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Revista Tecnologia & Inovação Agropecuária Dezembro de 2008

AGROECOLOGIA: NOVOS CAMINHOS PARA


A AGRICULTURA FAMILIAR

Maristela Simões do Carmo1


1
Engª Agrª, Doutora, Profa Adjunta da Faculdade de Ciências Agronômicas, UNESP-Botucatu, Profa Colaboradora do Programa
de Pós-Graduação da Faculdade de Engenharia Agrícola da UNICAMP-Campinas, Caixa postal 237, CEP 18603-970, Botucatu,
SP, stella@fca.unesp.br; stella@agr.unicamp.br

RESUMO
O artigo trata da agroecologia e seus aspectos potenciais para transformar a realidade rural
contemporânea brasileira, tomando os agricultores familiares como os atores por excelência desse
processo. Pelas características da exploração familiar, os princípios agroecológicos encontram terreno
fértil para uma transição a agriculturas de bases ecológicas e o desenvolvimento rural sustentável. Do
“camponês” ao agricultor familiar moderno interpõe-se uma gama de agentes produtivos, apoiados nos
sentimentos de localidade e pertencimento, que se traduzem na coevolução homem e natureza, alicerce
de um conhecimento adquirido ao longo de gerações. Esse saber, fruto da convivência com a diversidade
biológica e sociocultural dos agroecossistemas, tornam os agricultores fontes extraordinárias de cognição
para a geração de CT&I endógenas e localizadas. O território é um conceito chave para participação e a
ação social coletiva. Na atualidade, os agricultores familiares respondem por parcela significativa do
agronegócio nacional e do emprego no campo. A agroecologia apresenta-se com potencial de força
transformadora da realidade rural contemporânea, em especial como bandeira de luta política de
movimentos sociais e de segmentos da sociedade comprometidos com um desenvolvimento equânime e
sustentado.

Palavras-chave: desenvolvimento rural sustentável, agriculturas ecológicas, participação social,


ação social coletiva.

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“A posição do pequeno proprietário rural tem grandes preferem uma mescla entre técnicas modernas, que,
atrativos. Ele livre para fazer o que quiser, não é perturbado evidentemente não incluem os transgênicos, e uma
com a interferência de um dono de terra, nem com o receio de recuperação do conhecimento das populações
que outro colha os frutos da sua labuta e de seu sacrifício. O tradicionais locais.
seu sentimento de propriedade dá-lhe respeito próprio e Embora a sustentabilidade1, de forma genérica,
estabilidade de caráter, e torna-o previdente e moderado em seja altamente desejável por toda a sociedade, ela ainda
seus hábitos. Quase nunca está ocioso, e raramente considera se apresenta como um ideário, uma vez que não há uma
o seu trabalho enfadonho. Faz tudo pela terra que tanto ama” pressão social suficiente para que se consiga ultrapassar
(Marshall, 1982: 251). o paradigma anterior da revolução verde.

INTRODUÇÃO DO “FIM DA FOME” AO AUMENTO


O modelo de industrialização adotado pelo País DA DESIGUALDADE
trouxe como preocupação principal o crescimento da
produção e da produtividade da economia, sem se Quando os teóricos do desenvolvimento rural,
preocupar com as consequências indesejáveis que tal em meados do século passado, preconizaram o fim da
modelo pudesse acarretar do ponto de vista do fome a partir da transformação da agricultura
desenvolvimento sustentável da sociedade como um tradicional em uma agricultura moderna, idealizaram
todo. tornar disponíveis novos “fatores de produção” que
A forma modernizada de produzir também se tivessem a capacidade de elevar a produtividade dos
estendeu à agricultura, que teve mudanças na base fatores conhecidos como tradicionais, terra e trabalho
técnica, acopladas às outras transformações em que, (Schultz, 1964).
aquele “setor”, autônomo produtor de bens agrícolas, A revolução verde, como ficou conhecida,
se metamorfoseasse em elo de ações conjuntas com as introduziu os novos fatores2 de forma generalizada e
indústrias a sua jusante e a sua montante, uniforme, embora, de início se admitisse que a base da
conformando-se em cadeias produtivas, hoje tecnologia preconizada deveria se desenvolver em cada
formadoras do agronegócio nacional. Atualmente a país de acordo com a “constelação de fatores” lá
agricultura é parte de um intrincado sistema produtivo, existentes. De tal forma que fosse possível substituir os
em que as desigualdades sociais e regionais se fazem fatores relativamente escassos, e por isso mais caros,
presentes. por aqueles relativamente abundantes, e, portanto,
Muito se tem falado ultimamente em mais baratos, via potencial de aumento da
desenvolvimento sustentado como a salvação de todos produtividade. Apesar de essa ter sido a idéia inicial, de
os males que surgiram com a evolução da tecnologia. E, fato não ocorreu.
continuadamente, o primado da técnica sobre as A tecnologia idealizada para transformar a
relações sociais se renova por meio de soluções para agricultura tradicional acabou se generalizando sem
esses males, revigorados pela crise socioambiental e, levar em consideração as características básicas das
mais recentemente, pela crise econômica mundial. diferentes regiões do planeta, inviabilizando a
Dentro desse novo recorte, a tecnologia vinda com o superação das restrições do crescimento da produção
invólucro da sustentabilidade, aparece como a grande colocadas pela dotação dos recursos produtivos de cada
redentora dos malefícios, até agora necessários, da país ou região.
Esse fato consumou-se, tanto no que se refere às
modernização da agricultura.
características físicas, ambientais e biológicas, quanto
No entanto, a transição a essa sustentabilidade
ainda não definiu claramente quais os rumos do salto
tecnológico que estão por vir. Ou seja, melhora a relação
agricultura e meio ambiente, por meio de tecnologias
consideradas menos agressivas, mas não se promove
1
uma sustentabilidade social. Ademais, o leque de Neste artigo admitimos sustentabilidade na agricultura como um ideal almejado pelas
sociedades pós-modernas em face de uma reestruturação que sujeita todo o sistema global
tecnologias consideradas “sustentáveis” vai da agroalimentar. Trata-se de ir além da questão tecnológica e seus impactos ambientais,
admitindo-se que um desenvolvimento sustentável implica, obrigatoriamente, em
engenharia genética às práticas primitivas de estabilidade econômica, social, cultural, ética e política.
2
comunidades indígenas. Os mais conservadores Entre eles os fertilizantes químicos de alta solubilidade, agrotóxicos, tratores e máquinas
agrícolas, sementes geneticamente melhoradas, hormônios de crescimento, vacinas e
privilegiam a biotecnologia, enquanto os progressistas produtos veterinários, etc.

