seja o apparelho ju-


diciario e policial de um paiz, por mais integrosque
sejam os juizesr poÍ mais incorruptiveis os jura-
72 6." Objecção

dos, advogadose policiaes,ainda são insufficientes


e incompletos para manterem a ordem social. St
por trós e acíma das leis e sancçõeshumsnas não
estiuessea autoridade de Deuscom suasleíse EanÇ-
ções,inspirando respeítoe temor aos homens, to-
das as imposíçõese medidas coercitiuashumanas
não seriam bastanfesJSi não houuesseoutra ius-
tiça além da huamna, esto seriq írrisoúa, Como
augmentariamno mundo os criminosos! Milhões
de enteshumanos que agoÍa, por temor de Deus,
deixam o mal, não encontraríam mais barcefua'
nenhuma para este! Simplesmente"não se deíxar
pegarpela policia" seriaa dívisa de innumeros del-
Ies. E qual seriaa consequencia fatal? O augmento
formidavel dos criminosospor toda parte, uma ver-
dadeirainundaçãode perversidade de toda sorte na
sociedade! Quem é que poderiacohibil-a?Ninguem!
Nem um exercito policial dez vezesmaior do que
o actual! A metadedos homensdeveriaser empre-
gada em policia. Cada qual deveúa ter um po-
licial a seu lado, e cadapolicial um inspector.O
mundo inteiro seríaum antro horrivel de impieda-
des e maldiçóes,um verdadeiroinfernot À justiça
humana por si só é totalmente insufficientepaÍa
garantir ao mundo a bôa ordem. Como garantia
A justiça hum. é insufic. 73

sua faz-se pois precísaa iustíça díuína, cÕmas suas


sancçõesrigorosissimas.
Ãinda mais: a justiça divina é necessaria
como
complemento da justiça humana. Esta só fiscaliza
os actose infracçõesexteriores;não attinge os in-
terioresnem com elles se occupa; é pois uma jus-
tiça superficial, prqpria pa:.a educar hypocritas!
Quando muito, inspira respeitohumano, receioda
opinião social; ensina só a escaparás vistas hu-
manas.Si aquelleque si não importa com a justiça
divina nem com o inferno pudéssetirar o dinheiro
alheio ou abusar da mulher do proximo sem ser
visto nem apanhado,que faria? Certo não deixaria
de se aproveitar! Sem duvida haverá excepções, e
quiçá em numero regular; mas são excepções;a
Íegra geral bem pareceriaser a alludida. Só o te-
mor cieDeus e do inferno é que obrigam imperiosa-
mente a rcctíf.icaros pensamentose sentimentos
mais intimos do coração.
Por outro motivo aínda a justiça divina ê'
necessaría:como complemento da humana, por
causadas falhas desta. Muitas vezesa justiça hu-
mana condemnainnocentese absolve criminosos.
Trancafia os pequenosladrões e deixa soltos as-
sassinose ladrões de casaca,sceleradosde alto co-
thurno que arruinaram numerosasfamilias e vivem
74 6." Objecção
em palacios gozando os frutos das suas rapinas.
Seriapara desesperar, si não houvesseuma justiça
superior,e estainfallivel, na outra vidal E, opinião
universal que essajustiça, com a sua sancção exfte-
ma do inferno, é indispensavel para vingar e corri-
gir as injustiçashumanas.,41éme acima da justíça
humana faz-se poís necessaria,g justiça diuína,
como seu complementoe gsrantio.- E, conforme
jâ provámos, não basta que a justiça divina se
arme com uma sancçãoe castigofuturo temporario,
como seja o pufgatorio; mas tem que se armar do
castigo do inferno, afim de ímpressíonotos ho-
mens e obrigal-os efficazmente a rcspeitar os leís,
Si tantos, pela sua obstinação, jâLnão se deixam
ímpressionarpelo castigo do inferno, quasi nin-
guem se deíxaria impressionar sómente pelo do
purgatorio, e as leis de Deus se tornariam irÌfsorias.
Para trás das leisde Deusé precísoque estejao força
coercítíuareal, grande,soberana,írresistiuel,eterna
Sím, o pensamentodo inferno é o dique
necessario que Deus erígiu contra as furias das pai-
xões humaÍÌas, afim de não deixar os crimes e a
impiedadeinundarem a tefta. E, elle o guarda maís
poderoso da dignidade humana e chrístã. Sí só
houvesseo purgatorio, pena transitoria de além_
tumulo pa:,acastigo dos crigres, seria muito mais
A justiça hnm. é insuflc. 75

difficil paraa maioria dos homens,nas gravesten-


taçõese sacificíos, levaremvida morigerada.Jus-
tamente nas tentações,quando o amor de Deus
estâ a succumbir, soccorre-nospoderosamenteo
medo do inferno, e ajuda-nosa vencer o perigo.
Sem a influencia delle, commetter-se-iam innume'
ros peccados,indignidades e impiedadesa mais.
O roubo, o assassinio,a luxuria, o adulterio, a
embriaguez,a fraude, etc., se genenlizatiam; uma
vída humana digna, a ordemmoral no mundo tor-
nar-se-iamimpossiveis,as offensasa Deus cresce-
ríam illimitadamente,e como as ondas do mar co-
bririam o mundo. Contra essainundaçãosó o in-
ferno póde constituir, e constitúe effectivamente,
o dique sólido. Não foi pois sem motivo que Deus
o creoq.
Os proteEtantelé que abriram brechano díque
da justíça e dos castígosde Deus, rejeitando a exis-
tencia do purgatorio, accordealiás com a Sagrada
Escriptura, com os ensinamentosda primitiva
Igteja e com a sã tazío, como os mais sensatos
e'leaesdentre elles confessam.Para não perderem
a gatantiaprincipal da moralidade, accentuaramel-
les desdea sua origem a doutrina catholica sobre
o inferno como inabalavel. Todavia, desuirtuaram
o effeito salutar do inferno sobre a moralidade,
76 6." Objecção

proclomando uma extrema facilídade em euítal-o,


como seja pela símples fé em Jesús-Chrísto,que
salva e delle preserva.Para melhor fazer compre-
hender o sentido e alcanceda sua nova doutrina,
Luthero proclamoubem alto o complementodessa
doutrina, com a sua grandedivisa: "Peccae,peccae
fortemente, mas crëde mais fortemente ainda, e
sereissalvos!". Longe de protestaremcontÍa tal
abominação,os seuscompanheiros,fundadoresde
outras seitas,acceitatamem geral essescomo outros
principios fundamentaespor elle estabelecidos.Ãs-
sim, reabriram todas as portas d ímmoralídadepogã
impune e ínfame; brecharar!, quasi demolirafl, o
dique collocadopor Deus contÍa as inundaçõesda
maldadehumana. Não quer dizer que não haja
muitos protestantestementesa Deus e aG{ juizos
e castigos,náo. Felizmentenem todos confiam em
taes princípios do protestantismo,como esseda
salvaçãosó pela fé! Ão contrarío, enúe elles ha
tambem quem procure salvar-sepela carídadee
pelas obras praticadaspor amor de Christo, e es-
pecialmenteevitandoao menostodo peccadograve.
Porém é facto historico que o protestantísmo,não
maís accentuandoo rigor da justiça de Deus na
Eua sancçãoextrema do infetno, mas, ao contra-
rio, proclamando a quasi ímpunidade dos crimes,
A iustiça hum. é insufic, 77

abríu as portas de par em par tí deoassidãodesen-


freada. O proprio Luthero pôde verificar a rcalï-
dadede depravaçãomuito maior do povo pela nova
doutrina, confessandoo facto por estase outras
conhecidas palavras: "Os eúsngelícos são seteoezes
peóres do que out{ ora, Depois da prê,gaçã,o
da
nossadoutrina, os homens entregâram-se ao rou-
bo, á mentira, â impostura, á crapula, â embtía-
gvez e a toda sorte de vicios. Expulsámosum de-
monio (o papado), e viéram sete outros peóres.
Principes, senhores, nobres, burguezes, agricul-
tores perderamde todo a temor de Deus". (Wei-
mar, XXVIII, 7 63) , "Quanto mais certosestamos
da liberdade (de peccar,com salvaçãosó pela fé)
que nos conquistou o Christo, tanto mais frios e
negliçates somos em prégar, orar, fazer o bem e
soffrer o mal!" (Weimar, 40, 2 Abt, 6l).
à dissoluçãoda moral foi a consequencia
directade um principio fundamental do protestan-
tismo, e não tardou a verificar-se.A díssolução
doutrinaria das uerdadesda fé tinha que ser a con-
sequencialogica de outro principio fundamental.
Desdea sua origem, o protestantismovem progte-
dindo cada vez mais na sua negaçâo,graças ao
livre exame, pelo qual cada um póde interpretar
livrementea SagradaEscriptura,acceitandoou re-
78 6." Objecção
jeitando as ver-dadesde fé que quizer. E' a arbi-
ftaúedade,o individualismo e o subjectivismo in-
'troduzido na religião,
a libeúade quasi illimitada
em todos os terrenos,tanto na moral quanto na
doutrina. Essalicençaphenomenale ruinosa redu-
ziu, no protestantismo,quasi a zéro as verdades
positivas reveladas,deixando afínal cadaum crêr
o que quízer e ctearassima sua propria religião, na
forma do conhecidoproloquio: "Cada cabeçacada
sentença(cada seita)" ! Chegaramassim os pro-
testantesa pôr em duvida e a negar as verdades
maís essenciaes do christianism'o,inclusive a do
inferno e a da propria divindade de Christo!
Em artigo publicado em o "Estado de S.
Paulo" de 2l de julho de 1929 sob a epigraphe
"O cáosprotestante",lia-seque o professor'€eorge
H. Beets,da NorthwesternUniversity,de Chicago,
publicara um livro interessanteem que referia o
resultado de um inquerito recentesobre o estado -
doutrinal dasprincipaesseitasprotestantesda Ãme-
rica do Norte. Reunia nessevolume as respostas
de 500 ministros protestantesde credos differcn-
tes,e de 200 estudantesde theologia,a um questio-
nario de 56 quesitos sobre pontos essenciaes da
doutrina christã. Ãcordes só estiveram todos eI-
les sobre este unico ponto: a existenciade Deus.
A iustiça hum. é insufic. 79

Quanto á existenciado inferno, só 5t ministros


e 11 estudantesde theologia acceitarama possi-
bilidade de existenciade tal lugar de punição! -
Er bem provavel que o protestantismo dos outros
paízesdo mundo não estejaem melhorescondições
do que o da America do Norte.
Qual o resultadode tão lamentaveldescrença?
E' a onda de impiedade que tende a avassallaro
mundo e arruinar a sociedade.E'o enfraquecimen-
to assustadorda posiçãodo christianismo
- e o for-
midavel incremento do exercito dos inimigos de
Deus e de Christo, que bradam como outr'ora os
ju{eus diante de Pilatos' - "Tira-o! Não quere-
rirosque elle reinesobrenós!" (Lucas,XIX, 14),
Mas:
^A,idelles,Ç[u€tão insensatamentese levanta-
ram contra Deus, reprovandoo seu Christo!
Ai delles, que nâo rcflectem naquillo que os
espera,o terrivel juízo do soberanoSenhor!
Ãi delles,que não reflectemem que a Deus
não falta recursocontra elles!
Ãi delles,porque o ultimo recursode Deus
contra os seus inimigos é e ha de ser o inferno
'eterno!
ï

2.' PROVÂ.
I
ry - A existencia do inferno é necessaria para
garantir a Deus o seu soberano dominio. Et no.
eessaria como ultimo recurso da soberania divi-
na contra os inimigos irreductiveis de Deus.

SUMMARIO:
A não existencia do lnferno lmpllca nas seguintes <:on-
tradições e lmposslbilidades:
1.a O homem absolutamente independente de-ãe,u.q.
de qualquer lel moral, livre de fazer o que qui-
zer (p. Sf).
2.^ Um Deus inconsequente, inJusto e impotente, D€r-
mittindo tal liberdade desenfreada (p. 81).
3.4 A' falta de outro recuïso, Deus seria obrlgado a
favoreeer o lmpio por uma das seguintes impop-
sibilidades (p. 8Z):
l.a ou deveria anniquilal-o;
2.^ ou recebel-o, tal ,qual, no céo;
3.n ou modificar-lhe a perversidade pelo poder divi-
no extraordinario.
() homem é realmente responsavel pelo estado desfa-
voravel da sua intelligencla e vontade (p. 87).
Por todas essas razões, fica a exlstencia do inferno
Brovada do pleno accordo com a sã"razã"o.
Àbsurdos da não-exist. do inf. 81

-Í-

Sendo Deus &nhor absoluto e soberanodos


homens, o seu dominio deve ser reconhecidofor-
çosamente.Do contrario, como haveria de ser?
Todas as supposições em contrario levam ás maiores
contradições.
:,
'{ O 1." absurdo selia o de um homem absolu-
?:

i{. tsmente independente,universalmentelivre, não


:ç só de vontade e physicamente,mas tambem mo-
i1
.t
ralmente, e tendo assim o direito de fazet o que
.tl
quizesse,sem responsabilidadenem consequencia
?
J desagradavelde qualquer especie.Homem tql Ee-
ris maís do que o proprio Deus, que tem que ser
coherentecom as suas ínfinítos perfeições,como a
uerdadee a justíça, Homem tal seríaem si meEmo
uma contradíção oiua, uma contrudição na sua
conscíencía,que lhe aponta claramenteos díreitos
de Deus e oE EuoEobrígaçõe,s,dE suas responsubili-
dadese es sancçõesineuitaueis.Homem tal estaria
i.
em contradição flagrante com a sua origem e fím,
*,
ir
F. com o seu proprío Creador,,Eenhor e Deus.
\ì a
:i
O 2,' absurdoseriao de um Deus que se não
ú,
il
ímportassecom que as suas creaturasracionaeso
i
7 reconhecessem, lhe tributassem o culto devido e
ì.
l]

t',
82 A soberaniade Deus reclama o ln'f.

cumprissemas suasleis. Seria um Deus indifferen-


te ás impiedadesmais chocantes;um Deus impo-
tente, a quem faltaúam recursos para conter os
seus inimigos. Seria pois um Deus inconsequente,
injusto e impotente.
O 3." absutdo seria o de que, não havendo
o recursode castigaro perveÍsono inferno, Deus
seriaobrigado a fquorecerde qualquer modo aquel-
Ie que absolutamentenão o merecesse, o scelerado,
o impio. Dado que estenão se importa com cas-
tigos temporarios,Deus não poderia applicar-lhe
um castigo eterno, ficando assim de mãos atadas,
impotente em face do perverso.Seria pois a pre-
valencia,a vantagem,a victoria do impio contra
Deus. Seria a destruiçãode toda noção de justiça
e santidade,seria um immenso absurdo.Deus ab-
dicaria a sua autoridade em favor do impio. - E
como um absurdo acatreta facilmente outro, tal
succederia no nossocaso.Com ef.feíto,suppostonão
poder haver inferno para castigodo impio irreducti-
vel, Deus lhe favoreceriaa pewersidadee impieda- 'ì 'I
de, em proveito destas,fornecendo-lhemotivo e in- \j

centivopara ainda mais seatrevercontra Elle. E fa-


vorecel-o-iacontra interesses
outros imprescindiveis,
contra a bôa ordem do mundo e em proveito da
impiedadepublica.
.i
,l
t
{!
I
lmpossibilidadesda não-exist.do inf. 83

O priineiro absurdo,leva a outros. suppos-
ta impossibilidade de castigar alguem no inferno
obrígaría Deus a uma das seguíntesímpossíbili-
dades:recebel-oafinal no céo, apesqrde tudo; ou
anníquìlal-o; ou, por força diuína, transmudar-
lhe em rectidão a malicío dq uontqde.
Ora, todos essesabsurdosoccorueriam,si não
houvesseinferno pal.a castigo effícaz do impio.
Este poderia então insultar a Deus cynicamente,
dizendo-lhe: "Ouço o que mandas, compre-
hendo tudo, mas não te servirei; cuspo na tua lei,
pisarei aos pés os teus mandamentose rio-me de
ti; poÍque, embóra me castiguespor algum tem-
po, aínda que seja por milhares e milhares de an-
nos, depois me has de dar o cêo", E que poderia
Deus fazer, si não houvesseinferno eterno?
1.o- .,\nníquílar o ímpiol Mas seria o que
estepreferíria,para de qualquermodo sair impune.
Nessecaso,porém, não teria elle o castigodevido,
e sairía uencedorcontra Deus até o fim, podendo
dízer: "Sím, Tú me anniquilas porque o teu
poder é gtande, mas não consegues que eu te reco-
nheçaa soberanía.O anniquila(es-menão ê.victo-
rïa para ti, é simplesdesforço,é a victoria do mais
forte contra o fraco; está tão longe de ser tú-
umpho para tí como estarialonge de ser triumpho
84 À soberania de Deus reclama o inf.

para um homem reduzir a massa informe unra


mosca!" Si não houvesseinferno eterno,Deus te-
úa de capitular ante o impio, sem ter recursocon-
tra elle.
2.o- Não querendoanniquilar o impio, nem
castigal-ono inferno, que deveriaentãoDeus fazerT
Vêr-se-ia forçado a recebel-oafínal no céo, tendo
de se esquecerde tudo quanto eIIefez, da malicia
da sua vontade para com Elle. Teria de recebel-o
no céocomo si elle nenhum mal tivessefeito, como
si fôra o seu melhor amigo e mais fiêl servo,
como si fôra o mais innocentee santo dos homens.
Deveria recebel-onaquelle lugar de recompensas,
sem retração,sem emenda,sem reparaçáoalguma.
Méros absurdos!
3.o - Que poderia Deus ainda fazer contra
o impio, si não quizesseaniquilal-o nem recebel-o
tal euial no céo? Conforme muitos pretendem,
deueriq transformar-lhe em rectidão a malicia da
uontade, para o vêr differente.Ouve-semesmo ás
vezesreclamarcontra Deus do modo seguinte
"Porque foi que Deus me f.ezassim,com uma in-
telligencia, uma voilt:âde, umfl natureza que se
recusama sujeitar-sea Elle e ás imposiçõesda sua
religião? Que me esclareça sobre tantas contradi-
ções e que
incoherencias acho na rclígião e que me
da não-exist.do inf.
Impossibilidades 85

revoltam. Qu. tfueda minha vontade a repugnan-


cia e a resistenciaque sinto contra as suasexigen-
cias! Si póde modificar-me a natvreza, omnipo-
tente como Elle é, porque então não o faz? Não
sou culpado de que a minha natureza repugne â
religiâo". Reclamaçõestaes constitúem grave ac-
cusaçãocontra Deus e uma capciosadesculpa.Ve-
jamo-lhes a inconsistencia.
Parecerealmenteque uma ultima possibilida-
de pal.aDeus seria, por influencia secretae sobe-
rarra,modificar a relutancia e malicia da vontade
humana, transformando-aem prompta e recta,
ainda que o homem o não quizesse, preferindomil
:
Y vezesseguir os seus caprichose gozat os prazeres
do mundo. Bem examinada,porém, essasupposta
possibilidadercvéla-seuma verdadeiraimpossibili-
dade.Sinão, vejamos.
Não ha duvida que, absolutamentefalando,
Deus poderia, por seu divino poder, transformar
em rectidão a rcbeldíae malicia da vontade hu-
mana; todavia,não o quer, e nem convém.E isto,
porque essatransformação interior da vontade,
sem consentimentodo proprio homem, pareceuma
violaçãoda liberdadehumana,ao menosparacom os
verdadeirosimpios, que absolutamentenão querem
tal influencia e transformaçío, - ainda que Deus
86 A soberania de Deus reclama o inf.

tenha o direito absoluto, e a líberdade posterior não


seja prejudicada. Ãdemais, violenrar a liberdade
humana, constrangel-a intetiormente, por influencia
divina secreta, a querer o que, rcflectída e positi-
vamente ella não quer, é absolutamente contta a
divina providencia na economia da salvação.
E' certissimo que Deus quer salvar cada um de
nós, e que, sendo infinitamente justo, faz tudo
quanto nzoavelmente deve e póde para esse fim,
ajudando o peccador pela graça. Menos certo nâo é
porém que Elle a ninguem quer salvar sem a coo-
peração propria, correspondendo o homem aos
seus intentos. "Ãquelle que te creou sem ti - de-
clara Sto. Ãgostinho não te salva sem ti'.
Repugna á justiça e â dígnídade de Deus dar o seu
céo a quem não o quer. Deus f.ez o homem senhor
da propria vontade e do proprio destino: faz de-
pender a salvação da obra pessoal de cada um.
Não se deve pois inverter a ordem das coisas. Não
é Deus quem deve operar e merecer a salvação do
homem, mas o proprio homem. Deus não quer dar
o céo de todo gratúitamente, mas só como recom-
pensa, a quem o merecet trabalhando e sacrifican-
do-se pa:n ganhal-o. Succede com o premio de
Deus o que succede universalmente aqui na tefta:
quem não trabalha não ganha, não f,az jús a
pelas condiçõesda alma
Responsab. 87

remuneração.Conforme S. Paulo (II Thess., 3,


l0), quem não trabalha não tem o direito de co-
mer, e portanto nem o de viver. Àssim tambem,
não ganha a vida eterna sinão quem presta o
servíço prescripto, ordenado.

7." PEA,GITNTA: - E' ou nã,o é o homem responsavel


pelas condições dq sua intelligencia e vontad.e?

Ora, o primeiro e principal serviço que te-


t
mos de operar em favor da nossa salvaçãoé cul-
tívar a nossaintelligenciae vontade, dái-asa Deus,
reconhecere glorificar a Deus por ellas. O ser hu-
mano, i, é, o homem todo, com corpo e alma, é o
campo de Deus por excellencia, que devemostraba-
thar, roçar, plantar, e, com a graça de Deus, fa-
zel-o produzir frutos de virtudes e bôasobras pa:.a
a vida eterna,E' preciso aproveïtar a luz do dia,
o sól e a chuva fecundanteque Deus dispensafar-
tamentea todos. Cada qual colherâo que houver
semeado.Ninguem póde responsabilizara Deus si
o seu terreno só produz hewas más, cardos e es-
pinhos, frutos amargos e mortiferos. Imputar a
Deus as trevas da nossa intelligencia, a rebeldía
da nossavontade e a pelersidade do nosso cota-
' ''.
88 7." Objecção

ção, é enorme injustiça, é verdadeirainsania. E'


um gÍosseiroengano fazet dependerd'Elle o que
na realidadedependede nós mesmos.E' gravissimo
erro exigir e espem de Deus o que Elle collocou
em nossasmãos e esperade nós, do nossoesforço,
o que está ao nosso alcance,o que podemos e de-
vemos por nós mesmosf,az*,
à intelligencíae a vontade humanassão fa-
culdadesespirituaesreflexas, podendo agir e rcagír
sobre si mesmas, pal.a veríficar e rectificar tudo.
,5,o mesmo tempo são dependentesuma da oufta,
i. é, a vontadepóde agfue mandar na intelligencia,
ao passoque esta póde agir e influir na vontade.
Cada um de nós é senhor da sua intelligenciae
vontade, podendo fazer dellas o que quizer: póde
formal-as, transformal-ase até dívínízal-as,como
quizer; póde deformal-as,corrompel-ase pervet-
tel-as, como quízer! Será conforme o alimento que
lhes fornecer.E será conforme as deixar dominar
pelasmás paixões,ou não. O alimento dellas,na-
tural e sadio, é a verdadee a sabedoúade Deus,
o direito, a justiça e a verdadeíracaúdade,Ãlimen-
to ficticio e a sua corrupção são o erro, as phan-
tasias da imaginaçãopropria ou alheia, e as lou-
curas da paixão. Ãinda mais prejudiciaeslhes são
pelas condiçõesda alma
Responsab. 89

oE peccados,especialmente os vícios, que não só


as escravizam,mas as estragame corróem intima-
mente, tirando-lhes a vitalidade, a luz e a força.
Elles endurecema vontade no mal, e tornam quasi
cégaa intelligencia.Por tudo isso é o homem res-
ponsavel.
Do mesmo modo que o homem póde estra-
gar a sua intelligenciae vontade,tambempóde me-
lhoral-as,evitandoas influenciasimpropriase agin-
do conveníentemente sobre ellas. Póde muito bem
melhorar uma pela outra. Para melhorar a vonta-
de, é precisomelhorar a intelligencía,os pensamen-
tos; é preciso rcflectfue ponderar melhor a verda'
de e rcalidadedas cousas,não os seusprós, mas
tambem .osseuscontras; é precisoinformar-seme-
Ihor, distinguir melhor entre a rcahdadee as ap-
parencias.7 P-ara-ÍÌos- não e+ganârÍnosnas nossas
invesríga(õese progredirmos sempre na compre-
hensão da verdade,devemo-nosbasearem certos
principios inconcussos, como p. ex. nos seguintes:
Não ha sabedoriacontra Deus! Tudo quanto Deus
faz é, bem feito! Jámais é, pois, licito e nzoavel
pensar, ou sentir mal de Deus! Seria blasphemia
imputar a Deus o que se deve attribuír á maldade
e aos malfeitores humanos!
Mostrando assim nas suas indagaçõesjusti-
.'
90 7." Objecção .

