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JUDAS INCOLOR: Falomaquia e insegurança sexual

Percy Drokellier

"Inimigo invisível, Judas incolor Perseguido eu já nasci, demorou

"

A menção da figura de um Judas incolor na letra da música Jesus Chorou dos

Racionais MC's evoca um tipo muito particular que é vivenciado pelo homem negro nas

suas relações raciais com outras masculinidades, a figura do homem branco

aparentemente cordial mas que na ameaça dos seus privilégios difama, zomba com

estereótipos, calunia e subestima com discursos racistas a outra masculinidade. Este

perfil presente nas relações raciais cotidianas já tem sido investigado por autores que

discutem a questão racial.

Um dos exemplos que achei na literatura do movimento negro foi na Autobiografia

do Malcolm X, nesse livro o irmão Malcolm relata sua primeira lição sobre a reação dos

brancos frente as relações íntimas do homem

negro com a mulher branca, e como isto é

capaz de escapar as tentativas de disfarce do

preconceito racial. Conta Malcolm que estava

mantendo relações amorosas com uma branca

chamada Sophia, esta era a imagem perfeita

da estética representada da mulher branca

norte-americana. Sophia adorava frequentar as

festas do Harlem com Malcolm, e este adorava o prestígio que adquiria desfilando num

bairro negro com uma mulher branca, bela, rica e que não era prostituta. Nessas festas no

Harlem, frequentava um jovem branco hippie, altamente amigável, caloroso que se vestia

como negro e que talvez ficaria irado com qualquer menção a sua suposta diferenciação

de raça, em certa ocasião em que Malcolm junto de Sophia encontrou ele, ele estava

apreciando um cigarro de marijuana, quando Malcolm se afastou para falar com outra

pessoa e voltou para ter com ela, percebeu uma expressão esquisita em seu rosto, que

ela não quis explicar até saírem dali, o branco hippie havia lhe perguntado:

- Por que uma garota branca como você está se metendo com um crioulo?

branca como voc ê est á se metendo com um crioulo? Na obra do Malcolm h

Na obra do Malcolm há outros exemplos desse tipo de medo sexual do homem

branco e, com certeza, muitos leitores negros se identificarão com tais vivências relatadas.

Expressões ditas para as mulheres brancas, tais como mas tu não te contenta com coisa pequenaou mas tu gosta de um negão!ou outras que remetam a representações sociais infames do nosso povo podem esconder(ou não tanto, já que essas frases em si pendem para estereótipos exotificantes e objetificantes) o racismo cordial de um branco colérico. Numa sociedade em que a manifestação do desejo sexual feminino frequentemente é famigerada e o racismo sutil toma a forma de nossa masculinidade(negra) como bruta, trangressora, hipersexualizada e semi-humana o discurso competitivo do homem branco pode considerar estas questões inflingindo assim uma coação para a mulher com a finalidade de exclusão da ameaça a seus privilégios. Para Malungo, concebida como a masculinidade socialmente valorizada, a masculinidade hegemônica estrutura relações de poder, e nas sociedades ocidentais(principalmente as que tiveram experiência colonial) consiste no modelo do homem branco, heterossexual e burguês. Sendo assim em parte do outro fora do espaço da masculinidade hegemônica há a masculinidade negra, que se distancia do modelo de masculinidade hegemônica,

junto com outros tipos de masculinidade; então a posição diferente desses dois homens na sociedade envolve a ocorrência de disputas pelo pretígio de suas masculinidades, esta disputa entre homens negros e brancos é o que ele chama de falomaquia. Exemplificando

o caso, Malungo cita uma edição da Black People publicada em setembro de 1990, em

que continha uma matéria sobre esteriótipos racistas, nessa matéria continha entrevistas

em que as mulheres brancas admitiam que costumavam omitir ou negar o fato de haverem mantido relações íntimas com homens negros, pela preocupação dos homens