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àquelas do campo das relações culturais, sociais e Nessa seminal pesquisa, o autor nos privilegia com
econômicas, disseminando pelo mundo uma tecnologia a compreensão da cultura caipira e sua transformação
apoiada nas condições dos países ricos de clima perante os avanços da economia capitalista. Observa que
temperado. as relações entre os meios materiais de vida dos
No Brasil, a apropriação da revolução verde se personagens pesquisados e as sociabilidades possíveis,
efetivou por meio das duas vertentes mais fortes do levam à sobrevivência dessas pessoas no equilíbrio entre
“pacote tecnológico”, as inovações de natureza as necessidades do grupo e os recursos que dispõe para
biológica elevando a produtividade da terra, e as satisfazê-las, tendo a precariedade como pano de fundo.
inovações mecânicas para elevação da produtividade Em cada cultura existem certos “mínimos vitais” de
do trabalho. Pouco a ver, portanto, com a nossa alimentação e guarida para as quais correspondem
“dotação de fatores” uma vez que, naquele momento, “mínimos sociais” de organização para a obtenção da
dispúnhamos de mão-de-obra no campo, e terras, sobrevivência também mínima.
embora concentradas, abundantes. O que nos faltava, No âmago das alterações do modo de vida
na realidade, era capital e o desenvolvimento de caipira estão as mudanças advindas da industrialização
pesquisas adaptadas para instalarmos a modernização da economia no contexto da expansão dos processos
adequada ao mercado interno de trabalho existente. capitalistas de produção que atingem também o campo.
No interior desse quadro tivemos, então, graças à Os impactos nas culturas tradicionais, como a do caipira
abordagem reducionista das nossas diferenças paulista, vai obrigá-las a se ajustar e conviver com
regionais e sociais, que tratava como iguais sujeitos e situações ameaçadoras a sua estabilidade e
condições edáfoclimáticas desiguais, o agravamento permanência, apenas sobrevivendo com relativa
dos problemas ambientais, e da fome pelo aumento da autonomia para não desaparecer.
disparidade social que acarretou. Embora pressionada pelos processos
O avanço das desigualdades com a aplicação da modernizantes, as sociedades tradicionais ainda são
tecnologia modernizante, não só não acabou com a capazes de criar formas de resistências e
fome, como chega até os nossos dias sem uma solução sobrevivências, navegando contra a maré, num jogo
abrangente do ponto de vista tecnológico e do papel do entre continuidade, mudanças culturais e rupturas.
Estado, que nos oriente na direção do desenvolvimento A sociedade estudada por Cândido representa,
rural sustentável, portanto, para além do crescimento inclusive na atualidade, as constantes instabilidades
da produção e da produtividade dos “fatores de vividas por toda população pobre rural brasileira,
produção” e das iniquidades sociais. confirmando que do passado podem ser extraídas as
lições para o presente. Nessa dimensão temporal,
portanto, a partir do estudo dos parceiros do rio Bonito,
podemos perceber a própria história da formação da
PASSADO E PRESENTE DA sociedade rural brasileira.
E é desse movimento de persistência, estudado
AGRICULTURA FAMILIAR
no interior paulista, que os atuais agricultores
familiares herdaram dos seus antepassados a história
Identidade social: do camponês ao do embate entre a aculturação à modernidade e a
agricultor familiar moderno permanência de seus padrões tradicionais. Os aspectos
importantes da vida do sitiante, morador dos bairros
Desde o clássico estudo sobre a transformação do rurais das cidades interioranas, têm uma
modo de vida do caipira paulista de Antonio Cândido correspondência com um “campesinato” que, até
(Cândido, 2001) “Os Parceiros do Rio Bonito”, meados dos anos de 1960 e início dos de 1970, formava
publicado originalmente em 1964 3 , quando a grande parte da população rural.
modernização da agricultura brasileira apenas Contudo, as transformações capitalistas
engatinhava, já se percebia as mudanças que poderiam trouxeram mudanças nesse segmento, de tal forma que
ocorrer na sociedade rural dos pequenos agricultores. a agricultura familiar passou a envolver uma gama de
diferentes personagens, entre os quais o camponês, que
ao lado de agricultores com maior inserção na forma
capitalizada de produzir, conformam um espectro
diversificado de sujeitos pertencentes a uma categoria
3
O livro foi publicado com base na tese de doutoramento defendida em 1954, portanto dez
anos após o autor ter constatado a voracidade dos fenômenos transformadores da sociedade
considerada genérica, mas não a ponto de transformá-la
rural pela introdução das relações capitalistas no campo brasileiro. em um novo grupo social (Wanderley, 1996).