ça, sincerídadee lealdade,a lvz de Deus náo tarda-


rá, a nascerna alma. Expurgando a intelligencía, a
phantasiae a vontade das illusõese maldades,mais
ou menosvoluntarias,Deus começaa tomar conta
dellas, esclarecendo-ase transformando-ascom a
sua luz e a sua gtaça,
A proua cabal e summaría de que podemos
melhorar as condiçõesda nossaíntelligencíae von-
tade, estd,na propría educaçãodq mocídqde,como
na f ormoçãoproprío e subjectiuade cadaum. Toda
ella presuppõee sebasêana possibilidadede modifi-
car e melhorar as condiçõesda intelligenciae da
vontade.Si essapossibílidadedesapparece para qval-
quer educando,só ha tiral-o do educandario,onde
não progride nem melhora. - psus tambem quer
educar-noscomo seus bons e dignos amigos, de
modo que mereçamosestar eternamentecom Elle
no céo. Quer formar-nos na sua escóla, offerc_
cendo-nosos recursosda santa Igreja e concorren-
do EIIe proprio, com a sua graça, parà a obra da
transformação da nossa intelligencía e vontade.
Entretanto, os auxilios exteriores não dispensam
o trabalho pessoalde cadaum, como na escólao
alumno não se póde dispensarde estudar; deve
este até fazer o trabalho principal, indispensavel,
estudando por si mesmo. Dest'arte, cadaum deve
Iìesponsab. pelas condições da alma 9l

empÍegar os meios â sua disposiçãoe coopeÍaÍ


com a gtaça de Deus, afim de melhorar as con-
diçõesda sua intelligenciae vontade, tornando a
sua alma digna de Deus.
Outra prooa cabal de que podemosmelhorar
as condiçõesespirituaesda nossa intelligencia e
vontade, estd,na importancía da medítação,no pa-
pel importante que a meditação desempenhana
vida espiritual. l\ meditaçãoé outra escóla,uma
escólasuperior, com optimos professores,como
sejamDeus e os seussantos,e bons manuaes,con-
forme as necessidades espirituaesde cada um. A
meditaçâoé um excellentemeio para ennobrecera
intelligencia,avontadee o coração,o homem todo.
Nella se aclaram as illusões,vaidadese injustiças
do mundo; nella nascema emendada vida e as
virtudes; nella se accende o fogo do amor divino:
numa palavra,é. ella um optimo meio para trans-
formar a intelligenciae a vontade,para f.azerDeus
viver no homem! _ O mesmo se póde dizer da
oração, da bôa leitura, da assistenciads prédicas
e mórmente do estudodas grauesquestõesrcferentes
á hossatarefa de uída, rÍs nossasfuturas esperanças
e apprehensões,
Por conseguinte,em thése, ha muitos meios
paft melhorar e transformar a intelligencia e a
=F-

92 7.' Obiecção

vontade; estâ mais que provado! L dif f iculdade


está em mostror praticamente,na realidadeda uida,
guão culpodossõo os que não empregamos meios
d sua disposiçãopara essefím e que portanto con-
tinúam em pessimascondiçõesespirítuaesde intel-
ligencia e uontade,
. Innumeraspessôasse acham na vida em con-
diçõesdesfavoraveisao seu bom desenvolvimento
espirituale á sua salvação.Muitos parecemjá nas-
cer sob uma estrellade infortunio, d. paesviciados,
já desdea infancia só ouvindo blasphemiascontra
Deus e contra a religião. Crescendo,vivem na rua,
abandonadosdos paes,frequentandoou não uma
escólaneutra ou antes contraproducente,e sendo
desdecedo desviadose desnorteados. Entrando na
vida, nadasabemde Deus nem da eternidade,e nem
queremsaber.Continúam muitas vezesa viver em
condiçõesindependentesda sua vontade, absorvi-
dos e opprimidos por necessidades materiaes.Pa-
recem victimas das círcumstancias exteriorese in-
teriores,sujeitos ás paixões,a que se entregamcê,-
gamente,quasi como animaes,impulsionadospelo
instincto actual, pela cubiça e necessidadedo mo-
mento. Longe de pensaremem viver moralmente
bem, só pensame só procuram viver materialmente
bem, o melhor que puderem. E' o seu ideal! Não
Responsab.pelas condiçõesda alma 93'

8e preoccupamcom cousa alguma mais, nem com


Deus e com os interesses eternosda sua alma, nem
com o céo ou com o inferno. E' difficil que esses
modifiquem ou melhorem as pessimascondições
da sua intelligenciae vontadeno tocanteá salvação.
Por um lado parcceque andam no caminho do
inferno, mas por outro parecetambem que não
são totalmente culpados, pois ,andam nesse ca-
minho impellidos mais pela força das circumstan-
cias e por uma ïnfelíz dírecçãoda vida i oü, como
pretendiaLuthero, falando do livre arbitrio, andam
nelle "catregados pelo demonio", como outros an-
dam "cartegadospor Deus", estesultimos os que
andam no caminho do céo.
È
\a Que fará Deus então delles?Condemnal-os-á
t todos ao inferno, ou recebel-os-á taesquaesno céo,
desculpando-lhestudo? Eis ahi uma questão
curiosa que interessaa muitos, por envolver a
sorte eterna,propria ou dos amigos!Que fará Deus
desses taes?E' o que não sabemos,nem podemos
saber. Só Deus o sabel Para nós fíca sendo um
grande mysterio, ou seja quantos dessesinfelizes
se salvam ou se perdem eternamente.Só no juizo
final é que isso se desvendará.O que, porém, sa-
bemos é que Deus tratarâ com toda justiça, mas
tambem com infinita misericordia,todos essesque
94 7.' Objecçâo
sem culpa propria andavampor caminhoserrados,
Ievando-lhesem rigorosa conta todas as circums-
tanciasattenuantese aggravantes.Visto que Deus
não exige impossiveis,tambem não pedirá contas
daquillo que elles não sabiam,nem podiam fazer,
Serão elles assim responsaveis apenaspelo que ti-
veremconhecidocomo obrigação,pelo que tiverem
sentido na conscienciacomo bem a fazer ou mal
a evitar. - Os que sem culpa ignoram os seus
deveresreligiosos,serãojulgados pelas leis da na-
tureza, que conheçam,segundo a observaçãode
S. Paulo. Si, por ex., um dessescommetter um
roubo'ou um assassinio, absolvel-o-âa justiça hu-
mano como innocentelCertamente não! Da mesma
forma, si algum praticasseum adulterio, deixaria
Deus de responsabílizal-opor elle? Certo que não.
Ou deixaram essesde ser dotados de intelligencia,
vontade e consciencia,aos quaesdá Deus a graça
sufficientepa:.aevitar o mal e salvar-se?Se dá que
ellesnão têm olhos para vêr, no meio de todas as
povoações,igrejas erguidascomo dedos de Deus,
apontando para o alto e lembrando a eternidade?
Serão cégose não terão visto o bom exemplo de
milhares e milhares de pessôasque frequentam as
igrejas, tratando alli o negocioda sua alma e da
sua eternasalvação?Em todo caso,si, em vez de

-l*l I
'F

Responsab.pelas condiçõesda alma gõ

dez ou cinco talentos, tinham apenasufr, neln


este podiam enrerrar (Math., Zj, 25). Sabendo
aquillo que não podiam ignorar, i. é, que o dono
era severo,deviam ter empregadoe feito frutificar
o talento, para receberemo mesmo premio do céo
que receberão os que mais talentostiveremrecebido.
Não fazendo homem tal o pouco que, por sua
consciencia,podia e devia fazer sob pena de falta
gÍave,mas vivendo como si Deus não existissenerü
'1 tivesseelle que se incommodar com Deus, é bem
( claro que se tornarâ responsavelpelas pessimas
't
consequencias de semelhanteattitude.
I
Bem differenteda condiçãodesses desherdados
da sorteé a condiçãodos homensque se governam,
se dirigem e dispõema sua vida pela sua vontade
propria, embóramuitas yezesnão tanto como que-
reriam, mas como podem, sujeitos a duras cit_
cumstancias,a pesadosencargosde familia ou ou_
tros, etc. Trabalham, lutam, iepousam,divertenr-
s€, corporal ou espiritualmente,mas em condí_
çõesnormaesde vida. Si perguntarmosqual a res-
ponsabilidadedesses no tocante á bõa vontade e á
obrigação de melhorarem as condiçõesespirituaes
da sua intelligenciae vontade, afim de se salvarem
e evitarem'o inferno, forçoso será responderque
essaobrigaçãolhes.tóca a todos. São elles incom-
S6 7.' Obiecção
paravelmentemais responsaveisdo que os da pri-
meira categoriaapontada,os quaesvivem em con-
dições desfavoraveis.
Tambem esses,porérn, procuram desculpar-se
do pouco cumprimento dos seusdeverespara com
Deus e para com a propria salvação.l\llegam falta
de tempo. Allegam, para a restricçãoda natalida-
de, não dispôr de recursospara criar e educarmais
outros filhos. Desculpastodas inacceitaveispor r!
I
Deus. Deu Elle seisdias ao homem para tratar dos t

negociosterrenos,reservandopara si e para o bem


ìï
da alma o sétimo. Deste dia, ainda assimreservou
apenasuma hora de obrigaçãopara assistencia
culto publico. O trabalho no domingo, além de
ao t
I
*l
contraproducente,é um crime contra Deus, contra ã
a sociedade e contra si proprio. Deus tambem quer ï
.1
ser servido no seu dia proprio, como aliás em to- {
!l

dos os dias. Ha tempo para trabalhar, para des- l

calsar e parladivertir-se; ha tempo para tudo, me-


nos para prestar culto a Deus e para cuidar da
alma. Muitos não achamcinco minutos para rezar
pela manhã e â noite! O que Deus exige não é
riqaeza, nem muito tempo, porém verdadeirabôa
vontade, fazendo o homem algum sacrificio por
Elle e em proveito da propria alma. Fazendoapenas
a centesimapafie do que fazem para o mundo e
--Fi:1

Responsab. pelas condições da alma

paÌa o corpo, muitos seriam verdadeiros santos!


Para ser bom filho de Deus e se salvar, não é
mistér sacrificartanto tempo ao serviço de Deus,
como p. ex. os religiosos,que multiplicam os exet-
cicios espirituaes.Na maioria dos casostrata-se de
pequenossacrificiose apenasde minutos a des-
pender. Ãlém de evitar todos os peccadosgraves,
é precisorecebera communhãoao menos uma vez
por anno, assitirá missatodos os domingosem que
isto seja moralmentepossivel,orar a Deus, viver,
trabalhar e soffrer em união com Elle: sem fazer
obras extraordinarias,o homem salva-see santifi-
ca-sesó por essasobras simples,communs.Si elle
viver em união com Deus, Deus supprirá e com-
pensaráo que faltar,
Para viver não é precisoser rico. O rico não
póde comer mais do que o pobre. Embóra a sua
comida seja mais apurada,o pobre sustenta-se per-
feitamente com uma comida substanciale mais
vulgar, e não raro aproveita mais. Disse-nosum
dia uma pobre viúva: "Yeja, sr. padre, tantas
vezes meus filhos passam fome, não têm o que
comer, Os paes ricos, como essee aquelle, esfor-
çam-separa dar bôa apparenciaaos filhos, dando-
Ihes pratos finos. Entretanto os meus filhos são
sadios, fortes e corados, emquanto os delles pa-
7.' Obiecção

Íecem doentios, depauperados,como si não co-


messem.E' de certo porque Deus compensao que
tantas vezes faltat.' E a pobre viúva ria-se de
contente, accrescentando que Deus ê,o pae dos po-
bres. Assim tambem na vida espiritual, si se em-
pregarem os meios communs, poder-se-â peúeita-
mente viver bem e desenvolver-senormalmente,
santificar-see salvar-se.Basta ter uma grandebôa
vontade em cooperarcom a graça! Prova disto é
o facto de se encontraremnão raro pessôas simples
e sem nenhuma instrucção,mas que na vida espi-
#
ritual são muito adiantadase esclarecidas,elevadas ï
e transformadas pela graça, a ponto de envergo-
nharem a muitos que têm á sua disposiçãotantos
t
.t
recursosespirituaes,porém vivem como si não ti- Ìl
ïÍ
lt
vessemnenhum! Quanto mais tecompensados me- il

recemser os primeirospela sua bôa vontade, tanto Í


mais reprehendidose castigadosmerecemser os t
segundospela sua mâ vontade, por não modifi-
carem nem melhoraremas condiçõesespirituaesda
sua alma, como podiam e deviam, pot não fa-
zeÍem siquer o indispensavelpara a sua salvação!
Não vale a desculpa"Não posso!" dos uicia-
dos, daquellesque, pela repetiçãodo mesmo pec-
cado, contrahiram um ou mais vicios, vendo-se
depois presoscomo por grilhões e julgando im-

:!l
À
Responsab.pelas condiçõesda alma gg

possivelsair da sua escravidão.Nem essesdevern


desanimare jogar f&a as armas! Ahi estão os
exemplos de tantos grandespeccadoresque pela
penitenciase converterame se tornaram grandes
santos,como p. €x., Sto. Ãgostinho. Elle reanima-
va a sua coragempelo exemplo de tantos outros,
repetindo sempre: "O que este ou aquelle fez,
setâ que eu não posso fazetT" ,"Com a gtaça
de Deus posso tudo", disse S. Paulo, pal.a si e
para todos. Póde-setudo com a graça,cooperando
fiélmente com ella!
A desculpado impío é um desafío a Deus e
â humanidade. Elle pretende que Deus não the
póde tocar, porque elle não O conhece,nem O
viu, nem a sua tazâo o convenceuainda de que
Lhe fôssedevedore de que tivessedeveresa cum-
prir pan com Elle. Tal affirmatíva repugna â
natvreza da consciencia,que proclama incessante-
menteos direitosde Deus sobrenós. E' uma burla!
E' a philosophia do avestruz,que, quando se apro-
xima delle o tigre sanguisedento,
enfia a cabeçana
terra, fechandoos olhos para não o vêr, como si
não tivesseentão nada mais que temer. À,ssímo
impio não quer attender ás suas obrigações,até
as despreza,jalgando frivola e absurdamenteque

-'P,
r . .1 ., ,'
100 7.. Objecção ,

com isso fique desculpadoe isento das pessimas


consequencias do seu proceder.
Finalmente,resta ainda uma categoriaque se
desculpa.São os eruditos, doutorcs ou estudanteE,
que não quercm saber de Deus nem da rcligíão,
talvez porque lhes fizessemal, ou porque nos es-
tudos achassemmotivos contra Elle. Muito pelo
contrario! Foi porque estudaramo que não deviam
estudar,e porque não estudaraÍno que deviam es-
tudar! Talvez, no passado,tivessemgostado da
religião e se sentissemfelizesem pratical-a. Talvez
toda a sua familia seja religiosa,a começarpelos
paes.Elles, porém, formam voluntariamenteuma
triste excepçãoe dissonancia, pensandotalvez com-
sigo, no seu orgulho: "Ãh! eu sei mais! Não
precisomais de Deus!" Teriam esses qualquerdes- I

culpa? Pretexto têm; desculparazoavel,não! O í


,
motivo real é que se estragaramcom más leiturase
talvez com vicios inconfessaveis.Não se sentem
mais com coragemde praticar a religião e de se
elevarás alturas. ^Ahi estâa historia de tantos eru-
dítos, ou pretensoserudítos! Os que se excusam,
se accusam.Ã sua desculpavolta-se contra elles
como maxima culpa. Deus tambem os espeÍa,a
essesdoutos ou pretensosdoutos!
Ninguem tem o direito de se .desculpardas
Responsab.pelas condiçõesda alma 101

más condiçõesespirituaesda sua alma. "Ainda que


não me lembre de nada, _ previne S. paulo (I
Cor., 4, 4), nem por isso estou justificado. Ha
quem se lembre de tudo e saiba tudo a fundo:
é Deus que me julga!" Não devemoscrêr dema-
siado na bôa vontade. Àcaso cada um de nós não
é culpado dos seus peccadose vicíos, dos abusos
da graça,da intelligenciae da vontade?Ãcaso não
vemos o bem e não seguimoso mal? Acaso não
r. temos consciencia dos nossosactos,quando agimos
: contra os reclamosdaquella? Deviamos seguir o
Ìt a

t mais ruzoavel e seguro, que ê, ao mesmo tempo


t tambem o melhor e o mais perfeito. Quantas ve-
l zes,como diz S. Paulo (Rom., VII, 5), vemoso
i

' melhor e seguimoso peór! Quem comprehendeú


I
todas as consequencias das infidelidadesâ graçade
Deus?
No fim do mundo, no juízo uniuersal, ha-
uemosde uêr como cqdaum foi o autor da sua eter-
na sorte, seja de bemaventurado no cé,o,seja de
repiobo no inferno. Havemos de verificar como a
observanciaou a inobservanciadas leis moraes
pÍovocaram certas e determinadassancçõese pte-
mios, güe, quaes outras tantas leis, contribuiram
paru a elevaçãoe santificaçáo de ume alma, ou
pata a cegueiga,pata o empedernimentoe paru a
702 7." Objecção

reprovaçãode outra, conforme a fidelidadeou in-


Íidelidade â graça,quasi como o mercurio do thep
mometro, que sóbe ou desceautomaticamentesob
a acçãodo calor ou do frio. Esta vista provarâ na
alma dos reproboso remoÍso eterno,pelo que po-
diam e deviam fazer e não fizeram, e por tercm
merecido inteiramente aquillo que eternamente
terão de perder,
Sendopois do homem a culpa e a culpa toda,
das más condiçõesda sua alma, em vão espemâ,
elle que Deus,por um milagre,façaaquillo que elle
proprio póde fazer, i. é, rcctífícar a sua vontade
e tudo quanto perverteu.E' elle proprio quem deve
procurar rcpatat o mal f.eito,com os recursosde que
dispõe. Conforme fôr necessarioe conviér, Deus
ajudal-o-á com a sua graça,facilitando-lhea tarc-
fa, si o homem lhe implorar essagraça e realtzar
as demais condiçõespa:m obtel-a. O grande tra-
balho de regenençãofica a cargo do proprio pecca-
dor. Si elle não se obrigar aos sacrificiosindispen-
saveis,mas perseverarna sua indolenciae malda-
de, estasum dia perdel-o-ãoinfallivelmente.
Com o serviço de Deus não se dâ o mesmo
que com o serviço de um senhor da tefta. Ão
deste ninguem é, genlmente obrigado: cada um
tem na teua a hberdadede servir a quem qvízer,
pelas condiçõesda alma
Responsab. 103

de escolhero seu amo. Ã Deus, porém, todos


somos obrígadosa servir, e não será sem conse-
quencíaque o não sirvamos fiélmente: teúr isto
consequencias desastrosase fataes.Quando o Su-
pÍemo Senhor apparccet e chamat os seus servos
a contas, mandarâ atat o seÍvo preguiçosoe inútil,
e, atado de mãos e pés, lançal-o nas trevas exte-
riores, onde haverâ pranto e tanget de dentes
(Math., 2'5,30). E' a desforrade Deus,o seuulti-
mo recurso contra o malvado, contra o impio,
contra o empedernidoque recusaser-lheservo fiel
e filho carinhoso.Esseseráeternamenteescravodo
demonio,amaldiçoando-se a si proprio e aosoutros,
naquellelugar de horrores e de trevasonde haverâr
pÍanto e ranger de dentes- no inferno eterno!
y - A propria natureza do peccado gravo re.
clama o inferno eterno. Reclama.o como natu.
ral eonsequencia, como castigo deüdo.

SUMMAB,TO:
A justiça reclama um castigo proporcional a cada
peccado (p. 105). Por toda transgressãoda lei i

em materia grave, Deus é gravemente offendido


(p. 106). A gravidade do peccado resulta do mo-
tivo por que so Becca: é a satisfação da creatu-
ra contra a vontade de Deus, ou a preforencia da
creatura a Deus (p. 109). A consciencia accusa
ossa como qualquer outra culpa de peccado gra-
ve, emquanto e,ste se dirige contra â surnÌltâ trla-
jestade de Deus (p. tf O). Momentos subjecHvos
que augmentam ou diminuem a gravidade (B. -á\
Llz). O Beccado grave não se torna leve pelo fa-
cto de não comprobendermos bem a divindade
(p. 114). Determinação do castigo devido ao pec-
cado grave: o inferno (p. 115). A natureza d.o
inferno é a consequencia natural do peccado gre-
ve: a separação de Dous, com todog os seus hor-
rores (B. f2g). as Denas do iuferno conforme os
theologos (p. f gf ). Resolvo-se a objecção soguin-
tç: sg4do-4bs dgqçonbgcidgs Og proprios horrores
2 Alternativas de satisfacção 105

do inferno, seria injusto castigar-nos Deus com


elles (p. 135). O Beccador cáe irremediavelmonte
no inferno ua hora da morte (p. 139). Reprova-
se a possibiltdade da reincarnação como meio de
ovitar o inferno (p. 143). Não é possivel á alma
soparada do corpo nem a purificação Bagsiva, nem
a actlva ou conversão propria (B. 146). Tanto
menos possivel é uma conversão acceitavel Bor
Deus á alma já accommettida pelos horriveis cas-
tigos do inferno Íp. f *S). Como o corBo, pela mor-
to, fica immovel, assim tambem a alma fica im-
mutavel, e o Beccatlo do reprobo como que eter-
n i z a d o ( p . 1 4 9) .

E conoicção uníLtersql no mundo s neceEsi-


dsde de um cqstigo proporcíonado a cada delícto.
À justiça mais elementarreclama-ocomo rcparaçã,o
da ordem perturbada. Como já vimos, o castigo
proporcional é, a sancçãoannexada poÍ Deus a
cada lei como gar:;ntia da sua oÊservanciae da
inviolabilidadeda bôa ordem. O peccadoé a tÍans-
gressãoda lei; o castigocorrespondente é a satis-
façãopela desordeme o restabelecimento da ordem.
O castígo é inevitavel sempre que o delinquente
não queira apÍoveitar o outro modo de satisfação,
ou seja da misericordia de Deus. - Depois de
provada a existencíarcal do inferno por duas gran-
des nzões extrinsecas,como unica medida coer-
106 O peccado grave reclama o inferno

citiva effícaz contra as paixões humanas e como


ultimo recurso de Deus contra os seusinimigos, tra-
ta'se de provar que com as rczóes extrinsecas con-
cordam plenamente as duas intrinsecas, a saber:
que o ínferno é absolutamente necessario como
consequencianatural do peccadograve, sendo, este,
como é, a maior offensa a Deus, repugnando ft-
reconciliavelmente á misericordia e justiça infínitas.
. Ã thése da 3.^ prova é esta: O inf erno é o cqs-
tigo deuido qo peccado grqoe. Ou, por outra, e em
forma de pergunta: Será realmente o peccado gra-
ve um mal tão grande que Deus tenha tido de
crear o inferno para castigal-o devidamente? Sim!
E' uma offensa gtave, gravissima a Deus. E'
uma offensa tão sêría que leva immediatamente
ás peores consequencias:ao rompimento com Deus,
á inimízade com Elle. Mas, como é que o homem
offende gravemente a Deus? como é que Deus é
gravemente offendido pelo homem? Não sómen-
te pelos peccadosque attentam directamente contra
Elle, contra a sua santissima pessôa e suas infini-
tas perfeições,como o odio, a blasphemia, o deses-
pero; mas tambem por muitos peccadosque atten-
tam contra Deus apenas indirectamente, contra-
riando-lhe a vontade, agindo contra a sua ordem
ç viçlando-lhe a santa lei. A primeira categoúa
_ Deus identifica-se com suas leis 107

é objecto dos tres primeiros mandamentos da lei


de Deus; a segunda categoria é objecto dos sete
restantes. Deus é offendido não apenas pela trans-
gressão da primeira categoría de mandamentos,
porém por toda e qualquer transgressão da sua
santa lei, por Elle proprio dictada para ser obede-
cida. Comprehendendo todos esses casos é que,
theologicamente, o peccado gtave se define como
a transgressãorleliberada da lei de Deus em materia
i\ grave.
A razão pela qual Deus uéla sobre cs sucs
.I leis é que foi Elle quem estabeleceua bôa ordem
l. no mundo e, com toda a sua autoridade, manda
guardal-a. Empenha-se com toda a sua sobennía
, pela observancia della. Até sancciona as obrigações
; Iegitimas humanas com a sua propria autoridade
divina. Manda cumprir todos os deveres,tanto os
para com Elle como os de cada um para comsigo
mesmo ou para com o proximo, exigindo que se
dë a cada um aquillo que de direito lhe pertence,
aquillo que se lhe deve.
Por conseguinte, o homem commette um
peccado grave não só atacando a Deus directamen-
te, porém tambem ferindo os interesses do corpo
e da alma, ou os legitimos interessesalheios, que
Deus ordenou respeitar. E' Deus guem protege e
108 O peccadograve reclama o inferno
garcnte cada homem contra qualquer usurpação
alheía, fazendo-sevingador de toda injustíça. Nos-
so SenhorJesúsChristo en1particular declaroufor-
malmente que "todo bem e todo mal que alguem
fizet ao proximo, Elle o considerarâcomo feito a
si proprio" (Math., 25, 40),
É, pois, â tôa que muitos quereriam assim
não fôsse.Pretendemser religiosose em tudo o
que fazem nada querer contra Deus, Ionge de ata-
cal-O e offendel-O. Quanto ao mais, entretanro,
'entendem,
desejamser livres para fazer o que €s-
pecialmentequanto ao proximo, usando e abu-
I

sando de tudo conforme o proprio beneplacito. I


t

Querem que Deus nada tenha que vêr com os


peccados,que não se incommode comnosco,nem
que nos incommodemosnós com Elte.
euerem ser I

independentespa:a fazer no mundo o que enten- ,


derem,sem ser chamadosa contas e a juízo. Mas
assim não é, nem póde ser. Entre nós e Deus existe
a rclação natural de creadopara o amo e de filho
pala o pae. Como ao amo não ê, indífferenteo que
faz ou deixa de fazer o creado; assim como o pae
se incommóda com que o filho o respeite,o ame e
Ihe obedeça,assim tambem Deus faz questão de
que o respeitemos, de que o amemose lhe obede-
çamos, como bons filhos, observando-lhe filial-
Gravldade das offensas 109

mente todos os mandamentos.Offendendo, pois,


ao nosso proximo ou transgredindoqualquer lei
divina, Deus é implicitamenteattingido, offendido.
Depois de conhecídaa extensão das offensas
a Deus, importa determínar-lhe o graoídade. O
peccadonáo é, geralmente,peccadopelo acto phy-
sico, mas pelo seu alcancemoral, pelo intento es-
piritual. Ã grauídade do peccadoconcentra-seno
motíuo por que se pecca,naquíllo que se procura
no peccado,no que está em jogo na tentaçãoque
precedeo peccado.E' a creaturalevantando-secon-
tra Deus. E' a satisfaçãopropria que se procura
contra a vontade do Creador,a satisfaçãona rrea-
tura cobiçadacontra a lei de Deus. Peccando-se,
prefere-sea creaturaa Deus, á sua santa vontade
e á sua lei. E', pois, uma dupla desordem.Intima e
essencíalmente, o peccadograve consistena aversão
do homem a Deus, ao seu ultimo fim, e na con-
versão pa:.aa creatura (S. Thomaz). Comparada
a creatura com Deus, ponderado e pesado tudo
na balançada sua avaliaçâo,o peccadorse decide
reflectidamentepelo objectivo da sua paixão e dât
preferenciaâ $eatana. Declara pelo seu acto que
não lhe convém servir a Deus, sujeitar-se-lheás
exigencias,e escolheentão o outro partido, desa-
fiando a Deus. Renuncía,pois, a Deus, ao premio,
110 O peccadogxavereclama o inferno
e acceita,com a satisfaçãoda sua paixão estupida,
o castigoproclamadopor Deus. Deveria vencer-se,
mortificar-seum pouco, renunciandoa um pnzet
fugitivo, mas não o quer, não o qaiz. Deus vale
ou valeu menos para elle. Elte não quiz sacrificar
o prazer do peccadoao beneplacitode Deus. Pre-
feriu sacrificar os interessesde Deus, da sua alma
e da eternidade,ao gosto natural e ao gozo ani-
mal, como Deus arguiu a Jeroboão (j R.g., 19,
e).
Àcaso o peccadornão sabe de que se trata?
quanto conftaría e offende a Deus? Pelo contra-
rio! Sabe-oe sente-omuito bem. O coraçãobate,
o desassocego da bussola interior manifesta-o.A
consciencía lh'o accusae indica claramente.Ã cons-
ciencia diz alto e bom som que pelo peccadoé
atacado, desprezado,villipendiado, não um sim-
ples homem, mas Deus, Deus soberano,perante
quem as legiõesinnumerasdos espiritoscelestes se
prosternamem perpetuaadoração;o Deus tres ve-
zes santo, o SenhorsupÍemo e juí2, a quem deve-
mos summo respeitoe obediencia,e contra quem
não ha recurso.A conscienciadeclaranitidamenre
em que e porque Deus é offendido, ou seja em
se lhe contrapôr e preferir uma creaturaephemera,
uma satisfaçãopassageira,vm pnzer de alguns
Gravidadedas offensas 111
instantes, repetição da prefercnciade Barrabás a
Christo. Ã conscienciamarca esseacto como uma
grosseirabarbaridadee perfidia, como leviandade
incomprehensivele tolice estupida!
Esta intimaçãoda consciencia ê de summa im-
poftancia para constituir a gravidadedo peccado.
à rclação com o Infinito entra essencíalmente em
conta quando se trata de avaliar o peccadopela
sua gravidademoral. Correntementeentre os ho-
mens e officialmenteem todos os tribunaeshuma-
t
rÌos, a gravidade de um delicto é avaliada em re-
Ì
,l Iação á pessôaoffendida. Uma injuria furogadaa
í
í: a
um collega, a um irmão, não é cettamente tão
t grave como si irrogada a um superior,ao proprio
I pae,a um princípe,a um rei, etc. uma mesmades-

I
F
feita crescede importan cia á medida que a pessôa
offendida merecermais respeitoe veneração,con-
È forme fôr mais graduada,mais elevada.Ora, Deus
$ é o sêr infínito, a majestadesem limites, que no
peccadoé desrespeitada e desobedecida,desprezada
e desqfiqda.Logo, o peccedomortal encerra uma
culpa moralmente ínfiníts, Tratando-se de
qualquer mal a comriett.I,"pela conscienciaaccu-
sado conìo peccado,como coisa prohibida, crimi-
nosa e passivel de punição, a propria consciencia
immediatae espontaneamente exhibe a.relaçãodel-
,
- i

: ::
-:: '
-Í.rl'
Itz O peccadograve reclama o inferno

le com Deus. Previne que Deus é inimigo daquillo


que se pretende fazer, do peccado;que é por este
offendido, que exigirá contaspor elle e que infli-
girá o castigomerecido.E' da natureza da cons-
ciencia mostrar a relação que a transgressãoda
lei guarda paÍa com Deus. Todos sentem irresis-
tivelmente essarelação,tanto o negro da Ã.frica,
como os indios vermelhos da Ãmerica; tanto o
hindú das Indias, como o chinez, o japonez e o
Íusso da Ãsia; e todos ellesnada menosdo que os r
civilizados europeuse americanos!
Subjectivamente,a gravidadedo peccadode-
pende essencialmente da conscienciade cada um. I
E' o producto da intelligencia,vontade e coração i
do peccador.Commettendoduas pessôaso mesmo I
'E

I
peccado,transgredindo a mesma lei, subjectiva-
mente o peccadonão seráo mesmo,da mesmagÍa-
vidade.Serámais ou menosgÍaveconformea cons-
I
ciencía de cada üIrÌ, conforme cada um entender
mais ou menos intensamentea inconvenienciae
abominação do mal que pratica, conforme com-
prehendero que se devea Deus, a extensãodo des-
gosto que causaa Deus,o desprezoque lhe exprime.
E' mais ou menosgrave,ainda, conforme a maíor
ou menor rebeldia,maldadee cynismo que envol-
ver, de que se revestir a peÍpetraçãodo acto per-
Gravidade das offensas 113

verso. O peccadoê., pois, maior conforme mais


elevada a intelligencia, mais firme a vontade e
mais nobresos sentimentosdaquelleque o pratica.
De um lado, quanto nraisintelligentefôr o homem,
para avaliar todos os motivos da offensa a Deus,
" e d'outro lado quanto peóresfôrem a sua vontade
e sentimentos,no desprezodasexigenciasde Deus,
tanto maior será o peccado.Finalmente, quanto
mais o homem tíver subido na amizadede Deus,
tanto maior serâa sua traição em commettendoum
acto reprovavel.- Por conseguinte,quanto me-
nos instruido fôr alguem, quanto mais ignorante
e bruto, Vy ayalïar _q.alcancedo mal que faz,
tanto menos peccae tanto menor responsabilidade
incorre,desdeque a sua ignorancianão sejacrassae
voluntaria. Emquanto alguem fôr inconscientedo
nìal que pratícar, nada lhe poderá ser imputado.
^4. transgressãoda lei será então méramentema-
terial, e não formal. O bebercão, ao con-
trario, será responsavelpelos inconvenientesque
proferir, como por qualquer crime que commetter,
emquanto os tiver previsto e emquanto fôr cul-
pado da sua embriaguez,A rlÁída exactado pec-
cado será,pois, sempÍea consciencia particular de
cada um. Emquanto a intelligenciaenxergaro mal
prohibido por Deus e a vontade o acceitare quizer

;:ì
114 8." Objecção

o peccadoque se
mais ou menosapaixonadamente,
commetteserámaior ou menor.

