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2/19/2015

Revista Cult » Por que releio sempre a Aula de Barthes

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TAGS: Literatura

Barthestrabalhacomoprazerdedaràspalavrasseusentidomaispuro,comolhosde

dramaturgoedemiurgo

Por estranho que pareça, meu contato com a Aula de Roland Barthes não se deu no Collège de France, em 1977, quando foi proferida como aula inaugural da cátedra de Semiologia Literária, mas em plena Universidade de São Paulo (USP), onde sua voz pausada, grave, quase sem modulação, nos foi apresentada, em fita cassete, graças a uma oportuna gravação feita por um jovem brasileiro e ofertada a Leyla Perrone-Moisés.

Naquele momento, não me dei conta do quanto aquelas palavras, escorrendo lentamente do gravador, iriam iluminar certos caminhos, que minha geração precisava percorrer para ter uma visão mais ampla, ainda que tensa, do fenômeno literário. Muitos estavam presos à generosa lealdade a uma atividade política, subterrânea ou não, de confrontação com os poderes estabelecidos da revolução de 1964. Para tanto, as correntes conteudísticas, de forte marca social, pareciam dar conta dos impasses entre “mensagem” e “código”, fazendo prevalecer a primeira e apaziguando qualquer má consciência de contemplação estética.

Outros buscavam regressar ao útero

materno do texto, alimentando-se apenas de signos e sintagmas. No horizonte, a

desumanização os espreitava, solerte e redutora. Fazia-se necessária uma integração complexa

e fecunda, que mantivesse a tensão entre os elementos, impregnando-os com as articulações de

que sentíamos falta. No meu caso é aí que entra a Aula, à qual sempre volto, como professor de literatura.

Barthes trabalha com o nosso prazer e nossa ética. Qual prazer? O de mergulhar na língua (não há estudante, professor ou escritor que possa dispensar a relação gozosa com as palavras), no sentido do deslocamento de sentidos, de uma desmecanicização, para que emerja a lição de Mallarmé, concedendo um sentido mais puro às palavras da tribo.

O novo, o insuspeitado, semântica, léxica e sintaticamente configuram o trabalho a ser executado. Como se vê, é preciso olhar a língua (que, para o escopo e a argumentação barthesiana não surge desvinculada do discurso) com olhos de dramaturgo-demiurgo:

dramaturgo, porque o texto se faz no jogo incomensurável de palavras, do qual a língua é o teatro. Demiurgo, porque é preciso saber dar-lhe uma nova existência, na qual até o clichê, ou o estereótipo, se vejam descentrados e, portanto, prenhes de outra vida. De Rabelais a Proust a atitude é uma só: levá-la à sua máxima flexibilidade, para que um mundo novo se abra.

Daí a ética de que falei, só que, agora, interna ao fenômeno e, ao mesmo tempo, aberta ao mundo: revelá-lo no que ele tem de insuspeitado, sem submeter o leitor, buscando liberá-lo das amarras do convencional. A ética, aqui, se aparenta à lição de Flaubert: a moral, em arte, consiste na própria beleza, a responsabilidade daquele que pratica a literatura está na força que confere à forma.

Não se pense, entretanto, que a leitura da Aula nos mergulhe num mundo de fluidez. Ao contrário, para Barthes, é preciso ser rigoroso, porque o texto se perfaz com os saberes que apresenta, sem se dobrar a eles, fazendo-os girar, dispondo-os a seu talante. É só lembrar a morte de Madame Bovary por arsênico: sem corresponder exata e fielmente aos relatos

médicos, apresenta um inesquecível sabor de agonia lenta, arrastada, que só faz crescer em nós

a angústia diante da monotonia interesseira da existência do vilarejo, cuja principal figura é Homais.

Além disso, o texto comporta sua força de representação, que nosso autor anuncia “brutalmente” como sendo a do “real”, o qual não é representável, mas demonstrável,

o qual não é representável, mas demonstrável, EDIÇÃO 198 EDIÇÕES ANTERIORES

EDIÇÃO 198

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Revista Cult » Por que releio sempre a Aula de Barthes

pluridimensional, ao passo que a linguagem é unidimensional. No entanto, os homens sempre quiseram mimetizá-lo. Aqui, uma das idéias que mais me impressionaram, no texto barthesiano, é a da história das produções de linguagem, que poderia ser a dos “expedientes” verbais, muitas vezes loucos, de que os homens se valeram para dar conta da situação de inadequação que está na base da literatura: o desejo do impossível, da representação. Intensíssimo, tal desejo possibilitou – para lembrarmos algo da literatura brasileira mais criativa – a forma em epitáfio da morte de Nhã-Loló, em Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, à maneira de Laurence Sterne (1713-1768).

Podemos sentir que a concepção de “mimesis”, algo formador da consciência crítica do Ocidente, se encontra questionada, pois, o que se busca, não é evidenciá-la, mas vê-la, para sempre, relacionada ao envolvimento obrigatório com a matéria linguageira, origem e limite da literatura. Daí a “semiosis” que não nos permite ficar apenas nos meandros do real, mas ampliá-lo para os domínios próprios da arte, em que os saberes “giram”, o real se amolda aos interesses poéticos e, soberanos, mas não solitários, os signos se deixam saborear pelo artista, que nos faz, também, degustadores do logro da representação. Ao fim e ao cabo, resta-nos, sempre, o grande momento do encontro com o universo de signos, quer seja Os Lusíadas, em Camões ou Em busca do tempo perdido, em Proust.