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Daquela precariedade enfatizada por Antonio Porém, a partir dos anos de 1990 a imagem do
Cândido, os agricultores familiares se mantêm, até os agricultor familiar começa a ser idealizada com a do
dias de hoje, adequando a relação entre propriedade, farmer americano, protótipo do pequeno agricultor
trabalho e família, o que ainda lhes conferem capitalista disposto a investir, a ousar e empreender.
particularidades culturais, econômicas e também de Germer admite haver uma hibridação entre um
sociabilidade. agricultor “mais camponês” a la Chayanov, e o moderno
A agricultura familiar nas sociedades modernas, agricultor, progressista e empreendedor.
“deve adaptar-se a um contexto socioeconômico Dessa forma, a unidade de produção familiar
próprio dessas sociedades, que a obriga a realizar apresenta um funcionamento que lhe é peculiar, posto
modificações importantes em sua forma de produzir e que, é a composição familiar que vai determinar os
em sua vida social tradicional” (Wanderley, 1996:2). O limites do volume total das atividades, numa
que não significa o desaparecimento do campesinato, articulação conjunta do sistema de produção e do grupo
que no Brasil, adquire, segundo a autora, características familiar.
exclusivas resultantes do enfrentamento histórico- Os agricultores familiares estabelecem, assim, o
cultural-social a que esses agricultores foram equilíbrio entre seus projetos e objetivos, os meios para
submetidos e às novas exigências impostas pela
atingi-los e os resultados que querem obter. A
modernização da sociedade contemporânea.
organização familiar, atuando em três direções, não
A lógica familiar de produção ainda pode ser
dissociadas - produção, consumo e acumulação de
considerada o traço característico que une esse
patrimônio - procura o balanceamento entre elas em
segmento social. Apreender sua lógica produtiva e
função da evolução do conjunto doméstico. Devemos,
reprodutiva significa relacionar o equilíbrio das
portanto, extrapolar as avaliações meramente
necessidades da família com as possibilidades da
econômicas para entender as relações entre a
unidade de produção, a terra e o trabalho, intimamente
organização interna da produção em bases familiares e
associados à gestão do negócio familiar. Portanto,
o mundo externo. É mais importante perceber que os
família e negócio estão indissoluvelmente ligados.
agricultores familiares não otimizam seus negócios
Recuperando Chayanov, 1974, a família é
como empresa, mas sim os adaptam às necessidades
considerada como um conjunto de produtores e
familiares no intuito de assegurar um nível de vida
consumidores, ou melhor, uma unidade de força-de-
estável para o conjunto da família.
trabalho e consumo. A produção, então se apresenta
Alguns estudos têm mostrado que a maior parte
como o resultado da atividade inseparável, indivisível e
das explorações familiares, em vários países, situa-se
única da família, e por isso esta recebe como resultado
do seu trabalho uma quantidade de bens que não entre os extremos empresa agrícola e exploração
podem ser considerados lucro, renda ou juro sobre o camponesa obtidos por meio de diferentes graus de
capital. Da mesma forma não há pagamento de salários inserção ao mercado (grau de autonomia ou
na unidade de exploração familiar, o que faz com que dependência da exploração em relação ao mercado) e
difira substancialmente, no seu comportamento, em diversos níveis de atuação familiar (peso da família
daquela com base no trabalho assalariado e na na lógica de funcionamento da exploração) (Lamarche,
valorização do capital4. 1993).
O Estatuto da Terra (Lei 4.504), de 1964, define Do modelo camponês ao modelo empresarial
como "Propriedade Familiar" o imóvel rural que, direta instala-se a diferenciação social desse segmento, em
e pessoalmente explorado pelo agricultor e sua família, distintos graus de relações produtivas, cuja lógica de
lhes absorva toda a força de trabalho, garantindo-lhes a produção e reprodução assenta-se no equilíbrio da
subsistência e o progresso social e econômico, com área família com o comportamento econômico
máxima fixada para cada região e tipo de exploração, e circundante.
eventualmente, trabalhado com a ajuda de terceiros. Foram múltiplas as formas sociais que adotaram
Na década de 1980 houve a prevalência da visão as famílias rurais em épocas e realidades diferentes. A
Chaynoviana para “um tipo de organização produtiva coexistência de unidades produtivas, com diferentes
dotado de uma lógica própria e por isso capaz de resistir dinâmicas internas, inibe uma explicação geral para o
à transformação capitalista” (Germer, 2002: 47). funcionamento da produção familiar.
De forma genérica, pode-se conceituá-la como
4
Marx, s.d.: 923 é enfático: “O lucro médio do capital não limita a exploração da pequena aquela em que a família, ao mesmo tempo em que é
propriedade enquanto o camponês é pequeno capitalista; tampouco a limita a necessidade de proprietária dos meios de produção, assume o trabalho
uma renda, enquanto ele é proprietário da terra”. E complementa “Não é mister portanto que
o preço de mercado atinja o valor ou o preço de produção do produto”. no estabelecimento produtivo.