brancos em comparar o seu corpo com o dos outros homens. Apesar de nesse texto privilegiarmos a falomaquia nas relações do cotidiano, sabemos que ela acontece a nível institucional, onde a opressão do homem branco sobre

o homem negro é também evidente, se destacando o genocídio. A relação da sexualidade,

raça e masculinidade vai de encontro ao pensamento de Wilhelm Reich sobre a base emocional do ódio racial, segundo Reich numa sociedade em que a sexualidade natural é dificultada e substituída por impulsos secundários, a insegurança da sexualidade

que a sexualidade natural é dificultada e substitu í da por impulsos secund á rios, a

manifesta-se contra tudo que parece animal, incluindo aí as raças ditas inferiores, dando às palavras negro, judeue francês(o que no Brasil talvez seria equivalente a negro, índio e nordestino) o significado emocional de sexualmente sensuais, isto lembra Fanon que afirmava que na visão do branco, independente da realidade das descrições anatômicas da sua genitália, o negro é visto como um animal, se não for pelo comprimento do pênis, é pela sua potência sexual, isto permite que o homem branco mova ações para a defesa contra esse Outro que o ameaça tanto, esse instinto sexual não educado, acima da moral e das interdições; sobre o negro em específico Reich menciona em O Assassinato de Cristo que nos Estados do Sul dos Estados Unidos, não se punem os negros por roubo, mas por «violação da mulher branca». Os frios homens brancos não podem suportar a ideia de que as suas mulheres sintam os corpos quentes de negros vigorosos. Essa é a origem primária do ódio racial dos homens brancos.Nesta citação Reich adota a representação do homem negro altamente viril, onde o corpo do homem negro evoca a lembrança da situação faltante do homem branco de caráter não-genital. É nessa arena racial que as inseguranças do homem independente de cor se tocam, o homem negro que nasceu na terra dos brancos, idolatrando os ídolos brancos, apreciando os padrões estéticos brancos, se banhando da cultura e da linguagem moldada pelos brancos, este homem que se sente estrangeiro muitas vezes adota para si o primeiro espaço de representação que mais lhe convém dentro de uma sociedade racista, tudo para aliviar a sensação de auto-ódio, então as noções de ser animalescamente viril, insensível, forte e agressivo passam a ser qualidades apreciadas e acolhidas, posteriormente vendidas no mercado de seleção sexual; já o homem branco, apesar de ser homem numa sociedade sexualmente manca, ainda possui a sensação de ocupar um espaço que lhe diz respeito, e por isso goza de valorização social e de privilégios, que se ameaçados significam a perca de uma autoimagem construída em conjunto com seus outros irmãos brancos e toda uma cultura racista.

O que quer que eu faça é por nós, por amor.Portanto, o negro possui uma grande responsabilidade social frente ao seu coletivo, ser negro é nascer com uma camisa a ser representada, suas ações são

monitoradas e nem sempre valorizadas, na sociedade racista

virtuoso o branco observa e talvez parabenize o indivíduo ou o branqueie, se o negro erra

racista virtuoso o branco observa e talvez parabenize o indiv í duo ou o branqueie, se

se o negro faz um ato

o branco observa e lança infâmias contra todo nosso povo “é negrice!” “tinha que ser preto!” “fez serviço de preto!se erro é contado ponto contra o meu povo, nessa totalidade das relações, que envolve até as relações afetivas, o corpo do negro(como já observado por Fanon) é monitorado e dotado de uma responsabilidade frente aos outros corpos que comungam as características da negritude, tornando inconveniente e anti-solidário a dissociação entre o Eu negroe o coletivo do qual estou inserido.

Referências:

Rolf Malungo Ribeiro. Falomaquia: homens negros e brancos pelo prestígio da masculinidade em uma sociedade do Ocidente.

Wilhelm Reich. O assassinato de Cristo. A Função do Orgasmo.

Frantz Fanon. Peles Negras, Máscaras Brancas

Alex Haley. Autobiografia de Malcolm X.