Após a leitura do texto barthesiano, creio que o professor (malgrado as injunções do sistema) tentará não ser um catalogador de estilos ou um Aristarco a vergastar possíveis desvios da norma. Qual norma, se os expedientes “louquíssimos” fazem a essência da prática que convencionamos chamar de arte da palavra? Racine ou Beckett? Rabelais ou Balzac? O dilema fica vazio de sentido, se levarmos em consideração o quanto cada um impregnou sua obra de uma incessante luta com o jogo dos signos, mesmo quando, como é o caso do autor do Pai Goriot, tenhamos a impressão de um mundo monológico.

A cronologia literária perde, portanto, um pouco da sua razão de ser, sobretudo se for vista

como algo que encerre cada autor em seu tempo histórico. Afinal de contas, como dizia Álvaro

de Campos em relação a seu irmão em poesia, Walt Whitman : “/…/ cá estamos de mãos dadas, / De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.”

É interessante notar como as questões suscitadas por Barthes, a partir da contundente

afirmação segundo a qual a língua é “fascista”, pois obriga a dizer de certo modo, o levam a proposições que caminham por vias dialógicas, não como imposição, mas sedutoras

sugestões, donde a constatação de que o que pode ser opressivo, no ensino, não é o saber veiculado, mas as formas discursivas por meio das quais ele é proposto.

A todo momento é preciso estar atento para a incrível capacidade que o poder tem de se

expressar nas armadilhas da língua. Num país como o Brasil, tão acostumado aos discursos

marcadamente autoritários, o verdadeiro intelectual democrata é aquele que ensina sem constranger, convidando ao saber, instigando o aluno ao convívio com a cultura e desconfiando, sempre, dos enunciados radicalmente assertivos. Mais uma lição, dentro da Aula.

E, nesse momento, desfeita a ilusão da autoridade professoral, resta, ainda, um meio de se fazer ouvir: o convite ao prazer, que não significa a pasteurização de conteúdos ou a submissão aos ditames da moda universitária. É preciso sempre lançar uma das questões primordiais: por que essas máquinas de linguagem tão fortes e com funcionamento tão constante e frutífero – algumas há séculos – ainda falam ao leitor? Por que nos emocionamos ao ouvir o lamento de Pia de Tolomei, na Divina Comédia de Dante ou nos cativa a retomada do mito do minotauro em A casa de Astérion de Borges? Porque tais máquinas de linguagem jamais deixam de funcionar eficazmente e a elas sempre voltamos.

No momento em que universidades se vêem às voltas com mudança de currículos, algumas vezes não em virtude de um convite ao prazer da investigação rigorosa da literatura, mas devido a uma nova má consciência, que negligencia o valor estético da obra de arte, volto a reler, agora com ainda mais proveito, a Aula de Roland Barthes.

GilbertoPinheiroPassos

é professor titular de literatura francesa na Universidade de São Paulo. Publicou, entre outros livros, As sugestões do Conselheiro (A França em Machado de Assis), Ática, 1996.

LIVROSDEROLANDBARTHESPUBLICADOSNOBRASIL BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. São Paulo: Martins Fontes, 2003

— .Como viver junto. São Paulo: Martins Fontes, 2003

— . O neutro. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

— . O grau zero da escrita. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

— . O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

— . O grão da voz. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

— . Inéditos vol. 1 – teoria. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

— . Inéditos vol. 2 – crítica. São Paulo: Martins Fontes, 2004

— . Inéditos vol. 3 – imagem e moda. São Paulo: Martins Fontes, 2005

— . Inéditos vol. 4 – política. São Paulo: Martins Fontes, 2005

— . Sade, Fourier, Loyola. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

— . Incidentes. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

— . A preparação do romance vol. I. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

— . A preparação do romance vol. II. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

— . Roland Barthes por Roland Barthes. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.

— . Mitologias. São Paulo: Difel, 2003.

— . Crítica e verdade. São Paulo: Perspectiva, 1999.

— . Aula. São Paulo: Cultrix, 1996.

Perspectiva, 1999. — . Aula. São Paulo: Cultrix, 1996. TWITTER Tweets Seguir Revista Cult 55m @revistacult
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— . A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

— . Michelet. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

— . O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 2002.

— . O óbvio e o obtuso. Ensaios críticos III, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

— . Sollers escritor. Fortaleza: UFCE, 1982.

— . A aventura semiológica. São Paulo: Martin Fontes, 2001.

SOBREROLANDBARTHES(NOBRASIL):

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Roland Barthes, o saber com sabor. São Paulo: Brasiliense, Coleção “Encanto radical” nº 23, 1983-1985. CULLER, Jonathan. As idéias de Barthes. São Paulo: Cultrix-EDUSP, 1988. CALVET, Louis-Jean. Roland Barthes, uma biografia. São Paulo: Siciliano, 1993.

CASA NOVA, Vera & GLENADEL, Paula (org). Viver com Barthes. Rio de Janeiro: 7 Letras,

2005.

PERRONE-MOISÉS, Leyla & CHAVES DE MELLO, Elisabeth (org.). De volta a Roland Barthes. Rio de Janeiro: EDUFF, 2005.

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