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Assim, um sistema de exploração familiar é tanto Para a região Sul os dados foram, respectivamente,
uma unidade de produção quanto uma unidade social. R$241,00 e R$99,00. As principais atividades produtivas,
As decisões familiares vão além do econômico, em que visualizadas pela participação da agricultura familiar no
trabalho e parentesco estão juntos nas estratégias Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP), fornecem
reprodutivas. Há uma rede complexa de relações a contribuição do montante do VBP familiar em relação
sociais e valores coletivos que mantém o grupo familiar ao VBP total de cada produto. Os cálculos indicaram 33%
do algodão, 31% do arroz, 72% da cebola, 67% do feijão,
unido, e que define e redefine a unidade de exploração.
97% do fumo, 84% da mandioca, 49% do milho, 32% da
soja e 46% do trigo, 58% da banana, 27% da laranja e 47%
da uva, 25% do café, 10% da cana-de-açúcar, 24% da
A realidade da agricultura familiar
pecuária de corte, 52% da pecuária de leite, 58% dos
contemporânea suínos e 40% das aves e ovos7.
Mais recentemente, em julho de 2006, o governo
A importância da agricultura familiar brasileira no
federal estabeleceu as diretrizes para formulação da
presente é atestada pelos estudos, e os números daí Política Nacional da Agricultura Familiar e
derivados, amplamente divulgados por Guanziroli, 2001. Empreendimentos Familiares Rurais, em que
A quantificação dos agricultores familiares, considera, no seu artigo terceiro, “agricultor familiar e
separando-os dos produtores qualificados como empreendedor familiar rural é aquele que pratica
patronais, exigiu o estabelecimento de concepções que atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente,
permitissem operacionalizar políticas públicas, como é aos seguintes requisitos: I-não detenha, a qualquer
o caso do Programa Nacional de Fortalecimento da título, área maior do que 4 (quatro) módulos fiscais; II-
Agricultura Familiar (Pronaf), implementado pelo utilize predominantemente mão-de-obra da própria
governo federal em 1995. Para poder colocar em termos família nas atividades econômicas do seu
práticos o leque de indivíduos existente no conjunto estabelecimento ou empreendimento; III-tenha renda
familiar foi necessário construir tipologias de familiar predominantemente originada de atividades
agricultores, capazes de instrumentalizar a aplicação de econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou
políticas públicas adaptadas às necessidades peculiares empreendimento; IV-dirija seu estabelecimento ou
de cada tipo. empreendimento com sua família” (Brasil, 2006)8.
Os critérios de delimitação do universo familiar, Podemos ainda contextualizar a importância da
na pesquisa patrocinada pela FAO/Incra foram que a agricultura familiar pela comparação da participação dos
direção dos trabalhos no estabelecimento fosse exercida segmentos familiar e patronal no agronegócio nacional.
pelo produtor; a Unidade de Trabalho Familiar (UTF) Embora a expressão “agronegócio familiar” não seja a
fosse superior à Unidade de Trabalho Contratado mais apropriada para os agricultores familiares9, os
10
cálculos efetuados por Guilhoto et al, 2007 são altamente
(UTC) e a área total do estabelecimento fosse menor ou
significativos para a verificação da contribuição da
igual à área máxima regional (Guanziroli, 2001). Os agricultura familiar na geração de riquezas do País.
agricultores familiares foram então contabilizados, a A participação do agronegócio na economia
partir do Censo Agropecuário de 1995/96, como nacional, medida pelo Produto Interno Bruto (PIB)
responsáveis pela ocupação de 85,2% dos indica certa estabilidade, em torno dos 30%, no período
estabelecimentos, 30,5% da área e por empregar 76,9% 2002-2004 (Tabela 1). O peso econômico da agricultura
do pessoal na agricultura. Obtiveram 25,3% do familiar fica evidenciado tanto na sua contribuição no
financiamento agrícola, e responderam por 37,9% do PIB do agronegócio, cerca de 32%, quanto no PIB total,
valor bruto da produção6. por volta de 10%. No período analisado observamos
Outro dado revelador, em termos de Brasil, é que cerca de um terço do agronegócio nacional esteve
que, possuindo uma área média de 26 ha os agricultores na dependência da produção agropecuária familiar.
de base familiar conseguem arrecadar 7
Na região Sul os valores são ainda mais significativos. Para ficar com uns poucos exemplos:
R$104,00/ha/ano, em contraponto com os agricultores 35% pecuária de corte, 80% pecuária de leite, 69% suínos, 61% aves e ovos, 83% banana, 43%
de base patronal que, de posse de 433 ha de área média, café, 78% laranja e 81% uva.
8
Há grande semelhança com os parâmetros do PRONAF (www.mda.gov.br/saf, acessado
obtêm apenas R$44,00/ha/ano. em 10/10/2008).
9
Essa expressão não condiz com as características familiares desses agricultores, que
apresentam uma lógica de produção e reprodução diferente dos agricultores não familiares
(Chayanov, 1974). Estes não produzem para consumo e, normalmente, são produtores de
5
A Unidade de Trabalho Familiar foi definida como igual ao pessoal ocupado da família de 14 commodities dentro da melhor concepção atual de capitalismo. Colocar todos os agricultores,
anos e mais, somado ao pessoal ocupado da família de menos de 14 anos, dividido por dois; e sem distinção, no mesmo “negócio agrícola” mascara as singularidades do agricultor familiar
Unidade de Trabalho. Contratado igual aos salários somado ao valor da quota-parte entregue enquanto unidade de consumo e de produção.
10
a parceiros empregados acrescidos dos serviços de empreitada de mão-de-obra, dividido A metodologia de cálculo baseou-se na mensuração do Produto Interno Bruto (PIB),
pela diária estadual multiplicado por 260 dias. considerando um modelo de insumo-produto inter-regional estimado para as unidades da
6
Entre os produtos que são comercializados podemos citar a soja, em que a agricultura federação, e também as estimativas do Valor Bruto da Produção agrícola e pecuária. O
familiar contribui com quase 30% da produção nacional, o milho com aproximadamente 45%, detalhamento metodológico pode ser encontrado no trabalho completo disponível no site do
o fumo com 95%, os bovinos com 30% e aves, leite e suínos, com mais de 50%. Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA - www.mda.gov.br).

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Regionalmente, o aporte da agricultura familiar é com maior agressividade do capitalismo no campo,


mais variado, e reflete a estrutura fundiária das unidades apresenta o menor indicador do “agronegócio familiar”
da federação agrupadas em macrorregiões (Tabela 2). Por no PIB total da Região.
isso, como era de esperar, são os Estados do Sul os que Também o porcentual participativo das Regiões
mais captam a importância dessa participação, por nos diversos PIBs setoriais e nacional (Tabela 3), arremete
possuírem uma conformação agrária mais voltada à à assimetria do desenvolvimento regional e à distribuição
estrutura familiar. O Sudeste, especialmente São Paulo, espacial das propriedades de base familiar no País.

Tabela 1. PIB do Agronegócio Familiar e Patronal no PIB Nacional, (mil reais de 2005), e Participação Porcentual, Brasil, 2002-2004

Ano/PIBs 2002 2003 2004

PIB Total Nacional 1.795.776.452 1.805.562.622 1.894.035.191


PIB do Agronegócio 518.332.309 552.205.294 566.311.522
PIB do Agronegócio Familiar 166.099.516 181.744.936 181.890.380
PIB do Agronegócio Patronal 352.232.793 370.460.359 384.421.142
% PIB do Agronegócio no PIB Nacional 28,86 30,58 29,90
% PIB Agronegócio Familiar no PIB do Agronegócio 32,00 32,91 32,12
% PIB Agronegócio Patronal no PIB do Agronegócio 68,00 67,09 67,88
% PIB do Agronegócio Familiar no PIB Total Nacional 9,25 10,07 9,60
% PIB do Agronegócio Patronal no PIB Total Nacional 19,61 20,52 20,30

Fonte: Elaborada com os dados originais do IBGE. In: Guilhoto et al, 2007.