8." PERGUIfTA: - A cúpa; do peccado torna-so


leve pela circumstancia de se não conhecer I)eus
t
f
I

a Íundo? I

Todavia, transgredindo-sea lei de Deus em


materia grave, com toda a consciencia,a culpa não
seró menor e lette pelo facto de não ser possiuel,
oprofundor e comprehender a infiníta majestade de
Deus. Para incorrer a culpa de offender a Deus in-
finito, basta conhecer que Elle ê além de tudo
quanto podemos imaginar: infinitamente perfeito,
merecedor de summa veneração e absoluta obedien-
cia. E' quanto basta saber para contrahir uma culpa
infinita, desde que nos revoltemos contra Deus e
Ihe neguemos obediencíç Do mesmo modo, quem
incendiar uma casa r{o intúito de destruir tudo
quanto o proprietario tem, não será menos cul-
pado pelo facto de não conhecer em particular os
valores nella guardados. Quem se alçar contra
Deus, seu Creador e soberano Senhor, é culpado de
altissima traição, de lesa-majestade, e se tornará
Proporçãoentre peccadoe castigo 115
responsavelpelas consequencias.
Ãttrahe sobre si
a indignaçãode um Deus!

9.' PERGUNTA: - Si o inferno é o castigo por uns


actos passageiros do ftraixão, não carece elle cle
proporção?

Qual ê, poís, o castígo deuido ao peccado


gra)e, com que Deus deve vingar a sua
majestade
ultrajada? só póde ser o casrigodo inferno erer-
ï. i
no! - Ficou provado que o peccadograve ê a
i maior offensa,infidelidade,revolta e traição con_
i
; tra Deus, constituindo uma culpa infinita. Ora,
I
sendo o homem um s,fu..limitado,e não cabendo
nelle um casrigoinfiniio nãï iìi.nsidade, ã.r. .r.
soffrer um cll*go que seja infiníto pela danção,
como é o castígodo inferno? - E' bem verdade
que os nossossentimentosnão querem admittir
castigo tão horrendo. Muitos criminam a Deus
por faltar â proporção devida num castigo sem
fim, igflgitg, para um crime passageiro,tantas ve-
zes de um só momento, commettido por um ho-
mem miseravel.Entretanto, a sã nzão tem de ad-
mittir forçosamenteo castigo do ínferno eterno,
em virtude de raciocinios,como rigorosamenteexi-
gido pela natvrezado peccadograve.
116 9." Objecção

Até neste mundo ha castigosanalogos, por


crimes semelhantes, porém incomparavelmente in-
feriores. Como é que são ás vezesvingadas e cas-
tigadas as infidelidadesdeste mundo? Por exem-
plo, a infidelidade conjugal, a revolta contra um
principe, contra um rci, a traição â patria? A's
vezespela morte! Ora, essase outras infidelidades
contra homenssão incompáravelmente menoresdo
que as infidelidadescontra Deus; e, comtudo, nin-
guem duvida da legitimidade do castigo pela pena
capital, tirando-sepor ella a vida pan sempre,ex-
cluindo-seassim o criminoso para sempredo con-
vivio da familia, e atê da sociedadehumana. Àinda
que o assassinio se fizessenum momento, julga-se
universalmenteser o castigo apropriado e equi-
valente só a morte ou a reclusãoperpetuado as-
sassino.

'4 grauidadedo peccadonão se aoalía só pelo


facto praticado, mqE tambem e principalmentepela
intenção que a elle presíf,s,- O peccadomortal
é o acto de aversãoa Deus e de conversãoâ creatu-
n; ê uma desobediencia e offensa grave,cuja conse-
quencia é a separaçãode Deus, o rompimento e a
inimízade com Elle. - Conforme já assignalámos
acíma, para commetter um peccado gtave não é
Proporçãoentre peccadoe castigo tL7

preciso atacara Deus pessoalmente, levantar a mão


contra Elle, injurial-O, revoltar-secontra Elle e
resistir-lheformal e obstinadamente.Basta trans-
gredfuuma lei grave,estabelecidapor Elle; bastasa-
ber que Elle o prohibiu, e quererassimmesmofa.
zel-o, - O peccadogravepóde-secommetternum
minimo de tempo, num instante. Sabendo-seque
se trata de uma lei, de uma prohibição séúae gra-
ve, é elle perpetradono momento em que a vontade
{ se resolvedefinitivamentea transgredil-a.
I

t
O peccadograve merece,sem duvida alguma,

o inferno eterno,ainda que tenha sido commettido
num simplesmomento, ou em pensamenfs.l\lIff -
peÍgunta,se- onde estd a proporção entre o acto
e a pena t:9^l!!l Está na ieiiiïii:diencíae offensa
graue,na Eeparação reflectídae uoluntaria de Deus,
ti imítação de Lucífer, que se decídiu a não seruír
a Deus: "Não te servirei!" E' a revolta contra o
SoberanoSenhor! E o homem contrc Deus, a
creaturaracional dotada de intelligenciae vontade,
que se néga a obedecer.No mesmo instante que a
resoluçãoé, tomada, cabe a censura,a sancção,a
consequencía f atal e natural: Si Deus chamasseo
homem immediatamentea contas,sem esterevogaÍ
o seu acto e sem se arrepender delle, teúa elle o
118 9." Objecção
inferno certo e por toda a eternidad
e! Deus, como
supremo legíslodor, indubítauelmente tinha que
estabelecerumo sancçãoabsolutq, que não deixasse
o homem d uontadeparu peccqrlíure e impunemen-
te por qualquer tempo que fôsse.A reacção,a de_
fesa,o castigopóde caír no momento após o pec-
cado; é o direito de Deus contra o prevaricador.
Esta possibilidadeé umu absolutq necessidade; do
contrario, toda a ordem moral andaria fóra ilos
eixos, não teúa garantiasufficíente contra o abuso
dos máo Deve o homem saberque não tem
a líbeúade de offender a Deus por tempo algum,
por um momento que seja.Este facto, estarealída_
de, deve inspirar-lhe o devido respeitoe temor a
Deus, nunca se atrevendoa offendel-o gravemente,
a erguer-secontra EIIe. E não só tem o homem
díqnte de si essaterrioel sancçõodo inferno, mas
que um simples momento póde fazel-o caft nelle,
Reflexõo terriuel, que, como a luz fulmínqnte de
um rqío diuino, nos faz reconhecere aí)aliar em
todas cs sucs formídoueís conseguencias .a nossc
responsabilidqdemorul perante Deuse perante nós
mesmos!
Deus podia chamar o peccadora contaslogo
após o primeiro peccadograve,sem lhe conceder
prazo para rcpara 4 sua falta, çondemnando_o
Proporção entre peccado e castigo 119

Iogo ao inferno eterno. A natureza do peccado


grooe é razão suffíciente para tsl sentença e cas-
tigo, Si Elle não usa mais vezes desse direito, ê
por infinita bondade e infinita misericordia. À's
vezes acceíta o desafío de Lucif er e de seus cum-
plices na revolta ! Assim , de vez em quando morre
uma pessôa quasi no acto do peccado. Que fazem
os homens em taes occasiões?Um devasso ou um
ladrão, que desafía a homens, sendo surprehendido
no udulterío ou no roubo, facilmente rccebe uma
bsla! Sí morre, é feítq e satisfeíta a justíça humanal
Ninguem pretenderá que não seja justo. E' porque
o homem é responsavel pelos seus actos; recebeu
intelligencia e vontad e paft usal-as rectamente e
com todo cuidadq. Fica a cargo de Deus julgar e
determinar quando a malicia humana basta, quan-
do a sua medida está cheia, pata chamar o criminoso
a contas e ao castigo eterno.
Em todo caso, não é costume de Deus chamar
a contas o peccador logo após o primeíro peccado
gruoe. Talvez seja até uma tara excepção. Pelo
menos, não são muitos os casos em que os crimi-
nosos são surprehendidos e fulminados pela morte
repentina. O mais se subtrahe á nossa indagação e
conclusão, A regru geral, poftanto, é que Deus
deíxa qos p.eccadorescerto prqzo porq refleçtirem e
I r' .i
120 9.' Objecção.

se artependercm; paru resoloerem defíntiuamente


si querem continuar a peccat,ou si querem voltar
para Elle, pedindo-lheperdãoe Íazendopenitencia.
O peccadogrooe coíloca o peccadorno ESTADO
DE PECCADO, no estadode inimízadecom Deus,
si nelle jâ nâo estiver por anterior peccado.Este
estadocontinúa, perduramais ou menostempo até
que o homem penitente rccebao perdão de Deus.
E como que o peccadoprolongodo, permanente,
sustentado.E' uma revolta, uma ptevaúação,uma
impiedade continua, quasi tantas yezes rçetida
quantas o peccador,lembrando-sedo seu peccado,
não quizet largal-o, arrepender-sedelle. O pec-
cado inicial vae peorando, conforme a disposição
da alma, da vontade, pata com Deus e para com o
cumprimento dos proprios deveres.E quasí um
ínínterrupto desafío a Deus. E a ínímízade de-
clarada, íniciqda pelo primeíro peccado,e mantidq
a todo o transe, O estado de peccadomortal tor-
na-se tanto peor quanto mais tempo o peccador
se recusara retrocedet,e quanto mais ousadamente
resistira Deus.
Si cada acto de peccadomofial, pot sí e em
príncipio, metece o caEtígo do ínferno, muíto e
muíto maís o mercceo propdo estado de peccado
moftal. Está oísto! Sendo este o cqso geral dos
Proporção entre peccado e castigo tzr
peccadorcs,póde-se,de cefio, dizer que o infemo
é muíto maís e propríamente o castigo dos ímpe-
nítentes, e que Deus, deuendo estabelecertambem
o ínferno parc os que moftem no acto de com-
metter um peccado mortal, para saluagçtardata
íntangíbilidade das leis e da ordem, estabeleceu o
infemo como castigo dos propríos intpenítentes,
Eendo o caEodestesgeral e uniuersal, é preciso sa-
líentar que o ínferno nõo é tanto o castigo de um
peccadograue, rapido, quanto o castígo dessemes-
mo peccodocontinuado e Eustentodoapesarde to-
dos os reclamos da conscíenciae de Deus, apesat
do conhecimentodas nefasfcsconsequencías delle.
Pela contínuação e obstínaçãono mal, como pela
impenítencia,ctesceimmensamentea culpa, Errar é
humano; maE perceuerat no erto é diabolíco e
mereceos castigosdos demoníos,
Exíste enorme differcnça entre o estado de
peccadomortal e actos isolados graúementepec-
camínosos,dos quaes o peccadorse arrepende.
O filho que commettefaltas gravescontra o
p?e, mas, a cada vez, pede perdão, facilmente o
recebe.Si, porém, continuasseinsubordinado,me-
rccetíaperdão? Deveria ou poderia o pae nzoavel-
mente conceder-lh'osempre?Não. Neste casoo fi-
lho não passariade um revoltoso e insubordinado,
722 9." Objecção
e poderia sobrevir o estadode inímízadee de odio
entre pae e filho!
Supponhamosum mon archa glorioso e sabio
como Salomão, justiceíro pelas leis estabelecidas,
com muitos vassallos,entre os quaesuns dez in-
submisose ambiciosos,que levam o facho da rc-
volta atravésdo paiz. O monarcha vence-os,te-
dul'os á ímpotencia,obrigando-os a pedir paz e
perdão.Ãlguns pedeme rccebemperdão; são agra-
ciados. Outros, porém, não querem reconhecero
mal que fizenm ao monarchae ao paíz; não que-
rem saberdos direitos do soberanoe cuvar-se,nem
pedir petdão, mas continúam revoltados. O rcí
será ainda obrigado a conceder-lhesperdão, sem
elles o querereml Seria absurdo. Continúam elles
no estado de revolta e inimízade declaradacontra
o legitimo principe e rcL São, pois, réos de alta
traiçâo. Si fôrem apanhados,deverão, pela lei,
padecero castigo correspondente,sem dó nem pie-
dade! E' justiça!
Por exemplos como este deprehende-sebem
q enorme distancia que medeia entre os actospec-
cqmínososisolados, terminados e annullados pela
contrição, ê o estsdo de peccadomortal, gue per-
srsreinsolentemente,Exterior e physicamenteap-
parecetalvez só o ptimeiro acto do peccadoinicial,
Proporçãoentre peccadoe castigo l}g
mas mo,ral e verdadeiramente elle é simplesfracção
da culpa. O peccadoinicial é só o primeiro passo
no caminho do inferno, ao qual se ligam todo dia
outros passosformados pela rcaffirmaçãodo pri-
meiro, sustentandoo mesmo contra Deus.
Si o peccadorquizessepôr termo á sua rcbel-
dia contra Deus, os seus actos criminososseriam
perdoaveis;e tanto mais perdoaveisquanto com-
nettidos com menor malícia e maior Íraquezal
Havendo alguma bôa vontade,seriaelle facilmente
'
; perdoado, conforme ensina a religião.
j
O homem é fraco, muito fraco, e câefacil-
ì
q mente em sustentaro seu erro, contra todo o bom
\
senso. Reflectindo, deveria immediatamentere-
vogal-o e annullal-o, pedindo sinceramente perdão.
Que estepedido seja acceitoe que Deus se deixe
aplacat, é o que o homem razoavel deve urgente-
mente implorar. O criminoso que matou, não po-
derá resuscítaro morto; é verdade;physicamenteé
impossivel rcparat o crime. Si o pudessee o não
fizesse,commetteriauma malvadez,? ã culpa seria
muito mais aggtavada.Moralmente,porém, o pec-
cador semp(epóde desfazero mal que fez, revogar
o seu acto iniquo, detestando-oe rcjeitando-opela
vontade, querendosinceramente não o haver feito.
E' o mengs que Deus exige do culpado para
724 9.' Obiecção

eximil-o do castigo eterno. Deus esperado pecca-


dor que este seja razoavel,que não continúe no
peccado,que não accrescente mal a mal, offenden-
do-O e irritando-O ainda mais. Instituiu o sacra-
mento da confissão,dando ao peccadortoda faci-
lidade de se reconciliarcom Elle. Quer e esperaa
volta do filho prodigo, embóranão lhe faça vio-
Iencia. Fala-lhe â consciencia,chamando e amea-
çando. Será como o peccador quizer e resolver,
sendo depois úatado em conformidade com a sua
attitude. Si tiver bôa intenção, facilmente alcan-
çarâ o perdão. Que acontece,porém, tarLtasvezes?
Em uez de desfazero mal que fez e de pedir
perdão, o peccadorcontínúa reuoltadocontra Deus,
obstína-seno ma|, âs vezes até diabolicamente,
rindo, e troçando de Deus. Recusaouvir a voz da
consciencia,ou incommodar-secom as exigencias
de Deus. Longe de retrocederno caminho do mal,
quer ir adiante, completar o mal e gozat de qual-
quer modo, o mais que puder, licita ou illicita-
mente. Não muda de intento, mas repeteos mes-
mos peccadosexteriores,approvandoe ratificando
interiormente os que jâ commetteu.Nõo Eeretrac-
ta,. nõo os rcooga, mqs antes os multíplíca pela md
intenção.
O primeiro peccadograve não revogado tor-
Proporção entre peccado e castigo 125

nou-se como que o primeiro élo de uma gÍande


corrente,formada por tantos élos novos, insepara-
velmenteligadosentre si, quantasvezeso peccador
ratificou em pensamentoo mal feito. E si susten-
tar o seu peccadoaté a morte, essacorrentepren-
derâ o infelíz inseparavelmenteao infernq. - p2-
rece bem menor a culpa de quem commetter um
ou outro peccadograve durante um anno, arrepen-
dendo-see purificando-selogo em seguida,do a
daquelle que commetter um só, mas fícar p. ex.
ì
'i no estadopeccaminoso o anno inteiro. Dia e noite,
I
pensarancorosamente num inimigo, sustentandoa
rl intmizade e o mal que tantas vezes iâ lhe tem
desejado.Continúa ininterruptamente a teceto seu
tecido de morte, juntando fio a fio, por pensa-
mentose sentimentosmáos,repetidos.Com as suas
vingançasimaginadastrançaa úde em que sepren'
de a si proprio! - Só Deus póde avaliar quanto
mais grave é um tal peccadocontinuado e perma-
nente,do que o isolado,do mesmogenero,mas do
qual houve arrependimento No primeiro caso
o peccador fica sempre envolvido nas trevas da
morte, ao passo que no segundo sâe cada vez do
seu estado lastimavel para a luz do Senhor, apÍo-
veitando da misericordia.
Os peccadosdo impenitentenão são, portanto,
126 9.' Objecção

actos mdos possagetíros e terminad.os,tornand,o logo


a desoppqrecerpela contriçõo; são actos prolonga-
dos, que o collocam e montêm no estado de pec-
cado e de contínua inímízade com Deus, Crescem
â medída que elle continuar na sua impenitencia,
não querendo converter-se. Neste caso, merece elle
ir e fuâ para o inferno, justamente por causa da sua
impenitencia, uma vez que não quer rcparar o mal
commettido. O inferno, portanto, não é tanto
o
costígo deuido a alguns peccadostransitorios, po-
rém muíto maís o castígo do estado peccamínoso,
que ougmentq s culpa.
euem assim viver em con-
tinua revolta contra Deus e morrer nesse"estado,
não póde esperar outra sorte, sinão a de ser
re_
provado e relegado para o fogo eterno.
" Quem nõo é por mim é contra mim"
, d.e_
cl a rou Nos s o S en h o r (M a th . , l Z , 3 0 ). p o rranro,
quem não fôr seu amigo e fiel servo, permanecen_
do longe delle durante a vida, será por Elle consi_
derado inimigo. Ãos mundanos parecenão ser nada
viver sem se incommodar com Deus e com a
rert-
gião, e gozando a vida; parece tão innocente
e
natural ! Entretanto, é qua'to basta para ser repro-
vado. Vivem elles como si não houvesseDeus, não
dando a Elle o que naturalmente se lhe deve. Vivem
no estado de afastamento de Deus, não cumprindo
Proporção entre peccado e castigo 727

seus deveresgraves, tazão mais que sufficiente para


não ter pafte n'Elle e cair no inferno. Este é o
cqstigo deuído ao Eeuestado de reoolta, em uirtude
do qual não querem sqbec do seruiço de Deus, nem
se incommodar com aE colsas de Deus, Vida sem
relígião é o grande peccado contínuo do seculo, a
apostasía de Deus, q apoEtasíq de Christo!
Quem viver em revolta contra Deus, com pec-
cados graves no coração, sem querer largal-os, tor-
na-se inimigo d'Elle, repellido por Elle e exposto
ao inferno. E não fica só nisto. Não se dissolvendo
por effeito de melhores sentimentos, a resistencia
a Deus e a revolta progridem, desenvolvendo-se
âs vezes até çís ultímas consequencías, até ao odio
de Deus e a uma especíede deicidio. O peccador que
não quer deixar os seus peccadoslembrando-se do
casrigo que Deus terâ de infligír-lhe, revolta-se;
desde logo resísteno seu interior. Ãccusa a Deus è
começa a odial-O por seus castigos. Ãspira ao seu
aniquilamento e quereria até matal-O, si pudesse.
Totalmente descontente com Deus, que não quer
deixal-o fazer a propria vontade, mas ameaça cas-
tigal-o, elle se vingaria si possivel; fal-o ao menos
pelos sentimentos do coração, que Deus considera
como outras tantas realidades.
E' conhecido o .facto historico occorrido em
128 9.'Obiecção

Btistrizza, na Servia,em 1891' Vendo que chovia


pedras, um furioso taverneiro pegou da espingar-
da, dizendoque ia vingar-sede Deus e atirat n'Elle.
De facto, deu um tiro em direcçãoao céo, como
si fôsse pa:n matal-O. Deus acceitouo desafio,e
no mesmo instante o infeliz caí:umorto, como si
elle proprio tivesserecebidoa bala no coração.Isto
aconteceuem presençade numerososespectadores,
testemunhasdo facto.
Não quer dizer que todos os peccadoreses-
tejam nessecaso, nem que todos tenham chegado
a semelhantes extremos; só os grandespeccadores,
os ptoprios ímpenítentese impíos sustentama sua
reuolta contra Deus, e contínúam tenazmentena
qttítude de inímigos mortaes. Tal sttitude é um
continuo attentado de ttaíção.
Como é claro que commettemo crime de alta
traição e merecemo summo castígonão sómente
aquellesque attentam contra a propria vida do
principe, mas tambem os que fomentam qualquer
revolta contra elle e contra a sua autoridade ou
contra a ordem estabelecida, assimé clarissimoque
merecemo inferno todos os que vivem e morrem
impenitentese inimigos de Deus e de suaslegitimas
instituições.- Pois ao modo humano de vingar
'1

I

ìl
j;l
{&t
Proporção entre peccado e castigo 129

crimesdessanatarczacorrespondesó e perfeitamen-
te a perda da vida eternano carceredo inferno.
Quanto â NATURE.ZA DO INFERNO E
DOS SEUS SOFFRIMENTOS, convém notar e
salientarqueSÃO A CONSEQUENCIA NATU-
RAL DO PECCADO GRAVE. Para comprehen.
der bem estaverdade,é precisoexamínara nature-
za do peccado.Conforme S. Thomaz de Àquino,
o'peccado consistena aversãocontra Deus e na
ü conversãoás creaturas.Todo peccadoencerrauma
r dupla desordem:a feparaçãode Deus, com o des-
:í prezo dos seusdireitos mais sagrados,e a volta ás
creaturascomo ao ultimo fim. A esta dupla de-
sordem deve corresponderuma dupla reparação,
um duplo castigo:a privação de Deus, em castigo
da apostasia;a dôr positiva vinda dascreaturas,em
castigo do prazer criminosamentetirado das mes-
mas. Dest'arte fica satisfeita a justiça divina rela-
tivamente á dupla inversão das relaçõespara com
o Creador, a qual constitúe o peccado.P.eccando
gravemente,o peccadorabandona a Deus, pro-
curando a sua satisfaçãonas_creaturas. Por justo
castigo, Deus abandona o peccadorimpenitente;
e as mesmascreaturas,d^equem o peccadorabusava
peccando,se levantam'çontra elle, para vingar o
130 9.nObiecção

desresfeíto e as injustiças commettidas contra o


Creador e Senhor de tudo.
O ponto central da questão presente é enten-
der bem o que significa para o homem a separação
definitiva de Deus, e o que ,é Deus para elle. -
-Deus é a vida e felicidadedo homem. Ã união
definitiva com Elle é o céo.Vêr a Deus e possuil-O
definitivamente, Q a bemaventurançaeterna, ê a I
I
completasatisfaçãode todas as potenciasda alma; i
I
da intelligencia, possuindo a eteríLaverdade; da -ì
vontade, possuindo o summo bem; do coração, I
:
j

possuindo a infinita belleza e felicidade.