Tabela 2. Valores do PIB total da Região, PIBs do Agronegócio Familiar e Patronal e Brasil (milhões de reais de 2005), e Participação
Porcentual, 2004

PIB PIB do Agronegócio PIB do Agronegócio (2)/(1) (3)/(1) (2)/(2)+(3)1


Região
Regional (1) Familiar (2) Patronal (3) % % (%)

Norte 100160,95 16455,84 16883,20 16,4 16,9 49,36


Nordeste 266363,94 29325,00 48427,80 11,0 18,2 37,72
Centro-Oeste 142299,83 12889,98 51519,56 9,1 36,2 20,01
Sudeste 1040221,57 43658,58 178521,21 4,2 17,2 19,65
Sul 344988,88 79561,02 89069,38 23,1 25,8 47,18
Brasil 1894035,00 181890,00 384421,00 9,6 20,3 32,12
1
PIB do Agronegócio Familiar no PIB do Agronegócio Regional.
Fonte: Elaborada com os dados originais do IBGE. In: Guilhoto et al, 2007.

Tabela 3. Participação das Regiões nos PIBs do Agronegócio Familiar, Agronegócio Patronal, Total do Agronegócio, Outros Setores
e Total Nacional, 2004

PIB do Agronegócio (%) PIB de Outros PIB Total


Regiões
Familiar Patronal Total Setores (%) Nacional (%)

Norte 9,00 4,40 5,90 5,00 5,28


Nordeste 16,10 12,60 13,70 14,20 14,06
Centro-Oeste 7,10 13,40 11,40 5,90 7,51
Sudeste 24,00 46,40 39,20 61,60 54,92
Sul 43,70 23,20 29,80 13,30 18,21
Total 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00

Fonte: Elaborada com os dados originais do IBGE. In: Guilhoto et al, 2007.

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Esses cálculos evidenciam a participação do sua pegada ecológica. Com isso abrem espaços para o
diversificado segmento da agricultura familiar na Sul vender seus créditos de carbono, admitindo ser
geração de riquezas do País. É fundamental perceber possível atribuir valores ao conjunto de seres vivos e
que, mesmo preocupados com a sobrevivência do assim manter cristalizadas as condições de
grupo familiar, e, portanto, com a produção para seu desigualdades.
consumo, os agricultores, no seu conjunto e como Esse mesmo autor amplia o caminho para
estratégia reprodutiva, buscam por renda monetária, e reflexões sobre a sustentabilidade com igualdade, a
para tal, mantêm uma oferta de excedentes que é partir da desconstrução da racionalidade econômica e a
bastante significativa, principalmente quando construção de uma racionalidade ecotecnológica, com
associada aos produtos de mercado interno. O que não base em princípios de produtividade neguentrópica, ou
quer dizer que também não produzam outros itens da seja, em sistemas termodinâmicos abertos como são os
pauta de exportação do agronegócio brasileiro. processos naturais.
Por essa relação, mesmo possuindo pouca terra e Nessa direção está a racionalidade “...fundada en
capital e, em condições precárias e adversas, os el potencial productivo de los ecosistemas. Y eso abre
agricultores de base familiar têm demonstrado nuevas formas diversificadas de producción con la
capacidade de colaborar com o fortalecimento dos naturaleza y un deslinde del mercado como ley rectora
mercados regionais e nacional, produzindo e fazendo del proceso de globalización.” (Leff, 2002: 198).
circular a riqueza, e desempenhando importante papel A discussão sobre desenvolvimento sustentável
social na ocupação do maior contingente de pessoas nos reporta a questionar o modelo produtivo ocidental,
trabalhando na agricultura. de caráter global, em especial na agricultura, considerada
Além disso, o PIB da agricultura familiar tem entre os maiores poluidores do planeta. Porém, as saídas
aumentado, em relação ao crescimento dos PIBs de encontradas vão na direção de um “neoliberalismo
outros setores. Em 2003, o PIB das cadeias produtivas ecológico”, para usar a expressão de Leff, num processo
da agricultura familiar cresceu 13,4 bilhões de reais ecologizador da economia, como se fosse possível
(cerca de 9%), valor este superior ao crescimento do PIB resolver os problemas das desigualdades e da erosão
nacional, de 0,5% e do PIB das cadeias produtivas da cultural a que estão submetidos os povos tradicionais.
agricultura patronal com 5,13% (MDA/NEAD/FIPE, Pensando na contraposição local versus global, a
2004). agroecologia está se firmando como uma nova
possibilidade de transformação, não apenas da base
produtiva, mas também da inclusão humana na
modificação de agroecossistemas, em uma visão
A AGROECOLOGIA: UMA FORÇA evolutiva sociedade-natureza. Caporal e Costabeber,
2002, apresentam uma explanação bem formulada da
TRANSFORMADORA?
agroecologia, como o campo do conhecimento que
proporciona as bases científicas para promover a
Bases conceituais da Agroecologia transição do padrão de agricultura convencional para
Vários autores têm deixado a sua contribuição na estilos de agriculturas ecológicas, na direção de também
literatura recente sobre economia globalizada, transformar o modelo convencional de desenvolvimento
para modelos sustentáveis de desenvolvimento rural.
desigualdades e desenvolvimento sustentável. Na
A agroecologia, então, é vista como uma nova
essência desses questionamentos está a mercantilização
abordagem científica, multidimensional, na medida em
da natureza e sua apropriação pelo movimento que procura o aporte das mais diferentes disciplinas
neoliberal do capital. para construir seu escopo teórico, tendo sempre como
Desenvolvimento sustentável, nas suas mais unidade de estudo o agroecossistema11. O objetivo é
variadas concepções, não consegue esconder a “trabalhar com e alimentar sistemas agrícolas
“economização” do ambiente natural ao “coisificar” as complexos em que as interações ecológicas e
pessoas e a natureza quando, por exemplo, opta por sinergismos entre os componentes biológicos criem,
mecanismos de desenvolvimento limpo MDL ao eles próprios, a fertilidade do solo, a produtividade e a
implantar acordos internacionais sobre a questão proteção das plantas” (Altieri, 1998:18)
ambiental (Leff, 2002). A biodiversidade aparece como
uma mercadoria, com preços regulados pelos mercados
11
ambientais, em especial pelo mercado de carbono, Agroecossistema é o conjunto compreendido pelo ecossistema natural e ambientes
modificados pelo ser humano, no qual ocorrem complexas relações entre seres vivos e
devido à incapacidade dos países do Norte em regular a elementos naturais (rochas, solos, água, ar, reservas minerais, etc.).