Sendo o inferno a negaçãodo céo,a separa-
ção definitiva de Deus, será elle, pois, a perda da ,
visão e possede Deus e de tudo quanto póde tornar .
a alma humana eternamentefeliz; seráa perda de
tudo quanto é satisfação,alegria e felicidade.A
intelligencia,como a vista corporal, será envolta
?#-
nas trevas eternas. Tanto a intelligencia como a
vontade e o coraçãoserãoenvolvidosem perpetuas
contradiçõese desgostos,por ficarem privados de
vêr, possuir e gozar o que íntimamentetanto que-
reriam e com toda a natuteza reclamam,reclaman-
do-o incomparavelmente mais do que o faminto e
sedentoreclamaa comida e bebida. A' falta abso-
Iuta de qualquersubstitutivo e distracção,que sem-

.:
:irì
Proporçãoentre peccadoe castigo lB1
pre ha aqui na tetta, o reprobo sentea maior falta
de tudo, e poÍtanto os maiores desgostosque se
possamimaginar. \ealmente,'a separaçãode Deus
e a perda do gozo de todos os seus dons, bens
e bellezas-infinitas,constitúemum verdadeitoin-
ferno, não só cheio de desgostos,mas tambem
cheíode tormentoshorriveis.Considerando,p. €x.,
que tambem a saúde,a isençãode todo incommo-
do corponl, é um immensodom de Deus, Iogo se
vê que a falta completa della,por si só e sem fogo,
enceffa verdadeiroshorrores de soffrímentos cor-
pora€s.Si ao homem falta a saúdeem toda exten-
são, tendo elle assim de soffrer em todos os seus
sentidosmolestiase dôres,tendo, p. €X., de sup-
portar simultaneamentedôres agudas nos olhos,
nos dentes,no estomago,em todo o corpo, sem
poder repousar,dormir e morrer, - oh! é um
ínferno! Supportarisso uma semanajâ não é um
pequeno inferno? Todas estasimaginaçõesserão
rcalídades noJnomentoda ultima resurreição, güâo-
do a alma do reprobo se unir ao corpo, afim de
assistir â grande justificação de Deus no ultimo
juizo, e ouvir os porquêsda sua condemnação e dos
seussoffrimentos.
Os theologos diuidem cs penas do ínferno
em duas cotegoríqtE: a l,^ é q espantosapena da
f

Ì:::
132 9.' Ohjecção

condemnaçãoeterno, E' a pena primaria e domi-


nante, que consistena separação definitiva de Deus,'
por sentençairrevogaveldo eterno juí2. Pésasobre
o condemnadoa rcptovaçãoe a maldição do pro-
prio Da'us. Sentindo-se,por lintima necessidade
da nattJreza,irresistivel e perpetuamenteattrahido
por Deus, seuprincipio, centroe fim, complemento
de todas as suasfaculdadese necessidades, pela con-
demnaçãoetetnasentir-se-ásempree perpetuamen-
te repellido e detido para longe da satisfaçãoque
todo o seu sêr reclama. E' a prívação effectiva e
absoluta de todo bem!
Da condemnaçãoeternaresultam o desespero
e o remorsomais profundo, completo e espantoso
que sepossaimaginar.E' o vermeroedor,que ator-
menta os condemnados eternamente,sem jámais
morÍer, como Nosso Senhorpreveniu.Elle proprio
compara-oa um verme,que nasce., na alma do re-
probo, .da corrupção do peccado,como nos cada-
veresos vermesnascemda corrupçãoda carne.O
descspero e o remorso serãoabsolutos,irrevogaveis
e sem remedio.- "Perdí-me,- assim gritarâ o
condemnadoincessantemente, - perdi Deus e o
cêo, porque quíz; perdi tudo para sempÍe, por
cousasfúteis,por nada",
Tendo fallecido como inimigos de Deus, os
Proporçãoentre peccadoe castigo 133

reproboscontinúam inimigos delle por toda a eter-


nidade. Sentíndo-seodiados, reprovados e amal-
diçoadospor Deus, odeiam'no e amaldíçôam-no,
não O conhecendomais sinão nos terriveiseffeitos
da sua justiça implacavel.- Receberamassim os
reproboso quanto queriam. Queriam viver sem
Deus, viver como inimigos de Deus; terâoque ficar
semDeuse inimigos de Deus'por toda a eternidade!
*-ì Desdeque o peccador,repetidasvezesem sua vida,
renuncioulivre e deliberadamente á possede Deus,
a razão não póde acharimmerecidaa penada con-
demnação eterna.
A 2,' categoriados penasdo ínferno é a hor-
ríuel penado f ogo. A primein ê da alma, a segunda
é do sentído,como é chamada.O corpo, cumplice
que foi do peccado,e muitissimasvezeso seu mo-
tivo, justissimo é que'rccebao seu castígo,e tece-
bel-o-âprincipalmentepela penado fogo. Essefogo
não é, conformeos racionalistastentam interpretar
a SagradaEscriptura,fogo no sentido metaphorico
e fígurado, porém fogo rcal e corporal, vindo do
exterior, creadoe mantido por Deus como instru-
mento da sua vingança. Os reprobos achat-se-ão
verdadeíramente numa prisão de fogo, que se apa-
gará nunca: é,inextinguivel e eterno!
134 g.' Objecção

Só sabemosda existenciae da eternidadedes-


se fogo pela rcvelação;não lhe conhecemosa na-
tureza nem o modo de acção, Elle quasi nada
tem de commum com o fogo terreno; assemelha-
se a este, dizem os santos, como um fogo pintado
se parece com o teal, E' um fogo incomprehen-
sivel e sobrenatural.o que delle sabemose basra
saber, é que é fogo real, espantoso,produzindo
sensações parecidascom as do fogo terrestre,po-
úmincomparavelmentemaisterríveis._Q513-
cionalistasrejeitam-no como uma crueldadeinu-
til. De facto, depois do ultimo jaízo, não terâ
elle outra utilidade sinão a de satísfazera divina
justiça, castigandodevidamenteos perversosini-
migos de Deus.
Na realidade,âs duas penas do inferno pode
applicar-se,em sentido inverso, a palawa de S.
Paulo a respeitodo céo' - 'olhos humanosnunca -'r'--
viram, nem ouvidos nunca ouviram, nem nunca
entrou no coraçãodum mortal, o que Deus, na
sua justiça, tem preparado parc os impenitentes
no inferno".
E' agoÍa o momento proprio de dar a so-
Iução devida a uma objecçãograoe, que se dirige,
não taüto contra a existenciado inferno, quanto
contra a justiça de Deus. - *si assimé o inferno,
Proporçãoentre peccadoe castigo 135

reclama alguem em nome de muitos outros,


- gsdesnós somoslogradospor Deus. Ã justiça
de Deus passaa ser uma injustiça, castigando-nos
com um castigo que não conhecemos,cujo alcance
e cujos horrores nem de longe suspeítamos".Para
rematar a accusaçâoe sustentar a impossibilidade
.si
de tal castígo,objectam ainda: "Ah! os ho-
mens soubessemde que é que se trata, deveriam
ser simplesmenteloucos para praticaremo mal e
commetteremsiquer um só peccadogravel" Quercm
essesnegar a Deus o díreíto de impôr tão enòrme
castígo,attendendoa que o peccadornão conhecía
ínteiramenteos consequencías terríueíse eternasdo
peccado,e dest'artenão erq res,ponsauel,

1O.' çIERGTINTA: - Não 6 lnJusto tnfligir castigos


desconhecidos?

Esta recriminação contra Deus não procede.


E uma accusaçãouã e util, como todas as vezes,
sem fundamento 1s21.- Ã injustiça não está no
Íacto de Deus castigar tanto, porém no facto de
o homem peccat,não reflectir no que faz e não
se incommodar com as consequenciasnaturaes e
inevitaveis dos seus peccados. À reclamação
136 10.' Objecção

contra o inferno é., pois, a seguinte: Deus não


póde castigar tanto e eternamente, e será injusto si
o fízer,, porque o homem não reflecte rcalmente
sobre a existencía do ínferno e não sualia bastante
o horror do mesmo.
Em primeiro lugar, nunca se ouviu em qual-
quer tribunal humano invocar semelhante motivo
para provar a innocencia de um ré,o. E', assim, de
estranhar que a nenhum advogado occorressedes-
culpar ou innocentar o seu cliente pela invocação
dessa circumstancía, i. ê, de não saber elle da na-
tureza e da darcza do castigo a lhe ser imposto.
Não procuram, pois, allegar que o réo não merece
tamanho castigo porque nem siquer lhe suspeitava
a existencia ou possibilidade. O que se procura,
e em todos os tempos, sempre se procurou antes
de tudo estabelecernos tribunaes é simpleqmente
- f i
a culpa ou a innocencia do accusado,deixando-se o
mais a cargo do corpo deliberativo respectivo, de-
terminar a pena e proporcionar á culpa o castigo.
Ãssim como no codigo penal muitas penas legaes
estão mais ou menos determinadas, podendo o pu-
blico informar-se a respeito dellas, assim tambem
as penas do inferno estão gravadas na lei de Deus,
sendo muitas vezes lembradas na Sagrada Escrip-
tura e pela consciencia. Si o peccador náo qutzet
O castigo deve ser conhecido? 1 37

ouvíl-as, tanto peor para si: a sua culpa não fica


menor por isso,antesfica maior.
Para merecerjustamenteum castígo,sejaneste
mundo, seja no outro, o homem deve tet culpa.
Para contrahir esta,e com ella o seu castigo,bas-
ta que elle conheçae prevejao mal que faz, a im-
moralidade que ptatica em desaccordocom a sua
consciencia. Si f& falta gtaye,devepensarna gra-
vidade da offensa feita a Deus, sem o que não ha
delicto, nem peccado,nem castigo. Basta que o
peccadorsinta a sua culpa séria e grave no acto
reprehensivelque commette. Não é necessqrio co-
nhecer o caEtigopara merecel-o.E' de toda jut-
tiça que lh'o imponham. À Deus fica reservadaa
determinaçãodo castigo. t{ noção mais elementur
da culpa e da justíçaensínqe prooa tudo isso,e a
praxe uniuersal do mundo inteíro confírma-o.
Seráacasonecessario que um filho, ou um criado,
ou quem quer que seja, conheçapréviamentee
prevejao castigopara se tornat realmenteculpado
e merecel-opela sua desobediencia, infidelidadeou
crime? Seria contra o bom senso.O pae infligirá
ao filho desobediente o castigoque bem entender.
O assassinomerecerâser supplicado. S'eráprova-
velmente executado,pata eliminal-o da sociedade
humana e eaftegal-o â justiça divína, embóra elle
138 10."Objecção

não imaginasseos horrores da execução,fiado que


estavaem escapará justiça humana. Devia rcflectir
antes nísso e horroriza?se de fazet mal a seu pro-
ximo, de matal-o. IJma vez ptoyada a sua culpa,
mereceelle a execraçãoda humanídade, e, si não
fôr executado, merccetâprovavelmente a segrega-
ção perpetua do convivio humano, a prisão por
toda a sua existencia,o castigomaior quando con-
servadaa vida. ToI é o ueredíctoda justiçs hu-
mana: tal é tambem o de Deus!
Conheça,pois, o homem ou não, antes de
praticar o mal', o castigo que lhe será infligido,
torna-se merecedordeste simplesmentepelo facto
de haver commettido a falta correspondente. Sop-
pôr que o peccadornão mereçao inferno porque
não póde acredítarnelle, porque não o quer, é
portanto uma grosseiraillusão. Si pudessevêl-o,
só evitaria o mal e serviria a Deus por pavor, coisa
que Deus não quer, e que the impediria atê o jogo
da liberdade.Si não quizet acreditarno infeino,
será por culpa sua, por sua maldade,e contra os
incessantes avisose raclamosda recta tazlaoe cons-
ciencia.Com todas cs sucs íllusõesuoluntarías, eIIe
sabesuffícíentementeo que deuee bastasaber,í. ë,
que pelo peccado graoe elle se constitúe inímigo
'de
Deus, e que, contínusndo na sua impenítencío,
A possib.de ôonversãoacal-.a
p. morte 139
t'atífica o estado de inimízade com EIle, sentíndo
e presentíndo muito bem que o castigo ter(í de
set tercíuel, immenso.

Verifícamos, pois, mais :umavez a tremenda


illusão que tantos homens nutrem, e quão culpa-
dos são por não reflectirem,nem se preoccuparem
com o que ha de vir. Não prov& á propria eterni-
dade, vivendo como si não houvesseDeus, nem
céu,,nem inferno, é uma leviandadeimperdoavel!
Tal illusão e leviandade acarcetaráorfatalmente
sobre elles os horrores do inferno eterno!

11." PERGIINTA: - Acaba co-m a morto a provrirção


o a posslbütdade de so converter ou melhorar?

E quando é que caírd sobre o peccadorim-


penitente essaultíma desgraça?Seú quando Deus
o chamar pa:a o ajuste de contas definitivo, oo
fim da vida, na horo da morte, Esta hora é a
ultima do prazo concedídopara operar s saluação.

Conforme a morte encontrar cadaum, justo


ou peccador, amigo ou inimigo de Deus, assim
Ihe será a etetna sorte, ou de bemaventurançano
céo, ou de reprovação no inferno. Não se póde
140 11." Objecção

razoavelmenteduvidar de que a morte seja real-


mente o ultímo termo da provação.Tudo quanto
nella occorre prova até â evidenciaque não se
póde esperarulterior prazo na vida de além-tumulo.
- À morte é a dissoluçãocompletada personali-
dadehumana: a alma separa-sedo corpo e entta
no mundo invisivel dos espiritos.O corpo torna-se
frio, rigido e apodrece.O homem todo desappare-
ce deste mundo, terminando sua existenciaterce-
na. Jâ não existe mais tal homem, porém sobre-
víve-lhe só a almâ, gü€ então fica independentedo
corpo e sujeita a condiçõesde existenciae de vida
inteíramente differentes das da tefta, O trabalho
que o homem devia produzfu como homem, a sua
tareÍa de .vida, foi interrompida, o pÍazo enceÍ-
rado. Assím como a mofie é o ultimo termo da
uida phgsíca humana, assím tambem é o ultímo
termo da uidq moral,, para effeito da eterna re-
compensaou do eterno castígo.Nada mais claro,
nada mais certol Entretanto, ha pessôasque ima-
ginam outras possíbilidades"post-mortem", eue
depois da morte ainda seja possivel nos purificar-
mos das nódoas dos peccadosgraves.Não ha du-
vida que podem imaginar-setaes purificações;'o
que resta, porém, saber é si existem fundamentos
A possib.de conversâoacabap.'morte 741
para ellas.Não.os ha: são mérasfantasiase chimé-
ras, muito prejudiciaesaliás.
Essa é a doutrina dos espiritas,a da reincar-
nação das almas, como meio de purificação, antes
da entrada final no céo. Para elles, a alma pecca-
dora tem que passar por transformaçõessucces-
sivas (metempsychose),incarnando-sesucessiva-
mente num e noutro corpo, até melhotar e tornar-
se digna da companhia de Deus. Por esteartificio
singular, sem base nenhuma, quereriam elles es-
quivar-seao inferno eterno; longe, porém, de pre-
valecercontra este,que nem por isto se torna nem
menos verdadeironem menos terrivel no seu fogo
mysterioso,tal doutrina absurdaerige-sena melhor
garantia de se vir a cair nelle. E' uma invenção
gratúita, sem base e sem prova; méro artificío
diabolico para engodar as creaturas.
Supponhamos, parc argumentar, que a rein-
carnaçãoseja possivel.Si essatheoria espiriticaen-
volvessealguma probabilidade assenteem razóes
sérias,ainda assimnão passariade uma hypothese;
porém, nem isto é, porque não prova absoluta-
mente nada do que affirma. Fazem os es-
pirítas méras conjecturas,e sobre estas basêam
a sua eterna sorte. O facto de haver ás vezes
142 11."Objecção
"crianças iharavilhosas", connlo Mozart quando
ainda criançade dozeannos,compunhabôas peças
musicaes,é-lhes suficiente pata concluir que a
reincarnaçãoé uma realidade, pois, dizem, elle
não podia naquella idade, escreverobras primas
musicaessi nelle não se houvessereincarnadoa
alma dum mestre de musica nui capaze experto.
Porém essee outros phenomenossemelhantesad-
míttem muito bem outra explicaçãomais simples
e natural. E' que, assim como a naturezaexhibe as
suas maravilhas em toda ordem de coisas,assim
tambem a humanidade. Ã. natureza prodaz entre
os homens genios e talentos, que são verdadeiros
phenomenosdesde o desabrocharda sua intelli-
gencia.Nascem com grande predisposiçãoe fací-
Iidade para progredir npidamente na direcção do
seu genio, mas progridem aos poucos e pelos an-
nos, e não nascemmestresfeitos, completose ex-
perimentados.Ãssim, conhecemosnós, autor do
Iívro, uma menina que, antesde completarquatro
annos, jâ sabiaperfeitamentelër, escrevere contar,
como outras criançaso fazem apenasaos onze ou
doze annos,facto esseque nos impressionoumuito
e até, espantou. A explícaçãosimplicissimadesse
facto singular é que o pae, sendoprofessor,achou
tempo e prazer em interessaÍe ensinar a filhinha,
A possib.de conversâoacabap. morte 143
já aos dois annos, no estudo, conseguindoassím,
dada a precocidadedella, que nessaidade ella fa-
cilmenteaprendesse a lët, escrevere contar. O que
Iegitimamentese póde deduzir dessecomo de ou-
tros factos semelhanÌesé apenasa facílidadecom
que se pódem desenvolveras aptidões de uma cri-
ança, uma vez collocadaesta nas condiçõesreque-
ridas e continuamenteestimulada; porém jámàis
o facto de reincarnação.
Ingenuamente acreditamtambem os espiritas
nos charlatãesque pretendemter o espirito de " ce-
lebridades" passadas,ou de qualquer outra pes-
sôa fallecida, porém, sem darem a menor prova
disso. Fazem ou permittem essassupposições gra-
túítas, e aferram-sea ellas como si fôssema sua
tâboa de salvação.Nellas acreditampiamente,con-
tta a opinião e convicçãogenl do generohumano.
Segundo esta, o homem appareceno mundo com
a alma completamenteínculta, crescendoe desen-
volvendo-setanto no corpo como na alma, e de-
sapparecendoafinal como uma arvore que, dado
os seusfrutos e cumprido o seu destioo, é emfim
abatída. .4,' excepçãoda dqutrina buddhista, que
estabelece a transmigruçã,odas almas e um cyclo
de provações infindas, todos os povos do mundo
fazem começarna morte a lei inexoravel da jus-
144 11.' Obiecção

tiça divina, com um castigo ou uma Íecompensa


sem fim, Contra esta théseuniversal,sustentamos
espiritasa reincarnaçâoe a continuaçãodas provas
e expiaçõesapós a morte, neste mundo mesmo,
mediantea reincarnaçãonoutros corpos,mas tudo
isto sem basesolida, ou mesmo sem basealguma, :
apoiando-se em factos de natvteza perfeitamente
explicavelpor coincidencíasdiversas.
Pretender que a reincarnaçãode um pecca- r,
i,' t

dor, para expiaçãodos seuspeccados, p.


seja, ex.,
n
a explicaçãopara a existenciade um aleijado, é liÍ{
uma supposiçãogratúita inteiramente,com a pre- I
t !

tenção de arguir a Deus de injustiça si tal não


se verificasse.Ora, quem póde desvendaras leis I
ij

naturaese os motivos causaesem Deus, determi-


nantes da existenciadessealeijado? São mysterios i,

impenetraveis,reservadosa Deus, e que absoluta- '!l


i'j

mente não servemde basepara affirmar a realidade 'l


da reincarnação.
Sobre a nossa vida futura após a morte, h
muitas outras possibilidadesainda se poderiam ex- ì
cogitar, tão pouco certase reaescomo a reincar- i
nação.Destituidas,porém, de qualquerbasesolida .
ou real, devemtodas relegar-seao reino dos sonhos ,i
de espiritos extravagantes.Rudimentar sophisma l
seria, da méra possibilidade,concluir â realidade. l,
.1
Ft

t-
ll
Ë
t:t A possib.de conversãoacabap. morte 145
E ì

t_
F

Não é licito trocar a possibilídade pela rcalidade;


são conceitose valores essencialmente differentes.
ÌÊ
Ou, por outra: aquillo que gratúitamentese affir-
F--' ma, gratúitamentese tem o direito de negar ou
f rejeitar como phantasia.Quanto ó nossquída fu-
tura, não se trata de pronunciar-sesobre uma hg-
pothese especulatíoa,,sobreméros possibilidades,
porém sobre a questão de fscto, sobreo que real-
menteé, e não sobreo que, por outras supposições,
poderia ser.
Não ha duvida que Deus poderia ter prolon-
gado para a alma separadado corpo o tempo do
merecimento;porém de facto não o fez. Sabemos
isto com absoluta cefteza pela revelação.E, com
a fê' a sã nzão estátambem nesteponto de com-
mum accordo.Ã convicçãode todo o generohu-
mano, de que com a morte finda a provação,por
si só constitúe um argumento de valor decisivo.
E' a expressãodo bom seirso,do sensocommum,
que enxergs na dissoluçõodas partes essencíaes do
composto humano o testemunho,assríseuidente,
de que a morte inícia paru a alma uma úído nouq,
onde as condíções do merecímento sõo abolidas.
A não se encerrar na vida presente a provação
definitiva, e a ser a reincarnaçãouma rcalidade,
a uida humana toda perderia completurnentea sua
146 ll.'Obiecção

ímportancis, que, como de crençageral, ê,a ptepa-


l:,ção parc uma vida melhor, para uma vida de
descançoe de etetna felicidade. Si tivessemosque
recomeçare tornar a recomeçaruma nova prova-
çâo, uma vida cheia de tentações,de penas, sería
isso uma especiede bríncadeirade Deus comnoEco,
hypothese indigna e absurda.
Resta pÍovar que rÍ alma separadado corpo
é impossiuel a conuersõo ou purifícaçõo. Supposto
que assim fôsse,a purificaçío tería de ser ou activa
ou passiva,i. é, com ou sem a cooperaçãoda von-
tade livre, Ora, nenhuma das duas supposições
existe.- Depoísda morte, não póde hauer con-
uersão propría, nem puríficação méramente pqs-
síua. Prova-se successivamente.
Quanto â purificação passíoo,repugnaadmit-
tir que Deus queira perdoar o castigo merecido
sem que desappareça a culpa, i. é, sem que o ho-
mem se arrependae se emende.Nenhum pae per-
doaút ao filho güe, Ionge de desaggraval-o,sus-
tentar a offensa e se gloriar de havel-a praticado.
Não seria só inconveniente e irracional, porém
tambem injusto perdoar o mal que o culpado não
quiz desapprovar e rcparat.
Quanto â purificação actíoa, ou á conversão
propria, esta parecede todo impossivelá alma se-
A possib.de conversâoacabap. morte 147
parada do corpo, privada dos seusmeios de acção
naturaes. A este respeito, affirma Sto. Thomaz
guê, depois desta vida, o homem não tem mais
possibilidadesde tender pala o seu fim; porque,
sendo para elle as faculdadescorporaesa condição
do progressona virtude como na sciencia,o corpo
lhe é necessariopara attingir o seu fim. Ã alma se-
paruda do corpo acha-se,pois, fóra de estado de
progredir normalmente no bem. E, tendo o ho-
mem morrido em peccadograve e conseguintemen-
te no estadode inimizade com Deus, a alma acha-
se fixada no mal e no seu castigo,que a privam
do seu ultimo fim, e assim delle será eternamenre
privada. (C. gent., II, 144).
Com effeito, concebe-sedifficilmente que a
alma privada dos seus meios de acção naturaes,
dos instrumentos indispensaveispara agir normal-
mente, possa continuar a aagmentat os seus me-
ritos e rcpal.at o mal commettido. Sería prectso
imagínarem-secondíçõesmotaes nouosparu o nouo
modo de exístencía,As (eise os deoeresactuaessõo
feítos para homens, dirígem-se ao composto hu-
mano inteíro, Seria precisoque Deus creassenovas
Ieis e novos deveresadaptadosao novo estado da
alma sem o corpo, do qual nada sabemos.Ficaría,
porém, sempre uma msxíma íncoherencis e con-
148 11.' Objecção

tradição, o saber: as faltas commettidas pelo ho-


mem não seriamreparadaspelo mesmohomem,
Si é de todo impossivel que a alma separada
do corpo se converta e rcpare o mal commettido
até fóra do fogo e dos-mais terriveis castigosapós
a morte, mais impossíoelserá a conuersãoó alma
acommettídapor tantos soffrímenÍos, por lhe fal-
tar então a condiçãoprimaria e indispensavelpara
isso: a liberdade.Reconhece-se no mundo inteiro
o facto de um grande medo tolher a liberdade.
Reconhece-se, pelo costume universalmentevigen-
te, que, provado o medo grave, este annulla atê
os contractos.Si a líberdadeé tolhida pela acção
do fogo terrestre,incomparavelmentemais o será
pelo fogo do inferno.
Ãssim como o homem lançado numa fogueira
procura instinctivamentesalvar-se das labaredas
consumidoras,assim tambem o reprobo, mal sen-
tir o fogo accesopela ira de Deus, só poderâ agïr
sob a impressãoe sob o peso dessecastigo im-
menso. Si porventura elle pudessesaír do inferno,
pelo arrependimento,quem não vê que essea?
rependimentoseria forçado, motivado directamen-
te pela immensidadeda dôr? Teria o mesmovalor
que o arrependimento do forçado que padece o
castigodos seuscrimes.Resolvendoelle então servir
A possib.de conversãoacúa p. morte 149

a Deus, seriao casodo individuo constrangidoao


serviço pelo açoite. Tal serviçoDeus não o quer.
No fogo eterno, portanto, não pode maís hauer
liberdade,e, por conseguinte,não póde hauer affe-
pendímento prooeítoso, nem conuersãoacceítapor
Deus..
tLssimcomo pela morte o corpo fica immouel
e rigido, assima oontade, pela morte, fica immo-
bilízada e como que eternízadano bem ou no mal.
Conforme cá,ea arvore, assimfica. O reprobo quer
sempre e necessariamente o mal que f.ez, diz S.
Bernardo. O mal e elle são agora inseparaveis;
a vontade fica endurecidano mal, o peccadoinse-
paravelmenteinherenteâ alma. O reprobo fica por
isso sendocomo que um peccadovivo, permanente,
immutavel, eterno. Ãssím como os bemaventura-
dos no céo, vendo a Deus, amam-n'O necessaúa-
mente, assim tambem os reprobos, não O vendo
sinão nos castigosda sua justiça, odeíam-n'One-
cessariamente. E' escusadodízer que semelhante
peÍversidadeestá longe de ser uma conversão.Ã'
'immutavel,
perversidade a uma vontade fixada
eternamenteno mal correspondejustissimamente
no inferno o castigoimmutavel, eterno!
4." PROVII

W - O inferno ó necessario porque o peecado


grave repugna absolutamente â infinita santi-
dade e justiga de Deus.

SUMMAR,IO:
Em virtude da sua santidade, Deus odeia o peccado
graye infinitamente, e tem clue perseguil-o, em-
quanto elle existir no peccador, até no inferno,
caso o peccador continúe impenitente (B. 151).
Si Deus não castigasse o peccado grave no inferno,
dar-se-iam cinco contradições contra a sua san-
tidade e justiga infinitas:
í..ó contradição: Inconsequencia de Deus comsigo
mesmo, não castigando o peccado grave, e pare-
cendo assim nÌenos justo do que sauto (p. 168).
2.s contradiçõo: Deixaria Deus de attender ã diffe-
renga essencial entre o bem I o mal, parecendo
assim ser EIle menos santo do que realmente 6
( p .r r s ) .
B.o contradiçõo: Si Deus se reconcilias,se com o Bec-
cado graye, tanto menog motivo teriam os ho-
rnens de evltal-o, vindo q perder Íatalmentc a
A santid. de Deus exige o inf. 151

verdadeira nogão do bem e do mal, o que ssria a


invasão, no muudo, de todos os viciog e crimes
(p.155).
4.d contradigão: À não haver inferno, faltaria no
mundo o estimulo sufficiente Bara a pratlca da
virtude (p. 156). Sendo os homens muito mais
sensiveis ao castigo do que a qualquer recompen-
8â, só o castigo do inferno garante sufficiente-
mente a Deus g pratiea das virtude$ (8. 158).
õ.â conúradiçã,o: Sem o lnferno eterno, a Justiça tle
Deus se converteria em injustiça para com os san-
tos o Bara com seu Broprio X''ilho (p. 160).
Conclusão: Só na corteza da existencia do inferno é
que se podem admittir os demais mysterlos da re-
Iigião. O castigo sufficiente pela recusa do ho-
mem a reeonbecer tantos beneficios, sacrificios e
dqsvelos de Deus, e corresponder-lhes, só póite
Ber o inferno eterno (p. 161).

O ínferno é necessario para castígar o peccado


graüe, por causado odío ínfínito que lhe uota q
santídodede Deus. - O peccadograveÍepugna in-
finitamente tanto á justíça quanto á santidadede
Deus, ambasas quaessão por elle gravementeof-
fendidas e villipendiadas.Concebe-se que o pecca-
do affectee contrarie em primeiro lugar a santidade
de Deus. E' ella a nzão mais profunda pela qual
Deus não toléra o peccado.Supposto que a justiça
pudessee quizessedesistir do summo castigo do
752 A santid.de Deus exige o inf.

inferno, que diria a santidadel Resistiriaabsoluta


e infinitamente, sentindo horror e odio irreprimi-
vel contra a abominaçãodo peccado.
Com effeíto,sendoDeus a summa santidade,
não póde deixar de odiar com todo o seu poder
divino o peccadograve, Em virtude dessamesma
santidade,Elle ama o bem e odeia o mal infinita,
mente. O peccadorepugna-lhe â, natureza divina,
revolta-a e aborrece-asupinamente.- pssss odio
só se póde fazer uma fraca idea,e por comparações.
Quanto um pae illustrado, brioso e amoroso não
sentea infamía, a injustiça de um filho! euanto
uma mãe carinhosanão sente um crime commet-
tido por seu filho! - Ora, Deus odeia o peccado
mortal com odio incomparavelmente maior do que
todos os odios terrenosjuntos; odeia-o infinita-
mente. O Eeu odio ao peccadoé implacarsel,ín-
transigente, irreconcilíquel, eterno. Emquanto o
peccadograve existir numa pessôa,Deus tem a esta
horror e aversão infinita. Ã unica attitude sua
possivel para com o peccadorimpenitente é essa.
Nunca podeú modifical-a. Só quando o homem
mudar de intenção pa:.a com aquillo que Deus
tanto odeia nelle, é que Deus tambem mudará de
attitude para com elle. Si o peccadornão mudar,
Deus continuarâ a perceguil-ocorrÌ seupeccadoeteç
impossiveis
5 Contradições 153

na e implacavelmente. l\ infinita santidadeobriga


então Deus a perseguil-ocom sua justiça infinita.
Si Deus não castigqsse o peccadogruoe no in'
ferno, occorreríam cinco inconsequenciasínadmís-
sitteís,ou cinco contradiçõescom a santídadee jus-
tiço de Deus.
à I.' seríauma absolutainconsequencía, uma
perpetua contradição de Deus comsigo meEmo.Si
para o peccadograve não houvesseinferno, Deus
não o castigaria então na medida em que a sua
santidadeé por elle offendida e lesada.Seria uma
falta de justiça não o punir devidamente,e não
usarpaÍa isto dos meiosá suadisposição.Seriasup-
p& que Deusnão é tão iusto quanto é ssnto,Esta
falta collocaria a Deus em perpetua contradição
comsigo mesmo, provando n'Elle uma luta peÍ-
petua: da justiça contra a santidadee více-versa.
Tal incohercncía,perdoavel âs vezesentre os ho-
mens, não seria siquer concebivelem Deus. Os
homenspodem não perceberou esquecer uma abo-
minação, mas Deus não! Sendo isto impossivel,
Deus nunca poderá pactuaÍ com o peccadograve,
deixando-o sem o castigo devido: o inferno, illi-
mitado na sua duração.
',Ã,
2.' inconsequencíasería a seguínte: não
castígondo com o ínferno etetno o peccadogtdue,
154 A santid.de Deus exige o inf.

Deus deixaría desapparecetem suds manífestações


externasa differençaessencialentre o bem e o mal.
Sendoo vicío e a virtude dístan'ciadosessencial,ab-
soluta e infinitamente, tambem o rcsultado que
produzem, o castigo como o premio, devem per-
marLecersempre distanciadose irreconciliaveis.Si
o inferno um dia findassee os reprobosentrassem
no céo, desappareceria a distinção absoluta entre
o bem e o mal, vindo a confundir-seeternamente
no céo os santose os impios. Já não valeria a pena
praticar a virtude para chegar ao cê,o,ou valeria
o mesmopraticar o mal ou o bem, para sè virem
afínal a gozat eternamenteas mesmasregalias,re-
compensas e alegrias.A virtude seriafrusftada, de-
sacreditada,Ora, o impio mais estupido reconhece
a differença.completa, aibsoluta, essencialmente
contraditoÍia, entre o bem e o mal, entre o vicio e
a virtude. Deus, portanto, tem que affirmaÍ e con-
firmar essadifferençacategorica.
Si não houvesseinferno, haveriaque admittir
em Deus uma grosseirafalta ou imperfeiçãode ín-
telligencia,de vontade e consciencia, pois Elle in-
velteúa os conceitoee valores essenciaes do bem e
do mal, não mais os dístinguindo. Leoaría ísso
fatalmente a suppôt que Deus é menos sento, Si
EIle não punisse o peccado grave emquanto este
:1'\9'::i

imPossiveis
5 Contradições 155

existir, devida e etetnamerlte,si deixasseum só dia


de punil-o e se reconciliassecom elle, mostraÍia
não haver sido por elle tão desgostado e offendido
quanto a sua santidadeinfinita aatoríza a crër, e
deste modo o peccadonão se rcvelar'íatamanha
offensa a Elle. On, sendo o peccadograue o que
realmenteé, e sendo Deus infinítamente iusto e
santo, seúa uma ínconsequencíue conttadição ín-
fíníta de sua parte não o castigatconsequentemente
no ínferno.
Deixando sem o devido castigo o peccado,
Dcus se comprometteriatotalmentepeÍante os ho-
mens, daria de si mâ apparencia,inculcando-se
pouco cioso da sua honra e gloria, pouco sensivel
e pouco brioso, contrariamenteaos homens, que
assim pareceríamnesseponto superioresa Deus!
Sim, Deus não póde deixar de vingar devidamen-
te a desconsideração, o desprezoda sua majestade
infínita, pois não o permittem a sua santidadee
justiça!
3! inconsequencia:os homens perderíam a
uerdadeira noção do bem e do mal, a differença
essencislentre o uícío e a oírtude, confundíndo-os.
- Já! que o inferno é o unico meio capaz de f.azet
cgmprehender efficazmenteaos homens essadiffe-
rença, o facto de não ser imposto siginificariaque
156 A santid.de Deus exige o inf.
Deus não se importa com os peccadose vicios dos
homens.Qual seria a consequencia logica? Os ho-
mens certamentehaveriam de pensar que elles
muito menos deveríamligar importancia ao pecca-
do. Seria a invasão do mundo por todos os cri-
mes e vicios. Da parte de Deus, seriaa destruição
da sua propria obra, a ruína da bôa ordem. E
com tudo isso nem se poderia mais falar em per-
dição, pois todos os homens, por peorese mais
immoraes que fôssem,haveríam necessariamente de
salvar-se.Absurdos! O inferno é, pois, necessario
como garantia segura contra essasconsequencías
desastrosas, como patenteamentoaos homens da
diÍferençaabsoluta ente o bem e o mal, entre o
vicio e a virtude.
4.' ínconsequencia: a não hauer inferno, fal-
taría ao mundo o estímulo sufficientepora a pratica
da uírtude, - Ha duas grandes necessidades no
mundo: a glorificação de Deus, fim ultimo de
toda a cteação,e a salvaçãohumana, o meio mais
apto e mais preciosopara a glorificaçãode Deus.
Só ha uma grandenecessidade no mundo: a glorifi-
caçãode Deus pela salvaçãohumana, O meío maís
indispensauele gloríoso para essadupla necessídade
é a ptatica das uírtudes chrístãs e sociaes.Estas são
o otnamento de humanídade, a belleza moral das
5 Contradiçõesimpossiveis 157

almas! .4. pratica das virtudes comprehendetudo


quanto Deus espera do homem como resultado
dos seusbeneficios,para sua glorificação e proveito
do proprio homem. São ellas as flôres perfumosas
e os frutos deliciososçlue Elle quer vêr e contem-
plar prazeirosamente no seu jardim, na terra! -
Claro ê que Deus quer attingír o maís perfeita-
mente possíuelo escopodq sua obta, Não se póde
Elle dar por satisfeito com a simples pfttíca das
virtudes essenciaes e indispensaveispara o homem
salvar-se,ou pela sua simples conversãono fim
da vida. Elle quer que todos sejam santos, como
Elle proprio é santo. Quer, portanto, eu€ todos
sejam cheíosde virtudes, na maior medida possi-
vel. São, pois, os verdadeirossantos que Lhe agta-
dam e que mais O glorificam, sendo ellesem ver-
dadeos maiores expoentesdo ideal da perÍectibili-
dade humana, as maioresglorias da humanidade.
- A pratica de maiores virtudes não se Íecom-
menda sómente para mais plenamente rcalizar o
fim da vida humana, mas tambem para garantir
melhor a propria salvação.Seria um jogo muito
arriscadoquereralguemcontentar-secom o estricto
necessario,só com a pratica das virtudes absolu-
tamente indispensaveis.Deus, nq Eua ínfinita Ea-
bedoría,annexou a sua glorifícaçãoá nosscsalua-
158 A sanüd, de Deus exige o inf.

ção, fazendo uma dependenteda outra, garantíndo


uma pela outra e fazendo uma rcdundar em pto-
oeito da outra. Quanto mais se trabalhat para a
sua gloria pela pratica das virtudes, tanto se as-
seguraráa propria salvação.Obter maíor garcntís
de saluaçãofoí sempreparc os sanfosum estímulo
poderoso no sentido de aínda maís trabalharem
pora a gloría de Deus.
Ora, supprimíndo o ínferno, não hatteria
maís no mundo estimulo sufficíenteparu a pratica
da uirtude. Ão determinar o fim da creação,Deus
collocou-lhe ao lado a garur^tiasufficiente e indis-
pensavelcontra a sua frustração- o inferno. Exi-
gindo dos homensque evitem o peccadoe o vicio,
que pratiquem a virtude, é evidentea necessidade
de que Deus realize as necessarías condiçõesdisso,
de modo que os homens tenham a necessaria
força moral sobresi. Com esteintúito, Deus creou
e ptopoz aos homens um premio tão soberanamen-
te grande e digno, que fôsse efficaz para contel-os
e leval-os a praticar até heroicamentequalquer vir-
tude, afím de merecel-o.E' o céoessepremio, o céo
tão manvilhosamente grande e magnificente, que
encantaum sem numero de pessôas,dispostaspor
isto a sacrificarinteiramenteos interesses da terra
aos da eternidade.Parecendo, porém, essepremio,

.:
5 Contradições impossiveis 159

em numerososcasos,ainda insufficiente, Deus foi


atê o limite do possivelpara obter o refreamento
e a salvaçãodos máos, creando um castigo tão
grande que pudessecontel-os em seus crimes e
induzil-os energicamentea aEsegurata propria sal-
uação pela pratica do bem e da oirtude. Porque,
na realidade,muitissimosnão queremsaberdo céo
nem da pratica da virtude em ú6ca dos prazeres
do mundo. Por ísfo Deus creou o inferno parct
refreal-ose paru reduzil-os tí ordem e d pratica da
I
t uirtude, dando-lhes mais um motíuo e estímulo
Ì fortissímo psra ísso.Na uerdade,quanto o motiuo
; do céo fica dependentedo do inferno! Si ern face
do motivo do céo eterno não houvesseo do in-
. ferno eterno, o primeiro quasi perderia o seu valor
e força, isto é, si ao mesmo tempo que de ganhar
o premio eterno não se tratassetambem de evitar
o castigo eterno, poucos homens haveria a p:':ticat
a virtude.
A razão de tudo isto é que os homens são
muito mais sensíueís ao medo do que d, esperança,
O caracterabstractoda recompensaeternadeixa a
imaginação fuía e indolente. Por si só, seria um
preservativo insufficiente contra o peccado,sí o
medo dum cqstigo dolorosissimo não lhes uíésse
em auxílío, fazendo contrapesod ottracçãodo pec-
160 A santid. de Deus exige o inf.

cado. Ã experiencieprova ser realmenteo medo do


inferno que revigoraas forçase sustentaos esforços
nas tentações;foi elle que fez tantos martyres;
que reconduziu tantos peccadoresendurecidosa
Deus, e levou tantos homenspelo caminho da vír-
tude ás portas do céo. Muito mais facilmentenos
díspomosa renunciarás maioresesperanças do que
a supportar os rnaiores soffrimentos, principal-
mente quando eternos.Os homens reconhecema
soberaniaefficazdo medo, admittindo que o medo
grave,tfua a liberdade, caso qae atê legalmente an-
nula os contractos.Ã mais viva esperançanada
opera de semelhante.Por isto os legísladores, im-
pondo aos cidadãosas obrigações,não estatúem
premío pelo seu cumprimento, mas só uma sanc-
ção a soffrer pela sua transgressão.Por estadupla
razão a sobedoriadíttina fíca perfeitamtenejustifi-
cadapela creoçõoda inf erno como punição do não
cumprimento dos deveres.
5,^ inconsequencia:sem inferno etetno,a jus-
tíça de Deus Eeconoerteriaem uerdadeirainjustíça,
e admittíría na rcligiõo os maíores absurdos
Deus exige de todos obedienciaá sua lei, e os san-
tos Lhe obedeceram com toda fidelidadee corn os
maiores sacrificios.Si não houvesseinferno, os
máos, entrando no céo, ficariam equiparadosaos
Interdependenciad. verdades 161
santos. Qu. injustiça! Poderiam elles com nzão
dizer a Deus: "Protestamos!Fomos tôlos servin-
do-vos, si o céoé pa:o todosl" Ficariam assimlado
a lado o assassino e sua victima, o calumniadore
o calumniado,o roubador e o roubado, etc.; a Im-
maculadaConceiçãoao lado de mulheressem hon-
ra! Seria isso justiça divina?! - Ãdemais,si não
houvesseinferno, a santíssimapaixão de Nosso .Se-
nhor teria sído superflua, (tma crueldadede Deus
Padre para com seu divino Filho. Este, então, não
nos devia salvar com os seusatrozessoffrimentos.
F Do purgatorio nós nos libertamos, questão de
tempo, cada um conforme o seu prazo; expirado
este,subiremospara o céo. Que crueldadea do Pae
para com seu Filho, f.azendo-osoffrer tanto sem
necessidade! A religião, sem o dogma do inferno
eterno, seria incomprehensivel,contraditoria!
Conclusão: Relação do dogma do ínferno
com as outras grandes uerdadesda religião, - O
castigo suffícíente pela audacía dos homens rccu-
sando os ínnumeros benefíciosde Deus, só póde
ser a perda destespúa sempre no inferno eterno,
Encerrandoa quarta e ultima grande prova
da existenciado inferno, rcIevanotar que, pa:a fa-
zermos uma idéa exacta do mysterio do inferno,
não devemosseparal-o do contexto, arcancal-oâ
162 A santid. de Deus exlge o inf.
jl

relaçãointima que elle tem com os outÍos grandes :


mysterios da religião. Assim como as perfeições Ë
de Deus se comprehendem umas pelasoutras, assím
4
tambem na religião, dependendoas grandesver-
dades umas das outras, e formando em seu con-
junto um systema sapientissimamente excogitado
pelo Espirito de Deus, ellas se comprehendeme
explícam umas pelas outras. Qs maiorcs mqsterios
da relìgião projectam luz sobre o m7sterio do in-
ferno, como delle tqmbem recebemluz,
Deus é immenso'e infinito em tudo quanto
fez, não menos na obra da salvaçãohumana do
que na creaçãodo universo.Embóra o mundo seja
finito, Deus o fez tâo espantosamente grande e
maravilhoso,que os sabios, atê o fim do mundo,
não chegarãoa lhe explorar todos os mysterios.
- Querendo salvar-nos,Deus operou o maravi-
lhoso mysterio da Incarnaçío,unindo a sua nature-
za dívina â natarczahumana, e formando uma só
pessôa,a pessôado Filho de Deus feito homem, o
Homem-Deus,o Deus comnosco Querendore-
mír-nos, querendosatisfazerá divina justiça pelos
nossospeccados,o Filho de Deus offereceu-se por
nós como victima, morrendo no patibulo da craz =
como um infame criminoso. - Querendomostrar- -ì
i.
nos o seu amor inexcedivel,fez-nosseusfilhos pela ì
:t
b*.
'*
Interdependencia d. verdades 163

gtaça, communicando'nos certa similitude com a


sua natureza divina. Oh! que ineffavel mysterio
o da graça! - Ãinda mais. Na sagradaEucharis-
tia EIle se faz o mysterioso alimento de nossas
almas. Quem póde comprehendel-o?! - Querendo
recompensar-nosdivinamente, creou um céo tão
maravilhosamentegrandioso e esplendido,que ne-
nhuma intelligencia humana póde advinhal
Et, então, para admirar que, para castigaraquelle
que não quer reconhecera immensa bondade de
Deus em todos essesmysterios,e corÍesponder-lhe,
como tambem paru ganntir os seusdireitos sobera-
nos e impostergaveis,Deus creassetambem o in-
ferno, immensoe infindo na sua duração?
Pela sua relação com os outros grandesmys-
terios da religião, vê-setambem com bastantecla-
rcza qrJeo inferno não ê,o centro do culto divino
e do christianismo, como pretendem alguns dos
seusadversarios,mas que o verdadeirocentro do
christianismo é a bondade divina, sendo o inferno
necessario como postulado da justiça e garantia suf-
ficiente contra o abuso da misericordiae da bon-
dade de Deus.
' VIr - Conciliação da Justiça de Deue com a sua
infinita 'nisericordia. As reivindicações de
ambas.

12.8 PER,GUNTA: - Çsp & existencia do inferno


Deus alnde póde gs1 Inflnltamente bom e mise-
rlcord.ioso?

SUMMA-RIO:
Entro a Justiça e a misertcordia do Deus não ha con-
tradição: prova-se pelo absurdo (p. 165).
Só a rellgião christã Bóde dotermlnar os limites e a
extensã.oda misericordia divina (p. 16E).
A extensão da miserlc,ordia de Deus no christianismo
( n .r o s 1 .
Da Barte de Deus não ha restrlcção na vontade de
.salvar a todos (p. 169).
Á. vontade salvadora de Deus é efficaa, dando elle
graça sufficieute a cada um (p. 1?0).
A 1.. restrlcção da graça: o tempo e o momento della
(p.1?0).
L 2.. restricção ou condlção da graga: a bôa yontade
( p . 1 ? 1 ).
Eondade divina e inferno 165

A resistencia continua á graça, ou impenitencla, é o


peccado maior e irremlsglvel (p. 1TB).
A real bôa vontade é inteiramente certa da Barte de
Deus. Contrição perfeita (B. 1TZ).
As garantias da mlsericorrlia'dlvina ou da eterna sal-
vação-(p. 179).
 1.. garantia extraordinaria: a devoção a Nossa Se-
nhora (p. 180).
á. 2.. garantia extraordinaria: a devoção ao Sagrado
C o r a g ã , od e J e s u s ( p . 1 8 1 ) .

"SendoDeus infinitamentemisericordioso
ouvimos dízer - não póde haver inferno. Ã exis-
tencia do inferno seriauma contradiçãocom a in-
finita misericordiade Deus. O inferno é incompa-
tivel com a misericordíae bondade divinas"
Entretanto, a existenciado inferno é um facto,
provado de pleno accordo com a sã tazâo, pro:
vado com tantas provas, que absolutamentenão
se póde duvidar da sua rcalídade.Além disto, fi-
cou provado que a não existenciado inferno Ie-
vaúa aos maiores e mais numerososabsurdos,üe-
ríficação esta gue torna s uerdade da exístencía
do ínferno umo conclusõologico da propría razõo
humana, Por outro lado, a miserícordiade Deus
nâo é.uma realidademenos certa,nem uma necessi-
dade menos absoluta da natureza dívína, do que
166 Justiçae bondadedivinas

a sua justiça. Ãmbas são perfeiçõesinfinitas de


Deus, e necessarias. Ainda mais: sendo Deus um
sêr em que não pódem existir contradições,a sua
misericordia tem, portanto, gu€ se conciliar com
a sua justiça, de pleno accordocom a sã nzâo.
De facto, a sã tazâo, esclarecidapela fé, ensina
que, emb6ra seja infinita a misericordiade Deus,
e illimitada, não o é absolutamentenas suas ap-
plicaçõesrelativamenteaos homens.À misericordia
de Deus é limitada pelasuajustiça. Tanto a justiça
como a misericordia divinas têm os seus direitos
e interessesproprios, contrarios entre si. ,{ ínfíníta
sabedoríadíuína regúla e concílid os ínteressesde
ambas, E ella que estabeíeceo equílibrío exacto
entre ellas, de modo não serem preiudícadasnem
ellas,nem o homem. Ã sã tazáo, reflexo da divina
intelligencia,reconhecee prova que a misericordia
divina tem de ser limitada em suasapplicações ao
homem. Si ella fôsse illimitada, seguir-se-ia que
o peccadorpoderia obstinâr-senos seuspeccados,
confiando na divina misericordia; assim, a díoína
miserícordia seruíria de motiuo para o homem set
mtío e íncorrigiuel. Formar tal idê,ada misericordía
de Deus, é um 2fosul'de.- "Continúo a peccar
porque Deus é bom". - Tal misericordiasería
,Bondadedivina e inferno 161

contraria â santidadede Deus, e redundaria eÍn


prejuizo maximo pa:.aa sociedade.
Ha, porór4, díffículdade etn determínar os
límites propríos e naturaesda díuína míserícotdia.
Para solucionar estemagno problema a fazet jvs-
tiça á misericordiadivina, a rczâo humana deve
acceitaros melhores recuÍsos da religião positiva
revelada.E' esta que estabelece o uerdadeíromeio
termo entre esscsduas uíttudes oppostas, erLtrea
justiça e a misericordiadivina, mostrando como
cumpre evitar cuidadosamenteos extremos de
ambos os lados, e pÍovando a necessidade e ruciona'
lidade de limites, especialmentepa:.aa divina mise"
ricordia. E' a sabedoriaque conciliaequitativamen-
te e justifica os interessesde ambas.Segundoella,
a vetdadeestá no meio, sem pender nem paÍa um
lado nem para outro.
Propriamente,a nzão humana, podendobem
avaliara immensidadeda justiça de Deus pela exis-
tencíado inferno, por outro lado, por si só quasi
nada sabe da immensidadeda sua misericordia'
Desta só quem sabe é a religião, e unicamentea
religião positiva revelada,o christianismo.Este é
verdadeiramentea revelaçãoda infinita misericor-
dia de Deus para com os homens' a manifestação
gloriosa da bondade divina. Só elle está 9m ço4'
168 Justiçae bondadedivinas
diçõese no direito de pronunciar'sesobrea divina
misericordia, de estabeleceplheos prós e os con-
tras, de mçtrar.-lhe a extensãocomo os reaesli_
mites. E' só no ,recinto da verdadeira telígião rc-
velada que se póde enxergar a maravilhosa im-
mensidadeda mísericordiadivina. euem não quizer
entrar nelle, nem acceitara luz diuína do céo, fica
entõo fóta nas trcuas do proprío engano. Todo o
prejaizo será seu, por não querer enxetgat nem
aproveitar as immensasvantagensda miserícordia
de Deus.
O christianismoê a propria manifestaçãoda
divina misericordia.Elte é de facto uma nova éra
de beneficíosde Deus, uma nova revelação
a da divina mísericordia. Ã prova mais cabal da
infinita misericordiade Deus palz com os homens
é a incarnaçãodo Filho de Deus, a vida e morte
de Nosso Senhor JesúsChristo na clrtz para sal-
var-nos. Como elle o declarourepetídasvezes,o
escopoda sua missão era salvar os pobres pecca-
dores,immolar-sepor elles.Foi o motivo de tudo
que fez, dissee soffreu, dos sacrificiosmais incom-
prehensiveis.Não conrinuando visivel â disposi-
ção de cadapeccadorque surgissedurante os se_
culos, Jesús-Christofundou a Lgreja,como subs_
tituta I como continuadorada sua obra, multipli-
Eondade divina e inferno 169

cando-senos sacerdotes,e tornando assim ainda


mais facíl a cada peccadorconverter-se.Com todo
direíto exclamou Elle: "Qo. mais podia eu fazer
â mínha vinha'e não fiz?" (Is., 5, 4), Por
tudo quanto Deus Nosso Senhor fez pelos pobres
peccadores,provou seÍ immensa, illimítada, infi-
níta a divina misericordia. Si a justiça de Deus é
formídavel nos castigosdo inferno, a bondade e
a misericordiade Deus não deixam de ser incom-
mensuraveis.VejaÍÍIos, porém, quoesos limites na-
turaeEda dioína mísericordia,e guardemo-nosde
transgredil-os,de modo a não termos que sentir
um dia os rigores da divina justiça!
À primeira veúficaçâoa fazer é, que a uontade
de Deus de saluar-nosé irrestrícta, ainda que não
seja absoluta e íncondícional, Quer isto dizer que
Deus tem para cada um de nós toda bôa vontade
para effeito da nossa salvação,sem sombra siquer
de mâ vontade para quem quer que seja.Deus tem
infinita compaixãode todos os peccadores, e dese-
jo insuperavelde salval-osa todos. De sua parte,
esta vontade não tem restrícção,tanto qae a af,-
firmou elle até por juramento, de modo formal e
solenne: "Juro por mínha vida assim de-
clarou pela bôccado propheta Esechiel (33, I I ) ,
- gue não guero a morte do impio (e não sim-
170 Justiça e bondadedivinas :

plesmente"peccadoÍ"), mas que se converta e


viva"f
Essauontade de Deus de saluat a todos é effí-
caz, faz tudo o que nzoavelmentepóde fazer para
salval-os, offerecendoa graça necessaria, a lvz e
força sufficientespara o peccadorconverter-see sal-
vaÍ-se. Porém essavontade de Deus de salvar a
cada um coÍn o auxilio da sua graça nâo ê,incon-
dicional e absoluta! Si o fôsse,importaria em vio-
lencia,na destruiçãoda vontade humana. Si o fôs-
se, todos se salvariaminfallivelmente,por força do
queÍer divino, mesmocontra a vontade delles.Isto
constituiriauma contradiçâode Deus comsigomes-
rÌro, seria contra a sua santidade e justiça' uma
vez qae Elle Íez a salvaçãodependenteda vontade
e cooperação do homem, de modo que ella sejaobra
commum de ambos, de Deus e do homem. Para
saloar-se,deueo homem tet bôa ttontadeem tudo
quanto Deus lhe eiígír sob preceítograoe' e quan-
do the offerecerElle a graça necessaúa;eísa dupla
condíção a ser realizado por todo aquelle que
queira salúa*se..4. bôa vontade do homem torna
a graça de Deus efficaz pela cooperaçãolivre e
espontanea,A primeita condição e restrícção da
uontade saluadorude Deus, da graço e da saluação,
é pois.a bôa uontade do hamem, Ã segundaé a
iBondade divina e inferno 171

coaluoção deste com a gtaça, no tempo e no


momento em gue a Deus aprouíJétconceder-Ih'a.
Sendo Deus senhor das suas graças,dons e
beneficios,claro é que nós homens não podemos
dispôr delles a nosso talante, conforme o nosso
beneplacito;mas sim conformeElle quizer e quan-
do quizer. O tempo da graça e da mísericordiaé
a uida presente,Nesta vida, reina, triumpha, pte-
valeceincomparavelmente a miserícordia.Lembre-
mos a esterespeitoaspalavrasmaravilhosasde Nos-
so Senhor a Soror Benigna ConsolataFercero' -
" Eu, sou o Deus de todq misericordia. Nada de-
sejo tanto como usar sempreda míseriocrdia,Pata
mim, usar de justiça é andor contra a cortente, é
precisofazet-me ttíolencío.Ã porta da mínha mi-
serícordía não está,fechada a chatse:estdsó en-
costado; pot pouco que se lhe tóque, ella se abre.
Mesmo uma criançapeguenapóde abril-a, até um
uelho que perdeu as forças, No entanto, a porta
da mínha justiça estó fechada u chaue; só a sbro
a quem me força a abril-a, pois jdmais a abro es-
pontaneamente".Eis ahi as normas encantadoras
do SagradoCoraçãode Jesús!
A vida de alëm-tumulo é a vida da justiça,
e da justiça rigorosa, tanto no céo como no in-
ferno. Cada um teceberâ g que tiver merecido.
172 Justiçae bondadedivinas