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Enquanto uma ciência em construção, a base sobre as técnicas agrícolas adequadas aos controles de
epistemológica da agroecologia vem da contribuição riscos no uso da base de recursos ambientais, e das
das várias disciplinas do conhecimento, com uma visão necessidades dos grupos nativos de agricultores.
integradora e sistêmica do estudo da realidade. É nesse Produção estável, sustentável, só é possível ocorrer
somatório que ela procura sua estrutura de contando com uma organização social que resguarde a
conhecimento, com enfoque teórico e metodológico integridade dos recursos naturais, base da produção, e
próprios, dentro, ainda do aporte das experiências de ao mesmo tempo propicie a harmonia entre seus
distintos atores sociais que interagem ativamente com membros.
os recursos naturais. A meta é que os agricultores possam vir a ser os
A matriz do conhecimento agroecológico agentes e os construtores de seu próprio
interliga dois princípios fundamentais, quais sejam, a desenvolvimento. E a agroecologia vem ao encontro
preservação e ampliação da biodiversidade dos dessa finalidade ao fornecer as ferramentas
agroecossistemas (saúde ecológica), e preservação da metodológicas para que a real participação da
diversidade cultural das populações (saúde cultural). comunidade se transforme na seiva geradora para o
O primeiro princípio é a base para se produzir atendimento dos anseios colocados nos projetos de
autorregulação e sustentabilidade dos sistemas desenvolvimento.
agrícolas com a natureza, uma vez que quando a A abordagem agroecológica incentiva os
biodiversidade se restabelece, várias e complexas pesquisadores a penetrar nas práticas dos agricultores,
interações entre o solo, plantas, animais, e os ciclos geo- resgatando seu conhecimento, para desenvolver
químicos naturais, voltam a aparecer traduzidos em agroecossistemas com uma dependência mínima de
efeitos benéficos ao ambiente. insumos químicos e energéticos externos. Almeja um
Está, portanto, relacionado com os ensinamentos agroecossistema perfeitamente equilibrado entre seus
fundamentais da preservação e crescimento da componentes, plantas, solo, nutrientes, luz solar,
diversidade biológica, voltado à promoção do umidade e organismos coexistentes, com o intento de
autofuncionamento e estabilidade ecológica dos superar, naturalmente, as perturbações sofridas com os
sistemas agrícolas. Alguns desses efeitos são percebidos sistemas artificializados de produção agrícola. A
quando se assegura uma produção sem o emprego de finalidade sempre é restaurar a resiliência e a força dos
agroquímicos, que possam degradar o meio ambiente e, agroecossistemas, combatendo as causas dos estresses e
também ao se aumentar o uso múltiplo da região ou restabelecendo o equilíbrio. No limite, quando da total
território. regeneração e estabilização do agroecossistema não
O segundo princípio procura assegurar a seriam mais necessários os insumos externos. Nessa
diversidade de experiências e conhecimentos de grupos linha fica fácil perceber que a intenção é a otimização do
culturais, presentes nas agriculturas locais, tendo o sistema como um todo no longo prazo e não, a busca a
etnoconhecimento um papel central na geração de qualquer preço, de altos níveis de produtividade no
tecnologias. Os agricultores, então, trabalham o curto prazo.
agroecosssistema conforme seu saber acumulado Existem várias conceituações para agroecologia.
durante anos de convívio entre os elementos do Entre elas, destacamos a agroecologia como aquela que
ambiente e suas práticas agrícolas. agrega princípios ecológicos, agronômicos, sociais e
A competência dos grupos étnicos da localidade econômicos para e avaliar o efeito das tecnologias sobre
está na convivência com os ecossistemas que lhes os sistemas agrícolas e a sociedade como um todo. Ou
arbitra um saber sobre o ambiente, a vegetação, o solo, ainda pode ser vista como “o manejo ecológico dos
animais, clima, entre outros, fruto da sua permanência, recursos naturais por meio de ações sociais coletivas
às vezes por gerações, naquele lugar. Esse que mostram alternativas à atual crise civilizatória”
conhecimento vai além dos aspectos produtivos (Gúzman, s.d:1) (grifos nossos).
incorporando decisões de caráter multidimensional Em resumo, esses autores nos deixam claros os
para a utilização da terra e a reprodução social. objetivos que a agroecologia procura atingir na sua
Ainda Altieri, 1998, divulga que o conhecimento totalidade: a) trabalhar sinergicamente os
camponês sobre os ecossistemas resulta em formas agroecossistemas para que as interações eco-agro-
produtivas multidimensionais de uso da terra, com as sócio-econômicas criem, elas próprias, a fertilidade do
quais conseguem obter, dentro de limites técnico- solo, a produtividade, a proteção das plantas, e as
ecológicos, a autossuficiência alimentar das viabilidades culturais, sociais e econômicas dos
comunidades. Portanto, os sistemas tradicionais de agricultores; b) fazer agricultura que assegure
conhecimento trazem aos agroecologistas informações produtividades sustentadas por meio de práticas de