Emquanto durar o tempo da misericordia,ê pre-


ciso aproveital-o. .4. vida presenteé o prazo con-
cedído ao trabalho meritorio, como Nosso Se-
nhor bem accentuou "Yfuâ a noite, em que
ninguem mais poderâ trabalhat", Nessa noite en-
tra-sepela morte, e com estaentra-seno reino da
justiça, justiça sem misericordia.A graçae a mise-
ricordia são reservadasa esta vida: não ha nada
mais certo!
Porém isÍo nõo quer dizer que a graça e
misericordiaestejam nesta uidq (í nossc dísposição
arbitrariamente e Eem limítes, quando e quanto
quízetmos, Seria absurdo pretendel-o. Deus te-
servou a si o direito de dispôr da sua graçacomo
quizer e julgar conveniente, de accordo com os
dictames da sua infinita misericordia e justiça,
reguladas pela divina sabedoria, Deíxa-nos nct
completa incerteza sobre si nos concedertíou não
a grsça do perdão cínco ou mít t)ezes,afim de
que o homem não péque por confiança presump-
çosa na díuina mísericordía. Ademaís:seria índig-
no da majestadedivina sujeitar-seao capricho e
má vontade de cadaqual, deixando-sedirigir assim
por ellet
Quando Deus mandar a graço, guer encon-
trur o Í7omem çom bôa ggnyadg g de coroçõo
,Bondade divina e lnÍerno t73

bem dísposto. E' outra condição imprescindivel


da efficaciada graça, o cooperarmos com ella,
aproveitarmol-a. Si repetidas vezes não corres-
pondermos (e quiçá uma só!) á graça offereçída,
nada póde assegurarque Deus volte a oÍferccel-a
outra vez, Emquanto vivermos, nunca devemos
desesperar da divina misericordia;podemos e de-
vemos até,crêr que Deus aínda quer perdoar ao
peccadordepois de muitos e muitos peccadose in-
fidelidades.Disto não podemos, entretanto, ter
ceftezaalguma, i. é, si Deus ainda perdoarâoutras
vezes.iSi o homem continuadamenteapresentar
'acabarâ
recusas, por ser legitima e definitivamente
abandonado, quer ainda vivendo, quer jâ mor-
rendo. Depoís de certo ptszo e ptoíJa, a propría
razão humana acha ímpropría noua concessãode
graça, dado ser tão problematico e improvavel o
seu aproveitamento.
Si alguem não ,quizer salvar-se,Deus tão
pouco , o salvará, Quem tiver máLvontade, ou
pouca bôa vontade, commettendo sempre pecca-
dos graves e assim viciando-sesempremais, tenha
cuidado! Ã cada novo peccado,a volta para Deus
torna-se cada vez mais difficil. Erigindo-se sem-
pre maiores barreiras entre Deus e elle, facilmente
seguir-se-â o abandono do peccadorpor Deus. O
174 Justiça e bondade divinas

momento f,atal só o proprio Deus o conhece.Nun-


ca podemos dizer que uma alma já está abando-
nada e reprovada; nunca, Porém quem o tiver
sido, não podeú queixar-se por lhe não haver
sido concedidomaior prazo, porque quiçá milha-
res de vezes abusou da graça e da misericordia.
Em todo coso,Deus não abandona nínguem sinão
por abuso graoe da sua graça, entendendo qssím
não a expôt a nooos abusos, EIIe que é senhor
della e que julga com justo juizo.
De todos os peccados,a impenítencía,a re-
sistencíacontín.ua ó graça e a Deus, é o peccado
maíot. E' o peccadocontra o Espiríto-Scnfq que
não seráperdoadonem nestemundo nem no outro,
abusoque constitúeda bondadee misericordiadivi-
na. E o porta do infernol Quem viver mezese an-
nos em peccadosgraves, sem se importar, está no
maior perigo de cair.no inferno. Diferir a propria
conversão atê á velhice ou até á morte, é ousadia,
é loucura inqualificavel. E' impôr a Deus prazo e
hora na concessão da sua graça- dom gratúito!
E' brincar com os interesses eternosda alma! Quem
assim procede,attente nas palavras de Sto. Ã.gosti-
nho, quando diz qae entre mil dessestalvez um só
se salve! ,{ esperançaé,minima, o perigo maximo,
a condemnaçãoeteffraquasi certa,Pela sua levian-
. :Bondadedivina e inferno 175

dadepasmosa;como pela sua ousadiaincivel. Deus


dirige ao impenitenteas mais terriveisameaças:-
"Ãcaso desprezasas riquezasda bonõadede Deus e
a sua longanimidade?Então, pela tua dureza de
coração e pela tua impenitencia,enthesourasha
para o dia da ita e do justo juizo de Deus" (Rom.,
2, 4, e 5),
Quanto esses, em geral,são irreductiveise cul-
padosna suaobstinação,diga-oS. GregorioMagno:
- "pssçam emquanto vivem, peccariamsempresi
pudessemviver sempre, e quereriam viver sempre
para poderempeccarsempre.Apenasmorrem' é claro
que a justiça do SoberanoJuiz exige que não fi-
quem sem castigo,porque não quizerum vivensem
pecca{'.Não deixandoo impenitenteo seupeccado
quando podia e devia, deixal-o-â afinal na morte,
quando jâ nâo puder peccar.,\ssim, ficani com seu
peccadopor toda u eternidqde,tornando-Eecomo
que um peccadouiuo, que ardeuí no infs;ns. -
Basta Deus vêr no homem uma vontade tão obsti-
nada e fixada no mal, pua rcproval-o definitiva e
eteÍnamente.Não ha duvida que parc cadaum haja
uma certa medida de graça;quando alguem jâ tíver
abusadodemasiadodella, a misericordiade Deus o
abandonarâ,para entregal-oá justiça.- Podemos
illustrar estasverdadespela parcbola da ovelha des-

Li
ë

176 Justiça e bondade divinas

garcada.Eçta se salvou por se ter deixado levar ao


rebanho pelo Bom Pastor. Si lhe tivessepulado
dos hombros para se perder outra vez, tetía sido o
Bom Pastor obrigado a correr-lhe sempre atrás
quantas vezes ella fugisse, para salval_a?Não ê
justo pensal-o;e si ella se perdessed,evez, a culpa
seriasó della.
Vemos, poís,que s acção,tonto da mísericor_
dia como da justíça díuino, estóde pleno accord,o
com a sã razão, sendo ella reguladapela altissima
sabedoriade Deus. E' da vontade humana que
dependetanto a eternasalvaiaocomo a eternacon-
demnação.Com bôa vontade grangêa-seo céo;
com má vontade,o inferno. O campo de acçãoda
misericordiade Deus ê a alma bôa, arrependida,
desejosade emendar-se;o da infinira justiça é a
alma perversa,obstinada no erro, no peccado.
à alma de bôa vontade é de Deus; a alma pev
versa ê do demonio. Cada qual recebeúo que qui_
zet: misericordia, si quizer cumprir as condições
desta;justiça implacavel,si abusarda misericordia.
Ãssim é, e assim deve ser.
Uma alma de real bôa uontade, Deus nunca
a abandona,nunca a rejeíta.Na ordem da saloação,
tudo dependeda rcal bôa uontade, real e efficoz,
Para têl-a, deveo homem fazet tudo o que puder.
:;l
d'.

LI
f,
ll-,'
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i
r

rBondadedivina e inferno 177

à bôa vontade ê acceitapor Deus.até naquelleque


não póde fazer tudo quanto deve, desdeque faça
o que puder. Si alguem se arrependerda injustiça
praticada e do prejuizo dado, mas não restituir
os bens mal adquiridos, essearrependimentonão
é acceitopor Deus,nem é valido; não tendo,porém,
essealguem haverescom que restituir, ou tendo
apenasuma parte e re'stituindoessaparte, ou o que
della puder, animado de inteiro espirito de justiça,
essearrependimentopor emquanto ê acceitopor
Deus. Si alguem conhecera necessidad e da con-
fissão sacrarnental,mas pedir o seu perdão sem
quererconfessaro seu peccado,não seráperdoado;
mas, si não puder confessar-se, apesarde desejar
fazel-o, Deus acceítaa bôa vontade.
A misericordiade Deus é tão immensa,que
elle não rcjeíta nenhuma alma dotada de real bôa
vontade, que verdadeiramente faz o que póde. Si
nada mais puder fazer, enferma, por exemplo, e
prestesa morÍer, Deus se contenta com a simples
bôa vontade unida ao sinceroarrependimento,E'
este o ultimo rccurEoda alma e o ultimo rccurEo
de Deus para salosl-a, recurso que nunca pode ser
dispensado.Si o peccadorse converterpara Deus
com essabôa vontade, olhando arrependidopara
Christo crucificado,victima pelos nossospeccados,
r
.:

Justiçae bondadeclivinas t
178
e pedindo-lhe amotosamenteperdão, immediata-
mente se reconciliacom Deus e é perdoado.Toda-
via, si estiverconvicto da necessidade da confissão
sacramental,deveter tambeÌno desejode confessar-
se logo que possivel. À alma que morÍer nessas
condições,salvar-se-â. Salua-seassím por contri-
ção perfeito, qlueoutra coisa não ê sinão a bôa von-
tade sincera,unida ao sinceroarrependimentoe ao
amor de Deus.No ultimo perigo de vida, na immi-
nenciado naufragio definitivo, a contdção perfeita
é a oncora do céo, que seguraa alma de bôa oon-
tade, é o salua-uids para o céo. E' pela conttição
perfeita, o mais ímportante scto de tods a teligião,
que Deussqloa no ultimo risco de uída mílhares e
milhares de almas de bôa úontade,chamando-asa
si, de todos os confins do mundo, e unindo-se a
ellas para sempre!E' a misericordiaincommensu-
ravel, infinita, de Deus pata com os peccadores!
Deus nunca abandonauma alma de bôa vontade!
Divisando nella ainda alguma bôa vontade, oh!
quanto Elle luta ainda para salval-adas garrasdo
demonio,e sobretudoem perigo de morte! E' coisa
verdadeiramentetocante a descripçãofeíta pelos
santosdessaluta das mais dolorosasconsequencias!
Na justiça de Deus devemoster sempreabso-
luta confiança.Na sua ínfínita mísericordia,potém,
,Bondadedivina e inferno llg
podemos ter todo confiança emquanto tíuerm:os
bôa uontqde! Nõo nosabandonandoa nós melmol,
e não abandonandoo Deus primeíro, Deus nunca
nos absndona, Entretanto, ninguem deve confiar
demais nos seusbons sentimentos,illudindo-se a
si proprio. Podendo, sendo-lhedado tempo e oc-
casião,o peccadordeverâretrocedertanto quanto
tiver progredido no mal, desfazendoo que fez, re-
parando o prejaizo dado, reformando os vicios
contrahidos, endireítando tudo. Sõo exigencías
ímprescindiueisde Deus! Ã míserícordíade Deuse
a salooçãosão garantidas só rís olmqs de real bôq
uontade!
,\ bôa vontadehumana e a infinita misericor-
día de Deus são as garantiasfundamentaesda sal-
vação! ,\lcançamos graça e miserícordiade Deus
cumprindo todos os nossosdeveres, usandobem dos
sacramentos, e pedindo-asa Deus. Ã graçada per-
seúerançqfinal ou da saluaçõo,gruça que é, e ct
maior dos graças, deoe ser pedida semprea Deus,
Essessão os meios ordinarios da graçae misericor-
día de Deus, que nos fornecem as garantías essen-
ciaesda saloação.Além dessas,ha outras garantias
t'

de salvação,extraordinariase preciosissimas,que a
infinita misericordiadivina nos grangeou,multi-
plicando assimdivinamenteos meiose garantiasde
1S0 Justiçae bondadedivinas

salvação.São a devoçãoa Nossa Senhorae ao Sa-


grado Coração de Jesús.
Reconhecidamente, c deuoção filíal a Nossa
Eenhoraé penhor segurode salvaçãoe predestina-
ção. Dispensamo-nosde toda prova, sendo essa,
como é, uma verdadeuniversalmentereconhecida,
incontestavele incontestada.Quizeramos fazer no-
tar apenaso que se deve f.azet para alcançaressa
garantiapreciosáde salvação.- E' precisoamar e
venerarNossa Senhora sincerae filialmente como *h

Mãe de Deus e nossaMãe espiritual.Deve-se,âs-


sim, invocal-a e veneral-a ao menos medíanteal-
gumas oraçõesaffectuosase constantes,ou ttazen-
do comsigoalgum distinctivo de filho seu. Como
tal, temos á nossadisposiçãoo santo Escapularío,
distinguido com certosfavorese privilegios,que o
constitúemarmadura seguracontra os ataquesdos
inimigos infernaes Temos mais o santo Rosa-
rio, como arma poderosissimacontra o inferno e
penhor de predestinação. No seculoXV, 250 an-
nos depois de instituida essaoração pata sustar o
progressoda impiedadee a invasão do protestan-
tismo e do mahometismo,Nossa Senhorapromet-

teu ao bemaventurado,\lano da Rocha: -
todos os que recitaremo meu Rosario prometto a
minha protecção.. . Todos os que se me recom-
tsondade divina e inferno 181

mendam por elle, jámais se condemnatáoeterna-


mente". Razão pela qual essaoração excellenteé
tão cultivada, tendo operado grandesconversões,
a salvaçãoe santificaçãode muitissimasxtrn2s.-
Quem não tiver o habito e o animo de rczar sem-
pre o Rosario (ou mais commumenteo Terço),
aínda não deve desesperar. Nossa Senhora pedeaté
muito menos pata lhe dispensara sua protecção
e lhe assegurara salvação.Ella propria recommen-
dou a Sta. Mechtilde,como meio de alcançara gra-
ça da perseverança final ou de uma bôa morte, a
recitação de 3 Ave-Maria duas vezes ao dia, de
manhã e á noite. À fidelidade diaúa a esrapeque-
nina devoção, parcceo menos que se possa fazer
para merecetda pafte de Nossa Senhoramais uma
garantia de salvaçãoeterna.Da parte de Nossa Se-
nhora, essaexigenciainsignificante é a melhor
prova do seu supremo esforço para salvar até os
mais desanimadosdos peccadores!
O'ultimo esforçode Nosso Senhore o ultimo
rccurEoadmiraoel, gue elle poz â disposição dos
pobrespeccadores para se salvarem,conslstena de-
uoção qo seu EogradoCoraçõo, e propríamenteno
exercíciodas 9 primeiras sextas-feírasdo mez, Ee-
guídas,fazendo-senellas a communhão reparadora,
No seu excessode amor e mísericordiapara
182 Justiça e bondade divinas

com os homens, Nosso Senhor prometteu a quem


pratícar esse santo exercicío não deixal-o morrer
na sua inímizade. Ora, ísto é nem maís nem menos
do que a preseroação do ínferno, uma garantia da
perseuerança final, de ínconcebíoel tsqlor, uma ga-
rcntia da bôa morte, do céo e da eternidade felizt
Oh! Bemdigamos a Deus, bemdigamos a excessiva
misericordia do Sagrado Coração de Jesús, que
multiplicou tanto as facilidades de nos soluqrmos,
pars contrqbalonçar as fscílidades de nos perder-
mos; que, cteando o inferno eterno para subjugar
a rcbeldia humana, tambem deu grandes e abun-
dantas garantias contra elle, mórmente na devoção
ao seu Sagrado Coração!
Ãproveitemos, pois, as optimas garantias of-
ferecidas pela santa teligião, Todas as garantías sõo
poucas quando se trata da eternidade, quando se
trata de nos saluarmos ou perdermos para sempre!
Tnbalhemos, lutemos e cuídemos das nosass obri-
gaçõesespirituaes,afim de tornarmos, como o pre-
veniu S. Pedro (II, l, 10) sempre mais garantida
a nossa salvação. E, apesar de todas as garantias
que pudermos ter ganho para essa causa decisiva,
conforme nos recommenda S. Paulo, deuemosaínda
continuat a opetar a nosEd saluação com Eusto e
trcmor, poís nunca estqremos qbsoíutqmente gq-
,'Bondadedivina e inferno 183

rantidos, a não ser quando estioermos saluos no


céo. tLssím, o pensamento do ínferno produzíró
em nós o dettido resultado, preEefiJando-nosde toda
Ieoíandade, descuído, brinquedo com Deus e com
as coísas EantaE, emfim de todo abuso da graça,
Este pensamento será sempre paft nós um bom
conselheiro, de grande autoridade, obrigando-nos
a nos mantermos peíante Deus em noElo lugat, com
o devido respeito, e como convém a uma pobre
creatura, Longe, pois, de ser a existencia do infev
no contraditoria com a bondade divina, é a melhot
defesa dos interessesdessa meEma bondade, o meio
índispensauel de nos tornar Eempre mais dígnos
dos seus fauores!
VilI - O) valor das provas da existencia do
inferno.

Lançando um olhar retrospectivosobre tudo


o que foi dito em favor da existenciado inferno,
úemos, que a argumentaçãose compõe de provas
convíncentese apodicticas,que não permittem ne-
gat que ella está de pleno accordo com a nossa
sã razão. Para resolverna medida do possivelto-
das as objecçõesem contrario, procurámos encarar
a questãopor todos os lados, afim de colhermos
uma idéa exactada realidade.Reunindo todas essas
perspectivas,descortina-se-nosno nosso horizonte
espiritual um panorama que, afugentandoa som-
bra, nos faz exclamar:- De facto, é incontesta-
vel: exísteo inferno!
Cada uma das 4 grandesprovas subdivide-se
em outras tantas, das quaescadauma de per si de-
nota uma superioridadeinconteste,uma força irres-
pondível. Os "contras" se resolvem,empallidecem,
desapparecem completamenteá vista da tealidade.
Todas as provas juntas cqnstitúem uÍn feixe de
Valor das provas 185

provas esmagadoras, que não deíxam subsistir a


menor duvida a respeitoda thése: Exíste o inferno
e deve existir.
Sendo o ínferno necessario por tantos motí-
ú:os, Deus não podía' deixar de creal-o para garan-
tír os seusdireítos imprescriptitteìse os ínteresses
da humanídade,aínda que pareçaduro que tantos
ctíiam nelle, e que elle tanto pareça contraríar os
sentímentosde um pae.Não ha duvida que Deus o
Iamenta,e fez e faz tudo para preservatos.homens
desse castigo tremendo, applicado áquelles pa:a
quem fôram inúteis os esforçosda sua misericor-
día. Mos os ínteresses da collectiuídadetêm de pre-
ualecersobre os particularcs,,sobre os dos homens
de md uontade. Quem náo quizer ouvir e vêr, tem
de sentir! E' direito, é justo! Quem não quizer vêr
e acredítar,â luz da fé,e da sã razâo, na existencia
do ínferno eterno,terá que convencer-se della quan-
do nelle caír. Tel -o-â merecido. E quem não o
acreditará laz da sã razão, é louco, ou mais ver-
dadeíramente peÍverso! Estessão incuraveis,e tra-
zem rla sua obstinaçâoo proprio signal da repro-
vação.
São essesos que pretendem acredítarno in-
ferno só si o vissem, ou si um reprobo voltasse
do outro mundo para thes contar. Nosso Senher,
186 Valor das provas

porém, contando a historia do homem rico e de


Lazaro, já resolveuo casodelles,proclamande'-
"Si não acteditamem Moysés e nos prophetas,tão
pouco acredítariamsi alguem resuscitasse dos mor-
tos". (Lucas,16,31).E qurtìdo,mais tarde,Nos-
so Senhor resuscitoudos mortos um outro Lazaro,
para convencel-os e provar a divindade da sua mis-
são e das suas palavras, nem assim acredítarum.-
Portanto, quem não quízer acredítarna revelação,
nem na sã tazão, só poderâ chegata convencer-se
vendo o inferno, ou seja caindo nelle. De lá, po-
rém, não terá mais saída para o céo, uma vez que
um abysmo intransponivelos separa,como Nosso
Senhorna mesmaoccasiãoo declarouformalmente.
Consolam-seessesinfelízes porque ha muitos
companheirosda sua opinião e descrença. Juntos,
riem-se,troçam de tudo, da religião, de Deus, do
inferno. - Será por terem razíes seriasem con-
traúo?| Serão talvez profissionaes em mateúa d,e
rclígião, sabios,scientistasde renome, que acharam
na scíenciaalgumaprova convincentedo contrario?
Nada disto! Na maioria dos casossão uns ignoran-
tes; em mateúa de religião disparatam,falam do
que não entendem,blasphemamo que deviamado-
tat; e isto por causa dos seus vicios, da sua má.
vontade, por não quererementenderdireito. Trç-
Valor das provas 187

çam poÍ medo, pa:.: üearem coragem!Não deve-


mos tomal-os a sérío, nem fazer casodas suasin-
sanias!- A Voltaire escreveuum dos seus"irmãos
em Beelzebub" (diabo), como elle proprio os in-
títulou: "O inferno é uma burla, uma lenda
de velhas!" Respondeu-lheVoltaire, o impio Vol-
tafue: "Pódes provar que não ha inferno? Ohl
então dou'te os meus parabenslEu, em todo caso,
ainda não acheíprova alguma disso". - E assim
por díante, com todos os que negam a existencia
do inferno. Ãndam contra a convicçãouniversal
da humanidadede todos os tempos,e, assimcontra
o bom senso.
Sim, a existenciado inferno, nas condições
actuaesda humanidade,ê,tão necessariacomo a pro-
pria existenciade Deus, de modo çluese possalan-
çar o desafio: Si ha um Deus, ha um inferno! Si
não ha inferno, não ha Deus! Prove-seque não
ha inferno, e ficaráprovado que não ha Deus!
IX - A universalidade da crença no inferno.

à crençano inferng existiu desdeo principio


do mundo até hoje, entre todos os povos. Provas
irrecusaveisdeste facto acham-senas obras religio-
sas,historicase literaríasque os antigos povos nos
deixaram.Nellas encontramos,com as esparsas tra-
diçõesdassuascÍenças,tambem,de vez em quando,
algumas passagensrcfercntesao inferno.
Sendo a santa Biblia o lívro mais veneravel
do mundo, convém collocar os seus documentos
merecidamente â frente de quaesqueroutros. Não
se consideramaqui os textos respectivos do A,ntigo
Testamentosinão sob o ponto de vista puramente
historico, o que é sufficientepara o escopoque vi-
samos.Si as mais das vezesnão se encontranelles
o nome de inferno, com todas as letras, ao lnenos
é encontradoem termos equivalentes.Faz-semen-
ção só daquellestopicos que indiscutivelmenteex-
primem a eternidadedas penas.Sendo elles por si
mesmos sufficienteçe compÍehçnsiveis,dispensagt
Universalid. da crença no inf. 189
ulterior commentario.Àssim, serão melhor desta-
cadose verificados.
Jâ no primeiro livro da Biblia, no Pentateuco
'de
Moysés, escriptopelos l. 600 annos antes da
éra christã, encontramoso primeiro texto de indis-
cutivel valor. Conforme o Deuteronomía,Deus fez
sabera Mogsés (12, 22): - "O fogo accendeu-
se na minha col$a, e os ardorespenetratam atê.âs
profundezas do inferno; e orderd no ínferno Eem
fím" .
Job (c. 10) fala dos impios que zombam de
Deus, dizendo: "Não temos necessidade de vós,
nem queremosa vossalei; de que vale servir-vose
orar!"; díz elle que esses,num instante, ctíem no
inferno. - Job chama o inferno a regiãodas tre-
vas, a regíãoenvolta nas trevasda morte, a rcgiáo
da desgraçae das "trevas, ondg não ha ordem al-
guma e onde'reinamhorroreseternos".
Judith (16, 2l): "Elle farâvfu sobreas suas
carneso fogo, e os bichos para seremqueimados
e pala sentirem eternamente".
Isaías (33, 14): "Os peccadores fôram atel'-
rados em Sião, o medo assenhoreou-se dos hypo-
critas: qual de vós poderá habitar com o fogo de-
vorador? qual de vós habitarâ com as dôres Eem-
piternas?"
190 Universalid.da crença no inf.

Isaías (64, 24): "E elles sairão, e verão os


cadaveresdos homens que prevaricaram contra
Mim; o seut)ermenão morrerrí,,e o seuf ogo não se
extinguírd; e servirão de espectaculoa toda caÍne,
atê qae ella se fafte de vêr semelhanteespectaculo,'.
Jeremías(23, 40) : "E entregar-vos-ei a um
opprobrio sempíterno e a uma eterna ígnomínía,
que nunca se apagqráda memoría", -
Doníel (12, 2): "E roda essamukidão dos
que dormem no pó da terra acordarâ:uns pa:a a
uída eterna e oatros para um opprobrio que terão
diante dos olhos eternqmente".
S. João Baptísta (Math., 3, lZ), falando da
vinda do Messias,preveniu o povo de Jerusalém
do que o Messiasia fazer com elle: ,.Eis que
chegao Christo. Elle padejaráo seugrão; recolherá
o trigo (os eleitos) nos seus celeiros;quanto ^
palha (os reprobos), lançal-a-tíao f ogo que nunca
Eeopaga".
Eis ahi testemunhosde grande valor, alguns
dos quaes de venerandaantiguidade. Muitos se-
culos, pois, antesda historía gregae latina, já exis-
tia a crençano inferno, sendoque os livros sagra-
das falam nelle muitissímasvezescomo numa ver-
dadereconhecida por todos, ao menospor todos os
crentes.
rr
I Üniversalid.da crençano inf. 191

Tambem os antígos pagãos, e em pattícular


os grcgos e oE romanos, acreditauamna existencia
do ínferno com os seustormentoshorciueis.Disto
nos deixaramdocumentosos seusliteratos,que cha-
mam ao lugar do supplicio eterno o "Tartaro".
Os espiritos mais adiantados da antiguidade, os
poetas,todos ensinarame descreveram o Tartaro:
Homero, Orpheu, Hesiodo, Museo, Lino Horacio,
Ovídio, Virgilio, Seneca,etc.
Eocrates,citado por seu discipulo Platão
( "Georgias") , diz: "Os impios que desprezarem
as leis sagradas serão precipitados no Tartaro,
para nunca saíremdelle e soffreremnelle tormentoE
horriueis, eternos".
O grande Platõo referc-nosa sua opinião do
modo seguinte.- "psve-sedar creditoás tradições
antigas e sagradasque ensinam que, depois desta
vida, a alma serájulgada e punida severameúe,si
não viveu como devía".
Ãinda Platão, nas Georgias:"Os maiorescri-
minosos, cuja alma perversa merece ser incurauel,
são reduzidosa servir de espantalho;e os castigos
que os atormentamEemcural-os,só são uteis ás tes-
temunhasda sua espantosae dolorosaeternídede" .
ìj.
iL.i
s' Ãinda Platão, no Livro das Leis: "Ãs almas
que commetteramcrimesmaiores,são precipitadas
g

I
$,
{' *.
::I
ii

192 Universalid. da crença no inf. 1


no abysmo chamado Tartaro, ou de nome parcci-
do. . Joven, tal é o juizo dos deusesque ha-
bitam o céo, os deusesque tú imaginas que não
seoccupamde ti! Os bons serãoreunidos'aos bons,
e os máosás almasdos máos",
Igualmente falanm da mesma convicçâo ge-
ral: Arístoteles,o portento da philosophia antiga;
Cicero, o portento da oratoria româna, e outros.
Origínes,no começodo Christianismo, na sua
obra "Contra Celso" (Celso, philosopho pagão, €a

inimigo ardoroso do christianismo), referc haver


esteescripto: "Os christãostêm ruzão de pensarque
os que vivem santamenteserãorecompenòados de-
pois da morte, e que os máos terão que soffrer Eup-
plicios eternos,Aliás, este Eentimentolhes é com-
mum com todo o mtrndo^.
A crençano inferno eta,pois, na antiguidade, :'
uma crençauniversale incontestada.Este facto his-
*
torico foi reconhecidopor Bagle, o primeiro philo- ãJ

-d
sopho sceptico.Seu collegano voltaireanismoe na 1

impiedade, o ínglez Bolingbrohe, reconhece(Bol.


Works, vol. V, p,237) a mesmaverdadedizendo:
"A doutrina de um estado futuro de recompen-
sa e de castigoparcceperder-senas sombrasda an-
tíguidade,precedendotudo o que sabemosao certo.
Mal começamos a desenredar o cáosda historia an-
üniversalid. da crença no inf. 193

tiga, achamosessacrençâde maneiraa rfais solida,


no espirito das primeirasnaçõesque conhecemos".
Voltoíre (Addit. à l'Hist. Génér.) confessa
a mesmaverdade: "Ã opinião da existenciatanto
de um purgatorio quanto de um inferno, é da maís
remota antíguídade".
O mesmo Voltqíre (citado nas "Lettres de
quelquesjuifs" ) , diz mais explicitamenteainda:
"Desde essetempo (dos Assyrios, Chaldeus e
Egypcios), encontramosas mesmascrençasentre
os Gregose Romanos, e, numa palavta, em todas
as naçõesdo mundo",
Todo o mundo, pois, poetase philosophos,
reis e subditos,homenscivilizadose barbaros,to-
dos, até mesmo antes do christianismo,acceítama
existenciado inferno eterno. Verdade terrivel, no
entanto, que o mundo ínteiro tinha interesseem
rejeitar!
Qual então a conclusãoque, com todo direito,
podemose devemostirar do facto universal,dessa
crençaque a humanidadetoda adoptavaaté mesmo
antes do christianismo?Esta: que a existenciado
inferno é uma realidade,uma verdadede bom senso,
que não póde ser negada,sob pena de se repudiar
o sensocomum da humanidade,e de se faltar im-
perdoavelmenteá logica. Recorremosaos philoso-
191 Universalid.da crença no inf.

phos Cicero e Joubert para salientar o valor do ar-


gumento tirado do sensocommum, capazde pro-
porcionar ceft,eza absoluta da verdade:
Joubert (Pensées et Essaiset Maximes, t. 1.o,
p. 31S) assimse exprime: "Desdeque um rsciocì-
nío ataque o instincto e a pratíca uniuersal, póde
é engana-
ser difficil refutal-o, mas certíssímamente
dor e falso". - A ter, pois, ainda o seu direito o
velho axioma do sensocommum, a existenciado
inferno estarâtambem,por seulado, soberanamen-
te provada,
Realmente,seria monstruosaousadia, verda-
deiro desatino,pretender ainda que não haja in-
ferno, e quererarrancardo coraçãohumano a con-
vicção da existenciadelle, como o infeliz Lucrecio
aconselhouno seu tempo.
Lurecío (De natura rerum, lib. I, III) assím
i
disse: "Jâ não se tem mais repouso,é impossivel a
I
dormir tranquillamente:porque? porque se têm
que receiar,depois desta vida, penas eternas,pelo
medo das quaesnenhum mortal póde serfeliz. . .
E' preciso,a todo custo, arrancardo coraçãohu-
mano essaapprehensãoe desterral-ado universo
para sempre; porque perturba toda a paz do ge-
nero humano, e não permitte gozar nenhum soce-
go, nenhumaalegria,nenhum ptazer".
Universalid.da crençano inf. 195

Vão furor, que apenaspóde sacudir, mas


nunca quebrar, essacorrenteda justiça eternaque
conservao mundo em seuseixos,obrigando os ho-
mens a observar as leis. O coraçãohumano tem
continuado, desdeLucrecio, como antes, e conti-
nuará até o fim do mundo, a sentir o jugo desse
temor salutar, que para elle é o fundamento da
sabedoria.
Houve, entretanto,duasépocas,na historïa da
humanidade,em que a crençanum inferno parc-
ceu a muitos um tanto desarraígadado coração
humano, numa possivel rcalizaçãodo sonho de Lu-
crecio: a primeira sob Nero, e a segundasob Ro-
bespierre.. . Porém nessasépocaso proprio infer-
no mostrava-sena tetra, apparecendocomo que
pata attestara necessidade da sua existencia,e os
temerariosque o tinham evocadopara o negarem,
apressaram-se a fecharsobre si o abysmo, procla-
mando: "Os bons como os máos desapparecem
desta tefta, porém em condições differentes.
Não, Chaumette,não! A morte não é um somno
eterno... a morte é o começoda ímmortalídqde".
(Maximilien Robespierre, séance du 18 floréal,an.
II. Rapport fait au nom du Comité du salur pu-
blíc.)
X - O christianismo e o inferno.

Não ha duvida que a existenciado inferno é


uma das verdadesfundamentaesda religião de
Christo. E' uma verdadetão rigorosa e tão inti-
mamente ligada ao conjunto do seu systema re- _a

Iigioso, que negal-aserianegartodasas demaisver-


dadeschristãs.Christo veiu ao mundo para salvar
os homens,paÍa salval-osda desgraçado peccado
as duas gtan-
e do seucastigo,do inferno. São essas
des desgraças, do tempo e da eternidade.Nosso Se-
nhor veiu ao mundo para preservaros pobrespec-
cadoresda ultima desgraça,do inferno, offerecen-
do-seElle proprio como victima dos seuspeccados,
pela morte na clntz.Si não houvessepeccadosgra-
ves, nem inferno, o mundo não ptecisariado be-
neficio immenso da salvaçãodo Filho de Deus.
Toda a razão de ser de Christo, da sua existencia,
suppõe portanto a existencia do inferno. Ãs pro-
vas da sua divindade são tambem, indirectamen-
t?, provas da existenciado inferno. Ahi está o
christianismotodo, com todas as provas e factos
O christianismo e o inferno 197

extraordinarios, como gar:intia da existencia do in-


ferno.
Ãinda que essa exístencia seja uma verdade
de senso commum e uma convicção positiva da
conscienciahumana, Nosso Senhor não deixou en-
tretanto de proclamal-a bem alto, prevenindo os
homens, para todo o sempre, contra qualquer du-
vida a respeito. Não proclamou nem recordou essa
verdade uma ou outra vez, potém quinze uezeE,e
isto de modo o mais explicito e impressionante.
Comtudo, basta citar os tres textos mais salientes
do evangelho de Nosso Senhor e os de alguns dos
Ãpostolos, nos quaes é formalmente declarada a
etercidade das penaó do inferno, para convencer
definitivamente a todos de que essa existencia é
uma verdade incontestavel do christianismo, como
é dogma definido da Igreja Catholícq
Querendo um dia Nosso Senhor convencer
os seus ouvintes da importancia da salvação e da
necessidadede fazer todos os sacrificios para as-
segural-a, apresentou esta exposição tocante (Mar-
'Si
cos, IX, 42): a vossa mão é para vós oc-
casião de peccar, cottae-a: mais vale entrar na ou-
tra vida com uma só mão, do que com ambas ír
para o ínferno, pera o fogo que nunca se apaga,
onde o uetme do rcmorso nunca morf,e, e o fogo
198 '.'\
Ochristianismoeoinferno
não se extinguírti nunca. . ." - Na parabola do
pobre Lazaro e do homem do mundo, rico porém
sem caúdade(Lucas, XVI, 19), estandoesteno
outro mundo e soffrendohorrivelmenteno fogo do
inferno, pediu a Abrahão que lhe mandassepor
Lazaro, que estavano seio das delicias,uma gôtti-
nha d'agua para lhe mitigar ainda que de leve
a sêdeabrasadoraque o consumia; Nosso Senhor
põe nos labios do patrïarcha estas palavras
"entre nós e vós está lançado um grande abgsmo, Çr

de maneíraque os que quízerem pqssqrd'aqui para


uós nõo o podem, nem d'ahi para cd". - Quando
Nosso Senhor predisseo grande acontecimentodo
juizo final (Math., 25, 4I), fez cítar até os ter-
mos da sentençadefinitiva que o Filho do Homem
proferirâ contra os reprobos: "Retirae-os de
mim, malditos, para o fogo eterno, apparelhado
para o diabo e seus anjos". E accrescentou:
!'Estesírão para o supplícíoeterno".
Poderâ haver
declaraçáomais formal e explicita do inferno e da
sua eternidadel
Para completar as pÍovas, citemos mais al-
guns textos parallelosdos apostolos:
J u d a s ( 7 ) : " . . . s o f f r e n d oa p e n a d o f o g o
eternocomo exemplo".
S. Pauío (2 Thessal.,I, 9) : "Os quaespaga-
rão com a pena eterna da perdição. , . "
O christianismoe o inferno 199

S . J o ã o ( A p o c . ,1 4 , 1 1 ) : " . . . e o f u m o
dos seus tormentos se levantarâ pelos seculosdos
seculos,sem que elles tenham descançoalgum nem
de diq nem de noíte, os que tiveremadoradoa besta
easuaimagem..."
l \ i n d a E . J o ã o ( A p o c . ,2 0 , 1 0 ) : " . . . c o m o
o falso propheta, serãoatormentodos,de dia e de
noite, pelos seculosdos seculos" ,
Para o christão,não ha nem pódehaverduvi-
da a respeitoda existenciado inferno. Ou lhe ac-
ceítaa existencia,ou deixa de ser christão! A al-
ternativa é rigorosa.- Além de ser uma verdade
clarissimamente expressana SagradaEscriptura, a
existenciado inferno é um artigo da fé catholica,
um dogma definido. Àssim, o catholico que re-
cusar acceítal-o."ipso facto" se exclúe do gremio
da Igreja, tornando-seinfiél.
Resumindo tudo quanto foi exposto, vê-se
que a contsicçãodo inferno eterno é uníoersal,de
todos os tempos, de todos os pottos, de todas as
tradições,profanas e sagradas.Concorde com ella
está o testemunhoda natíJrezahumana, da sã ra-
zão, da consciencía,em atteEtar-nosa certezaa,b-
soluta de gue ha um ínferno eterno de fogo, parc
castigo dos impíos, dos peccadoresimpenítenteE.
XI - Quaes os homens que trilham o caminho
do inferno?

Depois de prova da a existeltcia do inferno, é


de interessecommum conhecerquaes os que na terta
trilham o caminho delle, ou quaes os peccadosque I

a elle levam, afim de evital-os. Podernos, a respeito,


distinguír varias classesde peccadores:
1.") Em 1." lugar uêm os uerdadeírosimpios,
que são propriamente os maiores inimigos de Deus.
São essesque não querem saber de Deus nem da
religião, e que até odeíam tudo isso; ou então que
vivem e fazem como si Deus não existisse e não
lhes fôsse tambeml o Senhor, quer propositada-
mente O ignoram, ou ao menos praticamente
não O reconhecem. Todos esses querem saber
tudo melhor do que o proprio Deus, atrevendo-
se a reformadores do mundo sem Deus e contra
Deus. São os chefes do campo adverso, do
grande exercito de Satanaz, tendo â frcnte os cor-
ruptores do povo, os publicistas impios, os mestres
atheus e herejes, a muÍtidão dos escriptores sem fé
' 201
.'."' 1 .' Os i mp i o s

e sem conscíencia, que procuram af.astaros homens


do serviço de Deus e aftarLcar-lhes a fé e o amoÍ
de Deus. Fazendo isso intencional e conscientemen-
te, agindo com malicia, devem ser considerados
como verdadeiros impios.
São representantesvisiveis do demonio, e seus
auxiliares na tarefa execranda de corrompeÍ o mun-
do. Para ganharem a recompensa do demonio e as
bôas gÍaças do mundo, estão esses taes sempÍe
promptos a mentít, a calumniar, a deturpar a Ye?
dade, e disfarçal-a, a blasphemar, etc. Seguem a
inspiração do demonio, pae da mentira, para illu-
dir os incautos e perder as almas. Serviço aliás bem
caro, pois lhes ha de custar muito a todos! Prejudi-
ciaes a si e aos outros, essessão os maiores mal-
feitores da sociedade.Por isto, antes de terem a sor-
te que os aguarda, ou seja a sua reclusão no inferno
eterno, deveriam elles ser quanto antes relegados
para o fundo das cadeias, afim de serem tolhidos
na sua obra deleteria. São os falsos prophetas de
que Nosso Senhor fala no Evangelho. S'ão os her-
deiros da negregada casta dos escribas e phariseus,
cabendo'lhes o mesmo anathema que Nosso Senhor
lançou contra aquelles: "Desgraçados de vós,
escribas e phariseus hypocritas, porque fechaes ao
homem o reino do céo. Como não haveis de èntrar

.*
202 Quemtrilha o caminho do inf.
nelle, impedís os outÍos de nelle entrarem. Des-
graçadosde vós, escribase phariseus ! porque peÍ-
correisa tercae o mar pata fazer um proselyto, e,
quando o ganhaes,fazeisdelleum filho do inferno,
duas vezespeor do que vós" (Math., 23, 13).
à esta categoria pertencemos sectariosda
maçonariae das demais socíedadelEecretoE, em-
quanto procuram rcalízaros perversosfins das suas
seitascontra Christo e contra a sua religião, ainda
que se não consagremdirectamenteao demonío,
jurando porém viver e morrer f&a da lgreja, sem
seussoccorros,sem seussacramentos.
Pertencemainda a esta categoúaos orgulho-
sos, ou os "fortes" destemundo, com Euasrecheiq-
dqs bolsqs,que os tornam os potentadosdo seculo,
emproados,arrogantes,desprezadoresdo pobre.
Não precisammais de Deus, pensam elles; mas
Deus tambemnão precisadellestSão-theinuteis; e
por isto mesmo,como a palha seccae inutil, lan-
çal-os-áDeus ao fogo - e que fogo! o fogo do
inferno eterno,que arde para sempree que castiga
a alma! Julgam-seos mais felízesdo mundo; mas
serãomiseraveispela eternidade,porque lhes faltará
alli esseDeus que desptezaramnestavida. E verão
então o que é prescindir de Deus.
2,") Em 2," lugar gêm os peccadores ímpeni-
2.oOs impenitentes 203
tentes,os que vivem habitualmenteno-peccado,sem
proposito de sair delle, vilmente aferradosâs ctea-
turas, sem cuidadodos interesses da sua alma. Não
só os primeiros,os impios, que odeiama Deus,estão
no caminho do inferno; mas tambem estes,os pec-
cadoresimpenitentes,a reipeito dos quaesS. Paulo
proclamou em nome de Deus: "Não vos enga-
neis: nem os impios, nem os idolatras, nem os
adulteros, nem os ladrões,nem os avarentos,nem
os ebriospossuirão o reino do céo" (1 Cor., 6,9).
-- NumeÍosossendoos peccados, só é possivelcha-
mar a attençãopara algunsmaiores,que particular-
mente predispõeïnpara o inferno.
São os peccadosgraúesque secommettem,por
exemplo, contru a justíça, seja por fraude, seja por
calumnía, etc,, peccadosque não serão perdoados
si os seusautoresnão tiverem a vontade firme de
Íeparar o damno feito, ao menos na medida do
possivel. Aliás, succedeás vezesserem tantos os
damnos causados,que os seusautoresse resignam
a ir parc o inferno antesque a reparal-os.Ã per-
díção torna-se-lheassimcomo que uma fatalidade!
Estão ainda no caminho do inferno os que
pé,ccamgrauementecontra a caridade, especíalmen-
te entregando-seao odio ínfernatr,que os leva a de-
sejar mal, día e noite, aos seus inimigos, a perse-
204 Quemtrilha o caminhodo inf.
guil-os sem tregua, ao menos pelos negÍos senti-
mentos do seu infeliz coração.Pessôasdistinctas e
bôas câemâs vezesnesseabysmo de ínimízade,jul-
gando que poÍ terem soffrido grandemal dos seus
inimigos, possam ao menos desejar,lhemal inte-
riormente. Conlcusão errada.Podem desapprovar
sempretodo o mal que thes foi feito, exigir rcpata-
ção, chamar até aos tribunaesos seusmalfeitores,
mas não por sentimentosde odio e de vingança,
sinão apenasde justiça; e por ísto mesmo nunca
lhes devem desejar mal. Deus reservoup'ra si o
direito de vingança.Persistindo'senesses sentimen-
tos de odio até á morte, ellesvirão a lançarno in-
ferno aquellesque os alimentam. Esseodio como
que se voltarâ contra elles,e os perseguirápela etev
nidade. "Com fulano não quero ir nem para o
céo!" ouve-sedízer levianamente;pois bem: si
o vossoinimigo alimentar os mesmossentimentos,
tel-o-eis comvoscono inferno, paru mútuamente
vos torturardespor todo o sempre!
Outros peccadosfataessão os da luxuria, r:uí-
nosospara seusautoÍese pal.aos que ellesarrastam
na sua seducção.Os escravosdesse vicio de tal
forma se enredam nelle pela rcpetiçãodo peccado
interior e exterior, que difficil e bem difficil se
lhes torna se desvencilharemdas suas malhas. O
,vç

2.oOs impenitentes 205


'do
habitb prazer carnal expõe a alma a cair facil-
mente no inferno. Si a morte não colhe de repente
os libertinos, até os seusultimos momentoso de-
monio, que não se dá por vencido,continúa a ace-
nar-lhescom os deleitessensuaes. O perigo persiste
pois grande até á morte. O simplesconsentimento
interior nas más suggestões do demonio,justamen-
te quando o espirito enfraquecidomais accessivel
se torna ás mesmas,implica o castigoeterno, si a
morte sobrevémnesseestado.
De par com os peccadoscontra a castidade,
anda a moda indecente,que lhes é cumplice.E re-
ferimo-nosaqui a todos os abusosda indumentaria
feminína, eü0 são por si, ou procuram íntencional-
mente,ser,verdadeiras provocaçõesdasdesordens da
carne.Nestesentido,estáclaro que não póde deixar
de ser aqui incluida essainfanda nadez das praias.
Essa falta de pudor brada aos céos,e canalízacet-
tamente para o inferno uma grande corrente de
-daquellas
almas, até mesmo que pretendem achar
tudo isso muito innocentee natural. Na mulher,
nada póde desagradar.mais a Deus do que a falta
de recato, a provocação,a impudicicia. Mas é, o
mundo que assimdicta, que assimquer: estábem,
mas quem é do mundo náo ê de Deus.
Essespeccadose outÍos mais, emquanto não
206 3.oOs que abusamda religião
fôrem renegadospor um arrependimento sincero
e opportuno, por uma penitencia verdadeira,ao
menos por uma contríção perfeita, arrastarão ao
inferno os seusautores.
3.") Vêm em 3.o lugar,,na ordem dos can-
didatos certosoo inferno, os que, meEmopratícando
a religião, abusam dello, São os que, juntamente
com a relígião, praticam peccadosgraves,conser-
vando-seimpenitentes,Neste caso, está bem claro
que a religião não adianta. Os christãosque assím
vivem, são galhosseccosna videira de Jesús-chris-
to, na arvore da Igreja. São hypocritasl O seu co-
ração está longe de Deus; e si nelle guardam esses
taesos seuspeccados,a sua oração fíca até profa-
nada,e, no dízet da SagradaEscriptura (ps. l0g,
7), quasise torna um peccado:.E a sua oraçãose
torna peccado- uma abominação pìuTrLteo Se_
nhor". Ã vida, os sentimentosde coraçãodesses
taesconstitúeú um desmentídoformal a todos os
protestosde amor a Deus que formúlam na oração.
claro está que isto só díz rcspeítoaos p...adà.es
impenítentes.O proprio Nosso Senhor,aliás, esta-
beleceua differença (Lucas, l g, 14) da oração
do peccadorimpenitenteda do peccadorarrependi-
do ou humilhado: taes as figuras do phariseu e
do publicano que subiram ao templo paÍa orar.
4.oOs in,fieisaos deveresestado 207
Ãquelles que, praticando a religião, e atê mesmo
frequentando os sacramentos,persistemnas suas
faltas graves,toÍnam-se peóresdo que si os não
recebessem.De feito, melhor é nâo se confessardo
que se confessarmal; mil vezesmelhor não re-
cebera sagradaCommunhão, do que recebel-a in-
dignamente.Sem receberem, na confíssão,o perdão
de Deus, antes onerando,sede mais uma culpa
gravissima,como Judas elles comem e bebem a
propria condemnação, segundodeclarouN. Senhor,
quando comem e bebem na sagradaCommunhão
o corpo do Senhor indignamente.pretendem es-
sestaesenganaro mundo, e talvez tambema Deus,
mas só a si proprios enganam!
4.o Vem fínalmente s üez dos que se candi-
datam mui prouaoelmenteao ínferno pela ínfide-
lídqde grsue qos deueresdo proprío estado, '
a) São primeiramenreos casadosinfiéís aos
deveresdo matrimonio, ou por infidelidadeao ou-
tro conjuge, ou pela restricçãocriminosa da na-
talidade.São duas condiçõespositivas do casamen-
to chrístão: a fidelidade reciprocados conjuges,
e a acceítaçãoíntegral da próle que, sem violação
das leis naturaes,dessaunião naturalmenteresul-
tar. Os christãosou não christãos qae fazem "ta-
208 Quem trilha o caminho do inf.
bula tasa" dessesdois principios, collocam-sees-
pontaneamente no caminho do inferno.
Ha ainda a consideÍar,nesseterreno, a infi-
delidade dos paes que não cumprem seus deveres
para com os filhos, deixando de educal-oschristã-
mente, parlaserembons filhos do verdadeiroPae
que é Deus. São os paeslevianosou desnaturados,
que deixam os filhos frequentaremos lugarespe-
rigosos,expondo-osao vicio; ou que não os cor-
rigem; ou que não se importam com que os filhos
rezem, assistam â missa e cumpram os seus de-
mais deveresrelígiosos,inclusive a frequenciados
sacramentos, tão necessariaá preservaçãodelles;ou
que não têm escrupulo de confial-os a collegios
hereticosou agnosticos,onde correm risco immi-
nentede perdera fé ou a virtude. Essespaestrilham
o caminho do inferno, porque não encaminhamos
filhos para Deus, para o Deus que lhes deu esses
filhos, e não raro se perdemjuntamente com elles.
Como se vê, a estradado inferno é. ampla, e
muitos são os,que a trilham, pensadaou impensa-
damente.Por isso mesmo, câemelles no abysmo
eterno tão numerososcomo, no outomno, sacudi-
das pelo vento, câemas folhas das arvores.. .
"Muitos são chamados,disseNosso Senhor,porém
poucosos escolhidos"(Math., 29, 16); e si tan-
4.o Os infieis aos deveres estado 209

tos são assim os que andam na trilha do inferno,


qLíe se díró do podre, do sacerdote, que tem par
míssão sqloar eE almas? Ìr.'qo corre elle proprio
graúe perígo de perder-se deixando-se perderem as
suos ouelhasl
b) Vêm em seguida os sacerdotes que não
cumprem os deueres do seu estsdo. Os sacerdotes
são os operarios da vinha do SenhoÍ, os adminis-
tradores da palavra de Deus e dos seus santos Sa-
cramentos. São substitutos e ministros de Christo
na sublime míssão da salvação das almas; nessees-
'empregar
copo devem todos os seus esforços e
tempo, como os operarios no serviço do seu amo.
Ë
a Vivendo do povo, têm que se sacrificar pelo bem
espiritual dessemesmo povo.
b Infiéís sos seus compromissos são, pois, os
È
sacerdotesque não emprcgam seu tempo no pro-
prio officio, que não dão instrucção sufficiente aos
fiéis que lhes são confiados; que não se conservam
á disposição destespara ministrar-lhes os sacamen-
tos; que, em vez de procutar e atúahir almas para
Jesús Christo, só a si mesmos procuram, as suas
commodidades, as suas vantagens, pecuniarias ou
outras; que invertem assim a ordem das coisas, fa-
zendo do accessorioo principal, f.azendo passar o
h.
interesse material â frcnte das suas sagradas func-
R
tF-
R:

K
ltÈ,
210 Quemtrilha o caminhodo inf.

ções;que exaggeramos proprios direitos e exigen-


cias, com immenso prejuizo das almas, tornando
assima religiãoapparentemente odiosa;finalmente,
gu€, sendo simples administradoresda vinha do
Senhor, se consideramdonos della, explorando-a
e estragando-a;os sacerdotesçlue, em yez de at-
trahirem o povo, o molestame afastamcom a sua
falta de mansidãoe de doçura,com os seusmodos
arrogantes,com a sua indifferençae fÁeza,etc.
A' vista de tamanhas responsabilidades, lo-
gicamentese afigura bem mais difficil aos sacerdo-
tes se salvarerndo que aos simplesfiéis. Pareceaté
que para elles só existe esta alternativa: ou ga-
nharem um lugar bem alto no céo, ou cairem nas
profundas do inferno. Para elles se salvarem, a
condição é procuraram com todo afinco salvar o
mór numero d'almas!
$
Por isso mesmodeve-seter grande compaixão
delles, tezat muito por elles, paÍa que se affirmem
digaos ministros de Christo; deve-se-lhesfacilitar
o arduo ministerio, e não difficultal-o; deve-seaju-
dal-os fraternalrn€nte,como írmãos em Nosso Se-
nhor, da mesma familia, cuja sorte corr€ conjun-
tamente.

\,\
XII - Conclusão.

SÏIMMARIO:
Os verdadeiros motivos intlmos da descrença 1p. 211).
Reduzem-se á má vontade (p. 212 ). A nossa gran-
de obrigação: bôa vontade! (p.219). Utilidade
do pensamento do inferno (p. 222). Para que e
para quem serve este opusculo (p, 226). Suppli-
-ca
a Deus (p. 229).

Ao percorrer este opusculo, um pensamento


apodera-se do leitor: tantas e tão convincentes
sendo as provas que militam em favor da exis-
t tencia do inferno, porque então ha tantas pessôas
!.t que duvidam desta verdade fundamental ?
Como é possioel que ainda hajo tanÍcs pes-
sóas que uíuem como si não houtsesseinferno?
QuaI o motiuo da dísrepancía entre a rccta razão
e a uida quotidianal Antes de encerrarmos este tra-
balho, é preciso esclareceresta quest'ao e darmos-
Ihe a verdadeira proveito de todos, re-
Ãesposta,em
sultando della a conclusão final.
Desde o inicio salientámos a pretensão de
t
212 Má vontade ü
í
i
tantos homens que, negando a existencia do infer-
no, julgam estar de accordo com a sâ nzáo. Desde
o começo tivemos de protestar contra semelhante
filaucia. No decorrer da explanação alludimos mui-
tas vezes á propria ruzão da descrençano inferno.
Adduzindo provas tão evidentes em favor da nossa
thése, provámos conjuntamente que cósolutsmen-
te não é o bom uso dq logica que leua a descrêrdo
inferno, porém, muito antes, o qbuso da logìca, e,
msis aíndq, a md uontqde. Esta verdade resalta
nitida através da nossa exposição. Agora, antes de
terminarmos, resta-nos apontar essa causa directa-
mente, e assignal-acomo o verdadeiro motivo pelo
qual tantas almas, sem bem o pensarem, cáem no
inferno
é tanto uma questão de íntelligencia quanto uma
questão de uontade, e de mó uontade.
Não ha duvida que a descrençaa respeito do
inferno é tambem questão de intelligencia, isto é,
negativamente, pelo não uso e desaproveitamento
da luz natural da razáo, €ffi míra a aprofundar a I

.t
realidade; numa palavra, é porque não reflectem
.l'l
bem, como declan a Sagrada Escriptura (Jer., L2,
!