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manejo ecologicamente seguras; c) incorporar as recursos que vão gerar estratégias na promoção do
práticas dos agricultores e ter dependência mínima de desenvolvimento local em bases permanentes.
insumos externos, preservando a base de recursos Tanto as especificidades sociais quanto as formas
naturais; d) buscar o equilíbrio dos componentes, de apropriação dos recursos ambientais têm a
restaurando a resiliência do agroecossistema, e) finalidade de orientar as pesquisas por tecnologias mais
fortalecer a organização social das comunidades condizentes com as possibilidades dos
tradicionais; f) buscar formas de produção e consumo agroecossistemas singulares, únicos, particularizados.
alternativas à atual crise socioambiental. É, portanto, um desenvolvimento de técnicas para as
condições de produção localizadas, num processo
Premissas da agroecologia endógeno de mudanças a partir do local.
As estratégias fluem por meio da articulação do
Na concepção agroecológica, em que a terra é saber local com o conhecimento científico, o que
local de trabalho e de vida, encontramos, no centro das autoriza com muito mais propriedade, o surgimento de
suas bases metodológicas, três pressupostos que sistemas agropecuários de bases ecológicas,
orientam as ações voltadas ao desenvolvimento rural potencializadores da biodiversidade e da diversidade
sustentável. São eles a abordagem coevolucionista nos sociocultural.
agroecossistemas; o potencial local na geração de CT&I Os agroecologistas levam em consideração, nas
endógenas; e a ação social coletiva. suas atuações junto às comunidades, o forte sentimento
A abordagem coevolutiva das sociedades de localidade dos agricultores, de pertencer a um sítio,
humanas com a natureza é um conceito chave da paragem ou região. Nesse sentido, é forte o
agroecologia, uma vez que considera os chamamento de alguns movimentos sociais quando
agroecossistemas como produto social dessa adotam como slogan de suas campanhas “terra para
comunhão. Os sistemas agrários afloram da evolução trabalhar e morar”, “local de trabalho e vida”, ou ainda
mútua e inter-relacionada entre os seres humanos e os “solo para produzir, terra para viver e deixar para os
elementos naturais, de tal sorte que a produção na filhos”.
agricultura é o resultado de pressões econômicas que a O outro pilar em que se apoia a agroecologia,
sociedade aplica sobre os ecossistemas naturais ao também vem na direção de alterar o enfoque
longo da sua história evolutiva em constante integração unidimensional do desenvolvimento como crescimento
da cultura com o ambiente natural.
voltado exclusivamente ao mercado, e procurar uma
Dentro dessa visão, os agroecologistas não
transição que desenvolva laços de solidariedade entre
aceitam verdades universais para aplicar o saber das
ciências agrícolas e humanas, uma vez que cada os povos. Nesse escopo, esforça-se para ir além do
agroecossistema se desenvolve com uma história econômico, e compor um marco teórico mais
coevolutiva diferente. A natureza das partes só é apropriado às transformações da realidade social para
esclarecida no contexto da evolução conjunta na sua uma visão mais ampla da agricultura enquanto cenário
totalidade, o que não quer dizer que se rejeite a ciência de atividades socioculturais e intercâmbios ambientais.
convencional, visto que é da sua fusão com o As estratégias de ação coletiva são justapostas,
conhecimento tradicional que a agroecologia busca em paralelo, aos processos de ecologização das técnicas
estabelecer suas bases. É por isso que os estudos devem agrícolas, pois a legitimização das práticas
ser realizados com os agricultores e não para todo e agroecológicas somente se concretiza como forma de
qualquer agricultor do planeta, como ocorre na libertar o agricultor da dependência secular e o
homogeneização do pacote tecnológico da revolução
conduzir à participação efetiva nas decisões sobre os
verde.
rumos do seu desenvolvimento.
Logo, é no sentimento de localidade que aflora
mais um conceito-chave da agroecologia, o potencial A ação coletiva vem do interesse e adesão dos
local ou endógeno. Cada comunidade se faz representar atores sociais envolvidos na localidade de participar de
pelo seu espaço singular e diferenciado, seja do ponto projetos conjuntos com base nas suas necessidades,
de vista dos recursos naturais, seja quanto às ações expectativas e valores compartilhados. Entre estes
sociais e culturais das populações. Esse potencial é dado existe uma gama de atitudes, que pode incluir desde as
pelas forças naturais e sociais do lugar que, se estratégias para aumentar as rendas monetárias via
devidamente acionadas, podem alavancar iniciativas organização e comercialização da produção, até a
mais condizentes com um desenvolvimento procura pela inclusão social, melhor qualidade de vida,
sustentável. É, portanto, caracterizado pelo conjunto de educação e lazer.

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Fica claro que, para os agricultores que aderem à participativo de métodos de transformación local) va
agroecologia, é fundamental que articulem seus introduciendo elementos de transformación en dicha
interesses particulares aos objetivos estratégicos da estructura de poder” (Funtowic; Jerry apud Guzmán,
ação coletiva, pois na transição ocorrem passagens s.d).
difíceis de serem transpostas, isoladamente, pela forte Isto posto, podemos ver que a agroecologia não pode
presença da ideologia dominante, das pressões ser confundida com as diferentes agriculturas de bases
econômicas, e do próprio desconhecimento dos ecológicas, a exemplo da agricultura orgânica, que têm,
agricultores do seu potencial de cooperação e em geral, o mercado como o alvo principal da produção.
solidariedade. O enfoque unidimensional é nitidamente insuficiente
A participação das comunidades para se para dar conta da complexa realidade da agricultura
firmarem como força geradora das transformações enquanto espaço de produção e reprodução
sociais e desenvolvimentistas não prescinde da sociocultural e ambiental. Outrossim, na concepção
presença de outros atores desse processo de mudanças agroecológica multidimensional podem ser procuradas
tecnológicas e organizacionais, como o Estado e a as saídas para acelerar a transição dos agricultores
sociedade civil, em diálogo constante, na forma de familiares para a produção de bases ecológicas, por
pesquisa coletiva, extensão agroecológica e políticas meio da pesquisa ação participativa e da extensão
públicas, em vários níveis de atuação. Os atores agroecológica (Carmo, Pinto, Comitre, 2008).
envolvidos na dinâmica de caráter participativo têm
maiores chances na geração e construção social de
conhecimentos e tecnologias. D i n â m i c a t e r r i t o r i a l ,
A ação coletiva é, pois, a proposta que
desenvolvimento rural,
potencializa a atuação dos protagonistas locais no
desenho de novas bases para a exploração dos agroecologia e agricultores
agroecossistemas, em conjunto com os agentes familiares como atores da
mediadores do processo. É por isso que alguns autores transformação
se referem à ação coletiva como o “motor” da transição
para a agroecologia (Costabeber & Moyano, s.d.). A abordagem territorial tem apontado novas
Na construção da Agroecologia, e dentro da vertentes na evolução do pensamento econômico e do
concepção da abordagem participativa, cabe especial celebrado virtuosismo da idade de ouro do capitalismo.
referência aos métodos de investigação ação Estas se voltam aos princípios que regem a
participativa como aproximação à realidade estudada. solidariedade e a minimização das contradições sociais
Não se trata apenas da ida do pesquisador ao campo e diferenças regionais, porém, com respeito às
para conhecer a realidade local, mas sim de introjetar potencialidades naturais existentes, o que condiz com a
nas suas trajetórias investigativas um alto grau de essência da agroecologia.
implicação e compromisso com os atores e com a O conceito de desenvolvimento com base
realidade investigada (Casado; Molina; Guzmán, 2000). territorial faz referência ao espaço em construção pela
A proposta da investigação-ação-participativa ação dos múltiplos atores sociais empenhados em
retira o habitante da zona rural da posição de mero atuações comunitárias de caráter político, sociocultural
expectador para levá-lo à protagonista do processo. Os e econômico, interagindo com a base de recursos
agricultores, em especial os de base familiar, e os naturais como elemento de sua reprodução biológica e
trabalhadores rurais, que ainda compõem a grande social. Nesse sentido, o território é visto como um
maioria da população rural brasileira, devem ser as espaço criado coletivamente, e mais, significa a
referências básicas para o desenvolvimento de capacidade de cooperar para o mútuo proveito, com
pesquisas direcionadas aos agroecossistemas forte relação entre desempenho institucional e
diferenciados. comunidade cívica (Putnam, 1996).
“Desde una dimensión productiva es posible A abordagem territorial, enquanto um recorte
establecer mecanismos participativos de análisis de la para o desenvolvimento, coloca em evidência as ações
realidad que permitan entender el funcionamiento de sociais coletivas, que tanto podem ser solidárias quanto
los procesos económicos por los que se extrae el conflituosas. Da confrontação de diferentes interesses
excedente generando de esta forma, la referida podem surgir estratégias de desenvolvimento que, não
acumulación del poder. Este tipo de análisis permite seguem regras universais aplicáveis em qualquer
establecer propuestas alternativas que (desde el situação, mas que se inserem em contextos
desarrollo de tecnologías en finca hasta el diseño agronaturais, de histórias evolutivas distintas, em que