1 I ) . (Jma primeira causa da descrençae concausa


com q mó uontsde é, pofianto, a írreflexão, a não I
r
consideração das coiscs, das rcalídades, das nosscs I


t.
t

\
Má vontade 213

tão sériasobrigações.Ã irceflexão facílmenteé um


defeito natural, uma preguíça, uma \eoíandadede
espírito, uma negligencía,perfeítamenteao alcance
da nossauontade,'\índa mais dependentes da oon-
tade são os outras cquEasda descrençano inferno,
como sejam: a despreoccupação do futuro, a apq-
thia relatiuamentea tudo quq,nto nõo é em pro-
ueito da uida mqterisl, uísíuel e sentímental; a ín-
sinceridadecomsigo meEmo; o medo e a couardía
de encqrar só por alguns minutos essc tremenda
realidade do ínferno como castígo do pouco coso
que se f az de Deuse dos detteresque elle nos ímpõe:
q couardiq em confessaras proprias ínconsequen-
cíasdas cofsase conf essor:" Si continúo assím.,con-
demno-mea mím mesmo: o inferno paru mim será
certo! Não deoo, poís,contínuar assím".E a pte-
guíça e a couardía em reagir cóntru as faltas, em
b. sacudír a ínercía e a indolencía espírítual, em cot-
rígír tantas íncoherencíqs,em rcsoluer-Ee,uencet-Ee
e trabalhar sériamentepela propria soluação.Sôo
esresos uerdadeirosmotiuos ínteriores da descrença
no ínferno. Em todos elles oerifica-seuma enorme
falta de conscíenciosidade, e portanto uma grande
culpalidade.
E, note-sebem: essesque tanto Íaltam â sâ
nz-ao são os que mais alarde f.azemem proclamat
214 Má vontade

que a seguem,e qúe o inferno contÍaria essaftzão.


Contradizem-sea si propríos e contradizem a sã
razão! E assim será todas as vezes que recrimi-
narem a Deus ou a religião! Quanto mais'alarde
fizercm da sua tazão, vontade e coração contra
Deus e contra a teligião, tanto mais, necessariamen-
te, hão de serconfundidose condemnados por tudo
isso, E' fatal: experimental-o-ãotoda vez que ou-
sarem apresentarcontra-provase procurar destruir
as verdadesdivinamente estabelecidas. Quebrarão a
cabeçaantes de conseguiremprovar o impossivel!
A respeitoda existenciado inferno, podemos
Iançar-lheo caft.ëlde ilesafioe calmamenteesperal-
os! - Está verificado que não se acha resquicio
algum de razãoem tudo quanto os adversariosalle-
gam tão insensatamente contra a veracidadedesse
dogma. E com a completajustificaçãodo inferno,
fica Deus plenamentejustificado.
No fundo, q mó uontade é a uerdqdeiracousa
pela qual muitos não admíttem, ou não querem
admíttir, a existenciado inferno. Mas a md uon-
tade estd em flagronte contradição com a sã razão.
Elles não a sdmittem por causada fraquezaou pe?
uersídadeda sua úontade, da corrupção do Eeuco-
rução, Ahi estd,o segredoda descrença a respeítodo
Mâ vontade 215

inferno;'d'ohí deoe tírar-se d solução do mgsteríoso


e grande problema da eterna condemnação,
E, sondando mais além, podemos indagar da
orígem dessa peroersídode. Onde nasce, e cemo se
forma? No fundo de cada um e aos poucos! E'
obra de cada pessôa, explicauel peía influencíq
fqtal das paixões, dos peccadose uícios sobre a üon-
tade, e, em seguida, sobre a íntellígencia, peruefien-
do-as ambas, e pondo especialmente sobre a in-
telligencia um vidro opaco. Ã descrençavem então
a ser o resultado de infidelidades e iniquidades re-
petidas. Ã criança innocente gosta naturalmente
de tudo o que a religião lhe propõe; sente em tudo
conformidade com a sua naturcza não estragada;
ê a verifícação de Tertuliano, quando dízia: .,Ã
alma humana é naturalmente christã". E vem ainda
aqui a proposito a recommendaçãode J. J. Rous-
seau a seu filho a respeito da existencia do proprio
Deus, applicavel por analogia á especie : " Meu f ilho,
guarda tua alma em estqdo de sempre desejaresque
haja um Deus, e nunca. duuidqrósf ". - E tambem
Seneca jâ lhes havia patenteado a consciencia er-
ronea, a descrença affectada, dizendo: "Ãquelles
qae dízem não sentir que ha Deus, mentemi pois,
embóra o affirmem, succedeque á noite, quando
sózinhos, duvidam dessasua asserç/s", - E final-
116 Mâ vontade

inente occorre o que denunciavaOvidio: "Video


meliora proboque,deteríorasequor", vejo e provo
o que é melhor, mas sigo o que é peor.
Muitas vezes,os interessados na não existencia
do inferno não podem deixar de enxergaro valor
das provas em favor da mesma;mas não a querem
reconhecernem professar,porque não querem in-
commodar-secom ella: realmente,teriam que Ínu-
dar de vida, e isto decididamentenão lhes convém!
- O peccadopeor é resistir â verdadeconhecída.
E' o signal mais evidenteda reprovaçãopresente
e futura !
Quem não se dírígir na sua uída pelasrealida-
des exístentes,quem não fízer casodellas, é ínsen-
sato! Quem andar á borda de um abysmosem to-
mar cuidado,caírâfatalmentenelle! O grandeabys-
mo que temos a evitar é o infergro.Elle é uma rcali-
dade, e entre todas as realidadesa mais terrivel,
uma realídadetremenda, eüe nos causa arrepios
por pouco que a comprehendamos. Com fogo não
Ee brinca! Foi um homem certa vez tentado por
uma forte tentação contra a pvteza. Lembrou-se
do inferno para vencel-a. Persistindo, porém, e
augmentandoa tentação,decidido pÍocutou o fo-
gão. Estendeua mão e poz alguns dedosno fogo,
dizendo
Má vontade 217

cuÍando com toda energiasupportaÍ a dôr das


queimaduras,accrescentou: - "Ah! si não posso
siquer conservaros dedosnestefogo e supportal-o
alguns minutos, como poderia supportar o fogo
eterno?" Com esta experiencïa,passou-lheo gosto
do prazer carnal,
O que seria pa:.adesejara todos aquellesque
negama existenciado inferno, ou que não querem
incommodar-secom elle, é que lhes fôsse dado
padecera millesima pa(te do que terão de soffrer
numa só hora no inferno. Como então gritaríam
desesperadamente no augeda dôr, dôr que de certo
se lhes afigararïainsupportavelpor um só minuto!
Ficariamcuradospara sempreda sua incredulidade;
e tomariam então as mais seriasprovidencias,sa-
crificando tudo para se garantiremuma eternidade
f eliz.
Seriasalutar,semduvida,masDeusassimnão
quer. Como jâ explícâmos, Elle nos guia dignamen-
te, nâo pela força, mas pela sã razão, ennobrecida
pela fê; quer que sejamosbons filhos, e não es-
cravos. Não quer obrigar-nos de modo nenhum.
Quem nõo quízerseguil-oe cumprír-lheas leíscom
bôa uontade,setá,reprouado!
Não d,euemosdesconhecer, menosptezare de-
sattendet a üoz da conscíencíq!E' uma voz quasi
218 Má vontade

imperceptivel, um sussuro interior, uma \az que


não arde por emquanto, mas que se impõe im-
periosamente, e que temos de seguir com prompti-
dão. Conhecemos as obrigações. Não temos que
exigir mais outros signaes. Si Jesús, o mestre do
mundo, de repente rcapparecesse, certo não proferi-
ria nenhuma palavra mais, nem faría.oovos rïÌi-
lagres parc nos dar melhor garantial ,\s garan-
tias, temol-as, sufficientes para agir ruzoavelmen-
te. Quem até aquï menosprezou essa voz tão de-
lícada da consciencia, não o faça mais d'ora em
diante ! Deuemos comprehender o que Deus queÍ,
e aprender com Elle a avaliar as coisas. Deus
atftibúe maior importancia aos actos humanos
do que nós geralmente o fazemos, por não te-
flectirmos. E' de summa importancia notar isto!
Devemos considerar as nossasobrigaçõescomo Deus
as considera, corÌÌ todas as suas consequencias,e
conformqr-noE ós suas uístq,s,Ãcceitar, por exem-
plo, eÍn pensamento am prazet carnal, üÍr senti-
rrÌento de odio contra o proxímo, parece insigni-
fícante; entretanto, si morrermos logo em seguida
sem arrependimento, será o sufficient e parc cak_
mos no inferno. Faltar á missa aos domingos é
tão facíl, posto que já o não seja tanto deixar-se
de attender a um amig-o que convíde parc um ne-
Bôa vontade 2L9

gocio urgente, ou mesmo pa:.a um divertimento'


Parecetambem uma coisa insignificante,e todavia
comporta consequencias gravissimasl
Não se diga insensatamente: "Pequei,e que
mal aconteceu?"(Eccli., 5, 4). - Ainda que o
castigo de Deus não sobrevenhaimmediata e ins-
tanüaneamerlte,cômo um raio, não deixatâ 'de
sobrevira seutempo. Àdiar não é esquecer ou per-
doar. Por emquantoDeus deixao peccadorÍazer o
que quizer, sem se incommodar. Breve, porém, o
dono voltarâ, para exigir conta rigorosissimade
tudo. Seráentão o tempo dos " aï!" para todos os
que a seu tempo não quízeram ouvir. Mas será
tatde, e tatde para sempre.
Portanto, si qtrizermosgarantir os nossosin-
teresseseternos,não sejamoslevianos,irreflectidos,
illogicos, incoherentes! Tenhamos sempre para
com Deuse para com s nossctsaluaçãotoda bôa
uontqde! E' de primeira necessidade, porque é de
summa consequencia ! Por effeito da bôa vontade,
a sentençadecisiva,de vida ou de morte, de eterna
felicidadeou de eternadesgraça, ser-nos-áfavoravel!
Bôa uontade, eís a palartra matauílhosaque
une o céo d terra, a palawa que refulgiu pela pri-
meira vez em sua verdadeira luz nos campos de
Belém, quando ttazida â terra pelo canto dos an-
220 Bôa vontade
jos, annunciandoa vinda do Messias,o nascimento
do menino Jgsús.Proclamando o poder maravi-
Ihoso da palavn "Bôa vontade", juntaram-lhe os
anjos outra palavra encantadora "Paz!" -,
dizendo: "Paz aoshomensde bôa uontade!" tlssím
cantaram elles, alternando com ô uoto "GIoúa a
Deus nas alturas!", fazendoassímsentir que o Me-
nino Jesúsuiéraao mundo paru promooer a gloría
de Deus pela bôa uontade dos homenE,recompen-
sando esEepouco, essasimplesbôa uontade, com
o gloria e felícidade do céo,
Dorsúonte, paz em Jesúspara quem a queíra!
- foi a bôa nova dos anjos! Pela afffumaçáode
Deus, o céo aberto e o inferno fechadopara toclos
os que tiverem bôa vontade, Era o menos, e ao
mesmo tempo o mais, que Deus podia exigir dos
homens,e exigerealmente.A criançapequena,como
o velho decrepito,póde e deve tel-a, e dal-a a Deus
seu Creadore sobeÍanoSenhor, merecedorpor to-
dos os titulos dessetributo da nossavontade lívre.
Essapalavra ê,a estrellade alegria de Belém, por
cima do presepiodo Menino Jesús,a estrella da
felicidadepresentee futura, que acompanhaos ho-
mens de bôa vontade durante a sua peregrínação
terrena.Jesúsveiu buscar na terca os homens de
bôa vontade para conduzil-osao reino do céo; os
Bôa vontade 22L

de mâ vontade ficam fóra dessereino, delle exclui-


dos para sempre,e reclusosIá onde ha chôro e
ranger de dentes. Essa palaura, pofianto, é a di-
uísa,a senhapara o céo! E símultaneemente a glo-
ria de Deus e a paz e a felícídadeeternados homens!
Bôa uontade, pois! E' a grande condiçõo da
saluação!Della ninguem é dispensado.Não nos
illudamos a respeïto,DeuemoEter real bôa uontq-
de, bôo uontadeeffícqz! Só estaé salvadora.
Bôa é a uontadeque se hqrmoniza com a rec-
to rqzão; que estâde accordocom as exigenciasda
religião.E' serlogicoe consciencioso - os mais bel-
los predicadosde um homem!
Convencidosda existenciado inferno, ponha-
mos a nossavida de accordocom esta convicção.
Quem se enganou atê hoje, não persistano seu
erro funesto. Errar é humano; mqs perseüerarno
erro é diqbolicol "Hoje que ouvistesa voz de Deus,
não queiraesendurecero vosso coração! " , disse
Deus varias vezes (Pr. 94, Hebr., 3 e 4), isto é,
não vos obstineis,não resistaesá graça. Lembrae-
vos dos futuros acontecimentos, da morte, do juizo
e do inferno, e não pequeismais (Eccli., 7, 40) .
Salvar-vos-eis;vivereis e moÍrereiscomo bons fi-
Ihos de Deus, como santos!
Oh! que beneficío íncalculaoel é o de nos
,,, O pensamento do inferno

Iembrarmosftequentementedo inferno! - "Si eu


estivesse
convicto da existenciado ínferno, seriaum
santo", affirrnou um dia certo cavalheirode des-
taque.E contínuou: "E si o sr. Bispo estivessecon-
vencido da existencíado inferno, não viveria as-
sim no palacio.. . e os padresnão . . .,, procuran-
do resolveçlhe a'objecção,replicámos-lhemais ou
menos: "Não deve o amigo exaggew o effeito
destaverdade,como si a convicçãodo inferno ti-
rasseo livre arbitrio, a vontadepropria, os vicios,
as contrariedades,a fraquezahumana e a fascinação
do mundo. Àinda que acreditasse no inferno, o
Snr. ainda não seria santo! Podia continuar no
seu Banco, e o sr. Bispo no seu palacio,e os pa-
dresa seremhomenscomo os outros. O pensamen-
to do inferno é um freio vigoroso contra todos os
peccados, e um estimulosalutar paraa santificação,
Comtudo, si o amigo quizer experimentata influ-
encíasalutar dessepensamento,compenetrando-se
profundamente dessaverdade formidanda, como
o fizerum os santos, setâ até, um santo. À' sua
disposiçãoestamos para provar-lhe cabalmentea
existenciado inferno; e quando o Snr. fôr santo,
ou ao menos quando se converter,estarâ de pal:'-
bens!"
O pensamentodo inferno fez profunda ím_
A pregação sobre o inferno 223

pressão em todos os sdnfos; estimulava-os a pta-


ticar heroicamente a virtude, e ajudou-os a chegar â
santidade. Houoe até críanços que se santif icaram
por eíle. Refere o Padre Schouppe êste facto: Em
1815, no collegio de Sto. Ãcheul, perto de Amiens,
morÍeu o joven Luiz Francisco Beauvaís. Con-
tava apenas quatorze arlnos, mas jâ estava maduro
par:ao céo, pois a sua vida tinha sido innocente e
santa. Tão solida virtude em idade tão tenra en
devida ao pensamento do inferno. Sendo ainda
muito críança, estava um dia sentado junto a sua
mãe e diante dum braseiro, disse-lhe: "Ma-
mãe, o fogo do inferno arde como este?" - "Aí,
meu filho, este fogo não é nada em comparcçáo
com o do inferns". - "Oh! e sí eu caíssenelle!",
-- replícou com horror o menino "O ínferno
disse-lhe sua mãe - é só para os peccadores.Si
evitares o peccado, nada tetâs a temet" Estas
palavras gravaram-se no coração de Luíz Francis-
co, e fôram o principio do seu horror ao peccado
e da sua vida santa.
E', pois, optimo para nos santificar e salvar
o lembrarmo-nos frequentemente do inferno, e ser-
rnos muitas veze's lembrados da sua realídade tel-
rivel ! E para lostimar que os sacerdotes préguem
tão raramente essatrcmenda uetdade, - talvez
224 Sciencia da theologia

com receio de não serem acredítados.Oxalá obser-


vassem todos melhor a recommendação do im-
mortal pontifice Pio IX a um missionarío: "Pré-
gae muitas vezes as grandes verdades da salvação.
Prégae sobretudo o inferno, Nada de moderação;
dízeí claromente e bem alto toda a oerdade acerca
do ínferno. Não ha coisa melhor para fazer reflec-
tír, e conduzir q Deus os pobres peccadotes".
Ãlludindo ao presente escripto, póde parcceÍ
que não é necessarionem conveniente tratar do in-
ferno tão a fundo e por provas de ruzão. perante
um publico religioso que acredíta piamente na exis-
tencia delle, tanto mais quanto as provas philoso-
phicas são de difficil exposição e comprehensão.
E' porém, pata notar, que as verdadesda razão
formam a base racional das da fé e que estas se
provam muitas vezes tambem pela nzão.
Ademais: Ã sciencía,e especíalmentea sciencía
das sciencias- a philosophia - é ìgualmente de
Deus, como o theología, e Ee completam mútua-
mente, Na "Summq theologica", obra prima de S.
Thomaz, a maior pafte é de pura philosophia, de
tal sorte que, separada nella a philosophia da theo-
logia, esta ultima ficaúa rcdazída a um livrinho
como a "Imitação de Jesús-Christo", quiçá á ducen-
Razõesda nossa fé

tesima patte da obra. Comtudo, essaobra monu-


mental é a Scienciada theologia, uma das princi-
paes fontes onde os nossostheologos.vão buscar
os seusthesouros.S. Thomaz consegaeconuencer-
nos soóeranamenteda racíonabilídade du nossa
santa relígião, do suo admirqrlel concordanciacom
a sã razõo. E o que hoje em día tanto falta saber!
Falta maís do que nunca a scíenciada religíão, falta
comprehendel-aa fundo, pela razão, A este Í€s-
peito, a idsde média era bem o tempo íllumínado,
emquantoo tempo moderno é o tempo escuro; sa-
be-seum pouco de tudo, mas nadaa fundo, e mui-
to menosa religião. Assim, hoje em dia é de sum-
ma utílidade e necessidade fazer comprehenders
religíão pela razão,' é optima coisa pôr em relevo
o accordoda nossadoutrina com as exigenciasda
sã razão,
Sendo a exístenciado inferno uma das ver-
dadesfundamentaesda religião, e o "inicio da sa-
bedoria", é de Eumma,utílidade conhecel-anão só
pela reuelação,mas corrtprehendel-atambem pela
razão. Ã quem não ê,bem esclarecido na religião,
o simples facto da rcvelaçãodeixa, as mais das ve-
zes, bem frio. ,\ fê fuacae a ignorancia dão mar-
gem a subterfugios,e á descrençaa respeitodo in-
ferno. Chegando-se, porém, a conheceressaverdade
*

226 Salutares avisos aos descrentes

pelas imposições da sã razão, a intellígencía não rc-


siste mqís, € o homem de alguma bôa uontade fíca
definitíLtqmente gonho á causa da religiõo. Ã pro-
pria pessôa religiosa, compenetrando-se bem dessa
verdade pelos motivos da nzão, fica mais firme e
maís fíél a Deus, vigorosamente estimulada a uma
maior perfeição e santidade. Si para o homem re_
Iigioso é tão util e ás vezes até necessariopôr na
balança das suas decisõeso formidaver peso do in-
ferno, maís necessarioé ísso aos que uíttem afqsta_
dos dq lgreja, qos gue são meio ou totarmente ir-
religiosos e descrentes, Foi para estesque este opus_
culo foi mais especialmente escripto. Foi es*ipto
tambem para as pessôasreligiosas que quizerem ve-
rificar ainda melhor a questão e convencer_se
pro-
funda e definitivamenre dessagrande, dessateriiver
verdade, nem sempre explicada satisfactoriamente
nas igrejas.
Ãssim, hq de ser este opusculo um precioso
auxilíor do sqcerdote,vm manual de instrução, tra-
tando o fundo a grande questão. A, falta de outro
llvro que assim considere a existencia do inferno
sob o ponto de vista da sua harmonia com a razão,
preenche este uma verdadeira lacuna.
Será elle assim um optimo propagandista da
vetdade, ganhando almas para Deus. A verdade im-
il

Aos amigosdos transviados 227

pôr-se-á por si mesma! Às rczães irrespondiveis


que elle invoca,encontrarãocertamenteforte êcona
consciencía,náo a deixando em paz atê,que se re-
solva por Deus, entregando-se-lhe definitivamen-
t€, ou então merecero inferno eterno, o que de
certo ninguem quererá.l\ bôa vontade facilmente
vencee se decídea seguir a sã razâo, integrando-
se no cumprimento dos deveres.Permítta, assím,
Deus que eEteopusculo, escríptocom oE maís carí-
dososíntuítos, consíga abrír os olhos a muítos
transuíaãosou recalcitrantes,e reconduzil-os assím
pora Deus, Iiurando-osdo eternocastigo!
Escripto com profunda compaixão, deue este
opusculoseruir aosdeueresda carídade,A caridade
mais necessaria e mais meritoria é soccorrero pro-
ximo na maior miseria e salval-o do perigo mais
funesto.Ora, a miseriadas miseriasé a morte eter-
na; o perigo dos perigos é o da condemnaçãoao
inferno! Ora, a carrdadeobriga não só pela mi-
seria que a solicita, como tambem pela proximi-
dadeem que de nós se encontramos que nella estão
ou se acham por ella ameaçados.Quem nío teút
parentes,amigos,conhecidos que trilham o caminho
do inferno? Quiçá serãoos proprios paes,serãoos
irmãos! Pois bem: sería faltq de carídade,dureza
de coraçã,o,crueldadeo não se íncommodar com
!F

228 Os que esperaaos incredulos

a eterna sorte daquellesque lhe são caros, deíxan-


do-os resoalarsocegadospara o abgsmo infernal
sem tentar saloal-os.Si elles alli vierem a caír,
amaldiçoarãoos seuscaros que nada tenham feito
para evítar-lhesessatremenda desgraça.Por isto,
terâ este livrinho a sua utilidade, permittindo ás
almas caridosaso conúencerempelos argumentos
ímperíososda razão os que não queremsabernem
ouuír falqr de relígíão, despertando-lhes a consci-
enciada sua lethargia,do seusomno de morte. Des-
perte-se-lhes, pois, caridosamentea curiosidadepor
este opusculo. Si elles não se renderemaos argu-
mentos da logica mais segura,aos imperativosda
sua sã razão, tão pouco se renderiamá verdadesi
um reprobo viéssedo inferno a advefttl-os. Nem
Deus os salvará!
Que desdejá se representemos increduloso
que lhes ha de acontecerinfallivelmente.Malgrado
as suaspretensasimpossibilidades,, apesardos seus
argumentoscapciosos,de ordem logica ou senti-
mental, no grande día do J:uizo Final vêr-se-ão
certamentecollocadosá esquerdado Filho de Deus,
como reprobos,verificando então como pura rcali-
dade.,posto que absolutamente f6ra de tempo, ir-
remediavelmente, quanto lhe foi declaradocomo
verdade pela religião e pela propria consciencia.
""\t1 _-T
I
,i I

ConfiaÍrça!

Vêr-se-ão na eterna desgraça,relegados para sem-


pre ao convivio dos demonios, rejeitados por Deus.
Experimentando então como a si proprios se enga-
narom durante q uída. Sob o peso de opprobrios e
remorsos incomportaveis, chamarão sobre si as col-
linas e os montes para os cobrirem e subtrahil-os
á vista dos bons, dos bemaventurados. Apenas pro-
ferida a ultima palavra da sentença aterradorra:
"ftetírae-uos de tnim, para o fogo eterno!", serão
irrernediavelmente precipitados no eterno abysmo.
Consequencía fatal da mó uontode, da obstinação
oté o fim! ïulgsterio da maldade humana!
Afastemos o olhar dum espectaculotão hor-
roÍoso e tríste. Lembremo-nos da infinítq bondade
de l{osso Senhor Jesús-Christo, da sus ínfinita mí-
sericordíq, que nos é offerecïda como o foi a todos
os infelizes que padecem naquelle lugar de tortu-
ras. Lembremo-nos dos scnÍos e bemqt)enturados
no céo, e reflictqmosl O que elles puderom, tambem
nós podemos! Onde elles chegaram, com a graça
de Deus, tambem nós podemos chegar.
,Está nas
nossas mãos preservarmo-nos da terivel desgraça
do inferno. E por uma real bôa oontade!
Digamos cada um comsigo: Não quero at-
trahir sobre mim a maldição de Deus, e sim a gtaça
e mísericordia de Nosso Senhor Jesús Christo. Vou,
a
J
\"*<_\

230 Coniuração

pois, resolutamente cooperar com a graça de Deus


doravante, cumprindo todos os meus deveres,todos I

os devetesque Elle me impoz. Para isto, não olha-


rei a sacrificios. Sim, meu Jesús, entrego-me ao \,
vosso amor! Sois tão bom, táo meígo, tão aman-
:'
te das almas de bôa vontade ! Fizestesimmensos sa-
crificios para me salvar, pa:.a me provar o vosso j

infinito amor e ganhar-me o coração. Eil-o, pois, i


este meu pobre coração; eu vol-o dou, vol-o entre- \
I

go para semprel Só quero é amar-vos, servir-vos,


seguir-vos até onde quizerdes! Quero viver dora-
vante bem unido a vós, ó meu bom Jesús,e trilhar
assim o caminho da eterna recompensa,do paraiso
das vosas eternas deliciasl Tenho medo do ínferno,
medo da uossq iustiça úgorosa, que leoa em conta
tudo, as grades como qs pequenqs fultas. Mas te-
nho tambem pleno confíança na uossd ínfiníta mi-
serícordia,,no auxílío da uossc graça, naE dmorosas
disposiçõesda uossc díuina Prouidencía! Quero ter
mqis desconfionça de mím, e maíot bôa uontade!
Ajudae-me com a vossa graça, previna ella as mi-
nhas quédase infidelidades! Mantenha-me no cami-
nho da verdade e da virtude. Disponha tudo em
favor da minha salvação e da vossa gloria ! Confío
na vossa bondade, entrego-me ás vossasdisposições,
por mais que me custem. Srm, ó meu Jesús, guar-

Lr'
Ì É i
r4
I t..ì.
conjuração final 231
:.:
dae-me EemprecomooEco,pard que no dia do grcn-
de juízo eu possaouuir dos uossos labios diuinos a
jubilosa chsmada para a uida eternu: "Vinde, bem-
ditos de meu Poe, possuí o teino que uos estd pre'
parado!" E cantarei então eternamentea vossa in-
comprehensivel bondade, a vossa misericordia sem
limites!
Oh! meu Jesús, não sejaes pata mim Juiz'
mas Salvador!
L Ofrt meu Jesús, sêde Para mim Jesús!
i Dôce Coração de Maria!
Sêde a minha salvação!
S. José, Padroeiro da bôa morte,
rogae Por mim I
Àme n !

o. À. M. D. G.

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