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desempenham papel importante as decisões da A territorialização do desenvolvimento é,


sociedade ponderadas pelos seus valores, mitos, portanto, uma outra forma das bases locais
organização, cultura e formas tecnológicas de explorar selecionarem, dentre as potencialidades existentes,
o ambiente. aquelas que melhor se adaptem às suas necessidades.
O território é assim, o resultado de práticas Para os agricultores familiares trata-se da possibilidade
sociais, sendo o desenvolvimento avaliado como de formulação de políticas públicas, além da concepção
ganhos em qualidade ancorados nas forças sociais daí setorial, e, portanto, mais voltada para um
emanadas, as quais influenciam e são influenciadas desenvolvimento com a revalorização da sua cultura e
para além do crescimento da agricultura. As tensões do rural.
geradas pelas contradições existentes, que podem levar
a ações de resistência, acomodação ou conflito, têm o
território como palco da interação de grupos sociais que
se defrontam na defesa de seus interesses, pressupondo CONSIDERAÇÕES FINAIS
que as identidades construídas, a socialização, e a
atuação política irão forjar ações coletivas que trarão Os resultados do estudo sobre a contribuição
como resultado, entre outros, a produção agrícola e o do PIB familiar na geração de riqueza ajudam a
desenvolvimento. compreender a relevância estratégica da agricultura
Há diferentes formas para o surgimento da familiar, enfatizando que, além de seu desempenho
territorialização, e segundo Almeida (2005:33), “O social na diminuição do êxodo rural e das
processo de territorialização é resultante de uma desigualdades no campo brasileiro, esse segmento
conjunção de fatores, que envolvem a capacidade precisa ser aceito como um elo importante da
mobilizatória, em torno de uma política de identidade, e geração de riqueza, não somente para o setor
um certo jogo de forças em que os agentes sociais, por agropecuário, como para a economia geral do País,
meio de suas expressões organizadas, travam lutas e dado que colabora com parcela significativa do PIB
reivindicam direitos face ao Estado”12. Os processos de nacional.
formação de territórios se diferenciam pelas Como nos mostram os números, a produção
características regionais, pelos distintos potenciais proveniente da agricultura familiar é significativa,
produtivos naturais e por uma gama de fatores que não somente para seu sustento, mas igualmente
agem na capacidade de mobilização dos atores e grupos porque contribui expressivamente para a
da sociedade. alimentação da população das cidades. Mesmo com a
A idéia de territórios rurais explicita a integração insuficiência de terra, tecnologia, capital e
microrregional e regional, no sentido de fazer crescer as financiamento que caracteriza esses agricultores, não
relações institucionais para além dos limites políticos, a há dúvidas quanto à significância econômica da
exemplo dos municípios, alimentando as bases agricultura familiar, seja no abastecimento alimentar
comunitárias e de agroecossistemas para as melhores interno, seja na presença marcante para a produção
respostas ao desenvolvimento. agropecuária como um todo.
O que é importante reter é a força inerente ao A importância estratégica da agricultura familiar
conceito de territorialidade como uma nova unidade também fica comprovada pelo seu papel na absorção de
analítica que permite entender a diversidade de mão-de-obra, e, portanto, como espaço para manter a
alternativas de desenvolvimento rural, tendo na base população rural ocupada no campo.
do território a arena em que grupos de interesses se Um possível papel regulador do mercado de
enfrentam na resolução dos problemas específicos trabalho nacional pode ser atribuído à agricultura
frente à pressão imposta pela sociedade global. E nesse familiar pela sua potencialidade em gerar empregos,
sentido fica claro a estreita ligação do desenvolvimento
desde que políticas consequentes venham a ser
com base territorial, o capital social, os agricultores
implantadas. Porém, além do Estado, jogam papéis
familiares e demais atores territoriais, configurando,
inclusive, a necessidade de organização de redes sociais importantes outros mediadores que possam auxiliar os
mediadas pela confiança. agricultores na difícil tarefa de promover sua
organização na defesa de seus interesses. Organizações
não governamentais, agentes financeiros,
6
Schneider, 2003, apresenta uma ampla discussão sobre a alteração do enfoque regional para
pesquisadores e extensionistas são intermediários
o territorial em estudos sobre o desenvolvimento rural, relacionando os vários autores e suas importantes na transição agroecológica em busca do
interpretações sobre o capitalismo contemporâneo e as relações com os processos locais a
partir de suas especificidades. desenvolvimento sustentável.

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